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1 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo Módulo de Metabolismo Tutoria 1 Objetivos: 1. Elucidar a morfofisiologia do sistema digestório. GUYTON- O trato alimentar abastece o corpo com suprimento contínuo de água, eletrólitos, vitaminas e nutrientes. Isso requer (1) movimentação do alimento pelo trato alimentar; (2) secreção de soluções digestivas e digestão dos alimentos; (3) absorção de água, diversos eletrólitos, vitaminas e produtos da digestão; (4) circulação de sangue pelos órgãos gastrointestinais para transporte das substâncias absorvidas; (5) controle de todas essas funções pelos sistemas nervoso e hormonal locais. Cada parte está adaptada às suas funções específicas: algumas para a simples passagem do alimento, como o esôfago; outras para o armazenamento temporário do alimento, como o estômago; e outras para digestão e absorção, como o intestino delgado. O músculo liso do trato gastrointestinal é excitado por atividade elétrica intrínseca, contínua e lenta, nas membranas das fibras musculares. Essa atividade consiste em dois tipos básicos de ondas elétricas: (1) ondas lentas; e (2) potenciais em espícula. Além disso, a voltagem do potencial de repouso da membrana do músculo liso gastrointestinal pode ser feita para variar em diferentes níveis, o que também pode ter efeitos importantes no controle da atividade motora do trato gastrointestinal. Ondas Lentas. A maioria das contrações gastrointestinais ocorre ritmicamente, e o ritmo é determinado, em grande parte, pela frequência das chamadas “ondas lentas” do potencial da membrana do músculo liso. Não se conhece, exatamente, a causa das ondas lentas, mas elas parecem ser ocasionadas por interações complexas entre as células do músculo liso e células especializadas, denominadas células intersticiais de Cajal, que supostamente atuam como marca-passos elétricos das células do músculo liso. Essas células intersticiais formam rede entre si e interpõem-se nas camadas do músculo liso com contatos do tipo sináptico com as células do músculo liso. Os potenciais de membrana das células intersticiais de Cajal 2 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo passam por mudanças cíclicas, devido a canais iônicos específicos que, periodicamente, abrem-se, permitindo correntes de influxo (marca-passo) e que, assim, podem gerar atividade de onda lenta. As ondas lentas geralmente não causam, por si sós, contração muscular, na maior parte do trato gastrointestinal, exceto talvez no estômago. Mas basicamente estimulam o disparo intermitente de potenciais em espícula e estes, de fato, provocam a contração muscular. Potenciais em Espícula. Os potenciais em espícula são verdadeiros potenciais de ação. Ocorrem, automaticamente, quando o potencial de repouso da membrana do músculo liso gastrointestinal fica mais positivo do que cerca de −40 milivolts (o potencial de repouso normal da membrana, nas fibras do músculo liso do intestino, é entre −50 e −60 milivolts). Quanto maior o potencial da onda lenta, maior a frequência dos potenciais em espícula. Os potenciais em espícula no músculo gastrointestinal têm duração 10 a 40 vezes maior que os potenciais de ação nas grandes fibras nervosas. Cada potencial de ação gastrointestinal dura até 10 a 20 milissegundos. Outra diferença importante entre os potenciais de ação do músculo liso gastrointestinal e os das fibras nervosas é o modo como são gerados. Nas fibras nervosas, os potenciais de ação são causados quase inteiramente pela rápida entrada de íons sódio pelos canais de sódio, para o interior das fibras. Nas fibras do músculo liso gastrointestinal, os canais responsáveis pelos potenciais de ação são diferentes; eles permitem que quantidade particularmente grande de íons cálcio entre junto com quantidades menores de íons sódio e, portanto, são denominados canais para cálcio-sódio. Esses canais se abrem e fecham com mais lentidão que os rápidos canais para sódio das grandes fibras nervosas. A lenta cinética de abertura e fechamento dos canais para cálcio-sódio é responsável pela longa duração dos potenciais de ação. A movimentação de quantidade de íons cálcio para o interior da fibra muscular durante o potencial de ação tem papel especial na contração das fibras musculares intestinais, como discutiremos em breve. O trato gastrointestinal tem um sistema nervoso próprio, denominado sistema nervoso entérico, localizado inteiramente na parede intestinal, começando no esôfago e se estendendo até o ânus. O número de neurônios nesse sistema entérico é de aproximadamente 100 milhões, quase a mesma quantidade existente em toda a medula espinal. Esse sistema nervoso entérico, bastante desenvolvido, é especialmente importante no controle 3 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo dos movimentos e da secreção gastrointestinal. O sistema nervoso entérico é composto basicamente por dois plexos, o plexo externo, disposto entre as camadas musculares longitudinal e circular, denominado plexo mioentérico ou plexo de Auerbach; e (2) plexo interno, denominado plexo submucoso ou plexo de Meissner, localizado na submucosa. O plexo mioentérico controla quase todos os movimentos gastrointestinais, e o plexo submucoso controla basicamente a secreção gastrointestinal e o fluxo sanguíneo local. DIFERENÇAS ENTRE OS PLEXOS MIOENTÉRICO E SUBMUCOSO O plexo mioentérico consiste, em sua maior parte, na cadeia linear de muitos neurônios interconectados que se estende por todo o comprimento do trato gastrointestinal. Como o plexo mioentérico se estende por toda a parede intestinal localizada entre as camadas longitudinal e circular do músculo liso intestinal, ele participa, sobretudo, no controle da atividade muscular por todo o intestino. Quando esse plexo é estimulado, seus principais efeitos são (1) aumento da contração tônica ou “tônus” da parede intestinal; (2) aumento da intensidade das contrações rítmicas; (3) ligeiro aumento no ritmo da contração; (4) aumento na velocidade de condução das ondas excitatórias, ao longo da parede do intestino, causando o movimento mais rápido das ondas peristálticas intestinais. O plexo mioentérico não deve ser considerado inteiramente excitatório, porque alguns de seus neurônios são inibitórios; nestes, os terminais de suas fibras secretam transmissor inibitório, possivelmente o polipeptídio intestinal vasoativo ou algum outro peptídeo inibitório. Os sinais inibitórios resultantes são especialmente úteis para a inibição dos músculos de alguns dos esfíncteres intestinais, que impedem a movimentação do alimento pelos segmentos sucessivos do trato gastrointestinal, como o esfíncter pilórico, que controla o esvaziamento do estômago para o duodeno, e o esfíncter da valva ileocecal, que controla o esvaziamento do intestino delgado para o ceco. Em contraste com o plexo mioentérico, o plexo submucoso está basicamente envolvido com a função de controle na parede interna de cada diminuto segmento do intestino. Por exemplo, muitos sinais sensoriais se originam do epitélio gastrointestinal e são integrados no plexo submucoso, para ajudar a controlar a secreção intestinal local, a absorção local e a contração local do músculo submucoso, que causa graus variados de dobramento da mucosa gastrointestinal. 4 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo TIPOS DE NEUROTRANSMISSORES SECRETADOS POR NEURÔNIOS ENTÉRICOS Na tentativa de melhor entender as múltiplas funções do sistema nervoso entérico gastrointestinal, pesquisadores identificaram uma dúzia ou mais de diferentes substâncias neurotransmissoras que são liberadas pelos terminais nervosos de diferentes tipos de neurônios entéricos, entre eles: (1) acetilcolina, (2) norepinefrina; (3) trifosfato de adenosina; (4) serotonina; (5) dopamina; (6) colecistocinina; (7) substância P; (8) polipeptídeo intestinal vasoativo; (9) somatostatina; (10) leuencefalina;(11) metencefalina; e (12) bombesina. As funções específicas de muitas delas ainda não estão suficientemente bem entendidas para justificar uma discussão das características além do destaque dos seguintes pontos. A acetilcolina, na maioria das vezes, excita a atividade gastrointestinal. A norepinefrina quase sempre inibe a atividade gastrointestinal, o que também é verdadeiro para a epinefrina, que chega ao trato gastrointestinal principalmente pelo sangue, depois de ser secretada na circulação pela medula adrenal. As outras substâncias neurotransmissoras, mencionadas antes, são mistura de agentes excitatórios e inibitórios. TORTORA- O sistema Digestório é constituído por um grupo de órgãos que decompõem o alimento que ingerimos em moléculas menores, que pode ser utilizada pelas células do corpo. O sistema digestório é constituído de dois grupos de órgãos: o tubo gastrointestinal e os órgãos acessórios da digestão. O tubo gastrointestinal (GI) ou canal alimentar é um tubo continuo que se estende da boca até o ânus através das cavidades torácica e abdominopélvica. Os órgãos do tubo GI compreende a boca, a faringe, o esôfago, o estômago, o intestino delgado e o intestino grosso. O comprimento do tubo GI é variável. Mede cerca de 5 a 7 metros no indivíduo vivo, quando os músculos ao longo da parede dos órgãos do tubo GI encontra-se em um estado de tônus (contração sustentada). É mais longo no cadáver (cerca de 7 a 9 metros), devido à perda do tônus muscular depois da morte. Os órgãos acessórios da digestão incluem os dentes, a língua, as glândulas salivares, o fígado, a vesícula biliar e o pâncreas. • Dentes: ajuda na decomposição mecânica do alimento; • Língua: auxilia na mastigação e na deglutição; 5 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo • Os outros órgãos acessórios da digestão nunca entram em contato direto com o alimento. Esses órgãos produzem ou armazenam secreções que fluem para o tubo GI por meio de ductos e que auxiliam na decomposição química do alimento. O trato GI contém o alimento do momento em que é ingerido até que seja digerido e absorvido ou eliminado. As contrações musculares na parede do trato GI decompõem mecanicamente o alimento, misturando-o vigorosamente e empurrando-o ao longo do trato, do esôfago até o ânus. As contrações também ajudam a dissolver os alimentos, misturando-os com os líquidos secretados no trato. As enzimas secretadas pelos órgãos acessórios da digestão e as células que revestem o trato decompõem o alimento quimicamente. O sistema digestório, de uma forma geral, realiza seis processos básicos: 1.Ingestão. Este processo compreende a introdução de alimentos e líquidos na boca (comer). 2. Secreção. Todos os dias, as células no interior das paredes do trato GI e dos órgãos acessórios da digestão secretam um total de aproximadamente 7 litros de água, ácido, tampões e enzimas no lume (espaço interior) do trato. 3. Mistura e propulsão. A contração e o relaxamento alternados do músculo liso nas paredes do trato GI misturam o alimento e as secreções, empurrando-os em direção ao ânus. Essa capacidade do trato GI de misturar e mover material ao longo de sua extensão é denominada motilidade. 4. Digestão. Processos químicos e mecânicos decompõem o alimento ingerido em partículas menores. Na digestão mecânica, os dentes cortam e trituram o alimento antes de ser deglutido e, em seguida, os músculos lisos do estômago e intestino delgado misturam vigorosamente o alimento. Como resultado, as moléculas de alimento são dissolvidas e completamente misturadas com as enzimas digestivas. Na digestão química, grandes moléculas de carboidrato, lipídio, proteína e ácido nucleico, presentes no alimento, são fragmentadas em moléculas menores, por hidrólise. As enzimas digestivas produzidas pelas glândulas salivares, língua, estômago, pâncreas e intestino delgado catalisam essas reações catabólicas. Umas poucas substâncias presentes no alimento são 6 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo absorvidas sem digestão química, incluindo vitaminas, íons, colesterol e água. 5. Absorção. A entrada de líquidos, íons e produtos da digestão secretados e ingeridos nas células epiteliais que revestem o lume do trato GI é chamada de absorção. As substâncias absorvidas passam para o sangue ou linfa e circulam por todo o corpo para as células. 6. Defecação. Resíduos, substâncias indigeríveis, bactérias, células desprendidas do revestimento do trato GI e materiais digeridos que não foram absorvidos no processo pelo trato digestivo deixam o corpo através do ânus, em um processo chamado de defecação. O material eliminado é chamado de fezes. 2. Explicar o metabolismo dos carboidratos (classificação dos carboidratos, enzimas, regulação neuroendócrina). Segundo o Lehninger, metabolismo é o “Conjunto de reações orgânicas que os organismos vivos realizam para obter energia e para sintetizar as substâncias de que necessitam”. O metabolismo pode ser dividido em dois tipos: O Catabolismo que degrada moléculas complexas para fornecer moléculas simples e energia; e o Anabolismo onde se sintetizam moléculas complexas a partir de moléculas simples com gasto de energia. Carboidratos são poli-hidroxialdeídos ou poli-hidroxicetonas, ou substâncias que geram esses compostos quando hidrolisadas. Muitos carboidratos têm a fórmula empírica (CH2O)n; alguns também contêm nitrogênio, fósforo ou enxofre. A glicose desempenha um papel central em todos os metabolismos. Ela é o substrato energético universal para células humanas e a fonte de carbono para a síntese de muitos outros compostos. Todos os tipos de células humanas a utilizam para obter energia. A excreção de insulina e glucagon pelo pâncreas auxilia o uso e o armazenamento da glicose pelo organismo. Outros carboidratos da dieta (principalmente frutose e galactose) são convertidos em glicose ou em intermediários do metabolismo da glicose. A glicose é um precursor para a síntese de uma série de outros carboidratos requeridos para a produção de compostos especializados, como a lactose, antígenos da superfície das células, nucleotídeos ou glicosaminoglicanos, e é o precursor fundamental de compostos que não pertencem à classe dos carboidratos; ela pode ser convertida em lipídeo (incluindo ácidos graxos, 7 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo colesterol e hormônio esteróide), aminoácidos e ácidos nucleicos. Em humanos, somente aqueles compostos que são sintetizados a partir de vitaminas, aminoácidos essenciais e ácidos graxos essenciais não podem ser sintetizados a partir da glicose. Mais de 40% das calorias na dieta típica nos Estados Unidos são obtidos do amido, da sacarose e da lactose. Esses carboidratos da dieta são convertidos em glicose, galactose e frutose no trato digestivo. Os monossacarídeos são absorvidos pelo intestino, entram no sangue e são distribuídos aos tecidos onde são metabolizados. Após a glicose ser transportada para dentro das células, ela é fosforilada pela hexocinase para formar glicose-6-fosfato, a qual pode, então, entrar em diversas rotas metabólicas. As três rotas que são comuns a todos os tipos de células são a glicólise, a rota da pentose-fosfato e a síntese de glicogênio. Nos tecidos, a frutose e a galactose são convertidas em intermediários do metabolismo da glicose. Dessa forma, o destino desses monossacarídeos equipara-se ao da glicose. O principal destino da glicose-6-fosfato é a oxidação via rota de glicólise que promove uma porção de ATP para todos os tipos de células. Células que não possuem mitocôndria não podem oxidar outros substratos energéticos, elas produzem ATP a partir da glicólise anaeróbica (a conversão de glicose em ácido láctico). As que contêm mitocôndria oxidam glicose a CO2 e H2O via glicólise e ciclo TCA. Alguns tecidos, como o cérebro, dependem da oxidação da glicose em CO2e H2O a energia, porque eles têm uma capacidade limitada para utilizar outros substratos energéticos. A glicose produz os intermediários da glicólise e do ciclo TCA utilizados para a síntese de aminoácidos e o glicerol e os ácidos graxos constituintes dos triacilgliceróis. Outro importante destino da glicose-6-fosfato é a oxidação via rota da pentose-fosfato, que produz NADPH. Os equivalentes redutores de NADPH são usados para reações biossintéticas e para a prevenção de danos oxidativos das células. Nessa rota, a glicose é oxidativamente descarboxilada a monossacarídeos com 5 carbonos (pentoses), os quais podem reentrar na via glicolítica e, também, ser usados para a síntese de nucleotídeos. Existem também reações não- oxidativas, as quais provocam a interconversão de monossacarídeos com 6 e 5 carbonos. Todas as células utilizam freqüentemente trifosfato de adenosina (ATP) e requerem um constante suplemento de substrato energético para prover energia para geração de ATP. A insulina e o glucagon são os dois principais hormônios que regulam a mobilização e o armazenamento desse substrato 8 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo energético. A função deles é assegurar que as células tenham uma constante fonte de glicose, ácidos graxos e aminoácidos para geração de ATP e para manutenção da célula (Figura 26.1). Devido ao fato de a maioria dos tecidos ser parcial ou totalmente dependente de glicose para geração de ATP e para produção de precursores de outras rotas metabólicas, a insulina e o glucagon mantêm a concentração sangüínea de glicose entre cerca de 80 a 100 mg/dL (90 mg/dL é o mesmo que 5 mM), embora o consumo de carboidrato varie consideravelmente durante o curso do dia. A manutenção da concentração sangüínea de glicose constante (glicose homeostase) requer que esses dois hormônios regulem o metabolismo de carboidratos, lipídeos e aminoácidos de acordo com as necessidades e capacidades próprias de cada tecido. Basicamente, os componentes da dieta são, com exceção daqueles com necessidade imediata, armazenados, e, quando ocorre a demanda, o substrato energético apropriado é mobilizado. Por exemplo, quando o consumo de glicose pela dieta não está disponível em quantidade sufi ciente para que todos os tecidos a utilizem, ácidos graxos são mobilizados e tornam-se disponíveis como substrato energético para serem utilizados pelo músculo esquelético, e o fígado pode convertê-los em corpos cetônicos a serem utilizados pelo cérebro. Ácidos graxos são fontes de reserva de glicose a ser utilizada pelo cérebro e por outros tecidos dependentes de glicose (como as células vermelhas do sangue). A concentração de insulina e glucagon no sangue regula a mobilização e o armazenamento de substrato energético (Figura 26.2). A insulina é liberada em resposta à ingestão de carboidratos, promove a utilização de glicose como substrato energético e seu armazenamento como gordura e glicogênio. Ela é também, o principal hormônio anabólico do organismo. Além disso, promove o aumento da síntese de proteínas e o crescimento celular, em adição ao armazenamento de substrato energético. A concentração de insulina sangüínea diminui quando a glicose é captada pelos tecidos e é utilizada. O glucagon, o principal hormônio contra-regulatório da insulina, está diminuído em resposta a uma refeição com carboidratos e tem sua concentração elevada no jejum. Sua concentração no sangue sinaliza a abstinência da glicose e promove a produção de glicose via glicogenólise (degradação do glicogênio) e gliconeogênese (síntese de glicose a partir do aminoácido e de outros precursores não-carboidratos). O aumento da concentração de glucagon em relação a insulina também estimula a mobilização dos ácidos graxos dos tecidos adiposos. A epinefrina (hormônio de fuga ou luta) e o cortisol (um 9 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo glicocorticóide liberado do córtex adrenal em resposta ao jejum ou estresse crônico) têm efeitos opostos aos da insulina no metabolismo de substratos energéticos. Esses dois hormônios são, portanto, também considerados hormônios contra-regulatórios da insulina. A insulina e o glucagon são hormônios polipeptídeos sintetizados como pró-hormônios nas células e, respectivamente, nas ilhotas de Langerhans no pâncreas. Existem três classes principais de carboidratos: monossacarídeos, dissacarídeos e polissacarídeos (a palavra “sacarídeo” é derivada do grego sakcharon, que significa “açúcar”). Os monossacarídeos, ou açúcares simples, são constituídos por uma única unidade poli-hidroxicetona ou poli- hidroxialdeído. O monossacarídeo mais abundante na natureza é o açúcar de 6 carbonos D-glicose, algumas vezes chamado de dextrose. Monossacarídeos de quatro ou mais carbonos tendem a formar estruturas cíclicas. Os oligossacarídeos consistem em cadeias curtas de unidades de monossacarídeos, ou resíduos, unidas por ligações características chamadas de ligações glicosídicas. Os mais abundantes são os dissacarídeos, com duas unidades de monossacarídeos. Um dissacarídeo típico é a sacarose (açúcar de cana), constituído pelos açúcares de seis carbonos D-glicose e D-frutose. Todos os monossacarídeos e dissacarídeos comuns têm nomes terminados com o sufixo “-ose”. Em células, a maioria dos oligossacarídeos constituídos por três ou mais unidades não ocorre como moléculas livres, mas sim ligada a moléculas que não são açúcares (lipídeos ou proteínas), formando glicoconjugados. Os polissacarídeos são polímeros de açúcar que contêm mais de 20 unidades de monossacarídeo; alguns têm centenas ou milhares de unidades. Alguns polissacarídeos, como a celulose, têm cadeias lineares; outros, como o glicogênio, são ramificados. Ambos são formados por unidades repetidas de D-glicose, mas diferem no tipo de ligação glicosídica e, em consequência, têm propriedades e funções biológicas notavelmente diferentes. Os açúcares (também chamados de sacarídeos) são compostos que contêm um grupo aldeído ou cetona e dois ou mais grupos hidroxila. Os monossacarídeos geralmente contêm alguns carbonos quirais e, assim, existem em várias formas estereoquímicas, as quais podem ser representadas no papel como projeções de Fischer. Epímeros são açúcares que diferem na configuração de apenas um átomo de carbono. Os monossacarídeos comumente formam hemiacetais ou hemicetais internos, nos quais o grupo aldeído ou cetona se une a um grupo hidroxila da mesma 10 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo molécula, criando uma estrutura cíclica; isso pode ser representado como uma fórmula em perspectiva de Haworth. O átomo de carbono originalmente localizado no grupo aldeído ou cetona (o carbono anomérico) pode assumir uma de duas configurações, a e b, interconversíveis por mutarrotação. Na forma linear do monossacarídeo, em equilíbrio com as formas cíclicas, o carbono anomérico é facilmente oxidável, tornando o composto um açúcar redutor. Um grupo hidroxila de um monossacarídeo pode ser adicionado ao carbono anomérico de um segundo monossacarídeo, formando um acetal chamado de glicosídeo. Nesse dissacarídeo, a ligação glicosídica protege o carbono anomérico de oxidação, tornando-o um açúcar não redutor. Oligossacarídeos são polímeros curtos, com alguns monossacarídeos unidos por ligações glicosídicas. Em uma das extremidades da cadeia, a extremidade redutora, está uma unidade de monossacarídeo com seu carbono anomérico não envolvido em uma ligação glicosídica. A nomenclatura comum para di ou oligossacarídeos especifica a ordem das unidades de monossacarídeos, a configuração de cada carbono anomérico e os átomos de carbono participantes da(s) ligação(ões) glicosídica(s). ENZIMAS Enzimas são proteínas que agem como catalisadores, compostos que aumentam a velocidade das reações químicas. Os catalisadores enzimáticos se ligam a reagentes (substratos), convertem-nosem produtos e liberam os produtos. Embora as enzimas possam ser modificadas durante sua participação nessa seqüência de reação, elas retornam a sua forma original no final. Além de aumentarem a velocidade de reações, as enzimas fornecem um meio de regular a velocidade das vias metabólicas no corpo. Este capítulo descreve as propriedades das enzimas que permitem que elas funcionem como catalisadores. O próximo capítulo explica os mecanismos de regulação das enzimas. Sítios de ligação de enzimas: Uma enzima se liga aos substratos da reação e os converte em produtos. Os substratos são ligados a sítios de ligação específicos para o substrato na enzima por interações com resíduos de aminoácidos da enzima. A geometria espacial necessária para todas as interações entre o substrato e a enzima torna cada enzima seletiva para seu substrato e garante que apenas os produtos específicos sejam formados. Sítio catalítico ativo: Os sítios de ligação do substrato se localizam no sítio catalítico ativo da enzima, a região da enzima onde a reação ocorre. Dentro do sítio catalítico, os grupos funcionais 11 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo fornecidos por coenzimas, metais fortemente ligados e, evidentemente, resíduos de aminoácidos da enzima participam da catálise. Energia de ativação e estado transitório: Os grupos funcionais no sítio catalítico da enzima ativam os substratos e diminuem a energia necessária para formar o estágio intermediário de alta energia da reação, conhecido como complexo do estado transitório. Algumas estratégias catalíticas empregadas pelas enzimas, como catálise ácido-base geral, formação de intermediários covalentes e estabilização do estado transitório, são ilustradas pela quimotripsina. Características de pH e temperatura: As enzimas têm um espectro de pH funcional determinado pelos pKas dos grupos funcionais no sítio ativo e as interações necessárias para a estrutura tridimensional. Aumentos de temperatura não-desnaturantes aumentam a velocidade da reação. Mecanismo com base em inibidores. A efetividade de muitos fármacos e toxinas depende de sua habilidade de inibir uma enzima. Os inibidores mais fortes são inibidores covalentes, compostos que formam ligações covalentes com o grupo reativo no sítio ativo da enzima, ou análogos do estado transitório que mimetizam o complexo de estado transitório. Nomes de enzimas: A maioria dos nomes de enzimas termina em “ase”. As enzimas em geral têm um nome comum e uma classificação sistemática que inclui um nome e um número da Comissão de Enzimas (EC, do inglês Enzyne Commissin). As enzimas, em geral, fornecem controle de velocidade, especificidade e regulação para as reações no corpo. Elas geralmente são proteínas que agem como catalisadores, compostos que aumentam a velocidade das reações químicas. As reações catalisadas por enzimas têm três etapas básicas: (1) ligação de substrato: E + S ↔ ES (2) conversão do substrato ligado em produto ligado: ES ↔ EP (3) liberação do produto: EP ↔ E + P Uma enzima, ao se ligar aos substratos da reação, catalisa e coloca os substratos juntos na orientação correta para reagirem. A enzima, então, participa na formação e quebra de ligações necessárias para a formação dos produtos, libera os produtos e retorna a seu estado original uma vez que a reação esteja completa. As enzimas não inventam novas reações; elas simplesmente fazem as reações ocorrerem mais rápido. 12 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo No corpo, milhares de enzimas diferentes são reguladas para realizar suas funções individuais sem a perda de componentes da dieta. Assim, com alterações em estado fisiológico, horário da alimentação, ambiente, dieta ou idade, as velocidades de algumas enzimas podem aumentar e de outras diminuir. Neste capítulo, serão descritos os mecanismos para a regulação da atividade de enzimas e as estratégias empregadas para regular as vias metabólicas nas quais elas estão. Regulação corresponde à função. As alterações na velocidade de uma rota metabólica ocorrem porque pelo menos uma enzima naquela via, a enzima regulatória, foi ativada ou inibida, ou a quantidade de enzima foi aumentada ou diminuída. As enzimas regulatórias em geral catalisam a etapa limitante de velocidade, ou mais lenta, na via, de tal modo que um aumento ou uma diminuição de sua velocidade altera a velocidade de toda a rota (Figura 9.1). Os mecanismos utilizados para regular a enzima limitante de velocidade em uma rota refletem a função da via. Concentração do substrato. A velocidade de todas as enzimas é dependente da concentração de substrato. As enzimas exibem cinética de saturação; sua velocidade aumenta com o aumento da concentração do substrato [S], mas elas atingem uma velocidade máxima (Vmáx) quando estão saturadas com substrato. Para muitas, a equação de Michaelis-Menten descreve a relação entre vi (a velocidade inicial da reação), [S], Vmáx e Km (a concentração do substrato na qual vi= 1/2 Vmáx). Inibição reversível. As enzimas são reversivelmente inibidas por análogos estruturais e produtos. Esses inibidores são classifi cados como competitivo, não-competitivo ou incompetitivo, dependendo de seu efeito na formação do complexo enzima-substrato. Enzimas alostéricas. Ativadores ou inibidores alostéricos são compostos que se ligam a outros sítios, e não no sítio catalítico ativo, e regulam a enzima por alterações conformacionais afetando o sítio catalítico. Modificação covalente. A atividade da enzima também pode ser regulada por uma modificação covalente, como a fosforilação de um resíduo de serina, treonina ou tirosina por uma proteína-quinase. Interações proteína-proteína. A atividade da enzima pode ser modulada por ligação reversível de uma proteína moduladora, como Ca2+-calmodulina. As proteínas G monoméricas (proteínas ligadoras de GTP) ativam proteínas-alvo por ligação reversível. Quebra de zimogênio. Algumas enzimas são sintetizadas como precursores inativos, chamados de zimogênios, que são ativados pela proteólise (p. ex., a enzima digestiva quimotripsina). Alterações na concentração da enzima. A concentração pode ser regulada por alterações na velocidade de síntese 13 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo de uma enzima (p. ex., indução de transcrição gênica) ou na velocidade de degradação. Regulação das vias metabólicas. Os mecanismos regulatórios para a enzima limitante de velocidade de uma rota sempre refletem a função da rota em um tecido particular. Na regulação por feedback (retroalimentação), o produto final de uma rota direta ou indiretamente controla sua própria velocidade de síntese; na regulação por feedforward (ântero-alimentação), o substrato controla a velocidade da via. As vias biossintéticas e de degradação são controladas por regulações diferentes, mas complementares. As vias também são reguladas por compartimentalização de enzimas. REGULAÇÃO NEUROENDOCRINA O sistema endócrino, em conjunto com o sistema nervoso, regula e controla todas as funções de nosso organismo. Só para citar alguns poucos exemplos, o sistema endócrino atua no crescimento de tecidos, no equilíbrio hídrico do corpo, na reprodução e no metabolismo de carboidratos. Ele é formado por uma série de glândulas, chamadas de glândulas endócrinas. As glândulas endócrinas secretam os hormônios, substâncias que são lançadas na corrente sanguínea, atingindo as células dos diversos tecidos do corpo humano. Os hormônios podem estimular ou inibir as funções metabólicas. Cada hormônio atua apenas sobre algumas células específicas, são as chamadas células-alvo. Alguns hormônios também atuam em conjunto ou em oposição a outros. As principais glândulas endócrinas humanas são: a pineal, a hipófise, a tireoide, as paratireoides, as suprarrenais, o pâncreas, os ovários (nas mulheres) e os testículos (nos homens). O pâncreas é umaglândula mista localizada na região abdominal. Ele é chamado de glândula mista pelo fato de possuir tanto funções endócrinas quanto exócrinas. A função endócrina é realizada por diversos conjuntos de células chamadas de ilhotas de Langerhans. Dois dos principais hormônios produzidos pelas ilhotas de Langerhans são a insulina e o glucagon, ambos relacionados ao controle da concentração de glicose no sangue. A insulina estimula a absorção da glicose presente no sangue e o seu armazenamento no fígado, na forma de glicogênio. Já o glucagon estimula o aumento da concentração de glicose no sangue e a quebra do glicogênio. A deficiência de insulina provoca uma doença conhecida como diabete melito. A baixa concentração de insulina dificulta a absorção de glicose, afetando o 14 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo metabolismo celular e, consequentemente, provocando um aumento dessa substância no sangue. 3. Entender o transporte, absorção e eliminação dos carboidratos. Nos mamíferos, o transporte transmembranar de glicose e outros açúcares é levado a cabo por duas famílias de proteínas transportadoras: uma, formada por transportadores ativos, que requerem o consumo de ATP e dependentes do íon sódio (SGLT), e outra, formada por transportadores de glicose por difusão facilitada (GLUT), que não requerem energia transportando a glicose a favor do seu gradiente de concentração. Através destes transportadores, o gradiente eletroquímico do íon sódio gerado pela bomba de sódio e potássio (ATPase-Na+/K+) é utilizado para transportar a glicose contra o seu gradiente de concentração (transporte ativo secundário). Destes transportadores transmembranares, o SGLT1 é proeminentemente expresso no epitélio do intestino delgado (duodeno, jejuno e íleo). Quanto ao outro mecanismo de transporte, engloba uma família de catorze membros de transportadores facilitados de glicose (GLUT1-GLUT14, genes da família SLC2) independentes do sódio, que utilizam o gradiente de concentração da glicose, ou de outros monossacarídeos, para realizar a sua função de transporte. ABSORÇÃO INTESTINAL DE GLICOSE: MODELO CLÁSSICO E MODELO DO GLUT2 APICAL: Absorção intestinal de glicose, esta é captada ativamente do lúmen intestinal para o interior do enterócito pelo SGLT1, localizado na membrana apical). O SGLT1 possui um local de ligação ao sódio, e é essa ligação que induz uma alteração conformacional no transportador, tornando-o acessível à glicose. Desse modo, por cada molécula de glicose transportada, dois iões sódio, cujo gradiente transmembranar é gerado pela ATPase- Na+/K+ localizada na membrana basolateral, são transportados na mesma direção. Depois, a glicose acumulada é libertada passivamente do enterócito para a circulação sanguínea através de duas vias distintas: a) uma, maioritária, que envolve o GLUT2 e outra b) por transporte envolvendo vesículas intracelulares, que requer fosforilação da glicose a glicose-6-fosfato, transferência da glicose-6-fosfato para o retículo endoplasmático e posterior libertação da glicose livre (desfosforilada) para a corrente sanguínea. Simultaneamente, durante o transporte intestinal de glicose via SGLT1, outras moléculas são também transportadas com vista a manter a osmolaridade do conteúdo absorvido: a) dois aníons, o cloreto e o bicarbonato, acompanham, por uma via distinta do SGLT1, o transporte 15 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo de sódio com vista a manter a eletro neutralidade, e b) água (funcionando o SGLT1 como um canal específico de transporte de água – aquaporina). O SGLT1 transporta glicose e galactose com afinidades semelhantes e elevadas mas com capacidade de transporte baixa, sendo a sua atividade inibida pela floridzina. Relativamente ao GLUT2, trata-se de um transportador de glicose por difusão facilitada, independente do sódio, com baixa afinidade e alta capacidade de transporte de glicose, e que para além da glicose transporta também a frutose, a galactose e a manose. Ao nível da membrana apical, várias evidências demonstraram a existência de um segundo mecanismo de transporte de glicose, para além daquele via SGLT1, que poderá corresponder a: a) transportador de por difusão facilitada com baixa afinidade e alta capacidade, não dependente do sódio e insensível à floridzina (1,4-6); b) um transportador activo, com alta afinidade e baixa capacidade e sensível à floridzina, ou seja, um segundo SGLT (SGLT2, SGLT3, SGLT4, SGLT5 ou SGLT6, ou até um novo SGLT1, nSGLT1). Esta hipótese foi recentemente reforçada com a identificação do GLUT2 ao nível da membrana apical intestinal. De acordo com a hipótese do GLUT2 apical, alguns minutos após a glicose ser transportada pelo SGLT1, ocorre um rápido recrutamento e inserção de transportadores GLUT2, provenientes de vesículas intracelulares localizadas nas imediações da membrana, na membrana apical, e um aumento da atividade intrínseca dos GLUT2 já existentes na membrana. Este mecanismo de transporte cooperativo entre o SGLT1 e o GLUT2 opera somente quando estão presentes altas concentrações de glicose no lúmen intestinal, ou seja, durante a digestão de uma refeição rica em glicídios, promovendo desse modo uma absorção facilitada de glicose várias vezes superior àquela proporcionada só pelo SGLT1 Pelo contrário, antes de uma refeição, quando os níveis de glicose luminais são baixos, a presença de GLUT2 na membrana apical é reduzida (bem como a sua atividade intrínseca) e o GLUT2 basolateral opera na direção oposta, fornecendo glicose da corrente sanguínea para o enterócito, o que contribui para o equilíbrio energético do mesmo Em suma, podemos verificar que o SGLT1, além da função de transportador de glicose, funciona igualmente como um sensor de glicose, controlando a inserção membranar do GLUT2 após ingestão de uma refeição. Depois, à medida que a glicose é absorvida e a sua concentração no lúmen intestinal diminui, todo o sistema de sinalização é revertido, permitindo que o GLUT2 seja maioritariamente inativado e removido da membrana apical, regressando-se à situação pré-prandial inicial. Liberação de Energia dos Alimentos e o Conceito de "Energia Livre" 16 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo Todos os alimentos energéticos —carboidratos, gorduras e proteínas — podem ser oxidados nas células e, durante esse processo, grande quantidade de energia é liberada. A energia que os processos fisiológicos celulares necessitam não consiste em calor e, sim, em energia para os movimentos mecânicos para concentrar solutos no caso da secreção glandular e para efetuar outras funções celulares. "Energia Livre”. A quantidade de energia liberada pela oxidação completa de um alimento é chamada energia livre de oxidação dos alimentos. O Trifosfato de Adenosina É a "Moeda de Energia” do Corpo O trifosfato de adenosina (ATP) é o elo essencial entre as funções que utilizam energia e as funções que produzem energia no organismo. Por esse motivo, o ATP foi chamado de moeda de energia do organismo, e pode ser obtida e consumida repetidamente. A energia derivada da oxidação dos carboidratos, proteínas e das gorduras é usada para converter o difosfato de adenosina (ADP) em ATP que é, então, consumido pelas diversas reações do corpo, necessárias para (1) transporte ativo das moléculas através das membranas; (2) contração dos músculos e desempenho do trabalho mecânico; (3) diversas reações sintéticas que criam hormônios, membranas celulares e muitas outras moléculas essenciais do organismo; (4) condução de impulsos nervosos; (5) divisão celular e crescimento; e (6) muitas outras funções fisiológicas que são necessárias para manter e propagar a vida. O ATP é composto químico lábil presente em todas as células. O ATP é uma combinação de adenina, ribose e três radicais fosfato. A quantidade de energia livre em cada um desses elos de alta energia por mol de ATP é cerca de 7.300calorias sob as condições-padrão e cerca de 12.000 caloriassob as condições usuais de temperatura e concentrações dos reagentes no corpo. Consequentemente, no organismo, a remoção de cada um dos dois últimos radicais fosfato libera em torno de 12.000 calorias de energia. Após a perda de um radical fosfato do ATP, o composto se torna ADP e, após perder o segundo radical fosfato, se torna monofosfato de adenosina(AMP). ATP está presente em toda parte no citoplasma e no nucleoplasma de todas as células e, essencialmente, todos os mecanismos fisiológicos que requerem energia para o seu funcionamento a obtêm diretamente do ATP (ou de um outro composto de alta energia similar —trifosfato de gua-nosina [GTP]). Por sua vez, o alimento nas células é gradativamente oxidado e a energia liberada é usada para formar novo ATP, mantendo assim, sempre reserva dessa substância. Todas estas transferências de energia ocorrem por meio de reações acopladas. Papel Central da Glicose no Metabolismo dos Carboidratos 17 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo os produtos finais da digestão dos carboidratos, no aparelho digestório, são quase que só glicose, frutose e galactose —com a glicose representando, em média, cerca de 80%. Após absorção a partir do trato intestinal, grande parte da frutose e quase toda galactose são rapidamente convertidas em glicose no fígado. Consequentemente, existe pouca frutose ou galactose no sangue circulante. A glicose, assim, passa a ser a via final comum para o transporte de quase todos os carboidratos para as células. Além do mais, a dinâmica das reações é tal que quando o fígado libera os monossacarídeos de volta para o sangue, o produto final é quase inteiramente glicose. Logo, a glicose-6-fosfato pode ser degradada em glicose e fosfato, e a glicose pode então ser transportada de volta para o sangue, através das membranas das células hepáticas. Transporte da Glicose através da Membrana Celular Antes que a glicose possa ser utilizada pelas células dos tecidos do corpo, ela deve ser transportada, através da membrana, para o citoplasma celular. No entanto, a glicose não pode se difundir facilmente pelos poros da membrana celular porque o peso molecular máximo das partículas, com difusão imediata, se situa em torno de 100 e a glicose apresenta peso molecular de 180. Permeando a matriz lipídica da membrana celular existe grande quantidade de moléculas de proteínas carreadoras, que podem se ligar à glicose. A glicose, nessa forma ligada, pode ser transportada, pelo carreador, de um lado para o outro da membrana, quando é então liberada. O transporte de glicose através das membranas da maioria das células é bem diferente do que ocorre através da membrana gastrointestinal ou através do epitélio dos túbulos renais. Nestes dois casos, a glicose é transportada pelo mecanismo de cotransporte ativo de sódio e glicose, em que o transporte ativo do sódio fornece energia para absorver a glicose contra diferença de concentração. Facilitação do Transporte da Glicose pela Insulina A intensidade do transporte da glicose, assim como o transporte de outros monossacarídeos, aumenta muito devido à insulina. Quando o pâncreas secreta grandes quantidades de insulina, o transporte de glicose na maioria das células, aumenta por 10 ou mais vezes, relativamente ao valor medido na ausência de secreção da insulina. Logo após sua entrada nas células, a glicose se liga a um radical fosfato. Essa fosforilação é promovida principalmente, pela enzima glicocinaseno fígado e pela hexocinase na maioria das outras células. A fosforilação da glicose é quase inteiramente irreversível, exceto nas células hepáticas, nas células do epitélio tubular renal e do epitélio intestinal; nessas células existe outra 18 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo enzima, a glicose fosfatase que quando é ativada é capaz de reverter a reação. Na maioria dos tecidos do corpo, a fosforilação tem como finalidade mantera glicose no interior das células. O Glicogênio É Armazenado no Fígado e nos Músculos Depois de sua captação para o interior da célula, a glicose pode ser usada, imediatamente, para liberar energia ou pode ser armazenada sob a forma de glicogênio, que é um grande polímero da glicose. Todas as células docorpo são capazes de armazenar, pelo menos, algum glicogênio, mas algumas células são capazes de armazená-lo em grande quantidade, especialmente as células hepáticas. Essa conversão dos monossacarídeos em composto precipitado de elevado peso molecular (glicogênio) possibilita armazenar grandes quantidades de carboidratos, sem alterar significativamente a pressão osmótica dos líquidos intracelulares. Concentrações elevadas de monossacarídeos solúveis de baixo peso molecular, alterariam as relações osmóticas entre os líquidos intra e extracelulares. Glicogênese —Formação de Glicogênio A glicose-6-fosfato pode se tornar glicose-1-fosfato-, esta, por sua vez, é convertida em uridinadifosfatoglicose que, finalmente, é convertida em glicogênio. São necessárias diversas enzimas específicas para promover essas conversões e qualquer monossacarídeo capaz de ser convertido em glicose, pode entrar nestas reações. Alguns compostos menores, inclusive o ácido lático, glicerol, ácido pirúvico e alguns aminoácidos desaminados, também podem ser convertidos em glicose ou em compostos muito próximos e, em seguida, em glicogênio. Glicogenólise —Quebra do Glicogênio Armazenado Glicogenólise significa a ruptura do glicogênio celular armazenado para formar, novamente, glicose nas células. A glicose pode então ser utilizada de modo a fornecer energia. A glicogenólise não ocorre pela reversão das mesmas reações químicas que formam o glicogênio; ao contrário, cada molécula de glicose sucessiva, em cada ramo do polímero de glicogênio, se divide por meio de fosforilação catalisada pela enzima fosforilase. Ativação da Fosforilase pela Epinefrina ou pelo Glucagon. Dois hormônios, a epinefrinae o glucagon,são capazes de ativar a fosforilase e, assim, causar glicogenólise rápida. A epinefrina é liberada pela medula da glândula adrenal, quando o sistema nervoso simpático é estimulado. Consequentemente, uma das funções do sistema nervoso simpático é a de aumentar a disponibilidade da glicose para o metabolismo energético rápido. O glucagon é o hormônio secretado pelas células alfa do pâncreas, quando a concentração sérica da glicose está 19 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo excessivamente baixa. Ele estimula a formação do AMP cíclico, principalmente pelas células hepáticas que, por sua vez, promove a conversão do glicogênio hepático em glicose e sua liberação para o sangue, elevando desse modo a concentração sanguínea de glicose. Glicólise—Clivagem da Glicose para Formar Ácido Pirúvico O modo mais importante de liberar energia da molécula de glicose é iniciado pela glicólise. Os produtos finais da glicólise são então oxidados para fornecer energia. Glicólise significa a divisão da molécula de glicose de modo a formar duas moléculas de ácido pirúvico. Conversão do Ácido Pirúvico em Acetil Coenzima A O próximo estágio na degradação da glicose é a conversão, em duas etapas, das duas moléculas de ácido pirúvico em duas moléculas de acetil coenzima A(acetil -CoA). A partir dessa reação, pode-se ver que duas moléculas de dióxido de carbono e quatro átomos de hidrogênio são liberados dessa reação, enquanto as porções restantes das duas moléculas de ácido pirúvico se associam à coenzima A, um derivado da vitamina ácido pantotênico, para formar duas moléculas de acetil-CoA. Nessa conversão, não se forma ATP, mas até seis moléculas de ATP são formadas, quando os quatro átomos de hidrogênio liberados são posteriormente oxidados. Romero, Carla Eduarda Machado; Zanesco, Angelina. O papel dos hormônios leptina e grelina na gênese da obesidade. Rev. Nutr. vol.19 no.1 Campinas, 2006. A leptina é um pepitídeo que desempenha importante papel na regulação da ingestão alimentar e no gasto energético,gerando um aumento na queima de energia e diminuindo a ingestão alimentar. Além dos avanços no estudo da célula adiposa, um novo hormôrnio relacionado ao metabolismo foi descoberto recentemente, a grelina. A grelina é um peptídeo produzido nas células do estômago, e está diretamente envolvida na regulação do balanço energético a curto prazo. A leptina reduz o apetite a partir da inibição da formação de neuropeptídeos relacionados ao apetite, como o neuropeptídeo Y, e também do aumento da expressão de neuropeptídeos anorexígenos (hormônio estimulante de a-melanócito (a- MSH), hormônio liberador de corticotropina (CRH) e substâncias sintetizadas em resposta à anfetamina e cocaína. Assim, altos níveis de leptina reduzem a ingestão alimentar enquanto que baixos níveis induzem hiperfagia. Isso é comprovado em animais de laboratório obesos que 20 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo apresentam baixos níveis de leptina ou total deficiência. No entanto, indivíduos obesos apresentam elevados níveis plasmáticos de leptina, cerca de cinco vezes mais que aqueles encontrados em sujeitos magros. As mulheres possuem maior concentração plasmática de leptina que os homens. A grelina é um novo hormônio gastrointestinal identificado no estômago do rato, em 1999. O nome grelina significa crescimento. Ghre (grow hormone release) descreve uma das principais funções desse peptídeo, responsável pelo aumento da secreção do hormônio do crescimento (GH). A grelina é composta de 28 aminoácidos com uma modificação octanóica no seu grupo hidroxil sobre a serina 3, que é essencial para o desempenho de sua função liberadora de GH. Ela foi, primeiramente, isolada da mucosa oxíntica do estômago, sendo produzida, predominantemente, pelas células Gr do trato gastrointestinal. É também produzida em menores quantidades no sistema nervoso central, rins, placenta e coração. A grelina está diretamente envolvida na regulação a curto prazo do balanço energético. Níveis circulantes de grelina encontram-se aumentados durante jejum prolongado e em estados de hipoglicemia, e têm sua concentração diminuída após a refeição ou administração intravenosa de glicose. Em um artigo da newslab, eles afirmam que a grelina, vai possuir um efeito contrário ao da leptina. Entre os peptídeos que fazem essa regulação estão os orexígenos (estimulam o apetite) e os anorexígenos (inibem o apetite). As rotas metabólicas são maneiras diferentes de reações bioquímicas que as moléculas sofrem, para que possam realizar sua função no organismo. Ocorrem no citoplasma e na mitocôndria das células. As vias metabólicas mais importantes são: Glicólise- oxidação da glicose, afim de obter ATP; Ciclo de Krebs- oxidação da acetil-coA a fim de obter energia; Fosforilação oxidativa- eliminação dos elétrons libertados na oxidação da glicose e da acetil-CoA. 21 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo A insulina estimula a entrada de glicose no musculo, a síntese de glicogênio e a síntese de glicogênio e a síntese de triacilglicerideos pelo tecido adiposo inibem a degradação do glicogênio e a gliconeogenese. O glucagon é produzido pelo pâncreas quando os níveis de glicose no sangue baixam muito, e tem efeitos contrários aos da insulina. O glicogênio é encontrado no musculo, fígado e rins. Degradação do glicogênio - enzima desramificadora -glicogênio fosforilase -fosfoglicomutase. Destinos da glicose - para animais a glicose é armazenada sobre forma de glicogênio, nos vegetais amido e sacarose. O metabolismo energético é definido como o conjunto de reações químicas que se processam no organismo. Essas reações liberam energia que permitem o funcionamento do nosso corpo. O conjunto de reações que permitem a formação de moléculas de maior complexidade é denominado reações de síntese ou anabolismo. Quando as reações se processam na decomposição das estruturas mais complexas em novas mais simples são conhecidas como reações de degradação ou catabolismo. Temos como exemplo de catabolismo o processo da digestão, quando as moléculas são degradadas em substâncias menores absorvíveis; e como exemplo de anabolismo a união de aminoácidos para a formação de proteínas, como a melanina. A liberação da energia presente em moléculas orgânicas, como a glicose, por exemplo, acontece por meio da oxidação aeróbica. Nesse processo de degradação se formam água e gás carbônico, liberando energia para as atividades celulares. Durante esse processo ocorrem transferências de elétrons entre as substâncias participantes, através de reações de oxirredução. Assim, enquanto uma substância ganha elétrons durante a reação (redução), outra substância ganha elétrons (oxidação) durante a mesma reação. Essa geração de energia permite a existência e o funcionamento de nosso organismo. 22 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo respiração celular é o processo pelo qual a energia química de moléculas de “comida” é libertada e parcialmente captada sob a forma de ATP. Os hidratos de carbono, gorduras, proteínas e podem ser utilizados como combustíveis na respiração celular, mas a glucose é mais vulgarmente utilizada como um exemplo para examinar as reações e as vias envolvidas. Podemos dividir a respiração celular em três processos metabólicos: glicólise, o ciclo de Krebs e fosforilação oxidativa. Cada um destes ocorre numa região específica da célula: 1. Glicólise ocorre no citosol. 2. O ciclo de Krebs tem lugar na matriz da mitocôndria. 3. Fosforilação oxidativa por meio da cadeia de transporte elétron é realizado na membrana mitocondrial interna. Na ausência de oxigênio, a respiração é constituída por duas vias metabólicas: glicólise e de fermentação. Ambos ocorrem no citosol. A respiração celular refere-se ao caminho bioquímico pelo qual as células liberam energia a partir das ligações químicas de moléculas dos alimentos e fornecem a energia para os processos essenciais da vida. Todas as células vivas devem realizar a respiração celular. Ele pode ser a respiração aeróbica, na presença de oxigênio ou de respiração anaeróbia. A energia é obtida dos nutrientes dos alimentos, como a glicose, as proteínas e os carboidratos. Para começo de conversa, energia não é nenhuma molécula: é a capacidade que nosso corpo tem de realizar trabalho, ou seja, fazer força ou provocar deslocamentos. Fechamento da intermediaria Objetivo 1: explicar a importância da mitocôndria no processo de produção de energia. De acordo com Lima, as mitocôndrias são organelas citoplasmáticas presentes nas células humanas que possuem uma forma cilíndrica rígida e alongada, são ramificadas, filamentosas, com um diâmetro de 0,5 a 1µm e são formadas por estruturas complexas (variando assim de forma e de tamanho), com duas membranas altamente especializadas, uma externa e outra interna. Possuem o espaço intermembranal e o espaço interno da matriz onde estão presentes o DNA mitocondrial, os ribossomos mitocondriais, os RNAs e várias enzimas. Essas organelas têm funções 23 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo essenciais nas células humanas como: a produção de energia (ATP) para as atividades do organismo, atuação na morte celular por apoptose, produção de calor e contribuição genética a partir do DNA mitocondrial. A grande síntese de energia e o metabolismo para o oxigênio das células eucarióticas, são possíveis através desta importante organela. De acordo com Guyton, as mitocôndrias, são chamadas “casa de força” da célula. Sem elas, as células seriam incapazes de extrair energia suficiente dos nutrientes e essencialmente todas as funções celulares cessariam. Sendo assim, as mitocôndrias estão concentradas nas porções da célula responsáveis pela maior parte do seu metabolismo energético. Além disso, a cavidade interna da mitocôndria é preenchida por uma matriz que contém grandes quantidades de enzimas dissolvidas, necessáriaspara a extração de energia dos nutrientes. Essas enzimas operam em associação às enzimas oxidativas nas cristas, oxidando os nutrientes, formando, desse modo, dióxido de carbono e água e, ao mesmo tempo, liberando energia. A energia liberada é usada para sintetizar a substância de “alta energia”, chamada trifosfato de adenosina (ATP). O ATP é, então, transportado para fora da mitocôndria e se difunde pela célula para liberar sua própria energia onde ela for necessária para realizar as funções celulares. As mitocôndrias são autorreplicantes. De fato, a mitocôndria contém DNA similar ao encontrado no núcleo da célula. Objetivo 2: descrever a importância do oxigênio no metabolismo. De acordo com o Silverthorn, as vias metabólicas que rendem a maior quantidade de ATP são as que requerem oxigênio – as vias aeróbias, ou oxidativas. As vias anaeróbias, que são as que não precisam de oxigênio, também produzem moléculas de ATP, mas em quantidades menores. O menor rendimento de ATP das vias anaeróbias significa que a maioria dos animais (incluindo os seres humanos) é incapaz de sobreviver por longos períodos apenas com o metabolismo anaeróbio. As vias aeróbias para produção de ATP são um bom exemplo de compartimentalização dentro das células. As enzimas da glicólise estão localizadas no citosol, e as enzimas do ciclo do ácido cítrico estão nas mitocôndrias. Dentro da mitocôndria, a concentração de íons H no compartimento intemembrana armazena a energia necessária para formar a ligação do ATP. Contudo, o que acontece a uma célula cujo suprimento de oxigênio não pode manter o ritmo com a sua demanda de ATP, como muitas 24 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo vezes acontece durante o exercício extenuante? Nesse caso, o metabolismo da glicose muda de aeróbio para o metabolismo anaeróbio, a partir de piruvato. No metabolismo da glicose anaeróbia, o piruvato é convertido em lactato, em vez de ser transportado para a mitocôndria. O piruvato é um ponto de intersecção das vias metabólicas, como as cidades centrais em um mapa rodoviário. Dependendo da necessidade de uma célula e do conteúdo de oxigênio, o piruvato pode ser levado ao ciclo do ácido cítrico ou para a produção de lactato até que o oxigênio aumente. A baixa eficiência do metabolismo anaeróbio limita bastante a sua utilidade na maioria das células dos vertebrados, cuja demanda de energia metabólica é maior do que o metabolismo anaeróbio pode fornecer. Algumas células, como as células do músculo em exercício, podem tolerar o metabolismo anaeróbio por um período limitado de tempo. Eventualmente, no entanto, elas precisam voltar ao metabolismo aeróbio. RESUMINHO DA BAHIA: O metabolismo catabólico pode ser dividido também em relação à presença de oxigênio (metabolismo aeróbio) e na ausência de oxigênio (metabolismo anaeróbio). O metabolismo aeróbico refere-se às reações catabólicas geradoras de energia nas quais o oxigênio funciona como um aceitador final de elétrons na cadeia respiratória e se combina com o hidrogênio para formar água. A presença de oxigênio no “final da linha” determina em grande parte a capacidade para a produção de ATP. No metabolismo anaeróbio não há formação de água a partir do oxigênio durante a oxidação de combustíveis metabólicos. Objetivo 3: diferenciar os processos anabólicos e catabólicos. De acordo com Silverthon, o metabolismo refere-se a todas as reações químicas que ocorrem em um organismo. Essas reações (1) extraem energia das biomoléculas dos nutrientes (como proteínas, carboidratos e lipídeos) e (2) sintetizam ou degradam moléculas. O metabolismo frequentemente é dividido em catabolismo, reações que liberam energia através da degradação de biomoléculas grandes, e anabolismo, reações consumidoras de energia que resultam na síntese de biomoléculas grandes. As reações anabólicas e catabólicas ocorrem simultaneamente nas células por todo o corpo, de modo que, em qualquer momento, algumas biomoléculas estão sendo sintetizadas, ao passo que outras estão sendo degradadas. A energia liberada ou armazenada nas ligações químicas das biomoléculas durante o metabolismo é geralmente medida em quilocalorias (kcal). Uma 25 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo quilocaloria é a quantidade de energia necessária para elevar a temperatura de 1 litro de água em 1 grau Celsius. Uma quilocaloria é o mesmo que uma Caloria, com C maiúsculo, usada para quantificar o conteúdo de energia do alimento. Uma quilocaloria também é igual a 1.000 calorias (c minúsculo). Muita da energia liberada durante o catabolismo é armazenada em ligações fosfato de alta energia do ATP ou em elétrons de alta energia do NADH, FADH2 ou NADPH. As reações anabólicas, então, transferem energia desses transportadores temporários para as ligações covalentes das biomoléculas. O metabolismo é uma rede extremamente coordenada de reações químicas, na qual as atividades que ocorrem em uma célula em um dado momento são adaptadas às necessidades da célula. Cada passo em uma rota metabólica é uma reação enzimática diferente, e as reações de uma rota metabólica acontecem em sequência. De acordo, com a aula da professora google (tom de ironia), O Metabolismo celular é o conjunto de reações químicas que acontecem nas células dos organismos vivos, para que estes transformem a energia, conservem sua identidade e se reproduzam. Todas as formas de vida (desde as algas unicelulares até os mamíferos) dependem da realização simultânea de centenas de reações metabólicas, reguladas com absoluta precisão. Existem dois grandes processos metabólicos: anabolismo ou biossíntese e catabolismo. Anabolismo. São os processos biossintéticos a partir de moléculas precursoras simples e pequenas. As vias anabólicas são processos endergônicos e redutivos que necessitam de fornecimento de energia. O anabolismo, ou metabolismo construtivo, é o conjunto das reações de síntese necessárias para o crescimento de novas células e a manutenção de todos os tecidos. Catabolismo. São os processos de degradação das moléculas orgânicas nutrientes e dos constituintes celulares que são convertidos em produtos mais simples com a liberação de energia. As vias catabólicas são processos exergônicos e oxidativos. O catabolismo, ou metabolismo oxidativo é um processo contínuo, centrado na produção da energia necessária para a realização de todas as atividades físicas externas e internas. O catabolismo engloba também a manutenção da temperatura corporal. Esse processo catabólico implica na quebra de moléculas químicas complexas em substâncias mais simples, que constituem os produtos excretados pelo 26 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo corpo. A excreção dos produtos do metabolismo é feita por diferentes órgãos como os rins, o intestino, os pulmões e a pele. As principais fontes de energia metabólica são os carboidratos, lipídios (gorduras) e proteínas, produtos de alto conteúdo energético ingerido pelos animais, para os quais constituem a única fonte energética e de compostos químicos para a construção de células. Estes compostos seguem rotas metabólicas diferentes, que têm como finalidade produzir compostos finais específicos e essenciais para a vida. Objetivo 4: elucidar os processos da via metabólica. = FALTA GLICOGENOLISE GLICÓLISE Glicólise—Clivagem da Glicose para Formar Ácido Pirúvico O modo mais importante de liberar energia da molécula de glicose é iniciado pela glicólise. Os produtos finais da glicólise são então oxidados para fornecer energia. Glicólise significa a divisão da molécula de glicose de modo a formar duas moléculas de ácido pirúvico. A glicólise ocorre mediante 10 reações químicas sucessivas. Cada etapa é catalisada, pelo menos, por enzima proteica específica. Observe que a glicose é primeiro convertida em frutose-1,6-difosfato e depois, é fracionada em duas moléculascom três átomos de carbonos, o gliceraldeído-3-fosfato, e cada uma delas é então convertida por mais cinco etapas adicionais em ácido pirúvico. Formação de ATP Durante a Glicólise. Apesar das diversas reações químicas nas séries glicolíticas, apenas pequena uma porção da energia livre na molécula de glicose é liberada na maioria das etapas. Entretanto, entre os estágios do ácido 1,3-difosfoglicérico e o ácido 3-fosfoglicérico e de novo, nos estágios do ácido fosfoeno-lpirúvico e do ácido pirúvico, a quantidade de energia liberada é superior a 12.000 por mol, a quantidade necessária para formar o ATP, e as reações são acopladas de tal maneira que é formado ATP. Assim, o total de 4 moles de ATP é formado para cada mol de frutose- 1,6-difosfato, que se divide em ácido pirúvico. Mesmo assim, 2 moles de ATP são necessários para fosfo-rilar a glicose original, de modo a formar a frutose-l,6-difos-fato, antes de ser possível iniciar a glicólise. Portanto, o ganho líquido em moléculas de ATP em todo o processo glicolítico é apenas 2 moles para cada mol de glicose utilizada. Isso corresponde a 24.000 calorias de energia transferida para o ATP, mas durante a glicólise, o total de 56.000 calorias de energia foi perdido da glicose original, dando a 27 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo eficiência global para a formação de ATP, de apenas de 43%. Os restantes 57% de energia se perdem sob a forma de calor. GLICÓLISE Etapa I. A primeira reação da glicólise é a conversão de glicose a glicose 6fosfato. A glicose 6fosfato, ao contrário da glicose, é incapaz de atravessar a membrana plasmática, o que garante a sua permanência dentro das células. A fosforilação da glicose a partir de glicose e fosfato inorgânico é uma reação inviável, por ter ΔGo′ positivo (Capítulo 4). Por isto, os organismos utilizam outra reação, que tem ΔGo′ negativo, e na qual o ATP é o doador de grupo fosfato. Esta reação é irreversível e catalisada por hexoquinases. As hexoquinases compõem uma família de enzimas ubíquas, que atuam sobre diversas hexoses. Nos tecidos de vertebrados, são encontradas quatro isoenzimas de hexoquinases, denominadas I a IV, que diferem por suas propriedades catalíticas, reguladoras, pela distribuição tecidual e localização intracelular. A hexoquinase IV é a isoenzima predominante em hepatócitos e células β do pâncreas; É comumente chamada de glicoquinase, embora não seja específica para glicose, podendo atuar com menor afinidade sobre outras hexoses. Segue-se a isomerização da glicose 6fosfato a frutose 6fosfato, por ação da fosfoglicoisomerase, e nova fosforilação, análoga à anterior, também utilizando ATP e também irreversível, catalisada pela fosfofrutoquinase 1 (6fosfofruto1quinase). Forma-se, então, uma hexose com dois grupos fosfato: a frutose 1,6bisfosfato1. Etapa II. A frutose 1,6bisfosfato é clivada em duas trioses isômeras, dihidroxiacetona fosfato e gliceraldeído 3fosfato, por ação da aldolase. O gliceraldeído 3fosfato é o substrato da próxima enzima da via glicolítica, mas as duas trioses fosforiladas são interconvertidas por ação da triose fosfato isomerase. A conversão de dihidroxiacetona fosfato em gliceraldeído 3fosfato possibilita que uma molécula de glicose (C6) seja convertida em duas moléculas de gliceraldeído-3fosfato (2 × C3). Da reação da triose fosfato isomerase em diante, a via tem todos os seus intermediários duplicados e todos os carbonos da glicose são convertidos em piruvato. A clivagem de frutose 1,6bisfosfato e a isomerização de dihidroxiacetona fosfato em gliceraldeído 3fosfato são reações com ΔGo′ positivo. Isto significa que, nos respectivos equilíbrios, predominam frutose 1,6bisfosfato e dihidroxiacetona fosfato, respectivamente. Apesar disto, as duas reações processam-se no sentido da formação de gliceraldeído 3fosfato, porque a retirada contínua deste composto pelas reações 28 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo subsequentes torna negativo o sinal de ΔG′ das duas reações com ΔGo′ positivo. Etapa III. As duas moléculas de gliceraldeído-3fosfato obtidas por fosforilação à custa de 2 ATP são oxidadas e novamente fosforiladas, agora por fosfato inorgânico, formando duas moléculas de 1,3bisfosfoglicerato. Este composto é um anidrido misto de um ácido carboxílico e o ácido fosfórico, um anidrido carboxílicofosfórico, que é um composto rico em energia.Trata-se de uma reação de oxidação redução/ fosforilação complexa, catalisada pela gliceraldeído 3fosfato desidrogenase. Para facilitar a compreensão, a reação pode ser desmembrada em duas reações parciais: 1.oxidação do aldeído (gliceraldeído 3fosfato) a ácido carboxílico, com redução de NAD+a NADH, que é termodinamicamente favorável 2. ligação do ácido carboxílico com o ácido fosfórico (HPO42– a pH 7,4), formando um anidrido carboxílicofosfórico, que é endergônica. Etapa IV. Compreende dois eventos de fosforilação de ADP a ATP por compostos com alto potencial de transferência do grupo fosforila: 1,3bisfosfoglicerato e fosfoenolpiruvato. No primeiro, na reação catalisada pela fosfoglicerato quinase, o grupo fosfato da ligação anidrido carboxílico fosfóricodo 1,3bisfosfoglicerato, uma ligação rica em energia, é transferido ao ADP, produzindo ATP. O segundo evento de síntese de ATP depende da conversão de uma ligação éster fosfato em uma ligação fosfoenol, rica em energia. Esta conversão iniciasse com a transferência intramolecular do grupo éster fosfato do 3fosfoglicerato, do carbono 3 para o carbono 2, catalisada pela fosfoglicerato mutase3. O processo envolve a formação intermediária de um composto bifosforilado, o 2,3bisfosfoglicerato, originado por doação de um grupo fosfato da própria enzima ao substrato. Em seguida, a enolase promove a desidratação do 2fosfoglicerato, originando o fosfoenolpiruvato. A formação deste composto rico em energia possibilita a síntese de ATP na reação subsequente, irreversível, catalisada pela piruvato quinase. FERMENTAÇÃO LÁTICA Na fermentação lática, como acontece nas reações com participação de NAD+, o piruvato recebe dois elétrons e um próton do NADH e um próton do meio, reduzindo-se a lactato. Este é o processo utilizado por diversos microrganismos e por determinadas células e tecidos de mamíferos: hemácias, espermatozoides, medula renal, músculos esqueléticos etc. 29 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo Quando os músculos esqueléticos realizam contração vigorosa, o oxigênio trazido pela circulação torna-se insuficiente para promover a oxidação da grande quantidade de NADH resultante do trabalho muscular e as fibras musculares ficam submetidas a uma anaerobiose relativa. A oxidação do NADH pelo piruvato gera o lactato caracteristicamente produzido por músculos em esforço intenso, permitindo que, pela regeneração do NAD+, a glicólise possa prosseguir, formando ATP. Nas situações de atividade muscular extenuante, costumasse afirmar, erroneamente, que é produzido ácido lático, que ao dissociar-se, causaria acidose (aumento da quantidade plasmática de prótons) — a reação da lactato desidrogenase forma lactato e não ácido lático e a formação de lactato consome prótons e não os produz. A acidose decorre do transporte conjunto (simporte) de lactato e prótons para o plasma; Os prótons originam-se da intensa hidrólise de ATP, vigente nessa situação. Somando a equação de conversão de glicose a piruvato à de conversão de piruvato a lactato obtém-se a equação geral da fermentação lática. CONVERSÃO DE PIRUVATO A ACETIL-COA Em condições aeróbias, o primeiro passo para a oxidação total do piruvato é a sua conversão a acetil-CoA. Nas células eucarióticas, o piruvato é transportado do citosol para a mitocôndria, onde é transformado em acetil- CoA, conectando a glicólise e o ciclo de Krebs. O piruvato deixa de ser o aceptor dos elétrons do NADH produzido pela glicólise e está coenzima é oxidada pelo oxigênio, o aceptor final de elétrons no metabolismo aeróbio, porum processo indireto. O processo é irreversível e consiste na transferência do grupo acetila, proveniente da descarboxilação do piruvato, para a coenzima A. Esta coenzima tem justamente a função de carregadora de grupos acila, aos quais se liga por seu grupo sulfidrila terminal, estabelecendo uma ligação tioéster rica em energia. A oxidação de piruvato a acetil-CoA é um exemplo notável da utilização de vitaminas no metabolismo. Esta única transformação não pode ser realizada sem o concurso de quatro vitaminas. A primeira etapa é a descarboxilação do piruvato e a ligação do grupo hidroxietila ao TPP, catalisada pela piruvato desidrogenase. Esta mesma enzima é responsável pela oxidação do grupo hidroxietila a acetila e sua transferência à forma oxidada (forma dissulfeto) do ácido lipoico, que se reduz a ácido acetillipoico. A próxima enzima do complexo, a dihidrolipoil transacetilase, transfere o grupo acetila para a coenzima A, formando acetil-CoA e a forma dissulfidrila do ácido lipoico. Esta forma reduzida do ácido lipoico é oxidada pela terceira enzima, a dihidrolipoil desidrogenase, uma flavoproteína contendo 30 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo FAD, que recebe os prótons e elétrons e os transfere finalmente para o NAD+, que incorpora um próton e dois elétrons. O NADH formado é oxidado na cadeia de transporte de elétrons. Uma só partícula do complexo piruvato desidrogenase é maior do que um ribossomo e consiste na união, por ligações não covalentes, de dezenas de moléculas de cada uma das três enzimas componentes do complexo. A associação das enzimas permite que essa reação complexa ocorra rápida e coordenadamente. Fazem parte ainda da partícula várias moléculas de enzimas reguladoras. Ciclo de Krebs O ciclo de Krebs ou ciclo do ácido cítrico ou ciclo dos ácidos tricarboxílicos inicia-se com a condensação de acetil-CoA e oxaloacetato, formando citrato, uma reação catalisada pela citrato sintase1. O citrato é isomerizado a isocitrato, com a formação de um intermediário, o cisaconitato, por ação da aconitase. A aconitase, nos mamíferos, ocorre como duas isoenzimas, uma mitocondrial, que participa do ciclo de Krebs, e outra citoplasmática. O centro ativo das aconitases inclui um centro ferroenxofre (essencial para a catálise). Quando há baixa disponibilidade de ferro, a isoenzima citoplasmática perde o centro ferroenxofre e a atividade de aconitase: a apoproteína resultante exibe uma função diferente, a capacidade de ligar- se a RNA, regulando a síntese de proteínas envolvidas no metabolismo do ferro. A aconitase é um exemplo clássico de contradição do dogma: um gene → uma proteína → uma função. A isocitrato desidrogenase promove a oxidação de isocitrato a αcetoglutarato, com redução de NAD+ e liberação de CO2. No citosol e nas mitocôndrias das células de eucariotos, existem isoenzimas da isocitrato desidrogenase que utilizam NADP+ como coenzima e cuja função seria realmente produzir NADPH, um importante agente redutor utilizado em processos celulares antioxidantes e em sínteses redutoras. O αcetoglutarato é transformado em succinil-CoA, graças à atuação do complexo αcetoglutarato desidrogenase, semelhante ao complexo piruvato desidrogenase quanto à estrutura e ao mecanismo de reação. Trata-se, em ambos os casos, da descarboxilação oxidativa de um αcetoácido (piruvato ou αcetoglutarato) e ligação do grupo remanescente (acetila ou succinila) à coenzima A, formando um tioéster (rico em energia), com participação de TPP, ácido lipoico, FAD e NAD+, que é reduzido a NADH. A seguir, succinil-CoA é convertida a succinato, acoplada à síntese de outro composto rico em energia, um nucleosídio trifosfato (NTP) a partir de um nucleosídio difosfato (NDP) e Pi; A reação é catalisada pela succinil- CoA sintetase (ou succinatoCoA ligase). Existem várias isoenzimas da 31 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo succinil-CoA sintetase que diferem quanto aos organismos onde são expressas e quanto à especificidade para os nucleotídeos sobre os quais atuam: permitem a formação de ATP a partir de ADP e Pi ou de GTP (guanosina trifosfato a partir de GDP (guanosina difosfato) e Pi. A succinil- CoA sintetase encontrada em plantas origina ATP; Nas bactérias, dependendo da espécie considerada, pode-se formar ATP ou GTP, ou ambos; Em mamíferos, incluindo os seres humanos, as duas isoenzimas são expressas e as suas quantidades relativas variam segundo o tecido. O GTP pode ser utilizado em reações dele dependentes, ou pode transferir um grupo fosfato ao ADP, produzindo ATP, por ação da nucleosídio difosfato quinase. A próxima reação é catalisada pela única enzima do ciclo de Krebs que é parte integrante da membrana interna da mitocôndria; As demais estão em forma solúvel na matriz mitocondrial. Trata-se de uma flavoproteína, a succinato desidrogenase, também denominada succinato ubiquinona oxidação redução ou Complexo II da cadeia respiratória. Na primeira etapa da reação, o succinato é oxidado a fumarato e o FAD é reduzido a FADH2. FAD, diferentemente de NAD+, ligase covalentemente à enzima, consistindo em um grupo prostético. Os elétrons e prótons do FADH2 são transferidos para a ubiquinona ou coenzima Q (CoQ), este sim, um composto que se difunde livremente na bicamada lipídica da membrana interna da mitocôndria. Ainda assim, considerasse FADH2 como um produto do ciclo de Krebs, e de outras vias metabólicas que incluem flavoproteínas, para viabilizar o cômputo da quantidade de ATP sintetizado a partir de coenzimas reduzidas. O fumarato é hidratado a malato pela fumarase. A malato desidrogenase oxida o malato a oxaloacetato, reduzindo NAD+ e fechando o ciclo. Como o oxaloacetato é sempre regenerado ao final de cada volta, o ciclo de Krebs pode oxidar acetil-CoA continuamente, sem gasto efetivo de oxaloacetato. Em paralelo a esta oxidação são reduzidos 3 NAD+ e 1 FAD. Observa-se, pela descrição das reações que o compõem, que o ciclo de Krebs é uma via eminentemente oxidativa para a acetil-CoA: os átomos de carbono do seu grupo acetila são estequiometricamente convertidos a CO2. Esta oxidação tem consequências fundamentais para o metabolismo de mamíferos. Como a degradação de ácidos graxos gera unicamente acetil-CoA, que é completamente oxidada no ciclo de Krebs, os ácidos graxos são convertidos totalmente a CO2. Em razão desta conversão, os ácidos graxos não podem gerar glicose. A maioria das reações do ciclo de Krebs é reversível, mas o sentido do ciclo é determinado pela irreversibilidade das reações catalisadas pela citrato sintase e pela αcetoglutarato desidrogenase. Esta 32 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo última reação mantém baixas as concentrações de αcetoglutarato e, indiretamente, de isocitrato. Assim, apesar de o equilíbrio da reação catalisada pela aconitase favorecer acentuadamente a formação de citrato, este composto não se acumula na mitocôndria enquanto se processar a oxidação de isocitrato. GLICONEOGÊNESE A gliconeogênese, o processo pelo qual glicose é sintetizada a partir de precursores não-carboidratos, ocorre principalmente no fígado sob condições de jejum. Sob condições mais extremas de jejum prolongado, o córtex renal também pode produzir glicose. Na maior parte, a glicose produzida no córtex renal é utilizada na medula renal, mas uma parte pode entrar na corrente sanguínea. Iniciando com piruvato, a maioria das etapas da gliconeogênese é simplesmente o reverso daquelas da glicólise. De fato, essas rotas diferem apenas em três pontos. As enzimas envolvidas em catalisar essas etapas são reguladas de tal modo que glicólise ou gliconeogênese predomina, dependendo das condições fisiológicas. A maioria das etapas da gliconeogênese utiliza as mesmas enzimas que catalisam o processo de glicólise. O fluxo de carbono, é claro, ocorre na direção inversa. Três sequências de reações diferem das etapas correspondentes na glicólise. Elas envolvem a conversãode piruvato a fosfoenolpiruvato (PEP) e as reações que removem fosfato da frutose-1,6- bisfosfato para formar frutose-6-fosfato e da glicose-6-fosfato para formar glicose A conversão de piruvato a PEP é catalisada durante a gliconeogênese por uma série de enzimas em vez de uma única enzima utilizada para a glicólise. Cada uma das reações que remove fostato da frutose-1,6-fosfato e da glicose- 6-fosfato utiliza uma única enzima que difere das enzimas correspondentes da glicólise. Embora fosfato seja adicionado durante a glicólise por quinases, as quais utilizam trifosfato de adenosina (ATP), ele é removido durante a gliconeogênese por fosfatases que liberam Pi por reações de hidrólise. 1. CONVERSÃO DE PIRUVATO A FOSFOENOLPIRUVATO 2.CONVERSÃO DE FOSFOENOLPIRUVATO A FRUTOSE-1,6 BISFOSFATO 3. CONVERSÃO DE FRUTOSE-1,6-BISFOSFATO A FRUTOSE 4. CONVERSÃO DE GLICOSE-6-FOSFATO A GLICOSE Cadeia de Transporte de transporte de elétrons mitocondrial 33 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo Modelo quimiosmótico da síntese de ATP. O modelo quimiosmótico explica como a energia do transporte de elétrons para o O2 é transformada em ligação rica em energia, anidridofosfórica, do ATP (ver Figura 21.1). Basicamente, a cadeia de transporte de elétrons contém três grandes complexos de proteínas (I, III e IV) integrais da membrana interna da mitocôndria. Quando elétrons passam através desses complexos em uma série de reações de oxirredução, prótons são transferidos da matriz mitocondrial para o lado citosólico da membrana interna da mitocôndria. O bombeamento de prótons produz um gradiente eletroquímico (Δp) através da membrana composto pelo potencial de membrana e pelo gradiente de prótons. A ATPsintase contém um poro para prótons através da membrana interna da mitocôndria e uma “cabeça” que sobressai para a matriz. À medida que prótons são conduzidos para a matriz através do poro, eles alteram a conformação da cabeça, a qual libera ATP de um sítio e catalisa a formação de ATP a partir de ADP e Pi em outro sítio. Deficiências do transporte de elétrons. Nas células, a transferência completa de elétrons de NADH e FAD (2H) através da cadeia para o O2 é necessária para a produção de ATP. A interrupção da transferência em qualquer um dos complexos pode ter consequências patológicas. Fadiga pode resultar de anemia por deficiência de ferro, a qual diminui Fe para os centros Fe-S e citocromos. A citocromo c1-oxidase, a qual contém o sítio de ligação do O2, é inibida por cianeto. O DNA mitocondrial (mtDNA), o qual é herdado da mãe, codifica algumas das subunidades dos complexos da cadeia de transporte de elétrons e ATP-sintase. As doenças de Oxphos (fosforilação oxidativa) são causadas por mutações no DNA nuclear ou no mtDNA que diminuem a capacidade mitocondrial de fosforilação oxidativa. Regulação da fosforilação oxidativa. A velocidade da cadeia de transporte de elétrons é acoplada à velocidade de síntese de ATP pelo gradiente eletroquímico transmembrana. Quando o ATP é utilizado por processos que requerem energia e os níveis de ADP se elevam, a entrada de prótons através do poro da ATP-sintase produz mais ATP, e a cadeia de transporte de elétrons responde para restaurar o Δp. No desacoplamento, os prótons retornam para a matriz por um mecanismo que os desvia do poro da ATP- sintase, e energia é liberada como calor. Dissipação de prótons, desacopladores químicos e proteínas desacopladoras reguladas aumentam a taxa metabólica humana e a produção de calor. Mitocôndria e morte celular. Embora a fosforilação oxidativa seja um processo mitocondrial, a maioria da utilização de ATP ocorre fora da mitocôndria. O ATP sintetizado pela fosforilação oxidativa é ativamente transportado da matriz para o espaço intermembranas pela adenina-nucleotídeo- 34 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo translocase (ANT). As porinas formam canais de ânions voltagem- dependentes (VDAC, do inglês voltage-dependent anion channels) através da membrana externa da mitocôndria para a difusão de H2O, metabólitos de ATP e outros íons. Sob certos tipos de estresse, ANT, VDAC e outras proteínas formam canais abertos não-específicos conhecidos como poro de permeabilidade transitória mitocondrial. Esse poro está associado a eventos que levam rapidamente à morte celular necrótica. TRANSFERÊNCIA DE ELÉTRON DE NADH PARA O2 Na cadeia de transporte de elétrons, os elétrons doados por NADH ou FAD (2H) são passados seqüencialmente através de uma série de carreadores de elétrons que estão localizados na membrana interna da mitocôndria. Cada um dos componentes da cadeia de transporte de elétrons é oxidado à medida que recebe um elétron e, então, reduzido quando passa os elétrons para o próximo membro da cadeia. Do NADH, os elétrons são transferidos seqüencialmente através de NADH-desidrogenase (complexo I), CoQ (coenzima Q), o complexo citocromo b-c1 (complexo III), citocromo c e finalmente citocromo c-oxidase (complexo IV). A NADH-desidrogenase, o complexo citocromob-c1 e a citocromo c-oxidase são, cada um, complexos de múltiplas subunidades de proteínas integrais da membrana interna da mitocôndria. A CoQ é uma quinona lipossolúvel que não é ligada à proteína e está livre para difundir na membrana lipídica. Ela transporta elétrons do complexo I para o complexo III e é uma parte intrínseca da bomba de prótons para cada um desses complexos. O citocromo c é uma pequena proteína no espaço da membrana interna que transfere elétrons do complexo b-c1 para a citocromo-oxidase. O complexo terminal, citocromo c-oxidase, contém o sítio de ligação para o O2. Quando o O2 recebe elétrons da cadeia, ele é reduzido a H2O Tutoria 2 1. COMPREENDER A MORFOFISIOLOGIA DO SISTEMA MUSCULAR ESQUELÉTICO (ORGANIZAÇÃO, CARACTERÍSTICAS DAS MIFRIBILAS, SARCÔMERO, CONTRAÇÃO E CONTROLE NERVOSO); De acordo com o Guyton, O Sarcolema é a Membrana Delgada que Reveste a Fibra Muscular Esquelética. O sarcolema é a membrana celular da fibra muscular. Ele consiste em verdadeira membrana celular, chamada membrana plasmática, e com revestimento de fina camada de material polissacarídeo contendo muitas fibrilas colágenas delgadas. Em cada extremidade da fibra muscular, essa camada superficial do sarcolema 35 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo funde-se com uma fibra do tendão. As fibras do tendão, por sua vez, se agrupam em feixes para formar os tendões dos músculos que depois ligam os músculos aos ossos. Miofibrilas são Compostas por Filamentos de Actina e de Miosina. Cada fibra muscular contém centenas a milhares de Miofibrilas. Cada miofibrila é composta por cerca de 1.500 filamentos de miosina adjacentes e por 3.000 filamentos de actina, longas moléculas de proteínas polimerizadas responsáveis pelas contrações reais musculares. O disco Z, composto por proteína filamentosa diferente dos filamentos de actina e miosina cruza transversalmente toda a miofibrila e igualmente de forma transversa de miofibrila para miofibrila, conectando as miofibrilas umas às outras, por toda fibra muscular. Por essa razão, a fibra muscular, em sua espessura, apresenta faixas claras e escuras, como o fazem as miofibrilas individuais. Essas faixas dão aos músculos esqueléticos e cardíacos sua aparência estriada. O segmento da miofibrila (ou de toda a fibra muscular) situado entre dois discos Z sucessivos é referido como sarcômero. Moléculas Filamentosas de Titina mantêm os Filamentos de Miosina em seus Lugares. O posicionamento lado a lado dos filamentos de miosina e actina é mantido por meio de um grande número de moléculas filamentares da proteína chamada titina. Cada molécula de titina tem peso molecular de cerca de 3 milhões, o que faz dela a maior molécula de proteína no corpo. Também por ser filamentar é muito flexível. Essa flexibilidade das moléculas de titina atua como arcabouço, que mantém os filamentos de miosina e actina em seus lugares, de modo quea maquinaria contrátil possa entrar em ação. Uma extremidade da molécula de titina é elástica, estando fixada ao disco Z, atuando como mola e variando seu comprimento conforme o sarcômero contrai e relaxa. A outra parte da molécula de titina a ancora nos filamentos grossos de miosina. A própria molécula de titina também parece servir como molde para a formação inicial de partes dos filamentos contráteis do sarcômero, em especial para os filamentos de miosina. O Sarcoplasma é o Líquido Intracelular entre as Miofibrilas. As inúmeras miofibrilas de cada fibra muscular ficam em suspensão, lado a lado, na fibra muscular. Os espaços entre as miofibrilas são preenchidos pelo líquido intracelular conhecido como sarcoplasma, contendo grande quantidade de potássio, magnésio e fosfato, além de múltiplas enzimas proteicas. Também está presente nessa substância um número imenso de mitocôndrias, situadas paralelas às miofibrilas. Essas mitocôndrias fornecem às miofibrilas, que se contraem, grande quantidade de energia, na forma de trifosfato de adenosina (ATP), formada pelas 36 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo mitocôndrias. O Retículo Sarcoplasmático é o Retículo Endoplasmático Especializado do Músculo Esquelético. Também no sarcoplasma, circundando as miofibrilas de cada fibra muscular, existe retículo extenso, referido como retículo sarcoplasmático. Esse retículo tem organização especial que é extremamente importante para regular o armazenamento, a liberação e a recaptação de cálcio e, portanto, a contração muscular. Os tipos de fibras musculares com contração muito rápida apresentam retículos sarcoplasmáticos especialmente muito extensos. De acordo com o Guyton, em relação a contração muscular. O início e a execução da contração muscular ocorrem nas seguintes etapas: 1. Os potenciais de ação cursam pelo nervo motor até suas terminações nas fibras musculares. 2. Em cada terminação, o nervo secreta pequena quantidade da substância neurotransmissora acetilcolina. 3. A acetilcolina age em área local da membrana da fibra muscular para abrir múltiplos canais de cátion, “regulados pela acetilcolina”, por meio de moléculas de proteína que flutuam na membrana. 4. A abertura dos canais regulados pela acetilcolina permite a difusão de grande quantidade de íons sódio para o lado interno da membrana das fibras musculares. Essa ação causa despolarização local que, por sua vez, produz a abertura de canais de sódio, dependentes da voltagem, que desencadeia o potencial de ação na membrana. 5. O potencial de ação se propaga por toda a membrana da fibra muscular, do mesmo modo como o potencial de ação cursa pela membrana das fibras nervosas. 6. O potencial de ação despolariza a membrana muscular, e grande parte da eletricidade do potencial de ação flui pelo centro da fibra muscular. Aí, ela faz com que o retículo sarcoplasmático libere grande quantidade de íons cálcio armazenados nesse retículo. 7. Os íons cálcio ativam as forças atrativas entre os filamentos de miosina e actina, fazendo com que deslizem ao lado um do outro, que é o processo contrátil. 37 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo 8. Após fração de segundo, os íons cálcio são bombeados de volta para o retículo sarcoplasmático pela bomba de Ca++ da membrana, onde permanecem armazenados até que novo potencial de ação muscular se inicie; essa remoção dos íons cálcio das miofibrilas faz com que a contração muscular cesse. Quando o músculo se contrai contra uma carga, ele realiza trabalho. Isso significa que a energia é transferida do músculo para a carga externa, par levantar um objeto até a maior altura ou para superar a resistência ao movimento. Em termos matemáticos, o trabalho é definido pela seguinte equação: T = C × D na qual T é o rendimento do trabalho, C é a carga, e D é a distância do movimento contra a carga. A energia necessária para se realizar trabalho é derivada de reações químicas nas células musculares durante a contração, conforme descrito nas próximas seções. TRÊS FONTES DE ENERGIA PARA A CONTRAÇÃO MUSCULAR A maior parte de energia necessária para a contração muscular é utilizada para ativar o mecanismo de ir para diante (walk-along), pelo qual as pontes cruzadas puxam os filamentos de actina, mas pequenas quantidades são necessárias para (1) o bombeamento dos íons cálcio do sarcoplasma para o retículo sarcoplasmático quando cessa a contração; e (2) o bombeamento dos íons sódio e potássio, através da membrana da fibra muscular, para manter o ambiente iônico apropriado para a propagação do potencial de ação das fibras musculares. A concentração de ATP na fibra muscular em torno de 4 milimolar é suficiente para manter a contração total por, no máximo, 1 a 2 segundos. O ATP é clivado para formar ADP, o que transfere a energia das moléculas de ATP para o mecanismo da contração da fibra muscular. Então, o ADP é refosforilado para formar novo ATP, em outra fração de segundo, permitindo que o músculo continue sua contração. Existem muitas fontes de energia para essa refosforilação. A primeira fonte de energia, que é utilizada para reconstituir o ATP, é a substância fosfocreatina, que transporta uma ligação fosfato de alta energia similar às ligações do ATP. As ligações fosfato de alta energia da fosfocreatina têm teor de energia livre pouco maior que cada ligação do ATP. Assim, a fosfocreatina é clivada instantaneamente, e sua energia liberada causa a ligação de novo íon fosfato ao ADP, para reconstituir o ATP. Entretanto, a quantidade total de fosfocreatina na fibra muscular é também pequena — 38 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo apenas cerca de cinco vezes maior que a quantidade de ATP. Por isso, a energia combinada do ATP armazenado e da fosfocreatina, no músculo, é capaz de manter a contração muscular máxima por apenas 5 a 8 segundos. A segunda fonte importante de energia, que é utilizada para reconstituir o ATP e a fosfocreatina, é a “glicólise” do glicogênio previamente armazenado nas células musculares. O rápido desdobramento enzimático do glicogênio a ácidos pirúvico e lático libera energia que é utilizada para converter o ADP em ATP; o ATP pode, então, ser utilizado diretamente para energizar contrações musculares adicionais e também para reconstituir as reservas de fosfocreatina. A importância desse mecanismo de glicólise é dupla. Primeiro, as reações glicolíticas podem ocorrer mesmo na ausência de oxigênio, de modo que a contração muscular pode ser mantida por muitos segundos e, muitas vezes, por mais do que 1 minuto, mesmo quando o oxigênio liberado pelo sangue não estiver disponível. Segundo a velocidade de formação do ATP pelo processo glicolítico é cerca de 2,5 vezes mais rápida do que a formação do ATP, em resposta à reação dos nutrientes celulares com o oxigênio. Entretanto, como muitos produtos finais da glicólise se acumulam nas células musculares, a glicólise perde também sua capacidade de sustentar a contração muscular máxima após 1 minuto. A terceira e última fonte de energia é o metabolismo oxidativo, o que significa combinar o oxigênio com os produtos finais da glicólise e com vários outros nutrientes celulares, para liberar ATP. Mais de 95% de toda a energia, usada pelos músculos para a contração mantida por longo tempo, são derivados do metabolismo oxidativo. Os nutrientes alimentares consumidos são carboidratos, gorduras e proteínas. Para a atividade muscular máxima extremamente longa — por período de várias horas —, a maior proporção de energia, de longe, vem da gordura, mas, por período de 2 a 4 horas, a metade da energia vem dos carboidratos armazenados. Além disso, a importância dos diferentes mecanismos de liberação de energia, durante o desempenho de diversos esportes. Muitas características da contração muscular podem ser demonstradas pela produção de um abalo muscular (muscletwitch). Este pode ser produzido por meio da excitação elétrica instantânea do nervo muscular ou por breve estímulo elétrico, originando contração breve e abrupta que dura fração de segundo. Em uma Tensão Constante as Contrações Isométricas não Encurtam o Músculo, enquanto as Contrações Isotônicas Encurtam o Músculo. A contração muscular é dita isométrica quando o músculo não 39 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo encurta durante contração, e isotônica quando encurta, mas sua tensão permanece constante por toda a contração. No sistema isométrico, o músculo se contrai contra um transdutor de força sem que ocorra encurtamento do músculo. No sistema isotônico, o músculo se encurta contra carga fixa, que se ilustra na parte superior da figura, onde se pode observar o músculo levantando peso. As características das contrações isotônicas dependem da carga contra a qual o músculo se contrai, além da inércia da carga. Entretanto, o sistema isométrico registra as variações da força da própria contração muscular independentemente da inércia da carga. Por isso, o sistema isométrico é comumente mais utilizado quando se comparam as características funcionais dos diferentes tipos de músculo. Cada músculo do corpo é composto por mistura das chamadas fibras musculares rápidas e lentas, além das fibras com diferentes gradações entre esses dois extremos. Os músculos que reagem rapidamente, como o tibial anterior, são compostos, em sua maior parte, por fibras “rápidas” com apenas pequeno número da variedade lenta. Inversamente, músculos que respondem lentamente, mas com contração prolongada, como o sóleo, são compostos, na maior parte, por fibras “lentas”. As diferenças entre esses dois tipos de fibras são descritas nas seções seguintes. Fibras Lentas (Tipo 1, Músculo Vermelho). As características das fibras lentas são as seguintes: 1. As fibras são menores que as fibras rápidas. 2. As fibras lentas são também inervadas por fibras nervosas menores. 3. Comparadas às fibras rápidas, as fibras lentas têm um sistema de vascularização mais extenso e mais capilares, para suprir quantidades extras de oxigênio. 4. As fibras lentas têm números muito elevados de mitocôndrias, também para dar suporte aos altos níveis de metabolismo oxidativo. 5. As fibras lentas contêm grande quantidade de mioglobina, proteína que contém ferro, semelhante à hemoglobina nas hemácias. A mioglobina se combina com o oxigênio e o armazena até que ele seja necessário, o qual acelera também, notavelmente, o transporte de oxigênio para as mitocôndrias. A mioglobina dá ao músculo lento sua aparência avermelhada e o nome de músculo vermelho. 40 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo Fibras Rápidas (Tipo 2, Músculo Branco). As características das fibras rápidas são: 1. As fibras rápidas são grandes para obter uma grande força de contração. 2. Existe um retículo sarcoplasmático muito extenso, para a rápida liberação dos íons cálcio com o objetivo de desencadear a contração. 3. Estão presentes grandes quantidades de enzimas glicolíticas, para a rápida liberação de energia pelo processo glicolítico. 4. As fibras rápidas têm um suprimento de sangue menos extenso que as fibras lentas, porque o metabolismo oxidativo tem importância secundária. 5. As fibras rápidas têm menor número de mitocôndrias que as fibras lentas, também porque o metabolismo oxidativo é secundário. Ao déficit de mioglobina vermelha no músculo rápido damos o nome de músculo branco. Tônus do Músculo Esquelético. Mesmo quando os músculos estão em repouso, em geral eles ainda apresentam certa tensão. Essa tensão é conhecida como tônus muscular. Como normalmente a fibra muscular esquelética não se contrai sem que ocorra um potencial de ação para estimulá-la, o tônus do músculo esquelético resulta inteiramente de baixa frequência de impulsos nervosos vindos da medula espinal. Esses impulsos nervosos, por sua vez, são controlados, em parte, por sinais transmitidos pelo cérebro para o motoneurônio anterior da medula espinal, e, em parte, por sinais originados nos fusos musculares, localizados no próprio músculo. 2. ELUCIDAR O METABOLISMO CELULAR DO MUSCULO ESQUELÉTICO EM CONDIÇOES AERÓBICAS E NÃO AERÓBICAS (GLICÓLISE, PRODUÇÃO DE LACTATO, GLICOGENÓLISE, ATPCP); ANITA MARZZOCO A quantidade de ATP disponível em músculos esqueléticos só é capaz de sustentar 1 a 2 segundos de contração intensa. Um reservatório adicional de energia é constituído por creatina fosfato, presente em concentrações 3 a 5 vezes maiores do que as de ATP. A creatina fosfato é produzida nos períodos de repouso, por fosforilação de creatina à custa de ATP, catalisada pela creatina quinase. A reação é prontamente reversível e, durante a atividade muscular, processa-se no sentido da regeneração de ATP, para sustentar a contração. A creatina é sintetizada a partir de arginina, glicina e Sadenosilmetionina. A creatina 41 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo fosfato, lenta e espontaneamente, é convertida a creatinina, que não tem nenhum destino metabólico, sendo liberada na circulação e eliminada na urina. Como a quantidade excretada por dia em um indivíduo hígido é constante, por ser proporcional à massa muscular, a dosagem de creatinina na urina constitui um indicador sensível da função renal. ATP e creatina fosfato constituem o suprimento imediato de energia para o trabalho muscular, suficiente para esforços máximos e pouco duradouros, de 5 a 8 segundos. Trata-se de um processo estritamente anaeróbio, fornecendo a maior parte da energia para o desempenho de atividades como corrida de 100 m rasos, natação por 25 m, levantamento de peso, saque no tênis, salto em altura, chute no futebol etc. A continuidade do trabalho muscular exigirá energia derivada de outras fontes. O próximo suprimento é a glicose, proveniente da circulação e do glicogênio muscular. No exercício, a entrada do açúcar nas células musculares é promovida pela proteína quinase dependente de AMP (AMPK) e a degradação do glicogênio, estimulada pela mesma liberação de Ca2+ que desencadeia a contração, e ainda por adrenalina e AMP, que têm seus níveis aumentados. A glicose 6fosfato resultante de fosforilação da glicose sanguínea e da degradação do glicogênio é metabolizada pela glicólise, que também está ativada produzindo ATP para sustentar a contração muscular. A via glicolítica é inicialmente anaeróbia, com produção de lactato, já que a reserva muscular de oxigênio (ligado à mioglobina) é pequena e a oferta de oxigênio pela circulação não aumenta de forma imediata e proporcional à demanda muscular de ATP. De fato, quando um músculo passa do repouso para o exercício intenso, o aporte de oxigênio aumenta 25 vezes, enquanto a quantidade de ATP hidrolisado chega a ser 120 vezes maior. Nenhum outro tecido apresenta variações tão grandes e abruptas no gasto de ATP. A degradação anaeróbia da glicose constitui uma alternativa imediata para a hipóxia relativa no início de um esforço extenuante, mas não pode continuar indefinidamente, sendo capaz de sustentar exercícios intensos com duração de 1 a 2 min. É a fonte principal de energia para corridas de 200, 400 ou 1.000 m rasos, natação de 100 a 200 m, corridas intermitentes (arrancadas) no futebol etc. À medida que os sistemas respiratório e circulatório são ativados e o suprimento de oxigênio cresce, a contribuição da glicólise anaeróbia para o fornecimento de energia para a contração vai sendo substituída pela oxidação aeróbia, completa, da glicose. Paralelamente, o fornecimento de ácidos graxos para o sistema muscular aumenta, em virtude da ação da adrenalina sobre o tecido adiposo. A oxidação dos ácidos graxos assume importância crescente, à medida que a atividade física se prolonga e a reserva de glicogênio diminui. Acima de 2 a 42 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo 3 min de esforço vigoroso, o trabalho muscular contínuoé feito, principalmente, à custa de ATP obtido por oxidação aeróbia dos substratos disponíveis. Incluem-se aqui, as corridas de 1.500 m ou mais, ciclismo e esqui competitivos, maratona etc. Utilização de Substrato Energético Durante o Exercício A velocidade de utilização de ATP no músculo esquelético durante o exercício pode ser até 100 vezes maior do que aquela em repouso. Assim, as rotas de oxidação de substratos energéticos devem ser rapidamente ativadas durante o exercício para responder a uma demanda muito maior de ATP. O ATP e o fosfato de creatina podem ser esgotados rapidamente se não forem continuamente regenerados. A síntese de ATP ocorre pela glicólise (aeróbica ou anaeróbica) e pela fosforilação oxidativa (que requer o suprimento constante de oxigênio). A glicólise anaeróbica é especialmente importante como fonte de ATP em três condições. A primeira é durante o período inicial do exercício, antes do aumento do fluxo sanguíneo estimulado pelo exercício e do começo da oferta de substratos e oxigênio, permitindo que o processo aeróbico ocorra. A segunda condição na qual a glicólise anaeróbica é importante é no exercício realizado por músculos contendo predominantemente fibras musculares glicolíticas de contração rápida, pois essas fibras possuem baixa capacidade oxidativa e geram a maioria do seu ATP pela glicólise. A terceira condição é durante a atividade extenuante, quando a necessidade de ATP excede a capacidade oxidativa do tecido e a demanda aumentada de ATP é satisfeita pela glicólise anaeróbica. 1. GLICÓLISE ANAERÓBICA NO INÍCIO DO EXERCÍCIO Durante o repouso, a maioria do ATP requerido por todos os tipos de fibras musculares é obtida do metabolismo aeróbico. Entretanto, assim que o exercício começa, a demanda de ATP aumenta. Se não fosse regenerada, a quantidade de ATP presente no músculo esquelético poderia sustentar o exercício por apenas 1,2 segundo, e a de fosfocreatina, por apenas 9 segundos. O suprimento de sangue para o músculo em exercício demora mais de 1 minuto para aumentar de forma significativa devido à vasodilatação, e, portanto, o metabolismo oxidativo da glicose e de ácidos graxos vindos do sangue não pode aumentar rapidamente no início do exercício. Assim, nos primeiros minutos do exercício, a conversão de glicogênio em lactato fornece uma porção considerável do requerimento de ATP. 43 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo 2. GLICÓLISE ANAERÓBICA NA FIBRA GLICOLÍTICA DE CONTRAÇÃO RÁPIDA TIPO IIB Embora os seres humanos não possuam nenhum músculo que contenha apenas esse tipo de fibra muscular, muitos animais o possuem. Exemplos disso são os músculos abdominais do peixe e o músculo peitoral de aves de caça (carne branca de peru). Esses músculos se contraem de forma vigorosa e rápida (a contração rápida se refere ao tempo de pico de tensão), mas apenas por períodos curtos. Assim, eles são usados em atividades como o vôo nos pássaros e o sprinting e levantamento de peso em seres humanos. Em tais músculos, a capacidade glicolítica é alta, pois as enzimas da glicólise estão presentes em grandes quantidades (assim, a Vmáx [velocidade máxima] global é grande). Os níveis de hexoquinase, entretanto, são baixos, e, assim, pouca glicose circulante é utilizada. Os níveis baixos de hexoquinase nas fibras glicolíticas de contração rápida previnem que o músculo drene a glicose sangüínea para satisfazer sua alta demanda por ATP, evitando, assim, a hipoglicemia. A glicose-6-fosfato, formada a partir da glicogenólise, inibe ainda mais a hexoquinase. Os tecidos contam com os estoques de substratos energéticos endógenos (glicogênio e fosfato de creatina) para gerar ATP, seguindo a rota da degradação do glicogênio a glicose-1-fosfato, a conversão da glicose-1-fosfato em glicose-6-fosfato e o metabolismo da glicose-6-fosfato a lactato. Assim, a glicólise anaeróbica é a principal fonte de ATP durante o exercício nessas fibras musculares. 3. GLICÓLISE ANAERÓBICA A PARTIR DE GLICOGÊNIO A glicogenólise e a glicólise durante o exercício são ativadas conjuntamente, pois tanto a PFK-1 (a enzima limitante da glicólise) quanto a glicogênio- fosforilase b (a forma inibida da glicogênio-fosforilase) são alostericamente ativadas por AMP. O AMP é um ativador ideal, pois sua concentração normalmente é mantida baixa pelo equilíbrio da adenilato-quinase [2 ADP ↔ AMP + ATP] (também chamada de mioquinase no músculo). Assim, sempre que os níveis de ATP diminuem levemente, a concentração de AMP aumenta muitas vezes. Começando com uma molécula de glicose-6-fosfato derivada da glicogenólise, três moléculas de ATP são produzidas na glicólise anaeróbica comparadas com 32 a 34 na glicólise aeróbica. Para compensar a baixa produção de ATP da glicólise anaeróbica, as fibras glicolíticas, de contração rápida possuem um conteúdo muito maior de enzimas glicolíticas e a velocidade de utilização da glicose-6-fosfato é mais de 12 vezes mais rápida do que nas fibras de contração lenta. A fadiga muscular durante o exercício em geral resulta da diminuição do pH do tecido para cerca de 6,4. O metabolismo aeróbico, assim como o anaeróbico, diminui o 44 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo pH, e tanto a diminuição do pH quanto a produção de lactato podem causar dor. A fadiga metabólica também pode ocorrer quando o glicogênio muscular for esgotado. Os estoques de glicogênio muscular são consumidos em menos de 2 minutos de exercício anaeróbico. Na realização de flexões, isso pode ser provado. Os músculos utilizados em flexões, um exercício de alta força, são principalmente as fibras glicolíticas de contração rápida. Contando o tempo desde o início das flexões, não importa quão bem treinado o indivíduo esteja, o indivíduo provavelmente não conseguirá fazer flexões por mais de 2 minutos. Além disso, sentirá dor assim que o pH do músculo diminuir conforme a produção de lactato continua. A regulação do metabolismo do glicogênio muscular é complexa. Deve-se lembrar que a degradação de glicogênio no músculo não é sensível ao glucagon (os músculos não possuem receptores de glucagon), e, assim, há mudanças muito pequenas nos estoques de glicogênio muscular durante o jejum noturno ou de longa duração se o indivíduo permanecer em repouso. A glicogênio-sintase é inibida durante o exercício, mas pode ser ativada no músculo em repouso pela liberação de insulina após uma refeição rica em carboidratos. Ao contrário da forma hepática da glicogênio-fosforilase, a isoenzima muscular contém um sítio alostérico para ligação de AMP. Quando o AMP se liga na glicogênio-fosforilase b muscular, a enzima é ativada mesmo que não esteja fosforilada. Então, assim que o músculo começa a trabalhar e a miosina-ATPase hidrolisa os estoques existentes de ATP a ADP, o AMP começará a se acumular (devido à reação da mioquinase), e a degradação do glicogênio será aumentada. A ativação da glicogênio-fosforilase b muscular é ainda mais aumentada pela liberação de Ca2+ do retículo sarcoplasmático, que ocorre quando os músculos são estimulados a se contraírem. O aumento do Ca2+ sarcoplasmático também leva à ativação alostérica da glicogênio- fosforilase-quinase (pela ligação à subunidade calmodulina da enzima), que fosforila a glicogênio-fosforilase b muscular, ativando-a plenamente. Finalmente, durante o exercício intenso, a liberação de adrenalina estimula a ativação da adenilato-ciclase nas células musculares, ativando, assim, a proteína-quinase AMPc-dependente. A proteína-quinase A fosforila e ativa plenamente a glicogênio fosforilase- quinase de tal forma que pode ocorrer uma ativação persistente da glicogênio-fosforilase muscular. O sinal hormonal é mais lento do que os eventos de ativação iniciais desencadeados por AMP e cálcio. 4. GLICÓLISE ANAERÓBICA DURANTE O EXERCÍCIO DE ALTA INTENSIDADE Assim que o exercício começa, a cadeia transportadora de elétrons, o ciclo do TCA e a oxidação de ácidos graxos são ativados pelo aumentode ADP e pela diminuição de ATP. A piruvato-desidrogenase permanece em seu 45 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo estado não-fosforilado ativo enquanto o NADH puder ser reoxidado na cadeia transportadora de elétrons e a acetil-CoA puder entrar no ciclo do TCA. Entretanto, mesmo que o metabolismo mitocondrial esteja trabalhando em sua capacidade máxima, é necessário ATP adicional para o exercício muito vigoroso de alta intensidade. Quando isso ocorre, o ATP não é produzido de forma sufi cientemente rápida para satisfazer as necessidades do músculo, e o AMP começa a se acumular. O aumento dos níveis de AMP ativa a PFK-1 e a glicogenólise, fornecendo, assim, o ATP adicional a partir da glicólise anaeróbica (o piruvato adicional produzido, em vez de entrar na mitocôndria, é convertido em lactato, de modo que a glicólise possa continuar). Assim, sob essas condições, a maioria do piruvato formado pela glicólise entra no ciclo do TCA, enquanto o restante é reduzido a lactato para regenerar NAD+ para a sua utilização contínua na glicólise. 5. DESTINO DO LACTATO LIBERADO DURANTE O EXERCÍCIO O lactato que é liberado pelo músculo esquelético durante o exercício pode ser utilizado pelos músculos esqueléticos em repouso ou pelo coração, um músculo com uma grande quantidade de mitocôndrias e uma capacidade oxidativa muito alta. Em tais músculos, a razão NADH/NAD+ será menor do que a dos músculos esqueléticos em exercício, e a reação da lactato- desidrogenase acontecerá na direção da formação do piruvato. O piruvato gerado é, então, convertido em acetil-CoA e oxidado no ciclo do TCA, produzindo energia pela fosforilação oxidativa. O segundo destino potencial do lactato é o s eu retorno ao fígado, pelo ciclo de Cori, onde será convertido em glicose. 3. DESCREVER AS TEORIAS DA FADIGA MUSCULAR; De acordo com o Guyton, contrações musculares fortes, perdurando por período prolongado, levam ao bem conhecido estado de fadiga muscular. Estudos em atletas mostraram que a fadiga muscular aumenta em proporção quase direta com a intensidade da depleção do glicogênio muscular. Assim, os efeitos da fadiga surgem, em grande parte, da incapacidade contrátil e do processo metabólico das fibras musculares de continuar a manter a mesma quantidade de trabalho. Entretanto, experimentos mostraram que também a transmissão dos sinais nervosos pela junção neuromuscular, pode diminuir pelo menos por pequena quantidade, após intensa e prolongada atividade muscular e, desse modo, 46 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo diminuir a contração muscular. A interrupção do fluxo sanguíneo, durante a contração do músculo, leva à fadiga muscular quase total em 1 a 2 minutos, devido à perda do suprimento de nutrientes, especialmente de oxigênio. De acordo com Silva e colaboradores, A fadiga muscular (FM), definida como qualquer redução na capacidade do sistema neuromuscular de gerar força, é um fenômeno comum em esportes de resistência e é uma experiência usual nas atividades diárias. O início da atividade muscular voluntária envolve muitos processos que começam com o controle cortical no cérebro e terminam com a formação das pontes cruzadas dentro da fibra muscular. A fadiga muscular pode, portanto, ocorrer como resultado da falha de qualquer um dos processos envolvidos na contração muscular. Historicamente, os fatores potenciais envolvidos no desenvolvimento da fadiga dividem-se em duas categorias: fatores centrais, os quais devem causar a fadiga pelo distúrbio na transmissão neuromuscular entre o SNC e a membrana muscular, e fatores periféricos, que levariam a uma alteração dentro do músculo. Outra característica da fadiga é o fato dela ser dependente da tarefa, isto é, variam bastante suas causas e seu comportamento de acordo com a forma pela qual é induzida. A fadiga muscular é considerada fator que predispõe a ocorrência de lesões, tal como a entorse de tornozelo. Na maioria dos casos em que ocorre esse tipo de lesão, o mecanismo causador é um movimento de inversão do tornozelo. Os responsáveis por impedir esse estresse nocivo à articulação são as estruturas que restringem estaticamente (fáscia, cápsula, ligamento) e dinamicamente (músculos) a articulação. Os músculos fibulares curto e longo são as primeiras e mais importantes estruturas musculares que atuam na prevenção desse tipo de entorse. De acordo com Ascensão e colaboradores, a fadiga muscular tem-se revelado como um dos tópicos centrais na investigação em fisiologia do exercício. Uma das principais características do sistema neuromuscular é a sua capacidade adaptativa crónica, uma vez que quando sujeito a um estímulo como a imobilização, o treino ou perante o efeito do envelhecimento, pode adaptar-se às exigências funcionais. Da mesma forma, consegue adaptar-se a alterações agudas, tais como as associadas ao exercício prolongado ou intenso, sendo uma das mais conhecidas o fenómeno habitualmente referido como fadiga muscular. A incapacidade do músculo esquelético gerar elevados níveis de força muscular ou manter esses níveis no tempo designa-se por fadiga neuromuscular. Relativamente 47 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo à definição do conceito de fadiga, importa salientar a diversidade de trabalhos que, embora intitulados e expressamente associados à fadiga, se afastam claramente do conceito clássico de fadiga, ou seja, da incapacidade de produzir e manter um determinado nível de força ou potência musculares durante a realização do exercício. De facto, alguns autores têm associado o termo “fadiga” a inúmeras manifestações de incapacidade funcional evidenciadas quer durante o exercício (máximo ou sub- -máximo), quer com carácter retardado relativamente à realização do mesmo. Deste modo, ao longo desta revisão utilizaremos está designação de forma indiscriminada, não só para nos referirmos aos estudos claramente relacionados com o conceito tradicional de fadiga expresso, mas também a outras formas de manifestação da mesma. Adicionalmente, as manifestações da fadiga têm sido associadas ao declínio da força muscular gerada durante e após exercícios submáximos e máximos, à incapacidade de manter uma determinada intensidade de exercício no tempo, à diminuição da velocidade de contracção e ao aumento do tempo de relaxamento musculares. A fadiga tem sido, igualmente, sugerida como um mecanismo de protecção contra possíveis efeitos deletérios da integridade da fibra muscular esquelética. De facto, a fadiga muscular pode resultar de alterações da homeostasia no próprio músculo esquelético, ou seja, o resultado do decréscimo da força contráctil independentemente da velocidade de condução do impulso neural, habitualmente designada de fadiga com origem predominantemente periférica. Pode também ser o resultado de alterações do input neural que chega ao músculo, traduzida por uma redução progressiva da velocidade e frequência de condução do impulso voluntário aos motoneurónios durante o exercício, normalmente denominada de fadiga com origem predominantemente central. Adicionalmente, importa salientar que a fadiga muscular depende do tipo, duração e intensidade do exercício, da tipologia de fibras musculares recrutadas, do nível de treino do sujeito e das condições ambientais de realização do exercício. As alterações do pH, da temperatura e do fluxo sanguíneo, a acumulação de produtos do metabolismo celular, particularmente dos resultantes da hidrólise do ATP (ADP, AMP, IMP, Pi , amónia), a perda da homeostasia do ion Ca2+, o papel da cinética de alguns ions nos meios intra e extra-celulares nomeadamente, o K+, Na+, Cl- , Mg2+, a lesão muscular, principalmente a induzida pelo exercício com predominância de contracções excêntricas e o stress oxidativo têm sido algumas das causas sugeridas para a fadiga muscular. pH, fosfato, lactato e fadiga muscular 48 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo Outro dos factores habitualmente discutidocomo possível agente de fadiga é a acidose metabólica induzida pelo exercício, com especial destaque para a resultante do exercício de curta duração e de alta intensidade. A maioria dos efeitos do ácido láctico no desenvolvimento da fadiga muscular resulta do aumento da concentração de iões H+ e consequente diminuição do pH, decorrente da rápida dissociação do ácido láctico. Contudo, apesar da fadiga ser muitas vezes associada ao decréscimo do pH, a literatura é controversa relativamente à existência de uma relação directa entre a diminuição do pH intracelular e a diminuição da força muscular, assim como da influência dos íons lactato e H+ per se na fadiga muscular. Efetivamente, têm sido realizados alguns estudos para determinar a influência do aumento das concentrações, quer de H+ quer de lactato, na funcionalidade dos diversos processos e estruturas celulares implicadas na contração muscular e, consequentemente, no desenvolvimento da força. Balog e Fitts, não encontraram uma relação clara de causa-efeito entre os baixos valores de pH intracelulares e a despolarização dos túbulos T durante a fadiga de fibras musculares de anfíbios. Por outro lado, Hargreaves et al. atribuíram ao H+, entre outros agentes (CP, funcionalidade do retículo), a causa da fadiga muscular num exercício intermitente de intensidade elevada. Bangsbo et al. referem que a diminuição do pH não se apresenta como a única causa da fadiga em exercícios de intensidade elevada e curta duração, atribuindo à acumulação de K+ intersticial um importante papel no desenvolvimento da fadiga. Efetivamente, modelos e metodologias experimentais distintos utilizados nos diferentes estudos parecem justificar a diversidade dos resultados obtidos. Diversos estudos referem que a fadiga muscular se correlaciona melhor com a concentração de H2PO4 - (forma protonada do Pi) do que com o pH, sendo sugerido que a influência do H+ no decréscimo da produção de força se poderá dever ao consequente aumento das concentrações de H2PO4. A utilização de técnicas de ressonância magnética nuclear tem permitido estudar in vivo a relação entre as alterações metabólicas musculares e o declínio da força durante o exercício, ou seja, a fadiga muscular. Através da utilização das referidas técnicas, Degroot et al. verificaram correlações de 0.76, 0.82, 0.84 entre a força máxima de contração voluntária e as concentrações musculares de H+, Pi e H2PO4, respectivamente. Deste modo, embora considerando o H+ como um importante mediador da fadiga muscular, os autores atribuíram ao Pi e ao H2PO4 - as causas principais da redução da força. Cooke e Pate verificaram uma diminuição da tensão máxima isométrica das fibras 49 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo musculares isoladas como resultado do aumento das concentrações de Pi, bem como da variação da forma diprotonada do Pi em função do pH (7.0 e 6.2). Por outro lado, resultados de estudos in vivo suportam a hipótese de, durante a fadiga, o Pi poder ser um importante modelador endógeno da libertação de Ca2+ pelos canais do RS no músculo esquelético. Continuação da síntese do obj 1, do problema 2 Síntese do objetivo 1 Os músculos esqueléticos são classificados como músculos estriados, devido ao padrão alternado de bandas claras e escuras observado na microscopia óptica. Os músculos esqueléticos, em geral, são descritos como músculos de contração voluntária. Os músculos esqueléticos podem contrair-se independentemente do controle consciente. Os músculos esqueléticos são singulares, pois contraem apenas em resposta ao sinal proveniente de um neurônio motor somático. Além disso, a contração não é influenciada diretamente por hormônios. Os músculos esqueléticos constituem a maior parte da musculatura corporal e equivalem a cerca de 40% do peso corporal total. Eles são responsáveis pelo posicionamento e o movimento do esqueleto, como seu próprio nome sugere. Em geral, os músculos esqueléticos estão ligados aos ossos pelos tendões, estruturas constituídas por colágeno. A inserção é a porção mais distal ou mais móvel do músculo. Quando os ossos fixados a um músculo estão conectados por uma articulação móvel, a contração muscular movimenta o esqueleto. Um músculo é chamado de flexor se a porção central dos ossos conectados se aproximam quando o músculo contrai, e o movimento é chamado de flexão. Se os ossos se afastam quando o músculo contrai, o músculo é chamado de extensor, e o movimento associado é chamado de extensão. A maioria das articulações do corpo necessita de músculos flexores e extensores, pois a contração de um desses músculos pode puxar um osso em uma direção, mas é incapaz de empurrá-lo na direção oposta. Os pares de músculos extensores e flexores são denominados músculos antagonistas, pois exercem efeitos opostos. Os músculos antagonistas movem os ossos em direções opostas. A contração muscular é capaz de puxar um osso, mas não é capaz de o empurrar. Um músculo esquelético é um conjunto de células musculares, ou fibras musculares. Cada fibra muscular esquelética é uma célula longa e cilíndrica, que pode possuir até várias centenas de núcleos distribuídos próximos da superfície da fibra. As 50 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo fibras musculares esqueléticas estão entre as maiores células do corpo e se originam da fusão de muitas células musculares embrionárias. A membrana plasmática de uma fibra muscular é chamada de sarcolema, e o citoplasma é chamado de sarcoplasma. As principais estruturas intracelulares dos músculos estriados são as miofibrilas, que são feixes extremamente organizados de proteínas contráteis e elásticas envolvidas no processo de contração. Os músculos esqueléticos também contêm um extenso retículo sarcoplasmático (RS). O retículo sarcoplasmático é um retículo endoplasmático modificado que envolve cada miofibrila e é formado por túbulos longitudinais com porções terminais alargados, chamadas de cisternas terminais. O retículo sarcoplasmático concentra e sequestra Ca2 com o auxílio de uma Ca2-ATPase presente na membrana do RS. A liberação de cálcio do RS produz um sinal de cálcio que desempenha um papel-chave na contração de todos os tipos de músculo. Os túbulos T permitem que os potenciais de ação se movam rapidamente da superfície para o interior da fibra muscular, de forma a alcançar as cisternas terminais quase simultaneamente. Sem os túbulos T, os potenciais de ação alcançariam o centro da fibra somente pela condução do potencial de ação pelo citosol, um processo mais lento e menos direto, que retardaria o tempo de resposta da fibra muscular. O citosol entre as miofibrilas contém muitos grânulos de glicogênio e mitocôndrias. O glicogênio, a forma de armazenamento da glicose encontrada nos animais, é uma reserva energética. A mitocôndria contém as enzimas necessárias para a fosforilação oxidativa da glicose e de outras biomoléculas, sendo a organela responsável pela produção da maior parte de ATP necessário para a contração muscular. Cada fibra muscular contém milhares de miofibrilas que ocupam a maior parte do volume intracelular, deixando pouco espaço para o citosol e as organelas. Cada miofibrila é composta por diversos tipos de proteínas organizadas em estruturas contráteis repetidas, chamadas de sarcômeros. As proteínas das miofibrilas incluem a proteína motora miosina, que forma os filamentos grossos; os microfilamentos de actina, que formam os filamentos finos; as proteínas reguladoras tropomiosina e troponina; e duas proteínas acessórias gigantes, a titina e a nebulina. A miosina é uma proteína motora com capacidade de produzir movimento. Há várias isoformas de miosina em diferentes tipos de músculo, as quais influenciam a velocidade de contração do músculo. Cada molécula de miosina é composta de cadeias proteicas que se entrelaçam, formando uma longa caudae um par de cabeças A cauda do filamento grosso assemelha-se a um bastão de 51 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo consistência rígida, mas as projeções que formam as cabeças da miosina possuem uma região elástica em dobradiça (móvel), no ponto onde as cabeças se unem à cauda. A região em dobradiça permite o movimento das cabeças em torno do ponto de fixação. Cada cabeça de miosina possui duas cadeias proteicas: uma cadeia pesada e uma cadeia leve, menor. A cadeia pesada é o domínio motor capaz de ligar o ATP e utilizar a energia da ligação fosfato de alta energia do ATP para gerar movimento. Como o domínio motor funciona como uma enzima, ele é considerado uma miosina-ATPase. A cadeia pesada também contém um sítio de ligação para a actina. No músculo esquelético, cerca de 250 moléculas de miosina unem-se para formar um filamento grosso. Cada filamento grosso está organizado de modo que as cabeças da miosina fiquem agrupadas nas extremidades do filamento e a região central seja formada por um feixe de caudas da miosina. A actina é a proteína que forma os filamentos finos da fibra muscular. Uma molécula isolada de actina é uma proteína globular (actina G). Normalmente, várias moléculas de actina G polimerizam para formar cadeias longas ou filamentos, chamados de actina F. No músculo esquelético, dois polímeros de actina F enrolam-se um no outro, como um colar de contas duplo, para formar os filamentos finos da miofibrila. Na maior parte do tempo, os filamentos grossos e finos de cada miofibrila, dispostos em paralelo, estão conectados por ligações cruzadas de miosina, as quais atravessam o espaço entre os filamentos. Cada molécula de actina G tem um único sítio de ligação à miosina. Cada cabeça da miosina tem um sítio de ligação à actina e um sítio de ligação ao ATP. As ligações cruzadas formam-se quando as cabeças de miosina dos filamentos grossos se ligam à actina dos filamentos finos. As ligações cruzadas têm dois estados: um estado de baixa energia (músculos relaxados) e um estado de alta energia (contração muscular). Visto ao microscópio óptico, o arranjo dos filamentos grossos e finos em uma miofibrila gera um padrão repetido de bandas claras e escuras alternadas. Uma única repetição do padrão forma um sarcômero, a unidade contrátil da miofibrila. Cada sarcômero é constituído pelos seguintes elementos: 1. Discos Z. Um sarcômero é formado por dois discos Z e pelos filamentos encontrados entre eles. Os discos Z são estruturas proteicas em ziguezague que servem como pontos de ancoragem para os filamentos finos. A abreviação Z provém de zwischen, a palavra do alemão para “entre”. 2. Banda I. É a banda de coloração mais clara do sarcômero e representa uma 52 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo região ocupada apenas pelos filamentos finos. A abreviação I vem de isotrópico, uma descrição dos primeiros microscopistas, indicando que a região reflete a luz de maneira uniforme ao microscópio de polarização. Um disco Z atravessa o centro de cada banda I, de modo que cada metade de uma banda I pertence a um sarcômero diferente. 3. Banda A. É a banda mais escura do sarcômero e engloba todo o comprimento de um filamento grosso. Nas porções laterais da banda A, os filamentos grossos e finos estão sobrepostos. O centro da banda A é ocupado apenas por filamentos grossos. A abreviação A vem de anisotrópico, indicando que as proteínas dessa região desviam a luz de modo irregular. 4. Zona H. Essa região central da banda A é mais clara do que as porções laterais da banda A, uma vez que a zona H é ocupada apenas por filamentos grossos. O H vem de helles, a palavra alemã para “claro”. 5. Linha M. Essa banda representa as proteínas que formam o sítio de ancoragem dos filamentos grossos (equivalente ao disco Z para os filamentos finos). Cada linha M divide uma banda A ao meio. M é a abreviação para mittel, a palavra alemã para “meio”. Em um arranjo tridimensional, as moléculas de actina e de miosina formam uma treliça de filamentos finos e grossos dispostos em paralelo e sobrepostos. Os filamentos são mantidos no lugar por suas ligações às proteínas do disco Z (filamentos finos) e da linha M (filamentos grossos). Em uma secção transversal, observa-se que cada filamento fino está cercado por três filamentos grossos; cada filamento grosso está circundado por seis filamentos finos. O alinhamento adequado dos filamentos dentro de um sarcômero é assegurado por duas proteínas: titina e nebulina. A titina é uma molécula elástica muito grande, sendo a maior proteína conhecida, composta por mais de 25 mil aminoácidos. Uma única molécula de titina se estende desde um disco Z até a linha M vizinha. Para ter uma ideia do tamanho da titina, imagine que uma molécula de titina é um pedaço de uma corda muito grossa, com cerca de 2,4 metros de comprimento, usada para amarrar navios aos ancoradouros. Para efeitos de comparação, uma única molécula de actina teria o comprimento e o peso semelhantes a um único cílio das suas pálpebras. A titina tem duas funções: (1) estabilizar a posição dos filamentos contráteis e (2) fazer os músculos estirados retornarem ao seu comprimento de repouso, o que ocorre devido à sua elasticidade. A 53 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo titina é auxiliada pela nebulina, uma proteína gigante não elástica que acompanha os filamentos finos e se prende ao disco Z. A nebulina auxilia no alinhamento dos filamentos de actina do sarcômero. A contração muscular gera força A contração muscular é um processo extraordinário que permite a geração de força para mover ou resistir a uma carga. Em fisiologia muscular, a força produzida pela contração muscular é chamada de tensão muscular. A carga é o peso ou a força que se opõe à contração. A contração, a geração de tensão pelo músculo, é um processo ativo que necessita de energia fornecida pelo ATP. O relaxamento é a liberação da tensão que foi produzida durante a contração. 1. Os eventos que ocorrem na junção neuromuscular convertem um sinal químico (a acetilcolina liberada pelo neurônio motor somático) em um sinal elétrico na fibra muscular. 2. O acoplamento excitação-contração (E-C) é o processo pelo qual os potenciais de ação musculares produzem um sinal de cálcio, o qual, por sua vez, ativa o ciclo de contração-relaxamento. 3. No nível molecular, o ciclo de contração-relaxamento é explicado pela teoria dos filamentos deslizantes da contração muscular. Nos músculos intactos, um único ciclo de contração-relaxamento é chamado de abalo muscular. A fadiga tem várias causas A fadiga descreve uma condição reversível na qual um músculo é incapaz de produzir ou sustentar a potência esperada. A fadiga é muito variável. Ela é influenciada pela intensidade e pela duração da atividade contrátil, pelo fato de a fibra muscular estar usando o metabolismo aeróbio ou anaeróbio, pela composição do músculo e pelo nível de condicionamento do indivíduo. Os fatores que têm sido propostos como exercendo um papel crucial na fadiga estão associados aos mecanismos de fadiga central, originados no sistema nervoso central, e de fadiga periférica, que se originam em qualquer local entre a junção neuromuscular e os elementos contráteis do músculo. A maior parte das evidências experimentais sugere que a fadiga muscular surge de uma falha no processo de excitação-contração da fibra muscular, mais do que de uma falha nos neurônios de controle ou na transmissão neuromuscular. A fadiga central inclui sensações subjetivas de 54 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo cansaço e um desejo de cessar a atividade. Vários estudos têm mostrado que esse tipo de fadiga psicológica precede a fadiga fisiológica que ocorre nos músculos e, portanto, pode ser um mecanismo de proteção. O baixo pH decorrente da produção de ácido durante a metabolização do ATP é mencionadofrequentemente como uma possível causa de fadiga, e há algumas evidências de que a acidose possa influenciar a sensação de fadiga percebida pelo cérebro. Entretanto, mecanismos homeostáticos de equilíbrio do pH mantêm o pH do sangue em níveis normais até que o esforço esteja próximo do máximo; portanto, o pH como um fator envolvido na fadiga central provavelmente só se aplique em casos de esforço máximo. As causas neurais da fadiga podem surgir tanto de falhas de comunicação na junção neuromuscular quanto de falhas dos neurônios de comando do SNC. Por exemplo, se a ACh não for sintetizada no terminal axonal rápido o suficiente para responder à taxa de disparo do neurônio, a liberação do neurotransmissor na sinapse diminuirá. Consequentemente, o potencial da placa motora do músculo não atingirá o limiar necessário para disparar um potencial de ação na fibra muscular, resultando em falha na contração. Esse tipo de fadiga está associado a algumas doenças neuromusculares, mas provavelmente não seja um fator importante durante o exercício normal. A fadiga que ocorre dentro da fibra muscular (fadiga periférica) pode ocorrer em diferentes pontos. No exercício submáximo prolongado, a fadiga está associada à depleção das reservas de glicogênio muscular. Como a maioria dos estudos mostra que a falta de ATP não é um fator limitante, a falta de glicogênio pode afetar outros aspectos da contração, como a liberação de Ca2do retículo sarcoplasmático. A causa da fadiga no esforço máximo de curta duração parece ser diferente. Uma das teorias baseia-se no aumento dos níveis de fosfato inorgânico (Pi) produzido quando o ATP e a fosfocreatina são utilizados como fonte de energia na fibra muscular. Concentrações citoplasmáticas elevadas de Pi podem deixar mais lenta a liberação do Pi a partir da miosina e, assim, alterar o movimento de força. Outra teoria sugere que os níveis elevados de fosfato diminuem a liberação de Ca2, pois o fosfato se combina com o cálcio, formando fosfato de cálcio. Alguns pesquisadores acreditam que alterações na liberação de Ca2do retículo sarcoplasmático exerçam um papel fundamental na fadiga. Os desequilíbrios iônicos também têm sido implicados na fadiga. Durante um exercício de intensidade máxima, o íon Kdeixa a fibra muscular a cada contração e, como resultado, as concentrações de Kaumentam no líquido extracelular dos túbulos T. 55 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo A alteração no Kmodifica o potencial de membrana da fibra muscular. Alterações na atividade da Na-K-ATPase também podem estar envolvidas. Em suma, a fadiga muscular é um fenômeno complexo, com múltiplas causas que interagem umas com as outras. Abertura do problema 3 – METABOLISMO 1. Compreender as causas e consequências da dislipidemia. De acordo com o livro de endócrino, existem vários distúrbios lipídicos que podem ocorrer tanto como formas primárias como secundárias a outras doenças. As dislipidemias primárias associam-se a superprodução e/ou remoção deficiente de lipoproteínas; esta última pode decorrer de anormalidades na própria lipoproteína ou no seu receptor. Já as formas mais comuns, as dislipidemias secundárias, estão classicamente associadas a uma ou mais doença de base ou ao seu tratamento. Uma vez identificada a causa da hipercolesterolemia, são necessárias estratificação do paciente e definição de sua meta de tratamento. É interessante observar que o ano de 2013 foi caracterizado pela publicação de diferentes diretrizes para o manejo das dislipidemias. Embora cada uma dessas diretrizes tivesse uma recomendação específica, todas apontavam para um tratamento mais agressivo dos pacientes com dislipidemia, visando principalmente à redução significativa das doenças cardiovasculares (DCV). LER CARTILHA DA ANVISA......De acordo com a ANVISA, A dislipidemia é definida como distúrbio que altera os níveis séricos dos lipídeos (gorduras). A dislipidemia CAUSA alterações dos níveis séricos dos lipídeos. As alterações do perfil lipídico podem incluir colesterol total alto, triglicerídeos (TG) alto, colesterol de lipoproteína de alta densidade baixo (HDL-c) e níveis elevados de colesterol de lipoproteína de baixa densidade (LDL-c). Em consequência, a dislipidemia é considerada como um dos principais determinantes da ocorrência de doenças cardiovasculares (DCV) e cerebrovasculares, dentre elas aterosclerose (espessamento e perda da elasticidade das paredes das artérias), infarto agudo do miocárdio, doença isquêmica do coração (diminuição da irrigação sanguínea no coração) e AVC (derrame). De acordo com o tipo de alteração dos níveis séricos de lipídeos, a dislipidemia é classificada como: hipercolesterolemia isolada, 56 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo hipertrigliceridemia isolada, hiperlipidemia mista e HDL-C baixo. Os níveis de lipídios na corrente sanguínea estão associados ao hábito de praticar exercícios, de ingerir bebidas alcoólicas, carboidratos e gorduras. Além disso, o índice de massa corpórea e idade influenciam as taxas de gordura sérica. A atividade física aeróbica regular, como corrida e caminhada, constitui medida auxiliar para o controle da dislipidemia. 2. Elucidar o processo de síndrome metabólica. De acordo com o livro de endocrinologia, síndrome metabólica (SM) é um termo que se usa para definir uma entidade que congrega um grupo de fatores de risco, entre os quais estão obesidade visceral, intolerância à glicose ou diabetes, hipertensão arterial e dislipidemia, tendo a resistência à insulina como provável fator central na sua fisiopatologia. Em 2002, o National Cholesterol Education Program’s Adult Treatment Panel III Report (ATP III) estabeleceu a doença cardiovascular e o diabetes mellitus tipo 2 (DM2) como as principais consequências clínicas da SM. Além disso, indivíduos com SM são mais suscetíveis a outras condições, como síndrome dos ovários policísticos, esteatose hepática e sobrecarga hepática de ferro, asma, cálculos biliares, gota, distúrbios do sono e algumas formas de câncer como carcinoma hepatocelular e colangiocarcinoma. A causa da SM é multifatorial, sendo resultante de influências ambientais e genéticas. A prevalência da SM varia de acordo com a idade, o sexo, a origem étnica e a definição usada para o seu diagnóstico. A SM vem crescendo devido ao aumento global da obesidade, do sedentarismo e do envelhecimento da população, resultando em maior risco de doença cardiovascular e diabetes tipo 2. Estima-se que aproximadamente 20% a 40% dos adultos na maioria dos países apresentem-se com SM. De fato, pacientes com SM têm de 1,5 a 3 vezes mais risco de desenvolver doença cardiovascular e 5 vezes mais risco de desenvolver DM2. O aumento do peso corpóreo é o maior fator de risco para a síndrome metabólica. Além de idade, etnia e peso, outros fatores associados ao aumento do risco de desenvolver SM, vistos no NHANES III, incluem: pós-menopausa, tabagismo, dieta rica em carboidratos, sedentarismo. Em 2009, essa classificação tornou-se uma das definições mais aceitas mundialmente, pois aplica o conceito de que a presença de gordura visceral é o fator essencial e determinante de todos os outros componentes da SM. Ela inova também, pois estratifica a medida da circunferência abdominal por etnia, incorpora os níveis de glicemia acima de 100 mg/dL como anormais e inclui também a presença de tratamento 57 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo para as condições associadas. O critério diagnóstico utilizado nessa definição é obesidade central, definida conforme aspectos étnicos: • Em homens: circunferência abdominal acima de 94 cm em europeus; acima de 90 cm em sul-americanos, chineses e sul-asiáticos; acima de 85 cm em japoneses. • Em mulheres: acima de 80 cm em europeias, sul-americanas, chinesas e sul-asiáticas; e acima de 90 cm em japonesas. A obesidadedeve estar associada a pelo menos 2 dos seguintes critérios: triglicerídios acima de 150 mg/dL ou tratamento específico para dislipidemia, colesterol de lipoproteínas de alta densidade (HDL) baixo (em homens: menor que 40 mg/dL e em mulheres: menor que 50 mg/dL), pressão arterial acima de 130 × 85 mmHg ou tratamento específico para hipertensão, glicemia de jejum acima de 100 mg/dL ou tratamento específico para diabetes. Problema 3 – intermediaria I 1. Elucidar a síntese e o mecanismo dos hormônios pancreáticos. De acordo com o Guyton, ele vai nos dizer que o pâncreas, além de suas funções digestivas, secreta dois hormônios importantes, insulina e glucagon, cruciais para a regulação normal do metabolismo da glicose, dos lipídios e das proteínas. Anatomia e Fisiologia do Pâncreas O pâncreas é formado por dois tipos principais de tecido, os ácinos, que secretam o suco digestivo no duodeno; e as ilhotas de Langherans, que secretam insulina e glucagon diretamente no sangue. As ilhotas contêm três tipos celulares principais, as células alfa, beta e delta, distinguidas entre si, devido às suas características morfológicas e de coloração. As células beta, que constituem aproximadamente 60% de todas as células das ilhotas, são encontradas sobretudo no centro de cada ilhota e secretam insulina e amilina. As células alfa, em torno de 25% do total, secretam glucagon. E as células delta, cerca de 10% do total, secretam somatostatina. As inter-relações estreitas entre esses tipos celulares nas ilhotas de Langherans possibilitam a comunicação intercelular e o controle direto da secreção de alguns dos hormônios por outros hormônios. Por exemplo, a 58 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo insulina inibe a secreção de glucagon, a amilina inibe a secreção de insulina, e a somatostatina inibe a secreção tanto de insulina como de glucagon. De acordo com o Silverthorn, A razão entre insulina e glucagon regular o metabolismo. Como visto, a insulina e o glucagon atuam de forma antagonista para manter a concentração de glicose plasmática dentro de uma faixa aceitável. Ambos os hormônios estão presentes no sangue na maior parte do tempo. É a proporção entre os dois hormônios que determina qual hormônio predomina. No estado alimentado, quando o corpo está absorvendo os nutrientes, a insulina é o hormônio dominante, e o organismo entra em estado anabólico (FIG. 22.14a). A ingestão de glicose é utilizada como fonte de energia e todo e qualquer excesso será estocado como glicogênio e gordura no corpo. Os aminoácidos vão primeiro para a síntese proteica. No estado de jejum, as reações metabólicas previnem a queda da concentração da glicose plasmática (hipoglicemia). Quando o glucagon predomina, o fígado usa glicogênio e intermediários não glicídicos para sintetizar glicose para liberação no sangue (Fig. 22.14b). QUÍMICA E SÍNTESE DA INSULINA A insulina é uma proteína pequena. A insulina humana, é formada por duas 59 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo cadeias de aminoácidos, conectadas por meio de ligações dissulfeto. Quando as duas cadeias de aminoácidos se separam, a atividade funcional da molécula de insulina desaparece. A insulina é sintetizada nas células beta pelo modo usual como as proteínas são sintetizadas, começando com a tradução do RNAm da insulina por meio dos ribossomos ligados ao retículo endoplasmático para formar uma pré-proinsulina. Essa pré-proinsulina inicial sendo então clivada no retículo endoplasmático, para formar a proinsulina, e consiste em três cadeias de peptídeos, A, B e C. A maior parte da proinsulina é novamente clivada no aparelho de Golgi, para formar insulina composta pelas cadeias A e B, conectadas por ligações dissulfeto e peptídeo cadeia C, denominado peptídeo conector (peptídeo C). A insulina e o peptídeo C são revestidos nos grânulos secretores e secretados em quantidades equimolares. Aproximadamente 5% a 10% do produto final secretado se encontram ainda sob a forma de proinsulina. A proinsulina e o peptídeo C não têm, virtualmente, atividade insulínica. Porém, o peptídeo C se liga à estrutura da membrana, mais provavelmente um receptor da membrana acoplado à proteína G e elícita a ativação de, ao menos, dois sistemas enzimáticos, sódio-potássio adenosina trifosfatase e óxido nítrico sintetase endotelial. Apesar de ambas as enzimas terem múltiplas funções fisiológicas, a importância do peptídeo C na regulação dessas enzimas ainda é incerta. Pacientes com diabetes do tipo 1, incapazes de produzir insulina, têm normalmente níveis substancialmente diminuídos de peptídeo C. Quando a insulina é secretada na corrente sanguínea, ela circula quase inteiramente em sua forma livre. Com exceção da porção da insulina que se liga aos receptores nas células-alvo, o restante é degradado pela enzima insulinase, em sua maior parte no fígado e em menor quantidade nos rins e músculos e, menos ainda, na maioria dos outros tecidos. MECANISMOS DA SECREÇÃO DE INSULINA 60 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo A Figura 79-7 mostra os mecanismos celulares básicos da secreção de insulina pelas células betapancreáticas, em resposta ao aumento da concentração da glicose sanguínea, que é o controlador primário da secreção de insulina. As células beta contêm um grande número de transportadores de glicose, que permitem influxo de glicose proporcional à concentração plasmática na faixa fisiológica. Uma vez nas células, a glicose é fosforilada pela glicocinase em glicose-6-fosfato. Essa fosforilação parece ser a etapa limitante para o metabolismo da glicose nas células beta e é considerada como o principal mecanismo sensor de glicose e de ajuste da quantidade de insulina secretada, em relação aos níveis de glicose plasmática. A glicose-6-fosfato é, subsequentemente, oxidada, de modo a formar trifosfato de adenosina (ATP), que inibe os canais de potássio sensíveis ao ATP da célula. Alguns hormônios, como o glucagon e o peptídeo insulinotrópico dependente de glicose (peptídeo inibidor gástrico) e a acetilcolina, elevam os níveis de cálcio intracelular por outras vias de sinalização e aumentam o efeito da glicose, embora eles não apresentem efeitos importantes na secreção da insulina, na ausência de glicose. Outros hormônios, incluindo a somatostatina e a norepinefrina (por meio da ativação de receptores a- adrenérgicos), inibem a exocitose da insulina. O GLUCAGON E SUAS FUNÇÕES 61 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo O glucagon, que é hormônio secretado pelas células alfa das ilhotas de Langherans quando a concentração da glicose sanguínea cai, tem diversas funções que são diametralmente opostas às da insulina. A mais importante dessas funções é aumentar a concentração da glicose sanguínea, efeito que é oposto ao da insulina. À semelhança da insulina, o glucagon é grande polipeptídeo e é composto por uma cadeia de 29 aminoácidos. Por esse motivo, o glucagon é também chamado hormônio hiperglicêmico. Os principais efeitos do glucagon no metabolismo da glicose são (1) a quebra do glicogênio hepático (glicogenólise); e (2) o aumento da gliconeogênese no fígado. Esses dois efeitos elevam, enormemente, a disponibilidade da glicose para os outros órgãos do organismo. O mecanismo de amplificação é muito utilizado pelo organismo para controlar muitos, se não a maioria, dos sistemas metabólicos celulares, causando, frequentemente, amplificação de até um milhão de vezes na resposta. Esse mecanismo explica como apenas uns poucos microgramas de glucagon podem fazer com que o nível de glicose sanguínea duplique ou aumente ainda mais, dentro de uns poucos minutos. Talvez o efeito mais importante é que o glucagon ativa a lipase das células adiposas, disponibilizando quantidades aumentadas de ácidos graxos paraos sistemas de energia do organismo. O glucagon também inibe o armazenamento de triglicerídeos no fígado, o que impede esse órgão de remover os ácidos graxos do sangue; isso também ajuda na disponibilização de quantidades adicionais de ácidos graxos para outros tecidos do organismo. O glucagon em concentrações elevadas também (1) aumenta a força do coração; (2) aumenta o fluxo do sangue para alguns tecidos, especialmente os rins; (3) aumenta a secreção de bile; e (4) inibe a secreção 62 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo de ácido gástrico. Efeito benéfico do glucagon é que ele impede a redução da glicose sanguínea. 2. Explicar o mecanismo de ação, liberação e resistência à insulina. Silverthorn Fatores que Influenciam a Ação da Insulina 1. Peso corporal: que determina 30% da ação da insulina em indivíduos normais. 2. Condicionamento físico 3. Peso ao nascimento 4. Tipo de fibra muscular predominante: pacientes com RI apresentam uma relação de fibras musculares brancas/vermelhas maior do que os normais, podendo explicar a redução do VO2max acima indicado. 5. Hormônios: globulina ligadora dos hormônios sexuais (SHBG - sex hormone-binding globulin) e testosterona. 6. Densidade capilar e fluxo no músculo esquelético 7. Dieta 8. Idade 9. Hereditariedade. LIBERAÇÃO DA INSULINA: A insulina persiste armazenada até que algum estímulo promova sua exocitose, sendo o principal a concentração de glicose no interstício. A fosforilação da glicose em glicose-6-fosfato leva à geração de acetil-coenzima A (Acetil CoA) e trifosfato de adenosina (ATP) no ciclo de Krebs. O aumento da relação ATP/ADP promove o fechamento dos canais de potássio (K+) ATP-dependentes, reduzindo o efluxo de K+. Com o fechamento dos canais de cálcio, a ocorrerá a despolarização da membrana. Isso acarretará na abertura dos canais de cálcio. O acumulo de cálcio dentro da membrana fará com que ocorra a exocitose dos grânulos de insulina, culminando na sua liberação. Outros fatores que também modulam a liberação da insulina incluem aminoácidos, ácidos graxos livres (AGL), hormônios e neuropeptídios. Os AGL parecem ter efeitos mínimos na célula β. A elevação aguda dos níveis séricos de AGL induz adequadamente uma resposta compensatória na secreção de insulina, o que não é observado em exposições crônicas e no diabetes melittus tipo 2 (DM 2). 63 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo O sistema nervoso autônomo, com suas fibras simpáticas e parassimpáticas, inerva as ilhotas pancreáticas. A secreção de insulina é estimulada pelas fibras vagais, enquanto sua inibição se dá pelas fibras simpáticas. Resistência à insulina De acordo com Guyton, O desenvolvimento da resistência à insulina e do metabolismo alterado da glicose é geralmente um processo gradual, começando com excesso de ganho de peso e obesidade. Os mecanismos que relacionam a obesidade à resistência insulínica, no entanto, ainda não estão bem esclarecidos. Alguns estudos sugerem que pode haver menos receptores de insulina, especialmente no músculo esquelético, no fígado e no tecido adiposo, nos indivíduos obesos do que nos de peso normal. Entretanto, a maior parte da resistência à insulina parece ser provocada por anormalidades nas vias de sinalização que ligam a ativação do receptor a diversos efeitos celulares. Alteração da sinalização da insulina parece estar intimamente relacionada aos efeitos tóxicos do acúmulo dos lipídios nos tecidos, como o músculo esquelético e fígado, em consequência do ganho excessivo de peso. A resistência insulínica faz parte de uma cascata de distúrbios que frequentemente é chamada “síndrome metabólica”. A resistência à insulina é a causa primária do aumento da concentração da glicose no sangue. Outros Fatores Capazes de Provocar Resistência Insulínica e Diabetes Tipo 2. Embora a maioria dos pacientes portadores de diabetes tipo 2 esteja com excesso de peso ou apresente acúmulo substancial de gordura visceral, grave resistência à insulina e diabetes tipo 2 também podem ocorrer como resultado de outras condições genéticas ou adquiridas que prejudicam a sinalização da insulina nos tecidos periféricos. A síndrome do ovário policístico (PCOS), por exemplo, está associada aos aumentos acentuados da produção de androgênios ovarianos e resistência à insulina. A formação excessiva de glicocorticoides (síndrome de Cushing) ou de hormônio do crescimento (acromegalia) também diminui a sensibilidade de diversos tecidos aos efeitos metabólicos da insulina e pode levar ao desenvolvimento de diabetes melito. As causas genéticas da obesidade e da resistência insulínica, se forem bastante graves, também podem dar origem ao diabetes tipo 2, assim como a muitas outras características da síndrome metabólica, incluindo a doença cardiovascular. 64 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo 3. Diferenciar a patogênese dos tipos de diabetes mellitus e suas características. GUYTON. A diabetes tipo 1 é associada com pessoas subnutridas e a tipo 2 a obesidade. A diabetes mais prevalente é a do tipo 2. Em relação a pré disposição genética a tipo 1 apresenta uma predisposição moderada enquanto a 2 é muito forte. O defeito ou deficiência na diabetes tipo 1 é na produção da insulina, onde as células beta são destruídas e consequentemente a redução na produção da insulina, enquanto na tipo 2 é a incapacidade das células de produzir quantidades apropriadas de insulina; resistência à insulina dos tecidos periféricos. Distúrbios metabólicos observados na diabetes tipo I e na diabetes tipo 2: O tipo 1 ocorre devido a uma falta de produção da insulina. Em contrapartida temos uma excessiva produção do glucagon. O glucagon, vai agir no tecido hepático, adiposo e muscular. O glucagon é um hormônio catabólico. Como o diabético tipo I não produz insulina, ele não consegue promover a entrada de glicose nos tecidos periféricos, fazendo com que a glicose se acumule. Ele vai quebrar gordura já que a glicemia está alta mas os tecidos não conseguem utilizar essa glicose, utilizando dos ácidos graxos para captar energia. Os ácidos graxos também irão se acumular no plasma sanguíneo, parte vai até o fígado e serão convertidos em corpos cetônicos que também irão se acumular. Parte desses ácidos graxos que chegam ao fígado serão convertidos em VLDL e em triacilgliceróis que também aumentaram no diabético tipo 1. Tudo isso é causado porque o paciente diabético tipo 1 vai produzir anticorpos que irão degradar alguma parte do metabolismo da insulina. Há também o anticorpo ICA (que são anticorpos anti- ilhotas de Langherans que irão destruir as células beta pancreática). O diabetes tipo 2 há produção de insulina, porem ela não consegue agir nos tecidos periféricos, gerando o acumulo de glicose que não consegue entrar no tecido adiposo nem no muscular. A insulina é um hormônio anabólico, que sintetiza glicogênio a partir da glicose que chega no fígado, sintetizará gordura, a partir da glicose que chega no fígado e essa gordura será usada para produzir VLDL o que gerara acumulo dele e de triacilglicerol. Neste caso não há acumulo de corpos cetônicos nem destruição de gordura ou proteínas musculares pois esse seria ocasionado pelo glucagon e como há insulina o glucagon é inibido. As causas da diabetes tipo 2 são relacionadas a resistência à insulina. Há alterações pré-receptor, que é uma alteração da insulina que é uma insulina mutante que não consegue fosforilar e, portanto, o GLUT-4 para que ele seja translocado para a superfície celular. Outra causa é o aumento de 65 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo hormônios contra-reguladores, que são hormônios que inibem a ação da insulina, como o cortisol, a catecolaminas, o hormônio do crescimento e o glucagon. Além disso, também temos alterações pré-receptor com a produção de anticorpos que irão destruir a insulina e, portanto, reduzirão os níveis de insulina no diabético. DIABETES MELLITUSTIPO 1 É um distúrbio crônico caracterizado pelo comprometimento do metabolismo da glicose e de outros substratos produtores de energia, assim como pelo desenvolvimento tardio de complicações vasculares e neuropáticas. DEFEITOS METABÓLICOS NO DIABETES 1.HIPERGLICEMIA DO JEJUM: Tanto no diabetes do tipo um quanto no do tipo dois, a hiperglicemia de jejum resulta principalmente de um aumento inadequado da produção hepática de glicose. A deficiência insulínica no diabetes do tipo um também acarreta a hipersecreção de hormônio do crescimento, o que acentua, ainda mais, a superprodução de glicose. 2. HIPERGLICEMIA PÓS-PRANDIAL: Sob circunstâncias normais, a insulina aumenta os níveis de glicose-6-fosfato no músculo; essa elevação está acentuadamente atenuada no diabetes, significando que o bloqueio na síntese do glicogênio e no metabolismo da glicose precedem à formação da glicose-6-fosfato e, portanto, é mediado ao nível do transporte da glicose (GLUT 4). 3. ÁCIDOS GRAXOS LIVRES: Além da hiperglicemia, os níveis de ácidos graxos livres de jejum também se encontram elevados no diabetes devido à mobilização acelerada dos depósitos adiposos. 4. HIPERAMINOACIDEMIA: Além da remoção desordenada de glicose, os pacientes com diabetes do tipo um podem, igualmente, exibir defeitos na utilização das proteínas e gorduras ingeridas. Na ausência da elevação normal da insulina, a ingestão da refeição pode produzir hiperaminocidemia, devido à incapacidade de estimular a captação líquida de aminoácidos pelo músculo, e hipertrigliceridemia. DIABETES MELLITUS TIPO 2 O diabetes tipo 2 é responsável pela maioria do diabetes encontrado na prática clínica. Os pacientes mantêm certa capacidade de secreção de insulina; contudo, seus níveis insulínicos são baixos em relação a suas concentrações de glicose ambientais e magnitude da resistência à insulina. Os pacientes de tipo 2 não são dependentes de insulina para a 66 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo sobrevivência imediata e raramente desenvolvem cetose, a não ser sob condições de grande estresse físico. As características clínicas do diabetes tipo 2 podem ser insidiosas; os sintomas clássicos podem ser leves. Fadiga, fraqueza, tontura, visão embaçada e outras queixas inespecíficas podem dominar o quadro clínico e podem ser tolerados por muitos anos antes da busca de atenção médica. Além disso, se o grau de hiperglicemia for insuficiente para produzir quaisquer sintomas o diagnóstico só pode ser feito após o desenvolvimento de complicações vasculares ou neuropáticas. PATOGÊNESE 1. SECREÇÃO DE INSULINA: Depois que o diabetes tipo 2 se manifesta, os níveis de insulina cm jejum geralmente parecem normais ou elevados, mesmo sendo relativamente baixos em razão do grau de hiperglicemia coexistente. À medida que a doença progride e a hiperglicemia se torna mais grave, com o tempo, os níveis basais de insulina não conseguem se manter, podendo até diminuir. 2. RESISTÊNCIA À INSULINA: Estudos iniciais de resistência à insulina focalizaram-se cm defeitos do receptor insulínico. A mutação do gene do receptor insulínico pode produzir leprechaunismo, caracterizado por grave retardo de crescimento, extrema resistência à insulina e morte precoce na fase de lactação. 3. CITOCINAS E HORMÔNIOS DERIVADOS DE ADIPÓCITOS 4. GLICOTOXICIDADE E LIPOTOXICIDADE: A hiperglicemia por si só prejudica a resposta das células beta à glicose e promove resistência à insulina. Como no caso da glicotoxicidade, a reversão da lipotoxicidade pode melhorar rapidamente o controle metabólico facilitando os resultados terapêuticos favoráveis. 4. Compreender o mecanismo de ação dos medicamentos hipoglicemiantes. De acordo com o Guyton, o tratamento efetivo do diabetes melito tipo 1 requer administração de insulina suficiente, de modo que o paciente possa ter metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas tão normal quanto for possível. A insulina é disponível em diversas formulações. A insulina “regular” apresenta duração de ação que vai de 3 a 8 horas, enquanto outras formas de insulina são absorvidas lentamente no local da injeção e, consequentemente, apresentam efeitos que duram de 10 a 48 horas. Usualmente, o paciente portador da forma grave do diabetes tipo 1 recebe uma só dose de uma das insulinas com ação prolongada a cada dia, de modo a aumentar o metabolismo global dos carboidratos durante o dia. Então, 67 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo quantidades adicionais de insulina regular são administradas durante o dia, nos momentos em que o nível da glicose sanguínea costuma subir muito, por exemplo, nas refeições. Assim, cada paciente recebe padrão de tratamento individualizado. No passado, a insulina usada para o tratamento era extraída do pâncreas de animais. No entanto, a insulina produzida pelo processo do DNA recombinante se tornou mais amplamente utilizada porque alguns pacientes desenvolvem imunidade e sensibilização contra a insulina animal, limitando, assim, sua eficácia. Nas pessoas portadoras de diabetes tipo 2, dieta e exercícios são, geralmente, recomendados na tentativa de induzir a perda de peso e reverter a resistência à insulina. Se essa estratégia falhar, podem ser administrados medicamentos para elevar a sensibilidade à insulina ou para estimular o aumento da produção da insulina pelo pâncreas, como indicado anteriormente. Contudo, em muitas pessoas, deve-se empregar insulina exógena para regular a glicose sanguínea. Relação Entre o Tratamento e a Arteriosclerose. Os pacientes diabéticos, principalmente devido a seus altos níveis de colesterol e outros lipídios circulantes, desenvolvem aterosclerose, arteriosclerose, doença coronariana grave e múltiplas lesões microcirculatórias bem mais facilmente do que as pessoas saudáveis. Na verdade, os pacientes portadores de diabetes mal controlado durante a infância apresentam risco de morte pela doença no início da idade adulta. O tratamento apropriado ao paciente que se encontra em choque hipoglicêmico ou em coma é a administração intravenosa imediata de grande quantidade de glicose. Isso, em geral, traz o paciente de volta do choque dentro de 1 minuto ou um pouco mais. A administração de glucagon (ou, com menos eficácia, de epinefrina) também pode causar glicogenólise no fígado e, consequentemente, aumentar o nível sanguíneo da glicose de modo extremamente rápido. Se o tratamento não for prontamente administrado, é frequente ocorrer lesão permanente nas células neuronais do sistema nervoso central. 68 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo INTERMEDIÁRIA II DO PROBLEMA 3 – METABOLISMO 1. ELUCIDAR A MORFOFISIOLOGIA DA GLÂNDULA TIREODIDE (PRODUÇÃO E LIBERAÇÃO DOS HORMÔNIOS DA TIREÓIDE). De acordo com Guyton, A tireoide, localizada imediatamente abaixo da laringe e ocupando as regiões laterais e anterior da traqueia, é uma das maiores glândulas endócrinas, normalmente pesando de 15 a 20 gramas em adultos. Essa glândula secreta dois hormônios principais, a tiroxina e a tri-iodotironina, usualmente chamados T4 e T3, respectivamente. Ambos aumentam intensamente o metabolismo do organismo. A ausência completa de secreção tireoidiana, em geral, faz com que o metabolismo basal caia para 40% a 50% do normal, e o excesso extremo de secreção pode aumentá-lo de 60% a 100%. A secreção tireoidiana é controlada, principalmente, pelo hormônio tireoestimulante (TSH), secretado pela hipófise anterior. A tireoide também secreta calcitonina, hormônio importante para o metabolismo do cálcio. Cerca de 93% dos hormônios metabolicamente ativos, secretados pela tireoide, consistem em tiroxina, e 7% são tri-iodotironina. Entretanto, quase toda a tiroxina é, por fim, convertida em tri-iodotironina nos tecidos, de modo que ambas são funcionalmente importantes. As funções desses dois hormônios são 69 Julyana de Aquino Guerreiro Araújoqualitativamente iguais, mas diferem na velocidade e na intensidade de ação. A tri-iodotironina é cerca de quatro vezes mais potente que a tiroxina, mas está presente no sangue em menor quantidade e persiste por um tempo muito curto. ANATOMIA E FISIOLOGIA DA TIREOIDE Como se mostra na Figura 77-1, a tireoide é composta por grande número de folículos fechados (de 100 a 300 micrômetros de diâmetro), que estão cheios de uma substância secretora, chamada coloide, e revestidos por células epiteliais cuboides, que secretam seus produtos para o interior dos folículos. O coloide é constituído, em sua maior parte, pela grande glicoproteína tireoglobulina, cuja molécula contém os hormônios tireoidianos. Uma vez que a secreção chega aos folículos, deve ser reabsorvida, através do epitélio folicular, para o sangue, a fim de poder realizar sua função no corpo. O fluxo sanguíneo tireoidiano é cerca de cinco vezes maior que o peso da glândula a cada minuto, fluxo maior do que qualquer outra área do corpo, com a possível exceção do córtex adrenal. A tireoide contém também células C, que secretam calcitonina, um hormônio que contribui para a regulação da concentração plasmática de íons cálcio. O IODO É NECESSÁRIO PARA A FORMAÇÃO DE TIROXINA (PRODUÇÃ0) Para formar quantidades normais de tiroxina, é necessária a ingestão de cerca de 50 miligramas de iodo na forma de iodeto a cada ano. Para prevenir a deficiência de iodo, o sal comum de cozinha é suplementado com cerca de uma parte de iodeto de sódio. 70 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo Destino dos Iodetos Ingeridos. Os iodetos ingeridos por via oral são absorvidos pelo trato gastrointestinal para o sangue aproximadamente do mesmo modo que o cloreto. Nas condições normais, a maior parte do iodeto é rapidamente excretada pelos rins, mas por volta de um quinto é seletivamente removido do sangue circulante pelas células da tireoide e usado para a síntese dos hormônios tireoidianos. BOMBA DE IODETO — O SIMPORTE DE SÓDIOIODETO (CAPTAÇÃO DE IODETO) O primeiro estágio de formação dos hormônios tireoidianos, ilustrado na Figura 77-2, é o transporte de iodeto do sangue para as células e folículos glandulares da tireoide. A membrana basal das células tireoidianas tem a capacidade específica de bombear, ativamente, iodeto para o interior da célula. Esse bombeamento é realizado pela ação de simporte de sódio- iodeto, que cotransporta um íon iodeto, junto com dois íons sódio, através da membrana basolateral (plasma), para a célula. A energia para transportar iodeto contra o gradiente de concentração vem da bomba de sódio-potássio adenosina trifosfatase (ATPase), que bombeia sódio para fora da célula, instituindo, desse modo, baixa concentração de sódio intracelular e gradiente de difusão facilitada para dentro da célula. Esse processo de concentração do iodeto na célula é chamado captação de iodeto. Na glândula normal, a concentração de iodeto, gerada pela bomba, é cerca de 30 vezes maior que a do sangue. Quando a atividade da tireoide atinge seu máximo, essa concentração pode se elevar para até 250 vezes. A captação 71 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo de iodeto pela tireoide é influenciada por diversos fatores, dos quais o mais importante é o TSH; esse hormônio estimula a atividade da bomba de iodeto nas células tireoidianas, enquanto a hipofisectomia a reduz de forma considerável. O iodeto é transportado para fora das células da tireoide pela membrana apical para o folículo, por meio de molécula contratransportadora de íons cloreto-iodeto, chamada pendrina. As células epiteliais da tireoide podem também secretar tiroglobulina para o folículo que contém aminoácidos de tirosina a que o iodo vai se ligar. As células da tireoide são típicas células glandulares secretoras de proteínas, como ilustrado na Figura 77-2. O retículo endoplasmático e o aparelho de Golgi sintetizam e secretam para os folículos uma grande glicoproteína chamada tireoglobulina, com peso molecular de cerca de 335.000. Cada molécula de tireoglobulina contém cerca de 70 aminoácidos tirosina, que são os principais substratos que se combinam com o iodo para formar os hormônios tireoidianos. Assim, eles se formam no interior da molécula de tireoglobulina. Isto é, os hormônios tiroxina e tri-iodotironina são formados a partir dos aminoácidos tirosina e formam parte da molécula de tireoglobulina durante a síntese dos hormônios tireoidianos, até mesmo enquanto estão armazenados no coloide folicular. Oxidação do Íon Iodeto. O primeiro estágio essencial à formação dos hormônios tireoidianos é a conversão dos íons iodeto para a forma oxidada de iodo, ou iodo nascente (I0) ou I3−, que, então, é capaz de se combinar diretamente com o aminoácido tirosina. Essa oxidação da tirosina é promovida pela enzima peroxidase, acompanhada de peróxido de hidrogênio, os quais constituem potente sistema capaz de oxidar iodetos. A peroxidase localiza-se na membrana apical da célula ou ligada a ela, produzindo, assim, o iodo oxidado, exatamente no ponto da célula em que a molécula de tireoglobulina surge, vinda do aparelho de Golgi e através da membrana celular, sendo armazenada no coloide da tireoide. Quando o sistema da peroxidase é bloqueado ou quando está hereditariamente ausente das células, a formação de hormônios tireoidianos cai para zero. Iodização da Tirosina e Formação dos Hormônios Tireoidianos — “Organificação” da Tireoglobulina. A ligação do iodo com a molécula de tireoglobulina é chamada Organificação da tireoglobulina. O iodo oxidado, até mesmo na forma 72 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo molecular, liga-se diretamente, embora de forma muito lenta, ao aminoácido tirosina. Nas células da tireoide, entretanto, o iodo oxidado está associado à enzima peroxidase tireoidiana (Figura 77-2), que reduz a duração desse processo para segundos ou minutos. Por isso, no intervalo de tempo em que a molécula de tireoglobulina leva para ser liberada pelo aparelho de Golgi, ou para ser secretada pela membrana apical da célula para o folículo, o iodo se liga a cerca de um sexto de seus aminoácidos tirosina. A Figura 77-3 mostra os estágios sucessivos de iodização da tirosina e a formação final dos dois hormônios tireoidianos importantes, a tiroxina e a triiodotironina. A tirosina é, inicialmente, iodada para monoiodotirosina e, então, para di-iodotirosina. Então, nos minutos, horas, ou mesmo dias seguintes, cada vez mais resíduos de iodotirosina se acoplam uns aos outros. O principal produto hormonal da reação de acoplamento é a molécula tiroxina (T4), formada quando duas moléculas de di-iodotirosina se unem; a tiroxina permanece como parte da molécula de tireoglobulina. Outra possibilidade é o acoplamento de uma molécula de monoiodotirosina com uma de di-iodotirosina, formando a tri-iodotironina (T3), que representa cerca de 1/15 do total de hormônios. Pequenas quantidades de T3 reverso (RT3) são formadas pelo acoplamento de di-iodotirosina com monoiodotirosina, mas RT3 não parece ter significância funcional em humanos. LIBERAÇÃO DE TIROXINA E TRI-IODOTIRONINA PELA GLÂNDULA TIREOIDE 73 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo A maior parte da tireoglobulina não é liberada para a circulação; sendo necessário clivar a tiroxina e a tri-iodotironina da molécula de tireoglobulina; em seguida, ambos esses hormônios livres são liberados. Esse processo ocorre da seguinte forma: a superfície apical das células da tireoide emite pseudópodos, que cercam pequenas porções do coloide, formando vesículas pinocíticas que penetram pelo ápice da célula. Então, lisossomos no citoplasma celular imediatamente se fundem com as vesículas para formar vesículas digestivas que contêm as enzimas digestivas dos lisossomos misturadas com o coloide. Múltiplas proteasesentre as enzimas digerem as moléculas de tireoglobulina e liberam tiroxina e tri- iodotironina, em sua forma livre, que se difundem pela base da célula tireoidiana para os capilares adjacentes. Assim, os hormônios tireoidianos são liberados no sangue. Parte da tireoglobulina do coloide entra na célula tireoidiana por endocitose, depois de se ligar à megalina, uma proteína localizada na membrana luminal das células. Em seguida, o complexo megalina-tireoglobulina é transportado através da célula por transcitose até a membrana basolateral, onde uma parte da megalina permanece unida à tireoglobulina e é liberada no sangue capilar. Cerca de três quartos da tirosina iodada na tireoglobulina nunca se torna hormônio, permanecendo como monoiodotirosina e di- iodotirosina. Durante a digestão da molécula de tireoglobulina para provocar a liberação de tiroxina e tri-iodotironina, essas tirosinas iodadas também são liberadas das moléculas de tireoglobulina. Entretanto, não são secretadas para o sangue. Ao contrário, seu iodo é clivado pela enzima deiodinase, que disponibiliza praticamente todo o iodo para a reciclagem na glândula e a formação de novas moléculas de hormônios tireoidianos. Na ausência congênita da deiodinase, muitas 74 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo pessoas podem apresentar deficiência de iodo devido à falha desse processo de reciclagem. Taxa Diária da Secreção de Tiroxina e Tri- iodotironina. Cerca de 93% dos hormônios secretados pela tireoide são formados por tiroxina e apenas 7% por tri-iodotironina. Entretanto, após poucos dias, cerca da metade da tiroxina é lentamente desiodada, formando mais tri-iodotironina. Portanto, o hormônio finalmente transportado e utilizado pelos tecidos consiste, em sua maior parte, em tri- iodotironina, perfazendo o total de 35 microgramas diários desse hormônio. FUNÇÕES FISIOLÓGICAS DOS HORMÔNIOS TIREOIDIANOS O efeito geral dos hormônios tireoidianos consiste em ativar a transcrição nuclear de grande número de genes (Figura 77-5). No entanto, em praticamente todas as células do organismo é sintetizado grande número de enzimas, proteínas estruturais, transporte de proteínas e outras substâncias. O resultado final é o aumento generalizado da atividade funcional de todo o organismo. Proteínas, produzindo, assim, a resposta celular ao hormônio tireoidiano. São demonstradas as ações dos hormônios tireoidianos nas células de diferentes sistemas. Na+-K+- ATPase, adenosina trifosfatase de sódio- potássio; mRNA, ácido ribonucleico mensageiro; SNC, sistema nervoso central; TMB, taxa metabólica basal. 2. DESCREVER A AÇÃO DOS HORMÔNIOS TIREOIDIANOS. De acordo com o Silverthorn, os hormônios da tireoide, produzidos pela glândula tireoide, a qual tem o formato de uma borboleta e se localiza no pescoço, comportam-se como hormônios esteroides, com receptores intracelulares que ativam genes. Os hormônios tireoidianos são uma combinação de duas moléculas de tirosina com átomos de iodo. Apesar do 75 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo precursor comum, os dois grupos de hormônios derivados da tirosina têm pouco em comum. As catecolaminas (adrenalina, noradrenalina e dopamina) são neuro-hormônios que se ligam a receptores na membrana das células, assim como ocorre com os hormônios peptídicos. O hormônio da paratireoide (PTH), que controla a homeostasia do cálcio, é um exemplo de um hormônio que utiliza um reflexo endócrino simples. O PTH é secretado por quatro pequenas glândulas paratireoides no pescoço. As células da glândula paratireoide monitoram a concentração de Ca2no plasma com a ajuda de receptores de Ca2 acoplados à proteína G em suas membranas. Quando um certo número de receptores estão ligados ao Ca2, a secreção de PTH é inibida. Se a concentração de Ca2diminui abaixo de um certo nível e poucos receptores de Ca2 estão ligados, a inibição cessa e as células paratireoides secretam PTH (FIG. 7.7a). O hormônio da paratireoide é transportado através do sangue para agir nos ossos, rins e intestino, iniciando respostas que aumentam a concentração de Ca2 no plasma. O aumento na concentração plasmática de Ca2 é um sinal de retroalimentação negativa, que desliga o reflexo e finaliza a liberação do PTH. A Ação dos Hormônios Tireoidianos Tem Início Lento e Longa Duração. Após a injeção de grande quantidade de tiroxina no ser humano, praticamente não se detectam efeitos no metabolismo por 2 a 3 dias, o que demonstra seu longo período de latência, antes do início da atividade da tiroxina. Uma vez que a atividade se inicia, ela aumenta progressivamente, até atingir um máximo em 10 a 12 dias, como mostrado na Figura 77-4. Depois disso, declina com uma meia-vida de cerca de 15 dias. Parte da atividade persiste por 6 semanas a 2 meses. As ações da tri- iodotironina são cerca de quatro vezes mais rápidas que as da tiroxina, com período de latência de apenas 6 a 12 horas e atividade celular máxima ocorrendo de 2 a 3 dias. A maior parte da latência e o prolongado período de ação desses hormônios devem-se a suas ligações 76 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo com proteínas, tanto no plasma quanto nas células, seguidas por sua lenta liberação. Entretanto, veremos a seguir que parte do período de latência também resulta do modo como esses hormônios realizam suas funções nas células. OS HORMÔNIOS TIREOIDIANOS AUMENTAM A ATIVIDADE METABÓLICA CELULAR Os hormônios tireoidianos aumentam a atividade metabólica de quase todos os tecidos corporais. O metabolismo basal pode aumentar de 60% a 100% acima do normal, quando é secretada grande quantidade de hormônios. A velocidade de utilização dos alimentos para a produção de energia é muito acelerada. Embora a velocidade da síntese proteica seja aumentada, a velocidade do seu catabolismo também se eleva, simultaneamente. A velocidade de crescimento de pessoas jovens também tem grande aumento. Os processos mentais são estimulados, bem como a atividade da maior parte das demais glândulas endócrinas. Os Hormônios Tireoidianos Aumentam o Número e a Atividade das Mitocôndrias. Quando o animal recebe tiroxina ou triiodotironina, as mitocôndrias, em suas células, aumentam em tamanho e em número. Além disso, a superfície total da membrana das mitocôndrias aumenta de modo quase diretamente proporcional ao aumento do metabolismo do animal. Portanto, uma das principais funções da tiroxina pode ser, simplesmente, aumentar o número e a atividade das mitocôndrias, o que, por sua vez, aumenta a formação de trifosfato de adenosina para fornecer energia para as funções celulares. Entretanto, o aumento do número e da atividade das mitocôndrias poderia ser o resultado da maior atividade celular, assim como sua causa. Os Hormônios Tireoidianos Aumentam o Transporte Ativo de Íons através das Membranas Celulares. Uma das enzimas, cuja atividade aumenta em resposta ao hormônio tireoidiano, é a Na+-K+-ATPase. Por sua vez, esse aumento da atividade potencializa o transporte de íons sódio e potássio através das membranas celulares de alguns tecidos. Como esse processo utiliza energia e aumenta a quantidade de calor produzido pelo organismo, foi sugerido que esse pode ser um dos mecanismos pelos quais o hormônio tireoidiano aumenta o metabolismo corporal. De fato, o hormônio tireoidiano também torna as membranas celulares da maioria das células mais permeáveis a íons sódio, o que aumenta a ativação da bomba de sódio e a produção de calor. 77 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo EFEITO DO HORMÔNIO TIREOIDIANO NO CRESCIMENTO O hormônio tireoidiano provoca efeitos gerais e específicos no crescimento. Em humanos, o efeito do hormônio tireoidiano no crescimento se manifesta principalmente em crianças. Nas que apresentam hipotireoidismo, o crescimento torna-se muito retardado.Já nas com hipertireoidismo, frequentemente ocorre crescimento esquelético excessivo, tornando a criança consideravelmente alta em idade precoce. Entretanto, os ossos também maturam com mais velocidade, e as epífises se fecham precocemente, de modo que a duração do crescimento e a altura final do adulto podem ser reduzidas. Um importante efeito do hormônio tireoidiano é promover o crescimento e desenvolvimento do cérebro durante a vida fetal e nos primeiros anos de vida pós-natal. Se o feto não secretar quantidade suficiente de hormônio tireoidiano, o crescimento e a maturação do cérebro, antes e após o nascimento, são muito retardados, e o cérebro permanece menor que o normal. Sem o tratamento específico dentro de dias ou semanas após o nascimento, a criança que não tem a glândula tireoide permanece mentalmente deficiente para o resto da vida. Isso será discutido, com mais detalhes, adiante, neste Capítulo. EFEITOS DO HORMÔNIO TIREOIDIANO NAS FUNÇÕES CORPORAIS ESPECÍFICAS Estimulação do Metabolismo de Carboidratos. O hormônio tireoidiano estimula quase todos os aspectos do metabolismo de carboidratos, incluindo a captação rápida de glicose pelas células, o aumento da glicólise, da gliconeogênese, da absorção pelo trato gastrointestinal e, até mesmo, da secreção de insulina, com seus efeitos secundários resultantes no metabolismo de carboidratos. Provavelmente, todos esses efeitos resultam do aumento geral das enzimas metabólicas celulares, causado pelo hormônio tireoidiano. Estimulação do Metabolismo das Gorduras. Praticamente, todos os aspectos do metabolismo de lipídios são estimulados sob a influência do hormônio tireoidiano. De forma particular, os lipídios são rapidamente mobilizados a partir do tecido adiposo, o que reduz os acúmulos de gordura no organismo de modo mais acentuado que os de qualquer outro elemento tecidual. A mobilização dos lipídios do 78 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo tecido adiposo também aumenta a concentração de ácidos graxos livres no plasma e acelera, de forma acentuada, sua oxidação pelas células. Efeito nas Gorduras Plasmáticas e Hepáticas. O aumento do hormônio tireoidiano reduz as concentrações de colesterol, fosfolipídios e triglicerídeos no plasma, embora aumente a de ácidos graxos livres. Ao contrário, a redução da secreção tireoidiana aumenta consideravelmente as concentrações plasmáticas de colesterol, fosfolipídios e triglicerídeos e, quase sempre, provoca o depósito excessivo de lipídios no fígado. O grande aumento do colesterol plasmático, durante o hipotireoidismo prolongado. Um dos mecanismos pelos quais o hormônio tireoidiano reduz a concentração plasmática de colesterol é o aumento significativo da secreção de colesterol na bile e, consequentemente, sua perda nas fezes. Um mecanismo possível para essa secreção aumentada de colesterol consiste na indução, pelo hormônio tireoidiano, de maior número de receptores de lipoproteínas de baixa densidade nas células hepáticas, levando a uma rápida remoção de lipoproteínas do plasma e subsequente secreção de colesterol nessas lipoproteínas pelas células hepáticas. Aumento da Taxa de Metabolismo Basal. Como o hormônio tireoidiano aumenta o metabolismo em quase todas as células corporais, seu excesso pode, ocasionalmente, aumentar o metabolismo basal de 60% a 100%. Ao contrário, quando sua produção cessa, o metabolismo basal quase cai à metade do normal. A Figura 77-6 apresenta a relação aproximada entre o suprimento diário de hormônios tireoidianos e o metabolismo basal. Uma quantidade extrema de hormônios é necessária para produzir metabolismo basal muito alto. Efeito em Outras Glândulas Endócrinas. A elevação do hormônio tireoidiano aumenta a secreção de várias outras glândulas endócrinas, mas também aumenta as necessidades teciduais pelos hormônios. Por exemplo, o aumento da secreção de tiroxina eleva o 79 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo metabolismo da glicose em quase todo o organismo e, por isso, provoca elevação correspondente da necessidade de secreção de insulina pelo pâncreas. Além disso, o hormônio tireoidiano aumenta muitas atividades metabólicas relacionadas com a formação óssea e, como consequência, a necessidade de paratormônio. O hormônio tireoidiano também aumenta a inativação de glicocorticoides adrenais pelo fígado. Esse aumento da velocidade de inativação conduz à elevação, por feedback, da produção de hormônio adrenocorticotrópico pela hipófise anterior e, portanto, ao aumento da secreção de glicocorticoides pelas adrenais. O TSH (DA GLÂNDULA HIPÓFISE ANTERIOR) AUMENTA A SECREÇÃO TIREOIDIANA O TSH, também chamado tireotropina, é um hormônio da hipófise anterior, sendo uma glicoproteína. Esse hormônio, também aumenta a secreção de tiroxina e tri-iodotironina pela tireoide. Seus efeitos específicos na tireoide são: 1. Aumento da proteólise da tireoglobulina já armazenada nos folículos, com resultante aumento da liberação dos hormônios tireoidianos para o sangue circulante e diminuição da própria substância folicular. 2. Aumento da atividade da bomba de iodeto que aumenta a “captação de iodeto” pelas células glandulares, às vezes elevando a proporção entre as concentrações intra e extracelular de iodeto na substância glandular para até oito vezes o normal. 3. Aumento da iodização da tirosina para formar os hormônios tireoidianos. 4. Aumento do tamanho e da atividade secretora das células tireoidianas. 5. Aumento do número de células tireoidianas, além da transformação de células cuboides em colunares e grande pregueamento do epitélio tireoidiano nos folículos. Em resumo, o TSH aumenta todas as conhecidas atividades secretoras das células glandulares tireoidianas. O efeito precoce mais importante, após a administração de TSH, é o início da proteólise da tireoglobulina, que provoca a liberação de tiroxina e triiodotironina no sangue, depois de 30 minutos. Os demais efeitos levam horas ou até mesmo dias e semanas para se desenvolver plenamente. O Monofosfato Cíclico de Adenosina Medeia o Efeito Estimulador do TSH. 80 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo A maior parte dos múltiplos e variados efeitos do TSH nas células tireoidianas resulta da ativação do sistema celular do “segundo mensageiro”, monofosfato adenosina cíclico (AMPc). O primeiro evento nessa ativação é a ligação do TSH a seus receptores específicos na superfície da membrana basal das células tireoidianas. Essa ligação ativa a adenilil ciclase na membrana, que aumenta a formação de AMPc no interior da célula. Finalmente, o AMPc atua como segundo mensageiro, ativando a proteinocinase, que provoca fosforilações múltiplas em toda a célula. O resultado é o aumento imediato da secreção de hormônios tireoidianos e o crescimento prolongado do próprio tecido glandular. Esse método de controle da atividade das células tireoidianas é semelhante à função do AMPc como “segundo mensageiro” em muitos outros tecidos-alvo do organismo. A SECREÇÃO DE TSH PELA HIPÓFISE ANTERIOR É REGULADA PELO HORMÔNIO LIBERADOR DE TIREOTROPINA DO HIPOTÁLAMO A secreção de TSH pela hipófise anterior é controlada pelo hormônio hipotalâmico, o hormônio liberador de tireotropina (TRH), secretado por terminações nervosas na eminência mediana do hipotálamo. A partir da eminência mediana, o TRH é transportado para a hipófise anterior pelo sangue portal hipotalâmico-hipofisário, descrito no Capítulo 75. O TRH é um tripeptídeo amida — piroglutamil-histidil--prolina amida. O TRH afeta diretamente as células da hipófise anterior, elevando sua secreção de TSH. Quando o sistema portal sanguíneo do hipotálamo para a hipófise anterior é bloqueado, a secreção de TSH, pela hipófise anterior, fica bastante reduzida, mas não completamente. O mecanismo molecular pelo qual o TRH provoca a produçãode TSH pelas células secretoras da hipófise anterior consiste na ligação a receptores de TRH na membrana das células hipofisárias. Isso ativa o sistema de segundo mensageiro da fosfolipase no seu interior, produzindo grande quantidade de fosfolipase C, o que é seguido por cascata de outros segundos mensageiros, incluindo íons cálcio e diacilglicerol, que, finalmente, provocam a liberação 81 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo de TSH. Efeitos do Frio e Outros Estímulos Neurogênicos na Secreção de TRH e TSH. Um dos estímulos mais bem conhecidos para o aumento da secreção de TRH pelo hipotálamo e, portanto, de TSH pela hipófise anterior é a exposição do animal ao frio. Esse efeito resulta, quase certamente, da excitação dos centros hipotalâmicos de controle da temperatura corporal. A exposição de ratos ao frio intenso durante muitas semanas aumenta, em alguns casos, a liberação de hormônios tireoidianos para mais de 100% e pode aumentar o metabolismo basal em até 50%. De fato, sabe-se que pessoas que se mudam para regiões árticas desenvolvem metabolismos basais 15% a 20% acima do normal. Diversas reações emocionais também podem afetar a liberação de TRH e TSH e, assim, afetar indiretamente a secreção de hormônios tireoidianos. Agitação e ansiedade — Condições que estimulam intensamente o sistema nervoso simpático — causam redução aguda da secreção de TSH, talvez porque esses estados aumentem o metabolismo e a temperatura corporal e, portanto, exercem efeito inverso sobre o centro de controle da temperatura. Nenhum desses efeitos emocionais nem o efeito do frio são observados após o seccionamento do pedúnculo hipofisário, demonstrando que ambos os efeitos são mediados pelo hipotálamo. EFEITO DE FEEDBACK DO HORMÔNIO TIREOIDIANO PARA REDUZIR A SECREÇÃO DE TSH PELA HIPÓFISE ANTERIOR A elevação do hormônio tireoidiano nos líquidos corporais reduz a secreção de TSH pela hipófise anterior. Quando a secreção do hormônio tireoidiano se eleva para 1,75 do normal, a secreção de TSH cai praticamente para zero. Quase todo esse efeito depressor por feedback ocorre até mesmo quando a hipófise anterior é separada do hipotálamo. Portanto, como mostrado na Figura 77-7, é provável que essa inibição ocorra, principalmente, por efeito direto do hormônio tireoidiano na própria hipófise anterior. Independentemente de onde se dá o controle por feedback, seu efeito consiste em manter uma concentração quase constante de hormônios tireoidianos nos líquidos corporais circulantes. Substâncias Antitireoidianas Suprimem a Secreção Tireoidiana As mais conhecidas drogas antitireoidianas são o tiocianato, o propiltiouracil e as altas concentrações de iodetos inorgânicos. Esses fármacos bloqueiam a secreção tireoidiana por diferentes mecanismos. 82 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo Problema 4 – metabolismo 1. Compreender os mecanismos fisiológicos e bioquímicos da proteína. (Processo de digestão, absorção, produção de energia). De acordo com o Silverthorn, a maior parte das proteínas ingeridas são polipeptídeos ou maiores. Contudo, nem todas as proteínas são igualmente digeridas pelo ser humano. As proteínas vegetais são as menos digeríveis. Entre as mais digeríveis está a proteína do ovo, 85 a 90% encontra-se em uma forma que pode ser digerida e absorvida. Surpreendentemente, de 30 a 60% das proteínas encontradas no lúmen intestinal não são provenientes do alimento ingerido, mas de células mortas que se desprendem e de proteínas secretadas, como as enzimas e o muco. As enzimas para a digestão de proteínas são classificadas em dois grupos amplos: endopeptidases e exopeptidase. As endopeptidases, mais comumente chamadas de proteases, atacam as ligações peptídicas no interior da cadeia de aminoácidos e quebram uma cadeia peptídica longa em fragmentos menores. As proteases são secretadas como proenzimas inativas (zimogênios) pelas células epiteliais do estômago, do intestino e do pâncreas. Elas são ativadas quando alcançam o lúmen do trato GI. Exemplos de proteases incluem a pepsina secretada no estômago, e a tripsina e a quimotripsina, secretadas pelo pâncreas. As exopeptidases liberam aminoácidos livres de dipeptídeos por cortá-los das extremidades, um por vez. As aminopeptidases agem na extremidade aminoterminal da proteína; as carboxipeptidases agem na extremidade carboxiterminal. As exopeptidases digestórias mais importantes são duas isoenzimas da carboxipeptidase secretadas pelo pâncreas. As aminopeptidases desempenham um papel menor na digestão. Absorção de proteínas Os produtos principais da digestão de proteínas são aminoácidos livres, dipeptídeos e tripeptídeos, todos os quais podem ser absorvidos. A estrutura dos aminoácidos é tão variável que múltiplos sistemas de transporte de aminoácidos ocorrem no intestino. A maioria dos aminoácidos livres são carregados por proteínas cotransportadoras dependentes de Nasimilares às encontradas nos túbulos proximais renais. Poucos transportadores de aminoácidos são dependentes de H. Os dipeptídeos e tripeptídeos são carregados para os enterócitos pelo 83 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo transportador de oligopeptídeos PepT1 que usa o cotransporte dependente de H. Uma vez dentro das células epiteliais, os oligopeptídeos têm dois possíveis destinos. A maioria é digerida por peptidases citoplasmáticas em aminoácidos, os quais são, então, transportados através da membrana basolateral e para a circulação. Aqueles oligopeptídeos que não são digeridos são transportados intactos através da membrana basolateral por um trocador dependente de H. O sistema de transporte que move esses oligopeptídeos também é responsável pela captação intestinal de certos fármacos, como alguns antibióticos lactâmicos, inibidores da enzima conversora de angiotensina e inibidores da trombina. Transporte e Armazenamento dos Aminoácidos Aminoácidos do Sangue A concentração normal de aminoácidos no sangue está entre 35 e 65 mg/dL, que é a média de 2 mg/dL, para cada 20 aminoácidos, embora alguns estejam presentes em quantidades bem maiores do que os outros. Uma vez que os aminoácidos são ácidos relativamente fortes, eles existem no sangue, principalmente no estado ionizado, resultante da remoção de um átomo de hidrogênio do radical NH2. Eles de fato respondem por 2 a 3 miliequivalentes de íons negativos no sangue. A distribuição exata dos diferentes aminoácidos no sangue depende, até certo ponto, dos tipos de proteínas ingeridas, mas as concentrações de pelo menos alguns aminoácidos individuais são regulados pela síntese seletiva nas diferentes células. Destino dos Aminoácidos Absorvidos a Partir do Trato Gastrointestinal Os produtos da digestão e da absorção proteicas no trato gastrointestinal são quase inteiramente aminoácidos; só, raramente, polipeptídeos ou moléculas proteicas inteiras são absorvidos pelo trato digestivo para o sangue. Imediatamente após refeição, a concentração de aminoácidos no sangue do indivíduo se eleva, mas o aumento em geral é de somente uns poucos miligramas por decilitro por duas razões. Em primeiro, a digestão e a absorção proteicas normalmente se estendem ao longo de 2 a 3 horas, o que permite que apenas pequenas quantidades de aminoácidos sejam absorvidas de cada vez. Segundo, depois de sua entrada no sangue, o excesso de aminoácidos é absorvido dentro de 5 a 10 minutos pelas células 84 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo em todo o organismo, especialmente pelo fígado. Portanto, grandes concentrações de aminoácidos quase nunca se acumulam no sangue e nos líquidos teciduais. Todavia, a renovação dos aminoácidos é tão rápida que muitos gramas de proteínas podem ser carreados de uma parte do corpo a outra, sob a forma de aminoácidos a cada hora. Transporte Ativo de Aminoácidos para o Interior das Células As moléculasde todos os aminoácidos são grandes demais para se difundirem com facilidade através dos poros das membranas celulares. Consequentemente, quantidade significativa de aminoácidos só pode se mover, para dentro ou para fora da membrana, por meio de transporte facilitado ou de transporte ativo, utilizando mecanismos transportadores. Limiar Renal para os Aminoácidos Nos rins, os diferentes aminoácidos podem ser reabsorvidos através do epitélio tubular proximal, por transporte ativo secundário, que os remove do filtrado glomerular devolvendo-os ao sangue, se eles forem filtrados para os túbulos renais através das membranas glomerulares. Todavia, como é verdade para outros mecanismos ativos de transporte nos túbulos renais, existe um limite superior para a intensidade com que cada tipo de aminoácido pode ser transportado. Por essa razão, quando a concentração de tipo particular de aminoácido fica muito elevada no plasma e no filtrado glomerular, o excesso que não pode ser ativamente reabsorvido é perdido pela urina. Armazenamento de Aminoácidos como Proteínas nas Células Após o seu ingresso nas células, os aminoácidos se combinam uns com os outros por ligações peptídicas sob direção do RNA mensageiro celular e do sistema ribossômico, para formar as proteínas celulares. Assim, a concentração de aminoácidos livres no interior da maioria das células, em geral, permanece baixa, e o armazenamento de grande quantidade de aminoácidos livres não ocorre nas células; em vez disso, eles são principalmente estocados sob a forma de proteínas verdadeiras. Mas muitas dessas proteínas intracelulares podem ser rapidamente decompostas novamente em aminoácidos sob a influência das enzimas digestivas lisossômicas intracelulares. Esses aminoácidos podem, então, ser transportados de volta para fora da célula para o sangue. Uso de Proteínas como Energia 85 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo Uma vez que as células tenham estocado proteínas até os seus limites, qualquer aminoácido adicional nos líquidos corporais, é degradado e utilizado como energia ou armazenado, em sua maior parte, como gordura ou, secundariamente, como glicogênio. Essa degradação ocorre quase inteiramente no fígado, iniciando-se com a desaminação. A desaminação significa a remoção dos grupos amino dos aminoácidos. Ela ocorre principalmente por transaminação,o que significa a transferência do grupo amino para alguma substância aceptora, o que é o reverso da transaminação, inicialmente explicada, com relação à síntese de aminoácidos. o grupo amino do aminoácido é transferido para o ácido a- cetoglutárico, que se transforma então, em ácido glutâmico. Em seguida, o ácido glutâmico poderá ainda, transferir o grupo amino para outras substâncias ou liberá-lo sob a forma de amônia (NH3). No processo de perda do grupo amino, o ácido glutâmico mais uma vez se transformaráno ácido a-cetoglutárico, de modo que o ciclo possa ser continuamente repetido. Para começar esse processo, o excesso de aminoácidos nas células, especialmente no fígado, induz a ativação de grande quantidade de aminotransferases, as enzimas responsáveis pelo início da maioria das desaminações. A amônia liberada durante a desaminação dos aminoácidos, é removida do sangue, quase que inteiramente, por sua conversão em ureia. Essencialmente, toda a ureia formada no corpo humano, é sintetizada no fígado. Na ausência do fígado, ou em graves doenças hepáticas, a amônia se acumula no sangue. Isso é extremamente tóxico, especialmente para o cérebro, muitas vezes conduzindo ao estado denominado coma hepático. O metabolismo dos aminoácidos requer a participação de três importantes cofatores. O piridoxal-fosfato é a coenzima quintessencial do metabolismo de aminoácidos. Todas as reações de aminoácidos que requerem piridoxal- fosfato ocorrem com o grupo amino do aminoácido ligado covalentemente ao carbono aldeído da coenzima. O piridoxal-fosfato, então, atrai elétrons para longe das ligações em volta do carbono alfa. O resultado é transaminação, desaminação, descarboxilação, beta-eliminação, racemização e gama-eliminação, dependendo da enzima e do aminoácido envolvidos. Quatro aminoácidos são sintetizados a partir de intermediários da glicólise: serina, glicina, cisteína e alanina. A serina, a qual produz glicina e cisteína, é sintetizada a partir de 3-fosfoglicerato, e a alanina é formada por transaminação do piruvato, o produto da glicólise. Quando esses aminoácidos são degradados, seus átomos de carbono são convertidos em 86 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo piruvato ou em intermediários da via glicolítica/gliconeogênica e, portanto, podem produzir glicose ou podem ser oxidados a CO2. Serina: A serina pode ser utilizada por vários tecidos e é, em geral, degradada por transaminação a hidroxipiruvato, seguida por redução e fosforilação para formar 2-fosfoglicerato, um intermediário da glicólise que forma PEP e, subseqüentemente, piruvato. A serina também pode sofrer beta-eliminação de seu grupo hidroxila, catalisada pela serina desidratase, para formar piruvato. Glicina: A conversão de glicina em glioxilato pela enzima D-aminoácido- oxidase é uma via de degradação da glicina que é clinicamente importante. Uma vez formado, o glioxilato pode ser oxidado a oxalato, o qual é moderadamente solúvel e tende a precipitar nos túbulos renais, levando à formação de pedras nos rins. Cerca de 40% da formação do oxalato no fígado são provenientes do metabolismo da glicina. Estima-se que o oxalato da dieta tenha uma pequena contribuição para o oxalato excretado na urina, devido à ineficiente absorção intestinal desse composto. Cisteina: Quando a cisteína é degradada, o nitrogênio é convertido em uréia, os carbonos, em piruvato, e o enxofre, em sulfato, o qual tem dois destinos possíveis. A geração de sulfato em meio aquoso é essencialmente a geração de ácido sulfúrico, e ambos, o ácido e o sulfato, precisam ser eliminados na urina. O sulfato também é utilizado na maioria das células para gerar uma forma ativada de sulfato conhecida como PAPS (3’- fosfoadenosina-5’-fosfossulfato), a qual é utilizada como um doador de sulfato, modificando carboidratos ou aminoácidos em várias estruturas (glicosaminoglicanos) e proteínas do organismo. Alanina: A alanina é produzida a partir de piruvato por uma reação de transaminação catalisada pela alanina-aminotransferase (ALT) e pode ser convertida de volta em piruvato pela reversão da mesma reação (ver Figura 39.4). A alanina é o principal aminoácido gliconeogênico, uma vez que é produzida em vários tecidos para o transporte do nitrogênio para o fígado. 2. Correlacionar o metabolismo das proteínas frente as carências nutricionais apresentadas no caso. A desnutrição pode ser classificada quanto à intensidade (leve, moderada e grave), duração (aguda e crônica) e tipo (Marasmo, Kwashiorkor e manifestações intermediárias). A Desnutrição Enérgetico-Protéica (DEP), segundo a OMS apud Escobar (2000), é uma síndrome definida como “uma gama de condições patológicas causada pela falta concomitante de calorias 87 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo e proteínas, em proporções variáveis, que ocorre com maior freqüência em crianças de baixa idade, estando geralmente associada à infecção”. A DEP pode ser classificada conforme sua gravidade em 1°, 2° e 3° grau, segundo critérios de Gómez que se baseiam na perda de peso apresentada pela criança. A desnutrição de 3° grau é o extremo da DEP, ela pode ser dividida em dois tipos clínicos e um intermediário: Marasmo, Kwashiorkor e Kwashiorkor-Marasmático. Marasmo Segundo Escobar (2000) “o marasmo, tem como característica uma deficiência crônica de energia, com perda da massa muscular e ausência de gordura subcutânea, normalmente a criança apresenta peso abaixo de 60% da média para a idade (abaixo de 12 meses), devido ao desmame precoce e a baixa ingestão, principalmente de caloriase proteínas. Dessa forma, o aspecto físico da criança marasmática é caracterizado por membros superiores e inferiores extremamente magros, com baixa estatura para a idade, expressão facial envelhecida, abdômen saliente e pele enrugada e solta na região das nádegas, além de apresentar baixa atividade física, diarréia, parasitoses, tuberculose, hipotermia, anemia e desidratação, afetando também o aspecto emocional em que a criança tende a ficar triste chorosa e irritada. Kwashiorkor O kwashiorkor consiste basicamente em deficiência protéica, que pode ser associada também na deficiência de calorias. A criança que apresenta esta síndrome tem como quadro clínico, algumas alterações na pele dos membros inferiores, atraso no crescimento, perda da gordura subcutânea e muscular (menos intensa que no marasmo), Anais do VI Congresso Goiano de Ciências do Esporte, Goiânia 10 a 12 de Junho de 2009. 3 apresentam edema, fraqueza muscular, distensão abdominal, hepatomegalia e dificilmente responde a estímulos. “A desnutrição do tipo kwashiorkor pode ser caracterizada pela deficiência de proteína na dieta, além de vitaminas e sais minerais, onde a alimentação ingerida na forma de carboidrato é normal (arroz, milho e mandioca, por exemplo; alimentos de baixo custo), não ocorrendo o mesmo com a ingestão de fontes alimentares ricas em proteínas (como por exemplo, a carne bovina e/ou de aves; alimento de custo elevado”). (MENDONÇA, 2003 apud VOLTARELLI et al, 2008, p.76) Kwashiorkor-marasmático O kwashiorkor-marasmático é um quadro misto em que os sinais e os sintomas do marasmo e do kwashiorkor freqüentemente se combinam, ou seja, uma combinação de deficiência calórica crônica com deficiência protéica crônica. “Isso ocorre, por exemplo, quando um paciente marasmático é submetido a um estresse agudo, como 88 Julyana de Aquino Guerreiro Araújo trauma cirúrgico ou infecção, de forma que o kwashiorkor se adiciona à desnutrição calórica prévia”. (OLIVEIRA, 1998; WAITZBERG, 2001 apud SOUSA et al, 2007)