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2a edição | Nead - UPE 2013 Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Núcleo de Educação à Distância - Universidade de Pernambuco - Recife xxxx, xxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx. – Recife: UPE/NEAD, 2011 32 p. ISBN - xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxx xxxxxx U ni ve rs id ad e de P er na m bu co - U PE N EA D - N Ú CL EO D E ED U CA ÇÃ O A D IS TÂ N CI A REITOR Prof. Carlos Fernando de Araújo Calado VICE-REITOR Prof. Rivaldo Mendes de Albuquerque PRó-REITOR ADMINISTRATIVO Prof. José Thomaz Medeiros Correia PRó-REITOR DE PLANEJAMENTO Prof. Béda Barkokébas Jr. PRó-REITOR DE GRADUAÇÃO Profa. Izabel Christina de Avelar Silva PRó-REITORA DE PóS-GRADUAÇÃO E PESqUISA Profa. Viviane Colares Soares de Andrade Amorim PRó-REITOR DE DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E ExTENSÃO Prof. Rivaldo Mendes de Albuquerque COORDENADOR GERAL Prof. Renato Medeiros de Moraes COORDENADOR ADJUNTO Prof. Walmir Soares da Silva Júnior ASSESSORA DA COORDENAÇÃO GERAL Profa. Waldete Arantes COORDENAÇÃO DE CURSO Profa. Giovanna Josefa de Miranda Coelho COORDENAÇÃO PEDAGóGICA Profa. Maria Vitória Ribas de Oliveira Lima COORDENAÇÃO DE REVISÃO GRAMATICAL Profa. Angela Maria Borges Cavalcanti Profa. Eveline Mendes Costa Lopes Profa. Geruza Viana da Silva GERENTE DE PROJETOS Profa. Patrícia Lídia do Couto Soares Lopes ADMINISTRAÇÃO DO AMBIENTE Igor Souza Lopes de Almeida COORDENAÇÃO DE DESIGN E PRODUÇÃO Prof. Marcos Leite EqUIPE DE DESIGN Anita Sousa Gabriela Castro Rafael Efrem Renata Moraes Rodrigo Sotero COORDENAÇÃO DE SUPORTE Afonso Bione Prof. Jáuvaro Carneiro Leão EDIÇÃO 2013 Impresso no Brasil - Tiragem 180 exemplares Av. Agamenon Magalhães, s/n - Santo Amaro Recife / PE - CEP. 50103-010 Fone: (81) 3183.3691 - Fax: (81) 3183.3664 LITERATURA INFANTIL Profa. Dra. Rossana Regina Guimarães Ramos Henz Carga Horária | 45 horas Objetivo geral Apresentação Ementa Aspectos históricos, teóricos e metodológicos da Literatura Infantil. A formação do gosto pela lei- tura. Conceitos, características, obras e autores de histórias infantis: clássicas, modernas e contempo- râneas. Folclore, teatro e poesia infantil. Apresentar e discutir os aspectos históricos, teó- ricos e metodológicos da Literatura Infantil assim como a formação do gosto pela leitura. O livro que aqui se apresenta tem como objetivo partilhar conhecimentos sobre Literatura Infan- til (doravante abreviada para LI) entre os sujeitos envolvidos nesse assunto, isto é, entre mim, a autora, os teóricos e estudiosos do tema aqui citados e vocês, alunos do curso da Educação a Distância. Desse modo, nossa “conversa” se processará por meio de muitas vozes, conhecimentos, opiniões e experiências de todos nós. A leitura no Brasil vem hodiernamente sendo objeto de discussões e práticas, sobretudo na edu- cação. Pode-se dizer, inclusive, que o Brasil tornou-se alvo de um mercado editorial, cobiçado por grandes editoras internacionais. Ainda que não sejamos um país essencialmente de leitores, as mudanças nessa direção vêm-se evidenciando nas políticas públicas de leitura e na aquisição de livros. Inúmeros programas de leitura, ações pedagógicas, feiras de livros e dotações orçamentá- rias para a compra de livros têm acontecido com o objetivo de ampliar o ato de ler e, consequen- temente, de letrar os cidadãos brasileiros. No campo vasto da leitura, evidenciam-se gêneros os mais diversos, entre eles o que denominamos Literatura Infantil. Mesmo que ainda considerada como pouco importante, a LI vem ocupando espaços mais amplos nos últimos 30 anos, tendo em vista que o seu papel na sociedade tem como base as mudanças na visão que se passou a ter da criança nesse espaço de tempo. Correlacionadas infância e literatura, uma sob influência da outra, delineia-se um novo quadro em que os adultos descobrem ser a LI um importante elemento no desenvolvimento social e cognitivo da criança. Desse modo, na busca pelo desenvolvimento social, a LI tem desempenhado um papel diferen- te do que ocupava há 30 anos. Sua ampliação e facilidade de acesso vêm criando, ainda que a passos largos, novas gerações de leitores (cidadãos) capazes de enxergar o mundo de forma mais ampla, complexa e interativa. O contato com a literatura já nos primeiros anos de vida proporcio- na ao indivíduo não só a inserção na sociedade grafocêntrica1 mas também a aproximação com variados objetos do conhecimento. A criança que tem contato com a literatura, seja ela oral ou escrita, desenvolve potencialidades que vão desde o aumento da percepção sensorial até a capacidade de abstração, elemento fun- damental para o desenvolvimento cognitivo. Ainda como pré-leitora2, a criança, ao ouvir histórias e manusear livros, insere-se na perspectiva do letramento, conceito que, nos dias atuais, vem descortinando um novo modo de se analisar a participação dos indivíduos na sociedade em que vivem. Ser letrado significa não somente partilhar o mundo pela leitura mas também ser capaz de contextualizar o texto lido. Por fim, a LI tem como virtude, segundo Bettelheim (2007), a capacidade de produzir efeitos psicológicos importantes na formação da criança. Esses efeitos vêm de seu formato (estrutura) crivado de elementos lúdicos, arquetípicos e atemporais, que empreendem importantes visões e atitudes na criança que ouve ou lê histórias. Assim sendo, neste livro, busca-se explicitar características bem como práticas voltadas para o conhecimento e a utilização da LI na escola e na vida. Boa Leitura! 1 Grafocentrismo é uma prática de utilização ampla da escrita. 2 Criança pré-leitora é aquela, que ainda não decodifica a escrita, mas compreende a leitura em sua função social. capítulo 1 7 INTRODUÇÃO Neste primeiro capítulo, serão discutidas questões relativas às relações entre infância e literatura ao longo do tempo, a fim de que, nesse percurso histórico, sejam explicadas as transformações ocorridas que, certamente, são a base de um quadro que hoje se vislumbra na sociedade no que se refere tanto à criança quanto à LI. O que iremos observar e compreender é uma espécie de evolução nas relações sociais, com bases familiares, que aponta em direção a mudanças no tratamento para com a infância. Tratadas como mal necessário na Idade Média ou paparicadas a partir do século xVIII, as crianças sempre ocuparam um papel importante no processo de perpetuação humana. Desse modo, os estudos cada vez mais se aprofundam no sentido de compreender esse período inicial da vida bem como os aparatos que o cercam, como no caso em questão: a literatura infantil. OBJETIVOS ESPECÍFICOS • Apresentar um panorama histórico das re- lações entre literatura e infância; • Compreender a história social da criança e seus reflexos na literatura; • Possibilitar a discussão sobre as mudanças na visão da infância e, consequentemente, da literatura infantil. LITERATURA E INFâNcIA Profa. Dra. Rossana Regina Guimarães Ramos Henz Carga Horária | 15 horas capítulo 18 1. A HISTóRIA SOCIAl DA INFâNCIA Figura 01 Fonte: http://merendinhas.blogspot.com/2008/10/histria-social- -da-criana-e-da-famlia.html Para definir a LI, necessitamos entender os dois conceitos que nela estão sobrepostos: Li- teratura e Infância. A Literatura, poderíamos defini-la, de um modo geral, como o conjunto de textos ou discursos, que representam, dis- cutem e narram a vida humana de forma real ou imaginária, evidenciando fatos, anseios e ideologias. Por outro lado, a infância é, em qualquer épo- ca ou lugar, um período da vida. Contudo, o conceito de infância nem sempre foi esse que temos hoje. Ao longo do tempo, conforme Philippe Ariès (2006:10), a ideia de infância, entendida como um período da vida muitodi- ferente da idade adulta, é uma invenção cons- truída ao longo da era moderna. Referindo-se à Idade Média, o autor nos diz que “a duração da infância era reduzida ao seu período mais frágil e (...) mal a criança adquiria algum de- sembaraço físico, era logo misturada aos adul- tos e partilhava de seus trabalhos e jogos.”. Nessa perspectiva histórica retratada pelo au- tor, encontramos uma concepção da criança como um adulto em escala reduzida. A ideia está contida, por exemplo, na arte medieval que representava a criança caracterizada nas imagens com vestimentas e expressões de adulto. Essa manifestação era decorrente do sentimento reinante nesse período. quase invisível na sociedade tradicional da era medieval, a criança era uma espécie de mal ne- cessário, já que posteriormente seria mais um ente da família que, no início da era moder- na, tinha por missão a conservação dos bens, a prática comum de um ofício e a ajuda mú- tua cotidiana. As relações afetivas, contudo, eram dispensáveis não só com as crianças mas também entre os casais, tendo em vista que o equilíbrio familiar estava pautado em outros elementos de natureza social, econômica ou cultural. A vida em comum na Idade Média proporcionava não só a ausência de intimida- de mas também o fato de que a transmissão ou reprodução de valores e de conhecimentos assim como a socialização da criança não eram asseguradas nem controladas pela família. A educação das crianças também era uma prá- tica coletiva, decorrente da vida em comum e, portanto, exercida fora da família, entre vi- zinhos, amigos, amos e criados, mulheres e homens, velhos e crianças, em que os grupos familiares se diluíam. A aprendizagem da vida, os valores e os ofícios eram resultado da convi- vência e da participação das crianças nas ativi- dades cotidianas. Essa característica ainda pode ser percebida atualmente em determinados locais ou em de- terminadas classes sociais. Crianças portando armas, exercendo funções de adultos, seja no Oriente Médio em guerra ou em uma favela to- mada pelo tráfico de drogas, evidenciam uma descontinuidade do processo histórico que atualmente, de maneira geral, concebe a infân- cia de forma diferente daquela medievalista. capítulo 1 9 Figura 02 Fonte: http://domingosdesouza.blogspot.com/2009/04/criancas- -trabalhando-nomenicholas.html A ideia da infância ligada essencialmente à de- pendência, ou seja, saía-se da infância ao se sair dos mais baixos graus de dependência, evidenciava a insignificância desse período da vida. Para Ariès (2006), também é possível identificar esse anonimato na representação periférica das crianças nas obras de arte, na ra- ridade da alusão às crianças ou às suas mortes nos diários de família, também pela ausência de registro sobre sua idade e no infanticídio comum e tolerado. As condições gerais de sobrevida, isto é, os par- cos recursos da medicina no período em ques- tão, são também fatores que contribuem para essa invisibilidade social da infância, tendo em vista que se pode relacionar esse anonimato com o alto índice de mortalidade infantil, o que tornava a infância um período extremamen- te frágil para ganhar um lugar significante. A possibilidade de morrer antes de se tornar um adulto pode explicar o aparente sentimento de indiferença com relação à criança. As mudanças em relação ao sentimento de infância, a chamada “paparicação”, passam a ocorrer quando as crianças pequenas come- çam a ocupar um lugar no olhar, na diversão e nas brincadeiras dos adultos, a partir dos sé- culos xV e xVI.Conforme Ariés (2006:18), “No século xVII, de um infanticídio secretamente admitido passou-se a um respeito cada vez mais exigente pela vida da criança”. Figura 03 Fonte: http://merendinhas.blogspot.com/2008/10/histria-social- -da-criana-e-da-famlia_14.html Tal mudança deve-se, em grande parte, à cris- tianização dos costumes, quando as crianças começam a ser batizadas e ganham presença cada vez mais central nas representações artís- ticas. A alma da criança é reconhecida antes do seu corpo. Aliadas às questões espirituais, vêm as mudanças nas condições demográficas relacionadas a novas práticas de higiene e cui- dados, as primeiras vacinas e o controle da na- talidade cada vez mais difundido, para melhor cuidar dos filhos vivos. Ao mesmo tempo, a família muda, tornando- -se uma instituição de afeto necessário em sua constituição entre os cônjuges bem como na relação pais e filhos. A criança passa, então, a ser vista, ganhando uma crescente impor- tância no meio familiar e no que se refere aos cuidados com ela, no sentido da preservação de sua vida. capítulo 110 Esse novo sentimento de família fortalece os laços entre mãe e filhos, suscitando um novo lugar social da mulher, que será definido pela maternidade. O quadro que se apresenta evidencia novas atitudes no que se refere às crianças, às famílias e aos costumes. A escola começa a representar o lugar da educação, em detrimento da aprendizagem no convívio dire- to com os adultos, de quem especialmente as crianças mais abastadas vão sendo paulatina- mente separadas. Nesse contexto, dá-se início a um processo de disciplinarização e vigilância constante por meio da escolarização e em decorrência do sur- gimento do sentimento vinculado à infância: o de fragilidade e inocência. Em contraposição à infância ignorada, ganha força o conceito da debilidade e da fragilidade da criança. En- tretanto, no século xVIII, a ideia da inocência infantil se dissemina, e os costumes vigentes passam a prestigiar o recato do comportamen- to, o pudor com o próprio corpo, a reserva na linguagem e o controle sobre a convivência, as diversões e, até, sobre a leitura adequada a crianças e adultos. A preocupação com a infância deixa de ser res- trita à família para se expandir entre os eclesi- ásticos, os homens da lei e os moralistas, pre- ocupados com a racionalidade dos costumes e com a disciplina. Essa nova doutrina moral influenciou fortemente o papel da família e o modelo educacional vigente até os dias de hoje, determinando, também, o deslocamento da vida social do espaço público para o espaço privado. A noção de inocência aparta a criança dos as- suntos da sexualidade. A noção de fraqueza e debilidade aponta para a necessidade de fortalecer o seu caráter por meio da discipli- na. Nesse contexto, é que o castigo corporal se generaliza, tornando-se uma característica da nova atitude diante da infância. Ainda conforme Ariès (2006), esses fenôme- nos se relacionam e expressam uma tendência geral ao enclausuramento próprio das socie- dades modernas, em substituição às promis- cuidades das antigas hierarquias. Cabe desta- car que essas mudanças nas representações sociais sobre a família e sobre a infância não ocorreram da mesma maneira entre ricos e pobres ou com relação a meninos e meninas, configurando o sentimento de gênero, que imprimimos até os dias de hoje na educação familiar e institucional. Cabe salientar que a intimidade da vida pri- vada, em oposição à convivência privilegiada na coletividade, estabeleceu-se muito antes e mais marcadamente entre os ricos, o que tam- bém se pode observar na sociedade contem- porânea, tendo em vista as condições de habi- tação dos mais pobres de todos os cantos do mundo. Ter um quarto separado somente para si não é uma prerrogativa de todas as crianças, mas um privilégio de poucos abastados. Figura 04 Fonte: http://comunidadewesleyana.blogspot.com/2011/12/ dicionario-teologico_29.html capítulo 1 11 Nessa perspectiva histórica, também se locali- za a LI. Ao longo do tempo, as narrativas lú- dicas perseguiram crianças e adultos, embora as formas e os conteúdos tenham evidencia- do mudanças. Assim como os costumes – ali- mentação, vestimentas, habitação, linguagem etc. – se transformaram, também as histórias que permearam a existência humana sofreram mudanças. Entretanto, foi e ainda é por meio delas que o homem registra,pela oralidade ou pela escrita, sua trajetória, seus pensamentos, sua forma de ser e existir. RESUMO O presente capítulo tratou de discutir as rela- ções entre infância e literatura em uma pers- pectiva histórica, tendo em vista as transfor- mações sociais pelas quais ambas passaram. A infância nem sempre foi vista como um período de cuidados especiais e de formação básica do indivíduo. A literatura, por sua vez, também não era um aparato com tratamento específico para essa fase da vida. Desse modo, as transformações ocorreram concomitan- temente, até chegarem ao ponto em que se encontram atualmente: infância e literatura in- fantil têm visões específicas que se coadunam em bases psicossociais. 1. Produza, em 20 linhas, uma resenha sobre a História da Infância, utilizando o texto do livro e o vídeo sugerido. Atividades: BIBlIOGRAFIA ARIÈS, P. História Social da Criança e da Famí- lia. Rio de Janeiro: LTC, 2006. A obra apresenta, do ponto de vista histórico, o papel da família e da criança desde o perío- do da Idade Média até o século xVIII, embo- ra os conceitos nela apresentados possam ser utilizados até os dias de hoje, se a eles forem agregados novos conhecimentos sobre as mo- dificações ocorridas no tempo e no espaço. Vídeo A Invenção da Infância http://www.youtube.com/watch?NR=1&v=B CJqW6YHfHI&feature=endscreen O presente documentário apresenta, de forma interessante e clara, as relações históricas entre infância e sociedade, representando, sobretu- do, as variadas formas de vida de crianças em nosso país. capítulo 2 13 Profa. Dra. Rossana Regina Guimarães Ramos Henz Carga Horária | 15 horas OBJETIVOS ESPECÍFICOS • Apresentar conceitos e ideias sobre o gê- nero literatura infantil; • Compreender a literatura infantil em suas origens e transformações; • Possibilitar a discussão sobre as mudanças na visão de mundo e, consequentemente, na literatura infantil. o qUE é LITERATURA INFANTIL? INTRODUÇÃO Neste segundo capítulo, serão discutidas questões relativas às origens da LI bem como seus efei- tos na sociedade contemporânea. Ademais, apresentar-se-á uma relação de conceitos produzidos atualmente sobre a LI como um fenômeno importante por diversos motivos, entre eles, seu acesso aos bancos escolares. O que iremos observar vai além do boom3 da LI nos últimos tempos. Buscamos compreender uma espécie de evolução nas relações sociais, com a inserção de livros infantis nas casas, nas escolas, nos projetos culturais etc., fazendo a literatura infantil aos poucos sair de uma esfera menor no campo literário para alçar novos patamares na escala dos valores atribuídos aos tipos de leitura. Nessa perspectiva que abre espaço para um novo gênero, agora definitivamente constituído é que desenrola a discussão deste capítulo. 3 Esta palavra (onomatopeia) em inglês significa explosão. capítulo 214 Figura 01 Fonte: http://conversadeportugues.com. br/2012/04/diadolivroinfantil/ 1. AS ORIGENS DA lI A LI, segundo Azevedo (s/d:01), pode ter, pelo menos, duas origens. A primeira, e mais prová- vel, seriam as histórias orais (os contos) advin- das da cultura popular. A outra estaria no apa- recimento das instituições escolares no século xVII, com os textos didáticos. Numerosos estudiosos têm partido do pres- suposto de que só se pode, realmente, falar em literatura infantil a partir do século xVII, época da reorganização do ensino e da funda- ção do sistema educacional burguês. Segundo essa linha de pensamento, antes disso e em resumo, não haveria propriamente uma infân- cia no sentido que conhecemos. Antes disso, as crianças, vistas como adultos em miniatu- ra, participavam, desde a mais tenra idade, da vida adulta. Não havendo livros nem histórias dirigidas especificamente a elas, não existiria nada que pudesse ser chamado de literatura infantil. Por esse viés, as origens da literatura infantil estariam nos livros publicados a partir dessa época, preparados especialmente para crianças com o intuito pedagógico, utilizados como instrumento de apoio ao ensino. Como consequência natural desse processo, o dida- tismo e o conservadorismo (a escola, afinal, costuma ser instrumento de transmissão dos valores vigentes) deveriam ser considerados componentes estruturais, por assim dizer, da chamada literatura para crianças. As concepções produzidas por Azevedo (s/d) podem assim ser analisadas. Se adentrarmos o viés da literatura para crianças, de fato, pode- -se considerar que esse gênero surge com o advento da escola. Todavia, se pensarmos a LI marcada pelas narrativas orais (histórias – con- tos maravilhosos, contos de fadas, fábula etc.), que vêm da Antiguidade, percebemos uma es- pécie de perpetuação de um modelo que, a princípio, era de interesse geral, mas que, com o passar do tempo, direcionou-se para o públi- co infantil. Os motivos pelos quais houve essa redução do gênero para uma determinada fai- xa etária, a infância, podem dever-se ao fato de que a razão passa a ser uma característica dos adultos, e a imaginação, elemento básico dessas narrativas, permanece no comporta- mento intuitivo das crianças. Ainda em relação às origens, conforme Lajolo e Zilberman (1999), a LI teve seu início na Eu- ropa, às vésperas do século xVIII, quando, em 1697, Charles Perrault publicou a obra Contos da Mamãe Gansa. No Brasil, apenas em 1808, com a implantação da Imprensa Régia, inicia- -se o processo de publicação de livros para crianças, sendo o primeiro uma tradução de As aventuras pasmosas do Barão Munkausen. Em 1818, publica-se a coletânea de José Satur- nino da Costa Pereira, Leitura para Meninos, contendo uma coleção de histórias morais re- lativas aos defeitos ordinários às idades tenras e um diálogo sobre geografia, cronologia, his- tória de Portugal e história natural. O processo de industrialização do Brasil, após o marco da República, cria uma nova massa urbana e consumidora, que propicia a criação de vários gêneros editoriais, como jornais, re- vistas, livros, entre eles, os infantis, que passam a ser utilizados como material escolar. Destaca- -se, nesse período, a publicação de uma revis- ta infantil intitulada O Tico-Tico, que teve vida longa no mercado editorial. capítulo 2 15 Figura 02 - Monteiro Lobato Fonte: http://www.vidaslusofonas. pt/monteir12.gif O passo a seguir para a ampliação da LI no Brasil deu-se graças a um contexto histórico- -social, que demandava, já no século xx, pro- gramas de instrução (alfabetização) de uma massa que adentrava o mercado de trabalho fora do âmbito rural. Para isso, clamava-se por uma literatura nacional que descrevesse as pai- sagens e os anseios de uma nação que preten- dia formar cidadãos leitores, ao que se poderia denominar hoje de cidadãos letrados4. Nessa perspectiva de novos horizontes literá- rios, inclusive na área infantil, surgem diversos autores e obras, entre eles Monteiro Lobato, que inicia seu trabalho com a tradução de tex- tos estrangeiros, indo em seguida construir uma grande parte do panorama literário in- fantil em meados do século xx. Em destaque, estão os livros da coleção do Sítio do Pica-pau Amarelo, que atravessaram décadas e ainda hoje permanecem no rol das preferências in- fantis, sendo, inclusive, adaptados para outros veículos, como revistas, quadrinhos, seriados televisivos, teatro, jogos eletrônicos etc., além de se transformarem em marca de produtos infantis: cadernos, xampus, sabonetes, calça- dos, entre outros. Monteiro Lobato é, sem dúvida, o autor que construiu um capítulo importante na LI bra- sileira. Em uma época na qual os livros bra- sileiros eram editados em Paris ou Lisboa, ele tornou-se, também, editor, passando a editar livros, também, no Brasil. Com isso, implantou uma série de renovações nos livros didáticos e infantis. Sua notabilidade se fez por meio de uma lite- ratura, que preencheu um espaço vazio, e, so- bretudo, porque se dedicou a um estilo de es- crita com linguagem simples emque realidade e fantasia estão lado a lado. Pode-se dizer que, embora não tenha sido o primeiro a publicar livros para crianças, por causa da quantidade e qualidade de suas obras, foi o precursor da literatura infantil no Brasil. Suas personagens mais conhecidas são: Emília, uma boneca de pano com sentimento e ideias independentes; Pedrinho, personagem com a qual o autor se identifica quando criança; Vis- conde de Sabugosa, a sábia espiga de milho que tem atitudes de adulto; Cuca, a vilã, que aterroriza todos do sítio; Saci-Pererê e outras personagens que fazem parte de sua inesque- cível obra. Escreveu ainda outras incríveis obras infantis, como: A Menina do Nariz Arrebitado, O Saci, Fábulas do Marquês de Rabicó, Aventuras do Príncipe, Noivado de Narizinho, O Pó de Pirlim- pimpim, Reinações de Narizinho, As Caçadas de Pedrinho, Emília no País da Gramática, Me- mórias da Emília, O Poço do Visconde, O Pica- -Pau Amarelo e A Chave do Tamanho. Além dos livros infantis, Lobato escreveu ou- tras obras literárias; nesse caso, para adultos, tais como: O Choque das Raças, Urupês, A Barca de Gleyre e o Escândalo do Petróleo. Em 1948, o Brasil perdeu este grande talento, que tanto contribuiu para o desenvolvimento de nossa literatura. 4 Leia mais sobre o conceito de Letramento. capítulo 216 Figura 03 Ou Isto ouAquilo, de Cecília Meireles Ainda segundo Lajolo &Zilberman (1999), de essencialmente rural e bucólica, a LI, nos anos 60/70, passa a ser uma rota de fuga para os protestos contra a dualidade social (pobreza x riqueza) e o regime autoritário exercido pelos militares no poder. Entre várias, destacaram-se as obras de Odete de Barros Mott, sobretudo, Justino, o retirante, que retrata a saga de um menino pobre em busca de uma vida melhor na cidade grande. Há também que se destacar nesse período a busca por novos formatos em que se evidenciaram recursos, como a oralida- de, a relação criança/natureza interagindo de forma livre, a valorização do mundo das co- res, dos sons, da sinestesia. Nessa perspectiva que rompe com os padrões bilaquianos, en- contram-se obras como Ou isto ou aquilo de Cecília Meireles, A casa de Vinícius de Morais, entre outros. Em uma espécie de retrocesso, quiçá por cau- sa da repressão política, a LI dos anos 70 in- corpora um gênero já conhecido: o suspense. Esse modelo, que se misturou com a chamada ficção científica, ampliou-se de tal forma que passou a ser inigualável em qualquer outro país a produção desse gênero locado na LI. Destacam-se nessa área as primeiras obras, A vaca voadora (1972), de Edy Lima e O gênio do crime (1969), de João Carlos Marinho. Nos anos 80, a LI já estabelecida como gênero e considerada necessária à formação de crian- ças e jovens passa a se proliferar de diversas formas, referendada por autores importantes, como Ziraldo, Ana Maria Machado, Ruth Ro- cha, Eva Furnari, Ligia Bojunca Nunes, Tatiana Belinky, entre tantos outros. Atualmente, considerando-se os últimos quin- ze anos, a LI encontra-se em franca expansão de produção e de consumo. Os livros infantis passaram a ter características bem delineadas do ponto de vista estético e em relação aos temas que abordam. As ilustrações passaram a ser um importante elemento em sua compo- sição. Surgiram profissionais específicos para ilustrar livros infantis, e essas obras passaram a apresentar cores, formatos e texturas bem cuidadas no sentido de chamar a atenção das crianças, mas, sobretudo, com o objetivo de complementar os textos em uma espécie de “conversa” entre imagem e conteúdo. Os conteúdos, por sua vez, passaram a aten- der aos anseios de uma sociedade múltipla e diversificada. Essa mudança na constituição da narrativa é a marca dos tempos no tratamento que teoricamente se dá às crianças atualmen- te. A ideia de educar, não pelo medo, mas sim pela consciência individual e social, é provavel- mente a razão dessa transformação. Os per- sonagens das histórias seguras5 têm o poder de mudar radicalmente seus comportamentos, deixando de ser maus para se tornarem bons e vice-versa. Nem sempre o enredo trata a luta do bem contra o mal, como se vê nos contos de fadas, mas de situações da vida social coti- diana, como: o consumismo; a preservação da 5 Termo utilizado por Bettelheim (1996) para denominar os livros infantis da atualidade. As histórias seguras, diferentemente dos contos clássicos em que é nítida a definição entre o bem e o mal em um explícito maniqueísmo, se valem de uma forma amenizada de tratar as questões tanto sociais quanto existenciais apresentadas. Com base na ideia de livrar a criança dos males do mundo, essas histórias,ao contrário dos contos de fadas, não apresentam explicitamente a morte, a miséria, a maldade, o abandono e outras questões violentas. capítulo 2 17 natureza; as novas questões familiares com as separações de pais, os novos parentes como os meios-irmãos ou irmãos adotivos, madrastas e padrastos bonzinhos; aspectos físicos, como higiene, saúde e alimentação. 2. lITERATURA INFANTIl E A ESCOlA As relações entre Literatura Infantil e escola são marcadas historicamente em uma espécie de casamento e divórcio, tendo em vista que, segundo Azevedo (s/d), uma das possíveis hi- póteses para o aparecimento da LI é a de que tenha sido no processo de aparecimento das escolas. Infantis teriam sido chamados os tex- tos utilizados para o treinamento da leitura após a alfabetização. Por outro lado, a LI até bem pouco tempo não era reinante no espaço escolar; resumia-se apenas a alguns textos dos livros didáticos ou a momentos de descontra- ção no recreio. A prática obrigatória de leitura de livros infan- tis, como se vê hoje na escola, é algo recente e que se origina de vários fatores, sobretudo das novas teorias de leitura que indicam ser o contato com o texto, desde a mais tenra idade, o que proporciona a formação do leitor. Como qualquer outro hábito da vida social, a leitura deve ser praticada constantemente para que se torne uma prática, um recurso para o de- senvolvimento psíquico e intelectual. Outra teoria que vem reforçando a prática da leitura é o Letramento. Conforme Magda Soares (1998:47), “o letramento é estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escre- ver, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam na escrita”. A ideia que se apresenta nes- se novo campo de estudo é a de que a leitu- ra deve, por meio de mecanismos próprios de quem lê, trazer não somente o conhecimento pelo conhecimento, mas a ampliação da visão de mundo e da inserção social dos indivíduos. A questão que ainda se coloca na relação LI e escola é a utilização do livro infantil na sala de aula. De que modo trabalhar esse material “estranho” e que concorre com o livro didáti- co. Essa é uma das discussões que faremos no próximo capítulo. Ainda nesta etapa do livro, vale ressaltar que, em paralelo às mudanças na LI, persistiu um tipo de literatura para crianças, os contos de fadas, ou melhor, a chamada LI clássica, que se estende aos contos maravilhosos, às fábulas, aos mitos e a alguns textos religiosos. Ainda que atingidos pelo novo conceito de criança ocorrido no século xVIII, esses textos sobrevi- vem e ultrapassam tempos e espaços. Mesmo que Chapeuzinho Vermelho e a vovó, nas ver- sões atuais da história, não sejam mortas e in- geridas pelo Lobo Mau, como nos textos mais antigos, ainda se conta esse clássico por todos os cantos do mundo. Fazem parte também de nossa cultura infan- til brasileira narrativas, jogos de linguagem, canções que fazem parte de nosso folclore. Lendas, parlendas, trava-línguas, cantigas de roda, adivinhas etc., algumas importadas da Europa, outras advindas das culturas indígena e africana, permanecem vivas em algumas re- giões, ainda que os hábitos de brincar na rua, cantar cantigas de ninar, fazer jogos orais te- nham sido quase que substituídos pelos dese- nhos animados, filmes e jogos eletrônicos etc.. Também sobre essaquestão, apresentaremos algumas ideias no próximo capítulo. capítulo 218 1. Faça uma pesquisa com pessoas mais velhas para saber como foi sua infância e com que tipo de literatura (oral ou escrita) tiveram contato. Escreva um texto sobre essa pesqui- sa e publique no mural de sua escola. Atividades: RESUMO O capítulo II trata de expor um panorama his- tórico da LI, sobretudo no Brasil. Verificamos que esse gênero, embora tenha sido herdado da cultura europeia, aos poucos foi adquirin- do um perfil próprio, digno de uma historio- grafia. A história da LI brasileira como a de qualquer outro gênero deve ser analisada à luz dos fatos sociais que a sustentam e justifi- cam. Desse modo, para melhor compreender a trajetória das publicações na área infantil, é preciso que se compreenda não somente a história social de um povo mas também a his- tória social da criança e da família, conforme exposto no capítulo I. capítulo 3 19 OBJETIVOS ESPECÍFICOS • Apresentar características básicas da LI com vistas ao conhecimento mais aprofun- dado do gênero; • Discutir os efeitos da LI na criança que tem contato com esse gênero; • Possibilitar o conhecimento e a prática da formação de leitores. PoR qUE dEvEmos LER oU coNTAR hIsTóRIAs PARA As cRIANçAs? Profa. Dra. Rossana Regina Guimarães Ramos Henz Carga Horária | 15 horas INTRODUÇÃO Neste terceiro capítulo, serão discutidas questões relativas às práticas de leitura, às consequências do ato de ler ou ouvir histórias e, por fim, à formação do leitor. Por meio de exemplos (narrativas), buscamos aprofundar as discussões sobre as práticas e os efeitos da LI não só na escola mas tam- bém em outras instâncias, como a família, o grupo social etc. Nesta etapa final do nosso livro, buscamos também apresentar uma discussão específica sobre a utilização do livro paradidático na escola. De que modo é possível utilizá-lo como instrumento di- dático, sem fazer dele apenas um gancho para ensinar determinados conteúdos? Ventilamos tam- bém aqui a questão da “interpretação de textos”, prática bastante utilizada pela escola, mas que ainda demonstra atrasos em relação ao conhecimento que temos sobre o ato de ler e interpretar. Nessa perspectiva em que se discutem causas e efeitos da leitura, produção de sentidos e a forma- ção do leitor, nosso propósito, neste capítulo, é informar sobre a utilização da LI bem como refletir sobre ela na escola, na família e na sociedade. capítulo 320 1. A lI E SUA DIMENSÃO PSICOlóGICA A criança, como se sabe, é orientada pela in- tuição e não, pela razão. Para ela, o mundo da imaginação reflete o mundo real e vice-versa. Sonhos e realidade se confundem, formando um modo alternativo de solucionar problemas. Nesse campo do imaginário, é que se constro- em ideais, valores e significados para toda a sua vida. Segundo Bruno Bettelheim (2006), para vi- ver, é preciso que se tenha um significado. E é exatamente na infância que o encontramos. O psicanalista alemão diz também que os res- ponsáveis por esse encontro são a família, a escola e a literatura. Desse modo, podemos in- ferir que a família, sendo a primeira instância social da criança, é quem deve promover as bases para a vida, inclusive, além dos valores morais, éticos e comportamentais, é a respon- sável por introduzir o contato com a literatura e o hábito de ler. Contudo, sabemos que os modelos de vida hoje vivenciados, muitas vezes, não propor- cionam essa prática de ler ou contar histórias para as crianças. A falta de tempo dos pais, os jogos eletrônicos e a televisão concorrem para o afastamento da leitura. É comum que se entre hoje em uma casa onde há crianças, e elas estejam em frente à TV ou absortas em um jogo eletrônico. Da mesma forma, os pais gastam seu curto tempo em casa, em frente ao computador ou à televisão. Conversas, nar- ração de histórias, passeios em comum, entre outros contatos familiares, vêm sendo reduzi- dos a cada dia. Contudo, pensando de outro modo, podemos vislumbrar novos tipos de relação. O controle disciplinar, por exemplo, tornou-se mais facilitado em virtude do uso do telefone móvel, por meio do qual os pais podem fazer contínuos contatos com os filhos e vice-versa. O acesso à informação tornou-se amplo e irrestrito, utilizando-se as bibliotecas eletrônicas. A diversificação social também nos traz outros modos de vida, como nas camadas carentes, em que crianças têm pouco contato com a fa- mília pelo fato de os pais saírem cedo para o trabalho e chegarem quando elas já estão dor- mindo. Muitas passam o dia sozinhas ou com os irmãos, sem qualquer orientação de um adulto responsável. Há também os que ingres- sam precocemente no mercado de trabalho como forma de ajudar na subsistência fami- liar. Aliada a isso, está a questão da distribui- ção de livros no país. Há poucas livrarias, e as que existem estão concentradas nas grandes cidades. Faltam também por parte dos gover- nos políticas efetivas de dotação orçamentá- ria para a instalação de bibliotecas bem como programas de leitura, embora algumas ações apontem para esse sentido. Com isso, podemos entender que a teoria de- senvolvida por Bettelheim (2006) sobre o pa- pel da família na busca pelo significado tão essencial na infância, por meio do acesso à LI, não se realiza em face das mudanças sociais. Ainda nessa perspectiva, o autor nos indica o fato de que a base do significado para a vida está na construção dos valores, o que, segun- do ele, pode ser feito por meio das histórias infantis, sobretudo dos contos clássicos. Sob a égide da visão psicanalítica, Bettelheim (2006) explica o sentimento que a criança desenvolve ao ouvir histórias que tratam, de forma lúdica, dos problemas que assolam a vida das pesso- as. Baseadas no maniqueísmo6 entre o bem e o mal e nos arquétipos humanos, os contos clássicos e algumas histórias seguras trazem 6 Maniqueísmo é um conceito, que trata da oposição de dois elementos ou conceitos. capítulo 3 21 à tona os mais variados tipos de sentimentos. A inveja, a ambição, o ciúme, a preguiça, o amor, o ódio, entre outros, são retratados nos enredos que compõem os contos de fada. Bettelheim (2006) também evidencia o fato observável de que os contos clássicos apresen- tam, em sua estrutura narrativa, o problema como fonte de busca pela solução de proble- mas e não somente como drama ou dificul- dade. Segundo ele, o que se pode inferir das leituras dos contos é que o importante não é ser feliz a vida inteira, mas sim, ter problemas e saber ultrapassá-los. Isso vem marcado no gênero conto pela célebre frase foram felizes para sempre que, no final da história, indica um sentimento de dever cumprido e recom- pensa aos personagens. Nessa perspectiva, o que faz diferença para quem lê ou ouve histó- rias na infância é a possibilidade de viver ou- tras vidas e trazer exemplos para si próprio. Para bem ilustrar os reflexos da LI em seus lei- tores, ouvi muitas histórias, entre elas, algu- mas que narro aqui, com o objetivo de ilustrar as ideias de Bettelheim. Quando eu era criança nos anos 60, fui estudar em um colégio interno. A princípio, logo nos primeiros dias, senti uma falta enorme de minha família, bem como um medo de nunca mais sair daquele lugar. Um dia, uma menina mais velha intrigou-se de mim e me disse que minha mãe não viria mais me buscar. O medo apoderou-se de mim a ponto de eu ter febre e uma tremenda disenteria. Por isso, passei o dia na enfermaria da escola, deitadinha em uma maca. Não me lembro exatamente quem era, mas uma mulher entrou naquele lugar e perguntou-me se eu sabia ler. Di- zendo que sim, recebi dela um livro de histórias entre as quais me chamou atenção a mais tris- te: João e Maria. Todo o sofrimento das crianças abandonadas pelos pais, a perseguição da bruxa, o medo, a solidão etc., não me chamaram tanto a atenção quanto a bravura das crianças para con- seguir superar os problemas. Ao sair dali, senti- -meforte para, como João e Maria, enfrentar a bruxa (a menina que me fez medo) e reencontrar minha família. Lembro-me bem disso, apesar do tempo passado. Maria Anita – São Paulo/SP Aqui vai uma outra história que me foi conta- da por uma aluna do Curso de Letras quando lecionei a disciplina LI. O fato ocorreu justa- mente quando eu expunha os conceitos de Bettelheim sobre a capacidade de superação dos problemas que a LI pode proporcionar às crianças7. Quando eu era criança, vivia muito triste porque era a mais alta de minha casa. Chamavam-me de girafa, vara-pau e outras coisas. Um dia, a profes- sora contou a história do patinho feio, e eu fui pra casa pensando naquilo. À noite, disse para meus irmãos que eu era diferente, mas que nem por isso merecia aquele tratamento. Passei, então, a não me importar com as piadas porque estava certa de que um dia eu ia ficar bonita e realizar meus sonhos. Dito e feito. Cresci, casei com um homem também bem alto e hoje me considero uma pessoa feliz. Luíza Almeida – Petrolina/PE Outra narrativa Professora, quando eu era pequeno, não tinha contato com histórias infantis, a não ser por meio de uma tia que morava no sítio, para onde íamos de vez em quando. Ela sempre contava a história dos Três Porquinhos. Lembro-me que era sempre a mesma história. Eu tinha muita raiva dos irmãos que fizeram a casa de madeira e de palha. Gosta- va do mais velho que fez a casa de tijolo. Lembro também que, quando eu já tinha uns onze anos, fui a sua casa e pedi que contasse novamente aquela história. Ela achou graça, porque eu já era grande. Não sei se foi coincidência, mas quando a Sra. começou a falar sobre essa questão, pensei que talvez isso tenha acontecido comigo. Há três anos, quando construí minha casa, gastei muito em material e mão de obra, porque queria que ficasse bem forte. Coloquei laje de concreto, vigas de ferro etc. Minha mulher chegou a dizer que eu estava exagerando. Será que essa história me influenciou? Jadson Jatobá de Carvalho – Juazeiro/BA 7 Nesse momento, a autora do livro fala em 1ª pessoa para expor uma narrativa por ela vivenciada. capítulo 322 As narrativas são como confissões que as pes- soas fazem de suas memórias e, sobretudo, do imaginário construído na infância, por meio do caráter lúdico das histórias. Esse movimen- to que a narrativa promove com sua capaci- dade de fazer de conta é o que estabelece a relação da criança com o mundo em que ela vive ou viverá. Cabem aqui as palavras de Bettelheim (2006:13): Na verdade, em um nível manifesto, os contos de fada ensinam pouco sobre as condições espe- cíficas da vida moderna de massa; esses contos foram inventados muito antes que ela existisse. Mas, através deles, pode-se aprender mais sobre os problemas interiores dos seres humanos e so- bre as soluções corretas para seus predicamentos em quaisquer sociedades do que com qualquer outro tipo de história dentro de uma compreen- são infantil. 2. A ATEMPORAlIDADE Dentre as características importantes dos con- tos, há de se destacar o caráter atemporal como sendo um dos vetores que incidem so- bre seu perene sucesso. Era uma vez... significa que o fato narrado pode ocorrer em qualquer tempo, em qualquer lugar, de preferência em uma terra bem longe daqui. Esse longe/perto é o grande jogo do entrar e sair da história com facilidade. O real e o imaginário se con- fundem para suprir os anseios, as angústias e realizações. quando dizemos que a vida não é um conto de fadas, esquecemo-nos de que, nos contos, as tragédias são as mesmas de nossas vidas, com a diferença de que o final é sempre feliz, ou seja, essas narrativas apontam para a pos- sibilidade de podermos ser felizes, ainda que o final seja o começo de uma nova história. Outra aluna do Curso de Letras narrou uma his- tória interessante sobre essa coisa de final feliz. quando eu era pequena, meu avô sentava na varanda e contava um sem fim de histórias de gente, bicho, monstros, entre tantas coisas. Um dia, contou uma história longa e interes- sante chamada Couro de Piolho. Couro de Piolho Era uma vez uma princesa muito linda, que mo- rava em um castelo muito grande com seus pais, o rei e a rainha. A princesa tinha os cabelos muito compridos e quem os penteava era uma aia. Um dia, a aia penteava os cabelos da princesa, quando de repente... - que horror! Um piolho nas madeixas reais! Gri- tou a aia. Caíra dos cabelos reais um piolho. A aia, achando que aquele não era um piolho qualquer, resolveu guardá-lo em uma caixa como se fora um animal de estimação. Conforme o tempo foi passando, o piolho foi crescendo, e a princesa ficando mais velha. Chegou o dia em que o piolho estava tão grande que não cabia mais na caixa. Também a princesa estava na idade de se casar. O rei e a rainha não sabiam como escolher o noi- vo. Foi então que a aia sugeriu que matassem o piolho e tirassem dele o couro para fazer o as- sento de uma cadeira. Os pretendentes a príncipe deveriam vir ao castelo, olhar para o assento da cadeira e descobrir do que ele era feito. Aquele que conseguisse acertar teria como recompensa a mão da princesa. O anúncio foi feito em todo reino e começaram a chegar os pretendentes. Vieram príncipes, du- ques, condes, barões, filhos de comerciantes ri- cos, mas nenhum deles conseguia acertar de que era feito o assento da cadeira. A princesa come- çou a ficar ansiosa. E seus pais mais ainda. Todos os dias havia filas de pretendentes à porta do cas- telo. Porém nenhum deles descobria o mistério. A notícia espalhou-se por todo o reino e também pelos reinos vizinhos. Foi, então, que um rapaz muito pobre, feio e meio abobado resolveu candidatar-se à mão da capítulo 3 23 princesa. Todos da aldeia em que ele vivia riram muito. Como poderia aquela criatura tão tosca e horrenda pretender seu o marido da princesa? Mesmo assim, o abobado não desistiu. Arrumou uma pequena trouxa, pondo nela uns poucos víveres, uma rede e partiu em caminhada até o castelo. Por ser longa a caminhada, o abobado, em um determinado momento, parou para des- cansar. Armou a rede entre duas árvores e quan- do ia começar a comer, apareceu uma velha meio curvada que disse: - Meu rapaz, dê-me um pouco desta comida, pois estou faminta. O abobado deu-lhe a comida, dizendo: - Coma tudo, não tenho fome! A velha comeu tudo e como recompensa deu-lhe três fios de ouro. Recomendou-lhe que caso tives- se alguma dificuldade, era só pedir aos fios que solucionassem o problema, e eles assim o fariam. Dizendo isso, a velha desapareceu na floresta. O abobado, após descansar, seguiu seu caminho. Chegando à porta do castelo, o abobado pegou um dos fios de ouro e perguntou-lhe de que era feito o assento da cadeira. Imediatamente, ouviu uma voz que lhe disse: - De couro de piolho. Assim, o rapaz acertou a resposta. Ao ver a cena, a princesa começou a gritar: - Não! Não pode ser! Não vou me casar com este idiota! Todos ficaram pasmos. O rei, que não queria de- sagradar à filha, mas que precisava manter a pa- lavra – palavra de rei não volta atrás –, arranjou uma saída. Disse, então, ao abobado: - Meu rapaz, esta é somente a primeira etapa do desafio. A segunda é conseguir recolher cem co- elhos ao estábulo. Foram todos a um local onde havia cem coelhos confinados. O rei abriu a porta, e os coelhos es- palharam-se pelo pasto rapidamente. O abobado deveria até o final da tarde colocá-los todos de volta no estábulo. No horário marcado, o rapaz começou a correr atrás dos coelhos, o que era, claro, em vão. Sem saber o que fazer, o abobado tirou do bolso o segundo fio de ouro. Imediatamente, apareceu em sua mão uma flauta. Colocou-a na boca e começou a tocar uma canção muito linda. Neste instante, os coelhos juntaram-se todos ao seu re- dor e o seguiram até o estábulo. Em seguida, o rei chegou para contá-los e verifi- cou que havia exatamente cem coelhos. Pelo de- sespero da princesa, o rei disse ao abobado que aquelafaçanha deveria repetir-se por três dias. O rei tinha esperança de que estando cansado de correr atrás dos coelhos, no segundo ou terceiro dia, o rapaz deixaria escapar alguns bichinhos. No segundo dia, porém, aconteceu o mesmo. O abobado tocou a flauta e recolheu os cem co- elhos. O desespero da princesa era tamanho. Por isso, no terceiro dia, a aia resolver intervir. Enquanto o rapaz estava deitado na relva des- cansando, a aia aproximou-se e ofereceu-lhe um saco de moedas de ouro em troca de um coelho. O rapaz recusou dizendo que se fizesse isso, não se casaria com a princesa. De tanto a aia insistir, o abobado fez-lhe uma proposta: - Troco um coelho por sua blusa. - Seu desavergonhado! Disse a aia. Mas, pensando no desespero da princesa, olhou para um lado e para o outro e deu a blusa ao ra- paz. Pegou um coelho e saiu correndo. Contudo, antes de chegar ao castelo, o abobado tocou a flauta e o coelho saltou de seu colo e foi-se juntar aos outros no estábulo. Estava terminada a tarefa. O rei ainda sem se dar por vencido resolver lançar um último desafio ao rapaz. Disse-lhe que no dia se- guinte, antes do casamento, deveria, perante toda a corte, contar a MAIOR MENTIRA DO MUNDO. O abobado foi para seus aposentos e, sem saber o que fazer, tirou do bolso o último fio de ouro. Ouviu umas vozes e dormiu. No dia seguinte, no salão real, onde estavam todos os presentes, in- clusive a princesa vestida de noiva, o rei anun- ciou que o rapaz deveria contar a maior menti- ra do mundo. Foi, então, que ele apareceu com um saco de farinha amarrado na extremidade. Anunciou que no saco havia a maior mentira do mundo, mas que antes iria contar uma história e começou: - Ontem, estava eu sentado na relva pastoreando coelhos, quando apareceu uma aia deste castelo... Enquanto isso, foi abrindo o saco. - ...a aia queria um coelho. Eu lhe propus que me desse em troca sua blusa. E ela assim o fez. Neste momento, ouviu-se um grito proferido pela aia: capítulo 324 - ESTA É A MAIOR MENTIRA DO MUNDO!!!!! O abobado (que não era mais assim considerado) fingiu que pegou a mentira, colocou-a no saco, amarrou-o e entregou-o ao rei. Desse modo, o rei não pôde mais se opor ao casa- mento, que se realizou naquele momento. O abobado e a princesa foram felizes para sem- pre... Ao terminar a história, uma tia minha que ali estava começou a esbravejar dizendo que aquilo não podia acontecer. – Uma princesa não pode se casar com um abobado, feio e pobre e ser feliz. – dizia ela com muita raiva. Nesse instante, sua filha, que deveria ter uns doze anos e também ouviu a história, interveio dizendo: - Mas mainha, ele não era abobado. Se fosse, não teria ultrapassado as dificuldades. Além disso, ele fez de tudo para se casar com ela porque a amava muito. Por isso, eles foram fe- lizes para sempre. Hoje, lembrando-me do que minha prima dis- se, fico pensando como as crianças são ca- pazes de ver, nas histórias, o lado positivo da vida, o que pode ser esse significado de que o autor (Bettelheim) fala. Apesar de os tempos haverem mudado bas- tante em relação aos comportamentos sociais não somente no que se refere às relações amo- rosas e ao casamento, as histórias clássicas permanecem retratando situações sociais e in- dividuais que ainda ocorrem. Obviamente que as pessoas hoje não se casam porque chegou a hora ou porque são obrigadas – a não ser em algumas sociedades fechadas que ainda se pautam sobre essa cultura –, contudo, ainda existem as escolhas do ser amado, o que, mui- tas vezes, pode ser complexo, quando inúme- ros valores estão em jogo. 3. O MANIqUEÍSMO A face maniqueísta dos contos de fadas, se- gundo Bettelheim (2006), é o que determina a moral e reforça os valores humanos. Ou seja, a dicotomia bem nítida entre o bem e o mal é o ingrediente fundamental para o discernimento e as escolhas a serem feitas ao longo da vida. Bem definidamente, os maus são punidos, e os bons, recompensados. O que pode parecer um certo exagero é, na perspectiva psicológi- ca, uma forma de condução do processo do indivíduo para boas ações, bons pensamentos. Algumas críticas a esse maniqueísmo trazem a ideia de que tal perfeição ou imperfeição não são tão radicalmente opostas. Todos nós podemos ser maus e bons ao mesmo tempo. Nessa perspectiva é que se baseiam as histó- rias seguras, ou seja, os livros modernos apre- sentam um novo modelo comportamental em que os personagens podem oscilar entre serem do bem ou do mal ou mesmo se transforma- rem ao longo da história. Essa é certamente uma concepção dos tempos atuais, em que há inúmeras possibilidades que a vida ofere- ce, podendo corromper os bons e recuperar os maus. 3.1 AlGUMAS qUESTÕES... 3.1.1 Por que as crianças pedem para contar a mesma história várias vezes? Outra questão importante que Bettelheim (2006) aponta em sua obra diz respeito à res- significação, ou seja, os inúmeros sentidos que a leitura dos contos de fadas produzem em seus leitores no tempo e no espaço. Inclusive essa ideia explica o fato de as crianças pedi- rem para que a mesma história seja contada várias vezes. O que ocorre nessa atitude de (re) ouvir o conto é uma espécie de entendimen- to diferenciado para cada vez que a história é contada. Aqui vai um relato sobre o comentário de uma criança depois de ouvir repetidamente a histó- ria dos Três Porquinhos: Mamãe, por que os três porquinhos não foram morar em um apartamento? Lá o lobo não en- capítulo 3 25 tra porque o porteiro não deixa, né? Aqui no nosso prédio não tem lobo, mas tem ladrão. Além de ressignificar os contos no tempo e no espaço, a criança busca nessas narrativas o alívio para as pressões conscientes e incons- cientes que a vida lhe apresenta. A dimensão do medo do lobo, nesse caso, será a mesma que a do ladrão que rouba os apartamentos? Em que medida a criança estaria avaliando o medo dos elementos reais e imaginários que a rondam? Ainda nessa dimensão psicológica, a LI é um meio efetivo para a construção de valores mo- rais ou sociais, já que as “lições” das histórias estão sempre calcadas na prática do bem e da recompensa aos que o praticam. Desse modo, quando a criança pede para que uma história seja contada repetidamente, devemos fazê-lo por compreender que para ela está ocorrendo uma nova leitura, uma nova interpretação. 3.1.2 O contato com a literatura Infantil é responsabilidade da família? De um modo geral, pensamos que uma das ta- refas da família é ingressar a criança no mundo letrado. Isso porque esse contato entre criança e leitura deve ocorrer nos primeiros anos de vida. Contudo, dadas certas condições sociais, econômicas e intelectuais, a família não con- segue cumprir com essa responsabilidade. Al- guns pais, talvez até por desinformação, optam por comprar brinquedos caros, jogos e outros tipos de entretenimento a adquirir livros para seus filhos. Nesse caso, essa responsabilidade passa a ser da escola que, certamente, dentre suas tarefas, está a de formar leitores. 3.1.3 Como se deve lidar com a literatura Infantil na escola? A chegada definitiva da LI à escola ainda não está em total processo de absorção, tendo em vista alguns fatores. O primeiro está na própria origem, ou seja, alguns autores de obras in- fantis não concordam com algumas práticas8 que a escola costuma utilizar no trabalho com os chamados paradidáticos9. A questão se dá em torno de que esses autores reprovam o aproveitamento do texto como base didática para o ensino de gramática, por exemplo. O argumento principal é que a literatura deve ser fonte de prazer, não se prestando, portan- to, a ser usada como recurso didático. Alguns afirmam que essa prática desvia a atenção do leitor para a reflexão que o texto literário deve provocar. A outra questão que ainda persiste e que ad- vém da anterior, é como, então, inserir o livro paradidático na sala de aula? Contamos aqui como saber de Zilberman (2003:45-46) para enriquecer a discussão: - a linguagem, que é o mediador entre a crian- ça e o mundo, de modo que propiciando, pela leitura, um alargamento do domínio linguístico, a literatura preencherá uma função de conheci- mento (...) O texto da autora não é exatamente um posi- cionamento em relação ao uso do livro infantil como instrumento didático, mas nos fornece uma pista sobre a literatura ter autonomia para a construção do conhecimento, indepen- dentemente de haver um mediador, no caso, o professor. Por outro lado, podemos pensar no texto como um lugar de interação, ou seja, de onde ecoam vozes advindas do autor e de suas experiên- cias, mas que se misturam com as próprias vo- 8 Leia o Texto Dígrafo de Ruben Alves em http://www.ofaj.com.br/textos_conteudo.php?cod=24 9 Diz-se dos livros de leitura utilizados na escola, além dos didáticos. capítulo 326 zes e as experiências do leitor, ambos inseridos em um determinado tempo e espaço, ou seja, em um contexto. Nessa perspectiva de intera- ção, pensamos que o compartilhamento dos sentidos da leitura entre leitores de um mesmo texto ou de diferentes textos pode produzir ainda mais sentidos, mais conhecimento. Um bom exemplo dessa prática é quando le- mos um livro e encontramos alguém que tam- bém o leu e perguntamos como essa pessoa avalia a obra. Parece que, nesse momento, fazemos uma nova leitura do mesmo livro. É como se a interpretação do outro se misturas- se com a nossa para a construção de outros sentidos. Na escola, essa prática nos parece bastante importante e acessível, já que ali temos um auditório social formado por crianças ávidas por “ressignificar” as leituras que fazem. Desse modo, ler livros coletivamente e comentá-los com as crianças parece ser uma boa prática na formação de leitores. Contudo, nesse campo, ainda se cometem equívocos. Por exemplo, quando o professor pergunta ao aluno “o que o autor quis di- zer...?” Esse tipo de atitude, diga-se de pas- sagem, advém da ideia ultrapassada de que só há um sentido para o texto e que ele é de propriedade do autor, e do professor, é claro. Infelizmente, apesar de todas as teorias de lei- tura avançarem para uma outra visão, ainda se encontram questões como essa, sobretudo, nos livros didáticos. Se pensarmos que todo texto tem um propó- sito comunicativo, de certo que, ao trabalhar na sala de aula com a leitura compartilhada, o professor deve respeitar as interpretações dos alunos, porém deve acrescentar novas visões. A questão é ampla e complexa, se enveredar- mos não só pelo campo da experiência (conhe- cimento de mundo dos alunos) mas também pelo conhecimento linguístico, tendo em vista as inúmeras variantes que circulam no grupo. Para exemplificar, trazemos duas narrativas. 1. A Tia de Paulo Henrique (4 anos) convidou- -o para passear na casa dela, quando che- gassem as férias. A princípio, ele adorou a ideia, mas quando soube que era em Flo- resta (Nesse caso, uma cidade localizada em Pernambuco), disse: - quero não, na floresta tem lobo! Glaucia Cristine - Professora da Escola Cecí- lia Meireles – Petrolina/PE. 2. A professora convida os alunos do 1º ano do Ensino Fundamental para lerem um tex- to. Uma criança diz: - Tia, texto não é para ler, é para tampar a panela! A professora descobre que, naquela região, de fato, usa- -se a variante linguística testo para denomi- nar tampa. Marissônia – Santa Maria da Boa Vista/PE. Nos dois casos, tanto a Tia de Paulo Henrique quanto a professora devem dizer às crianças que as palavras em questão têm o mesmo som, mas os sentidos são diferentes. No caso específico da professora, deve aproveitar a ho- mofonia entre texto e testo para evidenciar a questão ortográfica e semântica que ocorre com essas duas palavras. Há casos em que a alfabetização ocorre por meio da leitura de textos, conforme o relato a seguir: Acompanhei minha turma desde o maternal. quando chegou a hora de sistematizar a alfabeti- zação, perguntei as crianças por qual história eles gostariam de aprender a ler “de verdade”. Foram uníssonos em dizer que era a história da Branca de Neve. Começamos então pela identificação dos nomes dos personagens. Branca de Neve, Bruxa, Sete Anões etc.. Identificávamos as letras iniciais, a quantidade de letras de cada palavra, a quantidade de sílabas, as crianças redesenhavam e escreviam o texto recontando a história, enfim, capítulo 3 27 percorremos o processo da psicogênese da escrita e da leitura e, ao final do ano, já havíamos lido e reescrito muitas outras histórias. Leninha - Escola Viva – Cotia/SP. O que a narrativa nos mostra é uma apropria- ção da LI como instrumento didático, ou seja, a partir da preferência do texto e certamente do significado que essa história tinha para as crian- ças, a professora realizou a tarefa de alfabeti- zar (processo mecânico- decodificação) e letrar (produzir sentido sobre o que se lê e se escreve). Retomando a questão de se usar a Literatu- ra como pretexto para ensinar gramática ou qualquer outro conteúdo escolar, entendemos não ser tão equivocada essa prática quanto pensam alguns autores de livros. Isto é, “traba- lhar” com o livro em sala de aula pode trazer benefícios aos novos leitores, contanto, é cla- ro, que o professor saiba, em seu plano didáti- co, equalizar as questões de forma, conteúdo e significado, que envolvem a leitura de um texto. Sendo a escola, como vimos no 1º capí- tulo, a possível responsável pelo aparecimento da LI, entendemos que lhe seja outorgado o direito de utilizá-la, observando, obviamente, as novas teorias que apontam para práticas mais efetivas de seu uso na formação de leito- res e na construção do conhecimento. Esse quadro sucinto da Literatura Infantil in- forma não somente sua permanência na for- mação da criança ao longo dos tempos mas também sua utilização cada vez mais discutida no campo da educação formal. Atualmente, quando se descobre uma nova concepção de leitura voltada para o Letramento, novamente a Literatura Infantil passa a ser vista como um eficiente recurso na tarefa de ensinarmos a ler e escrever, tendo em vista o conhecimento de mundo. Assim, podemos formular a seguinte questão: De que modo, a família e a escola po- dem se utilizar do recurso da Literatura Infantil com o propósito de construção do conheci- mento de espaço e tempo? Sugerimos que o primeiro passo para essa em- preitada seja o hábito de ler para as crianças ainda pré-leitoras e, também, para as já alfa- betizadas com o objetivo de promover o que chamamos de alfabetização auditiva. Alfabeti- zação, aqui no sentido lato, pelo fato de que ouvir histórias significa desenvolver conheci- mentos de natureza vária, conforme já eluci- damos, e ademais conhecimentos metalinguís- ticos, como: A consciência fonológica Desenvolvimento da capacidade de distinção dos fonemas e da pronúncia padrão das pala- vras (ouvido fonemático), CAGLIARI (1989), já que a leitura, diferentemente da fala, é mais comprometida com a forma padrão da escrita. A ampliação do vocabulário A escrita, sobretudo dos contos clássicos, ca- racteriza-se por um conjunto lexical, que se compõe de palavras específicas do gênero, e, na maioria das vezes, fora do uso frequente da língua nas situações cotidianas dos falantes. Desse modo, não se deve fazer a troca das pa- lavras desconhecidas por outras de uso e, sim, explicitá-las para a criança, caso ela não o faça naturalmente pelo contexto geral da narrativa. A construção do conhecimento de mundo Além das questões existenciais que suscitam a leitura ou a oitiva dos textos infantis clássicos, esse contato pode promover o conhecimento de espaços e tempos distintos em que vivem seus leitores e ouvintes. Como é o caso dos espaços físicos, sociais e temporais, habitados pelos personagens dos contos de fadas que moram em castelos, florestas, usam cavalos como meio de transporte, vivem sob o poder capítulo328 do rei, evidenciando a divisão explícita entre a pobreza e a riqueza, as práticas de punição, os abusos de poder, entre outras questões viven- ciadas no período medieval. O reconhecimento do mundo atual As histórias atuais abrem a possibilidade de ampliação das questões que envolvem o mundo contemporâneo no que diz respeito à ambientação: constituição das cidades, do campo, da vida social, econômica e cultural em que se envolvem seus personagens. Os li- vros do autor Ziraldo, por exemplo, descrevem personagens, como o Menino Maluquinho ou a Professora Maluquinha, que evidenciam as questões da escola, uma instituição eminen- temente moderna e que apresenta múltiplos modelos a serem discutidos. Como citamos no primeiro exemplo deste texto, a criança, ao ler ou ouvir uma história clássica, poderá ressignificar os espaços e tem- pos em uma espécie de viagem que lhe per- mite construir um conhecimento mais amplo do mundo em que vive. Com base nessa con- cepção, em nossa opinião, a atividade peda- gógica formal com base na leitura de textos infantis pode ser grande aliada do processo de construção do conhecimento em sala de aula, embora essa ideia seja amplamente criticada por muitos autores e especialistas em textos infantis, como vimos antes, pelo fato de que o texto literário deva ser objeto de produção de sentido e não, de atividades escolares. Contudo, nós, professores, em nossa prática, não devemos nos posicionar nem tanto ao céu nem tanto à terra. Sabemos que a exploração de um texto, principalmente como é feita nos livros didáticos, é discutível porque as pergun- tas já vêm prontas pelo autor e, muitas vezes, são seguidas à risca pelo professor, sem levar em conta os diversos sentidos que a leitura produz em seus alunos. Sabemos, todavia, que há diversas formas de se explorar a leitura. Podemos simplesmente fazer isso por meio da- quelas velhas perguntas como: o que o autor pensou quando escreveu esse texto? Ou, de outro modo, reconstruir a história a partir do letramento social dos alunos, da ressignifica- ção, entre outras formas mais producentes ao aproveitamento da leitura. Pensamos que um bom trabalho pedagógico com os chamados livros paradidáticos pode render bons frutos, contanto que se respeite a produção individual de sentido bem como os significados constru- ídos pela leitura. Nessa perspectiva que respeita a produção de sentidos do texto e que visa à construção de conhecimento, sugerimos aqui algumas atividades. SUGESTÕES PARA A UTILIZAÇÃO DA LITERA- TURA INFANTIL NA SALA DE AULA 1. Leia um livro ou conte uma história todos os dias para as crianças; 2. Destaque as caraterísticas do livro – capa, contracapa, autor, ilustrador, editora, ano em que o livro foi publicado, entre outras; 3. Discuta o livro, sem impor sua interpretação da leitura; 4. Aos poucos, mostre outras possibilidades da leitura; 5. Oriente os alunos para que recontem a história por meio de variadas linguagens, como o desenho, a dramatização, a escul- tura etc.; 6. Ocupe o mural da sala com textos; 7. Cante com seus alunos, dê preferência às cantigas de roda; capítulo 3 29 1. Escolha um livro infantil e monte um plano de aula com base nas sugestões desse livro que você acabou de ler. Atividades: 8. Faça jogral de parlendas; 9. Brinque de adivinhas. 10.Torne-se você também um leitor. Envie para os pais as seguintes tarefas: Leitura e Escrita Compartilhada 1. Faça um acróstico do nome das pessoas de sua família. Dê de presente no aniversário delas. 2. Faça um álbum contando as histórias das fotos. 3. Faça uma história da família e monte um livro. 4. Se possível, toda semana, escolha uma ora- ção, um texto bíblico ou um texto filosó- fico. Faça uma leitura compartilhada com sua família, e depois comentem entre si o que compreenderam do texto. 5. Todos os dias, deixe uma mensagem para a sua família. Pode pregá-la na geladeira. 6. Coloque livros, revistas e jornais no banhei- ro e em outros cantos da casa. 7. Leia para seus filhos, todos os dias, pelo menos cinco páginas de um livro. Caso eles já possam ler, peça que também leiam para você. 8. Troque livros entre seus amigos e amigos de seus filhos. 9. Frequente sebos onde os livros são mais baratos. 10.Torne-se um leitor para que seus filhos si- gam seu exemplo. RESUMO O capítulo III tratou das questões específicas da Literatura Infantil no que diz respeito a seus efeitos sobre a criança bem como sobre sua constituição e meios de utilização na escola, na família e na sociedade. Buscamos, nessa etapa, expor um panorama da LI nos tempos de hoje, tendo em vista sua ampla divulgação, uma vez que, a partir dos anos 70, se tornou uma área do campo editorial no Brasil. capítulo 330 REFERêNCIAS ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC, 2006. AZEVEDO, Ricardo. C:\Users\Home\Docu- ments\Word\literatura infantil origens, visões da infância e certos traços populares. htm BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Paz e Terra, 1987. CAGLIARI, l. C. Alfabetização e lingüística. São Paulo: Scipione, 1989. LAJOLO, M. & ZILBERMAN, R. Literatura Infan- til Brasileira. São Paulo: Ática, 1999. SOARES, MAGDA. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte, Autêntica, 1998. ZILBERMAN, R. A Literatura Infantil na Escola. São Paulo: Global, 2003.