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CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
HIDROGEOGRAFIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
GUARULHOS – SP 
 
1 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 4 
2 INTRODUÇÃO À HIDROGEOGRAFIA ................................................................... 5 
2.1 O desenvolvimento das cidades nas planícies de inundação ............................. 5 
3 BACIA HIDROGRÁFICA ......................................................................................... 7 
3.1 Conceitos relacionados às bacias hidrográficas ................................................. 8 
3.2 Conceitos relacionados às características físicas da bacia ................................ 9 
3.3 Bacia hidrográfica: conceito e classificações .................................................... 10 
3.4 Características das redes fluviais ..................................................................... 15 
3.5 Aspectos morfométricos das bacias hidrográficas ............................................ 18 
3.6 A Geografia das principais bacias hidrográficas do Brasil ................................ 21 
3.7 Impactos ambientais nas bacias hidrográficas brasileiras: causas e 
consequências .......................................................................................................... 27 
3.7.1 Dez rios mais poluídos do Brasil ..................................................................... 31 
3.8 Os comitês de bacias hidrográfica e a gestão dos recursos hídricos no Brasil 32 
3.9 A importância das bacias e sua influência no cotidiano .................................... 38 
4 OS RECURSOS HÍDRICOS NO BRASIL ............................................................. 39 
4.1 Distribuição da água no planeta........................................................................ 39 
4.2 Classes de água ............................................................................................... 42 
4.3 Impactos antrópicos nos recursos hídricos ....................................................... 45 
4.4 Tipos de poluição .............................................................................................. 46 
4.4.1 Poluição térmica ............................................................................................. 46 
4.4.2 Poluição biológica ........................................................................................... 47 
4.4.3 Poluição química ............................................................................................ 48 
4.4.4 Poluição sedimentar ....................................................................................... 49 
 
2 
 
4.5 Instrumentos para minimização dos impactos .................................................. 51 
4.6 Poluição dos recursos hídricos ......................................................................... 52 
4.6.1 Eutrofização .................................................................................................... 52 
4.6.2 Assoreamento ................................................................................................. 54 
5 CICLO HIDROLÓGICO ......................................................................................... 55 
5.1 Principais processos do ciclo hidrológico .......................................................... 56 
5.2 Precipitação e entrada de água no ciclo hidrológico ......................................... 58 
5.3 Balanço hídrico: mensuração do ciclo da água................................................. 62 
6 LIMNOLOGIA ........................................................................................................ 67 
6.1 História, importância e desenvolvimento. ......................................................... 67 
6.2 Definição ........................................................................................................... 68 
6.3 A Limnologia no Brasil ...................................................................................... 69 
6.4 A água: ocorrência, qualidade, caracterização e classificação. ........................ 71 
6.5 Qualidade da água ............................................................................................ 73 
6.6 Classificação das Águas Interiores ou Continentais ......................................... 74 
6.6.1 Quanto à hidromecânica ................................................................................. 74 
6.6.2 Quanto à origem ............................................................................................. 75 
6.6.3 Quanto à natureza química ............................................................................. 76 
6.6.4 Quanto à periodicidade ................................................................................... 76 
6.7 Lagos: origem, tipos e distribuição geográfica .................................................. 77 
6.8 Agentes da natureza formadores de águas lênticas ......................................... 79 
6.9 Açudes e reservatórios do Brasil ...................................................................... 79 
7 AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E OS RECURSOS HÍDRICOS ............................ 80 
7.1 Mudanças climáticas ......................................................................................... 81 
7.2 O Brasil no meio de tudo isso ........................................................................... 85 
7.3 Os oceanos e o gás carbônico.......................................................................... 86 
 
3 
 
7.4 A dinâmica dos mares e a ocupação de áreas litorâneas ................................. 89 
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 91 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
Prezado aluno! 
 
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante 
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um 
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma 
pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é 
que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a 
resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas 
poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em 
tempo hábil. 
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa 
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das 
avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora 
que lhe convier para isso. 
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser 
seguida e prazos definidos para as atividades. 
 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 
 
2 INTRODUÇÃO À HIDROGEOGRAFIA 
 
Hidrogeografia é o ramo da Geografia que realiza estudos sobre toda a água 
existente na superfície terrestre, como lagos, oceanos, rios, mares, além das águas 
subterrâneas. O planeta é formado por mais de 97% de água e compreende um 
volume de aproximadamente 1.400.000.000 km³. Sendo assim, a hidrogeografia é a 
responsável por analisar os diversos aspectos de toda essa água, como a formação 
e características dos rios, a geomorfologia, a distribuição da água doce, a morfologia 
das águas oceânicas, a geomorfologia fluvial, as bacias hidrográficas, entre outros. 
A sua relevância resulta, principalmente, da contribuição para a realização de 
projetos de potencial energético, como a construção de usinas, da elaboração de 
planejamentos para o uso racional de recursos hídricos e do conhecimento sobre 
questões ligadas aos biomas aquáticos (SAGAH, 2018). 
 
Fonte de: www.agenciabrasil.ebc.com.br2.1 O desenvolvimento das cidades nas planícies de inundação 
 
As planícies de inundação atraem assentamentos humanos desde o começo 
da civilização. Elas são lugares naturais para os assentamentos urbanos, porque 
combinam fácil transporte hidroviário com acesso a terras férteis e agricultáveis. Tais 
lugares, entretanto, estão sujeitos às inundações que formaram as planícies de 
 
6 
 
inundação. Pequenas inundações são comuns e geralmente causam poucos danos, 
mas os episódios de maior proporção que ocorrem com intervalo de algumas décadas 
podem ser bastante destrutivos. 
Há cerca de 4 mil anos, as cidades começaram a se estabelecer nas planícies 
de inundação ao longo do rio Nilo, no Egito, nas terras da antiga Mesopotâmia, entre 
os rios Tigre e Eufrates, e, na Ásia, ao longo do rio Indo, na Índia, e do Yang-Tsé e 
Huang Ho (Amarelo), na China. Posteriormente, muitas das capitais da Europa foram 
construídas sobre planícies de inundação: Roma, na margem do Tibre; Londres, ao 
longo do rio Tâmisa; e Paris, junto ao Sena. Entre as cidades da América do Norte 
construídas em planícies de inundação, podem ser citadas Saint Louis, ao longo do 
rio Mississippi; Cincinnati, junto ao rio Ohio; e Montreal, margeando o rio Saint 
Lawrence. As enchentes periodicamente destruíram partes dessas cidades antigas e 
modernas que se localizavam nas regiões mais baixas das planícies de inundação, 
mas seus habitantes sempre as reconstruíram (GROTZINGER; JORDAN, 2013). 
Atualmente, muitas das maiores cidades estão protegidas por diques artificiais 
que reforçam e elevam os diques naturais dos rios. Além disso, sistemas extensivos 
de barragens podem ajudar a controlar as inundações que afetam essas cidades, mas 
são incapazes de eliminar completamente os riscos. Em 1973, o Mississippi causou 
sérios problemas em uma enchente que durou 77 dias consecutivos em Saint Louis, 
Missouri (EUA). O rio alcançou uma altura recorde de 4,03 m acima do nível de 
inundação. 
Em 1993, o Mississippi e seus tributários saíram novamente de seus leitos e 
ultrapassaram os registros mais antigos, resultando em uma devastadora enchente, a 
segunda pior da história dos Estados Unidos, como foi oficialmente considerada (atrás 
da enchente de Nova Orleans causada pela elevação da maré que se seguiu ao 
furacão Katrina em 2005). 
Essa cheia ocasionou 487 mortes e prejuízos materiais de mais de 15 bilhões 
de dólares. Em Saint Louis, o Mississippi ficou acima do nível normal durante 144 dos 
183 dias que existem entre abril e setembro. Um resultado inesperado dessa 
inundação foi a dispersão de poluentes, que ocorreu quando a água da cheia lavou 
os agrotóxicos das fazendas e depositou-os nas áreas inundadas. Descobrir como 
proteger a sociedade contra inundações apresenta alguns problemas complexos. 
 
7 
 
Alguns geólogos acreditam que a construção de diques artificiais para confinar o 
Mississippi contribuiu para que a inundação atingisse níveis tão elevados. 
O rio não pode mais erodir suas margens e alargar seu canal para acomodar 
parte da quantidade adicional de água que flui durante os períodos de maior vazão. 
Além floresceram há milhares de anos. Atualmente, a grande e larga planície de 
inundação do Ganges, no norte da Índia, continua a ter um papel importante na vida 
e na agricultura daquele país. Muitas cidades antigas e modernas estão localizadas 
em planícies de inundação (Grotzinger e Jordan, 2013). 
 
3 BACIA HIDROGRÁFICA 
 
A bacia hidrográfica é uma área do terreno limitada por um divisor de águas, 
elevação entre dois rios, que possui uma crista ou terreno alto onde escoa a água da 
chuva para uma rede de rios que a drenam. 
Fonte de: www.sobratema.org.br 
A bacia hidrográfica pode ser pequena ou possuir uma grande região, drenada 
por um rio principal e seus tributários. Por um terreno em declive, a água de diversas 
fontes como rios, ribeirões, córregos e outros desaguam em um determinado rio, 
formando, assim, uma bacia hidrográfica. Dessa forma, uma bacia hidrográfica é 
formada por um rio principal, podendo ser mais de um, e um conjunto de afluentes 
(cursos d’água menores) que desaguam no rio principal. 
 
8 
 
A bacia hidrográfica é uma unidade territorial muito importante nos estudos 
ambientais, sobretudo os que envolvem questões hidrológicas. É sobre a bacia que 
desenvolvemos nossas atividades e que transformamos os espaços, os quais refletem 
diretamente na condição ambiental da bacia e, consequentemente, de seus rios 
(SAGAH, 2018). 
 
3.1 Conceitos relacionados às bacias hidrográficas 
 
A seguir, você verá os principais conceitos relacionados às bacias 
hidrográficas. 
 Tributário ou afluente: rio menor que desagua nos rios com maiores 
hidrografias. 
 Sub-bacias e microbacias: as sub-bacias são áreas de drenagem dos 
tributários do curso d’água principal, possuem áreas maiores que 100 km² e 
menores que 700 km². A microbacia possui toda sua área com drenagem direta 
ao curso principal de uma sub-bacia, várias microbacias formam uma sub-
bacia, que possuem a área inferior a 100 km². 
 Curvas de nível: são linhas que representam a altitude de um terreno. As 
curvas de nível constituem a forma mais utilizada para representação do relevo 
nas cartas, mapas e plantas topográficas. 
 Pontos cotados: são a projeção ortogonal de um ponto do terreno no plano 
da carta com a indicação de sua altitude. São usados em pontos notáveis do 
terreno, como topos de morros e fundos de vales. 
 Divisor de água ou interflúvios: linha que representa os limites da bacia, 
determinando o sentido de fluxo da rede de drenagem e a própria área de 
captação da bacia hidrográfica. 
 Declividade: é a inclinação da superfície do terreno em relação ao plano 
horizontal. 
 Vertente: qualquer superfície que possua uma inclinação superior a 2°, ângulo 
suficiente para haver escoamento da água. 
 Leito fluvial: é o canal de escoamento de um rio. 
 Leito da vazante: região mais baixa da bacia hidrográfica, onde o rio escoa 
em época de seca, ou seja, com sua menor vazão anual. 
 
9 
 
 Leito menor: é o leito do rio propriamente dito, por ser bem encaixado e 
delimitado, caracterizando-se também como a área de ocupação da água em 
época de cheia. 
 Leito maior: denominado também como planície de inundação, é nessa área 
que ocorrem as cheias mais elevadas, denominadas enchentes. 
 
3.2 Conceitos relacionados às características físicas da bacia 
 
Os itens a seguir apresentam os conceitos relacionados às características 
físicas de bacia hidrográfica (SAGAH, 2018). 
 Área de drenagem: é a área plana e seus divisores topográficos. A área de 
uma bacia é o elemento básico para o cálculo das outras características físicas. 
 Forma da bacia: tem efeito sobre o comportamento hidrológico da bacia. 
Igualmente importante, é o formato da bacia hidrográfica, que geralmente 
apresentam duas formas básicas, com tendência a serem circulares ou 
alongadas. A forma circular tem tendência de promover maior concentração da 
enxurrada em um trecho menor do canal principal da bacia, promovendo 
vazões maiores e adiantadas, ao passo que a forma alongada produz maior 
distribuição da enxurrada ao longo do canal principal, amenizando, portanto, as 
vazões e retardando as vazões máximas. 
 Rede de drenagem: a rede de drenagem é um conjunto de canais de 
escoamento inter-relacionados que formam a bacia hidrográfica. Esses canais 
são dispostos em hierarquias, rios de primeira ordem, rios de segunda ordem 
e, assim, sucessivamente. Os rios de primeira ordem correspondem às 
nascentes, onde o volume de água ainda é baixo. Os rios de segunda ordem 
correspondem à junção de dois rios de primeira ordem e os rios de terceira 
ordem, a junção de dois rios de segunda ordem. 
 Características do relevo da bacia: o relevo de uma bacia hidrográfica 
influencia os fatores meteorológicos e hidrológicos,pois a velocidade do 
escoamento superficial é determinada pela declividade do terreno, já a 
temperatura, a precipitação e a evaporação estão relacionadas à altitude da 
bacia. 
 
10 
 
 Características geológicas: tem relação direta com a infiltração, 
armazenamento da água no solo e com a suscetibilidade de erosão dos solos. 
 Características agroclimáticas: são caracterizadas principalmente pelo tipo 
de precipitação e pela cobertura vegetal. 
 
3.3 Bacia hidrográfica: conceito e classificações 
 
A análise de uma bacia hidrográfica deve partir de uma visão sistêmica, capaz 
de medir a dinâmica e a interação entre os elementos, pois se trata de uma unidade 
complexa, de um espaço onde tudo está conectado por seu fluxo (Grotzinger e Jordan, 
2013). 
De forma resumida, as bacias hidrográficas são unidades territoriais definidas 
por componentes do meio físico, essencialmente o relevo e a hidrografia, o que as 
diferencia das unidades administrativas, que são delimitadas por critérios políticos, 
administrativos, econômicos, etc. (Figura abaixo). 
Bacias hidrográficas são separadas pelo divisor de águas. 
Fonte: Grotzinger e Jordan (2013, p. 510). 
 
 
 
 
11 
 
Conforme Grotzinger e Jordan (2013), toda elevação entre dois rios, que meça 
poucos metros ou milhares, forma um divisor de águas, uma crista ou terreno alto de 
onde toda a água da chuva escoa, para um ou outro lado. Assim, uma bacia 
hidrográfica é uma área do terreno limitada por divisores que vertem toda sua água 
para a rede de rios que a drenam. 
Complementarmente, Borsato e Martoni (2004) definem bacia hidrográfica 
como uma área limitada por um divisor de águas, que a separa de outras bacias 
limítrofes e serve de captação natural da água de precipitações por meio de 
superfícies vertentes, que, por uma rede de drenagem, fazem convergir os 
escoamentos para a seção de exutório, ou foz, seu único ponto de saída. Por sua vez, 
Christofoletti (1980, p. 19) afirma que a bacia hidrográfica é entendida como “[...] uma 
área drenada por um determinado rio ou por um sistema fluvial, funcionando como um 
sistema aberto, em que ocorre a entrada e saída de energia e matéria”. 
Lima e Zakia (2000) também consideram as bacias hidrográficas sistemas 
abertos, que recebem energia por meio de agentes climáticos e perdem energia por 
meio do deflúvio, de forma que qualquer modificação no recebimento ou na liberação 
de energia pode acarretar uma mudança compensatória que tende a minimizar o 
efeito da modificação e restaurar o estado de equilíbrio dinâmico. As bacias 
hidrográficas são classificadas em quatro tipos, de acordo com o escoamento global, 
ou seja, com base no lugar onde deságuam (CHRISTOFOLETTI, 1980). 
 
1. Exorreicas: quando o escoamento da bacia hidrográfica se dá diretamente no 
mar. 
2. Endorreicas: quando o escoamento da bacia hidrográfica se dá internamente, 
desaguando em lagos, por exemplo. 
3. Arreicas: quando não há qualquer estrutura de bacia hidrográfica ou padrão 
de drenagem, como ocorre em áreas desérticas. 
4. Criptorreicas: quando as bacias hidrográficas são subterrâneas, como nas 
áreas cársicas. 
 
 
12 
 
É comum encontrarmos o termo sub-bacias, o qual se refere a bacias 
hidrográficas dentro de bacias maiores. Um exemplo é a bacia hidrográfica do Alto 
Tietê, cujas sub-bacias servem para definir unidades de planejamento, já que tratar 
da bacia inteira seria bastante complexo, por seu tamanho (Figura abaixo). 
Figura 2. Bacia hidrográfica do Alto Tietê e suas sub-bacias. 
Fonte: Militantes... (2015, documento on-line). 
 
Conforme Santos (2004, p. 40): 
[...] a adoção da bacia hidrográfica como unidade de planejamento é de 
aceitação universal. O critério de bacia hidrográfica é comumente usado 
porque constitui um sistema natural bem delimitado no espaço, composto por 
um conjunto de terras topograficamente drenadas por um curso d’água e seus 
afluentes, onde as interações, pelo menos físicas, são integradas e, assim, 
mais facilmente interpretadas. Esta unidade territorial é entendida como uma 
caixa preta, onde os fenômenos e interações podem ser interpretados, a 
priori, pelo input e output. Nesse sentido, são tratadas como unidades 
geográficas, onde os recursos naturais se integram. Além disso, constitui-se 
numa unidade espacial de fácil reconhecimento e caracterização. Sendo 
assim, é um limite nítido para ordenação territorial. 
 
 
 
 
13 
 
De acordo com Botelho e Silva (2004), a partir da década de 1990, a bacia 
hidrográfica passou a ter um maior significado como unidade de análise de 
planejamento ambiental, sendo possível avaliar, de forma integrada, as ações 
antrópicas no ambiente e as consequências disso para o equilíbrio hidrológico. Nesse 
contexto, as bacias hidrográficas são células básicas da análise ambiental, nas quais 
a visão sistêmica e integrada do ambiente está implícita: 
O fato é que a qualidade das águas superficiais tem sido afetada em muito 
pelas atividades produtivas ou por seus reflexos (poluição por esgotos, 
derramamentos acidentais de produtos tóxicos em vias de transporte, 
disposição inadequada de rejeitos sólidos, etc.). A bacia hidrográfica é 
justamente o palco dessas ações e degradações, refletindo sistemicamente 
todos os efeitos. A identificação da bacia como unificadora dos processos 
ambientais e das interferências humanas tem conduzido à aplicação do 
conceito de gestão de bacias hidrográficas, dando ao recorte destas um novo 
significado (LIMA, 2005, p. 179). 
Embora a bacia hidrográfica seja um sistema natural no qual o referencial é a 
água, não é um sistema ambiental único, pois leva em conta demais componentes da 
natureza, como o relevo, solo, fauna, flora, etc., e os componentes sociais, quando se 
considera as atividades econômicas e político-administrativas (ROSS; PRETTE, 
1998). 
A própria Política Nacional de Recursos Hídricos, estabelecida pela Lei nº 
9.433, de 8 de janeiro de 1997, reconhece, no art. 1º, a bacia hidrográfica como uma 
unidade territorial, que deve ser utilizada para os trabalhos que envolvem a temática 
dos recursos hídricos. 
 
 
 
 
 
14 
 
Com isso, é fundamental saber delimitar uma bacia hidrográfica, identificando 
o fluxo que a água percorre. Para delimitar uma bacia, deve-se seguir as etapas 
abaixo (SPERLING, 2007): 
 
1. Definir o ponto inicial (exutório) a partir do qual será feita a delimitação da bacia. 
O exutório está situado na parte mais baixa do trecho do curso d’água principal. 
2. Realizar a marcação do curso d’água principal e dos tributários (os quais 
cruzam as curvas de nível, das mais altas para as mais baixas, para a definição 
dos fundos de vale). 
3. Iniciar a delimitação da bacia hidrográfica a partir do exutório, conectando os 
pontos mais elevados, com base nas curvas de nível. O limite da bacia circunda 
o curso d’água e as nascentes de seus tributários. 
4. Verificar, nos topos dos morros, se a chuva que cai do lado de dentro do limite 
realmente escoará sobre o terreno rumo às partes baixas, cruzando 
perpendicularmente as curvas de nível em direção ao curso da água em estudo. 
Se a inclinação do terreno estiver voltada para a direção oposta das drenagens, 
é porque pertence a outra bacia. Dentro da bacia, poderá haver locais com 
cotas mais altas do que as cotas dos pontos que definem o divisor de águas da 
bacia. 
5. Diferenciar os talvegues dos divisores de águas (Figura abaixo). Os talvegues 
são depressões (vales), representadas graficamente, onde as curvas de nível 
apresentam a curvatura contrária ao sentido da inclinação do terreno, indicando 
que, nesses locais, ocorre concentração de escoamento. Os divisores de água 
são representados pelo inverso de um talvegue, no qual as curvas de nível 
apresentam curvatura voltada para o sentido da inclinação do terreno, sobre a 
qual as águas escoam no sentido ortogonal às curvas em direção aos 
talvegues.15 
 
 
Delimitação de uma bacia hidrográfica. 
Fonte: Adaptado de Sperling (2007). 
 
Para a geografia, é fundamental analisar a bacia hidrográfica de forma 
sistêmica, a partir de uma concepção geográfica, que possibilite entender não só o 
sistema hidrológico, mas como as formas de apropriação dos espaços influencia 
diretamente a qualidade ambiental da bacia. 
 
3.4 Características das redes fluviais 
 
As redes fluviais podem ser classificadas de diferentes formas, de acordo com 
o padrão de drenagem, o comportamento das drenagens em relação ao substrato e a 
forma dos canais. 
Os padrões de drenagem são bastante característicos, tendo relação direta 
com o tipo de rocha e com a estrutura geológica do substrato em que se insere. Podem 
ser caracterizados por imagens de satélite, fotografia aéreas ou cartas topográficas. 
De acordo com Riccomini et al. (2009), os padrões de drenagem podem ser os 
seguintes (Figura 4). 
 
16 
 
 Dendrítico: é o mais comum, assemelhando-se à distribuição dos galhos de 
uma árvore. Ocorre quando a rocha do substrato é homogênea, formada 
apenas por granito, por exemplo, ou no caso de rochas sedimentares com 
estratos horizontais. 
 Paralelo: encontrado em regiões com fortes declividades, onde as estruturas 
do substrato orientam-se segundo a inclinação do terreno. 
 Radial: a drenagem se distribui em todas as direções com origem em um ponto 
central, como os de um cone vulcânico. 
 Treliça: quando a drenagem tem um arranjo retangular, mas os afluentes são 
paralelos entre si. Ocorre em regiões com substrato rochoso com alternância 
de rochas mais ou menos resistentes em faixas paralelas, com planos de 
fraqueza ortogonais (Riccomini et al. 2009). 
 
Padrões de drenagem 
Fonte: Riccomini et al. (2009, p. 310). 
 
17 
 
As rochas também têm papel fundamental na determinação do sentido do fluxo 
das águas dos rios, como os instalados em terrenos de rochas sedimentares 
(RICCOMINI et al., 2009). 
 Rios consequentes: seu fluxo segue a declividade do terreno. Por exemplo: 
rio Tietê no trecho sobre terrenos sedimentares da bacia do Paraná. 
 Rios subsequentes: seu fluxo é controlado por descontinuidades do substrato, 
como falhas, juntas e presença de rochas menos resistentes. Por exemplo: rio 
Passa Cinco na região de Itirapina e Ipeúna (estado de São Paulo). 
 Rios obsequentes: seu fluxo é no sentido oposto da inclinação das camadas. 
Na maioria dos casos, são de pequena extensão. Por exemplo: drenagens que 
descem as serras de Botucatu, São Pedro e São Carlos, no interior paulista. 
 Rios insequentes: não apresentam controle geológico reconhecível, sendo 
relacionados à presença de rochas homogêneas ou de camadas sedimentares 
horizontais. Por exemplo: rios meandrantes, como o baixo curso do Ribeira de 
Iguape, no estado de São Paulo. 
 
Há, também, os padrões dos canais de drenagem, classificados de acordo com 
seus parâmetros morfométricos, como sinuosidade, grau de entrelaçamento e relação 
entre largura e profundidade (RICCOMINI et al., 2009). Podem ser retilíneos, 
meandrante, anastomosado ou entrelaçado (Figura 5). 
Tipos de canais fluviais. 
Fonte: Adaptada de Riccomini et al. (2009). 
 
18 
 
A vegetação também é um elemento que tem forte influência na forma que terá 
o canal de drenagem. Rios com vegetação em suas margens costumam ter padrões 
meandrantes e anastomosados, uma vez que as raízes fixam o solo e diminuem a 
ação dos processos erosivos. Já nas margens sem vegetação, há predomínio de rios 
entrelaçados (RICCOMINI et al., 2009). 
 
3.5 Aspectos morfométricos das bacias hidrográficas 
 
A forma da bacia hidrográfica tem um papel importante em seu comportamento 
hidrológico. Algumas metodologias, listadas abaixo, são destacadas por Christofoletti 
(1980) para a determinação da forma de uma bacia hidrográfica. 
 Índice de circularidade: estabelece uma relação entre a área da bacia 
hidrográfica e a área do círculo de mesmo perímetro empregando a fórmula Ic 
= A/Ac, onde Ic é o índice de circularidade, A é a área da bacia considerada e 
Ac é a área do círculo de perímetro igual ao da bacia hidrográfica considerada. 
O valor máximo do índice a ser obtido é igual a 1,0; quanto maior for o valor, 
mais circularidade terá a bacia hidrográfica. 
 Índice de forma: após a delimitação da bacia hidrográfica, traça-se uma figura 
geométrica, como um círculo, um retângulo, um quadrado ou um triângulo, que 
cubra, da melhor maneira possível, a bacia hidrográfica (Figura abaixo). Em 
seguida, relaciona-se a área englobada simultaneamente pelas duas com a 
área total, que pode pertencer à bacia ou à figura geométrica, aplicando-se o 
índice de forma If = 1 – (área K ∪ L)/(área K ∩ L), onde If é o índice de forma, 
K é a área da bacia e L é a área da figura geométrica. Quanto menor for o 
índice, mais próxima a figura geométrica estará da forma da bacia hidrográfica. 
 
19 
 
Mensuração da forma de bacias hidrográficas. 
Fonte: Christofoletti (1980, p. 114). 
 
Estudos realizados por Villella e Mattos (1975), a partir da comparação de 
bacias hidrográficas semelhantes, demonstraram que as bacias com forma mais 
circular apresentam uma tendência de gerar picos de enchentes mais elevados em 
relação às bacias mais arredondadas. 
Se as bacias circulares apresentarem drenagens com comprimentos 
semelhantes, o percurso dos escoamentos é mais curto, gerando respostas mais 
rápidas e concentradas a eventos de chuva. As bacias mais alongadas apresentam 
um rio principal, com diversos tributários menores, onde as águas percorrem um 
caminho mais longo até o exutório, tendendo a apresentar cheias mais distribuídas 
com menor vazão de pico (VILLELLA; MATTOS, 1975). 
A densidade de drenagem é outro fator dos aspectos morfométricos da bacia 
hidrográfica. Segundo Christofoletti (1980, p. 115), “[...] correlaciona-se o comprimento 
total dos canais de escoamento com a área da bacia hidrográfica”. Ela pode ser 
calculada pela fórmula Dd = Lt/A, onde Dd é a densidade de drenagem, Lt é o 
comprimento total dos canais e A é a área da bacia hidrográfica. 
É importante destacar que o cálculo da densidade de drenagem apresenta 
relação inversa com o comprimento dos rios; quando se aumenta o valor numérico da 
densidade, há diminuição proporcional do tamanho dos componentes fluviais da bacia 
hidrográfica: 
 
20 
 
Em um mesmo ambiente climático, o comportamento hidrológico das rochas 
repercute na densidade de drenagem. Nas rochas onde a infiltração encontra 
maior dificuldade há condições melhores para o escoamento superficial, 
gerando possibilidades para a esculturação de canais, como entre as rochas 
clásticas de granulação fina e, como consequência, densidade de drenagem 
mais elevada. O contrário ocorre com as rochas de granulometria grossa 
(CHRISTOFOLETTI, 1980, p. 116). 
Com isso, quanto maior for a densidade de drenagem, maior será a capacidade 
da bacia hidrográfica de fazer escoamentos rápidos no exutório, bem como deflúvios 
de estiagem baixos (TUCCI, 2004). Outra variável morfométrica importante é a 
densidade de segmentos da bacia hidrográfica, ou seja, o número de canais fluviais 
em relação a sua área de contribuição. De acordo com Christofoletti (1980), deve-se 
aplicar o sistema de ordenação dos canais criado por Strahler e somar a quantidade 
de segmentos de todas as ordens da bacia hidrográfica, aplicando a fórmula Fx = 
Ʃni/A, onde ni representa o número de segmentos de determinada ordem e A é a área 
da bacia hidrográfica. 
A densidade de segmentos e a densidade de drenagem podem variar de 
acordo com as características específicas da textura topográfica, cuja formação 
envolve a geologia, o clima, a topografia e o uso e a ocupação do solo da área. Com 
isso, é possível encontrar bacias com a mesma densidade de drenagem, mas com 
frequências diferentes de segmentos, e bacias com igual densidadede segmentos, 
mas com densidade de drenagem diferente (CHRISTOFOLETTI, 1980). 
A bacia hidrográfica também apresenta forte relação com o relevo, 
considerando o relacionamento entre a amplitude altimétrica máxima da bacia 
(variação das altitudes mínima e máxima) e a maior extensão da referida bacia, 
medida paralelamente à principal linha de drenagem (CHRISTOFOLETTI, 1980). A 
fórmula que expressa a relação do relevo é Rr = Hm/Lh, onde Hm é a amplitude 
altimétrica máxima e Lh é o comprimento da bacia hidrográfica. 
O índice de rugosidade também expressa aspectos de análises a partir do 
relevo, mais especificamente com as variáveis topográficas, como a declividade, o 
comprimento das vertentes e a densidade de drenagem, expressando como um 
número adimensional, que resulta do produto entre a amplitude altimétrica (H) e a 
densidade de drenagem (Dd), com base na equação Ir = H × Dd. 
Com isso, se a densidade de drenagem aumenta e o valor da amplitude 
altimétrica permanece constante, a distância horizontal média entre a divisória e os 
canais adjacentes será reduzida, acompanhada de aumento na declividade da 
 
21 
 
vertente. E se o valor da amplitude altimétrica aumenta enquanto a densidade de 
drenagem permanece constante, também aumentarão as diferenças altimétricas entre 
o interflúvio e os canais e a declividade das vertentes. 
É fundamental também conhecer o coeficiente de manutenção, um índice que 
tem a finalidade de fornecer a área mínima necessária para a manutenção de um 
metro de canal de escoamento, sendo um dos valores numéricos mais importantes 
para a caracterização do sistema de drenagem. Pode ser calculado com a fórmula Cm 
= 1/Dd × 1.000, onde Cm é o coeficiente de manutenção e Dd é o valor da densidade 
de drenagem (expresso em metros). Por exemplo, o km² da bacia hidrográfica 
representaria a área dessa unidade dividida pela densidade da drenagem 
(CHRISTOFOLETTI, 1980). 
Os aspectos morfométricos de uma bacia hidrográfica influenciam seu 
comportamento hidrológico e os fenômenos, que podem ocorrer com maior ou menor 
intensidade, como inundações, enxurradas e processos erosivos, por exemplo. 
 
3.6 A Geografia das principais bacias hidrográficas do Brasil 
 
Todas as regiões hidrográficas do País são importantes, pois cada uma delas 
é composta por um conjunto de bacias e de sub-bacias hidrográficas que banham 
aquela região e que são responsáveis pelo abastecimento de água de cidades, de 
comunidades e de localidades rurais. 
São fundamentais, ainda, para o desenvolvimento de diversas atividades 
econômicas, como a geração de energia, a pesca, o turismo e a agricultura, e para a 
manutenção da vida de espécies vegetais e de animais das localidades drenadas por 
suas águas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
22 
 
Divisão das bacias hidrográficas. 
Fonte: (ANA, 2007a) 
 
Entre as 12 regiões hidrográficas, destacam-se quatro, que, juntas, cobrem 
mais de 80% do território brasileiro. São elas: 
1. Amazônica; 
2. Tocantins-Araguaia; 
3. Platina (conjunto das bacias do Paraná, do Paraguai e do Uruguai); 
4. São Francisco. 
 
A Bacia Amazônica é considerada a maior bacia hidrográfica do mundo, com 
rica biodiversidade (flora e fauna) e enorme potencial energético por sua grande 
disponibilidade hídrica, despertando interesse de cientistas, de ONGs (organizações 
não governamentais), de empresas e de governos ao redor do mundo. De acordo com 
Yahn Filho (2005), a Bacia Amazônica é uma bacia de drenagem internacional, pois 
seus afluentes começam no território de outros países da América do Sul: Bolívia, 
Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. 
 
23 
 
De acordo com a ANA (2017), a região hidrográfica amazônica ocupa 45% do 
território nacional em sete estados (Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Pará 
Amapá e Mato Grosso). Ainda conforme a ANA (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E 
SANEAMENTO BÁSICO, 2017, documento on-line), a região hidrográfica em questão: 
Possui uma extensa rede de rios com grande abundância de água, sendo os 
mais conhecidos: Amazonas, Xingu, Solimões, Madeira e Negro. A densidade 
populacional é 10 vezes menor que a média nacional, entretanto, a região 
concentra 81% da disponibilidade de águas superficiais do país. Cerca de 
85% da área da RH Amazônica permanece com cobertura vegetal nativa. 
Na região hidrográfica amazônica, está localizada a maior floresta tropical do 
mundo, com uma grande biodiversidade e papel-chave nos contextos socioambiental 
e econômico. De acordo com a ANA (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E 
SANEAMENTO BÁSICO, 2017), a população dessa região hidrográfica era de 9,7 
milhões de habitantes, com uma população urbana de 73%. A densidade populacional 
da área é muito baixa, de 2,51 ha/km². A intensificação da ocupação dessa RH ocorreu 
a partir da década de 1970, principalmente pelas atividades madeireira, de criação de 
gado e de plantio de pastagens (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO 
BÁSICO, 2017). 
Com relação aos aspectos econômicos, a região ocupa grande parte do 
território brasileiro, mas, com relação, ao produto interno bruto, representa 5%, 
aproximadamente. Os setores econômicos que se destacam nessa área são a 
indústria de transformação, a agroindústria, a pecuária, a exploração madeireira, a 
exploração mineral, a extração de gás e o petróleo (MINISTÉRIO DO MEIO 
AMBIENTE, 2006a). 
A cobertura vegetal da área é composta por formações florestais e por 
formações campestres, variando de uma cobertura baixa até floresta tropical úmida, 
ocupando, aproximadamente, 70% da bacia hidrográfica Continental. A região sofre 
com o descaso ambiental e com o desmatamento, que tem se intensificado nos 
últimos anos, causando impactos ambientais na bacia hidrográfica amazônica e no 
País como um todo, no sentido econômico e de sustentabilidade ambiental 
(MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2006a). 
 
 
 
 
24 
 
Outra região hidrográfica de fundamental importância para o Brasil é a região 
hidrográfica do Tocantins-Araguaia, a maior bacia hidrográfica totalmente brasileira. 
De acordo com o MMA (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2006b), ocupa, 
aproximadamente, 11% do território brasileiro, abrangendo os estados de Goiás, 
Tocantins, Maranhão, Pará, Distrito Federal e Mato Grosso. Essa região hidrográfica 
drena parte de dois biomas importantes no País: o Cerrado e a Amazônia. 
Segundo o MMA (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2006b), grande parte da 
região hidrográfica Tocantins-Araguaia possui um ecossistema bastante frágil, tendo 
o cerrado como bioma de sua maior área de abrangência. 
É importante ressaltar que esse bioma é fundamental para o armazenamento 
e a qualidade dos recursos hídricos subterrâneos nessa região. De acordo com o 
estudo realizado pelo MMA: 
Na Região Hidrográfica do Tocantins-Araguaia, intensificou-se a 
contaminação dos recursos hídricos, sobretudo no Estado de Goiás. A partir 
da década de 1980, com o aumento das populações urbanas, expansão das 
fronteiras agrícolas e a proliferação das atividades garimpeiras, a 
contaminação desses recursos passou a representar um importante fator de 
risco potencial para o equilíbrio ambiental (MINISTÉRIO DO MEIO 
AMBIENTE, 2006b, documento on-line). 
Essa importante região hidrográfica, de acordo com o IBGE (MARTINS, 2013), 
possui uma população de, aproximadamente, 8,6 milhões de habitantes, com 76% da 
população vivendo nos centros urbanos e 24% vivendo nas zonas rurais. Sua 
densidade demográfica é de 9,3 hab./km² e as atividades econômicas nela 
desenvolvidas são a agricultura (principalmente o plantio de soja), a pecuária e a 
mineração. 
A pesca, a aquicultura e o turismo também se destacam como atividades 
socioeconômicas na região. Destaca-se, ainda, seu potencial hidrelétrico e de 
navegação. Com relação aos usos do solo, a região tem sofrido com o desmatamento 
em função da expansão das atividades agrícolas, impactando os biomasCerrado e 
Amazônia. 
 
 
 
 
25 
 
Imagem do Cerrado 
Fonte de: www.ecoa.org.br 
 
O conjunto das regiões hidrográficas Paraná, Paraguai e Uruguai forma a Bacia 
Platina, considera a segunda maior do País. Também é uma bacia de drenagem 
internacional, pois abrange os territórios de outros quatro países da América do Sul 
além do Brasil: Uruguai, Paraguai, Bolívia e Argentina. A Bacia Platina ocupa partes 
da região Sudeste e Sul do País, sendo bem povoada. Suas águas são utilizadas nas 
mais variadas atividades, como na produção industrial, na produção agropastoril e no 
abastecimento de água, além de possuir hidrelétricas importantes e um ótimo 
potencial de geração de energia. 
A população total dessas três regiões hidrográficas é de, aproximadamente, 70 
milhões de habitantes, de acordo com o IBGE (MARTINS, 2013). O conjunto das 
regiões hidrográficas citadas abrange parte das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste 
do País, sendo a região hidrográfica do Paraná a mais populosa e a de maior 
desenvolvimento econômico do País. Segundo a ANA (AGÊNCIA NACIONAL DE 
ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO, [2019]), a área possui a maior demanda por 
recursos hídricos, pois é utilizada nos mais variados tipos de uso do solo e atividades 
socioeconômicas, com destaque para o uso industrial. As regiões hidrográficas em 
questão chamam a atenção no que diz respeito ao gerenciamento dos recursos 
 
26 
 
hídricos: abastecimento urbano, conflitos pelo uso da água, qualidade da água e 
vulnerabilidade a inundações. 
Além das bacias hidrográficas destacadas, é imprescindível mencionar a 
importância, tanto nacional quanto regional, da Bacia do São Francisco, que drena 
parte das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. Por abranger parte das 
três regiões administrativas, a região hidrográfica do São Francisco é caracterizada 
por fortes contrastes socioeconômicos, contemplando tantas áreas de alta densidade 
demográfica e riqueza quanto áreas de pobreza extrema e baixa densidade 
demográfica. 
Bacia Hidrográfica do Rio Francisco 
Fonte de: www.pensamentoverde.com.br 
 
A região hidrográfica do São Francisco possui uma população de 14,3 milhões 
de habitantes, com uma densidade demográfica de 22,4 hab./km² (MARTINS, 2013). 
As águas dessa região são utilizadas para o abastecimento e o desenvolvimento de 
atividades agrícolas. A região também desenvolve atividades voltadas para o turismo. 
De acordo com a ANA (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO, 
[2019]), os principais temas para a gestão das águas na região hidrográfica do São 
Francisco estão relacionados aos eventos críticos de seca, já que parte dela se 
 
27 
 
encontra no semiárido, além de ao abastecimento urbano, à qualidade da água, à 
irrigação e aos potenciais hidrelétrico e de navegação. 
Conforme já mencionado, cada região hidrográfica possui geografias física e 
humana únicas, com aspectos socioeconômicos e socioambientais diferentes, que 
caracterizam suas dinâmicas socioespaciais. Apesar de existirem estudos que tratem 
dessas regiões, dentro de cada grande área de uma região hidrográfica existem 
diversas sub-bacias, micro bacias hidrográficas que carecem de estudos e de análises 
para servir de subsídio ao planejamento e ao ordenamento territorial dessas áreas. 
 
3.7 Impactos ambientais nas bacias hidrográficas brasileiras: causas e 
consequências 
 
Para conhecer as questões ambientais e os impactos no contexto regional ou 
local, a bacia hidrográfica, pelo estudo de características físicas e antrópicas, é uma 
importante unidade de análise espacial, pois fornece uma visão holística do meio, 
possibilitando o planejamento de ações para o ordenamento territorial e a mitigação 
de impactos ambientais. Os estudos integrados podem ser realizados a partir da 
interdisciplinaridade e da multidisciplinaridade, agregando o conhecimento de 
diversas áreas para a compreensão do meio como um todo. Conforme Nascimento e 
Sampaio (2004), o Projeto Radam foi um marco para o começo dos estudos 
integrados no País. 
 
 
 
 
28 
 
No Brasil, bacias hidrográficas com altos graus de poluição e de impactos 
ambientais como as bacias dos Rios Tietê, Sinos, São Francisco e Rio Doce carecem 
de análises e de estudos que visem mitigar os impactos ambientais nessas áreas. 
Botelho e Silva (2004) mostram exemplos de bacias hidrográficas onde estudos 
integrados poderiam contribuir para a avaliação dos impactos ambientais, como as 
bacias dos Rios Piracicaba e Paraíba do Sul, em São Paulo. Segundo Botelho e Silva 
(2004, p. 153): 
Ao distinguirmos o estado dos elementos que compõem o sistema hidrológico 
(solo, água, ar, vegetação, etc.) e os processos a eles relacionados 
(infiltração, escoamento, erosão, assoreamento, inundação, contaminação, 
etc.), somos capazes de avaliar o equilíbrio do sistema ou ainda a qualidade 
ambiental nele existente. 
Os impactos ambientais que ocorrem nas bacias hidrográficas brasileiras são 
dos mais variados tipos. 
Entre os impactos gerados nas áreas urbanas, estão os decorrentes de 
resíduos sólidos e de efluentes que contaminam os recursos hídricos, originados tanto 
por residências quanto por empreendimentos industriais. Destaca-se, nesse sentido, 
a ocupação de áreas de risco, o que ocasiona não apenas problemas ambientais, mas 
também problemas sociais, com inundações e enchentes. 
Por sua vez, os problemas ambientais em bacias hidrográficas que ocorrem 
mais em áreas rurais são o desmatamento, o assoreamento, a poluição de cursos 
d’água com agrotóxicos, além do lixo e da agricultura em áreas de muita declividade 
e as atividades de mineração, em algumas regiões. Veja, na Figura abaixo, a poluição 
em um rio no Amazonas. 
 
29 
 
Poluição no Rio Mindu, em Manaus (AM). Com a chuva, a quantidade de lixo fica mais evidente. 
Fonte: Pereira (2018, documento on-line). 
 
 
Para Guerra e Cunha (1993), bacia hidrográfica é uma unidade que integra os 
setores naturais e sociais, de forma que as mudanças que acontecem em qualquer 
um desses setores são capazes de gerar alterações e impactos a jusante, bem como 
nos fluxos de energia de saída de uma bacia hidrográfica. Segundo os autores, as 
mudanças que ocorrem no interior de uma bacia podem, sim, ser resultado das 
dinâmicas naturais, mas as atividades antrópicas aceleram os processos e acabam 
por gerar desequilíbrios nesses ambientes. 
No Brasil, temos muitos exemplos de impactos ambientais associados a bacias 
hidrográficas, mas chamam a atenção aqueles que envolvem perdas humanas e 
devastação ambiental, que são os casos de Mariana (MG) e Brumadinho (MG), dois 
municípios com atividades de mineração instaladas a montante de bacias 
hidrográficas. 
Em novembro de 2015, o município de Mariana foi palco de uma das maiores 
tragédias ambientais já ocorridas em solo brasileiro: a barragem de rejeitos de 
mineração com o nome de Fundão, controlada por três grandes empresas do ramo 
(Samarco Mineração S.A., Vale S.A. e BHP Billiton), rompeu-se e despejou um volume 
de aproximadamente 62 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério nas águas 
do Rio Doce, rio de extrema importância para a região sudeste do País, pois serve 
 
30 
 
para o abastecimento de água, para a pesca, para o sustento de comunidades 
ribeirinhas, para o turismo, etc. O desastre deixou um rastro de destruição jamais visto, 
impactando ecossistemas inteiros, flora, fauna e comunidades ribeirinhas. 
Três anos depois, novamente o estado de Minas Gerais foi protagonista nos 
noticiários, com o rompimento de outra barragem de rejeitos de mineração, a 
barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, despejando um volume de 
cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos, que contaminaram do Rio 
Paraopeba (Figura abaixo) até o Rio São Francisco. Esse rompimento impactou 
importantes ecossistemas, tendo um grande impacto social com a morte de mais de250 pessoas e causando enorme devastação ambiental e de comunidades ribeirinhas. 
 Poluição no Rio Paraopeba em Minas Gerais, após o rompimento da barragem da mina Córrego do 
Feijão. 
Fonte: Christyam de Lima/Shutterstock.com. 
 
Em cada região do País, existem bacias hidrográficas e recursos hídricos 
extremamente poluídos, muitos sem um plano de gerenciamento. De acordo com o 
levantamento Indicadores do Desenvolvimento Sustentável, a partir de uma análise 
de Índices de Qualidade de Água (MARTINS, 2013), o Quadro abaixo mostra o ranking 
dos dez rios mais poluídos do Brasil. 
 
 
31 
 
3.7.1 Dez rios mais poluídos do Brasil 
 
Fonte: Adaptado de Martins (2013). 
 
 
32 
 
Diversos são os exemplos de bacias hidrográficas com os mais diferentes tipos 
de poluição e impactos ambientais. Com relação à região hidrográfica do Tocantins-
Araguaia, chama a atenção a contaminação dos recursos hídricos subterrâneos, 
consequência dos impactos ambientais que ocorrem no bioma Cerrado. De acordo 
com o MMA (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2006, documento on-line): 
Dentre os mais importantes focos de contaminação dos recursos hídricos 
subterrâneos pode-se destaca a disposição inadequada nos chamados 
“lixões” urbanos, na periferia dos centros urbanos; o lançamento de efluentes 
industriais sem qualquer controle, embora as atividades fabris sejam 
incipientes na região; a expansão da atividade agrícola com o uso intensivo 
de insumos e a adoção de práticas de manejo inadequadas; e a atividade 
extrativista da mineração sem controle, que representou historicamente um 
importante fator de poluição das águas subterrâneas, sendo gradualmente 
substituída pela atividade extrativista organizada com a adoção de medidas 
mitigadoras, que contribuem atualmente para reduzir os impactos. 
 
3.8 Os comitês de bacias hidrográfica e a gestão dos recursos hídricos no 
Brasil 
No Brasil, a ANA é responsável pela regulação da Política Nacional de 
Recursos Hídricos (PNRH), cumprindo os objetivos e as diretrizes da Lei das Águas 
do Brasil (Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997). Dessa maneira, a ANA trabalha com 
a regulação, o monitoramento, a aplicação de leis e o planejamento dos recursos 
hídricos no País. 
A ANA dispõe de um conjunto de iniciativas que contemplam os aspectos 
envolvidos na implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, 
traduzidos especialmente nas questões de planejamento, regulação, 
articulação institucional e capacitação, sistema de informações e garantia de 
uso múltiplo (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS, [201-]). 
 
 
33 
 
Com relação à regulação, a ANA é responsável por emitir outorgas 
regulamentando o uso de recursos hídricos em rios e corpos d’água pertencentes à 
União. Também fiscaliza os usos dos recursos hídricos, fazendo valer o cumprimento 
da legislação sobre os usos desses recursos. O serviço de monitoramento oferecido 
pela ANA permite o acesso a boletins e a informações importantes para a tomada de 
decisão das autoridades responsáveis pela prevenção dos desastres ambientais 
causados por inundações e secas no território brasileiro. Sobre os usos das águas no 
Brasil, a ANA (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS, [2019], documento on-line) afirma 
que: 
A retirada total de água estimada em 2018 foi de 2.048 m³/s. O principal uso 
de água no país, em termos de quantidade utilizada, é a irrigação (49,8%), 
seguida pelo abastecimento humano (24,4%) e pela indústria (9,6%). Juntos, 
representaram cerca de 85% da retirada total. Outras utilizações 
consideradas foram o atendimento aos animais (8,0%), as termelétricas 
(3,8%), o suprimento rural (1,7%) e a mineração (1,6%). A demanda por uso 
de água no Brasil é crescente, com aumento estimado de aproximadamente 
80% no total retirado nas últimas duas décadas. A previsão é de que até 2030 
a retirada aumente em 24%. O histórico da evolução dos usos da água está 
diretamente relacionado ao desenvolvimento econômico e ao processo de 
urbanização do País. 
Fonte de: www.aen.pr.gov.br 
 
 
 
34 
 
A Constituição de 1988 estabeleceu os fundamentos básicos para a PNRH, 
voltada à promoção democrática da sustentabilidade ambiental. Uma das 
prerrogativas da governança deve estar centrada na concretização dos direitos 
humanos e no acesso à água com equidade. Uma das marcas da PNRH é a 
contribuição para políticas públicas com lastro no desenvolvimento sustentável, 
estabelecendo que a água é um bem de domínio público, ou seja, é um recurso natural 
que deve contemplar toda a coletividade. Conforme o art. 1º da PNRH (BRASIL, 1997, 
documento on-line): 
Art. 1º A Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes 
fundamentos: 
I — a água é um bem de domínio público; 
II — a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico; 
III — em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o 
consumo humano e a dessedentação de animais; 
IV — a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo 
das águas; 
V — a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da 
Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de 
Gerenciamento de Recursos Hídricos; 
VI — a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com 
a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. 
Portanto, a promoção da justiça, quanto à demanda e ao acesso à água, está 
alicerçada no avanço do conceito de desenvolvimento sustentável, que consiste no 
desenvolvimento socioeconômico capaz de suprir as necessidades da geração atual 
sem comprometer a capacidade de atender às necessidades das futuras gerações. 
Um caminho para consolidar essa proposta cidadã é a gestão colaborativa, que 
preconiza a gestão dos recursos hídricos propostos na legislação (O QUE..., [201-]). 
A PNRH determina que a água é um bem de toda a população e, por isso, seu 
uso deve acontecer mediante aprovação do poder público, seja estadual ou nacional. 
A autorização do governo é denominada de Outorga de Recursos Hídricos, cujo 
objetivo é controlar, qualitativa e quantitativamente, o uso das águas e fiscalizar o 
efetivo exercício dos direitos de acesso pelas organizações. Os usos dos recursos 
hídricos que estão sujeitos à Outorga são (O QUE..., 2020, documento on-line): 
 Derivação ou captação de parcela de água existente em um corpo hídrico, para 
consumo final, incluindo abastecimento público ou insumo de processo 
produtivo; 
 Extração de água de aquífero subterrâneo para consumo final ou insumo de 
processo produtivo; 
 
35 
 
 Lançamento em corpo hídrico de esgotos e demais resíduos líquidos ou 
gasosos, tratados ou não, com o fim de sua diluição, transporte ou disposição 
final; 
 Uso para fins de aproveitamento de potenciais hidrelétricos; 
 Outros usos e/ou interferências, que alterem o regime, a quantidade ou a 
qualidade da água existente em um corpo d'água. 
 
O que se observa, porém, é que as ações estatais nem sempre vão ao encontro 
dos interesses da PNRH. 
A complexidade do papel do Estado revela o entrave no gerenciamento dos 
recursos naturais e, no caso específico dos recursos hídricos, a pressão exercida 
pelos interesses das corporações que cooptam o Estado para atender a seus 
interesses privados, seguindo as lógicas neoliberais. A execução de ações 
governamentais voltadas aos interesses de alguns grupos econômicos, sobretudo em 
países subdesenvolvidos, reforça a necessidade de uma governança global da água 
de maneira ajustada. 
 
 
Os comitês de bacias hidrográficas podem ser interestaduais, quando as bacias 
envolvem mais de um estado, ou estaduais, quando sua área de abrangência se 
restringe ao estado em que está inserida. Os comitês de bacias hidrográficas, de 
acordo com a ANA (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS, [201-?], documento on-line), 
“[...] possuem poder de decisão e cumprem papel fundamental na elaboração das 
políticas para gestão das águasnas bacias, sobretudo em regiões sujeitas a eventos 
críticos de escassez hídrica, inundações ou na qualidade da água”. 
 
36 
 
 
Esses grupos de gestão, que são responsáveis por discussões e deliberações 
acerca dos recursos hídricos em bacias hidrográficas, avaliam os interesses e os 
conflitos de usos dos recursos hídricos e atuam na elaboração de políticas para gestão 
das bacias hidrográficas. Os comitês de bacias hidrográficas são formados por 
representantes do poder público (federal, estadual ou municipal), de usuários da água 
e da sociedade civil (MEGIATO, 2020). 
Veja, no Quadro abaixo, os comitês de bacias hidrográficas do estado de São 
Paulo e dados levantados por cada comitê, como número de municípios, área, 
população, etc. 
 
Dados dos comitês de bacias hidrográficas de São Paulo 
 
Fonte: Malheiros, Prota e Perez Rincon (2013, documento on-line). 
 
37 
 
O Brasil possui uma boa PNRH, atuando em diversas questões a respeito do 
uso, da gestão e do gerenciamento dos recursos hídricos no País. Efetivamente, 
porém, faltam políticas de fiscalização e de preservação dos mananciais hídricos para 
que eles sejam utilizados de forma sustentável, a fim de garantir água potável e 
recursos naturais no futuro. Estudos que façam análises e mapeamentos das bacias 
hidrográficas a partir de uma lógica sistêmica devem ser realizados e publicados a fim 
de chamar a atenção para as causas ambientais que envolvem essas áreas, visando 
contribuir para a elaboração de políticas públicas de preservação dos recursos 
hídricos e a mitigação dos impactos ambientais (MEGIATO, 2020). 
Por sua vez, os Comitês de Bacias Hidrográficas (CBHs) têm, como objetivo, 
promover fóruns para que os interesses comuns quanto ao uso da água sejam 
pautados. Trata-se de um espaço em que representantes da comunidade de uma 
bacia hidrográfica discutem e deliberam a respeito da gestão dos recursos hídricos, 
compartilhando responsabilidades de gestão com o poder público. 
Fonte de: www.eosconsultores.com.br 
Integram os CBHs, portanto, o poder público (das esferas municipal e 
estadual), a sociedade civil (organizações não governamentais, universidades, 
associações) e os usuários de água (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS, [2019]). Vê-
 
38 
 
se, portanto, que a busca pelo desenvolvimento sustentável é um desafio quando se 
trata do gerenciamento dos recursos hídricos. 
Atender aos interesses dos segmentos que necessitam de água como recurso 
para a produção agropecuária, industrial e comercial ao mesmo tempo que se 
promove o acesso à água de qualidade para 100% da população é o desafio a ser 
superado em meio a tantos (e divergentes) interesses econômicos e sociais. 
 
3.9 A importância das bacias e sua influência no cotidiano 
 
A bacia hidrográfica é essencial para os seres humanos, pois nela ocorre toda 
a dinâmica da água que utilizamos. Entre os usos das bacias estão (MEGIATO, 2020): 
 Consumo humano: é dos rios que a água para consumo é captada. Os usos 
da água são o uso doméstico, o gasto público, através de edifícios públicos, 
fontes ornamentais e proteção contra incêndios, o consumo comercial e o 
industrial. 
 Criação de animais: a água é utilizada para cultivar as plantas que alimentam 
o gado e também na hora do abate e produção da carne. 
 Uso agrícola e agroindustrial: na agricultura a água é utilizada para irrigar a 
plantação e o futuro processamento dos produtos. 
 Uso energético: a água é utilizada para produção de energia por meio de 
hidrelétricas. 
 Industrial ou mineração: o uso da água nas indústrias é feito desde a 
incorporação do recurso nos produtos até a lavagem de materiais, 
equipamentos e instalações, além da utilização em sistemas de refrigeração e 
geração de vapor. 
 
A água resultante dos processos industriais, chamada de efluente, pode 
provocar a perda de qualidade e descaracterização de um curso d’água e/ou lençol 
freático, morte dos organismos aquáticos, impossibilidade de uso da água para uso 
humano, industrial e turístico, desequilíbrio entre espécies animais, podendo ocorrer 
extinção das espécies endêmicas, e proliferação de doenças. 
 
 
 
39 
 
4 OS RECURSOS HÍDRICOS NO BRASIL 
 
4.1 Distribuição da água no planeta 
 
A água tem uma série de significados para a sociedade. Representa vida para 
muitos, visto que na composição do ser humano integra aproximadamente dois terços 
do corpo humano e atinge até 98% para certos animais aquáticos, legumes, frutas e 
verduras, sendo considerado o constituinte inorgânico mais abundante na matéria viva 
(LIBÂNIO, 2010). 
Além disso, a água é um solvente universal e essencial para a manutenção da 
vida no planeta, modificando-as e modificando-se em função destas. Um solvente é a 
denominação dada a uma substância que pode dissolver outros compostos, 
chamados de solutos. Ressalta-se a importância da água como solvente universal, 
visto que a maioria das reações químicas ocorrem em soluções ou meios aquosos, 
ou seja, é essencial para que essas reações ocorram. A água também pode ser 
considerada um bem mineral, proveniente de fontes naturais ou de fontes 
artificialmente captadas. Essas águas têm componentes químicos, como sais e gases, 
dissolvidos nela. 
Por fim, a água cobre 75% da superfície do nosso planeta e sua distribuição 
nos continentes ocorre, conforme Libânio (2010), da seguinte forma: 
a) Américas = 46%; 
b) Ásia = 32%; 
c) África = 9%; 
d) Europa = 7%, e; 
e) Austrália e Oceania = 28%. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
40 
 
Fonte de: www.sitedecuriosidades.com 
Conforme o mesmo autor, a maior parcela de água doce encontra-se congelada 
nas calotas polares, sendo inviável o seu uso para fins de abastecimento. 
No Brasil, conforme a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 
(INSTITUTO..., 2008), 78,6% dos domicílios são abastecidos de água por rede geral. 
Segundo a mesma fonte, nas grandes regiões, o abastecimento varia, sendo: 45,3% 
na região Norte; 68,3% na região Nordeste; 87,5% na região Sudeste; 84,2% na 
Região Sul; e 82% na região Centro-Oeste. 
Conforme a Agência Nacional de Águas (ANA) (2017), a disponibilidade hídrica 
varia também nas regiões hidrográficas. Essa variação é apresentada na Tabela a 
seguir. Observação: área aflorante refere-se à porção que intercepta a superfície 
 
41 
 
terrestre e tem potencial para receber recarga direta de água por intermédio da 
infiltração (AGÊNCIA..., 2017). 
 
 
Os recursos hídricos podem se encontrar na forma de águas superficiais, que 
são aquelas que se acumulam nas superfícies, dando origem aos rios, lagos, 
córregos, pântanos, entre outros. 
 
 
42 
 
Os recursos hídricos podem estar apresentados, ainda, na forma de águas 
subterrâneas. Conforme ANA (AGÊNCIA..., 2017), as águas subterrâneas 
desempenham um papel importante no abastecimento de água para diversos usos, 
em especial nos períodos de estiagem, sendo uma alternativa para a escassez hídrica. 
 
4.2 Classes de água 
 
Como vimos, a água pode ser classificada conforme a salinidade, sendo este 
conceituado como a medida da quantidade de sais dissolvidos nas águas. De acordo 
com Braga et al. (2005), a salinidade é o conjunto de sais dissolvidos na água, formado 
por bicarbonatos, cloretos, sulfatos e, em menor quantidade, outros sais, que pode 
conferir sabor salino e características incrustantes. 
Fonte de: www.ofitexto.com.br 
Esse índice é uma relação entre a quantidade de sal e uma medida de água 
que pode ser expressa na forma de porcentagem (%), g/kg ou até mesmo por ppm 
(partes por milhão), ppb (partes por bilhão) e ppt (partes por trilhão). 
 
 
 
 
43 
 
A Resolução Conama nº 357 (CONAMA, 2005) apresenta a classificação das 
águas da seguinte forma: 
 Águas doces: apresentam salinidade igual ou inferior a 0,5%. Exemplos de 
água doce são as contidas nos rios, nos lagos e na maioria dos lençóis 
subterrâneos. 
Águas salobras: apresentam salinidade superior a 0,5% e inferior a 30%. As 
águas salobras ocorrem principalmente em estuários e lagunas. 
 Águas salinas: apresentam índices de salinidade igual ou superior a 30%. O 
principal exemplo de água salina é a contida nos oceanos. 
 
As classes de água são definidas considerando a concentração de salinidade, 
bem como suas condições e seus padrões de qualidade. As águas doces apresentam 
as seguintes condições, dependendo das classes: 
 Classe especial: as condições naturais do corpo de água devem ser mantidas. 
 Classe 1: tem como principal característica a ausência de materiais flutuantes, 
óleos e graxas, substâncias que causem gosto e odor, corantes gerados por 
fontes antrópicas e resíduos objetáveis. Além disso, não se pode verificar efeito 
tóxico crônico; há demanda bioquímica de oxigênio (DBO5,20) de até 3 mg/L; 
presença de oxigênio dissolvido (OD) não inferior a 6 mgO2 /L; turbidez de até 
40 unidades nefelométricas de turbidez – UNT; cor verdadeira em níveis 
naturais; pH variando entre 6 e 9; e coliformes termotolerantes não devem 
exceder 200 coliformes/100 mL em 80% ou de seis amostras coletadas em um 
ano, exceto para o caso de uso da água para recreação de contato primário 
que deve atender à legislação específica. Além disso, para o enquadramento 
dos recursos hídricos nessa classe, devem ser observados os padrões de 
qualidade apresentados na Resolução Conama nº 357 (CONAMA, 2005). 
 Classe 2: tem como principal característica a ausência de materiais flutuantes, 
óleos e graxas, substâncias que causem gosto e odor e resíduos objetáveis. 
Os corantes gerados por fontes antrópicas devem ser removidos por processo 
de coagulação, sedimentação e filtração convencionais. Além disso, não se 
pode verificar efeito tóxico crônico; cor verdadeira de até 75 mg Pt/L; DBO5,20 
de até 5 mg/L; turbidez de até 100 UNT; OD não inferior a 5 mgO2 /L; pH 
variando entre 6 e 9; e coliformes termotolerantes não devem exceder 1.000 
 
44 
 
coliformes/100 mL em 80% ou de seis amostras coletadas em um ano, exceto 
para o caso de uso da água para recreação de contato primário que deve 
atender à legislação específica. Os padrões de qualidade devem atender ao 
disposto na Resolução Conama nº 357 (CONAMA, 2005). 
 Classe 3: tem como principais condições de qualidade a ausência de efeitos 
tóxicos agudos a organismos; ausência de materiais flutuantes, espumas, óleos 
e graxas, substâncias que causem gosto e odor e resíduos sólidos objetáveis. 
Os corantes de origem antrópica devem ser removidos por processos de 
coagulação, sedimentação e filtração convencionais. A concentração de 
DBO5,20 não deve exceder 10 mg/L; OD não pode ser inferior a 4 mgO2 /L; 
turbidez de até 100 UNT; cor verdadeira de até 75 mg Pt/L; pH entre 6 e 9; e a 
concentração de coliformes termotolerantes variará conforme o uso pretendido. 
Para uso em recreação de contato secundário e dessedentação são 
estabelecidos limites específicos. Para os demais usos, não exceder 4.000 
coliformes/100 mL em 80% ou de seis amostras coletadas em um ano. Na 
Resolução Conama nº 357 (CONAMA, 2005) constam os padrões de qualidade 
para as demais substâncias. 
 Classe 4: as condições de qualidade de água para essa classe devem atender 
ausência de materiais flutuantes e espumas, odor e aspecto não objetáveis. 
Além disso, para óleos e graxas, são toleradas iridescências. No que se refere 
a substâncias facilmente sedimentáveis que contribuam para o assoreamento 
de canais de navegação, estas devem ser virtualmente ausentes. OD deve 
estar em uma concentração superior a 2 mgO2 /L e pH deve estar na faixa de 
6 a 9. Assim como as demais classes, deve-se consultar a Resolução Conama 
nº 357 (CONAMA, 2005) para verificar os padrões de qualidade para as águas. 
 
Para águas salobras, são apresentadas as seguintes classes: especial, classe 
1, classe 2 e classe 3, sendo que estas variam conforme o uso, as condições e os 
padrões de qualidade. Já as águas salinas são classificadas da seguinte forma: 
especial, classe 1 e classe 2, também tendo em seus usos e seus valores limites de 
concentração de substâncias a base para a definição de classificação. 
Como podemos perceber, para a definição de cada classe de água são 
considerados os diferentes usos das águas. Sendo assim, estes são sistematizados 
 
45 
 
na Figura apresentada a seguir. Verificamos que para usos mais nobres da água, 
como abastecimento humano e dessedentação animal, as condições e os padrões de 
qualidade da água devem ser mais restritivos, uma vez que envolvem critérios de 
saúde pública. Entretanto, usos como lançamento de efluentes devem se atentar aos 
critérios que constam não só nas legislações estaduais e municipais, mas também 
nas políticas definidas pelos Comitês de Bacias Hidrográficas. 
Infográfico dos usos da água. 
Fonte: Agência Nacional de Águas (2017). 
 
 
4.3 Impactos antrópicos nos recursos hídricos 
 
As ações dos homens na sociedade, advindas da expansão urbana, do 
crescimento demográfico, da industrialização, etc., têm provocado a alteração do meio 
ambiente, o que, por sua vez, tem causado também a degradação da qualidade dos 
recursos hídricos. De acordo com a ANA (AGÊNCIA..., 2017), a qualidade da água 
 
46 
 
tem um grande impacto na saúde pública e, de modo mais abrangente, na vida da 
população, sendo essencial para o equilíbrio e o funcionamento dos ecossistemas. 
A poluição hídrica é dividida em duas categorias, de acordo com suas 
características, sendo elas: poluição pontual e poluição difusa. A poluição pontual é 
aquela ocorrida por meio de lançamentos individuais, como esgotos sanitários ou 
efluentes industriais. Segundo Tomaz (2006), a poluição pontual é quando o 
lançamento em um curso d’água é proveniente de uma única fonte. Essas fontes são 
de fácil identificação e monitoramento, sendo possível, ainda, prever o impacto 
ambiental e responsabilizar o causador pela poluição (ROSA; FRACETO; MOSHINI-
CARLOS, 2012). 
Já a poluição difusa é mais difícil de ser identificada, pois não tem uma fonte 
definida de poluição, por exemplo, a poluição advinda das plantações agrícolas, do 
chorume de resíduos, etc. Diferentemente da poluição pontual, tem características 
diferenciadas e afetam diversos locais e abrangentes áreas (ROSA; FRACETO; 
MOSHINI-CARLOS, 2012). Ainda, nesse tipo de poluição, é mais difícil identificar o 
causador pelo dano ambiental. Conforme Tomaz (2006), a poluição por fontes difusas 
ainda se divide em urbana e rural, sendo a rural causada principalmente pela utilização 
de fertilizantes agrícolas. 
 
4.4 Tipos de poluição 
 
A poluição hídrica também pode ser classificada conforme sua origem e seus 
efeitos. A seguir, são descritos alguns tipos principais de poluição. 
 
4.4.1 Poluição térmica 
 
É resultante do lançamento de águas residuárias e/ou águas de refrigeração 
em elevadas temperaturas nos recursos hídricos. As fontes geradoras desse tipo de 
poluição são: siderúrgicas, refinarias, centrais elétricas, indústrias químicas, entres 
outras. 
Os principais efeitos da poluição térmica referem-se aos gases dissolvidos no 
meio aquático. A solubilidade de um gás diminui à medida que a temperatura aumenta. 
Sendo assim, com o lançamento de efluentes com altas temperaturas, o oxigênio 
 
47 
 
presente no meio disponível aos organismos aeróbios acaba tendo sua concentração 
reduzida, acarretando mortandade desses seres. 
Fonte de: www.brasilescola.uol.com.br 
Ainda, o aumento da temperatura do meio aquático pode alterar a cinética de 
reações química, podendo potencializar a ação poluente de substâncias, ou seja, 
tornando-as mais tóxicas, ocasionando, dessa forma, mudanças negativas no 
ambiente. Por fim, alterações na temperatura das águas podem alterar o ciclo 
reprodutivo das espécies (CONAMA, 2005). 
 
4.4.2 Poluição biológicaÉ decorrente da presença de microrganismos patogênicos nos recursos 
hídricos, em especial nas nascentes, águas subterrâneas e mananciais. Dentre os 
microrganismos, podemos destacar a presença de bactérias, vírus e protozoários 
responsáveis pela transmissão de doenças de veiculação hídrica, conforme 
apresentado no Quadro abaixo a seguir. 
 
 
48 
 
 
 
As principais fontes desse tipo de poluição são decorrentes do lançamento de 
esgotos domésticos provenientes de residências e empresas sem tratamento 
adequado, ou seja, em virtude da carência de infraestrutura de esgotamento básico. 
 
4.4.3 Poluição química 
 
Esse tipo de poluição é resultante do lançamento de substâncias químicas, de 
diferentes origens, nos recursos hídricos. Dentre as substâncias químicas, podemos 
destacar: fertilizantes agrícolas, compostos orgânicos sintéticos (medicamentos, 
plásticos, solventes, inseticidas, herbicidas, etc.), plásticos, petróleos, metais 
pesados, entre outros (FINKLER, 2018). 
A contaminação das águas por essas substâncias pode ocorrer na forma de 
lançamento por parte de indústrias, vazamentos ou problemas no processo industrial, 
derramamentos (no caso do petróleo, agrotóxicos), lixiviação do solo, disposição 
inadequada sobre o solo, entre outros. 
 
49 
 
A poluição química envolve, muitas vezes, o efeito cumulativo decorrente da 
exposição a pequenas concentrações de poluentes por longos períodos, o que 
caracteriza efeitos crônicos sobre os seres. Importante destacar que essas 
substâncias, por serem sintéticas ou metais pesados, acabam acumulando-se nos 
organismos, não sendo eliminadas e provocando danos a longo prazo com extensa 
amplitude (CONAMA, 2005). 
Além disso, a poluição hídrica por substâncias químicas afeta primeiramente 
aos organismos aquáticos, mas podem interagir com todos os demais da cadeia 
alimentar em virtude da magnificação biológica. 
 
 
4.4.4 Poluição sedimentar 
 
A poluição sedimentar é resultante do carreamento de partículas, que podem 
ser do solo ou de produtos insolúveis orgânicos ou inorgânicos, que acabam sendo 
depositados nos recursos hídricos. O transporte dessas partículas impede que a 
luminosidade penetre nas camadas mais profundas da coluna da água, interferindo 
na fotossíntese e alterando a disponibilidade de oxigênio para os organismos 
existentes no meio. Além disso, contribui para o assoreamento dos recursos hídricos, 
como estudaremos a seguir. 
 
50 
 
A poluição sedimentar é resultante de erosão do solo, remoção da cobertura 
vegetal, extração de minérios e disposição de resíduos sobre o solo de forma 
inadequada. 
Rompimento da barragem de fundão 
Fonte de: www.infoescola.com 
 
 
51 
 
4.5 Instrumentos para minimização dos impactos 
 
A minimização dos impactos ambientais nos recursos hídricos também 
depende de uma série de recursos legais, merecendo destaque a Política Nacional de 
Recursos Hídricos – PNRH (BRASIL, 1997). Essa política, baseada no modelo francês 
de gestão, instituiu uma série de instrumentos que buscam garantir a água em 
quantidade e qualidade suficiente, o uso racional das águas, a prevenção da poluição, 
a defesa de eventos hidrológicos críticos de origem natural ou decorrentes de uso 
inadequado dos recursos naturais e a promoção da captação, da preservação e do 
aproveitamento das águas pluviais. 
Esses objetivos da PNRH encontram-se descritos no seu art. 2º. Os 
instrumentos instituídos pela PNRH (BRASIL, 1997) são: 
 Planos de recursos hídricos: esses instrumentos buscam definir estratégias 
de planejamento para a conservação, preservação e recuperação dos recursos 
hídricos que compõem uma bacia hidrográfica. O documento deve ser 
formulando considerando o conteúdo mínimo previsto na Lei Federal nº 9.433 
(BRASIL, 1997). 
 Enquadramento dos corpos de água: instrumento baseado nos usos dos 
recursos hídricos; a partir destes se define os padrões de qualidade de água 
que devem ser atendidos. Dessa forma, atua-se de forma preventiva no 
combate à poluição dos recursos hídricos. 
 Outorga dos direitos de uso de recursos hídricos: instrumento que garante 
ao usuário, por meio de uma autorização, o direito ao controle quali-quantitativo 
do direito ao acesso e uso da água. O documento transfere propriedade ao 
usuário da água e só garante sua utilização. 
 Cobrança pelo uso dos recursos hídricos: “objetiva reconhecer a água como 
bem econômico, incentivar a racionalização do uso da água e obter recursos 
financeiros para financiamento de programas e intervenções” (AGÊNCIA..., 
2016). 
 
 
 
 
52 
 
 Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos: esse instrumento tem 
como principais objetivos (AGÊNCIA..., 2018): 
 Reunir, dar consistência e divulgar os dados e informações sobre a situação 
quali-quantitativa dos recursos hídricos; 
 Atualizar permanentemente as informações sobre disponibilidade e demanda 
de recursos hídricos; 
 Fornecer informações para a elaboração dos Planos de Recursos Hídricos. 
 
4.6 Poluição dos recursos hídricos 
 
Até aqui, observou-se que a poluição pode ser advinda de diferentes fontes, 
como biológica, térmica, química e sedimentar. Os poluentes, que constituem os 
quatro tipos de poluição que estudamos, de forma isolada ou conjunta, resultam em 
fenômenos que degradam a qualidade dos recursos hídricos. A seguir, vamos 
visualizar os impactos causados por esses eventos de poluição dos recursos hídricos. 
 
4.6.1 Eutrofização 
 
A eutrofização é um fenômeno que pode ser observado em recursos hídricos 
decorrentes da presença de nutrientes no meio, em especial nitrogênio e fósforo. 
Segundo Macêdo (2006), os nutrientes (fósforo, nitrogênio, potássio, cálcio, entre 
outros) são encontrados em concentrações muito baixas em águas naturais. A fonte 
desses nutrientes, de forma geral, é de esgoto doméstico ou industrial lançado nos 
recursos hídricos sem prévio tratamento, bem como os fertilizantes utilizados na 
agricultura que são carreados para as águas. 
Com maior disponibilidade de nutrientes, ocorre a proliferação acentuada de 
algas e cianobactérias. Rosa, Fraceto e Moschini-Carlos (2012) afirmam que as 
cianobactérias presentes em águas eutrofizadas podem produzir gosto e odor. Os 
autores continuam comentando que algumas espécies são capazes de liberar toxinas 
que não são removidas por tratamentos convencionais de água (neurotoxinas ou 
hepatotoxinas). 
Em decorrência da proliferação desses organismos, a água acaba adquirindo 
uma cor turva, impedindo que a luz penetre na coluna da água e, assim, alterando o 
 
53 
 
equilíbrio do meio, em especial no que se refere à fotossíntese. Dessa forma, diminui 
a concentração de oxigênio no meio, o que pode acarretar a morte de espécies de 
animais e vegetais presentes no ecossistema aquático. Rocha, Rosa e Cardoso 
(2009) afirmam que, em concentrações baixas de oxigênio, bactérias anaeróbias 
passam a oxidar a matéria orgânica, podendo causar mau cheiro em virtude dos 
compostos formados. 
Exemplo de Eutrofização 
Fonte de: www.infoescola.com 
 
Por fim, Rosa, Fraceto e Moschini-Carlos (2012) comentam que o processo de 
eutrofização é um dos mais graves problemas relacionados à perda da qualidade da 
água. Entre as medidas para minimização deste problema está a instalação de 
sistemas de coleta e tratamento de esgoto doméstico e industrial, providos de 
operações para remoção de nutrientes. Outra alternativa é a racionalização do uso de 
fertilizantes na agricultura. 
 
 
 
 
 
54 
 
4.6.2 Assoreamento 
 
O assoreamento é um processo no qual os sedimentos são carreadas e 
acabam se depositando no fundo dos recursos hídricos. Como vimos anteriormente, 
esse fenômeno contribui principalmente com a poluição sedimentar. 
Exemplo de Assoreamento 
Fonte de: www.infoescola.com 
 
O processo inicia com a ocorrência de chuvas que transportam tais partículasaté o leito de rios e demais recursos hídricos, ocorrendo sua sedimentação. Nowacki 
e Rangel (2014) afirmam que a quantidade e a granulometria do material transportado 
pelas águas dependem de sua velocidade (energia) e de seu volume. 
O transporte de sedimentos ocorre naturalmente, entretanto, em virtude da 
ação antrópica, acabou sendo acelerado. Em virtude da ação do homem sobre o meio, 
houve modificação do ciclo hidrológico, em especial em razão da remoção da 
cobertura vegetal. As razões do desmatamento são diversas, merecendo destaque: 
expansão agrícola, exploração pela mineração e ocupação urbana. 
No que se refere à mata ciliar, está tem função, entre outras, de retenção dos 
sólidos antes de eles chegarem nos rios. Com sua remoção, sua função fica alterada, 
 
55 
 
resultando na formação de bancos de areia, que prejudicam a navegação e as 
mudanças no seu curso e o habitat de espécies. 
 
5 CICLO HIDROLÓGICO 
 
O ciclo hidrológico, também conhecido como ciclo da água, é o movimento 
contínuo da água presente nos oceanos, continentes e na atmosfera. Esse ciclo é 
influenciado por diversos fatores, entre eles, a ação da gravidade, o tipo e a densidade 
da cobertura vegetal e os elementos e fatores climáticos (temperatura do ar, ventos, 
umidade relativa do ar e insolação), que são os responsáveis pelos processos de 
circulação da água dos oceanos para a atmosfera em uma determinada latitude 
terrestre (PELISON, 2020). 
O ciclo hidrológico ou ciclo da água, segundo Ministério do Meio Ambiente 
(BRASIL, c2017), é o movimento contínuo da água presente nos oceanos, continentes 
(superfície, solo e rocha) e na atmosfera. Esse movimento é alimentado pela força da 
gravidade e pela energia do sol, que provocam a evaporação das águas dos oceanos 
e dos continentes. 
 
Representação do ciclo hidrológico. 
Fonte: Brasil (c2017). 
 
 
56 
 
A Figura acima apresenta uma representação do ciclo hidrológico. Observando 
essa figura você pode ver que na atmosfera formam-se as nuvens, que, quando 
carregadas, provocam precipitações, na forma de chuva, granizo, orvalho ou neve. Já 
nos continentes, a água precipitada pode seguir diferentes caminhos, acompanhe: 
 Infiltrar e percolar (passagem lenta de um líquido através de um meio) no solo 
ou nas rochas, podendo formar aquíferos, ressurgindo na superfície em forma 
de nascentes, fontes, pântanos, ou alimentar rios e lagos. 
 Fluir lentamente entre as partículas e espaços vazios dos solos e das rochas, 
podendo ficar armazenada por um período muito variável, formando os 
aquíferos. 
 Escoar sobre a superfície, nos casos em que a precipitação for maior do que a 
capacidade de absorção do solo. 
 Evaporar e retornar à atmosfera. Em adição a essa evaporação da água dos 
solos, rios e lagos, uma parte da água é absorvida pelas plantas, que, por sua 
vez, liberam a água para a atmosfera através da transpiração. Esse conjunto 
de evaporação mais transpiração é chamado de evapotranspiração. 
 Congelar, formando camadas de gelo nos cumes de montanha e geleiras. 
 
5.1 Principais processos do ciclo hidrológico 
 
O vapor d’água se condensa, formando minúsculas gotas que dão forma às 
nuvens e, em termos gerais, podem precipitar, principalmente como chuvas ou neve. 
Em síntese, a precipitação ocorre quando há um alto teor de vapor de água na 
atmosfera e a água é, então, depositada sobre a superfície terrestre na forma de 
granizo, geada, orvalho, neblina, neve ou chuva, dependendo principalmente das 
condições de temperatura da região. É comum que usemos o termo precipitação para 
qualquer desses eventos. Uma vez que a água é precipitada, inúmeros caminhos 
podem ser tomados por ela (PELISON, 2020). 
Os processos básicos desse ciclo natural da água podem ser observados na 
Figura abaixo. 
 
57 
 
Principais processos do ciclo hidrológico. Iniciando pela precipitação (1), quando a água atinge a 
superfície terrestre, pode haver infiltração no solo (2) e interceptação pela cobertura vegetal (3). O 
excedente não infiltrado escoará pela superfície do solo (4) e então, ao longo do seu armazenamento, 
poderá ser evapotranspirada (5) e/ou evaporada (6), sendo transformada em vapores d’água que 
formarão novamente nuvens que possibilitam a reinserção da água em forma de precipitação, 
reiniciando a circulação no sistema. 
Fonte: Adaptada de Robinson e Ward (2017). 
 
Note que uma parte do volume precipitado é interceptada pela vegetação, 
enquanto outra parte atinge diretamente o solo. A porção de chuva que atinge o solo 
pode se infiltrar prontamente, a depender das condições de permeabilidade da área, 
mas uma parte escoará sobre a superfície do terreno (PRUSKI; BRANDÃO; SILVA, 
2004). 
Assim, entendemos que uma parcela da água que precipita servirá para 
umedecer o solo, começando assim o armazenamento dos volumes de água no meio 
poroso, mas também disponibilizando o recurso natural, inclusive para a zona 
radicular, propiciando sua utilização pelas plantas. Dessa forma, podemos considerar 
que há um fluxo de água para a biosfera (GROTZINGER; JORDAN, 2014). Em 
especial, o conteúdo armazenado nos poros do solo permite que as plantas possam 
 
58 
 
retornar parte da água absorvida, em um processo que chamamos de 
evapotranspiração, combinando os processos de evaporação que poderiam ocorrer 
em outras superfícies (como nos solos e nas lagoas) com o de transpiração, exclusivo 
dos seres vivos. 
A porção de precipitação que não se infiltrou no solo é aquela que colabora 
para o escoamento superficial, sendo essa água gradualmente coletada por galerias 
de drenagem (no contexto urbano), por estruturas e canais artificiais ou por elementos 
naturais (pelos rios e lagos). Vale destacar que o escoamento superficial pode causar 
perdas da qualidade do solo, com deslocamento de sedimentos e da água com 
contaminação dos materiais assim carreados. A medição do escoamento superficial 
é, portanto, de fundamental importância para as obras e projetos de drenagem pluvial, 
uma vez que, conhecendo essa variável, podem ser propostas estruturas e 
adequações necessárias à mitigação de eventuais problemas relacionados ao 
deslocamento de massas hídricas superficialmente (PRUSKI; BRANDÃO; SILVA, 
2004). Na próxima seção, veremos as relevantes atividades associadas às 
precipitações e ao escoamento superficial e suas relações com o gerenciamento dos 
recursos hídricos de uma bacia hidrográfica. 
 
5.2 Precipitação e entrada de água no ciclo hidrológico 
 
A água está presente na Terra em três fases: líquida, fluindo superficial e/ou 
subterraneamente em nossos compartimentos ambientais; sólida, em forma de neve 
e retida nas geleiras dos polos da Terra; e em forma de vapor d’água, sendo uma fase 
imprescindível à formação das nuvens e consequentemente à precipitação. Porém, é 
em sua forma líquida que água, na forma de precipitação, atende às necessidades 
mais básicas de humanos, animais e plantas. Seu escoamento em riachos sustenta 
ecossistemas e, junto com a percolação em aquíferos, garante armazenamento e 
abastecimento de longo prazo para uso humano, ainda que os oceanos sejam a 
principal fonte mundial de vapor d´água que alimenta a precipitação (ROBINSON; 
WARD, 2017). 
 
59 
 
Podemos considerar que o tempo de residência da água nos reservatórios 
subterrâneos é longo, mas que a água acaba retornando à superfície em nascentes 
que alimentam rios e lagos, desaguando finalmente nos oceanos (GROTZINGER; 
JORDAN, 2014). Indiretamente, portanto, a mesma água precipitada é submetida ao 
fluxo da água subterrânea infiltrada subsuperficialmente e/ou em profundidade e 
retorna à superfície terrestre, onde mais rapidamente pode se locomover, quando 
comparado ao escoamento subsuperficial. 
 
Aqui, vale observar que o primeiro passo para determinar a vazão de um projeto 
de drenagem é justamente calcularmos a fração da precipitaçãoque se transforma 
em escoamento superficial. Para tanto, diversos métodos podem ser aplicados, e a 
partir dos dados de precipitação, torna-se possível estimar uma aproximação do 
escoamento, sendo, portanto, muito mais fácil e confiável sua previsão em bacias 
instrumentadas com equipamentos pluviométricos (PRUSKI; BRANDÃO; SILVA, 
2004). 
Dentre os fatores que influenciam a taxa de infiltração da água no solo, 
podemos destacar variáveis e parâmetros agroclimáticos como tipos de solos e 
coberturas superficiais das áreas, uma vez que interferem diretamente na 
interceptação, armazenamento no meio poroso e infiltração da água em um terreno. 
Pruski, Brandão e Silva (2004) destacam ainda os seguintes fatores fisiográficos: a 
área de contribuição e o formato da bacia, a declividade do terreno e estruturas de 
drenagem já existentes. Quanto maior a bacia, maior a área de contribuição e maior 
a probabilidade de ocorrência de diferentes tipos de solo. A topografia, assim como o 
formato da bacia, influencia na velocidade dos escoamentos superficiais, que, de 
forma geral, é maior em bacias mais circulares (o tempo de concentração é 
aproximadamente o mesmo em toda a bacia) e também em terrenos mais íngremes, 
 
60 
 
com menor detenção e retenção subsuperficial, quando comparados a terrenos mais 
planos. 
Apenas uma parte do volume precipitado atinge a seção de desague de uma 
bacia sob forma de escoamento superficial. Outra parte será a interceptada, outra 
poderá se depositar em depressões e se infiltrar no solo e, finalmente, uma parte do 
volume total precipitado será escoada superficialmente. Dessa forma, definimos um 
coeficiente de escoamento. O coeficiente de escoamento é um valor adimensional que 
pode ser calculado da seguinte forma: 
 
onde ES representa o escoamento superficial e PT é o total precipitado. 
O valor de C varia entre 0 e 1, sendo o valor 1 correspondente à situação de 
maior impermeabilização da superfície, enquanto um valor próximo a 0 
correspondente à condição de maior permeabilidade da água em um terreno. Em 
geral, a vazão máxima do escoamento superficial pode ser calculada por diversas 
fórmulas e métodos, a começar pelos mais simples, nos casos em que a área drenada 
é pequena (menor que 5 km², ou 500 ha), como pode ser observado no método 
racional: 
onde Qmax representa a vazão máxima do escoamento superficial, I é a 
intensidade média de precipitação considerando a duração do evento equivalente ao 
tempo de concentração (TC) da bacia hidrográfica e C é o coeficiente de escoamento 
superficial de uma superfície terrestre (PELISON, 2020). 
Porém, o método racional pode ser aplicado basicamente em bacias com altas 
intensidades de precipitação, curta duração e, portanto, tendo uma precipitação 
uniforme e próxima do TC da bacia. Além disso, simplificações são adotadas para 
permitir sua aplicação, como considerar o solo já saturado para que a taxa de 
infiltração seja constante e uma uniformidade (irreal) do coeficiente de escoamento 
superficial à toda a bacia de contribuição. Para tornar esse método mais real, 
 
61 
 
coeficientes podem ser testados de acordo com a cobertura presente na bacia, e 
dessa forma, um cálculo proporcional às áreas das diferentes coberturas superficiais 
acaba conferindo um coeficiente médio e mais representativo da área total: 
 
onde Ci é o coeficiente de ES de uma subárea contribuinte, Ai é a subárea 
considerada (para uma determinada cobertura de solo) e A é a área total da bacia. A 
Figura abaixo ilustra essa situação. 
 
Desenho esquemático para exemplificar a distribuição heterogênea das coberturas do solo em uma 
bacia hidrográfica, com a nítida variação do coeficiente de escoamento gerado (C1 , C2 , C3 e C4 , 
nesse caso hipotético). Em destaque temos: as áreas de proteção permanente ao redor dos cursos 
hídricos (incluindo as nascentes, representadas pelos círculos verdes) e o ponto do exutório (círculo 
cor-de-rosa), que concentra toda a água drenada pela área contribuinte. 
Outros métodos mais complexos e regionalizados podem ser utilizados para 
determinar a vazão máxima do escoamento superficial, inclusive com a utilização de 
geotecnologias para determinação de variáveis não medidas em determinadas 
regiões, como a evapotranspiração ou mesmo o uso e ocupação dos solos (PELISON, 
2020). 
É importante observar que quanto mais urbanizamos e/ou impermeabilizamos 
uma área (Figura abaixo), menor tornamos o tempo de concentração da bacia, ou 
 
62 
 
seja, mais rapidamente o escoamento superficial poderá atingir o ponto exutório, com 
maiores vazões e, portanto, maior risco de cheias e inundações. 
 
Principais processos do ciclo hidrológico destacados em duas situações distintas de ocupação de 
uma área: (a) com um ciclo natural; (b) com maior intervenção humana, havendo menor infiltração de 
água no solo e maior escoamento superficial. 
Fonte: Adaptada de alphabe/Shutterstock.com. 
 
Para que saibamos a confiabilidade das nossas estimativas, devemos realizar 
um balanço de entradas e saídas de água do ciclo para a região de interesse, 
estabelecendo assim um balanço hídrico. 
 
5.3 Balanço hídrico: mensuração do ciclo da água 
 
Apesar da distribuição global em constante mudança (de vapor de água, 
evaporação, precipitação e escoamento, mudanças associadas na água do solo e 
armazenamento de água subterrânea), o balanço hídrico global é considerado, na 
verdade, um sistema fechado. 
Praticamente nenhuma água é perdida do sistema e as liberações ocasionais 
de água da atividade vulcânica, ou acréscimos de água, são mínimas. Além disso, em 
períodos bastante curtos de tempo, a entrada de vapor d'água na atmosfera por 
evaporação é totalmente contabilizada pelo processo de condensação–precipitação 
(ROBINSON; WARD, 2017). 
O ciclo hidrológico global fornece um conceito introdutório útil, mas apresenta 
um valor prático limitado para as ciências hidrológicas, cujos profissionais precisam 
 
63 
 
compreender e quantificar a ocorrência, a distribuição e o movimento da água em uma 
área específica (PELISON, 2020). 
A unidade natural de estudo costuma ser uma bacia de drenagem ou sub-
bacias hidrográficas, áreas de captação que recebem a água da precipitação dentro 
do seu limite topográfico (divisores d’água) e da qual as principais saídas são 
evaporação, evapotranspiração e vazão dos escoamentos (superficiais e 
subterrâneos). No modelo esquemático da Figura abaixo, podemos perceber que a 
acumulação e/ou retenção de água precisa ser contabilizada nos cálculos do balanço 
hídrico. 
Processos do ciclo hidrológico são peças essenciais no balanço hídrico de uma área de drenagem. 
Fonte: Adaptada de danylyukk1/Shutterstock.com. 
 
Utilizando a equação de continuidade, na forma de equação hidrológica ou de 
balanço hídrico, podemos definir que a área a ser considerada depende do nosso 
interesse de informação e dos dados existentes, quer numa pequena parcela 
 
64 
 
experimental de poucos metros quadrados, que numa grande bacia hidrográfica ou 
grupo de bacias integradas, seguindo a seguinte fórmula: 
 
De uma forma direta, se essa equação puder ser resolvida, uma avaliação 
quantitativa da movimentação da água na bacia de drenagem torna-se possível. 
A primeira determinação que precisamos fazer é obviamente da área de 
drenagem para a qual pretendemos realizar o balanço hídrico. Collischonn e Dornelles 
(2013) explicitam que a área de drenagem é a característica mais importante de uma 
bacia hidrográfica, provavelmente por reunir todos os outros elementos necessários 
para tais estimativas: uso e cobertura do solo, construções e/ou outras formas de 
impermeabilização da superfície e, claro, a água precipitada a ser drenada. 
Se antes precisávamos de instrumentos mecânicos para mensurar as áreas de 
uma bacia ou sub-bacia hidrográfica, como o planímetro, agora podemos utilizar 
softwaresimples como de desenho auxiliado por computador (CADs) ou com mais 
funcionalidades de localização, como os Sistemas de Informação Geográfica (SIGs). 
Numa segunda etapa, precisamos determinar as características das chuvas. 
Comumente, consideramos métodos para a determinação das precipitações máximas 
médias, ou seja, uma média dos valores extremos de precipitação observada para 
uma dada duração. 
A equação a seguir, mais conhecida como equação de intensidade, duração e 
frequência, ou simplesmente IDF, é desenvolvida para chuvas intensas (PRUSKI; 
BRANDÃO; SILVA, 2004): 
 
onde corresponde à intensidade máxima média de precipitação (em 
mm/h); T é o tempo de retorno considerado (em anos); t é a duração do evento de 
precipitação (min); e K, a, b e c são parâmetros de ajuste relacionados à estação 
pluviográfica considerada, e precisam ser regionalizados. Observe que os valores de 
 
65 
 
precipitação efetiva, infiltração e perdas podem ser relacionados à intensidade das 
precipitações (Figura abaixo). 
Distribuição dos volumes precipitados em função da intensidade das chuvas. 
Fonte: Adaptada de Chapter 3 (c2021). 
 
As perdas iniciais e as proporcionais são consideradas como uma porção 
importante relacionada à intensidade dos eventos de precipitação, e não há grande 
variação da capacidade de infiltração de um solo quando ele atinge a saturação de 
umidade. Ademais, ainda hoje podemos apontar a interceptação vegetal (ICV), 
incluindo a camada de serapilheira presente sobre o solo, como uma das variáveis de 
mais difícil mensuração (PELISON, 2020). 
 
 
66 
 
Retomando o cálculo do balanço hídrico, podemos discretizar as variáveis a 
serem consideradas da seguinte forma: de entrada (precipitação P); perdas iniciais e 
proporcionais (captação e/ou armazenamento [Ac ], umedecimento do solo [Sw] e 
interceptação pela vegetação [ICV]) e de saída (escoamento superficial [ES], 
evaporação [E], evapotranspiração [ET], infiltração da água em superfície [I] e 
percolação da água em profundidade [DP]). Observe a substituição das variáveis na 
equação a seguir, resultando em um balanço hídrico genérico: 
 
A figura abaixo ilustra as dinâmicas dessas variáveis. Observe que o balanço 
hídrico deve ser realizado de forma a validar as variáveis existentes na bacia de 
interesse, levando-se em conta a cobertura vegetal, o tipo de solo e ainda as 
infraestruturas construídas. Os armazenamentos superficiais e/ ou subterrâneos de 
água permitem que a água continue a circular no sistema terrestre e também que a 
possamos utilizar para todas as atividades previstas (ROBINSON; WARD, 2017). 
Variáveis de um balanço hídrico genérico. 
Fonte: Adaptada de Chapter 3 (c2021). 
 
67 
 
Os profissionais que trabalham com hidrologia, especialmente na hidrologia 
urbana, devem cada vez mais ter uma visão de longo prazo e em larga escala para 
enfrentar os consideráveis desafios gerados, quer pelo impacto da variabilidade 
sazonal, das mudanças climáticas nos processos hidrológicos ou da disponibilidade 
de recursos hídricos (ROBINSON; WARD, 2017). 
O tipo de solo, a geologia, a ocupação e o uso do solo variam espacial e 
temporalmente, também podendo causar variações nos componentes do balanço 
hídrico. Cabe enfatizar a relevância da relação entre precipitação e evaporação 
potencial (incluindo a evapotranspiração), que varia enormemente dependendo da 
cobertura vegetal de uma área para outra e ao longo do tempo. 
Assim, é imprescindível que calculemos cada uma das variáveis do ciclo da 
água presente na nossa área de interesse, para assim podermos realizar previsões 
mais acuradas e, em especial, planejamentos adequados quanto ao escoamento das 
águas superficiais e também da contínua disponibilidade hídrica direcionada aos mais 
variados usos consuntivos e não consuntivos. 
 
6 LIMNOLOGIA 
 
6.1 História, importância e desenvolvimento. 
 
As primeiras referências sobre a natureza dos rios, lagos e outras coleções de 
água datam da época de Aristóteles (384-322 a.C.), o qual, no seu livro História 
Animalium afirma que as águas interiores não eram todas semelhantes, pelo menos 
no tocante à fauna ocorrente, e numa tentativa de classificação dos animais 
existentes, denominou-os tão somente de habitantes dos rios, habitantes dos lagos, 
habitantes dos pântanos, etc. Um dos seus discípulos - Teophrastus, seguiu também 
o mesmo princípio na catalogação dos vegetais, classificando-os como vegetais de 
lagos rasos, vegetais dos rios, vegetais de lagos profundos e outros. 
Somente, a partir de 1869, o estudo dos seres aquáticos passou a ser feito com 
maior senso científico, não mais considerando somente as espécies da flora e da 
fauna, mas também a coleção de água com as suas características físicas, químicas 
e biológicas. Por este tempo o termo Limnologia foi empregado pela primeira vez 
(deriva do grego - limne = lago + logos = estudo) no trabalho intitulado Le Leman, 
 
68 
 
Monographie Limnologique, de autoria do Prof. François Alphonse Forel, da 
Universidade de Lausanne, Suíça, que com ele ganhou o título de pai da limnologia e 
marcou o início do estudo científico dos lagos e águas interiores de um modo geral. 
Lago azul na Suíça 
Fonte de: www.portaldeinverno.com.br 
 
É importante não confundirmos a limnologia com a hidrobiologia. A primeira 
refere-se à ciência da vida DOS corpos d’água; enquanto a segunda, refere-se à vida 
NOS corpos d’água. 
 
6.2 Definição 
 
A limnologia é, segundo Forel (1892), a ciência que estuda a vida dos 
ambientes de águas doces, tais como, rios, riachos, córregos, lagoas, lagos, açudes, 
brejos, fontes, nascentes, etc. que não sejam influenciados diretamente pelo mar. Seu 
objetivo é estudar a correlação e a dependência entre os organismos habitantes 
dessas águas e o ecossistema, abrangendo de um modo geral todos os fatores que 
exercem influência sobre a qualidade, quantidade, periodicidade e sucessão desses 
organismos na água. 
 
69 
 
A Limnologia faz parte da ecologia, ciência que tem por fim o estudo das 
relações entre os seres vivos e o meio ou ambiente em que vivem, bem como as suas 
recíprocas influências. 
Com base nos conceitos ecológicos, a limnologia clássica criada por Forel e 
desenvolvida por outros importantes limnologistas, evoluiu ao ponto de cada vez mais 
tender para uma especialidade, devido à grande complexidade dos fenômenos que 
ocorrem nos ambientes aquáticos. Sob este aspecto, as seguintes especializações 
podem ser assim consideradas: 
a) Limnologia física - quando trata apenas do estudo dos parâmetros físicos 
da água (temperatura, cor, condutividade elétrica) 
b) Limnologia química - que diz respeito somente ao estudo dos parâmetros 
químicos da água (pH, oxigênio dissolvido, DBO – Demanda bioquímica de 
oxigênio, DQO – Demanda química de oxigênio, dentre outros); 
c) Limnologia aplicada - que se volta para o estudo da biologia da pesca, da 
aquicultura, da produtividade pesqueira, da produtividade primária, etc. 
d) Limnologia paleontológica - que trata do estudo dos fósseis existentes nos 
sedimentos dos lagos. 
e) Limnologia de reservatórios - que é a mais nova especialização desta 
ciência, surgida em razão da construção de barragens para diferentes 
propósitos, como produção de energia elétrica, navegação, controle de 
enchentes, pesca, etc. e que tem por fim o estudo do impacto ambiental 
provocado tanto sobre os seres vivos, como na qualidade e quantidade da 
água. 
 
6.3 A Limnologia no Brasil 
 
Até a década de 1930, as pesquisas em ambientes aquáticos continentais no 
Brasil eram de cunho tipicamente hidrobiológico e a maioria das pesquisas 
limnológicas eram realizadas por pesquisadores estrangeiros ESTEVES (1988). 
Os primeiros estudos limnológicos em nosso país foram realizados no Nordeste 
brasileiro. Essa região pode ser considerada como o berço da limnologia nacional, 
graçasaos trabalhos pioneiros de pesquisadores famosos que aqui trabalharam nos 
primórdios da antiga Comissão Técnica de Piscicultura do Nordeste (CTPN), 
 
70 
 
posteriormente denominada Diretoria de Pesca e Piscicultura do DNOCS, cujo 
primeiro chefe foi o naturalista paulista Rodolpho von Ihering, cognominado - o pai da 
piscicultura nacional. 
Ao longo de mais de 65 anos têm sido inúmeros os trabalhos desenvolvidos, 
não somente nessa na Região Nordeste, mas também em outras partes do país, tanto 
no campo da limnologia regional, como no da engenharia sanitária, da aquicultura, da 
pesca em reservatórios, do controle da poluição etc. 
Lagoas do Uruau (Beberibe) 
Fonte de: www.visiteobrasil.com.br 
 
Pode-se dizer que a Limnologia Brasileira, hoje, encontra-se consolidada e 
caracterizada. Seus profissionais estão entre os mais atuantes na Ecologia Brasileira. 
No mundo moderno, a água doce é um recurso estratégico. A ausência deste 
recurso ou a sua presença em quantidade ou qualidade inadequadas têm sido um dos 
principais fatores limitantes ao crescimento social e econômico de várias regiões do 
Brasil e do mundo. A demanda por água doce em todo o mundo tem aumentado de 
maneira exponencial. Paralelamente, a degradação de sua qualidade tem reduzido 
ainda mais sua disponibilidade ESTEVES (1988). 
Os ecossistemas aquáticos continentais tornam-se cada vez mais 
indispensáveis à vida moderna pois estão relacionados às mais variadas atividades 
humanas como a obtenção de alimento, de energia elétrica, o abastecimento 
 
71 
 
doméstico e industrial, o lazer e a irrigação entre outras. O uso na irrigação se constitui 
hoje como um dos principais aspectos que contribuem para que a água seja hoje um 
recurso estratégico. Basta lembrar que 70% de toda a produção de alimento do mundo 
provém de apenas 17% das áreas cultiváveis. 
A Limnologia é uma ciência de grande alcance social uma vez que fornece 
inúmeros subsídios para a conservação, o manejo e a recuperação dos ecossistemas 
aquáticos continentais. Desta forma, o limnólogo passa a ter um papel cada vez mais 
importante na sociedade moderna. 
 
6.4 A água: ocorrência, qualidade, caracterização e classificação. 
 
Na biosfera, que é o espaço do nosso globo onde são encontrados todos os 
seres vivos, distinguem-se três grandes ecossistemas: 
a) Aéreo: Onde há predominância de gases; 
b) Terrestre: Onde há predominância de massa sólida e; 
c) Aquático: Onde há predominância da massa líquida, que forma os 
oceanos, mares, rios, lagos, açudes, lençóis subterrâneos, fontes, etc. De 
interesse da limnologia, como já vimos, são as águas doces, enquanto as 
águas marinhas, salgadas e salobras, pertencem ao campo da oceanografia. 
 
Toda água encontrada na biosfera, em qualquer um desses ecossistemas, 
deriva direta ou indiretamente da água da chuva, através do chamado ciclo 
hidrológico, que é o responsável pelo transporte da água dos oceanos, lagos, açudes 
e de outras fontes para a atmosfera, a qual pela precipitação e escoamento sobre a 
crosta terrestre volta novamente para o oceano, lagos, açudes, etc., trazendo 
dissolvido no seu meio, além de gases, substâncias orgânicas e inorgânicas 
ESTEVES (1988). 
Por esta condição a água desempenha um papel fundamental na biosfera, já 
que é necessária a todos os seres vivos. 
Calcula-se, de uma maneira geral, que as reservas de água na biosfera sejam 
de 1,36 trilhões de quilômetros cúbicos, sendo que 97,2% são representadas pelos 
oceanos e mares, enquanto 2,8% correspondem à água doce. Caso toda água 
existente na natureza pudesse ser distribuída, uniformemente, sobre a crosta 
 
72 
 
terrestre, formaria um tapete de 3.000 m de espessura, mas, deste total, apenas uma 
camada de 40 m corresponderia às águas subterrâneas e de 40 cm, as águas doces 
da superfície - rios, lagos, lagoas, açudes, represas, etc. Esta comparação tem por 
objetivo mostrar a diminuta fração da massa líquida de interesse limnológico. 
Fonte de: www.infoescola.com 
Além de ser o principal componente do corpo dos animais e vegetais e tomar 
parte na constituição das rochas, a água atua na natureza como um importante 
regulador da temperatura, amenizando o clima e favorecendo o desenvolvimento da 
vida animal e vegetal. Isto ocorre graças as suas propriedades físicas, em particular 
devido ao seu elevado calor específico, que é duas vezes superior ao do ar. Sem a 
presença da água na atmosfera na forma de vapor, os efeitos da irradiação acabariam 
por liquidar toda a vida orgânica do planeta. Plantas, animais e rochas, bem como 
tudo que existe sobre a terra, necessitam de água e mantêm por ela uma tremenda 
avidez, devido ser transportadora de substâncias nutritivas e materiais inorgânicos 
ESTEVES (1988). 
 
 
 
 
73 
 
6.5 Qualidade da água 
 
A água, como já vimos, é um bem de consumo necessário a todos os seres 
vivos, sendo utilizada para a agricultura, a irrigação, a recreação (balneabilidade), o 
saneamento, a aquicultura, o abastecimento público e doméstico (potabilidade), a 
dessedentação de animais, a navegação, a harmonia paisagística, a produção de 
energia elétrica e outras finalidades. 
A qualidade da água utilizada para diversos fins depende muito da presença de 
microrganismos que se desenvolvem nela, como algas, fungos, leveduras, 
protozoários, rotíferos e outros componentes do fito e do zooplancton. Esses seres 
microscópicos têm uma importância particular na utilização da água para 
abastecimento público e doméstico, pois são capazes de modificar o pH, a 
alcalinidade, a cor, a turbidez, o sabor e o odor, visto que ao morrerem e sofrerem o 
processo de mineralização da matéria orgânica, liberam substâncias que inviabilizam 
o uso da água ESTEVES (1988). 
Fonte de: www.8.worldwaterforum.org 
No tocante à aquicultura, a qualidade da água deve estar de acordo com o que 
estabelece a Resolução nº 020, de 18 de junho de 1986, do Conselho Nacional do 
Meio Ambiente (CONAMA). 
 
74 
 
Desta forma para que sua utilização possa ser feita sem comprometimento da 
finalidade a que se destina, há necessidade de ser caracterizada quanto aos critérios 
de qualidade, cuja amostra envolve cuidados especiais na coleta, preservação e 
armazenamento. 
 
6.6 Classificação das Águas Interiores ou continentais 
 
Sob a denominação de água interior ou continental se entende as coleções de 
águas doces que se encontram organizadas dentro de sistemas hidrográficos 
definidos, de acordo com a bacia de drenagem e que formam uma unidade de meio 
ambiente, devidamente representada e isolada, ESTEVES (1988). 
 As características destas águas dependem de vários fatores ambientais, como 
a topografia, geologia, hidrologia, climatologia e outros, sendo assim classificadas: 
 
6.6.1 Quanto à hidromecânica 
 
a) Lênticas 
 
São as águas paradas, como a dos lagos, lagoas, açudes e represas. Embora 
possam existir correntes subaquáticas, elas não são fatores dominantes, enquanto a 
densidade vertical e as estratificações térmicas e químicas constituem as suas 
principais características. Apresentam ainda uma instabilidade do pH e baixa 
concentração de oxigênio dissolvido. 
 
75 
 
Construção de um açude 
Fonte de: www.estado.rs.gov.br 
 
b) Lóticas 
 
São as águas correntes, como a dos rios, riachos, arroios, igarapés, etc., que 
se caracterizam por uma contínua corrente, seguindo sempre uma única direção, com 
água nova vindo continuamente de cima. A velocidade da corrente é um fator positivo 
e certos organismos aquáticos mostram uma adaptação à mesma, cada vez que está 
vai se tornando mais violenta ESTEVES (1988). 
Outras características são a elevada turbidez, pois são capazes de transportar 
grandes quantidades de material em suspensão, temperatura homogênea, saturação 
de oxigênio dissolvido, uniformidade do pH, pobreza em sólidos dissolvidos, escassez 
de fitoplânctone de macrófitas, exceto do tipo flutuante que pode formar verdadeiras 
ilhas móveis, conhecidas por camalote e presença de algas aderentes. 
 
6.6.2 Quanto à origem 
 
a) Naturais: São as coleções d’água que se formaram sem a interferência do 
homem, como os rios, riachos, lagos, lagoas, fontes, etc. 
 
 
76 
 
b) Artificiais: São aquelas resultantes do represamento ou controle pelo 
homem para atender a múltiplos propósitos, como sejam, açudes, represas, 
reservatórios, aguadas, canais, viveiros, tanques, etc. 
 
6.6.3 Quanto à natureza química 
 
Por motivo de dissolver todos os elementos inorgânicos e orgânicos 
encontrados sobre o solo, bem como na atmosfera, sendo por isso considerada como 
solvente universal, recebendo assim denominações específicas, como doce, salobra, 
salgada, ácida, alcalina, gasosa, carbonatada, mole, dura, ferruginosa, magnesiana, 
radioativa, etc. de acordo com os sais que se encontram nela dissolvidas, as águas 
interiores podem ser, quanto à sua natureza química, de diferentes tipos, ESTEVES 
(1988). 
 
6.6.4 Quanto à periodicidade 
 
Tendo em vista o tempo de duração em que permanece líquida, formando os 
lagos, açudes, rios, riachos, fontes e outras coleções d’água, elas são: 
 
a) Permanentes 
Aquelas coleções d’água que nunca secam, permanecendo sempre na 
superfície terrestre. Tal tipo de água interior ocorre principalmente em regiões onde a 
precipitação pluvial é maior que a evaporação. 
 
b) Temporárias ou Periódicas 
São as coleções d’água que desaparecem da superfície terrestre em 
determinadas épocas, por não resistirem às prolongadas estiagens ou quando 
passam do estado líquido para o sólido, como nas regiões temperadas. 
As coleções d’água localizadas nas regiões desérticas e semiáridas tendem a 
acumular sais dissolvidos em excesso devido a elevada evaporação, algumas vezes 
alcançando concentrações superiores à dos oceanos, como no Great Salt Lake, nos 
Estados Unidos, no Mar Morto, em Israel, e em muitos açudes do Nordeste brasileiro. 
 
77 
 
Solos arenosos não conseguem reter a água durante o período de chuvas e 
por isso as coleções d’água se tornam temporárias. Açudes e viveiros para a criação 
de organismos aquáticos construídos neste tipo de solo secam completamente, 
principalmente na época do verão. 
Os organismos que ocorrem nestas águas possuem um ciclo de vida bastante 
curto, embora alguns possam adquirir formas de resistência, ESTEVES (1988). 
 
6.7 Lagos: origem, tipos e distribuição geográfica 
 
Por lago se entende uma coleção de água lêntica confinada em uma bacia e 
que não apresenta ligação com o mar. Esta definição foi dada por Forel, em 1892, 
com a finalidade de diferenciar os lagos verdadeiros daqueles que são pequenos 
braços do mar. 
Sob o ponto de vista morfométrico são chamados de lagos as extensas 
coleções de águas paradas, de grandes profundidades, larguras e comprimentos. A 
mesma definição pode ser aplicada para açudes, reservatórios e represas, com a 
única diferença de serem construídos pelo homem com múltiplos propósitos, 
ESTEVES (1988). 
Quanto à lagoa, se trata de uma coleção de água natural, de pouca 
profundidade e características temporárias, muito embora possam existir com essa 
mesma definição extensas coleções de águas naturais, permanentes e de grandes 
profundidades, como as lagoas de Patos, no Rio Grande do Sul. 
 
78 
 
Estuário da Lagoa dos Patos 
 Fonte de: www.peld.furg.br 
 
De uma maneira geral, as causas responsáveis pela formação das águas 
lênticas, como sejam, lagos, lagoas, açudes, etc., são de três tipos, ESTEVES (1988): 
 
a) Construtivas 
Quando o homem interfere diretamente para a sua formação, mediante a 
construção de uma barragem no vale de um rio, riacho, igarapé. São os açudes, as 
represas, reservatórios, viveiros, etc. 
 
b) Destrutivas 
Quando resulta do efeito de fenômenos da natureza, os quais formam 
depressões na crosta terrestre, dando origem à formação de coleções de águas 
lênticas naturais, como os lagos, lagunas, lagoas, etc. 
 
c) Obstrutivas 
Quando estes mesmos fenômenos da natureza provocam o barramento de 
vales formando uma bacia lacustre. Uma mesma causa obstrutiva pode ser destrutiva 
ao mesmo tempo. 
 
 
79 
 
6.8 Agentes da natureza formadores de águas lênticas 
 
De acordo com a sua gênese, as águas lênticas foram formadas à custa da 
ação de diversos agentes da natureza, tanto em épocas remotas como ainda estão a 
acontecer em nossos dias. Os agentes mais conhecidos e frequentes são: abalos 
sísmicos, geleiras, vulcanismo, deslizamento de terras, chuvas, ventos, meteoros, 
garimpagem, dentre outros fatores. 
 
6.9 Açudes e reservatórios do Brasil 
 
Lagos artificiais formados pelo represamento de rios com múltiplos propósitos, 
tais como, abastecimento público, controle de enchentes, regularização de cursos, 
geração de energia elétrica, irrigação, navegação, recreação, pesca e outros, são 
bastante comuns em nosso país, ESTEVES (1988). 
A construção de grandes açudes no Brasil teve início em 1890, quando foi 
iniciada a barragem de Cedro, em Quixadá, Ceará, concluída 16 anos mais tarde. 
Depois do Nordeste foi o Estado de São Paulo que partiu com uma política de 
construção de barragens, cuja primeira represa teve o seu início em 1901, no Rio 
Tietê, com a finalidade de geração de energia elétrica, enquanto no Nordeste era a de 
acumulação de água na época das chuvas para fazer frente às crises nos períodos 
de seca. A construção dessas barragens resultou na formação de um grande número 
de ecossistemas lacustres artificiais. De acordo com GURGEL (1990) a quantidade 
estimada de açudes construídos no Brasil é da ordem de 68.800, com área inundada 
total de 53.200 km². Só na Região do Nordeste estão localizados 60.000 açudes, que 
cobrem uma área de 8.000 km², correspondente a 15% do total do pais. 
É na Região Sudeste que está o maior potencial de espelho d’água artificial 
com 26.000 km² (48,9%), cuja quantidade estimada é de 6.600 açudes construídos, 
seguindo-se em ordem decrescente a Região Nordeste (15,0%), o Sul (14,7%), o 
Norte (13,5%) e o Centro-Oeste (7,9%). Apesar da Região Sudeste contar com o 
maior percentual de espelho d’água, entretanto, está localizado na Região Nordeste 
o açude Sobradinho (BA), com 5.194 km², considerado atualmente a maior coleção 
de água doce formada pelo homem no mundo. 
 
80 
 
Face o regime hidrológico dos rios do Nordeste brasileiro, os efeitos da 
açudagem têm sido mais benéficos que negativos, quer sob o ponto de vista social, 
econômico, climático e biológico. ESTEVES (1988) destaca um elenco de quinze 
efeitos prejudiciais aos ecossistemas aquático e terrestre com a construção de 
açudes, os quais jamais poderão ser levados em conta em se tratando da região 
nordestina, que tem neste tipo de coleção d’água razões para a sobrevivência de sua 
população. 
Na verdade, para uma política racional de açudagem no Nordeste, tem que se 
levar em consideração antes de tudo, a melhor distribuição e aproveitamento da água 
represada, com preferência para as áreas carentes desse recurso hídrico e não, 
simplesmente, atender interesses pessoais e muitas vezes escusos. 
Sob o ponto de vista limnológico a alteração no regime hidrológico e da 
qualidade da água até certo ponto favorece o melhor aproveitamento dos açudes 
nordestinos, como comprovam os estudos bioecológicas realizados em muitos deles, 
fazendo com que, na média geral, sejam considerados como os de maior 
produtividade da pesca no mundo. 
 
7 AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E OS RECURSOS HÍDRICOS 
 
Os recursos hídricos estão irremediavelmente relacionados com as 
mudanças climáticas, uma vez que esses ambientes são altamente suscetíveis a 
alterações do clima. Essas alterações impactam desde o nível médio dos mares 
até a probabilidade de ocorrência de eventos extremos, como períodos desecas 
severas e inundações, degelo glacial, etc. 
 
81 
 
Fonte de: www.blog.brkambiental.com.br 
7.1 Mudanças climáticas 
 
Vivemos em um mundo dinâmico, com disruptivas mudanças históricas nas 
áreas sociais, econômicas, ambientais e culturais. Essas mudanças podem ser 
sentidas instantaneamente, como um desmatamento para cultivo agrícola, por 
exemplo, ou levar séculos, como as alterações geológicas. O clima também apresenta 
mudanças naturais, com aquecimento e resfriamento (Grotzinger e Jordan, 2013). 
 
Estudos indicam que entre 3.000 a 2.300 anos antes do presente (AP) a 
temperatura na Terra era mais fria; posteriormente, entre 1.000 a 709 anos AP, 
passamos por um período chamado de clima óptimo, com temperatura terrestre média 
 
82 
 
variando entre 20 a 24°C. Mais recentemente, entre 478 a 101 anos AP, a Terra 
vivenciou a conhecida Pequena Idade do Gelo, que, apesar de não ser um evento 
climático global, apresentou uma significativa expansão das geleiras na América do 
Norte e na Europa (BARRY; CHORLEY, 2017). 
Entretanto, apesar desse aquecimento e resfriamento naturais, a partir da 
Revolução Industrial, a Terra passou a registrar índices altíssimos de emissões de 
dióxido de carbono (CO2) na atmosfera (Figura abaixo). Esse gás é um dos principais 
responsáveis pelo efeito estufa, que impede que a energia solar refletida pelo planeta 
se dissipe. Esse fato faz com que haja um aquecimento gradual das temperaturas 
médias do planeta, o que pode causar impactos irreversíveis. Esse processo é 
conhecido como aquecimento global Grotzinger e Jordan (2013, p. 673). 
Concentração atmosférica de CO2 nos últimos 10 mil anos. 
Fonte: Grotzinger e Jordan (2013, p. 673). 
 
Quando o Sol aquece a superfície da Terra, parte do calor é aprisionada por 
vapor d’água, CO2 e outros gases na atmosfera (Figura abaixo), semelhante a como 
o calor é aprisionado por um vidro fosco em uma estufa. Por isso “efeito estufa”, que 
explica por que a Terra tem um clima que possibilita a vida. Se a atmosfera não 
contivesse gases do efeito estufa, a superfície terrestre seria sólida e congelada. 
Portanto, os gases do efeito estufa, sobretudo o CO2, exercem uma função crucial na 
regulação do clima. 
 
83 
 
Quando a superfície terrestre é aquecida pelo Sol, ela irradia calor de volta para a atmosfera. O CO2 
e outros gases de efeito estufa absorvem parte dessa radiação infravermelha e a irradiam para todas 
as direções, inclusive para a superfície da Terra. Dessa maneira, a atmosfera armazena calor, como 
um vidro em uma estufa. Fonte: Grotzinger e Jordan (2013, p. 417). 
Assim, embora o gás de efeito estufa sejam importantes para a manutenção da 
vida na Terra, sua emissão excessiva acabou por desencadear mudanças climáticas, 
uma variação estatisticamente significativa no estado médio do clima ou em sua 
variabilidade, que persiste por um período prolongado, geralmente de décadas ou 
mais. Trata-se, portanto, de uma alteração no clima que é atribuída direta ou 
indiretamente à atividade humana, que modifica a composição da atmosfera e que se 
soma à variabilidade climática natural observada ao longo de escalas temporais 
comparáveis. Ou seja, as mudanças climáticas podem ser decorrentes de processos 
internos naturais, forçantes externas naturais, ou mudanças antropogênicas 
persistentes na composição atmosférica e no uso da terra (BARRY; CHORLEY, 2017). 
Assim, apesar de o aquecimento do planeta ser um processo natural, a ação 
do homem acelera esse processo pelo desflorestamento para expansões agrícola, 
urbana e industrial, e, sobretudo, por meio do lançamento de CO2 na atmosfera. Os 
impactos causados pela atuação humano são denominadas ações antropogênicas 
(GROTZINGER; JORDAN, 2013). 
 
84 
 
Portanto, as emissões humanas de carbono estão intensificando o efeito estufa 
pelo aumento da concentração de CO2 na atmosfera, e parte desse CO2 dissolve-se 
nos oceanos, onde se combina com a água para formar ácido carbônico. Essa 
acidificação oceânica está reduzindo a capacidade que os crustáceos e os corais têm 
de calcificar suas conchas e esqueletos, e pode afetar de modo adverso muitos outros 
tipos de organismos marinhos, prejudicando os ecossistemas marinhos. De acordo 
com Grotzinger e Jordan (2013), a biodiversidade de ecossistemas continentais está 
em declínio em razão da perda de hábitat e dos efeitos do aquecimento global, de 
forma que a rápida taxa atual de extinção de espécies pode, por fim, levar a uma 
redução da biodiversidade equivalente às extinções em massa do passado. 
Dessa forma, as mudanças climáticas afetam, sobremaneira, os recursos 
hídricos. Por exemplo, com relação ao uso do solo, o desmatamento pode afetar o 
escoamento superficial de uma bacia hidrográfica, alterando a vazão e a qualidade da 
água, o que impacta a sobrevivência dos animais no hábitat, o fornecimento para 
consumo, etc. Assim, de forma genérica, a associação entre desmatamento e 
aquecimento global ameaça a sobrevivência das comunidades de peixes, que 
necessitam de um hábitat com temperatura adequada para sobreviver. Segundo Val 
e Almeida-Val (2008), se mantidas as taxas atuais de desmatamento, entre 2% e 8% 
das espécies poderiam desaparecer nas próximas duas décadas. Além disso, o 
aquecimento global influencia diretamente o regime pluviométrico, provocando 
inundações em diversos locais e secas severas em outros, como comentamos na 
introdução deste capítulo. 
 
 
 
85 
 
Mas não é só isso. As várias consequências do efeito estufa incluem 
(INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE, 2018): 
 O derretimento das calotas polares e o consequente aumento do nível do mar; 
 O comprometimento da segurança alimentar, prejudicando as colheitas e a 
pesca; 
 A extinção de espécies e danos a diversos ecossistemas; 
 Perdas de terras em decorrência do aumento do nível do mar, que provocará, 
também, ondas migratórias; 
 A escassez de água em algumas regiões; 
 Inundações nas latitudes do Norte e no Pacífico Equatorial; 
 Riscos de conflitos em virtude da escassez de recursos naturais; 
 Problemas de saúde provocados pelo aumento do calor. 
 
7.2 O Brasil no meio de tudo isso 
 
O Brasil, quinta maior nação do mundo, é o país com maior disponibilidade 
hídrica do planeta, com cerca de 12% da água doce mundial. Por outro lado, é o 
sétimo maior produtor mundial de gases de efeito estufa, apesar de ter um exemplar 
sistema de produção de eletricidade. Milz (2019) afirma que a utilização do solo na 
agricultura é responsável por quase a metade dessas emissões, das quais grande 
parte se deve à dizimação das matas. 
Acerca do desmatamento, além da retirada da vegetação, da degradação do 
solo e do aumento do escoamento superficial, os gases liberados durante os 
incêndios, muitos deles criminosos, contribuem significativamente para o efeito estufa. 
No Brasil, por exemplo, o ano de 2020 foi marcado por números recordes de 
desmatamento na Amazônia e no Pantanal, destruindo importantes hotspots1 da 
biodiversidade e devastando espécies inteiras. Mesmo sendo considerada uma das 
maiores áreas úmidas do planeta, a planície pantaneira vem apresentando secas 
severas, que culminam na disseminação de focos de incêndio. Esses eventos 
 
1 O termo hotspots é utilizado para designar lugares que apresentam uma grande riqueza natural e 
uma elevada biodiversidade, mas que, no entanto, encontram-se ameaçados de extinção ou que 
passam por um corrente processo de degradação. Trata-se dos lugares do planeta onde a conservação 
de suas feições naturais faz-se mais urgente. 
 
86 
 
demonstram como o aquecimento global afeta no regime pluviométrico e traz impactos 
severos à biodiversidade (AMAZÔNIA..., 2020). 
 
Além disso, o desmatamento da Amazônia impede a formação de massas de 
ar carregadas de vapor da água, que levam a umidade daAmazônia ao Centro-Oeste, 
ao Sudeste e ao Sul do Brasil. Tal evento é denominado “rios voadores” e está sendo 
diretamente ameaçado pelas ações antrópicas. Um exemplo disso é a escassez 
hídrica vivenciada pela cidade de São Paulo em 2014. 
 
7.3 Os oceanos e o gás carbônico 
 
Os oceanos possuem papel fundamental na absorção de CO2, sendo 
considerados grandes sumidouros desse gás. Nascimento ([2017]) salienta que as 
macroalgas e os fitoplânctons (seres marinhos) realizam fotossíntese para converter 
CO2 em açúcares da mesma forma como o fazem as plantas terrestres. Estima-se 
que os oceanos retiram, da atmosfera, cerca de 1/3 do carbono emitido pela atividade 
humana, o que corresponde a aproximadamente dois bilhões de toneladas métricas 
por ano. Assim, o processo natural de fotossíntese, seja em ecossistemas terrestres 
 
87 
 
ou aquáticos, ajuda a diminuir consideravelmente a quantidade de CO2 na atmosfera 
(NASCIMENTO, [2017]). 
Além dos oceanos, áreas costeiras como mangues e marismas fornecem 
inúmeros benefícios e serviços essenciais para a adaptação às mudanças climáticas 
ao longo das costas em todo o mundo, incluindo proteção contra inundações e o 
aumento do nível do mar, prevenção da erosão costeira, manutenção da qualidade da 
água costeira, fornecimento de hábitat para pescas comerciais e espécies marinhas 
ameaçadas, e segurança alimentar para muitas comunidades costeiras. Além disso, 
esses ecossistemas sequestram e armazenam quantidades significativas de carbono 
azul costeiro da atmosfera e do oceano, e, portanto, agora são reconhecidos por seu 
papel na mitigação das mudanças climáticas. 
O carbono azul (blue carbon) se refere a todo carbono que é capturado da 
atmosfera e é armazenado nos ecossistemas costeiros (ECYCLE, c2017). Estima-se 
que áreas oceânicas e costeiras apresentem taxas significativamente mais altas de 
absorção de carbono do que as florestas terrestres. Os depósitos de carbono 
acumulados dentro desses sistemas são armazenados acima do solo na biomassa 
das plantas (troncos de árvores, caules e folhas), abaixo do solo na biomassa da 
planta (sistemas radiculares e rizomas) e nos solos orgânicos ricos em carbono, 
típicos desses ecossistemas (Figura abaixo). 
Manguezais e pântanos salgados ao longo de nossa costa “capturam e retêm” carbono, agindo como 
sumidouros de carbono. Esses sistemas costeiros, embora muito menores que as florestas, 
sequestram o carbono em um ritmo muito mais rápido e podem continuar a fazê-lo por milhões de 
anos. A maior parte do carbono absorvido por esses ecossistemas é armazenada abaixo do solo. 
Fonte: National Oceanic and Atmospheric Administration (2019, documento on-line). 
 
88 
 
Entretanto, apesar da importância desses ambientes no sequestro de carbono, 
nos últimos 50 anos, entre 30–50% dos manguezais foram perdidos e continuam a 
ser perdidos a uma taxa de 2% ao ano (ECYCLE, c2017). As principais causas de 
destruição dos ecossistemas de mangue incluem o desmatamento e o aterro para a 
inserção urbana e industrial, a criação de tanques de aquicultura e outras formas de 
desenvolvimento costeiro insustentável. 
Macreadie et al. (2019) descrevem três abordagens amplas de gestão para a 
conservação desses ambientes e a garantia do sequestro de carbono como método 
mitigador das mudanças climáticas: 
1. preservação; 
2. restauração; 
3. criação. 
 
A preservação da qualidade e da extensão das áreas costeiras, por meio de 
proteção legislativa e/ou apoio a meios de subsistência alternativos, por exemplo, tem 
o benefício duplo de evitar a remineralização de carbono historicamente sequestrado 
ao mesmo tempo que protege a capacidade de sequestro futura. A preservação pode 
incluir abordagens diretas ou indiretas para manter ou melhorar os processos 
biogeoquímicos, como sedimentação e abastecimento de água (MACREADI et al., 
2019). 
A restauração pertence a uma gama de atividades que buscam melhorar os 
processos biofísicos e geoquímicos (e, portanto, a capacidade de sequestro) nos 
ecossistemas de carbono azul. Exemplos incluem reflorestamento passivo e/ou ativo 
de manguezais explorados e degradados, intervenções de terraplenagem para 
devolver lagoas de aquicultura aos ecossistemas de mangue e a restauração da 
hidrologia em planícies de inundação costeiras drenadas. De acordo com Macreadi et 
al. (2019), embora a restauração possa restabelecer os processos de sequestro de 
carbono, é importante notar que ela pode não evitar que grandes quantidades de 
carbono sejam perdidas após distúrbios ou intervenções futuras. 
Por fim, a criação compreende incentivos à pesquisa e o desenvolvimento de 
métodos e de técnicas capazes de proteger esses ambientes, garantindo um pleno 
funcionamento destes ecossistemas (MACREADI et al., 2019). 
 
 
89 
 
7.4 A dinâmica dos mares e a ocupação de áreas litorâneas 
 
As linhas de costa do mundo servem como barômetros para as iminentes 
mudanças causadas por muitos tipos de atividades humanas. A poluição dos nossos 
cursos d’água nos continentes, cedo ou tarde, chega às praias, assim como o chorume 
dos lixões das cidades e o óleo de lavagem de tanques em alto-mar são levados à 
costa. À medida que a ocupação imobiliária e as construções ao longo das linhas 
costeiras expandem-se, veremos a diminuição continuada e, mesmo, o 
desaparecimento de algumas de nossas mais belas praias (Figura 4). Da mesma 
forma, também veremos efeitos consideráveis em nossas praias à medida que o 
aquecimento global causar a subida do nível do mar (GROTZINGER; JORDAN, 2013). 
A urbanização excessiva em Balneário Camboriú, Santa Catarina, vem diminuindo a faixa de areia da 
praia central. 
Fonte: Passaporte Oficina (2019, documento on-line). 
 
De fato, durante o século XX, o nível do mar subiu em torno de 200 mm e está 
atualmente aumentando a uma taxa aproximada de 3 mm por ano. O aumento do nível 
do mar é uma ameaça grave à sociedade humana, pois poderia inundar deltas, atóis 
e outros terrenos baixos costeiros, além de erodir praias, aumentar as cheias costeiras 
e ameaçar a qualidade da água em estuários e aquíferos, comprometendo a 
segurança de 745 milhões de pessoas em todo o mundo (NASCIMENTO, [2017]). 
 
90 
 
A verdade é que mudanças lentas no meio ambiente, como a acidificação dos 
oceanos, a desertificação e a erosão costeira, também estão afetando diretamente os 
meios de subsistência das pessoas e sua capacidade de sobreviver em seus locais 
de origem. Essas populações são chamadas de refugiados climáticos, grupos que 
acabam migrando para locais de podem ofertar subsídios para a manutenção da vida. 
No Brasil, por exemplo, devido à escassez de água, muitos povos migram do 
interior nordestino para cidades do Sudeste, fugindo das secas. A pouca incidência 
ou, mesmo, a ausência de chuvas torna os solos improdutivos e inviabiliza a criação 
de animais. Políticas públicas ineficazes também agravam essa situação: 
[...] o estudo “Mudanças no padrão espaço-temporal de secas no nordeste 
brasileiro”, publicado na Atmopsheric Science Letters, no ano passado, 
revelou que a seca, entre 2012 e 2017, foi a pior em 30 anos e prejudicou a 
população de 24 milhões de pessoas que vive na região, promovendo 
milhares de deslocamentos, em especial para a região Sudeste, algo que já 
ocorria em determinados períodos, desde a década de 1990. [...] O 
levantamento alerta que a combinação de alta variabilidade espacial e 
temporal das chuvas, falta de irrigação, degradação da terra devido ao 
manejo inadequado do solo e a pobreza em larga escala nas áreas rurais 
tornam a região uma das áreas mais vulneráveis do mundo aos impactos das 
mudanças climáticas (RESK, 2019, documento on-line). 
Conforme a Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados 
(ACNUR), desde o ano de 2009, estima-se que, a cada segundo, uma pessoa é 
deslocada em razão de um desastre ambiental. Em 2018, foramregistrados, no 
mundo, 17 milhões de novos deslocamentos relativos a desastres naturais e a 
mudanças climáticas. E as previsões são alarmantes. A mudança climática deverá 
expulsar 140 milhões pessoas de suas casas, o que reforça que não é mais possível 
desconsiderar essa questão nas agendas das políticas públicas dos países (RESK, 
2019). 
Diante dos fatos, é perceptível que os fenômenos climáticos vão além de 
questões naturais, interferindo diretamente nos fenômenos humanos. É necessário 
sensibilizar-se com essas questões em prol de um ensino crítico, que promova a 
busca por políticas públicas eficientes, minimizando impactos negativos na vida 
humana. 
 
 
 
 
 
91 
 
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