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A seguir, você vai ler um capítulo de Dom Casmurro, um dos romances mais importantes - Machado de Assis. Publicado em 1900, narra em primeira pessoa a história de Bentinho. -o de pai, criado pela mãe, viveu sua infância protegido dos problemas do mundo, cerca- - somente pelos familiares mais próximos - os empregados e agregados da casa. É enviado seminário para cumprir a promessa da mãe de que, se concebesse um filho depois que o irneiro morreu no parto, o menino estaria destinado a ser padre. Além de não se sentir inclinado à vida religiosa, Bentinho sente uma enorme atração por pitu, filha dos vizinhos. Consegue, por fim, fazer com que sua mãe mande outro rapaz em lugar para o seminário. Forma-se em Direito e se casa m seu amor. Um grande amigo dos tempos do seminá- , Escobar, aproxima-se do casal e acaba se casando com melhor amiga de Capitu, Sancha. Do casamento de Bentinho e Capitu nasce Ezequiel, - obar morre. Em seu enterro, Bentinho repara a atitude anha de Capitu ao observar o cadáver do amigo. Nas- - nesse momento um ciúme avassalador em Bentinho, e imagina ter sido traído pelo amigo morto e por sua =ulher; O problema aprofunda-se à medida que Ezequiel ce. Para Bentinho, a criança torna-se cada vez mais recida com o morto. Planeja então assassinar Capitu e Ezequiel e suicidar-se em seguida. O trecho seguinte narra uma ida de Bentinho ao teatro, de se encena a peça Otelo, de William Shakespeare, que zambém trata do tema do adultério. HOFFMAN, Heinrich. Gravura retratando cena em que Otelo se prepara para matar sua esposa, Desdêmona, por ciúmes. Século XIX. Capítulo CXXXV Otelo Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente ateio, que eu não vira nem era nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, r causa de um lenço - um simples lenço! - e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos te e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou acender os ciúmes de ateio e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços oerderarn-se. Hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há e valem só as misas. Tais eram as ideias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que mouro rolava convulso, e logo destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira - não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas s camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma quelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerên- cias, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a 'úria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. - E era inocente, vinha eu dizendo rua abaixo; - que faria o público, se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não basta- ria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção ... Vaguei pelas ruas o resto da noite. Ceei, é verdade um quase nada, mas o bastante para ir até à manhã. Vi as últimas horas da noite e as primeiras do dia, vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores, as primeiras carroças, os primeiros ruídos, os primeiros albores, um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. Não tornaria a contemplar o mar da Glória, nem a serra dos Órgãos, nem a fortaleza de Santa Cruz e as outras. A gente que passava não era tanta, como nos dias comuns da semana, mas era já numerosa e ia a algum trabalho, que repetiria depois; eu é que não repetiria mais nada. Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi pé ante pé, e meti-me no gabinete, iam dar eis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas de camisa, e escrevi ainda uma carta, a última, dirigida a Capitu. Nenhuma das outras era para ela; senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. VOCABuLÁRIo estimei: senti prazer com mouro: indivíduo do Norte da África matéria: assunto turvas: escuras convulso: trêmulo, agitado Desdêmona: personagem feminina da peça Otelo ceei: fiz a ceia albores: primeira claridade do dia em mangas de camisa: sem paletó difuso: disperso, confuso 135 COUTINHO, Afrânio. Estudo Introdutivo. In: ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997. _...,- .... ... . Escrevi dois textos. a primeiro queimei-o por ser longo e difuso. a segundo continha só onecessário, claro e breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as lutas havidas, nem ale-gria alguma; falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer. ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv00180a.pdI>. Acesso em: 22 dez. 2012. 1. Em Dom Casmurro, Machado de Assis toma como mote a história de uma suposta traição. Contudo, por detrás das atitudes do narrador-personagem, há uma profunda análise da sociedade de seu tempo e do comportamento humâno universal. Releia o momento em que Bentinho observa a ação das pessoas durante o intervalo da peça. Destaque do trecho um fragmento em que se possam observar traços sociais es- pecíficos dos frequentadores do teatro. Pelo que se pode ler, o narrador efetua alguma crítica a essas pessoas? Quais? 2. a narrador afirma que "não vira nem lera nunca ateio" e que estimou a coincidência, ao chegar ao teatro. a) A que coincidência está se referindo? b) a narrado r faz menção à suspeita de ateio ter "descoberto" a traição de Desdêmona por causa de um lenço. A seguir, reflete sobre a diferença entre a época em que se passa a cena da peça e os dias de hoje (referindo-se ao momento da narração). Qual é essa diferença? 3. a narrador afirma que, na morte de Desdêmona, o público vibrou. Que considerações podem ser feitas sobre essa reação da plateia? 4. a narrador, apesar de dizer que não tinha lido a peça ou mesmo assistido à outra dra- matização dela, sabia que Desdêmona era inocente. a) Por que a morte da mulher de ateio não causa nenhuma forma de compadecimento? b) Na peça de Shakespeare, Desdêmona é inocente, e Bentinho sabe disso. Partindo desse princípio, sua atitude ao assistir à morte de Desdêmona revela que ele é um narrador confiável (que procura narrar de modo isento a história) ou não confiável (que distorce a história por razões pessoais)? Explique, a partir do texto, sua interpretação do posiciona- mento do narrador. 5. =: E era inocente, vinha eu dizendo rua abaixo; - que faria o público, se ela deve- ras fosse culpada, tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção ..." a) Com essa reflexão, o narrado r imagina um fim cruel para Capitu. Com base nelas, é pos- sível supor os sentimentos que Bentinho tem em relação a Capitu. Quais são eles? b) Essa eterna extinção, mencionada pelo narrador, remete o leitor a que imagem bíblica? 6. Sobre o narrador e o sentido de Dom Casmurro, o professor Afrânio Coutinho afirma a seguinte ideia. A escolha do narrador é evidentemente intencional e o leitor tem acesso à história que Bentinho experimentou, interpretou e expõe. Não vemos nem ouvimos Capitu; seu ponto de vista não é referido. Só o narrador Bentinho tem o direito de depor no proces- so a que submete Capitu. [...] Isso resulta em que a visão do espectador-leitor é limitada, pois o que ele vê é através do olhar e da palavra do narrador personagem-interessado. a) De que modo essa escolha determina a ideia que o leitor tem de Capitu no trecho transcrito? b) A escolha do narrador em Dom Casmurro se aproxima ou se distancia dos preceitosdo Realismo literário? Explique como.