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LUZIANA RAMALHO RIBEIRO FÁBIO FIRMINO DE ARAÚJO MARIA DO SOCORRO DE SOUZA VIEIRA ANA LÚCIA BATISTA AURINO ORGANIZADORES EUGENIA E DIREITOS HUMANOS Ideia – João Pessoa – 2021 Todos os direitos dos organizadores. A responsabilidade sobre textos e imagens é do respectivo autor(a). Editoração/Capa: Magno Nicolau Conselho Editorial Marcos Nicolau – UFPB Roseane Feitosa – UFPB – Litoral Norte Dermeval da Hora – Proling/UFPB Helder Pinheiro – UFCG Hildeberto Barbosa Filho – UFPB Ilustração da capa https://www.istockphoto.com/br/vetor/conjunto-de-evolu%C3%A7%C3%A3o- darwin-gm1201231409-344407010 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD E87 Eugenia e direitos humanos [recurso eletrônico] / Luziana Ra- malho Ribeiro, Fábio Firmino de Araújo, Maria do Socorro de Souza Vieira, Ana Lúcia Batista Aurino, organizadores. – João Pessoa: Ideia, 2021. 2.8mb. pdf ISBN 978-65-5608-183-0 1. Bioética – práticas eugenistas - Brasil. 2. Eugenia e direitos hu- manos. 3. Direitos humanos - práticas normativas de proteção e de controle. I. Ribeiro, Luziana Ramalho. II. Araújo, Fábio Firmino de. III. Vieira, Maria do Socorro de Souza. IV. Aurino, Ana Lúcia Batista. CDU 343.6:608.1 Ficha Catalográfica elaborada pela Bibliotecária Gilvanedja Mendes, CRB 15/810 EDITORA contato@ideiaeditora.com.br www.ideiaeditora.com.br http://www.ideiaeditora.com.br/ SUMÁRIO PREFÁCIO ................................................................................................ 7 Luziana Ramalho Ribeiro APRESENTAÇÃO..................................................................................... 10 Regina Coelli Gomes Nascimento PARTE I DIREITOS HUMANOS E PRÁTICAS EUGENISTAS EUGENIZANDO A FAMÍLIA, GERINDO A POBREZA: Um não-dito sobre pais que assassinam filhos gays ............................................................. 16 Bruno Rafael Silva Nogueira Barbosa José Welhinjton Cavalcante Rodrigues Luziana Ramalho Ribeiro AS ALAS LGBT NO SISTEMA PRISIONAL: uma análise do caso paraibano à luz da criminologia crítica ...................................................................... 32 Renata Monteiro Garcia Mairana Rodrigues Medeiros Nelson Gomes de Sant’Ana e Silva Junior Paulo Alves Pereira Junior HISTÓRIA EM (TRANS)ITO: A construção de direitos e os processos de violações a existência transexual .......................................................... 52 Matheus Rodrigues IMAGENS CALEIDOSCÓPICAS DA EUGENIA NO BRASIL E GENOCÍDIO NEGRO CONTEMPORÂNEO: Modernidade e necropolítica ................... 70 Carina Felix Bezerra PARTE II DIREITOS HUMANOS E ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA A VIOLÊNCIA “O MUNDO É DIFERENTE DA PONTE PRA CÁ”: Mulheres negras e subordinação no Brasil .......................................................................... 90 Luanna Karolyne de Oliveira Cavalcanti A OBJETIFICAÇÃO E SEXUALIZAÇÃO DO CORPO DAS MULHERES: Discussão sobre a violência sexual no Cenário Brasileiro .................... 112 Ana Amélia Dias Evangelista do Nascimento Luanna de Oliveira Cavalcanti O ESTADO E SUAS PRÁTICAS NORMATIVAS DE PROTEÇÃO E DE CONTROLE: o lugar da “vítima” e o lugar do “agressor” nos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes.................................. 131 Zelândia Marques de Almeida AÇÃO, CULPA, PENITÊNCIA: Um estudo sobre produção e descarte de corpos ditos abjetos ............................................................................ 148 Luziana Ramalho Ribeiro Vinicius César de Moura Santana Fábio Firmino de Araújo PARTE III LEITURAS DOS ESCRITOS DE MICHEL FOUCAULT COMO PENSAR DIFERENTE? O cotidiano e as guerras do Brasil a partir de um olhar foucaultiano .................................................................... 175 Anna Rachel de Arruda Tavares Rafaela Ismael de Oliveira Carlos Pereira Pedro Ivo Nogueira Loureiro Danielle Mylene Reis Lins FUNDAMENTO PRÁTICO-EPISTÊMICO DO PODER DIDATORIAL DE (A) NORMALIZAR: A (in)disciplina dos corpos desviantes em Michel Foucault............................................................................................... 211 Brena Miranda da Silva Jennifer Martins Almeida Livia Maria Nascimento Silva Maria José da Silva Rinaldo Araújo da Silva SOBRE AS/OS AUTORAS/ES ................................................................. 238 SUMÁRIO 7 Eugenia e Direitos Humanos PREFÁCIO Este livro é resultante dos trabalhos de estudo e pesquisa do Grupo de Estudos sobre Violência, Segurança Pública e Gênero- Gevisp/UFPB-CNPQ, assim como das parcerias com o Laboratório de Pesquisa e Extensão em Subjetividade e Segurança Pública- Lapsus/UFPB-CNPQ, com os Programas de Pós-Graduação em Di- reitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas-PPGDH/UFPB, em Serviço Social-PPGSS/UFPB e em História -PPGH/UFCG. Temos no final dessa coletânea duas resenhas coletivas que foram escri- tas por educandas(os) do componente Territórios e Diversidades Socioculturais II em 2021.2 do PPGDH-UFPB. Ao pensarmos a eugenia como fio condutor e, ao mesmo tempo transversal às práticas disciplinares que modulam o que chamamos de realidade, mais especificamente nas sociedades in- dustriais ditas modernas e, contemporaneamente na sociedade al- gorítmica, de exacerbada vigilância social, estamos motivados por uma perspectiva de provocação radical a todo o ideário da ordem, progresso e evolução. Portanto a chave mestra dessa coletânea é o desvelamento pela via da razão (os diferentes artigos e temáti- cas aqui trazidos) pela própria razão, ou seja, trazemos nuances da eugenia aplicada e apresentamos concomitante a sua crítica. A eugenia tecnicamente assim nominada no campo cien- tífico, nos remete às práticas mendelianas (no século 19) que le- varam à expansão e consolidação no século 20 de ferramentas nos campos biológicos e sociais de táticas de suposto melhoramento de espécies. Uma pesquisa que principia em espécime vegetal, é am- pliada às raias da humanidade e visa como respaldo ético a cons- trução de melhor qualidade de vida biopsicossocial. SUMÁRIO 8 Eugenia e Direitos Humanos Assim, vemos o florescimento e a articulação entre novas ideologias da pureza e usufruto biológico (como nos campos da estética, prevenção e tratamento de doenças infecciosas e auto imunes) e no campo cultural (a crescente onda de justificação de processos de tratamento, exclusão e extermínio de raças, etnias, crenças, performances sexuais e da sexualidade, desempenho in- telectual, dentre outros) que forjam o ideário moderno que se pro- põe o vetor da construção de um mundo puro, saudável e apto à disseminação das melhores espécimes. Marcadores, indicadores e, variáveis sociais, dentre ou- tras estratagemas conceituais ditas científicas ou simplesmente como no dito senso comum, os estereótipos e estigmas são disse- minados em rede e nas redes sociais constituindo fluxos retroali- mentadores do pânico social, sexual e das terapêuticas de “cura e eliminação”. Se observamos com atenção os mitos fundantes da nossa cultura encontraremos o escopo recorrente do constructo judaico que traz a tese do pecado original, associando-o à fraqueza de ca- ráter moral inerente ao feminino. Assim, sofremos do ponto de vista biopsicossocial por consequência da curiosidade e desobedi- ência de Eva que arrastou Adão e sua prole à danação eterna. Nem só Caim herda e efetiva a maldição hereditária, mas nós humani- dade padecemos recorrentemente devido à tendência fatal à queda capital, ambição, inveja, soberba, traição, são aspectos cul- turais de uma disfunção que alimenta e mina a estrutura orgânica dos humanos e, numa perspectiva ampla e teológicados denomi- nados raça adâmica, que são herdeiros e culpabilizados pelo pe- cado original cometido por Eva. Se este ideário nos parece no sé- culo 21 não tão óbvio e familiar, não nos enganemos, exatamente pela sua forte, contínua e exterior propagação, ele se tornou algo que inconscientemente e condicionadamente forja a realidade dita social. Talvez seja justamente a sua estratégia subliminar que o torne tão eficaz. SUMÁRIO 9 Eugenia e Direitos Humanos Chegamos ao século 21 e vemos, empreendemos com uma força e frequência inimaginável práticas eugenistas. Quanto mais nos detemos nas ações dos Estados-nações e mercado, mais detectamos as técnicas de vigilância-observação, registro e inter- venção na vida dos indivíduos e dos grupos. É estranho como cada vez mais e, capitaneados pela pos- sibilidade de ascensão socio/virtual (influenciadores digitais) as teses eugenistas que forjaram o ideário da evolução do final da Se- gunda Guerra à década de 80 do século 20, e que hoje deviam nos pareciam esdrúxulas, pois embalados na pretensão dos Direitos Humanos vislumbrávamos um mundo de isonomia, respeito, tole- rância e valorização da vida e da diferença, contudo, o que perce- bemos hoje é que vivemos sob o manto da busca, rotulação e eli- minação da diferença. Assim, a sociedade pós-industrial, da infor- mação, trans/humana tem se mostrado cada vez mais afeita à eli- minação de toda diferença, à constituição de sobrantes, ao aper- feiçoamento de técnicas de assepsia social. Esperamos que o conjunto e cada fragmento exem- plar/discursivo das diferentes temáticas em pesquisa social aqui trazidas possam provocar nos leitores o estranhamento à familia- ridade construída acerca das diferentes formas de intervenção di- tas científicas sobre os chamados desvios sociais que são executa- das através das ações das políticas sociais que por suposto têm a função de examinar, registrar e corrigir, quando não eliminar lite- ralmente os tipos sejam eles espécies ou espécimes alcança- dos/classifcados pela lógica da abjeção. Deixamos enfim, a criativi- dade do leitor realizar o exercício kantiano da ousadia do saber e projetar as possíveis e diferentes formas de eliminação que certos dispositivos da lógica de Estado e mercado liberal ou neoliberal são capazes de colocar em movimento em nome da paz social. Luziana Ramalho Ribeiro, novo normal, 2021. SUMÁRIO 10 Eugenia e Direitos Humanos APRESENTAÇÃO “Frente à autoconsciência como repouso, como verdade, como ins- talação definitiva na certeza de si, prende a atenção ao que inqui- eta, recorda que a verdade costuma ser uma arma dos poderosos e pensa que a certeza impede a transformação.” (Jorge Larrosa Bon- día) Através da afirmação de Bondía, comecei a leitura do livro Eugenia e Direitos Humanos. A cada capitulo, fui refletindo sobre os diversos olhares inquietos e questionadores, lançados pelos au- tores e autoras que, com suas pesquisas e estudos, traçam novos caminhos, para pensar sobre eugenia, violência, pobreza, sistema prisional, genocídio negro, violência sexual, dentre outras temáti- cas. Os textos são um convite para pensar a diversidade, a plu- ralidade e as resistências, apontando deslocamentos, questio- nando verdades impostas por segmentos da sociedade, que não desejam transformações, intervindo, assim, na vida dos indivíduos a partir de práticas disciplinares e controle dos corpos. Esta publicação está dividida em três partes. A primeira, in- titulada Direitos humanos e práticas eugenistas, contempla quatro artigos. No primeiro, “Eugenizando a família, gerindo a po- breza: um não-dito sobre pais que assassinam filhos gays”, Bruno Rafael Silva Nogueira Barbosa, José Welhinjton Cavalcante Rodrigues e Luziana Ramalho Ribeiro nos colocam diante de dois episódios de assassinatos de jovens, por motivações homofóbicas, ocorridos em São Paulo e no Rio de Janeiro, resultados de agres- sões dos pais, com a finalidade de “purificar” os corpos dos filhos. SUMÁRIO 11 Eugenia e Direitos Humanos Em suas reflexões, os autores apontam que tais práticas estão vol- tadas para o determinismo biológico-racial, eugenia e violência fa- miliar, os quais ainda estão presentes na sociedade contemporâ- nea. Em seguida, Renata Monteiro Garcia, Mairana Rodrigues Medeiros, Nelson Gomes de Sant’Ana e Silva Junior e Paulo Alves Pereira Junior, no artigo “As alas LGBT no sistema prisional: uma análise do caso paraibano à luz da criminologia crítica”, nos convidam a adentrar o Sistema Prisional paraibano, refletindo sobre as condições de encarceramento após a criação das alas LGBTs, destacando as vivências e violações dos Direitos Humanos dessa população, além de refletir que, apesar da inovação norma- tiva, a LGBTfobia permanece, através de práticas de segregação e violência institucional. No texto “História em (trans)ito: a construção de direi- tos e os processos de violações à existência transexual”, Ma- theus Rodrigues discute a respeito da transexualidade e dos Direi- tos Humanos no cenário global e brasileiro, atentado para as di- versas formas de discriminação e exclusão social, vivenciadas pela população LGBTQI+, destacando também as estratégias de enfren- tamento e luta por políticas públicas que garantam a proteção dos direitos fundamentais a todos os seres humanos. Fechando a primeira parte dessa coletânea, temos o artigo “Imagens caleidoscópicas da eugenia no Brasil e genocídio negro contemporâneo: modernidade e micropolítica”, no qual Carina Felix Bezerra reflete acerca das teorias eugenistas, subal- ternização e genocídio da população negra no Brasil contemporâ- neo. Em suas análises, aponta a necessidade do fortalecimento das lutas antirracistas em todos os segmentos da sociedade e o fim do genocídio negro, que acontece a partir de ações que atingem seus corpos e por meio dos aspectos culturais, educacionais, políticos e econômicos. A segunda parte, intitulada Direitos humanos e estratégias de resistências à violência, apresenta quatro artigos. No primeiro, SUMÁRIO 12 Eugenia e Direitos Humanos “O mundo é diferente da ponte pra cá”: mulheres negras e su- bordinação no Brasil”, Luanna Karolyne de Oliveira Cavalcanti, a partir de uma análise bibliográfica e documental, problematiza as categorias raça, gênero e classe, para compreensão da desigual- dade e violência no país, vivenciadas por mulheres negras. Nesse sentido, a autora em questão nos apresenta uma reflexão contun- dente sobre a urgência da implementação de políticas públicas, que promovam a igualdade racial e garantam o fim do aban- dono/genocídio praticado pelo estado brasileiro contra as mulhe- res negras. Ana Amélia Dias Evangelista do Nascimento e Luanna de Oliveira Cavalcanti trazem, no artigo “Sexualização do corpo das mulheres: discussão sobre a violência sexual no Cenário Bra- sileiro”, uma reflexão sobre a permanência de práticas de submis- são e opressão, vivenciadas por mulheres em seu cotidiano, mar- cado por relações de desigualdades sociais, de sexo, raça/etnia e violência, impetrada por homens que buscam o controle sobre seus corpos e sexualidade. As autoras apontam que, apesar dos avanços na seara jurídica, a violência contra as mulheres ainda persiste, necessitando de políticas públicas efetivas, que garantam a tais mulheres o direito à vida e à liberdade de ser e de estar onde desejarem. Zelândia Marques de Almeida, no artigo “O estado e suas práticas normativas de proteção e de controle: o lugar da “ví- tima” e o lugar do “agressor” nos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes”, a partir de uma bibliografia atualizada, de uma pesquisa cuidadosa e escrita sensível, faz uma reflexão sobre as formas com que o Estado brasileiro tem tratado os autores de crimes sexuais contra crianças e adolescentes no Brasil.Em sua análise, apresenta alguns avanços nas políticas de apoio às “vítimas” e alerta sobre os desafios do sistema jurídico e carcerário brasileiro no tratamento ao “agressor”. Seu olhar aten- cioso nos faz refletir sobre o papel do estado no enfrentamento desses casos de violência. SUMÁRIO 13 Eugenia e Direitos Humanos Encerrando a segunda parte, Luziana Ramalho Ribeiro e Vi- nícius César de Moura Santana, no artigo “Ação, culpa, penitên- cia: um estudo sobre produção e descarte de corpos ditos ab- jetos”, a partir da pesquisa bibliográfica e documental, tratam so- bre as diversas formas de violência, registradas no Estado da Pa- raíba, no período de 2019 a março de 2021. A reflexão é embasada numa pesquisa cuidadosa, na qual os autores apresentam dados estáticos, organizados em gráficos, nos quais são destacados tipos de crime, sexo, faixa etária, locais de incidência, entre outros, co- locando-nos para refletir, dentre outras questões, sobre a necessi- dade de políticas públicas de enfrentamento às mais diversas for- mas de violência que afetam os “corpos ditos abjetos”, esse deve ser um compromisso de toda a sociedade. A última parte, denominada “Leituras dos escritos de Mi- chel Foucault”, concentra dois ensaios, resultado de estudos rea- lizados no primeiro módulo da disciplina “Território e diversida- des socioculturais II”, ofertada no Programa de Pós Graduação em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas, ministrado por Luziana Ramalho Ribeiro e Elio Flores. No primeiro deles, “Como pensar diferente? o cotidiano e as guerras do Brasil a partir de um olhar foucaultiano”, os mestrandos e as mestrandas: Anna Rachel de Arruda Tavares, Ra- faela Ismael de Oliveira, Carlos Pereira, Pedro Ivo Nogueira Lou- reiro e Danielle Mylene Reis Lins, a partir da leitura do livro “Mi- chel Foucault – Por uma Vida Não-Fascista”, discutem as diversas formas de fascismo que se aproximam de nós, afetando nosso co- tidiano, nos alertando sobre a necessidade de reagirmos a toda forma de usurpação ao direito a uma vida livre e autônoma. Em seguida, temos o ensaio elaborado por Brena Miranda da Silva, Jennifer Martins Almeida, Livia Maria Nascimento Silva, Maria José da Silva e Rinaldo Araújo da Silva, intitulado “Funda- mento prático-epistêmico do poder ditatorial de (a) normali- zar: a (in) disciplina dos corpos desviantes em Michel Fou- SUMÁRIO 14 Eugenia e Direitos Humanos cault”, no qual os autores analisam o livro Os Anormais, uma trans- crição de onze aulas do curso ministrado por Michel Foucault em 1975. Logo após, problematizam o documentário “Cartas para além dos muros”, que narra algumas situações vivenciadas na so- ciedade com a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – AIDS e a permanência de preconceitos associados à doença. A coletânea é um convite ao leitor, para refletir sobre as verdades construídas pelos poderes instituídos, com a finalidade de silenciar, disciplinar, controlar e negar aos indivíduos o direito à vida, a se reinventar, a se desdizer, a dizer-se de novo. É uma convoca (ação), para que sejamos o que desejamos ser, respei- tando nossas diferenças e diversidades. Nada pode impedir/sujei- tar/calar /matar a (trans) formação humana. Regina Coelli Gomes Nascimento (Professora da UAHIS-UFCG) Referência BONDÍA, Larrosa Jorge. Pedagogia Profana: Danças, Piruetas e Mascaradas. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003, p. 41 PARTE I DIREITOS HUMANOS E PRÁTICAS EUGENISTAS SUMÁRIO 16 Eugenia e Direitos Humanos EUGENIZANDO A FAMÍLIA, GERINDO A POBREZA Um não-dito sobre pais que assassinam filhos gays Bruno Rafael Silva Nogueira Barbosa José Welhinjton Cavalcante Rodrigues Luziana Ramalho Ribeiro 1 Introdução A palavra eugenia nos remete a noção de uma “boa gera- ção” (eu: boa; genus: geração) e originalmente se apoiou na tese de que a degenerescência racial inevitavelmente conduziria a civi- lização à decadência. Desse modo, a eugenia surge ligada em sen- tido estrito a teorias racistas que viam a mestiçagem racial como um grande entrave a civilização. A solução encontrada por Francis Galton no século XIX foi criar estatísticas que enquadrassem os su- jeitos em perfis para, a partir daí, pensar alternativas político-so- ciais para controle da hereditariedade, de modo a frear esse pro- cesso de degenerescência racial (KERN, 2015). Escrever sobre uma ciência do século XIX, contudo, pode soar como algo distante na contemporaneidade, principalmente devido à forma com que experimentamos a noção de tempo. Cer- tamente não escutamos as pessoas conversando sobre eugenia nas rodas de conversa, nos noticiários de televisão, nas redes so- ciais ou mesmo na universidade. Particularmente, foi apenas guando tivemos contato com nossa orientadora no Mestrado que passamos a ouvir e entender o que essa palavra significa. SUMÁRIO 17 Eugenia e Direitos Humanos Nos diálogos no Grupo de Estudo em Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos (GEVISP) e com nossa participação no curso “Eugenia e Política Social no Liberalismo”, ambos coordena- dos pela professora Luziana Ramalho Ribeiro, não apenas conhe- cemos e aprofundamos o conceito de eugenia, mas foram experi- ências catárticas que nos tiraram da condição de meros estudan- tes para a posição de nos darmos conta de que somos sujeitos que tiveram e ainda temos nossos corpos e mentes diretamente afeta- dos pela política eugenista. Logo, estávamos vivendo ali um pro- cesso existencial profundo. Diante de tanta inquietação gerada, o objetivo que deseja- mos nas páginas a seguir é provocar nossos leitores e nossas lei- toras sobre a noção que se pensou superada entre eugenia e famí- lia, recortando a realidade de pais que assassinaram seus filhos, por esses não performarem estereótipos de gênero1 ligados a masculinidade. Desse modo, procuraremos demonstrar que che- gamos ao ano de 2020 obcecados não somente por um intenso de- terminismo biológico-racial, mas que ser de uma “boa geração”, ser “bem criado”, implica uma rede de poder que administra, con- trola e organiza a vida familiar e a vida de todos os sujeitos, espe- cialmente aqueles que são pobres. Por fim, este texto segue um percurso qualitativo, sendo marcadamente exploratório. Partimos da análise de dois casos de assassinatos de jovens pelos pais catalogados dentre as notícias dos jornais G1 e Veja. Realizamos ainda revisão da bibliografia produzida sobre eugenia e violência familiar em artigos, trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses, entre outras fontes. 1 Segundo Jesus (2012, p. 13), o gênero é uma “Classificação pessoal e social das pessoas como homens ou mulheres. Orienta papéis e expressões de gênero. Independe do sexo”. SUMÁRIO 18 Eugenia e Direitos Humanos 2 Eugenia e Família: “limpando” performances Acreditamos que a eugenia assumiu uma dimensão na rea- lidade brasileira nessas quase duas primeiras décadas iniciais do século XXI que traduz o esforço postulado no nosso país por inte- lectuais e políticos no final do século XIX e começo do século XX (MARQUES, 1994), pois nós visualizamos nesse projeto de socie- dade que vivemos a cristalização do inculcamento de uma visão bifurcada de mundo que se cinde por dinâmicas caras aos discur- sos jurídico e médico: a do puro e do impuro; a do superior e do inferior; e a do normal e do anormal. Impulsionada por ideias alimentadas supostamente pela fonte fetichizada da ciência, já que dentro do modelo de moderni- dade que estamos inseridos a racionalidade positivista pela qual a ciência é abordada (RIBEIRO, 2011), entorpece e convence os es- píritos do vendedor ambulante ao professor universitário, perce- bemos que a eugenia antes pautada em ideias hereditárias em sen- tido estrito,adquire a conotação de uma verdadeira filosofia que inscreve no corpo, na mente e na ação dos sujeitos suas possibili- dades de ser e não ser neste mundo, bem como do que deve ser encarado como vida e do que jamais poderá assumir esse enqua- dramento (BUTLER, 2015). O apego da filosofia eugênica transcende a pureza de san- gue defendida pelos eugenistas europeus do final do século XIX e alcança o Brasil no início do século XX com um caráter preventivo, voltado à necessidade de pureza social de um determinado grupo rotulado como normal, porque dito civilizado, puro, portanto, su- perior. Para aqueles classificados como anormais por incorporar a barbárie, vistos como impuros, resta à inferioridade social. No- tamos que a noção de pureza não aparece na discussão eugênica por acaso, antes é uma característica própria da modernidade. A consequência dessa busca desenfreada por pureza e para que cada um possa se afirmar enquanto tal, resulta no desejo de homoge- neização social (SILVEIRA, 2016). SUMÁRIO 19 Eugenia e Direitos Humanos Como pensar um país do porte do Brasil em termos de ho- mogeneização social? Tamanha a diversidade cultural que se ob- serva em âmbito religioso, econômico, étnico, entre outros, soa um esforço absurdo o estabelecimento de um “tipo ideal” de sujeito (MARQUES, 1994), como queriam e conseguiram concretizar os eugenistas. Aliás, enquanto escrevíamos este texto discutíamos in- formalmente exatamente sobre como o homem, jovem, branco, de olhos claros, cisheterossexual e de classe média alta incorpora esse “tipo ideal”; afinal, é em benefício dele que a sociedade órbita, que o direito codifica a suspeita sobre os corpos que não se encai- xam nesse padrão e que a medicina higieniza os espaços urbanos mais variados para torná-los à altura desse verdadeiro cidadão eurocentrizado, único a conseguir realmente acessar seus direitos humanos, pois têm status social e econômico para tanto. Notamos que o cenário do nosso país atualmente revela uma total incapacidade de lidar com a diferença que destoa desse “tipo ideal”, na medida em que é este que simboliza o capital de pureza normalizado em busca da preservação das gerações futu- ras (SILVEIRA, 2016). Vemos ser descortinado pelo Estado, por aqueles que orbitam em seu entorno e pela sociedade como um todo, uma completa ojeriza a toda e qualquer diferença, pois esta passa a significar desajustamento moral e comprometimento do futuro da própria nação. Não nos surpreendemos, então, que o discurso eugênico bi- opolítico tenha centrado muita atenção para a família como es- paço fecundo em que suas sementes pudessem ser plantadas. Observamos nascer no início do século XX uma crescente discussão sobre a necessidade de proibição de casamento entre aqueles considerados “degenerados”, que não eram outros, senão pobres, negros, homossexuais, “loucos”, entre outros; discutiam ainda sobre a obrigatoriedade do exame pré-nupcial; com apoio religioso, defendiam a castidade; e destacavam a importância de estudar sobre infecções sexualmente transmissíveis (MARQUES, 1994; SILVEIRA, 2016). SUMÁRIO 20 Eugenia e Direitos Humanos Se a família exerce função tão fundamental para a constru- ção do futuro da nação, como defendia Renato Kehl, um dos nomes que capitaneavam o movimento eugenista no Brasil no começo do século XX (MARQUES, 1994), então nada mais lógico que essa ob- sessão por limpeza social começasse a germinar a partir deste nú- cleo. Para termos noção da seriedade que as ideias eugenistas as- sumiram no país no século passado, a própria Constituição de 1934, em seu artigo 138, defendia que caberia à União, aos Esta- dos e aos Municípios “estimular a educação eugênica”. Entendemos que o diálogo entre eugenia e família se dava através da considerada “eugenia positiva”, como propunha Octa- vio Domingues no Boletim de Eugenia, de 1930 (p. 2): “A eugenia positiva visa uma ação social que favoreça a fecundidade dos ele- mentos normais, criando meio legais e humanitários que facilitem a vida familiar e aumentem os recursos indispensáveis à educação dos filhos”. Desse modo, a articulação entre eugenia e família se- dimentou na sociedade brasileira a crença sobre a normalidade de um “tipo ideal” não apenas de sujeitos, mas de famílias também. Como não poderíamos deixar de destacar no Brasil no co- meço do século XX, doenças como sífilis e tuberculose eram asso- ciadas a sujeitos miseráveis moradores de lugares insalubres (MARQUES, 1994; SILVEIRA, 2016). Desse modo, entendemos que a eugenia faz uso de estereótipos e estigmas para acentuar proces- sos de exclusão e eliminação. Não precisamos ir muito longe para pensarmos exemplos mais recentes na história, afinal, basta lem- brarmos da explosão de casos do HIV/Aids pelo mundo a partir da década de 1980, relacionada negativamente à imagem de pessoas não-cisheterossexuais, sendo por muitos taxada como o “câncer gay” (DANIEL; PARKER, 1991; FERREIRA; MISKOLCI, 2020). Notamos aqui como o discurso eugênico se apropria do es- tigma do “câncer gay” para reforçar a impureza que significava ser não-cisheterossexual, já que não se trata apenas de pessoas dege- neradas moralmente, mas cujo sangue é capaz de gerar adoeci- mento e morte para toda a população. Nesse contexto, ser uma SUMÁRIO 21 Eugenia e Direitos Humanos pessoa não-cisheterossexual poderia ser equiparado a uma erva daninha, o que sinaliza para a necessidade de extermínio da mesma o mais rápido possível. Dois casos brasileiros são ilustrativos do vínculo entre fa- mília e eugenia na sociedade brasileira contemporânea. O pri- meiro episódio é o do bairro Vila Kennedy, no Rio de Janeiro, que aconteceu em 17 de fevereiro de 2014 e resultou no assassinato de uma criança de oito anos de idade pelo próprio pai. O segundo caso ocorreu no município de Cravinhos, em São Paulo, em 29 de dezembro de 2016 e vitimou fatalmente um jovem de 17 anos, morto pela própria mãe e pelo seu padrasto. Quando refletimos sobre a inserção da eugenia dentro dos arranjos familiares modernos, compreendemos que ter filhos não- cisheterossexuais que apresentassem uma expressão de gênero2 que reforçasse estereótipos de masculinidade ou feminilidade em desacordo com seu sexo biológico3 sinalizaria para uma anorma- lidade na família que precisaria ser “corrigida” imediatamente, sob o risco de macular moralmente a família perante a sociedade ou biologicamente a continuidade daquela linhagem, o que em ambos os casos poderia colocar em perigo a preservação do futuro de toda a família. Nos casos de filicídios ocorridos em Rio de Janeiro e em São Paulo, os assassinatos dos jovens guardam esse caráter “corre- tivo” em razão dos jovens performarem expressões de gênero fe- minino em desacordo com seus sexos biológicos. Há nesses episó- dios brutais um esforço dos pais de adequação das expressões de 2 Segundo Jesus (2012, p. 13), a expressão de gênero é a “Forma como a pessoa se apresenta, sua aparência e seu comportamento, de acordo com expectativas sociais de aparência e comportamento de um determinado gênero. Depende da cultura em que a pessoa vive”. 3 De acordo com Jesus (2012, p. 13), o sexo é uma “Classificação biológica das pessoas como machos ou fêmeas, baseada em características orgânicas como cromossomos, níveis hormonais, órgãos reprodutivos e genitais”. SUMÁRIO 22 Eugenia e Direitos Humanos gênero e da sexualidade dos seus filhos ao “tipo ideal” normali- zado e normatizado socialmente, de modo a “limpar” as “impure- zas” das performances desses jovens. Enxergamos que a família é uma instituição formulada para agir segundo os termos postos com o início da modernidade e com a expansão do capitalismo monopolista. Desse modo, o arranjo fa- miliar está a serviço do capital, sendo útil principalmente para qualificar a mão de obra que ao sair do trabalho poderiair se en- tregar aos prazeres e vícios da cidade (DONZELOT, 1980). Diante de papeis designados para cada membro da família, entendemos que essa instituição tem por função principal disciplinar e vigiar o corpo e a mente uns dos outros para render o máximo possível no trabalho no dia seguinte, especialmente quando falamos de famí- lias pobres. Mas não apenas, pois há ainda uma moral sexual que está atrelada a discussão. No caso do Rio de Janeiro, o pai espancou o filho de oito anos porque o mesmo “brincava de dançar” e “andava por vezes rebolando”, o que revelava a necessidade de “ensiná-lo a ser um homem”, pois a criança tinha um jeito “afeminado”4. Na tarde do dia 17 de fevereiro, a criança foi levada ao hospital pela madrasta que disse aos médicos que o mesmo tinha desmaiado. Contudo, os médicos imediatamente perceberam que a criança estava morta e com vários sinais de maus-tratos pelo corpo. Em uma das notícias, consta o depoimento de um dos mem- bros do Conselho Tutelar da cidade que disse: Trabalho há três anos no Conselho Tutelar de Bangu e nunca tinha visto tanta covardia. O corpinho do menino estava todo marcado. Não há dúvidas de que ele vinha sendo espancado há meses. Ele levou uma pancada tão forte que provocou o rompimento do fí- gado. Esse tipo de ruptura acontece em vítimas de acidentes de carro que sofrem forte impacto (OLIVEIRA, 2014, n./p.). 4 Para mais informações, a notícia está disponível em: http://g1.globo.com/rio- de-janeiro/noticia/2014/12/homem-que-matou-filho-no-rio-por-ser- afeminado-vai-juri-popular.html. SUMÁRIO 23 Eugenia e Direitos Humanos A criança de oito anos de idade teve ainda o rosto comple- tamente desfigurado. Esse caso nos impressionou pela barbárie que carrega em si, pois nos faz questionar: por que uma expressão de gênero em desacordo com o sexo biológico pode justificar uma atitude violenta brutal como a desse pai? Como um pai pode as- sassinar o próprio filho? Nesse momento, evocamos Girard (2008) ao lembrar que a sexualidade é a última máscara que encobre a violência. Mas vamos além para afirmar que gênero e sexualidade são questões que na nossa sociedade estão diretamente ligadas à violência e a guerra. Essas questões são alvos prediletos da euge- nia, porque implicam a construção do futuro do Brasil com um “tipo ideal” de sujeito que apresente linearidade entre sexo bioló- gico, expressão de gênero e práticas sexuais. O episódio ocorrido em São Paulo, em 2016, é o do jovem de 17 anos. Ele já havia denunciado à polícia agressões que teria sofrido da mãe anteriormente que não aceitava que o mesmo fosse gay. Por isso, ele acabou indo morar com sua avó. A mãe do jovem o convidou para ir a sua casa para que ambos pudessem fazer as pazes. Ao chegar na casa da mãe, ela juntamente com o seu pa- drasto e mais duas pessoas passaram a agredi-lo. A mãe teria des- ferido golpes com uma faca no pescoço do adolescente. Quando perceberam que ele estava morto, levaram o corpo para um cana- vial e o incendiaram. Oito dias depois a mãe assassina teria notifi- cado a polícia que seu estava desaparecido. A polícia encontrou o corpo do jovem parcialmente carbonizado5. Em depoimento à polícia, a mãe afirmou que “não aguen- tava mais ele”, pois “reprovava o comportamento [do filho] de le- var homens desconhecidos para dentro de seu lar e lá fazer uso de drogas”. Amigos e familiares disseram que o jovem não usava dro- 5 Veja mais detalhes disponíveis em: https://veja.abril.com.br/brasil/mae-que- matou-filho-por-ele-ser-gay-e-condenada-a-25-anos-de-prisao-em-sp/. SUMÁRIO 24 Eugenia e Direitos Humanos gas. A mãe negou que a motivação do crime teria sido sua homo- fobia6. Seis dias antes do assassinato, o jovem postou uma foto da família em uma rede social com a legenda: “... Família em primeiro lugar. É o que há. Haha” 7. O discurso da mãe que cometeu o assassinato, bem como seu ato de filicídio em si, apontam para a instituição familiar, que para o filho assassinado viria “... em primeiro lugar”, como um campo por excelência de práticas ortopédicas e eugenizantes no intuito de “corrigir na surra” esse adolescente que fugia as normas de gênero. Esses episódios sinalizam para o formato atual que o dis- positivo da sexualidade acabou adquirindo sob a influência de di- versos discursos, dentre eles: médico, jurídico, religioso etc. (FOU- CAULT, 1979). A família brasileira das últimas gerações, constitu- ída sob uma educação eugênica e a partir dos discursos menciona- dos antes, não se distanciou da figura consagrada historicamente dos pais como guardiões da sexualidade e do gênero dos seus fi- lhos (DONZELOT, 1980), ao ponto desses pais se sentirem autori- zados de intervirem sobre o corpo e a mente de crianças e adoles- centes no limite da própria vida, descartando-a quando julgarem apropriado, como nos episódios de São Paulo e Rio de Janeiro. As relações de poder que atravessam a família não são for- jadas somente a partir de uma imposição do capitalismo monopo- lista, dentre outras questões que essa instituição (re)produz está uma moral sexual típica desse modelo capitalista, como dito ante- riormente. O melhoramento das gerações que estão por vir de- pende assim da pureza, da normalidade e da superioridade dos membros atuais dessa família, já que os caracteres morais são 6 Segundo Louro (1997, p. 29), "Homofobia, o medo voltado contra os(as) homossexuais, pode-se expressar numa espécie de 'terror em relação à perda do gênero', ou seja, no terror de não ser mais considerado como um homem ou uma mulher 'reais' ou 'autênticos'". 7 Outras informações podem ser acessadas em: https://veja.abril.com.br/brasil/nao-aguentava-mais-ele-afirma-mae-que- matou-e-queimou-filho/. SUMÁRIO 25 Eugenia e Direitos Humanos transferidos de geração em geração. Em outras palavras, como diz o adágio: “filho de peixe, peixinho é”. Logo, a família compõe um campo asséptico altamente suscetível às intervenções as mais va- riadas. Compreendemos ser necessário destacar que a perfor- mance (BUTLER, 2013) tanto da criança quanto do adolescente fo- ram levantadas diante das autoridades judiciais para justificar o estopim para as práticas de filicídio. O pai recorrendo ao jeito “afe- minado” da criança para dizer que o mesmo precisava ser “corri- gido” e a mãe afirmando que não admitia as práticas sexuais do adolescente, mesmo diante do Estado, revela a naturalização com que esses pais tratam as normas de gênero ao ponto de que matar seus próprios filhos poderia ser mais aceitável do que lidar com suas performances desarmoniosas com os regimes de verdade que determinam estereótipos ligados a masculinidade e a femini- lidade. Os casos de assassinatos ocorridos em São Paulo e Rio de Janeiro não são eventos isolados e atípicos da nossa sociedade, an- tes traduzem uma rede de poder que circula em toda a sociedade para etiquetar homens gays como “anormais” e “impuros”. O Bra- sil é o lugar do mundo que mais mata pessoas Lésbicas, Gays, Bis- sexuais e Transgêneros (LGBT), segundo dados da ONG Transgen- der Europe (2016). O Grupo Gay da Bahia (2019) registrou, entre janeiro e 15 de maio de 2019, 141 mortes de pessoas LGBT no Bra- sil, sendo 126 assassinatos e 15 suicídios. Logo, a cada 23 horas estima-se que uma pessoa LGBT é morta no nosso país. Diante desse cenário, São Paulo e Rio de Janeiro aparecem nos dados dentre os estados do país mais hostis com 22 e 9 mor- tes, respectivamente. A casa aparece como um dos espaços mais perigosos, pois essas estatísticas informam que mais LGBT foram mortos dentro de casa (36 mortes) do que em locais públicos (28 mortes). Dentre as principais causas das mortes foram identifica- das: arma branca (39 casos), lembrando que uma faca foi utilizada SUMÁRIO 26 Eugenia e Direitos Humanos no episódio apresentado anteriormente que vitimou o adoles-cente de 17 anos em São Paulo, em 2016; arma de fogo (22 casos); espancamento (13 casos), aqui evocamos o caso que aconteceu no Rio de Janeiro, em 2014, onde uma criança teve o fígado rompido de tanto que seu pai o agrediu; e estrangulamento (8 casos) (GRUPO GAY DA BAHIA, 2019). Essas mortes de pessoas LGBT, notadamente de crianças e jovens, começam a ser construídas por formadores de opinião e autoridades públicas em discursos incendiários antes de se torna- rem um fato propriamente dito (SÉMELIN, 2009), como ocorre nas falas de diferentes autoridades brasileiras. A título de exem- plo, optamos por trazer duas declarações feitas durante a trajetó- ria política do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que acre- ditamos representar o imaginário social sobre o papel da família no controle de uma moral sexual dos seus integrantes. Em entre- vista à revista PlayBoy, o atual presidente disse que seria incapaz de amar um filho homossexual, pois “Prefiro que meu filho morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí” (EL PAÍS, 2018). Ainda este ano, diante da recusa do Museu Americano de História Natural, de Nova York, de sediar um evento que iria ho- menagear o Bolsonaro, este comentou a jornalistas: “O Brasil não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay. Temos famílias” (EXAME, 2019, n./p.). A partir dessas afirmações públicas feitas pelo presidente Bolsonaro, que representa as crenças de milhões de brasileiros, podemos destacar a força que essa moral sexual exerce sobre a mentalidade do povo brasileiro. A eugenia é uma tecnologia de po- der que absorve os discursos jurídicos, médicos e religiosos para defender a necessidade de uma ideia de família centrada na figura do pai, da mãe e do(a) filho(a), portanto, cisheteronormativa. A ironia é conseguir estabelecer um arranjo familiar tão rígido em um país como o Brasil que, em 2010, registrava 53,5% das famílias como sendo monoparentais femininas (IBGE, 2012). Desse modo, cada membro da família teria papeis de gênero definidos a serem SUMÁRIO 27 Eugenia e Direitos Humanos cumpridos e qualquer desacordo geraria uma “impureza” a ser alvo de práticas assépticas, ou seja, o corpo e a mente se tornam peças a serem higienizadas. Outra declaração pública que gostaríamos de apresentar é do atual vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, que durante o período de eleições, ao desembarcar no aeroporto de Brasília, mostrou seu neto para a imprensa, dizendo: “Meu neto é um cara bonito, viu ali? Branqueamento da raça” (CARNEIRO, 2018, n./p.). Esta fala revela a mentalidade segregacionista per- passada por gerações. O que queremos dizer, a partir dessas de- clarações públicas, é que Bolsonaro e Mourão são a caricatura do processo eugênico, são ainda uma demonstração evidente de que atingimos o ano de 2020 e nos deparamos com a consolidação da eugenia no Brasil. Portanto, a busca por alcançar a pureza na sociedade bra- sileira resulta de uma construção histórica e cultural. Essa busca tende a adquirir contornos extremos quando a performance de determinados sujeitos entra em desarmonia com as normas de gê- nero impostas pelos regimes de verdade que dão sustentação a nossa sociedade. Nos casos analisados ao longe desse texto, o filicídio surgiu como uma última alternativa extrema para aqueles pais que dese- jam aplacar suas ansiedades e angústias, “limpando” a perfor- mance “impura” que recaiu sobre suas famílias. O que esses pais não imaginavam é que suas vidas estavam inseridas dentro de um quadro político de gestão de pobreza (WACQUANT, 2007) e ao tentar se encaixar no que é posto como “normal” e afastar o que “degenera”, toda a família seria contro- lada e descarta, seja se recorrendo a morte, como no caso dos fi- lhos; seja por intermédio do recurso a prisão, o que não deixa de significar uma morte em vida. Esse é um não-dito revelado ao final desse processo de violência a que todas essas vidas estão entre- gues. SUMÁRIO 28 Eugenia e Direitos Humanos 3 Considerações finais Entendemos que o assassinato de jovens LGBT pelos pró- prios pais antes de serem praticados efetivamente, são formula- dos em nível de discurso, recebendo a legitimidade de autoridades e formadores de opiniões. Os regimes de verdade que instituem a instituição familiar são marcadamente eugênicos, na medida em que tornam “anormais” e “impuros” os filhos e filhas que não con- seguem absorver a ortopedia social que lhe são impostas. Como o gênero e a sexualidade são dispositivos em diálogo direto com a violência, a agressão física e psicológica é um meio frequentemente utilizado para “purificar” os corpos e as mentes desses jovens que reiteradamente violam as normas de gênero, performando expressões de gênero e práticas sexuais em desa- cordo com seu sexo biológico. O assassinato da criança de oito anos espancada pelo pai no Rio de Janeiro, em 2014, e o assassinato que foi finalizado com o corpo queimado do adolescente de 17 anos pela própria mãe em São Paulo, em 2016, ambos iniciados com o expresso intuito de “ensinar” esses sujeitos a serem “homens”, revelando que essas agressões se justificam pela “boa intenção” dos pais de “corrigir” seus filhos; são ilustrativos de como a família é um território em potencial de práticas assépticas. Consideramos importante ressaltar que esses pais se sen- tiam a tal ponto legitimados para praticarem essas “surras corre- tivas” que mesmo em Juízo afirmaram ser o descumprimento das normas de gênero o que os impulsionaram a iniciar tais agressões, mesmo que no caso de São Paulo, em 2016, a mãe tenha afirmado que o crime não teve motivação homofóbica, em oposição aos ar- gumentos que a mesma utilizou para fundamentar o início das agressões: “não aguentava mais ele” e “reprovava o comporta- mento [do filho] de levar homens desconhecidos para dentro de seu lar”. A motivação homofóbica se confirmou com os depoimen- tos de familiares e amigos. SUMÁRIO 29 Eugenia e Direitos Humanos Apesar de quase não se falar sobre eugenia, chegamos ao século XXI com sua filosofia profundamente inculcada na mentali- dade das pessoas e entranhada nas estruturas simbólicas e mate- riais da sociedade brasileira. As famílias de hoje são resultado do inculcamento da crença do que é ser “bem criado”, onde o reforço de estereótipos de masculinidade e feminilidade em harmonia com o sexo biológico de cada sujeito determina sua condição de normalidade. Os episódios brutais de violência ocorridos em São Paulo e Rio de Janeiro que foram apresentados anteriormente são resultados de ações eugênicas com um nítido viés de gestão da mi- séria. Referências BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. ________. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: Promul- gada em 16 de julho de 1934. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cci- vil_03/constituicao/constituicao34.htm. Acesso em: 14 dez. 2019. CARNEIRO, Mariana. ‘Meu neto é um cara bonito, branqueamento da raça’, diz general Mourão. Folha de S. 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Introdução O presente artigo é derivado de uma pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Pesquisa e Extensão em Subjetividade e Segurança Pública (LAPSUS), vinculado ao Centro de Referência em Direitos Humanos (CRDH) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A pesquisa buscou analisar as violações dos Direitos Humanos da População LGBT no Sistema Prisional, as condições de encarceramento e as vivências dessa população, a partir do contexto da implementação das Alas LGBTs nas prisões paraibanas. O trabalho em questão é resultado de uma das linhas desta pesquisa e buscou especificamente questionar a declarada função das Alas LGBTs como medida de proteção e garantia de direitos dessa população presa. Para tanto, realizou-se pesquisa bibliográfica em plataformas digitais de cunho acadêmico- científico tais como Scientific Electronic Library Online - Scielo, o Portal de Periódicos da CAPES, o Portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia – PePSIC e a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações - BDTD, utilizando-se termos de busca específicos SUMÁRIO 33 Eugenia e Direitos Humanos relacionados à temática e que foram combinados sistemati- camente até o esgotamento de achados nas referidas plataformas. A coleta demonstrou a pouca visibilidade do tema, visto o escasso material encontrado, especificamente no que diz respeito ao debate acadêmico, demonstrando a necessidade de aprofun- damento de discussões sobre esta realidade no âmbito científico. A leitura das referências encontradas somou-se à análise de legislação e relatórios institucionais que possibilitaram com- preender a temática das Alas LGBT no Sistema Prisional. Os debates teóricos empreendidos pelo Grupo de Pesquisa para confrontar as problemáticas em tela foram pautados na perspectiva da Criminologia Crítica. Inicialmente, analisou-se a violência contra as pessoas LGBT's, isto é, a violência por preconceito contra a percepção de sexualidades e identidades não normativas desses sujeitos. Bem como, analisou-se os estigmas e as violações de direitos humanos sofridas dentro e fora do sistema prisional, verificando como a dominação masculina, as formas de discriminação e a violência assentam cotidianamente o público LGBT como vítima dessas relações de poder e que repercutirão com maior intensidade nas prisões. Em seguida, colocou-se em discussão as condições de encarceramento da população LGBT, confrontando a realidade percebida com as prerrogativas dispostas nas normativas que preveem a proteção e garantia de direito das pessoas presas, especificamente da população LGBT. A análise dos espaços destinados às Alas LGBTs, das relações de poder no cárcere e da legislação de regência possibilitou conceber um panorama dessa realidade no contexto paraibano. Depreende-se, da pesquisa realizada, uma função não declarada das Alas LGBTs, constituindo-se como mais um mecanismo de controle sobre esses corpos que não só subvertem a norma penal, mas também o binarismo normativo masculino/feminino. Nesse sentido, cabe destacar que cumpre o SUMÁRIO 34 Eugenia e Direitos Humanos papel de resguardar a segurança física dos corpos das pessoas ali recolhidas, e, nesse sentido, constitui-se como importante medida de proteção. Entretanto, há muito que transformar para que esta população alcance a garantia de tantos outros direitos previstos que lhes são cotidianamente negados. 2. A violência contra pessoas LGBT Os índices de assassinato de pessoas LGBT’s, no Brasil, crescem vertiginosamente. Em 2010, contavam-se 130 homicí- dios; em 2016, 343 (MOTT; MICHELS; PAULINHO, 2017). Tais in- dicadores superam os de países conservadores que possuem le- gislações que punem relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo e transsexuais - até mesmo, com pena de morte -, de modo que, no Brasil, “a cada 25 horas, um LGBT é barbaramente assassinado vítima de LGBTfobia” (MOTT; MICHELS; PAULINHO, 2017, p. 1). Historicamente, tais sujeitos sofrem com a violência, mar- cada, sobretudo, por serem quem são. Isto é, são violências que se baseiam “no desejo do agressor de “punir” essas identidades, ex- pressões, comportamentos ou corpos que diferem das normas e papéis de gênero tradicionais, ou que são contrários ao sistema binário homem/mulher” (CIDH, 2015, p. 37). Assim, Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais são taxados por signifi- cante parcela da sociedade como “desviantes”, por não se encaixa- rem no padrão heteronormativo. Neste sentido, discursos de ódio, violência física ou simbólica os acompanham há décadas. Para entendermos a violência contra o público transexual e homossexual, dentro e fora do sistema prisional, acolhemoso entendimento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos: os atos de violência contra as pessoas LGBT, comumente conheci- dos como “crimes de ódio” ou atos homofóbicos ou transfóbicos, são melhor compreendidos sob o amparo do conceito de violência SUMÁRIO 35 Eugenia e Direitos Humanos por preconceito contra a percepção de sexualidades e identidades não normativas (CIDH, 2015, p.11). Neste sentido, a LGBTfobia - forma mais abrangente de ho- mofobia, praticada contra todos os componentes da sigla - é uma violência por preconceito que se aplica além dos homens gays, às lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, “enviando uma men- sagem de terror generalizado à comunidade LGBT” (CIDH, 2015, p. 11). No contexto paraibano, as mortes de pessoas LGBTs, no de- correr dos anos, demonstram que o assassinato desse público é marcado muito mais pelo ódio ou pela aversão à sua condição do que uma simples relação com o tráfico, crime ou prostituição, como o poder público insiste em relacionar, ocultando assim a verdadeira face desses crimes (MEL, 2014). A LGBTfobia tortura, violenta e mata aqueles que se encaixam na sigla LGBT. Segundo estudo do Movimento Espírito Lilás – MEL (2014), organização da sociedade civil de homens gays da Paraíba, cerca de 40 pessoas LGBT foram assassinadas no estado, entre os anos de 2013 e 2014, cujas mortes são claramente marcadas pelo ódio e preconceito. Nos registros, o poder público não se referia à con- dição de LGBT da maioria das vítimas e, portanto, essa represen- tatividade pode ser muito maior do que a apresentada, visto que essa informação era um dado ocultado. Um exemplo emblemático que consta no referido relatório é do assassinato de uma travesti em 2014. Ela foi morta com um tiro na cabeça na periferia da grande João Pessoa e, como se não bastasse, teve seu cabelo raspado e posto dentro de um saco plás- tico, juntamente com o enchimento que usava no peito (MEL, 2014). A mutilação do enchimento do peito e do cabelo demonstra que as mortes desse público são marcadas pela repulsa e ódio à sua natureza trans, vista como ‘’desviante’’. De acordo com o mesmo relatório, praticamente todas as vítimas se localizavam em áreas periféricas e a esmagadora maio- SUMÁRIO 36 Eugenia e Direitos Humanos ria delas é negra. No Atlas da Violência de 2017, lançado pelo Ins- tituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os números de- monstram que entre 100 vítimas de homicídio no Brasil, 71 são de negros. O mesmo atlas informa ainda que além de negra, a maioria é jovem, de baixa escolaridade e pobre (IPEA, 2017). É difícil falar de assassinatos de LGBT e não trazer tal perfil que faz os números alavancarem. Se os corpos de negros e pobres são massacrados à céu aberto e o poder público pouco – ou nada - faz, os de LGBTs são ainda mais violentados, ainda mais marcados pelo ódio à sua condição. A realidade do público LGBT dentro das prisões não é dife- rente da realidade preconceituosa e discriminante da sociedade, intensificada pelo sofrimento inerente ao sistema prisional. Con- siderando que “o cárcere reflete a sociedade, sobretudo nas carac- terísticas negativas” (BARATTA, 2002, p. 183-184), as violências, discriminações e opressões vivenciadas fora dos muros das pri- sões se replicam intramuros contra este público, sobretudo com gays e mulheres trans, que permanecem no presídio masculino. Uma realidade que não pode ser esquecida é sobre a expe- riência das mulheres lésbicas, mulheres bissexuais ou homens transexuais – isto é, que rejeitaram o seu sexo biológico e todos os aspectos a ele atribuídos, adotando o corpo masculino -, pois tendo em vista que se encontram em presídios femininos e as alas LGBTs, objeto de análise do presente estudo, foram implementa- das em presídios masculinos, não tiveram suas realidades analisa- das neste estudo. Todavia, o sistema prisional feminino carece de análises próprias, a fim de não terem suas vivências invisibiliza- das. Na sociedade contemporânea, a dominação masculina pro- duz formas de discriminação e violência que assentam o público LGBT como vítima dessas relações de poder. Isso se repercute com mais intensidade nas prisões, engendrando um sofrimento ainda mais intenso. E, assim, o público LGBT encarcerado (que comporta pessoas de baixa escolaridade, pobres e negras, e que é um típico SUMÁRIO 37 Eugenia e Direitos Humanos perfil do encarcerado brasileiro) sofre tanto pelos estigmas que os encarcerados carregam, quanto pelas violações de direitos huma- nos, e não obstante, também são violentados pela discriminação ou LGBTfobia. De acordo com Ferreira (2014), esta experiência pode ser ainda mais violenta no caso das travestis: “(...) nesse ce- nário a transfobia recebe evidência, na medida em que é ela a causa última da discriminação que as travestis sofrem dos outros presos e ainda dos policiais” (FERREIRA,2014a, p. 109). Na realidade do estado da Paraíba, tais violações foram de- nunciadas por entidades de proteção dos direitos humanos. O Mo- vimento Espírito Lilás e a Pastoral Carcerária declararam que ho- mens gays e travestis eram forçados a fazer sexo com outros de- tentos (SINÉSIO, 2013; PARLAMENTOPB, 2013). A homo-transfo- bia ocorrida nos presídios foi alvo de denúncia pela Comissão Es- tadual de Direitos Humanos da Paraíba, que observou as violên- cias em vistorias realizadas (BEZERRA, 2015). O encaminhamento das denúncias e a pressão por parte dos movimentos sociais possibilitou a criação da Ala LGBT em um dos presídios da capital paraibana, como possibilidade de separar o público de gays, travestis e mulheres trans dos demais presos. Documentários e sites de notícia na internet destacaram a medida como uma saída plausível e suficiente para evitar os cons- trangimentos e violências sofridas pelo público LGBT no sistema prisional. Em um documentário televisivo, o então Secretário de Assuntos Penitenciários da Paraíba, afirmou: (...) visando humanizar o sistema de uma forma como um todo, visamos também preservar a integri- dade física e psicológica da comunidade LGBT [...]. Eu quando entrei no sistema prisional, recebi infor- mações de que um travesti foi violado por 20 ho- mens em uma só noite (ALAS, 2013). A medida tomada pela administração penitenciária parai- bana inspirou a Resolução Conjunta nº 1, de 15 de abril de 2014, SUMÁRIO 38 Eugenia e Direitos Humanos que determina a criação de Alas destinadas ao público Gay, Lés- bico, Bissexual, Travesti e Transexual em um local específico den- tro da prisão. Diante do exposto, a partir do sistema prisional paraibano, o presente trabalho analisará o contexto do surgimento das Alas LGBT. À luz da criminologia crítica, problematizamos tal medida como meramente paliativa, insuficiente e que é disfarçada de “hu- manização da pena”. A perspectiva de que a criação das Alas LGBT restaura, preserva e humaniza os corpos dos LGBTs aprisionados, oculta uma realidade de segregação e violência que continua as- sombrando essas pessoas no sistema prisional. Neste sentido, objetiva-se desvincular a ideia de que o in- cremento de novos espaços prisionais salvaguardará a integri- dade psicológica ou física do público alvo. Não somente porque o encarceramento é incapaz de promover algo senão o sofrimento, mas ainda, como veremos, porque acarreta diferentes métodos e técnicas de discriminação, controle e violações de direitos huma- nos que só são possíveis a partir da criação delas. 3. Pavilhão da diversidade: “a primeira ala LGBT do Brasil” De início, tomemos como exemplo o Presídio Flósculo da Nóbrega - popularmente conhecido por Roger, nome do bairro onde se localiza em João Pessoa/PB, a cela dedicada a transexuais, travestis e homossexuais. Ocupa uma pequena parte de um pavi- lhão onde se encontram os “rejeitados da populaçãocarcerária, excluídos das facções, jurados de morte” e os demais cuja “situa- ção é complicada” (A LIGA, 2016). Ambiente que ostenta, em sua entrada, os dizeres “Pavilhão da Diversidade Homoafetiva”, acom- panhado de uma placa inaugural com o título de “A 1ª Ala LGBT do Brasil”8. 8 De acordo com Fróis e Valentim (2017), a experiência pioneira seria do estado de Minas Gerais: a Ala LGBT teria sido criada no ano de 2009, SUMÁRIO 39 Eugenia e Direitos Humanos Nesse presídio, a “criação” da Ala LGBT, na verdade, é o re- aproveitamento de um espaço já precário e degradante. Em um plano estratégico de arranjo espacial, a direção do presídio inseriu a Ala em um contexto problemático em que o acondicionamento é discriminatório e segregacional. Destaca-se que se trata de uma unidade carcerária que recebeu recomendações para a sua desa- tivação pelo Conselho Nacional de Justiça, após inspeção do Muti- rão Carcerário em 2011: Os prédios que compõem o presídio do Róger são muito antigos, pois foram construídos, segundo informações, por volta de 1940, estando em precaríssimas condições de manutenção. Algumas das celas se encontram praticamente em estado de ruína. Na primeira inspeção pode se perceber o total abandono do presídio. Os cor- redores dos pavilhões eram verdadeiros depósitos de lixos e ou- tros dejetos, o que fazia exalar um forte cheiro, com verdadeira invasão de moscas. Isto tudo somado ao odor de esgoto, pois quase todos os esgotos estavam sem tampa, com o que o que este corria, em alguns lugares do pátio, a céu aberto. Isto tudo somado a superlotação, fez com que logo depois da inspeção, o conselheiro do Conselho Nacional de Justiça, Dr. Valter Nunes, fizesse uma ma- nifestação no sentido da desativação do Presídio do Róger, que é endossada por este Juiz coordenador do Mutirão Carcerário da Paraíba (BRASIL, 2011, p 94). Em que pese a precariedade constatada à época, o estabe- lecimento permanece ativo acompanhando o cenário de superen- carceramento brasileiro, sendo mais de 1400 apenados para 540 vagas (PARAIBA, 2016), nas quais, “pelas atuais condições em que se encontra, não haveria espaço para mais de 300 presos” (BRA- SIL, 2013, p. 3). Neste contexto, de estrutura precária e superlota- ção, em péssimas condições de sobrevivência, instala-se, em 2013, a Ala LGBT que visaria preservar a integridade física e psicológica primeiro como um projeto piloto e depois transferida para outro presídio e replicada em um terceiro no ano de 2013. SUMÁRIO 40 Eugenia e Direitos Humanos de um público que já sofria com abusos sexuais e agressões na pe- nitenciária (BEZERRA, 2015). Nesta conjuntura, a ala se localiza no pedaço de um pavi- lhão que é ocupado por aqueles que já são discriminados e excluí- dos pela população carcerária. A configuração do espaço para es- ses sujeitos dá-se dentro de uma lógica pré-existente do sistema prisional. Dentro dessa dinâmica pré-constituída no sistema prisi- onal brasileiro, desenvolvem-se estratégias institucionais capazes de produzir uma logística de alocação de pessoas e o controle de fluxo, visando reduzir riscos no ambiente prisional (SEFFNER; PASSOS, 2016). Neste sentido, conforme sinalizam Seffner e Passos (2016), dentro da prisão existem uma série de qualificativos que podem conferir tanto risco como segurança ao indivíduo dentro da ca- deia. A exemplo, a facção a qual pertencem, o fato punível prati- cado, a religião e a sexualidade. O presídio do Roger não escapa a esse escopo. A categorização e separação dos presos dentro da unidade ocorrem de acordo com a facção a qual pertencem. Na Paraíba, duas grandes facções rivalizam: Okaida e Estados Unidos, disputando domínio de diversos territórios do estado. A fim de evitar confrontos, a administração promove a cisão dos grupos: os pavilhões 2, 3 e 4 são destinados aos presos pertencentes a Okaida; enquanto os 5, 6 e PB3 aos atrelados a Estados Unidos (A LIGA, 2016). Assim, no momento da triagem, os presos são encaminha- dos ao pavilhão da facção a qual pertencem ou àquela que domina o território em que residem, caso não manifestem pertencer a ne- nhuma delas (PARAÍBA, 2017). Para além dessa alocação das pes- soas na arquitetura carcerária, também pode-se notar o controle de fluxo. A utilização dos espaços comuns, do mesmo modo, é ca- tegorizada conforme as facções. Desse modo, o banho de sol no pátio, por exemplo, torna-se fracionado e reduzido, realizando re- vezamento, a fim de garantir que não ocorra encontro entre os grupos rivais no espaço comum. Nesta conjuntura, mais uma vez, SUMÁRIO 41 Eugenia e Direitos Humanos as regras são constituídas pelas forças de poder que atuam dentro da unidade. A disposição dos presos é pautada pelas facções, exceto da- queles acusados de crimes sexuais, de violência doméstica e os de- claradamente LGBT, únicas separações promovidas pela institui- ção (PARAÍBA, 2017). Portanto, a esses espaços são designados uma série de sujeitos que, dentro da chamada regra da cadeia, têm suas vidas ameaçadas, denominando-se tais locais de “seguro”. Di- ante disto, verifica-se uma dupla segregação dentro de um espaço que se apresenta, por si só, excludente. Grosso modo, a Ala LGBT se mostra como a escória do presídio. Evidencia-se, portanto, que não há de fato uma implemen- tação de uma Ala de respeito à diversidade homoafetiva e expres- são de gênero. Tem-se uma ampliação de um fenômeno que já é inerente ao próprio funcionamento do cárcere, ampliado às pes- soas LGBTs. Isto é, a separação dos grupos no "seguro" dá-se pela própria lógica estrutural das "regras" de manutenção das cadeias. Neste sentido, verificam-se graves violações aos direitos huma- nos, notoriamente, às normativas que tutelam as pessoas LGBTs e as pessoas em privação de liberdade. A separação de corpos que se define pela segregação em um espaço tido como inferior e destinado aos que são tomados como degradantes entre o público de presos, confere às pessoas gays, travestis e transexuais o status do descaso e desimportância com que suas vidas são marcadas socialmente e institucional- mente. O falso discurso de humanização está marcado pelo dispo- sitivo de controle que define seu lugar nas dinâmicas da prisão. É necessário frisar que não discordamos da importância de salva- guardar as pessoas vítimas da homo-transfobia. A separação física pode apontar para alguma garantia de preservação da integridade de seus corpos frente à experiência de violação quando juntos a outros presos. Entretanto, demais aspectos precisam ser debati- dos para que a ênfase nesta garantia não se sobreponha a distintas SUMÁRIO 42 Eugenia e Direitos Humanos violências a que estão submetidos e que precisam ser problemati- zadas. A normativa que efetiva a criação das Alas na realidade bra- sileira é a Resolução Conjunta nº1, de 15 de abril de 2014, que visa estabelecer os parâmetros de acolhimento de LGBT em privação de liberdade no Brasil. A resolução editada pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, em conjunto com o Conselho Nacional de Combate à Discriminação, sustenta-se no texto cons- titucional, bem como nos tratados internacionais aos quais o Bra- sil é signatário, a fim de orientar a guarida desses sujeitos no sis- tema carcerário. Depreende-se da análise da normativa que são asseguradas as mesmas garantias que às pessoas LGBTs em liberdade, bem como, gozam dos mesmos direitos que as demais pessoas em pri- vação de liberdade. Isto é, não se trata de uma inovação normativa. Assim, as pessoas LGBTs em privação de liberdade têm o direito de viver de acordo com o seu gênero, este determinado conforme sua manifestação de vontade. A partir disso, são previstos o uso de nome social, a manutenção de hormônios quando necessário, o uso de roupas e cabelos de acordo com tal identidadede gênero, bem como, o encaminhamento das pessoas trans ao sistema prisi- onal feminino. Ao analisar a resolução, verifica-se a dissonância da consti- tuição das alas LGBTs desde a sua origem. Segundo o artigo 4º da supracitada Resolução Conjunta, “as pessoas transexuais masculi- nas e femininas devem ser encaminhadas para as unidades prisi- onais femininas”, garantindo o tratamento isonômico (BRASIL, 2014). Neste mesmo sentido, veda-se a transferência compulsória entre celas e Alas como castigo ou sanção a condição LGBT, sendo tais práticas consideradas tratamento cruel ou degradante. Toda- via, o que se tem constituído, na realidade paraibana, é que a Ala se localiza em um presídio masculino, não sendo possível o enca- minhamento, previsto pela normativa, à unidade feminina. SUMÁRIO 43 Eugenia e Direitos Humanos Salientamos, em relação a isto, o Habeas Corpus 152.491/SP de 14 de fevereiro de 2018, em que o Supremo Tribu- nal Federal, em decisão monocrática do Ministro Roberto Barroso, face o aprisionamento em estabelecimento prisional incompatível com as respectivas orientações sexuais, concedeu a ordem de ofí- cio para a Secretaria de Administração Penitenciária do estado de São Paulo realizar a transferência de duas travestis, que estavam presas em uma cela com 31 homens, para estabelecimento prisio- nal compatível com as respectivas orientações sexuais. Resta claro que, ao paradigma legislativo, a afirmação iden- titária dá-se pelo próprio sujeito. Contudo, ao ser capturado pelo sistema prisional, impõe-se às pessoas LGBTs a adequação ao bi- narismo normativo. Ainda após a Resolução Conjunta nº. 1 de 2014, o que se verifica é a catalogação genital (VIEIRA; CIUFFOLE- TTI, 2014), encaminhando a prisões masculinas aqueles que nas- ceram com órgão genital masculino. Outra violação notória se refere ao direito à saúde. A ma- nutenção do tratamento hormonal e o acompanhamento de saúde específico da pessoa travesti são garantidos no parágrafo único do artigo 7º da Resolução nº 1/2014. O tratamento hormonal ao qual as mulheres trans se submetem são essenciais para a constituição de sua identidade, autoestima e autossatisfação. Contraditoria- mente, elas não recebem o tratamento hormonal, por direito, desde que entram na prisão (BEZERRA, 2015; EUSTÁQUIO JU- NIOR; BREGALDA; SILVA, 2015). A hostilidade que esse público vivencia é sintomática da transfobia. Como consequência, as tra- vestis têm sua autoestima minada, sua integridade psicológica é ferida. O acesso à justiça, garantido pela Lei de Execução Penal, é dificultoso também para esse público. As travestis e homossexuais encarcerados no Presídio Flósculo da Nóbrega “tem que escolher entre ter a visita das famílias ou encontrar com o defensor pú- blico” (BEZERRA, 2015, p. 62). SUMÁRIO 44 Eugenia e Direitos Humanos Emblemática, ainda, a questão da visita íntima, tendo em vista que está diretamente atrelada à sexualidade e a sua privação é a supressão do exercício da dignidade sexual: Algumas travestis relataram ter seus parceiros fora do presídio, mas que não podiam recebê-los na visita íntima. Segundo Z., o pre- sídio permite a visita somente de pessoas casadas e em união es- tável, não sendo permitida a realização da união estável dentro do presídio, impossibilitando as pessoas solteiras de receber visitas íntimas dentro do cárcere (EUSTÁQUIO JUNIOR; BRELGALDA; SILVA, 2015, pp. 268-269). O direito à visita íntima se estende também às relações ho- moafetivas, sendo necessário apenas o cadastro do parceiro no ór- gão penitenciário (art. 6º, Resolução CNPCP nº 4/2011), o que não é cumprido no presídio que abriga a Ala LGBT na capital parai- bana. A exigência de critérios rigorosos estabelecidos pela discri- cionariedade da administração da unidade prisional para a con- cessão da visita íntima torna-se um obstáculo à possibilidade de efetivação desse direito. 4. ALA GAY: privilégio, garantia ou controle? Diante do exposto, resta claro que as Alas LGBTs, que se or- ganizam sob o véu de um espaço de garantia de segurança a deter- minados sujeitos alvo de violência, dentro e fora do sistema prisi- onal, não se consolidaram como ambiente de garantia de direitos. Depreende-se, da análise das pesquisas realizadas nestes espaços, uma série de violações. O direito à saúde – no que tange, principal- mente, ao uso de hormônios, à visita, em especial, à visita íntima, o acesso à justiça, o benefício do banho de sol, entre outros, são algumas garantias que, como verificado, são cerceadas às pessoas presas nas Alas LGBTs. (BEZERRA, 2005; EUSTÁQUIO JUNIOR; BRELGALDA; SILVA, 2015; FERREIRA, 2014b) A população prisional brasileira atingiu o indicador de 726.712 pessoas em 2016, possuindo 368.049 vagas. A taxa de SUMÁRIO 45 Eugenia e Direitos Humanos ocupação alcançou o índice de 197,4%, enquanto a paraibana, 217,1%. Sendo a taxa de aprisionamento de 352,6 - número de pessoas presas por 100 mil habitantes. Tais indicadores levam o Brasil configurar entre os três países que mais encarceram no mundo (BRASIL, 2017). Trata-se, portanto, de um ambiente de empilhar corpos, que se caracteriza por um Estado de Coisas In- constitucionais (BRASIL, 2015). Neste cenário, a constituição de uma Ala LGBT é tida pelo senso comum, intra e extramuros, como um “privilégio”. Tal ex- pressão é utilizada na própria narrativa das travestis e atribuída ao fato de se encontram em um ambiente que não tem superlota- ção, ao mesmo tempo em que garante sua integridade física (ALAS, 2013). Todavia, é preciso cuidar deste discurso imediatista e su- perficial. As Alas surgem em função de um histórico de extrema violação e vulnerabilidade e o isolamento físico não altera as con- dições objetivas e subjetivas a que as pessoas que estão nas pri- sões estão imersas e, especialmente, as pessoas do grupo LGBT. Neste sentido, partimos da premissa de que as Alas LGBTs não são espaços de promoção de direitos do público a que se des- tina. Não somente porque o sistema prisional não é um espaço de garantias de direito, mas também porque o deslocamento a um ambiente de isolamento – dentro do isolamento característico do cárcere - não impede que continuem sendo alvo de homo-transfo- bia. Ainda que esta nova disposição espacial tenha aumentado a sensação de segurança dessas pessoas, observa-se que as violên- cias sofridas apenas deixam de ser agressões físicas e assumem novas feições (BEZERRA, 2015; EUSTÁQUIO JUNIOR; BREGALDA; SILVA, 2015; FERREIRA, 2014b). Assim, constatando-se que os objetivos declarados dessas Alas se demonstram falaciosos, faz-se necessário analisar, por- tanto, quais seriam os objetivos reais - ou ainda, as funções reais - das Alas LGBTs no sistema prisional. Em primeira análise, é pre- ciso compreender que a prisão é o lugar da detenção masculina SUMÁRIO 46 Eugenia e Direitos Humanos por vocação, sendo a detenção de pessoas trans, tal qual a femi- nina, uma realidade incômoda (VIEIRA; CIUFFOLETTI, 2014). Se o cárcere feminino já apresenta precariedades que são peculiares à invisibilização da mulher em um sistema prisional androcêntrico, a situação de privação de liberdade das pessoas que contrariam o binarismo normativo apresenta características que lhe são pró- prias. Sobre o controle da criminalidade no geral, Benelli (2014) diz que a “justiça penal é apenas um instrumento para o controle diferencial das ilegalidades” (BENELLI, 2014, p. 77). Quer dizer, quaisquer reformas que visem a efetivação da justiça – ou huma- nização - da execução penal (como a criação das Alas) reforça os nós punitivistas presentes no sistema penal. A “justiça” presente na criação das Alas demonstra-se como mais uma forma de con- trole diferencial das ilegalidades. Diferencial porque serve para controlar um público especí- fico da prisão, que éo LGBT. E que essa “justiça penal” é falha por não se afastar das violações de direitos humanos que são ineren- tes à instituição da prisão. De acordo com Ferreira, Aguinsky e Ro- drigues (2012), sobre a realidade do Presídio Central de Porto Ale- gre: (...) quando se fala, por exemplo, que as travestis na prisão são es- pecialmente [ou diferencialmente] controladas e têm suas mani- festações corporais docilizadas, é porque não lhes é permitido transformar e expressar o corpo da maneira como gostariam, não significa que esse controle seja o mesmo que se dá sobre os corpos presos, ou que seja o duplo controle que elas já sofrem fora da pri- são, no social; na verdade, a captura das travestis pela prisão lhes confere padrões distintos de controle sobre os corpos, até então não experimentados (p.4). As travestis sofrem um tipo especial de controle dentro das prisões. Elas são docilizadas de forma diferente que a dos demais homens (gays ou heterossexuais). A transfobia aparece nas entre- SUMÁRIO 47 Eugenia e Direitos Humanos linhas do tratamento carcerário que esse público tem. Em entre- vistas realizadas por Bezerra (2015) algumas travestis da ala LGBT do presídio Flósculo da Nóbrega, declararam que: Laverne: Eles [os demais presos e agentes] não tratam a gente [...] como uma mulher. Tratam como um presidiário, homem mesmo. Verônica: A gente quando passa, eles olham pra gente assim.. [se referindo aos olhares preconceituosos]. Muitos soltam assim... [piadas] ainda hoje existe isso. Muitos... poucas vezes a gente pensa até que acabou, mas não acabou o preconceito não. Porque a gente tem o corpo todo transformado num presídio masculino (BEZERRA, 2015, p.). Significa dizer que o controle sobre seus corpos e suas for- mas de se expressar se mostram sob a forma de preconceito. Antes das prisões, elas conseguiam manter o corpo feminino, já dentro não conseguem mais, pois, como dizem, “elas têm o corpo todo transformado num presídio masculino”. Aponta-se, até mesmo, tratamento preconceituoso e transfóbico partindo da própria di- reção do presídio (BEZERRA, 2015). Relata-se, ainda, que são tra- tadas como animais e que se sentem uma “aberração”. Também disseram que a prisão é “um lugar desumano” e que “você sai pior do que entrou”. As pessoas LGBTs em conflito com a lei não só subvertem a norma penal, mas também o binarismo normativo masculino/fe- minino. Diante disto, a readequação social seria não somente a ressocialização – isto é, no ideário da não reincidência -, mas tam- bém no que se refere à sua sexualidade. Ao serem encarceradas em prisões masculinas, de acordo com a identidade genital, são privadas dos cuidados com cabelos, roupas, uso de hormônios, re- lações afetivas com parceiros externos, enfim, qualquer forma de expressão de feminilidade dessas pessoas. Neste contexto, são ca- tegorizadas como o desvio do desvio, sendo a separação geográ- fica por alas específicas uma forma de conter a “promiscuidade” (VIEIRA; CIUFFOLETTI, 2014). SUMÁRIO 48 Eugenia e Direitos Humanos 5. Considerações finais Entendemos que a criação das Alas possibilita uma garantia mínima de preservação contra as violações sofridas, princi- palmente a física e sexual, entretanto, há muito que transformar para que esta população alcance a garantia de tantos outros direitos previstos que lhes são cotidianamente negados. A Ala LGBT, nos moldes como se verifica hoje, não se apresenta como espaço acolhedor da diversidade. Ainda, a prerrogativa do tratamento diferenciado a essa população não se trata de uma inovação normativa. Isso porque são asseguradas as mesmas garantias que às pessoas LGBTs em liberdade, bem como, gozam dos mesmos direitos que as demais pessoas presas. Entretanto, a separação demonstra-se como forma de esconder a existência dessa população dentro do sistema carcerário e as forçar à adaptação heteronormativa. Concluímos que a mera segregação não é capaz de conter a LGBTfobia que insiste em se manifestar sobre esses corpos, assumindo roupagens distintas da violência física, permanecendo, ainda, a violência institucional. Referências A Liga: Homofobia nos presídios. Disponível em: <https://www.you- tube.com/watch?v=1G0yyQCE97Y> Acesso em 02 jan. de 2018. ALA exclusiva para presos LGBT na Paraíba: Fernando Gabeira. Rio de Janeiro, Globo News, 30 set. 2013. Disponível em <https://www.you- tube.com/watch?v=d1R-v4JWQaE>. Acesso em: 02/01/2018. BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: Introdu- ção à Sociologia do Direito Penal. 3º Ed. Rio de Janeiro. Editora Revan: Insti- tuto Carioca de Criminologia, 2002. 256 p. BENELLI, SJ. Foucault e a prisão como modelo institucional da sociedade disci- plinar. In: BENELLI, SJ. 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Introdução Desde a antiguidade se tem registros da existência de pes- soas transexuais. Estas, passavam pela mobilidade entre os gêne- ros masculino e feminino perante vários núcleos da sociedade, em que respeitosos líderes e reis, como Luís XV, possuíam como mem- bros de seus grupos sociais e militares de confiança sujeitos que remontam a uma ideia primária de transexualidade, que até então não possuía uma definição objetiva sobre o que significaria um in- divíduo despadronizado como identidade social existente. Desse modo, mesmo considerando as diferenças exteriorizadas, o/a trans era “aceito(a)” em determinados espaços, como cidadão per- tencente a sociedade francesa, tendo até mesmo a proteção do rei (BENTO, 2008). Posteriormente, no século XVII, segundo o isomorfismo de- fendido pelos cientistas, o corpo era um só que se dividiria em dois gêneros, sendo a vagina vista como um pênis invertido. Entre os órgãos femininos o útero era entendido como o escroto feminino, os ovários eram os testículos e a vulva um prepúcio, fazendo com que a mulher fosse fisiologicamente um homem invertido que pos- suía dentro de si mesma os órgãos do sistema masculino. Tão so- mente após o século XVIII as diferenças anatômicas e fisiológicas SUMÁRIO 53 Eugenia e Direitos Humanos entre os sexos foram consideradas cientificamente e politica- mente importantes, produzindo novos olhares sobre a sexuali- dade e o gênero (BENTO, 2006). Nesse sentido, a autora indica em suas lições que: A descoberta do corpo sexuado é um momento de atribuição de sentido para as várias surras, insultos e rejeições familiares. Ter um/a pênis/vagina e não conseguir agir de acordo com as expec- tativas, ou seja, não conseguir desenvolver o gênero ‘apropriado’ para seu sexo, é uma descoberta vivenciada com grande surpresa para alguns/algumas. (BENTO, 2006, p.97). Durante o século XX, após os anos 50, foram discutidos no- vos saberes médicos que possibilitaram um diagnóstico específico sobre a experiência identitária. Como não existia um exame que pudesse de forma objetiva determinar a transexualidade de uma pessoa ou não, os operadores da saúde e justiça adotaram proce- dimentos que abarcavam o campo subjetivo e abstrato no estudo das identidades a partir de análises da mente humana. Pois, quando se definia um transexual como fisiologicamente doente, corroborava-se em limitá-lo a existência que surge no próprio in- divíduo, como fonte primária dos seus próprios conflitos, exclu- indoa análise atual e verossimilhante da experiência identitária (BENTO, 2008). Considerando o exposto, o presente artigo tem como obje- tivo analisar em um recorte histórico a vida dos/das transexuais, descrevendo através de uma linha do tempo algumas conquistas alcançadas, desde a maneira como a transexualidade foi percebida na sociedade, da antiguidade à modernidade, o amparo dos Direi- tos Humanos no cenário global e, também, apresentar dados sobre os processos de violência sofridos por pessoas transexuais na re- alidade brasileira. A pertinência do estudo se dá ao proporcionar uma visão histórica que traduza algumas das violações a existência dos/das transexuais em paralelo com a perspectiva positiva de garantias SUMÁRIO 54 Eugenia e Direitos Humanos fundamentais advindas das novas práxis estabelecidas no pós se- gunda guerra com a formalização do Tribunal Internacional, que possibilitou proteção a dignidade da pessoa humana e refletiu em seguida na garantia de direitos a nível internacional e nacional para os/as transexuais, mas que muitas vezes se mostram antagô- nicos e paralelos a situação do percebido no atual contexto. 2. A transexualidade na segunda Guerra Mundial: supera- ção(?) dos processos de desumanização dos sujeitos O último século foi marcado por diferentes representações do totalitarismo, que se fez presente durante as guerras e conquis- tas travadas no processo de transformação da sociedade. Um dos momentos mais conhecidos nesse contexto foi o da Segunda Guerra Mundial, que se tornou parâmetro histórico no tocante às violações de direitos individuais e ao desrespeito à dignidade da pessoa humana. A imposição pelo isolamento público e desolação da vida privada eram os fundamentos que tratavam a vida humana como supérflua e sem valor, viabilizando a ideia da criação de campos de concentração para reunir todos aqueles que se distanciavam do padrão supremacista imposto pelo partido nazista idealizado por Adolf Hitler (LAFER, 2015). O avanço da Alemanha nazista impactou nas conquistas dos cidadãos que apresentavam uma vivência da sexualidade não rotineira, a saber, heteronormativa, sendo está um sustentáculo do modelo de sociedade, impedindo expressões que rompessem com a ordem sexual hétero, considerada natural e reguladora das relações entre as pessoas. Assim, os sujeitos denominados Lésbi- cas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis, Queers, Intersexuais e outros (LGBTQI+), não seriam reconhecidos em sua existência abjeta e desfigurada, por não se enquadrarem nos processos re- SUMÁRIO 55 Eugenia e Direitos Humanos produtivos de um casal hétero que exerça, livremente ou compul- soriamente, a sua sexualidade heteronormativa (MISKOLCI, 2012). Até antes da chegada das forças comandadas por Hitler via- se um país que respeitava os/as transexuais e sua participação nos bairros de Berlim, com apoio de cientistas e médicos que “norma- lizavam” a homossexualidade e o intitulado “travestismo”, visto que ainda não se tinha uma nomenclatura para a transexualidade. Considerando isso, Foucault (1975) discute sobre as condutas que constroem o sujeito, quando este é resumido ao monstro, um ser disfuncional, oposto ao natural, e que precisa ter sua anormali- dade corrigida e disciplinada para perpetuar uma estrutura de so- ciedade que limita a sexualidade a copulação hétero, caso contrá- rio deve sofrer uma intervenção pelo caráter “patológico” de sua não-normalidade. O Instituto de Pesquisas Sexuais dirigido pelo médico Mag- nus Hirschfeld foi responsável por idealizar carteiras de identifi- cação para os indivíduos transexuais não sofrerem preconceito pelos estabelecimentos de Berlim ao se verem obrigados a usar suas identidades biológicas. A influência do respeitado médico fez com que a sociedade pudesse olhar com tolerância estes grupos sociais não padronizados (JOHAN, 2018). Todavia, com a chegada e avanço dos fascistas pela Europa a ideia de que os homossexuais e transexuais desestabilizavam o avanço social foi implantada e disseminada por todo o continente, fazendo, de forma gradativa, com que os cidadãos começassem a excluir cada vez mais os grupos minoritários. Com o advento de Hitler ao poder, o instituto de Magnus foi destruído e uma caça aos LGBTQI+ se iniciou em Berlim. Visualizados como uma raça infe- rior e “anti-alemã” centenas de transexuais foram mortos nos campos de concentração e até mesmo aliados de Hitler, quando tiveram sua sexualidade não normativa expostas, foram assassi- nados (EDITORS, 2018). SUMÁRIO 56 Eugenia e Direitos Humanos A própria Constituição alemã na época do regime, teve um parágrafo editado para que pessoas fossem submetidas a até 10 anos de prisão caso existisse alguma evidência de seu comporta- mento despadronizado. Por causa disso, muitos tiveram que se es- conder ou criar uma falsa identidade heteronormativa como forma de proteção a sua vida e dignidade. Estima-se que 60% das pessoas LGBTQI+ que foram levadas aos campos de concentração acabaram morrendo, estas eram isoladas e usavam uniformes que as destacavam das demais, sendo os principais alvos de torturas, experimentos cruéis, humilhações e trabalhos forçados. A maior parte das vítimas fatais eram homossexuais e pessoas trans, já que não tinham função reprodutiva para o regime nazista e eram vis- tos como aberrações. No fim, os dados indicam que mais de 100 mil pessoas LGBTQI+ foram presas e cerca de 15 mil levadas aos campos de concentração, um extermínio direcionado e silenciado no pós guerra (QUINTANA; FIGUEIREDO, 2020). Com o fim da Segunda Guerra, aconteceu na cidade alemã de Nuremberg o julgamento realizado contra o partido nazista e os seus influentes representantes de grandes hierarquias sociais alemãs da época. Um documento intitulado “Carta de Londres” es- tabeleceu categorias que condenavam crimes contra a humani- dade, crimes de guerra e contra a paz. Todo aquele que descum- prisse algum tratado internacional, atingindo a vida privada de ci- vis, matasse, escravizasse, perseguisse com base política, religiosa ou étnica, estaria violando este acordo internacional. Ressalta-se que os juízes do tribunal internacional falavam várias línguas e as- sim proporcionaram uma tradução simultânea para o mundo acompanhar (BROICH, 2017). O resultado do julgamento de Nuremberg foi um marco na evolução da história da humanidade, que a partir daí, durante a redemocratização dos povos, encontraria organizações que ampa- rassem qualquer ser humano que viesse a ser vítima de degrada- ção física ou mental, tanto nacionalmente quanto em território es- trangeiro. SUMÁRIO 57 Eugenia e Direitos Humanos Aquele julgamento mostrou que, mesmo em regimes auto- ritários com alto controle e poder exercido sob a sociedade, exis- tem fatores essenciais acima de qualquer ideologia ou projeto po- lítico, valores esses que se traduzem na proteção a dignidade dos sujeitos. No caso de pessoas LGBTQI+ que foram vítimas do fas- cismo social tanto no nazismo, como de maneira geral nos regimes fascistas europeus, essas garantias são constantemente violadas por ideias que se perpetuam até os dias de hoje e flertam com os princípios fascistas. Segundo Santos (2003), o fascismo social trata-se de poder, dominação e exploração dos mais vulneráveis. Sendo mais do que uma representação política por si só, mas principalmente civiliza- tória, focado nas dinâmicas sociais e os seus grupos pertencentes. Esse fascismo social se concretiza como resposta a um não aceite as demandas e reinvindicações daqueles que são marginalizados, que buscam por qualidade de vida e divisão dos espaços privilegi- ados, como garantia de um tratamento isonômico. Assim, o resul- tado do julgamento garantiu que as tantas vidas LGBTQI+ perdi- das durante o nazismo pudessem ter alguma mínima justiça feitasob os seus corpos. Após a condenação do tribunal internacional ao partido na- zista e ao estabelecimento da gravidade histórica causada à huma- nidade foram acordadas políticas internacionais que estabelece- ram os Direitos Humanos como uma medida afirmativa necessária para o cenário mundial, em que todos os países que estivessem de acordo com as políticas estipuladas entre si, fossem atuantes no apoio a uma sociedade que respeitasse a dignidade da pessoa hu- mana acima de qualquer outro interesse. Estas garantias se firma- ram com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), da Corte Internacional de Justiça, também intitulada de Tribunal de Haia, e em 2002 com a criação da Corte Penal Internacional, para julgar crimes de guerras, de genocídios, contra a humanidade, en- tre outros. SUMÁRIO 58 Eugenia e Direitos Humanos Mesmo com todo esse aparato legal internacional ainda existem grupos neofascistas contemporâneos que utilizam a expe- riência transexual para justificar o ódio e fomentar o fascismo so- cial, por meio da promoção de ideias de superioridade e a busca pela homogeneização da nação, para que aqueles vistos como ameaças à religião e à família “tradicional”, que são tidos como su- jeitos desviantes, sejam eliminados. Isso se perpetua até hoje no Brasil com a falsa impressão de democracia e liberdade para to- dos, apoiada na Constituição, já que o atual presidente segue pre- gando arbitrariedades que ameaçam a segurança LGBTQI+, assim fazendo com que muitos que se identifiquem com ele se unam a essas ideias supremacistas e apoiem o retrocesso do que foi con- quistado até aqui, repetindo a história de horror e morte para com pessoas trans (QUINTANA; FIGUEIREDO, 2020). 3. O amparo dos Direitos Humanos na humanização dos su- jeitos: um caminho ainda em implementação na realidade transexual A construção dos Direitos Humanos possui um longo per- curso histórico, remontando as civilizações antigas, perpassando por grandes eventos históricos, a exemplo da Revolução Francesa do século XVIII. Contudo, é inegável que a internacionalização dos direitos humanos está estritamente ligada as problemáticas fun- damentais da atualidade, que são a democracia e a paz. A priori, entende-se que a proteção dos direitos humanos é a instrumenta- lização das bases constitucionais formadoras da democracia, as- sim como paralelamente a paz garante que cada Estado internaci- onal proteja prontamente os seus indivíduos com os direitos reco- nhecidos aos seres humanos em sua plenitude humana (BOBBIO, 2004). Nesse contexto, a internacionalização de tais direitos fun- damentou-se na premissa de que: SUMÁRIO 59 Eugenia e Direitos Humanos Direitos Humanos é o conjunto de normas vinculantes estabeleci- das através de acordos internacionais que contém valores essen- ciais para a proteção da dignidade ou da vida digna de qualquer indivíduo na comunidade que vive. (CAMARGO; RODRIGUES; SILVA, 2018, p. 18). Uma das maiores materializações do pensamento contem- porâneo sobre os Direitos Humanos se deu no momento de forma- lização da carta das Nações Unidas, criada em 1945, durante Con- ferência de São Francisco, que proporcionou a criação do maior órgão de proteção humana até então, a ONU, com finalidade de preservar a paz, guardar e vigiar os direitos humanos e condicio- nar o desenvolvimento econômico-social das nações aliadas. A partir daí começa o intitulado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, que reconhece todo e qualquer ser humano indepen- dente da cultura que ele comunga, de sua natureza ou seus aspec- tos interpessoais, como a identidade de gênero, das nacionalida- des e especificidades de cada um, merecendo todos, igual amparo e respeito (CAMARGO; RODRIGUES; SILVA, 2018). Em 10 de Dezembro de 1948 foi proclamada a Declaração Universal de Direitos Humanos, trazendo uma série de garantias fundamentais à coletividade, sem que seja necessário algum re- quisito fisiológico, etnológico ou pessoal para que o indivíduo goze destes direitos (UNICEF, 2017). O principal objetivo da Declaração era unificar as nações com um ideal de paz pertencente a todos os Estados membros, to- talizando até então 50 países. Os esforços desses partiram da ne- cessidade de educar a respeito da liberdade de cada um e em apli- car ações progressistas, tanto nacionalmente como internacional- mente. Graças aos novos horizontes oferecidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, os tempos sem guerras se solidi- ficaram e uma conduta de uma ética universal foi naturalizada en- tre os povos, garantindo, assim, que liberdade e igualdade fossem fatores unidos e que direitos civis, políticos, sociais, econômicos e SUMÁRIO 60 Eugenia e Direitos Humanos culturais fossem estabelecidos de maneira que os direitos huma- nos se façam indivisíveis e invioláveis (GUERRA, 2017). Sobre o caráter universal e inerente a todos os seres huma- nos que a Declaração de 1948 fomenta, Alves disserta que: A Declaração de 1948 se baseia no reconhecimento da ‘dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis’ como ‘fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo’. Para que os Estados a título individual e em cooperação com as Nações Unidas, cumpram plenamente o com- promisso de promover o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais, assumido ao assinarem a Carta de São Francisco e recordado no preâmbulo da Declaração, ‘uma compre- ensão comum desses direitos e liberdades’ é reputada ‘Da mais alta importância’. (ALVES, 2013, p. 22). Entretanto, mesmo com estes avanços históricos, alguns in- divíduos não percebem em suas vidas a aplicação das garantias fundamentais, sendo por vezes discriminados dentro de sua pró- pria nação, enxergando uma parcialidade na implementação dos Direitos Humanos e suas liberdades, por isso buscam comunida- des que possam inseri-los e ampara-los, como meios de autopro- teção e autoconstrução, como é o caso da luta da população LGB- TQI+ em face dos Direitos Humanos desde a esfera internacional até a nacional, onde muitas vezes o pactuado pelas convenções mundiais não se mostra uma realidade prática, até mesmo por re- sistência da sociedade com os seus fundamentos culturais e religi- osos. É possível observar uma longa história sobre as discussões acerca da orientação sexual, gênero e identidade, na busca de re- conhecimento como componentes essenciais da vida de cada um em suas relações privadas, devendo ser respeitada sem atuação arbitrária ou abusiva por qualquer cidadão ou autoridade pública (GUERRA, 2017). SUMÁRIO 61 Eugenia e Direitos Humanos No que tange a Declaração dos Direitos Humanos, sua apli- cabilidade e a desigualdade sexual ainda observada na coletivi- dade, Oliveira entende que: No entanto, na realidade, enfrentamos sérios problemas acerca dos direitos sociais, evidenciando que um dos princípios funda- mentais, a Dignidade da Pessoa Humana, não foi efetivamente concretizado. Com efeito, não é possível enxergar a categoria de cidadão naquele que não dispõe da própria dignidade, de uma vida digna. Assim, existe uma grande distância, um paradoxo en- tre o que está escrito nas Declarações e o que há de concreto, pois não basta apenas estar inserido nos textos internacionais e na maioria das constituições dos países ocidentais, sendo fundamen- tal a ação do Estado, para realizá-los. (OLIVEIRA, 2007, p. 363). Nos territórios internacionais, graças às conquistas forma- lizadas pelos Direitos Humanos, já eram constatados avanços le- gais na vida dos/das transexuais, a exemplo de vários países na Europa, em que há muitos anos já não era necessária a mudança de sexo para alteração de registros de identidade, podendo ser re- queridos os documentos sem a realização prévia da cirurgia de re- designaçãosexual, medida que até pouco tempo o Brasil ainda não adotava, pois, diferentemente do que ocorria em outras nações de- senvolvidas, no território nacional o transexual só podia alterar seus dados e registros após a cirurgia vulgarmente chamada de “mudança de sexo”. Apenas em 2018, o Brasil passou a permitir a alteração registral dos transexuais sem necessidade de prévia ci- rurgia. Dessa forma, enquanto nacionalmente ainda se verifica muita resistência em relação a proteção e respeitabilidade dos transexuais, como também se nota aos seus direitos evoluírem de forma gradativa, existem países desenvolvidos que já adotam po- líticas públicas para estes sujeitos há algum tempo. Segundo a ONU, a violência contra transexuais e travestis é recorde no Brasil, expondo uma realidade de violência brutal na vida destes sujeitos. Em contraponto a isto, verifica-se nos últimos SUMÁRIO 62 Eugenia e Direitos Humanos anos lutas por avanços nas políticas para transexuais, principal- mente com iniciativas privadas e internacionais de combate a do- enças sexualmente transmissíveis e pelo fim da discriminação (ONU BR, 2016). De acordo com a ONU, as políticas nacionais serviram de auxílio para que fossem instituídas na África do Sul, novas pers- pectivas sobre identidade de gênero, Direitos Humanos e orienta- ção sexual. Depois, em parceria com países da América do Sul, como Chile, Uruguai e Colômbia, foram lançadas diretrizes e reso- luções sobre o combate à discriminação dos LGBTQ+. Foi também em meio as negociações internacionais que o Brasil participou em junho de 2011 da sessão de instituição da re- solução 17/19 sobre “Direitos Humanos, Orientação Sexual e Identidade de Gênero”, criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, o primeiro organismo intergovernamental que adotou políticas protetivas aos grupos minoritários relacionados à ques- tão de gênero e sexualidade. A partir daí o papel brasileiro nos de- bates sobre respeito às sexualidades se solidificaram. A resolução indica que: O direito à igualdade e não discriminação são princípios funda- mentais dos direitos humanos, consagrados na Carta das Nações Unidas, na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos tra- tados internacionais de direitos humanos. As palavras da abertura da Declaração Universal dos Direitos Humanos são inequívocas: ‘Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos’. A garantia de igualdade e não discriminação oferecida pelo direito internacional dos direitos humanos se aplica a todas as pessoas, independentemente de sexo, orientação sexual e iden- tidade de gênero ou ‘outra situação’ (UNFE, 2011, p.1). A ONU Brasil (2017) trouxe uma campanha intitulada “Li- vre & Iguais”, buscando a promoção da igualdade de direitos das lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, Queers, interse- xuais e outros. Sendo uma iniciativa inédita e com caráter global, onde a orientação sexual e identidade de gênero mostram-se os SUMÁRIO 63 Eugenia e Direitos Humanos principais fatores que constroem desigualdades sociais, dimi- nuindo a atuação cívica e Direitos Humanos das pessoas LGBTQI+ (UNFPA, 2017). Na busca de formas mais efetivas no combate a LGBTQI+ fobia, em 2019 o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela cri- minalização da homofobia e transfobia, equiparando estes crimes ao de racismo, visto que não existe uma legislação específica para tratar desse tipo de violência e, o STF precisou agir considerando a omissão do poder legislativo em estabelecer medidas adequadas que se calava para agradar o conservadorismo da sociedade (GON- ÇALVES, 2020). 3.1 Índices de violações no Brasil Não diferente da narrativa internacional historicamente contornada de violência vivenciada por pessoas transexuais, o Brasil permanece a legitimar o transfeminicídio. Mesmo com to- das as garantias conquistadas e que construíram um sustentáculo positivista de proteção a dignidade humana, também conside- rando todas as campanhas e denúncias nacionais, ainda se vê um cenário de desrespeito e invalidação das lutas LGBTQI+, principal- mente na experiência social das pessoas trans que passam por processos de menor aceitabilidade, graças aos preceitos conserva- dores da sociedade. Um caso que ganhou destaque no Brasil, pela brutalidade e divulgação massiva, foi o assassinato da transexual Dandara. A jo- vem foi torturada em diversas sessões e as filmagens comprova- ram a motivação de ódio pela forma como ela se identificava, fato instigado pela própria população moradora dos arredores do crime (O POVO, 2017). A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (AN- TRA), estabelece dados anuais sobre o mapa de assassinatos e vi- olência contra travestis e transexuais brasileiras. O dossiê mais atual, de 2019, indica a permanência do Brasil como o país que SUMÁRIO 64 Eugenia e Direitos Humanos mais mata pessoas trans no mundo todo, com um total de 127 re- gistros de vidas ceifadas (121 de Travestis e Mulheres Transexu- ais e 3 de Homens Trans), em que apenas em 8% dos casos a polí- cia identifica os suspeitos e que poucos destes permanecem pre- sos, um claro genocídio sistematizado para a extirpação político- social de sujeitos trans (ANTRA, 2019). Desde as eleições presidenciais de 2018, com a materiali- zação dos discursos de extrema-direita que anualmente viam-se fomentados em oposição as políticas sociais dos governos anteri- ores, os casos de violências contra LGBTQI+ cresceram considera- velmente apoiados na narrativa do atual presidente que com a sua política manipuladora e mentirosa criou uma rede de ódio contra trans e travestis do ambiente privado ao coletivo. Também graças a essa validação da violência, o dossiê trouxe o seguinte dado: Traremos, ainda, dados inéditos sobre pesquisa realizada por oca- sião do mês de enfrentamento da LGBTQI+fobia no mundo, em que 99% das pessoas LGBTQI+ participantes afirmaram não se sentirem seguras no país. Dessa forma, concluímos que, durante o ano de 2019, vimos aumentar a violência direta no dia a dia das pessoas trans. Em levantamento recente, a Revista Gênero e Nú- mero, revelou um aumento de 800% das notificações de agressões contra a população trans, chegando ao grave número de 11 pes- soas agredidas diariamente no Brasil (ANTRA, 2019). Dados alarmantes que simbolizam o desrespeito às normas internacionais de proteção a vida humana, graças ao poder aliena- dor vindo de alegações religiosas baseadas em uma moralidade deturpada que passa por cima da norma e legaliza um estado de bestialidade para com aquelas vidas vistas como insignificantes. Já em 2020 os primeiros boletins divulgados indicam o au- mento de 39% dos assassinatos a pessoas trans comparado aos dados de 2019. Com a pandemia do COVID-19, a violência e aban- dono do Estado ficaram mais evidentes, mesmo com a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) que o STF julgou SUMÁRIO 65 Eugenia e Direitos Humanos para criminalizar a homotransfobia. A precariedade no atendi- mento as demandas de travestis e transexuais resultou em uma alta exposição ao coronavírus, já que estes sujeitos permaneceram nas ruas, muitos se prostituindo para sobreviver, e em sua maioria sem o acesso ao benefício emergencial implementado pelo Go- verno Federal (ANTRA, 2020). Mais da metade das transexuais questionadas pela equipe da ANTRA sobre suas necessidades no momento da quarentena relataram serem do grupo de risco ao COVID-19 e com a obstrução e subnotificação de divulgação de dados sobre a pandemia, pelo presidente, muitas trans que morreram devido ao vírus ou que es- tiveram em estado de vulnerabilidade não puderam ser localiza- das e amparadas, além do aumento de assassinatos considerando o mesmo período no ano passado, fazem com que os dados reais sejam provavelmente bem maiores do que osapresentados (AN- TRA, 2020). Mesmo com todas as necessárias intervenções o Estado permanece inerte em criar políticas públicas que dignifiquem e protejam a vida das pessoas transexuais e travestis, que rompam com o genocídio apartado pelas bancadas religiosas e dentro dos poderes públicos, como também que propiciem saúde e bem-estar durante, e após, a pandemia. 4. Considerações finais Considerando o que foi discutido, observa-se que as pes- soas LGBTQI+ possuem um histórico, ao decorrer da linha do tempo descrita, de discriminação e exclusão social, faltando ainda serem implementadas diversas políticas para que esses sujeitos tenham sua dignidade efetivada e seja percebida a eficácia do que foi conquistado pelos Direitos Humanos, desde a sua formalização, na proteção de garantias fundamentais inerentes a todos os seres humanos. SUMÁRIO 66 Eugenia e Direitos Humanos Decerto que, a cada novo ano os Direitos Humanos e os mo- vimentos adjacentes a ele veem mostrando-se um grande aliado das classes mais vulneráveis, abarcando novas normas e garantias para que a sociedade, mesmo que de forma coercitiva, venha a in- serir as minorias em seu cotidiano e até mesmo acabe por enten- der a necessidade de respeitar e acolher o que é diferente aos seus ideais enraizados. Tais avanços demonstram que, independentemente do contexto social e da forma como os grupos políticos se apresentam para as novas gerações com seus conflitos e divisões, deverá exis- tir um concreto amparo legal que possibilite um estado de igual- dade e bem estar para cada indivíduo, respeitando as suas indivi- dualidades e os proporcionando dignidade, tendo em vista que o dever do Estado de Direito mostra-se completo e com seus funda- mentos cumpridos ao abraçar todos aqueles que dividem o terri- tório de uma mesma nação. O alcance para uma nova narrativa vem sendo construído graças ao trabalho de associações, a exemplo da ANTRA, que mo- nitoram a violência contra trans e travestis por todo o país, denun- ciando aos órgãos internacionais e investindo em cartilhas que orientam pessoas LGBTQI+ a como proceder em casos de violên- cia, educando também sobre questões de saúde pública, a exemplo de prevenções para doenças, e recomendando o que órgãos inter- nacionais, em conformidade com a ONU, indicam para a proteção em casos de violências motivadas pela identidade de gênero ou orientação sexual (ANTRA, 2020). Visando assim, transformar as normas e teorias existentes sobre direitos LGBTQI+ em práticas sociais que no contexto atual mostram-se como o maior desafio a ser superado pelos(as) tran- sexuais. Uma sociedade reeducada e que entenda a participação de sujeitos transexuais como um ato político a ser adotado é fun- damental para constituir novas perspectivas na vida dessas pes- soas, que mesmo dotadas de leis nacionais e internacionais, ainda SUMÁRIO 67 Eugenia e Direitos Humanos encontram resistências na coletividade guiada pelas noções con- servadoras sobre gênero, identidade e sexualidade. Referências ALVES, José Augusto Lindgren. Os Direitos Humanos na Pós-Modernidade. São Paulo: Perspectiva, 2013. BENEVIDES, Bruna G.; NOGUEIRA, Sayonara N.B. Dossiê assassinatos contra travestis brasileiras e violência e transexuais em 2019. ANTRA. Disponível em: https://antrabrasil.files.wordpress.com/2020/01/dossic3aa-dos-assassina- tos-e-da-violc3aancia-contra-pessoas-trans-em-2019.pdf. Acesso em: 22 ago. 2020. ___________________________________________. ANTRA. 25 de julho 2020. Boletim nº 03/2020 assassinatos contra travestis e transexuais em 2020. 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Introdução O presente artigo tem como objetivo discutir a relação das teorias eugenistas na subalternização e condição de violência vi- venciada pelo negro contemporaneamente no Brasil. Para tanto, nos utilizamos da revisão de literatura para construir as análises com base nos principais autores que contribuem para a temática. Tomamos como pano de fundo para construção das reflexões o censo do Atlas da Violência (2019), que revela que os maiores al- vos de assassinatos são pessoas negras. Dentro dessa análise en- contramos vários indícios de que a eugenia influenciou e continua influenciando para o descarte da vida de pessoas negras no país. A eugenia teve sua origem a partir dos estudos de Francis Galton sobre o melhoramento da hereditariedade da espécie hu- mana. Segundo Stefano e Neves (2007), foi com base na teoria da evolução formulada pelo seu primo Charles Darwin, que Galton cunhou o termo eugenia pela primeira vez em 1883 com o estudo que afirmava que as características físicas mentais e morais pode- riam ser herdadas. De acordo com Marques (1994), a eugenia ga- nhou força no Brasil principalmente no início do século XX e foi amplamente aceita pelas elites brasileiras. SUMÁRIO 71 Eugenia e Direitos Humanos Foi com objetivo de controle social que as elites implemen- taram o ideário eugenista na sociedade brasileira. Com base em Marques (1994), se buscava o controle sobre os corpos dos indi- víduos para o máximo de aproveitamento para o trabalho, como também o controle biológico para a formação de sujeitos, saudáveis, dentro do padrão branco e alinhados a lógica de civilidade e moderniza- ção da sociedade. Mesmo se constituindo no Brasil no início do século XX, a eu- genia vingou dentro da lógica social e está presente até nos dias atuais. As estratégias de controle sobre os corpos ainda são enca- radas com naturalidade e submetem pessoas pobres e negras ao desejo das classes dominantes. Entre várias circunstâncias, pode- mos destacar o controle biológico a partir do caso Janaína que ocorreu em 20179. Esse caso ficou marcado pela decisão do juiz Djalma Moreira Gomes Júnior para esterilizar de forma coerci- tiva a mulher negra em situação de rua, Janaína Aparecida Que- rino. O caso Janaína exemplifica bem como se materializa as ex- pressões da eugenia no Brasil na contemporaneidade que vão para além da questão racial. A eugenia se manifesta através do se- xismo como é exemplifica no caso de Janaína e muito bem discu- tido por Werneck (2005), se exprime por meio da homofobia ao passo que segundo Miskolci (2005) a homosexualidade é compre- endida historicamente enquanto uma degeneração e/ou anorma- lidade e é evidenciada no racismo à medida que de acordo com Marques (1994) a eugenia compreende a mestiçagem brasileira como a principal causa da formação dos ditos “degenerados”. No presente trabalho focaremos nesse último. 9 O caso janaína pode ser observado por meio do jornal online Fórum em 19 de junho de 2018 através do link: <https://revistaforum.com.br/noticias/juiz-e-promotor-do-caso-janaina- atuaram-na-esterilizacao-de-outra-mulher-em-mococa/ > Acesso em 20 de novembro de 2019. SUMÁRIO 72 Eugenia e Direitos Humanos É fundamentada nas teorias eugênicas e como ela reverbera nos dias atuais que construímos uma reflexão acerca da sua rela- ção com o genocídio da população negra no Brasil. Assim, explo- ramos a formação de uma discussão teórica fundamentada nos principais conceitos e discussões que perpassam as duas temáti- cas. Não podemos perder de vista o fato de que embora o pre- sente trabalho tenha como ponto de partida a influência das teo- rias eugenistas no desencadeamento do genocídio negro, esse processo não teve início com a ascensão dessas teorias no país. Di- ante disso, pode surgir o questionamento: Como a eugenia e o ge- nocídio negro podem ser relacionados? O genocídio com base Jaques Sémelin (2009), se inicia a par- tir da construção de imaginários coletivos formados com relação a um povo. É com base na concepção desses imaginários que se enxerga o outro como inimigo e as práticas eugênicas passam a ser compreendidas como solução para a “purificação”. A instauração do ódio ao que o autor chama de “bodes expiatórios” faz com o massacre ao outro seja encarado como a resposta a proteção do “bem comum”. De acordo com Nascimento (1978), o genocídio negro no Brasil tem suas bases no processo sócio-histórico marcado pela invasão dos povos europeus e pelo sequestro dos povos africanos, sendo parte fundamental dessa relação de dominação a constru- ção de imaginários coletivos. Diante desse contexto com base em Mbembe (2016) os povos colonizados são compreendidos en- quanto “selvagens” e os europeus como “civilizados”, ou seja, os povos negros passam a ser os “bodes expiatórios”. Posterior- mente, as teorias eugenistas vindas da Europa serviram para for- talecer a inferiorização do negro, ao passo que o racismo foi inse- rido na sociedade como um campo científico. Ao empregar o termo genocídio aos casos de assassinatos da população negra brasileira, é imprescindível compreender o que SUMÁRIO 73 Eugenia e Direitos Humanos vem a ser esse fenômeno por sua definição formulada pela Orga- nização das Nações Unidas (ONU), na Convenção sobre a Preven- ção e Repressão do Genocídio (1948, p.1): Na presente Convenção, entende-se por genocídio os atos abaixo indicados, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou reli- gioso, tais como: a) Assassinato de membros do grupo; b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo; c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial; d) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; e) Transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo. Assim, como argumenta Nascimento (1978), defendemos que o termo genocídio é o único capaz de evidenciar a real condi- ção do negro no Brasil. Diante do contexto de violência majorita- riamente direcionada à população negra, o primeiro teórico a in- troduzir o termo genocídio negro as mortes dessa população no país foi Abdias do Nascimento (1978), o autor ofereceu as bases para a construção de uma ampla discussão. De acordo com o autor, partimos do conceito de genocídio negro que não é apenas físico, mas possui dimensões culturais, políticas e econômicas. Isto é, a eliminação física é uma das consequências mais violentas do ge- nocídio, mas não são só os mortos que são vítimas dele. Com base em Kuambi (2006), quando uma criança tem seu pai morto, essa perda é sentida pelas gerações que se seguem e quando um povo é deslocado de seu território de origem, essa po- pulação sofre medo, ansiedadee desesperança no futuro. Essas consequências resultam na privação de conhecimentos, de objeti- vos e aspirações que poderiam ajudar a construir um futuro para a família e comunidade. De acordo com Butler (2015) compreendemos que determi- nadas vidas são passíveis de eliminação e de extermínio, elas são SUMÁRIO 74 Eugenia e Direitos Humanos denominadas pela autora de “vidas precárias”. Butler (op. cit.) ex- plicita que a apreensão do outro enquanto ser, depende de um conjunto de normas impostas pela ordem social e política. Seria por meio do “enquadramento” que essa vida seria exposta ao olhar exterior e ao fenômeno social que por meio da narrativa de sofrimento e pela capacidade se comoção ou não comoção, de sur- tir luto ou não surtir luto, que essa vida é entendida enquanto vida ou enquanto passível de eliminação. Ao partir dessa concepção de Butler (op. cit), é possível rea- lizar amplas observações sobre a realidade. Os indivíduos que fo- gem das normas e padrões estabelecidos como o ideal, são passí- veis de violações. Reconhecemos os vários sujeitos passíveis de vi- olações, sejam mulheres expostas ao machismo, sejam as pessoas de fora da heteronormatividade (SANTOS, 2013) e os diferentes grupos étnicos. Entretanto, utilizamos essa concepção para focar na população negra, ao compreender que o racismo a define como potencial para o cometimento de crimes e entre outros estereóti- pos que fazem essas vidas não serem reconhecidas enquanto pas- síveis de luto e logo não reconhecidas enquanto ser. 2. Ordem e Progresso! Ordem e Progresso! Foi a frase escolhida para ser um dos maiores símbolos da sociedade brasileira em 1889 com a constru- ção da bandeira do Brasil. Esse lema tem como fonte de inspiração o óptica positivista de Auguste Comte, que tinha como pensa- mento: “O amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”, para o pensador seria possível reformar e aperfeiçoar as ins- tituições. (SILVA, 2008). Com o início do século XIX e com a instau- ração da industrialização no Brasil o positivismo e a defesa desse lema ganha ainda mais força no país. Com base em Marques (1994), a modernização passa a ser o foco das elites industriais brasileiras e dentro dessa lógica havia a SUMÁRIO 75 Eugenia e Direitos Humanos necessidade de construir um perfil de sujeitos cidadãos univer- sais, afinados com os símbolos dos novos tempos: a industrializa- ção, as cidades modernas, o progresso, a tecnologia e a ciência. Se- gundo a autora esses símbolos se apresentavam como universais ao mesmo modo que foram atribuídos como pertencentes parti- cularmente a uma categoria de indivíduos: brancos, vivendo sob a égide do capitalismo. Desse modo, se tinha como objetivo “civilizar” a sociedade brasileira e cabe lembrar que de acordo com Silva (2007), o con- ceito de civilização que se estabelece no século XVIII, foi criado pelo europeu para descrever e avaliar a própria cultura como a cultura superior. Ou seja, a ideia de civilidade está totalmente li- gada a lógica do homem branco como colonizador e detentor da racionalidade, “com justificativas, inclusive reforçadas por argu- mentos bíblicos e pela meta cristã de salvar a todos, propunham, os colonizadores, civilizar povos que tinham costumes, religiões, comportamentos, mentalidades, estranhos do seu ponto de vista de europeus”. (SILVA, 2007 p. 495). De acordo com Oliveira (2015): criou-se o mito do homem branco civilizado, do “eu cidadão” e do “ele animal”. De um lado, o homem branco que trouxe a civilização. Do outro lado, estava o preto, o “antidesenvolvimento” - o ser bestial, animal que su- cumbe aos instintos inferiores, que pode facilmente roubar e es- tuprar. Destacamos que a concepção de modernidade fundamen- tada no conceito de ambivalência em Baumam (1999), pressupõe em si uma não modernidade. Isto é, consiste em um conceito ex- cludente que estabelece o esforço de uma construção de uma de- terminada ordem em contraposição a desordem. Nesse sentindo, segundo o autor esse esforço de organizar a sociedade, pretendido pela civilização ocidental tem como objetivo eliminar o anormal, o diferente, aquilo que não se encaixa dentro do padrão da ordem. Com o estabelecimento do processo de industrialização e com a procura pelo avanço da modernização no país, segundo SUMÁRIO 76 Eugenia e Direitos Humanos Marques (1994), de acordo com as elites, caberia aos eugenistas brasileiros a missão de civilizar a sociedade e para isso eles ocu- param vários espaços sociais, sejam eles na medicina, na educa- ção, na filantropia, na justiça e entre outros. Segundo Marques (1994), havia a necessidade de tornar os indivíduos “eugênicos”, tanto racialmente como moralmente e um dos principais instrumentos da eugenia era a higienização. Seria imprescindível higienizar principalmente os operários física e mo- ralmente e uma das grandes soluções vistas pelos eugenistas foi a destruição dos cortiços, visto como lugares propício para contá- gios, lugres sujos, devassos e indisciplinados e no lugar deles a res- posta seria construir vilas operárias, denominadas de habitações eugênicas. Desse modo, a civilização da sociedade deveria ser formada a partir de duas soluções: por meio da depuração da raça, dos di- tos sangues inferiores e pelos ajustes conjugais. No que se refere a depuração da raça foram lançadas pelo Estado brasileiro estra- tégias como a do branqueamento da população brasileira com o incentivo na vinda de imigrantes europeus ao país. Marques (1994), aponta o grande desejo dos eugenistas de que o Estado interferisse nos casamentos, defendiam a regula- mentação do exame pré-nupcial considerados um dos meios de frear o nascimento de degenerados. Além disso, se pretendia a proibição de casamentos consanguíneos e a defesa de estratégias de esterilização. Assim, dentro do ideário das elites seria preciso uma com- pleta mudança de ordem social e intervenção biológica para a for- mação de indivíduos alinhados ao lema de ordem e progresso da nação brasileira. O alcance da branquetude era o grande objetivo, porém a característica de grande parte da população brasileira es- tava longe disso. Os negros estavam de fora desse padrão, além do fato de serem considerados responsáveis pela incivilidade da na- ção. SUMÁRIO 77 Eugenia e Direitos Humanos Nesse sentido, compreendemos que a modernidade é exclu- dente e a ideia de progresso está totalmente pautada na sujeição de indivíduos. Concordamos com Butler (2015) ao apontar a ne- cessidade de relativizar o que vem a ser compreendido enquanto progresso, pois a realidade brasileira revela que o progresso não chega para aqueles que estão fora do padrão desejado pela elite dominante. 3. A inferiorização de uma raça e o racismo “científico” É por meio das análises das gêneses dos processos sócio-his- tóricos que encontramos respostas para o momento atual. Reco- nhecemos que é impensável refletir o Brasil sem pensar na Europa e no que os sujeitos advindos desse continente perpetraram no país. Todavia, de forma nenhuma significa defender a superiori- dade do saber europeu, entretanto, é necessário compreender a realidade em sua totalidade histórica e dialética. Com base em Gomes e Munanga (2004), com as invasões dos povos europeus se iniciou o processo de escravização no país. Para atender aos interesses dos europeus, os nativos foram usa- dos como mão de obra escrava, mas devido as fugas, os adoeci- mentos e as numerosas mortes devido a exploração brutal dos po- vos nativos que se iniciou o sequestro e tráfico dos povos africanos no intuito de obter mão de obra necessária para promover a ex- pansão da colônia (CICONELLO, 2008). Para Mbembe (2016), a invasão colonial foi em si uma de- marcação do controle físico e demográfico que instaurou um novo conjunto de relações sociais e espaciais.Desta forma, se estabele- ceu: “hierarquias, zonas e enclaves; a subversão dos regimes de propriedade existentes; a classificação das pessoas de acordo com diferentes categorias; extração de recursos; e, finalmente, a pro- dução de uma ampla reserva de imaginários culturais”. (MBEMBE, p. 14, 2016) SUMÁRIO 78 Eugenia e Direitos Humanos Foram com base nessas concepções formuladas pelos inva- sores e principalmente com a produção de imaginários culturais que os europeus instauraram a diferenciação dos direitos para os diferentes tipos de seres humanos. Ou melhor, os indivíduos jul- gados por eles como superior (ou seja, eles próprios) seriam de- tentores de direitos e os indivíduos inferiores possuiriam menos direitos (ou não possuiriam nenhum direito). Com a abolição da escravatura e a suposta saída dos negros das senzalas, não houve a preocupação de integrar os ex-escravi- zados à nova dinâmica social e de forma oposta as pessoas negras foram jogadas nas periferias e viram-se entregues à própria sorte. Assim, de acordo com Azevedo (1987), após a abolição da escra- vatura houve a criação de estratégias abrangentes de higienização urbana, que tinha como objetivo combater as práticas culturais afro-brasileiras e descolar os negros das áreas centrais das cida- des. Assim, os guetos e as periferias viraram as novas senzalas no período pós-colonial. A partir de Azevedo (1987), na sua obra “Onda Negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século XIX”, podemos compreender a preocupação das elites com o que fazer com o ne- gro quando a escravidão terminar e o medo do que poderia ocor- rer com a minoria branca das elites que regia o Brasil, após a grande massa de negros e mestiços soltos após a escravidão. Como forma de continuar justificando a dominação europeia e a subjugação dos povos negros, várias teorias foram formuladas que se aprofundaram dentro do imaginário de toda a nação, inclu- indo dos próprios negros. De acordo com Stefano e Neves (2007), alguns teóricos europeus ganharam destaque como Francis Gal- ton (1822-1911) com sua obra “Hereditary Genius” que embora fosse baseada na teoria da evolução de Darwin havia algumas dis- cordâncias, além de Darwin não se ater as questões humanas ra- ciais, ele admitia a influência do ambiente dentro da evolução das espécies, já Galton afirmava que a evolução das espécies humanas se daria apenas no âmbito biológico. (MARQUES, 1994). SUMÁRIO 79 Eugenia e Direitos Humanos Destacamos segundo Marques (1994), a influência intelec- tual de Arthur de Gobineau, com o “ensaio sobre a desigualdade das raças humanas” publicada em 1855, considerada como fonte de todas concepções racistas ao formular a ideia de que o principal determinante de todos os triunfos e derrotas da história seria a raça, além de afirmar que a raça ariana branca seria não só supe- rior como antepassada de todas as raças, fonte cultural e linguís- tica de todas as culturas indo-europeias e desse modo afirmava a existência de uma pirâmide cultural na qual os brancos estariam no topo e os negros e os asiáticos eram a base da pirâmide e logo seriam considerados inferiores. Marques (1994) evidencia que com base nas teorias cientí- ficas europeias, foram realizadas no Brasil palestras e conferên- cias sobre eugenia, o que desencadeou na formação de instituições eugênicas como a sociedade eugênica de São Paulo, a liga brasi- leira de hygiene mental e a liga paulista de hygiene mental. De acordo com Neves (2008), um dos principais introduto- res no Brasil do racismo nas ciências foi o médico Nina Rodrigues com suas teses principalmente voltadas a antropologia criminal. O médico diferenciava as raças ditas puras e as raças cruzadas, as últimas defendidas por ele como raças inferiores. Mais tarde, ou- tros nomes se consolidaram como principais representantes da eugenia no Brasil, como o médico Renato Kehl (1889-1974) e o agrônomo Octávio Domingues (1897-1972). Deste modo, a segregação racial e a inferioridade da raça ne- gra passaram a ser justificadas e “comprovadas cientificamente”, pelas consideradas célebres teorias e entre o que tinha de mais “inovador” nas ciências, teorias essas vindas supostamente do lu- gar considerado mais desenvolvidos do mundo, a Europa. Os sa- beres populares são desqualificados e principalmente os saberes advindos dos descendentes africanos e se constitui dessa maneira o epistemicídio (CARNEIRO, 2005). Suelli Carneiro (2005), aborda o epistemicídio, como um termo extraído do pensamento de Boa Ventura de Souza Santos SUMÁRIO 80 Eugenia e Direitos Humanos (1995), que se refere a uma das formas mais eficazes de domina- ção étnico-racial ao negar valor e legitimidade ao conhecimento produzido pelos povos dominados. Esse processo objetiva anular qualquer racionalidade dentro da cultura e civilização do “outro”. Diante desse contexto, a ideia de superioridade da raça ari- ana branca foi concebida pelo presidente Getúlio Vargas com sim- patia. De acordo com Stepan (1985), durante seu governo foi cri- ada uma Comissão Brasileira de Eugenia com propósito de enca- minhar a questão da eugenia à Assembleia Constituinte, ainda ha- via um projeto para a formação de um Instituto Brasileiro de Eu- genia com o objetivo de educar a população do país de forma eu- gênica. Segundo Marques (1994), as instituições eugênicas tinham como principal objetivo aumentar a população brasileira de ma- neira eugênica e para isso se propunha a “aryanização” da raça, facilitada com o incentivo do a chegada de estrangeiros europeus no Brasil. Com base na autora a elite brasileira embevecida pela eugenia ambicionavam pelo branqueamento, mas não seriam ca- pazes eles mesmo de propiciarem a mistura racial no país e com isso a vinda dos europeus foi fundamental para conceber as rela- ções inter-raciais e assim a depuração da raça inferior. É com base no “harmonioso” branqueamento que se consti- tui a mais extraordinária fábula brasileira maquiada de teoria an- tropológica, o mito da democracia racial, que se estabeleceu por meio da publicação da obra Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre (2005) de 1933. Para Nascimento (1978), a “democracia racial” possui um caráter genocida, pois tem como objetivo polí- tico brasileiro o branqueamento da população, considerando-se que a ferramenta mais eficaz de genocídio físico e espiritual do povo negro tem sido a mística manipuladora de branqueamento da população brasileira. Ainda segundo o autor: Tal pensamento é baseado em uma ideologia que fomenta ainda mais a intencionalidade política do extermínio da “mancha negra”, trazida pelos pressupostos e ideias de Gilberto Freyre que nutria SUMÁRIO 81 Eugenia e Direitos Humanos a fantasia brasileira cunhando um novo eufemismo: a “metar- raça”, que em sua essência universalde “café au lait” (1978, p. 70). Assim, compreendemos que as teorias científicas da época, serviam como ferramentas para a elite imporem suas ideias e ações. O branqueamento representa bem o genocídio cultural, pois a partir do momento que há uma miscigenação das raças e uma delas é considerada culturalmente inferior, essa consequen- temente sofre apagamento social. Segundo Neves (2008), a eugenia sofre um enfraquecimento na sociedade e no meio científico a partir da década 1930, o termo passa a ser sopitado. No entanto, não compreendemos que as ações e pensamentos eugênicas foram igualmente extintas, há sempre uma reatualização do pensamento eugênico. Mesmo os indivíduos negros compondo a maioria da popu- lação de acordo com o IBGE (2010), representam “o outro” e o que tem de mais negativo na sociedade. Deste modo, se constrói a nar- rativa da naturalização da violência direcionada contra essa popu- lação negra, cenário esse que adentraremos no tópico seguinte. 4. Estado moderno e necropolítica Asociedade brasileira foi moldada historicamente com base na subalternização dos indivíduos negros. A eugenia foi um dos marcos desse processo que fortaleceu as diversas violações sofri- das pelo negro no país e uma das violações mais perversas con- siste na violação do direito à vida. Nesse sentido, compreendemos com base no biopoder em Foucault (1988), que uma das expres- sões máximas de poder está na capacidade de ditar sobre a vida e a morte dos indivíduos. Dentro da temática a respeito do poder sobre a vida e a morte, a discussão elaborada por Achille Mbembe (2016) em sua obra “Necropolítica” é basilar para a construção desse debate. O autor realiza uma crítica ao conceito de biopoder, ao partir da SUMÁRIO 82 Eugenia e Direitos Humanos ideia de que a busca pela modernidade deu origem para esse con- ceito e assim, privilegia as teorias normativas que tem como cen- tralidade a busca pela razão. Além disso, o conceito de biopoder possui limitações quando utilizado para pensar na condição da po- pulação negra a medida que compreende o nazismo como o seu exemplo mais bem-acabado. Para Mbembe (2016), o maior exemplo da soberania está no direito de exercer o controle sobre a mortalidade e desta forma, a soberania é a capacidade de definir os indivíduos que importam e que não importam, quem seria descartável ou não descartável. Nessa perspectiva, o autor aponta que o sistema colonial é o mais puro exemplo de afirmação do controle sobre os corpos. Segundo Mbembe (2016) a raça seria o fator fundante do Es- tado pós-colonial, de forma que as características fenotípicas do negro estabelecem o que se definiu por raça e, essa última, é o que determina a condição de exploração humana que alimenta a estru- tura Estatal moderna. Essa estrutura racista estabelece o controle sobre a vida e a morte e é isso o que o autor identifica enquanto necropolítica. Nesse sentido, a população negra que já era considerada des- cartável antes da formação do Estado moderno, com o advento do Estado capitalista contemporâneo, em que a valorização do ser humano passa a ser restritamente devido ao poder aquisitivo, o negro permanece em sua condição de descartabilidade. Assim, a Necropolítica representa o movimento no qual o ser humano é concebido como um ser útil ou sem utilidade ao Estado e ao sistema de desenvolvimento capitalista e desta forma ao ser identificado como um ser útil o indivíduo tem o direito à vida pre- servado e ao ser considerado dispensável para essa estrutura, o seu direito a vida é ignorado. Nesse sentido, analisamos o Atlas da violência (2019), no qual foi identificado o processo de aprofundamento da violência direcionada a população negra no país, ao revelar que em 2017, SUMÁRIO 83 Eugenia e Direitos Humanos 75,5% das vítimas de homicídios foram indivíduos negros defini- dos enquanto indivíduos pretos ou pardos, segundo a classificação do IBGE. O censo indica que a taxa de homicídios a cada 100 mil habi- tantes, quando se trata de pessoas negras chega a 43,1, mas quando se refere as pessoas não negras (brancos, amarelos e indí- genas), foi de 16,0. Significa que, para cada indivíduo não negro que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente, 2,7 indivíduos negros foram mortos, ou seja, quase o triplo. A região com as maiores taxas de homicídio de negros no país, é a região do nordeste que concentra os cinco estados com as maiores taxas do homicídio contra pessoas negras. Em 2017, a taxa mais alta se concentrava no Rio Grande do Norte, com 87,0 mortos a cada 100 mil habitantes negros, mais do que o dobro da taxa nacional, seguido por Ceará (75,6), Pernambuco (73,2), Ser- gipe (68,8) e Alagoas (67,9) (IPEA, 2019). Ao realizar um paralelo entre o genocídio negro brasileiro, a partir do conceito de necropolítica, compreendemos que o geno- cídio negro contemporâneo atinge principalmente os jovens po- bres e negros da periferia e com isso se estabelece a criminaliza- ção da pobreza. Wacquant (2001), discute bem o que ele chama de “crimi- nalização da pobreza e da miséria”. De acordo com o autor, ela es- taria ligada a insegurança social gerada pela dissociação do traba- lho, a recessão das proteções coletivas e à “mercantilização” das relações humanas. O autor aponta que as relações impostas pelo Estado Neoliberal, busca apenas atender à necessidade no mer- cado. Essa criminalização por parte do Estado geralmente é endos- sada pela polícia militar que se coloca como uma das mais poten- tes instrumentalizações do gerenciamento do genocídio da popu- lação negra. Por meio da justificativa do combate à violência e as drogas, se justifica e se naturaliza as ações violentas dessa insti- tuição. SUMÁRIO 84 Eugenia e Direitos Humanos Adorno (1996), indica que há uma tendência maior de pes- soas negras sofrerem algum tipo de coerção por parte do sistema de justiça criminal. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pú- blica (2016), o número de negros mortos por policiais é o triplo do número de brancos. Entre 2015 e 2016, 963 pessoas brancas fo- ram mortas por policiais, já entre os negros, as mortes chegaram a 3.240. Assim, é com base na necropolítica que as polícias enquanto instrumentos do Estado, tomam para si o poder de decisão sobre a vida e sobre a morte dos indivíduos e de acordo com a lógica do capitalismo que atribui valor sobre a vida humana apenas se esse indivíduo pressupõe lucro, essa vida é descartada se for conside- rada não lucrativa. 5. Considerações finais Reiteramos que não foi a partir da eugenia que se formou a política genocida no país, mas sua influência no período pós-abo- lição foi fundamental para oxigenar e reatualizar a discriminação racial no Brasil. Foi a partir da eugenia que o racismo ganhou um caráter científico, o que foi perversamente utilizado como justifi- cativa para fundamentar o progresso e modernização da socie- dade brasileira. Assim, foi com base na exclusão dos ditos não aptos e “dege- nerados” que se construiu o imaginário das elites brasileiras e es- trategicamente repassadas para toda a sociedade como verdade científica. Embora a “ciência” eugênica tenha sido ultrapassada e o termo tenha entrado em desuso, o resultado dessa inferiorização do negro tão popular entre o final do século XIX e início do século XX é experienciada até os dias de hoje. A concepção de inferioridade do negro tão presente do ima- ginário branco nos séculos passados, perpetuam na contempora- neidade e justifica as violações sofridas pelo negro e uma das vio- lações mais graves é a violação do direito a vida. SUMÁRIO 85 Eugenia e Direitos Humanos É com base na necropolítica que o Estado moderno elege os sujeitos úteis para o sistema de desenvolvimento capitalista, toda- via esse mesmo sistema descarta mortalmente os indivíduos que não estão sendo úteis, indivíduos esses majoritariamente negros, pobres e periféricos. Nesse sentido, defendemos que há um pro- jeto genocida do Estado em curso e a polícia é um dos principais instrumentos do Estado que atuam para eleger os indivíduos ma- táveis e não matáveis. Para tanto, em contraposição a esse fato, é essencial as lutas dos movimentos sociais para fortalecer as denúncias dessa reali- dade vivenciada pela população negra. A construção de uma firme organização dos movimentos negros se constitui como um im- prescindível meio de reivindicação, ao passo que cobram medidas de mudança na estrutura do Estado. Angela Davis (2018), aponta para a necessidade de constru- ção de alternativas abolicionistas que levem em consideração a desigualdade estrutural do negro, para a formação de uma resis- tência contra o racismo e capitalismo global. Para a autora, há uma urgência em uma construção de um novo tipo de sociedade, que tenha como uma das suas prioridades a construção de um sistema de justiça baseado na reparaçãoe reconciliação. A construção da resistência não é uma tarefa fácil, mas não podemos reverberar um discurso fatalista. É fundamental o forta- lecimento das lutas antirracistas para a cobrança de medidas de transformações da realidade vigente. É essencial que a pauta con- tra o racismo esteja presente tanto nos movimentos sociais como no espaço acadêmico para barrar qualquer tipo de discurso dito “científico” que negligencie a questão racial ou que fortaleça a dis- criminação racial. SUMÁRIO 86 Eugenia e Direitos Humanos Referências ADORNO, Sérgio. Racismo, criminalidade violenta e justiça penal. Estudos His- tóricos, n. 18, 1996. AZEVEDO. Célia. Onda Negra, Medo Branco: O negro no imaginário das elites – século XIX. Rio de Janeiro, Terra e Paz, 1987. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. Tradução Marcos Penchel. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1999. BRASIL. Censo demográfico IBGE 2010: características gerais da população. 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O estudo que desenvolvo nas páginas a seguir não pretende unicamente cumprir as fórmulas acadêmicas de produção cientí- fica imparcial, principalmente pela impossibilidade de transcen- der a mim como parte da realidade investigada. Deste modo, par- tindo da análise das estruturas de opressão que subjugam a popu- lação negra, nas páginas que se seguem empreendo um esforço teórico e epistemológico, que tem por objetivo investigar como es- tas estruturas oprimem, sobremaneira, as mulheres negras na so- ciedade brasileira. Para isso, apresento inicialmente um resgate histórico do longo período de escravidão no país, compreendendo as formas de controle e sujeição a que estavam submetidas as pessoas escra- vizadas e apontando a especificidade da opressão da mulher negra escravizada. Partindo da apreensão do período pré abolição, o res- gate histórico também figura como uma estratégia importante SUMÁRIO 91 Eugenia e Direitos Humanos para identificar como os mecanismos de controle e genocídio fo- ram reconfigurados e aplicados às mulheres negras no Brasil, aná- lise que desenvolvo no último ponto. O estudo aqui apresentado partiu da análise bibliográfica e documental. É importante apontar que essa análise foi realizada tendo a interseccionalidade como lente analítica, tendo como principais referências nessa discussão Crenshaw (1991) e Akoti- rene (2019). Isto, tanto por entender que a interseccionalidade permite localizar a particularidade das mulheres negras submeti- das à interação das estruturas racista-patriarcal-capitalista, quanto pela necessidade de trazer à luz ferramentas importantes desenvolvidas dentro da perspectiva do feminismo negro, se con- trapondo ao epistemicídio a que foi submetida a produção femi- nista negra. Ainda dentro desta perspectiva, a relevância do presente estudo pode ser visualizada em dois pontos: no esforço de supe- ração da construção ideológica,que visa manter as diferenças in- ter-raciais sem visibilidade política (CARNEIRO, 2011), mais co- nhecido como o mito da democracia racial; bem como na análise das condições de vida das mulheres negras no Brasil no pós-abo- lição, já que um país só pode evoluir e desenvolver políticas públi- cas que sejam realmente efetivas quando conhece a base material dos problemas da sua população (IPEA, 2013). 2. A interseccionalidade como lente analítica Primeiramente, antes de aprofundar a discussão sobre mu- lheres negras e eugenia no Brasil, situo política e teoricamente o presente estudo, justificando a escolha dos caminhos metodológi- cos aqui assumidos. Compreendo que há grande importância na metodologia adotada para pensar respostas às problemáticas so- ciais, já que a interseccionalidade (CRENSHAW, 1991) sugere que raça dê subsídios às categorias classe-sexo, sem o intuito de so- brepor categorias de opressão, mas colocando-as em patamar de SUMÁRIO 92 Eugenia e Direitos Humanos igualdade analítica, como brilhantemente apontado por Akotirene (2019, p. 36). A metodologia interseccional parte da criticidade política à matriz colonial e aos eixos que estruturam a sociedade moderna. O tripé sexismo, racismo e capitalismo como condição estrutu- rante de dominação, produz e reproduz realidades específicas para as mulheres negras. A interseccionalidade nos permite a aná- lise dessa estrutura patriarcal-racista-capitalista, em suas múlti- plas interações/imbricações, para revelar as pessoas asfixiadas pela matriz de opressão. Contrariando as bases epistemológicas do feminismo cu- nhadas a partir das reivindicações das mulheres brancas, o femi- nismo negro desde sua emergência articula o marcador das rela- ções sociais de raça e sexo. Ou seja, o feminismo negro dialoga acerca da simbiose entre racismo, patriarcado e capitalismo, reco- nhecendo que o “nó” (SAFFIOTI, 2004) formado pelas contradi- ções é uma complexa imbricação dessas relações sociais. O pensamento feminista formulado pelas mulheres bran- cas, partindo unicamente de suas realidades, desconsiderou a im- possibilidade da universalização da categoria mulher, já que en- quanto reivindicavam direito ao trabalho as mulheres negras es- tavam subjugadas a essa esfera há séculos: Alí aquele homem diz que as mulheres precisam de ajuda para su- bir às carruagens, para passar a sarjetas e para ter sempre, em qualquer lado os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a su- bir as carruagens, ou me dá o melhor lugar e não sou eu uma mu- lher? Olhem para mim, olhem para os meus braços. Eu lavrei, eu plantei, eu armazenei e nenhum homem me passava à frente. E não sou eu uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto como um ho- mem, e comer tanto (sempre que arranjasse comida) como um ho- mem. E igualmente suportar o chicote! E não sou eu uma mulher? [...] Eu tive treze filhos e vi a maioria ser vendida para a escravidão (SOUJOURNER TRUTH, 1851, apud GELEDÉS, 2014). SUMÁRIO 93 Eugenia e Direitos Humanos O tom crítico do discurso de Sojourner Truth – ex-escravi- zada e ativista pela igualdade e direitos civis da população negra – proferido na Convenção dos Direitos das Mulheres de Ohio, em Akron (1851) articula pioneiramente raça, classe e sexo questio- nando a universalidade da categoria mulher. Posicionamentos como este abrem caminhos para que ou- çamos as vozes que foram silenciadas e invisibilizadas, advertindo para os “equívocos” analíticos da sociedade e do Estado ao tomar mulher como categoria universal. A racialização das experiências nos impõe uma nova forma de enxergar a opressão e, neste sen- tido, enxergar os sujeitos invisibilizados e marcados pela dinâmica interseccional de subordinação: as mulheres negras. A sensibilidade da análise interseccional impede reducio- nismos, “[...] elucida as articulações das estruturas modernas co- loniais [...], investigando contextos de colisões e fluxos entre es- truturas, frequência e tipos de discriminações interseccionais” (AKOTIRENE, 2019, p. 59). Como aponta Patrícia Hill Collins (2017, p. 7) “a interseccionalidade pode ser vista como uma forma de investigação crítica e de práxis, precisamente, por que tem sido forjada por ideias de políticas emancipatórias de fora das institui- ções sociais de poder”. É importante apontar que o entendimento interseccional da dinâmica de opressão social já vinha sendo pautado no interior do movimento de mulheres negras a partir da análise articulada das estruturas de sexo, raça e classe. No entanto, histórias da emergência do termo interseccionalidade remontam à intelectual afro-americana Kimberlé Crenshaw em seu artigo Mapping the margins: Interseccionality, Identidy Politics, and violence against Woman of Color10, publicado na Stanford Law Review (1991). A interseccionalidade, muito mais do que múltiplas identi- dades é sobretudo, partindo do ponto de vista de Crenshaw 10 No artigo “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identi- dade e violência contra mulheres de cor”, Crenshaw descreve a subordinação interseccional das mulheres negras a partir da interação das estruturas sociais. SUMÁRIO 94 Eugenia e Direitos Humanos (1991), uma lente analítica que instrumentaliza os movimentos antirracistas e instâncias protetivas dos direitos humanos a de- senvolverem estratégias que garantam um olhar sobre as deman- das das mulheres negras. Ademais, a utilização da abordagem interseccional possui caráter teórico e, sobretudo, político. A teoria feminista [branca] contribuiu com o epistemicídio da teoria feminista negra. O con- ceito de interseccionalidade está em disputa acadêmica, subme- tido à um “saqueamento de sua riqueza conceitual” (AKOTIRENE, 2019, p. 51) e sendo colocado como um guarda-chuva. Deste modo, defendendo a descolonização do feminismo, busco legiti- mar a perspectiva do feminismo negro enquanto pioneiro da in- terseccionalidade confiando em sua densidade teórica. Nas pala- vras de Akotirene (2019, p. 34-35): Teoria, metodologia e instrumento prático, a interseccionalidade revela o ciclo lunar da militância encabeçada pelas intelectuais ne- gras, numa diversidade de marés na história do feminismo, rejeita a brancura das ondas feministas, que não passaram experiências da colonização e nem sequer compuseram o projeto intelectual emocionado, manifesto de força teórica negra, sem estar presa às correntes eurocêntricas e saberes narcísicos. Deste modo, é dessa análise que o estudo ora apresentado parte. 3. A subordinação interseccional no Brasil As divisões sexual e racial (NASCIMENTO, 2016) da sociedade brasileira foram estabelecidas já no período escravista, quando a dominação masculina [branca] foi colocada como meio de con- trole e apropriação dos corpos das mulheres, principalmente, ne- gras e nativas. Por óbvio, os homens negros e nativos também es- tiveram submetidos à escravidão. No entanto, a condição que se colocava para as mulheres era de dupla apropriação já que, além SUMÁRIO 95 Eugenia e Direitos Humanos do trabalho braçal, também eram apropriadas como objeto de sa- tisfação sexual de seus senhores. Como aponta Davis (2016, p. 19), as mulheres escravizadas eram vistas como “reprodutoras – animais cujo valor monetário podia ser calculado com precisão a partir da sua capacidade de se multiplicar. [...] Suas crianças poderiam ser vendidas e enviadas para longe”. Embora o racismo11 estabeleça distinções substanci- ais no tratamento das mulheres no país, ele age de forma imbri- cada com uma outra categoria analítica importante: o patriar- cado12. Este termo que, segundo Delphy (2009, p. 174), tem sua origem nas palavras gregas “pater (pai) e arkhe (origem e co- mando)”, se desenvolve de modo específico no contexto brasileiro. As características particulares dessa sociedade farão do homem o chefeda família, o coronel, o patriarca e dono do poder político e econômico. No país, o patriarcalismo foi instaurado como uma estratégia da coroa portuguesa. Segundo Aguiar (2000, p. 308): A estratégia patriarcal consiste em uma política de população de um espaço territorial de grandes di- mensões, com carência de povoadores e mão de obra para gerar riquezas. A dominação se exerce com homens utilizando sua sexualidade como re- curso para aumentar a população escrava. É importante reafirmar que há, sobretudo, um caráter eco- nômico que dá sustentação ao desenvolvimento de categorias até hoje reproduzidas pelo ideário social. Assim como a diferen- ciação racial, a diferenciação sexual entre o masculino e feminino 11 É importante apontar que o racismo é sempre estrutural. Ele é um elemento integrante da organização política e econômica da sociedade (ALMEIDA, 2019). 12 Saffioti (2004) aponta que o patriarcado antecede o capitalismo, no entanto, se mostra profundamente eficiente na manutenção desse sistema. Desta forma, podemos apontar que há uma relação de retroalimentação, de consubstanciali- dade (KERGOAT, 2010), de interseccionalidade (CRENSHAW, 1985) entre os sistemas capitalista-racista-patriarcal. SUMÁRIO 96 Eugenia e Direitos Humanos tem suas bases em interesses econômicos. Essa compreensão é de extrema importância no que diz respeito à desnaturalização dos lugares sociais ocupados ainda hoje por homens e mulheres. Concordo com Beauvoir ao afirmar que: [...] não se nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino bioló- gico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana as- sume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que quali- ficam de feminino (BEAUVOIR, 1967, p. 09). Entretanto, é fundamental apontar para o perigo da univer- salização da categoria mulher. Como aponta Butler (2019, p. 21), é problemático supor que o termo “mulher” representa uma identidade comum, universal. A autora aponta que “o gê- nero estabelece interseções com modalidades raciais, classis- tas, étnicas, sexuais e regionais de identidades discursivamente construídas”, sendo, deste modo, produzida e mantida por/em relações políticas e culturais. É preciso apreender a simbiose entre patriarcado-racismo-capitalismo na particularidade do Brasil, último país a abolir a escravidão. Há uma diversidade em torno da categoria mulher e, entre outras coisas, é preciso raci- alizar essa categoria, já que [...] Mais que qualquer outro grupo de mulheres nesta sociedade, as negras têm sido consideradas ‘só corpo, sem mente’. A utiliza- ção de corpos femininos negros na escravidão como incubadoras para a geração de outros escravos era a exemplificação prática da ideia de que as ‘mulheres desregradas’ deviam ser controladas. Para justificar a exploração masculina branca e o estupro das ne- gras durante a escravidão, a cultura branca teve que produzir uma iconografia de corpos de negras que insistia em representá-las como altamente dotadas de sexo, a perfeita encarnação de um ero- tismo primitivo e desenfreado (HOOKS, 1995, p. 468. aspas do ori- ginal). SUMÁRIO 97 Eugenia e Direitos Humanos Ou seja, é preciso compreender que há mulheres, no plural. Com vivências e particularidades distintas. Como foco do presente estudo, a condição de vida das mulheres negras no Brasil subme- tidas a imbricação do racismo e do sexismo, produziu sobre estas uma espécie de “asfixia social” (CARNEIRO, 2011, p. 127) com con- sequências negativas sobre todas as dimensões da vida. O fim do sistema escravista no Brasil, por sua vez, não finda estas contradições, ao contrário, as aprofunda. A partir da abolição formal da escravidão, inaugura-se um novo momento para o de- senvolvimento, sobretudo econômico, desta sociedade. Ou deve- ria, segundo o desejo das elites. Para a população negra, a abolição foi na verdade a continuidade de um esforço genocida, como aponta Nascimento (2016, p. 79). As classes dirigentes e autoridades públicas praticavam a liberta- ção dos escravos idosos, dos inválidos e dos enfermos incuráveis, sem lhes conceder qualquer recurso, apoio, ou meio de subsistên- cia. Em 1888, se repetiria o mesmo ato “libertador” que a história do Brasil registra com o nome de Abolição ou Lei Áurea, aquilo que não passou de um assassinato em massa, ou seja, a multipli- cação do crime, em menor escala, dos “africanos livres”. Como se não bastasse o abandono total vivido pela popu- lação recém “liberta”, a busca pelo crescimento econômico do país fez com que as elites desenvolvessem uma nova estratégia, o que culminou em um novo movimento. Deste modo, somado às trági- cas expressões da herança da escravidão, ocorre o advento do mo- vimento eugenista13 no fim do séc. XIX e início do séc. XX. 13 A ideia eugenia foi disseminada por Francis Galton, em 1883. Galton acredi- tava que o conceito de seleção natural de Darwin também poderia ser aplicado aos humanos. Buscando mostrar que a capacidade intelectual era hereditária, justificaria a exclusão de negros, deficientes e asiáticos. Os principais represen- tantes do movimento eugenista no Brasil foram o médico Raimundo Nina Ro- drigues (1862-1906), o médico Renato Ferraz Kehl (1889-1974) e o agrônomo Octávio Domingues (1897-1972). SUMÁRIO 98 Eugenia e Direitos Humanos Este cenário contribuiu diretamente para o aprofunda- mento, no ideário da sociedade brasileira, da concepção da raça branca como superior às outras raças. A eugenia tinha como obje- tivo a “higienização social” a partir da criação da “raça pura” que se daria através do controle reprodutivo dos indivíduos, mas não só. Também podem ser apontadas como estratégias eugênicas a Necropolítica14 adotada pelo estado e pela sociedade. O deixar morrer. A população negra, como supracitado, encontrava-se em situação de total abandono, já que a abolição não significou o de- senvolvimento de estratégias de inserção da população “liberta” na dinâmica da sociedade brasileira da época. Como aponta Neves (2008, p. 243) “a ideia de formar um povo mais branco fazia parte do pensamento da elite brasileira que acreditava, entre outras coisas, na “extinção” dos elementos “inferiores” através da mescla progressiva com imigrantes seleci- onados”. O século XX diz respeito ao momento em que a eugenia teve mais força no Brasil, baseada na teoria do branqueamento. O esforço do branqueamento racial decorreria da mistura de raças (com o branco) e estava explícito em decretos e projetos de lei. Vale salientar que essa intenção de branqueamento da so- ciedade estava em voga no Brasil antes mesmo da abolição da es- cravatura, sendo estimulada ainda neste período a partir da en- trada de imigrantes, que representavam a riqueza enquanto os ne- gros representavam a vagabundagem, a desordem. É importante salientar que o branqueamento da sociedade brasileira buscava ir muito além do empírico, da cor da pele. Mais que isto, esta intenção dizia respeito ao desejo de branqueamento 14 O termo Necropolítica foi um termo pensado pelo filósofo e sociólogo cama- ronês Achille Mbembe a partir do conceito de biopoder de Foucault. Para Mbembe o conceito de biopoder não alcança o significado da permanência do terror colonial promovido pelo próprio Estado e sociedade. Para uma maior compreensão sobre o termo “Necropolítica” ver: Mbembe, Achille. Necropolí- tica: biopoder, soberania, estado de exceção política de morte. São Paulo: n-1 edições, 2018. SUMÁRIO 99 Eugenia e Direitos Humanos moral da sociedade brasileira. A eugenia era considerada uma forma de ‘higiene social’, importante para o progresso do país. A população negra liberta, que era vista como “de senti- mentos ruins”, contaminada pela escravidão, aqueles que deve- riam viver sob constante coação (AZEVEDO, 1987),foram substi- tuídos pelos indivíduos que as modernas teorias científicas raciais diziam ser o trabalhador por excelência, dotado de inteligência e disciplina: o europeu. Havia (ou há?) o desejo de ‘superação do negro’ na compo- sição social brasileira. Deste modo a miscigenação foi entendida como uma forma de atingir tal objetivo e a mestiçagem represen- tava a transição entre o negro, que deveria ser superado, e o bran- queamento da população. Remontando ao Brasil colonial ao analisar como se inicia a tão aclamada miscigenação brasileira, base para o desenvolvi- mento do grande mito da democracia racial, chegamos a um cená- rio que nos diz muito sobre o lugar das mulheres negras no Brasil atual. A miscigenação (forçada) no país teve início a partir do es- tupro de mulheres negras e indígenas por homens brancos. Como aponta Davis (2016, p. 19) no período escravista, não havia uma distinção entre mulheres e homens, meninas e meni- nos. Todos trabalhavam pesado. A ideologia da feminilidade15 do séulo XX não chegava as mulheres negras e a postura dos senhores com relação às escravizadas era definida por pura conveniência: [...] quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero; mas, quando podiam ser exploradas, punidas e re- primidas de modos cabíveis apenas às mulheres, 15 A ideologia da feminilidade enfatizava o papel da mulher (branca) como mãe protetora, cuidadora do lar e do marido. Como subproduto da industrialização a ideologia da feminilidade contribuiu para a figura da mulher ligada unica- mente à esfera doméstica e separada do mundo do trabalho produtivo. A figura dessa mulher como inferior e frágil foi estabelecida com mais força do que nunca. SUMÁRIO 100 Eugenia e Direitos Humanos elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de fêmea. Deste modo, como mulheres, as escravas estavam subme- tidas a todas as formas de coação sexual. Enquanto os homens po- deriam ser castigados com açoites e mutilações, as mulheres eram castigadas com açoites, mutilações e estupros. Davis (2016) dis- corre sobre a realidade estadunidense, no entanto, no Brasil as mulheres negras e nativas tiveram uma experiência não muito dis- tinta. Assim, é importante ressaltar que a tão louvada miscigena- ção racial no Brasil, que vem dando suporte ao mito da democracia racial, parte de estupros sistemáticos cometidos contra as mulhe- res escravizadas, negras e nativas. A essa prática Carneiro (2011) denomina “estupro colonial”. Essa situação de desumanização marcou a vida das mulheres negras desde o período colonial e, como exponho no ponto a seguir, essa realidade não teve grandes modificações. 4. O continuum da opressão A cada dia 8 de março [...] celebra-se o contínuo crescimento da presença feminina no mundo dos negócios, nas esferas de poder, em atividades secularmente privatizadas pelos homens, e, em ge- ral, omite-se o fato de as negras não estarem experimentando a mesma diversificação de funções sociais que a luta das mulheres produziu (CARNEIRO, 2011, p. 119). É certo apontar que as mulheres vêm conquistando espa- ços importantes na dinâmica social brasileira. Contudo, é preciso salientar que mesmo que tenhamos alcançado algumas políticas com recorte racial estas ainda são insuficientes para alterar essa realidade, já que ainda persistem os lugares diferenciados entre mulheres brancas e negras no país. Como aponta Kilomba (2019), enquanto as mulheres bran- cas são o Outro (do homem) as mulheres negras são o “Outro do SUMÁRIO 101 Eugenia e Direitos Humanos Outro”. De acordo com Sémelin, o Outro será vítima da rejeição e a partir dessa rejeição, do “eles” é que se constrói a “comunidade do “nós”, pura16 (2009, p. 55). Esses Outros, nos termos de Bau- man, são os ‘estranhos’ produzidos pela própria sociedade, já que “cada esquema de pureza gera sua própria sujeira e cada ordem gera seus próprios estranhos, preparando o estranho à sua pró- pria semelhança e medida” (1998, p. 23). A subjugação das mulheres negras no Brasil pode ser per- cebida em diversos âmbitos da vida social que, combinando ra- cismo e sexismo, produz sobre elas a “asfixia social” apontada por Carneiro (2011, p. 127). Ocorre desta forma, o desrespeito gene- ralizado pelos direitos e vida dessas mulheres, tendo a desigual- dade como valor estruturante da sociedade (CALDEIRA, 2000) e indicando os limites da consolidação democrática e do Estado de direito no Brasil. Como consequência, esse cenário a violência, que não é algo novo na realidade brasileira, se expressa com contornos drás- ticos. Ao analisar dados sobre a violência contra mulheres no Bra- sil não restam dúvidas a respeito da situação de vulnerabilização social a que estão expostas, sobretudo, as mulheres negras. Como aponta Caldeira, no Brasil há uma grande tolerância com relação à “manipulação do corpo” (2000, p. 13), mesmo que essa manipula- ção se dê de forma violenta. A tolerância da sociedade a processos de “manipulação [vi- olenta] do corpo” pode ser entendida a partir da tese de René Gi- rard, que descreve a violência como “crise sacrificial” (1990, p. 81- 82). Nessa crise a sociedade unanimemente concorda com a subs- tituição sacrificial. A violência é cometida contra um bode expia- tório, que representa simbolicamente as vítimas potenciais, em que a violência é transformada e passa a ser entendida como meio para a ordem social. 16 Essa pureza “de imediato, remete a uma exigência de limpeza contra um ou- tro, catalogado como “sujo”, percebido como lixo” (SÉMELIN, 2009, p. 62). SUMÁRIO 102 Eugenia e Direitos Humanos Pensar a “manipulação do corpo” das mulheres negras no Brasil direciona a um fato importante acontecido na última década do século XX, quando mulheres pobres, em sua maioria negras, fo- ram submetidas ao procedimento de esterilização compulsória. O controle de natalidade, iniciado nos Estados Unidos17 e dissemi- nado em países periféricos, passou a ser “[...] invocado como meio de prevenção e proliferação de classes mais baixas” (SOUTO, 2019). Essa regulação das relações sexuais e a procriação, em que indivíduos são classificados como úteis ou inúteis/humanos ou “portadores de humanidade incompleta” (CARNEIRO, 2011, p. 15) parte da invenção de verdades sobre a homogeneidade social, cri- adas através do poder disciplinar (FOUCAULT, 1988). Essa regu- lação, ou “manipulação do corpo”, se dá inclusive por meio de in- tervenções corporais, violentas ou não, racistas e justificadas em nome do “saneamento da raça” (SÉMELIN, 2009, p. 63). No Brasil a esterilização compulsória também foi uma rea- lidade. Fundamentada no ideário eugênico somado à aspectos econômicos, as esterilizações eram realizadas por uma entidade privada, o Centro de Pesquisa e Atenção Integrada à Mulher e a Criança - CPAIMC, financiada por organismos internacionais. Os procedimentos de esterilização eram realizados sem que as mu- lheres tivessem conhecimento, de forma coercitiva e sob ameaça de corte de benefícios assistenciais18. Atitudes como essa confirmam o poder de narrativas sim- plistas, intolerantes e marcadas por preconceitos e estereótipos. Há uma naturalização e reprodução da desigualdade social, onde interesses econômicos se sobrepõem a direitos e há um rompi- mento com o ideal de proteção via mecanismos estatais e, como 17 Sobre a esterilização compulsória de mulheres negras estadunidenses ver: DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. 2016, p. 210. 18 Foi só em 1991, a partir de denúncias dos movimentos feministas e movi- mento negro, que especialistas da saúde e parlamentares realizaram a Comis- são Parlamentar Mista de Inquérito - CPMI onde foi confirmada a esterilização compulsória de mulheres no Brasil. SUMÁRIO 103 Eugenia e Direitos Humanos aponta Crenshaw (2002, p. 177), são as “[...]mulheres racializadas que frequentemente estão posicionadas em um espaço onde o ra- cismo ou a xenofobia, a classe e o gênero se encontram” o que pro- duz sobre elas uma dimensão diferente do desempoderamento. A violência interseccional que marca a vida das mulheres negras na sociedade brasileira também pode ser percebida a par- tir da ótica da violência de gênero. Neste sentido, o racismo e o sexismo, institucionalizados, são reproduzidos e legitimados em larga escala. O que fica evidente, é que mesmo com a normatização do combate à violência por motivações de gênero, a materializa- ção desse combate anda a passos lentos. É fato que a promulgação da Lei nº 11.340/06, mais conhe- cida como Lei Maria da Penha19, representou um avanço substan- cial no combate à violência contra as mulheres no país, tornando a pena atribuída ao agressor mais rígida, fortalecendo a criação de programas e serviços de enfrentamento e atendimento às mulhe- res vítimas, entre outros. No entanto, quando analisados os números da violência no país, com atenção ao recorte racial torna-se evidente que as mu- lheres negras figuram como as principais vítimas de todas as vio- lências com motivações de gênero. De acordo com a Organização Não Governamental Fundo Social Elas20, em 2013, das 2,4 milhões de mulheres que foram vítimas de violência no país, 1,5 milhão eram negras. Seguindo esta tendência, 64% das mulheres assassi- nadas no brasil também eram negras. 19 A Lei Maria da Penha foi nomeada dessa forma como ‘homenagem’ à farma- cêutica Maria da Penha Maia Fernandes que foi vítima de duas tentativas de homicídio praticadas pelo seu então marido, o professor universitário Marco Antonio Herida Viveros. Maria da Penha ficou paraplégica após uma das violên- cias e Marco Antonio, após ser julgado em 1996 cumpriu apenas dois anos de reclusão. 20 Disponível em: <http://www.fundosocialelas.org/falesemmedo/noticia/vi- olencia-domestica-contra-as-mulheres-negras-cresce-no-pais/15913/> SUMÁRIO 104 Eugenia e Direitos Humanos Quando analisados os dados do Mapa da Violência (2015) os números demonstraram a continuidade da falha do Estado bra- sileiro em proteger as mulheres negras, já que, no período que compreende de 2003 a 2013, o número de mulheres negras víti- mas de feminicídio saltou de 1.864 para 2.875. Em contrapartida os números também apontaram um recuo de 9,8% em crimes que as vítimas eram mulheres brancas, que caiu de 1.747 para 1.576 no mesmo período. O Atlas da Violência (2018), também apresenta dados im- portantes a respeito da vitimização de mulheres desagregando-se a população feminina pela variável raça/cor. Resultado: nada de novo no front. As mulheres negras seguem sendo as maiores víti- mas da violência por motivações de gênero no país. De acordo com o Atlas (2018), em 2016, 4.645 mulheres foram vítimas de homicídio no Brasil. Isso significa uma taxa de 4,5 homicídios por 100 mil mulheres. Em dez anos essa taxa teve aumento de 6,4%. Contudo, os dados referentes à 2016 apontam que a diferença na taxa de homicídio de mulheres brancas e negras é de 71% (IPEA, 2018). Compreendendo a série histórica 2006-2016 Em vinte estados, a taxa de homicídios de mulheres negras cres- ceu no período [...], sendo que em doze deles o aumento foi maior que 50%. Comparando-se com a evolução das taxas de homicídio de mulheres não negras, neste caso, houve aumento em quinze es- tados e em apenas seis deles o aumento foi maior que 50% (IPEA, 2018, p. 51). O Atlas da Violência (2019) apresenta dados que re- afirmam a continuidade da realidade violenta para as mulheres no Brasil, sobretudo, para as mulheres negras. A presente edição do Atlas aponta que em 2017 foram cometidos cerca de 13 assassina- tos por dia. Ou seja, em 2017, 4.936 mulheres foram mortas no Brasil. Como aponta o Atlas (2019, p. 38): SUMÁRIO 105 Eugenia e Direitos Humanos Enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras teve cres- cimento de 4,5% entre 2007 e 2017, a taxa de homicídios de mu- lheres negras cresceu 29%. Em números absolutos a diferença é ainda mais brutal, já que entre não negras o crescimento é de 1,7% e entre negras de 60,5%. Outro ponto que merece atenção é o modo como as mulhe- res negras acessam os mecanismos estatais e em que condições se dá esse acesso. Akotirene (2019) aponta que as queixas prestadas pelas mulheres negras sofrem com a estigmatização. Para Goffman (1988, p. 12-13), estigma é um conceito aplicado àqueles com características observáveis e interpretadas como falha oculta, iniquidade ou torpeza moral”. Aqui, este conceito aplica-se a mu- lheres marcadas na cor de suas peles e nos territórios onde, pre- dominantemente, habitam: áreas periféricas, bairros que são con- siderados violentos, identificados como pontos de tráfico. É importante apontar também para o modo como o Estado “se retira” de seu caráter protetivo aos fins de semana, ação ex- pressa pela inoperância das delegacias de atendimento à mulher nos fins de semana e feriados, períodos com maior ocorrência de violência contra mulheres em bairros periféricos. Essa desigualdade na proteção de mulheres negras e não negras evidencia a falha Estatal na garantia de universalidade das políticas públicas. Ou, na verdade, essa desigualdade evidencia uma atuação estatal marcadamente racista e ainda fortemente di- recionada pelo ideal eugênico, decidindo quem pode morrer e quem pode viver e sob quais condições. Dados sobre a violência não são os únicos que falam sobre a subordinação interseccional a que estão submetidas as mulheres negras. Quando analisados dados sobre mercado de trabalho e po- breza a mulher negra continua sendo a fração populacional mais afetada pela desigualdade social no país. Como exemplo, no que tange à inserção das mulheres ne- gras no mercado de trabalho, é possível constatar que há uma ‘re- SUMÁRIO 106 Eugenia e Direitos Humanos configuração conservadora’ dos postos de trabalho por elas ocu- pados. Há, deste modo, um considerável número de mulheres ne- gras ocupando postos de trabalho manual, como trabalho domés- tico, lavadeiras, passadeiras, cozinheiras e serventes. Mesmo com o aumento da escolaridade, as mulheres negras ainda têm salários e condições de trabalho mais precarizadas do que outros grupos. De acordo com uma declaração das Organizações das Mu- lheres Negras Brasileiras, o trabalho doméstico ainda é, desde a escravidão negra no Brasil, o lugar que a sociedade racista destinou como ocupação prioritá- ria das mulheres negras. Nele, ainda são relativamente poucos os ganhos trabalhistas e as relações se caracterizam pelo servilismo. Em muitos lugares, as formas de recrutamento são predominan- temente neoescravistas, em que meninas são trazidas do meio ru- ral, sob encomenda, e submetidas a condições sub-humanas no espaço doméstico (ORGANIZAÇÃO DE MULHERES NEGRAS BRA- SILEIRAS, 2011). Deste modo, é possível deduzir que apesar das conquistas alcançadas a duras penas, a trabalhadora negra continua nos pos- tos de menor remuneração e condições de trabalho mais precari- zadas que o homem negro, a mulher branca e o homem branco. O mercado de trabalho como outras esferas da sociedade brasileira, são na verdade uma expressão dessa estrutura marcadamente ra- cista e sexista que atinge a mulher negra desde o início da forma- ção do país. 5. Considerações finais O estudo ora apresentado teve como objetivo apontar que há um continuum na subordinação interseccional que afeta forte- mente a vida das mulheres negras no Brasil, afirmando a impor- tância de realização de análises que considerem o fator raça como determinante para as construções de subalternidade no país. As SUMÁRIO 107 Eugenia e Direitos Humanos categorias raça, gênero e classe são fundamentais para uma com- preensão interseccionalda desigualdade e violência no país. A partir do supracitado é possível perceber como desde o período escravista no Brasil há uma modus operandi quando se trata da opressão exercida sobre as mulheres negras, situação que é naturalizada e fortemente alimentada pelo ideário eugênico que decide quem merece ou não viver. Como já mencionado, é fato que a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06) - como outras leis promulgadas nesse período - re- presenta um avanço significativo no enfrentamento à violência contra as mulheres. No entanto, a normatização de tais conquistas ainda não estão significando garantia de proteção às mulheres ne- gras, que continuam sendo as maiores vítimas de crimes letais e de outros tipos de violência cometidas contra mulheres no país. Outro ponto a ser destacado é sobre a questão da precari- zação do trabalho das mulheres negras. Geralmente ocupando postos de trabalho em situação informal, desenvolvendo traba- lhos manuais, estas mulheres seguem ocupando alguns dos espa- ços a que são relegadas desde a época da escravidão no Brasil, sem garantia de direitos e ganhando o mínimo para sua subexistência. No país, pelo que se percebe, há uma prevalência da con- cepção de que certos humanos são mais ou menos humanos que outros, o que, como consequência, leva à naturalização da desi- gualdade de direitos (CARNEIRO, 2011). Diante do exposto, torna- se evidente como a compreensão da imbricação das marcações de raça, gênero e classe são fundamentais no entendimento da espe- cificidade das mulheres negras, massacradas pela subordinação interseccional que segue marcando duramente suas vidas. Portanto, concluo afirmando que há um continuum da situ- ação de subordinação das mulheres negras no país, que vem se re- configurando e reatualizando as formas de opressão exercidas contra essa fração da população. Devo apontar também para a ne- SUMÁRIO 108 Eugenia e Direitos Humanos cessidade de compreendermos como o Estado brasileiro se posi- ciona nesse cenário, geralmente, como agente reprodutor das de- sigualdades raciais, sexuais e de classe no funcionamento da má- quina estatal. Deste modo, defendo que há urgência de implementação de políticas públicas que de fato promovam igualdade racial no Bra- sil, que parta do reconhecimento do Estado como promotor de um “apartheid à brasileira” e que condene todas as formas de discri- minação. E esse reconhecimento deve se dar em todas as esferas da vida social, visto que em todas elas a população negra e, sobre- tudo, as mulheres negras ainda se encontram sendo vítimas do abandono/genocídio praticado pelo estado. Referências AGUIAR, N. Patriarcado, sociedade e patrimonialismo. Sociedade e Estado, vol. 15 n.2. Brasília. Jun./Dez. 2000. AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Pólen, 2019. (Coleção Femi- nismos plurais) ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. AZEVEDO, Celia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco: o negro no ima- ginário das elites - séc XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. BAUMAN, Zygmunt. O Mal-estar da Pós-Modernidade. 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Introdução O Brasil tem seu processo histórico marcado pelos diversos tipos de violência cometidos contra nativos, negros, mulheres e crianças. Com o passar dos séculos essa violência segue sendo per- petuada e está cada vez mais intensa atualmente, principalmente para esses grupos sociais que integram as chamadas “minorias”, não em termos quantitativos, mas em negação histórica de direi- tos e na luta por eles. A violência cometida contra as mulheres em vários mo- mentos históricos era um “direito” masculino prescrito no Código Penal (1940) podemos citar no Brasil Colônia com o Código Fili- pino, em que as mulheres não tinham poder sobre suas próprias vidas, cabia ao homem escolher entre a vida ou morte de suas es- posas. Na atualidade, mesmo não existindo esse direito anterior- mente mencionado, os homens acreditam ter controle sobre os corpos e a sexualidade das mulheres. Isso se gesta em uma socie- dade marcada pela desigualdade entre sexo, raça/etnia e social. Marcada pelo patriarcado impondo a submissão e opressão das mulheres aos homens nas variadas esferas de suas vidas. SUMÁRIO 113 Eugenia e Direitos Humanos A violência contra as mulheres é dividida em vários tipos: física, psicológica, patrimonial, moral e sexual. Porém, como ana- lisa Saffioti (1999) a violência contra as mulheres não ocorre iso- ladamente, pois qualquer que seja a forma de agressão, a violência emocional sempre estará presente. O referido trabalho busca analisar uma das tipologias da vi- olência contra as mulheres, a sexual, que consiste na relação se- xual não consentida ou por meio de coação e força do agressor. A Lei Maria da Penha (11.340/2006) amplia esse entendimento para uma conduta que cause constrangimento a presenciar, man- ter ou participar de relação sexual, a comercialização de sua sexu- alidade, o impedimento do uso de métodos contraceptivos, qual- quer exercício que anule os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, entre outras condutas. A referida violência pode ser perpetrada contra qualquer pessoa, todavia acomete principalmente mulheres e crianças, in- dependente da classe social, raça/etnia e idade das vítimas. Milha- res de mulheres diariamente são vítimas deste tipo de violência, no interior de seu lar, dentro do seu próprio casamento. Além da cultura do estupro também dá margem para práticas como o estu- pro coletivo, uma prática cada dia mais comum nessa sociedade heteropatriacal, racista e capitalista. Nessa direção, assumimos como pressuposto inicial que toda a violência cometida contra as mulheres é decorrente do pa- triarcado, cristalizado no atual sistema societário, o capitalismo. Ademais, buscamos evidenciar essa violência contra as mu- lheres, que é pouco compreendida e estudada diante da escassez de dados estatísticos, revelando a invisibilidade de tal fenômeno na sociedade, mídia e justiça. 2 Patriarcado, poder e opressão A desigualdade de poder intrínseca em nossa sociedade é resultante do Patriarcado, que como analisa Delphy (2009, p. 174) é a combinação de duas palavras “pater (pai) e arkhe (origem e SUMÁRIO 114 Eugenia e Direitos Humanos comando)”. Apresentando, primeiramente, o patriarcado como a autoridade do pai, pois é o primeiro das origens genealógicas. Pos- teriormente essa autoridade é transferida aos outros membros homens da família, por exemplo irmão e marido. Autores evolucionistas como Morgan e Bachofen perpetua- vam a ideia de que existiram sociedades matriarcais e que poste- riormente foram substituídas pelo patriarcado. Engels em seu li- vro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado” (1979) explicou que apesar de ter existido sociedades tidas como matriarcais- as autoras Alves e Pitanguy (2007) exemplificam es- sas sociedades como tribais, da Gália e da Germânia- foi com o sur- gimento da propriedade privada, que as mulheres passaram a ser essencialmente dominadas e oprimidas pelos homens. [...] o primeiro antagonismo de classe que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia e a primeira opressão de classe coincide com a opressão do sexo feminino pelo sexo masculino (ENGELS, 2012, p. 22). Essa intensificação da subordinação feminina acontece com o advento do capitalismo, à medida que as mulheres se tor- nam objetos e propriedades masculinas, e com o patriarcado em constante transformação. Dessa forma, a violência contra as mu- lheres (física, psicológica, sexual, moral e patrimonial) encontra sua base ideológica no sistema patriarcal. De modo geral, a violência contra as mulheres é resultado da estruturação patriarcal, todavia se apresenta dialeticamente como estrutura desta categoria, a partir da “[...] apropriação dos corpos e da vida das mulheres em múltiplos sentidos” (CISNE; SANTOS, 2018, p.69). Além disso, essa tipologia de violência de- nota diversos recortes: sociais, raciais, econômicos e culturais. Afi- nal, o patriarcado não age sozinho mais em consonância com o sexo, raça e classe social, assim, aponta Kergoat (2010) em con- substancialidade e interseccionalidade das relações sociais de SUMÁRIO 115 Eugenia e Direitos Humanos sexo, incidindo em diferentes formas de discriminação e opressão às mulheres. Analisando a formação histórica e econômica brasileira perpassada por essas três categorias - patriarcado, racismo e classe - é indispensável para a produção e reprodução do capital. São categorias como o patriarcado e o racismo que encontramos “[...] a base para a exploração intensificada da força de trabalho, condição central para a reprodução das situações concretas de ex- ploração e das múltiplas opressões (CISNE; SANTOS, 2017, p. 25). Exemplos nítidos de exploração e opressão existentes e ca- racterísticos da sociedade brasileira é a violação dos direitos, dis- criminação e preconceitos históricos aos negros. No entanto, tais expressões de violação e opressão se apresentam de formas maxi- mizadas ou minimizadas em consequência de especificidades. De- pende da classe social que o negro pertence, o que não exclui o racismo, mas a opressão neste caso é distinta por causa de sua condição social. Um negro pobre está mais sujeito a sofrer violência policial, ser tratado deforma preconceituosa em ambientes públicos do que um negro com melhores condições econômicas. No caso de uma mulher negra e lésbica outros fatores entram em cena: as re- lações sociais de sexo e a orientação sexual. “Não se trata, porém, de uma dimensão matemática de adicionar, somar ou mesmo mul- tiplicar opressões ou nominá-las de marcadores sociais, mas de apreender e decifrar as relações sociais de maneira dialética [...]” (CISNE; SANTOS, 2017, p.26). As dimensões de sexo, sexualidade, raça/etnia e classe de- terminam as relações sociais, permitindo que gere situações de privilégio em contraposição a outros decorrentes de relações de poder, exploração e opressão de um grupo ou classe social. Ade- mais, salientamos que é fundamental compreendermos as catego- rias relações sociais de sexo, sexualidade, raça/etnia e classe para entendermos a sociedade em sua totalidade. SUMÁRIO 116 Eugenia e Direitos Humanos Para Saffioti (2004) o patriarcado funciona como uma en- grenagem que pode ser acionada automaticamente, tanto por ho- mens quanto por mulheres, por fatores culturais, sociais e religio- sos. As mulheres reproduzem o patriarcado quando assumem posturas coniventes ao sistema, mesmo não sendo beneficiadas. Exemplos cotidianos que expressam essa manutenção do patriar- cado são, como analisa Cisne (2015, p.19) “o julgamento moral re- alizado por parte de uma mulher sobre a outra, por esta possuir vários parceiros ou não optar emcasar, ou ainda, a responsabili- zação da mulher por ser traída pelo marido”. Quando a mulher sofre algum tipo de violência, principal- mente sexual e física, a culpa é da mulher que não estava com rou- pas “adequadas” e despertou o “desejo sexual” do agressor ao ponto dele estuprá-la, ou quando a mulher apanha de seu ma- rido/companheiro agressivo e alcoólatra. A culpa sempre recai para as mulheres. Em suma, temos o patriarcado como sistema que historica- mente domina e oprime as mulheres, que se torna mais intenso na sociedade capitalista-racista-heterossexista em que as mulheres são tratadas como objetos e propriedades masculinas. A violência perpetrada contra as mulheres é uma forte expressão do patriar- cado, perpassado pela desigualdade entre os sexos, onde os ho- mens por reconhecê-las como propriedades privadas e que não podem perdê-las praticam a violência. A temática da violência, enquanto objeto investigativo, vem assumindo um lugar de destaque e reflexão no meio acadêmico, com ênfase no campo sociológico, enfatizando o papel central do Estado e outras formas de violência e da criminalidade. Na socio- logia clássica, conforme analisa Bandeira (2014), a definição e a análise da violência estão entrelaçadas aos conceitos de controle social e do papel estatal. O Estado assume o papel de responsável pelo controle da violência para reduzir as desordens sociais, porém tais estudos so- bre a violência articulados ao Estado, ocultam outras formas de SUMÁRIO 117 Eugenia e Direitos Humanos violência tão expressivas nesta sociedade capitalista, a denomi- nada violência interpessoal, decorrentes da desigualdade de po- der, em sua expressiva forma, entre homens e mulheres, que man- têm ou mantinham relações afetivas, no âmbito privado (domés- tico) ou público. Ocultam, pois, vivemos em um Estado capitalista, patriarcal e heterossexista dominado por homens. Ademais, no tópico a seguir conceituaremos a violência contra as mulheres, mas especificamente a tipologia da violência sexual que acomete milhares de mulheres diariamente, fruto da cultura patriarcal e heterossexista e consequentemente da desi- gualdade de poder em que as mulheres são tratadas como objetos sexuais pelos homens. 2.1 Conceituando a violência sexual contra as mulheres Para Saffioti, a violência é entendida como “[...] uma rup- tura de qualquer forma de integridade da vítima: integridade fí- sica, integridade psíquica, integridade sexual, integridade moral” (2004, p. 17). As autoras Santos e Pasinato (2015) apontam a vio- lência como uma ação que cria desigualdades no seio da sociedade transformando diferenças - aqui estabelecidas entre homens e mulheres - em relações hierárquicas com a finalidade de explorar e oprimir. É persistente em nossa sociedade a naturalização da vio- lência, principalmente contra as minorias, a exemplo das mulhe- res. Saffioti (2004) explana a existência de um forte incentivo so- cial para que os homens exerçam sua “masculinidade” baseada na força, dominação e opressão às mulheres. Ainda segundo a autora é “[...] normal e natural que os homens maltratem suas mulheres, assim como que pais e mães maltratem seus filhos, ratificando, deste modo, a pedagogia da violência” (2004, p.74). Em meio aos vários tipos de violência contra as mulheres, optamos no trabalho em adentrar ao estudo sobre violência sexual contra as mulheres, que consiste na relação sexual não desejada SUMÁRIO 118 Eugenia e Direitos Humanos ou consentida, por meio de coação ou força do agressor. A Lei Ma- ria da Penha (11.340/2006) interpreta a violência sexual como o impedimento do uso de algum método contraceptivo, o casamento forçado, à gravidez e o aborto, os limites que anulem os direitos sexuais da mulher, ou seja, a autonomia do corpo da mulher. O estupro, assim como as demais violências de gênero, não trata de sexo, de afetividade e de intimidade. Trata, sim, conforme muito bem exposto por Brownmiller (1975), de uma relação de poder, em que os homens submetem as mulheres para que estas assumam determinados papéis na sociedade, e o caso extremo compreende a coisificação que extrai do indivíduo a sua condição de humanidade e, portanto, de sujeito de desejos e de direitos so- bre o próprio corpo. (CERQUEIRA; COELHO, FERREIRA, 2017, p.7). A violência sexual é reconhecida como uma violação dos di- reitos humanos, um problema social, de saúde, cultural e de segu- rança pública, atingindo de forma extenuante as mulheres. Cons- tituindo-se um crime que atinge todas as classes sociais, raça/et- nia, idades, entre outros fatores sociais. É considerada uma das principais causas de morbidade de mulheres no Brasil, como apontou o Ministério da Saúde (2005) e a maior parte das agres- sões são perpetradas por homens. Trata-se de um tema difícil de ser abordado, especialmente por parte das vítimas que travam o pacto do silêncio. Cabe destacar que a relação sexual forçada dentro do casa- mento é estabelecida no Código Penal como estupro. A mulher não tem o dever de ceder a uma relação sexual para satisfazer seu companheiro ou marido. “De que privacidade se pode falar se mi- lhões de mulheres são estupradas no seio do casamento todos os dias, duas vezes por semana [...]” (SAFFIOTI, 1987, p.86). Um lugar supostamente seguro é, muitas vezes, “lócus privilegiado da vio- lência contra a mulher” (CISNE; SANTOS, 2018, p. 69). Dentro do ordenamento jurídico há pouco tempo discutia- se se o marido poderia ser sujeito ativo do crime de estupro em SUMÁRIO 119 Eugenia e Direitos Humanos relação a sua própria esposa. Conforme citaram Cerqueira, Coelho e Ferreira (2017) foi um processo longínquo, pois desde 1995 a Lei nº 9.520 revogou em seu art. 3 do Código de Processo Penal, que estabelecia que a mulher casada não poderia denunciar o ma- rido, salvo em dois casos, quando fosse contra ele, ou quando esti- ver separada. Apenas no ano de 2009 com a Lei nº 12.015, o estu- pro foi considerado crime contra a Liberdade e Dignidade Sexual. De acordo com o Código Penal brasileiro, Decreto-lei nº 2.848, as definições legais para estupro e estupro de vulnerável são: Estupro Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso [...] Estupro de vulnerável Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos [...] § 1º Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resis- tência. O Direito Internacional de proteção aos direitos humanos incorporou entre suas pautas várias reivindicações dos movimen- tos feministas, a exemplo da igualdade formal, a liberdade sexual e reprodutiva, a diversidade sob raça e etnia, a redefinição dos pa- péis sociais, o direito a viver uma vida sem violência, entre outras pautas. Assim por diante, surgem diversos Tratados e Convenções que foram aprovadas e inseridas no processo de internacionaliza- ção dos Direitos Humanos, entre eles estão: Convenção sobre a Eli- minação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW, 1979); Conferência Nacional sobre a Mulher em Nairóbi (1985); a Declaração de Direitos Humanos de Viena (1993); De- claração do Cairo (1994); Convenção de Belém do Pará (1994); “A SUMÁRIO 120 Eugenia e Direitos Humanos ratificação dessas novas normas pelos Estados e a caracterização da violência contra as mulheres como violação dos direitos huma- nos permitiram que esses direitos fossem definidos como univer- sal [...]” (MARTINS et. al., 2015, p.3). Assim, os Estados são respon- sabilizados pelas ações que desrespeitam os DireitosHumanos das Mulheres. Analisamos a grande importância das Convenções e Confe- rências na construção e no reconhecimento dos Direitos Humanos voltados para as mulheres, além de suas particularidades. No en- tanto, é preciso destacar que a violência sexual no cenário brasi- leiro exige, antes de tudo, apontar a particularidade do patriar- cado no país. Aqui a estratégia patriarcal teve como principal ob- jetivo a população de um território com vastas dimensões. Para isso, o estupro de mulheres negras e nativas foi, além de uma “fer- ramenta” efetiva de controle desses corpos, uma estratégia para o desenvolvimento populacional. O Brasil como um país que se desenvolveu tendo como base a violência, segue perpetuando essa forma de controle até os dias atuais. Mesmo que ao longo dos anos a prática da violência contra as mulheres tenha alcançado maior visibilidade a partir das rei- vindicações, sobretudo do movimento feminista, e alguns meca- nismos legais tenham sido conquistados, essa realidade segue sem grandes modificações. Prova disso é o crescente quantitativo de casos de estupro cometidos no país, como veremos no tópico a se- guir. 2.2 Caracterização da violência sexual contra as mulheres no Brasil Antes de tudo, precisamos falar da cultura do estupro no Brasil. Não há como tratar de estupro no Brasil como um fato pon- tual. Essa violência sistemática cometida sobretudo, contra mu- SUMÁRIO 121 Eugenia e Direitos Humanos lheres e crianças comprova a existência de uma cultura que pro- duz e reproduz essa problemática e essa lugar de corpo apropri- ado em que estão as pessoas do sexo feminino. Contudo, vale apontar para a existência dessa cultura desde os marcos da invasão portuguesa no Brasil. Naquele mo- mento, apoiados na “necessidade” de povoamento de grandes áreas os senhores de escravos exerciam sua masculinidade a par- tir do controle e da apropriação dos corpos das mulheres (primei- ras índias e depois as negras traficadas do continente africano) através do estupro. Afirmar a existência de uma cultura do estupro no Brasil apoia-se então na forte relação do país com a violência desde o momento da invasão portuguesa. Fator que reafirma essa cultura é a forma como casos cada vez mais brutais continuam ocorrendo atualmente, indicativo de que há uma banalização e normalização desse crime no país, fortalecido por diversos âmbitos, inclusive pela mídia. Não é demais relembrar um caso ocorrido em 21 de maio de 2017, no Rio de Janeiro, em que uma garota de 16 anos foi es- tuprada por mais de 30 homens, sendo um deles seu namorado. Na mesma semana mais dois casos foram noticiados. Em Bom Je- sus, no Piauí, uma garota de 20 anos foi estuprada por 5 homens, sendo que um deles tinha uma relação próxima com a vítima. O terceiro caso, da mesma semana, foi de uma garota de 12 anos que foi trancada no banheiro da escola e estuprada por 3 garotos. Esses crimes claramente são produzidos pela cultura bra- sileira que fortalece comportamentos machistas, misóginos. A cul- tura do estupro compactua com esse crime de formas diversas, quando se vende uma imagem de objetificação das mulheres, quando há a culpabilização da vítima e a normalização/tolerância de casos de violência diariamente praticados contra as mulheres. Uma importante pesquisa domiciliar realizada pelo Sis- tema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) aponta para o alto SUMÁRIO 122 Eugenia e Direitos Humanos índice de tolerância dos casos de violência cometidas contra mu- lheres no Brasil. Após realizar a pesquisa em 3.809 domicílios de 212 municípios, tem-se o seguinte resultado: Quase três quintos dos entrevistados, 58%, concordam, total ou parcialmente, que “se as mulheres soubessem se comportar have- ria menos estupros”. E 63% concordaram, total ou parcialmente, que casos de violência dentro de casa devem ser discutidas so- mente entre os membros da família”. Também, 89% dos entrevis- tados tenderam a concordar que “a roupa suja deve ser lavada em casa”; e 82% que “em briga de marido e mulher não se mete a co- lher” (IPEA, 2014, p. 3). As informações apresentadas acima não são novidade. Apenas escancaram a real face do Brasil e demonstram como a mentalidade assentada na lógica patriarcal ainda está fortemente presente no ideário da sociedade brasileira. A violência está entra- nhada no nosso cotidiano e prova disso são os índices crescentes de vitimização de mulheres no Brasil. Deste modo, objetivando apresentar dados que deem al- guma dimensão acerca da violência sexual no Brasil foi realizada pesquisa documental referente ao quantitativo de casos de estu- pros no país. Para isso foram analisados: Mapa da Violência (2015); Atlas da violência (2018); Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2019) e Centro da Mulher 8 de Março (2015-2018). O Mapa da violência (2015) apresenta alguns dados refe- rentes aos atendimentos realizados no ano 2014 pelo SINAN, que permite verificar os tipos de violência mais frequentes e sua inci- dência de acordo com a etapa da vida da vítima. Neste sentido, os dados apresentados apontam para a violência sexual como um dos tipos de violência mais cometidos no país, juntamente com a vio- lência física e psicológica. Esses dados referentes ao ano de 2014 apontam que a vio- lência sexual foi a terceira mais cometida com um total de 23.630 atendimentos, ficando atrás apenas da violência psicológica SUMÁRIO 123 Eugenia e Direitos Humanos (45.485 atendimentos) e da violência física (96.429 atendimen- tos). Vale salientar que as vítimas com maior incidência de violên- cia sexual por etapa de vida foram crianças de até 11 anos (29% dos atendimentos) e adolescentes (24,3% dos atendimentos). Em 2014 o IPEA divulgou dados que apontam a vitimização de 524 mil pessoas são estupradas no Brasil por ano, sendo que apenas 10% denunciam essa violência à polícia. Sob o termo ofensas sexuais o Atlas da Violência (2018) apresenta dados importantes acerca do número de vítimas de es- tupro a partir de registros do SINAN e FBSP21 referentes ao ano de 2016. Neste sentido, o SINAN registrou o total de 22.918 e o FBSP o total de 49.497 vítimas no território nacional. Desagregando es- ses dados por estado, a Paraíba aparece na 15º posição entre 27 estados da federação (com 137 registros no SINAN e 347 registros no FBSP). Ainda conforme dados do Atlas da Violência (2018) no pe- ríodo entre 2011 a 2016 houve diminuição no que concerne os ca- sos de estupro perpetrado por um único agressor e um aumento em relação aos casos de estupros coletivos. No ano de 2011, de acordo com o SINAN, o índice para apenas um agressor na prática da violência sexual totalizou 81,2%, e no ano de 2016 houve um decréscimo para 77,6%. No entanto, nos casos em que a violência sexual foi cometida por dois ou mais agressores os índices aumen- taram. No ano de 2011 foi constatado o percentual de 13,0%, en- quanto no ano de 2016 as notificações de estupro com essa espe- cificidade aumentaram para 15,4%. O Atlas da Violência (2018) apontou os principais autores da violência sexual contra as mulheres. No ano de 2016, o princi- pal agressor era amigos/conhecidos das vítimas menores de 13 anos (30,13%). Em contraposição, para as vítimas adultas a maio- ria dos agressores eram desconhecidos (53,52%). Já nos estupros 21 Sistema de Informação de Agravos de Notificação e Fórum Brasileiro de Se- gurança Pública, respectivamente. SUMÁRIO 124 Eugenia e Direitos Humanos contra adolescentes os principais autores dos crimes eram desco- nhecidos (32,50%) e amigos/desconhecidos (26,09%). Observamos no estudo do Atlas da Violência (2018) que as principais vítimas de estupro foram crianças de até 13 anos de idade. Em 2016 foram totalizados 50,9% dos casos de estupros em todas as circunstâncias contra crianças com até 13 anos, e nos ca- sos de estuproscoletivos esse percentual caiu para 43,7%. Todavia, cabe destacar que entre todas as modalidades de estupros, as crianças são maiores vítimas, seguido de mulheres com idade superior a 18 anos com percentual de 32,1% para todos os estupros, e 36,2% para estupros coletivos, apresentando um pequeno aumento. Com menores índices estão as adolescentes ob- tendo 16,0% para todos os estupros e 20,1% para estupros coleti- vos. Conforme explanado nos dados estatísticos sobre estupros contra mulheres, destacamos que segundo estabelecido no Código Penal Brasileiro, relações sexuais com menores de 14 anos, mesmo com consentimento da vítima ou sobre outras circunstân- cias são tratadas como crime sexual contra vulnerável com pena de 8 (oito) a 15 (quinze) anos de reclusão. Além disso, o estupro e outros atos libidinosos contra crianças, adolescentes e mulheres adultas provocam consequências graves, resultando em uma gra- videz não desejada, doenças sexualmente transmissíveis, danos à saúde mental da vítima a curto e longo prazos (SOUTO et. al., 2017). Um ponto que não pode ser esquecido é a especificidade das mulheres negras nesse cenário de violência. A realidade do co- tidiano dessas mulheres segue sendo diferenciada das mulheres brancas. Como supracitado, a experiência escravista no Brasil es- tabeleceu o lugar social para a população negra, que segue sendo cruelmente reproduzido até os dias atuais. O cotidiano das mulhe- res negras no Brasil continua sendo fortemente marcado pela vio- SUMÁRIO 125 Eugenia e Direitos Humanos lência, já que estas continuam, em sua maioria expostas à subor- dinação interseccional imposta pela simbiose entre patriarcado- racismo-capitalismo. Os dados apresentados no Atlas da Violência (2019) apon- tam para a desigualdade racial como categoria analítica do quan- titativo de homicídios de mulheres no país. Enquanto a taxa de ho- micídio de mulheres não negras, entre 2007 e 2017, teve cresci- mento de 1,6%, a taxa de homicídio de mulheres não negras cres- ceu 29,9%. As mulheres negras são as maiores vítimas da violên- cia letal no país 66% de todas as mulheres vítimas de feminicídio no país em 2017. Adentrando o cenário nordestino, a análise da violência se- xual apresenta uma realidade massacrante. A partir de dados co- letados na Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher (PCSVDF-mulher) realizada em 2016 pela Universidade Federal do Ceará tendo como universo de pesquisa todas as capitais nordestinas (representadas em 11.141 mulheres entre 15 e 49 anos), foi visualizada a realidade de desproteção a que estão expostas as mulheres dessa região. De acordo com a pesquisa supracitada 2,42% das mulheres haviam sido vítimas de violência sexual nos últimos 12 meses pre- cedentes à pesquisa. Esta é uma taxa bastante significativa. Deste modo, “supondo-se que a prevalência das violências sexuais no Brasil fosse igual a das capitais nordestinas isso implicaria dizer que a cada ano cerca de 1,350 milhão de mulheres seriam acome- tidas por violência sexual no país” (ATLAS DA VIOLÊNCIA, 2018, p. 58). Adentrando o Cenário Paraibano, mais especificamente em João Pessoa, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2019), por meio de dados obtidos pela Secretaria de Segurança e Defesa Social observou que no ano de 2017 foram totalizados 31 estupros com taxa de 3,8 para 100 mil mulheres. No ano subsequente houve crescimento apresentando 45 estupros para a taxa de 5,6 para 100 SUMÁRIO 126 Eugenia e Direitos Humanos mil mulheres. Destacamos o aumento no número e taxa de estu- pros na capital paraibana e variação de 47,2 entre 2017 e 2018. Na Paraíba, de modo geral, o Centro da Mulher 8 de Março fornece importantes dados para análise dessa problemática no ce- nário estadual. Segundo os dados coletados pelo Centro, referente ao ano de 2015, foram registrados 14 estupros, 21,4% deles co- metidos só no mês de agosto. As tentativas de estupro foram 9, sendo os meses de Janeiro e Agosto os meses com maior incidên- cia (22,2%). Segundo os dados supracitados, no ano de 2015 fo- ram registrados 23 casos de violência sexual no estado, somando os casos de estupro e tentativa de estupro. No ano seguinte (2016) foram registrados na Paraíba 18 crimes de estupro contra mulheres. As tentativas de estupro tota- lizaram 6 casos. Ou seja, em 2016 foram registrados na paraíba 24 crimes de violência sexual, apresentando, desta forma, um cresci- mento em relação ao ano anterior (2015). Nos anos seguintes (2017-1018) segundo dados do Centro da Mulher 8 de Março, em comparação com o ano 2016 houve um decréscimo no quantitativo de casos de violência sexual contra mulheres no estado. Em 2017 foram registrados 20 casos e em 2018 foram registrados 17 casos de violência sexual. No entanto, cabe salientar que esses dados são aproximati- vos da realidade já que há um alto índice de subnotificação de ca- sos de violência contra mulheres no país. Na nota técnica “Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde” a pesquisa sugere que apenas 10% dos casos são registrados. 3. Considerações finais Como apresentado no estudo violência sexual cometida contra as mulheres não é um fenômeno recente na história da so- ciedade brasileira, marcada por um amplo processo de desigual- dade entre os sexos, racial e social. Assim como os demais tipos de violência contra as mulheres, a sexual também se expressa como SUMÁRIO 127 Eugenia e Direitos Humanos consequência da cultura patriarcal que é apropriada e intensifi- cada pelo capitalismo. Cotidianamente nos deparamos com atitudes machistas e misóginas que visam objetificar e sexualizar o corpo das mulheres, inclusive das crianças. Exemplo evidente da objetificação do corpo femininos são os comerciais de cerveja e da indústria automobi- lística. As mulheres desde crianças são reconhecidas como propri- edades masculinas, que passa do pai para o marido. Todavia, apesar do reconhecimento da violência sexual como uma violação dos Direitos humanos, um problema que ul- trapassa a esfera da segurança pública, por ser também de saúde, cultural, social e político, e mesmo com Tratados, Convenções e Leis que explicitam e denotam a gravidade desse fenômeno, no mundo e no Brasil continuam a crescer os índices desse tipo de violência, atingindo todas as classes sociais, cor/etnia e geração. Contudo, como exposto, há uma alta incidência de estupros contra mulheres adultas e crianças de até 13 anos, ou seja, mesmo com o Código Penal Brasileiro estabelecendo estupro de vulnerá- vel para crianças de até 14 anos, nada impede o agressor de come- ter o ato ilícito. A proporção dos casos de violência sexual contra as mulheres tende a ser ainda maior, considerando que muitas mulheres têm receio de passar por humilhações, discriminações e preconceitos no momento da denúncia e/ou desconhecem as ca- racterísticas da violência sexual, exemplo típico do estupro mari- tal. É preciso reconhecer o quanto avançamos na seara le- gal/formal no que tange ao enfrentamento a todas as formas de violência contra as mulheres. No entanto, diante dos dados apre- sentados neste estudo, torna-se perceptível a existência de limites substanciais na efetivação dessa proteção às mulheres na socie- dade brasileira, principalmente se consideramos a especificidade das mulheres negras como as maiores vítimas das violências por motivações de gênero. SUMÁRIO 128 Eugenia e Direitos Humanos Deste modo, torna-se evidente a falha do Estado em garan- tir o cumprimento da legislação o que garantiria mais segurança e proteção para as mulheres em situação de violência sexual. Muitas dessas mulheres, ao procurar atendimentos em locais especializa- dos, se deparam com a burocracia institucional, com o machismo, reproduzido pela própria polícia, corroborandopara que se es- tenda o sofrimento das vítimas e contribuindo com a impunidade dos agressores. A mulher teme, principalmente, não ser acredi- tada. Em meio ao contexto neoliberal e com a hegemonia da ban- cada religiosa e conservadora no Congresso Nacional, os direitos das mulheres e das minorias se encontram fortemente ameaça- dos, representando um amplo retrocesso nas conquistas históri- cas dos movimentos feministas. Portanto, considerando a magni- tude dessa problemática cometida, principalmente por parceiros íntimos ou familiares, apontamos para a necessidade de compre- ensão dos determinantes e impactos da violência sexual como o caminho para o desenvolvimento de políticas realmente efetivas. Referências ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. São Paulo: Brasiliense, 2007. 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Introdução Por estarem os homens se autodestruindo, eis que surge o Estado, um ente eleito por esses mesmos homens, com poderes absolutos para preservar-lhes a vida, mediante o estabelecimento de um contrato com normas de convivência social, pois “[...] quando não existe um poder comum capaz de manter os homens numa atitude de respeito, temos a condição do que denominamos guerra; uma guerra de todos contra todos” (HOBBES, 2009, apud PAULA, 2016 p. 77). A solução em forma de pacto para impedir que em sendo “o homem lobo do homem” sejam eles próprios responsáveis pela destruição da espécie humana, foi delegar ao Estado, esse ente so- berano, poderes sobre seu povo. Um poder, nos dizeres de Paula (2016), perene e quase sem limites, pois trata-se do “Estado como aparelho de dominação.” O primeiro filósofo moderno a articular uma teoria sobre a necessidade de uma organização para regular, impor limites aos homens para viverem em sociedade sem se autodestruírem foi Thomas Hobbes [1588-1679], na sua obra Leviatã. Outros intelec- SUMÁRIO 132 Eugenia e Direitos Humanos tuais a exemplo de Hobbes tiveram a preocupação de eleger o Es- tado comoobjeto de análise ao longo dos tempos, cujas constru- ções teórico-metodológicas, nas suas mais variadas formas e ex- pressões deram sustentação ou forneceram as bases para adoção de programas de governo alinhados com esta ou aquela corrente epistemológica, na defesa de interesses quase sempre antagônicos e contraditórios das classes sociais em disputa. Este Estado que se materializa em instituições, corpora- ções, leis, relações de poder, que adentra a vida dos indivíduos e da coletividade e que investido de legitimidade para tal papel re- gulatório interfere nas relações de mercado e nas liberdades indi- viduais, ora favorecendo a classe trabalhadora, ora os donos dos meios de produção, a depender das distintas conjunturas. Para a análise que aqui pretendemos desenvolver, trazendo para o nosso tema de pesquisa, na sua estreita relação com as formas assumi- das pelo Estado no tratamento aos sujeitos protagonistas do fenô- meno da violência aqui abordado, vítima e agressor [...] interessa-nos, assim, um tipo particular de Estado, ou seja, o referido a uma formação social específica, historicamente deter- minada, cujas características lhe dão forma estrutural e que, de modo ainda mais específico, se referência também a contingências conjunturais. Trata-se, pois, daquele tipo de Estado dotado de obrigações positivas que inevitavelmente o impelem a exercer re- gulações sociais por meio de políticas. Ou seja, o Estado em ação (PEREIRA, 2008, apud PAULA, 2016, p. 71). É a partir da concepção do Estado na sua estreita relação com as políticas sociais que iremos, pois, tentar compreender o que fora construído, em termos de arcabouço normativo e práticas interventivas estatais para a proteção da vítima e a normatização/ enquadramento da figura do agressor. Qual o lugar reservado a esses distintos sujeitos sociais, com ênfase no período a partir do advento da Constituição Federal de 1988, recorte estabelecido, pela compreensão de que a partir desse evento o Brasil deu um SUMÁRIO 133 Eugenia e Direitos Humanos salto significativo no que se refere ao redesenho das políticas so- ciais e na própria ampliação ou amadurecimento do conceito de cidadania. 2. Responsabilização ou pura vingança? A falácia da ressociali- zação/ recuperação do autor de crimes sexuais Comecemos, pois, por situar o Estado no desenvolvimento de práticas normativas de controle destinadas aos autores das vi- olências perpetradas, a figura do “agressor”. Qual o lugar a esse reservado? Como o Estado, através de suas instituições e de um arcabouço legal específico, dar forma e concretude a um rol de práticas, ações, programas e políticas voltadas a sua responsabili- zação e recuperação? No tocante a prática de ilícitos, sendo emblemática a vio- lência sexual contra crianças e adolescentes nas suas modalidades de abuso e exploração, temos a concessão ao Estado do poder de encarcerar como a principal ferramenta de intervenção junto ao “agressor”. No Brasil, ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidi- noso com crianças e adolescentes menores de catorze anos, é crime, denominado estupro de vulnerável. Essa modalidade de ilí- cito está expressa no Artigo 217-A da Lei 12.015/2009, Código Pe- nal Brasileiro, cuja pena é a reclusão de oito a quinze anos, po- dendo chegar a vinte ou até mesmo trinta anos se da conduta re- sultar lesão corporal de natureza grave ou a morte da vítima. Nos dizeres de Silva Junior, Yamamoto e Santoro (2019, p. 81) [...] a pena privativa de liberdade é clamada e aclamada por muitos como a sanção mais justa e necessária que se deve aplicar aos ini- migos da lei e da ordem. A prisão é tomada como a instituição que representa a “pílula dourada” nos territórios da justiça penal, res- pondendo aos anseios por mais justiça e menos impunidade. Im- porta antecipar que tal justificativa é frágil e seletiva, [...]. SUMÁRIO 134 Eugenia e Direitos Humanos A prisão, “pena por excelência das sociedades capitalistas”, segundo os autores ante referidos encontrara lastro em dois dos valores cultuados pela lógica do capital, a liberdade, bem su- premo, distribuída (em tese) igualmente a todos e, o tempo, outro bem endeusado nesse modo de produção e reprodução social. Re- tirar a liberdade e quantificar o castigo em função da variável tempo (em dias, meses ou anos, conforme a penalidade aplicada) é interpretado como uma forma de reparação social, dada a crença de que o ato criminoso feriu para além da vítima, atingindo toda a sociedade. “[...] Na prática não há que se falar em reparação al- guma, mas pura vingança” (ibid. p. 85) tratada de forma jurídica para a quitação da dívida. Ao debate ora proposto interessa a seguinte indagação: o sistema prisional brasileiro tem dado conta de reduzir a crimina- lidade? Durante ou ao término do processo de privação de liber- dade é possível identificar a recuperação individual? Concorda- mos com Silva Junior, Yamamoto e Santoro (2019) ao afirmarem que o cárcere jamais alcançou a reparação social e recuperação in- dividual a ele delegadas. As condições deploráveis e degradantes do sistema prisional brasileiro, não só não recupera o indivíduo que incorreu na prática do delito como tem o potencial de se cons- tituir em escola do crime, fazendo do réu primário um forte candi- dato a reincidências. O tema é polêmico e controverso, pois pensar possibilida- des alternativas à pena, significa não só assumir a inaptidão do sis- tema prisional para a promoção de indivíduos pacíficos, convi- vendo em uma sociedade justa, igualitária e livre de opressão, com crianças, adolescentes e jovens crescendo e se desenvolvendo em condições de dignidade e liberdade; mas, apontar alternativas possíveis e resolutivas para o enfrentamento da violência e sua es- calada desenfreada. Reformar o sistema prisional ou aboli-lo? Os que concordam com Alessandro Barata (1990) apud Silva Junior, Yamamoto e Santoro (2019, p. 92) dirão “a melhor prisão é, sem dúvida, a que não existe”. SUMÁRIO 135 Eugenia e Direitos Humanos A humanidade chega ao século XXI com um legado de con- quistas e avanços importantes, conquistamos o espaço e fomos à lua, aprendemos a decodificar o DNA (Deoxyribonucleic Acid/ Ácido Desoxirribonucleico (ADN) em português) humano e en- contramos a cura para muitas doenças, nos comunicamos com o mundo em tempo real, criamos a inteligência artificial, ampliamos sobre vários aspectos nossa capacidade racional de resolvermos problemas, mas ainda somos aprendizes em matéria de conviver- mos em harmonia, livres de exploração e opressão nas relações que estabelecemos. A prisão, criada entre os séculos XVIII e XIX na Europa como local para execução penal, substitutiva de “castigos físicos, humilhações e penas capitais” (ibid. p. 81), chega aos nossos tem- pos atravessada por problemáticas que não conseguimos resolver. Superlotação nos presídios, discriminação social, racial, de gênero e de orientação sexual, falta de acesso à assistência judiciária são alguns dos inúmeros desafios a que a população carcerária está submetida, nos levando a crença de que o atual modelo de enfren- tamento à violência, no tratamento dispensado ao “agressor” se configura como uma violação aos direitos humanos, situando no campo da retórica o discurso da ressocialização e da recuperação social, propalados como valores de primeira ordem do sistema pe- nal. 3. Abordagem do Estado Brasileiro ao Adolescente Infrator nos Crimes Sexuais: da repressão à proteção integral Quando o autor da violência infringida contra uma criança ou adolescente é ele próprio um outro adolescente, a política de enfrentamento por parte do Estado, no trato com o adolescente autor do ato infracional está prevista na Lei 8.069/90, Estatuto da Criança e do Adolescente. Em seu Artigo 112 (incisos I a VII)estão previstas as seguintes medidas: advertência; obrigação de reparar o dano; prestação de serviços à comunidade; liberdade assistida; SUMÁRIO 136 Eugenia e Direitos Humanos inserção em regime de semiliberdade; internação em estabeleci- mento educacional; qualquer uma das previstas no art. 101 (inci- sos I a VI). A lei também prevê que tais medidas deverão levar em conta a capacidade desses indivíduos de cumpri-las, as circunstân- cias e a gravidade da infração. A medida de internação em estabelecimento educacional é a única privativa de liberdade e, conforme expresso no ECA, não poderá ser superior a três anos, devendo ser aplicada nos casos previstos no Artigo 122 (incisos I a III): tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência à pessoa; por reite- ração no cometimento de outras infrações graves; por descumpri- mento reiterado e injustificável da medida anteriormente im- posta. Apesar das garantias legais previstas, como a que se refere ao local de cumprimento da medida ser em entidade exclusiva para adolescentes, em condições de higiene e salubridade, separa- dos por idade, compleição física e gravidade da infração cometida, dentre outras expressas nos artigos 123, 124 e 125 da referida lei, há inúmeros casos de violações aos direitos desses adolescentes infratores. Muitos, dos quais acabam virando matéria de repercus- são nacional e até internacional pela sua gravidade e afronta aos direitos já consagrados ou fornecendo os insumos para narrativas literárias ou cinematográficas, como no caso do premiado filme Pi- xote – a lei do mais fraco do diretor Hector Babenco, de 1980. O filme, baseado no livro Infância dos Mortos, de José Lou- zeiro, é uma provocação para a reflexão acerca da realidade de in- diferença e descaso da sociedade para o gravíssimo problema de miséria, abandono e violência cometida contra crianças e adoles- centes abandonados e marginalizados no Brasil por instituições que deveriam recuperá-los ou ressocializá-los. Em “[...] Pixote isso aparece de maneira muito contundente – formas simbólicas e físi- cas de violência que se eram articuladas para instituir, reprimir ou perseguir e julgar comportamentos sexuais [...] e marginais ao normativo [...]” (COSTA JÚNIOR, 2019, p. 145). SUMÁRIO 137 Eugenia e Direitos Humanos Vários meninos deitados no chão da FEBEM. Corpos cansados, su- jos, sem agasalho algum. [...] O inspetor da instituição, responsável pela disciplina dos moleques, observa com desaprovação a cena. Caminha resmungando e falando [...] “Você tá de volta aqui, hein? Ninguém apanha de bobeira!” E, na medida em que a fila vai sendo formada, segue com as reclamações e humilhações. Aproxima-se de Lilica (Jorge Julião), um dos menores apreendidos na FEBEM e que se perfomatiza com o que convencionalmente se entende na- quele espaço como sendo uma menina: cabelo comprido, calças justas, maquiagem, brincos, além de expressões corporais como o “rebolado”. Lilica constrói uma relação com outro interno: Dito (Gilberto Moura). Na cena ela está de cabeça baixa, na fila, quando o inspetor diz, tirando-lhe a peruca loura que ela usava: “Aqui dentro tu é homem, viu? Se eu te pegar em fraga tu vai se ver co- migo” (Ibid. p. 144-145). A partir de 1990, o Brasil substitui com o ECA, a “doutrina da situação irregular” pela “doutrina da proteção integral”. Essa mudança de paradigma gerou a necessidade de adaptações nas instituições socioeducativas, adequando-as ao que prevê o Esta- tuto e o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SI- NASE). Apesar dessas inovações, ainda persistem velhas práticas no trato com adolescentes autores de atos infracionais nessas ins- tituições, além da adoção de uma política pública tímida, que não prioriza a causa da infância e juventude marginalizada nesse país, como ilustrado no depoimento de um educador que desempenha suas atividades em uma dessas unidades: [...] por mais que a coordenação, equipe técnica tenham a compre- ensão da necessidade de um trabalho educativo, não se pode cul- par ou responsabilizar esses profissionais, pois é óbvio que o Es- tado não oferece condições para a efetivação dessas medidas. Não se faz muita coisa com competência profissional sem condição ob- jetiva de trabalho e sem recursos financeiros. Como uma escala de 4 a 5 educadores vai trabalhar com 50 a 60 meninos, que cada dia aumenta o número deles [...] (FROTA, 2007, p. 54)? SUMÁRIO 138 Eugenia e Direitos Humanos O trabalho de pesquisa de Frota (2007), Entre o pavilhão e o inferno: trajetórias de meninos infratores no CEDUC/Pitimbu, re- mete a uma realidade dura e sem maquiagem da importância que essas vidas descartáveis ocupam nas agendas governamentais e como esse pouco ou quase nenhum valor se expressa no trata- mento que lhes é dispensado nessas instituições teoricamente cri- adas para recuperá-los: “[...] pavilhões cheios de jovens e adoles- centes enjaulados [...] A precariedade da estrutura física [...] As pa- redes sujas e a encanação quebrada [...]. Havia um odor insuportá- vel” (Ibid. p. 42-43). Esse cenário descrito pela autora remete a uma herança institucional onde “[...] o problema do “menor” só era reconhecido como tal pelo Estado, na medida em que afetava (ou podia afetar) a ordem pública pela violência ou criminalidade [...]”, sendo ado- tadas medidas numa perspectiva de contenção ou prevenção à manifestação de fenômenos considerados prejudiciais ao projeto societário que tinha como pano de fundo o modelo de “desenvol- vimento com segurança nacional” (VOGEL, 2011, p. 300). Trata-se da política adotada pelo Estado antes e durante o período ditatorial, através do Serviço de Assistência ao Menor (SAM)22, caracterizado pela adoção de práticas repressivas e da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM)23, cujo 22 O Instituto Sete de Setembro é transformado em Serviço de Assistência a Me- nores - SAM – em 1941 (Decreto-lei n. 3.799, de 5 de novembro de 1941), tendo sua competência redefinida em 1944 (Decreto-lei n. 6.865). Tem por finalidade prestar aos menores desvalidos e infratores das leis penais, em todo o território nacional, assistência social sob todos os aspectos. Investigar os menores para fins de internação e ajustamento social, abrigar e distribuir os menores pelos estabelecimentos e estudar as causas do abandono eram algumas das suas com- petências. Estava vinculado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores e ar- ticulado aos Juízos de Menores. Nos anos 1960 é duramente criticado, especial- mente pela imprensa e pelo Parlamento, sendo extinto em 1964, quando é subs- tituído pela FUNABEM. Para maiores aprofundamentos ver legislações ante re- feridas e o texto de Faleiros (2011) que consta em nossas referências. 23 A FUNABEM foi instituída pela Lei n. 4.513/64. Como órgão central e de caráter normativo, era subordinada à Presidência da República, sendo responsável, entre outras competências pela formulação e implementação da SUMÁRIO 139 Eugenia e Direitos Humanos campo de trabalho se voltava prioritariamente ao menor desassis- tido e o menor de conduta antissocial, com ênfase na “reintegração no ambiente familiar” (Ibid., 2011). Com a extinção da FUNABEM, as medidas socioeducativas aplicadas pelo Poder Judiciário aos adolescentes autores de atos infracionais passam a ser executadas em conformidade com o que preconiza o ECA, inegavelmente uma conquista de toda a socie- dade e que contou com a militância em favor da causa da infância, a exemplo de entidades como o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), consagrando-se a “doutrina da pro- teção integral”, o que não significa que superamos todas as dificul- dades quando o assunto é violência institucional cometida contra adolescentes em conflito com a lei, mas que temos uma trajetória de lutas e conquistas nesseterreno e que conseguimos inserir na pauta governamental reivindicações importantes e estabelecer parâmetros nacionais de atendimento nesse segmento, com status de política pública. Das propostas que emergiram evidencia-se, como aponta Faleiros (2011, p.33) [...] a relação Estado/ sociedade como um processo de articulação e confronto do econômico e do político, do privado e do público, do poder clientelista/ autoritário e do movimento pelos direitos de cidadania nas relações de hegemonia que foram se construindo de acordo com os blocos no poder [...]. Política Nacional do Bem-Estar do Menor e o repasse de recursos. Considerava residir o “bem-estar do menor” no atendimento de uma série de “necessidades básicas”, a saber – “saúde, amor, compreensão, educação, recreação e segurança social”. A partir da FUNABEM, foram criados em nível local as Fundações Estaduais do Bem-Estar do Menor (FEBEMs), organismos estaduais (FUNABEM, 1976, apud VOGEL, 2011, p. 294). SUMÁRIO 140 Eugenia e Direitos Humanos O desafio atual se expressa na luta dos movimentos da so- ciedade civil organizada e de representações legitimamente insti- tuídas na defesa intransigente pela manutenção das conquistas dos direitos já contemplados no ordenamento jurídico voltados à criança e ao adolescente, em especial ao adolescente autor de ato infracional. Para esse último, de acordo com o senso comum ex- presso no discurso incendiário que incita a violência, o debate tem se concentrado na questão da maioridade penal, com proposta de reduzir de 18 para 16 anos a idade mínima para que um indivíduo seja considerado imputável. Essa propositura na atual conjuntura tem ganhada fôlego e conquistado novos adeptos, inclusive sendo mencionado no plano de governo do atual presidente eleito em 2018, Jair Messias Bolsonaro; o que reacendeu a polaridade de vi- sões e estratégias em conflito: de um lado um bloco que defende o diálogo, a negociação e as medidas educativas, no outro extremo estão aqueles que defendem a punição com privação de liberdade no Sistema Prisional a partir dos 16 anos e não aos 18, como ocorre atualmente. A parcela da sociedade que levanta a bandeira da redução da maioridade penal, a qual se vincula o atual presidente da Repú- blica Federativa do Brasil, se articula a “visão jurídica repressiva e moralista” presente nos Códigos de Menores de 1927 e de 1979, que apesar de superada se reatualiza e representa uma ameaça aos direitos duramente conquistados, fazendo emergir como solu- ção para o problema da prática de atos infracionais cometidos por adolescentes respostas aparentemente resolutivas, mas que na verdade demonstram a ausência de habilidade política dos nossos representantes governamentais em aprofundar o debate acerca dos reais determinantes da violência (e sua estreita relação com o problema da miséria e da infância abandonada), além de suas for- mas de controle e erradicação. O Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 171/ 93, que trata da matéria sobre a redução da maioridade penal, já foi apro- vado na Câmara dos Deputados em 2015 e, atualmente, aguarda a SUMÁRIO 141 Eugenia e Direitos Humanos apreciação pelo Senado Federal, alterando o Artigo 228 da Consti- tuição Federal. Para o jurista Ariel de Castro Alves24 (ex-inte- grante do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adoles- cente, CONANDA) com essa mudança os adolescentes “perderão qualquer perspectiva de reeducação ao serem enviados ao Sis- tema Prisional”. E acrescenta: “Teremos criminosos juvenis sendo profissionalizados na criminalidade dentro de um Sistema Prisio- nal falido”. Ao negar saúde, educação, moradia digna, cultura, esporte e lazer a crianças e adolescentes; emprego, renda e oportunidades a suas famílias o Estado viola direitos constitucionais e pactos in- ternacionais já consagrados e, quando propõe que esses adoles- centes sejam precocemente enviados ao falido sistema carcerário reitera essa omissão, atentando contra os direitos fundamentais desse segmento etário. Nossa defesa é pela não aprovação da PEC 171/ 93, não porque defendamos a não responsabilização pela prática de atos infracionais cometidos por adolescentes, mas por acreditarmos firmemente no fracasso da substituição da socioeducação ou ado- ção de medidas de caráter pedagógico e de inclusão social pela pura e simples punição. Se há o consenso de que aquilo que apren- demos quando estamos em fase de desenvolvimento repercute nas nossas ações futuras, no tipo de cidadãos que iremos nos transformar, não seria darmos um “tiro no pé” não investirmos com auxílio de metodologias educacionais e sócio inclusivas na re- cuperação desses indivíduos? 24 Para ter acesso à entrevista com Ariel, realizada pelo Promenino (Projeto da Fundação Telefônica Vivo, ativo entre 2003 e 2016, que visava contribuir para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes e erradicar o trabalho infantil.) sobre o que classificou como mitos da redução da maioridade penal, acessar o link http://fundacaotelefonica.org.br/promenino/trabalhoinfantil/noticia/especia listas-lamentam-aprovacao-da-pec-17193-e-desmistificam-a-reducao-da- maioridade-penal/. A matéria foi publicada em 30/11/2016. Nosso acesso: 22/11/2019. http://fundacaotelefonica.org.br/promenino/trabalhoinfantil/noticia/especialistas-lamentam-aprovacao-da-pec-17193-e-desmistificam-a-reducao-da-maioridade-penal/ http://fundacaotelefonica.org.br/promenino/trabalhoinfantil/noticia/especialistas-lamentam-aprovacao-da-pec-17193-e-desmistificam-a-reducao-da-maioridade-penal/ http://fundacaotelefonica.org.br/promenino/trabalhoinfantil/noticia/especialistas-lamentam-aprovacao-da-pec-17193-e-desmistificam-a-reducao-da-maioridade-penal/ SUMÁRIO 142 Eugenia e Direitos Humanos 4. Medidas Protetivas de Atendimento a Crianças e Adoles- centes em Situação de Violência Sexual: o recente desenho das políticas sociais brasileiras O fenômeno da violência sexual contra crianças e adoles- centes não é considerado algo novo, sendo especialmente a partir da Modernidade que se inaugura um novo sentimento de infância, quando a criança passa a ser tratada com uma singularidade não antes experimentada. O que destacaríamos como recente é a es- truturação de estratégias para o enfrentamento dessa problemá- tica, tanto no que se refere ao arcabouço legal quanto ao estabele- cimento de medidas efetivas de ação e amadurecimento da socie- dade para enfrentar o debate, muitas vezes reduzido a problema de foro íntimo. Nesse caminhar, tardio e indiscutivelmente urgente, me- rece destaque a promulgação do ECA, a criação dos Conselhos Tu- telares como órgãos instituídos para zelar pelo cumprimento dos direitos desse segmento etário, em 1990 e, dez anos depois, no ano 2000, do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual In- fanto Juvenil25. A partir da instituição desse Plano Nacional, o País vivencia uma série de avanços importantes na área do reconhecimento e en- frentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Esse instrumento tornou-se referência e ofereceu uma síntese metodológica para a estruturação de políticas, programas e servi- ços para o enfrentamento à violência sexual (CONANDA, 3013, p. 3). 25 Esse Plano Nacional é reatualizado posteriormente e, após o seu processo de revisão passou a se chamar, a partir de 2013, Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. SUMÁRIO 143 Eugenia e Direitos Humanos Alicerçado no Plano Nacional, o Brasil vivencia uma série de avanços importantes no enfrentamento à violência sexual con- tra crianças e adolescentes e, na esteira desses avanços, tivemos a criação, em 2001, do Programa Sentinela, que tinha como objetivo [...] atender, no âmbito da Política Nacional de Assistência Social (PNAS), crianças e adolescentes vitimadospela violência com ên- fase no abuso e exploração sexual, por meio de um conjunto arti- culado de ações, bem como criar condições que possibilitem às crianças e aos adolescentes e suas famílias, o resgate e a garantia dos direitos, o acesso aos serviços de assistência social, saúde, educação, justiça e segurança, esporte, lazer e cultura, guardando compromisso ético e político e primando pela multidisciplinari- dade das ações (NEPEM/UFMG, 2006, p. 2). Com a criação e consolidação do Sistema Único de Assistên- cia Social (SUAS26), a partir de 2005, o Sentinela passa de um pro- grama para um serviço ou ação continuada desenvolvida pelos 26 O Sistema Único de Assistência Social, SUAS, organiza-se considerando dois níveis de proteção, quais sejam: Proteção Social Básica e Proteção Social Especial. A Proteção Social Básica oferta um conjunto de serviços, programas, projetos e benefícios da Assistência Social que visa prevenir situações de vulnerabilidades e riscos pessoais e sociais, por violação de direitos, por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições e do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. O Centro de Referência da Assistência Social – CRAS é a unidade pública estatal, descentralizada, responsável pela organização e oferta de serviços de Proteção Social Básica. A Proteção Social Especial (PSE) organiza a oferta de serviços, programas e projetos de caráter especializado, que tem por objetivo contribuir para a reconstrução de vínculos familiares e comunitários, o fortalecimento de potencialidades e aquisições e a proteção de famílias e indivíduos para o enfrentamento das situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, tais como: violência física, psicológica, negligência, abandono, violência sexual (abuso e exploração), situação de rua, trabalho infantil, práticas de ato infracional, fragilização ou rompimento de vínculos, afastamento do convívio familiar, dentre outras. O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) é a unidade pública e estatal de abrangência municipal ou regional. Oferta, obrigatoriamente, o Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos – PAEFI (Fonte: Orientações Técnicas: Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), disponível no link SUMÁRIO 144 Eugenia e Direitos Humanos Centros de Referência Especializados da Assistência Social - CREAS. Apesar dos problemas detectados nesse programa, como por exemplo a precariedade dos vínculos de trabalho; a oferta de um serviço de atendimento especializado como o Sentinela, repre- sentou “um refúgio” ou um ponto de apoio na vida de muitas famí- lias atendidas (Ibid., 2006). Em se tratando de legislação, especial destaque para a Lei 12.015/ 2009. A partir deste dispositivo, o crime de estupro passa a ser qualificado como qualquer ato libidinoso e contra qualquer pessoa, seja sujeito passivo ou ativo, seja do sexo masculino ou fe- minino, diferentemente do que acontecia antes desta lei quando vigorava a separação entre estupro e atentado violento ao pudor e excluía os homens enquanto vítimas potenciais dos crimes sexu- ais, nos termos dos revogados Artigos 213 (sobre estupro) e 214 (sobre atentado violento ao pudor) do Código Penal brasileiro: Ar- tigo 213: “Constranger mulher à conjunção carnal, mediante violên- cia ou grave ameaça”; Artigo 214: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal”. A partir das inovações do dispositivo ante expresso, os crimes de estupro e atentado violento ao pudor são unificados, passando a vigorar no Artigo 213 transcrito da Lei 12.015/ 2009, que alterou o Código Penal brasileiro, a seguinte redação: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos. § 1º Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos: Pena – reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos. § 2º Se da conduta resulta morte: Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos. http://aplicacoes.mds.gov.br/snas/documentos/04-caderno-creas-final- dez..pdf. Acesso em 06.01.2020. http://aplicacoes.mds.gov.br/snas/documentos/04-caderno-creas-final-dez..pdf http://aplicacoes.mds.gov.br/snas/documentos/04-caderno-creas-final-dez..pdf SUMÁRIO 145 Eugenia e Direitos Humanos A criança e o adolescente vítimas de violência sexual tem lu- gar demarcado nas políticas sociais no Brasil, com especial desta- que para as políticas de Assistência Social e Saúde como as que mais avançaram na matéria. Inquestionavelmente, o lugar do cui- dado e da proteção podem ser identificados tanto em matéria do que se construiu nas últimas décadas no campo regulatório, quanto na implementação de políticas, programas, ações e servi- ços de diferentes naturezas e abrangências. É possível vermos um esforço das instituições governamentais e não governamentais e da sociedade civil organizada em pautar a causa da infância, ape- sar dos inúmeros problemas existentes. 5. Considerações finais Nesse texto, o leitor é convidado a refletir acerca de como o Estado brasileiro tem tratado os autores de atos infracionais ou dos crimes sexuais contra crianças e adolescentes e sobre como este ente tem desenhado as políticas sociais responsáveis pela oferta de serviços e ações protetivas direcionadas ao grupo etário aqui tratado, crianças e adolescentes, quando estes estão na con- dição de vítimas desses crimes sexuais; especialmente a partir da Constituição Federal de 1988, marco histórico na construção de um novo paradigma para as políticas sociais no Brasil, com o Es- tado assumindo, do ponto de vista normativo, o protagonismo no financiamento de direitos humanos e sociais, rompendo com con- cepções de caráter assistencialista e clientelista ou, pelo menos, se engajando nessa direção. A última década do século XX e as primeiras do século XXI foram marcadas por mudanças legislativas importantes, que alia- das a ações como as diversas campanhas de sensibilização siste- máticas das quais é emblemática o “18 de maio” – Dia Nacional de Luta Contra a Exploração e o Abuso Sexual - e, a criação do serviço de disque denúncia nacional gratuito – Disque 100 – ajudam a combater esse tipo de violência e manter a sociedade em alerta SUMÁRIO 146 Eugenia e Direitos Humanos sobre a necessidade de investirmos em estratégias de cuidado e de proteção para nossos meninos e meninas. Entre a prioridade absoluta, expressa como princípio pelo ECA, e a realidade concreta de uma criança que chega, por exem- plo, a um serviço de saúde, vítima de estupro ainda persistem problemáticas como profissionais despreparados, infraestrutura precária, desrespeito ao sigilo tão importante nesses casos e a desarticulação dos atores da Rede de Cuidado e de Proteção So- cial; todavia, o lugar da “vítima” avançou para patamares mais humanizados com a construção de uma legislação específica e uma política de atendimento especializada, ao passo que o lugar do “agressor” continua estagnado, recaindo sobre este nada além da sentença condenatório, da segregação social e do desejo, ve- lado ou explícito, de vingança. O sistema carcerário brasileiro, aliado à ausência de uma política séria de investimento na socioeducação tem se apresen- tado como desafio ao cumprimento do papel social da privação de liberdade, hegemônico aos que defendem a prisão como forma de reparação social e mecanismo de recuperação/ resso- cialização do indivíduo dito infrator. Referências BRASIL. Lei n. 12.015 de 07 de agosto de 2009. Código Penal Brasileiro. Dispo- nível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compi-lado.htm. Acesso em 22 ago. 2019. BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Estatuto da Criança e do Adoles- cente (ECA). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cci- vil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 4.ago.2019. CONANDA. Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crian- ças e Adolescentes. Maio, 2013. Disponível em: http://www.cri- anca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/sedh/08_2013_pnevsca.pdf. Acesso em: 06 jan. 2019. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%208.069-1990?OpenDocument http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/sedh/08_2013_pnevsca.pdf http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/sedh/08_2013_pnevsca.pdf SUMÁRIO 147 Eugenia e Direitos Humanos COSTA JÚNIOR, J. S. Os corpos violados e as vidas nuas em “Pixote, a lei do mais fraco”. In: RIBEIRO, L. R. et al. Ciência ou política de controle sobre vidas? João Pessoa: UFPB, 2019. FALEIROS, V. P. Infância e processo político no Brasil. In: RIZZINI, I.; PILOTTI, F. (org.). A arte de governar crianças: a história das políticas sociais, da legisla- ção e da assistência à infância no Brasil. 3. ed. 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Propostas e vicissitudes da política de aten- dimento à infância e adolescência no Brasil contemporâneo. In: RIZZINI, I.; PI- LOTTI, F. (org.). A arte de governar crianças: a história das políticas sociais, da legislação e da assistência à infância no Brasil. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2011. p. 287-321 http://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/pesquisas/documentos/PainelPEI/Publicacoes/Estudo%20Qualitativo%20Sentinela_setembro%202006.pdf http://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/pesquisas/documentos/PainelPEI/Publicacoes/Estudo%20Qualitativo%20Sentinela_setembro%202006.pdf http://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/pesquisas/documentos/PainelPEI/Publicacoes/Estudo%20Qualitativo%20Sentinela_setembro%202006.pdf SUMÁRIO 148 Eugenia e Direitos Humanos AÇÃO, CULPA, PENITÊNCIA Um estudo sobre produção e descarte de corpos ditos abjetos Luziana Ramalho Ribeiro Vinicius César de Moura Santana Fábio Firmino de Araújo 1. INTRODUÇÃO Nesse texto discutiremos a construção dos processos de normalização e normatização dos corpos (cf. FOUCAULT, 2011; 2002; 2008a; 2008b; 2006) sejam eles vistos a partir do viés/per- formance do sexo ou sexualidade; raça; etnia; crença; aquisição e exposição aos capitais culturais e simbólicos (cf. BOURDIEU, 2002); território que ocupam e função social que desempenham. Abordaremos a emergência e recorrente processo de in- venção, aparição e negação do corpo (cf. BUTLER, 2002; LOURO, 2004). Não trataremos de modo amiúde cada uma das variáveis antes mencionadas, mas problematizaremos de modo holístico (CAPRA, 1982) como esses indicadores estão cada vez mais pre- sentes nas práticas do Estado que pelo uso biopolítico do monito- ramento estatístico nos trazem um quadro de seletividade dos corpos ditos abjetos. Não é possível esquecer o papel do mercado, ao assimilar ou expurgar certos indivíduos pela via do consumo e da construção de subjetividades que podem ser utilizadas como filtro nas relações sociais em geral e, especificamente como ferra- mentas de discursos de ódio nas chamadas redes sociais. SUMÁRIO 149 Eugenia e Direitos Humanos As questões norteadoras desse artigo são: qual a relação entre o mito da liberdade individual e a relação com a ordem posta? Toda ação pressupõe reprodução social e, está sujeita à crítica/en- quadramento cultural vigente? Quais corpos e como são atingidos pelas roldanas da abjeção? O texto tem como nível uma pesquisa mista, com delineamento de ser documental, bibliográfica e de levantamento (cf. MINAYO, 1994). Contamos com a parceria da Secretaria de Segurança e De- fesa Social da Paraíba. Essa bricolagem de campos discursivos, academia e gestão da segurança pública, são uma escolha e aposta na construção dialógica da compreensão e quiçá a posteriore, de práticas que possam ser mais eficazes nas ações de políticas soci- ais voltadas à segurança pública. Enfim, apresentamos dados estatísticos relativo às violências no Estado da Paraíba e na grande João Pessoa, que é a capital desse estado. A série história corresponde aos anos de 2019 a março de 2021. 1. Das proibições e penitências “...é preciso ser íntegro nas coisas de espírito até as últimas con- sequências; estar acostumado a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo atual da política e do egoísmo dos povos; e, finalmente, ter-se tornado indiferente e jamais per- guntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Neces- sária é também uma inclinação para enfrentar questões que nin- guém hoje se atreve a elucidar; inclinação para o proibido; pre- destinação para o labirinto. É preciso que se tenha a experiência das sete solidões.” (NIETZSCHE, O AntiCristo). A Gênese bíblica (sabidamente apropriada pelo catoli- cismo apostólico romano, ao absorver o cristianismo primitivo e nele imprimir sua cosmovisão) nos traz uma aproximação à Torá judaica, de modo mais preciso nos interessa desse mito fundante da nossa ética e, logo princípio precípuo de toda ação social, recu- SUMÁRIO 150 Eugenia e Direitos Humanos perar a idílica narrativa sobre o jardim do Éden. Assim, ao cons- truir a terra, a água, a fauna (vista estritamente como os animais não humanos) e a flora, o Criador entendeu ser necessário dar vida a um tipo de fenômeno que pudesse desfrutar e refletir, admirar a criação, decidido produziu o homem. Contudo, ao observá-lo se apiedou da sua solidão e decidiu criar uma companhia, entreteni- mento para o homem, então fez a mulher. Portanto, a lógica desse processo construtivo diz que o homem é a imagem e semelhança de Deus. Entregou o criador toda a terra ao usufruto do casal, mas com a advertência de que não poderiam jamais tocar no fruto da árvore da sabedoria. Nesse momento a narrativa começa a sua fuga estética do idílico para o trágico, pois a obra secundária (as- sim metaforizada naquele documento, a saber a mulher) age de modo inesperado para um ser que foi criado com vistas à submis- são e repetição do já estabelecido, Eva dialoga com a serpente (não por acaso um símbolo ao nosso ver muito mais fálico do que ligado à ideologia da perfídia feminina como comumente é tratada em outros estudos), essa a estimula a comer o fruto proibido, enfim Eva convence a Adão a também provar o fruto, homem e mulher o devoram e descobrem que a primária interdição dizia respeito à descoberta de que para além de fenômenos idealísticos, eles eram primeiramente e escandalosamente corpos morfologicamente di- ferentes e complementares. Eis ochoque fundante de nos desco- brirmos carne e desejo! Essa História contada, revificada, imposta e naturalizada em milênios de formação cultural nos remete à primeira questão desse texto qual a bricolagem entre o mito da liberdade individual e a relação com a ordem posta? Temos o paraíso ao nosso alcance, logo somos livres para desfrutá-lo, contudo, a liberdade é um es- pectro disforme, livre até que... ou, livre considerando que se obe- deça à ordem posta. SUMÁRIO 151 Eugenia e Direitos Humanos A liberdade é faca de dois gumes, solta mas, atrela à uma corrente elástica que puxa de volta o objeto que momentanea- mente se expandiu. A discussão central nesse momento é a problematização do papel do conhecimento, pois segundo Nietzsche (2003; 2009; 2006; 2005), o conhecimento tem dois usos possíveis o saber (como desvelamento do oculto, de tramas, de engrenagens) e po- der (a partir da “iluminação” pode se tornar um meio de assujei- tamento de outrem). No mito fundante do Éden temos três elementos a serem considerados liberdade/tentação-desejo, proibição/ação e peni- tência. Após se descobrirem corpos adão e Eva são interpelados e se veem condenados imediatamente a viverem doravante do suor do seu trabalho, a sofrerem as agruras que a consciência de ser corpo-carne lhes infligirá. Essa condenação é estendida ao infinito quando do vati- cínio aos deserdados filhos de Eva, “que gemendo e chorando de- verão atravessar o vale de lágrimas” que é a existência. O silo- gismo “penso, logo existo” do cartesianismo pode ser lido assim, penso me percebo, me compreendo diferente do outro, sou devo- rado pelo desejo de ser o não presente em mim. Assim, a queda primária da desobediência motivada pela curiosidade, que foi caricaturizada na figura do pecado original, encontra na literatura clássica, notadamente em Dostoiéviski a re- troalimentação da tríade liberdade, desejo, castigo. Para Martins (1962), Dostoiévisk é precursor de Freud ao problematizar a rela- ção entre indivíduo (livre-arbítrio); inconsciente (desejo); Cristo (tabu- interdição). Portanto o conjunto da obra do referido autor traz como fio condutor, que tece a trama das suas personagens, a triangulação entre ação-culpa; arrependimento-expiação e, reab- sorção ou não ao mundo dos normais. A tensão primária de toda a sociabilidade é a relação entre o livre arbítrio e as consequências da escolha, a luta entre o bem e o mal, que de modo maniqueísta tem sido utilizado nas “didáticas SUMÁRIO 152 Eugenia e Direitos Humanos de produção de humanidade” e que nos joga nos abismos da cons- ciência de culpa e nos impele a agir buscando o extermínio de nós mesmos (suicídio) ou de outrem (assassinato). A perfectibilidade da criação humana, pois que feita à imagem e semelhança de Deus desnuda o discurso inaudito, mal- dito que grita: se era perfeito como transgrediu? Como dissemos há um corte estético no mito fundante que está associado à passagem do idílico para o trágico e, ao nosso ver cinde qualquer pretensão de crença na liberdade do indivíduo. Liberdade como um princípio fundante e ético, é culturalmente ensinada e permitida como engrenagem de limitação da realiza- ção do desejo. 2. EXISTIR É TRANSGREDIR? “Muitas coisas que um povo chamava boas eram para outros ver- gonhosas e desprezíveis; foi o que vi. Muitas coisas, aqui qualifi- cadas de más, em outro lugar as enfeitavam com o manto de púr- pura das honrarias. Nunca um vizinho compreendeu o outro; sem- pre a sua alma se assombrou da loucura e da maldade do vizinho. Sobre cada povo está suspensa uma tábua de bens. E vede: é a tá- bua dos triunfos dos seus esforços; é a voz da vontade de potência. É honroso o que lhe parece difícil; o que é indispensável e difícil chama-se bem... “ (NIETZSCHE, Assim falou Zaratustra). Dialogando com nossa segunda questão: Toda ação pres- supõe reprodução social e, está sujeita à coerção cultural vigente? A epígrafe anterior nos mostra que sim, de fato, existir no sentido de ter-se autoconsciência do corpo morfofisiológico que apresen- tamos; ter consciência ou pelo menos deixar fluir o desejo e, assim podendo ou não performá-lo (cf. BUTLER, 2016), nos leva a uma encruzilhada que nos ameaça com o enigma: nosso corpo físico e mental é uma mônada apta à ação? Essa ação ou o contínuo dela deve está imbricada às repercussões do movimento, ou seja, agir é fatalmente responder por tal? Cremos que sim. SUMÁRIO 153 Eugenia e Direitos Humanos Os gregos pregaram a maior peça ao que chamamos de cultura, como um princípio que tece a ordem, a evolução e o pro- gresso. Aquela civilização criou e fez circular tipos ideais de fun- damentos como belo; bom; justo; democrático, mas concomitan- temente a isso se estruturava como uma organização hierárquica, classista, escravagista e de dominação, é um roteiro shakespeari- ano “ser ou não ser, eis a questão!” ou, bem aquela sociedade era ideal ou, nós ainda rezamos para um totem de barro. Nossas ações são sempre, pelo menos no campo simbó- lico, conduzidas pelo imperativo categórico, se não consciente- mente afeito à tríade: quero? Posso? Devo?, com certeza estamos sempre atrelados ao mito fundante da liberdade, proibição e cas- tigo. A cena atual, especialmente nesse momento de pandemia nos faz pensar que de fato o engodo da livre ação e pensar se des- pedaçaram em micropartículas que não temos ainda tecnologia e nem ligas suficientes, para nos trazer de volta a ideologia da liber- dade e segurança. Nem o mais básico dos direitos do corolário mo- derno (ir e vir) está possível... Nunca foi tão real e amplamente posto em movimento o paradigma bhentaniano, a saber o panop- tismo (FOUCAULT, 1982), a sociedade de vigilância é o anátema do século 21. E o clímax dessa realidade é a retroalimentação de teses eugenistas que se desenrolam nas práticas de higienismo e sanitarismo, mesmo que isso custe a interdição das liberdades in- dividuais e, muito raramente vemos ações específicas e eficazes das práticas de Estado buscando assumir e gerir de modo preven- tivo e curativo a real ameaça biológica que ora se impõe à raça hu- mana. A via mais usual tem sido a do controle imediato das ações dos indivíduos. Sendo assim, nem o indivíduo, nem muito menos as práticas de estado têm em foco uma problematização do modus operandi de viver e a partir daí uma tomada/guinada dos padrões de ação social que nos remeteriam a novas formas de sociabili- dade nas quais a nossa violência e virulência social e em relação à dita natureza fosse menos impactante do ponto de vista negativo. SUMÁRIO 154 Eugenia e Direitos Humanos Ao contrário, em detrimento do genocídio provocado pe- las mortes violentas (mortes físicas), das mortes sociais (lincha- mentos virtuais), mortes psicológicas (violências ligadas à sexua- lidade ou sexo), vemos o florescimento do recrudescimento da descartabilidade e precarização das vidas consideradas inúteis. Nem o Estado, nem a sociedade e, muito menos o indivíduo se mostram sensíveis grosso modo, a uma valorização do que não seja mero reflexo do si mesmo. Hedonismo, sadismo e perversão são o tônus das práticas de sociabilidade desse chocoso começo de século 21. Portanto, o quadro apocalíptico que vivenciamos no co- meço do século 21, nessa segunda década, nos revela que não obs- tante a força da régua platônica, apontando sempre para o devir, como evolução/progresso, encontramos não raro em nossa socie- dade exemplos de transgressão. Transgressão individual; social, das práticas de Estado; de sistemas de crenças (religiões); especi- almente, as transgressões realizadas e legitimadas pela ciência e que dão o tônus da marcha do progresso. Assim, a violência grassa (MUNCHEMBLED, 2014) nas ações de automutilação (suicídio); de mutilação dos outros (assassinatos); de extermínio de segmen-tos (realizado pelas práticas de Estado); de constituição de abje- ções e defesa da exclusão dos considerados perigosos (religiões); das teses que sustentam e irradiam ideários de pureza e práticas de eliminação da diferença tida como desvio e contravenção. A vida é um quadro de enquadramentos surreais onde a cada lance do olhar uma nova fresta se abre e nos apresenta/mi- metiza o espetáculo da desordem, e num ciclo de aporias ficamos circulando em torno de um eixo que propõe a ordem e assimilação (pelas vias do exame, registro e tratamento dos chamados diferen- tes) e, ao mesmo tempo construindo e descartando as subjetivida- des, que agora sim, mais do que nunca são produzidas e geridas (relação valor de uso e poder de compra) pelo mercado. A epifania desse item pode ser compreendida, mas não justificada, pela tese freudiana acerca da pulsão de morte (cf. SUMÁRIO 155 Eugenia e Direitos Humanos FREUD, 1977) desse modo, entendemos que toda ação praticada pelo ou sobre o humano é um ato de transgressão, contra si ou contra o outro. A violência nunca foi tão usual, ela age entre e pe- los homens. 3. DAS ENGRENAGENS: os tipos usáveis e os descartáveis “Sempre que se quis “melhorar” os homens: sobretudo a isso cha- mava-se moral. Mas sob essa mesma palavra se escondem as ten- dências mais diversas. Todo amansamento da besta-homem como o cultivo de uma determinada espécie de homem foram chamados de “melhora”: somente esses termos zoológicos (...) chamar a do- mesticação de um animal sua “melhora” é, aos nossos ouvidos, quase uma piada. Ela é enfraquecida, tornada menos nociva; me- diante o depressivo afeto do medo, mediante dor, fome, feridas...” (NIETZSCHE, Crepúsculo dos deuses). A epígrafe nos remete ao tônus dessa obra a saber a euge- nia, as práticas eugenistas tendo sido apropriadas e largamente utilizadas nas ações biopolíticas de controle social pelo cunho das estatísticas, nos acenam para a necessária crítica ou no mínimo denúncia do fracasso das políticas sociais no enfrentamento das nuances da questão social (cf. PASTORINI, 2004), notadamente no campo das violências sociais. A questão social é o marco central da sociabilidade mo- derna, pois retroalimenta e aprofunda cada vez mais as desigual- dades sociais, gerando a escalada da miséria, a estigmatização e, as exclusões (inclusive literalmente pela via da morte física, po- dendo ser legal -pena de morte- ou exercida em larga escala, mas não admitida formalmente como temos o quadro de genocídio de jovens, pobres, pretos, periféricos dentre outros segmentos no Brasil que são vitimados pela morte violenta dos segmentos con- siderados inúteis à lógica capitalista (cf. WACQUANT: 2005; 2015;2008. E, BAUMAN:2005; 1999a; 1999b). Nesse sentido, problematizando a última questão desse texto Quais corpos e como são atingidos pelas roldanas da abjeção? Na SUMÁRIO 156 Eugenia e Direitos Humanos sequência apresentaremos exemplos de dados estatísticos que mapeiam as formas de violências vivenciadas no Estado da Para- íba e, especificamente na região metropolitana de João Pessoa a capital do referido estado. Conforme vemos há uma tendência de escalada das mor- tes no Estado da Paraíba e, esse fato corrobora as tendências na- cionais (cf. CERQUEIRA, 2020). SUMÁRIO 157 Eugenia e Direitos Humanos No gráfico anterior e no imediatamente subsequente, te- mos a distribuição das ocorrências e vemos que há uma alta con- centração em João Pessoa, como região metropolitana, contudo concomitante e em níveis também altos temos em diferentes regi- ões do estado a profusão de assassinatos. O que demonstra práti- cas de uma sociabilidade de extermínio (cf. FREUD, 1977). Quanto ao instrumento utilizado para a prática do assassinato temos no gráfico anteiror (2020) e no seguinte SUMÁRIO 158 Eugenia e Direitos Humanos (2021), a prevalência da arma de fogo, que não estranhamente, tem sido defendida como uma estratagema de defesa pessoal e segurança social pelo atual governo federativo do Brasil (DERETO n. 10.630, 12/02/2021). É fato contínuo o entendimento de que uma política cultural e jurídica de flexibilização e fomento à compra de armas desnuda uma arquitetura social que defende, apoia e retroalimenta práticas disseminadas de violência, a questão para nós nesse texto é problematizar os artifícios discursivos e éticos que mobilizam tais ações e, antes de qualquer coisa, pensar /provocar a reflexão sobre quais são os indivíduos ou grupos que se tornam passíveis de serem atingidos por essa violência estrutural? SUMÁRIO 159 Eugenia e Direitos Humanos Quanto á variável sexo (nos graficos de 2020 e 2021), a utilizamos aqui tão somente ao respeitar o primado positivista e binário que infelizmente ainda dita as regras das variáveis em pesquisas de orgãos oficiais (tais como na saúde, moradia, geração de emprego-renda, violência, dentre outras realizadas por orgãos oficias das práticas de Estado no Brasil. Por óbvio nesse texto e em todo o livro, nossa postura epistemológica, ética e estética é contrária a toda metodologia binária. Os gráficos que seguem à variável sexo, a saber a faixa etária das vítimas de CVLI nos anos de 2020 e 2021, trazem à tona como temos visto, desde 2002 com o sugimento do Mapa da Violência (Instituto de Pesquisa Aplicada/Ministério da Saúde) o desvelamento de que o século 21 se instaura com um franco processo e, ao que supomos projeto, eugenista de extermínio da população masculina, jovem, preta, periférica (cf. BAUMAN:2005; 1999a; 1999b). SUMÁRIO 160 Eugenia e Direitos Humanos SUMÁRIO 161 Eugenia e Direitos Humanos SUMÁRIO 162 Eugenia e Direitos Humanos Nesse momento do texto o dado construído e aqui apresentado nos elucida sem margem de dúvidas o quadro de eugenia aplicada a corpos não brancos, exterminamos quase 100% de indivíduos distribuidos sob a mimese racial da cor parda. Numa sociedade que se consolidou economicamente com a expropriação do trabalho escravo, chegamos ao século 21 arrastando as correntes e cordas da Idade Média, mostrando que os “abjetos” (pretos/africanos e seus descendentes) de produção do passado, foram mimetizados em vidas precárias no presente (cf. BUTLER, 2002). SUMÁRIO 163 Eugenia e Direitos Humanos O extermínio por femicídio ou feminicídio (cf. DIAS; RI- BEIRO, 2020) tem se apresentado de forma recorrente e até cons- tante. O chocoso é pensar que temos vários aparatos legais que vi- sam formalmente prevenir, inibir e punir tal tipo de violência, a saber contra a mulher, contudo é preciso sobre esses dados colo- car uma lupa teórico metodológica que visibilize a cultura da vio- lência que tem por meio didático construir as sociabilidades clas- sificando e hierarquizando as relações entre o que se convencio- nou diferenciar homem e mulher (cf. BUTLER, 2006). Assim, como vimos no item 1 desse artigo a caricatura da mulher é atrelada à leviandade e à responsabilização pela queda primária. A violência contra a mulher em nossa sociedade ainda persiste como um dos traços mais fortes da constituição da ambi- valência diferencial entre os sexos que não só é usada para moldar ações sociais, mas não raro também justificar a violência contra elas. Os próximos 4 gráficos nos apresentam a recorrência e pi- cos da violência contra a mulher no Estado da Paraíba. SUMÁRIO 164 Eugenia e Direitos Humanos SUMÁRIO 165 Eugenia e Direitos Humanos No tocante aos instrumentos utilizados para a prática da violência contra a mulher cabe destacar o uso de armas de fogo ou armas brancas com uma recorrência quase igual. A “familiaridade” entre a vítima e o praticante da violência, além do espaço domés- tico, podem elucidaro alto nível de utilização de arma branca (cf. DIAS, 2019). SUMÁRIO 166 Eugenia e Direitos Humanos Tudo isso sinaliza a perversidade humana, seja na ação de praticar a violência, esta realizada pelo homicida, ou seja na omis- são de não agir devidamente para que a violência não aconteça, essa praticada por alguns gestores públicos, ambos criminosos, ambos sem apreço pela vida do outro e agindo sempre em busca de poder e mais poder. Os números históricos da violência letal no Brasil de- monstram que o país sofre, de longa data, de uma total ausência de política pública de segurança destinada a preservar a vida das populações mais vulneráveis à violência homicida. Segundo o Atlas da Violência 2020 (CERQUEIRA, 2020) a nação acumulou um total 628 mil pessoas assassinadas de 2008 a 2018, com curva de ascensão até o pico de 65 mil assassinatos ocorrido em 2017, com crescimento acumulado de 32% desde 2002. Conforme o GLOBAL STUDY ON HOMICIDE (UNODC, 2019) o Brasil é um dos dois paí- ses mais violentos em todo o mundo, ao lado da Nigéria. Estas duas nações possuem cerca de 5% da população global, todavia, juntas possuem 28% de todos os homicídios do planeta (UNODC, 2019, p.22). Como já foi dito e é bem sabido, o alvo dessas ações e omissões são os homens, jovens, pobres, pretos, das regiões mais periféricas do país e de suas cidades, causando o genocídio dessa população. Tal catástrofe social guarda semelhança como outra tragédia humana que parece um assunto inevitável ao se falar do tema deste trabalho nos tempos atuais. A Pandemia da COVID-19 também pode ser considerada um genocídio, também atinge com muito mais força alguns países com políticas públicas ineficazes ou ausentes, e com condições so- ciais de pobreza, desigualdade, corrupção, inoperância e falências institucionais. Também se agrava diante de omissões de gestores públicos, apesar de não serem todos eles que puxam os gatilhos ou que retiram as máscaras das pessoas, em ambos os casos o pro- blema é a ação deles que passa a ideia de que se pode minimizar e SUMÁRIO 167 Eugenia e Direitos Humanos naturalizar as mortes, ora culpando socialmente o indivíduo pela violência, ora culpando o coronavírus pela sua virulência. A ação do vírus e da violência são distintos, em levanta- mento realizado junto ao Sistema de Informações de Mortalidade pela Secretaria Estadual de Saúde da Paraíba, no intuito de locali- zar as mortes por COVID-19 em 2020, verificamos que a causa do CID B34 apresentou o maior crescimento no ano passado (2020) em relação a 2019. E tal crescimento coincide exatamente com o período de início de vitimização pela Pandemia em 2020. SUMÁRIO 168 Eugenia e Direitos Humanos Diante deste recorte, podemos identificar o perfil de viti- mização do vírus na Paraíba e traçar o paralelo com a violência letal. Os homens correspondem a 56% das mortes pelo vírus e os pretos 66% do total, algo próximo à proporcionalidade da po- pulação. Todavia, deve ser considerada uma intensidade um SUMÁRIO 169 Eugenia e Direitos Humanos pouco maior nos percentuais destes dois grupos diante da mais precária oferta de ações em saúde pública e de comorbidades pre- sentes no sexo masculino, assim como de menor qualidade do acesso à saúde pública pela população preta. O ponto em que a violência letal e a mortalidade pandê- mica divergem é o fator da idade. Entre os mortos na Pandemia 75% tinham acima de 60 anos na Paraíba, enquanto os idosos re- presentaram apenas 4% das vítimas de CVLI na Paraíba em 2020. Os grandes tomadores de decisão do nosso país não são jovens nem idosos, mas diante do dilema de qual destes eles deve- riam proteger primeiro o que se percebe é que a escolha foi de não proteger ninguém. Ambas omissões partem de um pressuposto comum, o fato dessa mortalidade atingir o outro, e não doer na pele de quem exerce/tem o poder para minorá-la. Ao ser vista e mimetizada (a morte) como um problema “de vocês” e não de todos nós, o que faz pensar que nunca seremos atingido por não fazer parte deste ou daquele “grupo de risco”... O que escancara a pouca importân- cia e pouco valor dado à vida do semelhante, assim, há uma desva- lorização das vidas de todos nós. SUMÁRIO 170 Eugenia e Direitos Humanos 4. Considerações finais Como discutimos ao longo desse texto não obstante o ideário e engodo que a socialização dita racionalista propôs, nós não conseguimos divisar nas sociabilidades cotidianas, a engrena- gem da ordem, do progresso e nem da evolução como fins em si mesmos de melhora individual ou social. Ao contrário, quanto mais nos debruçamos sobre o século 20 e 21 mais percebemos e mapeamos as práticas de eugenia social sendo utilizadas quase que rigorosamente apenas para classificar, hierarquizar, excluir e não raro eliminar os corpos ditos dispensáveis. Nessa lógica de produção e descarte, temos como marco não meramente didático, o mito fundante do Éden e do pecado ori- ginal. Passamos pelo sistema de constituição do direito mo- derno e vimos que a relação entre crime e castigo, nos acena a par- tir do século 19 para a terapêutica da “dosimetria” da pena que do SUMÁRIO 171 Eugenia e Direitos Humanos ponto de vista dostoiévskiano mantém relação íntima com a tríade o indivíduo (quem é? É alguém reconhecido socialmente como uma vida?), a ação (o tipo de crime) e a penitência (o quantum de dispêndio social será destinado ao “conserto ou descarte” do agente da violência). Assim não há crimes a priori, mas o necessá- rio enquadramento dos indivíduos para a posteriore haver ou não a rotulação dos mesmos. Chegamos ao século 21 e, especificamente pinçamos o “campo cirúrgico” da realidade vivida na sociedade paraibana, as- sim vimos com horror que os dados locais, corroboram, reprodu- zem e alimentam as estatísticas nacionais sobre eugenia aplicada como práticas de genocídio/extermínio de segmentos da popula- ção brasileira. Enfim, não entendemos ser possível encerrar essa discus- são, pois como vemos a realidade atual está bricolada de espéci- mes rizomáticas de muitos e diferentes tempos históricos, não te- mos a pretensão de propor soluções ou respostas além daquelas que o bom senso e o corolário das estatísticas científicas de “ten- tativa, erro e acerto” nos propõe, a saber, sendo assim esperamos que esse texto possa ser útil para denunciar e nos fazer pensar e reagir ao movimento de autofagia que tem caracterizado as socie- dades que se querem civilizadas. Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Banco de dados do Sistema Único de Saúde-DA- TASUS/SIM/TABNET. Disponível em: < http://tabnet.saude.pb.gov.br/tab- net/tabcgi.exe?tabdo/sim_estado.def> [Acessado em 5 de junho de 2021]. CERQUEIRA, Daniel Ricardo de Castro Coordenador et. al. Atlas da violência 2020. 2020. BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999a. _______. Modernidade e ambivalência. 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Essas nos convidam a nos defrontarmos com as nossas “verdades”, os fascismos que fazem partem de nos- sas vidas, e questioná-los, consistindo em uma verdadeira crítica a comportamentos do mundo atual, que reverberam em várias for- mas de vida fascistas presentes na contemporaneidade. Com o objetivo de quebrar as grades construídas por regi- mes de verdade como a psiquiatria e a psicanálise e dar voz ao de- sejo e ao seu poder revolucionário. Os textos buscam retratar a construção da sexualidade, visto que os comportamentos sexuais constituem um processo cri- ativo social, e não possuem limites, fazendo parte da liberdade hu- mana de usufruir o mundo, acreditando que, para isso, é necessá- rio criar novas formas de vida, de relações sociais, de amizades e de cultura. SUMÁRIO 176 Eugenia e Direitos Humanos Nesse sentido, a obra retoma análises de alguns conceitos e temáticas que Foucault havia discutido tais como: sexualidade, desejo, loucura, delinquência, poder, moral sujeito, para mostrar que tais reflexões podem, em certa medida, entrar no que ele chama de “jogo de verdade”, analisando uma mudança progres- siva em relação aos princípios morais na Antiguidade Clássica e no Cristianismo. Por fim, problematizam as diferentes maneiras a partir das quais numa cultura, se elabora um saber que circula no seu inte- rior com base nas diferentes áreas de conhecimento tais como: a economia, a biologia, a psiquiatria, a medicina e a criminologia. Foucault descreve que na sociedade ocidental, essa observação entre verdade e prazer do sexo é algo constante ao longo dos sé- culos. Problematiza a atitude crítica, num contexto de crise da go- vernamentalidade, em um aspecto não específico, como uma vir- tude geral, sem focar objetivamente em um episódio específico. Por sua vez, práticas fascistas podem ser visualizadas no documentário “Guerras do Brasil”, do ano de 2019, demonstrando que a discussão se apresenta extremamente atual e pertinente no contexto brasileiro. 2. Uma nova forma de pensar DECLARAÇÃO DE GUERRA AO FASCISTA DENTRO DE NÓS dentro de nós de mim de você o monstro eu o mato você o alimenta dentro de você o monstro dentro de mim anti Édipo lá fora SUMÁRIO 177 Eugenia e Direitos Humanos o herói que veio lhe substituir a glória cá dentro meu coração ingrato coragem não amo o poder não amo o déspota não amo o protetor não amo o provedor há perigo conflito e luta e eu eu eu os desejo eu os desejo como desejo o sexo como desejo a morte como desejo a vida um texto de Brecht um de Deleuze e Guattari sim os desejos são todos armas apontadas pras fuças do fascista e ele treme quando está sozinho e ele treme quando vê um corpo livre e ele treme quando o desejo é maior que o medo e ele treme (Giglio). O livro “Michel Foucault – Por uma Vida Não Fascista” nas- ceu a partir do prefácio que Michel Foucault escreveu para a obra “O Anti-Édipo”, de Deleuze e Guattari (1972) – uma contraposição crítica à psicanálise de Freud e Lacan, propondo a superação de elementos limitantes nas análises sobre o homem e o desejo, tra- zendo à baila um pensamento “fora da caixa” enquadrada pela psi- quiatria e psicanálise. Na obra é problematizada a Europa, entre 1945 e 1965, isto é, logo após a II Guerra Mundial, pois naquele contexto, con- solidou-se o que era a “forma correta” de se pensar, ou seja, uma SUMÁRIO 178 Eugenia e Direitos Humanos forma determinada do que era certo e do que era errado, algo que se mostra bastante presente atualmente. A tese para “não ser fascista” deve ser vista como uma “arte erótica”, consideramos o livro como um tratado de ética, relacio- nando o desejo com a realidade e com o capitalismo para respon- der questões relacionadas a como as coisas são, ao invés do por- quê. Retrata um estilo de vida, um modo de pensar, de como proceder para não ser um fascista. Como se liberar do fascismo? Esse que não se relaciona apenas ao praticado pelos grandes ditadores, como Hitler e Mus- solini, mas também aos microfascismos, por assim dizer, o que se encontra arraigado em nossos modos de vida, presentes nos coti- dianos mais banais. Alcançar uma vida não fascista não é algo fácil. Os microfas- cismos que nos rodeiam amiúde passam despercebidos de tão in- trincados que se encontram. Muito embora, muitas vezes, os fas- cismos pareçam óbvios, faz-se necessário traçar estratégias para se alcançar uma vida não fascista. Nesse diapasão, “O Anti-Édipo” confronta-se com três amea- ças de diferentes forças: 1) Os ascetas políticos, militantes sombrios e os terroristas da teoria; 2) Os psicanalistas e os semió- logos; 3) O fascismo (o inimigo maior). Todos constituem verda- deiros instrumentos de subjugação, de adestramento a modelos de vida limitantes. A éticasugerida, a busca por uma vida não fascista é um mo- delo de vida que tenta, justamente, o banimento de tais modelos e o alcance de formas de vida libertárias. Ato contínuo, a obra apresenta princípios essenciais que podem inspirar esse modo de vida não fascista, ressaltando sete em específico: a liberação de todo e qualquer unitarismo e totali- tarismo da ação política; a multiplicação e crescimento de pensa- mentos e desejos justapostos, ao invés de hierarquizados; libera- SUMÁRIO 179 Eugenia e Direitos Humanos ção de categorias negativas, como lei, castração, limites; não ima- ginar ser triste para ser militante; não utilizar o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; não exigir da ação política o restabelecimento dos direitos do indivíduo e não amar o poder. Os socialistas foram os únicos a perceberem a realidade de certos problemas, como na justiça e os imigrantes, e que as medi- das governamentais em relação aos problemas não vão no sentido da opinião majoritária. Observa-se medidas de governo que vão contra o pensamento de uma parte do eleitorado, por exemplo, destacando uma nova maneira de governar. Por sua vez, para além de ser adepto ou não a um governo, é possível trabalhar para o alcance de melhores condições, o que não implica uma aceitação, podendo-se, ainda, questioná-lo. Vários problemas passaram a vir à tona nos últimos tem- pos. As pessoas trabalham em cima de tais problemas e Foucault cita alguns, como: a relação entre doença mental e a normalidade psicológica; o problema da prisão e a relação entre os sexos. A crítica consiste não apenas em pensar, refletir sobre o problema, mas também entender que “há sempre um pouco de pensamento mesmo nas instituições mais tolas, há sempre pensa- mento mesmo nos hábitos mudos” (op. cit. 2009, p. 10). A crítica deve ir além de alcançar o pensamento, deve testar a mudança, tornar inaceitável a forma vigente tornar difícil a prática daquilo que seria fácil fazer. A crítica, portanto, é elemento sine qua non para uma trans- formação social, pois a mesma contrabalança o status quo, muda o modo de pensar. Nessa toada, soma-se à análise da presente obra a reflexão trazida pela autora Judith Butler (2015, p. 99): “se o ‘eu’ não pode efetivamente ser separado da impressão da vida social, então a ética certamente não pressupõe apenas a retórica (e a análise do modo de interpelação), mas também a crítica social.” SUMÁRIO 180 Eugenia e Direitos Humanos Os modos de pensamento precisam ser transformados quando se almeja um projeto de desconstrução. Se trata de um processo de conflito e resistência perante uma ordem estabelecida e, caso não haja essa efetiva mudança do modo de pensar, tal não terá êxito, pois os modos vigentes, as instituições de poder esta- belecidas, são fortes o suficiente para predominar e dissipar qual- quer proposta de transformação. Por fim, entendemos que as coisas podem ser mudadas, tudo por ser modificado, sendo, nesse ponto, otimista. Nós pode- mos trabalhar para modificar padrões de comportamentos e pen- samentos. Assim, podemos, por conseguinte, caminhar para uma sociedade não fascista. 2.1. A liberdade do prazer e a ascensão a uma vida criativa A sexualidade deve ser vista como uma engrenagem da li- berdade humana de usufruir o mundo. Muito embora tal liberdade tenha encontrado limites em uma tolerância sexual fundamentada em um discurso hegemônico que construiu a heterossexualidade como padrão de normalidade. Vem ocorrendo, desde os anos 60, um processo de libera- ção, apesar das mudanças de mentalidade, a situação ainda não se encontra estabilizada, acreditando que para isso é necessário criar novas formas de vida, de relações sociais, de amizades e de cul- tura, que se instaurem a partir de novas vivências sexuais, éticas e políticas, ou seja, a sociedade se afirmando na prática criativa e não apenas como uma identidade dada. Por sua vez, é preciso que se faça um estranhamento à as- sociação entre o prazer e o sexo, pensando que há nesse diapasão possíveis práticas ultrapassadas, limitadas acerca dos corpos e prazeres, visto que o sexo (o prazer sexual) não é a base de todos os prazeres. Nesse contexto, insere-se a discussão concernente às práticas como o sadomasoquismo, nas quais se abrem possibilida- SUMÁRIO 181 Eugenia e Direitos Humanos des para novas formas de prazer, erotizando partes do corpo ou- trora não colocadas em um contexto sexual, antes de mais nada é preciso entender que o prazer faz parte da cultura. A criação de uma identidade é resultado de um desenvolvi- mento cultural, sendo útil à medida que possibilite o processo de criação, de diferenciação e facilitação de relação sociais em detri- mento de um aprisionamento, este por sua vez, pode fazer retor- nar ao modelo ético similar à heterossexualidade tradicional, quando se torna uma regra ética universal, uma espécie de norma na qual devemos nos enquadrar. Cada ser é único e não deve ser limitado, pois temos de ser livres, não obstante em nenhum momento estejamos livres das re- lações de poder. Ainda assim, temos sempre a possibilidade de mudar a situação, criar novas realidades. A resistência, de fato, é isso: um processo de criação, de participação ativa. Por exemplo o sadomasoquismo, poder ser visto enquanto relação estratégica de fonte de prazer, tal prática pode ser reme- tida à tradição do amor cortesão na Idade Média, tratando-se, tam- bém, de um jogo estratégico de conquista, que amiúde se visualiza nos relacionamentos atuais. A diferença é que estes possuem o intuito de alcançar o sexo e, no sadomasoquismo, há relações es- tratégicas que já fazem parte do sexo. Todas essas, sejam nos dias atuais ou, na Idade Média, fazem parte de relações sociais, proces- sos construtivos. Outra comparação interessante são as transformações da amizade no decorrer do tempo. Nos séculos próximos à Antigui- dade Clássica, era natural o desenvolvimento de relações intensas de amizade, inclusive com implicações econômicas e sociais. Tal modelo afetivo de relacionamento foi se dissipando por volta dos séculos XVI e XVII, diante do desenvolvimento de esco- las, universidades, burocracia, entre outros, nos quais a amizade intensa podia ser um empecilho para a efetivação de determinado objetivo. As instituições passaram a impedir o desenvolvimento SUMÁRIO 182 Eugenia e Direitos Humanos de tais amizades. Assim, o que se convencionou denominar ho- mossexualidade teria se tornado um problema a partir do século XVIII, quando a amizade deixa de ser culturalmente aceita, pois, se não deve haver amizade, o que estão fazendo dois homens ou duas mulheres juntas? A homossexualidade deve ser vista como algo para além de uma experiência individual, que se relaciona ao sentimento de pertença a um grupo, de consciência coletiva. Quanto à legislação pertinente ao tema, várias questões en- contram-se em aberto e direitos ainda necessitam ser alcançados, apesar de já se ter caminhado para uma vertente de maior tole- rância, a citar, atualmente, o reconhecimento da união estável ho- moafetiva como entidade familiar e o estabelecimento do casa- mento entre pessoas do mesmo sexo – o Supremo Tribunal Fede- ral reconheceu o direito de oficialização do relacionamento homo- afetivo através da Ação Direta de Inconstitucionalidade 427727 e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 13228. É preciso uma modificação de percepção. O desejo do indi- víduo é dele próprio e de mais ninguém, sendo necessário um pro- cesso de desconstrução do ideário de que há “uma forma correta de pensar”, ou seja, criticar e ultrapassar a ditadura da razão. As pessoas não heteronormativas não devem ser conside- radas desviadas, as suas vivências sexuais não devem ser critério determinante de qualquer outro elementoda vida social, pois não definem capacidade de ninguém. Devemos questionar se a sociedade precisa de restrições. Para alguns, as repressões são, inclusive, intoleráveis. Porém, o 27 STF - ADI: 4277 DF, Relator: Min. AYRES BRITTO, Data de Julgamento: 05/05/2011, Tribunal Pleno, Data de Publicação: DJe-198 DIVULG 13-10-2011 PUBLIC 14-10-2011 EMENT VOL-02607-03 PP-00341. 28 STF - ADPF: 132 RJ, Relator: Min. AYRES BRITTO, Data de Julgamento: 05/05/2011, Tribunal Pleno, Data de Publicação: DJe-198 DIVULG 13-10-2011 PUBLIC 14-10-2011 EMENT VOL-02607-01 PP-00001. SUMÁRIO 183 Eugenia e Direitos Humanos que não pode deixar de haver são os meios para modificar o sis- tema. A ausência desses é o que torna o modelo dominante real- mente intolerável. De outro modo, a corte amorosa, isto é, as ações do que po- demos chamar, atualmente, de paquera, precedem o ato sexual e, relacionando-a à produção literária heterossexual, vemos que as pessoas não heteronormativas foram banidas de tal processo. Pessoas não heterossexuais que se paqueram na rua são julgadas, questionadas. Por outro lado, as pessoas não heterosse- xuais fantasiam não com as preliminares, por assim dizer, do ato em si, mas com a lembrança do que se passou, após a consumação, que se tornou demasiadamente acessível, fácil. Daí o interesse nas práticas sadomasoquistas. O jogo da conquista. A fluidez e impre- visibilidade dos acontecimentos. Na obra em análise (RAGO; VEIGA-NETO, 2009) há pouca referência ao às lésbicas assim são tecidas apenas considerações. O relacionamento entre mulheres acaba por ser algo mais natura- lizado, diante do papel desempenhado pelas mesmas no imaginá- rio dos homens heterossexuais, enquanto uma propriedade, um fetiche do macho. Portanto, o homem deve buscar impedir o con- tato de mulheres com outros homens, restringindo-se o contato a outras mulheres. Em contraposição, o que aparenta causar mais estranha- mento aos heterossexuais não é o ato em si, mas o estilo de vida gay. 2.3. O saber cortante, os silêncios que falam e a sexualidade repri- mida O silêncio existe em várias formas. Alguns silêncios podem indicar hostilidade, outros são indicativos de uma relação admira- dora de amizade, é possível ainda que a apreciação do silêncio pode ter a ver com a obrigação de falar. Tem certos momentos em SUMÁRIO 184 Eugenia e Direitos Humanos que observamos que o essencial já foi falado. O que precisamos é assimilar e converter o que foi dito em algo próprio. Assim, o silêncio também pode apresentar uma forma de se relacionar mais interessante. Ao que parece, nossa sociedade renunciou o silêncio, não existe a cultura do silêncio. É preciso re- criar práticas a favor do desenvolvimento do ethos do silêncio para se poder cultivá-lo. A obra incita várias inquietações e reflexões sobre os dife- rentes significados dos silêncios. Interessante pensar no silêncio sobre várias óticas de comunicação. Pensar no silêncio como algo mais comunicador do que a própria fala. Os silêncios que comuni- cam, que são linguagem. É nesse pensar sobre o silêncio que refletimos sobre os ca- samentos duradouros de contexto passados, provavelmente vivi- dos pelos nossos avós, havia ali uma prática do silêncio em prol da manutenção daquele relacionamento? Mas esse silêncio cultivado pelas mulheres, dentro de seus relacionamentos estruturalmente machistas muitas vezes, não era paz, era medo. O silêncio comuni- cava uma relação de poder dominante do homem em desfavor da condição submissa da mulher. Nessa caminhada, se faz necessário pontuarmos sobre a li- berdade como condição mais restrita em sociedades que dizem ofertar essa ideia. A partir daí, enxergamos a liberdade inserida como instrumento nas relações de poder, do governo de si próprio e dos outros. A sensação de liberdade tem a ver com o território que se analisa. O sentimento de liberdade é mais valorizado quando esta- mos em outros países, pois, enquanto estrangeiros não precisa- mos atender às obrigações implícitas, àquelas que não são escri- tas. Com essa mudança de território, trocamos as obrigações e isso é percebido como uma espécie de liberdade. Sendo assim, podemos ilustrar um pouco da ideia de liber- dade com o caso recente do médico brasileiro Victor Sorrentino que foi detido no Egito em 30 de maio de 2021, após o vídeo em SUMÁRIO 185 Eugenia e Direitos Humanos que faz perguntas com conotações sexuais a uma vendedora de uma loja de papiro, tal fato viralizou na internet. No vídeo, o brasileiro aparece perguntando a vendedora em português: "Vocês gostam mesmo é do bem duro, né?" Depois, em tom de deboche, ele ainda afirma: “E cumprido também fica legal, né?". A vendedora, que não entende direito o que foi dito, responde “sim”, enquanto ele e os amigos riem. Trazendo esse fato para o que pensa Foucault, o médico brasileiro, por estar em outro país, pensou que estivesse experimentando uma dada liberdade para se desobrigar de conviver respeitosamente com as pessoas daquele outro território. De outro norte, também podemos pensar as questões so- bre a repressão sexual, considerando que existe, na sexualidade, um grande número de prescrições, onde os efeitos negativos da inibição são contrabalanceados pelos adornos positivos da esti- mulação. No século XIX, houve a repressão da sexualidade, mas, de igual modo, a mesma foi acentuada, pois, sob à luz da psicologia e psiquiatria, houve uma mudança na economia das condutas sexu- ais de nossa sociedade. O que o texto aborda para reforçar ao dito anteriormente é a temática da sexualidade das crianças, que se tornou um grande problema para os pais. Ocupar-se desses questionamentos e efei- tos não apenas se tornou uma tarefa moral, uma tarefa científica (Psicanálise), mas também uma tarefa prazerosa. Há um prazer dos pais na intervenção, uma questão de poder, de autoridade de ética. De início a ligação direta entre sexualidade e reprodução era maior, mas aos poucos, a sexualidade não tem mais relação di- reta com a reprodução e sim, passou a ser entendida como uma conduta pessoal. As práticas de sexualidade não heteronormativas são exemplos para explicar como no século XVIII, se um homem ti- vesse filhos pouco importava o que ele poderia fazer com outros SUMÁRIO 186 Eugenia e Direitos Humanos homens. A conduta dita homossexual era tida apenas como um exagero, uma libertinagem. É, no século XIX, que a sexualidade passa ter importância na definição da individualidade, então, o comportamento homos- sexual é enfrentado como algo anormal. Nos dias de hoje (séculos XX- XXI), a sexualidade não é mais o grande segredo da vida, porém ela ainda é um sintoma, uma manifestação do que há de mais secreto em nossa individualidade. Assim, surge a noção de saber cortante, o saber como uma arma prática e ativa em nosso viver. O saber é meio de sobreviver, graças a compreensão. É necessário saber, compreender o que se sabe e colocar tudo em prática, na sociedade. O saber tem o poder de transformar a nós mesmos. O que chamamos de verdade não é tão somente uma forma de decifrar o mundo, no entanto, se eu conheço a verdade, eu serei transfor- mado. O papel do saber é mostrar as pessoas que elas são mais livres do que pensam; que o que elas tomam como verdade, são em si evidências fabricadas, em um momento particular da histó- ria, e que essas evidências podem ser criticadas e destruídas, esta seria a aplicação da didática da hesitação. Assim, a filosofia é um modo de refletir sobre aquilo que é falso, pois não há uma filosofia soberana. A filosofia é um movi- mento pelo qual nos libertamos das molduras do pensamento. A filosofia é apresentada como uma forma de lidarmos com a nossa relação com a verdade e aqueles que experimentam esse novo olhar, pelo menos uma vez na vida, nunca sentirão aneces- sidade de lamentar, uma vez que o mundo é um erro e a história está farta de inexistências, é preciso contestar o que está posto e encontrar um novo tom para se viver. Com esse mote, é impossível não aproximar o pensar de Foucault às teses de Paulo Freire e, perceber o quanto a perspec- tiva freiriana pode ser posta em diálogo com a filosofia do saber foucaultiana. Ambas acreditam no saber como o caminho para a SUMÁRIO 187 Eugenia e Direitos Humanos transformação do mundo e acreditam que o saber tem que ser prá- tica, haja vistas, a partir daí, ser possível sair das molduras impos- tas pela sociedade. 2.5 O paradoxo entre conhecimento de si à renúncia de si mesmo Deve-se problematizar as diferentes maneiras sobre as quais numa determinada cultura, se elabora um saber sobre ela mesma nas diferentes áreas de conhecimento tais como: a econo- mia, a biologia, a psiquiatria, a medicina e a criminologia, a fim de poder analisar em que medida umas determinadas técnicas espe- cíficas são vistas como essenciais e utilizados para compreensão dos homens sobre aquilo que são. Este interesse, em saber-se não deve estar somente vol- tado para os atos que são permitidos e proibidos, mas também so- bre os sentimentos que são representados, os pensamentos e os desejos que podem ser suscitados. Nesse contexto de reflexão, temos quatro grandes grupos, nos quais dividem-se as técnicas de si, e cada um representa uma matriz prática dessas técnicas, são elas: 1) as técnicas de produ- ção (produzir, transformar e manipular objeto); 2) as técnicas de sistemas (signos, símbolos sentidos e significação); 3) técnicas de poder (conduta, dominação e objetivação do sujeito); 4) técnicas de si (indivíduo experimenta um certo estado de felicidade, pu- reza sabedoria perfeição ou imortalidade). Importa ressaltar como cada um desses tipos imprime-se em certos modos de educação e de transformação dos indivíduos, pois não só se trata de adquirir certas aptidões, como também de adquirir certas atitudes. Portanto “governabilidade” para ele é o encontro entre as técnicas de dominação exercidas sobre os ou- tros e as técnicas de si. No que concerne a evolução das técnicas de si, Foucault de- bruçou-se a partir de dois contextos a saber, a filosofia greco-ro- mana e a espiritualidade cristã, para contextualizar e analisar esse SUMÁRIO 188 Eugenia e Direitos Humanos processo das técnicas de si, a fim de poder compreender o sujeito não só em termos teóricos, mas também a partir de um conjunto de práticas da antiguidade. Destacamos como primeiro exemplo o apelo que Sócrates dirigiu ao demais cidadãos mostrando que, eles deveriam em pri- meiro lugar se ocuparem do “cuidado de si, da sabedoria, da ver- dade e da perfeição da alma” de que “riquezas reputação e honra- rias” Mas porque esse “cuidado de si” passou a ser considerado como algo da imoralidade, como um meio de escapar a todas as regras possíveis? Para Foucault isso é resultado da “moral cristã, que faz da renúncia de si a condição da salvação”. Portanto ocor- reu uma inversão na hierarquia dos dois princípios da antigui- dade, que eram “cuidado de ti mesmo” e “conhece-te a ti mesmo”. Na cultura greco-romana, o conhecimento de si apareceu como consequência do cuidado de si. Enquanto, no mundo mo- derno, o conhecimento de si constitui o princípio fundamental. Em meados do século III e IV, os neoplatônicos pretendiam transformar os diálogos de Platão em um utilitário pedagógico, fa- zendo a matriz do saber enciclopédica. A filosofia platônica toma o “cuidado de si” como seu primeiro princípio. Foucault analisa o diálogo entre Sócrates e Alcibíades para compreender as razões que os levam a essa noção de “cuidado de si”. Esse diálogo mostra que, quando adolescente Alcibíades era admirado e desejado por muitos, mas à medida que crescia esses admiradores começam a se afastar dele, pois ele tinha postura de dominador e não queria ser dominado. O problema é que, quando precisou iniciar sua vida política e pública, queria não só poder para dominar os outros, como também pretendia conquistar nova reputação. É a partir desse momento que “Sócrates declara seu amor por ele”. O "significativo o cuidado de si'' em Alcibíades está direta- mente ligado à ideia de uma “pedagogia defeituosa” - uma peda- gogia que concerne à ambição política e um momento particular SUMÁRIO 189 Eugenia e Direitos Humanos da vida. Nesses contextos é “à cultura oral”, que pertencia pri- meiro lugar, na vida política tradicional. Daí a importância da re- tórica. O que fez com que a escrita passasse a ganhar mais impor- tância, foi o desenvolvimento das estruturas administrativas e da burocracia no Império. Acontece que, entre a época de Platão e a época helenística, a relação entre o cuidado de si e o conhecimento de si se modifica. Introduzindo-se uma nova concepção da verdade e da memória, assim como um outro método de exame de si. Nessa relação entre cuidado de si e conhecimento de si vai nascer também a importân- cia de uma “cultura do silêncio" um “um novo jogo pedagógico”, no qual o mestre/professor fala sem colocar questões e o discípulo não responde”. Assim, a arte da escuta é capital para quem quer distinguir a verdade e a dissimulação, a retórica e a mentira no discurso dos retóricos. A diferença que se marca entre as duas épocas é um dos grandes sinais do desaparecimento da estrutura dialética. Outro procedimento das técnicas de si, se origina na tradi- ção pitagórica, é a purificação da consciência através de um pro- cedimento “mnemônico”. Foucault busca compreender em que consiste o exame da consciência nessa cultura e qual olhar o indivíduo se coloca sobre si mesmo? Esse exame de consciência constitui o meio de agir corre- tamente, e não de julgar o que teve lugar no passado. Para fechar esse pensamento, que versa sobre as técnicas de si, de modo geral Foucault, buscou examinar as principais téc- nicas de si inauguradas pelo cristianismo, nisso levo em conside- ração a passagem da cultura pagã à cultura cristã. Para Foucault o Cristianismo é bem mais que uma religião de salvação, é também uma religião "confessional, de obrigação, de dogmas e cânone”. A obediência, longe de ser um estado autô- nomo final, implica no controle integral da conduta pelo mestre. É um sacrifício de si, um sacrifício da vontade do sujeito. É a nova SUMÁRIO 190 Eugenia e Direitos Humanos técnica de si. Foucault afirma que a partir do século XVIII e até a época atual, as “ciências humanas” reinseriram as técnicas de ver- balização em um contexto diferente, fazendo delas não o instru- mento de renúncia do sujeito a si mesmo, mas o instrumento po- sitivo da constituição de um novo sujeito. 2.6. Foucault, a verdade, a filosofia, e o poder: entre Gal, kant e a Revolução de 30 no Brasil É preciso que abandonemos a ilusão de achar que estudos sobre a verdadeira expressão do prazer sexual é algo obscuro em nossa sociedade, até porque segundo o autor “estamos em uma sociedade do sexo que fala” (op. cit. p. 110). Isto é, apesar de viver- mos em uma sociedade que ainda é moída por uma burguesia que faz uso e sobrevive à base de um testamento deixado pela igreja a sociedade da Idade Média, o autor chama atenção para o fato de também sermos a sociedade perseverante ao longo dos séculos nessa busca sobre a verdade, não só do sexo. A crítica à busca da verdade a qual Foucault tanto trabalha no conjunto da sua obra, pode ser observada em vários seguimen- tos econômicos, sociais e culturais. A contribuição musical é por nós destacada no álbum “Fa- Tal: Gal a Todo Vapor”-1971, da cantora Gal Costa, que dialoga em alguns aspectos com as reflexões trazidas por Foucault. O primeiro deles é o fato de Gal ser uma mulher, que vive numa sociedade com estruturas machistase ter a atrevida inicia- tiva de falar a palavra sexo na música “Pérola Negra”, de Luiz Me- lodia, em plena ditadura militar, período em que predominou no país os mais diversos níveis de censura e repressão. Ou seja, aquela ideia trazida pelo autor de que esta sociedade fala sobre sexo, pode ser reforçada pela música interpretada por Gal, mesmo num cenário de repressão e censura, ou num período vitoriano, como no caso daquele inglês. SUMÁRIO 191 Eugenia e Direitos Humanos Outro ponto é que a música dá detalhes intensos e verda- deiros sobre sexo, isso além de reforçar esse diálogo aberto e ver- dadeiro sobre o sexo, ajuda a quebrar a herança burguesa desse testamento cristão. Neste sentido, Gal faz de forma pratica o que Foucault tra- balha no seu texto, e é isso que o autor busca, que possamos tra- balhar com conceitos que possam ser aplicados em nossa reali- dade. Em relação ao entendimento trazido por Foucault, sobre trabalhar conceitos no tempo presente, destacamos o texto de Kant sobre a Aufklärung. É importante observar que Foucault, as- sim como fez críticas ao nosso entendimento histórico sobre a ver- dade no sexo, e sobre a herança cristã que a burguesia utiliza, tam- bém faz críticas aos textos produzidos por Kant, mas sempre no estilo propositista. Após a crítica sobre a verdade no sexo, por exemplo, Fou- cault propõe um estudo sobre a genealogia da “ciência do sexo”, o autor reconhece que esse tipo de análise até já existe, porém sua proposta se caracteriza em abordar tudo que tem permitido a for- mação deste saber, de uma perspectiva positiva, dessa forma, pro- vavelmente a música e as diversas outras formas de expressão cul- tural, fariam parte dessa proposta de Foucault. Sendo assim, após críticas a antigos trabalhos produzidos por Kant, o autor explica a existência de uma certa originalidade nesse texto sobre a Aufklärung, em relação aos caminhos trilhados por Kant em análises anteriores sobre a técnica relativa ao método da história. Assim, para Foucault, Kant traz de forma inédita, em seus estudos, as reflexões sobre o tempo presente e como essas reflexões podem produzir sentido numa perspectiva filosófica. Nessa busca por entender como esse agora pode contribuir nessa reflexão filosófica, Foucault fala que Kant buscou problema- tizar sua própria atualidade discursiva, trabalhando a ideia de que fazer parte desse mesmo tempo, fará dele parte de uma ideia co- letiva que irá conviver com grupo de culturas representantes SUMÁRIO 192 Eugenia e Direitos Humanos desse tempo, e é através desse coletivo que ele produzirá sua aná- lise individual. Sendo assim, a filosofia passa a ser para Kant, um instrumento de análise da atualidade, questionadora dessa reali- dade, e que vai torná-la uma importante ferramenta de reflexões sobre a modernidade. Diante dessas reflexões trazidas por Kant, Foucault mani- festa em resumo que a grande questão trazida por Kant e expressa nessa filosofia moderna é o fato desta ter como uma de suas prin- cipais funções interrogar sua própria atualidade. Após essas contribuições de Kant, a filosofia passou a ter o papel de vigiar os abusos de poder da racionalidade política, e é sobre essa temática que Foucault constrói o capítulo XIV, "Omnes Et Singulatim" - para uma crítica da razão política”. Assim, Fou- cault propõe outro jeito de trabalhar a ideia de racionalização e poder, em sua sugestão, o autor traz a necessidade de um estudo sobre as possíveis conexões entre experiências “como a loucura, a morte, o crime ou a sexualidade, e diferentes tecnologias do po- der.”. Em relação à ideia de poder, o Foucault destaca que o mesmo, nada mais é do que um modo específico de relação entre indivíduos. As práticas de poder fazem com que alguns indivíduos pos- sam estabelecer, até mesmo de forma irrestrita, o comportamento de outros indivíduos. Foucault lembra que esse poder precisar ter alguns cuidados para não ser exaustivo e coercitivo, é importante sujeitar a liberdade do indivíduo ao poder mas não à força imposta sobre ele. Desse modo, mais uma vez trazendo uma crítica proposi- tiva, Foucault alerta que acusar a razão sem questionar a raciona- lidade presente, não é o bastante. O autor expõe sua crítica em re- lação ao poder exercido sobre homens que possuem doenças men- tais, que segundo ele, não deveriam ficar sujeitos às limitações im- postas pelas instituições psiquiátricas. SUMÁRIO 193 Eugenia e Direitos Humanos Se libertar das limitações só pode acontecer se os indiví- duos passarem a questionar a construção dessa racionalidade pre- sente nessas instituições. Foucault lembra que a libertação, em geral, só pode vir se conseguirmos trazer um outro modo de pensar e agir, porque um sujeito que é submetido ao poder vai ser limitado por esse poder. Temos que (des)invindualizar os indivíduos, até porque esse conceito que temos de indivíduo é um conceito burguês, que nos faz acreditar na ideia de sermos individualmente detentores de direitos, mas Foucault lembra que não devemos esperar pelos direitos, pois o fascismo vai se apropriar deles sempre que puder. Ele lembra também que esse mesmo fascismo que se apropria do direito quando lhe convém, vai constranger a diferença, seja no sexo, ou com aqueles que possuem doenças mentais. Por isso, é importante procurarmos uma vida mais autônoma e sempre se- guirmos atacando às raízes da racionalidade política. Ainda seguindo a linha de pensamento de Foucault sobre poder, no documentário Guerras do Brasil, episódio 4 sobre a Re- volução de 1930, diversos historiadores trazem uma situação so- cial de uma evidente pobreza generalizada e processo de exclusão muito grande. O Brasil havia se tornado o maior exportador de café, e esse empresariado fazia de forma impositiva, com que os trabalhado- res tivessem o mínimo de direitos possíveis, além disso, em caso de revolta eles usavam de uma feroz repressão para acabar com essas revoltas. O poder desses empresários não se limitava ao âmbito eco- nômico, esses indivíduos também comandavam a política do país. Em relação às eleições daquele período historiadores apon- tam que existiam acordos para que esse empresariado permane- cesse no poder. Mas, é através dos questionamentos sobre àquele “presente”, como sugeriu Kant, e a insatisfação com aquele poder, que aconteceu uma desestabilização do mesmo através da união SUMÁRIO 194 Eugenia e Direitos Humanos de forças intelectuais e militares. Infelizmente, apesar de ter que- brado àquela lógica das sucessões presidenciais, de ter rompido inicialmente com esse poder, e de ser apontado no documentário por um movimento de massa, aquela ”revolução” deu poder a um outro grupo antidemocrático, que apesar de ter trazido diversos avanços sociais, foram extremamente autoritários em relação aos direitos civis e políticos. Em resumo, apesar de ter deixado resultados problemáti- cos para população àqueles intelectuais da época, com ajuda dos militares, conseguiram derrubar a lógica de poder que até então comandava o país. 2.7 Em busca de uma crítica transformadora A crítica é um instrumento, um olhar de polícia, uma ver- dade sobre um domínio, sobre algo que não se consegue impor à lei. Subordinada positivamente ao que constituem a filosofia, a ci- ência, a política, a moral, o direito, a literatura etc. É uma prática de tornar aquilo que parece dado, verda- deiro, evidente, dominante em pensamentos não verdadeiros, contestáveis, suspeitos. A dominação necessita inviabilizar e sub- jugar outros conhecimentos, para se manter no espaço e no tempo. Crítica é desconstruir o presente, abrindo a novos espaços do pen- sar. A história dessa atitude crítica pode ser contada por vários caminhos. Foucault propõe o viés religioso. A pastoral cristã desenvolve a ideia na qualos indivíduos deveriam se deixar governar como forma de salvação, formando instituições e subjugações, “o jeito certo de viver”. Uma obediên- cia, meticulosa, detalhada, em todos os setores da vida. Há uma tripla relação com a verdade: verdade entendida como dogma; verdade de direcionamento de modos de conhecimento particular e individualizante dos indivíduos; regras gerais, conhecimentos SUMÁRIO 195 Eugenia e Direitos Humanos particulares, preceitos, métodos de exame, confissões, entrevistas etc. Inicialmente, ficou limitado a locais estabelecidos, quando, a partir do século XV houve uma verdadeira explosão dessa arte de governar. A partir do foco religioso, ganhando contornos em todos os demais campos da vida em sociedade, houve uma multi- plicação dos domínios da arte de governar. Ao mesmo tempo dessa governamentalização, surgiu em contrapartida, a ideia, a contestação ou processo de desenvolvimento e pensamento de “Como não ser governado dessa forma?” “A esse preço?” Uma ati- tude crítica, moral e política, de duvidar daquela cultura geral e daquela maneira de pensar, em busca de uma “verdade mais ver- dadeira”. Essa atitude crítica encontrou pontos de ancoragem histó- ricos: 1. Nas escrituras, de onde deveriam sair os argumentos da crítica aos domínios. Chegando ao ponto de contestar a veracidade dos escritos. Era a volta à escritura, à sua autenticidade. Uma crí- tica historicamente bíblica; 2. Não querer ser governado daquela forma, por leis que fi- ram ditames universais, trazidos historicamente pelo direito na- tural. Que possuam ilegitimidades essenciais, injustas. É uma crí- tica essencialmente jurídica. Como não se quer ser governado. Questionar os limites do conhecimento, como se soubéssemos os limites de governar a nós mesmos e os outros de forma menos vi- olenta; 3. Questionamento da verdade. É não aceitar como verdade o que a autoridade diz como verdadeiro. Crítica das certezas que movem as autoridades, tentando mostrar o que está por trás das ações, mostrando que há outras razões, motivações por trás das ações. A crítica, para Foucault é um desassujeitamento ao que está posto como verdade, é uma contestação àquela realidade imposta, SUMÁRIO 196 Eugenia e Direitos Humanos naquele feixe de relações entre verdade, sujeito e poder. É o movi- mento pelo qual se dá a interrogação da verdade e os efeitos de seu poder. O núcleo da crítica é o conjunto de relações entre poder, verdade e sujeito. Com uma leitura atenta, sem hierarquias entre os três elementos, e histórica. O que se espera é uma libertação de falar a verdade ao poder, olhando para si. E não deixar o poder dizer a verdade, num processo de subjugação. Esse conceito de crítica não é muito distante do conceito kantiano Aufklärung (1784), em relação a uma certa menoridade que a humanidade é mantida autoritariamente. O homem então por falta de coragem, de clareza, abre mão de guiar-se, e se deixa levar por decisões alheias, é uma incapacidade de servir a seu pró- prio entendimento. Há uma falta de coragem e uma submissão à autoridade. Essa retenção da menoridade da humanidade se dá pela religião, pelo direito e pelo conhecimento, por exemplo. “O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo” (KANT, 2005, p.63). Para o autor, esse Aufklärun, como atitude específica do oci- dente, é o que ele define como crítica e que definiu todo esse pro- cesso de governamentalização da sociedade. É a resposta aos questionamentos até onde podemos saber, até onde pode racioci- nar sem perigo. Na Alemanha, da Hegeliana à Escola de Frankfurt, o questionamento ao positivismo, do objetivismo e da racionaliza- ção foi bem maior que na França, que impedia o questionamento da relação entre racionalização e poder, devido ao Iluminismo e à Revolução. No Século no XIX e XX a atitude crítica, com todas as suas engrenagens, se alicerçavam em três traços fundamentais: a ciên- cia positivista, o desenvolvimento de um estado e um sistema es- tático, e o entrelaçamento deles, uma ciência do estado positivista ou um estadismo. Desempenhando todo um controle produtivo e social por meio de conjuntos técnicos refinados. SUMÁRIO 197 Eugenia e Direitos Humanos Nessa sociedade racionalizada, com mais ou menos razão, surgiram movimentos violentos e de opressão como o fascismo e o stalinismo. O que se procura saber não é o verdadeiro ou falso, justo ou injusto, mas como essa aproximação entre esses mecanismos de coerção e elementos de conhecimento, formaram elos e conexões de manutenção do poder, com mecanismos de coerção e com jus- tificantes racionais, próprias, calculadas e tecnicamente eficazes. O intuito da experiência é estabelecer um nexo entre o sa- ber e o mecanismo de poder, que permita entender a aceitabili- dade de um sistema, seja ele médico, psiquiátrico, penal, legisla- tivo. Mesmo porque, todo mecanismo de poder possui regramen- tos que consubstanciam, que lhe dá coerência. Retomando a positividade, até o momento em que o fato é aceito, há que se decifrar os hábitos e mecanismos que o tornaram aceitáveis, já que não estavam escritos em nenhum direito origi- nário; não está contido em nenhuma anterioridade, a priori. É preciso pensar sobre quais os hábitos e desgastes conso- lidaram práticas? Mas que também levaram a uma ruptura em di- versos domínios da sociedade, por exemplo na medicina, na psi- quiatria, na disciplina penitenciária, no sistema penal, no pensa- mento de si e na sexualidade. Esse processo contrário é uma questão de atitude. Colocar a questão do conhecimento na sua relação com a dominação. Che- gar à autonomia é uma vontade individual, mas também coletiva de sair da menoridade, da passividade de aceitar as imposições. No momento de crise da governamentalidade, é preciso questionar os mecanismos de poder, essa é uma virtude que move o desenvolvimento em sociedade no surgimento, inclusive de no- vos regramentos e leis. A crítica ao processo racionalizador atual, neoliberalista, conservador, intolerante e violento é fundamental. Não dá para prosperar, onde ser sucedido, bem viver, esteja sempre aliado ao SUMÁRIO 198 Eugenia e Direitos Humanos sucesso financeiro, inclusive alicerçado em dogmas cristãos. A ati- tude de criticar é angustiante, mas é preciso! É um processo de ruptura, tendo em vista todo o processo racionalizador de formação, é um posicionamento ético e virtuoso de desassujeitamento, seguindo o pensamento de Butler (2013): Dito de outro modo, o “eu” que assim procede arrisca-se a defor- mar-se enquanto sujeito, passando a ocupar aquela posição onto- logicamente insegura que coloca a questão de um modo originá- rio: quem será um sujeito aqui, e o que se qualificará de vida? Eis um momento de deliberação ética que exige a ruptura de nossos hábitos de julgamento, em favor de uma prática mais arriscada, que faça a arte prevalecer sobre a coação. 2.8. As guerras no Brasil A série documental “Guerras do Brasil” foi lançada em 2019, sob roteiro e direção de Luiz Bolognesi, subdividindo-se em 5 episódios que retratam contextos de guerra vividos no Brasil, trazendo a crítica e reflexão acerca da “passividade” (in)existente no território, evidenciando que o país é marcado por contextos de guerras que persistem até hoje. Para além do conteúdo abordado no documentário, insta salientar o acervo cultural disposto no mesmo. Para cada episódio foi convidado um ilustrador brasileiro para retratar o conteúdo narrado, de modo que a série também consiste em um caminho pela arte desenvolvida no seio da cultura brasileira. 2.8.1. As primeiras formas de dominação e de fascismos no Brasil O primeiro episódio é nomeado “As Guerras da Conquista” e concentraa atenção, assim como no segundo episódio, no Brasil Colônia. Logo de início, destaca-se que “as guerras da conquista”, que intitula o respectivo episódio, ainda não acabaram. As popu- lações indígenas (das mais diversas origens) foram dizimadas e a SUMÁRIO 199 Eugenia e Direitos Humanos luta por demarcação de terras persiste até hoje, em um processo de constante invasão, que, na verdade, nunca teve fim. O Brasil de fato, é uma invenção, como destaca o historia- dor e filósofo indígena Ailton Krenak, que inicia a fala no primeiro episódio. Antes da invasão europeia, o Brasil era composto entre oito e quarenta milhões de habitantes e em todos os lugares havia in- dígena, habitavam mais de mil povos com diferentes línguas e cul- turas e, de acordo com Ailton, se os brancos tivessem educação, todos continuariam vivendo em harmonia. Ocorre que a história oficial do Brasil retrata a visão dos colonizadores, quase sempre colocados em uma posição de no- breza, quando, na verdade, a história da colonização não passa de um mito de origem. Nunca houve um evento fundador do Brasil. Apesar de a história narrar os colonizadores como figuras de poder, de superioridade, os índios poderiam ter matado os eu- ropeus, que não sabiam nada acerca do território e teriam mor- rido até mesmo pela ausência de mantimentos. Porém, os indíge- nas ensinaram tudo para os colonizadores, pois ao contrário dos invasores, eram povos abertos à diversidade, afinal, viviam em conjunto diferentes tribos. Os índios só passaram a perceber que os brancos eram in- vasores quando começaram a ser escravizados após a formação das capitanias hereditárias e só então começaram a se rebelar. Foi quando passaram a ser vistos como impedimentos à expansão cristã, acentuando-se a dizimação de indígenas através de inúme- ras formas, inclusive a guerra biológica, por meio de doenças que vinham do outro lado do mundo. Consoante o antropólogo Carlos Fausto, teve-se um dos maiores holocaustos da humanidade. Outrossim, os colonizadores aprenderam a manipular os povos indígenas a seu favor, utilizando de conflitos existentes en- tre tribos rivais para conseguir vantagens. Amiúde, a perversidade vinha camuflada em atos de bon- dade. No século XX foi criado o Serviço de Proteção aos índios – SUMÁRIO 200 Eugenia e Direitos Humanos SPI, frente ao massacre que vinha ocorrendo e, em 1960, funcio- nários da instituição e fazendeiros matam cerca de três mil e qui- nhentos indígenas com veneno misturado em alimentos dados de “presente” aos índios. Vários outros massacres sucederam. Milhares de índios fo- ram mortos durante a ditadura militar, por exemplo, e vêm sendo assassinados rotineiramente, A Constituição de 1988 estabeleceu o direito à demarcação e terras indígenas, mas a ordem do capital não dá folga a um povo já tão explorado. Os deputados ruralistas brigam constantemente para paralisar processos de demarcações de terras, abrindo-as para exploração. Os invasores de TI poderão solicitar a Declaração de Reconheci- mento de Limites (DRL) à Funai e, munidos desse documento, re- querer junto ao Incra, por meio de cadastro autodeclaratório, a le- galização dessas áreas invadidas. Tais normas potencializam o conflito, o desmatamento e os incêndios em terras indígenas. (APIB, 2021). Recentemente tem ganhado destaque na mídia os ataques realizados por garimpeiros armados à comunidade Yanomami, re- fletindo o profundo descaso com o povo indígena, que se apre- senta indefeso diante das armas de fogo utilizadas pelos garimpei- ros. Para Ailton Krenak, a guerra é um estado permanente, per- passou pelo processo de conquista e expansão colonial e perma- nece sem trégua até hoje. 2.8.2. Resistência à escravidão No segundo episódio do mencionado documentário, enten- demos mais uma vez que a história do Brasil está imersa na histó- ria da escravidão. Cerca de 12 milhões de negros foram sequestra- dos de seus territórios e trazidos, como escravos, para trabalhar SUMÁRIO 201 Eugenia e Direitos Humanos no Brasil. Considerado também um horrível genocídio do povo africano. Até hoje perdura essa banalização da dignidade dos cor- pos negros, o documentário traz o dado de que a cada 23 minutos um negro é assassinado no Brasil. Fazendo uma alusão ao pensar de Aimé Cesarie (2020), onde ele afirma que Hitler foi odiado pelos brancos porque aplicou à Europa procedimentos coloniais que até então eram reservados exclusivamente aos negros da África. Isto é, não querendo dimi- nuir ou enaltecer qualquer um dos horrendos eventos, mas a coi- sificação dos corpos negros foi permitida durante séculos e, por vezes, parece causar menos comoção mundial que o Holocausto. O documentário traz a escravidão como modelo econômico existente na colonização do Brasil e que também a Igreja Católica tinha interesse e corroborava com a escravidão, justificando que os negros tinham pecados originais e que a escravidão seria uma forma de se redimir. O trabalho forçado no Brasil colonial era muito árduo e desumano, tanto é que a média de vida dos escravos girava em torno de 20 anos. Nesse caminhar, no segundo episódio é relatado como, du- rante o período de escravidão, negros de todas as etnias, em forma de resistência, fugiram, no final do século XVI, dos engenhos para se refugiar em Quilombos. Nascia, na Serra da Barriga, antiga ca- pitania de Pernambuco, os Quilombos de Palmares, comunidades de negros que chegou, em meados do século XVII, ao auge de cerca de 20 mil pessoas, resistindo em mais de 100 anos de luta e resis- tências. O quilombo de Palmares se organizou em Conselhos e con- tava com a presença de um líder que reúne em si os aspectos reli- giosos, militares e políticos. Suspeita-se que a figura do “Zumbi” (significa Deus da Guerra), que é um cargo de liderança, uma po- sição de chefe do quilombo e não o nome de uma pessoa. Depois de quase um século de conquistas e vitórias, da re- sistência de Palmares, a situação dos quilombos passou a chamar muita atenção, nisso, a Coroa portuguesa decide investir pesado SUMÁRIO 202 Eugenia e Direitos Humanos nas lutas contra Palmares. Assim, em 1677, há um grande ataque à Palmares destruindo vários mocambos. Nesse ataque, alguns pa- rentes de um líder chamado Ganga Zumba são feitos prisioneiros, o que leva o Ganga Zumba a fazer um acordo com a Coroa. Esse acordo levou ao enfraquecimento de Palmares, pois havia muitos descendentes do acordo fechado por Ganga Zumba. Outras expedições para destruir os quilombos foram orga- nizadas, mas, em 1694 tropas paulistas, os chamados Bandeiran- tes, juntaram-se às tropas locais de Pernambuco atacando o mo- cambo fortificado na Serra da Barriga, que foi finalmente invadido e devastado no início de fevereiro de 1694. Houve muitas mortes e cerca de 500 prisioneiros foram levados para o Recife. Zumbi conseguiu fugir, mas foi morto em 20 de novembro de 1695. Sua cabeça foi cortada e enviada ao Recife, onde foi exposta “no lugar mais público” da vila, na tentativa de satisfazer os patrocinadores da guerra e também “atemorizar os negros que supersticiosa- mente” julgavam que seu líder era imortal. 2.8.3. Imperialismo, escravidão e crises de estados nacionais O episódio 3, intitulado “A Guerra do Paraguai”, do Docu- mentário Guerras do Brasil, narra uma série de episódios de guer- ras, por exemplo, o sucessor de trono do Império Brasil, no caso Dom Pedro II deixado ainda com 5 anos de idade em 1831, que depois foi coroado aos 15 anos ainda adolescente, e, por outro lado um sucessor de um sistema ditatorial, nesse caso Solano López, que aos 18 anos foi nomeado pelo próprio pai como general de exército. Portanto antes de analisarmos o episódio nos vem à ca- beça uma pergunta, como foi possível que essas crianças/adoles- centes se tornassem o centro da provocação deum conflito que ceifou milhares vidas e violência brutal? Esses dois protagonistas e como tantas outras crianças adolescentes foram vítimas de um sistema ou assumiram essa causa como honra e legítima defesa a custo de vidas humanas? SUMÁRIO 203 Eugenia e Direitos Humanos Logo no início o episódio traz a discussão das condições an- tecedentes de cada país e as causas do conflito. No caso do Brasil antes da guerra, havia as condições favo- ráveis, pois iniciava-se o comércio externo, a construção de ferro- viários, a arrecadação de impostos, a estabilidade política de Es- tado ou Monarquia. Enquanto o Paraguai não tinha estabilidade política, a lei vigente era configurada por leis do Partido-Estado e pessoal, o sistema ditatorial já vigorava, havia a pena de morte por razões políticas e a tortura era prática habitual, desde 1811, vigo- rava ainda uma lei que legalizava o uso de arma e cavalo por toda população, e quando houvesse uma situação de ameaça todos se- riam convocados em defesa de Estado-nação, havia um controle total do território. O Brasil havia travado uma guerra com Uruguai (guerra do prata), que supostamente venceu, com o fim dessa guerra o Brasil impõe ao Uruguai um acordo que colocava em risco a soberania do Uruguai (esse acordo violava direitos territoriais de Uruguai), pois o mesmo permitiu ao Brasil livre acesso ao território de Uru- guai sem precisar de autorização a fim de poder capturar os escra- vizados que procuravam refúgio em outros países da América La- tina., este acordo previa também “intervenção militar brasileira nos assuntos internos do Uruguai”. Portanto, além das situações de crises internas entre movi- mentos partidários (partido Blanco e Colorado) no Uruguai, havia também interferência externas e sub-regionais, ou seja, território e poder estava em jogo, colocando assim Uruguai no centro de ten- sões e ameaças permanentes naquela época. Com a entrada no poder do Partido Nacional (Blanco), no Uruguai em 1860, e com o fim do acordo que havia feito pós- guerra da prata com o Brasil, López tentou estabelecer um acordo com o novo governo do Uruguai como geoestratégia política “uma oportunidade de ter o governo aliado para começar externo que tinha um porto marítimo". SUMÁRIO 204 Eugenia e Direitos Humanos A partir desse momento cresceu mais a tensão entre Brasil e Paraguai no que diz respeito ao controle do Uruguai e a satisfa- ção dos seus desejos governamentais. Mesmo diante dessas ameaças de declaração de guerra, o Brasil por sua vez forçou a derrubada do governo no Uruguai em 1864, é a partir dessa circunstância que o Paraguai avançou com seus exércitos como havia advertido Lopez para atacar a província de Mato Grosso, com apreensão da comitiva da presidência da província. É importante ressaltar que, antes da entrada em guerra propriamente dita, como foi narrado no documentário, o quanti- tativo numérico do exército do Paraguai era superior ao do Brasil, portanto, o que mais chama atenção nesse cenário todo foi a ques- tão que poderemos chamar de “conflitos territoriais” porque to- dos os interesses giram em torno da dominação e controle das ro- tas marítimas e exploração e violação das fronteiras para fins mer- cantilista e de comércio externo. Foram essas circunstâncias que levaram à assinatura da aliança "tríplice" em 1865, entre (Argentina, Brasil e Uruguai), iso- lando assim o Paraguai. Acontece que para o Brasil não bastava só esse acordo, por isso que em 1865 o “império brasileiro” iniciou uma campanha de recrutamento denominado os voluntários da pátria ou corpos dos voluntários da pátria, era mesmo corpos da pátria porque ironicamente não tinha cabeças para pensar as consequências da guerra, agiam por emoções e não com a consciência da realidade, eram corpos também no sentido de que não havia nenhum tipo de preparação tanto em matéria da guerra, quanto fisicamente e emocionalmente, eram corpos a serviço de “biopoder” ou da "mi- cropolítica”, destinados para morrer por amor ao poder do impé- rio e Estado-nação ditatorial e criminoso. Importa ressaltar que nesse episódio percebemos que, to- das as incursões militares, todos os planos de guerra do Paraguai, (que não eram planos estudados e muito menos pensados pela sua SUMÁRIO 205 Eugenia e Direitos Humanos dimensão e consequências), a maioria delas falharam, como foi narrado no documentário que “num Estado democrático normal que enfrenta uma guerra, os planos da ordem no campo de batalha poderiam sofrer ajustes para melhor adaptar-se às circunstâncias enfrentadas no contexto”. Acontece que nenhum Estado que par- ticipou nessa guerra poderia ser considerado como democrático, e sim autoritário, ditatorial e totalitário portanto, “os planos eram da ordem para ser executados e qualquer mudança ou rendição poderia ser considerada como traição à pátria que era também um crime”. A partir desse choque de interesses entre o imperialismo e o nacionalismo consequentemente se gerou também crises no sis- tema de capitalismo-escravocrata, uma guerra que era para durar pouco tempo levou muito mais tempo do que era previsto a “pre- sença de tropas estrangeiros no Paraguai provocou uma reação nacionalista”, que acabou provocando a maior massacre na Amé- rica Latina. Com o Paraguai cercado e isolado o regime de Lopes, após perda incalculável das suas tropas, tentou estabelecer um acordo de paz com a Argentina, mas infelizmente não foi possível por conta do acordo de "tríplice aliança que previa a não aceitação à rendição de exército até captura ou morte de Lopez”. O regime de Lopez sem mais negociação possíveis começou a introduzir nas suas fileiras de combate, crianças /adolescentes e idosos, o Brasil por sua vez que havia instituído campanha de "vo- luntários da pátria", envidou uma política de raptos e sequestros. Diante dessa situação, massacres e graves violações de di- reitos humanos nos levaram a questionar como é que os promo- tores desses massacres se sentiam orgulhosos vendo inocentes in- clusive crianças indefesos e idosos já debilitadas morrem? O que está em jogo nessas guerras? SUMÁRIO 206 Eugenia e Direitos Humanos 2.8.4. O crime organizado, a partir dos porões da sociedade O episódio 5 do documentário “Guerras do Brasil” versa so- bre a “Universidade do Crime”. A origem e crescimento do crime organizado no Brasil, de como os porões dos presídios brasileiros contribuíram para essa evolução e pulverização no nosso territó- rio. Na época da ditadura (1969), a discussão da pena de morte era crescente para os opositores do regime ditatorial militar. Fo- ram encontrados dinheiros e armas nos presídios, atribuídos à Ali- ança Libertadora Nacional (ALN - instituição de extrema esquerda de combate armado à ditadura), oriundo de roubo a bancos. Foram então transferidos cerca de 1000 presos pertencen- tes à ALN para o presídio de Ilha Grande (Paraíso). Lá os presidiá- rios se organizaram na luta contra a exploração do preso pelo preso, e se denominaram Falange Vermelha. Passaram a se orga- nizar com farmácia, apoio e acolhimento de presos abandonados. Eram como uma resistência à insalubridade e condições dos pre- sídios. Surge daí o crime organizado. Da Falange Vermelha surgiu o Comando Vermelho, que, na década de 80, se dividiu. Surgiram facções com o ADA - Amigos dos Amigos e TCP - Terceiro Comando Puro, que começaram a se armar para se proteger da Polícia e para proteger seus territórios de invasões de facções rivais. Em São Paulo, nos anos 60, com o crescimento da cidade, das favelas, e o surgimento de grupos de extermínios comandados por Fleury, e da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) houve um aumento da violência no combate à criminalidade. A taxa de homicídio de 1960 a 1999 aumentou 900%. Na década de 90, com a política deencarceramento e o au- mento da violência institucional a crise carcerária estoura. Ocor- rem massacres como o do Carandiru (1992). SUMÁRIO 207 Eugenia e Direitos Humanos Em 1993, em Taubaté, após uma confusão num jogo de Fu- tebol dentro da unidade prisional, ocorrem dois homicídios. Na- quele momento é celebrado um acordo de autoproteção frente à violência institucional. Nessa unidade prisional, como em outras, existiam os anexos/piranhão (castigo). É o embrião do PCC – Pri- meiro Comando da Capital. 2.8.5. Encarceramento em massa: superlotação dos presídios, má administração e PCC Em 2001, o PCC edita seu estatuto com incentivo a roubo a bancos e punições para os componentes que não seguirem suas regras. Já em 2002 o PCC se revela para o Brasil, quando 29 uni- dades prisionais se rebelam concomitantemente em São Paulo. O PCC dinamiza e organiza o crime. Com financiamentos, aluguéis de armamento, gerenciamento e divisão de apurados das ações criminosas. Com a hegemonia do PCC, os números da vio- lência (taxa de homicídios) de São Paulo caem, se interrompendo o ciclo de violência. Em 2006, ocorre uma tentativa de desarticulação do PCC. O Estado de São Paulo transfere os principais líderes para presí- dios de segurança máxima. Em represália, 76 unidades prisionais se rebelam concomitantemente. É ordenado, também o ataque a unidades policiais, pessoas e órgãos públicos. O Estado se mostrou despreparado, estima-se que houve mais de 600 pessoas mortas. Para o encerramento da crise foi cos- turado um processo de negociação, não assumido pelo Estado até os dias de hoje. Em 2008, o Governo do Rio de Janeiro começa a implanta- ção das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), o discurso é de uma tentativa de retomar territórios ocupados por traficantes de drogas no Rio de Janeiro. SUMÁRIO 208 Eugenia e Direitos Humanos A ideia era ocupar com UPP´s e incluir à população com a chegada de serviços públicos essenciais, até então insuficientes e dominados pelo tráfico de drogas. De acordo com o Secretário de Segurança à época, José Ge- raldo Beltrame, a ideia era tomar os territórios sem violência, tanto que havia aviso prévio do início das ocupações, com isso a população se preparava e os líderes das organizações também. Tal fato gerou críticas da população em geral, pois com o aviso, os criminosos fugiam das áreas a serem dominadas. Inclu- sive, com a fuga dos líderes para outros Estados e interior do Bra- sil ocorreu uma pulverização de lideranças para os demais Esta- dos, o que favoreceu o surgimento de novas facções no interior do Brasil, como no Paraná, Espírito Santo e região norte e nordeste do Brasil. Inicialmente, após a invasão das favelas, nas UPP´s eram lo- tados policiais novos (recrutas), egressos da academia de polícia. Com o passar dos anos, o projeto fracassou: os policiais se vicia- ram no sistema (aumento da corrupção), houve aumento da vio- lência policial, os serviços públicos prometidos não chegaram, houve cortes de verbas, crise política no Estado, e o descrédito por parte da população na iniciativa. A pior consequência foi a aber- tura de portas para o fortalecimento das milícias. Em 2016, CV e PCC se aliaram para tomar o controle do trá- fico de drogas (maconha) na fronteira com o Paraguai. Interviram juntos em Pedro Juan Caballero (Brasil e Para- guai) e assassinaram o líder do tráfico na região (Jorge Raffat), numa ação contundente, com mais de 150 homens e grande pode- rio bélico. Após essa ação, PCC e CV romperam, devido à disputa por controle de mercados. Ocorrendo uma verdadeira pulverização de criminosos e facções pelo Brasil comandados pelas duas maiores lideranças, a saber o Comando Vermelho mais para o norte do Bra- sil, e o PCC para o sul e sudeste, sendo o Centro-Oeste dividido por ambos. SUMÁRIO 209 Eugenia e Direitos Humanos Inclusive, esse movimento de pulverização já havia se ini- ciado desde a fuga das lideranças, quando da implantação das UPP´s no Rio de Janeiro. Desse rompimento, ocorreram à época os massacres nos presídios de Alcaçuz (RN), Rondônia, Roraima e Maranhão. Dos quais, cenas de barbárie foram mostradas para o mundo inteiro, bem como a decadência do nosso sistema carcerário foi escanca- rada. Dessa escalada criminosa, chegamos ao contexto atual. No Brasil, existem mais 725 mil presos: - 3% da população carcerária do mundo (essa política de encarceramento ainda muito forte, precisa ser repensada, contudo, temos visto ideias de recrudesci- mento das penas no Congresso). Conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)29, em 2020, foram 43.892 mortes. Houve aumento de 5,2% em relação a 2019. Ainda 40% desses presos não possuem condenação judicial. Mais de 50% dos presi- diários são jovens entre 18 e 29 anos e, 61,7% dessa população é composta de pretos e pardos e essa proporção aumentou 14% nos últimos 15 anos, e de brancos diminuiu 19%. Essa foi a universidade e a evolução do crime organizado no Brasil, que cresceu e se reproduziu dentro do Estado, dentro dos presídios. Atualmente, os mecanismos estatais favorecem e fo- mentam, cada vez mais a escalada dessa violência no país. Quais saberes e poderes sustentam essa situação? Referências ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL. Assassinatos, tentativas e invasões: violência contra Indígenas e contra seus territórios. 2021. Disponível em: <https://apiboficial.org/2021/06/02/assassinatos-tentativas-e-invasoes- 29 Disponínel em https://forumseguranca.org.br/wp-content/uplo- ads/2021/02/anuario-2020-final-100221.pdf SUMÁRIO 210 Eugenia e Direitos Humanos violencia-contra-indigenas-e-contra-seus-territorios/>. Acesso em: 08 jun. 2021. CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre a colonialidade. São Paulo: Veneta, 2020. BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Tradução Rogé- rio Betonni. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 2015. DALAQUA, G. H. (2013). O que é a crítica: um ensaio sobre a virtude de Fou- cault. Cadernos De Ética E Filosofia Política, 1(22), 159-179. Recuperado de https://www.revistas.usp.br/cefp/article/view/59447 DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. Tradu- ção: Luiz B.L. Orlandi. São Paulo: Ed. 34. 2010. 560 p. ISBN 978-85-7326-446- 3. Guerras do Brasil.doc. Direção e roteiro: Luiz Bolognesi. Produção: Laís Bo- danzky e Buriti Filmes. Co-Produção: EBC / TV Brasil, 2019. Disponível na pla- taforma de streaming Netflix. JORNAL DA GLOBO. Garimpeiro atiram contra índios e policiais federais na terra Yanomami, em Roraima. 2021. Disponível em: < ttps://globo- play.globo.com/v/9508040/>. Acesso em: 06 jun. 2021. KANT, I. Textos seletos. Trad. Floriano de Sousa Fernandes. 3ª ed. Petrópolis: Rio de Janeiro, Vozes, 2005. MIGUEZ, Giovani. Gliglio, poemas antifascistas. In: Umanisté. Blog. 2020. Dis- ponível em: <https://www.umaniste.blog/post/giglio-poemas-antifascistas>. Acesso em: 06 jun. 2021. RAGO, Margareth; VEIGA-NETO, Alfredo (Orgs). Para uma vida não-facista: Belo Horizonte:Editora Autêntica, 2009. – (Coleção Estudos Foucaultianos). SUMÁRIO 211 Eugenia e Direitos Humanos FUNDAMENTO PRÁTICO-EPISTÊMICO DO PODER DIDATORIAL DE (A) NORMALIZAR A (in)disciplina dos corpos desviantes em Michel Foucault Brena Miranda da Silva Jennifer Martins Almeida Livia Maria Nascimento Silva Maria José da Silva Rinaldo Araújo da Silva 1 Introdução O livro Os Anormais consiste na transcrição das onze aulas do curso ministrado por Foucault em 1975. Desse modo, pro- pomo-nos nesta resenha apresentar as nuances das aulas de “08 de Janeiro de 1975”; “15 de janeiro de 1975”, “05 de fevereiro de 1975”. Assim segue a mesma sequência cronológica das aulas, mas sendo elas renomeadas. Na primeira aula, intitulada “A linguagem criada e o meca-nismo jurídico de escuta-dominação”, em aspectos gerais, o autor discute os relatórios médico-legais dos séculos XIX e XX, sendo que esses documentos eram redigidos por médicos psiquiatras, que discorriam sobre o modo de vida, o comportamento, a orien- tação sexual, os desejos e formas de sociabilidades dos (as) sujei- tos que praticavam o ato criminoso. Assim, a partir dos documen- tos médicos Foucault realizou uma análise da ordem de seus dis- cursos e apresentou como o poder médico dita o que é vida, quem tem direito à vida? Ou se pode dizer sobrevida? SUMÁRIO 212 Eugenia e Direitos Humanos Na segunda aula, nomeada “O casamento entre o judiciário e a medicina psiquiátrica”, realizou-se uma análise da aula de 15 de janeiro de 1975, na qual Foucault trabalha os conceitos de per- versidade e perigo, elencando o papel do exame médico psiquiá- trico enquanto elo de ligação entre o poder judiciário e o poder médico, mais especificamente a medicina psiquiátrica. Tal união, culmina em um poder de normalização, funcionando como uma espécie de gradação do normal ao anormal. Ainda, a partir do de- lineado na obra de Foucault, buscou-se exemplificar a reprodução dessa lógica de poder no sistema jurídico brasileiro, mais especi- ficamente na Lei de Execuções Penais e no Código Penal de 1940. Na terceira aula, denominada “A incompetência do Judiciá- rio, a ausência da medicina e o oportunismo, cria-se um monstro, o monstro da psiquiatria” Foucault trata da criação da figura do monstro e seu deslocamento para transformar e criar outros tipos de monstros, e cita três casos de formas de crimes, o caso da Séle- stat, o caso de Papavoine e o caso da Henriette Cornier, sendo esse último sem solução para o judiciário, como também para a medi- cina, então na ausência desses dois, surge a psiquiatria oportu- nista para torna-se um saber científico, colocando-se como solu- ção para vislumbrar o “louco” que tem característica de probabili- dade de cometer crimes, é nesse ser “anormal”, é nesse contexto oportuno, que a psiquiatria vai evoluir da psiquiatria intramani- comial tinha como centro a doença, para tonar-se intra e extrama- nicomial, identificando todo e qualquer comportamento “anor- mal.” Na última aula intitulada “Seres que não existem, mas que o Estado e a sociedade com ações de marginalidade, autoritárias e predatórias faz surgir”, aborda sobre a aula 11 de 19 de março de 1975 a discussão se dá em torno de três personagens foram eles: o grande monstro, o pequeno masturbador e a criança indócil a partir desses três personagens Foucault realiza um discussão de como a psiquiatrização se dá e a constituição de seres normais e SUMÁRIO 213 Eugenia e Direitos Humanos anormais dentro de uma perspectiva histórica de controle, de po- der e de eugenia para com os corpos considerados anormais do ponto de vista da psiquiatria. Por fim, no último tópico apresentamos uma interpretação ensaística do documentário “Cartas para além dos muros”, este que problematiza as percepções sobre a AIDS30 a partir das dimensões - social, médico-científico, político, jurídico, midiático, educacional e religioso, demonstrando que mesmo após os avanços nas políti- cas de saúde voltadas para as pessoas portadoras de HIV, perma- nece ainda enraizada na sociedade uma epidemia do preconceito. 2 A linguagem criada e o mecanismo jurídico de escuta-do- minação Nessa aula, torna-se eminente que o intuito de Foucault era trazer à tona como a criação de uma genealogia do discurso, tendo como fonte relatórios, laudos, biografias e leis antigas e/ou con- temporâneos à sua época, conseguiu instrumentalizar o judiciário para decidir sobre a vida ou não vida dos sujeitos envolvidos nos casos. Outrossim, analisamos a importância de apresentar os ins- trumentos técnicos criados pela medicina para melhor compreen- são do discurso e a quem ela serve. O autor realiza a leitura desses documentos, sendo o pri- meiro relatório de exame psiquiátrico, em matéria penal, datado de 1955 com a história de uma mulher e seu amante. A mulher matou sua filha devido a manipulação do seu amante, este que “ti- nha sido acusado de cumplicidade no homicídio ou, em todo caso, de incitação ao homicídio da criança” (p.3). 30 AIDS é uma doença crônica causada pelo vírus HIV, que danifica o sistema imunológico e interfere na habilidade do organismo lutar contra outras infec- ções (tuberculose, pneumocistose, neurotoxoplasmose, entre outras). A sigla Aids significa acquired immunodeficiency syndrome, traduzida para o portu- guês: síndrome da imunodeficiência adquirida (BRITO, et al, 2001). SUMÁRIO 214 Eugenia e Direitos Humanos Segue o quadro abaixo com as características dos persona- gens do Caso 01, uma vez que a intenção do perito era de enqua- drar esses sujeitos e delimitar quem são? Ou como são? Desse modo, o autor intitula o homem como “A” e a mulher como “L”: QUADRO I A L Pertence a um meio pouco homogêneo e socialmente mal es- tabelecido. Ela engoliu os paradoxos de “A” que a intoxicaram. Filho de uma mulher de si- tuação duvidosa. “A” tem uma influência sobre ela. Bovarismo/ Donjua- nismo/Alcebianismo “A” falava da necessidade que um casal teria de fazer coisas extraordinárias juntos. Erostrastismo Fonte Primária, 2021. Essas frases estratificadas do relatório (extraímos esses fragmentos do texto de Foucault, que por sua vez apresenta tre- chos dos laudos das expertises), apresentam o construto moral dos envolvidos no ato ilícito, assim o perito cria termos para cate- gorizar ou, se pode dizer, caracterizar “A”. Um homem que não se adaptou ao modo de vida burguês, sendo ainda dominado pela ori- gem pobre e duvidosa. Adiante, no relatório o médico lança o seguinte questiona- mento se do ponto de vista médico-legal, ambos (“A” e “L”), detém anomalias de origem patológica que justifiquem o ato realizado, e completa seu questionamento, afirmando que não. Por fim, o rela- tório em análise conclui que “A” é penalmente imputado. O foco dos procedimentos jurídicos tradicionais se cen- trava na punição, sendo utilizados os relatórios psiquiátricos como uma forma de justificar o ato criminoso, por meio das di- mensões criadas pela psiquiatria dos ditos cientistas. A história de SUMÁRIO 215 Eugenia e Direitos Humanos vida de “A” apresenta desdobramentos, ou seja, a criação de ele- mentos na cena cotidiana que fazem acreditar que, sim, “A” tem tudo para ser o sujeito delinquente. Logo, na sequência Foucault apresenta mais um relatório sobre o Caso 02 que envolvia chantagem e a dimensão sexual. Aqui, enquadramos mais três sujeitos, sendo intitulados de “X”, “Y” e “Z”. QUADRO II X Y Z Intelectualmente, sem ser brilhante. Idoso Moralmente é um Cínico/imoral Cínico/Falastrão Rico Preguiçoso Moralmente Ho- mossexual Ele é particular- mente repugnante. Totalmente imo- ral Medíocre Fonte Primária, 2021. Destacamos a linguagem utilizada pelos especialistas con- tratados para avaliação do processo. Assim, temos o seguinte caso: X (homossexual e caixa da boate) extorquia Y (homossexual e dono da boate), mas X amava Z que também trabalha na boate de Y. Sendo que Y representa a pessoa que estava sendo extorquida pelos outros dois. O relatório médico sobre o caso se debruça em apontar como a dimensão da sexualidade está correlacionada em realizar um ato ilícito, como se aqueles humanos (os caracterizados no quadro) fossem esculpidos para desenvolver as ações praticadas de chantagem, logo não são pessoas de confiança. O escopo cienti- ficista da categoria médica obteve, assim o poder de delimitar a SUMÁRIO 216 Eugenia e Direitos Humanos vida e a morte por meio dos relatórios médicos, uma vez que a lin-guagem criada gera o status de veracidade científica. Na esteira do pensamento do autor analisamos que o exame psiquiátrico: 1) Corrobora com o caráter constitutiva- mente criminoso da personalidade do réu. 2) Permite construir um duplo psicológico ético-político. 3) Mostra como o indivíduo já se pareceu com seu crime antes de ter cometido e 4) Constrói a demonstração ou elemento demonstrador da criminalidade. Após analisar os discursos, Foucault chama atenção para dois dispositivos legais utilizados pelos juristas da verdade uni- versal, assim se pode dizer - As Circunstâncias Atenuantes/Século XIX (Sistema de Prova Legal) versus Convicção Íntima/Século XVIII. O primeiro foi um dispositivo do Código Penal com objetivo de modular a aplicação da lei, no sentido de reduzir a pena con- forme os supostos graus de doença ou de loucura. Porém, a prática desse instrumento-médico-jurídico, a sa- ber o relatório, servia para influenciar o júri pela não absolvição, como também quando os juízes (não convencidos da culpa do réu) não queriam aplicar a lei em todo o seu rigor. Desse modo, quando não se tinha a certeza total da culpa do réu (convicção íntima), aplicava-se o princípio das circunstâncias atenuantes e uma pena leve ou inferior à prevista em lei. Já o princípio da convicção íntima afirma que não se deve condenar antes de se ter certeza total da culpa do réu, este contra- pôs ao princípio da prova legal, a qual equacionava as proporções da prova e da pena. Para tanto, o juiz deve estar persuadido da culpa, sendo que para isso, as provas definidas e qualificadas pela lei são insuficientes. Sendo necessária, a inferência de um especi- alista (que pode ser o médico, o perito) sobre o réu. Logo, analisa- se que que existe uma mecânica grotesca do poder que se apropria dos discursos, criando assim os alvos de punição. SUMÁRIO 217 Eugenia e Direitos Humanos 2.1 O casamento entre o judiciário e a medicina psiquiátrica Na aula de 15 de janeiro de 1975, Foucault propõe, a partir da análise do problema dos exames médicos legais, chegar ao pro- blema dos anormais. O exame médico legal configura uma espécie de continuum médico judiciário, na medida que substitui a exclusão recíproca entre a qualificação médica e a qualificação judiciária e organiza o que o autor classifica como domínio da “perversidade”. A noção de perversidade, pautada na dupla determinação, surge na metade do século XIX e implica no aparecimento de ter- mos “caducos” e ridículos nos discursos dos peritos. Dessa forma, é comum encontrar nos exames médicos legais termos como pre- guiça, orgulho, maldade, associados ao biológico e não a explica- ção do ato considerado criminoso. Trata-se, em verdade, de uma forma de “redução para crianças da criminalidade”, utilizando ter- mos que, por vezes, figuram nos discursos paternos aos filhos e nos livros infantis com propósitos morais. Essa puerilidade denota uma função essencial do exame médico legal: servir de ponte entre as categorias jurídicas elenca- das nos códigos penais, que estabelecem que somente será punido aquele que tiver intenção de causar dano, e categorias médicas psiquiátricas, psicopatológicas. O exame médico legal também possibilita substituir a al- ternativa institucional da prisão ou hospital pela homogeneidade da reação social, na medida que justifica a existência de uma con- tinuidade de proteção, que perpassa pela instância médica da cura até chegar na instituição penal. Trata-se da institucionalização do repressivo e punitivo fundamentada no discurso psiquiátrico. A sociedade responderá à criminalidade patológica de duas formas: pela expiação (aprisionamento) ou pela cura (tera- pêutica do higienismo social), sendo que esses dois polos formam uma rede contínua de instituições que tem como função respon- der ao perigo/indivíduo perigoso (não ao doente, pois nesse caso SUMÁRIO 218 Eugenia e Direitos Humanos bastaria a instituição terapêutica e não ao crime, pois aqui basta- ria a instituição punitiva. A partir dessa constatação, o autor trabalha dois conceitos que considera o núcleo central do exame médico legal: a perversi- dade e o perigo. Sendo assim, esses parâmetros possibilitam a “costura” dos conceitos médicos e dos conceitos jurídicos e o pe- rigo permite fundamentar, em teoria, a cadeia ininterrupta das instituições médico-judiciárias. A união do médico e do jurista somente é possível a partir da reativação de um discurso da moralidade infantil, que, ao mesmo tempo, se organiza em torno da perversidade e do perigo social, sendo, portanto, também um discurso do medo. Dessa forma, o caráter “ridículo” do exame médico legal está direta- mente ligado ao papel de ponte que ele exerce. O médico perito só é capaz de exercer o seu papel (determinar a punição do indiví- duo) utilizando um discurso que o desqualifica enquanto cientista (discurso pueril) e um discurso do medo. Essa função delineada do exame médico estaria ligada a uma regressão histórica vivenciada a partir do século XIX. Assim, antes o exame psiquiátrico tratava-se de uma transposição ao ju- diciário do saber médico, construído na clínica. Contudo, agora se apresenta desvinculado do saber psiquiátrico contemporâneo. O autor destaca outro processo histórico responsável por tal regressão: uma reivindicação de poder em nome da moderni- zação da justiça, atentando-se que desde o início do século XIX rei- vindica-se “o poder judiciário do médico ou o poder médico do juiz” (FOUCAULT, 2001, p.48). A partir de tal ponto, reformas fo- ram realizadas no sistema judiciário, organizando um poder mé- dico judiciário marcado principalmente por duas características: a) todo indivíduo submetido ao juízo criminal deveria, anterior- mente, ser analisado por perito psiquiatra, chegando ao tribunal com o peso do crime e do relatório médico; b) implementação de SUMÁRIO 219 Eugenia e Direitos Humanos tribunais especiais para menores, nos quais as informações desti- nadas ao julgador são relacionadas mais com seu contexto de vida e disciplina, que com o crime cometido pelo indivíduo. Nesse novo modelo, também são implantados nos siste- mas de administração penitenciária, médicos encarregados de acompanhamento da evolução da pena, atestando o nível de per- versidade e perigo que o apenado apresenta, sendo sua soltura condicionada a tal exame e diminuição dessa perversidade e peri- culosidade. Cabe aqui destacar que esse sistema pode ser verificado, inclusive, no texto da Lei de Execuções Penais brasileira (LEP, 1984), que até o ano de 2003, previa a necessidade de realização de exame criminológico para fins de progressão de regime. Des- taca-se que, mesmo com a alteração do art. 112 da LEP pela lei 10.792/2003, o STJ editou, em 2010, a súmula 43931, admitindo o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada. O autor utiliza o exemplo do exame médico judiciário para ilustrar que este cumpre a função de costura entre esses dois cam- pos, mas ao mesmo tempo é estranho a ambos. Assim, se preocupa com um objeto que não é necessariamente médico ou jurídico, não se dirige a doentes ou não doentes, a delinquentes ou inocentes. O exame médico legal não está localizado no campo da oposição, mas sim no campo da gradação do considerado normal ao anor- mal. Portanto, denota um poder que não é médico nem jurídico, mas sim um “poder de normalização”. Dessa forma, na medida que se constrói como uma instân- cia de controle não do crime, nem do doente, mas do anormal, o exame representa um problema político e teórico. Foucault (2001) propõe analisar o poder não sob a pers- pectiva da repressão, mas sim sob a perspectiva da normalização 31 Súmula 439 - Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada. (SÚMULA