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D IREITO CO M ERCIAL E D O CO N SUM ID O R AN ELIZE PAN TALEÃO PUCCIN I CAM IN H A O KSAN D RO GO N ÇALVES Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-65-5821-040-5 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 4 0 5 Código Logístico I000028 Direito Comercial e do consumidor Oksandro Gonçalves Anelize Pantaleão Puccini Caminha IESDE BRASIL 2021 © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: TarikVision/ Golden Sikorka/ AIWD/ Macrovector/ Irina Strelnikova/ DarkPlatypus/Shutterstock Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G627d Gonçalves, Oksandro Direito comercial e do consumidor / Oksandro Gonçalves, Anelize Pantaleão Puccini Caminha. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2021. 134 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-040-5 1. Direito comercial - Brasil. 2. Defesa do consumidor - Legislação - Brasil. I. Caminha, Anelize Pantaleão Puccini. II. Título. 21-71432 CDU: 347.7+34:366.542(81) Oksandro Gonçalves Anelize Pantaleão Puccini Caminha Pós-doutor em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL). Doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mestre e graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Ministra as disciplinas de Direito Empresarial, Direito Econômico e Análise Econômica do Direito na graduação. É professor no mestrado e no doutorado do Programa de Pós-graduação em Direito. Atua também como advogado. Doutoranda em Direito pela PUCPR. Mestre em Direito e especialista em Processo Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Atua como professora de Direito há quatro anos e é autora de artigos científicos e livros nessa área. Atualmente, é também professora em um centro universitário e em diversas especializações e cursos preparatórios e é sócia- proprietária em um escritório de advocacia. SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 1 Uma introdução ao Direito Comercial 9 1.1 O histórico do Direito Comercial 9 1.2 Conceito e autonomia do Direito Comercial 18 1.3 Teoria da empresa e atividade comercial 25 1.4 Regime jurídico da livre iniciativa 28 2 A atividade empresarial e sua organização 36 2.1 Registro público de empresas mercantis 36 2.2 Finalidade do registro 40 2.3 Departamento de Registro Empresarial e Integração (DREI) 42 2.4 Juntas comerciais 44 2.5 Livros comerciais e a escrituração 50 2.6 Estabelecimento comercial 54 3 Nome empresarial e propriedade industrial 59 3.1 Nome comercial e sua proteção 59 3.2 Propriedade industrial 68 3.3 Registro de marca 69 3.4 Registro de desenho industrial 81 3.5 Concessão de patente de modelo de utilidade 84 3.6 Concessão de patente de invenção 88 4 Código de Defesa do Consumidor 94 4.1 Sistema Nacional de Defesa do Consumidor 95 4.2 Direitos básicos do consumidor 99 4.3 Responsabilidade por vício do produto e do serviço 103 4.4 O direito do consumidor no comércio eletrônico 108 5 A proteção do consumidor 113 5.1 O respeito à dignidade do consumidor 113 5.2 A proteção contratual 116 5.3 Defesa do consumidor em juízo 123 5.4 Prescrição e decadência 127 6 Gabarito 132 Esta obra busca discutir como se desenvolve o Direito Comercial e o direito do consumidor no ordenamento jurídico brasileiro. Dessa forma, o primeiro capítulo promove uma introdução ao Direito Comercial, tendo por objetivo apresentar o conceito e a autonomia da disciplina e como se deu a passagem do sistema de atos de comércio para a teoria da empresa ao longo da história. No segundo capítulo, o estudo avança para apresentar a atividade empresarial e a forma que ela se organiza, especialmente como é o regime legal do registro do empresário e suas obrigações. O terceiro capítulo versa sobre o nome empresarial e a propriedade industrial, elementos de suma importância para o empresário, necessários para o desenvolvimento e o crescimento das atividades empresariais e que gozam de proteção jurídica. É apresentado o sistema de proteção dos dois institutos, especialmente a questão do registro do nome e da propriedade industrial e a extensão da proteção conferida. No quarto capítulo é desenvolvido o estudo sobre o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. Trata-se dos direitos básicos estabelecidos no Código de Defesa do Consumidor em consonância com os princípios e os objetivos determinados como valores e preceitos fundamentais do consumidor. Para garantir efetivamente a proteção do consumidor, é necessário observar a responsabilidade por vícios de produtos e serviços, assunto que também é abordado no capítulo. Por fim, o quinto e último capítulo discorre sobre o respeito à dignidade do consumidor. Como forma de defesa da vulnerabilidade do consumidor, dá-se a análise da proteção contratual estabelecida na legislação brasileira e a defesa do consumidor em juízo. Bons estudos! APRESENTAÇÃO Vídeo Uma introdução ao Direito Comercial 9 1 Uma introdução ao Direito Comercial Oksandro Gonçalves O objetivo deste capítulo é apresentar e desenvolver alguns con- ceitos essenciais à compreensão do Direito Comercial. Principia-se pelo conceito de Direito Comercial e pelos motivos que levaram à sua autonomia em relação a outras disciplinas do Direito Privado. Em seguida, trata-se das obrigações do empresário, notadamente aquelas relacionadas ao seu registro perante as Juntas Comerciais, a contabilidade e os livros do empresário. Também desenvolve-se a passagem do Direito Comercial da teoria dos atos de comércio para a fase da teoria da empresa, inaugurada oficialmente no ordenamento jurídico com o Código Civil de 2002. Finalmente, apresenta-se a justificativa constitucional da exis- tência de um Direito Comercial, a qual está centrada na livre inicia- tiva, um dos pilares do Estado Democrático de Direito. 1.1 O histórico do Direito Comercial Vídeo Uma das formas de entender o conceito de Direito Comercial é rea- lizar um resgate histórico para melhor compreender a evolução pela qual essa área passou até chegar ao que se conhece atualmente. Por ser muito dinâmico, o Direito Comercial não comporta um conceito estático, mas sim mutável a cada período histórico, motivo pelo qual se costuma dizer que essa disciplina é historiográfica. Assim, passa-se a desenvolver essa noção histórica para, então, culminar no conceito. 10 Direito Comercial e do consumidor 1.1.1 O Direito Comercial na Antiguidade O Direito Comercial não surgiu concomitantemente à noção de comércio. Por isso, a primeira fase é também conhecida como fase pré-histórica do Direito Comercial, justamente porque não havia uma sistematização normativa, mas sim usos e costumes que variavam con- forme os envolvidosna relação comercial. Existem alguns registros de supostas normas comerciais na Mesopotâmia, no Egito, na Fenícia, na Palestina e na Grécia, mas, de modo geral, aceita-se como primeira manifestação verdadeiramen- te legislativa de Direito Comercial o Código de Hamurabi (CORDEIRO, 2001; FERREIRA, 1956). Facilmente se constata que o Direito Comercial na Antiguidade era praticamente inexistente, o que não torna a fase menos importan- te. Sua compreensão é necessária para demonstrar como a matéria evoluiu, pois, apesar de não existir um sistema organizado de normas comerciais, foi justamente o avanço do comércio pelo mundo que co- meçou a demandar certa organização ou sistematização de regras para facilitar as trocas comerciais. 1.1.2 O Direito Comercial em Roma A maior contribuição dos romanos para o Direito Comercial não se deu especificamente com relação à matéria, mas ao Direito em si. Em razão de os romanos terem desenvolvido e organizado vários ramos do Direito, acabaram por fazer o mesmo pelo Direito Comercial. Isso tem uma expli- cação no fato de o Império Romano ter se expandido muito e contribuí- do para o estabelecimento de uma espécie de rede de comerciantes, que passou a exigir certo nível de regras estabelecidas ou adaptadas pelos ro- manos para conferir alguma ordem no seu vasto império (FRANCO, 2004). Conclui-se que o Direito romano, apesar da sua exuberância, não conheceu devidamente o Direito Comercial, limitando-se a fornecer os mecanismos necessários à sua constituição futura. 1.1.3 O Direito Comercial no início da Idade Média A queda do Império Romano levou a um processo de fragmenta- ção do poder e, consequentemente, a uma multiplicação de normas Uma introdução ao Direito Comercial 11 que regulavam o comércio. Em razão disso, estruturou-se um sistema feudal, em que a economia era restrita a aspectos de subsistência for- temente vinculados ao proprietário das terras, que facultava o seu uso mediante a entrega de uma parcela da produção. A insatisfação com esse sistema fez aos poucos surgir uma classe denominada burguesia, que, ao contrário da classe feudal, não estava vinculada a aspectos relacionados ao direito de propriedade imobiliá- ria, mas à prestação de serviços e aos atos de comércio, ainda que ru- dimentares (GONÇALVES NETO, 2000). Com o passar do tempo, essa atividade floresce e cresce a ponto de fazer frente aos senhores feudais. Além disso, faz surgir a necessida- de e a vontade de criar para si um conjunto de regras diferente, mais adaptadas à sua própria realidade. Desse modo, cria-se uma ordem ju- rídica com leis e tribunais próprios que favoreçam essa classe, surgindo a noção de lex mercatoria e o futuro Estatuto do Comerciante. Para uma melhor compreensão, basta verificar que até os dias atuais há feiras livres. Elas surgiram na Idade Média porque a nova classe burguesa precisava desaguar o excedente dos produtos de que dispunha para, assim, aumentar o seu lucro. A isso se soma o vínculo que aos poucos se formava entre a cidade e as feiras que nela se realizavam, razão pela qual surgem diversos mecanismos para garantir aos mercadores o trânsito seguro, a criação de guar- das especiais e a criação dos títulos de crédito em substituição ao ouro e a outros metais. Como o sistema jurídico disponível era insuficiente para atender a essa nova demanda, começa-se a traçar os primeiros elementos de or- ganização de um Direito Comercial, tal como é conhecido atualmente. Nesse período, é importante destacar o papel das corporações de ofí- cios, as quais passam a produzir e aplicar leis e a organizar-se, como é o caso das famosas cidades italianas de Veneza, Amalfi, Pisa e Gênova (COELHO, 2002; REQUIÃO, 1993). O próximo passo foi a criação das chamadas jurisdições consulares, cujos julgados estão assentados basicamente na boa-fé, nos costumes e na equidade (FERREIRA, 1956). Esse novo direito é respeitado de ma- neira consensual universalmente, como se todos o tivessem discutido e aceito. Seu desenvolvimento e sua aplicação se deram no âmbito dos mercadores, encontrando sua gênese em interesses meramente eco- 12 Direito Comercial e do consumidor nômicos. Com a evolução natural da mercancia, os estatutos, os usos e costumes e as decisões são agrupados e a jurisdição é estendida, aplicando-se a todos os membros (COELHO, 2002). Nesse ponto, algo muito importante acontece: começa a surgir um conceito de comerciante, o que se convencionou chamar de conceito subjetivo ou fase subjetiva do Direito Comercial. “Resultante da auto- nomia corporativa, o direito comercial de então se caracteriza pelo acento subjetivo e apenas se aplica aos comerciantes associados à corporação” (COELHO, 2002, p. 13). Sobre isso, Requião (1993, p. 10-11) também afirma que: temos, nessa fase, o período estritamente subjetivista do direito comercial a serviço do comerciante, isto é, um direito corporativo, profissional, especial, autônomo, em relação ao direito territorial e civil, e consuetudinário. Como o comércio não tem fronteiras, e as operações mercantis se repetem em massa, transpira nítido o seu sentido cosmopolita. Portanto, o conceito é subjetivo porque o Direito Comercial era um direito profissional ou classista, em função de uma única classe de pessoas: os comerciantes. 1.1.4. O Direito Comercial no final da Idade Média A grande mudança entre o início e o final da Idade Média, com impacto no Direito Comercial, reside no surgimento da figura dos Estados modernos, os quais dão soberania aos monarcas que centra- lizam o poder antes disperso. Com o surgimento desse novo conceito, o centro irradiador das normas passa a ser o Estado sob o ponto de vista formal. O direito que era antes consuetudinário e internacionalis- ta passa a ser legislado e nacional, estranho às corporações. Ainda que esse direito tenha sido institucionalizado pelo Estado, em geral, foram mantidas as ideias a respeito das normas consuetudinárias estabeleci- das pelas corporações de ofício. O próximo fato histórico importante para o desenvolvimen- to do Direito Comercial ocorreu a partir do século XV, com a Era dos Descobrimentos, que levou à colonização, e da segunda metade do sé- culo XVI, com a evolução dessa fase colonizadora para uma fase mercan- tilista, a qual acabou por impactar momentaneamente o cosmopolitismo do Direito Comercial. Ferreira (1956, p. 31) resume essa fase: consuetudinário: algo que se pratica repetida e constantemente; usual, habitual, costumeiro (justamente o que é o Direito Comercial, ou seja, um direito de usos e costumes). Glossário Daí, como medida de defesa, a política intervencionista do Estado. E com a formação e o robustecimento dos Estados monárquicos, sua autoridade legislativa centralizada passou a restringir a formação das normas costumeiras de direi- to comercial, dando lugar a uma legislação mais atenta aos interesses do Estado que aos dos comerciantes. O mercanti- lismo então dominante, multiplicando regulamentos e restri- ções de toda ordem, impunha leis peculiares a cada Estado, determinando assim a crescente nacionalização do direito co- mercial que daí por diante iria perder a sua qualidade de um direito da comunidade internacional dos comerciantes. No século XVII, as mudanças sociais acabam gerando um movimen- to que faz surgir o fenômeno chamado de codificação, que tinha como objetivo conferir segurança jurídica às relações sociais. 1.1.5 A Revolução Francesa e a codificação O fato histórico marcante dessa fase foi a Revolução Francesa, em 1789, sob o lema liberdade, fraternidade e igualdade. Na Fran- ça, a Lei Chapelier, de 1791, extinguiu as corporações de ofícios e proclamou a liberdade de trabalho e comércio (GONÇALVES NETO, 2000). Assim, o sistema que havia se desenvolvido para o Direito Comercial até esse momento, calcado na ideia de um direito especial e fruto das corporações de ofícios, sofre um grande rompimento. Isso é ainda mais contundente porque a ideia desenvolvidapelos revolucionários franceses não ficou restrita à França, influenciando praticamente o mundo todo. A ideia de um Direito Comercial focado na figura do comerciante como seu agente sofre uma mudança para se centrar na definição de critérios objetivos para a subsunção de um fato à norma. Nesse momento, a fase subjetiva, baseada na figura do comercian- te, ou seja, no sujeito, é superada e inicia-se a fase objetiva, baseada na descrição de um conjunto de atos que, se praticados, definiriam o conceito de comerciante. Surge, então, a figura da teoria dos atos de comércio. 14 Direito Comercial e do consumidor A teoria dos atos de comércio foi uma das fases mais importantes para o Di- reito Comercial, tendo vigorado por um longo período, pois foi construída na época da Revolução Francesa, e perdurado no Brasil até a edição do Código Civil de 2002. Nesse sentido, recomendamos a leitura do artigo Code civil francês: gênese e difusão de um modelo, de Eugênio Facchini Neto, publicado na Revista de Informação Legislativa, para ampliar seus conhecimentos. Acesso em: 17 mar. 2021. https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/496956/000983388.pdf?sequence=1 Artigo Assim sendo, há a passagem do conceito subjetivo, calcado na figura do comerciante, para um estágio evolucionista, centrado no ato de comércio. A principal diferença é que na fase subjetiva era preciso obter a condição de comerciante, muitas vezes tendo que pertencer a determinada corporação de ofício ou por delegação do Estado, de um monarca ou do senhor feudal. Já na fase do conceito objetivo qualquer indivíduo passa a poder exercer a atividade co- mercial (COELHO, 2002). A teoria dos atos de comércio, resumidamente, está assentada em uma relação de atos definidos pelo Código Comercial como atos que, se praticados, poderiam ser chamados de próprios do comércio. Na compra para revenda, dinheiro é cambiado com bens ou títulos; nas operações bancárias, permuta-se dinheiro presen- te por dinheiro futuro; nas empresas, resultados do trabalho são trocados por dinheiro e outros benefícios econômicos; e nos seguros, o risco individual se troca pela cota-parte do risco coletivo. (COELHO, 2002, p. 15) O modelo com base em atos de comércio, embora tenha vigorado por um grande período, foi largamente criticado diante da insuficiência que naturalmente abateu a relação inicial de atos de comércio, pois a atividade comercial é muito dinâmica e rapidamente superou a relação de atos disposta no Código. Dessa forma, os atos foram se ampliando com base nos usos e costumes sem que houvesse ou pudesse haver qualquer tipo de controle efetivo, tampouco qualquer sanção a res- peito. Segundo o que ressalta Requião (1993, p. 13), para sintetizar a posição de toda doutrina, “não é preciso esforço de imaginação para se concluir a precariedade científica de um sistema jurídico que não se encontra capacitado, sequer, para definir seu conceito fundamental”. https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/496956/000983388.pdf?sequence=1 Uma introdução ao Direito Comercial 15 Essa indefinição dos atos de comércio não impediu, contudo, o de- senvolvimento da disciplina de Direito Comercial. 1.1.6 A importância do Código Civil italiano de 1942 O Código Civil italiano de 1942 produziu uma importante influên- cia sobre o Direito Comercial, pois rompeu com o sistema da teoria dos atos de comércio e lançou para a doutrina um novo sistema com base na teoria da empresa. Quando foi editado, o Código italiano acabou por unificar o Direi- to Privado e, consequentemente, inseriu no mesmo Código o Direito Civil e o Direito Comercial. Ambos mantiveram sua autonomia, mas agora constavam em um único instrumento, ao contrário do sistema que havia sido proposto pelos franceses, o qual tinha um Código Civil e um Código Comercial – o sistema francês, aliás, era o sistema adotado pelo Brasil. A grande discussão em torno desse novo sistema reside na impreci- são do termo empresa, como bem ressalta Cordeiro (2001, p. 207): Tentando ordenar este caudaloso uso, podemos adiantar que, quer perante numerosas leis, quer em face da linguagem cor- rente, a expressão “empresa” traduz, conforme o contexto: – um sujeito que atue e que, nessa qualidade, é suscetível de direitos e de obrigações; pense-se, por exemplo, nos “direi- tos ou deveres das empresas”, na “política das empresas” ou nas “preferências das empresas; – um complexo de bens e direitos capaz de suportar a atuação de interessados; assim, a “compra de uma empresa”; – uma atividade: “levar a cabo uma empresa”; esta última acepção, tradicional, tende a cair em manifesto desuso. É importante salientar que esse conceito de empresa, embora impreciso, acompanhou o desenvolvimento da economia em geral e está conectado à fase histórica de 1942 até os dias atuais, em que a figura da empresa adquire uma grande importância mundial. Mesmo que o novo sistema não tenha contribuído efetivamente para superar o tratamento diferenciado conferido aos que praticam ativida- des econômicas, ao menos é mais abrangente, a ponto de inserir ativi- dades que estavam excluídas do conceito de atos de comércio, como a prestação de serviços. É possível exemplificar a importância da teoria da empresa ao se resgatar o texto do artigo 966 do Código Civil, que 16 Direito Comercial e do consumidor expressamente inclui os serviços na categoria dos atos capazes de se identificar a figura do empresário e que expressamente exclui outros: Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissional- mente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artís- tica, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de em- presa. (BRASIL, 2002) O Código Civil brasileiro de 2002 reproduziu o conceito de empre- sário do Código italiano. Basta verificar a redação do artigo 2.082 des- te e compará-lo ao artigo 966 daquele: é “empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens e de serviços” (BRASIL, 2002). Como é costumeiro, não se pode deixar de mencionar a teoria dos perfis da empresa, de Asquini (1996). Os perfis são: Subjetivo, como sujeito de direito identificado pela figura do empresário. Corporativo, como organismo que envolve as relações jurídicas internas do empresário com seus prepostos. Objetivo, como objeto de direito que corresponde à noção de estabelecimento empresarial. Funcional, como atividade desenvolvida de maneira organizada. Em seu texto, o Código Civil brasileiro, fortemente influenciado pelo Código Civil italiano de 1942 e pela teoria dos perfis da empresa, de Asquini, revela, no artigo 966, todos esses perfis, em maior ou menor profundidade, conforme o quadro a seguir. Uma introdução ao Direito Comercial 17 Quadro 1 Influências da teoria dos perfis da empresa no Código Civil brasileiro Subjetivo Presente no artigo 966 do Código Civil, que conceitua a figura do empresário ao registrar “considera-se empresário quem”. Corporativo Presente no artigo 981 do Código Civil, que conceitua a figura da sociedade, a qual organiza as relações empresariais, e nos artigos 1.169 a 1.171 (prepostos), 1.172 a 1.176 (gerente) e 1.177 e 1.178 (contabilista e auxiliares). Objetivo Presente nos artigos 1.142 a 1.149 do Código Civil, que regu-lam o estabelecimento. Funcional Presente no artigo 966 do Código Civil, quando coloca “exerce profissionalmente atividade econômica organizada”. Fonte: Elaborado pelo autor. Sendo assim, resta demonstrar a evolução constante do Direito Comer- cial até chegar à conformação atual, baseada na teoria das empresas. 1.1.7 O Direito Comercial no Brasil No Brasil, há três fases históricas: Brasil Colônia, Brasil Independente e Brasil República. Na época do BrasilColônia, a legislação aplicável aos comerciantes era a portuguesa, sendo considerado fato importan- te para o desenvolvimento da disciplina a famosa abertura dos portos por meio da Carta Régia de 28 de janeiro de 1808, até hoje vista como a primeira norma comercial brasileira. Depois vieram outros eventos, como a criação do Banco do Brasil em 1808, uma vez que a atividade de crédito é notoriamente comercial (REQUIÃO, 1993). Com a Independência, em 1822, inicia-se a fase do Brasil Independente. Não havia normas comerciais para regular o comércio existente, razão pela qual o novo governo determinou que as leis por- tuguesas continuassem em vigor. Isso acabou perdurando até 1850, quando finalmente foi editado o Código Comercial brasileiro, permea- do pelas seguintes ideias: Um Código de comércio deve ser redigido sob os princípios adotados por todas as nações comerciantes, em harmonia com os usos ou os estilos mercantis dos diversos povos do mundo. Um Código de comércio deve ser acomodado às circunstâncias especiais do povo para o qual é feito. 18 Direito Comercial e do consumidor Em 1889 inicia a fase do Brasil República, que perdura até os dias atuais. Cumpre lembrar que o Código Comercial brasileiro foi editado em 1850 e vigorou até 2002, com a edição do Código Civil. De fato, a Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002 – em vigor desde janeiro de 2003 –, no artigo 2.045, revoga expressamente toda a primeira parte do Código Comercial de 1850. Atualmente é possível afirmar que o Código Comercial é pratica- mente inexistente, posto que, além da revogação expressa da sua pri- meira parte, toda a segunda parte é objeto de leis esparsas. Para saber mais detalhes desse desenvolvimento histórico, leia o artigo Do Direito Comercial ao Direito Empresarial: formação histórica e tendências do Direito brasileiro, de Bruno Nubens Barbosa Miragem, publicado na Revista da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Acesso em: 17 mar. 2021. http://seer.ufrgs.br/revfacdir/article/download/73484/41374 Artigo 1.2 Conceito e autonomia do Direito Comercial Vídeo Categoriza-se o Direito classicamente em Direito Público e Direito Privado. Este último, por sua vez, divide-se em Direito Civil, Direito Co- mercial e direito do consumidor. Para compreender a extensão e a im- portância do Direito Comercial dentro do Direito Privado, é importante estudar seu conceito e sua autonomia segundo essa divisão. 1.2.1 O conceito de Direito Comercial Estabelecer um conceito sobre determinada disciplina não é uma tarefa simples, pois existem muitas propostas, cada qual salientando aspectos importantes, mas sem que seja possível chegar a um consen- so propriamente dito. Por isso, opta-se por apresentar os conceitos a seguir, adotando um critério cronológico para demonstrar a evolução da definição do que é Direito Comercial: http://seer.ufrgs.br/revfacdir/article/download/73484/41374 Uma introdução ao Direito Comercial 19 Complexo de normas jurídicas que regulam as relações derivadas das indústrias e atividades que a lei considera mercantis, assim como os direitos e obrigações das pessoas que profissionalmente as exercem (BORGES, 1959, p. 14). Conjunto de normas jurídicas que regulam os atos necessários às atividades dos comerciantes no exercício de sua profissão, bem como os atos pela lei considerados comerciais, mesmo praticados por não comerciantes (MARTINS, 2002, p. 16). Direito Comercial tem sido o nome que identifica – nos currículos de graduação e pós-graduação em Direito, nos livros e cursos, no Brasil e em muitos outros países – o ramo jurídico voltado às ques- tões próprias dos empresários ou das empresas; à maneira como se estrutura a produção e negociação dos bens e serviços de que todos precisamos para viver (COELHO, 2016, p. 11). Apesar dos inúmeros conceitos disponíveis, é importante salien- tar que o Direito Comercial, por estar atrelado à atividade comercial, é extremamente dinâmico e mutável. Os conceitos apresentados demons- tram justamente essa característica, começando com uma definição cen- trada na figura do comerciante e passando, ao longo dos anos, para a figura do empresário. A dinamicidade própria das atividades empresa- riais acaba por tornar impossível uma sistematização da disciplina, que se divide em várias partes (Figura 1), por exemplo, Direito Cambiário, Di- reito Societário, Direito da Insolvência (falência e recuperação), Direito Bancário, Direito da Propriedade Industrial etc. 20 Direito Comercial e do consumidor Figura 1 Divisões do Direito Privado Direito Privado Direito Civil Direito Comercial Direito do Consumidor Direito Cambiário Direito Societário Direito da Insolvência Direito Bancário Direito da Propriedade Industrial Fonte: Elaborada pelo autor. O Direito Comercial não surgiu com o comércio, pois este é anterior à normatização estudada neste livro. Até a construção do que viria a ser o Direito Comercial, vigora- vam regras costumeiras que orientavam as relações comerciais, as quais somente vieram a ser organizadas muito tempo depois, surgindo a disciplina estudada neste capítulo. Assim, o Direito Comercial certamente é um ramo que nasceu com os co- merciantes para atender às suas necessidades, especialmente a de promover certa segurança jurídica às relações emergentes e que se mostravam altamente rentáveis para todos os envolvidos, mas que logo se desprendeu dos seus criadores para abran- ger um número cada vez maior de relações. Mais do que apenas um conceito, o importante é identificar os ele- mentos do Direito Comercial aptos a formar um conceito geral da ma- téria. Dessa forma, prevalecem os seguintes aspectos comuns a todos os conceitos, independentemente da cronologia: • ter profissionalidade ou habitualidade da atividade; • ser a atividade mercantil ou empresária; • ser executada por um sujeito de direitos e obrigações denomina- do empresário ou comerciante. Com base nessas características, é possível fornecer um conceito do que representa o Direito Comercial. Uma introdução ao Direito Comercial 21 Nesse ponto, é preciso estabelecer um marco legal distintivo que impacta o conceito, por mudar o enfoque, com base na mutação do sujeito da relação jurídica: Até 2003 vigorava no ordenamento jurídico o Código Comercial de 1850, com forte influência do Direito francês. O conceito girava em torno da figura do comerciante do ato de comércio, por isso era chamado de teoria dos atos de comércio. Porém, um conjunto de mudanças econômicas, culturais e sociais transformou o comerciante nas figuras que hoje se conhece como empresário e empresa. Código Comercial de 1850 (deixou de vigorar, em parte, em 11 de janeiro de 2003) Embora socialmente já tivesse ocorrido a mudança de enfoque do comerciante e dos atos de comércio para o em- presário e a empresa há muito tempo, foi somente após o Código Civil de 2002 que houve a positivação desse novo sistema. O Direito Comercial passou a se orientar por meio das noções de empresário e empresa, justificando o uso da expressão Direito Empresarial, ainda que Direito Comercial continue sendo largamente utilizada. Código Civil de 2002 (entrou em vigor em 11 de janeiro de 2003) A grande mudança não reside na nomenclatura, a qual passou a chamar o comerciante de empresário, mas no conceito mais amplo de atividade empresarial, que engloba não somente a compra e a venda, mas também a produção de bens (indústria) e principalmente a presta- ção de serviços, que, até então, não era considerada empresarial. A mutação realizada pelo Código Civil também gerou o fenômeno e a discussão da unificação do Direito Privado. Houve muito debate em torno da unificação entre o Direito Civil e o Direito Comercial, especial- mente porque o Código Comercial de 1850 foi revogado por ocasião da edição do Código Civil de 2002. A argumentação dos defensores da unificação derivava da fase co- nhecida como fase da codificação do Direito Privado(composto do Di- reito Civil e do Direito Comercial e, para alguns, também do direito do consumidor). Durante ela, dava-se enorme valor aos códigos. Assim, o Direito deveria ser codificado, consolidando em um único diploma legal – o Código – toda a legislação da matéria que se pretendia tratar. É por isso que no Brasil há o Código Civil, o Código Tribunal Nacional, o Código Penal, o Código de Processo Penal, o Código de Processo Civil, o Código de Defesa do Consumidor etc. Ocorre, entretanto, que o Direito Comercial é muito dinâmico e dificil- mente consegue ficar encerrado em um código, que tem por característica o “engessamento” da disciplina. Eis que, em geral, toda mudança depende de alterações legislativas quase sempre morosas, ao passo que a ativi- dade comercial é extremamente dinâmica, não podendo, por isso, ficar presa a esse aspecto sob pena de o seu objetivo não se realizar. A ideia de unificação começou no âmbito do Direito italiano, que influenciaria fortemente a unificação no Direito brasileiro. Em 1942 foi editado o Código Civil italiano, que agrupou o direito obrigacional do país, deixando de existir, portanto, a diferença entre obrigações civis e comerciais. Como antes havia dois códigos, um comercial e outro civil, cada um regulava o campo das obrigações de uma forma. O Código Civil brasileiro de 2002 adotou a orientação italiana e uni- ficou o direito das obrigações, deixando de existir no ordenamento nacional a distinção entre obrigações civis e comerciais. Além disso, instituiu um capítulo para tratar do Direito de Empresa, que substituiu o Código Comercial de 1850. No Código Civil o Direito de Empresa tratou de temas como em- presa e empresário (artigos 966 a 980), Direito Societário (artigos 981 a 1.141), estabelecimento empresarial e institutos complemen- tares (artigos 1.142 a 1.195), títulos de créditos (artigos 887 a 926) e obrigações em geral (artigos 481 a 853). Uma parcela da legislação sobre o Direito Comercial, contudo, permanece ausente do Código Civil, como é o caso da falência e da recuperação judicial e extrajudi- cial, reguladas pela Lei n. 11.101/2005, do registro empresarial, re- gulado pela Lei n. 8.934/1994, e da propriedade industrial, regulada pela Lei n. 9.279/1996. Com a unificação do direito das obrigações e a inserção de parcela significativa do Direito Comercial no Código Civil, muitos defenderam o fim da disciplina. Todavia, não é apenas a autono- mia legislativa que define a autonomia de dada disciplina em relação a outra, mas as particularidades inerentes à aplicação da legislação. moroso: lento, demorado. Glossário Africa Studio/Shutterstock 2222 Direito Comercial e do consumidorDireito Comercial e do consumidor Uma introdução ao Direito Comercial 23 Assim, a segunda parte desta seção trata da autonomia do Di- reito Comercial. 1.2.2 A autonomia do Direito Comercial A discussão a respeito da autonomia do Direito Comercial está liga- da à subseção anterior. Existem as seguintes espécies de autonomia: formal, ou legislativa; substancial, ou jurídica, científica; e didática. Permite determinar de maneira científica a matéria a ser estudada por determinado ramo do Direito por meio do conteúdo e dos princípios específicos. Autonomia substancial É aquela decorrente da existência de cadeiras específicas nas faculdades de Direito. Autonomia didática Contempla a existência de um código autônomo, ou seja, cada disciplina tem seu próprio código. Por exem- plo, o Direito Comercial teria o Código Comercial, o Direito Civil teria o Código Civil, e assim por diante. Autonomia formal Essas diversas espécies não explicam completamente o proble- ma da autonomia, mas ajudam a determinar a existência de auto- nomia no Direito Comercial, ainda que seja muito difícil realizar a sua sistematização, afinal, ele é fruto do dinamismo e não conse- gue ficar encerrado em um código. Para ilustrar essa afirmação, tem-se o exemplo da matéria con- tratual. O Código Comercial de 1850 regulava as obrigações mer- cantis, prevendo a existência dos seguintes contratos: mandato mercantil, comissão mercantil, compra e venda mercantil, escam- bo ou troca mercantil, locação mercantil, mútuo e juros mercantis, fianças e cartas de crédito e abono, hipoteca e penhor mercantil, e depósito mercantil. O Código Civil de 2002 revogou, conforme artigo 2.045, toda a pri- meira parte do Código Comercial de 1850, justamente no qual esta- 24 Direito Comercial e do consumidor vam situados os contratos mencionados (BRASIL, 2002). Ele passou a tratar do mandato sem diferenciar se é civil ou comercial. Entretanto, quando o jurista se depara com um mandato, consegue, com base nas suas cláusulas e condições, estabelecer a distinção entre um man- dato civil e um comercial, ainda que eles não possuam essa adjetiva- ção e sejam denominados apenas de mandato. A autonomia do Direito Comercial, portanto, é de natureza ontológica, e não propriamente científica. Cabe ressaltar o fato de que a unificação do direito das obri- gações e a ausência de um código não afetam a autonomia como um todo do Direito Comercial. Mantém-se viva a ideia do Direito Comercial como um direito especial, dedicado agora às figuras do empresário e da empresa, e um direito comum, o Direito Civil, que oferece respostas aos problemas derivados das demais relações jurídicas. A rigor, um ramo do Direito somente será especial se houver outro comum, o que não ocorre em casos com total sime- tria. Por exemplo, o Direito Societário não possui equivalência de nenhuma ordem no Direito Civil, embora este trate da figura da pessoa jurídica, que é essencial para o Direito Societário. Assim, apesar da unificação do direito obrigacional, que agora abrange também as relações jurídicas derivadas do Direito Comer- cial, não houve a total absorção das matérias comercialistas pelo Direito Civil, mantendo-se intacta a autonomia de ambos. A própria existência de leis autônomas regulando temas de Direito Comercial realça o seu caráter fragmentário, uma das características da disciplina, em razão da necessidade de se adaptar às dinâmicas econômica, social e histórica da atividade comercial ao longo dos sé- culos. Esse atributo dificulta a vigência de um código, estimulando a edição de leis esparsas mais dinâmicas, caso precisem ser modifica- das para se adaptarem a qualquer nova realidade comercial. Como foi mencionado o caráter fragmentário do Direito Comer- cial, é preciso tratar das suas principais características, sistematiza- das a seguir, para melhor compreensão: ontologia: reflexão com base em um sentido abrangente e que possui múltiplas existências. Por exemplo, o mandato possui um sentido abrangente que comporta múltiplas existências, sendo uma delas na forma de mandato civil e outra na de mandato comercial. Glossário Uma introdução ao Direito Comercial 25 O Direito Comercial volta-se à integração das práticas mercantis entre os povos, sendo comum a busca da uni- formização, quando possível, dessas práticas. Cosmopolitismo ou internacionalidade A atividade empresarial é caracterizada pelos seus aspectos econômico e especulativo, que visam ao lucro como forma de remuneração do capital empregado ao seu desenvolvimento. Onerosidade O Direito Comercial é o direito do dinamismo e, por isso, demanda a criação de mecanismos jurídicos que agilizem as transações. Informalismo Dois fatores contribuem para essa característica. O pri- meiro deles é a dinamicidade dos fatos econômicos que atingem o Direito Comercial, e o segundo é a alta especi- ficidade das disciplinas que o compõem, como o Direito Societário e o Direito Falimentar. Fragmentarismo Com essas características, a definição do que é Direito Comercial se torna difícil, por isso se opta por definições teleológicas. Ou seja, a finalidade define a extensão da lei para a caracterizar ou não como lei comercial. Para os fins desta obra, define-se o Direito Comercial como sendo todas aquelasresoluções decorrentes de uma atividade empresarial ou do estado de empresário. O artigo A autonomia do Direito Comercial e o Direito de Empresa, de Marcos Paulo de Almeida Salles, é uma boa leitura para aprofundar seus conheci- mentos a respeito da discussão em torno da existência ou não da autonomia do Direito Comercial. Acesso em: 11 fev. 2021. https://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/download/67933/70541/89365 Artigo teleológico: trajeto em direção a uma finalidade. Nesse caso, é com base na finalidade da lei que se determina se ela está ou não sujeita ao Direito Comercial. Glossário 1.3 Teoria da empresa e atividade comercial Vídeo O Código Comercial de 1850 estava estruturado na chamada teoria dos atos de comércio, que vigorou no ordenamento jurídico até a edição do Código Civil de 2002, ocasião em que passou à teoria da empresa. Enquanto a teoria dos atos de comércio estava assentada em um rol de atividades que, se praticadas, caracterizavam a figura do comerciante, além de estar sujeita às re- gras do Direito Comercial, a teoria da empresa abandona essa relação de atividades e fica centrada na figura do sujeito, ou seja, do empresário, que é o exercente da atividade (Continua) https://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/download/67933/70541/89365 26 Direito Comercial e do consumidor econômica organizada (empresa). Mesmo sendo denominada teoria da empresa, o Có- digo Civil parte do conceito de que o empresário é o sujeito da relação jurídica, enquanto a empresa é o objeto dessa relação. Para compreender a teoria da empresa é preciso começar pelo conceito de empresário, que é explicado no artigo 966 do Código Ci- vil: “Considera-se empresário quem exerce profissionalmente ativida- de econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços” (BRASIL, 2002). Os elementos do conceito de empresário são os seguintes: • Atividade econômica organizada. • Profissionalidade ou habitualidade. • Ter a finalidade de produzir, circular bens ou prestar serviços. Cumpre salientar que a atividade econômica pode ser empresa- rial ou não. Essa distinção fica clara quando se analisa o parágrafo único do artigo 966 do Código Civil, o qual estabelece o que não é um empresário: aquele que pode até exercer ou praticar uma atividade econômica organizada, mas ela está assentada em atividades de na- tureza intelectual, artística ou literária (BRASIL, 2002). Assim, quando houver atividade econômica organizada por um empresário, haverá a figura da empresa. A empresa também está conceituada no artigo 966 do Código Civil, quando este estabelece que ela “exerce atividade econômica organiza- da”, podendo ser interpretado como “exerce a empresa”. Assim, o su- jeito é o empresário e o objeto é a empresa. Os conceitos de empresa e empresário estão, portanto, entrelaçados, sendo aquela o meio que este tem para explorar, em caráter profissional e habitual, determinada atividade econômica que o distingue das demais profissões. A definição dos conceitos de empresa e empresário é baseada em comparações e tem por objetivo demonstrar a evolução do con- ceito de comerciante para o de empresário, dadas as variáveis eco- nômicas, sociais e culturais do Direito nacional. Antes do Código Civil de 2002, o qual entrou em vigor em 2003, existia a figura do comer- ciante, isto é, aquele que pratica atos de comércio enumerados no Código Comercial de 1850. Após o Código Civil, a figura do comer- ciante passou a se chamar empresário. Uma introdução ao Direito Comercial 27 A passagem da teoria dos atos de comércio para a teoria da empresa se dá na questão da atividade econômica organizada, pois, para que haja produção de bens ou serviços, faz-se necessária a criação de ati- vidade organizada e profissional por meio de organismos econômicos oriundos da organização de fatores de produção e que se propõem à satisfação de vontades alheias. A isso se convencionou chamar de empresa, ou seja, abandona-se a figura do comerciante, centrada nos atos de comércio, e passa-se à figura do empresário, centrada no de- senvolvimento de uma atividade econômica organizada. A empresa assumiu uma importância capital nos últimos tempos, pois se tornou um importante elemento da comunidade em geral, saindo da esfera econômica para também abranger a esfera jurídica, consolidada na redação do artigo 966 do Código Civil. Por essa ra- zão, é possível tratar de dois conceitos de empresa. O primeiro é o econômico, no sentido de ser um organismo econômico que tem por objetivo reduzir os custos de transação e otimizar o capital para obter resultados lucrativos. O segundo é o jurídico, cuja procura de um significado satisfatório tem sido difícil, mas que pode ser resumida atualmente na noção de atividade econômica organizada do artigo 966 do Código Civil. Os estudos em torno da teoria da empresa permitem verificar que apenas alguns dos aspectos econômicos interessam efetivamente ao Direito, ao qual cumpre estudar: a. a empresa como expressão da atividade do empresário, pois este não está sujeito a normas específicas, que subordinam o exercí- cio da empresa a determinadas condições ou pressupostos ou o titulam com particulares garantias (normas referentes à empresa comercial, como registro); b. a empresa como ideia criadora, a que a lei concede tutela (nor- mas de repressão à concorrência desleal, proteção à proprieda- de industrial); c. como um complexo de bens, que forma o estabelecimento co- mercial, regulando sua proteção e forma de transferência; d. as relações com os dependentes, vinculando-se ao direito do tra- balho. (REQUIÃO, 2000, p. 48-49) Parte da passagem da teoria dos atos de comércio para a teoria da empresa se deve ao Direito italiano, que, com o advento do seu Código Civil de 1942, colocou a empresa no centro do sistema. O Direito brasi- No vídeo Conceitos Básicos de Direito Empresarial, do canal Curso Priscilla Menezes, é possível veri- ficar uma explicação clara e ilustrada dos principais conceitos de Direito Em- presarial, isto é, empresa, empresário, estabeleci- mento e ponto comercial. Vale a pena assistir ao vídeo para firmar alguns conceitos. Disponível em: https://youtu. be/8MzgJIBfO_s. Acesso em: 22 mar. 2021. Vídeo https://youtu.be/8MzgJIBfO_s https://youtu.be/8MzgJIBfO_s leiro recepcionou a empresa ao estabelecer, no Livro II do Código Civil de 2002, o Direito de Empresa. Contudo, a recepção desse Direito se deu considerando a sua im- portância no campo econômico, fazendo surgir o problema de quando se procura o erigir à condição de categoria básica do Direito Comercial. A empresa não é propriamente uma categoria básica porque é um ente abstrato, concebida como exercício de uma atividade econômica orga- nizada em caráter profissional. Ela é uma ação intencional do empresá- rio, praticada quando ele decide exercitar sua atividade econômica – e isso se dá por meio da empresa, ou seja, por meio de uma organização de meios para atingir certas finalidades. Em outros termos, o empresário organiza a sua atividade e coordena os bens (capital) com o trabalho de terceiros, e a empresa se torna um objeto de Direito, sem ser elevada à condição de sujeito de Direito, a qual é destinada exclusivamente ao empresário. Embora seja comum o uso da expressão empresa como sinônimo de sociedade, é necessário destacar que elas não se confundem. A empresa é a atividade econômica desenvolvida pelo empresário que pode se constituir de maneira coletiva, como em uma sociedade em- presária. Já a sociedade é a forma coletiva de exploração de uma em- presa, visto que é composta de sócios e que existem várias formas no ordenamento jurídico, sendo a mais comum a sociedade limitada. 1.4 Regime jurídico da livre iniciativa Vídeo Para compreender o sistema em que se encontra posicionado o Di- reito Comercial, é preciso ter em mente que o Direito brasileiro é um sistema complexo de normas, o qual começa com o Direito Constitucio- nal. A ConstituiçãoFederal (CF) de 1988 adotou um sistema que permi- te a fixação das estruturas da ordem econômica, a qual está calcada em alguns princípios: a livre iniciativa (artigo 1º, IV), a defesa dos direitos do consumidor (artigo 5o, XXXII), a liberdade de trabalho, ofício e profissão (artigo 5o, XIII), a livre concorrência, a propriedade privada (artigo 5º, XXII) e a defesa do meio ambiente (artigo 225). Assim, somente existe a figura do empresário e uma teoria da em- presa no Brasil porque o artigo 170 da CF estabelece a todos o livre Mais recentemente foi criada a figura da sociedade limitada unipessoal, que, embora seja chamada de sociedade, é composta de uma única pessoa (artigo 1.052, parágrafo 2º, do Código Civil). Saiba mais Uma introdução ao Direito Comercial 29 exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de au- torização, salvo nos casos expressamente previstos em lei. Portanto, a livre iniciativa está inserida como: fundamento do Estado Democrático de Direito (artigo 1º, VI, da CF/1988); direito fundamental, ao garantir o direito de propriedade privada (artigo 5º, XXII, da CF/1988); e funda- mento da Ordem Econômica (artigo 170, da CF/1988). Por livre iniciativa se entende o regime jurídico que permite ao indivíduo exercer livre- mente qualquer tipo de atividade econômica, sem interferência do Estado como regra, existindo, contudo, exceções em alguns casos. A regra é da livre iniciativa, da liberdade de empreender qualquer ramo econômico em busca do lucro. Trata-se de um reflexo do direito à propriedade privada. A Constituição revela a preocupação do legislador de tutelar o exer- cício da atividade econômica sem, no entanto, descuidar de princípios limitadores ou orientadores dela. Ela trata especialmente da defesa dos direitos do consumidor, da liberdade de trabalho e da defesa do meio ambiente. O Direito Comercial passa a tratar de todos que, segundo a CF, exerçam algum tipo de atividade econômica. Por essa razão, toda lei ordinária que lecione a respeito da atividade econômica não pode, sob pena de inconstitucionalidade, ferir os limites estabelecidos pela Constituição. O Direito Constitucional como um todo promove uma modificação estrutural na comunidade e faz com que novas necessidades sejam demandadas, especialmente aquelas relacionadas à dignidade do trabalho humano e aos direitos fundamentais e sociais. Isso obriga antigas instituições a se adaptarem, como o comerciante, que preci- sou se ajustar e se organizar para, mediante uma estrutura chamada empresa, poder atender a essa nova realidade econômica, cultural e social pós-CF de 1988. Assim sendo, a matriz do Direito Comercial está na livre iniciativa, princípio que encontra diversas manifestações em âmbito constitucio- nal, conforme o quadro a seguir. (Continua) 30 Direito Comercial e do consumidor Quadro 2 Manifestações do princípio da livre iniciativa Artigo Texto 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I – a soberania; II – a cidadania; III – a dignidade da pessoa humana; IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. 170 A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I – soberania nacional; II – propriedade privada; III – função social da propriedade; IV – livre concorrência; V – defesa do consumidor; VI – defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação; VII – redução das desigualdades regionais e sociais; VIII – busca do pleno emprego; IX – tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasilei- ras e que tenham sua sede e administração no País. Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independen- temente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. 173 Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevan- te interesse coletivo, conforme definidos em lei. § 1º. A lei estabelecerá o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas subsidiárias que explorem atividade econômica de produção ou comercialização de bens ou de prestação de serviços, dispondo sobre: [...] § 2º. As empresas públicas e as sociedades de economia mista não poderão gozar de privilégios fiscais não extensivos às do setor privado. § 3º. A lei regulamentará as relações da empresa pública com o Estado e a sociedade. § 4º. A lei reprimirá o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros. § 5º. A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, esta- belecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. Fonte: Adaptado de Brasil, 1988, grifos nossos. Uma introdução ao Direito Comercial 31 A primeira referência transforma a livre iniciativa em um dos pilares do Estado Democrático de Direito, permitindo a liberdade de exercício das atividades econômicas em geral, sejam elas de natureza empresa- rial ou não. Por exemplo, um advogado em seu escritório desenvolve uma atividade econômica, mas não de natureza empresarial; já uma pizzaria também desenvolve uma atividade econômica, mas o faz sob a forma empresarial. Ao Estado compete a regulação do exercício dessa atividade econô- mica, na figura conhecida como Estado Regulador, conforme previsto no artigo 174 da Constituição Federal (BRASIL, 1988): Art. 174. Como agente normativo e regulador da atividade eco- nômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscali- zação, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado. § 1º. A lei estabelecerá as diretrizes e bases do planejamento do desenvolvimento nacional equilibrado, o qual incorporará e com- patibilizará os planos nacionais e regionais de desenvolvimento. § 2º. A lei apoiará e estimulará o cooperativismo e outras formas de associativismo. § 3º. O Estado favorecerá a organização da atividade garimpeira em cooperativas, levando em conta a proteção do meio ambien- te e a promoção econômico-social dos garimpeiros. § 4º. As cooperativas a que se refere o parágrafo anterior terão prioridade na autorização ou concessão para pesquisa e lavra dos recursos e jazidas de minerais garimpáveis, nas áreas onde estejam atuando, e naquelas fixadas de acordo com o art. 21, XXV, na forma da lei. Portanto, o Estado deve exercer o seu poder normativo e regulador das atividades econômicas, instituindo regras a respeito da criação, do funcionamento e de outras obrigações. A Constitui- ção Federal atua como norma programática que fixa determinado objetivo a ser alcançado. Ela incumbe ao Estado editar leis para con- cretizar os objetivos estabelecidos constitucionalmente, como a li- berdade de iniciativa. É importante destacar que o Estado, caso queira promover a exploração direta de atividade econômica, estará sujeito ao “regime ju- rídico próprio das empresas privadas”, conforme estabelecido no artigo 173, parágrafo primeiro, inciso II, da Constituição Federal (BRASIL, 1988). Esse artigo também confere ao Estado um papel subsidiário no exercício 32 Direito Comercial e do consumidor da atividade econômica, salvo apenascaso de situações especiais, como a segurança nacional e o interesse coletivo. Dessa forma, o Estado e o particular, no exercício de uma atividade econômica, são co- locados em igualdade, pois os princípios são aplicáveis a ambos, observada a função social. Ainda que o Estado decida exercer uma atividade econômica, deverá respeitar o regime jurídico próprio das empresas privadas, ou seja, sem qualquer vantagem. Todas as empresas têm sua função social, e não somente aquelas em que se faz necessária uma autorização do Poder Público em face da segurança nacional ou do interesse coletivo. Isso porque todas elas, em graus diversos, exercem atividades socialmente relevantes. Por isso, as empresas atualmente envolvem interesses individuais e privados, mas também interesses coletivos e públicos, que podem e devem ser prote- gidos, destacando o papel da função social da empresa. Para fortalecer ainda mais a ideia constitucional, foi editada a Lei da Liberdade Econômica, Lei n. 13.874/2019, que reafirmou, em vários dispositivos, a livre iniciativa como elemento fundamental da ordem econômica. Ela instituiu a declaração de direitos de liberdade econômi- ca, que estabelece normas de proteção à livre iniciativa e ao livre exer- cício de atividade econômica e disposições sobre a atuação do Estado como agente normativo e regulador. A lei também reafirma a liberdade como garantia no exercício de atividades econômicas (artigo 2º, I) e o papel subsidiário do Estado no processo de intervenção sobre o exercí- cio dessas atividades (artigo 2º, III) (BRASIL, 2019). A declaração de direitos da liberdade econômica enumera um con- junto de direitos para aqueles que pretendem exercer atividades eco- nômicas, destacando-se: • desenvolver atividade econômica de baixo risco; • desenvolver atividade econômica em qualquer horário; • receber tratamento isonômico dos órgãos públicos quanto ao exercício de atos de liberação do exercício de atividade econômica. Para realçar a importância da livre iniciativa, o artigo 4º da Lei n. 13.874/2019 estabelece as garantias da livre iniciativa, vedando as se- guintes condutas para o Estado: Uma introdução ao Direito Comercial 33 Criar reserva de mercado ao favorecer, na regulação, grupo econômico ou profissional em prejuízo dos demais concorrentes. I Redigir enunciados que impeçam a entrada de novos competidores nacionais ou estrangeiros no mercado.II Exigir especificação técnica que não seja necessária para atingir o fim desejado.III Redigir enunciados que impeçam ou retardem a inovação e a adoção de novas tecnologias, processos ou modelos de negócios, ressalvadas as situações consideradas em regulamento como de alto risco. IV Aumentar os custos de transação sem demonstração de benefícios.V Criar demanda artificial ou compulsória de produto, serviço ou atividade profissional, inclusive de uso de cartórios, registros ou cadastros. VI Introduzir limites à livre formação de sociedades empresariais ou de atividades econômicas.VII Restringir o uso e o exercício da publicidade e da propaganda sobre um setor econômico, ressalvadas as hipóteses expressamente vedadas em lei federal. VIII Exigir, sob o pretexto de inscrição tributária, requerimentos de outra natureza, de maneira a mitigar os efeitos do inciso I do caput do artigo 3º dessa Lei. IX O objetivo central da Lei da Liberdade Econômica é reafirmar o compromisso do legislador constitucional com a livre iniciativa, o que con- sequentemente fortalece ainda mais o papel do Direito Comercial no sis- tema jurídico brasileiro. O artigo Livre iniciativa: considerações sobre seu sentido e alcance no Direito brasileiro, de Ricardo Lupion Garcia e Cláudio Kaminski Tavares, apresenta um conceito elementar para compreender o Direito Comercial brasileiro: a livre iniciativa. Vale a pena a leitura para aprofundar seus conhecimentos a respeito desse assunto. Acesso em: 11 fev. 2021. https://periodicos.ufpe.br/revistas/ACADEMICA/article/download/2084/2930 Artigo https://periodicos.ufpe.br/revistas/ACADEMICA/article/download/2084/2930 34 Direito Comercial e do consumidor Por fim, a Constituição Federal também protege a livre concorrência, princípio coirmão da livre iniciativa, pois sem liber- dade de iniciativa não é possível concorrer livremente, e o inverso também é verdadeiro. Dessa forma, a livre concorrência é um estí- mulo ao exercício eficiente da liberdade de iniciativa. Embora sejam coirmãos, são princípios distintos. Enquanto a livre iniciativa trata da liberdade de exercício da atividade econômica, a livre concorrência estabelece que o exercício dessa liberdade está protegido da con- corrência desleal e desonesta. Assim sendo, percebe-se a importância de compreender que o Di- reito Comercial está inserido no contexto da norma constitucional, a qual prevê a existência da liberdade de iniciativa. CONSIDERAÇÕES FINAIS O Direito Comercial passou da teoria dos atos do comércio e do regime legal do Código Comercial de 1850 para um novo modelo com base na teoria da empresa, cujo marco legal é o Código Civil de 2002. Embora seu regramento esteja no Código Civil, continua a existir o Di- reito Comercial, dadas as suas autonomias didática e substancial, ainda que tenha perdido, em parte, sua autonomia legislativa. A passagem para a teoria da empresa está bem delimitada no or- denamento jurídico nacional, e existe, além do Código Civil, uma série de outras leis regulando algum aspecto do Direito Comercial, como a lei que aborda a falência e a recuperação do empresário, o qual é um sujeito de direitos e obrigações das relações jurídicas envolvendo essa área do Direito. O exercício da atividade econômica empresarial exige o preenchimento de várias obrigações previstas em lei, destacando-se a obrigação do registro perante as Juntas Comerciais dos estados, bem como a manutenção de uma escrituração contábil, de livros obri- gatórios e facultativos, além de várias outras obrigações para manter sua regularidade. Toda essa legislação, contudo, está encimada pela Constituição Fe- deral (isto é, a Constituição está acima de todas as normas), a qual garante a liberdade de iniciativa de qualquer indivíduo, que pode de- senvolver atividade econômica sem prévia autorização, salvo em situa- ções excepcionais. Uma introdução ao Direito Comercial 35 ATIVIDADES 1. Conceitue Direito Comercial. 2. Qual é a diferença entre a teoria dos atos de comércio e a teoria da empresa? 3. O Direito Comercial possui autonomia científica? Justifique sua resposta. REFERÊNCIAS ASQUINI, A. Perfis da empresa (Profili dell’impresa, in Rivista del Diritto Commerciale, 1943, v. 41, I). Revista de Direito Mercantil, Industrial, Econômico e Financeiro, ano XXXV (nova série), n. 104, p. 109-126, out./dez. 1996. BORGES, J. E. Curso de Direito Comercial Terrestre. São Paulo: Forense, 1959. BRASIL. Constituição Federal (1988). Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 11 fev. 2021. BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/ l10406compilada.htm. Acesso em: 11 fev. 2021. BRASIL. Lei n. 13.874, de 20 de setembro de 2019. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 20 set. 2019. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019- 2022/2019/lei/L13874.htm. Acesso em: 11 fev. 2021. COELHO, F. U. Curso de Direito Comercial. São Paulo, Saraiva, 2002. COELHO, F. U. Manual de Direito Comercial: Direito da Empresa. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016. CORDEIRO. A. M. Manual de Direito Comercial. Coimbra: Almedina, 2001. FERREIRA. W. M. Instituições de Direito Comercial. São Paulo: Max Limonad, 1956. FRANCO, V. H. de. M. Manual de Direito Comercial. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. GONÇALVES NETO, A. deA. Manual de Direito Comercial. Curitiba: Juruá, 2000. MARTINS, F. Curso de Direito Comercial. 28. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2002. REQUIÃO, R. Curso de Direito Comercial. São Paulo: Saraiva, 1993. v. 1. REQUIÃO, R. Curso de Direito Comercial. São Paulo: Saraiva, 2003. Vídeo http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13874.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13874.htm 36 Direito Comercial e do consumidor 2 A atividade empresarial e sua organização Oksandro Gonçalves O objetivo deste capítulo é apresentar e desenvolver algumas obrigações do empresário, especialmente o registro público de em- presas mercantis perante as Juntas Comerciais, a contabilidade e os livros do empresário. Trata-se de um tema de suma importância, uma vez que o empresário somente estará regular com suas obrigações se estiver devidamente registrado; caso contrário, pode ser conside- rado um empresário irregular, com graves consequências. Ao final, na seção 2.6, é apresentado o conceito de estabelecimento comercial, essencial para o desenvolvimento das atividades do empresário. 2.1 Registro público de empresas mercantis Vídeo O registro público de empresas mercantis, também conhecido por registro do comércio ou, como atualmente é chamado, registro públi- co de empresas, é de essencial importância para o empresário, porque visa organizar, a nível nacional, o exercício da atividade empresarial, conferindo-lhe a adequada publicidade dos atos e a segurança jurídica que esse modelo traz para toda sociedade. São três as normas essenciais para a compreensão do sistema de registro: Registro público de empresas mercantis e atividades afins Código Civil, artigos 1.150 a 1.154 Lei n. 8.934/1994 Decreto n. 1.800/1996 A atividade empresarial e sua organização 37 É preciso iniciar pelo artigo 1.150 do Código Civil, que estabelece uma obrigação geral ao dizer que “o empresário e a sociedade empre- sária vinculam-se ao Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais” (BRASIL, 2002). Assim, todos os empresários e as sociedades empresárias estão obrigados ao registro. Essa regra é repetida, com outras palavras, nos artigos 967, 984 e 985 do Código Civil, demonstrando a importância do registro como obrigação do empresário. Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Públi- co de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade. [...] Art. 984. A sociedade que tenha por objeto o exercício de atividade própria de empresário rural e seja constituída, ou transformada, de acordo com um dos tipos de sociedade empresária, pode, com as formalidades do art. 968, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da sua sede, caso em que, depois de inscrita, ficará equiparada, para todos os efeitos, à sociedade empresária. [...] Art. 985. A sociedade adquire personalidade jurídica com a inscri- ção, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos constituti- vos (arts. 45 e 1.150). (BRASIL, 2002, grifos nossos) A obrigatoriedade do registro é reforçada, ainda, pelo artigo 45 do Código Civil, que trata da existência das pessoas jurídicas, das quais as sociedades empresárias são uma das espécies: “começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbando-se no registro todas as altera- ções por que passar o ato constitutivo” (BRASIL, 2002). A expressão usada pelo legislador no artigo 45 do Código Civil (“co- meça a existência legal”) é forte, ao atribuir que essa condição somente é atingida pela inscrição do ato constitutivo no registro, que, no caso dos empresários e das sociedades empresárias, é realizado perante as Juntas Comerciais. 38 Direito Comercial e do consumidor É importante salientar a figura da sociedade empresária (mencionada nos artigos ci- tados), que é o modelo coletivo de exercício da atividade empresarial e que sofre a re- gulação das normas pertinentes ao Direito Comercial. A atividade empresarial pode ser exercida individualmente pelo empresário, e coletivamente pela sociedade empresária. Cabe, contudo, uma ressalva: o Código Civil, no artigo 1.052, parágrafo 1º, passou a admitir o exercício de sociedade por um único indivíduo. A diferenciação é estabelecida em razão do previsto no artigo 966 do Código Civil, que no seu caput regula a figura do empresário indivi- dual, e no seu parágrafo único prevê o critério que distingue essa figu- ra (o empresário) das demais figuras que também exercem atividades econômicas, mas não de natureza empresarial (BRASIL, 2002). Exemplifica-se para melhor ilustrar: um escritório de arquitetura desenvolve uma atividade econômica, mas não de origem empresa- rial, portanto não está sujeito às regras de Direito Comercial, e sim de Direito Civil. Uma indústria, por outro lado, também desenvolve ativida- de econômica, mas, como está produzindo bens de consumo, enqua- dra-se como empresarial e passa a ser regida pelas regras de Direito Comercial, ainda que se sujeite a disposições gerais do Direito Civil, em razão principalmente da unificação do Direito Privado. Assim, a regra é o registro. Todavia, podem existir situações de em- presários e sociedades empresárias sem registro. Caso optem por não efetuar o registro, ocorrerá uma situação de irregularidade, o que não significa que se atribua ao empresário irregular obrigações similares àquelas de um empresário regular. Além disso, ele não terá acesso aos direitos que o registro concede. Um exemplo: o empresário regular pode pedir a recuperação judi- cial ou a falência, previstas na Lei n. 11.101 (BRASIL, 2005); já o empre- sário irregular, que não promoveu o registro adequadamente, somente pode ter a falência declarada, ou seja, não pode usufruir do benefício legal da recuperação judicial que visa recuperar o empresário em difi- culdades momentâneas no desenvolvimento de suas atividades. O Código Civil (BRASIL, 2002) ainda estabelece um conjunto de re- gras gerais, das quais destacam-se: A atividade empresarial e sua organização 39 O registro será requerido pela pessoa obrigada por lei, ou seja, pelos administra- dores da sociedade empresária ou pelo empresário; caso eles não providenciem o registro, qualquer interessado poderá fazê-lo, como o sócio da sociedade. O prazo para apresentação dos documentos a registro é de 30 dias, contados do momento que o ato é praticado. Se o prazo de 30 dias não for respeitado, o ato ainda assim pode ser levado a regis- tro, mas nesse caso somente produzirá efeitos a contar da data do efetivo registro. O Código prevê a responsabilização daquele que, obrigado a efetuar o registro, não o faz, podendo responder por perdas e danos. O Código Civil (BRASIL, 2002) também estabelece obrigações gerais ao órgão responsável pelo registro, no caso, às Juntas Comerciais. A elas compete verificar a regularidade das publicações determinadas em lei. Estas são realizadas em órgão oficial da União e do estado onde estiver a sede e em jornal de grande circulação. Para as sociedades estrangeiras, a publicação deve ocorrer nos órgãos oficiais da União e do estado onde estiverem instaladas. Além disso, o anúncio de convo- cação de assembleia de sócia será publicada ao menos três vezes em dias diferentes. De modo geral, as Juntas Comerciais somente podem avaliar a au- tenticidade e a legitimidade daquele que assina o requerimento de registro (artigo 1.153), além de fiscalizar o cumprimento das normas legais aplicáveis ao ato levado a registro. Assim, podem apenas averi- guar a forma do ato, mas não a vontade do empresário ou dos sócios da sociedade empresáriaenvolvidos no ato. Ainda segundo o artigo 1.154 do Código Civil (BRASIL, 2002), somen- te depois de registrado é que o ato se torna público e, por isso, oponível a terceiro – ou seja, uma vez registrado o ato na Junta Comercial, nin- guém poderá alegar desconhecimento do seu conteúdo, pois o registro é público e qualquer pessoa pode requerer uma cópia do ato mediante o pagamento das despesas correspondentes. Encerrada a parte regulada pelo Código Civil, é preciso avançar para o que estabelece a Lei n. 8.934/1994 e o seu decreto regulamentador, 40 Direito Comercial e do consumidor o Decreto n. 1.800/1996. O Código Civil tem um caráter apenas geral, estabelecendo premissas essenciais para compreensão do modelo de registro adotado no Brasil, todavia são esses dois dispositivos legais que efetivamente regulam o sistema de registro do empresário, forne- cendo elementos detalhados. A seguir, serão abordados os principais pontos regulados pelas duas normas mencionadas. 2.2 Finalidade do registro Vídeo O artigo 1º da Lei n. 8.934 estabelece as finalidades do registro (BRASIL, 1994): Se o ato está registrado numa Junta Comercial, aquele que a consulta tem garantia de que o ato cumpriu os requisitos legais e está produzindo efeitos. Garantia Trata-se de um registro público, ou seja, qualquer pessoa pode solicitar informações nas Juntas Comerciais sobre qualquer empresário ou sociedade empresária que lá esteja registrado. O procedimento é muito simples, basta ter alguns dados, como nome, razão social ou CNPJ, e formular o pedido de cópia dos atos (por exemplo, de um contrato social). Efetuado o pagamento dos custos exigidos pela Junta Comercial, em alguns dias o solicitante terá acesso aos documentos. Todo empresário ou sociedade empresária ao registrar-se sabe que seus atos se tornam públicos e de livre acesso. Publicidade Se o ato está registrado na Junta Comercial, ele se presume autêntico até prova em sentido contrário. O objetivo da lei é dar validade ao documento, conferindo-lhe au- tenticidade. Assim, qualquer pessoa pode pedir à Junta Comercial que autentique os documentos que lá estão e lhe forneça uma cópia. Por exemplo, é possível solicitar a cópia autenticada do contrato social de qualquer sociedade. Autenticidade Trata-se de um ponto chave do processo de registro, pois, uma vez registrado perante a Junta Comercial, aquele que consulta os atos tem a segurança de que eles são verdadei- ros, autênticos e que são capazes de produzir efeitos perante terceiros. Segurança A atividade empresarial e sua organização 41 Uma vez que o ato foi registrado na Junta Comercial, ele produz eficácia perante tercei- ros, isto é, a ninguém é dado dizer que desconhecia se tratar de um empresário ou de uma sociedade empresária, se eles foram devidamente registrados. Trata-se de uma proteção para todas as partes envolvidas: para o empresário, porque ele poderá opor o ato registrado contra qualquer um; e para o terceiro que consulta, o qual, por exemplo, pretende celebrar um contrato com o empresário, porque assim ele saberá as condi- ções do registro (se está regular ou não, se quem assina tem os poderes necessários ou não, dentre outros detalhes que o registro concede). Conferir eficácia ao ato Cumpre salientar novamente que se trata de registro público de empresas mercantis, portanto a maior finalidade é tornar os atos do empresário e da sociedade empresária acessíveis a qualquer um que pretende consultá-los, o que gera direitos e obrigações para todos. Para o empresário ou a sociedade empresária, gera segurança e es- tabilidade, porque a ninguém será dado o direito de invocar o desco- nhecimento do ato se ele está devidamente registrado. Aos terceiros em geral, confere segurança quanto à celebração de qualquer outro ato com o empresário ou a sociedade empresária, pois será possível verificar todas as informações que lhe forem passadas, como quem é o administrador ou se ele tem poderes para assinar sozinho ou em conjunto determinado contrato. 2.2.1 A organização do registro empresarial O sistema de registro empresarial está organizado da seguinte forma: Sinrem – Sistema Nacional de Registro de Empresa Mercantis DREI – Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração Juntas Comerciais dos estados e Distrito Federal Por ser um sistema de acesso público, a lei estruturou o sistema de uma forma muito simples. Existe um órgão central (o DREI), a que com- 42 Direito Comercial e do consumidor pete de modo amplo supervisionar e coordenar tecnicamente todas as Juntas Comerciais do Brasil. Ele não procede o registro, mas coordena a forma como ocorre. Em seguida, há as Juntas Comerciais, a que compete efetivamente promover os atos de registro, arquivamento e autenticação. São elas que estão no dia a dia de todos que precisam registrar ou buscar atos registrados. Cada estado brasileiro dispõe de uma Junta Comercial, que está situada na capital, mas que pode ser descentralizada para cidades, conforme decisão de cada estado. A seguir, serão tratadas de maneira mais detalhada cada uma dessas estruturas. 2.3 Departamento de Registro Empresarial e Integração (DREI) Vídeo O DREI, como órgão estatal, está inserido na Secretaria de Governo Digital da Secretaria Especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia. Sua função principal é estabelecer as diretrizes gerais para o registro público de empre- sas mercantis; por isso, uma de suas finalidades é supervisionar e coordenar as Juntas Comerciais no plano técnico. Outra função é a de estabelecer e consolidar as normas e as diretrizes das Juntas Comerciais, o que faz em caráter exclusivo. Recentemente, o DREI consolidou uma série de normas, revogando outras, para então expedir a Instrução Normativa DREI n. 81, de 10 de junho de 2020, que “dispõe sobre as normas e diretrizes gerais do Re- gistro Público de Empresas, bem como regulamenta o Decreto n. 1.800, de 30 de janeiro de 1996” (BRASIL, 2020). Se uma Junta Comercial apresenta dúvida quanto à interpretação de leis, regulamentos e demais normas relacionados ao registro, com- pete ao DREI solucioná-la e emitir, com base na solução dada, uma di- retriz geral e válida para todas as demais Juntas Comerciais, visando à uniformização dos procedimentos. Além da solução de dúvidas, o DREI presta orientações às Juntas Comerciais, também com o objetivo de uniformizar os procedimentos. Como uma das finalidades do sistema Recomenda-se uma consulta à Instrução Nor- mativa DREI n. 81/2020, que é a mais importante atualmente em vigor. Ela trata de um conjunto de normas administrativas úteis para o interessado em promover o registro poder orientar-se. Disponível em: https://www.gov. br/economia/pt-br/assuntos/drei/ legislacao/arquivos/legislacoes- federais/01JUL2020_IN_81_com_ ndice.pdf. Acesso em: 6 abr. 2021. Leitura https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei/legislacao/arquivos/legislacoes-federais/01JUL2020_IN_81_com_ndice.pdf https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei/legislacao/arquivos/legislacoes-federais/01JUL2020_IN_81_com_ndice.pdf https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei/legislacao/arquivos/legislacoes-federais/01JUL2020_IN_81_com_ndice.pdf https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei/legislacao/arquivos/legislacoes-federais/01JUL2020_IN_81_com_ndice.pdf https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei/legislacao/arquivos/legislacoes-federais/01JUL2020_IN_81_com_ndice.pdf A atividade empresarial e sua organização 43 é conferir segurança ao empresário e a sociedades empresárias, logo, é preciso que o sistema esteja todo uniformizado para não sujeitar os empresários e as sociedades a regras e interpretações distintas para cada estado da federação brasileira. O DREI (BRASIL, 2020) também é órgão de fiscalização das Juntas Comerciais, podendo representar contra qualquer autoridade adminis- trativa que tenha cometido abuso ou infrações às normas de registro, paragarantir que estas serão cumpridas rigorosamente. No exercício da sua posição de órgão superior, compete ao DREI estabelecer nor- mas procedimentais de arquivamento de atos, o que é possível verifi- car por meio da Instrução Normativa DREI n. 81 e de outras instruções normativas 1 . Caso o DREI (BRASIL, 2020) verifique que há ausências, falhas ou deficiências nas Juntas Comerciais, poderá atuar supletivamente para promover, providenciar ou adotar qualquer medida para sanar o pro- blema. Isso também implica prestar colaboração técnica e financeira às Juntas, visando melhorar a prestação de serviços. No Brasil, há gran- de disparidade econômica entre os estados, mas todos têm obrigação de manter uma Junta Comercial. Consequentemente, algumas Juntas dispõem de maior e melhor estrutura do que outras, como a Junta Co- mercial do Estado de São Paulo (estado mais rico do país), a qual cer- tamente não se compara em orçamento a outras Juntas situadas em estados com menor atividade econômica. Em virtude de o registro público de empresas estar estruturado como um sistema (Sinrem), o DREI deve organizar e manter atualizado o cadastro nacional de empresas em funcionamento no Brasil, para permitir que qualquer um possa em qualquer estado consultar o ca- dastro de outro estado sem precisar deslocar-se até lá. Assim, um pa- ranaense pode consultar o sistema nacional para verificar o registro de uma empresa no Maranhão, por exemplo. Sociedades estrangeiras também podem e devem registrar-se no sis- tema nacional de registro público de empresas. Dessa forma, compete inicialmente ao DREI instruir, examinar e encaminhar esses processos à decisão, ressalvadas as competências de outros órgãos federais. Como órgão de orientação, é dever do DREI promover e elaborar estudos, publicações e reuniões para discutir e, assim, colaborar para o aperfeiçoamento do registro público de empresas no Brasil. Elas podem ser en- contradas para acesso público no link a seguir. Disponível em: https://www.gov. br/economia/pt-br/assuntos/drei/ legislacao/instrucoes-normativas- -em-vigor. Acesso em: 6 abr. 2021. 1 Para aprofundar os estu- dos, recomenda-se uma visita ao site do DREI. Nele, poderão ser encon- tradas normas, consultas públicas, acesso a todas as Juntas Comerciais do Brasil, além de farto material a respeito do registro público de empresas. Disponível em: https://www.gov. br/economia/pt-br/assuntos/drei. Acesso em: 6 abr. 2021. Site https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei/legislacao/instrucoes-normativas-em-vigor. https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei/legislacao/instrucoes-normativas-em-vigor. https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei/legislacao/instrucoes-normativas-em-vigor. https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei/legislacao/instrucoes-normativas-em-vigor. https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/drei 44 Direito Comercial e do consumidor 2.4 Juntas Comerciais Vídeo Cada estado e o Distrito Federal tem uma Junta Comercial, com sede na capital e jurisdição limitada ao seu território. Embora tenham auto- nomia administrativa, ou seja, possam regular-se internamente, esta- belecendo horário de funcionamento, valor das custas cobradas pelos atos, entre outras facetas administrativas, tecnicamente elas estão su- bordinadas ao DREI (BRASIL, 2020), porque a ele compete a orientação e supervisão técnica. Portanto, o DREI expede a normativa, e às juntas compete apenas dar-lhe cumprimento, ou levantar questionamentos ao próprio DREI acerca de dúvidas quanto às suas disposições. Não pode, entretanto, se negar ao cumprimento do que foi emanado do DREI. As Juntas Comerciais apresentam uma série de incumbências. A mais importante é a de promover o registro, que compreende três atos, sendo dois deles para empresários e sociedades empresárias: O arquivamento dos documentos de constituição, alteração, dissolução e extinção da atividade desenvolvida pelo empresário ou pela sociedade empresária; dos atos relativos a consórcio ou grupo de sociedades; dos atos das empresas estrangeiras autorizadas a funcionar no Brasil; das declarações das microempresas; e dos atos ou documentos por determinação legal ou daqueles que possam interessar ao empresário e às empresas. A autenticação dos instrumentos de escrituração do empresário ou da sociedade empresária. O terceiro ato não envolve o empresário ou a sociedade empresária, mas também é competência das Juntas Comerciais. Trata-se da matrícula dos leiloeiros, tradutores públicos e intérpretes, trapicheiros e armazéns-gerais. As Juntas também devem elaborar a tabela de preços de seus ser- viços, os regimentos internos e as resoluções administrativas, fruto da sua autonomia administrativa. A atividade empresarial e sua organização 45 Além disso, na parte que importa para o empresário e a sociedade empresária, incumbe às Juntas Comerciais o registro dos usos e prá- ticas mercantis. O Direito Comercial valoriza bastante os usos e cos- tumes e, por isso, merece especial atenção o registro dessas práticas para que elas fiquem assentadas e conhecidas por todos. Assim como existem obrigações de arquivamento, há também proi- bições ao arquivamento, previstas no artigo 35 da Lei n. 8.934/1994. Nesse caso, as Juntas não podem arquivar documentos que não obede- çam às leis ou aos regulamentos aplicáveis, que ofendam os bons cos- tumes e a ordem pública, ou que possam contrariar o estatuto social ou o contrato de uma sociedade empresária (BRASIL, 1994). As Juntas Comerciais apresentam uma estrutura básica administrativa: Presidência Junta Comercial Plenário Turmas Secretaria- -Geral Procuradoria A Presidência é o órgão diretivo e representativo da Junta Co- mercial. Ela dá posse aos Vogais, convoca e dirige o Plenário em suas sessões e cuida para que as normas legais e regulamentares sejam cumpridas. O Plenário é o órgão deliberativo, aquele responsável por julgar os recursos interpostos pelos interessados em obter um registro, ar- quivamento ou autenticação no âmbito das Juntas Comerciais. Em sua composição, tem os chamados Vogais e seus suplentes, os quais são designados entre profissionais do Direito, economistas, contadores e administradores. Sua constituição é de no mínimo 11 e no máximo 23 Vogais, número que não pode ser modificado por nenhuma Junta Co- mercial, apesar de sua autonomia administrativa. Assim, Juntas meno- res têm menos vogais e Juntas maiores costumam ter o número limite. A nomeação dos Vogais é realizada pelos governos dos estados e do Distrito Federal entre brasileiros que estejam no pleno gozo dos di- reitos civis e políticos; não estejam condenados por crimes que vedem acesso ao cargo, ao emprego, ou à função pública, ou por crimes de 46 Direito Comercial e do consumidor prevaricação, falência fraudulenta; e sejam ou tenham sido, por mais de cinco anos, titulares de firma individual, sócios ou administradores de sociedade (BRASIL, 1994, artigo 11). Os Vogais são remunerados por sessões que participam, tendo mandato de quatro anos, permitida apenas uma recondução. Podem perder o mandato se faltarem três sessões consecutivas ou doze alternadas no mesmo ano, sem justo motivo. As Turmas são órgãos deliberativos inferiores ao Plenário, mas que são responsáveis por apreciar os pedidos de registro, arquivamento e autenticação formulados pelos interessados. Cada Turma é composta de três Vogais, não incluindo o Presidente e o Vice-Presidente da Junta Comercial. A Secretaria-Geral é um órgão administrativo responsável pelo funcionamento da Junta Comercial em seu dia a dia. É o secretário geral quem executa os serviços de registro e administra a Junta diariamente. Finalmente, há a Procuradoria, responsável por fiscalizar o cumpri- mento das normas de registro e por responder a dúvidas sobre pedi- dos de registro. Apresenta dupla função, pois pode atuar internamente por iniciativa ou solicitação do Presidente,do Plenário e das Turmas, mas também externamente, inclusive judicialmente quando envolve matéria de interesse da Junta. No plano decisório, a estrutura é a seguinte: as Turmas julgam os pedidos relativos à execução dos atos de registro, enquanto ao Ple- nário compete julgar os processos em grau de recurso. Essa divisão ocorre porque existem dois tipos básicos de atos suscetíveis de regis- tro: os atos que somente podem ser decididos no regime de decisão colegiada e os de decisão singular (artigos 41 e 42 da Lei n. 8.934/1994). Os atos de decisão colegiada são enumerados no artigo 50 do De- creto-lei n. 1.800 e são os seguintes: arquivamento dos atos de consti- tuição de sociedades anônimas; atos de transformação, incorporação, fusão e cisão de sociedades; atos de constituição de consórcio e de grupo de sociedades; e o julgamento dos respectivos recursos (BRASIL, 1996). O prazo para decisão nesses casos é de cinco dias úteis, con- tados da data do recebimento do pedido. Caso o prazo seja descum- prido, o ato será considerado arquivado, sem prejuízo de revisão em momento posterior pela Procuradoria. Para saber mais sobre o registro de empresas, recomenda-se o uso da Enciclopédia Jurídica da PUC-SP. Disponível em: https:// enciclopediajuridica.pucsp.br/ verbete/232/edicao-1/registro- publico-de-empresas. Acesso em: 6 abr. 2021. Saiba mais https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/232/edicao-1/registro-publico-de-empresas https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/232/edicao-1/registro-publico-de-empresas https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/232/edicao-1/registro-publico-de-empresas https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/232/edicao-1/registro-publico-de-empresas A atividade empresarial e sua organização 47 Os atos de decisão singular são todos os demais, surgindo a com- petência por exclusão, e compete ao Vogal decidir o pedido desde que comprove ter conhecimentos de Direito Comercial e de registro de em- presas. O prazo para decidir pedidos sujeitos a esse regime de decisão é de dois dias úteis, contados da data do recebimento, e caso o prazo seja descumprido, serão considerados automaticamente registrados, ainda que os atos possam ser revisados posteriormente pela Procura- doria. O esquema a seguir resume as ideias anteriores. Processo decisório Decisão colegiada: os atos estão enumerados em lei (artigo 41 da Lei n. 8.934/1994) Decisão singular: a definição da decisão que será tomada singularmente se dá por exclusão, ou seja, se o ato não está arrolado como um daqueles sujeito ao regime de decisão colegiada, ele então é de decisão singular (artigo 42 da Lei n. 8.934/1994) Com a Lei da Liberdade Econômica (Lei n. 13.874/2019), passou a existir um regime de registro automático para certos atos – excluiu-se expressamente os atos previstos no artigo 41, inciso I, da Lei n. 8.934/1994 –, desde que cumpridos dois requisitos: aprovação da consulta prévia da viabilidade do nome empresarial e de localização; e utilização do instrumento padrão estabelecido pelo DREI. Para prote- ção dos atos e de terceiros, caso verificado algum vício nesse processo de registro automático, o ato será desarquivado. Ainda no regime decisório das Juntas Comerciais, existem vícios sanáveis, que podem ser corrigidos e, por isso, concede-se um prazo aos interessados (denominado exigência) para promover os atos de correção necessários para, em seguida, submeter novamente o ato a registro. Além disso, existem vícios insanáveis, em que não é possí- vel regularizar o ato, ou seja, ele será indeferido prontamente e o in- teressado terá que promover um novo pedido de registro. 48 Direito Comercial e do consumidor Vícios Sanáveis: são aqueles que o empresário ou a sociedade empresária podem corrigir de maneira simples. A Junta Comercial coloca o ato em exigência e fixa prazo de até 30 dias para o ato ser corrigido Insanáveis: são aqueles que o empresário ou a sociedade empresária não podem corrigir de modo fácil, pois houve a violação de uma regra legal; usos e costumes que deveriam ter sido respeitados não foram. O requerimento será indeferido. Quando um documento é levado a registro perante a Junta Co- mercial, ela deve analisar se todas as formalidades foram cumpridas adequadamente, a começar pelo prazo. Os documentos devem ser apresentados dentro de 30 dias contados de sua assinatura, “a cuja data retroagirão os efeitos do arquivamento; fora desse prazo, o arqui- vamento só terá eficácia a partir do despacho que o conceder” (BRASIL, 1994, artigo 36). O quadro a seguir ajuda a ilustrar essa questão. Quadro 1 Exemplo de prazo de registro Data da assinatura Data do pedido de registro Efeitos 2 mar. 2020 16 mar. 2020, despacha- do e deferido em 20 mar. 2020. Registro retroage a 2 mar. 2020. 2 mar. 2020 16 jun. 2020, despacha- do e deferido em 19 jun. 2020. Registro não retroage e passa a ter eficácia somente com o despacho concedente, ou seja, 19 jun. 2020. Fonte: Elaborado pelo autor. As Juntas também autenticam os instrumentos de escrituração das empresas e as cópias dos documentos registrados e que constam de seus arquivos. No processo de arquivamento e registro, compete à Junta realizar apenas o exame das formalidades, ou seja, se o ato atende a todas as normativas aplicáveis (artigo 40 da Lei n. 8.934/1994). Desse modo, a Junta Comercial que recebe o pedido de arquivamento e registro não tem o poder de fazer o controle material do ato, devendo respeitar a A atividade empresarial e sua organização 49 vontade dos sócios, se for uma sociedade empresária, ou do empresá- rio no momento do pedido de registro de qualquer ato. Por exemplo, se o pedido de arquivamento e registro envolve uma ata de assembleia ou reunião de sócios de uma sociedade empresá- ria, a Junta Comercial somente poderá analisar as formalidades de convocação sem adentrar no conteúdo do que foi decidido pelos só- cios nesse evento. Se houver alguma ilegalidade do ato deliberativo, compete apenas aos interessados discutir esse tema na via judicial ou arbitral. Se cumpridas as formalidades, a Junta Comercial fará o arqui- vamento do ato. Finalmente, há que se destacar o processo revisional das Juntas Comerciais, isto é, como os interessados poderão recorrer às decisões proferidas. Assim, tem-se o seguinte quadro esquemático: Quadro 2 Processo revisional das Juntas Comerciais Pedido de reconsideração Cabível para revisar despa- chos singulares ou de Tur- mas que formulem exigên- cias para arquivamento. Deverá ser apresentado no mes- mo prazo da exigência formulada. Recurso ao Plenário Cabível contra decisões definitivas, singulares ou de Turmas. Prazo de dez dias da data da inti- mação da parte ou da publicação do ato no órgão oficial. Recurso ao DREI Cabível contra decisões do Plenário. Prazo de dez dias da data da inti- mação da parte ou da publicação do ato no órgão oficial. Fonte: Elaborado pelo autor com base nos artigos 64 a 74 do Decreto n. 1.800 (BRASIL, 1996). Além disso, aquele que assinar os pedidos de reconsideração ou recursos deverá ter poderes para isso, seja no contrato social (quando sociedade limitada ou outro tipo de sociedade contratual sujeita a re- gistro na Junta Comercial), no estatuto social (quando sociedade anôni- ma), ou no instrumento de procuração. Nenhum recurso – ao Plenário ou ao DREI – tem efeito suspensivo, o que significa dizer que o ato indeferido permanecerá assim até que o recurso seja apreciado, e somente no caso de o recurso ser acolhido e a decisão reformada é que o ato será arquivado ou registrado. O prazo para interpor qualquer recurso é de dez dias úteis, contados da data da intimação da parte interessada ou da publicação do ato no órgão oficial de publicidade da Junta Comercial, que geralmente é o Diário Oficial do respectivo estado da federação. As partes interessadas e a Procuraria O vídeo Registro de Empresas – RPEM, publicado por Fabiany Luciano, é didáticoe mostra o funcionamento dos órgãos responsáveis pelo registro público de empresas. Disponível em: https://youtu. be/4CE2DTj06e0. Acesso em: 6 abr. 2021. Vídeo https://youtu.be/4CE2DTj06e0 https://youtu.be/4CE2DTj06e0 50 Direito Comercial e do consumidor serão intimadas para apresentar contrarrazões, quando for o caso e tiverem interesse no ato. 2.5 Livros comerciais e a escrituração Vídeo Para compreender a obrigação do empresário que envolve a manu- tenção de livros comerciais, é preciso compreender que o empresário está sujeito a uma escrituração que se faz na forma contábil e, para cumprir essa obrigação, ele precisa ter certos livros previstos em lei. Portanto existem os seguintes livros: São impostos por lei ao empresário; por exemplo, o livro Diário que é imposto pelo Código Civil como indispensável (artigo 1.180). Livros obrigatórios (comuns ou especiais) São obrigação de todos os empresários. Livros obrigatórios comuns São obrigação de apenas alguns empresários, em razão do tipo de atividade desenvolvi- da; por exemplo, livro de registro de duplicatas, livro de entrada e saída de mercadorias. Livros obrigatórios especiais Dependem da estrutura e sofisticação da atividade; por exemplo, Borrador (rascunho do Diário), Caixa (controle de entradas e saídas do dinheiro), Conta Corrente (para con- tas individualizadas de fornecedores ou clientes) e Razão (para classificação do movi- mento das mercadorias). Livros facultativos O único livro dito indispensável pela lei é o livro Diário, conforme estabelece o artigo 1.180 do Código Civil. A função desse livro é con- ter o lançamento individuado, dia a dia, de todas as operações execu- tadas pelo empresário em sua atividade, bem como lançar o Balanço Patrimonial e o de resultado econômico, os quais serão assinados pelo contabilista responsável e pelo empresário. Previu o legislador a possi- bilidade da substituição do livro Diário pelo livro Balancetes Diários e A atividade empresarial e sua organização 51 Balanços, para registrar a posição diária de cada uma das contas ou tí- tulos contábeis, pelo respectivo saldo, em forma de balancetes diários; e o Balanço Patrimonial e o de resultado econômico, no encerramento do exercício (artigo 1.186 do Código Civil). Todos os livros devem ser autenticados perante a Junta Comercial, conforme previsão do artigo 1.181 do Código Civil, mas isso somente é permitido se o empresário, ou a sociedade, estiver regularmente inscri- to. Inclusive, os livros não obrigatórios poderão ser objeto de autenti- cação para melhorar a força probante deles. Os livros são documentos muito importantes da atividade empre- sarial, razão pela qual o legislador optou por estabelecer que somente em casos previstos em lei será possível a sua verificação (artigo 1.190 do Código Civil). Cuidou o legislador de elencar as hipóteses em que a apresentação é possível: sucessão; comunhão ou sociedade; adminis- tração ou gestão; ou em caso de falência (artigo 1.191 do Código Civil). De qualquer forma, somente poderão ser examinados na presença do empresário ou de pessoas por ele nomeadas. Ao empresário incumbe, além da obrigatoriedade de dispor dos li- vros, proceder a sua guarda enquanto não prescrito ou decaído o direi- to sobre o ato nele consignado (artigo 1.194 do Código Civil). É importante destacar que a lei prevê que não somente os livros deve- rão ser objeto de guarda pelo empresário, mas também a documentação pertinente ao exercício da atividade empresarial, pois “tal exigência pren- de-se ao fato de que tais documentos contêm elementos que nem sempre são lançados no Diário, servindo como meio de prova posterior das nego- ciações e operações praticadas” (FRANCO, 2004, p. 74). A seguir, será tratada da escrituração, regulada basicamente pelo Decreto-Lei n. 486/1969, que dispõe sobre a escrituração dos livros mercantis, e o Decreto n. 64.567/1969, o qual regulamenta alguns dispositivos daquele – sem prejuízo de outras normas que tratam do tema, como é o caso das normas de Direito Tributário, que também regulam a matéria com inúmeros atos normativos. Os artigos 1.179 a 1.195 do Código Civil (BRASIL, 2002) associam os livros empresariais com a escrituração. O empresário está sujeito à escrituração, que tem por objetivo principal permitir a ele acompanhar a evolução da sua ativida- de econômica. 52 Direito Comercial e do consumidor A administração pública, no controle das atividades empresariais, institui uma série de tributos, contribuições e taxas que são apuradas por meio dos registros contábeis do empresário. Trata-se de uma obri- gação seguir um sistema de contabilidade e levantar anualmente o Balanço Patrimonial e o Balanço do Resultado Econômico. O sistema contábil não é aleatório e segue regras específicas, que variam na for- ma apenas em função de ser empresário ou pequeno empresário, o qual está sujeito à legislação especial. Cabe ressaltar que a escrituração e a contabilidade não se confun- dem: “escrituração é forma de proceder aos lançamentos contábeis. Contabilidade é ciência, com funções de cálculo e de registro, consubs- tanciadas em regras que têm por finalidade verificar o equilíbrio econô- mico entre os valores patrimoniais” (FRANCO, 2004, p. 73). Os conceitos de escrituração, contabilidade e livros estão interliga- dos. Todo empresário precisa ter os livros, nos quais a contabilidade será realizada mediante a escrituração das informações. Essa correção decorre da interpretação dos artigos 1.177 e 1.778 (diz respeito ao con- tabilista) e 1.179 e 1.195 (diz respeito à escritura e aos livros) do Código Civil (BRASIL, 2002). A responsabilidade pela escrituração é do contabilista e deverá respeitar o idioma e a moeda corrente, em forma contábil, por ordem cronológica de dia, mês e ano, sem intervalos ou espaços em branco, muito menos borrões, rasuras e emendas que indiquem o uso inade- quado da escrituração (BRASIL, 2002). Quanto ao inventário patrimonial, cuida o legislador, no artigo 1.187 do Código Civil (BRASIL, 2002), de estabelecer os critérios, que são, em resumo, os seguintes: • Os bens destinados à exploração da atividade serão avaliados pelo custo de aquisição, podendo ocorrer a depreciação, desde que conste rubrica de fundos de amortização para garantir a substituição ou a conservação do valor. • Os valores mobiliários e os bens destinados à alienação podem ser estimados pelo custo de aquisição/fabricação ou pelo preço corrente. • O valor das ações e dos títulos de renda fixa com base na cotação em Bolsa. • Créditos pelo valor presumível de realização. O pequeno empresário, além de ser regulado pelo Código Civil, como norma geral, tem uma norma especial, conhecida como Estatuto Nacional da Microem- presa e Empresa de Pequeno Porte, a Lei Complementar n. 123/2006. Assim, o conceito de pequeno empresário está previsto no artigo 68 da referida lei e corresponde ao “empresário individual caracterizado como microempresa na forma desta Lei Complementar que aufira receita bruta anual”, atualmente de R$ 81 mil (BRASIL, 2006). Saiba mais A atividade empresarial e sua organização 53 • A manutenção dos livros em ordem é uma obrigação do empre- sário, sendo muito importante principalmente por razões fiscais. Irregularidades nos livros podem resultar em pesadas multas por descumprimento de obrigações acessórias e principais de natu- reza tributária. São ainda documentos sigilosos, cuja análise e acompanhamento com- petem exclusivamente ao empresário. Somente em situações excepcio- nais o legislador prevê a verificação dos livros por terceiros, inclusive por autoridades, juiz ou tribunal, a saber: sucessão, comunhão ou sociedade, administração ou gestão, ou caso de falência. Somente as autoridades fa- zendárias (Fisco, Receita Municipal, Receita Estadual e Receita Federal) têm livre acesso aos livros, em função da necessidade de se proceder à fisca- lização, ficando o empresário responsável por sua guardaenquanto não prescrito ou decaído o direito sobre o ato nele consignado 2 . Ainda que autorizada judicialmente, a verificação deve ocorrer prefe- rencialmente na presença do empresário ou da sociedade empresária, ou ainda de pessoas que estes designarem, extraindo-se o que for ne- cessário para solucionar o problema que originou a verificação e devol- vendo os livros no ato contínuo 3 aos seus titulares. Em caso de recusa na apresentação dos livros, será determinada a apreensão judicial, ficando presumido como verdadeiro o alegado pela parte que requereu a prova dos livros, o que somente poderá ser eli- dido (refutado) por prova documental em contrário – uma espécie de inversão do ônus probatório, justificado pelo fato de a guarda e a ma- nutenção dos livros ficarem sob os cuidados do empresário. Outro tema importante é o efeito probatório dos livros comerciais ou empresariais. A questão é tratada no Código de Processo Civil, que no seu artigo 417 estabelece que “os livros empresariais provam contra seu autor, sendo lícito ao empresário, todavia, demonstrar, por todos os meios permitidos em direito, que os lançamentos não correspondem à verdade dos fatos” (BRASIL, 2015). A ideia em torno do dispositivo legal está assentada no fato de os livros empresariais serem preenchidos pelo contabilista do empresário, ou seja, se ele elabora os livros, deve ser responsável pelo conteúdo lançado neles. Por outro lado, o artigo 418 do Código de Processo Civil afirma o oposto: “os livros empresariais que preenchem os requisitos exigi- dos por lei provam a favor de seu autor no litígio entre empresários” Mesmo as autoridades fazendárias têm um prazo para consultar os livros do empresário. Esse período está associado ao prazo prescricional ou decadencial do próprio tributo. Ou seja, há no Código Tributário Nacional prazos para a cobrança de tributos, e somente dentro do prazo fixado na lei é que as autoridades fazendárias podem fazer buscas nos livros do empresário por tributos eventualmente não recolhidos. 2 Tão logo analisados os livros para a finalidade declarada. 3 Existem hipóteses de inversão do ônus probatório, ou seja, quando o acusado tem que provar que não cometeu o ilícito. Como os livros do empresário são preenchidos (contabilidade e escrituração) por ele próprio, para que o empresário possa dizer que o lançamento está equivocado, haverá inversão do ônus probatório, isto é, terá que provar o erro que ele próprio cometeu. Saiba mais ônus probatório: existência de uma acusação, sendo necessá- rio a quem acusa prová-la. Glossário litígio: existência de demanda, discussão ou briga entre partes; conflito entre partes. Glossário 54 Direito Comercial e do consumidor (BRASIL, 2015). A nuance nesse ponto é de que a regra se aplica para li- tígios entre empresários, ou seja, quando os envolvidos têm a condição de empresários, pois se presume que o nível de conhecimento acerca das atividades mercantis é equivalente. Mesmo na hipótese de que parte das informações constantes nos li- vros seja favorável aos interesses do autor e parte seja contrária (artigo 419), ambas serão consideradas no momento da decisão (BRASIL, 2015). A escrituração é tão importante como meio de prova que ao juiz é dado determinar (artigo 420), a requerimento do interessado, a exibi- ção integral dos livros comerciais e dos documentos de arquivo das atividades empresariais mantidas em três hipóteses (BRASIL, 2015): • liquidação de sociedade; • sucessão por morte de sócio; • quando e como determinar a lei. A exibição parcial também é prevista no artigo 421 do Código de Processo Civil, mediante a extração do que interessar ao litígio e a des- consideração do restante. A questão é de tamanha relevância que o Supremo Tribunal Federal estabeleceu a Súmula n. 260: “o exame de livros comerciais, em ação judicial, fica limitado às transações entre os litigantes” (BRASIL, 1964). Assim, entre as obrigações do empresário, destaca-se a necessidade de manter em ordem a escrituração contábil e os livros empresariais, seja por questões fisco-tributárias, seja porque têm valor probante. Além disso, conclui-se que os livros empresariais são importantes ele- mentos probatórios, mas que gozam de grande proteção legal, inclusi- ve com a limitação da análise apenas aos fatos relacionados ao assunto posto em juízo. 2.6 Estabelecimento comercial Vídeo O Código Civil conceitua, no artigo 1.142, o estabelecimento como todo “complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária” (BRASIL, 2002). Segundo ou- tros autores: juízo: magistrado no sentido de Poder Judiciário; juízo arbitral, quando o litígio vai à discussão pelo sistema de arbitragem. Glossário A atividade empresarial e sua organização 55 O fundo de comércio ou estabelecimento comercial é o instrumen- to da atividade do empresário. Com ele o empresário aparelha-se para exercer sua atividade” (REQUIÃO, 1993, p. 203-204). [É o] conjunto de bens (elementos) de que se utiliza o empresá- rio par ao exercício de sua atividade, ou, mais precisamente, o complexo de bens utilizados pelo empresário como instrumento de sua atividade empresarial; é, em resumo, sua ferramenta de trabalho” (GONÇALVES NETO, 2000, p. 138). O estabelecimento é, apenas, o instrumento ou instrumentos de que se serve o empresário para o exercício da sua atividade [...] [Um] mero conjunto de bens, agregados de qualquer forma, não forma um estabelecimento empresarial” (FRANCO, 2004, p. 74). Desse modo, o estabelecimento comercial é um conjunto de meios necessários para que o empresário exerça sua atividade econômica. Além disso, é um objetivo unitário de direitos e obrigações, conforme estabelece o artigo 1.143 do Código Civil: “pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, translativos ou cons- titutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza” (BRASIL, 2002). São elementos do estabelecimento comercial: • Os bens corpóreos, ou materiais: mercadorias (produtos desti- nados ao mercado e que estão preparados para o consumo), ins- talações, máquinas e utensílios. • Os bens incorpóreos, ou imateriais: contratos (contratos e relações jurídicas não são bens, e sim aplicados no exercício da empresa, e podem ter por objeto um ou mais dos bens que fazem parte do complexo em que se constitui o estabelecimento), ponto comercial (direito ao local em que se situa o estabelecimento), direitos de pro- priedade industrial (marcas, patentes, modelos de utilidade, progra- mas de computador, desenho industrial) e clientela. 56 Direito Comercial e do consumidor A operação mais importante envolvendo o estabelecimento comer- cial refere-se a sua compra e venda, que, no Direito Comercial, ganha o nome especial de trespasse, com o sentido de venda ou cessão a título oneroso. É condição para sua eficácia e validade que todos os credores consintam. Sem esse consentimento, os bens que integram o conjunto do estabelecimento ficam afetados ao pagamento das dívidas, como se a transferência não tivesse se operado. O Código Civil também trata do tema no seu artigo 1.144: “se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a eficácia da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, ou do consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua notificação” (BRASIL, 2002). A forma da venda pode ser genérica ou individualizada. Na primeira, faz-se referência apenas ao estabelecimento, de maneira genérica, sem que se discrimine os bens que estão englobados. Ainda, se for englo- bada, estão compreendidos todos os bens do estabelecimento, sejam eles corpóreos, sejam incorpóreos. Além da transferência englobada, também é possível a transferência individualizada dos bens, atribuin- do-se a cada um deles um valor, destacando-se ou não do valor final. É importante lembrar que, por uma universalidadede fato, os bens não perdem a sua individualidade, ou seja, existe o estabelecimento como um todo e existem os bens que o compõem, os quais podem ser con- siderados individualmente. Por exemplo: uma máquina pode ser vista e valorada dentro do estabelecimento com todos os demais elementos que o circundam, ou pode ser vista e valorada de maneira individuali- zada, apenas como uma máquina. Assim como há elementos positivos na venda do estabelecimento, existem também elementos negativos. O adquirente do estabeleci- mento comercial passa a responder pelo pagamento dos débitos an- teriores à transferência, desde que regularmente contabilizados (artigo 1.146 do Código Civil), isto é, que não tenham sido ocultados pelo ven- dedor do estabelecimento. Essa regra é muito importante e exige do comprador muito cuidado, pois ele pode estar adquirindo um passivo expressivo com o estabelecimento comercial. Ainda no tocante à venda do estabelecimento, tem-se o fenôme- no denominado pela doutrina de restabelecimento. O artigo 1.147 do Código Civil estabelece que “o alienante do estabelecimento não A universalidade de fato está prevista no artigo 90 do Código Civil, sendo conceituada como “a pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação uni- tária”; enquanto a universidade de direito está prevista no artigo 91, sendo conceituada como “o direito complexo de relações jurídicas, de uma pessoa, dotada de valor econômico” (BRASIL, 2002). Saiba mais A atividade empresarial e sua organização 57 pode fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subsequentes à transferência” (BRASIL, 2002). Se o faz, tem-se o restabelecimento. Somente se houver autorização expressa é que isso pode ocorrer de modo lícito; não havendo, há uma ilicitude. O restabelecimento atenta contra: o princípio da boa-fé; a obrigação de abstenção que visa proteger o estabelecimento e seus elementos – aviamento e clientela – por integrar um todo; as disposições que regu- lamentam a concorrência leal. Dessa forma, fica evidente a importância do estabelecimento comer- cial como essencial para o desenvolvimento da atividade empresarial. O artigo Estabelecimento empresarial, de Marcelo Andrade Féres, consolida a teoria do estabelecimento comercial ou empresarial e pode ser útil para aprofundar os estudos. 6 abr. 2021. https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/236/edicao-1/estabelecimento-empresarial Artigo CONSIDERAÇÕES FINAIS Este capítulo tratou do registro do comércio, ou registro público de empresas, demonstrando passo a passo como o empresário ou a so- ciedade empresária deve agir para estar e permanecer regular no exer- cício da atividade empresarial. Entre as finalidades, destaca-se a publicidade dos atos das empre- sas, que devem ser registrados para que todos possam acessá-los, tor- nando, assim, possível o exercício de direitos e obrigações. Por esse motivo, os atos do empresário ou da sociedade empresária, uma vez registrados, são oponíveis a terceiros, não sendo possível alegar seu desconhecimento. A estrutura do registro público de empresas é uniforme, existindo uma Junta Comercial em cada estado, coordenados tecnicamente pelo DREI. No plano decisório, o empresário ou a sociedade empresária tem segurança para realizar os registros e arquivamentos, podendo, se for o caso, recorrer às decisões proferidas pelo Vogal, Turma ou Plenário. Por fim, tratou-se do estabelecimento comercial, que é um dos prin- cipais elementos para o exercício da atividade empresária, pois se trata https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/236/edicao-1/estabelecimento-empresarial 58 Direito Comercial e do consumidor do complexo de bens que o empresário organiza para desenvolver a atividade escolhida. Demonstrou-se que ele é um complexo unitário de direitos e obrigações, mas que não prescinde da individualidade dos elementos que o compõem. Assim, tanto pode existir o trespasse, nome dado ao ato que transfere o estabelecimento em sua totalidade, quanto a transferência de apenas um elemento. ATIVIDADES 1. O que é estabelecimento comercial? 2. Qual é o livro obrigatório do empresário, considerando o Código Civil? 3. Quais são os recursos cabíveis no âmbito das Juntas Comerciais? REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto n. 1.800, de 30 de janeiro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 31 jan. 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/ d1800.htm. Acesso em: 5 abr. 2021. BRASIL. Lei n. 8.934, de 18 de novembro de 1994. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 21 nov. 1994. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8934. htm. Acesso em: 5 abr. 2021. BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/ l10406compilada.htm. Acesso em: 5 abr. 2021. BRASIL. Lei n. 11.101, de 9 de fevereiro de 2005. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 9 fev. 2005. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004- 2006/2005/lei/l11101.htm. Acesso em: 5 abr. 2021. BRASIL. Lei n. 13.874, de 20 de setembro de 2019. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 20 set. 2019. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019- 2022/2019/lei/L13874.htm. Acesso em: 5 abr. 2021. BRASIL. Ministério da Economia. Instrução Normativa n. 81, de 10 de junho de 2020. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 15 jun. 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/ dou/-/instrucao-normativa-n-81-de-10-de-junho-de-2020-261499054. Acesso em: 5 abr. 2021. FRANCO, V. H. de. M. F. Manual de Direito Comercial. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. GONÇALVES NETO, A. de. A. Manual de Direito Comercial. Curitiba: Juruá, 2000. REQUIÃO, R. Curso de Direito Comercial. São Paulo: Saraiva, 1993. Vídeo http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1800.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1800.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8934.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8934.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11101.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11101.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13874.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13874.htm https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/instrucao-normativa-n-81-de-10-de-junho-de-2020-261499054 https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/instrucao-normativa-n-81-de-10-de-junho-de-2020-261499054 Nome empresarial e propriedade industrial 59 3 Nome empresarial e propriedade industrial Oksandro Gonçalves Este capítulo analisa o nome comercial, também conhecido como nome empresarial, e sua importância para o desenvolvimento das atividades do empresário. Em seguida, passa a tratar da pro- priedade industrial, da necessidade de sua proteção e de como ela se dá no âmbito da legislação específica. 3.1 Nome comercial e sua proteção Vídeo O nome comercial é aquele que o empresário individual ou a socie- dade empresária usa no exercício de sua atividade econômica e por meio do qual se apresenta e se vincula. Isso porque para se identificar necessita de um nome, uma expressão que o reconheça nas suas re- lações empresariais. No ordenamento jurídico, o nome comercial ou empresarial tem dois formatos: Nome empresarial Firma individual Denominação Em primeiro lugar, é preciso distinguir entre o exercício da atividade empresarial na forma individual e na coletiva. 60 Direito Comercial e do consumidor O empresário individual é aquele que exerce suas atividades diretamente, sem a utilização de uma estrutura jurídica espe- cial. Confunde-se, portanto, o empresário com a própria pessoa exercente da atividade, o que acaba fazendo com queresponda pessoalmente pelas obrigações que contrair. Diferente é a po- sição do empresário coletivo, que na doutrina e na legislação brasileiras é conhecido pelo nome de sociedade. Uma ou várias pessoas podem iniciar uma atividade empresarial com a cria- ção de uma estrutura jurídica denominada de sociedade, por meio da qual exercem suas atividades de maneira autônoma e independente, dissociando-se a pessoa do sócio ou do titular da pessoa jurídica constituída para essa finalidade. Em termos posicionais normativos, o empresário individual está no artigo 966 do Código Civil, enquanto a sociedade está no artigo 981 do mesmo diploma: Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissional- mente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. [...] Art. 981. Celebram contrato de sociedade as pessoas que re- ciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados. Parágrafo único. A atividade pode restringir-se à realização de um ou mais negócios determinados. (BRASIL, 2002) Cumpre destacar que as sociedades possuem vários formatos possíveis: simples, limitada, anônima, em nome coletivo, em coman- dita simples, em comandita por ações, unipessoal limitada etc. Além disso, há outras possibilidades, como é o caso da empresa individual de responsabilidade limitada (Eireli), que não é uma sociedade, mas tem uma estrutura semelhante e é usada pelo empresário para o exer- cício de sua atividade empresarial pela figura denominada de pessoa jurídica, sendo regulada pelos artigos 45 e 985 do Código Civil: Nome empresarial e propriedade industrial 61 Art. 45. Começa a existência legal das pessoas jurídicas de di- reito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbando-se no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo. Parágrafo único. Decai em três anos o direito de anular a cons- tituição das pessoas jurídicas de direito privado, por defeito do ato respectivo, contado o prazo da publicação de sua ins- crição no registro. [...] Art. 985. A sociedade adquire personalidade jurídica com a inscri- ção, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos constitu- tivos (arts. 45 e 1.150). (BRASIL, 2002) As pessoas jurídicas estão relacionadas no artigo 44 do Código Civil: “São pessoas jurídicas de direito privado: [...] II – as sociedades; [...] VI – as empresas individuais de responsabilidade limitada” (BRASIL, 2002). A Eireli é regulada pela Lei n. 12.441/2011, que instituiu essa figura no ordenamento jurídico, conferindo uma nova redação ao artigo 980 para incluir a letra A ao texto normativo: Art. 980-A. A empresa individual de responsabilidade limitada será constituída por uma única pessoa titular da totalidade do capital social, devidamente integralizado, que não será inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo vigente no País. § 1º. O nome empresarial deverá ser formado pela inclusão da expressão “EIRELI” após a firma ou a denominação social da empresa individual de responsabilidade limitada. § 2º. A pessoa natural que constituir empresa individual de res- ponsabilidade limitada somente poderá figurar em uma única empresa dessa modalidade. § 3º. A empresa individual de responsabilidade limitada tam- bém poderá resultar da concentração das quotas de outra mo- dalidade societária num único sócio, independentemente das razões que motivaram tal concentração. § 4º. (VETADO) § 5º. Poderá ser atribuída à empresa individual de responsa- bilidade limitada constituída para a prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração decorrente da cessão de di- reitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da pessoa jurídica, vinculados à atividade profissional. § 6º. Aplicam-se à empresa individual de responsabilidade limitada, no que couber, as regras previstas para as sociedades limitadas. (BRASIL, 2011, grifos nossos) 62 Direito Comercial e do consumidor Soma-se a essa lei o parágrafo 7º, incluído no artigo 980 do Códi- go Civil pela Lei n. 13.874/2019: “§ 7º. Somente o patrimônio social da empresa responderá pelas dívidas da empresa individual de respon- sabilidade limitada, hipótese em que não se confundirá, em qualquer situação, com o patrimônio do titular que a constitui, ressalvados os casos de fraude” (BRASIL, 2019). Finalmente, para completar o rol de pessoas jurídicas, tem-se o artigo 1.052 do Código Civil, que ganhou nova redação pela Lei n. 13.874/2019, também conhecida como Lei da Liberdade Econômica, responsável por criar a figura da sociedade limitada unipessoal (SLU): Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social. § 1º. A sociedade limitada pode ser constituída por 1 (uma) ou mais pessoas. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) § 2º. Se for unipessoal, aplicar-se-ão ao documento de cons- tituição do sócio único, no que couber, as disposições sobre o contrato social. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019). (BRASIL, 2002, grifos nossos) Esclarecido como se dá a divisão entre empresário individual e so- ciedades, volta-se à questão central do nome comercial ou empresarial. O nome empresarial é regulado pelo Código Civil, artigo 1.155 a 1.168, e pela Lei n. 8.934/1994, que trata do registro público de em- presas mercantis – por sua vez, objeto de regulamentação do Decreto n. 1.800/1996. O artigo 1.155 do Código Civil traz os dois tipos básicos de nome comercial: a firma e a denominação adotada pelo empresário para o exercício da empresa. No caso do empresário individual, o modelo disponibilizado pelo le- gislador é o da firma individual, que é formada pelo nome completo do empresário, ao qual poderá ser acrescido um termo que indique a atividade desenvolvida. Para distinguir o empresário individual, no arti- go 1.156 do Código Civil, o legislador previu que “o empresário opera sob firma constituída por seu nome, completo ou abreviado, aditando-lhe, se quiser, designação mais precisa da sua pessoa ou do gênero de ativi- dade” (BRASIL, 2002, grifos nossos). A seguir são apresentados alguns exemplos que melhor ilustram essa regra: • Oksandro Gonçalves Mercearia; • Oksandro Gonçalves; • O. Gonçalves. Nome empresarial e propriedade industrial 63 Esses modelos demonstram as duas possibilidades: o uso do nome completo, que identifica o nome empresarial com o pessoal; ou a adoção do nome completo adicionado de uma atividade. Já a denominação é um tipo de nome empresarial em que ge- ralmente consta um nome qualquer e a atividade desenvolvida. No quadro a seguir há exemplos para melhor entender: Quadro 1 Exemplos de denominação Nome fantasia ou marca Denominação Itaú Unibanco S/A Arcos Dourados Comércio de Alimentos LTDA Iesde Brasil S/A Fonte: Elaborado pelo autor. Tem-se, ainda, a denominação em que se utiliza uma expressão geralmente de uso comum ou vulgar, podendo ser composta do nome fantasia ou do nome civil dos sócios acrescido do tipo socie- tário empregado, por exemplo Expresso Rápido Transportes LTDA e Gonçalves Transportes Expressos LTDA. Não se pode confundir o nome empresarial com o chamado nome fantasia e a marca. O nome fantasia é aquele empregado de modo mais popular, como é o caso de Itaú e McDonald’s. Entretan- to, como exposto no quadro anterior, a denominação de ambos é diferente. Já a marca tem outra dimensão jurídica e proteção dife- renciada, sendo conferida pela Lei n. 9.279/1996, por se tratarde um sinal distintivo. Assim, a logo do Itaú é um exemplo de marca registrada em um órgão responsável, no caso, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). Embora haja uma pretensa confu- são entre essas nomenclaturas, há nos âmbitos de proteção uma perfeita distinção do nome comercial em relação à marca, como se passará a ver adiante. Para ampliar os seus conhecimentos, se- guem dois vídeos com explicações práticas. • Nome empresarial 01. Disponível em: https://you- tu.be/2vEgo94I4fY. • Direito Empresarial I – Estudo 7: nome empresarial. Disponível em: https:// youtu.be/NE94c1l2rMg. Acessos em: 4 maio 2021. Vídeo https://youtu.be/2vEgo94I4fY https://youtu.be/2vEgo94I4fY https://youtu.be/NE94c1l2rMg https://youtu.be/NE94c1l2rMg 64 Direito Comercial e do consumidor 3.1.1 Definição e proteção do nome empresarial Os princípios orientadores na definição do nome comercial são o da veracidade e o da novidade, conforme o artigo 34 da Lei n. 8.934/1994 e o artigo 62 do Decreto n. 1.800/1996. A proteção do nome decorre automaticamente do arquivamento dos atos consti- tutivos na Junta Comercial (artigo 33 da Lei n. 8.934/1994 e artigo 61 do Decreto n. 1.800/1996). Ou seja, efetuado o arquivamento, como regra, o nome comercial está protegido e não pode ser usado por outro empresário. O nome comercial ou empresarial precisa atender ao princípio da veracidade, porque não pode veicular informação falsa sobre o empresário. Já o princípio da novidade significa que, em regra, os empresários devem respeitar os nomes já existentes, criando algum que represente uma novidade naquele seguimento, de modo a im- pedir a concorrência desleal e até mesmo a lesão aos consumidores, os quais podem ser levados ao engano por um nome empresarial. O Decreto n. 1.800/1996 adiciona que o nome empresarial deve indicar o tipo jurídico da sociedade, isto é, se for uma sociedade limitada ou uma anônima, por exemplo, deverá constar, respectiva- mente, a expressão limitada ou a abreviatura LTDA e as expressões companhia, sociedade anônima ou a abreviatura S/A. Finamente, o mesmo decreto ainda determina que se o nome empresarial tiver a descrição de uma atividade, como uma mercearia, o objeto social deverá estar previsto no registro ou no arquivamento do ato do em- presário individual ou da sociedade empresária (BRASIL, 1996a). Todas essas regras visam evitar a colidência 1 por identidade ou se- melhança do nome empresarial com outro já protegido, visto que a precedência tem muita importância no sistema de proteção ao nome comercial. O artigo 1.163 do Código Civil ressalta que o “nome do em- presário deve distinguir-se de qualquer outro já inscrito no mesmo registro”. Todavia, fornece também o mecanismo para resolver esses conflitos (portanto, trata-se de uma regra obrigatória), estipulando que, caso o nome seja idêntico, deverá acrescentar-se um elemento distin- tivo para evitar a confusão, que pode levar à concorrência desleal ou a prejuízos ao consumidor (BRASIL, 2002). A colidência ocorre quando o nome comercial é igual ou semelhante a outro, surgindo um conflito a respeito de quem pode utilizá-lo. A regra mais comum para resolver essa disputa é a da precedência, ou seja, quem registrou primeiro tem o direito de usar. 1 Nome empresarial e propriedade industrial 65 O nome comercial está protegido apenas no âmbito de atuação da Junta Comercial na qual se deu o arquivamento dos atos constitutivos (artigo 61, parágrafo 1º, do Decreto n. 1.800/1996). Isto é, se o arquiva- mento ocorreu no estado do Paraná, somente nele haverá a proteção contra o uso indevido. Caso o empresário queira proteger seu nome no Brasil, precisará formalizar um pedido especial, previsto no Decreto n. 1.800/1996, que em seu artigo 61, parágrafo 2º, estabelece: § 2º. A proteção ao nome empresarial poderá ser estendida a outras unidades federativas, a requerimento da empresa interessada, observado o disposto em ato do Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração da Secretaria de Governo Digital da Secretaria Especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia. (BRASIL, 1996a, grifos nossos) Como é possível concluir, enquanto a proteção ao nome comer- cial no âmbito local é automática e decorre do simples registro ou do arquivamento dos atos na respectiva Junta Comercial, a proteção a nível nacional não se dá automaticamente, mas sim por expressa disposição legal, sendo exigido um procedimento, um pedido expresso do empresário. A justificativa para essa diferenciação decorre das próprias di- mensões territoriais brasileiras. Não é incomum existirem empre- sários atuando sob o mesmo nome, mas, para evitar isso, criou-se o sistema da consulta prévia da viabilidade do nome empresarial, levando em consideração a existência ou não de um nome igual àquele pretendido pelo consulente. Dessa forma, o interessado realiza um pedido prévio à Junta Comercial do seu estado e recebe uma resposta positiva ou negativa quanto à viabilidade. Entretanto, esse pedido é restrito à unidade federativa na qual o empresário está atuando, não abrangendo o Brasil em sua totalidade, por isso a necessidade de um processo para estender a proteção do nome comercial ou empresarial a todos os estados brasileiros. Assim, não é incomum um empresário poder utilizar um nome no Paraná, mas não poder usar o mesmo nome em São Paulo, por exemplo. Entre- tanto, uma vez conferida a proteção nacional, o nome empresarial estará protegido em todos os estados brasileiros. Todas as Juntas Comer- ciais do Brasil possuem o sistema de consulta de viabilidade do nome comercial. No Paraná, por exemplo, ele pode ser acessado no link a seguir. Disponível em: https://www. juntacomercial.pr.gov.br/Pagina/ Consulta-Previa-de-Viabilidade. Acesso em: 4 maio 2021. Saiba mais https://www.juntacomercial.pr.gov.br/Pagina/Consulta-Previa-de-Viabilidade https://www.juntacomercial.pr.gov.br/Pagina/Consulta-Previa-de-Viabilidade https://www.juntacomercial.pr.gov.br/Pagina/Consulta-Previa-de-Viabilidade 66 Direito Comercial e do consumidor Há diversas regras especiais para o nome comercial ou empresarial, as quais estão resumidas no quadro a seguir para melhor compreensão. Quadro 2 Regras para o nome comercial ou empresarial Legislação Regra Lei n. 8.934/1994, artigo 59 “Expirado o prazo da sociedade celebrada por tempo determinado, esta perderá a proteção do seu nome empresarial”. Lei n. 8.934/1994, artigo 60 “A firma individual ou a sociedade que não proceder a qualquer arquivamento no período de dez anos consecutivos deverá comunicar à junta comercial que deseja manter-se em funcionamento. § 1º. Na ausência dessa comunicação, a empresa mercantil será considerada inativa, promovendo a junta comercial o cancelamento do registro, com a perda automática da proteção ao nome empresarial”. Código Civil, artigo 1.157 “A sociedade em que houver sócios de responsabilidade ilimitada operará sob firma, na qual somente os nomes daqueles poderão figurar, bastando para formá-la aditar ao nome de um deles a expressão ‘e companhia’ ou sua abreviatura. Parágrafo único. Ficam solidária e ilimitadamente responsáveis pelas obriga- ções contraídas sob a firma social aqueles que, por seus nomes, figurarem na firma da sociedade de que trata este artigo”. Código Civil, artigo 1.158 “Pode a sociedade limitada adotar firma ou denominação, integradas pela pala- vra final ‘limitada’ ou a sua abreviatura. § 1o. A firma será composta com o nome de um ou mais sócios, desde que pessoas físicas, de modo indicativo da relação social. § 2o. A denominação deve designar o objeto da sociedade, sendo permitido nela figurar o nome de um ou mais sócios. § 3o. A omissão da palavra ‘limitada’ determina a responsabilidade solidária e ilimitada dos administradores que assim empregarem a firma ou a denomina- ção da sociedade”. Código Civil, artigo 1.159 “A sociedade cooperativa funciona sobdenominação integrada pelo vocábu- lo ‘cooperativa’”. Código Civil, artigo 1.160, combinado com o artigo 3º da Lei n. 6.404/1976 (Lei de Sociedades por Ações) “A sociedade anônima opera sob denominação designativa do objeto social, integrada pelas expressões ‘sociedade anônima’ ou ‘companhia’, por exten- so ou abreviadamente. Parágrafo único. Pode constar da denominação o nome do fundador, acionista, ou pessoa que haja concorrido para o bom êxito da formação da empresa”. Código Civil, artigo 1.161 “A sociedade em comandita por ações pode, em lugar de firma, adotar de- nominação designativa do objeto social, aditada da expressão ‘comandita por ações’”. Código Civil, artigo 1.162 “A sociedade em conta de participação não pode ter firma ou denominação”. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brasil, 1994; Brasil, 2002, grifos nossos. Nome empresarial e propriedade industrial 67 Como é possível observar no quadro, há um diferente nível de proteção ao nome comercial ou empresarial, bem como regras dife- renciadas, as quais podem existir em função de certo tipo societário e estabelecer consequências gravíssimas em caso de erro na for- mação do nome. Destaca-se a regra para as sociedades limitadas, que pune de maneira rigorosa a ausência da expressão limitada no nome empresarial, transformando a responsabilidade em ilimitada, justamente o oposto do que se pretende com a formação desse tipo de sociedade. Além disso, o legislador prevê que o nome empresarial não pode ser objeto de alienação, conforme o artigo 1.164 do Código Civil. Nem mesmo o adquirente do estabelecimento comercial pode usar o nome empresarial do alienante sem efetuar alguma modificação, que no caso corresponde a usar o nome anterior “precedido do seu próprio, com a qualificação de sucessor” (BRASIL, 2002). Ainda no campo das proibições, prevê que se o nome empresa- rial for utilizado no formato de firma social, somente os sócios vivos podem ter seus nomes mantidos na firma, de modo que o sócio fale- cido será excluído da formação do nome comercial (artigo 1.165 do Código Civil). Com efeito, a proteção não é indefinida e depende do uso efetivo do nome comercial, além de ter que refletir o status atual da composição societária. Dessa forma, a proteção somente vigora enquanto a atividade for desenvolvida pelo empresário individual ou pela sociedade empresária, pois se ele cessar suas atividades ou promover a dissolução total com liquidação, não haverá mais a pro- teção conferida. A regra é muito fácil de ser compreendida, pois a proteção se dá com o arquivamento ou o registro do ato de inscrição do empresário individual ou dos atos constitutivos da sociedade. Logo, se inexiste esse registro em razão da cessação das atividades do empresário ou da liquidação da sociedade, importa desfazer o registro e, con- sequentemente, a proteção sobre o nome comercial ou empresarial (artigo 1.168 do Código Civil). Como visto, o registro ou o arquivamento confere o direito à pro- teção do uso do nome empresarial. Assim, duas variáveis básicas podem ocorrer se duas pessoas tentarem obter o mesmo nome em- presarial: ele foi registrado violando a lei ou o contrato e por isso Para ampliar ainda mais seus conhe- cimentos sobre o nome empresarial, recomenda-se a leitura do Guia básico de formação do nome em- presarial e colidência, da Junta Comercial de São Paulo, que conta com orientações detalhadas a respeito dos proce- dimentos necessários para registrar um nome comercial. Disponível em: http://www. institucional.jucesp.sp.gov.br/ downloads/manual_jucesp_ orienta.pdf. Acesso em: 4 maio 2021. Leitura http://www.institucional.jucesp.sp.gov.br/downloads/manual_jucesp_orienta.pdf http://www.institucional.jucesp.sp.gov.br/downloads/manual_jucesp_orienta.pdf http://www.institucional.jucesp.sp.gov.br/downloads/manual_jucesp_orienta.pdf http://www.institucional.jucesp.sp.gov.br/downloads/manual_jucesp_orienta.pdf 68 Direito Comercial e do consumidor cabe ação pelo prejudicado, visando à anulação do ato (artigo 1.167 do Código Civil); ou o registro ocorre e estabelece-se um conflito pela colidência entre os nomes empresariais. Embora o sistema pre- vina a maioria desses casos, são bastante comuns, boa parte porque a língua portuguesa é muito rica em variações que podem ensejar o deferimento de nomes empresariais semelhantes, a ponto de levar à colidência e a um litígio. 3.2 Propriedade industrial Vídeo Visando ao implemento de suas atividades comerciais, o empresá- rio pode utilizar sinais, expressões, inventos, modelos de utilidade e desenhos industriais, os quais são bens imateriais e incorpóreos que caracterizam e distinguem os produtos ou os serviços decorrentes do exercício de sua atividade. Como consequência, o Direito viu-se obrigado a criar um sistema de proteção a esses institutos, dando origem ao ramo conhecido como Direito da Propriedade Industrial, vinculado ao Direito Comercial. A propriedade industrial é regulada pela Lei n. 9.279/1996 e sua de- finição é a seguinte: “O direito de propriedade industrial compreende, pois, o conjunto de regras e princípios que conferem tutela jurídica específica aos elementos imateriais do estabelecimento empresarial, como as marcas e desenhos industriais registrados e as invenções e modelos de utilidade patenteados” (RAMOS, 2016, p. 173). Trata-se de tipos de bens incorpóreos dos quais o empresário faz uso para se identificar e caracterizar seus produtos, mer- cadorias ou serviços, seu estabelecimento e suas ideias, com o propósito de assegurar determinada clientela, divulgar seu negócio e expandi-lo. A propriedade industrial possui natureza jurídica de bens móveis, conforme estabelece o artigo 5º da Lei n. 9.279/1996, por isso pode ser objeto de direitos e obrigações, inclusive de natureza translativa (BRASIL, 1996b). Desse modo, é possível vender uma marca ou uma patente a um terceiro, por exemplo. Nome empresarial e propriedade industrial 69 Embora a propriedade industrial seja uma representação da pro- priedade intelectual, do agir inventivo do ser humano, é importante destacar que não é possível confundir o sistema de proteção da pro- priedade intelectual com o sistema da industrial. Portanto, não se confunde com os direitos do autor, apesar de ser produto de criação intelectual, pois possui uma destinação específica. A propriedade industrial visa produzir efeitos no mundo material, obtendo um resultado útil, por isso difere-se das propriedades literária, científica e artística das leis, que atuam mais no âmbito do espírito. As criações intelectuais de qualquer natureza possuem uma titularidade do direito daquele que detém o poder de exercê-las, que tem a legi- timação com exclusividade diante de terceiros. Mas nada impediria, em tese, que esses terceiros pretendessem fazer uso daquele direito. Assim, para resguardar esse direito e impedir que outros exerçam con- comitantemente sobre ele direitos ao domínio, previu-se uma obriga- ção genérica de abstenção. Dessa forma, surgiram dois sistemas de proteção: o regulado pela Lei de Propriedade Industrial (LPI – Lei n. 9.279/1996) e o garantido pela Lei de Direito Autoral (Lei n. 9.610/1998), que, todavia, não se confundem. A Lei de Propriedade Industrial regula quatro direitos, que são de: • patente de invenção (artigo 6º a 87); • patente de modelo de utilidade (artigo 6º a 93); • registro de desenho industrial (artigo 94 a 121); • registro de marca (artigo 122 a 173). A seguir será tratado de cada um desses direitos de propriedade industrial, destacando que existem os registros de marca e de desenho e as patentes de invenção e de modelo de utilidade. Para ampliar seus co- nhecimentos, indica-se a leitura do texto O que é propriedade intelectual e propriedade industrial?, no qual é possível conferir mais informa- ções do tema. Disponível em: https://www. consolidesuamarca.com.br/blog/ o-que-e-propriedade-intelectual- e-propriedade-industrial.Acesso em: 4 maio 2021. Leitura 3.3 Registro de marca Vídeo A marca talvez seja o Direito de Propriedade Industrial mais co- nhecido ao grande público, sendo comum tratar da sua proteção. Seu conceito pode ser extraído do artigo 122 da Lei de Propriedade Industrial: “são suscetíveis de registro como marca os sinais distin- tivos visualmente perceptíveis, não compreendidos nas proibições legais” (BRASIL, 1996b). https://www.consolidesuamarca.com.br/blog/o-que-e-propriedade-intelectual-e-propriedade-industrial https://www.consolidesuamarca.com.br/blog/o-que-e-propriedade-intelectual-e-propriedade-industrial https://www.consolidesuamarca.com.br/blog/o-que-e-propriedade-intelectual-e-propriedade-industrial https://www.consolidesuamarca.com.br/blog/o-que-e-propriedade-intelectual-e-propriedade-industrial 70 Direito Comercial e do consumidor A Figura 1 apresenta um exemplo retirado do site do Inpi para de- monstrar como se dá o registro e a proteção de uma marca no Brasil. Figura 1 Exemplo de registro de marca Fonte: Inpi, 2021a. O órgão responsável pelo registro das marcas no Brasil é o Inpi, que também fornece um conceito de marca em seu site: trata-se de “um sinal distintivo cujas funções principais são identificar a origem e distin- guir produtos ou serviços de outros idênticos, semelhantes ou afins de origem diversa” (INPI, 2021g). A ideia por trás de uma marca é trazer uma novidade, de modo a promover a diferenciação de produtos e serviços no mercado, ainda que sejam idênticos, semelhantes e afins a outros existentes. Assim, podem conviver juntas marcas idênticas, porém atuantes em mer- cados distintos, envolvendo produtos e serviços de outra natureza. Por exemplo, a expressão luz da lua, quando consultada no site do Inpi, indica vários registros, mas com radicais que permitem diferen- ciações, pois ninguém tem o direito à exclusividade dessa expressão por ela ser comum ou vulgar. Indica-se consultar o site do Inpi, órgão responsável pela pro- teção da propriedade industrial no Brasil, que é muito fácil de acessar, para resolver muitas curiosidades sobre marcas e patentes. Disponível em: https://www. gov.br/inpi/pt-br. Acesso em: 4 maio 2021. Site https://www.gov.br/inpi/pt-br https://www.gov.br/inpi/pt-br Nome empresarial e propriedade industrial 71 Figura 2 Exemplos de marcas com a expressão luz da lua Fonte: Inpi, 2021b. A parte da marca representada por essa expressão não é de uso exclusivo, já que envolve palavras não passíveis de registro com exclu- sividade (luz e lua), mas que podem ser registradas mesmo assim com alguma expressão distintiva, como foi o caso de pousada, cosméticos, floricultura e calçados. Dessa forma, ninguém confundirá as marcas, pois se referem claramente a objetos absolutamente distintos. É importante realçar que a Lei de Propriedade Industrial estabele- ce um rol de expressões não suscetíveis de registro, havendo que se analisar cada hipótese por meio da exclusão das hipóteses proibidas, relacionadas a seguir: 72 Direito Comercial e do consumidor Art. 124. Não são registráveis como marca: I – brasão, armas, medalha, bandeira, emblema, distintivo e mo- numento oficiais, públicos, nacionais, estrangeiros ou internacio- nais, bem como a respectiva designação, figura ou imitação; II – letra, algarismo e data, isoladamente, salvo quando revesti- dos de suficiente forma distintiva; III – expressão, figura, desenho ou qualquer outro sinal con- trário à moral e aos bons costumes ou que ofenda a honra ou imagem de pessoas ou atente contra liberdade de consciência, crença, culto religioso ou ideia e sentimento dignos de respei- to e veneração; IV – designação ou sigla de entidade ou órgão público, quando não requerido o registro pela própria entidade ou órgão público; V – reprodução ou imitação de elemento característico ou di- ferenciador de título de estabelecimento ou nome de empresa de terceiros, suscetível de causar confusão ou associação com estes sinais distintivos; VI – sinal de caráter genérico, necessário, comum, vulgar ou simplesmente descritivo, quando tiver relação com o produto ou serviço a distinguir, ou aquele empregado comumente para designar uma característica do produto ou serviço, quanto à natureza, nacionalidade, peso, valor, qualidade e época de pro- dução ou de prestação do serviço, salvo quando revestidos de suficiente forma distintiva; VII – sinal ou expressão empregada apenas como meio de propaganda; VIII – cores e suas denominações, salvo se dispostas ou combina- das de modo peculiar e distintivo; IX – indicação geográfica, sua imitação suscetível de causar con- fusão ou sinal que possa falsamente induzir indicação geográfica; X – sinal que induza a falsa indicação quanto à origem, procedên- cia, natureza, qualidade ou utilidade do produto ou serviço a que a marca se destina; XI – reprodução ou imitação de cunho oficial, regularmente ado- tada para garantia de padrão de qualquer gênero ou natureza; XII – reprodução ou imitação de sinal que tenha sido registrado como marca coletiva ou de certificação por terceiro, observado o disposto no art. 154; XIII – nome, prêmio ou símbolo de evento esportivo, artístico, cultural, social, político, econômico ou técnico, oficial ou oficial- mente reconhecido, bem como a imitação suscetível de criar confusão, salvo quando autorizados pela autoridade competen- te ou entidade promotora do evento; XIV – reprodução ou imitação de título, apólice, moeda e cédula Nome empresarial e propriedade industrial 73 da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios, dos Municípios, ou de país; XV – nome civil ou sua assinatura, nome de família ou patroními- co e imagem de terceiros, salvo com consentimento do titular, herdeiros ou sucessores; XVI – pseudônimo ou apelido notoriamente conhecidos, nome artístico singular ou coletivo, salvo com consentimento do titular, herdeiros ou sucessores; XVII – obra literária, artística ou científica, assim como os títulos que estejam protegidos pelo direito autoral e sejam suscetíveis de causar confusão ou associação, salvo com consentimento do autor ou titular; XVIII – termo técnico usado na indústria, na ciência e na arte, que tenha relação com o produto ou serviço a distinguir; XIX – reprodução ou imitação, no todo ou em parte, ainda que com acréscimo, de marca alheia registrada, para distinguir ou certificar produto ou serviço idêntico, semelhante ou afim, sus- cetível de causar confusão ou associação com marca alheia; XX – dualidade de marcas de um só titular para o mesmo produ- to ou serviço, salvo quando, no caso de marcas de mesma natu- reza, se revestirem de suficiente forma distintiva; XXI – a forma necessária, comum ou vulgar do produto ou de acondicionamento, ou, ainda, aquela que não possa ser dissociada de efeito técnico; XXII – objeto que estiver protegido por registro de desenho in- dustrial de terceiro; e XXIII – sinal que imite ou reproduza, no todo ou em parte, marca que o requerente evidentemente não poderia desconhecer em razão de sua atividade, cujo titular seja sediado ou domiciliado em território nacional ou em país com o qual o Brasil mantenha acordo ou que assegure reciprocidade de tratamento, se a marca se destinar a distinguir produto ou serviço idêntico, semelhante ou afim, suscetível de causar confusão ou associação com aquela marca alheia. (BRASIL, 1996b) O registro da marca se dá junto ao Inpi, mediante ingresso de pedi- do pelo sistema disponibilizado para essa finalidade 2 . 3.3.1 O pedido de registro de marca Qualquer pessoa pode pedir o registro de marca, seja física ou ju- rídica, de Direito Público ou Privado (artigo 128 da LPI). Entretanto, quando o requerente for uma pessoa jurídica de Direito Privado, estará obrigado a ter em seu objeto social a atividade compatível com a marca Disponível em: https://www. gov.br/inpi/pt-br/servicos/mar- cas. Acesso em: 4 maio 2021. 2 https://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/marcas https://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/marcashttps://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/marcas 74 Direito Comercial e do consumidor cujo registro pretende fazer, sob pena de indeferimento (artigo 128, parágrafo 1º, da LPI). O objetivo desse dispositivo legal é evitar o regis- tro oportunista, de modo a inviabilizar o uso daquele que efetivamente precisa da marca (BRASIL, 1996b). Uma vez formulado o pedido de registro, cria-se o Direito de Prioridade, que vem a ser o direito daquele que primeiro pede o registro. Há uma presunção de que quem primeiro pediu foi quem primeiro teve a idealização em torno da marca, porém isso com- porta prova em sentido contrário, porque não é incomum que uma ideia seja surrupiada por terceiros e levada a registro devido ao seu idealizador tardar para formular o pedido. Cabe ressaltar que isso não significa que o pedido será deferido, pois ainda precisa passar por outras etapas. Todavia, tal medida é de suma importância, afinal, garante proteção para a marca não somente em todo o Brasil, como também no exterior, pois, se houver acordo com outro país, o depósito da marca assegurará nacionalmente o Direito de Prioridade no exterior. O pedido é formulado no Inpi mediante um requerimento especí- fico e o comprovante do pagamento da retribuição relativa ao depó- sito. No requerimento, cabe àquele que pretende registrar a marca apresentar as características dela, por exemplo, se nominativa ou mista – ou seja, se está registrado apenas o nome ou o nome e ou- tras características gráficas. A primeira fase da análise corresponde ao chamado exame formal preliminar para verificar se o pedido está bem instruído, considerando a data do protocolo como a data do depósito da mar- ca, isto é, o período em que se inicia a sua proteção como Direito de Prioridade. Se as formalidades não forem atendidas, o Inpi abre um prazo de até 5 dias para o depositante regularizá-las; após, o pedido será considerado inexistente, e a marca liberada para outra pessoa fazer o pedido. Superada a fase de exame formal, passa-se à fase da publicação, na qual o Inpi dará conhecimento a toda a sociedade que aquela pessoa está pedindo o registro de determinada marca, apresentando suas características, de modo que outros interessados nela, porque já possuem um registro, possam, por exemplo, apresentar a chamada oposição, que corresponde a uma forma de contestar o pedido de re- Nome empresarial e propriedade industrial 75 gistro da marca. O prazo para a apresentação de oposição é de 60 dias, e o prazo para a resposta é o mesmo. Ao final, o Inpi poderá formular exigências e analisar a oposição, proferindo decisão que pode deferir ou indeferir o pedido de registro daquela marca. Concedido o registro da marca, é expedido um certificado de regis- tro, que será válido por 10 anos, contados da data da publicação do ato. Mesmo após concedido o registro, a marca pode sofrer um pe- dido de nulidade do registro, total ou parcial, especialmente se for concedido em desconformidade com a LPI. Se procedente, produzi- rá efeitos após a data do depósito do pedido. Essa nulidade é obtida de duas formas: Por meio de um processo administrativo de nulidade, que tramita no Inpi. Sua instauração pode se dar por ofício – o próprio órgão verifica a nulidade por infringência à LPI – ou por requerimento de qualquer interessado, desde que isso seja efetuado no prazo de 180 dias, contados da expedição do certificado de registro. Caso o prazo seja ultrapassado, ao menos administrativamente, não é mais possível obter a nulidade da marca. Formulado o pedido, o titular terá 60 dias para se manifestar e depois o Inpi deverá decidir com o seu presidente, que colocará fim à instância administrativa. Por meio de uma ação de nulidade, medida de caráter judicial, que poderá ser proposta tanto pelo Inpi quanto por qualquer pessoa com interesse legítimo no resultado do processo – ou seja, na obtenção da nulidade da marca registrada. Isso permite a concessão de liminar para suspender os efeitos do registro e do uso da marca e pode causar grandes prejuízos ao seu titular, motivo pelo qual é concedida mediante apreciação criteriosa. De toda forma, o legislador prevê que a prescrição do direito de obter a declaração de nulidade do registro de uma marca se esgota em 5 anos, contados da data da sua concessão. Portanto, trata-se de um prazo razoável para detectar qualquer violação ao direito marcário. O foro competente para apreciar a ação de nulidade de marca é a Justiça Federal, e o Inpi, a menos que seja ele próprio o autor, intervirá no feito como interessado. O prazo para contestar a ação de nulidade é de 60 dias e, transi- tada em julgado a decisão, o Inpi anotará no registro a sua existência para a ciência de terceiros. Isto é, em um processo no qual se debate a respeito de uma marca, será gerada uma decisão judicial transita- 76 Direito Comercial e do consumidor da em julgado, sobre a qual não cabe mais nenhum recurso. Essa decisão, independentemente do conteúdo, será anotada ou averba- da pelo Inpi nos registros da marca. Assim, qualquer pessoa que a consulte saberá que um dia houve uma discussão judicial em torno daquele registro ou depósito. 3.3.2 Tipos de marcas As marcas que podem ser levadas a registro são de três tipos, se- gundo o artigo 123 da LPI (BRASIL, 1996b): Aquela usada para distinguir um produto ou um serviço de outro idêntico, semelhante ou afim, de origem diversa. Marca de produto ou serviço Aquela usada para atestar a conformidade de um produto ou serviço com determinadas normas ou especificações técnicas, notadamente quanto à qualidade, à natureza, ao material utilizado e à metodologia empregada. Marca de certificação Aquela usada para identificar produtos ou serviços provindos de membros de determinada entidade. Marca coletiva Alguns exemplos podem ajudar a compreender esses conceitos. Figura 3 Exemplos de tipos de marcas Marca de produto ou serviço Marca de certificação Marca coletiva Fonte: Elaborada pelo autor. Nome empresarial e propriedade industrial 77 A marca de um produto ou um serviço visa distingui-lo em determina- do mercado. No caso da Nescau, ela tem por objetivo diferenciar-se de outras marcas de achocolatados, como os exemplos a seguir. Figura 4 Exemplos de diferentes marcas de achocolatado Fonte: Elaborada pelo autor. Figura 5 Exemplo de marca de certificação 9 90 005615/2019 810 Ie sd e Br as il S /A Já a marca de certificação tem por objetivo demonstrar que aquele que a utiliza está em conformidade com um padrão de qualidade, como é o caso do selo Inmetro, o qual atesta que certo produto obedeceu às re- comendações desse órgão, com- provando que está com suas medidas certificadas. Finalmente, a marca coletiva tem por objetivo atestar que um item faz parte de um produto ou um serviço que representa uma coletividade. Por isso, o selo de orgânicos, por exemplo, somente pode ser concedido se for consta- tado que pertence à coletividade, com o compromisso de produzir alimentos segundo certos padrões, os quais podem lhe conferir o selo de produto legitimamente orgâni- co, caso dos exemplos a seguir. Figura 6 Exemplo de marca coletiva ve ct or ta tu /S hu tte rs to ck S u c o S u c o 78 Direito Comercial e do consumidor Como visto nos exemplos apresentados, existe um padrão para o uso das marcas que precisa ser respeitado, sob pena de incorrer em violação à legislação marcária. 3.3.3 O Direito de Propriedade sobre a marca Uma vez realizado o registro da marca, adquire-se a sua propriedade, pois, como visto, a marca tem natureza jurídica de bens móveis. É importante não confundir o Direito de Prioridade com o Direito de Propriedade. A prioridade está relacionada ao pri- meiro pedido de registro da marca, enquanto a propriedade vem ao final, quando, após tramitado o processo de registro, o Inpi finalmente defere o depósito e o registro. O ponto em comum entre prioridade e propriedade é que delas vem o di- reitoque o titular ou o depositante possui de proteger a marca e o seu uso. A proteção mais relevante é aquela que advém da propriedade, ou seja, quando já foi concluído o processo de registro e deferido em favor do seu titular, o qual, daquele momento em diante, pode exercer todos os direitos de pro- priedade inerentes à marca. Consequentemente, há um Direito de Propriedade, que é prote- gido pela LPI. No papel de titular da marca (porque já registrada) ou daquele que fez o depósito (quando o processo está em andamento, mas ainda não foi finalizado), é possível ceder o registro ou o pedido de registro, licenciar o uso e zelar pela integridade material ou reputação da marca, segundo o artigo 130 da LPI (BRASIL, 1996b). Vale salientar que o processo de concessão do direito sobre a marca leva um tempo até ser concluído e enquanto isso não ocorre se tem a figura do depo- sitante, o que já confere direitos de proteção da marca para seu titular. Dessa forma, todo titular ou depositante de marca pode deman- dar judicialmente qualquer pessoa física ou jurídica que possa ter usado a marca indevidamente, bastando demonstrar que tem o re- gistro ou o depósito precedente dela. A proteção é ampla e envol- ve não somente o uso impresso, mas também o digital, uma das formas mais comuns atualmente de violação de direitos marcários. Por exemplo, há marcas que estão impressas em embalagens dispo- Nome empresarial e propriedade industrial 79 níveis no mercado, mas que também são usadas em redes sociais ou sites da empresa no formato digital. Como apresentado anteriormente, o prazo de vigência da marca é de 10 anos, portanto não se trata de um Direito de Propriedade concedido em definitivo, mas sim sujeito ao cumprimento de certas obrigações ao longo da sua existência, sendo uma dessas obrigações promover o pagamento das taxas de registro no Inpi. A ausência de pagamento das taxas pode fazer com que o titular de uma marca per- ca o direito de uso, que poderá passar para outra pessoa que tenha feito o posterior registro. Esse prazo é prorrogável indefinidamente, bastando o recolhi- mento das taxas no tempo certo (artigo 133 da LPI). O procedimento, nesse caso, envolve formular um pedido de prorrogação durante o último ano de vigência do registro e pagar a taxa ou a retribuição. Caso esse período não seja respeitado, a lei ainda confere mais uma oportunidade ao titular da marca, abrindo-lhe um prazo adicional de 6 meses para pedir a renovação e pagar a taxa de retribuição adi- cional. Ou seja, há um pagamento adicional, como uma espécie de sobrepreço ou multa pela desídia. A marca também pode ser cedida a terceiros, mas, nesse caso, é preciso fazer a anotação no Inpi (artigo 136 da LPI), porque ele tem caráter público – isto é, feita a anotação, qualquer pessoa que con- sulte o sistema poderá verificar quem é o titular daquela marca – e existem cessões para terceiros. Por ser um Direito de Propriedade, é possível realizar, inclusive, a penhora da marca, o que também deve ser averbado no Inpi para a proteção de interesses de terceiros. So- mente por meio dessas anotações é que outros ficarão sabendo dos ônus e poderão avaliar a situação, de modo a não adquirirem uma marca com problemas. Administrativamente, há a possibilidade de recurso da decisão quan- do o Inpi decidir: a. indeferir a anotação da cessão; b. cancelar o registro ou arquivar o pedido. Caso o recurso no plano administrativo não seja provido, a solução remanescente é promover uma ação judicial, visando ao reconheci- mento do direito de registro. 80 Direito Comercial e do consumidor O licenciamento de uso da marca também é regulado no artigo 139 da LPI (BRASIL, 1996b). O titular poderá licenciar a marca para quem e por quantas vezes quiser. Isso vai depender do ajuste efetuado, pois pode ser estabelecida uma exclusividade ou não com aquele que preten- de obter o respectivo licenciamento. Isso não retira o direito do próprio titular de exercer a proteção e defesa dos interesses relacionados àquela marca, pois o licenciamento não transfere a propriedade, apenas o di- reito de uso da marca por um terceiro. Adicionalmente, por ocasião da licença de uso, podem as partes – licenciante e licenciado – ajustar que o licenciado tem poderes para, inclusive, defender os direitos relacionados à marca, tanto em nome próprio quanto em nome do titular. Embora o licenciamento possa ocorrer por meio de contratos pri- vados sem averbação, o legislador prevê no artigo 140 da LPI que so- mente por meio dela é que se produzirão efeitos diante de terceiros. Portanto, a publicidade confere a proteção, mas, caso não ocorra, isso não impede o uso da marca. Para perder os direitos sobre a marca, o titular ou depositante tem que se enquadrar em uma das hipóteses previstas no artigo 142 da LPI (BRASIL, 1996b), que são: • deixar o prazo de vigência expirar; • renunciar à marca; • caducar; • não deixar uma pessoa no Brasil responsável pela marca. Segundo o artigo 143 da LPI (BRASIL, 1996b), a caducidade ocorre se, decorridos 5 anos da sua concessão, a marca: não tiver sido usada no Brasil; tiver o seu uso interrompido; ou tiver sido alterada de modo que não se reconheça o seu caráter distinto original. Essa caducidade, contudo, não é automática, e sim precedida de um processo que começa com a notificação do titular de se manifestar no prazo de 70 dias, ocasião em que deverá comprovar que fez uso dela ou justificar o desuso por razões legítimas. Feita a comprovação, não haverá a caducidade, cabendo recurso da decisão proferida. Nome empresarial e propriedade industrial 81 3.4 Registro de desenho industrial Vídeo O desenho industrial é conceituado no artigo 95 da LPI como sen- do “a forma plástica ornamental ou o conjunto ornamental de linhas e cores que possa ser aplicado a um produto, proporcionando resultado visual novo e original na sua configuração externa e que possa servir de tipo de fabricação industrial” (BRASIL, 1996b). Para exemplificar e tornar mais fácil a compreensão do tema, veja o que ocorre no caso das poltronas a seguir. Existem vários modelos disponíveis, alguns devidamente registrados e encontrados no site do Inpi como desenho industrial, ou seja, espécies de releituras do mesmo tema, nesse caso, poltronas. Figura 7 Exemplos de registo de desenho industrial Fonte: Inpi, 2021c. (Continua) 82 Direito Comercial e do consumidor Fonte: Inpi, 2021d. A definição do que vem a ser um desenho industrial envolve também a questão do estado da técnica, o qual leva em consi- deração o passado, tudo que estava acessível ao público antes da data do depósito do pedido de registro. Comparado com o novo pedido, esse histórico permite afirmar se o desenho é novo em relação ao que já existia anteriormente. Portanto, além de exigir um visual novo e original, o desenho industrial precisa estar com- preendido no seu estado de desenvolvimento, devendo ser, diante da técnica que sobre ele vigora, inovador. Ainda segundo o arti- go 97 da LPI, a originalidade que se exige do desenho industrial advém de uma “configuração visual distintiva em relação a outros objetos anteriores” (BRASIL, 1996b). Para o registro de desenho industrial, também existe o Direito de Prioridade. Desse modo, a precedência do pedido é importante para definir quem é o titular do desenho e dos direitos de proprie- dade que podem advir dele. Uma vez registrado, ele passa a ser pro- priedade do seu titular. Conforme o artigo 100 da LPI (BRASIL, 1996b), existem vedações apli- cáveis ao registro do desenho industrial, mais precisamente quando: Nome empresarial e propriedade industrial 83 • contrariar a moral e os bons costumes; • ofender a honra ou a imagem de pessoas; • atentar contra a liberdade de consciência, crença, culto religioso ou ideia e sentimentos dignos de veneração; • tiver forma comum ou vulgar; • tiver forma essencialmente determinada em considerações técnicas ou funcionais. A primeirafase do registro envolve o seu depósito no Inpi por meio de um requerimento com: o relatório descritivo do desenho industrial; as reivindicações sobre o desenho industrial (a sua fina- lidade, os desenhos e as fotografias que permitem avaliar que se trata de uma inovação); o seu campo de aplicação; e o comprovante de pagamento da retribuição. Formulado o pedido, há um exame formal preliminar e, caso não reú- na os requisitos formais, o Inpi poderá estabelecer as exigências que de- verão ser atendidas em até 5 dias corridos. Ao final desse prazo, se não atendidas, o pedido será considerado inexistente. Para a análise do pedido, há condições que precisam ser atendi- das pelo interessado no registro. Somente cabe o pedido de regis- tro de desenho industrial de um único objeto, ainda que exista uma pluralidade de variações – limitadas a 20 – direcionadas a um propósito único. Além disso, o requerente pode solicitar temporariamente o sigilo para que, durante o exame preliminar, não seja divulgado seu conteú- do a terceiros, como ocorreria normalmente em casos desse tipo. Em seguida, haverá a publicação e simultaneamente será concedido o registro do desenho industrial com a expedição do certificado de registro. O prazo de vigência do registro de desenho industrial é de 10 anos, contados da data do depósito, sendo prorrogável por três períodos sucessivos de 5 anos cada. As prorrogações devem ser formuladas durante o último ano de vigência do registro mediante pagamento de retribuição. Caso o prazo seja ultrapassado, será concedido um prazo adicional de 180 dias, ao final do qual, caso não atendido, haverá a perda do direito sobre o desenho industrial. A cada 5 anos o titular do desenho deverá promover o pagamen- to da retribuição, tendo uma segunda oportunidade de 6 meses, caso vencido o primeiro prazo, mas desde que pague uma retribuição adi- Para ampliar seus co- nhecimentos, indica-se alguns vídeos publicados pelo canal Programa OAB, que desenvolvem o tema apresentado nesta seção e trazem dicas extremamente úteis. • Procedimento do registro de marca e desenho industrial: ht- tps://youtu.be/dKW7_AzbezY. • Nulidade do registro do desenho industrial: https:// youtu.be/lZFOs3xfa9I. Acessos em: 4 maio 2021. Vídeo https://youtu.be/dKW7_AzbezY https://youtu.be/dKW7_AzbezY https://youtu.be/lZFOs3xfa9I https://youtu.be/lZFOs3xfa9I 84 Direito Comercial e do consumidor cional. Se ainda assim não realizar o pagamento, perderá os direitos sobre aquele desenho industrial. Concedido o registro, formaliza-se o Direito de Propriedade sobre o desenho, e seu titular poderá gozar de todas os direitos advindos, inclusive dispor ou ceder a terceiros. Há ainda um processo de nulidade administrativa e outro judicial. Se provada a infringência de aspectos como a novidade, segundo o es- tado da técnica da época, o Inpi poderá administrativamente declarar a nulidade do registro. Esse processo pode ser uma iniciativa tanto de ofício do Inpi, que pode controlar seus próprios atos administrativos, quanto de terceiro que tenha legítimo interesse no indeferimento, des- de que o faça no prazo de 5 anos, contados da concessão do registro. Formulado o pedido de nulidade administrativa, serão suspensos os direitos decorrentes do registro, desde que isso ocorra no prazo de 60 dias, contados da dada concessão. O prazo para o titular responder ao pedido é de 60 dias também. Em seguida, haverá decisão do Inpi, que intimará todos os envolvidos para se manifestarem no prazo de 60 dias. Ao final, o processo será decidido pelo presidente do Institu- to, com o respectivo encerramento da fase administrativa. O próximo passo do interessado em obter a nulidade é propor uma ação no Poder Judiciário, nos mesmos moldes daquela prevista para as marcas. De acordo com o artigo 119 da LPI (BRASIL, 1996b), o registro do dese- nho industrial é suscetível de extinção por: expiração do prazo de vigên- cia; renúncia de seu titular, ressalvado o direito de terceiros que possam ter sido licenciados; falta de pagamento da retribuição; ou ausência de procuração de pessoa domiciliada no exterior para representá-la no Brasil. 3.5 Concessão de patente de modelo de utilidade Vídeo Diferente das marcas e dos desenhos industriais, que tratam de re- gistro, no caso de modelos de utilidade tem-se a patente, termo que equivale juridicamente ao registro e que confere ao seu titular os direi- tos de propriedade. O exemplo a seguir demonstra o nível de comple- xidade desse tipo de propriedade industrial. Recomenda-se dois sites com leituras interessan- tes para que você possa aprofundar seus conhe- cimentos: o do Sebrae e o do Inpi, pois são órgãos que ajudam no processo de compreensão e registro do desenho industrial, enfatizando sua importância. • Saiba por que é importante fazer registro de desenho industrial: https://www.sebrae.com.br/ sites/PortalSebrae/artigos/ saiba-por-que-e-importante-fa- zer-o-registro-de-desenho-in- dustrial,4f0cb2af5927c410VgnV- CM2000003c74010aRCRD. • Desenhos industriais: https:// www.gov.br/inpi/pt-br/ servicos/perguntas-frequentes/ desenhos-industriais. Acessos em: 4 maio 2021. Leitura https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-por-que-e-importante-fazer-o-registro-de-desenho-industrial,4f0cb2af5927c410VgnVCM2000003c74010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-por-que-e-importante-fazer-o-registro-de-desenho-industrial,4f0cb2af5927c410VgnVCM2000003c74010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-por-que-e-importante-fazer-o-registro-de-desenho-industrial,4f0cb2af5927c410VgnVCM2000003c74010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-por-que-e-importante-fazer-o-registro-de-desenho-industrial,4f0cb2af5927c410VgnVCM2000003c74010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-por-que-e-importante-fazer-o-registro-de-desenho-industrial,4f0cb2af5927c410VgnVCM2000003c74010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-por-que-e-importante-fazer-o-registro-de-desenho-industrial,4f0cb2af5927c410VgnVCM2000003c74010aRCRD ttps://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/perguntas-frequentes/desenhos-industriais ttps://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/perguntas-frequentes/desenhos-industriais ttps://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/perguntas-frequentes/desenhos-industriais ttps://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/perguntas-frequentes/desenhos-industriais Nome empresarial e propriedade industrial 85 Figura 8 Exemplo de patente de modelo de utilidade Fonte: Inpi, 2021e. Segundo o artigo 9º da LPI (BRASIL, 1996b), o modelo de utilidade é um “objeto de uso prático, ou parte deste, suscetível de aplicação industrial, que apresente nova forma ou disposição, envolvendo ato inventivo, que resulte em melhoria funcional no seu uso ou em sua fabricação” . Para evitar dúvidas, o legislador define alguns contornos do que se entende por estado da técnica no artigo 11 da LPI, que é “tudo aqui- lo tornado acessível ao público”, ou seja, aquilo que era conhecido no momento do registro da patente do modelo de utilidade. Se era conhecido, não há ato inventivo e não é possível conceder a patente para o modelo de utilidade. O principal elemento do modelo de utilidade é o chamado ato inventivo, o qual determina que o modelo de utilidade deve ser Um exemplo para entender a diferença entre acessível e conhecido: o sabor e demais características da Coca-Cola são conhecidos do público em geral, tanto que existem outros refrigerantes similares. Todavia, não são acessíveis, porque é um segredo industrial da empresa. Saiba mais 86 Direito Comercial e do consumidor decorrente de uma variação do estado da técnica que não decorra do uso vulgar do objeto. Dessa forma, não pode ser algo que natu- ralmente seria considerado como uma melhoria relacionada àquele objeto, pois a vulgaridade retira a inventividade associada a ele. Um exemplo pode ajudar: o telefone fixo e o telefonesem fio. O uso cen- tral é o mesmo, mas a nova forma desse objetivo já conhecido resul- tou em uma melhora funcional na sua utilização. O último requisito do modelo é que ele possa ser usado e produzido industrialmente. Veda-se a patente a modelos de utilidade que possam contrariar a moral, os bons costumes, a segurança, a ordem e a saúde pública, além de produtos resultantes da transformação do núcleo atômico e de seres vivos no todo ou em parte, de acordo com o artigo 18 da LPI (BRASIL, 1996b). No caso do modelo de utilidade, tão logo formulado o pedido de pa- tente, abre-se em favor do depositante do pedido o Direito de Priori- dade. Aqui vigora a regra de que o primeiro a depositar o pedido é o inventor e, por isso, recebe a proteção legal da prioridade quanto aos pe- didos posteriormente efetuados que possam com ele colidir. Com efeito, pode ocorrer, de boa-fé, que vários inventores estejam pesquisando o mesmo tema em busca de uma solução para um dado problema, e um deles encontra a resposta antes dos demais, formulando o pedido junto ao INPI de depósito daquele modelo de utilidade. Assim, ainda que os demais inventores cheguem ao mesmo resultado, vigorará em favor do depositante o Direito de Prioridade que poderá lhe conferir o Direito de Propriedade em seguida, caso deferido o registro pelo INPI. Uma vez concedida, a patente de modelo de utilidade vigorará pelo prazo de 15 anos, contados da data do depósito, e o prazo de vigência não poderá ser inferior a 7 anos, contados da data da concessão. Esse período deve-se ao fato de que o processo de concessão da patente é muito demorado e pode se passar muitos anos antes da concessão. Por isso, é conferido um prazo mínimo de vigência para compensar o criador do modelo de utilidade no processo de exploração do Direito de Propriedade que emana dele. O processo de concessão da patente do modelo de utilidade obede- ce às seguintes fases, resumidamente: A LPI dá apenas um conceito do estado da técnica, que é variável para cada tema. Por exemplo, o estado da técnica em marca adquire uma feição diferente do estado do modelo de utilidade. Para entender um pouco melhor esse assunto, recomenda-se o vídeo O que é estado da técnica | Patente de A a Z, do canal Sejaphd. Disponível em: https://youtu. be/Vyqu7KyYGfo. Acesso em: 2 maio 2021. Vídeo (Continua) https://youtu.be/Vyqu7KyYGfo https://youtu.be/Vyqu7KyYGfo Nome empresarial e propriedade industrial 87 decorrente de uma variação do estado da técnica que não decorra do uso vulgar do objeto. Dessa forma, não pode ser algo que natu- ralmente seria considerado como uma melhoria relacionada àquele objeto, pois a vulgaridade retira a inventividade associada a ele. Um exemplo pode ajudar: o telefone fixo e o telefone sem fio. O uso cen- tral é o mesmo, mas a nova forma desse objetivo já conhecido resul- tou em uma melhora funcional na sua utilização. O último requisito do modelo é que ele possa ser usado e produzido industrialmente. Veda-se a patente a modelos de utilidade que possam contrariar a moral, os bons costumes, a segurança, a ordem e a saúde pública, além de produtos resultantes da transformação do núcleo atômico e de seres vivos no todo ou em parte, de acordo com o artigo 18 da LPI (BRASIL, 1996b). No caso do modelo de utilidade, tão logo formulado o pedido de pa- tente, abre-se em favor do depositante do pedido o Direito de Priori- dade. Aqui vigora a regra de que o primeiro a depositar o pedido é o inventor e, por isso, recebe a proteção legal da prioridade quanto aos pe- didos posteriormente efetuados que possam com ele colidir. Com efeito, pode ocorrer, de boa-fé, que vários inventores estejam pesquisando o mesmo tema em busca de uma solução para um dado problema, e um deles encontra a resposta antes dos demais, formulando o pedido junto ao INPI de depósito daquele modelo de utilidade. Assim, ainda que os demais inventores cheguem ao mesmo resultado, vigorará em favor do depositante o Direito de Prioridade que poderá lhe conferir o Direito de Propriedade em seguida, caso deferido o registro pelo INPI. Uma vez concedida, a patente de modelo de utilidade vigorará pelo prazo de 15 anos, contados da data do depósito, e o prazo de vigência não poderá ser inferior a 7 anos, contados da data da concessão. Esse período deve-se ao fato de que o processo de concessão da patente é muito demorado e pode se passar muitos anos antes da concessão. Por isso, é conferido um prazo mínimo de vigência para compensar o criador do modelo de utilidade no processo de exploração do Direito de Propriedade que emana dele. O processo de concessão da patente do modelo de utilidade obede- ce às seguintes fases, resumidamente: A LPI dá apenas um conceito do estado da técnica, que é variável para cada tema. Por exemplo, o estado da técnica em marca adquire uma feição diferente do estado do modelo de utilidade. Para entender um pouco melhor esse assunto, recomenda-se o vídeo O que é estado da técnica | Patente de A a Z, do canal Sejaphd. Disponível em: https://youtu. be/Vyqu7KyYGfo. Acesso em: 2 maio 2021. Vídeo (Continua) Pedido de patente Contém requerimento, relatório descritivo, reivindicações, desenhos (se for o caso), resumo e comprovante do pagamento da retribuição relativa ao depósito. Exame formal É preliminar e, se devidamente instruído, será protocolizado, considerada a data de depósito da sua apresentação. Sigilo O pedido ficará sob sigilo por 18 meses, contados da data do depósito. Publicação O pedido de patente será publicado e o exame somente terá início após transcorridos 60 dias da publicação. Requerimento O depositante deverá fazer o requerimento para a análise do pedido de patente no prazo de 36 meses, sob pena de arquivamento sem análise. Exame técnico É feito para apurar se o pedido corresponde a um modelo de utilidade efetivamente patenteável segundo o estado da técnica. Definida sua patenteabilidade, verificará a adaptação do pedido de reivindicação, no sentido de declaração da finalidade para a qual se presta o modelo de utilidade cujo depósito pretende ser feito. Também poderá determinar a reformulação do pedido com exigências técnicas. Parecer O parecer pode ser relativo à patenteabilidade. Se negativa, o requerente poderá manifestar-se no prazo de 90 dias e reformular o pedido ou simplesmente desistir. Decisão Após o exame técnico, será proferida a decisão, deferindo ou não o pedido de patente. https://youtu.be/Vyqu7KyYGfo https://youtu.be/Vyqu7KyYGfo 88 Direito Comercial e do consumidor Carta patente A patente será concedida depois do deferimento do pedido, desde que comprovado o pagamento da retribuição, expedindo-se a carta patente. Uma vez concedida a patente, é possível o reconhecimento da sua nulidade. Para tanto, também são relacionadas as fases administrativa e judicial. A nulidade envolve a concessão de uma patente que contrarie as limitações e proibições existentes na LPI. Ela pode ser obtida no próprio órgão responsável pelo registro e controle das patentes, no caso, o Inpi. O processo administrativo de nulidade da patente de modelo de utili- dade pode ser instaurado de ofício ou a pedido de qualquer pessoa que reivindique um interesse legítimo no prazo de 6 meses, contados da con- cessão da patente. O prazo para o titular manifestar-se é de 60 dias. Após esse período, o Inpi emitirá um parecer, acolhendo ou não o pedido de nu- lidade da patente. Todos os interessados serão intimados para tomarem conhecimento também no prazo de 60 dias. Transcorrido esse tempo, o presidente do Inpi proferirá a decisão e encerrará a fase administrativa. Caso superada a fase administrativa, ainda é possível buscar a via judicial, por meio da ação de nulidade prevista no artigo 56 e seguintes da LPI. A nulidade pode ser proposta a qualquer momento pelo próprio Inpi, que concede a patente, ou por qualquer pessoa que apresente um interesse legítimo violado pela patente.Não há um prazo para o exer- cício desse direito, tanto que a nulidade pode ser arguida a qualquer tempo como matéria de defesa. O foro competente para apreciar o pedido de nulidade é a Justiça Fe- deral, e o Inpi deve compor a ação, intervindo no feito quando não for ele próprio o autor. O prazo para responder à ação é especial e consta da LPI, sendo de 60 dias. Uma vez proferida a decisão, cabe ao Instituto anotar o resultado para a ciência de terceiros, pois tem caráter público. 3.6 Concessão de patente de invenção Vídeo Invenção é o ato de criação de algo (produto ou processo) que não existe ainda no estado da técnica. Segundo o artigo 8º da LPI, para se caracterizar como invenção, é preciso que atenda aos requisitos da no- vidade, atividade inventiva e aplicação industrial (BRASIL, 1996b). Sugere-se a leitura do manual de consultas do Inpi, intitulado Diretriz de exame de patentes de modelo de utilidade, que apresenta algumas diretrizes das análises de pedidos de patente e modelo de utilidade. Disponível em: https://www.gov. br/inpi/pt-br/servicos/patentes/ pagina_consultas-publicas/ arquivos/diretriz_de_mu_ versao_2_original.pdf. Acesso em: 4 maio 2021. Leitura https://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/patentes/pagina_consultas-publicas/arquivos/diretriz_de_mu_versao_2_original.pdf https://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/patentes/pagina_consultas-publicas/arquivos/diretriz_de_mu_versao_2_original.pdf https://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/patentes/pagina_consultas-publicas/arquivos/diretriz_de_mu_versao_2_original.pdf https://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/patentes/pagina_consultas-publicas/arquivos/diretriz_de_mu_versao_2_original.pdf https://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/patentes/pagina_consultas-publicas/arquivos/diretriz_de_mu_versao_2_original.pdf Nome empresarial e propriedade industrial 89 Novidade significa que aquela invenção é inovadora, que é algo ainda não conhecido ou disponível para o público em geral. Atividade inventiva significa que é fruto do pensamento humano. Aplicação industrial significa que somente será invento se estiver destinado ao uso em geral por meio da possibilidade de sua industrialização. Para exemplificar um caso de patente, segue um exemplo extraído do site do Inpi. Figura 9 Exemplo de patente de invenção Fonte: Inpi, 2021f. 90 Direito Comercial e do consumidor Para obter a concessão de patente de invenção, é preciso formu- lar um pedido que confere o chamado Direito de Prioridade (artigo 16 da LPI). Portanto, ele presume que o seu depositante é o inven- tor. A seguir é apresentado um esquema resumindo os passos que devem ser seguidos para a obtenção da concessão do registro de patente: Pedido de patente Contém requerimento, relatório descritivo, reivindicações, desenhos (se for o caso), resumo e comprovante do pagamento da retribuição relativa ao depósito. Exame formal preliminar São verificados apenas alguns requisitos, em especial se o pedido está devidamente instruído. Se sim, será protocolizado, considerando a data de depósito da sua apresentação; se não, será aberto prazo para a correção das exigências formuladas pelo examinador. Decisão Com base no exame técnico, será proferida a decisão, deferindo ou não o pedido de patente. Carta patente A patente será concedida depois do deferimento do pedido, desde que comprovado o pagamento da retribuição, expedindo-se a carta patente. O prazo de vigência de uma patente de invenção é de 20 anos, não podendo ser inferior a 10 anos, a contar da data da concessão. Isso se dá para garantir ao inventor um tempo mínimo de uso e frui- ção da patente, visto que o processo de registro é demorado. Concedida a patente, surge o direito de o seu titular impedir que qualquer pessoa, sem que tenha obtido formalmente o seu consenti- mento, possa usar, vender ou dispor de qualquer forma daquele inven- to, de acordo com o artigo 41 da LPI (BRASIL, 1996b). Podem ocorrer casos em que a patente é concedida pelo Inpi, mas depois se constata que não poderia ter sido deferida. Nesse caso, é possível pedir a nulidade dela. Recomenda-se como leitura complementar o artigo As patentes e a proteção da invenção, do Sebrae, que ajuda o empreendedor a com- preender a importância das patentes e como isso confere segurança à invenção. Disponível em: https://www. sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ artigos/as-patentes-e-a- seguranca-da-invencao,047aa866 e7ef2410VgnVCM100000b27201 0aRCRD. Acesso em: 2 maio 2021. Leitura https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/as-patentes-e-a-seguranca-da-invencao,047aa866e7ef2410VgnVCM100000b272010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/as-patentes-e-a-seguranca-da-invencao,047aa866e7ef2410VgnVCM100000b272010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/as-patentes-e-a-seguranca-da-invencao,047aa866e7ef2410VgnVCM100000b272010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/as-patentes-e-a-seguranca-da-invencao,047aa866e7ef2410VgnVCM100000b272010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/as-patentes-e-a-seguranca-da-invencao,047aa866e7ef2410VgnVCM100000b272010aRCRD https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/as-patentes-e-a-seguranca-da-invencao,047aa866e7ef2410VgnVCM100000b272010aRCRD Nome empresarial e propriedade industrial 91 A primeira alternativa para obter a nulidade da patente é de natu- reza administrativa (artigo 50 da LPI) e processa-se no próprio Inpi. O titular terá 60 dias para responder ao pedido de nulidade. O próprio Instituto pode instaurar o processo administrativo ou qualquer pessoa que demonstre seu legítimo interesse – por exemplo, comprove ser o efetivo inventor, mas que foi enganado pela pessoa que registrou. O prazo para o uso da alternativa administrativa é de 6 meses, contados da concessão da patente. A segunda alternativa é judicial. Nesse caso, está prevista uma ação de nulidade, a qual pode ser proposta a qualquer tempo da vigência da patente, ou seja, há um prazo muito mais longo que aquele conferido em favor da alternativa administrativa. São legiti- mados à propositura dessa ação o próprio Inpi ou qualquer pessoa que demonstre seu legítimo interesse. Ela se processará na Justiça Federal e terá obrigatoriamente o Instituto em um dos polos da ação como autor ou interessado. Essa hipótese decorre do inte- resse do Inpi em promover o controle das patentes concedidas. Se uma ação de nulidade é proposta, o resultado, qualquer que seja, será objeto de registro no pedido de concessão de patente para que qualquer pessoa que consulte o sistema (de acesso público) possa ter conhecimento da existência de disputas em torno daque- la patente. As patentes podem ser cedidas ou licenciadas. Um inventor pode obter uma patente, mas não ter interesse em produzir a invenção in- dustrialmente. Desse modo, ele faz a cessão para alguém interessado em fabricar aquele invento. No licenciamento, o inventor obtém a pa- tente e passa a licenciar a possibilidade de uso daquele invento para um terceiro, o qual passará a produzir industrialmente aquele produto ou a utilizar aquele processo patenteado (artigo 61 da LPI). Conforme o artigo 68 da LPI (BRASIL, 1996b), existe, ainda, a figura do licenciamento compulsório, que se dá quando o inventor: não usa o invento objeto da patente; faz uso de maneira abusiva; usa abusan- do de seu poder econômico. A licença compulsória é uma forma de intervenção no Direito de Propriedade do inventor que obteve a pa- tente, mas que não soube fazer uso desse direito. Um dos casos mais famosos no Brasil foi a licença compulsória de medicamentos para o tratamento de HIV, em razão dos elevados preços praticados pelos fa- bricantes. Estes acabaram por lesar os interesses dos pacientes e do Para saber mais dessa licença compulsória dos medicamentos, muito estudada na doutrina brasileira, confira as indicações a seguir: • Licença compulsória do Efavirenz no Brasil em 2007: contextualização.Disponível em: https://scie- losp.org/article/rpsp/2009. v26n6/553-559/pt/. • A judicialização da saúde e a quebra de patentes farma- cêuticas: um diálogo entre a efetivação da garantia à saúde e o instituto da propriedade intelectual. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/ processocivilinternacional/ar- ticle/view/26027/18078+&- cd=7&hl=p- t-BR&ct=clnk&gl=br. Acessos em: 4 maio 2021. Saiba mais https://scielosp.org/article/rpsp/2009.v26n6/553-559/pt/ https://scielosp.org/article/rpsp/2009.v26n6/553-559/pt/ https://scielosp.org/article/rpsp/2009.v26n6/553-559/pt/ https://periodicos.ufes.br/processocivilinternacional/article/view/26027/18078+&cd=7&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br https://periodicos.ufes.br/processocivilinternacional/article/view/26027/18078+&cd=7&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br https://periodicos.ufes.br/processocivilinternacional/article/view/26027/18078+&cd=7&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br https://periodicos.ufes.br/processocivilinternacional/article/view/26027/18078+&cd=7&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br https://periodicos.ufes.br/processocivilinternacional/article/view/26027/18078+&cd=7&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br 92 Direito Comercial e do consumidor próprio país, que era obrigado a arcar com elevados custos para forne- cer os medicamentos aos interessados. Finalmente, existe a extinção da patente. Como visto, a sua con- cessão possui um prazo de 20 anos. Assim, a primeira hipótese de extinção é o vencimento desse prazo. A segunda hipótese é quando há renúncia pelo seu titular, ou seja, quando ele desiste de sua ex- ploração. Já a terceira hipótese é a caducidade, que ocorre quando o titular da patente não iniciou a sua exploração, visto que uma das condições da patente de invenção é o seu uso industrial. Portanto, se não houver o uso, fica o titular sujeito a perder os direitos de pro- priedade sobre o invento. Há ainda uma última hipótese de extinção da patente, que é a ausência de pagamento da retribuição anual prevista nos artigos 84 a 86 da LPI (BRASIL, 1996b). Anualmente, o titular da invenção pre- cisa pagar a taxa fixada pelo Inpi, pois, se não o fizer, poderá ter a patente extinta. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este capítulo tratou do nome empresarial e da propriedade industrial, elementos muito importantes para o empresário desenvolver as suas ati- vidades. O nome empresarial é essencial porque é a forma pela qual o empresário se identifica em suas atividades; já a propriedade industrial visa proteger um conjunto de institutos que ele utiliza. A marca é a pro- priedade industrial mais comum, uma vez que envolve a identidade visual ou a nomenclatura do empresário. Assim, todos podem e devem registrar suas marcas no Inpi para protegê-la. A legislação também contempla os desenhos industriais, os modelos de utilidade e as invenções, que podem ou não ser essenciais para deter- minados empresários. Alguns jamais utilizarão a patente de invenção, pois não dependem de inventos para desenvolver suas atividades. Entretanto, a possibilidade de registro sempre ficará aberta e poderá ocorrer confor- me a vontade e necessidade de cada um. Para ampliar os seus co- nhecimentos, indica-se o vídeo Tipos de patentes no Brasil: patente de invenção e modelo de utilidade, publicado pelo canal Sobre Patente, que tem algumas explicações adicionais que podem ajudar a melhor com- preender esse tema. Disponível em: https://youtu. be/_qrW_wSuWjg. Acesso em: 4 maio 2021. Vídeo https://youtu.be/_qrW_wSuWjg https://youtu.be/_qrW_wSuWjg Nome empresarial e propriedade industrial 93 ATIVIDADES 1. O que é propriedade industrial? 2. O que é marca? 3. O que é nome empresarial? REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto n. 1.800, de 30 de janeiro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 31 jan. 1996a. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/ d1800.htm. Acesso em: 4 maio 2021. BRASIL. Lei n. 8.934, de 18 de novembro de 1994. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 21 nov. 1994. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8934. htm. Acesso em: 4 maio 2021. BRASIL. Lei n. 9.279, de 14 de maio de 1996. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 15 maio 1996b. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ l9279.htm. Acesso em: 4 maio 2021. BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/ l10406compilada.htm. Acesso em: 4 maio 2021. BRASIL. Lei n. 12.441, de 11 de julho de 2011. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 12 jul. 2011. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011- 2014/2011/lei/l12441.htm. Acesso em: 4 maio 2021. BRASIL. Lei n. 13.874, de 20 de setembro de 2019. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 20 set. 2019. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019- 2022/2019/Lei/L13874.htm. Acesso em: 4 maio 2021. INPI. Consulta à base da dados do Inpi. Instituto Nacional de Propriedade Industrial, 2021a. Disponível em: https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/MarcasServletController? Action=detail&CodPedido=11083. Acesso em: 20 maio 2021. INPI. Consulta à base da dados do Inpi. Instituto Nacional de Propriedade Industrial, 2021b. Disponível em: https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/ MarcasServletController?Action=nextPageMarca&page=2. Acesso em: 20 maio 2021. INPI. Consulta à base da dados do Inpi. Instituto Nacional de Propriedade Industrial, 2021c. Disponível em: https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/DesenhoServletController? Action=detail&CodPedido=1595420&SearchParameter=POLTRONA. Acesso em: 20 maio 2021. INPI. Consulta à base da dados do Inpi. Instituto Nacional de Propriedade Industrial, 2021d. Disponível em: https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/DesenhoServletController? Action=detail&CodPedido=1595420&SearchParameter=POLTRONA. Acesso em: 20 maio 2021. INPI. Consulta à base da dados do Inpi. Instituto Nacional de Propriedade Industrial, 2021e. Disponível em: https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/ImagemDocumentoPdfController? CodDiretoria=200&NumeroID=7f4d4f6e9d411289daaabd1c7379ae5dfbcdadc 5f1079f300544bee987602d27&cert i f i cado=undef ined&numeroProcesso= &ipasDoc=undefined&codPedido=1416073. Acesso em: 20 maio 2021. INPI. Consulta à base da dados do Inpi. Instituto Nacional de Propriedade Industrial, 2021f. Disponível em: https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/PatenteServletController? Action=detail&CodPedido=1480214&SearchParameter=TELA%20SENSIVEL%20 TOQUE%20%20%20%20%20%20&Resumo=&Titulo=. Acesso em: 20 maio 2021. INPI. O que é marca. Instituto Nacional de Propriedade Industrial, 2021g. Manual de marcas. Disponível em: http://manualdemarcas.inpi.gov.br/projects/manual/wiki/02_O_ que_%C3%A9_marca. Acesso em: 4 maio 2021. Vídeo http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1800.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1800.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8934.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8934.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9279.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9279.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12441.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12441.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13874.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13874.htm https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/MarcasServletController? Action=detail&CodPedido=11083 https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/MarcasServletController? Action=detail&CodPedido=11083 https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/MarcasServletController?Action=nextPageMarca&page=2 https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/MarcasServletController?Action=nextPageMarca&page=2 https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/DesenhoServletController?Action=detail&CodPedido=1595420&SearchParameter=POLTRONAhttps://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/DesenhoServletController?Action=detail&CodPedido=1595420&SearchParameter=POLTRONA https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/DesenhoServletController?Action=detail&CodPedido=1595420&SearchParameter=POLTRONA https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/DesenhoServletController?Action=detail&CodPedido=1595420&SearchParameter=POLTRONA https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/ImagemDocumentoPdfController?CodDiretoria=200&NumeroID=7f4d4f6e9d411289daaabd1c7379ae5dfbcdadc5f1079f300544bee987602d27&certificado=undefined&numeroProcesso=&ipasDoc=undefined&codPedido=141607 https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/ImagemDocumentoPdfController?CodDiretoria=200&NumeroID=7f4d4f6e9d411289daaabd1c7379ae5dfbcdadc5f1079f300544bee987602d27&certificado=undefined&numeroProcesso=&ipasDoc=undefined&codPedido=141607 https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/ImagemDocumentoPdfController?CodDiretoria=200&NumeroID=7f4d4f6e9d411289daaabd1c7379ae5dfbcdadc5f1079f300544bee987602d27&certificado=undefined&numeroProcesso=&ipasDoc=undefined&codPedido=141607 https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/ImagemDocumentoPdfController?CodDiretoria=200&NumeroID=7f4d4f6e9d411289daaabd1c7379ae5dfbcdadc5f1079f300544bee987602d27&certificado=undefined&numeroProcesso=&ipasDoc=undefined&codPedido=141607 https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/PatenteServletController?Action=detail&CodPedido=1480214&SearchParameter=TELA%20SENSIVEL%20TOQUE%20%20%20%20%20%20&Resumo=&Titulo= https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/PatenteServletController?Action=detail&CodPedido=1480214&SearchParameter=TELA%20SENSIVEL%20TOQUE%20%20%20%20%20%20&Resumo=&Titulo= https://busca.inpi.gov.br/pePI/servlet/PatenteServletController?Action=detail&CodPedido=1480214&SearchParameter=TELA%20SENSIVEL%20TOQUE%20%20%20%20%20%20&Resumo=&Titulo= http://manualdemarcas.inpi.gov.br/projects/manual/wiki/02_O_que_%C3%A9_marca http://manualdemarcas.inpi.gov.br/projects/manual/wiki/02_O_que_%C3%A9_marca 94 Direito Comercial e do consumidor 4 Código de Defesa do Consumidor Anelize Pantaleão Puccini Caminha O presente capítulo tem como escopo abordar o Código de Defesa do Consumidor (CDC) e a proteção necessária aos usuá- rios. Para melhor compreensão do conteúdo, o capítulo foi dividi- do em quatro seções. Dessa forma, na primeira seção será trabalhado o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC), que é estabelecido no CDC e envolve órgãos e entidades públicas e privadas. Na segunda seção serão estudados os direitos básicos do consumidor. O Código determina os direitos que devem ser observados na relação de consumo, levando em consideração que o usuário é a parte vulnerável dessa relação. Na terceira seção serão abordadas as responsabilidades do fornecedor nos vícios dos produtos e serviços. Sobre esse tema, o CDC estabelece regras específicas, inclusive a responsabilidade objetiva do fornecedor. Por fim, na quarta seção serão tratados dos direitos do con- sumidor no comércio eletrônico. Para esse estudo, é necessária a análise de normas específicas, tais como o Marco Civil da Internet. Código de Defesa do Consumidor 95 4.1 Sistema Nacional de Defesa do Consumidor Vídeo O Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC) surgiu com a necessidade da proteção e defesa do consumidor no Brasil. O marco principal desse tema no sistema jurídico brasileiro foi a sua inclusão na Constituição Federal (CF) de 1988 e posteriormente no Código de Defesa do Consumidor (CDC), ou Lei n. 8.078/1990. A proteção do consumidor foi positivada como direito fundamental no artigo 5º, inciso XXXII, e como princípio da ordem econômica no ar- tigo 170, V, ambos da CF: Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros resi- dentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] XXXII – o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor; [...] Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do traba- lho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observa- dos os seguintes princípios: [...] V – defesa do consumidor. (BRASIL, 1988) O CDC tem como marco o reconhecimento da vulnerabilidade do con- sumidor e do princípio da boa-fé como base das relações de consumo. Ressalta-se que é dever do Estado – União, estados, Distrito Federal e municípios – e direito fundamental de todos os cidadãos a proteção e defesa na relação de consumo. A fim de assegurar as garantias e os direitos dos consumidores, determinou-se no CDC a Política Nacional das Relações de Consumo, conforme artigo 4º. O seu objetivo é atender às necessidades dos con- sumidores com a proteção dos interesses econômicos, bem como o respeito à dignidade, saúde e segurança. Para garantir a execução 96 Direito Comercial e do consumidor dessa política, devem ser observados pelo Poder Público os seguintes instrumentos, como determina o artigo 5º (BRASIL, 1990): Assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor carente. Promotorias de justiça de defesa do consumidor no âmbito do Ministério Público. Delegacias de polícia especializadas no atendimento de consumidores vítimas de infrações penais de consumo. Juizados especiais de pequenas causas e varas especializadas para a solução de litígios de consumo. Concessão de estímulos à criação e ao desenvolvimento das associações de defesa do consumidor. O CDC também determina o Sistema Nacional de Defesa do Consu- midor, que integra órgãos federais, estaduais, municipais e do Distrito Federal, além de entidades privadas, de acordo com o seu artigo 105. Ainda estabelece normas de ordem pública e social de proteção e defe- sa dos consumidores, conforme seu artigo 1º – assim como determina- do pela CF (BRASIL, 1990). Em 2012 surgiu a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), cria- da pelo Decreto n. 7.738/2012 – de acordo com o artigo 106 do CDC e o artigo 3º do Decreto n. 2.181/1997 –, a qual é integrante do Ministério da Justiça e da Política Nacional das Relações de Consumo. Tem como objetivo auxiliar a integração dos órgãos do SNDC. O Departamento Nacional de Defesa do Consumidor, a Secretaria Nacional de Direito Econômico ou o órgão nacional que tenha como função coordenar a política do SNDC deve seguir os objetivos estabele- cidos pelo artigo 106 do CDC, que são: I – planejar, elaborar, propor, coordenar e executar a política na- cional de proteção ao consumidor; II – receber, analisar, avaliar e encaminhar consultas, denúncias Código de Defesa do Consumidor 97 ou sugestões apresentadas por entidades representativas ou pessoas jurídicas de direito público ou privado; III – prestar aos consumidores orientação permanente sobre seus direitos e garantias; IV – informar, conscientizar e motivar o consumidor através dos diferentes meios de comunicação; V – solicitar à polícia judiciária a instauração de inquérito policial para a apreciação de delito contra os consumidores, nos termos da legislação vigente; VI – representar ao Ministério Público competente para fins de adoção de medidas processuais no âmbito de suas atribuições; VII – levar ao conhecimento dos órgãos competentes as infrações de ordem administrativa que violarem os interesses difusos, co- letivos, ou individuais dos consumidores; VIII – solicitar o concurso de órgãos e entidades da União, Esta- dos, do Distrito Federal e Municípios, bem como auxiliar a fis- calização de preços, abastecimento, quantidade e segurança de bens e serviços; IX – incentivar, inclusive com recursos financeiros e outros progra- mas especiais, a formação de entidades de defesa do consumidor pela população e pelos órgãos públicos estaduais e municipais; X – (Vetado); XI – (Vetado); XII – (Vetado); XIII – desenvolver outras atividades compatíveis com suas finali- dades. (BRASIL, 1990) Já o Decreto n. 2.181/1997 dispõe sobre a organização da Senacon,estabelecendo as normas gerais e as sanções administrativas. Nesse sentido, faz parte dela o Departamento de Proteção e Defesa do Con- sumidor (DPDC), que tem como função executar a Política Nacional nas Relações de Consumo, auxiliando o monitoramento do mercado. Uma das principais funções da Senacon é integrar todos os ór- gãos do Sistema de Defesa do Consumidor ao Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor 1 . Além das ações voltadas à saúde e segurança do consumidor, também atua na sua proteção por meio da regulamentação. Verifica-se, portanto, que ela age prin- cipalmente no planejamento, na elaboração, na coordenação e na execução da política nacional. Nos casos de repercussão nacional e interesse geral em que há a necessidade de análise de questões e diálogo com fornecedores, a Senacon atua de maneira ativa. Além disso, ela tem como papel Para saber mais, acesse o site: https:// sindecnacional.mj.gov. br/sobre. Acesso em: 19 maio 2021. 1 https://sindecnacional.mj.gov.br/sobre https://sindecnacional.mj.gov.br/sobre https://sindecnacional.mj.gov.br/sobre 98 Direito Comercial e do consumidor acompanhar todas as propostas normativas com impacto ao consu- midor, atuando na prevenção e repressão das práticas que violam os seus direitos. O consumidor deve ser defendido em várias esferas. Logo, a atua- ção do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor deve ser coorde- nada entre agentes públicos e privados. O artigo 55 do CDC determina que deve ser realizada, de modo concorrente entre a União, os esta- dos, o Distrito Federal e os municípios, a fiscalização e o controle da “produção, industrialização, distribuição, a publicidade de produtos e serviços e o mercado de consumo, no interesse da preservação da vida, da saúde, da segurança, da informação e do bem-estar do consumidor, baixando as normas que se fizerem necessárias” (BRASIL, 1990). Caso haja infrações de ordem administrativa contra o consumidor que violem os seus interesses difusos, coletivos ou individuais, o Depar- tamento Nacional de Defesa do Consumidor deverá levar o ocorrido ao conhecimento dos órgãos competentes conforme a natureza da violação, como determina o inciso VII do artigo 106 do CDC. Caso a infração viole a legislação penal, deverá ser realizado o inquérito ou ter- mo circunstanciado pela autoridade policial e, em algumas situações, a representação perante o Ministério Público, a fim de que se adotem as medidas necessárias para a proteção dos direitos dos consumidores. É imprescindível que todo o SNDC aja de maneira sólida e que os mecanismos de proteção tenham preservadas a sua autonomia e interdependência com o objetivo de garantir a atuação eficaz. Todos os órgãos que integram o SNDC devem seguir as premissas de cooperação, solidariedade e sinergia. Em 2020 foi instituído como órgão integrante da Senacon o Con- selho Nacional de Defesa do Consumidor, por meio do Decreto n. 10.417/2020. Ele havia sido criado originalmente em 1985 e extin- to em 1990. Sua função é assessorar o Ministro da Justiça a formular e conduzir a Política Nacional de Defesa do Consumidor. Além disso, tem como escopo elaborar e propor recomendações a todos os ór- gãos integrantes da Senacon, como determina o artigo 1º do decreto citado (BRASIL, 2020). Código de Defesa do Consumidor 99 Entre os órgãos especializados em proteção e defesa do consumi- dor é importante destacar o Procon, que pertence ao Poder Executi- vo municipal ou estadual e possui contato direto com os cidadãos. Ele recebe as reclamações e, caso verifique violação, realiza um auto de infração. Assim, coordena e executa a política estadual ou municipal, bem como atende aos consumidores. As atribuições do Procon estão estabelecidas no artigo 4º do De- creto n. 2.181/1997. Uma das mais importantes é ser a instância de instrução e julgamento do procedimento administrativo (BRASIL, 1997). Portanto, caso haja violação ao direito do consumidor, este deverá rea- lizar uma reclamação de maneira fundamentada e, se for efetivamente verificada a infração, será realizada a lavratura do auto de infração. A atuação ocorre no âmbito extrajudicial. Nos processos administrativos, o Procon deverá buscar a intermedia- ção dos conflitos por meio de acordos entre consumidor e fornecedor. Há ainda a Delegacia de Defesa do Consumidor, que tem como fun- ção o atendimento a infrações penais de consumo. Caso não haja uma delegacia especializada nessa área, deverá a delegacia de competência geral do estado, município ou Distrito Federal atender aos cidadãos, registrando o boletim de ocorrência e realizando o inquérito policial. Por fim, as agências reguladoras são um órgão integrante que fiscaliza as atividades econômicas e necessita de autorização es- pecial do Poder Público para exercer a sua atividade por meio de concessões e permissões. Destaca-se que a atuação delas tem im- pacto direito nas relações de consumo, portanto devem ser estuda- das junto do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, pois têm como função a intervenção, a fixação de preços e a competência normativa regulatória. Sugere-se o acesso ao Portal de Defesa do Consumidor, no qual há dicas de como proceder em casos de violação aos direitos do consumidor. Disponível em: https://www. defesadoconsumidor.gov.br. Acesso em: 19 maio 2021. Site 4.2 Direitos básicos do consumidor Vídeo O CDC determina no seu artigo 6º os direitos básicos do consumi- dor, em consonância com os princípios estabelecidos no artigo 4º, ten- do como objetivo determinar valores e preceitos fundamentais para a proteção do usuário. No que tange aos princípios, destaca-se que a sua função não é preencher de maneira subsidiária a lacuna da lei, mas sim imedia- https://www.defesadoconsumidor.gov.br https://www.defesadoconsumidor.gov.br 100 Direito Comercial e do consumidor ta, com a função de corrigir eventuais normas injustas (TARTUCE; NEVES, 2016). Já os direitos são aqueles positivados na legislação, ou seja, expressos no texto da lei. Ressalta-se que eles não excluem os decorrentes de tratados e convenções internacionais assinados pelo Brasil, bem como demais legislações. A seguir serão comenta- dos cada um desses direitos (BRASIL, 1990). A proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos. I O direito à vida, saúde e segurança é um direito fundamental estabe- lecido na CF. Nesse sentido, o CDC determina normas para a proteção do consumidor contra produtos e serviços que possam ser perigosos ou causar danos. Caso haja um defeito que ocasione um dano ao con- sumidor, a responsabilidade do fornecedor é objetiva e solidária. A educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas contratações. II O direito à educação e divulgação significa ter acesso à forma correta de uso do produto ou serviço. Além disso, tem relação com o princípio da equivalência negocial, que objetiva garantir a igualdade de condições entre o consumidor e o fornecedor no momento da contratação. Também há essa proteção com o propósito de que o consumidor tenha liberdade de escolha do produto ou serviço dis- ponível no mercado. A informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem. III É imprescindível o cuidado com a informação, havendo o dever de informar e o direito de ser informado estabelecidos como prin- cípios do direito do consumidor no artigo 4º do CDC. A informação precisa ser clara, com todas as características do produto e acessí- vel. Nesse sentido, o parágrafo único do artigo 6º determina que “a informação de que trata o inciso III do caput deste artigo deve ser acessível à pessoa com deficiência, observado o disposto em regula- mento” (BRASIL,1990, grifo do original). Código de Defesa do Consumidor 101 Destaca-se a ligação desse direito com o de escolha e igualdade, visto que para exercer essa liberdade de maneira clara é necessário o acesso igualitário à informação adequada do produto ou serviço. Também verifica-se que sem o acesso à informação não é possível aplicar os princípios da transparência, confiança e boa-fé, como afirma o ministro Antônio Herman Benjamin no Recurso Especial n. 586.316/2003 (BRASIL, 2009). A proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços. IV Todas as situações de abuso entre fornecedor e consumidor são protegidas pelo CDC. Nesse sentido, a propagada deve ser clara e não pode, em nenhum sentido, enganar o usuário. Essa proteção se dá na fase pré-contratual, em que há a oferta e a publicidade do produto ou serviço. As cláusulas contratuais e para fornecimento também não podem ser abusivas, nem fixar condições incompatíveis com o fornecimento do produto ou serviço. Diferentemente do que ocorre com os contra- tos em geral, as cláusulas consideradas abusivas e desproporcionais são tidas automaticamente como não válidas, e o consumidor não será penalizado pelo seu descumprimento, como se verifica no inciso V do artigo 6º, que será trabalhado na sequência. A modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas. V De modo diferente do que ocorre no Direito Civil, em que há a força obrigatória dos contratos – podendo ser modificados apenas por moti- vos imprevisíveis 2 –, no direito do consumidor deve ser observada a fun- ção social do contrato. Nesse sentido, ele não pode integrar as cláusulas draconianas ou prejudiciais ao consumidor. É importante salientar que o consumidor é naturalmente a parte vulnerável da relação. Caso haja necessidade, é possível modificar ou rever as cláusulas contratuais nas hipóteses de prestações desproporcionais ou em en- sejo de fatos supervenientes. Isso ocorre nos casos em que a cláusula se torna excessivamente onerosa, aplicando a teoria da imprevisão 3 . O motivo imprevisível é aquele que não é possível prever anteriormente, como o caso de um motivo que altere o equilíbrio do contrato, ge- rando uma onerosidade excessiva ao consumidor. 2 cláusula draconiana: excessivamente severa ou que institui uma punição cruel ou injusta. Glossário A teoria da imprevisão ocorre nos casos em que há um desequilíbrio no contrato decorren- te de uma condição superveniente. 3 102 Direito Comercial e do consumidor A efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos. VI Esse direito garante a reparação integral dos danos sofridos decorrentes da relação de consumo. É importante destacar que a pessoa jurídica também pode sofrer dano moral, como determina a Súmula n. 227 do Supremo Tribunal de Justiça – STJ (BRASIL, 1999). Assim, todo aquele que causar dano deverá repará-lo. Essa reparação, caso não seja voluntária, será determinada pelo juiz. Os danos patrimoniais são aqueles relacionados ao patrimônio; os morais, à personalidade que foi abalada; os individuais, apenas ao con- sumidor; os coletivos, a um grupo de consumidores; e os difusos, a um número indeterminado de consumidores. Ressalta-se que os danos po- dem ser cumulados ou não. O acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e técnica aos necessitados. VII Esse direito tem o objetivo de positivar o acesso à justiça no CDC, garantindo, assim, o acesso às defensorias públicas e à assistência judi- ciária gratuita. Todos os instrumentos da Política Nacional das Relações de Consumo também possuem o escopo de proteger o consumidor. A facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências. VIII A inversão do ônus da prova significa que o fornecedor deve provar que o seu produto não possui um vício ou defeito, pois o consumidor é vulnerável na relação. Essa inversão deverá ser realizada de maneira prudente e o juiz analisará o caso concreto. O Informativo n. 489 do STJ (BRASIL, 2011) determina que se o juiz, ao analisar o caso, verificar a verossimilhança das alegações ou a hipossuficiência da parte, poderá estabelecer a inversão do ônus da prova. Nesse caso, o fornecedor deve provar que os fundamentos ale- gados pela parte não são verídicos. Código de Defesa do Consumidor 103 A adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.X No rol de serviços públicos em geral estão os de água, esgoto, ener- gia, transporte público, entre outros. Ressalta-se que, como determina o artigo 7º do CDC, os direitos previstos não excluem outros decorren- tes de tratados e convenções internacionais. A seguir é apresentado um resumo dos direitos básicos do consumidor: Proteção à vida, saúde e segurança. Efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais, morais, individuais, coletivos e difusos. Acesso aos órgãos judiciários e administrativos. Educação e divulgação a respeito do consumo adequado. Proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, os métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como as práticas e cláusulas abusivas ou impostas. Facilitação da defesa dos direitos do consumidor. Informação adequada e clara. Modificação das cláusulas contratuais com prestações desproporcionais ou sua revisão por fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas. Adequada e eficaz prestação dos serviços públicos. Dessa forma, verifica-se que os direitos básicos do consumidor de- vem ser observados no sentido de garantirem que a relação entre con- sumidor e fornecedor não seja desigual. Recomenda-se o filme Os delírios de consumo de Becky Bloom, que retrata a vida de uma jovem jor- nalista com problemas causados pelos desejos de consumo exagera- dos. Na produção, a personagem principal é altamente afetada pelas propagandas e pelos desejos de consumo, o que acarreta sérios pro- blemas para a sua vida. Direção: P. J. Hogan. EUA: Touchstone Pictures; Jerry Bruckheimer Films, 2009. Filme 4.3 Responsabilidade por vício do produto e do serviço Vídeo Como visto, o fornecedor deve oferecer produtos e serviços seguros, respeitando o direito à proteção da vida, saúde e segurança. A principal diferença no que tange ao direito do consumidor é a responsabilidade objetiva, na qual não é necessário provar a negligência, imprudência e 104 Direito Comercial e do consumidor imperícia do fornecedor. Sempre que houver um vício no produto ou no serviço, o fornecedor é o responsável, independentemente de culpa, pela reparação do dano. Em seu artigo 12, o CDC estabelece o seguinte: Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou es- trangeiro, e o importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por infor- mações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. (BRASIL, 1990) É importante destacar que o artigo descrito atribui a responsabi- lidade ao fornecedor, e não ao comerciante. Entretanto, o CDC, em seu artigo 13, indica as hipóteses em que o comerciante é igualmen- te responsável: Art. 13. O comerciante é igualmente responsável, nos termos do artigo anterior, quando: I – o fabricante, o construtor, o produtor ouo importador não puderem ser identificados; II – o produto for fornecido sem identificação clara do seu fa- bricante, produtor, construtor ou importador; III – não conservar adequadamente os produtos perecíveis. (BRASIL, 1990) A responsabilidade mencionada nos incisos I e II é subsidiária e ocorre apenas nos casos em que não é possível identificar o fabricante. Portanto, a única hipótese na qual o comerciante é responsável de ma- neira direta é de má conservação do produto perecível, como determi- na o inciso III. A diferença entre defeito e vício é que o primeiro significa falha na segurança, e o segundo falha na ade- quação. Por exemplo, o vício pode ocorrer quando a ca- racterística da qualidade do produto é precária, como no caso de uma chaleira que não funciona adequada- mente. Já o defeito pode ocorrer quando o consumidor compra um produto, como um creme de leite, e a sua aparência é adequada, mas após o consumo, ele é hos- pitalizado por infecção alimentar. Portanto, o produto é considerado defeituoso nos casos em que não oferecer a segurança necessária, le- Figura 1 Exemplo de produto com vício czitrox/Shutterstock Código de Defesa do Consumidor 105 vando em consideração a sua apresentação, o seu uso, os riscos que dele legitimamente se esperam e a época em que foi colocado em cir- culação, como orienta o parágrafo 1º do artigo 12 do CDC. Ainda como afirma o parágrafo 2º do mesmo artigo, o fato de existir no mercado outro produto de melhor qualidade não significa que o produto é de- feituoso e não gera a responsabilidade inerente. Só não será responsá- vel pelo defeito do produto caso o fabricante, construtor, produtor ou importador provar que não o colocou no mercado, que o defeito não existe ou que a culpa pelo defeito é exclusivamente de terceiro ou do próprio consumidor, conforme o parágrafo 3º (BRASIL, 1990). Nas hipóteses de fornecimento de serviços, independentemente de culpa, o fornecedor deverá responder por defeitos relativos à presta- ção dos serviços e pelas informações insuficientes ou inadequadas de fruição e riscos, como disposto no artigo 14 (BRASIL, 1990). A fim de verificar se o serviço é efetivamente defeituoso, é necessário comprovar que ele não fornece a segurança necessária ao consumidor no modo de seu fornecimento, no resultado e nos riscos que razoavel- mente dele se esperam ou que ele não é compatível com a época em que foi fornecido, de acordo com o parágrafo 1º do artigo 14. Nesse sentido, o parágrafo 2º destaca que caso sejam adotadas novas técni- cas para os serviços, os realizados anteriormente não são considerados defeituosos, visto que o fato de existir uma técnica mais moderna não significa que a anterior é defeituosa. Também não será responsabilizado o fornecedor que provar a não existência defeito no serviço ou que a culpa é exclusivamente do con- sumidor ou de terceiro, conforme o parágrafo 3º. Quando se trata de responsabilidade pessoal de profissional liberal, o CDC estabelece que se deve verificar a culpa no serviço prestado, como afirma o parágrafo 4º – nesse caso, verifica-se a responsabilidade subjetiva (BRASIL, 1990). No que tange à responsabilidade por vício, os fornecedores de produtos de consumo respondem de maneira solidária por vícios de qualidade ou quantidade desde que estes tornem o produto impró- prio ou inadequado ao consumo ou diminuam seu valor. Essa regra aplica-se aos produtos duráveis ou não duráveis e àqueles em que se verifica uma disparidade em relação à indicação do recipiente, da embalagem, da rotulagem ou da mensagem publicitária, desde que não decorrente de sua natureza. Nos casos mencionados, é possível 106 Direito Comercial e do consumidor a exigência de substituição pelo consumidor, como determina o arti- go 18 do CDC (BRASIL, 1990). O prazo para sanar o vício é de 30 dias. Caso não seja solucionado, o consumidor pode exigir alternativamente e à sua escola: “I – a substi- tuição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso; II – a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos; III – o abatimen- to proporcional do preço”, como dispõe o parágrafo 1º do artigo 18 do CDC. Esse prazo pode ser reduzido ou ampliado para não menos do que 7 dias e não mais do que 180 dias, desde que convencionado entre as partes, como afirma o parágrafo 2º do mesmo artigo. Nos contratos de adesão, o prazo só poderá ser convencionado se houver a manifes- tação expressa do consumidor (BRASIL, 1990). Se o produto com vício for in natura, o fornecedor imediato será responsabilizado, salvo nos casos em que seja possível identificar o produtor, como determina o parágrafo 5º do artigo 18. Além disso, são considerados impróprios para uso e consumo, como estipula o parágrafo 6º: I – os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos; II – os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados, falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo com as normas regu- lamentares de fabricação, distribuição ou apresentação; III – os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequa- dos ao fim a que se destinam. (BRASIL, 1990) Quanto aos vícios de quantidade, os fornecedores são solidaria- mente responsáveis caso o produto apresente um conteúdo inferior ao indicado na embalagem, no rótulo ou em campanha publicitária, ou seja, ambos, fornecedor e consumidor, serão igualmente respon- sáveis. Nessas situações, o consumidor poderá exigir de maneira alternativa e à sua escolha: o abatimento proporcional do preço; a complementação da quantidade; a substituição do produto por outro de mesma espécie, marca ou modelo; ou a restituição do valor pago atualizado monetariamente. Ressalta-se que caso haja perdas e da- nos decorrentes do vício, estes também devem ser suportados pelo fornecedor, conforme dispõe o artigo 19. Caso o vício de qualidade não seja sanável e torne o serviço impróprio ao consumo ou acarrete a diminuição do seu valor, o fornecedor de ser- Código de Defesa do Consumidor 107 viços será o responsável. Nesse caso, o consumidor poderá escolher: se o fornecedor irá reexecutar o serviço, sem custo adicional; se o fornece- dor irá restituir a quantia paga, atualizada monetariamente; ou se ocor- rerá o abatimento do preço de maneira proporcional, como determina o artigo 20. Também poderá o fornecedor terceirizar a reexecução do ser- viço, desde que por sua conta e seu risco e por terceiros capacitados, conforme parágrafo 1º do referido dispositivo legal (BRASIL, 1990). Nos casos em que há a necessidade de reparar o produto no for- necimento de serviço, o fornecedor deverá repor os componentes ori- ginais adequados e novos ou observar as especificações técnicas do fabricante. Entretanto, o consumidor poderá autorizar em contrário, como dispõe o artigo 21. No que tange aos serviços prestados pelos órgãos públicos, também se aplica o Código de Defesa do Consumidor, ainda que o serviço seja prestado por empresas, concessionárias, permissionárias ou outra for- ma de empreendimento. Nesse caso, o serviço oferecido deve ser rea- lizado de maneira adequada, eficiente, segura e, nos casos de serviço essencial, contínua. Caso haja o descumprimento dessas obrigações, ainda que parcialmente, deverá ser reparado o dano, como estabelece o artigo 22 (BRASIL, 1990). O fato de o fornecedor ignorar o vício não é justificativa para isentá-lo da responsabilidade nos casos em que o vício é de qualidade por inadequação dos produtos ou serviços, de acordo com o artigo 23. Nesse sentido, cláusulas que impossibilitem, exonerem ou atenuem a obrigação de indenizar são vedadas no contrato, conforme o artigo 25. Além disso, “a garantia legal de adequação do produto ou serviço inde- pende de termo expresso, vedada a exoneração contratual do fornece- dor”, como determina o artigo 24 (BRASIL, 1990). Por fim, segundo os parágrafos 1º e 2º do artigo25, haverá situação de responsabilidade solidária sempre que houver mais de um respon- sável pela causação do dano. Ademais, nas hipóteses em que o dano é causado por peça ou componente incorporado no produto, o seu fabri- cante, construtor, importador ou aquele que realizou a inclusão será o responsável de maneira solidária. Recomenda-se a leitura do texto Defesa do consumidor: responsabilidade do forne- cedor por vício e por defeito do produto, de André Motoharu Yoshino, que detalha de maneira espe- cífica o tratamento legal do vício no Código de Defesa do Consumidor. Disponível em: https://www. migalhas.com.br/depeso/120332/ defesa-do-consumidor- responsabilidade-do-fornecedor- por-vicio-e-por-defeito-do- produto-ou-servico. Acesso em: 19 maio 2021. Leitura https://www.migalhas.com.br/depeso/120332/defesa-do-consumidor-responsabilidade-do-fornecedor-por-vicio-e-por-defeito-do-produto-ou-servico https://www.migalhas.com.br/depeso/120332/defesa-do-consumidor-responsabilidade-do-fornecedor-por-vicio-e-por-defeito-do-produto-ou-servico https://www.migalhas.com.br/depeso/120332/defesa-do-consumidor-responsabilidade-do-fornecedor-por-vicio-e-por-defeito-do-produto-ou-servico https://www.migalhas.com.br/depeso/120332/defesa-do-consumidor-responsabilidade-do-fornecedor-por-vicio-e-por-defeito-do-produto-ou-servico https://www.migalhas.com.br/depeso/120332/defesa-do-consumidor-responsabilidade-do-fornecedor-por-vicio-e-por-defeito-do-produto-ou-servico https://www.migalhas.com.br/depeso/120332/defesa-do-consumidor-responsabilidade-do-fornecedor-por-vicio-e-por-defeito-do-produto-ou-servico 108 Direito Comercial e do consumidor 4.4 O direito do consumidor no comércio eletrônico Vídeo Atualmente, há uma grande migração das relações de consumo para o mundo digital, criando os ambientes de compras e-commerce. Assim, é necessária a estipulação de normas específicas para essa prática. No que tange à defesa do consumidor no comércio eletrônico, em 2013 foi regulamentado o Decreto n. 7.962, o qual reafirmou os di- reitos básicos que já estavam previstos no CDC, indicando que eles também se aplicam ao consumidor na contratação de compras pela internet. Verifica-se que a contratação no comércio eletrônico deve observar os seguintes itens: As informações claras a respeito do produto, serviço e fornecedor. O atendimento facilitado ao consumidor. O respeito ao direito de arrependimento. A garantia de atendimento facilitado implica que o sumário do con- trato deverá ser apresentado pelo fornecedor antes da contratação, com o objetivo de garantir que o consumidor tenha acesso a todas as informações necessárias. Dessa forma, ele poderá escolher livremente, com o conhecimento, inclusive, das cláusulas limitantes de direitos. A seguir são determinadas as informações essenciais que devem estar destacadas e de fácil visualização no site no qual se realiza a com- pra, de acordo com o artigo 2º do Decreto n. 7.962/2013 (BRASIL, 2013): Código de Defesa do Consumidor 109 Nome empresarial e número de inscrição do fornecedor, quando houver, no Cadastro Nacional de Pessoas Físicas ou no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas do Ministério da Fazenda. Endereço físico e eletrônico e demais informações necessárias para sua localização e contato. Discriminação no preço de quaisquer despesas adicionais ou acessórias, como as de entrega ou seguros. Características essenciais do produto ou do serviço, incluídos os riscos à saúde e segurança dos consumidores. Informações claras e ostensivas a respeito de quaisquer restrições à fruição da oferta. Condições integrais da oferta, incluídas modalidades de pagamento, disponibilidade, forma e prazo da execução do serviço ou da entrega ou disponibilização do produto. O direito ao arrependimento do comércio eletrônico é outra impor- tante diferença em relação ao presencial. Ele pode ser realizado por meio da mesma ferramenta que fez a contratação, sem prejuízo de outros meios, e deve ser informado de maneira clara e ostensiva pelo fornecedor, como determina o artigo 5º do Decreto n. 7.962/2013. Caso o consumidor deseje exercer o seu direito ao arrependi- mento devolvendo o produto, o fornecedor deverá informar imedia- tamente a instituição financeira ou a administradora do cartão de crédito, a fim de que a transação não seja lançada ou seja realizado o estorno do valor (se já tiver sido realizada a transação), como de- termina o parágrafo 3º do artigo 5º. Além disso, o fornecedor deve informar o consumidor que recebeu a manifestação de arrependi- mento imediatamente (BRASIL, 2013). 110 Direito Comercial e do consumidor Na oferta dos produtos e serviços no meio eletrônico, deverão ser informadas as condições de prazo para entrega, a quantidade, a quali- dade e a adequação, conforme indica o artigo 6º. Caso não se observe alguma das condutas descritas no Decreto n. 7.962/2013, poderão ser aplicadas as sanções previstas no artigo 56º do CDC: I – multa; II – apreensão do produto; III – inutilização do produto; IV – cassação do registro do produto junto ao órgão competente; V – proibição de fabricação do produto; VI – suspensão de fornecimento de produtos ou serviço; VII – suspensão temporária de atividade; VIII – revogação de concessão ou permissão de uso; IX – cassação de licença do estabelecimento ou de atividade; X – interdição, total ou parcial, de estabelecimento, de obra ou de atividade; XI – intervenção administrativa; XII – imposição de contrapropaganda. (BRASIL, 1990) Verifica-se, dessa forma, que no comércio eletrônico devem ser observados três direitos fundamentais do consumidor, os quais estão listados a seguir: Clareza e disponibilidade de informações. Suporte imediato ao cliente. Direito de arrependimento. O comércio eletrônico também deverá observar as normas estabe- lecidas na Lei n. 12.965/2014, conhecida como Marco Civil da Internet. Nela estão estabelecidos os direitos, os deveres, os princípios e as ga- rantias para o uso da internet no Brasil. De acordo com essa lei, as empresas só poderão coletar os dados do usuário em caso de consen- timento expresso por parte deste (BRASIL, 2014). Há ainda a Lei Geral Código de Defesa do Consumidor 111 de Proteção de Dados, n. 13.709/2018, que tem como objetivo regula- mentar o tratamento dos dados pessoas nos meios digitais. O CDC estabelece o prazo de 7 dias para a desistência do negócio, com o objetivo de evitar compras realizadas apenas por influência do marketing. Essa previsão está prevista no artigo 49 e acontece- rá sempre que a contratação for realizada fora do estabelecimento comercial, principalmente por telefone, domicílio ou, recentemente, pela internet. Nesses casos, não é necessária a justificativa para a desistência e o fornecedor poderá estender o prazo, ampliando-o automaticamente, inclusive na oferta do produto. Caso o consumi- dor desista da compra, o fornecedor deverá devolver o valor imedia- tamente e atualizado monetariamente, como determina o parágrafo único do artigo 49 do CDC (BRASIL, 1990). Sugere-se a leitura do texto O comércio eletrônico e o Direito do Consumidor, de Rizzatto Nunes, que resume de maneira clara e didática os principais direitos do consumidor no comércio eletrônico. Disponível em: https://www. migalhas.com.br/coluna/abc-do- cdc/249828/o-comercio-eletronico- e-o-direito-do-consumidor. Acesso em: 19 maio 2021. Leitura CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo foi abordado o Código de Defesa do Consumidor (CDC) e as diversas formas de proteção das garantias e dos direitos do consu- midor. Na primeira seção foi estudado o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, que possui previsão na Constituição e no CDC. O Sistema es- tabelece um rol de órgãos e entidades que objetivam garantir os direitos do consumidor e atuar de maneira ativa nos casos de sua violação. Na segunda seção foram detalhados os direitos básicos do consumi- dor determinados no CDC. Verifica-seque o fornecedor deve observar os direitos em consonância com os princípios determinados no artigo 4º do CDC. Também foram observadas as responsabilidades por vício nos pro- dutos ou serviços. Nesse sentido, o CDC estabelece a responsabilidade objetiva do fornecedor e, em algumas situações, a solidária. Por fim, foi discutido o direito do consumidor no comércio eletrônico, o qual, nos últimos anos, expandiu-se de maneira significativa, devendo serem observadas suas regras específicas. ATIVIDADES 1. Qual é o objetivo da Política Nacional das Relações de Consumo? 2. Quando haverá a responsabilidade solidária pelo vício do produto? 3. Quais são os três direitos fundamentais do consumidor no comércio eletrônico? Vídeo https://www.migalhas.com.br/coluna/abc-do-cdc/249828/o-comercio-eletronico-e-o-direito-do-consumidor https://www.migalhas.com.br/coluna/abc-do-cdc/249828/o-comercio-eletronico-e-o-direito-do-consumidor https://www.migalhas.com.br/coluna/abc-do-cdc/249828/o-comercio-eletronico-e-o-direito-do-consumidor https://www.migalhas.com.br/coluna/abc-do-cdc/249828/o-comercio-eletronico-e-o-direito-do-consumidor 112 Direito Comercial e do consumidor REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição Federal (1988). Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao. htm. Acesso em: 19 maio 2021. BRASIL. Decreto n. 2.181, de 20 de março de 1997. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 20 mar. 1997. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/ d2181.htm. Acesso em: 19 maio 2021. BRASIL. Decreto n. 7.962, de 15 de março de 2013. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 15 mar. 2013. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011- 2014/2013/decreto/d7962.htm. Acesso em: 19 maio 2021. BRASIL. Decreto n. 10.417, de 7 de julho de 2020. Diário Oficial da União, Poder Executi- vo, Brasília, DF, 8 jul. 2020. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019- 2022/2020/decreto/D10417.htm. Acesso em: 19 maio 2021. BRASIL. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Diário Oficial da União, Poder Legisla- tivo, Brasília, DF, 11 set. 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ l8078compilado.htm. Acesso em: 19 maio 2021. BRASIL. Lei n. 12.965, de 23 de abril de 2014. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 abr. 2014. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011- 2014/2014/lei/l12965.htm. Acesso em: 19 maio 2021. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Informativo de Jurisprudência n. 489, Brasília, DF, 5 a 19 dez. 2011. 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Na primeira seção será abordado o respeito à dignidade do con- sumidor, o qual é afirmado na Constituição Federal e no CDC. Na segunda serão estudadas as formas de proteção contratual na defesa do consumidor. Para isso, serão abordadas as normas es- tabelecidas no CDC diferentes da teoria geral do contrato, com o objetivo de garantir a proteção do consumidor sempre do modo mais favorável a ele. Na terceira seção serão desenvolvidas as defesas do con- sumidor em juízo. A legislação determina, nesse sentido, que poderão ser ajuizadas ações específicas, tanto individuais como coletivas, para a defesa dele. Por fim, na última e quarta seção, serão examinadas as regras de prescrição e decadência estabe- lecidas no CDC. 5.1 O respeito à dignidade do consumidor Vídeo A defesa do consumidor está estabelecida na Constituição Federal (CF) nos artigos 5º (inciso XXXII) e 170; no primeiro com a defesa do consumidor como obrigação do Estado e no segundo como princípio da ordem econômica. Ainda, é possível aplicar na relação de consumo outros princípios constitucionais, tais como, a dignidade da pessoa hu- mana – a qual deve ser considerada em todas as situações – e o direito à vida, à honra e à imagem, dispostos no artigo 5º, caput e inciso X, da CF (LIMA FILHO, 2015). 114 Direito Comercial e do consumidor Em diversos aspectos da proteção do consumidor são levados em considera- ção os direitos de personalidade, como no caso da boa conduta do fornecedor com o consumidor. Ressalta-se que refletem na personalidade do consumidor as condutas lesivas à sua dignidade. Ainda que o direito do consumidor envolva aspectos patrimoniais, ao dispor sobre aspectos extrapatrimoniais (como o dano moral), ele envolve os direitos de personalidade. Dessa forma, são analisadas as lesões aos interesses personalíssimos, visto que a dor e o sofrimento são considerados para a fixação da indenização (LIMA FILHO, 2015). Dentre as condutas que podem ser lesivas à personalidade do con- sumidor, é possível elencar as práticas contratuais abusivas, o produto ou serviço defeituoso e inclusive uma prática muito comum na socie- dade, a negativa indevida (LIMA FILHO, 2015). Esta ocorre nos casos em que o consumidor é incluído nos órgãos de proteção de crédito sem haver efetivamente o inadimplemento. Os acidentes do consumo também podem gerar um dano ao con- sumidor no que tange à sua personalidade, inclusive nas hipóteses que causarem dano à sua integridade física ou psíquica, como disposto nos artigos 12 e 14 do CDC (BRASIL, 1990). O dano moral também é considerado uma violação ao direito de personalidade, visto que se ca- racteriza por uma lesão à moral da pessoa. A valoração da indenização deverá ser fixada pelo juiz após a análise docaso concreto. Nesse contexto, a boa-fé, no direito do consumidor, torna-se um importante valor, e o artigo 39 do CDC estabelece as condutas viola- doras desse princípio: I – condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao for- necimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos; II – recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata medida de suas disponibilidades de estoque, e, ainda, de conformidade com os usos e costumes; III – enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou fornecer qualquer serviço; IV – prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição A proteção do consumidor 115 social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços; V – exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva; VI – executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização expressa do consumidor, ressalvadas as decorren- tes de práticas anteriores entre as partes; VII – repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo consumidor no exercício de seus direitos; VIII – colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou ser- viço em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos ofi- ciais competentes ou, se normas específicas não existirem, pela Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade cre- denciada pelo Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro); IX – recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, direta- mente a quem se disponha a adquiri-los mediante pronto paga- mento, ressalvados os casos de intermediação regulados em leis especiais; X – elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços; [...] XII – deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obri- gação ou deixar a fixação de seu termo inicial a seu exclusivo critério. XIII – aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente estabelecido. XIV – permitir o ingresso em estabelecimentos comerciais ou de serviços de um número maior de consumidores que o fixado pela autoridade administrativa como máximo. (BRASIL, 1990) Além dos elencados, também é considerada uma prática abusiva e uma afronta ao princípio da boa-fé qualquer prática que viole os direi- tos fundamentais elencados na Constituição Federal e o princípio da dignidade humana. O direito ao esquecimento também é considerado um direito à dignidade do consumidor; portanto, o CDC estabelece no artigo 43 a seguinte norma em seu parágrafo 1°: “Os cadastros e dados de con- sumidores devem ser objetivos, claros, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não podendo conter informações negativas re- ferentes a período superior a cinco anos” (BRASIL, 1990). Nesse caso, o consumidor tem o direito de excluir as duas informações negativas após o período indicado. No parágrafo 5° do mesmo artigo, aplica-se o direito ao es- quecimento da cobrança após transcorrido o prazo prescricional 116 Direito Comercial e do consumidor estabelecido no CDC: “Consumada a prescrição relativa à cobrança de débitos do consumidor, não serão fornecidas, pelos respectivos Sistemas de Proteção ao Crédito, quaisquer informações que pos- sam impedir ou dificultar novo acesso ao crédito junto aos fornece- dores” (BRASIL, 1990). Nesses dois dispositivos se verifica o direito ao esquecimento, uma vez que, após transcorrido o prazo, o consumidor não poderá ser lembrado da dívida e, tampouco, poderão ser divulgadas quais- quer informações sobre ela. Nesse mesmo sentido, o Enunciado n. 531 da VI Jornada de Direito Civil afirma que “a tutela da dignidade da pessoa humana na sociedade da informação inclui o direito ao esquecimento” (BRASIL, 2013, p. 89). 5.2 A proteção contratual Vídeo O contrato é um importante instrumento do Direito Privado, vis- to que com base nele é possível determinar o negócio jurídico. Sua teoria geral é regulamentada pelo Código Civil (CC), mas o CDC de- termina algumas regras específicas para os contratos oriundos das relações de consumo. Ressalta-se que este, entretanto, não afasta a aplicação do CC. Os contratos geram obrigações entre as partes, sendo que nos de consumo tem-se a obrigação entre o consumidor e o fornecedor. Nesse sentido, levando-se em consideração a necessária proteção ao consumidor, o CDC estabelece um capítulo próprio a fim de garantir a proteção contratual. A primeira regra se aplica à proteção do consumidor caso ele não tenha acesso amplo ao conteúdo do contrato. Assim, este não obrigará o consumidor se ele não tiver conhecimento prévio de seu conteúdo ou a redação não for de fácil compreensão para ele, como determina o artigo 46 do CDC. Dessa mesma forma, o artigo 47 de- termina que a interpretação de todas as cláusulas contratuais deve ser feita da maneira mais favorável ao consumidor. Assim, caso haja um conflito de interpretação ou a obrigação determinada na cláusula não seja clara, o consumidor não pode de modo algum ser prejudicado (BRASIL, 1990). Recomenda-se a leitura do texto Dignidade do consumidor e direitos da personalidade, de Eujecio Cutrim Lima Filho, no qual o autor aborda de que forma se dá a aplicação implícita da dignidade da pessoa humana nas relações de consumo. Disponível em: https://www.conjur. com.br/2015-jul-20/eujecio- coutrim-dignidade-consumidor- direitos-personalidade. Acesso em: 28 maio 2021. Leitura https://www.conjur.com.br/2015-jul-20/eujecio-coutrim-dignidade-consumidor-direitos-personalidade https://www.conjur.com.br/2015-jul-20/eujecio-coutrim-dignidade-consumidor-direitos-personalidade https://www.conjur.com.br/2015-jul-20/eujecio-coutrim-dignidade-consumidor-direitos-personalidade https://www.conjur.com.br/2015-jul-20/eujecio-coutrim-dignidade-consumidor-direitos-personalidade A proteção do consumidor 117 Nesses dois artigos se verifica que o consumidor é a parte mais vulnerável no contrato, diferente do que ocorre nos contratos em geral, em que ambas as partes estão em condições de igualdade. É importante salientar que as relações de consumo vinculam o for- necedor ainda que a declaração de vontade seja realizada por meio de escritos particulares, recibos ou pré-contratos. Isso ocorre inclusive na hipótese de execução específica, nos termos do artigo 84 1 e em seus parágrafos, conforme dispõe o artigo 48 do CDC. Coloca-se, ainda, que sempre que o contrato for celebrado fora do estabelecimento comercial, o consumir poderá, no prazo de sete dias a partir da celebração (assinatura ou ato de recebimento do produto ou serviço), desistir do contrato. Isso poderá ocorrer em compras rea- lizadas por meio eletrônicos, tais como pela internet, pelo telefone ou em domicílio, como determina o artigo 49 do CDC. Nos casos em que há o arrependimento do consumidor, o valor pago por este deve ser devolvido de imediato e monetariamente atualizado durante o prazo de reflexão, conforme afirma o parágrafo único do mesmo artigo (BRASIL, 1990). Também é possível que o fornecedor ofereça uma garantia contra- tual complementar à legal. Caso o consumidor a aceite, ela deverá ser conferida mediante termo escrito, segundo o artigo 50 do CDC, o qual deve ser padronizado com termos específicos sobre em que consiste a garantia, a forma, o prazo e o lugar no qual ela poderá ser exercida. Além disso, o ônus a cargo do consumidor deve ser estabeleci- do de maneira clara no ato do fornecimento, com a entrega do manual de instruções, de instalação e do uso do produto em linguagem didática e com ilustra- ções, como determina o parágrafo único do mesmo artigo (BRASIL, 1990). A referida garantia, prevista no artigo 50, é encon- trada na prática comercial como garantia estendida, muitas vezes oferecida na compra de eletrodomésticos ou na prestação de serviços. Ressalta-se que de maneira alguma essa garantia poderá Esse artigo afirma que as declarações de vontade podem ser executadas da mesma forma que as açõesque tenham obriga- ção de fazer ou não fazer. 1 RED PIX EL. PL /S hu tte rs to ck 118 Direito Comercial e do consumidor substituir a legal, estabelecida no artigo 26 do CDC, a qual determina a garantia de 30 dias para produtos ou serviços não duráveis e 90 dias para produtos ou serviços duráveis, caso apresentem vícios aparentes ou de fácil constatação. Tendo em vista os princípios da função social do contrato e da boa-fé objetiva, presume-se que ambas as partes estavam de acordo e o assinaram honestamente. Diante disso, no que tange às cláusu- las abusivas, o CDC estabelece uma seção específica sobre o tema. As cláusulas abusivas são aquelas nulas de pleno direito e que, confor- me o artigo 51 do CDC (BRASIL, 1990): impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de consumo entre o fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a indenização poderá ser limitada, em situações justificáveis; I Qualquer cláusula que retire a responsabilidade de não in- denizar ou de irresponsabilidade em desfavor do consumidor é considerada nula. subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos casos previstos neste código; II Nesse caso, há a vedação ao enriquecimento do fornecedor nas hi- póteses legais. Portanto, de modo algum o consumidor pode renunciar o direito ao reembolso previsto no CDC. transfiram responsabilidades a terceiros;III A responsabilidade do fornecedor é objetiva, assim, não pode ser transferida a terceiros. Nas hipóteses de seguro, o consumidor tem a escolha de ingressar com demanda judicial contra o fornecedor ou a seguradora. estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade; IV A proteção do consumidor 119 Nesse ponto se aplica a boa-fé e a equidade, tendo em vista que de modo algum as obrigações contratuais podem gerar uma desvanta- gem para o consumidor. estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor;VI A regra no direito do consumidor, levando em consideração a ne- cessidade de proteção e defesa deste, é de que o ônus da prova deverá ser do fornecedor. Portanto, não pode haver uma cláusula no contrato de consumo que estabeleça a inversão desse ônus. determinem a utilização compulsória de arbitragem;VII Nesse contexto não é possível a imposição da cláusula arbitral, ou seja, o julgamento por um tribunal arbitral para a solução do conflito consumerista. imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico pelo consumidor; VIII Nesse caso há a vedação impositiva de nomeação de um mandatário pelo consumidor, tendo em vista que afastaria a vulnerabilidade deste. Logo, inclusive, o Superior Tribunal da Justiça na Súmula n. 60 determi- na uma das formas de aplicação da norma: “É nula a obrigação cambial assumida por procurador do mutuário vinculado ao mutuante, no ex- clusivo interesse deste” (BRASIL, 1992). deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, embora obrigando o consumidor; IX Não é cabível essa hipótese, pois de maneira alguma o fornecedor pode ter a liberdade de não cumprir a obrigação. A celebração do con- trato obriga o fornecedor a cumpri-lo. permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de maneira unilateral; X mutuário: a pessoa que recebe por empréstimo recursos financeiros para adquirir um bem. mutuante: a parte que empresta recursos finan- ceiros para o mutuário adquirir um bem. Glossário 120 Direito Comercial e do consumidor Deve haver uma relação de confiança entre as partes, portanto essa vedação se dá após a celebração do contrato. Assim, o aumento do preço deve ser realizado de maneira justificada e não pode haver o enriquecimento ilícito do fornecedor. autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que igual direito seja conferido ao consumidor; XI Em alguns casos é possível o cancelamento do contrato de modo unilateral, entretanto, esse direito deve ser conferido a ambas as par- tes. Ou seja, é permitida a cláusula de cancelamento unilateral desde que o consumidor e o fornecedor tenham esse direito. obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação, sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor; XII Nesse caso, deve haver a mesma cláusula para o consumidor e para o fornecedor, em igualdade de condições. autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a qualidade do contrato, após sua celebração; XIII Nessa hipótese é vedada a rescisão unilateral do contrato pelo for- necedor, considerando a boa-fé objetiva da relação contratual e as expectativas do negócio jurídico. infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais;XIV A proteção do bem ambiental é um direito difuso e, portanto, o cau- sador do dano deve ser responsabilizado por seus atos. Nesse sentido, não poderá o contrato violar as normas ambientais tendo em vista a função socioambiental deste. estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor;XV São nulas quaisquer cláusulas contrárias à proteção do consumidor estabelecida no sistema de defesa. A proteção do consumidor 121 possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias necessárias.XVI As benfeitorias necessárias são aquelas realizadas para a con- servação do bem principal. Nesse caso, tais benfeitorias devem ser indenizadas levando em consideração que foram realizadas para o uso deste. No caso de presunção de vantagem exagerada, pode-se definir, como determina o parágrafo 1º do artigo 51, que é aquela que: I – ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence; II – restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou equi- líbrio contratual; III – se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, con- siderando-se a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso. (BRASIL, 1990) Portanto, a nulidade de uma cláusula abusiva não afeta o contrato, salvo nos casos em que há um ônus excessivo a qualquer das partes ainda que haja esforços de integração, como determina o parágrafo 2º do mesmo artigo. Caso o contrato tenha cláusula que contrarie o CDC ou apresente qualquer forma de desequilíbrio do contrato, pode o consumidor ou a entidade que o represente requerer que o Ministério Público ajuíze ação a fim de declarar a nulidade da cláusula contratual, conforme afir- ma o mesmo artigo no parágrafo 4º. Em algumas situações há ainda a necessidade da outorga de cré- dito ou da concessão de financiamento ao consumidor. O fornecedor, nesses casos, deverá informar de maneira adequada e prévia os se- guintes requisitos determinados no artigo 52 do CDC (BRASIL, 1990), de modo a garantir a transparência: Preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional. Montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros. Acréscimos legalmente previstos. Número e periodicidade das prestações. Soma total a pagar, com e sem financiamento 122 Direito Comercial e do consumidor Ainda, caso o consumidor consiga antecipar a quitação do débito, mesmo que não total, deverá haver a redução proporcional dos juros e demais acréscimos, como determina o parágrafo 2º do artigo 52 do CDC. Se houver o inadimplemento da obrigação em seu termo, as multas de mora decorrentes não poderão ser superiores a 2% do valor da presta- ção, segundo afirma o parágrafo 1º do mesmo artigo (BRASIL, 1990). Em algumas situações, as compras e as vendas de móveis ou imóveis são realizadas em prestações ou por meio de alienações fiduciárias em garantia. Nesses casos, é nula qualquer cláusula que estabeleça a perda total das prestações pagas em benefício do credor se este, em ocorrên-cia de inadimplemento do contrato, requerer a resolução do contrato ou a retomada do produto alienado, como reitera o artigo 53 do CDC. No caso de compensação ou restituição das parcelas quitadas em contratos de sistema de consórcio de produtos duráveis, serão des- contadas as parcelas quitadas, bem como a vantagem econômica de- corrente da fruição e os prejuízos que o desistente ou inadimplente causar ao grupo, como determina o parágrafo 2º do mesmo artigo. Ain- da, esses contratos deverão ser expressos em moeda corrente nacio- nal, conforme o parágrafo 3º (BRASIL, 1990). Os contratos de adesão – “cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo for- necedor de produtos ou serviços, sem que o consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo” (BRASIL, 1990) – também são disciplinados pelo CDC no artigo 54. Portanto, caso haja a inserção de cláusula no contrato, isso não desconfigura a natureza de adesão. Além disso, é possível inserir uma cláusula resolutória, se for alternati- va de escolha do consumidor, como determinam os parágrafos 1º e 2º do referido artigo. Tento em vista a natureza de adesão desses contratos – o consumi- dor não tem a faculdade da escolha das cláusulas contratuais –, o CDC determina regras de formatação. Nesse sentido, o parágrafo 3º afirma que os contratos devem ser redigidos “em termos claros e com carac- teres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não será inferior ao corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo consumidor” (BRASIL, 1990). Ainda, caso haja uma cláusula que tenha como objetivo limitar o direito do consumidor, esta deve ser destacada e de fácil compreen- Sobre as cláusulas contratuais, sugere-se a aula Saber Direito - Direito do Consumidor e Contratos - Aula 1 da professora Denise Costa, no canal TV Justiça Oficial, sobre o Direito do Consumidor na relação contratual. Nesse vídeo, a professora abor- da a relação do Estado e a proteção e defesa do consumidor. Disponível em: https://youtu. be/YG2EEjqEggQ. Acesso em: 28 maio 2021. Vídeo https://youtu.be/YG2EEjqEggQ https://youtu.be/YG2EEjqEggQ A proteção do consumidor 123 são, como afirma o parágrafo 4º do artigo 54. É importante destacar que, nesse caso, deve-se observar a boa-fé do consumidor ao assinar o contrato de adesão. Verifica-se, portanto, que pensando na vulnerabilidade do consumi- dor, o legislador estabeleceu diversas normas específicas com o obje- tivo de protegê-lo. Assim, os contratos de consumo precisam todos observar as regras dispostas no CDC. 5.3 Defesa do consumidor em juízo Vídeo Em algumas situações envolvendo o direito do consumidor é ne- cessária a defesa em juízo deste. Nesses casos, ela pode ser exercida de modo individual, nos casos concretos, ou em título coletivo. A tutela individual ocorre nos casos em que há um desequilíbrio na relação. Nesse sentido, com o objetivo de proteger o consumidor, a legislação determinou que deverá ser invertido o ônus da prova, ou seja, o fornecedor deverá provar que seu produto ou serviço não ge- rou prejuízo (BRASIL, 1990). Isso ocorre individualmente e conforme o caso concreto. No caso da defesa coletiva, esta será exercida – segundo artigo 81, parágrafo único, do CDC (BRASIL, 1990) – quando se tratar de: I – interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstân- cias de fato; II – interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efei- tos deste código, os transindividuais, de natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base; III – interesses ou direitos individuais homogêneos, assim enten- didos os decorrentes de origem comum. Para esses casos de defesa coletiva, o CDC determina quem são os legitimados concorrentes para propor a ação (isto é, quem poderá ajui- zar a ação judicial) no artigo 82: 124 Direito Comercial e do consumidor Legitimados ativos Ministério Público A União, os estados, os municípios e o Distrito Federal. As entidades e os órgãos da administração pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e dos direitos protegidos pelo CDC. As associações legalmente constituídas há pelo menos um ano e que incluam entre seus fins institucionais a defesa dos interesses e os direitos protegidos pelo CDC, dispensada a autorização assemblear. O requisito da pré-constituição, determinado para as associações, pode ser dispensado pelo juiz quando houver manifesto interesse so- cial, tendo em vista a dimensão ou característica do dano, ou ainda, nas hipóteses de relevância do bem jurídico protegido, como determina o parágrafo 1º do artigo 82 (BRASIL, 1990). Além disso, considerando a necessidade de defesa do consumidor, é admitida qualquer espécie de ação judicial capaz de garantir a tutela adequada, de acordo com o artigo 83 do CDC. Caso o objeto principal da ação judicial seja uma obrigação de fazer ou não fazer, será conce- dida pelo juiz a tutela específica da obrigação, ou serão determinadas providências com o objetivo de assegurar o resultado prático equiva- lente ao do adimplemento, conforme dispõe o artigo 84. No caso de obrigação em perdas e danos, o autor poderá optar por sua conversão nas hipóteses em que ele escolher isso ou quando houver a impossibilidade da tutela específica ou obtenção do resultado prático correspondente, como afirma o parágrafo 1º do artigo 84 (BRASIL, 1990). Essa indenização deverá ser realizada sem prejuízo da multa como era estabelecido no artigo 287 do Código de Processo Civil, de 1973, que já está revogado, mas não altera o que foi prescrito na norma. Esse artigo determinava que o autor poderia pedir uma pena pecuniária caso fosse descumprida a sentença ou a decisão que antecipou a tutela, nas hipó- teses em que é imposta ao réu abster-se da prática de algum ato, tolerar alguma atividade, prestar ato ou entregar coisa. A proteção do consumidor 125 O juiz poderá conceder, ainda, a tutela liminar se entender que o fundamento da demanda é relevante e que poderá ser ineficaz caso se aguarde o provimento final. Essa tutela poderá ser concedida após justificação prévia, citado o réu, conforme o parágrafo 3º do artigo 84. Nesse caso, o juiz poderá inclusive impor multa diária ao réu, ainda que o autor não tenha realizado o pedido, se for suficiente ou com- patível com a obrigação. Nessa hipótese, é fixado um prazo razoá- vel para o cumprimento do preceito, como determina o parágrafo 4º (BRASIL, 1990). Em alguns casos, o juiz pode precisar estabelecer uma medida ne- cessária – como busca e apreensão, remoção de coisas e pessoas, des- fazimento de obra, impedimento de atividade nociva e até a requisição de força policial – caso haja a necessidade de uma tutela específica ou com o objetivo de obtenção do resultado prático equivalente, segundo o parágrafo 5º do artigo 84. Não será necessário o adiantamento de custas, emolumentos, hono- rários periciais e quaisquer outras despesas nas ações coletivas deter- minadas no CDC. Isso também se aplica à condenação em honorários de advogados, custas e despesas processuais da associação autora, salvo se for comprovada a má-fé no ajuizamento da ação, conforme o artigo 87 do CDC. Nos casos de litigância de má-fé, haverá a conde- nação em honorários advocatícios e, ao décuplo de custas, será feita de maneira solidária à associação autora e aos diretores responsáveis pelo ajuizamento da ação. Ressalta-se que essa condenação não se exi- me da responsabilidade por perdas e danos decorrentes da litigância de má-fé, como afirma o parágrafo único do artigo 87 (BRASIL, 1990). Além disso, a ação de regresso deve ser ajuizada de modo autôno- mo ou nosmesmos autos, mas não pode haver a denunciação da lide, de acordo com o artigo 88 do CDC. É importante lembrar que o direito do consumidor é material. Portanto, no curso da ação judicial, deve-se atentar “às normas do Código de Processo Civil e da Lei n. 7.347, de 24 de julho de 1985, inclusive no que respeita ao inquérito civil, naquilo que não contrariar suas disposições”, como afirma o artigo 90 (BRASIL, 1990). lide: conflito manifestado em juízo, ou seja, o pro- cesso judicial. Também é chamado de demanda, litígio ou pleito judicial. Glossário 126 Direito Comercial e do consumidor Ainda, o CDC determina as ações coletivas para a defesa de inte- resses individuais homogêneos, em que o sujeito é sempre mais de um e determinado. Para propor essas ações, os legitimados ativos são os mesmos do artigo 82 do CDC, os quais poderão propor, em nome próprio e no interesse das vítimas ou de seus sucessores, ação civil co- letiva de responsabilidade pelos danos individualmente sofridos, como afirma o artigo 91. Caso o Ministério Público não seja o legitimado ativo da ação, deverá atuar como fiscal da lei por meio de pareceres ministe- riais, conforme o artigo 92 do CDC (BRASIL, 1990). Salvo os casos de competência da Justiça Federal, a competência para ajuizar a ação é da justiça local, segundo o artigo 93 do CDC, quan- do: “I – no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano, quando de âmbito local; II – no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Fe- deral, para os danos de âmbito nacional ou regional, aplicando-se as regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concor- rente” (BRASIL, 1990). Assim que proposta a ação coletiva para a defesa de interesses in- dividuais homogêneos, esta deverá ser publicada em edital no órgão oficial. Isso ocorre para que os interessados em ingressar no processo como litisconsortes possam intervir. Ainda, poderá ser divulgado de maneira ampla pelos meios de comunicação social por parte dos ór- gãos de defesa do consumidor, como afirma o artigo 94 do CDC. Nessas ações, caso o pedido seja procedente, a condenação deverá ser genérica, com a responsabilidade pelos danos causados do réu fixa- da, segundo o artigo 95. Nesse caso, em conformidade com o artigo 97, a liquidação e a execução de sentença poderão ser promovidas pela vítima e seus sucessores. Além disso, a execução poderá ser coletiva quando promovida pelos mesmos legitimados do artigo 82 do CDC, abrangendo também as vítimas a que a sentença fixou indenizações. Ressalta-se que, se isso ocorrer, não acarretará prejuízo às demais exe- cuções (BRASIL, 1990). O juízo competente da execução será o da liquidação da sentença ou da ação condenatória, respectivamente, no caso de execução indi- vidual e quando a execução for coletiva, conforme o parágrafo 2º do artigo 98. No caso das execuções coletivas, é necessária a certidão das sentenças de liquidação determinando se foi transcorrido o trânsito em julgado, como afirma o parágrafo 1º do mesmo artigo. Os litisconsortes ocorrem nos casos em que há mais de duas partes no processo judicial. Assim, o litisconsorte ativo signi- fica mais de um autor e o litisconsorte passivo mais de um réu. Dessa forma, há o compartilhamento de um dos polos da demanda. Saiba mais A proteção do consumidor 127 No que tange à defesa do consumidor em juízo, ainda é possível averiguar as ações de responsabilidade do fornecedor de produtos e serviços. Nesses casos, deve ser verificada a responsabilidade civil do fornecedor frente ao consumidor. Essas ações poderão ser pro- postas no domicílio do autor, como determina o inciso I do artigo 101. O inciso II do mesmo artigo afirma que o réu que houver contratado seguro de responsabilidade poderá chamar ao processo o segurador, vedada a integração do con- traditório pelo Instituto de Resseguros do Brasil. Nesta hipótese, a sentença que julgar procedente o pedido condenará o réu nos termos do art. 80 do Código de Processo Civil. Se o réu houver sido declarado falido, o síndico será intimado a informar a exis- tência de seguro de responsabilidade, facultando-se, em caso afirmativo, o ajuizamento de ação de indenização diretamente contra o segurador, vedada a denunciação da lide ao Instituto de Resseguros do Brasil e dispensado o litisconsórcio obrigatório com este. (BRASIL, 1990) Do caso descrito, será facultado o ajuizamento da ação em face da seguradora. Nos casos em que há debate da responsabilidade do fornecedor do produto ou serviço, poderá ser ajuizada ação para impedir a produ- ção, divulgação, distribuição ou venda do produto ou serviço em todo o território nacional. Isso também ocorre se o uso ou o consumo do produto se revelar nocivo ou perigoso à saúde pública e à incolumida- de pessoal, de acordo com o artigo 102. Nesse sentido, o Poder Público competente será o agente que fará essa proibição em todo o território nacional (BRASIL, 1990). Recomenda-se a leitura dos capítulos 10 e 11 do livro Manual de direito do consumidor, de Flávio Tartuce e Daniel Neves. Neles, os professores trabalham de maneira aprofundada a tutela individual e coletiva do consumidor em juízo. TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2016. Livro 5.4 Prescrição e decadência Vídeo A decadência é a perda do direito de protestativo, considerando o decurso do prazo. Isto é, caso haja a inércia do titular do direito durante o período que a lei determina para exigir sua pretensão, este é atingido pela decadência. Dessa forma, não é possível exigir a pretensão de juí- zo, tendo em vista o decurso do prazo decadencial. É nula a renúncia na decadência legal, mas é possível na conven- cional, ou seja, no contrato. Portanto, a decadência pode ocorrer na lei ou no contrato por força de vontade entre as partes. Assim, o CDC 128 Direito Comercial e do consumidor determina o prazo de decadência para reclamação dos vícios aparen- tes no artigo 26 (BRASIL, 1996): Prazo decadencial para vício 90 dias30 dias Fornecimento de serviço e de produtos não duráveis. Fornecimento de serviço e de produtos duráveis. A contagem do prazo inicia-se com a entrega efetiva do produ- to ou com o término da execução dos serviços, como determina o parágrafo 1º do artigo 26. Entretanto, se o vício do produto não for de fácil visualização, como nos casos de vício oculto, o prazo decadencial só se inicia no momento em que estiver evidenciado o vício, como de- termina o parágrafo 3º do mesmo artigo. Ressalta-se que o vício pode ser de qualidade ou quantidade, sendo tudo aquilo que torne o pro- duto impróprio para consumo ou diminua seu valor. O artigo 18 do CDC também afirma que ele se aplica, ainda, nos casos em que ocorre a “disparidade, com a indicações constantes do recipiente, da emba- lagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substitui- ção das partes viciadas” (BRASIL, 1990). Algumas situações obstam à decadência, como nos casos exemplifi- cados no parágrafo 2º: “I – a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca; [...] III – a instauração de inquérito civil, até seu encerra- mento” (BRASIL, 1990). Caso o fato do produto ou do serviço 2 tenha causado um dano, é pos- sível o ajuizamento de uma ação com o objetivo de repará-lo. Entretanto, esta tem prazo prescricional de cinco anos contados do conhecimento do dano e de sua autoria, como determina o artigo 27 do CDC. Ocorre nas hipóteses em que o produto ou o ser- viço é defeituoso, como afirma o artigo 12 do CDC (BRASIL, 1990). 2 A proteção do consumidor 129 A prescrição é diferente da decadência, visto que, nesse caso, há a perda do direito de ação considerando o decurso do tempo, enquanto na decadência ocorre a extinção do direito em si. A legislaçãocivil determina as coisas impeditivas ou suspensivas e interruptivas da prescrição no Código Civil, nos artigos 197, 198, 199 e 202, que dizem: Art. 197. Não corre a prescrição: I – entre os cônjuges, na constância da sociedade conjugal; II – entre ascendentes e descendentes, durante o poder familiar; III – entre tutelados ou curatelados e seus tutores ou curadores, durante a tutela ou curatela. Art. 198. Também não corre a prescrição: I – contra os incapazes de que trata o art. 3º; II – contra os ausentes do País em serviço público da União, dos Estados ou dos Municípios; III – contra os que se acharem servindo nas Forças Armadas, em tempo de guerra. Art. 199. Não corre igualmente a prescrição: I – pendendo condição suspensiva; II – não estando vencido o prazo; III – pendendo ação de evicção. [...] Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez, dar-se-á: I – por despacho do juiz, mesmo incompetente, que ordenar a citação, se o interessado a promover no prazo e na forma da lei processual; II – por protesto, nas condições do inciso antecedente; III – por protesto cambial; IV – pela apresentação do título de crédito em juízo de inventário ou em concurso de credores; V – por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor; VI – por qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que im- porte reconhecimento do direito pelo devedor. Parágrafo único. A prescrição interrompida recomeça a correr da data do ato que a interrompeu, ou do último ato do processo para a interromper. (BRASIL, 2002) Para aprofundar o conteúdo desta seção, recomenda-se a leitura do texto Introdução à prescrição e à decadência no Código de Defesa do Consumidor, de Rodrigo Xavier Leonardo, no qual o professor aborda os principais debates sobre o tema. Disponível em: http://www. flaviotartuce.adv.br/assets/uploads/ artigosc/Rodxavier_CDC.doc. Acesso em: 28 maio 2021. Leitura http://www.flaviotartuce.adv.br/assets/uploads/artigosc/Rodxavier_CDC.doc http://www.flaviotartuce.adv.br/assets/uploads/artigosc/Rodxavier_CDC.doc http://www.flaviotartuce.adv.br/assets/uploads/artigosc/Rodxavier_CDC.doc 130 Direito Comercial e do consumidor Além disso, a decadência não está sujeita às regras interruptivas do artigo 207 do mesmo código: “Salvo disposição legal em contrário, não se aplicam à decadência as normas que impedem, suspendem ou in- terrompem a prescrição” (BRASIL, 2002). CONSIDERAÇÕES FINAIS Estudou-se, na primeira seção do presente capítulo, a dignidade do con- sumidor, com a aplicação dos princípios constitucionais fundamentais na proteção e defesa dele. Verificou-se que, além dos princípios determinados no CDC, os princípios da dignidade da pessoa humana e do direito à vida, à privacidade, à honra e à imagem são aplicáveis nas relações de consumo. Na segunda seção, verificou-se os contratos nas relações de consumo. Conclui-se que, além da teoria geral dos contratos, o CDC estabelece re- gras específicas para aqueles que versam sobre as relações de consumo, as quais se estruturam levando em consideração a situação de vulnerabi- lidade do consumidor. Na terceira seção, desenvolveu-se a defesa do consumidor em juízo. Para tanto, viu-se que existem as ações individuais e as coletivas, ambas com o objetivo de proteger o consumidor, e que em alguns casos, inclusive, é necessária a intervenção dos legitimados ativos determinados no CDC. Por fim, na última seção foram abordadas as regras de prescrição e decadência estabelecidas no Código de Defesa do Consumidor, ou seja, os prazos determinados para a busca do direito do consumidor em juízo. ATIVIDADES 1. Além dos princípios relacionados diretamente à defesa do consumidor na Constituição Federal, quais outros são aplicáveis de maneira implícita? 2. Nos processos em que o Ministério Público não atua como legitimado ativo, ele deverá atuar como? 3. Qual é a diferença entre prescrição e decadência? REFERÊNCIAS BRASIL. Conselho da Justiça Federal. Enunciado n. 531. VI Jornada de Direito Civil, Brasília, DF, jun. 2013. Disponível em: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/ centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/jornadas-cej/vijornadadireitocivil2013- web.pdf. Acesso em: 28 maio 2021. Vídeo https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/jornadas-cej/vijornadadireitocivil2013-web.pdf https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/jornadas-cej/vijornadadireitocivil2013-web.pdf https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/publicacoes-1/jornadas-cej/vijornadadireitocivil2013-web.pdf A proteção do consumidor 131 BRASIL. Constituição Federal (1988). Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao. htm. Acesso em: 28 maio 2021. BRASIL. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 12 set. 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ l8078compilado.htm. Acesso em: 28 maio 2021. BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/ l10406compilada.htm. Acesso em: 28 maio 2021. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula n. 60. Diário da Justiça, Brasília, DF, 20 out. 1992. Disponível em: https://www.stj.jus.br/docs_internet/revista/eletronica/stj-revista- sumulas-2006_4_capSumula60.pdf. Acesso em: 28 maio 2021. LIMA FILHO, E. C. Dignidade do consumidor e direitos da personalidade. Conjur, 20 jul. 2015. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2015-jul-20/eujecio-coutrim-dignidade- consumidor-direitos-personalidade. Acesso em: 28 maio 2021. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078compilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078compilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm https://www.stj.jus.br/docs_internet/revista/eletronica/stj-revista-sumulas-2006_4_capSumula60.pdf https://www.stj.jus.br/docs_internet/revista/eletronica/stj-revista-sumulas-2006_4_capSumula60.pdf https://www.conjur.com.br/2015-jul-20/eujecio-coutrim-dignidade-consumidor-direitos-personalidade https://www.conjur.com.br/2015-jul-20/eujecio-coutrim-dignidade-consumidor-direitos-personalidade 132 Direito Comercial e do consumidor RESOLUÇÃO DAS ATIVIDADES 1 Uma introdução ao Direito Comercial 1. Conceitue Direito Comercial. O Direito Comercial é um dos ramos do Direito Privado, responsável por definir e regular os atos praticados pelos empresários no desenvolvimento de certas atividades econômicas. 2. Qual é a diferença entre a teoria dos atos de comércio e a teoria da empresa? A teoria dos atos de comércio parte de um conjunto de atos previamente definido que, se praticado, caracterizava um comerciante. Com o passar do tempo, a evolução econômica e social tornou superados os atos definidos em lei como caracterizadores de um comerciante, criando dificuldades para delimitar a matéria. Por isso, aproveitando a mudança ocorrida na Itália, em 1942, o Brasil passou a adotar a teoria da empresa, que trata de empresários, ou seja, não delimita ou conceitua atos, mas o sujeito da relação jurídica, objeto do Direito Comercial. Embora a mudança doutrinária tenha ocorrido em 1942 e evoluído desde então, foi somente em 2002, com o Código Civil, que a teoria da empresa ingressou formalmente no ordenamento jurídico nacional. 3. O Direito Comercial possui autonomia científica? Justifique sua resposta. Sim. Pode-se observar que existem várias disciplinas nos currículos universitários tratandodo Direito Comercial, bem como da existência de princípios e normas que somente encontram sentido nesse ramo do Direito. Além disso, o Direito Comercial possui uma forma diferenciada de interpretação dos negócios jurídicos empresariais. 2 A atividade empresarial e sua organização 1. O que é estabelecimento comercial? É um conjunto de meios necessários para que o empresário exerça sua atividade econômica. 2. Qual é o livro obrigatório do empresário, considerando o Código Civil? De acordo com o Código Civil, o único livro obrigatório é o Diário. resolução das atividades 133 3. Quais são os recursos cabíveis no âmbito das Juntas Comerciais? O recurso ao Plenário e o recurso ao DREI, que é a última instância administrativa. 3 Nome empresarial e propriedade industrial 1. O que é propriedade industrial? A propriedade industrial compreende o conjunto de regras e princípios que confere tutela jurídica específica aos elementos imateriais do estabelecimento empresarial. 2. O que é marca? A marca é uma representação linguística ou simbólica que identifica um produto ou serviço. 3. O que é nome empresarial? O nome empresarial é aquele que o empresário individual ou a sociedade empresária usa no exercício de sua atividade econômica e por meio do qual se apresenta e se vincula. Isso porque necessita utilizar um nome, uma expressão que o identifique nas suas relações empresariais. 4 Código de Defesa do Consumidor 1. Qual é o objetivo da Política Nacional das Relações de Consumo? O objetivo é atender às necessidades dos consumidores, seguindo os princípios estabelecidos no Código de Defesa do Consumidor, com a proteção dos interesses econômicos e o respeito à dignidade, saúde e segurança. 2. Quando haverá a responsabilidade solidária pelo vício do produto? Serão responsáveis solidários pelo dano todos aqueles responsáveis pelo produto. 3. Quais são os três direitos fundamentais do consumidor no comércio eletrônico? Os três direitos fundamentais do consumidor no comércio eletrônico são a clareza da informação, o suporte imediato ao cliente e o direito ao arrependimento. 134 Direito Comercial e do consumidor 5 A proteção do consumidor 1. Além dos princípios relacionados diretamente à defesa do consumidor na Constituição Federal, quais outros são aplicáveis de maneira implícita? São aplicáveis de maneira implícita o direito à dignidade da pessoa humana e o direito à vida, à privacidade, à honra e à imagem no direito do consumidor. 2. Nos processos em que o Ministério Público não atua como legitimado ativo, ele deverá atuar como? O Ministério Público deverá atuar como fiscal da lei. 3. Qual é a diferença entre prescrição e decadência? A prescrição é a perda do direito de ajuizar a ação, e a decadência é a extinção do direito em si. D IREITO CO M ERCIAL E D O CO N SUM ID O R AN ELIZE PAN TALEÃO PUCCIN I CAM IN H A O KSAN D RO GO N ÇALVES Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-65-5821-040-5 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 4 0 5 Código Logístico I000028 Página em branco Página em branco