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1 GRAFISMO NA COMUNIDADE KAIOWÁ DE ITAY KA’AGUYRUSU GILCACIA GÜNDEL SALDANHA1 Introdução No estudo das Artes Visuais na sociedade não indígena brasileira, o tema é ignorado ou relegado a segundo plano. Nos salões, bienais e outros eventos de promoção e difusão da arte no Brasil, privilegiam-se os grandes artistas europeus ou os nacionais mais famosos. Através da obra de alguns destes, como o quadro Abaporú de Tarsila de Amaral, chega-se a algumas intuições os conceitos indígenas propostos pelo modernismo brasileiro, que relativizou a influência eurocêntrica na arte. A falta de profissionais capazes de ensinar arte indígena nas escolas depõe da insuficiência de se ater à expressão que autores famosos deram para arte indígena, o objetivo é aprender e compreender a arte indígena como tal, como proposta pelos próprios indígenas. Perde-se com isso a riqueza dessas manifestações; omissão dessa arte, assim como de outras expressões artísticas não europeizadas. Considerando que a arte em geral é condutora de ideias e ideologias, para os antropólogos Rodrigo Luiz Simas de Aguiar e Levi Marques Pereira: Os produtos artísticos expressam fortes conteúdos ideológicos, verdadeiros discursos simbólicos materializados. [...] O suficiente entendimento da arte requer a compreensão das relações estabelecidas entre as pessoas. É necessário investigar como e por que produziram tais objetos ou ações, quais intenções comunicavam, em quais contextos (festivos, rituais, religiosos, etc.) se efetivavam. (AGUIAR; PEREIRA, 2015, p.711) Portanto é necessário considerar a arte indígena também com esses critérios, pois ela abrange uma gama de expressões que vão desde os elementos estéticos evidentes às bases cosmológicas do grupo étnico, que é compartilhado pelo artista indígena e pela sua comunidade, com certa continuidade no tempo, pois, essa arte provém de gerações anteriores e será passada para gerações futuras. A arte, nesse sentido, é também uma forma de manter e fortalecer determinados aspectos da identidade de cada povo, mesmo ocorrendo dispersão territorial. 1 Acadêmica do Curso História Bacharelado da Universidade Federal da Grande Dourados- UFGD; orientada pela Professora Dra. Cândida Graciela Chamorro- Faculdade de Ciências Humanas da UFGD; pesquisa financiada pelo CNPQ. 2 Devemos considerar ainda, como enfatiza a etnóloga Berta Ribeiro, uma autoridade em cultura material dos povos indígenas do Brasil, as singularidades das etnias que não usam a escrita formal, que tem a arte como uma das formas de expressão de suas culturas assim, a arte desempenha varias funções dentro de uma cultura, demonstrando várias percepções e peculiaridades, para uma maior concepção devem buscar uma observação mais rigorosa, contemplando todo o contexto em que foi criada. Nas palavras de Berta Ribeiro (1999, p.16) “(...) cabe estudar a arte tribal ou arte étnica, como elemento de cultura, cujos procedimentos e iconicidades identificam dita cultura não apenas por sua concepção formal, mas também pelo código de seus significados simbólicos”. Deste modo, a arte reflete e integra os diferentes conteúdos da cultura, que vão desde a organização social, cosmologia, religião, mitologia entre outros, que é incutido no estilo artístico. Portanto, a arte é um dos componentes fundamentais da identidade indígena: “no contexto tribal, mais que qualquer outro, a arte funciona como um meio de comunicação, disso emana a força, a autenticidade e o valor da estética tribal” (VIDAL, 1992, p. 17). Essa arte está presente também nos grafismos estampados nas peças artesanais e nas pinturas feitas sobre vários suportes, inclusive sobre camisetas, “roupas típicas”, estandartes e o próprio corpo. Esses padrões gráficos valorizam o tempo dos ancestrais e das tradições fundadas por eles, transmitindo simbologias próprias de cada povo indígena. GRAFISMO INDÍGENA Grafismo indígena, segundo Lux Vidal (1992, p. 14) é uma linguagem visual através da qual as diferentes sociedades índias expressam suas percepções de mundo e estabelecem conceitos, que são transmitidos aos membros contemporâneos e a seus descendentes. Dessa forma, os povos indígenas demarcam as suas características e grafam suas especificidades éticas, sociais, culturais e religiosas, confeccionando seus artefatos e adereços e pintando seus corpos. Por conseguinte, podemos ressaltar que o grafismo é fruto de um processo intelectual elaborado, revelando um senso construtivo e estético bem desenvolvido, não sendo somente meros desenhos espontâneos e triviais, esse elaborado sistema de representação desempenha importante função em cada comunidade indígena. 3 Portanto o uso dos sinais no cotidiano da comunidade se caracteriza por uma convenção já estabelecida. Se não fosse desse modo, seria apenas um mero desenho abstrato, incompreensível e trivial. Entretanto é possível com um pouco de prática, reconhecer a qual etnia pertence algum objeto a partir da decoração do mesmo e dos seus grafismos. GRAFISMO KAIOWÁ Escrever, desenhar, pintar em língua Kaiowá é mbokuatia, mbopara, significando ‘fazer (impregnar) em papel’, ‘fazer (colorir) desenho’. O termo aproximado a fazer grafismo em Kaiowá, mborysy, se forma de modo semelhante, com o verbo mbo-, fazer, e o nome (r)ysy, fileira, conjunto, repetição. Outro termo próximo é mba’e rasa, ‘expressão gráfica da coisa’, sendo que ‘coisa’, mba’e, se substitui pelo nome do animal ou objeto para especificar o grafismo. Assim, ao invés de mba’e rasa, terei mbói kuatia rasa, para dizer que se trata da expressão gráfica correspondente à cobrambói kuatia. Embora os Kaiowá tenham passado para a Etnologia Brasileira como um povo que não tem (quase) nada para ser visto e muito para ser ouvido (SCHADEN, 1974), como outros povos indígenas, eles também pintam seus corpos, decoram suas peças artesanais, pintam faixas e camisetas, fazem placas, fazem adornos corporais usando uma sequência de motivos peculiares. Por puro prazer de se decorar, para comunicar estado de ânimo individual ou grupal, esses padrões gráficos certamente querem dizer mais do que à primeira vista conseguimos perceber. Eles indicam aspectos do que o grupo entende ser o indivíduo, o grupo, as relações com outros grupos humanos, com os outros seres naturais e sobrenaturais e com o meio ambiente. Nesse sentido, este trabalho quer ser um pequeno aporte para futuros estudos dessa arte entre os Kaiowá. A etnóloga Berta Ribeiro cita em sua obra a Arte Indígena: Linguagem Visual, que Egon Schaden colheu desenhos entre os Kaiowá, na década de 1940. Para ele, esses desenhos ilustravam as preocupações mítico-religiosas desse povo e o estado psicológico em que se encontrava ao ver sua terra ser dividida e entregue a agricultores beneficiados pela reforma agrária do governo de Getúlio Vargas em plena terra indígena. O exemplo de Schaden foi usado por Ribeiro para atestar que era impossível compreender as produções artísticas indígenas sem um conhecimento razoável dos caracteres dominantes da sua configuração 4 cultural (RIBEIRO, 1989, p. 67). Entendemos que aqui não se trata só do conhecimento da cultura do grupo, mas também da compreensão das circunstâncias históricas vividas pela comunidade. Da mesma forma, entendemos que para nos aproximarmos do significado do grafismo kaiowá, precisamos exercitar uma atenção concreta e outra abstrata; com os olhos de alguém que observa algo físico, um desenho sobre pano, madeira, corpo humano; com os olhos de quem atenta para além desse desenho e escuta com interesse o que os Kaiowá têm a dizer a respeito dessas linhas, desses pontos, dessas cruzes, desses losangos, etc. Precisamos nos abrir para o sinal e o símbolo; o objetivo e o subjetivo; o exterior e o interior; o sensorial e o intelectualou espiritual. Exercitar a percepção do outro por diversas vias é muito importante para que a nossa percepção da arte indígena não seja tão fragmentada. Nesse sentido, cabe reconhecer, desde já, que os grafismos kaiowá contidos nos desenhos, pinturas e peças artesanais do grupo tem relação com as concepções antropológicas, cosmológicas e teológicas dos grafistas e seu povo. Nesse sentido, grafismos kaiowá são matrizes de expressão visuais repetidas sistematicamente, como uma fórmula de desenho, de uma pré-escrita, estampada sobre o corpo humano e sobre a superfície de diversos artefatos da cultura material (CHAMORRO, comunicação pessoal, setembro 2015). A partir dessas considerações, neste trabalho registramos os padrões gráficos kaiowá conhecidos na comunidade de Itay Ka’aguyrusu, seus respectivos nomes na língua indígena com tradução ao português e suas respectivas explicações, como pode ser acompanhado no quadro a seguir. Registramos ainda os desenhos impressos nos artefatos produzidos pelo grupo, contribuindo assim para sua compreensão, desenvolvimento e possível revitalização. PADRÕES DE GRAFISMO KAIOWÁ Nosso principal interlocutor e sua comunidade. Joel Hirto nasceu em 1958, na aldeia Panambi Ka a’aguy rusu, chamada Lagoa Rica pelos colonos, no município de Douradina. Filho de Nona Mereciana, ainda viva, e Alcides Hirto, já falecido. Ele se considera “índio kaiowá legítimo”, parte da família Aquino, pela 5 linha materna. Passou pelo ritual do kunumi pepy, iniciação dos meninos à vida adulta. Com 10 anos começou a frequentar a Escola da FUNAI, do posto indígena local. Quando esta ficou sem professor, com cerca de 15 anos, ele passou para a escola da Indianner Pionner Mission, mais conhecida como Missão Evangélica Unida ou “Missão Alemã”, onde começou a estudar em Kaiowá e Português, com o missionário e médico alemão “Martin Black”, que permaneceu na missão de 1969 a 1979. Já adulto, com aproximadamente 37 anos, o senhor Joel frequentou o MOBRAL-Movimento Brasileiro de Alfabetização, na escola da FUNAI. Ele conta que também aprendeu fora da escola. Os motivos gráficos kaiowá, por exemplo, ele aprendeu de seu avô materno, Horácio Aquino Geraldo, e de outros parentes mais velhos. Na sua avaliação, para aprender bem uma coisa, a pessoa precisa ter desejo. Considera-se portador de um grande desejo de aprender, de conhecer as coisas. Seu exemplo: aprendeu bem os desenhos kaiowá porque desejava aprendê-los. Durante os anos de sua juventude, ele se ausentava temporariamente da comunidade, por 4 meses, meio ano ou mais. Nesse tempo trabalhava em fazendas, ele aprendeu a dirigir trator e a fazer nivelação de solo. Aprendeu a tocar violão e sanfona com um paraguaio. Mas o vínculo com a comunidade permaneceu. Quando decidiu se afamilhar, ele começou a ficar mais na aldeia. Casou-se aos 22 anos, com Teresinha Aquino, de 18 anos, com quem tem duas filhas Ifigeninha e Yvinei. Trabalhou na missão por 8 anos, fazendo cerca de aroeira, roça, capina, horta, serviços gerais com renumeração. Ao cabo de oito anos, ele deixou de trabalhar na missão e passou a cuidar mais de sua roça. Além de estudar na escola da missão e ser “boia fria”2 dos missionários, o senhor Joel também frequentou os cultos e a escola bíblica da missão, quando já tinha mais de 40 anos. Ali ele aprendeu a melhorar sua leitura, a cantar hinos em guarani e a ler a bíblia em kaiowá. Aprendeu a tocar sanfona com a missionária chamada carinhosamente “Jari Cristina”. Depois de dois anos, ele parou de participar das atividades religiosas. 2 Ele ri e explica: “Não ganhava comida não, o pagamento não era livre”. 6 Na época, muitos Kaiowá já frequentavam a igreja “Deus é Amor”, em Douradina, e Joel uniu-se a eles e “aceitou Jesus”. Logo a igreja teve um local na aldeia. Joel permaneceu nesta igreja por oito anos, sendo batizado no sétimo ano. Em 2011, saíram da igreja ele e todas as pessoas ligadas a ele, porque era muito pesada a doutrina, porque a cultura indígena era considerada coisa do demônio, que devia ser destruída. Ele entende que num acampamento de luta pela terra kaiowá isso não tem sentido. Desde então, ele busca fortalecer-se na sua própria cultura. Nesse pensamento integrou-se ao grupo Ñemongo’i, coordenado pela sua fila Ifigeninha, para cantar e cultivar as práticas musicais e religiosas de seu povo. Com os missionários da Missão Alemã ele manteve amizade. Assim, quando esses decidiram deixar o Panambi, ele ficou de caseiro. Certo Pastor Antônio João de Dourados chegou em 2012 a lhe dizer que estava projetada construção de um grande centro de saúde e recuperação no local. Joel liderou um movimento e pediu a interferência do Ministério Público Federal sobre a questão. Por via das dúvidas, ele se mudou com sua família na sede da antiga missão alemã. Chamaram o então presidente da missão, senhor Bernardo, que retirou todos os pertences da missão. Houve pedido de reintegração de pose, mas o juiz deu ganho de causa para os indígenas, pois a terra se encontra dentro da área demarcada em 1968 pela FUNAI. É nesse local que aconteceram as oficinas e as conversas sobre grafismo. No que diz respeito à nossa pesquisa, Joel Hilton foi fundamental. Ele participou das oficinas realizadas no acampamento e no Laboratório de Ensino e Pesquisa de História Indígena, sempre propondo novos motivos, explicando-os e motivando os jovens e as crianças a usarem estes desenhos como seus distintivos. A comunidade de Itay Ka’aguyrusu de aproximadamente 100 pessoas vive acampada há 7 anos e já sofreu vários ataques dos atuais proprietários das terras. Algumas famílias estão na sede da antiga missão; outras estão sobre uma pequena área na Terra Indígena Panambi, já identificada, mas ainda não demarcada. Alguns padrões de grafismo identificados durante as oficinas: 7 NOME EM KAIOWÁ (Tradução literal ao português) CORES E MATERIAIS TRADICIONAIS E ATUAIS REPRESENTAÇÃO GRÁFICA 1- TAKUÁRY (Taquara): representa a uma fileira de takuapu. Representa também o yvyra’i (bastão-insígnia) varas fixadas ao solo e em fileira na festa do milho. Pode ser usada em qualquer cor. SEU USO: no jeguaka, no guyrapa, penacho, bordado na saia, pochito, chiripa. Material: Cipó guaimbê, plástico preto, linha, pintura. 2- HYSY REÍVA (O que está simplesmente em fileira). Representam um conjunto de takuapu encostados. As linhas paralelas inclinadas são pintadas de preferência em vermelho ou preto a base de urucum ou jenipapo. Na cestaria, todos os traços são trançados com cipó Guaimbê e na falta dele em lona preta. 3- HYSY KARÊA (O que está quebrado e em fileira). Representam o andar da cobra; o zig-zag da água; o caminho estreito ou tape’i pe’i. Os traços são pintados de preferência em vermelho ou preto a base de urucum e jenipapo. Na cestaria, todos os traços são trançados em cipó guaimbê e na falta dele em lona preta. Na tecelagem, s bordado em linha preta. 4- HYSY KARÊA RESA (Olho ou enfeite dos paus quebrados enfileirados). Representa caminhos estreitos, curso d’água e andar da cobra enfeitado com a cruz. Os traços inteiros são pintados de preferência em preto à base jenipapo; os traços quebrados em vermelho a base de urucum; os olhos – as cruzes – em preto. Na cestaria, todos os traços são trançados em cipó guaimbê e na falta dele em lona preta. A cor 8 vermelha em palha tingida com urucum. 5- URU RESA – (Olho de Uru) ave galiforme, “galo do mato” no português. A base é o hysy karêa, com mais linhas, acrescido do sinal de adição +.Os traços inteiros são pintados em tinta preta à base de jenipapo; os traços quebrados em e vermelho: Traços quebrados Materiais:cipó guaimbê e Taquarina (espécie de taquara bem fina), Urucum, Jenipapo e Cera de Abelha (eiraity). Na falta destes materiais: Lona Preta, Capim colonião, Bisnaga Xadrez e Cola industrializada. 6- MBÓI CHINI RASA (Representa o desenho sobre a pele da cobra cascavel). A base é o hysy karêa. Os espaços entre as linhas vão preenchidos com pintinhas vermelhas alternadas com pintinhas pretas. 7- KURUNDUA Representa a parte detrás do jeguaka, enfeite da cabeça, e a veste da cruz, o Kurundaju. É um conjunto de losangos concêntricos, sendo preenchido de tinta preta o menor. Um lado da série dos losangos é enfeitado com uma linha de hysy karêa. É um desenho bastante usado pelos Kaiowá. 9 8- MBÓI KWATIA (Espécie de cobra Urutu). Representa o desenho da pele da cobra Mbói Kwatia ou Urutu. Não tem cruz Formado por quatro fileiras de losangos pequenos que se estendem ao longo de quatro tamõi, nome dado à linha ou fibra horizontal, que orienta a tecelagem ou a pintura dos losangos. Supostamente é mais difícil e fazer porque tem que se saber manejar os quatro tamõi. Usa-se no jeguaka, no guyrapa (arco), no “penacho”, como bordado em saias, nos pochitos e chiripa. Material: Guaimbê, plástico preto, linha, tintas. 9- MBÓI KWATIA RUSU (Grandes desenhos da cobra Urutu Cruzeiro). Representa os motivos da pele da cobra Urutu Cruzeiro. Os losangos inteiros são pintados de preto claros (tinta a base de jenipapo diluído com água de cinza); os semilosangos externos são pintados em cor morada (roxa, lilás) a base de urucum e jenipapo; as linhas entre losangos e semilosangos são marcadas em marrom a base de terra roxa, água e cola. Usa-se na cesta, peneira grande, yrupê kuatia 10- MBOI JUSU RASA (Desenho da cobra grande, da jiboia). Formado por losangos inteiros pintados de preto (tinta à base de jenipapo) e por semilosangos externos pintados em vermelho (à base de urucum). Muito utilizado sobre o corpo. 10 11- MBÓI RETE RESAUPA A expressão se deixa traduzir por (‘base dos olhos do corpo da cobra’). Representa os desenhos sobre a pele da cobra. A base é como no kurundua uma série de losangos, em cujas intercepções entram semilosangos. No centro de cada losango está uma circunferência. Os xis formados pelos losangos são pintados de preto; os círculos, em vermelho ou roxo. Este motivo se aplica sobre o arco, o cesto, o enfeite da cabeça, sobre peneiras e pulseiras. 12- MBÓI KU’A PIRÃ (Cobra de cintura vermelha). Cobra coral. Representa os motivos da pele desta cobra Formado por listras transversais, que representam as listras da cobra coral. Geralmente predomina a cor vermelha. 13- GUAJA PIRE RASA – (Desenho da pele da lagartixa). Representa o desenho da pele da lagartixa Na pintura, os X e os círculos são pintados de preto (tinta a base de jenipapo); na cestaria, eles são feitos de cipó guaimbé. Os tracinhos exteriores aos losangos são pintados de vermelho (a base de urucum) ou tecidos em fibras avermelhadas ou taquarinhas. 14- YRYVU ATI’Y- (Ombro de urubu). Representa o ombro dos urubus no momento prontos para pegar a presa. Antigamente eram pintados em tinta preta a base de jenipapo; hoje pintam também em lilás escuro ou roxo. Na cestaria utilizavam o cipó guaimbé. Este motivo era tecido sobre o arco, sobre o enfeite da cabeça e as faixas para cintura. Pode usar no rosto. 11 15- MBOHAPY YRYVU ATI’Y RESA – (Olho dos ombros de três urubus). Os urubus antigamente eram pintados em tinta preta à base de jenipapo; hoje pintam também em lilás escuro ou roxo. Os losangos inteiros exteriores e as cruzes são pintados em tinta preta à base de jenipapo. Os losangos inteiros internos e os traços exteriores pintam em vermelho a base de urucum. Na cestaria utilizavam o cipó guaimbê para a cor preta e a tacuarinha avermelhada para o vermelho. 16- YRYVU RESAUPA (Ninho dos olhos de urubus) Os urubus antigamente eram pintados em tinta preta à base de jenipapo; hoje pintam também em lilás escuro ou roxo. As metades superiores dos losangos são pintadas em vermelho; as metades inferiores em amarelo. Os traços exteriores são pintados em preto a base de jenipapo. As cruzes em preto, nas metades vermelham do losango, e em vermelho, nas metades amarelas. 17- SAPÉNY RUGWÁI (Rabo do tesourão ou gavião) Pinta-se numa única cor: preta, que contrasta com a cor da base. Observe-se a composição com os losangos. 18- MBATOVI RUGWÁI (Rabo da tesourinha) Pinta-se numa única cor: preta, que contrasta com a cor da base. Observe-se a composição com os losangos. 12 Autoria dos Desenhos: A partir dos desenhos recolhidos na comunidade Itay Ka’aguyrusu, Kayo Henrique Brites Fernandes elaborou os mesmos no computador em colaboração com a autora. Os suportes onde são aplicados os desenhos dos grafismos são bem diversificados são sobrepostos em adereços, objetos de rituais religiosos e de celebrações, no armamento, nos corpos, no vestuário, etc. Para o povo Kaiowá a utilização de seus adornos vai muito além da concepção do não indígena, para eles fundamental para o seu aprimoramento e sua edificação. Enfeite, adorno ou paramento (jegua) não é um acessório, algo supérfluo ou complementar, como à primeira vista pode parecer; mas algo essencial, o coração dos seres. Por isso o enfeitar-se é indispensável no processo de aperfeiçoamento e de identificação com as divindades. (CHAMORRO, 2008, p.164) 19- JEGUA’I RYSY IPUKÚVA IPINÎVA Conjunto de enfeites próprios para aplicar sobre o rosto mediante um carimbo. A base do carimbo é retangular, por isso se chama ipukúva Este ipinîva ( carimbo) forma um xadrezinho ou quadriculado. Pinta-se na cor vermelha que contrasta com a cor da base sobre a qual se aplica o carimbo. 20-JEGUA’I RYSY IJAJERÊVA (Fileira de pequenos enfeites) Pinta-se na cor vermelha que contrasta com a cor da base sobre a qual se aplica o carimbo. Essa base foi curiosamente pintada aqui na cor verde. Carimbo para enfeite facial das mulheres, usado nas festividades. 21- JEGUA’I RYSY IJAJERÉVA URU RESA Carimbo facial com base redonda Formado com base a losangos e hysy karêa, que compõem o uru resa. Conjunto de enfeites próprios para aplicar sobre o rosto mediante um carimbo, cuja base é redonda, por isso se chama ijajeréva 13 Averiguamos que atualmente novos objetos estão sendo incorporados como suportes (canetas, camisetas, bolsas, entre outros) principalmente para a comercialização e também como meio de divulgação de sua cultura, afirmando assim a sua identidade étnica perante os demais povos indígenas e aos “brancos” (como definem o não indígena). Na cosmologia Kaiowá, o humano é parte da natureza, não há espaço nesta concepção para a superioridade do homem em relação à fauna e à flora. A qualidade de vida só é possível com o equilíbrio entre os seres. Os grafismos estão relacionados intimamente com a visão de mundo dessa etnia, correspondendo aos seus mitos, ritos, rezas, cantos e celebrações. Os motivos representados fazem parte da memória coletiva desse povo, de sua cultura. Essa natureza sagrada inclui uma grande quantidade de animais e plantas de origem divina, que são objeto de especial consideração. A taxionomia mítica tem como principal valor o de proporcionar uma “razão de ser no mundo” para os animais e as plantas (CHAMORRO, 2008, p.167). Como podemos constatar através do quadro de padrão de grafismo, os relacionados com os animais são a maioria, demostrando assim, a grande reverência que os Kaiowátêm por esses seres, como podemos verificar por uma modalidade de canto, o guahu, que muitas vezes é realizado em benefícios dos animais, como nos relata Chamorro: Entre os Kaiová, um tipo de canto chamado guahu ai é exemplo da profunda reverência que os animais recebem dos indígenas. Nesses cantos, o mais importante não é o que se canta, mas o cantar em si. Outro significado de guahu também é “pranto”, e o canto é uma espécie de lamento ritual, um tipo de funeral pelos animais, sua encomendação. Esses cantos são entoados geralmente antes de sair para a caça, seja para “enamorar/atrair” o animal para a armadilha, seja para tornar impróspera à intenção de outro caçador (CHAMORRO, 2008, p.166). A referência nos grafismos ao reino vegetal está relacionada com o sagrado, com seus ritos religiosos e celebrações, pois existem para essa comunidade muitas plantas que são consideradas sagradas como o cedro, a taquara, os porongos, entre outras, com as quais constroem apetrechos rituais e símbolos de poder. Como podemos conferir, a aplicação dos grafismos está associada como um modo de reverenciar aquilo que está sendo transmitido pelos seus desenhos, que remetem a sua lembrança e assim, repassando valores de fundo religioso e mítico para a comunidade. 14 A seguir alguns dados discursivos que vinculam os grafismos ao conhecimento e cosmologia kaiowá. a- Sapény ruguái ou syviruguái - Motiva as pessoas a relatarem sobre o pássaro evocado nessa imagem e contam que ele vem em bandos desde o Paraná todos os anos, Paranágui ou, e falam dele como pássaro que bebe sorve as espumas desse rio, Parana ryjúi’uha há’e. b-Kurundua - É o cabelo do jeguaka, do enfeite da cabeça, é o enfeite desse enfeite. O kurundua é por sua vez enfeitado, os enfeiteis são suas flores, kurundua poty. Mas Kurundua é também um Ser, ele é “o nome original para Jakaira”, Dono-Protetor do milho. Nas rezas, compreendidas como uma peregrinação ascendente, os pontos de chegada e parada são denominados Kurundua. c-Takuary - Em outra estrofe do canto evoca-se o padrão gráfico denominado takuary, que representa o yvyra’i os bastões que marcam determinados momentos da reza de chegada no primeiro dia da festa do milho. d-Mbói Kuatia Rusu - Mbói, cobra, é a origem, ypy, de tudo. Do corpo da cobra [o interlocutor desenha os losangos do grafismo correspondente] tudo pode ser feito, sai tudo, osê opa mba’e. Ele faz referência aos demais grafismos à base de losangos e também explica que os bichos são ex-humanos, que eles eram sabiam, okuaa teî, com os avós, guamõi ndie. Mbói Kuatia vivia na água, de onde saiu para se mostrar aos outros. Eles saíram enrolado, ijajere, redondo, como um yrupê. Para os Kaiowá, estes padrões preexistem. Foram recebidas pelas pessoas mais velhas e sabias e delas cada geração foi aprendendo, pela prática. Neste sentido, os Kaiowá são diferentes de seus irmãos Mbyá que distinguem os padrões aprendidos daqueles que são sonhados. Estes são mais prestigiosos que aqueles. A pessoa só é “dona” daquilo que ela sonhou, que lhe foi concedido em sonhos. Ocorreram grandes modificações nas matérias primas utilizadas anteriormente e na atualidade, isso devido à falta de muitos materiais que eram coletados na natureza, que havia em abundância para as confecções dos artefatos e hoje não se encontra mais. Sendo os principais fatores para essa escassez, a redução dos espaços habitados pelas comunidades e o grande desmatamento provocado pelas lavouras de monocultura e para pecuária em seu entorno. 15 É cada vez maior a utilização de materiais sintéticos pelos os indígenas, devido à maior facilidade de obtenção e a variedade de cores disponíveis. Por exemplo, os jeguaka, cocar ou enfeite da cabeça, que vem sendo confeccionado com linhas manufaturadas de várias cores, onde os grafismos também são bordados com esse material. Mas, também percebemos que existe uma preocupação em obter outros tipos de sementes coloridas para confecção de seus artefatos, sempre que surge a oportunidade, principalmente quando entram em contato com outras comunidades indígenas de fora do estado. Trazem essas “novidades” sempre com o intuito de plantarem para a utilização dessa matéria prima. Deve-se registrar, porém, que no que diz respeito a certos adornos, existe hoje uma diferença no modo de fazer, dependendo da destinação que lhes será dada. É comum encontrar o que são destinados ao comércio, ao lado de outros, que são realmente utilizados nos rituais. Enfatizando que muitas alterações em relação à cultura material dos Kaiowá ocorreram, mas eles sempre buscam manter as características e técnicas de elaboração e uso, com os ensinamentos deixados por seus ancestrais, tentando o máximo possível preservar a memória cultural da sua etnia, uma das maneiras encontradas de contribuir com o fortalecimento de sua identidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR, Rodrigo Luiz Simas de; PEREIRA, Levi Marques. A Universalidade da Arte e a Pesquisa da Produção Artística entre Os Povos Indígenas em Mato Grosso do Sul. In CHAMORRO, C.G.; CAMBÉS, I. Povos indígenas no Mato Grosso do Sul: História, Cultura e Transformações Sociais. Dourados, MS: Ed UFGD, 2015. CHAMORRO, Graciela. Terra Madura, Yvy Araguyre: Fundamento da Palavra Guarani. Dourados- MS: Editora UFGD, 2008. RIBEIRO, Berta. Arte Indígena Linguagem Visual. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo. 1989. SCHADEN, Egon. Aspectos fundamentais da cultura Guarani. São Paulo, EPU/Edusp. 1974. VIDAL, Lux. VIDAL, Lux. (Org.) Grafismo Indígena: estudos de antropologia estética. Studio Nobel, Fapesp, Edusp, 1992 GLOSSÁRIO GUARANI-PORTUGUÊS - Segundo (CHAMORRO, 2008). 16 Ajaka: Balaio, cesta. Mba’e marãngatu: Coisa santa. Pequeno e rústico altar feito de taquara ou cedro; encontra-se no meio do pátio ou dentro da casa ritual Kaiová, situada na frente da porta voltada para o leste. Chiripa: Saiote de algodão cru. Veste ritual dos homens. Jeguaka: Diadema ritual feita de pena ou de pano de algodão. Era usado somente pelos homens, mas atualmente é usado por crianças, jovens, adultos de ambos os sexos. Kurundaju: Adorno semelhante ao pochito. É a veste ritual da cruz. Pochito: Do espanhol “ponchito”. Poncho de algodão cru. Veste ritual dos homens. Takua, takuapu: Bastão feito de taquara, mais grosso que o yvyra’i, É usado exclusivamente pelas mulheres enquanto cantam e dançam nas cerimônias. Urupê, yrupê: peneira. Yvyra’i: Vara ou bastão de até um metro de cumprimento portado pelos homens nos rituais. Símbolo de poder terreno. O mesmo que o popygua (o que se carrega na mão).