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capa
1103362 E-book gerado especialmente para MARCUS ICARO CRUZ DA SILVA
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1.1. Compreensão das ideias fundamentais e do modo como se relacionam no texto ....................... 1
1.2. Percepção de relações entre palavras na frase e entre orações, no período............................... 4
1.3. Análise e a interpretação do texto segundo o gênero em que se inscreve (poesia, ficção, crônica,
texto jornalístico, texto teatral, canção popular, charge, tira, etc. ......................................................... 34
1.4. Detecção de características e pormenores que identifiquem o texto dentro de um estilo de
época.. ............................................................................................................................................. 45
1.5. Identificação de relações que um texto estabelece com outro ou outros ................................... 52
1.6. Reconhecimento de relações entre o texto e a realidade cultural em que foi produzido ............. 60
2. Literatura / 2.1. Literatura Brasileira, desde as origens até a atualidade. / 2.2. Literatura
Portuguesa, das origens ao primeiro modernismo .............................................................................. 60
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Bons estudos!
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Quando Lula disse a Collor no primeiro debate do segundo turno das eleições presidenciais de 1989:
“Eu sabia que você era collorido por fora, mas caiado por dentro.”
Os brasileiros colocaram essa frase no âmbito dos “discursos da campanha presidencial” e
entenderam não “Você tem cores fora, mas é revestido de cal por dentro”, mas “Você apresenta um
discurso moderno e de centro-esquerda, mas é um reacionário”.
Observe que há duas operações diferentes no entendimento do texto. A primeira é a apreensão, que
é a captação das relações que cada parte mantém com as outras no interior do texto. No entanto, ela
não é suficiente para entender o sentido integral. Uma pessoa que conhecesse todas as palavras da
frase acima, mas não conhecesse o universo dos discursos da campanha presidencial, não entenderia
o significado da frase. Por isso, é preciso colocar o texto dentro do universo discursivo a que ele
pertence e no interior do qual ganha sentido. Alguns teóricos chamam “conhecimento de mundo” ao
universo discursivo. Na frase acima, collorido e caiado não pertencem ao universo da pintura, mas da
vida política: a primeira palavra refere-se a Collor e ao modo como ele se apresentava, um político
moderno e inovador; a segunda diz respeito a Ronaldo Caiado, político conservador que o apoiava. A
essa operação chamamos compreensão.
Apreensão + Compreensão = Entendimento do texto
Para ler e entender um texto é preciso atingir dois níveis de leitura: informativa e de reconhecimento.
A primeira deve ser feita cuidadosamente por ser o primeiro contato com o texto, extraindo-se
informações e se preparando para a leitura interpretativa. Durante a interpretação grife palavras-chave,
passagens importantes; tente ligar uma palavra à ideia central de cada parágrafo.
A última fase de interpretação concentra-se nas perguntas e opções de respostas. Marque palavras
como não, exceto, respectivamente, etc., pois fazem diferença na escolha adequada.
Retorne ao texto mesmo que pareça ser perda de tempo. Leia a frase anterior e posterior para ter
ideia do sentido global proposto pelo autor.
Um texto para ser compreendido deve apresentar ideias seletas e organizadas, através dos
parágrafos que é composto pela ideia central, argumentação e/ou desenvolvimento e a conclusão do
texto.
A alusão histórica serve para dividir o texto em pontos menores, tendo em vista os diversos
enfoques. Convencionalmente, o parágrafo é indicado através da mudança de linha e um espaçamento
da margem esquerda.
Uma das partes bem distintas do parágrafo é o tópico frasal, ou seja, a ideia central extraída de
maneira clara e resumida.
Atentando-se para a ideia principal de cada parágrafo, asseguramos um caminho que nos levará à
compreensão do texto.
Produzir um texto é semelhante à arte de produzir um tecido. O fio deve ser trabalhado com muito
cuidado para que o trabalho não se perca. O mesmo acontece com o texto. O ato de escrever toma de
empréstimo uma série de palavras e expressões amarrando, conectando uma palavra uma oração, uma
ideia à outra. O texto precisa ser coeso e coerente.
1.1. Compreensão das Ideias Fundamentais e do modo como se
Relacionam no Texto
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Coesão
É a amarração entre as várias partes do texto. Os principais elementos de coesão são os conectivos,
vocábulos gramaticais, que estabelecem conexão entre palavras ou partes de uma frase. O texto deve
ser organizado por nexos adequados, com sequência de ideias encadeadas logicamente, evitando
frases e períodos desconexos. Para perceber a falta de coesão, a melhor atitude é ler atentamente o
seu texto, procurando estabelecer as possíveis relações entre palavras que formam a oração e as
orações que formam o período e, finalmente, entre os vários períodos que formam o texto. Um texto
bem trabalhado sintática e semanticamente resultam num texto coeso.
Coerência
A coerência está diretamente ligada à possibilidade de estabelecer um sentido para o texto, ou seja,
ela é que faz com que o texto tenha sentido para quem lê. Na avaliação da coerência será levado em
conta o tipo de texto. Em um texto dissertativo, será avaliada a capacidade de relacionar os argumentos
e de organizá-los de forma a extrair deles conclusões apropriadas; num texto narrativo, será avaliada
sua capacidade de construir personagens e de relacionar ações e motivações.
Tipos de Composição
Descrição: é representar verbalmente um objeto, uma pessoa, um lugar, mediante a indicação de
aspectos característicos, de pormenores individualizantes. Requer observação cuidadosa, para tornar
aquilo que vai ser descrito um modelo inconfundível. Não se trata de enumerar uma série de elementos,
mas de captar os traços capazes de transmitir uma impressão autêntica. Descrever é mais que apontar,
é muito mais que fotografar. É pintar, é criar. Por isso, impõe-se o uso de palavras específicas, exatas.
Narração: é um relato organizado de acontecimentos reais ou imaginários. São seus elementos
constitutivos: personagens, circunstâncias, ação; o seu núcleo é o incidente, o episódio, e o que a
distingue da descrição é a presença de personagens atuantes, que estão quase sempre em conflito. A
narração envolve:
- Quem? Personagem;
- Quê? Fatos, enredo;
- Quando? A época em que ocorreram os acontecimentos;
- Onde? O lugar da ocorrência;
- Como? O modo como se desenvolveram os acontecimentos;
- Por quê? A causa dos acontecimentos;
Dissertação: é apresentar ideias, analisá-las, é estabelecer um ponto de vista baseado em
argumentos lógicos; é estabelecer relações de causa e efeito. Aqui não basta expor, narrar ou
descrever, é necessário explanar e explicar. O raciocínio é que deve imperar neste tipo de composição,
e quanto maior a fundamentação argumentativa, mais brilhante será o desempenho.
Sentidos Próprio e FiguradoComumente afirma-se que certas ocorrências de discurso têm sentido próprio e sentido figurado.
Geralmente os exemplos de tais ocorrências são metáforas. Assim, em “Maria é uma flor” diz-se que
“flor” tem um sentido próprio e um sentido figurado. O sentido próprio é o mesmo do enunciado: “parte
do vegetal que gera a semente”. O sentido figurado é o mesmo de “Maria, mulher bela, etc.” O sentido
próprio, na acepção tradicional não é próprio ao contexto, mas ao termo.
O sentido tradicionalmente dito próprio sempre corresponde ao que definimos aqui como sentido
imediato do enunciado. Além disso, alguns autores o julgam como sendo o sentido preferencial, o que
comumente ocorre.
O sentido dito figurado é o do enunciado que substitui a metáfora, e que em leitura imediata leva à
mesma mensagem que se obtém pela decifração da metáfora.
O conceito de sentido próprio nasce do mito da existência da leitura ingênua, que ocorre
esporadicamente, é verdade, mas nunca mais que esporadicamente.
Não há muito que criticar na adoção dos conceitos de sentido próprio e sentido figurado, pois ela
abre um caminho de abordagem do fenômeno da metáfora. O que é passível de crítica é a atribuição de
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status diferenciado para cada uma das categorias. Tradicionalmente o sentido próprio carrega uma
conotação de sentido “natural”, sentido “primeiro”.
Invertendo a perspectiva, com os mesmos argumentos, poderíamos afirmar que “natural”, “primeiro”
é o sentido figurado, afinal, é o sentido figurado que possibilita a correta interpretação do enunciado e
não o sentido próprio. Se o sentido figurado é o “verdadeiro” para o enunciado, por que não chamá-lo
de “natural”, “primeiro”?
Pela lógica da Retórica tradicional, essa inversão de perspectiva não é possível, pois o sentido
figurado está impregnado de uma conotação desfavorável. O sentido figurado é visto como anormal e o
sentido próprio, não. Ele carrega uma conotação positiva, logo, é natural, primeiro.
A Retórica tradicional é impregnada de moralismo e estetização e até a geração de categorias se
ressente disso. Essa tendência para atribuir status às categorias é uma constante do pensamento
antigo, cuja índole era hierarquizante, sempre buscando uma estrutura piramidal para o conhecimento,
o que se estende até hoje em algumas teorias modernas.
Ainda hoje, apesar da imparcialidade típica e necessária ao conhecimento científico, vemos
conotações de valor sendo atribuídas a categorias retóricas a partir de considerações totalmente
externas a ela. Um exemplo: o retórico que tenha para si a convicção de que a qualidade de qualquer
discurso se fundamenta na sua novidade, originalidade, imprevisibilidade, tenderá a descrever os
recursos retóricos como “desvios da normalidade”, pois o que lhe interessa é pôr esses recursos
retóricos a serviço de sua concepção estética.
Sentido Imediato
Sentido imediato é o que resulta de uma leitura imediata que, com certa reserva, poderia ser
chamada de leitura ingênua ou leitura de máquina de ler.
Uma leitura imediata é aquela em que se supõe a existência de uma série de premissas que
restringem a decodificação tais como:
- As frases seguem modelos completos de oração da língua.
- O discurso é lógico.
- Se a forma usada no discurso é a mesma usada para estabelecer identidades lógicas ou
atribuições, então, tem-se, respectivamente, identidade lógica e atribuição.
- Os significados são os encontrados no dicionário.
- Existe concordância entre termos sintáticos.
- Abstrai-se a conotação.
- Supõe-se que não há anomalias linguísticas.
- Abstrai-se o gestual, o entoativo e editorial enquanto modificadores do código linguístico.
- Supõe-se pertinência ao contexto.
- Abstrai-se iconias.
- Abstrai-se alegorias, ironias, paráfrases, trocadilhos, etc.
- Não se concebe a existência de locuções e frases feitas.
- Supõe-se que o uso do discurso é comunicativo. Abstrai-se o uso expressivo, cerimonial.
Admitindo essas premissas, o discurso será indecifrável, ininteligível ou compreendido parcialmente
toda vez que nele surgirem elipses, metáforas, metonímias, oxímoros, ironias, alegorias, anomalias, etc.
Também passam despercebidas as conotações, as iconias, os modificadores gestuais, entoativos,
editoriais, etc.
Na verdade, não existe o leitor absolutamente ingênuo, que se comporte como uma máquina de ler,
o que faz do conceito de leitura imediata apenas um pressuposto metodológico. O que existe são
ocorrências eventuais que se aproximam de uma leitura imediata, como quando alguém toma o sentido
literal pelo figurado, quando não capta uma ironia ou fica perplexo diante de um oxímoro.
Há quem chame o discurso que admite leitura imediata de grau zero da escritura, identificando-a
como uma forma mais primitiva de expressão. Esse grau zero não tem realidade, é apenas um
pressuposto. Os recursos de Retórica são anteriores a ele.
Sentido Preferencial
Para compreender o sentido preferencial é preciso conceber o enunciado descontextualizado ou em
contexto de dicionário. Quando um enunciado é realizado em contexto muito rarefeito, como é o
contexto em que se encontra uma palavra no dicionário, dizemos que ela está descontextualizada.
Nesta situação, o sentido preferencial é o que, na média, primeiro se impõe para o enunciado. Óbvio, o
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sentido que primeiro se impõe para um receptor pode não ser o mesmo para outro. Por isso a definição
tem de considerar o resultado médio, o que não impede que pela necessidade momentânea
consideremos o significado preferencial para dado indivíduo.
Algumas regularidades podem ser observadas nos significados preferenciais. Por exemplo: o sentido
preferencial da palavra porco costuma ser: “animal criado em granja para abate”, e nunca o de
“indivíduo sem higiene”. Em outras palavras, geralmente o sentido que admite leitura imediata se impõe
sobre o que teve origem em processos metafóricos, alegóricos, metonímicos. Mas esta regra não é
geral. Vejamos o seguinte exemplo: “Um caminhão de cimento”. O sentido preferencial para a frase
dada é o mesmo de “caminhão carregado com cimento” e não o de “caminhão construído com cimento”.
Neste caso o sentido preferencial é o metonímico, o que contrapõe a tese que diz que o sentido
“figurado” não é o “primeiro significado da palavra”. Também é comum o sentido mais usado se impor
sobre o menos usado.
Para certos termos é difícil estabelecer o sentido preferencial. Um exemplo: Qual o sentido
preferencial de manga? O de fruto ou de uma parte da roupa?
As palavras, tanto na expressão escrita como na oral, são reunidas e ordenadas em frases. Pela
frase é que se alcança o objetivo do discurso, ou seja, da atividade linguística: a comunicação com o
ouvinte ou o leitor.
Frase, Oração e Período são fatores constituintes de qualquer texto escrito em prosa, pois o mesmo
compõe-se de uma sequência lógica de ideias, todas organizadas e dispostas em parágrafos
minuciosamente construídos.
Frase: é todo enunciado capaz de transmitir, a quem nos ouve ou lê, tudo o que pensamos,
queremos ou sentimos. Pode revestir as mais variadas formas, desde a simples palavra até o período
mais complexo, elaborado segundo os padrões sintáticos do idioma. São exemplos de frases:
Socorro!
Muito obrigado!
Que horror!
Sentinela, alerta!
Cada um por si e Deus por todos.
Grande nau, grande tormenta.
Por que agridem a natureza?
“Tudo seco em redor.” (Graciliano Ramos)
“Boa tarde, mãe Margarida!” (Graciliano Ramos)
“Fumaça nas chaminés, o céu tranquilo, limpo o terreiro.” (Adonias Filho)
“As luzes da cidade estavam amortecidas.” (Érico Veríssimo)
“Tropas do exército regular do Sul, ajustadas pelos seus aliados brancos de além mar, tinham sido
levadas em helicópteros para o lugar onde se presumia estivesse o inimigo, mas este se havia sumidopor completo.” (Érico Veríssimo)
As frases são proferidas com entoação e pausas especiais, indicadas na escrita pelos sinais de
pontuação. Muitas frases, principalmente as que se desviam do esquema sujeito + predicado, só podem
ser entendidas dentro do contexto (= o escrito em que figuram) e na situação (= o ambiente, as
1.2. Percepção de Relações entre Palavras na Frase e entre
Orações, no Período
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circunstâncias) em que o falante se encontra. Chamam-se frases nominais as que se apresentam sem
o verbo. Exemplo: Tudo parado e morto.
Quanto ao sentido, as frases podem ser:
Declarativas: aquela através da qual se enuncia algo, de forma afirmativa ou negativa. Encerram a
declaração ou enunciação de um juízo acerca de alguém ou de alguma coisa:
Paulo parece inteligente. (afirmativa)
A retificação da velha estrada é uma obra inadiável. (afirmativa)
Nunca te esquecerei. (negativa)
Neli não quis montar o cavalo velho, de pêlo ruço. (negativa)
Interrogativas: aquela da qual se pergunta algo, direta (com ponto de interrogação) ou
indiretamente (sem ponto de interrogação). São uma pergunta, uma interrogação:
Por que chegaste tão tarde?
Gostaria de saber que horas são.
“Por que faço eu sempre o que não queria” (Fernando Pessoa)
“Não sabe, ao menos, o nome do pequeno?” (Machado de Assis)
Imperativas: aquela através da qual expressamos uma ordem, pedido ou súplica, de forma
afirmativa ou negativa. Contêm uma ordem, proibição, exortação ou pedido:
“Cale-se! Respeite este templo.” (afirmativa)
Não cometa imprudências. (negativa)
“Vamos, meu filho, ande depressa!” (afirmativa)
“Segue teu rumo e canta em paz.” (afirmativa)
“Não me leves para o mar.” (negativa)
Exclamativas: aquela através da qual externamos uma admiração. Traduzem admiração, surpresa,
arrependimento, etc.:
Como eles são audaciosos!
Não voltaram mais!
“Uma senhora instruída meter-se nestas bibocas!” (Graciliano Ramos)
Optativas: É aquela através da qual se exprime um desejo:
Bons ventos o levem!
Oxalá não sejam vãos tantos sacrifícios!
“E queira Deus que te não enganes, menino!” (Carlos de Laet)
“Quem me dera ser como Casimiro Lopes!” (Graciliano Ramos)
Imprecativas: Encerram uma imprecação (praga, maldição):
“Esta luz me falte, se eu minto, senhor!” (Camilo Castelo Branco)
“Não encontres amor nas mulheres!” (Gonçalves Dias)
“Maldito seja quem arme ciladas no seu caminho!” (Domingos Carvalho da Silva)
Como se vê dos exemplos citados, os diversos tipos de frase podem encerrar uma afirmação ou uma
negação. No primeiro caso, a frase é afirmativa, no segundo, negativa. O que caracteriza e distingue
esses diferentes tipos de frase é a entoação, ora ascendente ora descendente. Muitas vezes, as frases
assumem sentidos que só podem ser integralmente captados se atentarmos para o contexto em que
são empregadas. É o caso, por exemplo, das situações em que se explora a ironia. Pense, por
exemplo, na frase "Que educação!", usada quando se vê alguém invadindo, com seu carro, a faixa de
pedestres. Nesse caso, ela expressa exatamente o contrário do que aparentemente diz.
A entoação é um elemento muito importante da frase falada, pois nos dá uma ampla possibilidade de
expressão. Dependendo de como é dita, uma frase simples como "É ela." pode indicar constatação,
dúvida, surpresa, indignação, decepção, etc.
A mesma frase pode assumir sentidos diferentes, conforme o tom com que a proferimos. Observe:
Olavo esteve aqui.
Olavo esteve aqui?
Olavo esteve aqui?!
Olavo esteve aqui!
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Questões
1. Marque apenas as frases nominais:
(A) Que voz estranha!
(B) A lanterna produzia boa claridade.
(C) As risadas não eram normais.
(D) Luisinho, não!
2. Classifique as frases em declarativa, interrogativa, exclamativa, optativa ou imperativa.
(A) Você está bem?
(B) Não olhe; não olhe, Luisinho!
(C) Que alívio!
(D) Tomara que Luisinho não fique impressionado!
(E) Você se machucou?
(F) A luz jorrou na caverna.
(G) Agora suma, seu monstro!
(H) O túnel ficava cada vez mais escuro.
3. Transforme a frase declarativa em imperativa. Siga o modelo:
Luisinho ficou pra trás. (declarativa)
Lusinho, fique para trás. (imperativa)
(A) Eugênio e Marcelo caminhavam juntos.
(B) Luisinho procurou os fósforos no bolso.
(C) Os meninos olharam à sua volta.
4. Sabemos que frases verbais são aquelas que têm verbos. Assinale, pois, as frases verbais:
(A) Deus te guarde!
(B) As risadas não eram normais.
(C) Que ideia absurda!
(D) O fósforo quebrou – se em três pedacinhos.
(E) Tão preta como o túnel!
(F) Quem bom!
(G) As ovelhas são mansas e pacientes.
(H) Que espírito irônico e livre!
5. Escreva para cada frase o tipo a que pertence: declarativa, interrogativa, imperativa e exclamativa:
(A) Que flores tão aromáticas!
(B) Por que é que não vais ao teatro mais vezes?
(C) Devemos manter a nossa escola limpa.
(D) Respeitem os limites de velocidade.
(E) Já alguma vez foste ao Museu da Ciência?
(F) Atravessem a rua com cuidado.
(G) Como é bom sentir a alegria de um dever cumprido!
(H) Antes de tomar banho no mar, deve-se olhar para a cor da bandeira.
(I) Não te quero ver mais aqui!
(J) Hoje saímos mais cedo.
Respostas
1. “a” e “d”
2. a) interrogativa; b) imperativa; c) exclamativa; d) optativa; e) interrogativa; f) declarativa; g)
imperativa; h) declarativa
3. a) Eugênio e Marcelo, caminhem juntos!; b) Luisinho, procure os fósforos no bolso!; c) Meninos,
olhem à sua volta!
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4. a/b/d/g
5. a) exclamativa; b) interrogativa; c) declarativa; d) imperativa; e) interrogativa; f) imperativa; g)
exclamativa; h) declarativa; i) imperativa; j) declarativa
Oração: é todo enunciado linguístico dotado de sentido, porém há, necessariamente, a presença do
verbo. A oração encerra uma frase (ou segmento de frase), várias frases ou um período, completando
um pensamento e concluindo o enunciado através de ponto final, interrogação, exclamação e, em
alguns casos, através de reticências.
Em toda oração há um verbo ou locução verbal (às vezes elípticos). Não têm estrutura sintática,
portanto não são orações, não podem ser analisadas sintaticamente frases como:
Socorro!
Com licença!
Que rapaz impertinente!
Muito riso, pouco siso.
“A bênção, mãe Nácia!” (Raquel de Queirós)
Na oração as palavras estão relacionadas entre si, como partes de um conjunto harmônico: elas
formam os termos ou as unidades sintáticas da oração. Cada termo da oração desempenha uma função
sintática. Geralmente apresentam dois grupos de palavras: um grupo sobre o qual se declara alguma
coisa (o sujeito), e um grupo que apresenta uma declaração (o predicado), e, excepcionalmente, só o
predicado. Exemplo:
A menina banhou-se na cachoeira.
A menina – sujeito
banhou-se na cachoeira – predicado
Choveu durante a noite. (a oração toda predicado)
O sujeito é o termo da frase que concorda com o verbo em número e pessoa. É normalmente o "ser
de quem se declara algo", "o tema do que se vai comunicar".
O predicado é a parte da oração que contém "a informação nova para o ouvinte". Normalmente, ele
se refere ao sujeito, constituindo a declaração do que se atribui ao sujeito.
Observe: O amor é eterno. O tema, o ser de quem se declara algo, o sujeito, é "O amor". A
declaração referente a "o amor", ou seja, o predicado, é "é eterno".
Já na frase: Os rapazes jogam futebol. O sujeito é "Os rapazes", que identificamos por ser o termo
que concorda em número e pessoa com o verbo "jogam". O predicado é "jogam futebol".
Núcleo de um termo é a palavra principal (geralmente um substantivo, pronome ou verbo), que
encerra a essência de sua significação. Nos exemplos seguintes, as palavras amigo e revestiu são o
núcleo do sujeito e dopredicado, respectivamente:
“O amigo retardatário do presidente prepara-se para desembarcar.” (Aníbal Machado)
A avezinha revestiu o interior do ninho com macias plumas.
Os termos da oração da língua portuguesa são classificados em três grandes níveis:
- Termos Essenciais da Oração: Sujeito e Predicado.
- Termos Integrantes da Oração: Complemento Nominal e Complementos Verbais (Objeto Direto,
Objeto indireto e Agente da Passiva).
- Termos Acessórios da Oração: Adjunto Adnominal, Adjunto Adverbial, Aposto e Vocativo.
Termos Essenciais da Oração: São dois os termos essenciais (ou fundamentais) da oração: sujeito
e predicado. Exemplos:
Oração
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Sujeito Predicado
Pobreza não é vileza.
Os sertanistas capturavam os índios.
Um vento áspero sacudia as árvores.
Sujeito: é equivocado dizer que o sujeito é aquele que pratica uma ação ou é aquele (ou aquilo) do
qual se diz alguma coisa. Ao fazer tal afirmação estamos considerando o aspecto semântico do sujeito
(agente de uma ação) ou o seu aspecto estilístico (o tópico da sentença). Já que o sujeito é
depreendido de uma análise sintática, vamos restringir a definição apenas ao seu papel sintático na
sentença: aquele que estabelece concordância com o núcleo do predicado. Quando se trata de
predicado verbal, o núcleo é sempre um verbo; sendo um predicado nominal, o núcleo é sempre um
nome. Então têm por características básicas:
- estabelecer concordância com o núcleo do predicado;
- apresentar-se como elemento determinante em relação ao predicado;
- constituir-se de um substantivo, ou pronome substantivo ou, ainda, qualquer palavra substantivada.
Exemplos:
A padaria está fechada hoje.
está fechada hoje: predicado nominal
fechada: nome adjetivo = núcleo do predicado
a padaria: sujeito
padaria: núcleo do sujeito - nome feminino singular
Nós mentimos sobre nossa idade para você.
mentimos sobre nossa idade para você: predicado verbal
mentimos: verbo = núcleo do predicado
nós: sujeito
No interior de uma sentença, o sujeito é o termo determinante, ao passo que o predicado é o termo
determinado. Essa posição de determinante do sujeito em relação ao predicado adquire sentido com o
fato de ser possível, na língua portuguesa, uma sentença sem sujeito, mas nunca uma sentença sem
predicado.
Exemplos:
As formigas invadiram minha casa.
as formigas: sujeito = termo determinante
invadiram minha casa: predicado = termo determinado
Há formigas na minha casa.
há formigas na minha casa: predicado = termo determinado
sujeito: inexistente
O sujeito sempre se manifesta em termos de sintagma nominal, isto é, seu núcleo é sempre um
nome. Quando esse nome se refere a objetos das primeira e segunda pessoas, o sujeito é representado
por um pronome pessoal do caso reto (eu, tu, ele, etc.). Se o sujeito se refere a um objeto da terceira
pessoa, sua representação pode ser feita através de um substantivo, de um pronome substantivo ou de
qualquer conjunto de palavras, cujo núcleo funcione, na sentença, como um substantivo.
Exemplos:
Eu acompanho você até o guichê.
eu: sujeito = pronome pessoal de primeira pessoa
Vocês disseram alguma coisa?
vocês: sujeito = pronome pessoal de segunda pessoa
Marcos tem um fã-clube no seu bairro.
Marcos: sujeito = substantivo próprio
Ninguém entra na sala agora.
ninguém: sujeito = pronome substantivo
O andar deve ser uma atividade diária.
o andar: sujeito = núcleo: verbo substantivado nessa oração
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Além dessas formas, o sujeito também pode se constituir de uma oração inteira. Nesse caso, a
oração recebe o nome de oração substantiva subjetiva:
É difícil optar por esse ou aquele doce...
É difícil: oração principal
optar por esse ou aquele doce: oração substantiva subjetiva
O sujeito é constituído por um substantivo ou pronome, ou por uma palavra ou expressão
substantivada. Exemplos:
O sino era grande.
Ela tem uma educação fina.
Vossa Excelência agiu com imparcialidade.
Isto não me agrada.
O núcleo (isto é, a palavra base) do sujeito é, pois, um substantivo ou pronome. Em torno do núcleo
podem aparecer palavras secundárias (artigos, adjetivos, locuções adjetivas, etc.).
Exemplo: “Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma voz para a selvagem filha do sertão.”
(José de Alencar)
O sujeito pode ser:
Simples: quando tem um só núcleo: As rosas têm espinhos; “Um bando de galinhas-d’angola
atravessa a rua em fila indiana.”
Composto: quando tem mais de um núcleo: “O burro e o cavalo nadavam ao lado da canoa.”
Expresso: quando está explícito, enunciado: Eu viajarei amanhã.
Oculto (ou elíptico): quando está implícito, isto é, quando não está expresso, mas se deduz do
contexto: Viajarei amanhã. (sujeito: eu, que se deduz da desinência do verbo); “Um soldado saltou para
a calçada e aproximou-se.” (o sujeito, soldado, está expresso na primeira oração e elíptico na segunda:
e (ele) aproximou-se.); Crianças, guardem os brinquedos. (sujeito: vocês)
Agente: se faz a ação expressa pelo verbo da voz ativa: O Nilo fertiliza o Egito.
Paciente: quando sofre ou recebe os efeitos da ação expressa pelo verbo passivo: O criminoso é
atormentado pelo remorso; Muitos sertanistas foram mortos pelos índios; Construíram-se açudes. (=
Açudes foram construídos.)
Agente e Paciente: quando o sujeito realiza a ação expressa por um verbo reflexivo e ele mesmo
sofre ou recebe os efeitos dessa ação: O operário feriu-se durante o trabalho; Regina trancou-se no
quarto.
Indeterminado: quando não se indica o agente da ação verbal: Atropelaram uma senhora na
esquina. (Quem atropelou a senhora? Não se diz, não se sabe quem a atropelou.); Come-se bem
naquele restaurante.
Observações:
- Não confundir sujeito indeterminado com sujeito oculto.
- Sujeito formado por pronome indefinido não é indetermiado, mas expresso: Alguém me ensinará o
caminho. Ninguém lhe telefonou.
- Assinala-se a indeterminação do sujeito usando-se o verbo na 3ª pessoa do plural, sem referência a
qualquer agente já expresso nas orações anteriores: Na rua olhavam-no com admiração; “Bateram
palmas no portãozinho da frente.”; “De qualquer modo, foi uma judiação matarem a moça.”
- Assinala-se a indeterminação do sujeito com um verbo ativo na 3ª pessoa do singular,
acompanhado do pronome se. O pronome se, neste caso, é índice de indeterminação do sujeito. Pode
ser omitido junto de infinitivos.
Aqui vive-se bem.
Devagar se vai ao longe.
Quando se é jovem, a memória é mais vivaz.
Trata-se de fenômenos que nem a ciência sabe explicar.
- Assinala-se a indeterminação do sujeito deixando-se o verbo no infinitivo impessoal: Era penoso
carregar aqueles fardos enormes; É triste assistir a estas cenas repulsivas.
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Normalmente, o sujeito antecede o predicado; todavia, a posposição do sujeito ao verbo é fato
corriqueiro em nossa língua.
Exemplos:
É fácil este problema!
Vão-se os anéis, fiquem os dedos.
“Breve desapareceram os dois guerreiros entre as árvores.” (José de Alencar)
“Foi ouvida por Deus a súplica do condenado.” (Ramalho Ortigão)
“Mas terás tu paciência por duas horas?” (Camilo Castelo Branco)
Sem Sujeito: constituem a enunciação pura e absoluta de um fato, através do predicado; o conteúdo
verbal não é atribuído a nenhum ser. São construídas com os verbos impessoais, na 3ª pessoa do
singular: Havia ratos no porão; Choveu durante o jogo.
Observação: São verbos impessoais: Haver (nos sentidos de existir, acontecer, realizar-se, decorrer),
Fazer, passar, ser e estar, com referência ao tempo e Chover, ventar, nevar, gear, relampejar,
amanhecer, anoitecer e outros que exprimem fenômenos meteorológicos.
Predicado: assim como o sujeito, o predicado é um segmento extraído da estrutura interna das
oraçõesou das frases, sendo, por isso, fruto de uma análise sintática. Nesse sentido, o predicado é
sintaticamente o segmento linguístico que estabelece concordância com outro termo essencial da
oração, o sujeito, sendo este o termo determinante (ou subordinado) e o predicado o termo determinado
(ou principal). Não se trata, portanto, de definir o predicado como "aquilo que se diz do sujeito" como
fazem certas gramáticas da língua portuguesa, mas sim estabelecer a importância do fenômeno da
concordância entre esses dois termos essenciais da oração. Então têm por características básicas:
apresentar-se como elemento determinado em relação ao sujeito; apontar um atributo ou acrescentar
nova informação ao sujeito.
Exemplos:
Carolina conhece os índios da Amazônia.
sujeito: Carolina = termo determinante
predicado: conhece os índios da Amazônia = termo determinado
Todos nós fazemos parte da quadrilha de São João.
sujeito: todos nós = termo determinante
predicado: fazemos parte da quadrilha de São João = termo determinado
Nesses exemplos podemos observar que a concordância é estabelecida entre algumas poucas palavras
dos dois termos essenciais. No primeiro exemplo, entre "Carolina" e "conhece"; no segundo exemplo, entre
"nós" e "fazemos". Isso se dá porque a concordância é centrada nas palavras que são núcleos, isto é, que
são responsáveis pela principal informação naquele segmento. No predicado o núcleo pode ser de dois tipos:
um nome, quase sempre um atributo que se refere ao sujeito da oração, ou um verbo (ou locução verbal). No
primeiro caso, temos um predicado nominal (seu núcleo significativo é um nome, substantivo, adjetivo,
pronome, ligado ao sujeito por um verbo de ligação) e no segundo um predicado verbal (seu núcleo é um
verbo, seguido, ou não, de complemento(s) ou termos acessórios). Quando, num mesmo segmento o nome
e o verbo são de igual importância, ambos constituem o núcleo do predicado e resultam no tipo de
predicado verbo-nominal (tem dois núcleos significativos: um verbo e um nome). Exemplos:
Minha empregada é desastrada.
predicado: é desastrada
núcleo do predicado: desastrada = atributo do sujeito
tipo de predicado: nominal
O núcleo do predicado nominal chama-se predicativo do sujeito, porque atribui ao sujeito uma qualidade
ou característica. Os verbos de ligação (ser, estar, parecer, etc.) funcionam como um elo entre o sujeito e o
predicado.
A empreiteira demoliu nosso antigo prédio.
predicado: demoliu nosso antigo prédio
núcleo do predicado: demoliu = nova informação sobre o sujeito
tipo de predicado: verbal
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Os manifestantes desciam a rua desesperados.
predicado: desciam a rua desesperados
núcleos do predicado: desciam = nova informação sobre o sujeito; desesperados = atributo do sujeito
tipo de predicado: verbo-nominal
Nos predicados verbais e verbo-nominais o verbo é responsável também por definir os tipos de
elementos que aparecerão no segmento. Em alguns casos o verbo sozinho basta para compor o
predicado (verbo intransitivo). Em outros casos é necessário um complemento que, juntamente com o
verbo, constituem a nova informação sobre o sujeito. De qualquer forma, esses complementos do verbo
não interferem na tipologia do predicado.
Entretanto, é muito comum a elipse (ou omissão) do verbo, quando este puder ser facilmente
subentendido, em geral por estar expresso ou implícito na oração anterior. Exemplos:
“A fraqueza de Pilatos é enorme, a ferocidade dos algozes inexcedível.” (Machado de Assis) (Está
subentendido o verbo é depois de algozes)
“Mas o sal está no Norte, o peixe, no Sul” (Paulo Moreira da Silva) (Subetntende-se o verbo está
depois de peixe)
“A cidade parecia mais alegre; o povo, mais contente.” (Povina Cavalcante) (isto é: o povo parecia
mais contente)
Chama-se predicação verbal o modo pelo qual o verbo forma o predicado.
Há verbos que, por natureza, tem sentido completo, podendo, por si mesmos, constituir o predicado:
são os verbos de predicação completa denominados intransitivos. Exemplo:
As flores murcharam.
Os animais correm.
As folhas caem.
“Os inimigos de Moreiras rejubilaram.” (Graciliano Ramos)
Outros verbos há, pelo contrário, que para integrarem o predicado necessitam de outros termos: são
os verbos de predicação incompleta, denominados transitivos. Exemplos:
João puxou a rede.
“Não invejo os ricos, nem aspiro à riqueza.” (Oto Lara Resende)
“Não simpatizava com as pessoas investidas no poder.” (Camilo Castelo Branco)
Observe que, sem os seus complementos, os verbos puxou, invejo, aspiro, etc., não transmitiriam
informações completas: puxou o quê? Não invejo a quem? Não aspiro a quê?
Os verbos de predicação completa denominam-se intransitivos e os de predicação incompleta,
transitivos. Os verbos transitivos subdividem-se em: transitivos diretos, transitivos indiretos e
transitivos diretos e indiretos (bitransitivos).
Além dos verbos transitivos e intransitivos, quem encerram uma noção definida, um conteúdo
significativo, existem os de ligação, verbos que entram na formação do predicado nominal,
relacionando o predicativo com o sujeito.
Quanto à predicação classificam-se, pois os verbos em:
Intransitivos: são os que não precisam de complemento, pois têm sentido completo.
“Três contos bastavam, insistiu ele.” (Machado de Assis)
“Os guerreiros Tabajaras dormem.” (José de Alencar)
“A pobreza e a preguiça andam sempre em companhia.” (Marquês de Maricá)
Observações: Os verbos intransitivos podem vir acompanhados de um adjunto adverbial e mesmo de
um predicativo (qualidade, características): Fui cedo; Passeamos pela cidade; Cheguei atrasado;
Entrei em casa aborrecido. As orações formadas com verbos intransitivos não podem “transitar” (=
passar) para a voz passiva. Verbos intransitivos passam, ocasionalmente, a transitivos quando
construídos com o objeto direto ou indireto.
- “Inutilmente a minha alma o chora!” (Cabral do Nascimento)
- “Depois me deitei e dormi um sono pesado.” (Luís Jardim)
- “Morrerás morte vil da mão de um forte.” (Gonçalves Dias)
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- “Inútil tentativa de viajar o passado, penetrar no mundo que já morreu...” (Ciro dos Anjos)
Alguns verbos essencialmente intransitivos: anoitecer, crescer, brilhar, ir, agir, sair, nascer, latir, rir,
tremer, brincar, chegar, vir, mentir, suar, adoecer, etc.
Transitivos Diretos: são os que pedem um objeto direto, isto é, um complemento sem preposição.
Pertencem a esse grupo: julgar, chamar, nomear, eleger, proclamar, designar, considerar, declarar,
adotar, ter, fazer, etc. Exemplos:
Comprei um terreno e construí a casa.
“Trabalho honesto produz riqueza honrada.” (Marquês de Maricá)
“Então, solenemente Maria acendia a lâmpada de sábado.” (Guedes de Amorim)
Dentre os verbos transitivos diretos merecem destaque os que formam o predicado verbo nominal e
se constrói com o complemento acompanhado de predicativo. Exemplos:
Consideramos o caso extraordinário.
Inês trazia as mãos sempre limpas.
O povo chamava-os de anarquistas.
Julgo Marcelo incapaz disso.
Observações: Os verbos transitivos diretos, em geral, podem ser usados também na voz passiva;
Outra característica desses verbos é a de poderem receber como objeto direto, os pronomes o, a, os,
as: convido-o, encontro-os, incomodo-a, conheço-as; Os verbos transitivos diretos podem ser
construídos acidentalmente com preposição, a qual lhes acrescenta novo matiz semântico: arrancar da
espada; puxar da faca; pegar de uma ferramenta; tomar do lápis; cumprir com o dever; Alguns verbos
transitivos diretos: abençoar, achar, colher, avisar, abraçar, comprar, castigar, contrariar, convidar,
desculpar, dizer, estimar, elogiar, entristecer, encontrar, ferir, imitar, levar, perseguir, prejudicar, receber,
saldar, socorrer, ter, unir, ver, etc.
TransitivosIndiretos: são os que reclamam um complemento regido de preposição, chamado
objeto indireto. Exemplos:
“Ninguém perdoa ao quarentão que se apaixona por uma adolescente.” (Ciro dos Anjos)
“Populares assistiam à cena aparentemente apáticos e neutros.” (Érico Veríssimo)
“Lúcio não atinava com essa mudança instantânea.” (José Américo)
“Do que eu mais gostava era do tempo do retiro espiritual.” (José Geraldo Vieira)
Observações: Entre os verbos transitivos indiretos importa distinguir os que se constroem com os
pronomes objetivos lhe, lhes. Em geral são verbos que exigem a preposição a: agradar-lhe, agradeço-
lhe, apraz-lhe, bate-lhe, desagrada-lhe, desobedecem-lhe, etc. Entre os verbos transitivos indiretos
importa distinguir os que não admitem para objeto indireto as formas oblíquas lhe, lhes, construindo-se
com os pronomes retos precedidos de preposição: aludir a ele, anuir a ele, assistir a ela, atentar nele,
depender dele, investir contra ele, não ligar para ele, etc.
Em princípio, verbos transitivos indiretos não comportam a forma passiva. Excetuam-se pagar,
perdoar, obedecer, e pouco mais, usados também como transitivos diretos: João paga (perdoa,
obedece) o médico. O médico é pago (perdoado, obedecido) por João. Há verbos transitivos indiretos,
como atirar, investir, contentar-se, etc., que admitem mais de uma preposição, sem mudança de
sentido. Outros mudam de sentido com a troca da preposição, como nestes exemplos: Trate de sua
vida. (tratar=cuidar). É desagradável tratar com gente grosseira. (tratar=lidar). Verbos como aspirar,
assistir, dispor, servir, etc., variam de significação conforme sejam usados como transitivos diretos ou
indiretos.
Transitivos Diretos e Indiretos: são os que se usam com dois objetos: um direto, outro indireto,
concomitantemente. Exemplos:
No inverno, Dona Cléia dava roupas aos pobres.
A empresa fornece comida aos trabalhadores.
Oferecemos flores à noiva.
Ceda o lugar aos mais velhos.
De Ligação: Os que ligam ao sujeito uma palavra ou expressão chamada predicativo. Esses
verbos, entram na formação do predicado nominal. Exemplos:
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A Terra é móvel.
A água está fria.
O moço anda (=está) triste.
Mário encontra-se doente.
A Lua parecia um disco.
Observações: Os verbos de ligação não servem apenas de anexo, mas exprimem ainda os diversos
aspectos sob os quais se considera a qualidade atribuída ao sujeito. O verbo ser, por exemplo, traduz
aspecto permanente e o verbo estar, aspecto transitório: Ele é doente. (aspecto permanente); Ele está
doente. (aspecto transitório). Muito desses verbos passam à categoria dos intransitivos em frases como:
Era =existia) uma vez uma princesa.; Eu não estava em casa.; Fiquei à sombra.; Anda com
dificuldades.; Parece que vai chover.
Os verbos, relativamente à predicação, não têm classificação fixa, imutável. Conforme a regência e o
sentido que apresentam na frase, podem pertencer ora a um grupo, ora a outro. Exemplos:
O homem anda. (intransitivo)
O homem anda triste. (de ligação)
O cego não vê. (intransitivo)
O cego não vê o obstáculo. (transitivo direto)
Deram 12 horas. (intransitivo)
A terra dá bons frutos. (transitivo direto)
Não dei com a chave do enigma. (transitivo indireto)
Os pais dão conselhos aos filhos. (transitivo direto e indireto)
Predicativo: Há o predicativo do sujeito e o predicativo do objeto.
Predicativo do Sujeito: é o termo que exprime um atributo, um estado ou modo de ser do sujeito, ao
qual se prende por um verbo de ligação, no predicado nominal. Exemplos:
A bandeira é o símbolo da Pátria.
A mesa era de mármore.
O mar estava agitado.
A ilha parecia um monstro.
Além desse tipo de predicativo, outro existe que entra na constituição do predicado verbo-nominal.
Exemplos:
O trem chegou atrasado. (=O trem chegou e estava atrasado.)
O menino abriu a porta ansioso.
Todos partiram alegres.
Marta entrou séria.
Observações: O predicativo subjetivo às vezes está preposicionado; Pode o predicativo preceder o
sujeito e até mesmo ao verbo: São horríveis essas coisas!; Que linda estava Amélia!; Completamente
feliz ninguém é.; Raros são os verdadeiros líderes.; Quem são esses homens?; Lentos e tristes, os
retirantes iam passando.; Novo ainda, eu não entendia certas coisas.; Onde está a criança que fui?
Predicativo do Objeto: é o termo que se refere ao objeto de um verbo transitivo. Exemplos:
O juiz declarou o réu inocente.
O povo elegeu-o deputado.
As paixões tornam os homens cegos.
Nós julgamos o fato milagroso.
Observações: O predicativo objetivo, como vemos dos exemplos acima, às vezes vem regido de
preposição. Esta, em certos casos, é facultativa; O predicativo objetivo geralmente se refere ao objeto
direto. Excepcionalmente, pode referir-se ao objeto indireto do verbo chamar. Chamavam-lhe poeta;
Podemos antepor o predicativo a seu objeto: O advogado considerava indiscutíveis os direitos da
herdeira.; Julgo inoportuna essa viagem.; “E até embriagado o vi muitas vezes.”; “Tinha estendida a
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seus pés uma planta rústica da cidade.”; “Sentia ainda muito abertos os ferimentos que aquele choque
com o mundo me causara.”
Termos Integrantes da Oração
Chamam-se termos integrantes da oração os que completam a significação transitiva dos verbos e
nomes. Integram (inteiram, completam) o sentido da oração, sendo por isso indispensável à
compreensão do enunciado. São os seguintes:
- Complemento Verbais (Objeto Direto e Objeto Indireto);
- Complemento Nominal;
- Agente da Passiva.
Objeto Direto: é o complemento dos verbos de predicação incompleta, não regido, normalmente, de
preposição. Exemplos:
As plantas purificaram o ar.
“Nunca mais ele arpoara um peixe-boi.” (Ferreira Castro)
Procurei o livro, mas não o encontrei.
Ninguém me visitou.
O objeto direto tem as seguintes características:
- Completa a significação dos verbos transitivos diretos;
- Normalmente, não vem regido de preposição;
- Traduz o ser sobre o qual recai a ação expressa por um verbo ativo: Caim matou Abel.
- Torna-se sujeito da oração na voz passiva: Abel foi morto por Caim.
O objeto direto pode ser constituído:
- Por um substantivo ou expressão substantivada: O lavrador cultiva a terra.; Unimos o útil ao
agradável.
- Pelos pronomes oblíquos o, a, os, as, me, te, se, nos, vos: Espero-o na estação.; Estimo-os muito.;
Sílvia olhou-se ao espelho.; Não me convidas?; Ela nos chama.; Avisamo-lo a tempo.; Procuram-na
em toda parte.; Meu Deus, eu vos amo.; “Marchei resolutamente para a maluca e intimei-a a ficar
quieta.”; “Vós haveis de crescer, perder-vos-ei de vista.”
- Por qualquer pronome substantivo: Não vi ninguém na loja.; A árvore que plantei floresceu. (que:
objeto direto de plantei); Onde foi que você achou isso? Quando vira as folhas do livro, ela o faz com
cuidado.; “Que teria o homem percebido nos meus escritos?”
Frequentemente transitivam-se verbos intransitivos, dando-se-lhes por objeto direto uma palavra
cognata ou da mesma esfera semântica:
“Viveu José Joaquim Alves vida tranquila e patriarcal.” (Vivaldo Coaraci)
“Pela primeira vez chorou o choro da tristeza.” (Aníbal Machado)
“Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina.” (Machado de Assis)
Em tais construções é de rigor que o objeto venha acompanhado de um adjunto.
Objeto Direto Preposicionado: Há casos em que o objeto direto, isto é, o complemento de verbos
transitivos diretos, vem precedido de preposição, geralmente a preposição a. Isto ocorre principalmente:
- Quando o objeto direto é um pronome pessoal tônico: Deste modo, prejudicas a ti e a ela.; “Mas
dona Carolina amava mais a ele do que aos outros filhos.”; “Pareceu-me que Roberto hostilizava antes
a mim do que à ideia.”; “Ricardina lastimava o seu amigo como a si própria.”; “Amava-a tanto como a
nós”.
- Quando o objeto éo pronome relativo quem: “Pedro Severiano tinha um filho a quem idolatrava.”;
“Abraçou a todos; deu um beijo em Adelaide, a quem felicitou pelo desenvolvimento das suas graças.”;
“Agora sabia que podia manobrar com ele, com aquele homem a quem na realidade também temia,
como todos ali”.
- Quando precisamos assegurar a clareza da frase, evitando que o objeto direto seja tomado como
sujeito, impedindo construções ambíguas: Convence, enfim, ao pai o filho amado.; “Vence o mal ao
remédio.”; “Tratava-me sem cerimônia, como a um irmão.”; A qual delas iria homenagear o cavaleiro?
- Em expressões de reciprocidade, para garantir a clareza e a eufonia da frase: “Os tigres
despedaçam-se uns aos outros.”; “As companheiras convidavam-se umas às outras.”; “Era o abraço
de duas criaturas que só tinham uma à outra”.
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- Com nomes próprios ou comuns, referentes a pessoas, principalmente na expressão dos
sentimentos ou por amor da eufonia da frase: Judas traiu a Cristo.; Amemos a Deus sobre todas as
coisas. “Provavelmente, enganavam é a Pedro.”; “O estrangeiro foi quem ofendeu a Tupã”.
- Em construções enfáticas, nas quais antecipamos o objeto direto para dar-lhe realce: A você é que
não enganam!; Ao médico, confessor e letrado nunca enganes.; “A este confrade conheço desde os
seus mais tenros anos”.
- Sendo objeto direto o numeral ambos(as): “O aguaceiro caiu, molhou a ambos.”; “Se eu previsse
que os matava a ambos...”.
- Com certos pronomes indefinidos, sobretudo referentes a pessoas: Se todos são teus irmãos, por
que amas a uns e odeias a outros?; Aumente a sua felicidade, tornando felizes também aos outros.; A
quantos a vida ilude!.
- Em certas construções enfáticas, como puxar (ou arrancar) da espada, pegar da pena, cumprir com
o dever, atirar com os livros sobre a mesa, etc.: “Arrancam das espadas de aço fino...”; “Chegou a
costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha e entrou a
coser.”; “Imagina-se a consternação de Itaguaí, quando soube do caso.”
Observações: Nos quatro primeiros casos estudados a preposição é de rigor, nos cinco outros,
facultativa; A substituição do objeto direto preposicionado pelo pronome oblíquo átono, quando possível,
se faz com as formas o(s), a(s) e não lhe, lhes: amar a Deus (amá-lo); convencer ao amigo (convencê-
lo); O objeto direto preposicionado, é obvio, só ocorre com verbo transitivo direto; Podem resumir-se em
três as razões ou finalidades do emprego do objeto direto preposicionado: a clareza da frase; a
harmonia da frase; a ênfase ou a força da expressão.
Objeto Direto Pleonástico: Quando queremos dar destaque ou ênfase à idéia contida no objeto
direto, colocamo-lo no início da frase e depois o repetimos ou reforçamos por meio do pronome oblíquo.
A esse objeto repetido sob forma pronominal chama-se pleonástico, enfático ou redundante. Exemplos:
O dinheiro, Jaime o trazia escondido nas mangas da camisa.
O bem, muitos o louvam, mas poucos o seguem.
“Seus cavalos, ela os montava em pelo.” (Jorge Amado)
Objeto Indireto: É o complemento verbal regido de preposição necessária e sem valor
circunstancial. Representa, ordinariamente, o ser a que se destina ou se refere à ação verbal: “Nunca
desobedeci a meu pai”. O objeto indireto completa a significação dos verbos:
- Transitivos Indiretos: Assisti ao jogo; Assistimos à missa e à festa; Aludiu ao fato; Aspiro a uma
vida calma.
- Transitivos Diretos e Indiretos (na voz ativa ou passiva): Dou graças a Deus; Ceda o lugar aos
mais velhos; Dedicou sua vida aos doentes e aos pobres; Disse-lhe a verdade. (Disse a verdade ao
moço.)
O objeto indireto pode ainda acompanhar verbos de outras categorias, os quais, no caso, são
considerados acidentalmente transitivos indiretos: A bom entendedor meia palavra basta; Sobram-lhe
qualidades e recursos. (lhe=a ele); Isto não lhe convém; A proposta pareceu-lhe aceitável.
Observações: Há verbos que podem construir-se com dois objetos indiretos, regidos de preposições
diferentes: Rogue a Deus por nós.; Ela queixou-se de mim a seu pai.; Pedirei para ti a meu senhor
um rico presente; Não confundir o objeto direto com o complemento nominal nem com o adjunto
adverbial; Em frases como “Para mim tudo eram alegrias”, “Para ele nada é impossível”, os pronomes
em destaque podem ser considerados adjuntos adverbiais.
O objeto indireto é sempre regido de preposição, expressa ou implícita. A preposição está implícita
nos pronomes objetivos indiretos (átonos) me, te, se, lhe, nos, vos, lhes. Exemplos: Obedece-me.
(=Obedece a mim.); Isto te pertence. (=Isto pertence a ti.); Rogo-lhe que fique. (=Rogo a você...); Peço-
vos isto. (=Peço isto a vós.). Nos demais casos a preposição é expressa, como característica do objeto
indireto: Recorro a Deus.; Dê isto a (ou para) ele.; Contenta-se com pouco.; Ele só pensa em si.;
Esperei por ti.; Falou contra nós.; Conto com você.; Não preciso disto.; O filme a que assisti agradou
ao público.; Assisti ao desenrolar da luta.; A coisa de que mais gosto é pescar.; A pessoa a quem me
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refiro você a conhece.; Os obstáculos contra os quais luto são muitos.; As pessoas com quem conto
são poucas.
Como atestam os exemplos acima, o objeto indireto é representado pelos substantivos (ou
expressões substantivas) ou pelos pronomes. As preposições que o ligam ao verbo são: a, com, contra,
de, em, para e por.
Objeto Indireto Pleonástico: à semelhança do objeto direto, o objeto indireto pode vir repetido ou
reforçado, por ênfase. Exemplos: “A mim o que me deu foi pena.”; “Que me importa a mim o destino de
uma mulher tísica...? “E, aos brigões, incapazes de se moverem, basta-lhes xingarem-se a distância.”
Complemento Nominal: é o termo complementar reclamado pela significação transitiva, incompleta,
de certos substantivos, adjetivos e advérbios. Vem sempre regido de preposição. Exemplos: A defesa
da pátria; Assistência às aulas; “O ódio ao mal é amor do bem, e a ira contra o mal, entusiasmo
divino.”; “Ah, não fosse ele surdo à minha voz!”
Observações: O complemento nominal representa o recebedor, o paciente, o alvo da declaração
expressa por um nome: amor a Deus, a condenação da violência, o medo de assaltos, a remessa de
cartas, útil ao homem, compositor de músicas, etc. É regido pelas mesmas preposições usadas no
objeto indireto. Difere deste apenas porque, em vez de complementar verbos, complementa nomes
(substantivos, adjetivos) e alguns advérbios em –mente. Os nomes que requerem complemento nominal
correspondem, geralmente, a verbos de mesmo radical: amor ao próximo, amar o próximo; perdão das
injúrias, perdoar as injúrias; obediente aos pais, obedecer aos pais; regresso à pátria, regressar à
pátria; etc.
Agente da Passiva: é o complemento de um verbo na voz passiva. Representa o ser que pratica a
ação expressa pelo verbo passivo. Vem regido comumente pela preposição por, e menos
frequentemente pela preposição de: Alfredo é estimado pelos colegas; A cidade estava cercada pelo
exército romano; “Era conhecida de todo mundo a fama de suas riquezas.”
O agente da passiva pode ser expresso pelos substantivos ou pelos pronomes:
As flores são umedecidas pelo orvalho.
A carta foi cuidadosamente corrigida por mim.
Muitos já estavam dominados por ele.
O agente da passiva corresponde ao sujeito da oração na voz ativa:
A rainha era chamada pela multidão. (voz passiva)
A multidão aclamava a rainha. (voz ativa)
Ele será acompanhado por ti. (voz passiva)
Tu o acompanharás. (voz ativa)
Observações: Frase de forma passiva analítica sem complemento agente expresso, ao passar para a
ativa, terá sujeito indeterminado e o verbo na 3ª pessoa do plural: Ele foi expulso da cidade.
(Expulsaram-no da cidade.); As florestas são devastadas. (Devastam as florestas.); Na passivapronominal não se declara o agente: Nas ruas assobiavam-se as canções dele pelos pedestres.
(errado); Nas ruas eram assobiadas as canções dele pelos pedestres. (certo); Assobiavam-se as
canções dele nas ruas. (certo)
Termos Acessórios da Oração
Termos acessórios são os que desempenham na oração uma função secundária, qual seja a de
caracterizar um ser, determinar os substantivos, exprimir alguma circunstância. São três os termos
acessórios da oração: adjunto adnominal, adjunto adverbial e aposto.
Adjunto adnominal: É o termo que caracteriza ou determina os substantivos. Exemplo: Meu irmão
veste roupas vistosas. (Meu determina o substantivo irmão: é um adjunto adnominal – vistosas
caracteriza o substantivo roupas: é também adjunto adnominal).
O adjunto adnominal pode ser expresso: Pelos adjetivos: água fresca, terras férteis, animal feroz;
Pelos artigos: o mundo, as ruas, um rapaz; Pelos pronomes adjetivos: nosso tio, este lugar, pouco sal,
muitas rãs, país cuja história conheço, que rua?; Pelos numerais: dois pés, quinto ano, capítulo
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sexto; Pelas locuções ou expressões adjetivas que exprimem qualidade, posse, origem, fim ou outra
especificação:
- presente de rei (=régio): qualidade
- livro do mestre, as mãos dele: posse, pertença
- água da fonte, filho de fazendeiros: origem
- fio de aço, casa de madeira: matéria
- casa de ensino, aulas de inglês: fim, especialidade
- homem sem escrúpulos (=inescrupuloso): qualidade
- criança com febre (=febril): característica
- aviso do diretor: agente
Observações: Não confundir o adjunto adnominal formado por locução adjetiva com complemento
nominal. Este representa o alvo da ação expressa por um nome transitivo: a eleição do presidente,
aviso de perigo, declaração de guerra, empréstimo de dinheiro, plantio de árvores, colheita de trigo,
destruidor de matas, descoberta de petróleo, amor ao próximo, etc. O adjunto adnominal formado por
locução adjetiva representa o agente da ação, ou a origem, pertença, qualidade de alguém ou de
alguma coisa: o discurso do presidente, aviso de amigo, declaração do ministro, empréstimo do
banco, a casa do fazendeiro, folhas de árvores, farinha de trigo, beleza das matas, cheiro de
petróleo, amor de mãe.
Adjunto adverbial: É o termo que exprime uma circunstância (de tempo, lugar, modo, etc.) ou, em
outras palavras, que modifica o sentido de um verbo, adjetivo ou advérbio. Exemplo: “Meninas numa
tarde brincavam de roda na praça”. O adjunto adverbial é expresso: Pelos advérbios: Cheguei cedo.;
Ande devagar.; Maria é mais alta.; Não durma ao volante.; Moramos aqui.; Ele fala bem, fala
corretamente.; Volte bem depressa.; Talvez esteja enganado.; Pelas locuções ou expressões
adverbiais: Às vezes viajava de trem.; Compreendo sem esforço.; Saí com meu pai.; Júlio reside em
Niterói.; Errei por distração.; Escureceu de repente.
Observações: Pode ocorrer a elipse da preposição antes de adjuntos adverbiais de tempo e modo:
Aquela noite, não dormi. (=Naquela noite...); Domingo que vem não sairei. (=No domingo...); Ouvidos
atentos, aproximei-me da porta. (=De ouvidos atentos...); Os adjuntos adverbiais classificam-se de
acordo com as circunstâncias que exprimem: adjunto adverbial de lugar, modo, tempo, intensidade,
causa, companhia, meio, assunto, negação, etc. É importante saber distinguir adjunto adverbial de
adjunto adnominal, de objeto indireto e de complemento nominal: sair do mar (ad.adv.); água do mar
(adj.adn.); gosta do mar (obj.indir.); ter medo do mar (compl.nom.).
Aposto: É uma palavra ou expressão que explica ou esclarece, desenvolve ou resume outro termo
da oração. Exemplos:
D. Pedro II, imperador do Brasil, foi um monarca sábio.
“Nicanor, ascensorista, expôs-me seu caso de consciência.” (Carlos Drummond de Andrade)
“No Brasil, região do ouro e dos escravos, encontramos a felicidade.” (Camilo Castelo Branco)
“No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente.” (Mário de Andrade)
O núcleo do aposto é um substantivo ou um pronome substantivo:
Foram os dois, ele e ela.
Só não tenho um retrato: o de minha irmã.
O dia amanheceu chuvoso, o que me obrigou a ficar em casa.
O aposto não pode ser formado por adjetivos. Nas frases seguintes, por exemplo, não há aposto,
mas predicativo do sujeito:
Audaciosos, os dois surfistas atiraram-se às ondas.
As borboletas, leves e graciosas, esvoaçavam num balé de cores.
Os apostos, em geral, destacam-se por pausas, indicadas, na escrita, por vírgulas, dois pontos ou
travessões. Não havendo pausa, não haverá vírgula, como nestes exemplos:
Minha irmã Beatriz; o escritor João Ribeiro; o romance Tóia; o rio Amazonas; a Rua Osvaldo
Cruz; o Colégio Tiradentes, etc.
“Onde estariam os descendentes de Amaro vaqueiro?” (Graciliano Ramos)
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O aposto pode preceder o termo a que se refere, o qual, às vezes, está elíptico. Exemplos:
Rapaz impulsivo, Mário não se conteve.
Mensageira da ideia, a palavra é a mais bela expressão da alma humana.
“Irmão do mar, do espaço, amei as solidões sobre os rochedos ásperos.” (Cabral do Nascimento)
(refere-se ao sujeito oculto eu).
O aposto, às vezes, refere-se a toda uma oração. Exemplos:
Nuvens escuras borravam os espaços silenciosos, sinal de tempestade iminente.
O espaço é incomensurável, fato que me deixa atônito.
Simão era muito espirituoso, o que me levava a preferir sua companhia.
Um aposto pode referir-se a outro aposto:
“Serafim Gonçalves casou-se com Lígia Tavares, filha do velho coronel Tavares, senhor de
engenho.” (Ledo Ivo)
O aposto pode vir precedido das expressões explicativas isto é, a saber, ou da preposição acidental
como:
Dois países sul-americanos, isto é, a Bolívia e o Paraguai, não são banhados pelo mar.
Este escritor, como romancista, nunca foi superado.
O aposto que se refere a objeto indireto, complemento nominal ou adjunto adverbial vem precedido
de preposição:
O rei perdoou aos dois: ao fidalgo e ao criado.
“Acho que adoeci disso, de beleza, da intensidade das coisas.” (Raquel Jardim)
De cobras, morcegos, bichos, de tudo ela tinha medo.
Vocativo: (do latim vocare = chamar) é o termo (nome, título, apelido) usado para chamar ou
interpelar a pessoa, o animal ou a coisa personificada a que nos dirigimos:
“Elesbão? Ó Elesbão! Venha ajudar-nos, por favor!” (Maria de Lourdes Teixeira)
“A ordem, meus amigos, é a base do governo.” (Machado de Assis)
“Correi, correi, ó lágrimas saudosas!” (Fagundes Varela)
“Ei-lo, o teu defensor, ó Liberdade!” (Mendes Leal)
Observação: Profere-se o vocativo com entoação exclamativa. Na escrita é separado por vírgula(s).
No exemplo inicial, os pontos interrogativo e exclamativo indicam um chamado alto e prolongado. O
vocativo se refere sempre à 2ª pessoa do discurso, que pode ser uma pessoa, um animal, uma coisa
real ou entidade abstrata personificada. Podemos antepor-lhe uma interjeição de apelo (ó, olá, eh!):
“Tem compaixão de nós, ó Cristo!” (Alexandre Herculano)
“Ó Dr. Nogueira, mande-me cá o Padilha, amanhã!” (Graciliano Ramos)
“Esconde-te, ó sol de maio, ó alegria do mundo!” (Camilo Castelo Branco)
O vocativo é um tempo à parte. Não pertence à estrutura da oração, por isso não se anexa ao sujeito
nem ao predicado.
Questões
1. Em: “A terra era povoada de selvagens”, o termo grifado é:
(A) objeto direto;
(B) objeto indireto;
(C) agente da passiva;
(D) complemento nominal;
(E) adjunto adverbial.
2. Assinale a alternativa correta: “para todos os males, há dois remédios: o tempo e o silêncio”, os
termos grifados são respectivamente:
(A) sujeito – objeto direto;
(B) sujeito – aposto;
(C) objeto direto – aposto;
(D) objeto direto – objeto direto;
(E) objeto direto – complemento nominal.
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3. “Usando do direitoque lhe confere a Constituição”, as palavras grifadas exercem a função
respectivamente de:
(A) objeto direto – objeto direto;
(B) sujeito – objeto direto;
(C) objeto direto – sujeito;
(D) sujeito – sujeito;
(E) objeto direto – objeto indireto.
4. “Recebeu o prêmio o jogador que fez o gol”. Nessa frase o sujeito de “fez”?
(A) o prêmio;
(B) o jogador;
(C) que;
(D) o gol;
(E) recebeu.
5. Assinale a alternativa correspondente ao período onde há predicativo do sujeito:
(A) como o povo anda tristonho!
(B) agradou ao chefe o novo funcionário;
(C) ele nos garantiu que viria;
(D) no Rio não faltam diversões;
(E) o aluno ficou sabendo hoje cedo de sua aprovação.
6. Assinale a alternativa em que a expressão grifada tem a função de complemento nominal:
(A) a curiosidade do homem incentiva-o a pesquisa;
(B) a cidade de Londres merece ser conhecida por todos;
(C) o respeito ao próximo é dever de todos;
(D) o coitado do velho mendigava pela cidade;
(E) o receio de errar dificultava o aprendizado das línguas.
7. (UNIRIO - Analista de Tecnologia da Informação - Segurança da Informação - UNIRIO)
Texto 1
Escravidão
José Roberto Pinto de Góes
Uma fonte histórica importante no estudo da escravidão no Brasil são os “relatos de viajantes”,
geralmente de europeus que permaneciam algum tempo no Brasil e, depois, escreviam sobre o que
haviam visto (ou entendido) nesses trópicos. Existem em maior número para o século XIX. Todos se
espantaram com a onipresença da escravidão, dos escravos e de uma população livre, mulata e de cor
preta. O reverendo Roberto Walsh, por exemplo, que desembarcou no Rio de Janeiro em finais da
década de 1820, deixou o seguinte testemunho: "Estive apenas algumas horas em terra e pela primeira
vez pude observar um negro africano sob os quatro aspectos da sociedade. Pareceu-me que em cada
um deles seu caráter dependia da situação em que se encontrava e da consideração que tinham com
ele. Como um escravo desprezado era muito inferior aos animais de carga... soldado, o negro era
cuidadoso com a sua higiene pessoal, acessível à disciplina, hábil em seus treinamentos, com o porte e
a constituição de um homem branco na mesma situação. Como cidadão, chamava a atenção pela
aparência respeitável... E como padre... parecia até mais sincero em suas ideias, e mais correto em
suas maneiras, do que seus companheiros brancos”.
Em apenas algumas horas caminhando pelo Rio de Janeiro, Walsh pôde ver, pela primeira vez
(quantos lugares o reverendo terá visitado?), indivíduos de cor preta desempenhando diversos papéis:
escravo, soldado, cidadão e padre. Isso acontecia porque a alforria era muito mais recorrente aqui do
que em outras áreas escravistas da América, coisa que singularizou em muito a nossa história.
Robert Walsh escreveu que os escravos eram inferiores aos animais de carga. Se quis dizer com
isso que eram tratados e tidos como tal, acertou apenas pela metade. Tratados como animais de carga
eram mesmo, aos olhos do reverendo e aos nossos, de hoje em dia. Mas é muito improvável que tenha
sido esta a percepção dos proprietários de escravos. Não era. Eles sabiam que lidavam com seres
humanos e não com animais. Com animais tudo é fácil. A um cavalo, se o adestra. A outro homem, faz-
se necessário convencê-lo, todo santo dia, a se comportar como escravo. O chicote, o tronco, os ferros,
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o pelourinho, a concessão de pequenos privilégios e a esperança de um dia obter uma carta de alforria
ajudaram o domínio senhorial no Brasil. Mas, me valendo mais uma vez de Joaquim Nabuco, o que
contava mesmo, como ele disse, era a habilidade do senhor em infundir o medo, o terror, no espírito do
escravo.
O medo também era um sentimento experimentado pelos senhores, pois a qualquer hora tudo
poderia ir pelos ares, seja pela sabotagem no trabalho (imagine um canavial pegando fogo ou a
maquinaria do engenho quebrada), seja pelo puro e simples assassinato do algoz. Assim, uma espécie
de acordo foi o que ordenou as relações entre senhores e escravos. Desse modo, os escravos puderam
estabelecer limites relativos à proteção de suas famílias, de suas roças e de suas tradições culturais.
Quando essas coisas eram ignoradas pelo proprietário, era problema na certa, que resultava quase
sempre na fuga dos cativos. A contar contra a sorte dos escravos, porém, estava o tráfico transatlântico
intermitente, jogando mais e mais estrangeiros, novatos, na população escrava. O tráfico tornava muito
difícil que os limites estabelecidos pelos escravos à volúpia senhorial criassem raízes e virasse um
costume incontestável.
Fonte: GÓES, José Roberto Pinto de. Escravidão. [fragmento]. Biblioteca Nacional, Rede da Memória Virtual Brasileira. Disponível em
http://bndigital.bn.br/redememoria/escravidao.html. Acesso em ago. 2012.
Texto 2
A escrava Isaura
Bernardo Guimarães
Malvina aproximou-se de manso e sem ser pressentida para junto da cantora, colocando-se por
detrás dela esperou que terminasse a última copla.
-- Isaura!... disse ela pousando de leve a delicada mãozinha sobre o ombro da cantora.
-- Ah! é a senhora?! - respondeu Isaura voltando-se sobressaltada.
-- Não sabia que estava aí me escutando.
-- Pois que tem isso?.., continua a cantar... tens a voz tão bonita!... mas eu antes quisera que
cantasses outra coisa; por que é que você gosta tanto dessa cantiga tão triste, que você aprendeu não
sei onde?...
-- Gosto dela, porque acho-a bonita e porque... ah! não devo falar...
-- Fala, Isaura. Já não te disse que nada me deves esconder, e nada recear de mim?...
-- Porque me faz lembrar de minha mãe, que eu não conheci, coitada!... Mas se a senhora não gosta
dessa cantiga, não a cantarei mais. Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que és
maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima de senhores bárbaros e cruéis. Entretanto passas aqui
uma vida que faria inveja a muita gente livre. Gozas da estima de teus senhores. Deram-te uma
educação, como não tiveram muitas ricas e ilustres damas que eu conheço. És formosa, e tens uma cor
linda, que ninguém dirá que gira em tuas veias uma só gota de sangue africano. Bem sabes quanto
minha boa sogra antes de expirar te recomendava a mim e a meu marido. Hei de respeitar sempre as
recomendações daquela santa mulher, e tu bem vês, sou mais tua amiga do que tua senhora. Oh! não;
não cabe em tua boca essa cantiga lastimosa, que tanto gostas de cantar. -- Não quero, -- continuou em
tom de branda repreensão, -- não quero que a cantes mais, ouviste, Isaura?... se não, fecho-te o meu
piano.
-- Mas, senhora, apesar de tudo isso, que sou eu mais do que uma simples escrava? Essa
educação, que me deram, e essa beleza, que tanto me gabam, de que me servem?... são trastes de
luxo colocados na senzala do africano. A senzala nem por isso deixa de ser o que é: uma senzala.
-- Queixas-te da tua sorte, Isaura?...
-- Eu não, senhora; não tenho motivo... o que quero dizer com isto é que, apesar de todos esses
dotes e vantagens, que me atribuem, sei conhecer o meu lugar.
Fonte: GUIMARÃES, Bernardo. A Escrava Isaura. [1ª ed. 1875]. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro .
Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000057.pdf. Acesso em ago.2012
Texto 3
Cotas: continuidade da Abolição
Eloi Ferreira de Araújo
Sancionada em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi responsável pela libertação de cerca de um
milhão de escravos ainda existentes no País. Representou a longa campanha abolicionista de mais de
380 anos de lutas. No entanto, aos ex-cativos não foram assegurados os benefícios dados aos
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imigrantes, que tiveram a proteção especial do Estado Imperial e mais tarde da República. Foram mais
de 122 anos desde a abolição, sem que nenhuma política pública propiciasse a inclusãodos negros na
sociedade, os quais são cerca de 52% da população brasileira.
A primeira lei que busca fazer com que o Estado brasileiro inicie a longa caminhada para a
construção da igualdade de oportunidades entre negros e não negros só veio a ser sancionada, em
2010, depois de dez anos de tramitação. Trata-se do Estatuto da Igualdade Racial, que oferece as
possibilidades, através da incorporação das ações afirmativas ao quadro jurídico nacional, de reparar as
desigualdades que experimentam os pretos e pardos. Este segmento que compõe a nação tem em sua
ascendência aqueles que, com o trabalho escravo, foram responsáveis pela pujança do capitalismo
brasileiro, bem como são contribuintes marcantes da identidade nacional. Ressalte-se que não há
correspondência na apropriação dos bens econômicos e culturais por parte dos descendentes de
africanos na proporção de sua contribuição para o País.
O Supremo Tribunal Federal foi instado a decidir sobre a adoção de cotas para pretos e pardos no
ensino superior público, e também no privado, na medida em que o ProUni foi também levado a
julgamento. A mais alta Corte do país decidiu que estas ações afirmativas são constitucionais.
Estabeleceu assim, uma espécie de artigo 2º na Lei Áurea, para assegurar o ingresso de pretos e
pardos nas universidades públicas brasileiras, e reconheceu a constitucionalidade também do ProUni.
(...)
O Brasil tem coragem de olhar para o passado e lançar sem medo as sementes de construção de um
novo futuro. Desta forma, podemos interpretar que tivemos o fim da escravidão como o artigo primeiro
do marco legal. A educação com aprovação das cotas para ingresso no ensino superior como o artigo
segundo. Ainda faltam mais dispositivos que assegurem a terra e o trabalho com funções qualificadas.
Daí então, em poucas décadas, e com a implementação das ações afirmativas, teremos de fato um
Estado verdadeiramente democrático, em que todos, independentemente da cor da sua pele ou da sua
etnia, poderão fruir de bens econômicos e culturais em igualdade de oportunidades.
Fonte: Governo Federal. Fundação Cultural Palmares.
Disponível em http://www.palmares.gov.br/cotas-continuidade-da-abolicao/.
Acesso em ago. 201
O tráfico tornava muito difícil que os limites estabelecidos pelos escravos à volúpia senhorial
criassem raízes e virasse um costume incontestável
[Texto 1]
No período acima, a função sintática do adjetivo grifado é:
(A) Sujeito
(B) Objeto direto
(C) Predicativo do sujeito.
(D) Complemento nominal
(E) Predicativo do objeto direto
8. (TJ/SP - Assistente Social - VUNESP/2012)
Nas últimas três décadas, as milícias, organizações criminosas lideradas por policiais e ex- policiais,
vêm se alastrando no Rio de Janeiro. Elas avançaram sobre os domínios do tráfico, passaram a
comandar territórios da cidade e consolidaram seu poder à base do assistencialismo e do medo. Como
têm centenas de milhares de pessoas sob seu jugo, essas gangues de farda ganham força em períodos
eleitorais, quando são procuradas por candidatos em busca de apoio, arbitram sobre quem faz
campanha em seu pedaço e lançam nomes egressos de suas próprias fileiras.
(Veja, 26.09.2012. Adaptado)
Sabendo que o aposto é empregado para precisar, explicar um termo antecedente, assinale a
alternativa contendo passagem do texto com essa função.
(A) …quem faz campanha em seu pedaço…
(B) …nomes egressos de suas próprias fileiras.
(C) …centenas de milhares de pessoas sob seu jugo…
(D) …quando são procuradas por candidatos em busca de apoio…
(E) …organizações criminosas lideradas por policiais e ex-policiais…
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Respostas
01- E / 02- C / 03- E / 04- C / 05- A / 06- C
07- Resposta: E
O predicativo do objeto é o termo da oração que complementa e caracteriza, principalmente, o
objeto direto, atribuindo-lhe uma qualidade. Pode caracterizar também o objeto indireto, sendo contudo
mais raro, apenas utilizado com o verbo chamar. Aparece apenas com o predicado verbo-nominal.
A função de predicativo do objeto pode ser desempenhada:
- Por um adjetivo ou uma locução adjetiva:
Exemplos:
Ele a viu sorridente.
Todos acusaram-no de desmotivado.
- Por um substantivo:
Exemplos:
A direção elegeu-o presidente.
Todos chamam-lhe mãe.
Exemplos de predicativo do objeto direto:
Nós consideramos esta funcionária dispensável.
Ontem vi minha vizinha muito preocupada.
Exemplos de predicativo do objeto indireto:
Eu chamei-lhe de falsa.
Os alunos chamaram-lhe incompetente.
08- Resposta: E
APOSTO:
É o termo da oração que se refere a um substantivo, a um pronome ou a uma oração, para explicá-
los, ampliá-los, resumi-los ou identificá-los. Mais comumente o aposto é marcado por uma pausa entre
o termo que se refere, mas não é regra geral.
Exemplos:
• Àquela hora a avenida Brasil estava intransitável.
• O resto, isto é, as louças, os cristais e os talheres, irá nas caixas menores.
Período: Toda frase com uma ou mais orações constitui um período, que se encerra com ponto de
exclamação, ponto de interrogação ou com reticências.
O período é simples quando só traz uma oração, chamada absoluta; o período é composto quando
traz mais de uma oração. Exemplo: Pegou fogo no prédio. (Período simples, oração absoluta.); Quero
que você aprenda. (Período composto.)
Existe uma maneira prática de saber quantas orações há num período: é contar os verbos ou
locuções verbais. Num período haverá tantas orações quantos forem os verbos ou as locuções verbais
nele existentes. Exemplos:
Pegou fogo no prédio. (um verbo, uma oração)
Quero que você aprenda. (dois verbos, duas orações)
Está pegando fogo no prédio. (uma locução verbal, uma oração)
Deves estudar para poderes vencer na vida. (duas locuções verbais, duas orações)
Há três tipos de período composto: por coordenação, por subordinação e por coordenação e
subordinação ao mesmo tempo (também chamada de misto).
Período
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Período Composto por Coordenação – Orações Coordenadas
Considere, por exemplo, este período composto:
Passeamos pela praia, / brincamos, / recordamos os tempos de infância.
1ª oração: Passeamos pela praia
2ª oração: brincamos
3ª oração: recordamos os tempos de infância
As três orações que compõem esse período têm sentido próprio e não mantêm entre si nenhuma
dependência sintática: elas são independentes. Há entre elas, é claro, uma relação de sentido, mas,
como já dissemos, uma não depende da outra sintaticamente.
As orações independentes de um período são chamadas de orações coordenadas (OC), e o
período formado só de orações coordenadas é chamado de período composto por coordenação.
As orações coordenadas são classificadas em assindéticas e sindéticas.
- As orações coordenadas são assindéticas (OCA) quando não vêm introduzidas por conjunção.
Exemplo:
Os torcedores gritaram, / sofreram, / vibraram.
OCA OCA OCA
“Inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.” (Machado de Assis)
“A noite avança, há uma paz profunda na casa deserta.” (Antônio Olavo Pereira)
“O ferro mata apenas; o ouro infama, avilta, desonra.” (Coelho Neto)
- As orações coordenadas são sindéticas (OCS) quando vêm introduzidas por conjunção
coordenativa. Exemplo:
O homem saiu do carro / e entrou na casa.
OCA OCS
As orações coordenadas sindéticas são classificadas de acordo com o sentido expresso pelas
conjunções coordenativas que as introduzem. Pode ser:
- Orações coordenadas sindéticas aditivas: e, nem, não só... mas também, não só... mas ainda.
Saí da escola / e fui à lanchonete.
OCA OCS Aditiva
Observe que a 2ª oração vem introduzida por uma conjunção que expressa idéia de acréscimo ou
adição com referência à oração anterior,ou seja, por uma conjunção coordenativa aditiva.
A doença vem a cavalo e volta a pé.
As pessoas não se mexiam nem falavam.
“Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum ressentimento ficou dos atos
que ele praticara.” (Machado de Assis)
- Orações coordenadas sindéticas adversativas: mas, porém, todavia, contudo, entretanto, no
entanto.
Estudei bastante / mas não passei no teste.
OCA OCS Adversativa
Observe que a 2ª oração vem introduzida por uma conjunção que expressa idéia de oposição à
oração anterior, ou seja, por uma conjunção coordenativa adversativa.
A espada vence, mas não convence.
“É dura a vida, mas aceitam-na.” (Cecília Meireles)
Tens razão, contudo não te exaltes.
Havia muito serviço, entretanto ninguém trabalhava.
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- Orações coordenadas sindéticas conclusivas: portanto, por isso, pois, logo.
Ele me ajudou muito, / portanto merece minha gratidão.
OCA OCS Conclusiva
Observe que a 2ª oração vem introduzida por uma conjunção que expressa ideia de conclusão de
um fato enunciado na oração anterior, ou seja, por uma conjunção coordenativa conclusiva.
Vives mentindo; logo, não mereces fé.
Ele é teu pai: respeita-lhe, pois, a vontade.
Raimundo é homem são, portanto deve trabalhar.
- Orações coordenadas sindéticas alternativas: ou, ou... ou, ora... ora, seja... seja, quer... quer.
Seja mais educado / ou retire-se da reunião!
OCA OCS Alternativa
Observe que a 2ª oração vem introduzida por uma conjunção que estabelece uma relação de
alternância ou escolha com referência à oração anterior, ou seja, por uma conjunção coordenativa
alternativa.
Venha agora ou perderá a vez.
“Jacinta não vinha à sala, ou retirava-se logo.” (Machado de Assis)
“Em aviação, tudo precisa ser bem feito ou custará preço muito caro.” (Renato Inácio da Silva)
“A louca ora o acariciava, ora o rasgava freneticamente.” (Luís Jardim)
- Orações coordenadas sindéticas explicativas: que, porque, pois, porquanto.
Vamos andar depressa / que estamos atrasados.
OCA OCS Explicativa
Observe que a 2ª oração é introduzida por uma conjunção que expressa ideia de explicação, de
justificativa em relação à oração anterior, ou seja, por uma conjunção coordenativa explicativa.
Leve-lhe uma lembrança, que ela aniversaria amanhã.
“A mim ninguém engana, que não nasci ontem.” (Érico Veríssimo)
“Qualquer que seja a tua infância, conquista-a, que te abençoo.” (Fernando Sabino)
O cavalo estava cansado, pois arfava muito.
Questões
1. Relacione as orações coordenadas por meio de conjunções:
(A) Ouviu-se o som da bateria. Os primeiros foliões surgiram.
(B) Não durma sem cobertor. A noite está fria.
(C) Quero desculpar-me. Não consigo encontrá-los.
2. Em: “... ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas...” a partícula como
expressa uma ideia de:
(A) causa
(B) explicação
(C) conclusão
(D) proporção
(E) comparação
3. “Entrando na faculdade, procurarei emprego”, oração sublinhada pode indicar uma ideia de:
(A) concessão
(B) oposição
(C) condição
(D) lugar
(E) consequência
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4. Assinale a sequência de conjunções que estabelecem, entre as orações de cada item, uma correta
relação de sentido.
1. Correu demais, ... caiu.
2. Dormiu mal, ... os sonhos não o deixaram em paz.
3. A matéria perece, ... a alma é imortal.
4. Leu o livro, ... é capaz de descrever as personagens com detalhes.
5. Guarde seus pertences, ... podem servir mais tarde.
(A) porque, todavia, portanto, logo, entretanto
(B) por isso, porque, mas, portanto, que
(C) logo, porém, pois, porque, mas
(D) porém, pois, logo, todavia, porque
(E) entretanto, que, porque, pois, portanto
5. Reúna as três orações em um período composto por coordenação, usando conjunções
adequadas.
Os dias já eram quentes.
A água do mar ainda estava fria.
As praias permaneciam desertas.
6. No período "Penso, logo existo", oração em destaque é:
(A) coordenada sindética conclusiva
(B) coordenada sindética aditiva
(C) coordenada sindética alternativa
(D) coordenada sindética adversativa
(E) n.d.a
7. Por definição, oração coordenada que seja desprovida de conectivo é denominada assindética.
Observando os períodos seguintes:
I- Não caía um galho, não balançava uma folha.
II- O filho chegou, a filha saiu, mas a mãe nem notou.
III- O fiscal deu o sinal, os candidatos entregaram a prova. Acabara o exame.
Nota-se que existe coordenação assindética em:
(A) I apenas
(B) II apenas
(C) III apenas
(D) I e III
(E) nenhum deles
8. "Vivemos mais uma grave crise, repetitiva dentro do ciclo de graves crises que ocupa a energia
desta nação. A frustração cresce e a desesperança não cede. Empresários empurrados à condição de
liderança oficial se reúnem, em eventos como este, para lamentar o estado de coisas. O que dizer sem
resvalar para o pessimismo, a crítica pungente ou a auto absolvição?
É da história do mundo que as elites nunca introduziram mudanças que favorecessem a sociedade
como um todo. Estaríamos nos enganando se achássemos que estas lideranças empresariais aqui
reunidas teriam motivação para fazer a distribuição de poderes e rendas que uma nação equilibrada
precisa ter. Aliás, é ingenuidade imaginar que a vontade de distribuir renda passe pelo empobrecimento
da elite. É também ocioso pensar que nós, de tal elite, temos riqueza suficiente para distribuir. Faço
sempre, para meu desânimo, a soma do faturamento das nossas mil maiores e melhores empresas, e
chego a um número menor do que o faturamento de apenas duas empresas japonesas. Digamos, a
Mitsubishi e mais um pouquinho. Sejamos francos. Em termos mundiais somos irrelevantes como
potência econômica, mas o mesmo tempo extremamente representativos como população."
("Discurso de Semler aos empresários", Folha de São Paulo)
Dentre os períodos transcritos do texto acima, um é composto por coordenação e contém uma
oração coordenada sindética adversativa. Assinalar a alternativa correspondente a este período:
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(A) A frustração cresce e a desesperança não cede.
(B) O que dizer sem resvalar para o pessimismo, a crítica pungente ou a auto absolvição.
(C) É também ocioso pensar que nós, da tal elite, temos riqueza suficiente para distribuir.
(D) Sejamos francos.
(E) Em termos mundiais somos irrelevantes como potência econômica, mas ao mesmo tempo
extremamente representativos como população.
9. “O tédio, portanto, foi um produto de luxo, e isso até tão recentemente que Baudelaire, para, há
meio século e meio, descrevê-lo, comparou-se ao rei de um país chuvoso [...]” (linhas 33-35)
O termo destacado apresenta uma ideia de:
(A) causa.
(B) concessão.
(C) conclusão.
(D) consequência.
Respostas
01.
Ouviu-se o som da bateria e os primeiros foliões surgiram.
Não durma sem cobertor, pois a noite está fria.
Quero desculpar-me, mais consigo encontrá-los.
02. Resposta: E
A conjunção como exercer a função comparativa. Os amplos bocejos ouvidos são comparados à
força do marulhar das ondas.
03. Resposta: C
A condição necessária para procurar emprego é entrar na faculdade.
04. Resposta: B
Por isso – conjunção conclusiva.
Porque – conjunção explicativa.
Mas – conjunção adversativa.
Portanto – conjunção conclusiva.
Que – conjunção explicativa.
05. Os dias já eram quentes, mas a água do mar ainda estava fria, por isso as praias permaneciam
desertas.
06. Resposta: A
07. Resposta: D
08. Resposta: E
09. Resposta C
Conjunção é a palavra invariável que liga duas orações ou dois termos de uma mesma oração. Neste
caso a palavra “portanto” nos remete a umaoração coordenada conclusiva, que exprime ideia de
conclusão ou consequência entre as orações. São elas: logo, pois (posposto ao verbo), portanto, assim,
por isso, por conseguinte, então.
Período Composto por Subordinação
Observe os termos destacados em cada uma destas orações:
Vi uma cena triste. (adjunto adnominal)
Todos querem sua participação. (objeto direto)
Não pude sair por causa da chuva. (adjunto adverbial de causa)
Veja, agora, como podemos transformar esses termos em orações com a mesma função sintática:
Vi uma cena / que me entristeceu. (oração subordinada com função de adjunto adnominal)
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27
Todos querem / que você participe. (oração subordinada com função de objeto direto)
Não pude sair / porque estava chovendo. (oração subordinada com função de adjunto adverbial de
causa)
Em todos esses períodos, a segunda oração exerce uma certa função sintática em relação à
primeira, sendo, portanto, subordinada a ela. Quando um período é constituído de pelo menos um
conjunto de duas orações em que uma delas (a subordinada) depende sintaticamente da outra
(principal), ele é classificado como período composto por subordinação. As orações subordinadas são
classificadas de acordo com a função que exercem: adverbiais, substantivas e adjetivas.
Orações Subordinadas Adverbiais
As orações subordinadas adverbiais (OSA) são aquelas que exercem a função de adjunto
adverbial da oração principal (OP). São classificadas de acordo com a conjunção subordinativa que as
introduz:
- Causais: Expressam a causa do fato enunciado na oração principal. Conjunções: porque, que,
como (= porque), pois que, visto que.
Não fui à escola / porque fiquei doente.
OP OSA Causal
O tambor soa porque é oco.
Como não me atendessem, repreendi-os severamente.
Como ele estava armado, ninguém ousou reagir.
“Faltou à reunião, visto que esteve doente.” (Arlindo de Sousa)
- Condicionais: Expressam hipóteses ou condição para a ocorrência do que foi enunciado na
principal. Conjunções: se, contanto que, a menos que, a não ser que, desde que.
Irei à sua casa / se não chover.
OP OSA Condicional
Deus só nos perdoará se perdoarmos aos nossos ofensores.
Se o conhecesses, não o condenarias.
“Que diria o pai se soubesse disso?” (Carlos Drummond de Andrade)
A cápsula do satélite será recuperada, caso a experiência tenha êxito.
- Concessivas: Expressam ideia ou fato contrário ao da oração principal, sem, no entanto, impedir
sua realização. Conjunções: embora, ainda que, apesar de, se bem que, por mais que, mesmo que.
Ela saiu à noite / embora estivesse doente.
OP OSA Concessiva
Admirava-o muito, embora (ou conquanto ou posto que ou se bem que) não o conhecesse
pessoalmente.
Embora não possuísse informações seguras, ainda assim arriscou uma opinião.
Cumpriremos nosso dever, ainda que (ou mesmo quando ou ainda quando ou mesmo que)
todos nos critiquem.
Por mais que gritasse, não me ouviram.
- Conformativas: Expressam a conformidade de um fato com outro. Conjunções: conforme, como
(=conforme), segundo.
O trabalho foi feito / conforme havíamos planejado.
OP OSA Conformativa
O homem age conforme pensa.
Relatei os fatos como (ou conforme) os ouvi.
Como diz o povo, tristezas não pagam dívidas.
O jornal, como sabemos, é um grande veículo de informação.
- Temporais: Acrescentam uma circunstância de tempo ao que foi expresso na oração principal.
Conjunções: quando, assim que, logo que, enquanto, sempre que, depois que, mal (=assim que).
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Ele saiu da sala / assim que eu cheguei.
OP OSA Temporal
Formiga, quando quer se perder, cria asas.
“Lá pelas sete da noite, quando escurecia, as casas se esvaziam.” (Carlos Povina Cavalcânti)
“Quando os tiranos caem, os povos se levantam.” (Marquês de Maricá)
Enquanto foi rico, todos o procuravam.
- Finais: Expressam a finalidade ou o objetivo do que foi enunciado na oração principal. Conjunções:
para que, a fim de que, porque (=para que), que.
Abri a porta do salão / para que todos pudessem entrar.
OP OSA Final
“O futuro se nos oculta para que nós o imaginemos.” (Marquês de Maricá)
Aproximei-me dele a fim de que me ouvisse melhor.
“Fiz-lhe sinal que se calasse.” (Machado de Assis) (que = para que)
“Instara muito comigo não deixasse de frequentar as recepções da mulher.” (Machado de Assis)
(não deixasse = para que não deixasse)
- Consecutivas: Expressam a consequência do que foi enunciado na oração principal. Conjunções:
porque, que, como (= porque), pois que, visto que.
A chuva foi tão forte / que inundou a cidade.
OP OSA Consecutiva
Fazia tanto frio que meus dedos estavam endurecidos.
“A fumaça era tanta que eu mal podia abrir os olhos.” (José J. Veiga)
De tal sorte a cidade crescera que não a reconhecia mais.
As notícias de casa eram boas, de maneira que pude prolongar minha viagem.
- Comparativas: Expressam ideia de comparação com referência à oração principal. Conjunções:
como, assim como, tal como, (tão)... como, tanto como, tal qual, que (combinado com menos ou mais).
Ela é bonita / como a mãe.
OP OSA Comparativa
A preguiça gasta a vida como a ferrugem consome o ferro.” (Marquês de Maricá)
Ela o atraía irresistivelmente, como o imã atrai o ferro.
Os retirantes deixaram a cidade tão pobres como vieram.
Como a flor se abre ao Sol, assim minha alma se abriu à luz daquele olhar.
Obs.: As orações comparativas nem sempre apresentam claramente o verbo, como no exemplo
acima, em que está subentendido o verbo ser (como a mãe é).
- Proporcionais: Expressam uma ideia que se relaciona proporcionalmente ao que foi enunciado na
principal. Conjunções: à medida que, à proporção que, ao passo que, quanto mais, quanto menos.
Quanto mais reclamava / menos atenção recebia.
OSA Proporcional OP
À medida que se vive, mais se aprende.
À proporção que avançávamos, as casas iam rareando.
O valor do salário, ao passo que os preços sobem, vai diminuindo.
Orações Subordinadas Substantivas
As orações subordinadas substantivas (OSS) são aquelas que, num período, exercem funções
sintáticas próprias de substantivos, geralmente são introduzidas pelas conjunções integrantes que e se.
Elas podem ser:
- Oração Subordinada Substantiva Objetiva Direta: É aquela que exerce a função de objeto direto
do verbo da oração principal. Observe: O grupo quer a sua ajuda. (objeto direto)
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O grupo quer / que você ajude.
OP OSS Objetiva Direta
O mestre exigia que todos estivessem presentes. (= O mestre exigia a presença de todos.)
Mariana esperou que o marido voltasse.
Ninguém pode dizer: Desta água não beberei.
O fiscal verificou se tudo estava em ordem.
- Oração Subordinada Substantiva Objetiva Indireta: É aquela que exerce a função de objeto
indireto do verbo da oração principal. Observe: Necessito de sua ajuda. (objeto indireto)
Necessito / de que você me ajude.
OP OSS Objetiva Indireta
Não me oponho a que você viaje. (= Não me oponho à sua viagem.)
Aconselha-o a que trabalhe mais.
Daremos o prêmio a quem o merecer.
Lembre-se de que a vida é breve.
- Oração Subordinada Substantiva Subjetiva: É aquela que exerce a função de sujeito do verbo
da oração principal. Observe: É importante sua colaboração. (sujeito)
É importante / que você colabore.
OP OSS Subjetiva
A oração subjetiva geralmente vem:
- depois de um verbo de ligação + predicativo, em construções do tipo é bom, é útil, é certo, é
conveniente, etc.Ex.: É certo que ele voltará amanhã.
- depois de expressões na voz passiva, como sabe-se, conta-se, diz-se, etc. Ex.: Sabe-se que ele
saiu da cidade.
- depois de verbos como convir, cumprir, constar, urgir, ocorrer, quando empregados na 3ª pessoa
do singular e seguidos das conjunções que ou se. Ex.: Convém que todos participem da reunião.
É necessário que você colabore. (= Sua colaboração é necessária.)
Parece que a situação melhorou.
Aconteceu que não o encontrei em casa.
Importa que saibas isso bem.
- Oração Subordinada Substantiva Completiva Nominal: É aquela que exerce a função de
complemento nominal de um termo da oração principal. Observe: Estou convencido de sua inocência.
(complemento nominal)
Estou convencido / de que ele é inocente.
OP OSS Completiva Nominal
Sou favorável a que o prendam. (= Sou favorável à prisão dele.)
Estava ansioso por que voltasses.
Sê grato a quem te ensina.
“Fabiano tinha a certeza de que não se acabaria tão cedo.” (Graciliano Ramos)
- Oração Subordinada Substantiva Predicativa: É aquela que exerce a função de predicativo do
sujeito da oração principal, vindo sempre depois do verbo ser. Observe: O importante é sua felicidade.
(predicativo)
O importante é / que você seja feliz.
OP OSS Predicativa
Seu receio era que chovesse. (Seu receio era a chuva.)
Minha esperança era que ele desistisse.
Meu maior desejo agora é que me deixem em paz.
Não sou quem você pensa.
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- Oração Subordinada Substantiva Apositiva: É aquela que exerce a função de aposto de um
termo da oração principal. Observe: Ele tinha um sonho: a união de todos em benefício do país.
(aposto)
Ele tinha um sonho / que todos se unissem em benefício do país.
OP OSS Apositiva
Só desejo uma coisa: que vivam felizes. (Só desejo uma coisa: a sua felicidade)
Só lhe peço isto: honre o nosso nome.
“Talvez o que eu houvesse sentido fosse o presságio disto: de que virias a morrer...” (Osmã Lins)
“Mas diga-me uma cousa, essa proposta traz algum motivo oculto?” (Machado de Assis)
As orações apositivas vêm geralmente antecedidas de dois-pontos. Podem vir, também, entre
vírgulas, intercaladas à oração principal. Exemplo: Seu desejo, que o filho recuperasse a saúde,
tornou-se realidade.
Observação: Além das conjunções integrantes que e se, as orações substantivas podem ser
introduzidas por outros conectivos, tais como quando, como, quanto, etc. Exemplos:
Não sei quando ele chegou.
Diga-me como resolver esse problema.
Orações Subordinadas Adjetivas
As orações subordinadas Adjetivas (OSA) exercem a função de adjunto adnominal de algum
termo da oração principal. Observe como podemos transformar um adjunto adnominal em oração
subordinada adjetiva:
Desejamos uma paz duradoura. (adjunto adnominal)
Desejamos uma paz / que dure. (oração subordinada adjetiva)
As orações subordinadas adjetivas são sempre introduzidas por um pronome relativo (que , qual,
cujo, quem, etc.) e podem ser classificadas em:
- Subordinadas Adjetivas Restritivas: São restritivas quando restringem ou especificam o sentido
da palavra a que se referem. Exemplo:
O público aplaudiu o cantor / que ganhou o 1º lugar.
OP OSA Restritiva
Nesse exemplo, a oração que ganhou o 1º lugar especifica o sentido do substantivo cantor,
indicando que o público não aplaudiu qualquer cantor mas sim aquele que ganhou o 1º lugar.
Pedra que rola não cria limo.
Os animais que se alimentam de carne chamam-se carnívoros.
Rubem Braga é um dos cronistas que mais belas páginas escreveram.
“Há saudades que a gente nunca esquece.” (Olegário Mariano)
- Subordinadas Adjetivas Explicativas: São explicativas quando apenas acrescentam uma
qualidade à palavra a que se referem, esclarecendo um pouco mais seu sentido, mas sem restringi-lo
ou especificá-lo. Exemplo:
O escritor Jorge Amado, / que mora na Bahia, / lançou um novo livro.
OP OSA Explicativa OP
Deus, que é nosso pai, nos salvará.
Valério, que nasceu rico, acabou na miséria.
Ele tem amor às plantas, que cultiva com carinho.
Alguém, que passe por ali à noite, poderá ser assaltado.
Orações Reduzidas
Observe que as orações subordinadas eram sempre introduzidas por uma conjunção ou pronome
relativo e apresentavam o verbo numa forma do indicativo ou do subjuntivo. Além desse tipo de orações
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subordinadas há outras que se apresentam com o verbo numa das formas nominais (infinitivo, gerúndio
e particípio). Exemplos:
- Ao entrar nas escola, encontrei o professor de inglês. (infinitivo)
- Precisando de ajuda, telefone-me. (gerúndio)
- Acabado o treino, os jogadores foram para o vestiário. (particípio)
As orações subordinadas que apresentam o verbo numa das formas nominais são chamadas de
reduzidas.
Para classificar a oração que está sob a forma reduzida, devemos procurar desenvolvê-la do
seguinte modo: colocamos a conjunção ou o pronome relativo adequado ao sentido e passamos o
verbo para uma forma do indicativo ou subjuntivo, conforme o caso. A oração reduzida terá a mesma
classificação da oração desenvolvida.
Ao entrar na escola, encontrei o professor de inglês.
Quando entrei na escola, / encontrei o professor de inglês.
OSA Temporal
Ao entrar na escola: oração subordinada adverbial temporal, reduzida de infinitivo.
Precisando de ajuda, telefone-me.
Se precisar de ajuda, / telefone-me.
OSA Condicional
Precisando de ajuda: oração subordinada adverbial condicional, reduzida de gerúndio.
Acabado o treino, os jogadores foram para o vestiário.
Assim que acabou o treino, / os jogadores foram para o vestiário.
OSA Temporal
Acabado o treino: oração subordinada adverbial temporal, reduzida de particípio.
Observações:
- Há orações reduzidas que permitem mais de um tipo de desenvolvimento. Há casos também de
orações reduzidas fixas, isto é, orações reduzidas que não são passíveis de desenvolvimento. Exemplo:
Tenho vontade de visitar essa cidade.
- O infinitivo, o gerúndio e o particípio não constituem orações reduzidas quando fazem parte de uma
locução verbal. Exemplos:
Preciso terminar este exercício.
Ele está jantando na sala.
Essa casa foi construída por meu pai.
- Uma oração coordenada também pode vir sob a forma reduzida. Exemplo:
O homem fechou a porta, saindo depressa de casa.
O homem fechou a porta e saiu depressa de casa. (oração coordenada sindética aditiva)
Saindo depressa de casa: oração coordenada reduzida de gerúndio.
Qual é a diferença entre as orações coordenadas explicativas e as orações subordinadas causais, já
que ambas podem ser iniciadas por que e porque? Às vezes não é fácil estabelecer a diferença entre
explicativas e causais, mas como o próprio nome indica, as causais sempre trazem a causa de algo que
se revela na oração principal, que traz o efeito.
Note-se também que há pausa (vírgula, na escrita) entre a oração explicativa e a precedente e que
esta é, muitas vezes, imperativa, o que não acontece com a oração adverbial causal. Essa noção de
causa e efeito não existe no período composto por coordenação. Exemplo: Rosa chorou porque levou
uma surra. Está claro que a oração iniciada pela conjunção é causal, visto que a surra foi sem dúvida a
causa do choro, que é efeito.
Rosa chorou, porque seus olhos estão vermelhos. O período agora é composto por coordenação,
pois a oração iniciada pela conjunção traz a explicação daquilo que se revelou na coordena anterior.
Não existe aí relação de causa e efeito: o fato de os olhos de Elisa estarem vermelhos não é causa de
ela ter chorado.
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Ela fala / como falaria / se entendesse do assunto.
OP OSA Comparativa OSA Condicional
Questões
1. Na frase: "Maria do Carmo tinha a certeza de que estava para ser mãe", a oração destacada é:
(A) subordinada substantiva objetiva indireta
(B) subordinada substantiva completiva nominal
(C) subordinada substantiva predicativa
(D) coordenada sindética conclusiva
(E) coordenada sindética explicativa
2. "Na ‘Partida Monção’, não há uma atitude inventada. Há reconstituição de uma cena como ela
devia ter sido na realidade." A oração sublinhada é:
(A) adverbial conformativa
(B) adjetiva
(C) adverbial consecutiva
(D) adverbial proporcional
(E) adverbial causal
3. No seguinte grupo de orações destacadas:
1. É bom que você venha.
2. Chegados que fomos, entramos na escola.
3. Não esqueças que é falível.
Temos orações subordinadas, respectivamente:
(A) objetiva direta, adverbial temporal, subjetiva
(B) subjetiva, objetiva direta, objetiva direta
(C) objetiva direta, subjetiva, adverbial temporal
(D) subjetiva, adverbial temporal, objetiva direta
(E) predicativa, objetiva direta, objetiva indireta
4. A palavra "se" é conjunção integrante (por introduzir oração subordinada substantiva objetiva
direta) em qual das orações seguintes?
(A) Ele se mordia de ciúmes pelo patrão.
(B) A Federação arroga-se o direito de cancelar o jogo.
(C) O aluno fez-se passar por doutor.
(D) Precisa-se de operários.
(E) Não sei se o vinho está bom.
5. "Lembro-me de que ele só usava camisas brancas." A oração sublinhada é:
(A) subordinada substantiva completiva nominal
(B) subordinada substantiva objetiva indireta
(C) subordinada substantiva predicativa
(D) subordinada substantiva subjetiva
(E) subordinada substantiva objetiva direta
6. Neste período "não bate para cortar", a oração "para cortar" em relação a "não bate", é:
(A) a causa
(B) o modo
(C) a consequência
(D) a explicação
(E) a finalidade
7. Em todos os períodos há orações subordinadas substantivas, exceto em:
(A) O fato era que a escravatura do Santa Fé não andava nas festas do Pilar, não vivia no coco como
a do Santa Rosa.
(B) Não lhe tocara no assunto, mas teve vontade de tomar o trem e ir valer-se do presidente.
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(C) Um dia aquele Lula faria o mesmo com a sua filha, faria o mesmo com o engenho que ele
fundara com o suor de seu rosto.
(D) O oficial perguntou de onde vinha, e se não sabia notícias de Antônio Silvino.
(E) Era difícil para o ladrão procurar os engenhos da várzea, ou meter-se para os lados de Goiana
8. Em - "Há enganos que nos deleitam", a oração grifada é:
(A) substantiva subjetiva
(B) substantiva objetiva direta
(C) substantiva completiva nominal
(D) substantiva apositiva
(E) adjetiva restritiva
9. “O governo afirma que a inflação está sob controle; mas, considerando o aumento de preços no
varejo, essa afirmação parece eleitoreira”, a frase sublinhada tem valor semântico de:
(A) tempo;
(B) modo;
(C) comparação;
(D) condição;
(E) concessão.
10. “Elas jogam milhões de toneladas de sedimentos no rio, inviabilizando sua navegabilidade.” (4º
parágrafo) A oração grifada acima denota, considerando-se o contexto,
(A) causa.
(B) ressalva.
(C) consequência.
(D) temporalidade.
(E) proporcionalidade.
Respostas
01. (B) / 02. (A) / 03. (D) / 04. (E) / 05. (B) / 06. (E) / 07. (C) / 08. (E)
09. Resposta: D
A oração reduzida de gerúndio poderia ser substituída por: se considerarmos o aumento de preços
no varejo. São denominadas orações reduzidas aquelas que apresentam o verbo numa das formas
nominais, ou seja, infinitivo, gerúndio e particípio. As orações reduzidas de formas nominais podem, em
geral, ser desenvolvidas em orações subordinadas. Essas orações são classificadas como as
desenvolvidas correspondentes. As orações reduzidas não são introduzidas por conectivo. No caso de
se fazer uso de locução verbal, o auxiliar indica se trata de oração reduzida ou não.
10. Resposta: C
No período composto por subordinação sempre aparecem dois tipos de oração: oração principal e
oração subordinada. As orações adverbiais, isto é, aquelas que equivalem a advérbios em relação a
outra oração. Os adjuntos adverbiais são termos acessórios das orações; são determinantes. Os
determinantes adverbiais acrescentam "ao predicado o esclarecimento de lugar, tempo, modo etc." E as
orações adverbiais consecutivas são aquelas que são introduzidas por um termo intensivo que vem em
seguida à oração principal, acrescentando-lhe ideias e explicações, ou completando-a, ou tirando uma
conclusão.
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Interpretação
A literatura é a arte de recriar através da língua escrita. Sendo assim, temos vários tipos de gêneros
textuais, formas de escrita; mas a grande dificuldade encontrada pelas pessoas é a interpretação de
textos. Muitos dizem que não sabem interpretar, ou que é muito difícil. Se você tem pouca leitura,
consequentemente terá pouca argumentação, pouca visão, pouco ponto de vista e um grande medo de
interpretar. A interpretação é o alargamento dos horizontes. E esse alargamento acontece justamente
quando há leitura. Somos fragmentos de nossos escritos, de nossos pensamentos, de nossas histórias,
muitas vezes contadas por outros. Quantas vezes você não leu algo e pensou: “Nossa, ele disse tudo
que eu penso”. Com certeza, várias vezes. Temos aí a identificação de nossos pensamentos com os
pensamentos dos autores, mas para que aconteça, pelo menos não tenha preguiça de pensar, refletir,
formar ideias e escrever quando puder e quiser.
Tornar-se, portanto, alguém que escreve e que lê em nosso país é uma tarefa árdua, mas acredite,
valerá a pena para sua vida futura. Mesmo que você diga que interpretar é difícil, você exercita isso a
todo o momento. Exercita através de sua leitura de mundo. A todo e qualquer tempo, em nossas vidas,
interpretamos, argumentamos, expomos nossos pontos de vista. Mas, basta o(a) professor(a) dizer
“Vamos agora interpretar esse texto” para que as pessoas se calem. Ninguém sabe o que calado quer,
pois ao se calar você perde oportunidades valiosas de interagir e crescer no conhecimento. Perca o
medo de expor suas ideias. Faça isso como um exercício diário e verá que antes que pense, o medo
terá ido embora.
Texto – é um conjunto de ideias organizadas e relacionadas entre si, formando um todo significativo
capaz de produzir interação comunicativa (capacidade de codificar e decodificar).
Contexto – um texto é constituído por diversas frases. Em cada uma delas, há certa informação que
a faz ligar-se com a anterior e/ou com a posterior, criando condições para a estruturação do conteúdo a
ser transmitido. A essa interligação dá-se o nome de contexto. Nota-se que o relacionamento entre as
frases é tão grande, que, se uma frase for retirada de seu contexto original e analisada separadamente,
poderá ter um significado diferente daquele inicial.
Intertexto - comumente, os textos apresentam referências diretas ou indiretas a outros autores
através de citações. Esse tipo de recurso denomina-se intertexto.
Interpretação de Texto - o primeiro objetivo de uma interpretação de um texto é a identificação de
sua ideia principal. A partir daí, localizam-se as ideias secundárias, ou fundamentações, as
argumentações, ou explicações, que levem ao esclarecimento das questões apresentadas na prova.
Normalmente, numa prova, o candidato é convidado a:
Identificar - reconhecer os elementos fundamentais de uma argumentação, de um processo, de uma
época (neste caso, procuram-se os verbos e os advérbios, os quais definem o tempo).
Comparar - descobrir as relações de semelhança ou de diferenças entre as situações do texto.
Comentar - relacionar o conteúdoapresentado com uma realidade, opinando a respeito.
1.3. Análise e a Interpretação do Texto Segundo o Gênero em que
se Inscreve (poesia, ficção, crônica, texto jornalístico, texto teatral,
canção popular, charge, tira, etc.)
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Resumir - concentrar as ideias centrais e/ou secundárias em um só parágrafo.
Parafrasear - reescrever o texto com outras palavras.
Exemplo
Título do Texto Paráfrases
“O Homem Unido”
A integração do mundo.
A integração da humanidade.
A união do homem.
Homem + Homem = Mundo.
A macacada se uniu. (sátira)
Condições Básicas para Interpretar
Faz-se necessário:
- Conhecimento Histórico – literário (escolas e gêneros literários, estrutura do texto), leitura e prática.
- Conhecimento gramatical, estilístico (qualidades do texto) e semântico. Na semântica (significado
das palavras) incluem-se: homônimos e parônimos, denotação e conotação, sinonímia e antonímia,
polissemia, figuras de linguagem, entre outros.
- Capacidade de observação e de síntese.
- Capacidade de raciocínio.
Interpretar X Compreender
Interpretar Significa Compreender Significa
Explicar, comentar, julgar, tirar conclusões,
deduzir.
Tipos de enunciados:
- através do texto, infere-se que...
- é possível deduzir que...
- o autor permite concluir que...
- qual é a intenção do autor ao afirmar
que...
Intelecção, entendimento, atenção ao que realmente está
escrito.
Tipos de enunciados:
- o texto diz que...
- é sugerido pelo autor que...
- de acordo com o texto, é correta ou errada a afirmação...
- o narrador afirma...
Erros de Interpretação
É muito comum, mais do que se imagina, a ocorrência de erros de interpretação. Os mais frequentes
são:
- Extrapolação (viagem). Ocorre quando se sai do contexto, acrescentado ideias que não estão no
texto, quer por conhecimento prévio do tema quer pela imaginação.
- Redução. É o oposto da extrapolação. Dá-se atenção apenas a um aspecto, esquecendo que um
texto é um conjunto de ideias, o que pode ser insuficiente para o total do entendimento do tema
desenvolvido.
- Contradição. Não raro, o texto apresenta ideias contrárias às do candidato, fazendo-o tirar
conclusões equivocadas e, consequentemente, errando a questão.
Observação: Muitos pensam que há a ótica do escritor e a ótica do leitor. Pode ser que existam, mas
numa prova de concurso o que deve ser levado em consideração é o que o autor diz e nada mais.
Coesão - é o emprego de mecanismo de sintaxe que relacionam palavras, orações, frases e/ou
parágrafos entre si. Em outras palavras, a coesão dá-se quando, através de um pronome relativo, uma
conjunção (nexos), ou um pronome oblíquo átono, há uma relação correta entre o que se vai dizer e o
que já foi dito. São muitos os erros de coesão no dia a dia e, entre eles, está o mau uso do pronome
relativo e do pronome oblíquo átono. Este depende da regência do verbo; aquele do seu antecedente.
Não se pode esquecer também de que os pronomes relativos têm cada um valor semântico, por isso a
necessidade de adequação ao antecedente. Os pronomes relativos são muito importantes na
interpretação de texto, pois seu uso incorreto traz erros de coesão. Assim sendo, deve-se levar em
consideração que existe um pronome relativo adequado a cada circunstância, a saber:
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Que (neutro) - relaciona-se com qualquer antecedente. Mas depende das condições da frase.
Qual (neutro) idem ao anterior.
Quem (pessoa).
Cujo (posse) - antes dele, aparece o possuidor e depois, o objeto possuído.
Como (modo).
Onde (lugar).
Quando (tempo).
Quanto (montante).
Exemplo:
Falou tudo quanto queria (correto).
Falou tudo que queria (errado - antes do que, deveria aparecer o demonstrativo o).
Vícios de Linguagem – há os vícios de linguagem clássicos (barbarismo, solecismo, cacofonia...);
no dia a dia, porém, existem expressões que são mal empregadas, e por força desse hábito cometem-
se erros graves como:
- “Ele correu risco de vida”, quando a verdade o risco era de morte.
- “Senhor professor, eu lhe vi ontem”. Neste caso, o pronome oblíquo átono correto é “o”.
- “No bar: Me vê um café”. Além do erro de posição do pronome, há o mau uso.
Algumas dicas para interpretar um texto:
- O autor escreveu com uma intenção - tentar descobrir qual é, qual é a chave.
- Leia todo o texto uma primeira vez de forma despreocupada - assim você verá apenas os aspectos
superficiais primeiro.
- Na segunda leitura observe os detalhes, visualize em sua mente o cenário, os personagens -
Quanto mais real for a leitura na sua mente, mais fácil será para interpretar o texto.
- Duvide do(a) autor(a), leia as entrelinhas, perceba o que o(a) autor(a) te diz sem escrever no texto.
- Não tenha medo de opinar - Já vi terem medo de dizer o que achavam e a resposta estaria correta
se tivessem dito.
- Visualize vários caminhos, várias opções e interpretações, só não viaje muito na interpretação. Veja
os caminhos apontados pela escrita do(a) autor(a). Apegue-se aos caminhos que lhe são mostrados.
- Identifique as características físicas e psicológicas dos personagens - Se um determinado
personagem tem como característica ser mentiroso, por exemplo, o que ele diz no texto poderá ser
mentira não é mesmo? Analisar e identificar os personagens são pontos necessários para uma boa
interpretação de texto.
- Observe a linguagem, o tempo e espaço, a sequência dos acontecimentos. O feedback conta muito
na hora de interpretar.
- Analise os acontecimentos de acordo com a época do texto, assim, certas contradições ou
estranhamentos vistos por você podem ser apenas a cultura da época sendo demonstrada.
- Leia quantas vezes achar que deve - Não entendeu? Leia de novo. Nem todo dia estamos
concentrados e a rapidez na leitura vem com o hábito.
Para ler e entender um texto é preciso atingir dois níveis de leitura: Informativa e de reconhecimento;
Interpretativa:
A primeira leitura deve ser feita cuidadosamente por ser o primeiro contato com o texto, extraindo-se
informações e se preparando para a leitura interpretativa. Durante a interpretação grife palavras-chave,
passagens importantes; tente ligar uma palavra à ideia-central de cada parágrafo. A última fase de
interpretação concentra-se nas perguntas e opções de respostas. Marque palavras com não, exceto,
respectivamente, etc., pois fazem diferença na escolha adequada. Retorne ao texto mesmo que pareça
ser perda de tempo. Leia a frase anterior e posterior para ter ideia do sentido global proposto pelo autor.
Organização do Texto e Ideia Central
Um texto para ser compreendido deve apresentar ideias seletas e organizadas, através dos
parágrafos que é composto pela ideia central, argumentação e/ou desenvolvimento e a conclusão do
texto. Podemos desenvolver um parágrafo de várias formas:
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- Declaração inicial;
- Definição;
- Divisão;
- Alusão histórica.
Serve para dividir o texto em pontos menores, tendo em vista os diversos enfoques.
Convencionalmente, o parágrafo é indicado através da mudança de linha e um espaçamento da
margem esquerda. Uma das partes bem distintas do parágrafo é o tópico frasal, ou seja, a ideia central
extraída de maneira clara e resumida. Atentando-se para a ideia principal de cada parágrafo,
asseguramos um caminho que nos levará à compreensão do texto.
Os Tipos de Texto
Basicamente existem três tipos de texto:
- Texto narrativo;
- Texto descritivo;
- Texto dissertativo.
Cada um desses textos possui características próprias de construção, que veremos no tópico
seguinte (Tipologia Textual).
É comum encontrarmos queixas de que não sabem interpretar textos. Muitos têm aversão a
exercícios nessa categoria. Acham monótono, sem graça, e outras vezes dizem:cada um tem o seu
próprio entendimento do texto ou cada um interpreta a sua maneira. No texto literário, essa ideia tem
algum fundamento, tendo em vista a linguagem conotativa, os símbolos criados, mas em texto não
literário isso é um equívoco. Diante desse problema, seguem algumas dicas para você analisar,
compreender e interpretar com mais proficiência.
- Crie o hábito da leitura e o gosto por ela. Quando nós passamos a gostar de algo, compreendemos
melhor seu funcionamento. Nesse caso, as palavras tornam-se familiares a nós mesmos. Não se deixe
levar pela falsa impressão de que ler não faz diferença. Leia tudo que tenha vontade, com o tempo você
se tornará mais seleto e perceberá que algumas leituras foram superficiais e, às vezes, até ridículas.
Porém elas foram o ponto de partida e o estímulo para se chegar a uma leitura mais refinada. Existe
tempo para cada momento de nossas vidas.
- Seja curioso, investigue as palavras que circulam em seu meio.
- Aumente seu vocabulário e sua cultura. Além da leitura, um bom exercício para ampliar o léxico é
fazer palavras cruzadas.
- Faça exercícios de sinônimos e antônimos.
- Leia verdadeiramente.
- Leia algumas vezes o texto, pois a primeira impressão pode ser falsa. É preciso paciência para ler
outras vezes. Antes de responder as questões, retorne ao texto para sanar as dúvidas.
- Atenção ao que se pede. Às vezes a interpretação está voltada a uma linha do texto e por isso você
deve voltar ao parágrafo para localizar o que se afirma. Outras vezes, a questão está voltada à ideia
geral do texto.
- Fique atento a leituras de texto de todas as áreas do conhecimento, porque algumas perguntas
extrapolam ao que está escrito. Veja um exemplo disso:
Texto:
Pode dizer-se que a presença do negro representou sempre fator obrigatório no desenvolvimento
dos latifúndios coloniais. Os antigos moradores da terra foram, eventualmente, prestimosos
colaboradores da indústria extrativa, na caça, na pesca, em determinados ofícios mecânicos e na
criação do gado. Dificilmente se acomodavam, porém, ao trabalho acurado e metódico que exige a
exploração dos canaviais. Sua tendência espontânea era para as atividades menos sedentárias e que
pudessem exercer-se sem regularidade forçada e sem vigilância e fiscalização de estranhos.
(Sérgio Buarque de Holanda, in Raízes)
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Infere-se do texto que os antigos moradores da terra eram:
(A) os portugueses.
(B) os negros.
(C) os índios.
(D) tanto os índios quanto aos negros.
(E) a miscigenação de portugueses e índios.
(Aquino, Renato. Interpretação de textos, 2ª edição. Rio de Janeiro: Impetus, 2003.)
Resposta “C”. Apesar do autor não ter citado o nome dos índios, é possível concluir pelas
características apresentadas no texto. Essa resposta exige conhecimento que extrapola o texto.
- Tome cuidado com as vírgulas. Veja por exemplo a diferença de sentido nas frases a seguir:
(1) Só, o Diego da M110 fez o trabalho de artes.
(2) Só o Diego da M110 fez o trabalho de artes.
(3) Os alunos dedicados passaram no vestibular.
(4) Os alunos, dedicados, passaram no vestibular.
(5) Marcão, canta Garçom, de Reginaldo Rossi.
(6) Marcão canta Garçom, de Reginaldo Rossi.
Explicações:
(1) Diego fez sozinho o trabalho de artes.
(2) Apenas o Diego fez o trabalho de artes.
(3) Havia, nesse caso, alunos dedicados e não dedicados e passaram no vestibular somente os que
se dedicaram, restringindo o grupo de alunos.
(4) Nesse outro caso, todos os alunos eram dedicados.
(5) Marcão é chamado para cantar.
(6) Marcão pratica a ação de cantar.
Leia o trecho e analise a afirmação que foi feita sobre ele:
“Sempre fez parte do desafio do magistério administrar adolescentes com hormônios em ebulição e
com o desejo natural da idade de desafiar as regras. A diferença é que, hoje, em muitos casos, a
relação comercial entre a escola e os pais se sobrepõe à autoridade do professor”.
Frase para análise.
Desafiar as regras é uma atitude própria do adolescente das escolas privadas. E esse é o grande
desafio do professor moderno.
- Não é mencionado que a escola seja da rede privada.
- O desafio não é apenas do professor atual, mas sempre fez parte do desafio do magistério. Outra
questão é que o grande desafio não é só administrar os desafios às regras, isso é parte do desafio, há
também os hormônios em ebulição que fazem parte do desafio do magistério.
- Atenção ao uso da paráfrase (reescrita do texto sem prejuízo do sentido original). Veja o exemplo:
Frase original: Estava eu hoje cedo, parado em um sinal de trânsito, quando olho na esquina,
próximo a uma porta, uma loirona a me olhar e eu olhava também.
(Concurso TRE/SC) A frase parafraseada é:
(A) Parado em um sinal de trânsito hoje cedo, numa esquina, próximo a uma porta, eu olhei para
uma loira e ela também me olhou.
(B) Hoje cedo, eu estava parado em um sinal de trânsito, quando ao olhar para uma esquina, meus
olhos deram com os olhos de uma loirona.
(C) Hoje cedo, estava eu parado em um sinal de trânsito quando vi, numa esquina, próxima a uma
porta, uma louraça a me olhar.
(D) Estava eu hoje cedo parado em um sinal de trânsito, quando olho na esquina, próximo a uma
porta, vejo uma loiraça a me olhar também.
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Resposta “C”.
- A paráfrase pode ser construída de várias formas, veja algumas delas: substituição de locuções por
palavras; uso de sinônimos; mudança de discurso direto por indireto e vice-versa; converter a voz ativa
para a passiva; emprego de antonomásias ou perífrases (Rui Barbosa = A águia de Haia; o povo
lusitano = portugueses).
Observe a mudança de posição de palavras ou de expressões nas frases. Exemplos:
- Certos alunos no Brasil não convivem com a falta de professores.
- Alunos certos no Brasil não convivem com a falta de professores.
- Os alunos determinados pediram ajuda aos professores.
- Determinados alunos pediram ajuda aos professores.
Explicações:
- Certos alunos = qualquer aluno.
- Alunos certos = aluno correto.
- Alunos determinados = alunos decididos.
- Determinados alunos = qualquer aluno.
Questões
01. (PM/BA - Soldado da Polícia Militar - FCC - PM/BA - Soldado da Polícia Militar)
Desde o desenvolvimento da linguagem, há 5.000 anos, a espécie humana passou a ter seu
caminho evolutivo direcionado pela cultura, cujos impulsos foram superando a limitação da biologia e os
açoites da natureza. Foi pela capacidade de pensar e de se comunicar que a humanidade obteve os
meios para escapar da fome e da morte prematura.
O atual empuxo tecnológico se acelerou de tal forma que alguns felizardos com acesso a todos os
recursos disponíveis na vanguarda dos avanços médicos, biológicos, tecnológicos e metabólicos podem
realisticamente pensar em viver em boa saúde mental e física bem mais do que 100 anos. O prolon-
gamento da vida saudável, em razão de uma velhice sem doenças, já foi só um exercício de visionários.
Hoje é um campo de pesquisa dos mais sérios e respeitados.
Robert Fogel, o principal formulador do conceito da evolução tecnofísica, e outros estudiosos estão
projetando os limites dessa fabulosa caminhada cultural na qualidade de vida dos seres humanos.
Quando se dedicam a essa tarefa, os estudiosos esbarram, em primeiro lugar, nas desigualdades de
renda e de acesso às inovações. Fazem parte das conjecturas dos estudiosos a questão ambiental e a
necessidade urgente de obtenção e popularização de novas formas de energia menos agressivas ao
planeta.
(Adaptado de Revista Veja, 25 de abril de 2012 p 141)
... a espécie humana passou a ter seu caminho evolutivo direcionado pela cultura, cujos impulsos
foram superando a limitação da biologia ... (1º parágrafo)
O sentido do segmento grifado acima está reproduzido com outras palavras, respeitando-sea lógica,
a correção e a clareza, em:
(A) o caminho da evolução da humanidade, apesar das limitações biológicas, passam ainda hoje
pelo desenvolvimento c cultural, que as possibilita.
(B) o desenvolvimento cultural da humanidade permitiu descobrir as causas de problemas que
afetavam a saúde das pessoas, bem como combater as doenças.
(C) os problemas de origem física, como uma doença, nem sempre foi possível resolvê-la, com base
nos problemas resultantes da biologia.
(D) com o desenvolvimento da cultura humana, descobriu-se as leis da biologia e do ambiente que
viviam, permitindo-os evoluir com mais saúde.
(E) as descobertas científicas da biologia veio permitir que a humanidade fosse se tornando mais
capaz de evoluir por um tempo mais longo e com saúde.
02. (IBAM - Prefeitura de Praia Grande/SP - Agente Administrativo - IBAM)
A historieta a seguir deverá ser utilizada para resolver a questão a seguir.
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Tendo por base a frase “Venha aqui, seu vagabundo”, analise as afirmações seguintes.
I. Temos na oração, um verbo conjugado no modo imperativo.
II. O vocábulo “seu”, no caso, é um pronome possessivo.
III. A vírgula foi empregada para isolar o vocativo.
É correto o que se afirmou em:
(A) I, apenas.
(B) I e III, apenas.
(C) II e III, apenas.
(D) I, II e III.
03. (MPE/RS - Técnico Superior de Informática - MPE)
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Um estudo feito pela Universidade de Michigan
constatou que o que mais se faz no Facebook,
depos de interagir com amigos, é olhar os perfis
de pessoas que acabamos de conhecer. Se você
gostar do perfil, adicionará aquela pessoa, e estará
formado um vínculo. No final, todo mundo vira
amigo de todo mundo. Mas, não é bem assim. As
redes sociais têm o poder de transformar os
chamados elos latentes (pessoas que frequentam
o mesmo ambiente social, mas não são suas
amigas) em elos fracos - uma forma superficial de
amizade. Pois é, por mais que existam exceções
______ qualquer regra, todos os estudos mostram
que amizades geradas com a ajuda da Internet
são mais fracas, sim, do que aquelas que nascem
e se desenvolvem fora dela.
Isso não é inteiramente ruim. Os seus amigos
do peito geralmente são parecidos com você:
pertencem ao mesmo mundo e gostam das
mesmas coisas. Os elos fracos, não. Eles transitam
por grupos diferentes do seu e, por isso, podem
lhe apresentar novas pessoas e ampliar seus
horizontes - gerando uma renovação de ideias que
faz bem a todos os relacionamentos, inclusive às
amizades antigas. O problema é que a maioria das
redes na Internet é simétrica: se você quiser ter
acesso às informações de uma pessoa ou mesmo
falar reservadamente com ela, é obrigado a pedir a
amizade dela. Como é meio grosseiro dizer “não’
________ alguém que você conhece, todo mundo
acaba adicionando todo mundo. E isso vai levando
________ banalização do conceito de amizade.
É verdade. Mas, com a chegada de sítios como
O Twitter, ficou diferente. Esse tipo de sítio é uma
rede social completamente assimétrica. E isso faz
com que as redes de “seguidos” de
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alguém possam se comunicar de maneira muito
mais fluida. Ao estudar a sua própria rede no
Twitter, o sociólogo Nicholas Christakis, da
Universidade de Harvard, percebeu que seus
Amigos tinham começado a se comunicar entre si
Independentemente da mediação dele. Pessoas
cujo único ponto em comum era o próprio
Christakis acabaram ficando amigas. No Twitter,
eu posso me interessar pelo que você tem a dizer
e começar a te seguir. Nós não nos conhecemos.
Mas você saberá quando eu o retuitar ou
mencionar seu nome no sítio, e poderá falar
comigo. Meus seguidores também podem se
interessar pelos seus tuítes e começar a seguir
você. Em suma, nós continuaremos não nos
conhecendo, mas as pessoas que estão _______
nossa volta podem virar amigas entre si.
Considere as seguintes afirmações.
I. Através do uso do advérbio sim (L. 15), o autor valida a assertiva de que as redes sociais tendem a
transformar elos latentes (L. 09) em elos fracos (L. 11).
II. Por meio da frase Isso não é inteiramente ruim (L. 17), o autor manifesta-se favorável à afirmação
de que as melhores amizades são aquelas que descobrimos fora das redes sociais.
III. Mediante o emprego do segmento É verdade (L. 33), o autor reitera sua opinião a respeito do
caráter trivial que a concepção de amizade vem assumindo nas redes sociais.
Quais estão corretas, de acordo com o texto?
(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas III.
(D) Apenas II e III.
(E) I, II e III.
04. (TJ/SP - Escrevente Técnico Judiciário - Prova versão 1 - VUNESP)
Leia a tira.
No segundo quadrinho, a fala da personagem revela:
(A) hesitação.
(B) indiferença.
(C) contradição.
(D) raiva.
(E) exaltação.
05. (TJ/SP - Escrevente Técnico Judiciário - Prova versão 1 - VUNESP) A frase inicial do texto –
Geralmente, numa situação… um posto de trabalho. – expressa as condições gerais em uma situação
de altos índices de desemprego. De acordo com essas condições,
(A) o perfil de profissional pretendido nem sempre é bem definido nas empresas.
(B) o desemprego aumenta em decorrência da qualificação profissional.
(C) a formação de um profissional é, via de regra, questão secundária na sua contratação.
(D) a qualificação profissional é um caminho para se conseguir um emprego.
(E) o profissional deve ter qualificação inferior em relação às pretensões da empresa.
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06. (TJ/SP - Escrevente Técnico Judiciário - Prova versão 1 - VUNESP)
Saber é trabalhar
Geralmente, numa situação de altos índices de desemprego, o trabalhador sente a necessidade de
aprimorar a sua formação para obter um posto de trabalho. As empresas buscam os mais qualificados
em cada categoria e excluem os que não se encaixam no perfil pretendido. Nos últimos anos, essa não
tem sido a lógica vigente no Brasil. Segundo a pesquisa de emprego urbano feita pelo Dieese
(Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e pela Fundação Seade
(Sistema Estadual De Análise de Dados), os níveis de pessoas sem emprego estão apresentado
quedas sucessivas de 2005 para cá. O desemprego em nove regiões metropolitanas medido pela
pesquisa era de 17,9% em 2005 e fechou em 11,9% em 2010.
A pesquisa do Dieese é u medidor importante, pois sua metodologia leva em conta não só o
desemprego aberto (quem está procurando trabalho), como também o oculto (pessoas que desistiram
de procurar ou estão em postos precários). Uma das consequências dessa situação é apontada dentro
da própria pesquisa, um aumento médio no nível de rendimentos dos trabalhadores ocupados.
A outra é a dificuldade que as empresas têm de encontrar mão de obra qualificada para os postos de
trabalho que estão abertos. A Fundação Dom Cabral apresentou, em março, a pesquisa Carência de
Profissionais no Brasil. A análise levou em conta profissionais dos níveis técnico, operacional,
estratégico e tático. Do total, 92% das empresas admitiram ter dificuldade para contratar a mão de obra
de que necessitam.
(Língua Portuguesa, outubro de 2011, Adaptado)
De acordo com o texto “Saber é Trabalhar” responda:
O texto revela que, no Brasil,
(A) as empresas estão mais rigorosas para selecionar os mais qualificados.
(B) os índices de desemprego têm se elevado continuamente nas regiões metropolitanas.
(C) os trabalhadores têm investido mais do que o necessário em sua formação profissional.
(D) as pesquisas sobre emprego são pouco consistentes e confiáveis.
(E) as empresas convivem com a carência de mão deobra qualificada.
07. (TJ/SP - Escrevente Técnico Judiciário - Prova versão 1 - VUNESP) De acordo com o texto
“Saber é Trabalhar” responda: No contexto em que se insere o período – A outra é a dificuldade que as
empresas têm de encontrar mão de obra qualificada para os postos de trabalho que estão abertos. –
(3.º parágrafo), entende-se que a expressão
“A outra” refere-se a:
(A) consequências.
(B) lógica.
(C) pesquisa.
(D) situação.
(E) metodologia.
08. (Prefeitura de Praia Grande/SP - Agente Administrativo - IBAM)
O velho
Chico Buarque
O velho sem conselhos
De joelhos
De partida
Carrega com certeza
Todo o peso
Da sua vida
A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou.
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
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Pra deixar
Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar.
Nos versos da música “O velho”, Chico Buarque de Holanda retrata a vida de um homem que:
(A) temia envelhecer.
(B) não soube aproveitar a vida.
(C) foi apaixonado pelo carnaval.
(D) tinha orgulho de suas conquistas.
09. (PM/BA - Soldado da Polícia Militar - FCC)
Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer
Os versos acima, de uma música de Dorival Caymmi, abordam predominantemente,
(A) o trabalho dos pescadores, na busca de sua sobrevivência cotidiana.
(B) o respeito às condições ambientais como garantia da preservação dos recursos da natureza.
(C) a competição acirrada entre os pescadores pelos melhores pontos de pesca,
(D) a religiosidade dos pescadores, em que se misturam elementos de origem africana.
(E) a exploração a que estão sujeitos os trabalhadores que dependem do mar para sobreviver.
10. (IFC - Analista de Tecnologia da Informação - IFC)
Texto 1
O futuro do trabalho
“[...]
Seja como for, é preciso resolver os problemas do desemprego e da informalidade, que são mais
acentuados nos países subdesenvolvidos. O caminho é estabelecer políticas de geração de empregos,
além de garantir melhores condições para os trabalhadores em ocupações precárias.
Uma das saídas é a redução da jornada de trabalho: as pessoas trabalham menos para que se
abram vagas para as desempregadas. Outra estratégia é instituir programas de formação profissional e
de microcrédito para trabalhadores autônomos, desempregados e pequenas empresas.”
Vestibular-Editora Abril, nov., 2002.
Texto 2
Conflito de gerações
“- Marquinhos... Marquinhos! [...]
O filho tentou disfarçar, lá no fundo do quintal, tirando meleca do nariz, mas, quando
a mãe chamava assim, era melhor ir. Na cozinha, a mãe ao lado da geladeira
aberta, com uma garrafa e um saco plástico vazios nas mãos:
- Você comeu toda a salsicha?!
- Não é bem verdade...Eu só usei as salsichas pra acabar com a mostarda. Já
estava até verde! Alguém ia acabar comendo estragado e ficar doente.
[...]
- Você tem resposta pra tudo, não?!
- Não é bem verdade... é a senhora que sempre pergunta.
- Você é uma gentinha! Só uma gentinha, tá entendendo?
O filho ficou olhando praquela mãe batendo com o pé no chão, bem nervosa
mesmo, mais alta que a geladeira e tudo. Aí foi obrigado a dizer:
- É... isso eu acho que é verdade.”
BONASSI, Fernando. In: Folha de São Paulo, 23 nov. 2002.
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Ao analisar a linguagem e o discurso do texto 1 e do texto 2 respectivamente. Assinale a alternativa
CORRETA:
(A) no texto 1, a linguagem é mais informal, seguindo à norma padrão; utiliza-se ainda o discurso
indireto, envolvendo questões sociais. No texto 2, percebe-se uma linguagem menos informal e um
discurso direto entre mãe e filho.
(B) no texto 1, a linguagem é coloquial, seguindo à norma padrão; tem-se ainda o discurso indireto e
direto, aplicado à interpretação do cotidiano. Já no texto 2, a linguagem é formal, ocorre ainda um
diálogo entre mãe e filho.
(C) no texto 1, a linguagem é mais formal, obedecendo à norma culta; consegue-se ainda identificar
um discurso indireto, aplicado interpretativamente às questões sociais. Já no texto 2, além de uma
linguagem informal, em que se notam repetições e frases, ocorre, também, um diálogo entre mãe e
filho.
(D) no texto 1, a linguagem é formal, segundo à norma culta; tem-se ainda a presença do discurso
direto que revela questões da comunidade. Já no texto 2, a linguagem é culta e o discurso é direto.
(E) no texto 1, a linguagem é menos formal, no entanto, segue à norma culta; identifica-se ainda o
discurso indireto, aplicado à análise do cotidiano. No texto 2, a linguagem é coloquial e o discurso é
direto entre mãe e filho.
Respostas
01. Resposta: B
“Caminho evolutivo direcionado pela cultura em outras palavras”: o desenvolvimento cultural
02. Resposta: B
SEU = pode ser empregado como pronome possessivo ou como substantivo masculino (forma
utilizada na questão acima).
Observe abaixo um pouco do que diz o dicionário Houaiss sobre a utilização da palavra SEU como
substantivo masculino:
seu s.m. senhor ('tratamento respeitoso') (Empregado diante de nome de pessoa, ou de outro
axiônimo, ou de palavra designativa de profissão.) (seu Joaquim) (seu doutor) (seu delegado). GRAM
fem.: sinhá, sinha, siá, sia, senhora. Uso empregado também com valor afetivo (seu bobinho!), de forma
jocosa (p. ex.: aposto que seu Tiago saberá a resposta - sendo Tiago uma pessoa jovem) ou disfêmica
(seu pateta!), ou, ainda, com matiz interjetivo (tinha coragem de me enfrentar nada, seu!); nestes casos,
há no Brasil os fem. sua, senha, sinha.
Fonte: Dicionário Houaiss da língua portuguesa / Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar
03. Resposta: D
No número II o autor deixa claro no texto, que as amizades formadas por redes sociais não são
duradoras nem possuem uma base sólida. Já no número III, a concepção de amizade proveniente de
redes sociais, esbarra em um ponto importante, aquela amizade de curtir fotos, comentários mas nada
profundo com sentimento.
04. Resposta: B
Sim, o sentimento expresso no segundo quadrinho é de indiferença, visto que ele não se importa se
a grama do vizinho é mais verde ou não.
05. Resposta: D
Aqueles que não possuem um diferencial, uma maior qualificação, estão sujeitos a ficar sem
emprego, pois não possuem nada novo para oferecer às empresas.
06. Resposta: E
Segundo o texto, cada vez menos os candidatos a uma vaga de emprego se especializam ou
possuem um diferencial na hora de concorrer à uma vaga de emprego.
07. Resposta: A
Consequência, pois antes já estava enumerado outros motivos para a falta de qualificação dos
candidatos a um emprego.
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08. Resposta: B
No trecho que ele diz: “A vida inteira, diz que se guardou do carnaval, da brincadeira que ele não
brincou”... com este trecho é possível chegar a resposta “B” ele não aproveitou a vida.
09. Resposta: A
Somente o o trecho: Se Deus quiser quando eu voltar do mar, um peixe bom eu vou traxer”, já é
possível perceber qual é a ideia de sua canção. A volta dos pescadores depois de um período no mar.
10. Resposta: C
No texto 1 o autor descreve um problema e apresenta a solução, em uma linguagem mais culta. Já
no texto 2 temos um diálogo entre mãe e filho, o que não é necessário o uso da linguagem formal.
Nesse tópico vamos estudar as características de cada estilo literário. No último tópico voltaremos a
analisá-lo com mais detalhes.
Trovadorismo (Século XII –XIV)
Características Gerais da Linguagem das Cantigas
Quanto à forma:
- estrutura simples, de fácil memorização;
- repetição de palavras e versos inteiros;
- presençaconstante de refrãos;
- escrito em galego-português.
Quanto ao conteúdo:
- lírica – temas de amor e saudade.
- satírica – crítica aos costumes.
A Lírica
Cantigas de Amigo:
- ambientação rural;
- linguagem e estrutura simples;
- tema frequente: lamento amoroso da moça cujo namorado partiu para a guerra.
Cantigas de Amor:
- amor cortês;
- coita amorosa (sofrimento);
- o homem é submisso à amada, sendo o homem um vassalo e a amada uma suserana.
A Satírica
Cantigas de Escárnio:
1.4. Detecção de Características e Pormenores que Identifiquem
o Texto dentro de um Estilo de Época
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- crítica indireta;
- linguagem trabalhada, com sutilezas;
- ironia.
Cantigas de Maldizer:
- crítica direta;
- linguagem agressiva, obscena;
- zombaria.
- os poemas eram sempre cantados e acompanhados de instrumentos musicais e de dança. Por
esse motivo foram denominados cantigas.
- criadas por um trovador (alguém que fazia Trovas, Rimas), as cantigas deram origem ao
Trovadorismo, período na Literatura Portuguesa que se entendeu do século XII a meados do século
XIV.
Características da Cantiga Trovadoresca
Os paralelismos têm um papel importante na construção das cantigas, pois facilitam a memorização
do texto e assim, sua transmissão oral. Além de refrão, outros dois tipos de paralelismos são frequentes
nas cantigas: o paralelismo de par de estrofes e o leixa-pren (deixa-toma) Observe:
Apesar de algumas diferenças, as cantigas trovadorescas que se enquadram no gênero lírico
geralmente tratam de temas como amor e saudade. As que se enquadram no gênero satírico se voltam
à crítica de costumes.
Humanismo
Características do Humanismo
Culturalmente, a melhoria técnica da imprensa propiciou uma divulgação mais ampla e rápida do
livro, democratizando um pouco o acesso a ele. O homem desse período passa a se interessar mais
pelo saber, convivendo com a palavra escrita. Adquire novas ideias e outras culturas como a Greco-
latina. O homem, sobretudo, percebeu-se capaz, importante, agente. Acreditando-se dotado de “livre
arbítrio”, isto é, capacidade de decisão sobre a própria vida, não mais determinada por Deus, afasta-se
do teocentrismo, assumindo, lentamente, um comportamento baseado no antropocentrismo.
Isso implica profundas transformações culturais, de uma postura religiosa e mística, o homem passa
gradativamente a uma posição racionalista. O Humanismo funcionará como um período de transição
entre duas posturas. Por isso, a arte da época é marcada pela convivência de elementos espiritualistas
(teocêntricas) e terrenos (antropocêntricos). A Historiografia, a poesia, a prosa doutrinária e o teatro
apresentaram características específicas.
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Prosa Doutrinária: Com o aumento de interesse pela leitura, houve um significativo e rápido
crescimento da cultura com o surgimento de bibliotecas e a intensificação de traduções de obras
religiosas e profanas, além de atualização de escritos antigos. Esse envolvimento com o saber atingiu
também a nobreza, a ponto de as crônicas históricas passarem a ser escritas pelos próprios reis,
especificamente da dinastia de Avis, com os exemplos de D. João I, D. Duarte e D. Pedro. Essa
produção recebeu o nome de doutrinária, porque incluíam a atitude de transmitir ensinamentos sobre
certas práticas diárias, e sobre a vida.
Poesia Palaciana: O Mercantilismo e outros acontecimentos de âmbito português modificaram o
gosto literário do público, diminuindo-o quanto à produção lírica, o que manteve a poesia enfraquecida
durante um século (mais ou menos de 1350 a 1450). No entanto, em Portugal, graças à preferência do
rei D. Afonso V (1438-1481), abriu-se um espaço na corte lusitana para a prática lírica e poética. Assim,
essa atividade literária sobreviveu em Portugal, ainda que num espaço restrito, e recebeu o nome de
Poesia Palaciana, também identificada por quatrocentista. Essa produção poética tem certa limitação
quanto aos conteúdos, temas e visão de mundo, porque seus autores, nobres e fidalgos, abordavam
apenas realidades palacianas, como assunto de montaria, festas, comportamentos em palácios, modas,
trajes e outras banalidades sem implicação história abrangente. O amor era tratado de forma mais
sensual do que no Trovadorismo, sendo menos intensa a idealização da mulher. Também neste gênero
poético, ocorre a sátira.
Formalmente são superiores à poesia trovadoresca, seja pela extensão dos poemas graças à cultura
dos autores, seja pelo grau de inspiração, seja pela musicalidade ou mesmo pela variedade do metro
estes dois últimos recursos conferiam a cada poema a chance de possuírem ritmo próprio. A diferença
mais significativa em relação às cantigas do Trovadorismo é que as poesias palacianas foram
desligadas da música, ou seja, o texto poético passou a ser feito para a leitura e declamação, não mais
para o canto.
Classicismo (Século XVI)
- a literatura renascentista portuguesa do século XVI resultou das inovações que vinham ocorrendo
na Europa, particularmente na Itália, desde o final do século XIII.
- bem mais adiantados do que os escritores de outros países – ainda mergulhados no espírito
religioso da Idade
Média – os artistas e intelectuais italianos, desde aquela época, já se empenhavam em traduzir para
o italiano e imitar as obras da Antiguidade Greco-Latina, além de difundir suas ideias.
- esse grupo de artistas, chamados humanistas, defendia que a cultura pagã, anterior ao
aparecimento do cristianismo, era mais rica e expressiva, pois valorizava o indivíduo, seus feitos
heroicos e sua capacidade de dominar e transformar o mundo.
- a atitude de valorização das capacidades físicas e espirituais do homem foi chamada de
antropocentrismo e, naturalmente, contrapunha-se à visão teocêntrica do mundo imposto pela Igreja.
Quinhentismo
Características:
- Comedimento racional;
-Valorização do homem, colocado no centro do universo (antropocentrismo);
- Superioridade humana ante a natureza e os deuses;
- A universalidade;
- A retomada dos ideais Greco-romanos e a busca da perfeição, do rigor métrico, do equilíbrio e da
harmonia.
Barroco ou Seiscentismo
Característica do Barroco
- Revalorização do teocentrismo.
- Gosto pelo exagero, rebuscamento das formas.
- Dualismo expresso pelos contrastes e contradições (antítese, paradoxo e oxímoro).
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- Fusionismo - junção de atitudes opostas (antropocentrismo renascentista x teocentrismo medieval).
- Cultismo e conceptismo.
Arcadismo (Setecentismo ou Neoclassicismo)
Características Gerais
- O Arcadismo era contrário aos exageros verbais do Barroco, principalmente das figuras de
linguagem que marcavam a oposição, buscando simplicidade e clareza orientadas pela Razão. (O
Arcadismo era oposto ao Barroco também no que dizia respeito ao apego à fé e à religião, afastando-se
em alguns aspectos da emoção que dominava aquele período.).
- O Arcadismo apresentava-se oposto ao Barroco na visão de mundo de cada uma deles: o Barroco
era pessimista e negava o homem; já o Arcadismo era otimista, pela crença no valor da ciência como
fator de progresso e transformação do homem.
- No Arcadismo a Arte passa a ter finalidade didática e moralizante, com a descentralização do
ensino jesuítico. Nessa época ocorreu a laicização da cultura com a expulsão dos jesuítas do Brasil por
Marquês de Pombal.
Quanto ao eu-lírico:
- Interpreta a realidade de forma objetiva;
- expressa sentimentos comuns, universais e não mais individuais;
- os escritores fingem ser pastores, pois agem e falam nos poemas como pastores (usam
pseudônimos de pastores gregos e latinos).
Quanto aos temas:
- cultivo do ideal de vida comum e simples, desprezando o luxo;
- Bucolismo: ocampo é considerado como um paraíso perdido, buscando uma “volta ao campo”,
pois:
a) o homem que vive em contato com a natureza é puro, belo e feliz;
b) a paisagem é tranqüila e bela;
c) vocabulário apresenta termos ligados à vida campestre.
- amor, morte, casamento são temas constantes, mas o amor apresenta-se tranqüilo, sem paixões
intensas.
- preocupação com a satisfação intelectual do autor, e não mais somente com o plano emocional,
que é deixado para segundo plano.
Quanto à forma - Rejeição das formas Barrocas
- utilização de períodos curtos;
- emprego de vocabulário simples;
- predomínio da metonímia (não mais o uso de metáforas, antíteses);
- estrofação livre (as estrofes não possuem mais um número rígido de versos);
- verso branco (sem rima) que aproxima a poesia da prosa;
- alguns poetas ainda usam as metrificações rígidas dos sonetos (14 versos divididos em dois
quartetos e dois tercetos, decassílabos e rimados).
Motivos Clássicos (temas retirados da Antiguidade Clássica)
- Carpe diem (aproveitem o dia) - a obra está voltada para o gozo dos prazeres do corpo, a
brevidade da vida e da morte que nos espera.
“Ah! Não minha Marília,
aproveite-se o tempo, antes que faça
o estrago de roubar ao corpo as forças,
e ao semblante a graça”
(Tomás Antônio Gonzaga)
- Locus amoenus (lugares amenos) - idealização de lugares amenos, das paisagens belas e
campestres.
- Aurea Mediocritas (equilíbrio do ouro) - exaltação do herói simples, humilde e honrado, ideal da
vida tranquila sem grandes feitos e conflitos (exaltação da vida simples).
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- Fugere Urbem (fugir da cidade) - buscar a beleza e a simplicidade da vida no campo e que a
cidade não permite a felicidade.
- inutila truncat (cortar as coisas inúteis) - oposição aos exageros do Barroco, valorizando a
linguagem e construção simples.
Romantismo
É um estilo rico de características, onde algumas delas são:
- busca por liberdade política;
- valorização da natureza, sinal da manifestação divina que serve como refúgio para o homem
angustiado;
- exposição de sentimentos íntimos, dos estados da alma e das paixões;
- preferência por ambientes noturnos, solitários que propiciam aos desabafos mais íntimos.
- descarta a ideia centrada na razão do estilo anterior e inspira-se em subjetividades como a fé, o
sonho, a intuição, a saudade e as lendas nacionais.
O que propiciou que o Romantismo se difundisse com maior velocidade foi o desenvolvimento do
meio de comunicação jornalístico e a ascensão da classe burguesa que tinha acesso aos jornais, onde
começaram a ser publicados os folhetins com histórias românticas e de suspense publicadas em
capítulos. Então, a literatura começou a popularizar-se.
Características Fundamentais do Período
Subjetivismo: É a emoção retratando de forma pessoal realidade interior de um eu lírico.
Liberdade de criação: o autor expressa-se através de uma atitude pessoal, individual e única. O que
importa é o que cada um tem de característico, ocorrendo uma forte valorização do sentimento do “eu
lírico”.
Sentimentalismo: o eu lírico expressa e analisa a realidade por meio de seus sentimentos, como o
predomínio da emoção. É o sentimento que determina a importância das coisas.
Individualismo/Egocentrismo: o lirismo é característica dominante, reproduzindo um "eu" interior
num mundo exterior idealizado.
Idealização: o romântico não vê as coisas como são, contudo como deveriam ser. O olhar romântico
arruma, organiza, elimina as imperfeições tornando os detalhes ainda mais belos.
- idealização do país: perfeito e belo;
- idealização da mulher: virgem, pura, frágil, delicada, nobre, submissa, inatingível, musa inspiradora,
de beleza incomum;
- idealização do amor: quase sempre espiritual, supremo, inatingível, puro, perfeito, seguindo a ideia
de platonismo amoroso;
- idealização do herói: belo, forte, perfeito, honrado - o índio é o nosso herói nacional, o "bom
selvagem", contudo moldado com as qualidades e padrões europeus.
Medievalismo: no Romantismo houve um retorno ao passado com o objetivo de espelhar-se nos
antigos valores, sendo assim, as origens do país, de seu povo e de seus heróis serão ressuscitados. Na
Europa, voltou-se à Idade Média, com sua atmosfera de sombras e de mistério o que fascinava a
imaginação do romântico. No Brasil, buscaremos no índio a personagem de exaltação do passado.
Nacionalismo, patriotismo e lusofobia: nesse período ocorre uma intensa exaltação do país e das
coisas nacionais, existindo também um sentimento de aversão à ex-metrópole, Portugal.
Escapismo psicológico: Fuga (evasão) da realidade. O romântico que ir e estar além de sua
realidade, por isso a volta ao passado tanto individual (sua própria infância) quanto histórico (época
medieval).
Evasão: o eu lírico, tomado pelo sofrimento, busca alívio para a sua dor fugindo da realidade - no
tempo, no espaço, na morte ou na religiosidade.
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- evasão no tempo: busca um passado histórico (heroico) ou na infância (onde tinha felicidade);
- evasão no espaço: busca na natureza um lugar que suavize o seu sofrimento; e também no sonho.
- evasão na morte: vê a morte como solução radical e definidora do seu sofrimento.
- evasão na religiosidade: vê a religiosidade como solução para o seu sofrimento.
Mal-do-século: a impossibilidade de realizar os sonhos, provoca no eu romântico uma reação de
profunda tristeza, desilusão, angústia, dor, desespero, frustração, inquietação. O eu lírico dominado por
todo esse sentimento, entrega-se ao pessimismo, ao gosto pela melancolia e sofrimento; busca da
solidão, que levam o homem à atração pela morte (suicídio).
Religiosidade: a vida espiritual retoma sua força e influência no Romantismo. Acontece uma reação
ao Racionalimo materialista dos clássicos. A crença em Deus é uma forma de escape das frustrações e
desilusões da vida e do mundo.
Supervalorização do amor: coisa mais importante da vida; tema mais desenvolvido pelos
românticos. A perda ou irrealização do amor leva, geralmente, à morte, à loucura ou ao suicídio.
Instabilidade emocional (ilogismo): causado pelo predomínio da emoção (subjetivismo - com o
desprezo da lógica e da razão), demonstrado através das antíteses (alegria/tristeza)
Idealização da mulher: é vista, na maioria das vezes, divinizada e envolta em mistérios. Figura
inatingível e poderosa, capaz de mudar a vida de um homem, de levá-lo à morte ou à loucura.
Liberdade de criação e despreocupação com a forma: abandono das formas fixas (sonetos,
redondilhas, oitava-rima etc.), das rimas; valorização do verso branco aproximando a linguagem literária
da linguagem oral e coloquial, para aproximar a literatura do leitor da época.
Predomínio da metáfora e de figuras de linguagem dela derivada
- Metáfora: quando um termo é utilizado para substituir outro através de uma relação de semelhança,
mas também pode ser entendida como uma comparação abreviada, em que o conectivo (como, parece,
ser semelhante, etc.) não está expresso, mas subentendido.
“A criança é um touro.”
“Minhas sensações são um barco de quilha pro mar.”
- Prosopopeias: atribui ações ou qualidades humanas para seres inanimados ou irracionais.
“O dia amanheceu tristonho.”
“A chuva semeou a esperança.”
- Sinestesia: mistura de sensações (ruído áspero; música doce; perfume adocicado)
“Uma melodia azul tomou conta da sala.”
“A sua voz áspera intimidava a plateia.”
Realismo
As características dos romances realistas da primeira fase, influenciada pelo romantismo, são:
vocabulário claro e simples, tonalidade natural à prosa, estudo da psicologia dos personagens e
narrativa linear e imaginativa. Na segunda fase, simbolizada por Machado de Assis, o estilo fica
maleável, rompe-se com a linearidade,acrescenta-se o humor ligado ao pessimismo e ao desencanto.
Parnasianismo
O Parnasianismo é um estilo poético que teve origem na França, em 1866, com a publicação do livro
“O Parnaso contemporâneo”. Parnaso era o nome de uma montanha, na Grécia, consagrada a Apolo,
deus da luz e das artes, e às musas, entidades mitológicas ligadas às artes. No Brasil, a publicação que
deu início ao Parnasianismo foi a do livro “Fanfarras”, de Teófilo Dias. A principal característica do
Parnasianismo é o cuidado com a forma do poema que deve ser objetivo, deve prezar pelas rimas ricas
e raras e pelo uso de linguagem elaborada e perfeita. A expressão poética não era o fundamental. Era
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um estilo bastante descritivo e detalhista. É o que podemos observar neste soneto de Alberto de
Oliveira:
Simbolismo
No Brasil, o Simbolismo surge numa época de conflitos políticos, marcados pela transição do regime
escravocrata para o regime assalariado, onde alguns escritores defendiam a causa das liberdades civis.
O Simbolismo foi uma reação ao materialismo e ao cientificismo preconizados pelo Realismo e pelo
Parnasianismo. Surgiu na França no final do séc. XIX e foi um movimento poético de revalorização do
poder sugestivo das imagens poéticas, do subjetivismo e da vida espiritual. Deu ao estilo poético uma
musicalidade inexistente nos estilos anteriores. Vejamos estes versos do poeta Cruz e Souza com sua
expressão simbolista:
Pré-Modernismo
O Pré-Modernismo não é um movimento literário como vimos acontecer até o momento, não se
resume a textos para distrair. É o período dos primeiros 20 anos do Séc. XX onde as mudanças
políticas e sociais estavam alterando a sociedade brasileira e alguns escritores usavam de suas obras
para fazer uma análise crítica da realidade brasileira. Seus maiores representantes foram Monteiro
Lobato, Euclides da Cunha, Lima Barreto e Graça Aranha. Esses escritores queriam despertar seus
leitores para a realidade e usavam de sua literatura para isso. Vejamos os acontecimentos sociais
importantes dessa época:
Modernismo
A primeira fase (1922-1930)
Apontaremos algumas características desta fase:
- conquista definitiva do verso livre;
- acentuada inspiração nacionalista;
- grande liberdade de criação;
- maior aproximação entre a língua falada e a escrita.
A segunda fase (1930-1945)
Nesta fase, o romance apresenta várias tendências:
- Romance social nordestino: Jorge Amado, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, Rachel
de Queiroz, Graciliano Ramos e outros.
- Romance intimista e psicológico: Lúcio Cardoso, Cornélio Pires e Ciro dos Anjos.
- Romance de temática social urbana: Érico Veríssimo, Dionélio Machado e Marques Rebelo.
O romance social nordestino neorrealista é considerado o estilo mais importante desse período. O
início desse trabalho acontece com a publicação do livro “A bagaceira”, de José Américo de Almeida,
que tem por principal objetivo denunciar as injustiças sócias no Nordeste, a exploração do povo e o
drama dos retirantes da seca.
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A Intertextualidade pode ser definida como um diálogo entre dois textos. Observe os dois textos
abaixo e note como Murilo Mendes (século XX) faz referência ao texto de Gonçalves Dias (século XIX):
Canção do Exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."
(Gonçalves Dias)
Canção do Exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
gente não pode dormir
1.5. Identificação de Relações que um Texto Estabelece com
Outro ou Outros
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com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a
[Gioconda
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de
[verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
(Murilo Mendes)
Nota-se que há correspondência entre os dois textos. A paródia-piadista de Murilo Mendes é um
exemplo de intertextualidade, uma vez que seu texto foi criado tomando como ponto de partida o texto
de Gonçalves Dias.
Na literatura, e até mesmo nas artes, a intertextualidade é persistente. Sabemos que todo texto, seja
ele literário ou não, é oriundo de outro, seja direta ou indiretamente. Qualquer texto que se refere a
assuntos abordados em outros textos é exemplo de intertextualização.
A intertextualidade está presente também em outras áreas, como na pintura, veja as várias versões
da famosa pintura de Leonardo da Vinci, Mona Lisa:
Mona Lisa, Leonardo da Vinci. Óleo sobre tela, 1503.
Mona Lisa, Marcel Duchamp, 1919.
Mona Lisa, Fernando Botero, 1978.
Mona Lisa, propaganda publicitária.
Pode-se definir, então, a intertextualidade como sendo a criação de um texto a partir de outro texto já
existente. Dependendo da situação, a intertextualidade tem funções diferentes que dependem muito dos
textos/contextos em que ela é inserida.
Evidentemente, o fenômeno da intertextualidade está ligado ao "conhecimento do mundo", que deve
ser compartilhado, ou seja, comum ao produtor e ao receptor de textos. O diálogo pode ocorrer em
diversas áreas do conhecimento, não se restringindo única e exclusivamente a textos literários.
Na pintura tem-se, por exemplo, o quadro do pintor barroco italiano Caravaggio e a fotografia da
americana Cindy Sherman, na qual quem posa é ela mesma. O quadro de Caravaggio foi pintado no
final do século XVI, já o trabalho fotográfico de Cindy Sherman foi produzido quase quatrocentos anos
mais tarde. Na foto, Sherman cria o mesmo ambiente e a mesma atmosfera sensual da pintura,
reunindo um conjunto de elementos: a coroa de flores na cabeça, o contraste entre claro e escuro, a
sensualidade do ombro nu etc. A foto de Sherman é uma recriação do quadro de Caravaggio e,
portanto, é um tipo de intertextualidade na pintura.
Na publicidade, por exemplo, a que vimos sobre anúncios do Bom Bril, o ator se veste e se posiciona
como se fosse a Mona Lisa de Leonardo da Vinci e cujo slogan era "Mon Bijou deixa sua roupa uma
perfeita obra-prima". Esse enunciado sugere ao leitor que o produto anunciado deixa a roupa bem
macia e mais perfumada, ou seja, uma verdadeira obra-prima (se referindo ao quadro de Da Vinci).
Nesse caso pode-se dizer que a intertextualidade assume a função de não só persuadir o leitor como
também de difundir a cultura, uma vez que se trata de uma relação com a arte (pintura, escultura,
literatura etc).
Intertextualidade é a relação entre dois textos caracterizada por um citar o outro.
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Tipos de Intertextualidade
Pode-se destacar sete tipos de intertextualidade:
- Epígrafe: constitui uma escritaintrodutória.
- Citação: é uma transcrição do texto alheio, marcada por aspas.
- Paráfrase: é a reprodução do texto do outro com a palavra do autor. Ela não se confunde com o
plágio, pois o autor deixa claro sua intenção e a fonte.
- Paródia: é uma forma de apropriação que, em lugar de endossar o modelo retomado, rompe com
ele, sutil ou abertamente. Ela perverte o texto anterior, visando à ironia ou a crítica.
- Pastiche: uma recorrência a um gênero.
- Tradução: está no campo da intertextualidade porque implica a recriação de um texto.
- Referência e alusão.
Para ampliar esse conhecimento, vale trazer um exemplo de intertextualidade na literatura. Às vezes,
a superposição de um texto sobre outro pode provocar certa atualização ou modernização do primeiro
texto. Nota-se isso no livro “Mensagem”, de Fernando Pessoa, que retoma, por exemplo, com seu
poema “O Monstrengo” o episódio do Gigante Adamastor de “Os Lusíadas” de Camões. Ocorre como
que um diálogo entre os dois textos. Em alguns casos, aproxima-se da paródia (canto paralelo), como o
poema “Madrigal Melancólico” de Manuel Bandeira, do livro “Ritmo Dissoluto”, que seguramente serviu
de inspiração e assim se refletiu no seguinte poema:
Assim como Bandeira
O que amo em ti
não são esses olhos doces
delicados
nem esse riso de anjo adolescente.
O que amo em ti
não é só essa pele acetinada
sempre pronta para a carícia renovada
nem esse seio róseo e atrevido
a desenhar-se sob o tecido.
O que amo em ti
não é essa pressa louca
de viver cada vão momento
nem a falta de memória para a dor.
O que amo em ti
não é apenas essa voz leve
que me envolve e me consome
nem o que deseja todo homem
flor definida e definitiva
a abrir-se como boca ou ferida
nem mesmo essa juventude assim perdida.
O que amo em ti
enigmática e solidária:
É a Vida!
(Geraldo Chacon, Meu Caderno de Poesia, Flâmula, 2004, p. 37)
Madrigal Melancólico
O que eu adoro em ti
não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
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Não é triste em si,
mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
(...)
O que eu adoro em tua natureza,
não é o profundo instinto maternal
em teu flanco aberto como uma ferida.
nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
(Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira,
José Olympio, 1980, p. 83)
A relação intertextual é estabelecida, por exemplo, no texto de Oswald de Andrade, escrito no século
XX, "Meus oito anos", quando este cita o poema , do século XIX, de Casimiro de Abreu, de mesmo
nome.
Meus oito anos
Oh! Que saudade que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais
Que amor, que sonhos, que flores
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
(Casimiro de Abreu)
Meus oito anos
Oh! Que saudade que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da rua São Antonio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais!
(Oswald de Andade)
A intertextualidade acontece quando há uma referência explícita ou implícita de um texto em outro.
Também pode ocorrer com outras formas além do texto, música, pintura, filme, novela etc. Toda vez
que uma obra fizer alusão à outra ocorre a intertextualidade.
Apresenta-se explicitamente quando o autor informa o objeto de sua citação. Num texto científico,
por exemplo, o autor do texto citado é indicado, já na forma implícita, a indicação é oculta. Por isso é
importante para o leitor o conhecimento de mundo, um saber prévio, para reconhecer e identificar
quando há um diálogo entre os textos. A intertextualidade pode ocorrer afirmando as mesmas ideias da
obra citada ou contestando-as. Vejamos duas das formas: a Paráfrase e a Paródia.
Na paráfrase as palavras são mudadas, porém a ideia do texto é confirmada pelo novo texto, a
alusão ocorre para atualizar, reafirmar os sentidos ou alguns sentidos do texto citado. É dizer com
outras palavras o que já foi dito. Temos um exemplo citado por Affonso Romano Sant’Anna em seu livro
“Paródia, paráfrase & Cia”:
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Texto Original
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
(Gonçalves Dias, “Canção do exílio”)
Paráfrase
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos
Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.
Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?
Eu tão esquecido de minha terra…
Ai terra que tem palmeiras
Onde canta o sabiá!
(Carlos Drummond de Andrade, “Europa, França e Bahia”)
Este texto de Gonçalves Dias, “Canção do Exílio”, é muito utilizado como exemplo de paráfrase e de
paródia, aqui o poeta Carlos Drummond de Andrade retoma o texto primitivo conservando suas ideias,
não há mudança do sentido principal do texto que é a saudade da terra natal.
A paródia é uma forma de contestar ou ridicularizar outros textos, há uma ruptura com as ideologias
impostas e por isso é objeto de interesse para os estudiosos da língua e das artes. Ocorre, aqui, um
choque de interpretação, a voz do texto original é retomada para transformar seu sentido, leva o leitor a
uma reflexão crítica de suas verdades incontestadas anteriormente, com esse processo há uma
indagação sobre os dogmas estabelecidos e uma busca pela verdade real, concebida através do
raciocínio e da crítica. Os programas humorísticos fazem uso contínuo dessa arte, frequentemente os
discursos de políticos são abordados de maneira cômica e contestadora, provocando risos e também
reflexão a respeito da demagogia praticada pela classe dominante. Com o mesmo texto utilizado
anteriormente, teremos, agora, uma paródia.
Texto Original
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
(Gonçalves Dias, “Canção do exílio”)
Paródia
Minha terra tem palmares
onde gorjeia o mar
os passarinhos daqui
não cantam como os de lá.
(Oswald de Andrade, “Canto de regresso à pátria”)
O nome Palmares, escrito com letra minúscula, substitui a palavra palmeiras, há um contexto
histórico, social e racial neste texto, Palmares é o quilombo liderado por Zumbi, foi dizimado em 1695,
há uma inversão do sentido do texto primitivo que foi substituído pela crítica à escravidão existente no
Brasil.
Na literatura relativa à Linguística Textual, é frequente apontar-se como um dos fatores de
textualidade a referência - explícita ou implícita - a outros textos, tomados estes num sentido bem amplo
(orais, escritos, visuais - artes plásticas, cinema , música, propaganda etc.) A esse “diálogo”entre textos
dá-se o nome de intertextualidade.
Evidentemente, a intertextualidade está ligada ao “conhecimento de mundo”, que deve ser
compartilhado, ou seja, comum ao produtor e ao receptor de textos.
A intertextualidade pressupõe um universo cultural muito amplo e complexo, pois implica a
identificação / o reconhecimento de remissões a obras ou a textos / trechos mais, ou menos
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conhecidos, além de exigir do interlocutor a capacidade de interpretar a função daquela citação ou
alusão em questão.
Entre os variadíssimos tipos de referências, há provérbios, ditos populares, frases bíblicas ou obras /
trechos de obras constantemente citados, literalmente ou modificados, cujo reconhecimento é
facilmente perceptível pelos interlocutores em geral. Por exemplo, uma revista brasileira adotou o
slogan: “Dize-me o que lês e dir-te-ei quem és”. Voltada fundamentalmente para um público de uma
determinada classe sociocultural, o produtor do mencionado anúncio espera que os leitores
reconheçam a frase da Bíblia (“Dize-me com quemandas e dir-te-ei quem és”). Ao adaptar a sentença,
a intenção da propaganda é, evidentemente, angariar a confiança do leitor (e, consequentemente, a
credibilidade das informações contidas naquele periódico), pois a Bíblia costuma ser tomada como um
livro de pensamentos e ensinamentos considerados como “verdades” universalmente assentadas e
aceitas por diversas comunidades. Outro tipo comum de intertextualidade é a introdução em textos de
provérbios ou ditos populares, que também inspiram confiança, pois costumam conter mensagens
reconhecidas como verdadeiras. São aproveitados não só em propaganda, mas ainda em variados
textos orais ou escritos, literários e não-literários. Por exemplo, ao iniciar o poema “Tecendo a manhã”,
João Cabral de Melo Neto defende uma ideia: “Um galo sozinho não tece uma manhã”. Não é
necessário muito esforço para reconhecer que por detrás dessas palavras está o ditado “Uma andorinha
só não faz verão”. O verso inicial funciona, pois, como uma espécie de “tese”, que o texto irá tentar
comprovar através de argumentação poética.
Há, no entanto, certos tipos de citações (literais ou construídas) e de alusões muito sutis que só são
compartilhadas por um pequeno número de pessoas. É o caso de referências utilizadas em textos
científicos ou jornalísticos (Seções de Economia, de Informática, por exemplo) e em obras literárias,
prosa ou poesia, que às vezes remetem a uma forma e/ou a um conteúdo bastante específico(s),
percebido(s) apenas por um leitor/interlocutor muito bem informado e/ou altamente letrado. Na literatura,
podem-se citar, entre muitos outros, autores estrangeiros, como James Joyce, T.S. Eliot, Umberto Eco.
A remissão a textos e paratextos do circuito cultural (mídia, propaganda, outdoors, nomes de marcas
de produtos etc.) é especialmente recorrente em autores chamados pós-modernos. Para ilustrar, pode-
se mencionar, entre outros escritores brasileiros, Ana Cristina Cesar, poetisa carioca, que usa e “abusa”
da intertextualidade em seus textos, a tal ponto que, sem a identificação das referências, o poema se
torna, constantemente, ininteligível e chega a ser considerado por algumas pessoas como um
“amontoado aleatório de enunciados”, sem coerência e, portanto, desprovido de sentido.
Os teóricos costumam identificar tipos de intertextualidade, entre os quais se destacam:
- a que se liga ao conteúdo (por exemplo, matérias jornalísticas que se reportam a notícias
veiculadas anteriormente na imprensa falada e/ou escrita: textos literários ou não-literários que se
referem a temas ou assuntos contidos em outros textos etc.). Podem ser explícitas (citações entre
aspas, com ou sem indicação da fonte) ou implícitas (paráfrases, paródias etc.);
- a que se associa ao caráter formal, que pode ou não estar ligado à tipologia textual como, por
exemplo, textos que “imitam” a linguagem bíblica, jurídica, linguagem de relatório etc. ou que procuram
imitar o estilo de um autor, em que comenta o seriado da TV Globo, baseado no livro de Guimarães
Rosa, procurando manter a linguagem e o estilo do escritor);
- a que remete a tipos textuais (ou “fatores tipológicos”), ligados a modelos cognitivos globais, às
estruturas e superestruturas ou a aspectos formais de caráter linguístico próprios de cada tipo de
discurso e/ou a cada tipo de texto: tipologias ligadas a estilos de época. Por superestrutura entendem-
se, entre outras, estruturas argumentativas (Tese anterior), premissas - argumentos (contra-argumentos
- síntese), conclusão (nova tese), estruturas narrativas (situação - complicação - ação ou avaliação –
resolução), moral ou estado final etc.;
Outro aspecto que é mencionado muito superficialmente é o da intertextualidade linguística. Ela está
ligada ao que o linguista romeno, Eugenio Coseriu, chama de formas do “discurso repetido”:
- “textemas” ou “unidades de textos”: provérbios, ditados populares; citações de vários tipos,
consagradas pela tradição cultural de uma comunidade etc.;
- “sintagmas estereotipados”: equivalentes a expressões idiomáticas;
- “perífrases léxicas”: unidades multivocabulares, empregadas frequentemente, mas ainda não
lexicalizadas (ex. “gravemente doente”, “dia útil”, “fazer misérias” etc.).
A intertextualidade tem funções diferentes, dependendo dos textos/contextos em que as referências
(linguísticas ou culturais) estão inseridas. Chamo a isso “graus das funções da intertextualidade”.
Didaticamente pode-se dizer que a referência cultural e/ou linguística pode servir apenas de pretexto,
é o caso de “epígrafes” longinquamente vinculadas a um trabalho e/ou a um texto. Sem dizer com isso
que todas as epígrafes funcionem apenas como pretextos. Em geral, o produtor do texto elege algo
pertinente e condizente com a temática de que trata. Existam algumas, todavia, que estão ali apenas
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para mostrar “conhecimento” de frases famosas e/ou para servir de “decoração” no texto. Neste caso, o
“intertexto” não tem um papel específico nem na construção nem na camada semântica do texto.
Outras vezes, o autor parte de uma frase ou de um verso que ocorreu a ele repentinamente (texto “A
última crônica”, em que o autor confessa estar sem assunto e tem de escrever). Afirma então:
“Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete
na lembrança: assim eu quereria meu último poema.”
Descreve então uma cena passada em um botequim, em que um casal comemora modestamente o
aniversário da filha, com um pedaço de bolo, uma coca cola e três velinhas brancas. O pai parecia
satisfeito com o sucesso da celebração, até que fica perturbado por ter sido observado, mas acaba por
sustentar a satisfação e se abre num sorriso. O autor termina a crônica, parafraseando o verso de
Manuel Bandeira: “Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso”. O
verso de Bandeira não pode ser considerado, nessa crônica, um mero pretexto. A intertextualidade
desempenha o papel de conferir certa “literariedade” à crônica, além de explicar o título e servir de
“fecho de ouro” para um texto que se inicia sem um conteúdo previamente escolhido. Não é, contudo,
imprescindível à compreensão do texto.
O que parece importante é que não se encare a intertextualidade apenas como a “identificação” da
fonte e, sim, que se procure estudá-la como um enriquecimento da leitura e da produção de textos e,
sobretudo, que se tente mostrar a função da sua presença na construção e no(s) sentido(s) dos textos.
Como afirmam Koch & Travaglia, “todas as questões ligadas à intertextualidade influenciam tanto o
processo de produção como o de compreensão de textos”.
Considerada por alguns autores como uma das condições para a existência de um texto, a
intertextualidade se destaca por relacionar um texto concreto com a memória textual coletiva, a
memória de um grupo ou de um indivíduo específico.
Trata-se da possibilidade de os textos serem criados a partir de outros textos. As obras de caráter
científico remetem explicitamente a autores reconhecidos, garantindo, assim, a veracidade das
afirmações. Nossas conversas são entrelaçadas de alusões a inúmeras considerações armazenadas
em nossas mentes. O jornal está repleto de referências já supostamente conhecidas pelo leitor. A leitura
de um romance, de um conto, novela, enfim, de qualquer obra literária, nos aponta para outras obras,
muitas vezes de forma implícita.
A nossa compreensão de textos (considerados aqui da forma mais abrangente) muito dependerá da
nossa experiência de vida, das nossas vivências, das nossas leituras. Determinadas obras só se
revelam através do conhecimento de outras. Ao visitar um museu, por exemplo, o nosso conhecimento
prévio muito nos auxilia ao nos depararmos com certas obras.
A noção de intertextualidade, da presença contínua de outros textos em determinado texto, nos leva
a refletir a respeitoda individualidade e da coletividade em termos de criação. Já vimos anteriormente
que a citação de outros textos se faz de forma implícita ou explícita. Mas, com que objetivo?
Um texto remete a outro para defender as ideias nele contidas ou para contestar tais ideias. Assim,
para se definir diante de determinado assunto, o autor do texto leva em consideração as ideias de
outros "autores" e com eles dialoga no seu texto.
Ainda ressaltando a importância da intertextualidade, remetemos às considerações de Vigner:
"Afirma-se aqui a importância do fenômeno da intertextualidade como fator essencial à legibilidade do
texto literário, e, a nosso ver, de todos os outros textos. O texto não é mais considerado só nas suas
relações com um referente extra-textual, mas primeiro na relação estabelecida com outros textos".
Como exemplo, temos um texto "Questão da Objetividade" e uma crônica de Zuenir Ventura, "Em
vez das células, as cédulas" para concretizar um pouco mais o conceito de intertextualidade.
Questão da Objetividade
As Ciências Humanas invadem hoje todo o nosso espaço mental. Até parece que nossa cultura
assinou um contrato com tais disciplinas, estipulando que lhes compete resolver tecnicamente boa parte
dos conflitos gerados pela aceleração das atuais mudanças sociais. É em nome do conhecimento
objetivo que elas se julgam no direito de explicar os fenômenos humanos e de propor soluções de
ordem ética, política, ideológica ou simplesmente humanitária, sem se darem conta de que, fazendo
isso, podem facilmente converter-se em "comodidades teóricas" para seus autores e em "comodidades
práticas" para sua clientela. Também é em nome do rigor científico que tentam construir todo o seu
campo teórico do fenômeno humano, mas através da ideia que gostariam de ter dele, visto terem
renunciado aos seus apelos e às suas significações. O equívoco olhar de Narciso, fascinado por sua
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própria beleza, estaria substituído por um olhar frio, objetivo, escrupuloso, calculista e calculador: e as
disciplinas humanas seriam científicas!
(Introdução às Ciências Humanas. Hilton Japiassu.
São Paulo, Letras e Letras, 1994, pp.89/90)
Comentário: Neste texto, temos um bom exemplo do que se define como intertextualidade. As
relações entre textos, a citação de um texto por outro, enfim, o diálogo entre textos. Muitas vezes, para
entender um texto na sua totalidade, é preciso conhecer o(s) texto(s) que nele fora(m) citado(s).
No trecho, por exemplo, em que se discute o papel das Ciências Humanas nos tempos atuais e o
espaço que estão ocupando, é trazido à tona o mito de Narciso. É preciso, então, dispor do
conhecimento de que Narciso, jovem dotado de grande beleza, apaixonou-se por sua própria imagem
quando a viu refletida na água de uma fonte onde foi matar a sede. Suas tentativas de alcançar a bela
imagem acabaram em desespero e morte.
O último parágrafo, em que o mito de Narciso é citado, demonstra que, dado o modo como as
Ciências Humanas são vistas hoje, até o olhar de Narciso, antes "fascinado por sua própria beleza",
seria substituído por um "olhar frio, objetivo, escrupuloso, calculista e calculador", ou seja, o olhar de
Narciso perderia o seu tom de encantamento para se transformar em algo material, sem sentimentos. A
comparação se estende às Ciências Humanas, que, de humanas, nada mais teriam, transformando-se
em disciplinas científicas.
Em vez das células, as cédulas
Nesses tempos de clonagem, recomenda-se assistir ao documentário Arquitetura da destruição, de
Peter Cohen. A fantástica história de Dolly, a ovelha, parece saída do filme, que conta a aventura
demente do nazismo, com seus sonhos de beleza e suas fantasias genéticas, seus experimentos de
eugenia e purificação da raça.
Os cientistas são engraçados: bons para inventar e péssimos para prever. Primeiro, descobrem;
depois se assustam com o risco da descoberta e aí então passam a gritar "cuidado, perigo". Fizeram
isso com quase todos os inventos, inclusive com a fissão nuclear, espantando-se quando "o átomo para
a paz" tornou-se uma mortífera arma de guerra. E estão fazendo o mesmo agora.
(...) Desde muito tempo se discute o quanto a ciência, ao procurar o bem, pode provocar
involuntariamente o mal. O que a Arquitetura da destruição mostra é como a arte e a estética são
capazes de fazer o mesmo, isto é, como a beleza pode servir à morte, à crueldade e à destruição.
Hitler julgava-se "o maior ator da Europa" e acreditava ser alguma coisa como um "tirano-artista"
nietzschiano ou um "ditador de gênio" wagneriano. Para ele, "a vida era arte," e o mundo, uma
grandiosa ópera da qual era diretor e protagonista.
O documentário mostra como os rituais coletivos, os grandes espetáculos de massa, as tochas
acesas (...) tudo isso constituía um culto estético - ainda que redundante (...) E o pior - todo esse
aparato era posto a serviço da perversa utopia de Hitler: a manipulação genética, a possibilidade de
purificação racial e de eliminação das imperfeições, principalmente as físicas. Não importava que os
mais ilustres exemplares nazistas, eles próprios, desmoralizassem o que pregavam em termos de
eugenia.
O que importava é que as pessoas queriam acreditar na insensatez apesar dos insensatos, como
ainda há quem continue acreditando. No Brasil, felizmente, Dolly provoca mais piada do que ameaça.
Já se atribui isso ao fato de que a nossa arquitetura da destruição é a corrupção. Somos craques
mesmo é em clonagem financeira. O que seriam nossos laranjas e fantasmas senão clones e
replicantes virtuais? Aqui, em vez de células, estamos interessados é em manipular cédulas.
(Zuenir Ventura, JB, 1997)
Comentário: Tendo como ponto de partida a alusão ao documentário Arquitetura da destruição, o
texto mantém sua unidade de sentido na relação que estabelece com outros textos, com dados da
História.
Nesta crônica, duas propriedades do texto são facilmente perceptíveis: a intertextualidade e a
inserção histórica.
O texto se constrói, à medida que retoma fatos já conhecidos. Nesse sentido, quanto mais amplo for
o repertório do leitor, o seu acervo de conhecimentos, maior será a sua competência para perceber
como os textos "dialogam uns com os outros" por meio de referências, alusões e citações.
Para perceber as intenções do autor desta crônica, ou seja, a sua intencionalidade, é preciso que o
leitor tenha conhecimento de fatos atuais, como as referências ao documentário recém lançado no
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circuito cinematográfico, à ovelha clonada Dolly, aos "laranjas" e "fantasmas", termos que dizem
respeito aos envolvidos em transações econômicas duvidosas. É preciso que conheça também o que
foi o nazismo, a figura de Hitler e sua obsessão pela raça pura, e ainda tenha conhecimento da
existência do filósofo Nietzsche e do compositor Wagner.
O vocabulário utilizado aponta para campos semânticos relacionados à clonagem, à raça pura, aos
binômios arte/beleza, arte/destruição, corrupção.
- Clonagem: experimentos, avanços genéticos, ovelhas, cientistas, inventos, células, clones
replicantes, manipulação genética, descoberta.
- Raça Pura: aventura, demente do nazismo, fantasias genéticas, experimentos de eugenia, utopia
perversa, manipulação genética, imperfeições físicas, eugenia.
- Arte/Beleza - Arte/Destruição: estética, sonhos de beleza, crueldade, tirano artista
ditador de gênio, nietzschiano, wagneriano, grandiosa ópera, diretor, protagonista, espetáculos de
massa e tochas acesas.
- Corrupção: laranjas, clonagem financeira, cédulas, fantasmas.
Esses campos semânticos se entrecruzam, porque englobam referências múltiplas dentro do texto.
Observação: Esse assunto já foi abordado no tópico 1.4 e será novamente estudado com mais
afinco no próximo tópico.
A obra literária é uma forma demanifestação artística condutora de diversos aspectos sociais da
realidade que visa a retratar. Para que ela exista e para que seja dotada de certa função, é necessário
que haja uma troca de valores entre o autor e o seu público. Nesse sentido, os ritos, os heróis, os
conflitos e os enredos advindos dos textos literários cumprem uma função social: criar um espaço de
interação de valores sócio históricos entre os sujeitos, aí, envolvidos (autor e leitor); a literatura só existe
nesse intercâmbio social.
Períodos Literários
1.6. Reconhecimento de Relações entre o Texto e a Realidade
Cultural em que foi Produzido
2. LITERATURA
2.1. Literatura Brasileira, desde as origens até a atualidade.
2.2. Literatura Portuguesa, das origens ao primeiro modernismo
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Cada período literário descrevia a sociedade da época enfocando sua cultura, linguagem e ideias.
O estudo destes períodos literários nos ajuda a compreender e a acompanhar melhor as mudanças que
aconteciam na sociedade. De um modo geral, podemos reconhecer ao longo da história literária
brasileira 2 momentos básicos:
Literatura do Período Colonial (1500-1836)
Período em que a cultura portuguesa se impôs.
- Literatura Informativa
- Barroco
- Arcadismo
Literatura do Período Nacional (1836 até os nossos dias)
Marcado pelo esforço em alcançar uma autonomia cultural mais vigorosa.
- Romantismo
- Realismo / Naturalismo
- Parnasianismo
- Simbolismo
- Pré-Modernismo
- Modernismo
- Pós-Modernismo
Literatura Informativa (Século XVI)
Como o próprio nome já diz, o objetivo da Literatura Informativa era descrever a terra brasileira.
Jesuítas, cronistas e viajantes portugueses produziram no séc. XVI inúmeros textos sobre a terra
recém-descoberta. A Literatura de Informação começou com a Carta de Pero Vaz de Caminha em
1500.
Outras Obras
Padre Manuel da Nóbrega: Diálogo sobre a conversão do gentio.
Gabriel Soares de Sousa: Tratado descritivo do Brasil.
Além dessas obras devemos destacar também a produção do padre José de Anchieta que escreveu
poesias e autos religiosos a fim de catequizar os índios.
Obras de José De Anchieta
Do Santíssimo Sacramento
A Santa Inês
Na festa de São Lourenço
Características da Literatura Informativa
- Textos descritivos.
- Nacionalismo.
- Os portugueses queriam transmitir sua fé aos índios, mas eles já tinham a sua própria cultura.
A Literatura no Brasil
Embora tardia, levando-se em consideração a situação histórica da Colônia, a produção literária no
Brasil é bastante significativa e pôde se difundir ao longo do território a partir do século XIX com o fim
da censura à imprensa vigente no Segundo Império. A partir de então, cada vez mais os autores
(jornalistas, advogados, professores, intelectuais, políticos etc.) dispunham de meios para ver impressos
nos jornais (e também em livros) seus escritos, seus ensaios, seus romances, seus poemas. Com o
alvorecer do século XX, não eram poucos os autores brasileiros nacionalmente e internacionalmente
conhecidos, refletindo o desenvolvimento das letras nacionais. Como é o caso de Julia Lopes de
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Almeida (1862-1934), escritora carioca agraciada com menção honrosa na França, de onde vinham
muitos dos modelos literários brasileiros, por sua contribuição literária.
A reclamação, naquela época, era com relação ao número incipiente de leitores e frequentadores de
teatros, reduzidos somente às camadas mais altas da população, que podiam arcar com o luxo de
adquirir as publicações e frequentar as peças, geralmente vindas de outros países. Mas nem mesmo
esse agravante impossibilitou que a literatura brasileira seguisse seu rumo e que seus principais
escritores continuassem escrevendo e traduzindo obras vindas de outros países. Divisor de águas na
produção artística brasileira, a Semana de Arte Moderna trouxe de vez a literatura de vanguarda de
uma maneira bem brasileira, embora pautada nos principais movimentos artísticos europeus. A partir de
então, houve um movimento crescente na produção literária brasileira estendendo-se até os dias de
hoje, representando os mais diversos aspectos da cultura e da sociedade brasileira.
A maior crítica que se faz, nos dias de hoje, é com relação à situação do mercado editorial, que ainda
oferece livros muito caros, inviabilizando seu acesso a todas as camadas da população. Esse quadro
vem mudando de uns tempos pra cá, com o advento de edições chamadas pocket (geralmente de
clássicos da literatura e de livros que já perderam os direitos autorais, isto é, que se encontram em
domínio público), com a aquisição de livros pelo governo em programas de incentivo à leitura e
modernização de bibliotecas escolares entre outros.
Outro aspecto, intimamente ligado com a leitura e a escrita está relacionada à educação. Pois o
Brasil carece de condições que incentive não apenas a alfabetização, mas o estímulo à leitura e à
escrita na escola. Embora haja diversos programas e grupos empenhados em reverter essa situação, o
país ainda está longe de ser um país voltado à literatura, diferentemente dos países desenvolvidos. É
geralmente nos grandes centros que vemos a produção, publicação e divulgação dos autores e, mesmo
assim, permanecendo inacessíveis a muitos grupos sociais. Apesar dos percalços mercadológicos,
educacionais, sociais e históricos, percebe-se um aumento de publicações nacionais nos últimos anos,
em razão da facilidade que um autor tem, hoje em dia, de procurar uma casa editorial e também do
interesse em promover a literatura brasileira e nosso mercado editorial. No entanto, em alguns casos, o
autor iniciante que quer ver sua obra impressa em forma de livro necessita arcar com parte da
publicação de seus escritos.
O país conta também com a Câmara Brasileira do Livro, órgão sem fins lucrativos que atua na
promoção do mercado editorial brasileiro. A CBL é responsável desde 1959 pelo prêmio Jabuti, maior
premiação de literatura no território, que premia anualmente desde romances a livros didáticos e
projetos gráficos. Com o advento da internet, não são poucos os grupos de “internautas” que vêm
disseminando a literatura na web. Grupos de discussão em fóruns e em comunidades das chamadas
redes sociais e blogs voltados à literatura e à educação têm movimentado não apenas as discussões e
críticas acerca da produção literária (nacional e internacional), mas também o mercado editorial, que vê
nesse tipo crescente de discussão um meio de divulgação. Assim, pode-se dizer que há mais uma
geração de leitores brasileiros, influenciada pela internet. Dizer que há uma “nova” geração de leitores
pareceria equivocado, pois leitores “tradicionais” de clássicos da literatura e frequentadores de
bibliotecas físicas (não apenas as virtuais) sempre existirão.
QUINHENTISMO
Quinhentismo é a denominação genérica de todas as manifestações literárias ocorridas no Brasil
durante o século XVI, no momento em que a cultura europeia foi introduzida no país. Note que, nesse
período, ainda não se trata de literatura genuinamente brasileira, a qual revele visão do homem
brasileiro. Trata-se de uma literatura ocorrida no Brasil, ligada ao Brasil, mas que denota a visão, as
ambições e as intenções do homem europeu mercantilista em busca de novas terras e riquezas. As
manifestações ocorridas se prenderam, basicamente, à descrição da terra e do índio, ou a textos
escritos pelos viajantes, jesuítas e missionários que aqui estiveram.
Literatura Informativa
A Carta de Caminha inaugura o que se convencionou chamar de Literatura Informativa sobre o Brasil.
Este tipo de literatura, também conhecido como literatura dos viajantes ou literatura dos cronistas, como
consequência das Grandes Navegações, empenha-se em fazer um levantamento da “terra nova”, de sua
floresta e fauna, de seus habitantese costumes, que se apresentaram muito diferentes dos europeus. Daí
ser uma literatura meramente descritiva e, como tal, sem grande valor literário. A principal característica da
carta é a exaltação da terra, resultante do assombro do europeu diante do exotismo e da exuberância de um
mundo tropical. Com relação à linguagem, o louvor à terra transparece no uso exagerado de adjetivos.
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Literatura Jesuítica
Os impérios ibéricos continham em sua expansão uma profunda ambiguidade. Ao espírito capitalista-
mercantil associavam um certo ideal religioso e salvacionista. Por essa razão, dezenas de religiosos
acompanhavam as expedições a fim de converter os gentios. Como consequência da Contrarreforma,
chegam, em 1549, os primeiros jesuítas ao Brasil. Incumbidos de catequizar os índios e de instalar o
ensino público no país, fundaram os primeiros colégios, que foram, durante muito tempo, a única
atividade intelectual existente na colônia.
Do ponto de vista estético, os jesuítas foram responsáveis pela melhor produção literária do
Quinhentismo brasileiro. Além da poesia de devoção, cultivaram o teatro de caráter pedagógico,
inspirado em passagens bíblicas, e produziram documentos que informavam aos superiores na Europa
o andamento dos trabalhos. O instrumento mais utilizado para atingir os objetivos pretendidos pelos
jesuítas (moralizar os costumes dos brancos colonos e catequizar os índios) foi o teatro. Para isso, os
jesuítas chegaram a aprender a língua tupi, utilizando-a como veículo de expressão. Os índios não
eram apenas espectadores das peças teatrais, mas também atores, dançarinos e cantores.
Os principais jesuítas responsáveis pela produção literária da época foram o padre Manuel da
Nóbrega, o missionário Fernão Cardim e o padre José de Anchieta.
José de Anchieta (1534 - 1597)
Nascido em 1534 na ilha de Tenerife, Canárias, o padre da Companhia de Jesus veio
para o Brasil em 1553 e fundou, no ano seguinte, um colégio na região da então cidade de
São Paulo. Faleceu na atual cidade de Anchieta, litoral do Espírito Santo, em 1597.
Conhecido como o grande piahy ("supremo pajé branco"), Anchieta deixou como legado a primeira
gramática do tupi-guarani, verdadeira cartilha para o ensino da língua dos nativos (Arte da gramática da
língua mais usada na costa do Brasil). Destacou-se também por suas poesias e autos, nos quais
misturava a moral religiosa católica aos costumes dos indígenas.
Entre as peças de teatro da época, destaca-se o Auto de São Lourenço, escrita pelo padre José de
Anchieta. Nela, o autor conta em três línguas (tupi, português e espanhol) o martírio de são Lourenço,
que preferiu morrer queimado a renunciar a fé cristã. Anchieta intentou conciliar os valores católicos
com os símbolos primitivos dos habitantes da terra e com aspectos da nova realidade americana. O
sagrado europeu ligava-se aos mitos indígenas, sem que isso significasse contradição, pois as ideias
que triunfavam nos espetáculos eram evidentemente as do padre. A liberdade formal das encenações
saltava aos olhos: o teatro anchietano pressupunha o lúdico, o jogo coreográfico, a cor, o som.
A obra do padre Anchieta também merece destaque na poesia. Além de poemas didáticos, com
finalidade catequética, também elaborou poemas que apenas revelavam sua necessidade de
expressão. Os poemas mais conhecidos de José de Anchieta são: “Do Santíssimo Sacramento” e “A
Santa Inês”. Veja, abaixo, um trecho do poema:
A Santa Inês
Cordeirinha linda,
Como folga¹ o povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume² novo!
Cordeirinha santa,
De Jesus querida,
Vossa santa vida
O Diabo espanta.
Por isso vos canta
Com prazer o povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
Fugirá depressa,
Pois vossa cabeça
Vem com luz tão pura.
Vossa formosura
Honra é do povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo.
Virginal cabeça,
Pela fé cortada,
Com vossa chegada
Já ninguém pereça;
Vinde mui depressa
Ajudar o povo,
Pois com vossa vinda
Lhe dais lume novo.
Vós sois cordeirinha
De Jesus Formoso;
Mas o vosso Esposo
já vos fez Rainha.
Também padeirinha
Sois do vosso Povo,
pois com vossa vinda,
Lhe dais trigo novo.
¹folga: se alegra
²lume: luz
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Esse poema fala do confronto entre o bem e o mal com bastante simplicidade: a chegada de Santa
Inês espanta o diabo e, graças a ela, o povo revigora sua fé. A linguagem é clara, as ideias são
facilmente compreensíveis e o ritmo faz com que os versos tenham musicalidade, ajudando o poeta a
envolver o ouvinte e a sensibilizá-lo para sua mensagem religiosa.
RESUMO
A Literatura do Brasil : século XVI
LITERATURA INFORMATIVA
- Sobre o Brasil, para os europeus;
- Cartas, realatórios, documentos, mapas;
- Carta de Pero Vaz.
LITERATURA JESUÍTICA
- Informativa em geral;
- Padre Anchieta, seu teatro e poesia.
TEATRO DE ANCHIETA
- Mistura de elementos europeus com a realidade;
- Indígena.
BARROCO
O período conhecido como Barroco, ou Seiscentismo, é constituído pelas primeiras manifestações
literárias genuinamente brasileiras ocorridas no Brasil Colônia, embora diretamente influenciadas pelo
barroco europeu, isto é, vindo das Metrópoles. O termo denomina genericamente todas as
manifestações artísticas dos anos 1600 e início dos anos 1700. Além da literatura, estende-se à música,
pintura, escultura e arquitetura da época.
"Vaidade" (sem data), de Domenico Piola
Contexto Histórico
Após o Concílio de Trento, realizado entre os anos de 1545 e 1563 e que teve como consequência
uma grande reformulação do Catolicismo, em resposta à Reforma protestante, a disciplina e a
autoridade da Igreja de Roma foram restauradas, estabelecendo-se a divisão da cristandade entre
protestantes e católicos. Nos Estados protestantes, onde as condições sociais foram mais favoráveis à
liberdade de pensamento, o racionalismo e a curiosidade científica do Renascimento continuaram a se
desenvolver. Já nos Estados católicos, sobretudo na Península Ibérica, desenvolveu-se o movimento
chamado Contrarreforma, que procurou reprimir todas as tentativas de manifestações culturais ou
religiosas contrárias às determinações da Igreja Católica. Nesse período, a Companhia de Jesus passa
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a dominar quase que inteiramente o ensino, exercendo papel importantíssimo na difusão do
pensamento aprovado pelo Concílio de Trento.
O clima geral era de austeridade e repressão. O Tribunal da Inquisição, que se estabelecera em
Portugal para julgar casos de heresia, ameaçava cada vez mais a liberdade de pensamento. O
complexo contexto sociocultural fez com que o homem tentasse conciliar a glória e os valores humanos
despertados pelo Renascimento com as ideias de submissão e pequenez perante Deus e a Igreja. Ao
antropocentrismo renascentista (valorização do homem) opôs-se o teocentrismo (Deus como centro de
tudo), inspirado nas tradições medievais.
Essa situação contraditória resultou em um movimento artístico que expressava também atitudes
contraditórias do artista em face do mundo, da vida, dos sentimentos e de si mesmo; esse movimento
recebeu o nome de Barroco. O homem se vê colocado entre o céu e a terra, consciente de sua
grandeza mas atormentado pela ideia de pecado e, nesse dilema, busca a salvação de forma
angustiada. Os sentimentos se exaltam, as paixões não são mais controladas pela razão, e o desejo de
exprimir esses estados de alma vai se realizar por meio de antíteses, paradoxos e interrogações. Essa
oscilação que leva o homem do céu ao inferno, que mostra sua dimensão carnal e espiritual, é uma das
principais características da literatura barroca. Os escritores barrocos abusam do jogo de palavras
(cultismo) e do jogo de ideias ou conceitos (conceptismo).Temas frequentes na Literatura Barroca
- fugacidade da vida e instabilidade das coisas;
- morte, expressão máxima da efemeridade das coisas;
- concepção do tempo como agente da morte e da dissolução das coisas;
- castigo, como decorrência do pecado;
- arrependimento;
- narração de cenas trágicas;
- erotismo;
- misticismo;
- apelo à religião.
Arte Barroca
A arte barroca procurou captar a realidade em pleno movimento. Mais do que estrutura, porém, o que
se buscava era o embelezamento de portas e janelas e da ornamentação de interiores. As colunas,
altares e púlpitos eram recobertos com espirais, flores e anjos – revestidos de ouro –, numa integração
da pintura, escultura e arquitetura, exercendo sobre o espectador uma grande atração visual. No Brasil,
a exploração do ouro e de pedras preciosas na região de Minas Gerais impulsionou a produção da arte
barroca.
Basílica de Nossa Senhora do Carmo em Recife (PE), Última Ceia (1795-1796), do escultor
uma das glórias do barroco brasileiro. Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho
A influência barroca manifestou-se claramente nas pinturas feitas em tetos e paredes de igrejas e
palácios. As cenas e elementos arquitetônicos (colunas, escadas, balcões, degraus) proporcionavam
uma incrível ilusão de movimento e ampliação de espaço, chegando, em alguns casos, a dar a
impressão de que a pintura era a realidade, e a parede, de fato, não existisse.
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Afresco da Igreja de São Francisco de Assis, Basílica do Bom Jesus de Matosinhos,
em Ouro Preto (MG), por Manuel da Costa Athayde em Congonhas (MG)
Características do Barroco
O estilo barroco nasceu em decorrência da crise do Renascimento, ocasionada, principalmente,
pelas fortes divergências religiosas e imposições do catolicismo e pelas dificuldades econômicas
decorrentes do declínio do comércio com o Oriente. Todo o rebuscamento presente na arte e literatura
barroca é reflexo dos conflitos dualistas entre o terreno e o celestial, o homem (antropocentrismo) e
Deus (teocentrismo), o pecado e o perdão, a religiosidade medieval e o paganismo presente no período
renascentista.
A Arte da Contrarreforma: a ideologia do Barroco é fornecida pela Contrarreforma. Em nenhuma
outra época se produziu tamanha quantidade de igrejas, capelas, estátuas de santos e monumentos
sepulcrais. As obras de arte deviam falar aos fiéis com a maior eficácia possível, mas em momento
algum descer até eles. A arte barroca tinha que convencer, conquistar e impor admiração.
Conflito entre corpo e alma: o Renascimento definiu-se pela valorização do profano, pondo em
voga o gosto pelas satisfações mundanas. Os intelectuais barrocos, no entanto, não alcançam
tranquilidade agindo de acordo com essa filosofia. A influência da Contrarreforma fez com que
houvesse oposição entre os ideais de vida eterna em contraposição com a vida terrena e do espírito em
contraposição à carne. Na visão barroca, não há possibilidade de conciliar essas antíteses: ou se vive a
vida sensualmente, ou se foge dos gozos humanos e se alcança a eternidade. A tensão de elementos
contrários causa no artista uma profunda angústia: após arrojar-se nos prazeres mais radicais, ele se
sente culpado e busca o perdão divino. Assim, ora ajoelha-se diante de Deus, ora celebra as delícias da
vida.
O tema da passagem do tempo: o homem barroco assume consciência integral no que se refere à
fugacidade da vida humana (efemeridade): o tempo, veloz e avassalador, tudo destrói em sua
passagem. Por outro lado, diante das coisas transitórias (instabilidade), surge a contradição: vivê-las,
antes que terminem, ou renunciar ao passageiro e entregar-se à eternidade?
Forma tumultuosa: o estilo barroco apresenta forma conturbada, decorrente da tensão causada
pela oposição entre os princípios renascentistas e a ética cristã. Daí a frequente utilização de antíteses,
paradoxos e inversões, estabelecendo uma forma contraditória, dilemática. Além disso, a utilização de
interrogações revela as incertezas do homem barroco frente ao seu período e a inversão de frases a
sua tentativa na conciliação dos elementos opostos.
Cultismo e conceptismo: O cultismo caracteriza-se pelo uso de linguagem rebuscada, culta,
extravagante, repleta de jogos de palavras e do emprego abusivo de figuras de estilo, como a metáfora
e a hipérbole. Veja um exemplo de poesia cultista:
Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas, A quem infiéis despedaçaram
O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo. (Gregório de Matos)
Já o conceptismo, que ocorre principalmente na prosa, é marcado pelo jogo de ideias, de conceitos,
seguindo um raciocínio lógico, nacionalista, que utiliza uma retórica aprimorada. A organização da frase
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obedece a uma ordem rigorosa, com o intuito de convencer e ensinar. Veja um exemplo de prosa
conceptista:
Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem
espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelhos e olhos, e é de noite, não se
pode ver por falta de luz. Logo, há mister¹ luz, há mister espelho e há mister olhos. (Pe. Antônio Vieira)
¹mister: necessidade de, precisão.
Figuras de Linguagem no Barroco
As figuras de estilo mais comuns nos textos barrocos reforçam a tentativa de apreender a realidade
por meio dos sentidos. Observe:
Metáfora: é uma comparação implícita. Tem-se como exemplo o trecho a seguir, escrito por
Gregório de Matos:
Se és fogo, como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Antítese: reflete a contradição do homem barroco, seu dualismo. Revela o contraste que o escritor
vê em quase tudo. Observe a seguir o trecho de Manuel Botelho de Oliveira, no qual é descrita uma
ilha, salientando-se seus elementos contrastantes:
Vista por fora é pouco apetecida
Porque aos olhos por feia é parecida;
Porém, dentro habitada
É muito bela, muito desejada,
É como a concha tosca e deslustrosa,
Que dentro cria a pérola formosa.
Paradoxo: corresponde à união de duas ideias contrárias num só pensamento. Opõe-se ao
racionalismo da arte renascentista. Veja a estrofe a seguir, de Gregório de Matos:
Ardor em firme Coração nascido;
pranto por belos olhos derramado;
incêndio em mares de água disfarçado;
rio de neve em fogo convertido.
Hipérbole: traduz ideia de grandiosidade, pompa. Veja mais um exemplo de Gregório de Matos:
É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.
Prosopopeia: personificação de seres inanimados para dinamizar a realidade. Observe um trecho
escrito pelo Padre Antônio Vieira:
No diamante agradou-me o forte, no cedro o incorruptível, na águia o sublime, no Leão o generoso,
no Sol o excesso de Luz.
BARROCO NO BRASIL
O Barroco foi introduzido no Brasil por intermédio dos jesuítas. Inicialmente, no final do século XVI,
tratava-se de um movimento apenas destinado à catequização. A partir do século XVII, o Barroco passa
a se expandir para os centros de produção açucareira, especialmente na Bahia, por meio das igrejas.
Assim, a função da igreja era ensinar o caminho da religiosidade e da moral a uma população que vivia
desregradamente. Nos séculos XVII e XVIII não havia ainda condições para a formação de uma
consciência literária brasileira. A vida social no país era organizada em função de pequenos núcleoseconômicos, não existindo efetivamente um público leitor para as obras literárias, o que só viria a
ocorrer no século XIX. Por esse motivo, fala-se apenas em autores brasileiros com características
barrocas, influenciados por fontes estrangeiras (portuguesa e espanhola), mas que não chegaram a
constituir um movimento propriamente dito. Nesse contexto, merecem destaque a poesia de Gregório
de Matos Guerra e a prosa do padre Antônio Vieira representada pelos seus sermões.
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Didaticamente, o Barroco brasileiro tem seu marco inicial em 1601, com a publicação do poema
épico Prosopopeia, de Bento Teixeira. Conheça a seguir os trechos selecionados:
Prosopopeia
I
Cantem Poetas o Poder Romano,
Sobmetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.
II
As Délficas irmãs chamar não quero,
que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que per rezão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.
Esse poema, além de traçar elogios aos primeiros donatários da capitania de Pernambuco, narra o
naufrágio sofrido por um deles, o donatário Jorge Albuquerque Coelho. Apesar de os críticos o
considerarem de pouco valor literário, o texto tem seu valor histórico pois foi a primeira obra do Barroco
brasileiro e o marco inicial do primeiro estilo de época a surgir no Brasil.
Autores
Gregório de Matos Guerra: o Boca do Inferno
Gregório de Matos Guerra nasceu em Salvador (BA) e morreu em Recife (PE).
Estudou no colégio dos jesuítas e formou-se em Direito em Coimbra (Portugal).
Recebeu o apelido de Boca do Inferno, graças a sua irreverente obra satírica.
Gregório de Matos firmou-se como o primeiro poeta brasileiro: cultivou a poesia lírica, satírica, erótica
e religiosa. O que se conhece de sua obra é fruto de inúmeras pesquisas, pois Gregório não publicou
seus poemas em vida. Por essa razão, há dúvidas quanto à autenticidade de muitos textos que lhe são
atribuídos.
O Poeta Religioso
A preocupação religiosa do escritor revela-se no grande número de textos que tratam do tema da
salvação espiritual do homem. No soneto a seguir, o poeta ajoelha-se diante de Deus, com um forte
sentimento de culpa por haver pecado, e promete redimir-se. Observe:
Soneto a Nosso Senhor
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido
Vos tem a perdoar mais empenhado.
Se basta a voz irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
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Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história.
Eu sou, Senhor a ovelha desgarrada,
Recobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
O Poeta Satírico
Gregório de Matos é amplamente conhecido por suas críticas à situação econômica da Bahia,
especialmente de Salvador, graças à expansão econômica chegando a fazer, inclusive, uma crítica ao então
governador da Bahia Antônio Luís da Câmara Coutinho. Além disso, suas críticas à Igreja e a religiosidade
presente naquele momento. Essa atitude de subversão por meio das palavras rendeu-lhe o apelido de "Boca
do Inferno", por satirizar seus desafetos
Triste Bahia
Triste Bahia!
ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi abundante.
A ti tricou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e, tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
O Poeta Lírico
Em sua produção lírica, Gregório de Matos se mostra um poeta angustiado em face à vida, à religião
e ao amor. Na poesia lírico-amorosa, o poeta revela sua amada, uma mulher bela que é
constantemente comparada aos elementos da natureza. Além disso, ao mesmo tempo que o amor
desperta os desejos corporais, o poeta é assaltado pela culpa e pela angústia do pecado.
À mesma d. Ângela
Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:
Quem vira uma tal flor, que a não cortara,
De verde pé, da rama fluorescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?
Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
O Poeta Erótico
Também alcunhado de profano, o poeta exalta a sensualidade e a volúpia das amantes que
conquistou na Bahia, além dos escândalos sexuais envolvendo os conventos da cidade.
Necessidades Forçosas da Natureza Humana
Descarto-me da tronga, que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.
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Busco uma freira, que me desemtupa
A via, que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei por quem mo vase toda Europa?
Amigo, quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da mão sua cachopa.
Padre Antônio Vieira
Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa, em 1608, e morreu na Bahia, em 1697. Com sete
anos de idade, veio para o Brasil e entrou para a Companhia de Jesus. Por defender posições
favoráveis aos índios e aos judeus, foi condenado à prisão pela Inquisição, onde ficou por dois
anos. Padre Antônio Vieira, por Arnold van Westerhout (1651-1725)
Responsável pelo desenvolvimento da prosa no período do barroco, Padre Antônio Vieira é
conhecido por seus sermões polêmicos em que critica, entre outras coisas, o despotismo dos colonos
portugueses, a influencia negativa que o Protestantismo exerceria na colônia, os pregadores que não
cumpriam com seu ofício de catequizar e evangelizar (seus adversários católicos) e a própria
Inquisição. Além disso, defendia os índios e sua evangelização, condenando os horrores vivenciados
por eles nas mãos de colonos e os cristãos-novos (judeus convertidos ao Catolicismo) que aqui se
instalaram. Famoso por seus sermões, padre Antônio Vieira também se dedicou a escrever cartas e
profecias.
Mito do Sebastianismo
Com o desenvolvimento do mercado marítimo, Portugal vivenciou um período de ascensão e
grandeza. Porém, com o declínio do comércio no Oriente, Portugal viveu uma crise econômica e
dinástica. Como consequência, o então rei de Portugal D. Sebastião resolve colocar em prática seu
plano de organizar uma cruzada em Marrocos e levando à batalha de Alcacer-Quibir em 1578. A derrota
na batalha e seu desaparecimento (provável morte em batalha), gerou especulações acerca de seus
paradeiro. A partir de então, originou-se a crença de que o rei retornaria para transformar Portugal
novamente em uma grande potência econômica. Padre Antônio Vieira era um dos que acreditavam no
Sebastianismo e, mais adiante, Antônio Conselheiro anunciava o retorno de D. Sebastião nos episódios
da Guerra de Canudos.
Os sermões
Escreveu cerca de duzentos sermões em estilo conceptista, isto é, que privilegia a retórica e o
encadeamento lógico de ideias e conceitos. Estão formalmente divididos em três partes:
Introito ou Exórdio: a apresentação, introdução do assunto.
Desenvolvimento ou argumento: defesa de uma ideiacom base na argumentação.
Peroração: parte final, conclusão.
Seus sermões mais famosos são:
Sermão da Sexagésima (1655): O sermão, dividido em dez partes, é conhecido por tratar da arte de
pregar. Nele, Padre Antônio Vieira condena aqueles que apenas pregam a palavra de Deus de maneira
vazia. Para ele, a palavra de Deus era como uma semente, que deveria ser semeada pelo pregador.
Por fim, o padre chega à conclusão de que, se a palavra de Deus não dá frutos no plano terrreno a
culpa é única e exclusivamente dos pregadores que não cumprem direito a sua função. Leia um trecho
do sermão:
Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que "saiu o pregador evangélico a semear" a palavra
divina. Bem parece este texto dos livros de Deus ão só faz menção do semear, mas também faz caso
do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos.
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(...) Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair.
Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair,
são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos
que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes
de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá,
achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare. (...) Ora, suposto que a
conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do
ouvinte, por qual deles devemos entender a falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou
por parte de Deus? (...)
Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda (1640): Neste sermão,
o padre incita os seguidores a reagir contra as invasões Holandesas, alegando que a presença dos
protestantes na colônia resultaria em uma série de depredações à colônia. Leia um trecho do sermão:
Se acaso for assim — o que vós não permitais — e está determinado em vosso secreto juízo, que
entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da
execução da sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com
vosso coração enquanto é tempo, porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado
não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós
mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os
homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se
aplacasse vossa ira. Romperam-se enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes,
alagou-se o mundo todo: já estaria satisfeita vossa justiça, senão quando ao terceiro dia começaram a
boiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se
representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que
a vissem, não os havia.
Sermão de Santo Antônio (1654): Também conhecido como "O Sermão dos Peixes", pois nele o
padre usa a imagem dos peixes como símbolo para fazer uma crítica aos vícios dos colonos
portugueses que se aproveitavam da condição dos índios para escravizá-los e sujeitá-los ao seu poder.
Leia um trecho do sermão:
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da
terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas
quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual
será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? (...) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes?
Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.
Uma só cousa pudera desconsolar o Pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de
converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente (...) Suposto isto, para
que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-
ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. (...)
RESUMO
O Barroco: século XVII
CONTEXTO HISTÓRICO
- Contrarreforma;
- Renascimento.
CARACTERÍSTICAS
- Conflito entre corpo e alma;
- Passagem do tempo;
- Cultismo e conceptismo;
- Figuras de linguagem.
PRINCIPAIS AUTORES
- Bento Teixeira;
- Gregório de Matos Guerra;
- Padre Antônio Vieira.
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ARCADISMO
O Balanço (década de 1730), de Nicolas Lancret
O Arcadismo, também conhecido como Setecentismo ou Neoclassicismo, é o movimento que
compreende a produção literária brasileira na segunda metade do século XVIII. O nome faz referência à
Arcádia, região do sul da Grécia que, por sua vez, foi nomeada em referência ao semideus Arcas (filho
de Zeus e Calisto). Denota-se, logo de início, as referências à mitologia grega que perpassa o
movimento.
Profundas mudanças no contexto histórico mundial caracterizam o período, tais como a ascensão do
Iluminismo, que pressupunha o racionalismo, o progresso e as ciências. Na América do Norte, ocorre a
Independência dos Estados Unidos, em 1776, abrindo caminho para vários movimentos de
independência ao longo de toda a América, como foi o caso do Brasil, que presenciou inúmeras
revoluções e inconfidências até a chegada da Família Real em 1808.
O movimento tem características reformistas, pois seu intuito era o de dar novos ares às artes e ao
ensino, aos hábitos e atitudes da época. A aristocracia em declínio viu sua riqueza esvair-se e dar lugar
a uma nova organização econômica liderada pelo pensamento burguês. Ao passo que os textos
produzidos no período convencionado de Quinhentismo sofreram influência direta de Portugal e aqueles
produzidos durante o Barroco, da cultura espanhola, os do Arcadismo, por sua vez, foram influenciados
pela cultura francesa devido aos acontecimentos movidos pela burguesia que sacudiram toda a Europa
(e o mundo Ocidental).
Segundo o crítico Alfredo Bosi em seu livro História Concisa da Literatura Brasileira (São Paulo:
editora Cultrix, 2006) houve dois momentos do Arcadismo no Brasil:
a) poético: retorno à tradição clássica com a utilização dos seus modelos, e valorização da natureza
e da mitologia.
b) ideológico: influenciados pela filosofia presente no Iluminismo, que traduz a crítica da burguesia
culta aos abusos da nobreza e do clero.
Seus principais autores são Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Basílio da Gama e
Santa Rita Durão. No Brasil, o ano convencionado para o início do Arcadismo é 1768, quando houve a
publicação de Obras, do poeta Claudio Manoel da Costa.
Arcádia Ultramarina
Trata-se de uma sociedade literária fundada na cidade de Vila Rica (MG), influenciada pela Arcádia
italiana (fundada em 1690) e cujos membros adotavam pseudônimos, isto é, nomes artísticos, de
pastores cantados na poesia grega ou latina. Por isso que alguns dos principais nomes do Arcadismo
brasileiro publicavam suas obras com nomes inspirados na mitologia grega e romana.
Principais Características
- inspiração nos modelos clássicos greco-latinos e renascentistas, como por exemplo, em O Uraguai
(gênero épico), em Marília de Dirceu (gênero lírico) e em Cartas Chilenas (gênero satírico);
- influência da filosofia francesa;
- mitologia pagã como elemento estético;
- o bom selvagem, expressão do filósofo Jean-Jacques Rousseau, denota a pureza dos nativos da
terra fazem menção à natureza e à busca pela vida simples, bucólica e pastoril;
- tensão entre o burguês culto, da cidade, contra a aristocracia;
- pastoralismo: poetas simples e humildes;
- bucolismo:busca pelos valores da natureza;
- nativismo: referências à terra e ao mundo natural;
- tom confessional;
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- estado de espírito de espontaneidade dos sentimentos;
- exaltação da pureza, da ingenuidade e da beleza.
Termos em latim
O uso de expressões em latim era comum no neoclacisssimo. Elas estavam associados ao estilo de
vida simples e bucólico. Conheça algumas delas:
Inutilia truncat: "cortar o inútil", referência aos excessos cometidos pelas obras do barroco. No
arcadismo, os poetas primavam pela simplicidade.
Fugere urbem: "fugir da cidade", do escritor clássico Horácio;
Locus amoenus: "lugar ameno", um refúgio ameno em detrimento dos centros urbanos monárquicos;
Carpe diem: "aproveitar a vida", o pastor, ciente da efemeridade do tempo, convida sua amada a
aproveitar o momento presente.
Cabe ressaltar, no entanto, que os membros da Arcádia eram todos burgueses e habitantes dos
centros urbanos. Por isso a eles são atribuídos um fingimento poético, isto é, a simulação de
sentimentos fictícios.
Autores
Cláudio Manoel da Costa (1729-1789)
Cláudio Manoel da Costa, o poeta mineiro nascido em 1729,
ilustrado por Newton Resende.
Também conhecido como o "guardador de rebanhos" Glauceste Satúrnio, seu pseudônimo, Cláudio
Manoel da Costa nasceu na cidade de Mariana (em Minas Gerais). Estudou Direito em Coimbra, onde
teve contato com as principais ideias do Iluminismo e, ao voltar para o Brasil, fundou da Arcádia
Ultramarina em Vila Rica. Era um homem muito rico e de posses que influenciou a elite intelectual da
época. Por ter participado da Inconfidência Mineira, foi preso e encontrado enforcado na cadeia em
1789. Os temas iniciais de sua obra giram em torno das reflexões morais e das contradições da vida
com forte inspiração nos modelos barrocos.
Posteriormente, dedicou-se à poesia bucólica e pastoril na qual a natureza funciona como um refúgio
para o poeta que busca a vida longe da cidade e reflete o as angustias e o sofrimento amoroso com sua
musa inacessível Nise. Estes poemas fazem parte do conjunto intitulado Obras (1768). Cláudio Manoel
da Costa também se dedicou à exaltação dos bandeirantes, fundadores de inúmeras cidades da região
mineradora e desbravadores do interior do país e de contar a história da cidade de Ouro Preto no
poemeto épico Vila Rica (1773). Veja um exemplo de sua poesia bucólica:
Sonetos
Eu ponho esta sanfona, tu, Palemo,
Porás a ovelha branca, e o cajado;
E ambos ao som da flauta magoado
Podemos competir de extremo a extremo.
Principia, pastor; que eu te não temo;
Inda que sejas tão avantajado
No cântico amebeu: para louvado
Escolhamos embora o velho Alcemo.
Que esperas? Toma a flauta, principia;
Eu quero acompanhar te; os horizontes
Já se enchem de prazer, e de alegria:
Parece, que estes prados, e estas fontes
Já sabem, que é o assunto da porfia
Nise, a melhor pastora destes montes.
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E de sua poesia épica:
Vila Rica
Canto VI
Levados de fervor, que o peito encerra
Vês os Paulistas, animosa gente,
Que ao Rei procuram do metal luzente
Co'as próprias mãos enriquecer o erário.
Arzão é este, é Este, o temerário,
Que da Casca os sertões tentou primeiro:
Vê qual despreza o nobre aventureiro,
Os laços e as traições, que lhe prepara
Do cruento gentio a fome avara.
Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810)
Tomás Antônio Gonzaga, poeta árcade, ilustrado por artista desconhecido.
Patrono da cadeira de número 37 da Academia Brasileira de Letras, Gonzaga
deixou como legado importantes obra líricas e satíricas.
Nasceu na cidade de Porto, em Portugal, porém, filho de mãe portuguesa e pai brasileiro, vive parte
da vida no Brasil. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, muda para o Brasil para trabalhar
como ouvidor e juiz. Aqui, pretendia se casar com a jovem Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão,
sua musa Marília. No entanto, como participara da Inconfidência Mineira, é preso e levado para o Rio de
Janeiro. Quando sai da prisão, muda-se para Moçambique, na África, onde casa com Juliana de Sousa
Mascarenhas.
Tomás Antônio Gonzaga é o pastor Dirceu, pseudônimo criado pelo poeta para seu conjunto de liras
famosas intitulado Marília de Dirceu, publicadas em três partes nos anos de 1792, 1799 e 1812. Nessa
obra, Dirceu é o pastor que cultiva o ideal da vida campestre, que vive entre ovelhas em uma choupana
e aproveita o momento presente ao lado da amada Marília.
Lira I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Lira XIX
Enquanto pasta alegre o manso gado,
Minha bela Marília, nos sentemos
À sombra deste cedro levantado.
Um pouco meditemos
Na regular beleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
A sábia natureza.
Atende, como aquela vaca preta
O novilhinho seu dos mais separa,
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E o lambe, enquanto chupa a lisa teta.
Atende mais, ó cara,
Como a ruiva cadela
Suporta que lhe morda o filho o corpo,
E salte em cima dela.
Repara, como cheia de ternura
Entre as asas ao filho essa ave aquenta,
Como aquela esgravata a terra dura,
E os seus assim sustenta;
Como se encoleriza,
E salta sem receio a todo o vulto,
Que junto deles pisa.
Que gosto não terá a esposa amante,
Quando der ao filhinho o peito brando,
E refletir então no seu semblante!
Quando, Marília, quando
Disser consigo: “É esta
“De teu querido pai a mesma barba,
“A mesma boca, e testa.”
Lira XV
Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
Fui honrado Pastor da tua aldeia;
Vestia finas lãs, e tinha sempre
A minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal, e o manso gado,
Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.
Curiosidade: como aponta o crítico Alfredo Bosi em seu História Concisa da Literatura Brasileira
(São Paulo: Cultrix, 2006), há uma mudança na cor dos cabelos de Marília, que ora são negros, ora
dourados, como se pode observar nos trechos a seguir:
Os seus compridos cabelos,
que sobre as costas odeiam,
são que os de Apolo mais belos,
mas de loura cor não são.
Têm a cor da negra noite;
e com o branco do rosto
fazem, Marília, um composto
da mais formosa união.
Em outra passagem, observa-se:
Os teus olhos espelham a luz divina,
a quem a luz do sol em vão se atreve;
papoila ou rosa delicada e fina
te cobre as faces, que são da cor da neve.
Os teus cabelos sao uns fios d'ouro;
teu lindo corpo bálsamos vapora.
Essa oscilação, segundo o crítico, demonstraria o compromisso árcade entre o real e os padrões de
beleza do lirismo inspirado no poeta clássico Petrarca. Outra oscilação presente nos poemas é entre o
pastor bucólico e o intelectual da cidade. Percebe-se, no entanto, uma mudança considerável no
discurso do poeta, coincidindo com a época em que o autor esteve preso e passa a refletir sobre as
angústias do aprisionamento, a justiça e o destino dos homens.
Cabe ressaltar, no entanto, que, embora o conjunto de liras seja dedicado à amada Marília, em
momento algum temos a voz da personagem idealizada. É apenas Dirceu quem discorre acerca dos
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seus sentimentos. Segundo alguns críticos literários, esse fato é um reflexo da sociedade patriarcal em
que Gonzaga vivia, não permitindo que suas personagens pudessem expressar suas vozes.
Por fim, Tomás Antônio Gonzaga também ficou conhecido por suas Cartas Chilenas, compostas por
13 poemas satíricos escritos antesda Inconfidência Mineira. Novamente, Gonzaga cria personagens e
pseudônimos: aqui, Critilo assina as cartas e as envia para Doroteu. O conteúdo das "cartas" são
críticas ao suposto governador do Chile (onde vive Critilo) Fanfarrão Minésio, uma referência ao
governador de Minas Gerais Luís da Cunha Meneses. Veja um exemplo:
Amigo Doroteu, prezado amigo,
Abre os olhos, boceja, estende os braços
E limpa, das pestanas carregadas,
O pegajoso humor, que o sono ajunta.
Critilo, o teu Critilo é quem te chama;
Ergue a cabeça da engomada fronha
Acorda, se ouvir queres coisas raras.
(...)
Ah! pobre Chile, que desgraça esperas!
Quanto melhor te fora se sentisses
As pragas, que no Egito se choraram,
Do que veres que sobe ao teu governo
Carrancudo casquilho, a quem rodeiam
Os néscios, os marotos e os peraltas!
Seguido, pois, dos grandes entra o chefe
No nosso Santiago junto à noite.
A casa me recolho e cheio destas
Tristíssimas imagens, no discurso,
Mil coisas feias, sem querer, revolvo.
Por ver se a dor divirto, vou sentar-me
Na janela da sala e ao ar levanto
Os olhos já molhados. Céus, que vejo!
Não vejo estrelas que, serenas, brilhem,
Nem vejo a lua que prateia os mares:
Vejo um grande cometa, a quem os doutos
Caudato apelidaram. Este cobre
A terra toda co’ disforme rabo.
Santa Rita Durão (1722-1784)
José de Santa Rita Durão nasceu em Cata-Preta, nas proximidades de
Mariana em Minas Gerais. Ingressa na Ordem de Santo Agostinho, em
Portugal, e lá permanece até sua morte em 1784.
Seu trabalho mais conhecido é o Caramuru (1781), cujo subtítulo, Poema épico do descobrimento da
Bahia, remonta ao tempo em que os primeiros europeus chegaram ao Brasil e travaram contato com os
nativos. Caramuru é o nome dado ao português Diogo Álvares Correia que passa a viver entre os índios
Tupinambás após sobreviver a um naufrágio no litoral baiano. Considerado um herói "cultural", que
ensina as leis e as virtudes aos "bárbaros" que aqui viviam, ganha o respeito dos índios ao disparar
uma arma de fogo. Os índios, assustados, equiparam-no a Tupã e passam a respeitá-lo como uma
entidade enviada. Ele se encanta com Paraguaçu, a bela índia de pele branca. Já instalado na tribo,
Diego percebe a possibilidade de difundir a fé cristã para os índios, doutrinando-os após ter encontrado
uma gruta que se assemelharia a uma igreja.
Mais adiante, Diego ajuda a resgatar a tripulação de um barco espanhol que havia naufragado e vê a
possibilidade de retornar à Europa através da nau francesa que viera resgatar aquela tripulação. Parte,
com Paraguaçu, deixando para trás as belas índias que haviam se apaixonado por ele, incluindo
Moema, a mais bela, que atira-se ao mar em direção ao navio na tentativa de alcançar o seu amado. Ao
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chegar na Europa, Paraguaçu é batizada de Catarina, ambos são festejados e recebem as honras da
realeza lusitana.
Moema (1866), por Victor Meireles
O poema segue a estrutura dos versos camonianos (de Camões) e da epopeia clássica, com fortes
influências da mitologia grega: composto por 10 cantos, versos decassílabos, oitava rima camoniana.
Segue também com a divisão tradicional das epopeias: proposição, invocação, dedicatória, narração e
epílogo. Conheça um trecho do poema épico em que é narrada a morte da índia Moema, uma das mais
belas cenas já descritas na literatura brasileira:
Canto VI
XXXVII
Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada;
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
XXXVIII
"- Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem.
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco...
Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?
(...)
XLI
Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Flutuar moribunda entre estas ondas;
Nem o passado amor teu peito incita
A um ai somente com que aos meus respondas!
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
(Disse, vendo-o fugir), ah não te escondas!
Dispara sobre mim teu cruel raio..."
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.
XLII
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo;
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
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Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo,
- Ah! Diogo cruel! - disse com mágoa,
E, sem mais vista ser, sorveu-se n’água.
Basílio da Gama (1741-1795)
José Basílio da Gama nasceu em 1741 na cidade de São José do Rio das
Mortes, atual Tiradentes, em Minas Gerais. Falece em Lisboa no dia 31 de julho
de 1795.
Foi para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio dos Jesuítas e era noviço quando os jesuítas
foram expulsos do país. Exilou-se na Itália e filiou-se na Arcádia Romana, sob o pseudônimo de
Termindo Sipílio. É preso por jesuitismo, em Lisboa, e enviado para Angola, livrando-se do exílio ao
escrever um poema para a filha do Marquês de Pombal. Em 1769 publica o poema épico O Uraguai,
criticando os jesuítas e defendendo a política do Marquês de Pombal que o transforma em oficial da
Secretaria do Reino. A crítica recaía no fato de que os jesuítas não defendiam os índios, apenas
pretendiam falsamente libertá-los e usar a mão de obra indígena para proveito próprio.
Em 1750, com o Tratado de Madrid, a missão dos Sete Povos passaria aos portugueses enquanto
que Colônia de Sacramento, no Uruguai, passaria para os espanhóis. O poema narra a luta dos
portugueses contra os índios das Missões (instigados pelos jesuítas espanhóis) que se recusam a sair
de suas terras, dando início aos conflitos conhecidos como as Guerra Guaranítica (1754-56). A crítica
recai, principalmente, sobre o personagem Balda, padre jesuíta que encarna o mal. Corrupto e desleal,
seduz uma índia e tem um filho com ela, Baldeta. Na aldeia moram também o chefe da tribo Cacambo e
sua mulher Lindóia, casal que representa a força do guerreiro e a beleza e delicadeza da índia. Balda
quer forçar Lindóia a se casar com Baldeta, enviando Cacambo para as batalhas na esperança de que
o índio morra para uni-la a seu filho.
No Canto II, Basílio da Gama relata o encontro entre os caciques Sepé Tiaraju e Cacambo com o
comandante português Gomes Freire de Andrada, ocorrido às margens do rio Uruguai (chamado então
de "Uraguai"). O comandante tenta estabelecer um acordo com os índios, sem sucesso, dando início
aos combates. O cacique Sepé Tiaraju lidera a disputa e acaba morto. Cacambo, seu sucessor, é
capturado e descobre que o perigo estava o tempo todo na mão dos jesuítas. Os portugueses, então,
permitem que ele retorne a sua aldeia para alertar seus companheiros contra os perigos dos jesuítas.
De volta, o valente guerreiro é envenenado por Balda e Lindóia, vendo-se forçada a casar com Baldeta,
comete suicídio, deixando-se picar por uma cobra venenosa.
Segundo o crítico literário Alfredo Bosi no estudo História Concisa da Literatura Brasileira (São Paulo:
Cultrix, 2006), Basílio da Gama é o homem do fim do século XVIII "cujos valores pré-liberais prenunciam
a Revolução e se manteriam com o idealismo romântico". Assim, pode-se dizer que O Uraguai
prenuncia muitos dos aspectos que serão desenvolvidos durante o movimento do Romantismo.
Características principais do poema
- exaltação da natureza e do "bom selvagem", atribuindo aos jesuítas a culpa pelo envolvimento dos
índios na luta;
- rompimento da estrutura poética camoniana;
- inovação no gênero épico: versos decassílabos brancos, isto é, sem rima, sem divisãode estrofes e
divididos em apenas cinco cantos;
- ao contrário da tradição épica, o poema conta um acontecimento recente na história do país;
- inicia o poema pela narração;
- discursos permeados por ideias iluministas;
A cena da morte de Lindóia mostra as características típicas do movimento árcade:
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Canto IV
(...)
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim, sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia, e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo co’a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado e triste,
Que os corações mais duros enternece
Tanto era bela no seu rosto a morte!
Quem foi Sepé Tiaraju?
Importante personagem na história do país, o Sepé Tiaraju é retratado em O Uraguai como um
guerreiro defensor de seu território na tentativa de impedir que os portugueses se apropriassem de suas
terras e de seus gados. Morto em batalha, quando lutava contra a decisão que dava as terras aos
portugueses, o índio é considerado um herói nacional, sendo nomeado "herói guarani missioneiro rio-
grandense", e também santo popular por alguma religiões brasileiras.
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RESUMO
O Arcadismo: século XVIII
CONTEXTO HISTÓRICO
- Iluminismo;
- Lutas pela independência do Brasil.
CARACTERÍSTICAS
- Modelo greco-romano e renascentista;
- Mitologia pagã;
- Pastoralismo, nativismo, bucolismo;
- Expressões em latim.
PRINCIPAIS AUTORES
- Claudio Manoel da Costa;
- Tomás Antônio Gonzaga;
- Basílio da Gama;
- Santa Rita Durão.
ROMANTISMO
Precedentes: Período de Transição (1808-1836)
Simultaneamente ao final das últimas produções do movimento árcade, ocorreu a vinda da Família
Real portuguesa para o Brasil. Esse acontecimento, no ano de 1808, significou, o início do processo de
Independência da Colônia. O período compreendido entre 1808 e 1836 é considerado de transição na
literatura brasileira devido à transferência do poder de Portugal para as terras brasileiras que trouxe
consigo, além da corte e da realeza, as novidades e modelos literários do Velho Continente nos moldes
franceses e ingleses. Houve também a mudança de foco artístico e cultural, da Bahia para o Rio de
Janeiro, capital da colônia desde o ano de 1763. Segundo o crítico literário Antônio Cândido, no livro
Noções de Análise Histórico-literária:
"No Brasil não havia universidades, nem tipografias, nem periódicos. Além da primária, a
instrução se limitava à formação de clérigos e ao nível que hoje chamamos secundário, as
bibliotecas eram poucas e limitadas aos conventos, o teatro era paupérrimo, e muito fraco o
intercâmbio entre os núcleos povoados do país, sendo dificílima a entrada de livros."
O que explica o desenvolvimento literário incipiente, se comparado com o mesmo período na
metrópole. Os autores vistos até então eram produto da educação europeia e/ou religiosa que
receberam. Com a vinda da Família Real, os livros puderam ser impressos no território, em função da
Imprensa Régia, derrubando a medida que proibia sua impressão e difusão sem a autorização prévia de
Portugal, dando início não apenas ao desenvolvimento da literatura mas, também, a um sentimento de
nacionalidade no território, uma das principais características do período romântico brasileiro.
Contexto Histórico na Europa
A Liberdade Guiando o Povo (1830), de Eugène Delacroix
O final do século XVIII presenciou a ascensão da tipografia, inventada pelo alemão Johannes
Gutenberg, que possibilitou o desenvolvimento da impressão em grandes quantidades de jornais e
romances. No início, os romances eram publicados diariamente nos jornais de forma fragmentada,
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assim, a cada dia um novo capítulo da história era revelada. Esse esquema, importado para a colônia,
ficou conhecido como "folhetim" ou "romance de folhetim" e deu origem às telenovelas que conhecemos
nos dias de hoje. Assim, com a Revolução da Imprensa, uma das principais características do período
Moderno, houve também a ascensão dos romances impressos, popularizando o artefato (o livro não era
mais considerado um artigo de luxo, inacessível) e proporcionando um largo alcance da literatura às
camadas inferiores da sociedade e também às mulheres, que raramente tinham acesso às letras e,
quando muito, eram alfabetizadas.
Considera-se o marco inicial do romantismo na Europa a publicação do romance Os sofrimentos do
jovem Werther, do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe no ano de 1774. Historicamente, um
dos marcos principais do movimento foi a Revolução Francesa, responsável pela difusão dos
pensamentos Iluministas na Europa e nas suas colônias, que tanto inspirou os poetas árcades
brasileiros. Com o processo de industrialização dos grandes centros, houve um delineamento das
classes sociais: a burguesia, com riquezas provenientes do comércio, e os operários das indústrias.
Logo, a literatura do período foi produzida pela classe dominante e para a classe dominante, deixando
claro qual a ideologia defendida por seus autores.
Ideologia: conjunto de ideias ou pensamentos de um indivíduo ou grupo e que pode estar ligado a
ações políticas, econômicas e sociais.
Contexto Histórico no Brasil
Chegada da Família Real Portuguesa a Bahia (1952), de Candido Portinari
Considera-se que o período romântico no Brasil inicia em 1836, com a publicação da obra Suspiros
Poéticos e Saudades, do poeta Gonçalves de Magalhães e vai até o ano de 1881, com a publicação do
romance realista Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis. Como dito anteriormente, o
desenvolvimento da literatura brasileira propriamente dita aconteceu a partir da vinda da Família Real
para o Rio de Janeiro que gerou um forte desenvolvimento artístico e cultural na colônia, agora afinado
com a produção literária europeia. Porém, a insatisfação das classes dominantes com o Império fez
com que surgissem tentativas de independência da metrópole, produzindo um sentimento de
nacionalismo que culminaria com a Declaração da Independência, em 1822, por Dom Pedro I.
Outro aspecto importante é com relação à escravidão dos negros: o Brasil era uma das poucas
colônias americanas que ainda sustentava o sistema econômico baseado do trabalho escravo, o que
gerou opiniões controversas por parte dos autores daquela época.Temos expressões literárias
abolicionistas (p. ex.: o poeta Gonçalves de Magalhães) e outras que tratavam do tema superficialmente
(p. ex.: o romancista Bernardo Guimarães) ou sequer tocavam na questão.
A independência das colônias latino-americanas impulsionou um sentimento de nacionalidade
diretamente refletida pela literatura. A formação dessas literaturas esteve a cargo de autores que
projetavam os ideais de uma nação em crescimento e desenvolvimento e que até hoje são
considerados constitutivos da história da nação. No entanto, essa literatura fundacional e canônica da
América Latina é revista por muitos professores, críticos literários e historiadores pois apresentam
apenas uma visão referente à formação das nações latino-americanas. Como assinala o professor e
crítico literário Eduardo F. Coutinho:
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"Na América Latina, durante o século XIX, o sujeito enunciador do discurso fundador do estado-
nação tomou como base um projeto patriarcal e elitista, que excluiu não só a mulher, mas índios,
negros, analfabetos e, em muitos casos, aqueles que não possuíam nenhum tipo de propriedade. A
preocupação dominante era marcar a diferença da nova nação com relação à matriz colonizadora,
mas o modelo era obvia e paradoxalmente a metrópole; daí a necessidade de forjar-se uma
homogeneidade que excluísse todas as diferenças."
O que causa uma sensação de estranhamento é o paradoxo observado no período: ao mesmo
tempo em que ideias sobre o sentimento de nacionalidade aflorava nos corações dos brasileiros (e
demais latino-americanos), parte da população permanecia na miséria e/ou em situações de
escravidão, sem acesso à emancipação e aos direitos humanos básicos.
Referências:
CÂNDIDO, Antônio. Noções de Análise Histórico-literária. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005.
COUTINHO, Eduardo F. Mutações do comparatismo no universo latino-americano: a questão da historiografia literária. In: SCHMIDT, Rita
T. Sob o signo do presente: intervenções comparatistas. Porto Alegre: UFRGS Editora, 2010.
Principais Características do Período Romântico
A carroça de feno (1821), de John Constable
"Em cada país o romantismo produziu uma nova literatura exuberante com imensas variações entre
seus autores porém, em todos eles, persistem algumas características em comum: opulência e
liberdade, devoção ao individualismo, confiança na bondade da natureza e no homem "natural" e na fé
permanente nas fontes ilimitadas do espírito e da imaginação humanos."
- Bradley, Beatty e Long
O romantismo floresceu na Alemanha (Goethe e Schlegel), na França (Madame de Stäel e
Chateaubriand) e na Inglaterra (Coleridge e Wordsworth), como resposta aos modelos pretendidos
pelos Iluministas, que privilegiavam o racional e o objetivo, em detrimento do emocional e da
subjetividade. Houve, no período, o desenvolvimento da chamada poesia ultrarromântica, dos romances
(novelas) e dos romances históricos (romances). Tanto a prosa quanto a poesia foram amplamente
difundidos no período. Porém, com a ascensão da imprensa e da burguesia comercial, os romances e
os periódicos foram ganhando cada vez mais espaço e se popularizaram a ponto de atingir um novo
público leitor que até então não tinha acesso à literatura.
Há uma diferença significativa com relação aos padrões poéticos vistos até então no Arcadismo, que
se assemelhavam à estrutura camoniana e eram inspirados nas obras greco-romanas. O verso clássico
deu espaço ao verso livre, aquele sem métrica e sem entonação, e ao verso branco, sem rima, que
possibilitou uma maior liberdade de criação do poeta romântico, agora livre para expressar sua
individualidade. Os temas principais da poesia romântica giram em torno do sentimento de
nacionalidade surgido a partir novo do contexto histórico e cultural. A nova pátria, com a declaração da
independência, manifestava-se através da exaltação da natureza do país, no retorno ao passado
histórico e na criação dos heróis nacionais.
A hipervalorização dos sentimentos e das emoções pessoais (angústias, tristezas, paixões,
felicidades etc.) também é característica do movimento, que pressupunha uma olhada para o interior do
artista e de suas emoções, em detrimento do racional e do objetivo iluminista. Esse sentimentalismo
exagerado está refletido nos enredos que, em sua maioria, consistem em histórias de amor ou, quando
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este não é o mote principal, em histórias em que o amor e a paixão prevalecem. A individualidade como
refúgio proporciona também a evasão para mundos distantes como forma de escapar a sua realidade.
Essa característica está associada, principalmente, aos autores da chamada Geração Mal-do-Século -
autores acometidos pela tuberculose (a doença considerada o mal do século XIX) - que almejavam uma
vida de prazeres em países e territórios distantes para escapar à dor e à morte.
O culto à natureza ganha traços diferenciados no romantismo pois, a partir de agora, passa a
funcionar não apenas como pano de fundo para as histórias mas também, passa a exercer profundo
fascínio pelos artistas. Além disso, a natureza passa a entrar em contato com o eu romântico, refletindo
seus estados de espírito e sentimentos. Nos romances góticos, surgidos no final do século XVII e
desenvolvidos durante o século XIX, a natureza tem um papel muitas vezes hostil e ameaçador na
trama, responsável por momentos de tensão. Com o passar do tempo, essa natureza transformou-se
em um clichê para histórias de terror na forma de cenários assustadores: noite, névoa, pântanos, neve,
árvores retorcidas etc.
Conceitos importantes
a) Subjetivismo e Individualismo - glorificação do que é particular e íntimo, dos sentimentos.
Segundo o professor Sergius Gonzaga, em seu livro Manual de Literatura Brasileira (Mercado Aberto,
1989): Com frequência, o destino da grandeza individual é a "maldição", ou seja, distanciamento
pessoal da vida em sociedade, através da solidão voluntária, da orgia, da ofensa aos valores comuns,
da recusa em aceitar os princípios da comunidade. Isto ocorre em um segundo momento, quando os
artistas se dão conta da impossibilidade de uma nova experiência napoleônica e da mediocridade da
burguesia pós-revolucionária, voltada apenas para a acumulação de capital.
b) Patriarcalismo - o século XIX também é conhecido por refletir em sua literatura canônica uma
sociedade conservadora e patriarcalista. Neste modelo, a família (homem, mulher e filhos) é o núcleo da
sociedade burguesa, cujo poder está centrado na figura do pai. Os enredo giram basicamente em torno
dela, de suas relações, seus costumes e seus desejos. Embora no Brasil o modelo de sociedade
patriarcal sempre esteve presente desde o início da colonização, no Romantismo que uma explicitação
desse modelo, pois ele fazia parte do projeto nacional presente no século XIX, isto é, aparecia na
literatura como reflexo da ideologia dominante e para estabelecer os costumes esperados na sociedade
e destinados principalmente às mulheres. Com o advento do Realismo (movimento literário seguinte)
muitos autores dedicam-se a criticar este modelo e a retratar (da forma mais realista possível) as
mazelas que se encontravam por trás da família burguesa, como a submissão das mulheres, a violência
praticada contra esposas e filhas e a própria condição dessas personagens, moedas de troca a fim de
garantir a situação financeira das famílias.
c) Eurocentrismo - com a expansão mercantilista, a Europa se transformou na grande potência
mundial expandindo seus mercados para além do continente, espalhando sua visão de mundo e
acreditando na soberania dos países e no modo de pensar europeu. As consequências causadas pelo
choque cultural dos europeus com outras sociedades (principalmente africanas, asiáticas e americanas)
criou uma série de estereótiposa respeito desses povos "bárbaros" e a ideia de que o pensamento
europeu seria civilizatório moldou as colônias e que foi refletida através da história principalmente na
literatura do século XIX.
f) Nacionalismo - com o desenvolvimento de uma burguesia mercantil, os reinos europeus foram se
dissolvendo e desenvolvendo, inicialmente, uma ideia de organização política e cultural autônoma. Nas
colônias, o sentimento de nacionalidade surgiu como reação à política mercantil restritiva das
metrópoles e do desejo de liberdade econômica e política. No Brasil, os escritores produziram obras
importantes motivadas pelo ideal nacionalista no sentido de delinear uma literatura que fosse
considerada brasileira e não mais submissa à colônia.
Primeira metade do século XIX
As primeiras manifestações do período romântico aconteceram em forma de poesia. Suspiros
poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães inaugura o movimento romântico no Brasil, no ano
de 1836. Além disso, diversos outros autores desenvolveram suas temáticas por meio da poesia, o que
permitiu aos críticos agruparem as manifestações literárias do gênero em três principais gerações.
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Primeira Geração Romântica: nacionalista ou indianista
Nessa geração, os temas principais giram em torno da nova pátria, com menções ao passado
histórico do país. Também estão presentes temas como a exaltação do índio, considerado o herói
nacional por excelência, que deu nome à geração. O mito do bom selvagem, do filósofo Rousseau é
aqui traduzido na figura do índio que, além de valente e defensor da sua terra, é livre e incorruptível.
Seus principais autores são Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias e Araújo Porto Alegre.
Gonçalves de Magalhães (1811-1882)
Gonçalves de Magalhães nasceu em Niterói (RJ) em 1811 e faleceu em
Roma, onde exercia cargos diplomáticos, no ano de 1882.
Estudou Medicina e viajou para a Europa, onde exerce a função de diplomata e passa a ter contato
com a produção literária do velho continente e funda, em Paris, a revista literária Niterói, revista
brasiliense, um dos marcos iniciais do movimento romântico no país.
Suspiros poéticos e saudades (1836) inaugura o movimento com uma literatura ufanista, celebrando
a nacionalidade e também com temas religiosos, repudiando a estética clássica e a temática da
mitologia pagã (bastante expressiva no período anterior). Além da poesia lírica voltada para o
sentimentalismo, nacionalismo e religiosidade, Magalhães escreveu a Confederação dos Tamoios
(1856), poema em dez cantos, inspirado nos poemas épicos, em que versa sobre a rebelião dos
indígenas contra os colonizadores portugueses ocorrida entre os anos de 1554 e 1567. Nele, o poeta
defende os índios como bravos guerreiros empenhados na defesa de sua terra, o que denotaria um
forte sentimento nacionalista embora, é claro, ainda não houvesse oficialmente um país. Logo, os índios
seriam os primeiros heróis nacionais. Veja um trecho do poema:
Redobrando de força, qual redobra
A rapidez do corpo gravitante,
Vai discorrendo, e achando em seu arcanos
Novas respostas às razões ouvidas.
Mas a noite declina, e branda aragem
Começa a refrescar. Do céu os lumes
Perdem a nitidez desfalecendo.
Assim já frouxo o Pensamento do índio,
Entre a vigília e o sono vagueando,
Pouco a pouco se olvida, e dorme, sonha,
Como imóvel na casa entorpecida,
Clausurada a crisálida recobra
Outra vida em silêncio, e desenvolve
Essas ligeiras asas com que um dia
Esvoaçará nos ares perfumados,
Onde enquanto reptil não se elevara;
Assim a alma, no sono concentrada,
Nesse mistério que chamamos sonho,
Preludiando a vista do futuro,
A póstuma visão preliba às vezes!
Faculdade divina, inexplicável
A quem só da matéria as leis conhece.
Ele sonha... Alto moço se lhe antolha
De belo e santo aspecto, parecido
Com uma imagem que vira atada a um tronco,
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E de setas o corpo traspassado,
Num altar desse templo, onde estivera,
E que tanto na mente lhe ficara,
— "Vem!" lhe diz ele e ambos vão pelos ares.
Mais rápidos que o raio luminoso
Vibrado pelo sol no veloz giro,
E vão pousar no alcantilado monte,
Que curvado domina a Guanabara.
O último tamoio (1883), de Rodolfo Amoedo
Saiba Mais: O escritor José de Alencar escreve, sob o pseudônimo Ig (referência à índia Iguassú),
uma série de críticas acerca do poema, de sua temática e da sua composição: Se me perguntarem o
que falta, de certo não saberei responder; falta um quer que seja, essa riqueza de imagens, esse luxo
da fantasia que forma na pintura, como na poesia, o colorido do pensamento, os raios e as sombras, os
claros e escuros do quadro. Alencar dizia também que o gênero épico não era compatível com a
literatura das Américas, principalmente do Brasil, uma nação ainda em nascimento. Essa série de
críticas resultou na publicação Cartas sobre a Confederação dos Tamoios, em 1856, que deu projeção
literária ao então jornalista José de Alencar e contribuiu para que ele escrevesse seus principais
romances indianistas.
Gonçalves Dias (1823-1864)
Gonçalves Dias nasceu em Caxias (MA) em 1823 e morre em
1864, vítima do naufrágio do navio Ville de Boulogne quando retornava
da Europa para o Brasil.
Gonçalves Dias nasceu em Caxias, no Maranhão e, com quinze anos, vai a Coimbra estudar Direito.
Longe do Brasil, toma contato com poetas portugueses que cultivavam a Idade Média. É considerado o
primeiro poeta de fato brasileiro por dar vazão aos sentimentos de um povo com relação à pátria. Em
1843 escreve seu famoso poema Canção do Exílio, onde se percebe algumas das principais
características do Romantismo: saudosismo, nacionalismo, exaltação da natureza, visão idealizada da
pátria e religiosidade. Veja:
Canção do Exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
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Nossas flores têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Também fazem parte de seu trabalho a poesia indianista, representada pelo conhecido I-Juca
Pirama, e a poesia lírica, pelo poema Se se morre de amor!
O poema I-Juca Pirama é dividido em dez cantos e conta a história de um guerreiro tupi capturado
pela tribo inimiga, os Timbiras. Como seu pai estava velho e doente, o guerreiro chora e pede clemência
à tribo para que sua vida seja poupada e ele possa voltar à companhia do velho. Ao saber disso, o pai,
decepcionado, alega que seu filho é fraco e covarde por não ter aceitado seu destino de morrer lutando
como um verdadeiro guerreiro nas mãos da tribo inimiga. Veja abaixo um trecho do poema indianista:
No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.
São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!
(...)
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.
(...)
Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
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Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.
(...)
"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.
(...)
"Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."
Saiba Mais: O ritmo do poema lembra o som de tambores, denotando o aspecto guerreiro das tribos
indígenas e criando um clima de tensão no enredo, acompanhando os acontecimentos da relação entre
o pai e o filho.
Araújo Porto Alegre (1806-1879)
Imagem: Araújo Porto Alegre (1848), por Ferdinand Krumholz. O autor
nasceu em 1806, em Rio Pardo e faleceu em Lisboa no ano de 1879.
Um dos principais autores da primeira geração romântica, Manuel de Araújo Porto Alegre
acompanhou Gonçalves de Magalhães na Niterói, revista brasiliense, publicando poemas desvelando
um forte sentimento nacionalista. Porto Alegre também era um conhecido pintor e cartunista, fazendo
caricaturas e desenhos satíricos sobre o Brasil.
Selva Brasileira, pintura de Araújo Porto-Alegre,
representante da literatura e da pintura romântica brasileira
Homem das artes e das Letras, deixou aproximadamente 150 obras entre poesias, peças de teatro e
traduções. Dentre elas, as mais famosas são: o livro de poesias Brasilianas (1863), o poema épico
Colombo (1866), e a peça de teatro Angélica e Firmino (1845). Veja um trecho do poema Colombo:
(...)
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De um salto juvenil pisa Colombo
A nova terra, e com seguro braço,
A bandeira real no solo planta.
Beija a plaga almejada, ledo e chora:
Foi geral a emoção! Disse o silêncio
Na mudez respeitosa mais que a língua.
Ao céu erguendo os lacrimosos olhos,
Na mão sustendo o Crucifixo disse:
“Deus eterno, Senhor onipotente,
A cujo verbo criador o espaço
Fecundado soltou o firmamento,
O sol, e a terra, e os ventos do oceano,
Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!
Sempre bendito em toda parte sejas.
Que se exalte tua alta majestade
Por haver concedido ao servo humilde
O teu nome louvar nestas distâncias.
Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,
Como primícias deste santo empenho,
A teu Filho Divino humilde of’reça
Esta terra, e que o mundo sempre a chame
Terra de Vera-cruz! E que assim seja”.
Ergue-se e o laço do estandarte afrouxa:
Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem
De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro
As armas espanholas. Como assenso
Da divina mansão, esparge a brisa
Um chuveiro de flores sobre a imagem,
Flores não vistas da europeia gente!
Segunda Geração Romântica: mal-do-século
Inspirados nas obras dos poetas Lord Byron, Goethe, Chateaubriand e Alfred de Musset, os autores
dessa geração também são conhecidos como "byronianos". As principais características da geração
são: o individualismo, egocentrismo, negativismo, dúvida, desilusão, tédio e sentimentos relacionados à
fuga da realidade, que caracterizam o chamado ultrarromantismo. São temas recorrentes nas obra dos
autores da segunda geração: a idealização da infância, a representação das mulheres virgens
sonhadas e a exaltação da morte. Seus principais poetas são Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu,
Junqueira Freire e Fagundes Varela.
Quem foi...
Lord Byron (1788-1824)
George Gordon Byron foi um poeta romântico inglês que influenciou
toda uma geração de escritores com sua poesia ultrarromântica. A ele
estão associados termos como o spleen, que significa tédio, mau
humor e melancolia, geralmente causados por amores não
correspondidos ou pela descrença na vida em razão da aproximação
da morte, temáticas comuns na poesia ultrarromântica.
De família aristocrática (porém, com dívidas), passava a vida a
escrever poesia e a gastar dinheiro, vivendo no ócio. Suas principais
obras são Horas de Lazer (1870), A Peregrinação de Childe Harrold
(1812-1818) e Don Juan (1819-1824).
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Álvares de Azevedo (1831 - 1852)
Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo em 1831 e faleceu,
vítima da tuberculose, em 1852.
Poeta romântico por excelência, Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo e estudou na Faculdade
de Direito, porém, não chegou a concluir o curso. Faleceu jovem, aos 21 anos, vítima da tuberculose e
da infecção resultante de um acidente de cavalo. A partir de então, desenvolveu verdadeira fixação com
a própria morte, escrevendo a respeito da passagem do tempo, do sentido da vida e do amor - esse
último, jamais realizado.
Seu livro de poesias, Lira dos Vinte Anos (publicada postumamente em 1853), carrega consigo a
melancolia de um poeta empenhado em expressar seus sentimentos mais profundos. O conjunto de
poesias também evidencia um poeta sensível, imaginativo e harmonioso. Pode-se dizer que sua obra
possui características góticas, pois retratam paisagens sombrias, donzelas em perigo, personagens
misteriosas, envoltas em vultos e véus entre outros.
Saiba mais:
Tuberculose: doença grave que pode atingir todos os órgãos do corpo, especialmente os pulmões, pois o
bacilo causador (Koch) se desenvolve nas regiões do corpo em que há bastante oxigênio. Em estágios mais
avançados, o doente passa a tossir com pus e sangue (a chamada hemoptise). Os principais sintomas são:
tosse crônica, febre, suor noturno, dores na região torácica e perda de peso. No Brasil, muitos escritores do
período romântico sofriam de tuberculose muitos chegando, inclusive, a falecer em decorrência da doença.
Logo, aquela geração de poetas ficou conhecida como a "geração do mal-do-século", isto é, da tuberculose.
Romance Gótico: subgênero originado na Inglaterra ao final do século XVIII. As principais características
desse romance dizem respeito à atmosfera de terror, aos enredos assustadores e aos personagens. Neles, é
comum encontrar cenários medievais, donzelas, cavaleiros, vilões e personagens do meio religioso e mistérios
envolvendo as linhagens das famílias aristocráticas.
A frustração presente em sua obra é amenizada apenas através da lembrança da mãe e da irmã.
Além disso, a perspectiva da morte, apesar de assustadora, traz conforto por saber que cessará a dor
física causada pela doença e pelos sofrimentos amorosos do poeta. Veja no poema abaixo:
Se eu morresse amanhã!
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu pendera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que dove n'alma
Acorda a natureza mais loucã!
Não me batera tanto amor no peito,
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
Além de poeta, Álvares de Azevedo produziu a peça de teatro Macário (1852), escrita após haver
sonhado com o diabo. A peça conta a história de um personagem que, em uma viagem de estudos, faz
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amizade com um desconhecido e descobre ser ninguém mais, ninguém menos que o próprio satã. Não
há menções sobre o nome da cidade em que eles se encontram, porém, há referências diretas à cidade
de São Paulo. Assim, o poeta aproveita para fazer umacrítica à devassidão na qual a cidade estava
imersa.
Azevedo também escreveu um romance chamado Noite na Taverna (publicada postumamente em
1855), uma narrativa composta por cinco histórias paralelas sobre cinco homens que relatam, em um
bar, histórias de terror vivenciadas pelos mesmos. São eles: Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius
Hermann e Johann. Os nomes são claramente europeus e fazem referência aos romances românticos
produzidos naquele continente (especialmente os italianos e os alemães), bem como sua temática
macabra, inspirada nos romances góticos.
Casimiro de Abreu (1839 - 1860)
Casimiro de Abreu nasceu em Capivary (RJ) em 1839. Faleceu na
cidade de Nova Friburgo no ano de 1860.
Nasceu em Capivary (RJ) e aos quatorze anos embarcou com o pai para Portugal, onde escreveu a
maior parte de sua obra, em que denota a saudade da família e da terra nativa. Poeta da segunda
geração romântica, Casimiro escreveu poemas onde o sentimento nativista e a busca pela inocência da
infância estão presentes. Pertenceu, graças à amizade com Machado de Assis, à então recém fundada
Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número seis. Vítima da tuberculose, faleceu na
cidade de Nova Friburgo (RJ).
Os aspectos formais de sua obra são considerados fracos, porém, sua temática revela grande
importância no desenvolvimento da poesia romântica para as letras brasileiras. Sua linguagem simples,
acompanhada por um ritmo fácil, rima pobre e repetitiva revelam um poeta empenhado na expressão
dos sentimentos saudosistas com relação à pátria e à infância. Essa última, em tom de profunda
nostalgia, revela um tempo em que a vida era mais prazerosa, junto à natureza e longe dos afazeres e
das responsabilidades da vida adulta. Sua produção poética está reunida no volume As primaveras
(1859) cujo poema mais conhecido é Meus oito anos, em que o poeta canta a saudade da infância
vivida:
Meus oito anos
Oh que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
A sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais.
Como são belos os dias
Do despontar da existência
Respira a alma inocência,
Como perfume a flor;
O mar é lago sereno,
O céu um manto azulado,
O mundo um sonho dourado,
A vida um hino de amor!
(...)
Saiba Mais: O poema Meus oito anos é um dos mais populares da literatura brasileira, sendo
parodiado por diversos autores, principalmente pelos poetas do período conhecido como Modernismo.
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Junqueira Freire (1832 - 1855)
Junqueira Freire nasceu e faleceu em Salvador (BA). Monge beneditino,
sacerdote e poeta, Freire é autor de uma série de poemas acerca dos
sofrimentos da vida religiosa.
Monge beneditino, sacerdote e poeta, é conhecido por seus versos em que a tensão presente na
vida religiosa está presente. Faleceu jovem, aos vinte e três anos e deixou uma obra poética permeada
pelo sofrimento em decorrência da saúde debilitada e da vida clerical, que impunha severas restrições
ao espírito do jovem sacerdote. Foi escolhido patrono da Academia Brasileira de Letras, ocupando a
cadeira de número vinte e cinco por indicação de Franklin Távora.
Sua obra é conhecida pela tensão presente nos versos, que oscilam entre a vida espiritual, a
religiosa e o mundo material. Junqueira Freire também é produto do seu tempo, revelando interesse em
aspectos então contemporâneos, como a postura republicana e antimonárquica, fruto de sua desilusão
com a vida religiosa. A busca pela liberdade viria apenas com a morte. Sua obra mais famosa é
Inspirações do claustro (1855) cujo poema mais famoso é Louco, veja abaixo:
Louco
(Hora de Delírio)
Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.
Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas ideias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra sua alma,
E nessa luta foi vencido aquele,
Foi uma repulsão de dois contrários:
Foi um duelo, na verdade, insano:
Foi um choque de agentes poderosos:
Foi o divino a combater com o humano.
Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe o nó da inteligência;
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.
Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.
Agora, sim - o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.
E vós, almas terrenas, que a matéria
Os sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas.
E zombando o chamais, portanto: - um louco!
Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre.
Aproxima-se mais à essência etérea.
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Fagundes Varela (1841 - 1875)
Luis Nicolau Fagundes Varela nasceu em Rio Claro (RJ). Escreveu
uma das mais belas poesias da literatura brasileira em homenagem ao
filho morto.
Abandonou a faculdade de Direito, casou aos vinte e um anos e teve um filho. A morte do filho, aos
três meses de vida, que serviu de inspiração para a composição de um dos seus poemas mais
importantes, Cântico do Calvário. A este fato também é atribuída a sua entrega ao alcoolismo, levando
o poeta à depressão e à vida boêmia pelos bares. Ocupante da cadeira número onze da Academia
Brasileira de Letras, por escolha de Lúcio de Mendonça.
Em contrapartida, sua obra cresce consideravelmente em função das amarguras da vida causadas
pelas perdas dos filhos (outro filho seu morre, também prematuramente) e da esposa. Ela é variada e
gira em torno da exaltação da natureza e da pátria, da morte, do mal-do-século, do sentimento religioso,
além de poemas que tratam da abolição da escravatura em que prega uma América livre, como é o
caso dos poemas presentes no conjunto Vozes da América (1864). Faleceu jovem, aos trinta e três
anos. Veja abaixo, trecho do poema Cântico do Calvário:
Cântico do calvário à memória de meu filho morto a 11 de dezembro de 1863
Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, a inspiração, a pátria,
O porvir de teu pai! - Ah! no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!
Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, - caíste!- Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
(...)
Terceira geração romântica: condoreira
A terceira geração romântica é caracterizada pela poesia libertária influenciada, principalmente, pela
obra político-social do escritor e poeta francês Victor Hugo, que originou a expressão "geração
hugoana". Além disso, a ave símbolo da geração é o condor, ave que habita o alto das cordilheiras dos
Andes, e que representa a liberdade daí o nome da geração ser condoreira. A poesia dessa geração é
combativa e prima pela denúncia das condições dos escravos, decorrência do sistema econômico
brasileiro, baseado no trabalho escravo. Os poetas dessa geração também clamam por uma poesia
social em que a humanidade trabalhe por igualdade, justiça e liberdade. Seus principais autores são
Castro Alves e Sousândrade.
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Castro Alves (1847 - 1871)
Nasceu em Curralinho e faleceu em Salvador (ambas na Bahia) em
decorrência da tuberculose e de uma infecçãono pé causada por acidente
em uma caçada.
"Castro Alves do Brasil, hoje que o teu livro puro
torna a nascer para a terra livre,
deixa a mim, poeta da nossa América,
coroar a tua cabeça com os louros do povo.
Tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens.
Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar."
-Pablo Neruda
Nasceu em Curralinho e faleceu em Salvador (ambas na Bahia) em decorrência da tuberculose e de
uma infecção no pé causada por acidente em uma caçada. Considerado um dos poetas brasileiros mais
brilhantes, Castro Alves tem sua obra dividida em duas grandes temáticas: poesia lírico-amorosa e a
poesia social e das causas humanas.
Começou a escrever cedo e aos dezessete anos já tinha seus primeiros poemas e peças
declamados e encenados. Aos vinte e um já havia conseguido a consagração entre os maiores
escritores daquele tempo, como José de Alencar e Machado de Assis. É o patrono número sete da
Academia Brasileira de Letras. Uma das principais características de sua obra é a eloquência, a
utilização de hipérboles, de antíteses, de metáforas, comparações grandiosas e diversas figuras de
linguagem, além da sugestão de imagens e do apelo auditivo. O poeta também faz referência a diversos
fatos históricos ocorridos no país, tais como a Independência da Bahia, a Inconfidência Mineira
(presente na peça O Gonzaga ou a Revolução de Minas),
Diferentemente dos poetas da primeira geração, individualistas e preocupados com a expressão dos
próprios sentimentos, Castro Alves demonstra preocupação com os problema sociais presentes na sua
época. Demonstra também um certo questionamento aos ideais de nacionalidade, pois, de que
adiantava louvar um país cuja economia estava baseada na exploração de sua população (mais
especificamente dos índios e dos negros)?
A visão do poeta demonstra paixão e fulgor pela vida, diferentemente dos poetas ultrarromânticos da
geração precedente. Seus trabalhos mais importantes são:
Poesia Lírico-Amorosa: a poesia lírico-amorosa está associada ao período em que o poeta esteve
envolvido com a atriz portuguesa Eugênia Câmara. Assim, a virgem idealizada dá lugar a uma mulher
de carne e osso e sensualizada. No entanto, o poeta ainda é um jovem inocente e terno em face a sua
amada corporificada e cheia de desejo. Seus poemas mais famosos dessa fase estão presentes em sua
primeira publicação, Espumas Flutuantes (1870), conjunto de 53 poemas que versam sobre a
transitoriedade da vida frente à morte, sobre o amor no plano espiritual e físico, que apela para o
sentimental e para o sensual e sensorial. Além disso, o romance com a atriz portuguesa acendeu no
poeta o desejo de escrever sobre esperança e desespero. Veja um trecho:
Boa-Noite
Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa-noite!... E tu dizes — Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito
— Mar de amor onde vagam meus desejos.
(...)
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Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!
Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...
Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa-noite!, formosa Consuelo!...
Neste poema, o poeta, apaixonado, não se contenta com apenas uma amante, e mostra
envolvimento com diferentes mulheres (Maria, Marion, Consuelo...), todas belas e sensuais, se
oferecendo para que o poeta, meigo e inocente, não vá embora. Outro poema famoso deste conjunto é
O Livro e a América, em que o poeta incentiva a leitura e a produção literária no país:
(...)
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto --
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe -- que faz a palma,
É chuva -- que faz o mar.
(...)
Poesia Social: poeta da liberdade, Castro denuncia as desigualdades sociais e a situação da
escravidão no país, além de solidarizar-se com os negros, que eram trazidos de modo precário dentro
dos navios negreiros. Castro clamava à natureza e às entidades divinas para que vissem a injustiça
cometida pelos homens sobre os homens e intervissem para que a viagem rumo ao Brasil fosse
interrompida. Graças a sua obra empenhada na denúncia das condições dos negros, ficou conhecido
como "o poeta dos escravos", por solidarizar-se com a situação dos que aqui vinham e eram
submetidos a todo tipo de trabalho em condições desumanas. As obras mais importantes dessa fase
são:
- Vozes D'África: Navio Negreiro (1869)
- A Cachoeira de Paulo Afonso (1876)
- Os Escravos (1883)
Veja trecho de Navio Negreiro:
Canto VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
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Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
Dividido em seis cantos, segundo a divisão clássica da epopeia:
1º canto: descrição do cenário;
2º canto: elogio aos marinheiros;
3º canto: horror - visão do navio negreiro em oposição ao belo cenário;
4º canto: descrição do navio e do sofrimento dos escravos;
5º canto: imagem do povo livre em suas terras, em oposição ao sofrimento no navio;
6º canto: o poeta discorre sobre a África que é, ao mesmo tempo, um país livre, acaba por se
beneficiar economicamente da escravidão.
O poema épico é eloquente e verborrágico. Embora o último navio negreiro que tenha chegado ao
país date de 1855, a escravidão ainda era parte do sistema econômico brasileiro.
Saiba mais:
Eloquente - que é convincente, persuasivo e expressivo; que se expressa de maneira loquaz.
Verborrágico - que se expressa utilizando muitas palavras nem sempre providas de uma ideia
lógica.
Curiosidades:
(1) A poesia de Castro Alves já demonstra aspectos, temáticas e tendências do movimento chamado
Realista, que "nega" os preceitos românticos embora sua obra seja romântica.
(2) Em 1941 o escritor baiano Jorge Amado escreveu o ABC de Castro Alves, uma biografia sobre o
poeta e sua obra. Há um trecho que exemplifica bem tanto a poesia amorosa quando a poesia social do
poeta baiano:
Este, cuja história vou te contar, foi amado e amou muitas mulheres. Vieram brancas, judias e
mestiças, tímidas e afoitas, para os seus braços e para o seu leito. Para uma, no entanto, guardou ele
suas melhores palavras, as mais doces, as mais ternas, as mais belas. Essa noiva tem um nome lindo,
negra: Liberdade.
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Sousândrade (1833 - 1902)
Joaquim de Sousa Andrade, mais conhecido como
Sousândrade,nasceu e faleceu no Maranhão, porém, viveu grande
parte da sua vida entre o Brasil, a Europa e os Estados Unidos.
Autor de vasta obra, seu trabalho mais importante é fruto de suas viagens, responsáveis pelo contato
com realidades diferentes ao redor do mundo. O aspecto que mais o diferencia dos outros poetas
brasileiros é a originalidade da sua poesia, principalmente com relação à ousadia de vocabulário com o
uso de palavras em inglês e neologismos, bem como de palavras indígenas. Além disso, a sonoridade
dos poemas também rompe com a métrica e com o ritmo tradicionais, o que despertou a atenção da
crítica literária do século XX.
Seu trabalho, então esquecido, foi resgatado na década de 1960 pela crítica literária, principalmente
pelos poetas Haroldo e Augusto de Campos, responsáveis pela análise de sua obra. Seu poema mais
famoso é o Guesa Errante, escrito entre 1858 e 1888, composto por treze cantos e inspirado em uma
lenda andina na qual um adolescente, o Guesa, seria sacrificado em oferecimento aos deuses. O índio,
porém, consegue fugir e passa a morar em uma das maiores ruas de Nova York, a Wall Street. Os
sacerdotes que o perseguiam estão agora transformados em capitalistas da grande cidade de Nova Iork
e ainda querem o sangue do Guesa, que vê o capitalismo consolidado como uma doença.
Dotada de pinceladas autobiográficas, o Guesa Errante denuncia o drama dos povos indígenas à
exploração dos povos europeus. Veja um trecho do poema:
(...)
"Nos áureos tempos, nos jardins da América
Infante adoração dobrando a crença
Ante o belo sinal, nuvem ibérica
Em sua noite a envolveu ruidosa e densa.
"Cândidos Incas! Quando já campeiam
Os heróis vencedores do inocente
Índio nu; quando os templos s'incendeiam,
Já sem virgens, sem ouro reluzente,
"Sem as sombras dos reis filhos de Manco,
Viu-se... (que tinham feito? e pouco havia
A fazer-se...) num leito puro e branco
A corrupção, que os braços estendia!
"E da existência meiga, afortunada,
O róseo fio nesse albor ameno
Foi destruído. Como ensanguentada
A terra fez sorrir ao céu sereno!
(...)
Segunda metade do século XIX
O desenvolvimento da prosa no período romântico coincide com o desenvolvimento do romance
como um gênero novo que, no Brasil, chegou graças à influência dos romances europeus e do
surgimento dos jornais - que publicavam, diariamente, os folhetins, isto é, capítulos de histórias que
compunham um romance. As primeiras manifestações no gênero estavam empenhadas na descrição
dos costumes da classe dominante na cidade do Rio de Janeiro, que agora vivia um grande período de
urbanização, e de algumas amenidades da vida no campo. Ou então, apresentavam personagens
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selvagens, concebidos pela ideologia e imaginação do período romântico como idealização do herói
nacional por excelência: o índio.
Cronologicamente, o primeiro romance romântico publicado no Brasil foi O filho do pescador (1843),
de Teixeira de Souza, porém, como o romance apresenta enredo confuso e foi considerado pelo público
como "sentimentalóide", A Moreninha (1844), de Joaquim Manoel Macedo, viria a ser considerado o
primeiro romance efetivamente brasileiro por receber uma maior aceitação do público e por definir as
linhas dos romance brasileiro. Os principais autores do período são: Joaquim Manoel de Macedo,
Manuel Antônio de Almeida, José de Alencar e, constituindo o teatro nacional, Martins Pena.
Autores:
Joaquim Manuel de Macedo (1820 - 1882)
Joaquim Manuel de Macedo nasceu e faleceu na cidade do Rio de
Janeiro. Formado em medicina, exerceu a carreira por pouco tempo
dedicando-se posteriormente à vida literária e ao ensino. É o patrono da
cadeira de número vinte da Academia Brasileira de Letras.
É considerado um dos romancistas mais importantes do período por ter inaugurado o romance
romântico brasileiro, em termos de temática, estrutura e desenvolvimento de enredo. Este último se
desenvolve da seguinte maneira, com o seguinte movimento: descrição do ambiente, surgimento de um
conflito, resolução do mistério e restabelecimento do ambiente pacífico inicial.
Seu principal romance é A Moreninha (1844), em que estão representados os costumes da elite
carioca da década de 1840, bem como suas festas e tradições (viajar para o litoral era um costume das
famílias pertencentes à elite), e hábitos da juventude burguesa do Rio de Janeiro. Ainda, segundo o
professor Roger Rouffiax, "a fidelidade com que o romancista descreveu os ambientes e costumes
serviu como um documentário sobre a vida urbana na capital do Império”. Outras obras do autor são O
Moço Loiro (1845) e A Luneta Mágica (1869).
A Moreninha:
Em uma viagem ao litoral, Augusto, Filipe e outros dois amigos, todos estudantes de medicina, fazem
uma aposta: Augusto não se apaixonaria por nenhuma moça durante o período em que eles
permaneceriam de férias no litoral. Caso o estudante perdesse a aposta, deveria escrever um romance
contando a sua história de amor. Na praia, mais especificamente na casa da avó de Filipe, em Paquetá,
Augusto acaba se apaixonando por Carolina, irmã de Filipe. Os dois passam a se conhecer melhor e o
jovem recorda que, quando criança, havia jurado amor a uma menina naquela praia e cujo nome
desconhecia. Recorda também que havia dado a ela um camafeu, isto é, um broche adornado com
pedras, como símbolo do verdadeiro amor.
Carolina então revela a Augusto que possui um camafeu igual ao descrito pelo moço, o qual havia
ganhado de um menino por quem havia se apaixonado e jurado amor quando criança. A coincidência
faz com que os dois relembrem da infância e descubram que eram os amantes prometidos. Augusto,
então, revive a paixão pela menina e pede Carolina em casamento. Perdida a aposta, Augusto escreve
um romance. O título do livro foi dado pelo protagonista fazendo referência aos aspectos físicos de
Carolina, e seu apelido carinhoso dado pelas pessoas mais próximas, "a moreninha".
Saiba mais:
Camafeu: é um adorno, mais especificamente um broche ou pingente, esculpido em pedra de
maneira a formar uma figura em relevo. De origem persa, o artefato foi muito usado pelas classes mais
altas europeia que influenciaram a moda dno Rio de Janeiro no século XIX.
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Trechos Selecionados:
Capítulo I - Aposta Imprudente
(...)
— Que vaidoso!… te digo eu, exclamou Filipe.
— Ora, esta não é má!... Então vocês querem governar o meu coração?...
— Não; porém eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas primas durante todo o tempo que for
da vontade dela.
— Que mimos de amor que são as primas deste senhor!
— Eu te mostrarei.
— Juro que não.
Aposto que sim.
— Aposto que não.
— Papel e tinta: escreva-se a aposta.
— Mas tu me dás muita vantagem, e eu rejeitarei a menor. Tens apenas duas primas: é um número
de feiticeiras muito limitado. Não sejam só elas as únicas magas que em teu favor invoquem para me
encantar: meus sentimentos ofendem, talvez, a vaidade de todas as belas; todas as belas, pois, tenham
o direito de te fazer ganhar a aposta, meu valente campeão do amor constante!
— Como quiseres, mas escreve.
— E quem perder?...
— Pagará a todos nós um almoço no Pharoux, disse Fabrício.
Qual almoço! acudiu Leopoldo. Pagará um camarote no primeiro drama novo que representar o
nosso João Caetano.
— Nem almoço, nem camarote, concluiu Filipe; se perderes, escreverás a história da tua derrota; e
se ganhares, escreverei o triunfo da tua inconstância.
— Bem, escrever-se-á um romance, e um de nós dois, o infeliz, será o autor.
Augusto escreveu primeira, segunda e terceira vez o termo da aposta; mas depois de longa e
vigorosa discussão, em que qualquer dos quatro falou duas vezes sobre a matéria, uma para responder
e dez ou doze pela ordem; depois de se oferecerem quinze emendas e vinteartigos aditivos, caiu tudo
por grande maioria, e entre bravos, apoiados e aplausos, foi aprovado, salva a redação, o seguinte
termo:
"No dia 20 de julho de 18... na sala parlamentar da casa n° ... da rua de..., sendo testemunhas
os estudantes Fabrício e Leopoldo, acordaram Filipe e Augusto, também estudantes, que, se até o dia
20 de agosto do corrente ano, o segundo acordante tiver amado a uma só mulher durante quinze dias
ou mais, será obrigado a escrever um romance em que tal acontecimento confesse; e, no caso
contrário, igual pena sofrerá o primeiro acordante. Sala parlamentar, 20 de julho de 18... Salva a
redação".
Como testemunhas — Fabrício e Leopoldo.
Acordantes — Filipe e Augusto.
E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão.
(...)
Epílogo
A chegada de Filipe, Fabrício e Leopoldo veio dar ainda mais viveza ao prazer que reinava na gruta.
O projeto de casamento de Augusto e d. Carolina não podia ser um mistério para eles, tendo sido, como
foi, elaborado por Filipe. de acordo com o pai do noivo, que fizera a proposta, e com o velho amigo, que
ainda no dia antecedente viera concluir os ajustes com a senhora d. Ana e portanto, o tempo que se
gastaria em explicações passou-se em abraços.
— Muito bem! Muito bem! disse por fim Filipe; quem pôs o fogo ao pé da pólvora fui eu, eu que
obriguei Augusto a vir passar o dia de Sant’Ana conosco.
— Então estás arrependido?...
— Não, por certo, apesar de me roubares minha irmã. Finalmente para este tesouro sempre teria de
haver uni ladrão: ainda bem que foste tu que o ganhaste.
— Mas, meu maninho, ele perdeu ganhando...
— Como?...
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Estamos no dia 20 de agosto: um mês!
— E verdade! Um mês!... exclamou Filipe.
— Um mês! ... gritaram Fabrício e Leopoldo.
— Eu não entendo isto, disse a senhora d. Ana.
Minha boa avó, acudiu a noiva, isto quer dizer que, finalmente, está presa a borboleta.
— Minha boa avó, exclamou Filipe, isto quer dizer que Augusto deve-me um romance.
— Já está pronto, respondeu o noivo.
— Como se intitula?
A Moreninha.
Curiosidades:
(1) A Moreninha é um exemplo de Metalinguagem, pois é um romance supostamente escrito por um
de seus personagens. A metalinguagem é caracterizada pela propriedade que a língua tem de falar
sobre si mesma e de mesclar o que existe na ficção com a realidade.
(2) Muitos dos aspectos encontrados no romance são considerados clichês nos dias de hoje. Isto é,
são situações e/ou frases que se tornaram lugar-comum na literatura principalmente no que diz respeito
às histórias de amor, criadas pelos romancistas brasileiros cujos enredos sempre terminam em um final
feliz.
Esse é um dos motivos pelo qual Joaquim Manoel Macedo é considerado o fundador do romance
brasileiro, por ter iniciado um gênero novo e incluído todo um estilo e situações novas na literatura
brasileira.
Manuel Antônio de Almeida (1830 - 1861)
Nasceu no Rio de Janeiro e faleceu em Macaé (também no estado do
Rio de Janeiro), vítima de um naufrágio. Formado em medicina, abandonou
o ofício para se dedicas às letras, sendo nomeado, posteriormente
administrador da Tipografia Nacional.
Nascido e falecido no Rio de Janeiro, Manuel Antônio de Almeida foi um importante fomentador das
letras brasileiras. Seu romance mais famoso, Memórias de um Sargento de Milícias, foi publicado em
formato de folhetim entre os anos de 1852 e 1853 no periódico Correio Mercantil do Rio de Janeiro. A
ideia para a composição do romance surgiu após ouvir as histórias de um colega de jornal, um antigo
sargento comandado pelo Major que inspirou o personagem homônimo do livro.
O romance é uma obra inovadora para sua época pois rompe com o retrato exclusivo da vida e dos
hábitos da aristocracia para retratar o ambiente e a linguagem do povo em sua simplicidade. Além
disso, Leonardinho, o protagonista, não é o protótipo do herói romântico, mas sim, um menino travesso
que mais tarde se transforma em um jovem pícaro, dado à vadiagem e à malandragem no lugar de
procurar uma ocupação.
O Gênero Picaresco
O gênero picaresco, na literatura, é caracterizado pela narrativa de um pícaro, sinônimo para
malandro. O personagem é, geralmente, um garoto inocente e puro que é corrompido e desiludido à
medida em que cresce e toma contato com a realidade do mundo adulto. Nas suas origens espanholas
e medievais, o personagem sempre termina desiludido e adaptado às condições de um mundo na
miséria ou em um casamento que não lhe proporciona nenhum tipo de prazer. No entanto, no romance
brasileiro o "pícaro" Leonardinho difere um pouco do espanhol por não ser um personagem tão inocente
e por terminar feliz em sua vida adulta e em seu casamento.
Se há tantas rupturas, o que faz de Manoel Antônio de Almeida um escritor do romantismo
brasileiro? Embora haja muitas convenções do romance romântico em sua obra, tais como o tom irônico
e satírico do narrador, o estilo frouxo, a linguagem descuidada e o final feliz do romance, o livro inova
por envolve personagens das classes mais baixas da sociedade, o clero e a milícia além de não
idealizar seus personagens.
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O compadre quer ver Leonardinho instruído pois quer vê-lo como padre ou formado em Direito,
diferentemente do romance pícaro original, em que os protagonistas precisam fazer trabalhos manuais
(geralmente nas posições mais baixas como criado ou ajudante de cozinheiro) para garantir seu
sustento. Além disso, ao final do romance, ele casa com seu amor e recebe "cinco heranças" sem
precisar trabalhar para isso. O que faz de Leonardinho um pícaro com características à parte e o
transforma em mais um tipo brasileiro.
O romance é considerado por alguns teóricos como o primeiro romance realmente de costumes
brasileiro por retratar a sociedade em toda a sua simplicidade e Manoel Antonio de Almeida é por vezes
considerado um autor de transição entre o Romantismo e o período seguinte, o Realismo. Além disso, o
autor traz para o enredo elementos que até então não eram retratados pelos romancistas, como
acampamentos de ciganos e bares frequentados pelas camadas sociais mais baixas.
Memórias de um Sargento de Milícias (1852)
Publicado em formato de folhetim, o romance narra a história de Leonardinho, filho dos portugueses
Leonardo Pataca e Maria-da-Hortaliça que chegam ao Rio de Janeiro. Na viagem em direção ao Brasil,
Leonardo dá uma pisadela em Maria, que retruca com um beliscão. "Nove meses depois, filho de uma
pisadela e um beliscão, nascia Leonardo." Porém, abandonado pelos pais, acaba sendo criado pelo
compadre barbeiro. Largado à vagabundagem, o personagem é o protótipo do malandro brasileiro. Veja
trecho abaixo:
Capítulo I - Origem, nascimento e batizado
(...)
Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-
se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o
emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas
viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de
Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de
sua mocidade mal-apessoado, e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada
à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão
assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se
como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas
da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia
de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de
seremdesta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e
familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.
Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos: foram os dois morar juntos: e daí
a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a
Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo,
esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito.
E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino
de quem falamos é o herói desta história.
(...)
Capítulo II - Primeiros Infortúnios
(...)
Logo que pôde andar e falar tornou-se um flagelo; quebrava e rasgava tudo que lhe vinha à mão.
Tinha uma paixão decidida pelo chapéu armado do Leonardo; se este o deixava por esquecimento em
algum lugar ao seu alcance, tomava-o imediatamente, espanava com ele todos os móveis, punha-lhe
dentro tudo que encontrava, esfregava-o em uma parede, e acabava por varrer com ele a casa; até que
a Maria, exasperada pelo que aquilo lhe havia custar aos ouvidos, e talvez às costas, arrancava-lhe das
mãos a vítima infeliz. Era, além de traquinas, guloso; quando não traquinava, comia. A Maria não lhe
perdoava; trazia-lhe bem maltratada uma região do corpo; porém ele não se emendava, que era
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também teimoso, e as travessuras recomeçavam mal acabava a dor das palmadas. Assim chegou aos
7 anos.
Afinal de contas a Maria sempre era saloia, e o Leonardo começava a arrepender-se seriamente de
tudo que tinha feito por ela e com ela. E tinha razão, porque, digamos depressa e sem mais cerimônias,
havia ele desde certo tempo concebido fundadas suspeitas de que era atraiçoado. Havia alguns meses
atrás tinha notado que certo sargento passava-lhe muitas vezes pela porta, e enfiava olhares curiosos
através das rótulas: uma ocasião, recolhendo-se, parecera-lhe que o vira encostado à janela. Isto
porém passou sem mais novidade.
Depois começou a estranhar que certo colega seu o procurasse em casa, para tratar de negócios do
oficio, sempre em horas desencontradas: porém isto também passou em breve. Finalmente aconteceu-
lhe por três ou quatro vezes esbarrar-se junto de casa com o capitão do navio em que tinha vindo de
Lisboa, e isto causou-lhe sérios cuidados. Um dia de manhã entrou sem ser esperado pela porta
adentro; alguém que estava na sala abriu precipitadamente a janela, saltou por ela para a rua, e
desapareceu.
À vista disto nada havia a duvidar: o pobre homem perdeu, como se costuma dizer, as estribeiras;
ficou cego de ciúme. Largou apressado sobre um banco uns autos que trazia embaixo do braço, e
endireitou para a Maria com os punhos cerrados.
— Grandessíssima!...
E a injúria que ia soltar era tão grande que o engasgou... e pôs-se a tremer com todo o corpo.
A Maria recuou dois passos e pôs-se em guarda, pois também não era das que se receava com
qualquer coisa.
— Tira-te lá, ó Leonardo!
— Não chames mais pelo meu nome, não chames... que tranco-te essa boca a socos...
— Safe-se daí! Quem lhe mandou pôr-se aos namoricos comigo a bordo?
Isto exasperou o Leonardo; a lembrança do amor aumentou-lhe a dor da traição, e o ciúme e a raiva
de que se achava possuído transbordaram em socos sobre a Maria, que depois de uma tentativa inútil
de resistência desatou a correr, a chorar e a gritar:
— Ai... ai... acuda, Sr. compadre... Sr. compadre!...
Porém o compadre ensaboava nesse momento a cara de um freguês, e não podia largá-lo. Portanto
a Maria pagou caro e por junto todas as contas. Encolheu-se a choramingar em um canto.
O menino assistira a toda essa cena com imperturbável sangue-frio: enquanto a Maria apanhava e o
Leonardo esbravejava, este ocupava-se tranquilamente em rasgar as folhas dos autos que este tinha
largado ao entrar, e em fazer delas uma grande coleção de cartuchos.
Quando, esmorecida a raiva, o Leonardo pôde ver alguma coisa mais do que seu ciúme, reparou
então na obra meritória em que se ocupava o pequeno. Enfurece-se de novo: suspendeu o menino
pelas orelhas, fê-lo dar no ar uma meia-volta, ergue o pé direito, assenta-lhe em cheio sobre os glúteos,
atirando-o sentado a quatro braças de distância.
— És filho de uma pisadela e de um beliscão; mereces que um pontapé te acabe a casta.
(...)
Vocabulário:
algibebe - negociante de roupas feitas.
saloia - pessoa que vive no campo.
maganão - malicioso, travesso.
Tejo - rio que banha a Península Ibérica.
atraiçoado - traído, enganado.
rótulas - grade de madeira que ocupa o vão de uma janela.
perder as estribeiras - atrapalhar-se.
José de Alencar (1829 - 1877)
Nasceu em Messejana, no Ceará e faleceu no Rio de Janeiro.
Advogado, jornalista e romancista, teve papel fundamental para o
desenvolvimento do romance e do pensamento intelectual no Brasil do século
XIX. É patrono número vinte e três da Academia Brasileira de Letras por
escolha de Machado de Assis.
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Primeiro escritor romântico a desenvolver o romance com temas mais variados e abrangentes do que
seus sucessores. Alencar empenhou-se em retratar diversas esferas e incluir o maior número de tipos
de personagens até então vistos na literatura brasileira. Alencar não se contentou somente com a
sociedade burguesa carioca de seu tempo mas, também, empenhou-se nos tipos brasileiros como o
gaúcho e o sertanejo. Sua intenção era de retratar um painel geral do país, de norte a sul, além de
tentar estabelecer uma linguagem brasileira.
Segundo o crítico José de Nicola em seu Literatura Brasileira: das origens aos nossos dias (ed.
Scipione, 2001), a obra de José de Alencar é um retrato de suas condições políticas e sociais: grande
proprietário de terras, político e conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata. O
romancista transparece essas posições em sua obra, como se pode perceber na maneira como retrata
os índios e a sexualidade feminina em seus romances. Os críticos costumam dividir em quatro as fases
principais de sua produção:
a) urbana ou social: Cinco Minutos (1856), A viuvinha (1860), Lucíola (1862), Diva (1864), A pata da
gazela (1870), Sonhos d'ouro (1872), Senhora (1875), Encarnação (1893);
b) indianista: O Guarani (1857), Iracema (1865), Ubirajara (1874);
c) histórico: As Minas de Prata (1865), Guerra dos Mascates (1873);
d) regionalista: O gaúcho (1870), O Tronco do Ipê (1871), Til (1872), O Sertanejo (1875);
Curiosidade: no ano de 1856 Alencar publica uma série de cartas em resposta ao poema A
Confederação dos Tamoios (1857), de Gonçalves de Magalhães. A coletânea de oito cartas, pubilcada
sob o título de Cartas sobre a confederação dos tamoios pretendia criticar o poema de Magalhães que,
na época, era protegido do imperador Dom Pedro II. A crítica recai principalmente no modelo escolhido
por Magalhães para seu poema, o épico, um gênero clássico que não seria adequado para cantar o
índio brasileiro. Além disso, critica a fraca musicalidade do poema, a falta de "arte" na descrição da
natureza brasileira e dos costumes indígenas. No ano seguinte (1857), Alencar publica seu primeiro
romance indianista, O Guarani como resposta ao poema de Magalhães.
José de Alencar
a) romances urbanos ou sociais:
As características principais dos romances urbanos ou sociais são:
- final feliz ou ideal;
- prevalência do amor verdadeiro;
- protagonistas femininas (que refletem um "ideal de feminilidade");
- retrato das relações familiares;
- ambiente doméstico;
- casamentos;
- questões financeiras (heranças, dotes, títulos, falências...);
Os três romances mais conhecidos dessa fase são: Lucíola (1862), Diva (1864) e Senhora (1875)
que fazem parte da chamada trilogia "perfis de mulheres".Eles retratam uma sociedade elegante
marcada pela ascensão da burguesia carioca empenhada em seguir a moda das cidades europeias,
mais notadamente de Paris, no que diz respeito tanto às vestimentas quanto à vida cultural no período
do Segundo Reinado. Os enredos, dramáticos, seguem uma estrutura tradicional das histórias de amor:
situação inicial - conflito/quebra - reparação/solução. O drama quase sempre gira em torno de um jovem
casal que precisa enfrentar obstáculos sociais, geralmente envolvendo questões financeiras, se
quiserem ficar juntos.
Enredos:
Lucíola (1862) - o romance conta a história de amor entre um jovem rapaz que chega ao Rio de
Janeiro e a cortesã de luxo Lúcia. Narrado em primeira pessoa pelo personagem Paulo Silva, o
romance é escrito sob a forma de cartas, enviadas por Paulo para uma senhora, G. M., que mais tarde
as publica sob a forma de um romance.
Ao chegar na cidade, Paulo sai com um amigo para conhecer a cidade quando, na Rua das
Mangueiras, avista uma bela moça dentro de um carro por quem se encanta. Dias depois, revê a moça
na festa religiosa de Nossa Senhora da Glória e fica sabendo, no entanto, que a bela moça é a
prostituta mais luxuosa e cobiçada da cidade. Paulo então a procura com desejo de possuí-la e os dois
acabam se encantando um pelo outro, como amigos e amantes. Os amigos de Paulo tentam persuadí-
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lo acerca da índole da moça, além de sugerir que a moça é caprichosa, excêntrica e avarenta, o que faz
com que o moço se questione acerca das intenções de Lúcia.
Um dos amigos de Paulo, o Sá, organiza uma festa na qual convida, entre outros, a Lúcia. A festa,
na realidade, era apenas um pretexto para mostrar a Paulo que tipo de mulher era Lúcia. No meio da
janta, ela se levanta e começa, nua, a imitar as poses lascivas dos quadros expostos na sala mediante
pagamento dos convidados. Momentos mais tarde, os dois amantes se encontram no jardim e Lúcia se
justifica, dizendo que fez o que fez em um momento de desespero, pois Paulo havia zombado dela
anteriormente. Em seguida, os dois se entregam ao amor.
Paulo passa a viver com Lúcia, que se redime de sua condição de prostituta e deseja viver única e
exclusivamente para seu amor. Para isso, deixa de frequentar a sociedade e volta-se para seu amor
com Paulo. Cometida por um sentimento de amor puro, Lúcia transforma-se consideravelmente,
passando a, inclusive, a não querer mais se entregar fisicamente para Paulo, que não compreende essa
mudança de atitude. Esse novo estilo de vida levanta uma série de reprovações por parte dos amigos
de Paulo, que reprovam sua atitude. Lúcia, querendo salvar-lhe a reputação, dispõe-se a voltar a
aparecer em sociedade, acarretando mais reprovações por parte de Paulo. Os dois não se entendem
mais e Lúcia adoece.
A partir de então, Paulo passa a respeitá-la, pois compreende que a moça, na verdade, o ama em
espírito e confia nele a ponto de contar-lhe seus segredos e a história de sua vida. Ela, na verdade,
chama-se Maria da Glória e era uma criança feliz e inocente até que, aos 14 anos, a febre amarela
levou consigo toda sua família. Para sobreviver, precisou pedir ajuda a um rico vizinho, em troca de sua
inocência. O pai, que sobrevivera graças a ajuda conseguida pela filha, expulsou a moça de casa ao
saber da procedência do dinheiro. Maria da Glória, então, foi acolhida por uma caftina que a conduz à
prostituição.
Na nova profissão, Maria da Glória fez amizade com outra moça que passara pelos mesmos
infortúnios. Lúcia era seu nome, e a moça veio a falecer pouco tempo depois. Maria da Glória, então,
colocou seu próprio nome no atestado de óbito e passou a assumir a identidade da amiga morta. Com a
morte dos pais, a nova Lúcia passou a guardar todo o dinheiro possível para garantir a educação da
irmã Ana, que passou a viver em um colégio. Lúcia, então, falece e pede a Paulo que cuide de sua irmã
Ana como se fosse sua própria filha, para que nada falte à menina.
O final do romance é considerado "ideal", pois não rompe as barreiras sociais que recaíram sobre o
casal. A união dos dois personagens não é apropriada, e não era vista com bons olhos pela sociedade
conservadora da época. Por isso, Alencar precisou dar um fim trágico a sua personagem, porém,
redimindo-a de sua vida de pecadora com a morte e com o amor verdadeiro.
É dito que o título do romance é uma alusão a Lúcifer, o diabo, dando a entender o caráter dúbio e
incompreensível do amor e da sexualidade feminina.
Diva (1864) - dando continuidade às cartas para a senhora G. M., agora Paulo conta a história de
amor entre seu amigo, o Dr. Augusto Amaral, e a jovem Emília. Paulo e Augusto se conheceram a
bordo de um navio rumo ao Recife: enquanto Paulo permanecera em sua cidade natal, o outro, jovem
médico, partira para Paris e lhe enviara um manuscrito, confessando ao amigo o amor pela moça, cujo
conteúdo é o romance que se segue.
Emília é uma menina feia que cresce em meio ao luxo das grandes famílias ricas do Rio de Janeiro.
Porém, quando muito jovem, contrai uma doença mas é salva pelo Dr. Amaral. Dois anos mais tarde,
depois de sua viagem, o jovem médico retorna à casa a convite de seu pai mas a menina, agora uma
bela moça, o ignora e mostra desdém.
Por "diva", compreende-se uma mulher que é muito bonita e altiva, com ares de divindade e
superioridade e que é assim vista por seus admiradores. O título do romance é explicado a partir da
descrição que o narrador (Augusto) faz de Emília:
Era alta e esbelta. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados, que são hastes de lírio para o rosto
gentil; porém na mesma delicadeza do porte esculpiam-se os contornos mais graciosos com firme
nitidez das linhas e uma deliciosa suavidade nos relevos.
Não era alva, também não era morena. Tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia, quando vão
desfalecendo ao beijo do sol. Mimosa cor de mulher, se a aveluda a pubescência juvenil, e a luz coa
pelo fino tecido, e um sangue puro a escumilha de róseo matiz. A dela era assim.
Uma altivez de rainha cingia-lhe a fronte, como diadema cintilado na cabeça de um anjo. Havia em
toda a sua pessoa um quer que fosse de sublime e excelso que a abstraía da terra. Contemplando-a
naquele instante de enlevo, dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascensão.
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Mais adiante:
Por esse tempo Emília fez a sua entrada no Cassimo.
- Já viu a rainha do baile? disseram-me logo que cheguei.
- Ainda não. Quem é?
- A Duartezinha.
- Ah!
Realmente, a soberania da formosura e elegância, ela a tinha conquistado. Parecia que essa menina
se guardara até aquele instante, para de improviso e no mais fidalgo salão da corte fazer sua brilhante
metamorfose. Nessa noite ela quis ostentar-se deusa; e vestiu os fulgores da beleza, que desde então
arrastavam após si a admiração geral.
O romance passa a maior parte do tempo mostrando os "jogos" e conflitos entre os dois personagens
e o esforço da parte de Augusto em compreender os motivos da atitude ríspida de Emília e meios para
se aproximar da moça, por quem está muito interessado. Ao final do romance, Augusto declara seu
amor por Emília, que diz não o amar. Porém, a moça se arrepende do que havia dito e assume que, na
verdade, a paixão que ele sente por ela é recíproca. Ela então se rende ao amor que sente por ele e os
dois ficam juntos.
O enredo denota as principais características dos romances urbanos de Alencar: um enredo simples,
porém, com personagens psicologicamente mais elaborados do que os vistos até então na literatura
brasileira. A descrição dos costumes da alta sociedade e da corte, do que se passava dentro dos salões
e da intimidade das alcovas das senhoras munido de um vocabulário rebuscado fez de Alencar um
escritor singular em seu tempo.
Curiosidade: No prólogo do romance, Joséde Alencar discursa sobre a produção de suas obras de
acordo com o estilo utilizado. Ele havia recebido críticas acerca da composição por esta ser
excessivamente composta por "galicismos". O autor discorda e afirma que, como defensor de uma
língua em constante evolução, em oposição a um exagerado classicismo, que em nada contribuiria para
o desenvolvimento da língua na literatura. Com relação à "influência" do idioma estrangeiro, Alencar diz:
Sem o arremedo vil da locução alheia e a limitação torpe dos idiomas estrangeiros,, devem as
línguas aceitar algumas novas maneiras de dizer, graciosas e elegantes, que não repugnem ao seu
gênio e organismo. Logo, Alencar estava começando a defender um novo idioma falado e escrito no
país que naturalmente se diferenciaria daquele falado no outro continente.
Saiba mais:
Galicismo: utilização de palavras e/ou expressões de origem francesa.
Classicismo: utilização do estilo clássico nas artes, música, arquitetura e escultura.
Jardim com flores (1891), pintura de Belmiro de Almeida
Senhora (1875) - um dos romances mais conhecidos de Alencar, agora o narrador conta uma
história aos leitores, não sendo mais Paulo (o narrador dos dois livros anteriores) quem assume a voz
narrativa. Já no prólogo, há uma nota informando seus leitores de que os fatos contidos no romance
tratam de uma história verídica a ele narrada.
Senhora conta a história de amor entre Aurélia Camargo, uma moça pobre e orfã que se apaixona
pelo belo Fernando Seixas. Os dois noivam, porém, o moço se desilude por ela ser pobre e por ter
esperanças de encontrar uma moça mais rica e, assim, faturar um dote significativo.
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Inesperadamente, o avô de Aurélia falece, deixando para a moça uma vultosa herança
transformando a moça antes pobre em uma das mais ricas mulheres da corte. A partir daí, Aurélia
maquina um plano para se vingar de Fernando: por meio de seu tutor, o Sr. Lemos, ela manda uma
proposta de casamento "anônima" a Fernando, oferecendo cem contos de réis (soma grandiosa para a
aquela época). O moço, ambicioso e em péssimas condições financeiras, aceita a proposta, sem saber
a identidade da noiva misteriosa.
No dia do casamento, quando o mistério é então resolvido, e os noivos se encontram, Aurélia
anuncia que os dois viverão em aposentos separados e que aparecerão juntos apenas em público, para
a sociedade. Fernando se arrepende da sua decisão e da sua leviandade e junta, com muito esforço, a
soma anteriormente paga pelo dote e propõe a separação.
Apesar de conflituoso, o breve casamento uniu os dois personagens que, através da experiência,
puderam amadurecer suas ideias sobre o amor e os sentimentos que nutriam um pelo outro. Por fim, os
dois se reconciliam e conseguem resolver as diferenças. Novamente, temos um final feliz para um
romance de Alencar. Dividido em quatro partes: O Preço, Quitação, Posse e Resgate, a narrativa não
segue uma ordem cronológica. A primeira parte retrata os eventos em um tempo presente à narrativa,
isto é, a apresentação de Aurélia na sociedade, a proposta de casamento à Fernando e a noite de
núpcias, ao passo que Quitação trata do passado dos dois personagens.
Em Posse, temos novamente o tempo presente da narrativa e os principais conflitos entre os
personagens. O amadurecimento de ambos e o gradual arrependimento de Fernando são as principais
características dessa parte. Por fim, em Resgate, um ano após o casamento, Fernando entrega a
Aurélia a soma correspondente ao valor do dote e propõe a separação. No entanto, Aurélia confessa
que deixou toda sua fortuna como herança para Fernando.
A narrativa é em terceira pessoa e acompanha o enredo do ponto de vista do que acontece com
Aurélia. Isto é, há um desenvolvimento psicológico da personagem ao mesmo tempo em que ela é
idealizada pelo narrador. O romance reflete as intenções de uma elite carioca, na figura de Fernando
Seixas, que via o casamento como moeda de troca para a ascensão social. Enquanto a moça chora o
amor perdido, o rapaz vai em busca de dinheiro fácil e que valoriza apenas as aparências. Alguns
críticos consideram o romance como um dos precursores do realismo, que viria a ser desenvolvido em
nossa literatura por Machado de Assis, ao questionar os valores da sociedade da época e dos
casamentos motivados por interesse.
Segundo o crítico José de Nicola, o romance revela um confronto entre a velha sociedade de
Alencar, aristocrática e rural, e a emergente sociedade burguesa, de comerciantes e capitalistas, que
firmava raízes no Rio de Janeiro.
Saiba mais:
Dote: é uma soma em dinheiro ou bens que a família da noiva dava ao noivo na ocasião do
casamento. Era um meio de assegurar que a nova família possuísse meios para se sustentar até que o
marido conseguisse uma fonte de renda ou que a família recebesse suas partes na herança.
Conto de réis: moeda corrente no Brasil no século XIX.
Os clichês do romantismo aparecem em peso nesse romance: o pesar com a perda do amor, a
fortuna inesperada, o mistério, a redenção, o arrependimento e o final feliz com o casamento dos
personagens principais. Por fim, o romance é considerado um dos mais interessantes da literatura
brasileira pela estrutura narrativa, pela crítica que faz à sociedade burguesa e pelo próprio enredo, que
se destaca das demais obras até então produzidas no Brasil.
b) romances indianistas:
Características principais:
- nacionalistas;
- exaltação da natureza;
- idealização do índio;
- temas históricos;
- resgate de lendas;
- índio como um herói, europeizado, quase medieval;
- contato do índio com o europeu colonizador;
Os romances mais conhecidos da fase são O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874).
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O Brasil, agora uma nação independente, precisava definir seus heróis nacionais e os autores
indianistas viam o índio como o personagem ideal por este ser quem primeiro expressou amor às terras
brasileiras, defendendo seu território e seu povo contra os colonizadores europeus. Outros autores,
como o Padre Anchieta, Basílio da Gama e Gonçalves Dias já haviam versado sobre a singularidade do
índio brasileiro, porém, com o desenvolvimento da prosa e a popularização dos romances de folhetins,
Alencar pôde não apenas criar histórias mas também desenvolver e difundir junto aos seus leitores um
sentimento de nacionalidade mais abrangente e que tocasse em todos os seus leitores baseando-se
nos heróis medievais europeus, símbolos de honra e bravura.
Enredos:
O Guarani (1857) - publicado em formato de folhetim para o Diário do Rio de Janeiro durante o ano
de 1857, O Guarani é provavelmente o romance de Alencar mais conhecido e aclamado, sendo
considerado um clássico da literatura brasileira. O romance possui todos os elementos do romance
romântico e indianista, principalmente por se tratar do contato entre os indígenas que aqui estavam com
os europeus. O romance é uma história de amor entre um índio e a filha de um fidalgo português D.
Antônio de Mariz que viera às terras brasileiras recebidas por Mem de Sá, um dos primeiros
administradores de terra da colônia.
Logo no Prólogo, Alencar avisa seus leitores de que a história que irá contar está presente em um
manuscrito encontrado em um velho armário na ocasião da compra de sua casa, de maneira a se eximir
caso o trabalho seja considerado ruim. Dividido em quatro partes: Os Aventureiros, Peri, Os Aimorés e
Catástrofe, o romance retorna ao ano de 1604, época em que os reinos de Portugal e Espanha ainda
disputavam terras no novo continente. A trama inicia às margens do rio Paquequer, um afluente do rio
Paraíba, onde está localizado a residência fortificada do fidalgo D. Antônio de Mariz, que vive com sua
esposa, Dona Lauriana, seu filho Diogo, sua filha Cacília, sua sobrinha Isabel e o índio Peri. Na
propriedadeviviam também aventureiros que participavam de expedições, entre eles, Loredano, o
ambicioso italiano que, mais adiante, torna-se o vilão do romance. Outro personagem importante para a
trama é Álvaro de Sá, um jovem nobre de confiança do fidalgo português.
O romance, além do fundo histórico, é uma história de amor entre o índio Peri e Cecília, moça loira e
de olhos azuis, descrita como dona de uma alma generosa e inocente. Peri é o índio imaginado dentro
do ideal do "bom selvagem", do filósofo francês Russeau, isto é, o índio bom e incorruptível por estar
cada vez mais distante da civilização. O enredo de O Guarani se mostra mais complexo do que os
demais romances de José de Alencar. Nele, há dois principais conflitos: entre os índios e os
portugueses que se estabeleceram nas terras e entre os admiradores de Cecília (Peri, Álvaro e
Loredano), que estavam interessados na mão da moça.
Resumo da obra:
Parte 1 - Os Aventureiros
O romance inicia com o aventureiro Álvaro de Sá e seus companheiros que, ao retornarem do Rio de
Janeiro, encontram um selvagem, Peri, que se encontrava frente a frente com uma onça com o intuito
de agradar a sua senhora Cecília. O jovem índio havia abandonado sua tribo, os Goitacás, por causa da
linda jovem. Álvaro também se apaixona por Cecília e tenta se aproximar deixando um presente em sua
janela. Loredano, enciumado, derruba o presente da janela aos olhos de Peri.
No dia seguinte, Ceci e Isabel vão tomar banho de rio, quando são surpreendidas por dois índios da
tribo dos Aimorés. Peri aparece para defendê-las e é vítima de uma flechada. O motivo do ataque é a
vingança: uma vez, Diogo matara sem querer uma índia aimoré e agora sua família viera prestar contas.
Peri suspeita que haja um ataque à fazenda de D. Antônio. Enquanto se reabilitava da flechada com o
uso de ervas medicinais, Peri ouve uma conspiração vinda de Loredano, que pretende matar D. Antônio
e sequestrar Cecília e Isabel para depois partir em busca de um tesouro cujo mapa Loredano conseguiu
de maneira escusa. D. Antônio acha que o evento às margens do rio que quase pôs fim às vidas de
Ceci e Isabel era uma brincadeira de Peri e resolve mandá-lo embora de sua propriedade.
Parte II - Peri
A narrativa retrocede em um ano e conta a história de Loredano, um frade carmelita que se apoderou
de um mapa das minas de Prata de Robério Dias. Abandona a vida religiosa e o nome de Frei Angelo di
Luca para se alojar na propriedade de D. Antônio. A partir daí, nutre planos para se apoderar de Cecília.
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Há também a narrativa do primeiro encontro dos personagens principais: o índio salva Cecília de ser
esmagada por uma rocha e associa a imagem de Ceci com a da Nossa Senhora, nutrindo total
adoração e fidelidade para com a moça.
De volta ao presente, D. Antônio encarrega Diego de levar adiante a honra da família e a Álvaro,
para que cuide de Cecília com a morte do patriarca. Descobre que Peri não estivera brincando no dia do
ataque às margens do rio e resolve perdoá-lo. O índio então adverte D. Antônio sobre a ameaça de
ataque dos aimorés. Enquanto isso, Cecília procura aproximar Álvaro e Isabel, que nutem admiração
um pelo outro.
Parte III - Os Aimorés
D. Antônio manda Diogo para o Rio de Janeiro em busca de ajuda contra o iminente ataque dos
aimorés. Loredano entra no quarto de Cecília com o intuito de raptar a moça. Porém, tem sua mão
transpassada por uma flecha de Peri. Enquanto D. Antônio e Loredano lutam corajosamente, a fazenda
é atacada pelos índios e, por um momento, todos se unem para lutar contra o inimigo comum. Porém,
Peri planeja se infiltrar junto aos aimorés, se envenena e se deixa levar como prisioneiro.
Parte IV - A Catástrofe
Enquanto Loredano prossegue com seu plano diabólico de sequestrar Cecília, seus companheiros,
cientes dos verdadeiros interesses do ex-religioso, decidem matá-lo. Peri é resgatado por Álvaro e
revela seu plano ao amigo: havia se envenenado com curare e se fez de vencido para que os inimigos,
ao comerem sua carne (prática comum entre as tribos indígenas), ingerissem também o veneno. Com o
resgate, ingere um antídoto e se livra do efeito do veneno.
Álvaro, desfalecido, é entregue a Isabel. A moça, ao imaginar que seu amado estivesse morto, ingere
veneno para acabar com a própria vida. Com esse último beijo, os dois acabam com suas vidas. D.
Antônio batiza Peri e o incumbe de uma missão: levar Ceci até a casa de uma tia, no Rio de Janeiro,
para que ela seja criada longe dos conflitos com os indígenas. Enquanto os dois fogem em uma canoa,
Peri assiste a destruição da fazenda pelos índios e a morte de seus habitantes (inclusive Loredano e D.
Antônio). Quando Ceci acorda, fica sabendo do acontecimento trágico e se sente cada vez mais
próxima e encantada por Peri. Uma enchente na Paraíba faz com que os dois se abriguem no topo de
uma palmeira. Quando a água os alcança, Peri evoca a lenda de Tamandaré. Arranca, então, a
palmeira em um esforço praticamente inverossímil. A narrativa encerra com os dois deslizando pela
superfície do rio.
Saiba mais:
(1) A ópera O Guarani (Il Guarany), do compositor brasileiro Antônio Carlos Gomes (1836 - 1896), foi
composta inspirada no romance de Alencar. A ópera estreou no Teatro Scala, Milão, em 1870. Logo, a
ópera foi composta no idioma italiano, pois essa era a língua em que as óperas eram produzidas. O
compositor finalizou seus estudos na Europa, onde recebeu o título de Maestro Compositor, quando
obteve conhecimento do romance de José de Alencar, o que o motivou a compor a ópera, que conta
com o libreto do poeta Antonio Scalvino.
(2) curare - é um composto venenoso extraído de plantas cujo efeito é paralisante.
(3) final em aberto - técnica utilizada para permitir que os leitores interpretem o final de um romance
de acordo com sua inclinação. No caso de O Guarani, temos que Peri e Ceci deslizam pelo rio em uma
palmeira sem que o autor desenvolva uma saída para a situação. Não saberemos se os dois chegaram
ao Rio de Janeiro, se ficaram juntos ou, é claro, se morreram nessa longa viagem pelo rio.
(4) Goiatacás e Aimorés - nomes de duas tribos indígenas que ocupavam parte do território
brasileiro antes da chegada dos europeus. Os aimorés eram inimigos dos brancos e eram antopófagos,
isto é, se alimentavam do corpo dos guerreiros mais valentes da tribo inimiga porque acreditavam que
assim absorveriam a valentia do guerreiro capturado.
Enredos:
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Iracema (1865) - o romance segue os mesmos moldes de O Guarani, isto é, apresenta uma história
de amor cujo pano de fundo é o conflito entre as tribos indígenas que habitavam o litoral e o interior do
território brasileiro e os conflitos entre os indígenas e os colonizadores europeus. Porém, em Iracema, o
que Alencar pretende é apresentar uma história baseada na lenda que deu origem ao primeiro habitante
nascido no Brasil: Moacir, nome que significa "filho da dor" e seria o filho entre a bela índia dos lábios
de mel e o guerreiro português Martim.
O romance pode ser considerado uma obra em "prosa poética" pois apresenta uma narrativa épica,
um lirismo amoroso e todo um trabalho com o vocabulário, porém, em formato de romance. Alencar não
o fez em forma de verso por julgar que os nativos brasileiros não combinavam com o estilo classicista,
tão distante em tempo e espaço dos gregos e romanos, e que a literatura brasileira deveria manifestar
seu ideal de nacionalidade por meio da língua, desenvolvendo uma escrita e um estilo prórpios,
desvinculados do clássico.
Segundo o próprio Alencar, em carta endereçada ao Dr. Jaguaribe e anexada ao final do romance:
Sem dúvida que o poeta brasileiro tem de traduzir em sua língua as ideias, embora rudes e
grosseiras, dos índios; mas nessa tradução está a grande dificuldade; é precisoque a língua civilizada
se molde quanto possa a singeleza primitiva da língua bárbara; e não represente as imagens e
pensamentos indígenas senão por termos e frases que ao leitor pareçam naturais na boca do selvagem.
(...) A elasticidade da frase permitiria então que se empregassem com mais claresa as imagens
indígenas, de modo a não passarem despercebidas. Por outro lado, conhecer-se-ia o efeito que havia
de ter o verso pelo efeito que tivesse a prosa.
É, geralmente, considerado um romance de difícil leitura em função de seu vocabulário rebuscado e
das inúmeras descrições que o autor faz da natureza e as comparações com seus personagens.
Enredo:
A narrativa da lenda de Iracema inicia com uma cena em que o guerreiro português Martim Soares
Moreno, aliado da tribo dos Pitiguaras, tribo habitante das terras litorâneas, se perde nas matas do
território próximo à tribo dos Tabajaras, inimigos, habitantes das terras do interior. Lá, é surpreendido
pela bela índia Iracema, que ameaça matá-lo com uma flecha. Iracema é filha de Araquém, pajé dos
tabajaras, e sacerdotisa vestal que guarda o segredo/mistério/sonhos da Jurema, uma espécie de licor
com propriedades alucinógenas. Ela e sua tribo acolhem Martim como hóspede e, na noite em que
ocorrem as celebrações para Irapuã, o maior chefe da nação tabajara, o guerreiro branco decide fugir.
Iracema o impede, alertando sobre os perigos da mata e pede para que ele espere pelo retorno de
Caubi, seu irmão, para que possa guiá-lo em segurança no dia seguinte.
Martim e Iracema se apaixonam, o que desperta a ira de Irapuã, zeloso do papel que a jovem índia
deve cumprir para com a sua tribo. Como guardiã do segredo da jurema, Iracema deve permanecer
virgem, porém, entrega-se a Martim em uma noite em que o guerreiro, sob efeito do líquido alucinógeno
entregue por Iracema, sonhou possuir a índia (quando, na verdade, estava possuindo mesmo). O
guerreiro decide partir da tribo dos tabajaras para se ver livre de Irapuã quando Iracema revela o que
acontecera enquanto Martim sonhava e se dispõe a acompanhá-lo.
Os dois partem ao encontro de Poti, chefe da tribo dos pitiguaras e considerado por Martim como um
irmão. Irapuã os segue, o que acaba por causar um conflito entre as duas tribos inimigas. Iracema
passa a viver com Martim, que adora o nome indígena de Coatiabo, e passa a gradativamente se
desinteressar pela índia. Grávida, Iracema sofre com o desdém e com as ausências de seu amado. Ao
regressar de uma batalha, Martim encontra Iracema e seu filho, porém, a índia se encontra muito
debilitada. Já sem forças, a índia entrega o filho Moacir, palavra indígena que significa "o nascido do
sofrimento", e pede que Martim a enterre aos pés de um coqueiro de que ela tanto gostava. Este lugar
onde Iracema supostamente estaria enterrada, segundo a lenda, passou a se chamar Ceará, que
significa "canto da jandaia", ave favorita de Iracema.
Martim decide retornar para a Europa, levando consigo o filho Moacir. Quatro anos mais tarde,
retorna ao Brasil com o filho para auxiliar na implantação da fé cristã. Poti, o chefe dos pitiguaras,
recebe o nome português de Felipe Camarão e os dois ajudam o comandante Jerônimo de Albuquerque
na luta contra os holandeses. A narrativa de Iracema, no entanto, é fragmentada e o capítulo I inicia
com a cena em que a embarcação em que Martim e Moacir se encontram no regresso ao Brasil. Do
capítulo II ao XXXII ocorre a narrativa da lenda da Iracema, para, no capítulo XXXIII, retornar à cena da
chegada de Martim e Moacir às terras americanas.
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Saiba Mais:
Vestal - significa uma sacerdotisa que deveria se manter casta, isto é, virgem, preservando-se para a
vida e para os rituais sagrados de sua tribo.
Veja abaixo um trecho do capítulo II, em que há a descrição de Iracema:
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais
longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito
perfumado.
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde
campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara, o pé grácil e nu, mal roçando alisava apenas a
verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da
oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os
úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto
Iracema saiu do banho; o aljôfar d'água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã
de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o
sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste
A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela Às vezes sobe aos ramos da árvore e de
lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru te palha matizada, onde traz a selvagem seus
perfumes, os alvos fios do crautá , as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza
o algodão.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não
deslumbra; sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau
espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das
águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
Curiosidade: Iracema pode ser considerado um anagrama de "América", assim, Alencar estaria
demonstrando como se deu a conquista das terras e a formação social do continente: pela exploração
da natureza e da subjugação dos índios aos hábitos e ao trabalho dos colonizadores.
Enredos:
Ubirajara (1874) - o terceiro romance de temática indianista do autor, importante por dar sequência
aos romances anteriores, Ubirajara também é uma lenda transformada em romance por Alencar. Logo
no início, o autor faz uma advertência a seus leitores de que as informações que temos até hoje sobre
os indígenas provinham ou dos jesuítas ou dos aventureiros que chegavam no novo continente e que,
nem sempre, a linguagem utilizada para descrevê-los estava de acordo com os costumes dos
indígenas. Por isso, Alencar critica a visão destes primeiros viajantes e religiosos, pois davam ao
indígena um caráter meramente bárbaro, sem levar em consideração o aspecto sentimental e cultural
da vida dos nativos. Escreve Alencar:
As coisas mais poéticas, os traços mais generosos e cavaleirescos do caráter dos selvagens, os
sentimentos mais nobres desses filhos da natureza são deturpados por uma linguagem imprópria,
quando não acontece lançarem à conta dos indígenas as extravagâncias de uma imaginação
desbragada.
Ubirajara também é considerado um texto "irmão" de Iracema, embora narre eventos acontecidos
antes da vinda dos europeus para o Brasil. Logo, os conflitos acontecem entre os povos indígenas, sem
a intervenção dos colonizadores.
Jaguarê, um jovem caçador, precisa combater um inimigo para conseguir o título de guerreiro.
Porém, encontra Araci, índia tocantim e filha do chefe da tribo inimiga, que o convence a lutar contra
índios de sua tribo para disputar seu amor. O jovem índio luta contra o tocantim Pojucã e aprisiona-o
com sua lança e deixa como esposa a jovem Jandira, que era sua noiva. A índia foge para a floresta. A
partir de então, Jaguarê torna-se Ubirajara, o senhor da lança, e procura Araci para desposá-la.
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Compete novamente com demais pretendentes e ganha o direito de se unir com Araci. Descobre-se que
Pojucã e Araci são irmãos e o jovem índio o liberta de seu cativeiro paraque lute ao lado de sua tribo
em uma guerra iminente entre as duas tribos. Porém, Ubirajara consegue não apenas reconciliar as
duas tribos mas, também, as une, em uma nova e grande tribo nomeada Ubirajara, em seu nome e,
como prêmio, desposa as duas índias, Araci e Jandira.
c) romances históricos:
São os romances de fundo histórico, voltados para o período colonial brasileiro propondo uma nova
interpretação para fatos marcantes do período colonial do século XVII, como a busca por ouro e as lutas
pela expansão territorial. Seus enredos denotam, em vários momentos, nacionalismo exaltado e a
importância da construção histórica da pátria através da literatura.
O romance As Minas de Prata (1865) retrata o início pelas minas de prata e a corrida por metais
preciosos e A guerra dos Mascates trata dos conflitos entre as cidades históricas de Olinda e Recife. Os
principais romances desta fase são: As Minas de Prata (1865) e Guerra dos Mascates (1873);
d) romances regionalistas:
Nesses romances, Alencar procurou dar conta da diversidade brasileira e das regiões que se
encontravam distantes da corte e das principais cidades que receberam forte influência europeia. O
autor desejava cobrir os territórios de maneira a mostrar como a vida de seus habitantes estava
intimamente ligada ao meio físico no qual travavam contato. Nesses romances, os homens recebem os
papéis de destaque, em detrimento das personagens femininas, diversamente retratadas nos romances
urbanos e sociais.
Porém, há controvérsias sobre o retrato feito por Alencar de seus homens: quando trata do
nordestino e do sertanejo, Alencar consegue ser fiel à realidade por conhecer mais profundamente a
região e seus habitantes. Porém, quando retrata o gaúcho o autor incorre em uma série de falhas,
provenientes da falta de familiaridade com o tipo retratado e com a distância que separava Alencar do
sul do país. Os romances mais conhecidos desta fase são: O gaúcho (1870), O Tronco do Ipê (1871),
Til (1872) e O Sertanejo (1875);
Demais autores do romantismo: Embora menos expressivos quando se trata do cânone literário
brasileiro, os autores abaixo são importantes pois também contribuíram para a produção literária do
período. São eles:
Bernardo Guimarães (1827 - 1884)
Seu livro mais conhecido é A escrava Isaura (1875), romance com pretensões
abolicionistas que conta a história de Isaura, uma escrava branca, nobre e educada que é
perseguida por Leôncio, seu senhor, um homem marcado pelos vícios sociais. A moça é
salva pelo herói Álvaro, que a retira das garras do vilão.
Embora aborde a temática escravista, o romance mostra uma ideologia patriarcal, ao
retratar uma escrava branca e que segue a educação dos moldes da elite. A questão dos
escravos aparece de maneira superficial, não revelando a verdadeira condição dos negros
que eram submetidos ao sistema social escravista.
Escreveu também outros romances, como O Seminarista (1872) e O Garimpeiro
(1872).
Maria Firmina dos Reis (1825 - 1917)
Com relação à temática escravista, há outros romances na literatura brasileira que abordam a questão
com uma visão mais acurada da realidade vivida pelos escravos, como é o caso do romance Úrsula (1859)
de Maria Firmina dos Reis, considerado o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira. Além
disso, o romance é considerado o primeiro de autoria de uma afrodescendente e o primeiro romance de
autoria feminina de nossa literatura.
No entanto, como as mulheres que se dedicavam à escrita eram vistas com preconceito pelos olhos
dos escritores (pois as Letras no Brasil sempre foram um território predominantemente masculino), a
autora se absteve de publicar Úrsula com seu nome verdadeiro e optou por usar o pseudônimo "Uma
Maranhense".
Seu romance pode ser considerado inovador pois pela primeira vez utiliza a prosa para as denúncias
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de uma sociedade patriarcal sob o aspecto de suas principais vítimas: a mulher e o negro. Diferentemente
dos escritores do romantismo, que denunciavam a mesquinhez das relações pessoais em uma sociedade
burguesa (como é o caso de José de Alencar), Maria Firmina dos Reis denuncia o que estava por trás
dessas relações, isto é, a dominação e a exploração das mulheres e dos negros pelo marido e pelo
senhor.
Educadora preocupada com a literatura e com a educação, a autora também foi professora e, depois
de aposentada, fundou a primeira escola mista do estado. É responsável por uma série de poemas e
contos no periódico literário Semanário Maranhense e em outros jornais, além do livro de poesias Cantos
à beira-mar (1871) e um diário, publicado somente em 1975 pelo historiador José Nascimento Moraes
Filho.
Saiba mais:
Pseudônimo - nome fictício utilizado por um autor ou uma autora para velar sua verdadeira
identidade. A prática era muito utilizada pelas mulheres que resolviam "se aventurar" no terreno das
Letras, porém, sem expor o nome de seu marido e sua família pois a atividade da escrita pelas
mulheres era vista com preconceito pelos homens.
Alfredo Taunay (1842 - 1899)
Autor do romance Inocência (1872), considerado um romance romântico
regionalista, Visconde de Taunay empenhou-se em descrever o cenário
sertanejo e a retratar a vida no campo. Inocência é uma moça que, por imposição
do pai autoritário, deve se casar com Manecão, um sertanejo bruto e negociante
de gado criado. A moça adoece e é salva por Cirino, estudante de farmácia, e os
dois se apaixonam, convergindo em um final trágico.
Franklin Távora (1842 - 1888)
Autor também empenhado no retrato da realidade nordestina e do
cangaceiro, evidenciando a vida com as secas no sertão. Acredita que o Norte
ainda tem muito o que oferecer para a formação da literatura brasileira, tendo em
vista que, diferentemente do Sul do país, ainda não foi totalmente invadido, e
ainda possui muito o que ser explorado. O Cabeleira (1876), seu romance mais
famoso, trata do cangaceiro José Gomes (o Cabeleira). A narrativa, embora com
tons realistas e combativa, recai na estrutura melodramática dos romances
românticos. O Cabeleira, ao reencontrar seu amor de infância, Luisinha,
abandona sua vida de criminoso e dispõe-se a total regeneração pelo amor da
amada. A moça, porém, morre de uma enfermidade e o cangaceiro acaba preso
e enforcado na prisão.
O Teatro no Romantismo
O teatro no Brasil, até então, era proveniente da Europa e tinha como principal objetivo agradar às
elites brasileiras, que transformavam as apresentações em verdadeiros eventos sociais, principalmente
nas grandes cidades. Embora alguns escritores já houvessem se arriscado na dramaturgia brasileira,
como Castro Alves e José de Alencar, cujas obras eram baseadas nas europeias, ainda não havia uma
discussão sobre o perfil do teatro brasileiro. Foi apenas com Martins Pena que o teatro passou a refletir
as cenas e as problemáticas da realidade brasileira.
Martins Pena (1815 - 1848)
Luís Carlos Martins Pena nasceu no Rio de Janeiro, em 1815 e
faleceu em Lisboa, em 1848. Proveniente de uma família abastada,
nasceu no Rio de Janeiro e faleceu na cidade de Londres, na Inglaterra,
Martins Pena é patrono da Academia Brasileira de Letras.
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Suas obras estão classificadas no gênero "comédia de costumes", inaugurado por ele, e se
empenham no retrato de situações cômicas da realidade brasileira compondo uma espécie de sátira
social. Além disso, é responsável por criar tipos característicos e situações peculiares tanto no ambiente
urbano quanto no ambiente rural. O malandro, o estrangeiro e a mulher (responsável por "segurar as
pontas" da família), são talvez seus personagens mais característicos. No retrato do ambiente urbano,
Pena trabalha na sátira dos costumes da classe média carioca do século XIX, principalmente,com
relação aos relacionamentos amorosos e a busca pela ascensão social. Pena escreve para as camadas
mais populares, decorrendo daí a sua popularidade. Escreveu, durante sua curta vida, cerca de 28
peças tendo 19 delas sido encenadas na época. Suas peças mais famosas são: O juiz de paz na roça
(1842), Casadas solteiras (1845) e Os dois ou o inglês maquinista (1871). Veja um trecho da peça Os
dois ou o inglês maquinista:
CENA VII - Felício e Gainer
FELÍCIO – Estou admirado! Excelente ideia! Bela e admirável máquina!
GAINER (contente) – Admirável, sim.
FELÍCIO – Deve dar muito interesse.
GAINER – Muita interesse o fabricante. Quando este máquina tiver acabada, não precisa mais de
cozinheiro, de sapateira e de outras muitas oficias.
FELÍCIO – Então a máquina supre todos estes ofícios?
GAINER – Oh, sim! Eu bota a máquina aqui no meio da sala, manda vir um boi, bota a boi na buraco
da maquine e depois de meia hora sai por outra banda da maquine tudo já feita.
FELÍCIO – Mas explique-me bem isto.
GAINER – Olha. A carne do boi sai feita em beef, em roast-beef, em fricandó e outras muitas; do
couro sai sapatas, botas...
FELÍCIO (com muita seriedade) – Envernizadas?
GAINER – Sim, também pode ser. Das chifres sai bocetas, pentes e cabo de faca; das ossas sai
marcas...
FELÍCIO (no mesmo) – Boa ocasião para aproveitar os ossos para o seu açúcar.
GAINER – Sim, sim, também sai açúcar, balas da Porto e amêndoas.
FELÍCIO – Que prodígio! Estou maravilhado! Quando pretende fazer trabalhar a máquina?
GAINER – Conforme; falta ainda alguma dinheira. Eu queria fazer uma empréstima. Se o senhor
quer fazer seu capital render cinquenta por cento dá a mim para acabar a maquina, que trabalha depois
por nossa conta.
FELÍCIO (à parte) – Assim era eu tolo... (Para Gainer:) Não sabe quanto sinto não ter dinheiro
disponível. Que bela ocasião de triplicar, quadruplicar, quintuplicar, que digo, centuplicar o meu capital
em pouco! Ah!
GAINER (à parte) – Destes tolas eu quero muito.
FELÍCIO – Mas veja como os homens são maus. Chamarem ao senhor, que é o homem o mais
filantrópico e desinteressado e amicíssimo do Brasil, especulador de dinheiros alheios e outros nomes
mais.
GAINER – A mim chama especuladora? A mim? By God! Quem é a atrevido que me dá esta nome?
FELÍCIO – É preciso, na verdade, muita paciência. Dizerem que o senhor está rico com espertezas!
GAINER – Eu rica! Que calúnia! Eu rica? Eu está pobre com minhas projetos pra bem do Brasil.
FELÍCIO (à parte) – O bem do brasileiro é o estribilho destes malandros... (Para Gainer:) Pois não é
isto que dizem. Muitos creem que o senhor tem um grosso capital no Banco de Londres; e além disto,
chamam-lhe de velhaco.
GAINER (desesperado) – Velhaca, velhaca! Eu quero mete uma bala nos miolos deste patifa. Quem
é estes que me chama velhaca?
FELÍCIO – Quem? Eu lho digo: ainda não há muito que o Negreiro assim disse.
GAINER – Negreira disse? Oh, que patifa de meia-cara... Vai ensina ele... Ele me paga. Goddam!
FELÍCIO – Se lhe dissesse tudo quanto ele tem dito...
GAINER – Não precisa dize; basta chama velhaca a mim pra eu mata ele. Oh, que patifa de meia-
cara! Eu vai dize a commander do brigue Wizart que este patifa é meia-cara; pra segura nos navios
dele. Velhaca! Velhaca! Goddam! Eu vai mata ele! Oh! (Sai desesperado.)
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RESUMO
O Romantismo: século XIX
CONTEXTO HISTÓRICO
- Revolução da Imprensa e ascensão do romance;
- Vinda da Família Real para o Brasil (em 1808);
- Independência do Brasil (em 1822).
CARACTERÍSTICAS
- Individualismo;
- Subjetivismo;
- Verso livre e verso branco;
- Sentimento de nacionalidade;
- Culto à natureza.
PRINCIPAIS AUTORES
Poesia
1a Geração Romântica: Nacionalista ou Indianista
- Gonçalves de Magalhães
- Gonçalves Dias
- Araújo Porto Alegre
2a Geração Romântica: Mal do Século
- Álvares de Azevedo
- Casimiro de Abreu
- Junqueira Freire
- Fagundes Varela
3a Geração Romântica: Condoreira
- Castro Alves
- Sousândrade
Prosa
- Joaquim Manoel Macedo
- Manoel Antônio de Almeida
- José de Alencar
Teatro
- Martins Pena
REALISMO1
Contexto Histórico
- Surgiu a partir da segunda metade do século XIX.
- As ideias do Liberalismo e Democracia ganham mais espaço.
- As ciências evoluem e os métodos de experimentação e observação da realidade passam a ser
vistos como os únicos capazes de explicar o mundo físico.
- Em 1870, iniciam-se os primeiros sintomas da agitação cultural, sobretudo nas academias de
Recife, SP, Bahia e RJ, devido aos seus contatos frequentes com as grandes cidades europeias.
- Houve também uma transformação no aspecto social com o surgimento da população urbana, a
desigualdade econômica e o aparecimento do proletariado.
O Realismo iniciou-se na França, em 1857, com a publicação de “Madame Bovary”, de Gustave
Flaubert. No Brasil foi em 1881, com “Memórias Póstumas da Brás Cubas” de Machado de Assis e “O
Mulato” de Aluísio Azevedo.
1 Texto adaptado de Cristiana Gomes
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Características do Realismo
- Oposição ao idealismo romântico. Não há envolvimento sentimental
- Representação mais fiel da realidade
- Romance como meio de combate e crítica às instituições sociais decadentes, como o casamento,
por exemplo
- Análise dos valores burgueses com visão crítica denunciando a hipocrisia e corrupção da classe
- Influência dos métodos experimentais
- Narrativa minuciosa (com muitos detalhes)
- Personagens analisadas psicologicamente
Autores principais do Realismo
Machado de Assis
É considerado o maior escritor do século XIX, escreveu romances e contos, mas também aventurou-
se pelo mundo da poesia, teatro, crônica e critica literária. Nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e morreu
em 1908. Foi tipógrafo e revisor tornando-se colaborador da imprensa da época. Sua infância foi muito
pobre e a sua ascensão artística se deve a muito trabalho e dedicação. Sua esposa, Carolina Xavier, o
incentivou muito na carreira literária, tanto que foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de
Letras. Como romancista escreveu: ”A mão e a luva”, “Ressurreição”, ”Helena” e “Iaiá Garcia”.
Embora sejam romances, essas obras também revelam algumas características que futuramente
marcarão a fase realista e madura do autor, como a análise psicológica dos personagens, o humor,
monólogos interiores e cortes na narrativa (uma das suas principais características). “Memórias
Póstumas da Brás Cubas” (considerado o divisor de águas na obra machadiana) “Quincas Borba”,
“Dom Casmurro”, “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”, revelam o interesse cada vez maior do autor de
aprofundar a análise do comportamento do homem, revelando algumas características próprias do ser-
humano como a inveja, a luxúria, o egoísmo e a vaidade, todas encobertas por uma aparência boa e
honesta.
Como contista Machado escreveu: ”A Cartomante”, “O Alienista”, “O Enfermeiro”, “O Espelho” dentre
outros. Como cronista escreveu, entre 1892 e 1897, para a Gazeta de Notícias, sob o título “A Semana”.
Embora suas peças teatrais não tenham o mesmo nível que seus contos e romances, ele nos deixou
“Quase ministro” e “Os deuses da casaca”. Como crítico literário, além de vários prefácios e ensaios
destacam-se 3 estudos: ”Instinto de nacionalidade”, “A nova geração” e “O primo Basílio” (a respeito do
romance de mesmo nome de Eça de Queirós).
Outros Autores
- Raul Pompéia: “O Ateneu”
- Aluísio Azevedo: “O cortiço”, “O Mulato”, “Casa de pensão”
- Inglês de Souza: “O missionário”
- Adolfo Caminha: “A normalista”, “Bom-Crioulo”
- Domingos Olímpio: ”Luzia-Homem”
Cronologia dos principais romances do Realismo
- 1881 “O Mulato”, “Memórias póstumas de Brás Cubas”
- 1884 “Casa de pensão”
- 1888 “O missionário”,“O Ateneu”
- 1890 “O cortiço”
- 1891 “Quincas Borba”
- 1893 “A normalista”
- 1895 “Bom-Crioulo”
- 1899 “Dom Casmurro”
- 1903 “Luzia-Homem”
- 1904 “Esaú e Jacó”
- 1908 “Memorial de Aires”
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NATURALISMO
Século XIX. Nessa época surgiram novas concepções a respeito do homem e da vida em sociedade
e os estudos da Biologia, Psicologia e Sociologia estavam em alta. Os naturalistas começaram a
analisar o comportamento humano e social, apontando saídas e soluções. Aqui no Brasil, os escritores
naturalistas ocuparam-se, principalmente, com os temas mais obscuros da alma humana (patológicos)
e, por causa disso, outros fatos importantes da nossa história como a Abolição da Escravatura e a
República foram deixados de lado. O Naturalismo surgiu na França, em 1870, com a publicação da obra
“Germinal” de Émile Zola. O livro fala das péssimas condições de vida dos trabalhadores das minas de
carvão na França do século XIX.
O naturalismo é uma ramificação do Realismo e uma das suas principais características é a
retratação da sociedade de uma forma bem objetiva. Os naturalistas abordam a existência humana de
forma materialista. O homem é encarado como produto biológico passando a agir de acordo com seus
instintos, chegando a ser comparado com os animais (zoomorfização). Segundo o Naturalismo, o
homem é desprovido do livre-arbítrio, ou seja, o homem é uma máquina guiada por vários fatores: leis
físicas e químicas, hereditariedade e meio social, além de estar sempre à mercê de forças que nem
sempre consegue controlar. Para os naturalistas, o homem é um brinquedo nas mãos do destino e deve
ser estudado cientificamente.
Características do Naturalismo
- A principal característica do Naturalismo é o cientificismo exagerado que transformou o homem e a
sociedade em objetos de experiências.
- Descrições minuciosas e linguagem simples
- Preferência por temas como miséria, adultério, crimes, problemas sociais, taras sexuais e etc. A
exploração de temas patológicos traduz a vontade de analisar todas as podridões sociais e humanas
sem se preocupar com a reação do público.
- Ao analisar os problemas sociais, o naturalista mostra uma vontade de reformar a sociedade, ou
seja, denunciar estes problemas, era uma forma de tentar reformar a sociedade.
Principais Autores
Aluísio Azevedo
Com a publicação de O Mulato (1881), Aluísio Azevedo consagrou-se como um escritor naturalista. A
publicação dessa obra marca o início do Naturalismo brasileiro. O livro (que não é a nossa obra
naturalista mais marcante) causou impacto na sociedade, principalmente entre o clero e a alta
sociedade de São Luís do Maranhão. O Mulato aborda temas como o puritanismo sexual, o
anticlericalismo e o racismo. Em 1890, o Naturalismo atinge o seu ápice com a publicação de O cortiço
(obra repleta de personagens marginalizados).
Inglês de Souza
Em 1891, Inglês de Souza publicou O Missionário, obra que aborda a influência do meio sobre o
individuo.
Adolfo Caminha
Publicou as obras A Normalista, em 1892 e O bom crioulo, em 1895 que falam sobre desvios sexuais
e mais especificamente, o homossexualismo em O bom crioulo. A ficção regionalista (iniciada no
Romantismo) teve continuidade durante o naturalismo. As principais obras regionalistas são:
- Luzia-Homem de Domingos Olímpio.
- Dona Guidinha do poço de Manuel de Oliveira Paiva.
PARNASIANISMO
Na prosa, surgiu o Realismo/Naturalismo e na poesia, o Parnasianismo e Simbolismo. Os poetas
parnasianos achavam que alguns princípios adotados pelos românticos (linguagem simples, emprego
da sintaxe e vocabulário brasileiros, sentimentalismo, etc) esconderam as verdadeiras qualidades da
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poesia. Então, propuseram uma literatura mais objetiva, com um vocabulário elaborado (às vezes,
incompreensível por ser tão culto), racionalista e voltada para temas universais.
A inspiração nos modelos clássicos, ajudaria a combater as emoções e fantasias exageradas dos
românticos, garantindo o equilíbrio que desejavam. Desde a década de 1870, as idéias parnasianas já
estavam sendo divulgadas. No final dessa década, o jornal carioca “Diário do Rio de Janeiro” publicou
uma polêmica em versos que ficou conhecida como “Batalha do Parnaso”. De um lado, os adeptos do
Realismo e Parnasianismo, e, de outro os seguidores do Romantismo. Como conseqüência, as idéias
parnasianas e realistas foram amplamente divulgadas nos meios artísticos e intelectuais do país. O
marco inicial do Parnasianismo brasileiro foi em 1882 com a publicação de “Fanfarras” de Teófilo Dias.
Principais autores e obras do Parnasianismo
Olavo Bilac (16/12/1865 – 28/12/1918)
Tentou estudar medicina e advocacia, porém abandonou as duas carreiras por gostar mais de artes
plásticas. Além de poesias, ele também escreveu crônicas e comentários, inicialmente publicados em
jornais e revistas. Foi inspetor escolar, secretário da Liga de Defesa Nacional, jornalista, tomou parte na
fundação da Academia de Letras e foi sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.
Trabalhou muito pelo ensino cívico e pela defesa do país. Expressou seu mundo interior através de uma
poesia lírica, amorosa e sensual, abandonando o tom comedido do Parnasianismo. Olavo Bilac criou
uma linguagem pessoal e comunicativa, não ficando limitado às idéias parnasianas. Por causa disso,
ele é considerado um dos mais populares escritores de sua época. Escreveu: “A sesta de Nero”, “O
incêndio de Roma”, “O Caçador de Esmeraldas” “Panóplias”, “Via Láctea”, “Sarças de fogo”, “As
viagens”, “Alma inquieta”, “Tarde” (publicada após a sua morte, em 1919), etc.
Alberto de Oliveira (1857 – 1937)
Um dos mais típicos poetas parnasianos. Suas poesias se caracterizam por um grande preciosismo
vocabular. Possui características românticas, porém é mais contido e não tão sentimental como os
românticos. Obras: “Canções Românticas”, “Meridionais”, “Sonetos e Poemas”, “Versos e Rimas”.
Raimundo Correia (1860 – 1911)
A visão negativa e subjetiva que tinha do mundo deu um certo tom filosófico à sua poesia, embora
apenas superficialmente. Poemas:” Plenilúnio”, “Banzo”, “A cavalgada”, “Plena Nudez”, “As pombas”.
Livros: “Primeiros Sonhos”, “Sinfonias”, “Versos e Versões”, “Aleluias”, “Poesias”.
Vicente de Carvalho (1866 – 1924)
Apesar do rigor com a forma, ele não possui características parnasianas, pois não abandonou a
expressão lírica e sentimental do romantismo. Obras: “Ardentias”, “Relicário”, “Rosa, rosa de amor”,
“Poemas e canções”. Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia formavam a “Tríade
Parnasiana”.
Características do Parnasianismo
- Preocupação formal
- Comparação da poesia com as artes plásticas, principalmente com a escultura
- Referências a elementos da mitologia grega e latina
- Preferência por temas descritivos (cenas históricas, paisagens)
- Enfoque sensual da mulher (davam ênfase na descrição de suas características físicas)
- Habilidade na criação dos versos
- Vocabulário culto
- Objetivismo
- Universalismo
- Apego à tradição clássica
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SIMBOLISMO2
O Simbolismo é um movimento que aprofunda e radicaliza os ideais românticos, estendendo suas
raízes à literatura, aos palcos teatrais, às artes plásticas. Ele nasceu na França, no final do século XIX,
em contraposição ao Realismo e ao Naturalismo. No intenso contato com a cultura, a mentalidade, as
artes e a religiosidade orientais, os artistas desta época mergulham nestes valores distintos do
pensamento ocidental, mais racional, e espelham em suas criações esta outra visão de mundo. Sem o
Romantismo, com sua oposição ao uso desmedido da Razão, o Simbolismo não existiria, pois ele se
apropria dos princípios românticos e os aprofunda de tal formaque nem o romântico mais contagiado
pelas raízes desta Escola o faria. Os simbolistas percorrem, assim, caminhos mais ousados e
irracionais, recorrendo ao uso extremo dos símbolos e do misticismo, empreendendo rumo ao
inconsciente uma jornada além dos limites extremos da razão, um mergulho nos recantos mais ocultos
do inconsciente.
Os simbolistas adotavam uma visão pessoal e individualista da realidade, sem se ater muito aos
princípios estéticos então vigentes. Isto lhes valeu o pejorativo apelido de ‘decadentistas’. Em 1886,
porém, a publicação de um importante manifesto – ‘O Século XX’, do teórico deste movimento, Jean
Moréas - deu ao movimento seu nome definitivo - simbolismo. Na França, esta escola está intimamente
ligada às consequências da Revolução Francesa, que marcaram sua natureza sociocultural, e às
teorias elaboradas pelo Romantismo e pelo Liberalismo.
Para os adeptos do Simbolismo, não basta sentir as emoções, mas é necessário levar em conta
também a sua dimensão cognitiva. Esta é a real postura poética, segundo seus seguidores. Este
movimento se reveste igualmente de um marcante subjetivismo, ou seja, de um teor individualista, em
detrimento da visão geral dos fatos. A musicalidade é um de seus atributos que mais se destaca; assim,
os simbolistas usam ferramentas como a aliteração e a assonância. Além disso, o Simbolismo revela-se
um movimento de caráter transcendental, sempre resvalando para a imaginação e a fantasia,
privilegiando a intuição para interpretar os dados do real, desprezando a razão ou a lógica.
Os sonhos são para os discípulos do Simbolismo ferramentas fundamentais para compreender
experiências ancestrais do homem, em épocas nas quais prevaleciam sensações caóticas e
anárquicas, que hoje são relembradas pelo sujeito apenas em suas experiências oníricas ou nas
sessões psicanalíticas. Esta escola é essencialmente literária, pois realiza no âmbito da Literatura uma
completa renovação.
Em Portugal o Simbolismo desembarcou no século XIX, com a publicação de “Oaristo”, de Eugênio
de Castro, em 1890. No Brasil, em 1893, publicou-se “Missal” e “Broquéis”, de Cruz e Sousa. Já a
poesia simbolista não repercutiu no Brasil como o fez na Europa. Na França, o Simbolismo ganhou
forças com a obra “As Flores do Mal”, do poeta Charles Baudelaire, em 1857.
O Simbolismo é uma escola literária que se manifesta especificamente na poesia e em outras
esferas artísticas nascidas na França em fins do século XIX. Ela se opôs aos movimentos
realista/naturalista e positivista. Nesta época diversos poetas, artistas plásticos, dramaturgos e autores
em geral foram inspirados pela atmosfera mística gerada por uma intensa permuta artística e também
resultante da onda mental e espiritual emanada diretamente da cultura oriental. Isto ocorreu
particularmente na França a partir de 1881. Estes artistas buscam retratar em suas obras o clima
encontrado em suas jornadas pelo Oriente. Foi um movimento caracterizado principalmente pelo
individualismo e por um misticismo ímpar. Chamado ironicamente de decadentismo, por recorrer a uma
estética em declínio, o Simbolismo é reconhecido por seu subjetivismo, pela musicalidade, assinalada
pelo poeta francês Paul Verlaine, e pelo Transcendentalismo, um dos elementos fundamentais, já que
os poemas simbolistas ressaltam a esfera da imaginação e do fantástico.
Autores e Obras do Simbolismo
Cruz e Souza: Brasileiro. Tropos e Fantasias; Missal e Broquéis; Evocações (prosa); Faróis; Últimos
Sonetos.
Eugênio de Castro: Português. Oaristo; Horas; Silva e Interlúdio.
Alphonsus de Guimaraens: Brasileiro. Kyriale; Câmara Ardente; Centenário das Dores de Nossa
Senhora; Dona Mística; Pauvre Lyre; Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte, depois conhecido com
o título Poesias; Mendigos (prosa).
Camilo Pessanha: Português. Clépsidra.
2 Texto adaptado de SANTANA, Ana Lucia.
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Fontes:
http://aprovadonovestibular.com/simbolismo-caractersticas-autores-obras.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Simbolismo
http://assuntosdiversos.com.br/wordpress/simbolismo-principais-autores-obras/
Pré-Modernismo
O Pré-Modernismo não é um movimento literário como vimos acontecer até o momento, não se
resume a textos para distrair. É o período dos primeiros 20 anos do Séc.XX onde as mudanças políticas
e sociais estavam alterando a sociedade brasileira e alguns escritores usavam de suas obras para fazer
uma análise crítica da realidade brasileira. Seus maiores representantes foram Monteiro Lobato,
Euclides da Cunha, Lima Barreto e Graça Aranha. Esses escritores queriam despertar seus leitores
para a realidade e usavam de sua literatura para isso. Vejamos os acontecimentos sociais importantes
dessa época:
1903- Osvaldo Cruz é nomeado diretor-geral da saúde pública para combater a febre amarela que
dizimou quase mil pessoas em 1902 só no Rio de Janeiro.
1906- Começa a política do café-com-leite. Afonso Pena é eleito Presidente. Explodem as greves
dos operários.
1907- Uma grande greve operária explode em São Paulo. O movimento é duramente reprimido pela
polícia e os operários se unem por uma jornada de trabalho de 8 horas.
1908-Sancionada a lei do serviço militar obrigatório.
1910- rebelam-se mais de dois mil marinheiros contra os maus tratos e castigos físicos recebidos de
oficiais. Nessa revolta o Rio de Janeiro fica sob a mira de canhões. Dois meses após solucionada a
revolta vários de seus líderes são presos e desaparecem.
1912- Eclosão da Guerra do Contestado no sul do país.
1913- Mobilização dos operários que lutam por melhores condições de trabalho e ainda pela jornada
de 8 horas.
1914- No dia 28 de julho começa a Primeira Guerra Mundial.
1971- O Brasil declara guerra à Alemanha.
1918-Termina, no dia 11 de novembro, a Primeira Guerra Mundial.
1919- Mais greves operárias explodem no país.
1920- A população do país atinge a marca de 30,6 milhões de habitantes, onde 800 mil são de
operários.
Euclides da Cunha: Nasceu no Rio de Janeiro, em 1866, e ali morreu assassinado em 1909.
Cursou a escola militar e a politécnica, formou-se em Engenharia. Após desligado do exercito trabalhou
no jornal o estado de são Paulo, por quem foi designado a ir para a Bahia cobrir a Guerra de Canudos.
Baseando-se nesse trabalho, Euclides da Cunha escreve o livro “Os sertões”, que causa um grande
impacto na sociedade por sua coragem e estilo.
Lima Barreto: Afonso Henrique de Lima Barreto nasceu em 1881, no Rio de Janeiro e ali morreu em
1922. Pobre, filho de pais mestiços, sofreu muito preconceito por sua cor o que era influenciou bastante
o seu trabalho. Seu estilo é simples e comunicativo, por isso o chamavam de desleixado. Tinha uma
visão crítica da sociedade e sensibilidade para representar a população humilde e marginalizada do
subúrbio. Sua visão critica da realidade o fez ocupar um lugar de destaque na literatura brasileira, no
entanto, nunca foi convidado a participar da Academia Brasileira de Letras.
Escreveu crônicas, contos e romances, deixou também um livro de memórias “O cemitério dos
vivos”, fruto de sua dolorosa experiência passada no Hospício Nacional, onde esteve internado por
causa de suas crise de alcoolismo. Suas obras de destaque são Triste fim de Policarpo Quaresma,
Recordações do escrivão Isaías Caminha, Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá e os contos resumidos
no volume Histórias e sonhos.
Monteiro Lobato: José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, em 1882, e morreu em
1948. Exerceu muitas funções; foi promotor, fazendeiro, jornalista, adido comercial nos Estados Unidos
e lutou arduamente na campanha pela nacionalização do petróleo. Ficou por algum tempo preso, devido
à pressão de empresas estrangeiras. Depois, foi um exímio editor, contribuindo muito com nosso
mercado editorial. A estética de Monteiro Lobato tem traços clássicos,conservadores e puristas, por
isso ele não pode ser considerado como genuíno modernista já que temia que essa nova linguagem
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pudesse ser apenas uma influência estrangeira passageira. Mas sua face moderna é revelada quanto
faz críticas à sociedade e quando demonstra um nacionalismo lúcido e objetivo.
Ele tornou-se bastante popular pelos livros infantis que constituem metade de sua obra, onde as
mais famosas são “Reinações de Narizinho (1931), Caçadas de Pedrinho (1933) e O Picapau Amarelo
(1939).” Seu primeiro livro importante foi “A menina do narizinho arrebitado”, em 1920, que nunca foi re-
editado, apenas por uma edição fac simile em 1981. Suas histórias infantis normalmente passavam em
um sítio no interior do Brasil, que tinham como personagens a Dona Benta, seus netos Narizinho e
Pedrinho e a empregada Tia Anastácia. As histórias eram complementadas por personagens do folclore
brasileiro e animais que ganhavam características humanas, e se passavam em lugares fantasiosos
como o fundo do mar, por exemplo. Também escreveu contos,crônicas, romances, artigos e ensaio.
Alguns dos livros de conto são “Urupês”, “Cidades mortas” e “Negrinha”.
Modernismo
O Modernismo tem seu marco inicial com a Semana de Arte Moderna de 1922 que foi uma época de
culminância de todo um processo de transformação pelo qual o país vinha passando nas áreas
tecnológicas, cientificas e culturais. Nos primeiros anos do séc. XX, os pré-modernistas já se rebelavam
contra o estilo Parnasiano. Eles buscavam algo novo, que abandonasse a cópia de estilos
internacionais. Foram buscar novas formas de expressão, daí temos o advento do Futurismo, do
Cubismo, do Expressionismo e do Surrealismo.
Dividindo didaticamente o Modernismo temos duas fases:
1ª fase, de 1922-1930, marcada pela “destruição” ou “combate” das antigas construções,
principalmente do Parnasianismo.
2ª fase, de1930-1945, período chamado de “construção”, é quando se consolidam as ideias do
Modernismo e o movimento assume características definidas.
A Semana de Arte Moderna ocorreu entre 13 e 18 de fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São
Paulo. Muitas foram as atividades realizadas neste evento. Havia conferências, dança, música e leitura
de poemas. O grupo que liderou a Semana foi chamado de Grupo dos cinco, formado pelos escritores
Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia e pelas pintoras Anita Malfatti e Tarsila do
Amaral, que contou com a participação de Manuel Bandeira, Di Cavalcanti, Graça Aranha, Guilherme de
Almeida e muitos outros.
Foi um evento bastante criticado, principalmente por um artigo publicado por Monteiro Lobato no
jornal “O Estado de S. Paulo” intitulado “Paranóia ou mistificação?”. Neste artigo, Monteiro Lobato
mostrou-se bastante avesso ao que era considerado moderno, chegando a ridicularizar a pintura de
Anita Malfatti. A repercussão do artigo foi instantânea, quadros que haviam sido comprados foram
devolvidos. Apesar das críticas, a Semana de Arte Moderna foi uma das maiores influências sobre a
arte até os dias atuais.
A primeira fase (1922-1930)
Apontaremos algumas características desta fase:
- conquista definitiva do verso livre;
- acentuada inspiração nacionalista;
- grande liberdade de criação;
- maior aproximação entre a língua falada e a escrita.
Alguns autores desse período:
Oswald de Andrade (1890-1954): inovador, dinânmico, polêmico. Foi jornalista, poeta, romancista e
autor de peças teatrais. Suas principais obras são: Poesia Pau-Brasil; Primeiro caderno do aluno de
poesia Oswald De Andrade; Poesias reunidas; Memórias sentimentais de João Miramar; Serafim Ponte
Grande; Os condenados e peças teatrais: O homem e o cavalo, A morta, O rei da vela.
Manuel Bandeira (1886-1968): professor de literatura, tradutor e crítico literário. Escreveu os
seguintes livros de poesia: A cinza das horas; Carnaval; Ritmo dissoluto; Libertinagem; Estrela da
manhã; Lira dos Cinquent’anos; Mafuá do Malungo; Belo belo; Opus; Estrela da tarde. Em prosa
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escreveu: Crônicas da Província do Brasil, Itinerário de Pasárgada; Os reis vagabundos e mais
cinquenta crônicas; Andorinha, andorinha.
Mário de Andrade (1893-1945): foi um escritor muito fecundo, escreveu poesias, contos, romances,
crônicas e ensaios. Exerceu grande influência no Modernismo por ser crítico e dinâmico. Poesias: Há
uma gota de sangue em cada poema; Paulicéia desvairada; Losango Cáqui; Clã do jabuti; Remate de
males; Poesias; Lira paulistana. Prosas: Primeiro andar; Amar, verbo intransitivo; Macunaíma; O herói
sem nenhum caráter; Belazarte; Contos novos.
Antônio de Alcântara Machado (1901-1935): Apesar de ter morrido jovem, ele contribui bastante
com o Modernismo tendo colaborado com as revistas Terra roxa e outras terras, Revista de
Antropofagia e Revista nova. Suas melhores obras são os contos de Brás, Bexiga e Barra Funda e
Laranja da China, que hoje estão reunidos no livro Novelas Paulistanas.
A segunda fase (1930-1945)
Nesta fase, o romance apresenta várias tendências:
- Romance social nordestino: Jorge Amado, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, Rachel
de Queiroz, Graciliano Ramos e outros.
- Romance intimista e psicológico: Lúcio Cardoso, Cornélio Pires e Ciro dos Anjos.
- Romance de temática social urbana: Érico Veríssimo, Dionélio Machado e Marques Rebelo.
O romance social nordestino neorrealismo é considerado o estilo mais importante desse período. O
início desse trabalho acontece com a publicação do livro “A bagaceira”, de José Américo de Almeida,
que tem por principal objetivo denunciar as injustiças sócias no Nordeste, a exploração do povo e o
drama dos retirantes da seca.
Rachel de Queiroz (1910-2003): destacou-se ainda bem jovem com a publicação do romance O
quinze. Também conhecida por outras obras, como: João Miguel, Caminhos de Pedra, As três Marias,
Memorial de Maria Moura.
Jorge Amado (1912-2001): um dos maiores escritores brasileiros. Em seus primeiros romances
fazia denúncia social e participava na política. Dessa fase constam Cacau, Jubiabá, Mar morto,
Capitães da areia, Terras do sem-fim. Posteriormente modifica suas obras e passa a predominar a
crítica aos costumes e a sátira. Dessa fase destacam-se Gabriela, cravo e canela; Os pastores da noite,
Dona flor e seus dois maridos; Tenda dos milagres, Tieta do agreste, entre outros.
Graciliano Ramos (1892-1953): considerado o mais importante prosador do Modernismo. Escreveu
os romances Caetés, São Bernardo; Angústia, Vidas secas, o conto Insônia, memórias Infância e
memórias do cárcere e literatura infantil Histórias de Alexandre.
José Lins do Rego (1901-1957): suas obras têm um aspecto memorialista, faz alusão à época da
Infância e da adolescência passadas no engenho do avô, na Paraíba. Tratava nestes textos da
decadência das estruturas econômicas do Nordeste e dos desmandos dos senhores de engenho. Suas
obras “Menino de Engenho”. “Doidinho”, “Banguê”, “Usina” e “Fogo morto”, formam o ciclo que ele
classifica de ciclo da cana-de-açúcar. “Pedra bonita” e “Cangaceiros” compõem o ciclo do cangaço e “O
moleque Ricardo”, “Pureza”, “Riacho doce”, “Água-mãe” e “Eurídice”, falam do misticismo e da seca.
Érico Veríssimo (1905-1975): nasceu no Rio Grande do Sul e por isso algumas de suas histórias
são naquele cenário. Na primeira fase de suas obras os romances transcorrem em ambiente urbano e
contemporâneo. As obras dessa fase são: ”Clarissa”, “Música ao longe”, “Um lugar ao sol”,” Olhai os
lírios do campo”, “Saga” e “O resto é silêncio”. Sua segunda fase é um retorno aos tempos passados do
Rio Grande do Sul, onde ele discute sua formação social. Os romances que compõem essa fase
recebem o título de “O tempo e o vento”, do qual fazem parte os romances “O continente”, “ O retrato” e
“O arquipélago”.Em seus últimos trabalhos há um retorno a contemporaneidade quando escreve “O
prisioneiro”, “O senhor embaixador” e “Incidente em Antares”. Após, publica seu último livro, um livro de
memórias “Solo de Clarineta”.
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No estilo poético dessa segunda fase do Modernismo os principais poetas foram: Carlos Drummond
de Andrade (além de ser o mais importante poeta desta fase, também foi cronista, contista e tradutor),
Cecília Meireles, Murilo Mendes, Mário Quintana e Vinícius de Moraes.
Literatura Contemporânea3
Olhar hoje para a literatura brasileira contemporânea e analisar ou defini-la não é um trabalho
simples. Atualmente o mercado editorial passou por uma expansão inacreditável, e com a multiplicação
das editoras vem também uma multidão de novos autores. Sem falar que, com as possibilidades
recentes de auto publicação, especialmente na rede virtual, vários escritores optam pela divulgação de
suas obras nesse meio para só mais tarde lançarem um livro impresso.
Mas marcar essa produção atual com o rótulo da diversidade seria diminuir o valor dessa vertente
literária. O crítico e mestre da PUC - Rio Karl Erik Schollhammer defende em sua obra Ficção Brasileira
Contemporânea que os autores contemporâneos interagem com os padrões canônicos da literatura
nacional. O realismo, por exemplo, ganhou uma nova aparência nos livros de escritores como Luiz
Ruffato, Marcelino Freire e Marçal Aquino. Enquanto isso João Gilberto Noll reativa a face intimista de
autores do porte de Clarice Lispector.
Poesia
A partir da década de 50, vários movimentos e grupos procuraram novos caminhos para a poesia
brasileira em função das transformações (mudanças de ordem política, social, econômica e tecnológica)
do mundo. Por outro lado, a prosa de ficção revelou dezenas de novos autores, que ora usam recursos
tradicionais da técnica narrativa, ora buscam novas formas de expressão, inserindo-se numa
perspectiva experimentalista.
Concretismo (1956): concepção poética baseada na geometrização e na visualização da linguagem,
que preconiza a substituição da estrutura tradicional do verso por expressões nominais relacionadas
espacialmente. O grupo concretista foi liderado por Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari.
Leia este poema concreto de Ivo Barroso:
astro
ave
vela
olho ilha
casco
peixe
ostra
Neoconcretismo (1957): reage aos excessos formais dos concretistas, propondo uma poesia social,
mais voltada para os problemas do país. São representantes desse grupo: Ferreira Gullar, Thiago de
Melo, José Paulo Paes.
Poesia Práxis (1962): considera as palavras que integram um vocabulário não um simples objeto
inerte de composição, e sim energia transformável. Mário Chamie lidera a nova tendência e Cassiano
Ricardo adere ao movimento. Como exemplo, analise o poema de Cassiano Ricardo:
Posições do corpo
Sob o azul
sobre o azul
subazul
3 Texto adaptado de SANTANA, Ana Lúcia. http://www.infoescola.com/literatura/escritores-brasileiros-contemporaneos/
http://educacao.globo.com/literatura/assunto/movimentos-literarios/literatura-contemporanea.html
Autores Brasileiros da Atualidade
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subsol
subsolo
(Cassiano Ricardo)
O poema apresenta uma técnica de repetição para a fixação da mensagem nuclear do poema. Além
disso, há uma sintaxe antidiscursiva, suprimidos os elementos de ligação tradicionais da frase.
Poema-processo (1967): propôs uma nova codificação para o texto, que seria uma nova linguagem.
Utilizaram, além da palavra, fotografias, desenhos, colagens. Foi liderado por Wladimir Dias-Pino.
Poesia participante (1962): Textos que se utilizam de acontecimentos da vida política nacional, de
fatos históricos e problemas sociais.
Dois e dois são quatro
Como dois e dois são quatro como um tempo de alegria
Sei que a vida vale a pena por trás do temor me acena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena
como teus olhos são claros
e a tua pele morena - sei que dois e dois são quatro
como é azul o oceano sei que a vida vale a pena
e a lagoa serena mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.
(www2.uol.com.br/ferreira Gullar/poesia/)
Tropicalismo: movimento cultural do fim da década de 60 que revoluciona a música popular
brasileira. É iniciado no lançamento das músicas “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso e “Domingo no
Parque” de Gilberto Gil, no Festival de MPB da TV Record em 1967. É influenciado pelo Manifesto
Antropófago de Oswald de Andrade e também um reflexo da resistência à censura e à repressão,
agravada após o AI – 5 (1968).
Outros poetas que merecem destaque na poesia contemporânea são Adélia Prado, Mário Quintana,
Afonso Romano Sant’Anna, Gilberto Mendonça Telles, Paulo Leminski e Cacaso. Arnaldo Antunes,
representante da poesia anárquica que floresceu nos anos 70 do século passado é, atualmente,
exemplo de artista que usufrui de mídias diversas para ampliar público e explorar novas linguagens.
Prosa
Intertextualidade, aproveitamento da forma popular de ficção, cultivo da ambiguidade, exploração da
paródia, rompimento com a sintaxe são aspectos que marcam a narrativa ficcional contemporânea.
O romance
Realista-regionalista: Mário Palmério, Antônio Callado...
Introspectivo: Lygia Fagundes Telles (influência de Clarice Lispector), Autran Dourado, Adonias
Filho...
Preocupação com a linguagem: Osman Lins, Nélida Pinon...
Outras tendências:
- Romance Policial: Rubem Fonseca, Marcelo Rubens Paiva, Garcia Rosa, etc.
- Romance Memorialista: Fernando Gabeira.
Outros romancistas: J.J. Veiga e João Ubaldo Ribeiro.
O conto
Representantes: Moacyr Scliar, Marina Colasanti, Dalton Trevisan, Murilo Rubião, entre outros.
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A Crônica: forma literária muito divulgada nos veículos de comunicação de massa. Dedicam-se ao
gênero: Luís Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, entre outros.
Autores e Obras Contemporâneas
Luiz Ruffato: Eles eram muitos Cavalos; Mamma, son tanto Felice; Vista Parcial da Noite; De mim já
nem se Lembra; O Livro das Impossibilidades.
Marcelino Freire: EraOdito; Angu de Sangue; Contos Negreiros; Rasif - Mar que Arrebenta; Amar é
Crime; BaléRalé.
Marçal Aquino: O Invasor; Cabeça a Prêmio; Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos
Lábios; O Amor e outros Objetos Pontiagudos; As Fomes de Setembro; Abismos; O Mistério da Cidade-
Fantasma; A Turma da Rua Quinze.
Rubem Fonseca: A Coleira do Cão; O Cobrador; Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos; Feliz
Ano Novo; Agosto.
Nelson Rodrigues: Engraçadinha; O Casamento; Asfalto Selvagem; Cem Contos Escolhidos – A
Vida Como Ela é...; Meu Destino é Pecar; Núpcias de Fogo; Escravas do Amor.
Ariano Suassuna: O Castigo da Soberba; O Rico Avarento; Auto da Compadecida; O Santo e a
Porca; A Pena e a Lei.
Bernardo Carvalho: Aberração; Onze; Teatro; Medo de Sade; Nove Noites; Mongólia; O Sol se põe
em São Paulo; O Filho da Mãe; Os Bêbados e os Sonâmbulos.
Adélia Prado: Solte os Cachorros;