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2013.1 Profº Cléber Pinheiro FUNDAMENTOS DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL 2 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro ÉTICA PROFISSIONAL O que é A ética profissional é um conjunto de atitudes e valores positivos aplicados no ambiente de trabalho. A ética no ambiente de trabalho é de fundamental importância para o bom funcionamento das atividades da empresa e das relações de trabalho entre os funcionários. “Ética” como um sistema de julgamento de condutas humanas, apreciáveis segundo valores, notadamente os classificáveis em bem e mal. O Dicionário Houaiss traz estes conceitos”. Esse reconhecimento da importância de uma ética do trabalho profissional não é, necessariamente, tributário de uma certa mística do ativismo ou da concepção calvinista da eficácia na ordem temporal; mais decisivamente, caberia afirmar que a relevância da ética profissional deriva do fato de a profissão constituir um meio importante para a consecução teleológica do homem: “La profesión — disse JOSÉ TODOLÍ — es el núcleo en el cual el hombre fundamentalmente elabora su destino”. Isso não equivale, porém, a apontar o trabalho como a finalidade do homem, senão que o trabalho é um instrumento, um meio de alcançar essa finalidade; uma das grandes tentações da vida contemporânea está posta exatamente na sobreexaltação do trabalho em detrimento da contemplação. Uma verdadeira autonomização da ética profissional — no plano científico e, tanto quanto possível, no didático — deve servir ao aprofundamento das reflexões particulares, específicas, bem ao contrário, pois, de uma desvinculação com os supostos da ética geral. Trata-se, antes, de reforçar o exame da conduta humana profissional em ordem à observância da lei natural, e não de produzir uma separação entre, de um lado, as ações e os fins humanos gerais e, de outro, as ações e os fins profissionais: uma separação semelhante poderia conduzir ao ativismo e à glorificação do êxito profissional. É importante sublinhar que a ética profissional não se cifra num capítulo da ética social. É certo que, muito freqüentemente, os autores estudam os deveres profissionais como parte dos deveres sociais. Tem isso a vantagem de tornar mais gráfica a importância social da profissão, mas é preciso não esquecer seu aspecto individual e as exigências éticas que lhe correspondem. Quando se cogita, p. ex., de uma ética social familiar, seu objeto específico (as ações da e na comunidade familiar) embora desvele perspectivas individuais, está muito mais vincado à idéia e à realidade comunitárias do que o exercício da profissão; a família é um grupo social, a profissão tem função social (a profissão é um fato social, mas seu principal aspecto é a pessoalidade do agente). Nesse sentido, a ética da profissão (ou do trabalho, se quiser) guarda similaridade com (e inclui-se em) o que se poderia denominar de ética das instituições (como a ética da propriedade ou a ética do capital, porque propriedade e capital não são funções sociais, têm-nas). Se pensa, porém, na inclusão da ordem corporativa no âmbito da ética profissional, já nesta então se aponta mais particularmente a prevalência de traços sociais. Parece mais apropriado seguir empregando o termo “ética profissional”, preferindo-o ao uso de “moral profissional”, e ao de “deontologia”. Naturalmente, não se quer, sic et simpliciter, afastar o uso de vocábulos que, hoje, são correntes e cujo emprego, com as distinções adequadas, é de todo cabível. O que se está a indicar é a preferência pelo termo “ética profissional”, que manifesta mais apropriadamente o objeto de uma autêntica “moral profissional” ou “deontologia”. Nada obstante a sinonímia ampla dos vocábulos “moral” e “ética”, não se desconhece que há uns certos sentidos meramente positivos para o termo “moral. Sem negar a relevância gnosiológica dessa observação positiva, a ética profissional não se resume à apreensão e difusão do êthos, dos usos e costumes hic et nunc em vigência; antes, estuda as ações humanas profissionais em sua relação de concordância (ou discordância) com a lei natural. 3 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro CONTEÚDOS DE ÉTICA Cada sociedade, cada país é composto de pessoas diferentes entre si. Não somente são diferentes em função de suas personalidades singulares, como também o são relativamente a categorias ou grupos de pessoas: elas podem ser classificadas por sexo, etnia, classe social, opção política e ideológica, etc. É grande a diversidade das pessoas que compõem a população brasileira: diversas etnias, diversas culturas de origem, profissões, religiões, opiniões, etc. Essa diversidade freqüentemente é alvo de preconceitos e discriminações, o que resulta em conflitos e violência. Assim, alguns acham que determinadas pessoas não merecem consideração, seja porque são mulheres, porque são negras, porque são nordestinas, cariocas, gaúchas, pobres, doentes, etc. Do ponto de vista da Ética, o preconceito pode traduzir-se de várias formas. A mais freqüente é a não-universalização dos valores morais. Por exemplo, alguém pode considerar que deve respeitar as pessoas que pertencem a seu grupo, ser honesto com elas, não enganá-las, não violentá-las, etc., mas o mesmo respeito não é visto como necessário para com as pessoas de outros grupos. Mais ainda: mentir para membros de seu grupo pode ser considerado desonroso, mas enganar os “estranhos”, pelo contrário, pode ser visto como um ato merecedor de admiração. Outra tradução dos preconceitos é a intolerância: simplesmente não se aceita a diferença e tentase, de toda forma, censurá-la, silenciá-la. Finalmente, é preciso pensar na indiferença: o outro, por não ser do mesmo grupo, é ignorado e não merecedor da mínima solidariedade. O preconceito é contrário a um valor fundamental: o da dignidade humana. Segundo esse valor, toda e qualquer pessoa, pelo fato de ser um ser humano, é digna e merecedora de respeito. Portanto, não importa seu sexo, idade, cultura, raça, religião, classe social, seu grau de instrução, etc.: nenhum desses critérios aumenta ou diminui a dignidade de uma pessoa. Toda pessoa tem, em princípio, direito ao respeito de seus semelhantes, a uma vida digna (no sentido de boas condições de vida), a oportunidades de realizar seus projetos. Sem opção moral, uma sociedade democrática, pluralista por definição, é totalmente impossível de ser construída e o conceito de cidadania perde seu sentido. É, portanto imperativo que a escola contribua para que a dignidade do ser humano seja um valor conhecido e reconhecido pelos seus alunos. Dois outros critérios nortearam a escolha dos conteúdos: a possibilidade de serem trabalhados na escola e sua relevância tanto para o ensino das diversas áreas e temas quanto para o convívio escolar. Foram organizados blocos de conteúdos, os quais correspondem a grandes eixos que estabelecem as bases de diversos conceitos, atitudes e valores complementares. Os blocos de conteúdos, assim como toda a proposta de Ética, referem-se a todo o ensino fundamental. Os conteúdos de cada bloco serão detalhados para os dois primeiros ciclos e já se encontram expressos nas áreas, transversalizados. Por impregnarem toda a prática cotidiana da escola, os conteúdos de Ética priorizam o convívio escolar. São eles: • Respeito mútuo. • Justiça. • Diálogo. • Solidariedade Respeito mútuo: O tema respeito é central na moralidade. E também é complexo, pois remete a várias dimensões de relações entre os homens, todas “respeitosas”, mas em sentidos muito diferentes. Pode-se associar respeito à 4 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro idéia de submissão. É o caso quando se fala que alguma pessoa obedece incondicionalmente a outra. Tal submissão pode vir do medo: respeita-seo mais forte, não porque mereça algum reconhecimento de ordem moral, mas simplesmente porque detém o poder. Porém, também pode vir da admiração, da veneração (porque é mais velho ou sábio, por exemplo), ou da importância atribuída a quem se obedece ou escuta (diz-se “respeito muito as opiniões de fulano”). Nesses exemplos, o respeito é compreendido de forma unilateral: consideração, obediência, veneração de um pelo outro, sem que a recíproca seja verdadeira ou necessária. Um intelectual observou bem a presença desse respeito unilateral na sociedade brasileira, por meio de uma expressão popularmente freqüente: “Sabe com quem está falando?”. Essa expressão traduz uma exigência de respeito unilateral: “Eu sou mais que você, portanto, respeite-me”. É a frase que muitas “autoridades” gostam de empregar quando se sentem, de alguma forma, desacatadas no exercício de seu poder. Porém, outra expressão popular também conhecida apresenta uma dimensão diferente do respeito: “Quem você pensa que é?”. Tal pergunta traduz a destituição de um lugar imaginariamente superior que o interlocutor pensa ocupar. Essa expressão é a afirmação de um ideal de igualdade, ou melhor, de reciprocidade: se devo respeitá-lo, você também deve me respeitar; não é a falta de respeito, mas sim a negação de sua associação com submissão. Trata-se de respeito mútuo. E o predicado mútuo faz toda a diferença. Ora, é claro que tanto a dignidade do ser humano quanto o ideal democrático de convívio social pressupõem o respeito mútuo, e não o respeito unilateral. A criança pequena (de até sete ou oito anos em média) concebe o respeito como unilateral, portanto, dirigido a pessoas prestigiadas, vistas por ela como poderosas. Com a socialização, a aprendizagem e o desenvolvimento psicológico decorrente, essa assimetria tende a ser substituída pela relação de reciprocidade: respeitar e ser respeitado: ao dever de respeitar o outro, articula-se o direito (e a exigência) de ser respeitado. Considerar o respeito mútuo como dever e direito é de suma importância, pois ao permanecer apenas um dos termos, volta-se ao respeito unilateral: “Devo respeitar, mas não tenho o direito de exigir o mesmo” ou “Tenho o direito de ser respeitado, mas não o dever de respeitar os outros”. O respeito mútuo expressa-se de várias formas complementares. Uma delas é o dever do respeito pela diferença e a exigência de ser respeitado na sua singularidade. Tal reciprocidade também deve valer entre pessoas que pertençam a um mesmo grupo. Deve valer quando se fazem contratos que serão honrados, cada um respeitando a palavra empenhada e exigindo a recíproca. O respeito pelos lugares públicos, como ruas e praças, também deriva do respeito mútuo. Como tais espaços pertencem a todos, preservá-los, não sujá-los ou depredá-los é dever de cada um, porque também é direito de cada um poder desfrutá-los. O respeito mútuo também deve valer na dimensão política. Embora política não se confunda com ética, a primeira não deve ser contraditória com a segunda. Logo, as diversas leis que regem o país devem ser avaliadas também em função de sua justeza ética: elas devem garantir o respeito mútuo, pois o regime político democrático pressupõe indivíduos livres que, por intermédio de seus representantes eleitos, estabelecem contratos de convivência que devem ser honrados por todos; portanto, o exercício da cidadania pressupõe íntima relação entre respeitar e ser respeitado. Os seguintes conteúdos devem ser trabalhados para que o aluno evolua em sua formação, de acordo com os objetivos propostos: • as diferenças entre as pessoas, derivadas de sexo, cultura, etnia, valores, opiniões ou religiões; • o respeito a todo ser humano independentemente de sua origem social, etnia, religião, sexo, opinião e cultura; 5 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro • o respeito às manifestações culturais, étnicas e religiosas; • o respeito mútuo como condição necessária para o convívio social, democrático: respeito ao outro e exigência de igual respeito para si; • o respeito ao direito seu e dos outros ao dissenso; • a coordenação das próprias ações com as dos outros, por meio do trabalho em grupo; • o respeito à privacidade como direito de cada pessoa; • o contrato como acordo firmado por ambas as partes; • a identificação de situações em que é ferida a dignidade do ser humano; • o repúdio a toda forma de humilhação ou violência na relação com o outro; • as formas legais de lutar contra o preconceito; • a utilização das normas da escola como forma de lutar contra o preconceito; • a compreensão de lugar público como patrimônio de todos, cujo zelo é dever de todos; • o zelo pelo bom estado das dependências da escola; • a valorização do patrimônio cultural e o zelo por sua conservação. JUSTIÇA O tema da justiça sempre atraiu todos aqueles que pensaram sobre a moralidade, desde os filósofos gregos. Belíssimas páginas foram escritas, idéias fortes foram defendidas. O tema da justiça encanta e inquieta todos aqueles que se preocupam com a pergunta “Como devo agir perante os outros?”. A rigor, ela poderia ser assim formulada: “Como ser justo com os outros?”, ou seja, “Como respeitar seus direitos? Quais são esses direitos? E os meus?”. O conceito de justiça pode remeter à obediência às leis. Por exemplo, se a lei prevê que os filhos são os herdeiros legais dos pais, deserdá-los será considerado injusto. Um juiz justo será aquele que se atém à lei, sem feri-la. Será considerado injusto se, por algum motivo, resolver ignorá-la. Porém, o conceito de justiça vai muito além da dimensão legalista. De fato, uma lei pode ser justa ou não. A própria lei pode ser, ela mesma, julgada com base em critérios éticos. Por exemplo, no Brasil, existiu uma lei que proibia os analfabetos de votarem. Cada um, intimamente ligado à sua consciência, pode se perguntar se essa lei era justa ou não; se os analfabetos não têm o direito de participar da vida pública como qualquer cidadão; ou se o fato de não saberem ler e escrever os torna desiguais em relação aos outros. Portanto, a ética pode julgar as leis como justas ou injustas. As duas dimensões da definição de justiça são importantes. A dimensão legal da justiça deve ser contemplada pelos cidadãos. Muitos, por não conhecerem certas leis, não percebem que são alvo de injustiças. Não conhecem seus direitos; se os conhecessem, teriam melhores condições de lutar para que fossem respeitados. Porém, a dimensão ética é insubstituível, precisamente para avaliar de forma crítica certas leis, para perceber como, por exemplo, privilegiam alguns em detrimento de outros. E os critérios essenciais para se pensar eticamente sobre a justiça são igualdade e eqüidade. A igualdade reza que todas as pessoas têm os mesmos direitos. Não há razão para alguns serem “mais iguais que os outros”. Eis um bolo a ser dividido: cada um deve receber parte igual. E as crianças, desde cedo, pensam assim. Porém, o conceito de igualdade deve ser sofisticado pelo de eqüidade. De fato, na grande maioria das vezes, as pessoas não se encontram em posição de igualdade. Nascem com diferentes talentos, em diferentes condições sociais, econômicas, físicas, etc. Seria injusto não levar em conta essas diferenças e, por exemplo, destinar a crianças e adultos os mesmos trabalhos braçais pesados (infelizmente, no Brasil, tal injustiça acontece). As pessoas também não são iguais no que diz respeito a seus feitos, e, da mesma forma, seria considerado injusto dar igual recompensa ou sanção a 6 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro todas as ações (por exemplo, punir todo crime, da menor infração ao assassinato, com pena de prisão). Portanto, fazer justiça deve, em vários casos, derivar de cálculo de proporcionalidade (por exemplo, pena proporcional ao crime). Nesses casos,o critério é o da eqüidade que restabelece a igualdade respeitando as diferenças: o símbolo da justiça é, precisamente, uma balança. A importância do valor justiça para a formação do cidadão é evidente. Em primeiro lugar, para o convívio social, sobretudo quando se detém algum nível de poder que traz a responsabilidade de decisões que afetam a vida de outras pessoas. Um pai ou uma mãe, que têm poder sobre os filhos e responsabilidade por eles, a todo momento devem se perguntar se suas decisões são justas ou não. Numa escola, o professor também deve se fazer essa pergunta para julgar a atitude de seus alunos. Em segundo lugar, para a vida política: julgar as leis segundo critérios de justiça, julgar a distribuição de renda de um país segundo o mesmo critério, avaliar se há igualdade de oportunidades oferecidas a todos, se há impunidade para alguns, se o poder político age segundo o objetivo da eqüidade, se os direitos dos cidadãos são respeitados, etc. A formação para o exercício da cidadania passa necessariamente pela elaboração do conceito de justiça e seu constante aprimoramento. Uma sociedade democrática tem como principal objetivo ser justa, inspirada nos ideais de igualdade e eqüidade. Tarefa difícil que pede de todos, governantes e governados, muito discernimento e muita sensibilidade. Se um regime democrático não conseguir aproximar a sociedade do ideal de justiça, se perdurarem as tiranias (nas quais o desejo de alguns são leis e os privilégios são normas), se os direitos de cada um (baseados na eqüidade) não forem respeitados, a democracia terá vida curta. Por essa razão, apresentam- se nos conteúdos itens referentes ao exercício político da cidadania: embora ética e política sejam domínios diferentes, com suas respectivas autonomias, o tema da justiça os une na procura da igualdade e da eqüidade. Conteúdos a serem trabalhados: • o reconhecimento de situações em que a eqüidade represente justiça (como, por exemplo, algumas regras diferenciadas para as crianças menores, das séries iniciais, em função de sua idade, altura, capacidades, etc.); • o reconhecimento de situações em que a igualdade represente justiça (como, por exemplo, as regras de funcionamento da classe, o cumprimento de horários); • a identificação de situações em que a injustiça se faz presente; repúdio à injustiça; • o conhecimento da importância e da função da Constituição brasileira; • a compreensão da necessidade de leis que definem direitos e deveres; • o conhecimento e compreensão da necessidade das normas escolares que definem deveres e direitos dos agentes da instituição; • o conhecimento dos próprios direitos de aluno e os respectivos deveres; • a identificação de formas de ação diante de situações em que os direitos do aluno não estiverem sendo respeitados; • a atitude de justiça para com todas as pessoas e respeito aos seus egítimos direitos. DIÁLOGO A comunicação entre os homens pode ser praticada em várias dimensões, que vão desde a cultura como um todo, até a conversa amena entre duas pessoas. Ela pode ser fonte de riquezas e alegrias: o contato que o artista estabelece com seu público, a discussão científica sobre algum tema relevante, o debate caloroso sobre questões complexas, o silencioso diálogo de olhares entre amantes. Não há dúvida de que um dos objetivos fundamentais da educação é fazer com que o aluno consiga participar do universo da comunicação humana, apreendendo por meio da escuta, da leitura, do olhar, as diversas mensagens (artísticas, científicas, políticas e outras) emitidas de diversas fontes; e fazer com que seja capaz de, por meio da fala, da escrita, da imagem, 7 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro emitir suas próprias mensagens. As Ciências Humanas e a Filosofia sempre refletiram muito sobre os comportamentos agressivos do homem, que se traduzem tanto de forma verbal (por exemplo, os insultos) quanto de forma física (surrar, bater, matar), tanto de forma individual quanto social (como no caso das guerras civis ou entre países). Para alguns, a agressividade em relação ao outro é traço natural do homem, e o estabelecimento de uma sociedade onde as pessoas convivam com um mínimo de harmonia e paz somente pode ser realizado mediante formas de repressão dessa agressividade. Para outros, os comportamentos violentos são essencialmente causados por fatores sociais que levariam inelutavelmente a condutas agressivas. Há, certamente, verdades nas duas posições. De fato, é ter uma visão demasiadamente romântica do homem pensar que sua inclinação natural o leva necessariamente a ter simpatia pelos outros homens e a solidarizar-se com eles. Tendências agressivas existem. Mas não são as únicas. Verificam-se também tendências inatas para a compaixão, para a simpatia, para a reciprocidade. Na verdade, para maior clareza da questão, deve-se abandonar a visão naturalista do homem (a natureza humana) e pensar sobre seus desejos e ações de forma contextualizada. A agressividade humana e seus comportamentos violentos decorrentes dependem em alto grau de fatores sociais, de contextos culturais, de sistemas morais. Por exemplo, antigamente, era habitual um homem defender sua honra matando o ofensor. Hoje, a defesa da honra tende a se dar de forma indireta, por meio da justiça. Não muito tempo atrás, para alguns países (e ainda para muitos), matar e morrer pela pátria era considerado normal, necessário e até glorioso. Após duas terríveis guerras mundiais, em vários lugares, tal tradução do ideal patriótico arrefeceu. O homem mudou e tal mudança somente pode ser compreendida levando-se em conta os fatores psicológicos e sociais. Não foi o homem que se tornou menos agressivo, mas é a sociedade que reserva lugares e valores diferentes à expressão dessa agressividade. Algumas pesquisas apontam para o fato de que há maior violência nos lugares onde a desigualdade entre as pessoas (medida em termos de qualidade de vida) é grande. Tal fenômeno é até fácil de ser compreendido: a dignidade de uma pessoa será cruelmente ferida se vir que nada possui num lugar onde outros desfrutam do mais alto luxo. E tal situação é freqüente no Brasil. Portanto, a violência não pode ser vista como qualidade pessoal, mas como questão social diretamente relacionada à justiça. A democracia é um regime político e um modo de convívio social que visa tornar viável uma sociedade composta de membros diferentes entre si, tornar realidade o convívio pacífico numa sociedade pluralista. Nela é garantida a expressão de diversas idéias, sejam elas dominantes ou não (defendidas pela maioria). Vale dizer, a democracia dá espaço ao consenso e ao dissenso. Portanto, o conflito entre pessoas é dimensão constitutiva da democracia. O diálogo é um dos principais instrumentos desse sistema. É uma das razões pelas quais a democracia é um sistema complexo. Dialogar pede capacidade de ouvir o outro e de se fazer entender. Sendo a democracia composta de cidadãos, cada um deles deve valorizar o diálogo como forma de esclarecer conflitos e também saber dialogar. A escola é um lugar privilegiado onde se pode ensinar esse valor e aprender a traduzi-lo em ações e atitudes. Conteúdos a serem trabalhados: • o uso e valorização do diálogo como instrumento para esclarecer conflitos; • a coordenação das ações entre os alunos, mediante o trabalho em grupo; • o ato de escutar o outro, por meio do esforço de compreensão do sentido preciso da fala do outro; • a formulação de perguntas que ajudem a referida compreensão; • a expressão clara e precisa de idéias, opiniões e argumentos, de forma a ser corretamente compreendido pelas outras pessoas; • a disposição para ouvir idéias, opiniões e argumentos alheios e rever pontos de vista quando necessário. 8 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro SOLIDARIEDADE A palavra“solidariedade” pode ser enganosa. De fato, os membros de uma quadrilha de estelionatários, por exemplo, podem ser solidários entre s i , ajudando-se e protegendo- se mutuamente. A mesma coisa pode acontecer com os membros de uma corporação profissional: alguns podem encobrir o erro de um colega para evitar que a imagem da profissão seja comprometida. Nesses casos, a solidariedade nada tem de ético. Pelo contrário, é condenável, pois só ocorre em benefício próprio: se a quadrilha ou a corporação correr perigo, cada membro em particular será afetado. Portanto, ajuda-se os outros para salvar a si próprio. O enfoque a ser dado para o tema solidariedade é muito próximo da idéia de “generosidade”: doar-se a alguém, ajudar desinteressadamente. A rigor, se todos fossem solidários nesse sentido, talvez nem se precisasse pensar em justiça: cada um daria o melhor de si para os outros. A força da virtude da solidariedade dispensa que se demonstre sua relevância para as relações interpessoais. Porém, o que pode às vezes passar despercebido são as formas de ser solidário. Não se é solidário apenas ajudando pessoas próximas ou engajando-se em campanhas de socorro a pessoas necessitadas (como depois de um terremoto ou enchente, por exemplo). Essas formas são genuína tradução da solidariedade humana, mas há outras. Uma delas, que vale sublinhar aqui, diretamente relacionada com o exercício da cidadania é a da participação no espaço público, na vida política. O exercício da cidadania não se traduz apenas pela defesa dos próprios interesses e direitos (embora tal defesa seja legítima), mas passa necessariamente pela solidariedade (por exemplo, atuar contra injustiças ou injúrias que outros estejam sofrendo). É pelo menos o que se espera para que a democracia seja um regime político humanizado e não mera máquina burocrática. Conteúdos a serem trabalhados: • identificação de situações em que a solidariedade se faz necessária; • as formas de atuação solidária em situações cotidianas (em casa, na escola, na comunidade local) e em situações especiais (calamidades públicas, por exemplo); • a resolução de problemas presentes na comunidade local, por meio de variadas formas de ajuda mútua; • as providências corretas, como alguns procedimentos de primeiros socorros, para problemas que necessitam de ajuda específica; • o conhecimento da possibilidade de uso dos serviços públicos existentes, como postos de saúde, corpo de bombeiros e polícia, e formas de acesso a eles; • a sensibilidade e a disposição para ajudar as outras pessoas, quando isso for possível e desejável. VANTAGENS DA ÉTICA APLICADA AO AMBIENTE DE TRABALHO: - Maior nível de produção na empresa; - Favorecimento para a criação de um ambiente de trabalho harmonioso, respeitoso e agradável; - Aumento no índice de confiança entre os funcionários. Exemplos de atitudes éticas num ambiente de trabalho: - Educação e respeito entre os funcionários; - Cooperação e atitudes que visam à ajuda aos colegas de trabalho; - Divulgação de conhecimentos que possam melhorar o desempenho das atividades realizadas na empresa; - Respeito à hierarquia dentro da empresa; - Busca de crescimento profissional sem prejudicar outros colegas de trabalho; 9 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro - Ações e comportamentos que visam criar um clima agradável e positivo dentro da empresa como, por exemplo, manter o bom humor; - Realização, em ambiente de trabalho, apenas de tarefas relacionadas ao trabalho; - Respeito às regras e normas da empresa. ÉTICA NO TRABALHO PROFISSIONAL Muitos autores definem a ética profissional como sendo um conjunto de normas de conduta que deverão ser postas em prática no exercício de qualquer profissão. Seria a ação "reguladora" da ética agindo no desempenho das profissões, fazendo com que o profissional respeite seu semelhante quando no exercício da sua profissão. A ética profissional estudaria e regularia o relacionamento do profissional com sua clientela, visando a dignidade humana e a construção do bem-estar no contexto sócio-cultural onde exerce sua profissão. Ela atinge todas as profissões e quando falamos de ética profissional estamos nos referindo ao caráter normativo e até jurídico que regulamenta determinada profissão a partir de estatutos e códigos específicos. Assim temos a ética médica, do advogado, do biólogo, etc. Acontece que, em geral, as profissões apresentam a ética firmada em questões muito relevantes que ultrapassam o campo profissional em si. Questões como o aborto, pena de morte, seqüestros, eutanásia, AIDS, por exemplo, são questões morais que se apresentam como problemas éticos - porque pedem uma reflexão profunda - e, um profissional, ao se debruçar sobre elas, não o faz apenas como tal, mas como um pensador, um "filósofo da ciência", ou seja, da profissão que exerce. Desta forma, a reflexão ética entra na moralidade de qualquer atividade profissional humana. Sendo a ética inerente à vida humana, sua importância é bastante evidenciada na vida profissional, porque cada profissional tem responsabilidades individuais e responsabilidades sociais, pois envolvem pessoas que dela se beneficiam. A ética é ainda indispensável ao profissional, porque na ação humana "o fazer" e "o agir" estão interligados. O fazer diz respeito à competência, à eficiência que todo profissional deve possuir para exercer bem a sua profissão. O agir se refere à conduta do profissional, ao conjunto de atitudes que deve assumir no desempenho de sua profissão. A Ética baseia-se em uma filosofia de valores compatíveis com a natureza e o fim de todo ser humano, por isso, "o agir" da pessoa humana está condicionado a duas premissas consideradas básicas pela Ética: "o que é" o homem e "para que vive", logo toda capacitação científica ou técnica precisa estar em conexão com os princípios essenciais da Ética. (MOTTA, 1984, p. 69). Constata-se então o forte conteúdo ético presente no exercício profissional e sua importância na formação de recursos humanos. INDIVIDUALISMO E ÉTICA PROFISSIONAL Parece ser uma tendência do ser humano, como tem sido objeto de referências de muitos estudiosos, a de defender, em primeiro lugar, seus interesses próprios e, quando esses interesses são de natureza pouco recomendável, ocorrem seríssimos problemas. O valor ético do esforço humano é variável em função de seu alcance em face da comunidade. Se o trabalho executado é só para auferir renda, em geral, tem seu valor restrito. Por outro lado, nos serviços realizados com amor, visando ao benefício de terceiros, dentro de vasto raio de ação, com consciência do bem comum, passa a existir a expressão social do mesmo. Aquele que só se preocupa com os lucros, geralmente, tende a ter menor consciência de grupo. Fascinado pela preocupação monetária, a ele pouco importa o que ocorre com a sua comunidade e muito menos com a sociedade. Para ilustrar essa questão, citaremos um caso, muito conhecido, porém de autor anônimo: 10 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro Dizem que um sábio procurava encontrar um ser integral, em relação a seu trabalho. Entrou, então, em uma obra e começou a indagar. Ao primeiro operário perguntou o que fazia e este respondeu que procurava ganhar seu salário; ao segundo repetiu a pergunta e obteve a resposta de que ele preenchia seu tempo; finalmente, sempre repetindo a pergunta, encontrou um que lhe disse: "Estou construindo uma catedral para a minha cidade". A este último, o sábio teria atribuído a qualidade de ser integral em face do trabalho, como instrumento do bem comum. Como o número dos que trabalham, todavia, visando primordialmente ao rendimento, é grande, as classes procuram defender-se contra a dilapidação de seus conceitos, tutelando o trabalho e zelando para que uma luta encarniçadanão ocorra na disputa dos serviços. Isto porque ficam vulneráveis ao individualismo. A consciência de grupo tem surgido, então, quase sempre, mais por interesse de defesa do que por altruísmo. Isto porque, garantida a liberdade de trabalho, se não se regular e tutelar a conduta, o individualismo pode transformar a vida dos profissionais em reciprocidade de agressão. Tal luta quase sempre se processa através de aviltamento de preços, propaganda enganosa, calúnias, difamações, tramas, tudo na ânsia de ganhar mercado e subtrair clientela e oportunidades do colega, reduzindo a concorrência. Igualmente, para maiores lucros, pode estar o indivíduo tentado a práticas viciosas, mas rentáveis. Em nome dessas ambições, podem ser praticadas quebras de sigilo, ameaças de revelação de segredos dos negócios, simulação de pagamentos de impostos não recolhidos, etc. Para dar espaço a ambições de poder, podem ser armadas tramas contra instituições de classe, com denúncias falsas pela imprensa para ganhar eleições, ataque a nomes de líderes impolutos para ganhar prestígio, etc. Os traidores e ambiciosos, quando deixados livres completamente livres, podem cometer muitos desatinos, pois muitas são as variáveis que existem no caminho do prejuízo a terceiros. A tutela do trabalho, pois, processa-se pelo caminho da exigência de uma ética, imposta através dos conselhos profissionais e de agremiações classistas. As normas devem ser condizentes com as diversas formas de prestar o serviço de organizar o profissional para esse fim. Dentro de uma mesma classe, os indivíduos podem exercer suas atividades como empresários, autônomos e associados. Podem também dedicar-se a partes menos ou mais refinadas do conhecimento. A conduta profissional, muitas vezes, pode tornar-se agressiva e inconveniente e esta é uma das fortes razões pelas quais os códigos de ética quase sempre buscam maior abrangência. Tão poderosos podem ser os escritório, hospitais, firmas de engenharia, etc, que a ganância dos mesmos pode chegar ao domínio das entidades de classe e até ao Congresso e ao Executivo das nações. A força do favoritismo, acionada nos instrumentos do poder através de agentes intermediários, de corrupção, de artimanhas políticas, pode assumir proporções asfixiantes para os profissionais menores, que são a maioria. Tais grupos podem, como vimos, inclusive, ser profissionais, pois, nestes encontramos também o poder econômico acumulado, tão como conluios com outras poderosas organizações empresariais. Portanto, quando nos referimos à classe, ao social, não nos reportamos apenas a situações isoladas, a modelos particulares, mas a situações gerais. O egoísmo desenfreado de poucos pode atingir um número expressivo de pessoas e até, através delas, influenciar o destino de nações, partindo da ausência de conduta virtuosa de minorias poderosas, preocupadas apenas com seus lucros. Sabemos que a conduta do ser humano pode tender ao egoísmo, mas, para os interesses de uma classe, de toda uma sociedade, é preciso que se acomode às normas, porque estas devem estar apoiadas em princípios de virtude. Como as atitudes virtuosas podem garantir o bem comum, a Ética tem sido o caminho justo, adequado, para o benefício geral. VOCAÇÃO PARA O COLETIVO Egresso de uma vida inculta, desorganizada, baseada apenas em instintos, o homem, sobre a Terra, foi- 11 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro se organizando, na busca de maior estabilidade vital. Foi cedendo parcelas do referido individualismo para se beneficiar da união, da divisão do trabalho, da proteção da vida em comum. A organização social foi um progresso, como continua a ser a evolução da mesma, na definição, cada vez maior, das funções dos cidadãos e tal definição acentua, gradativamente, o limite de ação das classes. Sabemos que entre a sociedade de hoje e aquela primitiva não existem mais níveis de comparação, quanto à complexidade; devemos reconhecer, porém, que, nos núcleos menores, o sentido de solidariedade era bem mais acentuado, assim como os rigores éticos e poucas cidades de maior dimensão possuem, na atualidade, o espírito comunitário; também, com dificuldades, enfrentam as questões classistas. A vocação para o coletivo já não se encontra, nos dias atuais, com a mesma pujança nos grandes centros. Parece-me pouco entendido, por um número expressivo de pessoas, que existe um bem comum a defender e do qual elas dependem para o bem-estar próprio e o de seus semelhantes, havendo uma inequívoca interação que nem sempre é compreendida pelos que possuem espírito egoísta. Quem lidera entidades de classe bem sabe a dificuldade para reunir colegas, para delegar tarefas de utilidade geral. Tal posicionamento termina, quase sempre, em uma oligarquia dos que se sacrificam, e o poder das entidades tende sempre a permanecer em mãos desses grupos, por longo tempo. O egoísmo parece ainda vigorar e sua reversão não nos parece fácil, diante da massificação que se tem promovido, propositadamente, para a conservação dos grupos dominantes no poder. Como o progresso do individualismo gera sempre o risco da transgressão ética, imperativa se faz a necessidade de uma tutela sobre o trabalho, através de normas éticas. É sabido que uma disciplina de conduta protege todos, evitando o caos que pode imperar quando se outorga ao indivíduo o direito de tudo fazer, ainda que prejudicando terceiros. É preciso que cada um ceda alguma coisa para receber muitas outras e esse é um princípio que sustenta e justifica a prática virtuosa perante a comunidade. O homem não deve construir seu bem a custa de destruir o de outros, nem admitir que só exista a sua vida em todo o universo. Em geral, o egoísta é um ser de curta visão, pragmático quase sempre, isoladão em sua perseguição de um bem que imagina ser só seu. CLASSES PROFISSIONAIS Uma classe profissional caracteriza-se pela homogeneidade do trabalho executado, pela natureza do conhecimento exigido preferencialmente para tal execução e pela identidade de habilitação para o exercício da mesma. A classe profissional é, pois, um grupo dentro da sociedade, específico, definido por sua especialidade de desempenho de tarefa. A questão, pois, dos grupamentos específicos, sem dúvida, decorre de uma especialização, motivada por seleção natural ou habilidade própria, e hoje constitui-se em inequívoca força dentro das sociedades. A formação das classes profissionais decorreu de forma natural, há milênios, e se dividiram cada vez mais. Historicamente, atribui-se à Idade Média a organização das classes trabalhadoras, notadamente as de artesãos, que se reuniram em corporações. A divisão do trabalho é antiga, ligada que está à vocação e cada um para determinadas tarefas e às circunstâncias que obrigam, às vezes, a assumir esse ou aquele trabalho; ficou prático para o homem, em comunidade, transferir tarefas e executar a sua. A união dos que realizam o mesmo trabalho foi uma evolução natural e hoje se acha não só regulada por lei, mas consolidada em instituições fortíssimas de classe. VIRTUDES PROFISSIONAIS Não obstante os deveres de um profissional, os quais são obrigatórios, devem ser levadas em conta as 12 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro qualidades pessoais que também concorrem para o enriquecimento de sua atuação profissional, algumas delas facilitando o exercício da profissão. Muitas destas qualidades poderão ser adquiridas com esforço e boa vontade, aumentando neste caso o mérito do profissional que, no decorrer de sua atividade profissional, consegue incorporá-las à sua personalidade, procurando vivenciá-las ao lado dos deveres profissionais. Em recente artigo publicado na revista EXAME o consultor dinamarquês Clauss MOLLER (1996, p.103-104) faz uma associação entre as virtudes lealdade, responsabilidadee iniciativa como fundamentais para a formação de recursos humanos. Segundo Clauss Moller o futuro de uma carreira depende dessas virtudes. Vejamos: O senso de responsabilidade é o elemento fundamental da empregabilidade. Sem responsabilidade a pessoa não pode demonstrar lealdade, nem espírito de iniciativa [...]. Uma pessoa que se sinta responsável pelos resultados da equipe terá maior probabilidade de agir de maneira mais favorável aos interesses da equipe e de seus clientes, dentro e fora da organização [...]. A consciência de que se possui uma influência real constitui uma experiência pessoal muito importante. É algo que fortalece a auto-estima de cada pessoa. Só pessoas que tenham auto-estima e um sentimento de poder próprio são capazes de assumir responsabilidade. Elas sentem um sentido na vida, alcançando metas sobre as quais concordam previamente e pelas quais assumiram responsabilidade real, de maneira consciente. As pessoas que optam por não assumir responsabilidades podem ter dificuldades em encontrar significado em suas vidas. Seu comportamento é regido pelas recompensas e sanções de outras pessoas - chefes e pares [...]. Pessoas desse tipo jamais serão boas integrantes de equipes. Prossegue citando a virtude da lealdade: A lealdade é o segundo dos três principais elementos que compõe a empregabilidade. Um funcionário leal se alegra quando a organização ou seu departamento é bem sucedido, defende a organização, tomando medidas concretas quando ela é ameaçada, tem orgulho de fazer parte da organização, fala positivamente sobre ela e a defende contra críticas. Lealdade não quer dizer necessariamente fazer o que a pessoa ou organização à qual você quer ser fiel quer que você faça. Lealdade não é sinônimo de obediência cega. Lealdade significa fazer críticas construtivas, mas as manter dentro do âmbito da organização. Significa agir com a convicção de que seu comportamento vai promover os legítimos interesses da organização. Assim, ser leal às vezes pode significar a recusa em fazer algo que você acha que poderá prejudicar a organização, a equipe de funcionários. No Reino Unido, por exemplo, essa idéia é expressa pelo termo "Oposição Leal a Sua Majestade". Em outras palavras, é perfeitamente possível ser leal a Sua Majestade - e, mesmo assim, fazer parte da oposição. Do mesmo modo, é possível ser leal a uma organização ou a uma equipe mesmo que você discorde dos métodos usados para se alcançar determinados objetivos. Na verdade, seria desleal deixar de expressar o sentimento de que algo está errado, se é isso que você sente. As virtudes da responsabilidade e da lealdade são completadas por uma terceira, a iniciativa, capaz de colocá-las em movimento. Tomar a iniciativa de fazer algo no interesse da organização significa ao mesmo tempo, demonstrar lealdade pela organização. Em um contexto de empregabilidade, tomar iniciativas não quer dizer apenas iniciar um projeto no interesse da organização ou da equipe, mas também assumir responsabilidade por sua complementação e implementação. Gostaríamos ainda, de acrescentar outras qualidades que consideramos importantes no exercício de uma profissão. São elas: HONESTIDADE: A honestidade está relacionada com a confiança que nos é depositada, com a responsabilidade perante 13 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro o bem de terceiros e a manutenção de seus direitos. É muito fácil encontrar a falta de honestidade quanto existe a fascinação pelos lucros, privilégios e benefícios fáceis, pelo enriquecimento ilícito em cargos que outorgam autoridade e que têm a confiança coletiva de uma coletividade. Já ARISTÓTELES (1992, p.75) em sua "Ética a Nicômanos" analisava a questão da honestidade. Outras pessoas se excedem no sentido de obter qualquer coisa e de qualquer fonte - por exemplo os que fazem negócios sórdidos, os proxenetas e demais pessoas desse tipo, bem como os usurários, que emprestam pequenas importâncias a juros altos. Todas as pessoas deste tipo obtêm mais do que merecem e de fontes erradas. O que há de comum entre elas é obviamente uma ganância sórdida, e todas carregam um aviltante por causa do ganho - de um pequeno ganho, aliás. Com efeito, aquelas pessoas que ganham muito em fontes erradas, e cujos ganhos não são justos - por exemplo, os tiranos quando saqueiam cidades e roubam templos, não são chamados de avarentos, mas de maus, ímpios e injustos. São inúmeros os exemplos de falta de honestidade no exercício de uma profissão. Um psicanalista, abusando de sua profissão ao induzir um paciente a cometer adultério, está sendo desonesto. Um contabilista que, para conseguir aumentos de honorários, retém os livros de um comerciante, está sendo desonesto. A honestidade é a primeira virtude no campo profissional. É um princípio que não admite relatividade, tolerância ou interpretações circunstanciais. SIGILO: O respeito aos segredos das pessoas, dos negócios, das empresas, deve ser desenvolvido na formação de futuros profissionais, pois trata-se de algo muito importante. Uma informação sigilosa é algo que nos é confiado e cuja preservação de silêncio é obrigatória. Revelar detalhes ou mesmo frívolas ocorrências dos locais de trabalho, em geral, nada interessa a terceiros e ainda existe o agravante de que planos e projetos de uma empresa ainda não colocados em prática possam ser copiados e colocados no mercado pela concorrência antes que a empresa que os concebeu tenha tido oportunidade de lançá-los. Documentos, registros contábeis, planos de marketing, pesquisas científicas, hábitos pessoais, dentre outros, devem ser mantidos em sigilo e sua revelação pode representar sérios problemas para a empresa ou para os clientes do profissional. COMPETÊNCIA: Competência, sob o ponto de vista funcional, é o exercício do conhecimento de forma adequada e persistente a um trabalho ou profissão. Devemos buscá-la sempre. "A função de um citarista é tocar cítara, e a de um bom citarista é tocá-la bem." (ARISTÓTELES, p.24). É de extrema importância a busca da competência profissional em qualquer área de atuação. Recursos humanos devem ser incentivados a buscar sua competência e maestria através do aprimoramento contínuo de suas habilidades e conhecimentos. O conhecimento da ciência, da tecnologia, das técnicas e práticas porfissionais é pré-requisito para a prestação de serviços de boa qualidade. Nem sempre é possível acumular todo conhecimento exigido por determinada tarefa, mas é necessário que se tenha a postura ética de recusar serviços quando não se tem a devida capacitação para executá-lo. Pacientes que morrem ou ficam aleijados por incompetência médica, causas que são perdidas pela incompetência de advogados, prédios que desabam por erros de cálculo em engenharia, são apenas alguns exemplos de quanto se deve investir na busca da competência. PRUDÊNCIA: Todo trabalho, para ser executado, exige muita segurança. A prudência, fazendo com que o profissional 14 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro analise situações complexas e difíceis com mais facilidade e de forma mais profunda e minuciosa, contribui para a maior segurança, principalmente das decisões a serem tomadas. a prudência é indispensável nos casos de decisões sérias e graves, pois evita os julgamentos apressados e as lutas ou discussões inúteis. CORAGEM: Todo profissional precisa ter coragem, pois "o homem que evita e teme a tudo, não enfrenta coisa alguma, torna-se um covarde" (ARISTÓTELES, p.37). A coragem nos ajuda a reagir às críticas, quando injustas, e a nos defender dignamente quando estamos cônscios de nosso dever. Nos ajuda a não ter medo de defender a verdade e a justiça, principalmente quando estas forem de real interesse para outrem ou para o bem comum. Temos que ter coragem para tomar decisões,indispensáveis e importantes, para a eficiência do trabalho, sem levar em conta possíveis atitudes ou atos de desagrado dos chefes ou colegas. PERSEVERANÇA: Qualidade difícil de ser encontrada, mas necessária, pois todo trabalho está sujeito a incompreensões, insucessos e fracassos que precisam ser superados, prosseguindo o profissional em seu trabalho, sem entregar- se a decepções ou mágoas. É louvável a perseverança dos profissionais que precisam enfrentar os problemas do subdesenvolvimento. COMPREENSÃO: Qualidade que ajuda muito um profissional, porque é bem aceito pelos que dele dependem, em termos de trabalho, facilitando a aproximação e o diálogo, tão importante no relacionamento profissional. É bom, porém, não confundir compreensão com fraqueza, para que o profissional não se deixe levar por opiniões ou atitudes, nem sempre, válidas para eficiência do seu trabalho, para que não se percam os verdadeiros objetivos a serem alcançados pela profissão. Vê-se que a compreensão precisa ser condicionada, muitas vezes, pela prudência. A compreensão que se traduz, principalmente em calor humano pode realizar muito em benefício de uma atividade profissional, dependendo de ser convenientemente dosada. HUMILDADE: O profissional precisa ter humildade suficiente para admitir que não é o dono da verdade e que o bom senso e a inteligência são propriedade de um grande número de pessoas. Representa a auto-análise que todo profissional deve praticar em função de sua atividade profissional, a fim de reconhecer melhor suas limitações, buscando a colaboração de outros profissionais mais capazes, se tiver esta necessidade, dispor-se a aprender coisas novas, numa busca constante de aperfeiçoamento. Humildade é qualidade que carece de melhor interpretação, dada a sua importância, pois muitos a confundem com subserviência, dependência? Quase sempre lhe é atribuído um sentido depreciativo. Como exemplo, ouve-se freqüentemente, a respeito determinadas pessoas, frases com estas: Fulano é muito humilde, coitado! Muito simples! Humildade está significando nestas frases pessoa carente que aceita qualquer coisa, dependente e até infeliz. Conceito errôneo que precisa ser superado, para que a Humildade adquira definitivamente a sua autenticidade. IMPARCIALIDADE: É uma qualidade tão importante que assume as características do dever, pois se destina a se contrapor aos preconceitos, a reagir contra os mitos (em nossa época dinheiro, técnica, sexo...), a defender os verdadeiros valores sociais e éticos, assumindo principalmente uma posição justa nas situações que terá que 15 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro enfrentar. Para ser justo é preciso ser imparcial, logo a justiça depende muito da imparcialidade. OTIMISMO: Em face das perspectivas das sociedades modernas, o profissional precisa e deve ser otimista, para acreditar na capacidade de realização da pessoa humana, no poder do desenvolvimento, enfrentando o futuro com energia e bom-humor. CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL Cabe sempre, quando se fala em virtudes profissionais, mencionarmos a existência dos códigos de ética profissional. As relações de valor que existem entre o ideal moral traçado e os diversos campos da conduta humana podem ser reunidos em um instrumento regulador. É uma espécie de contrato de classe e os órgãos de fiscalização do exercício da profissão passam a controlar a execução de tal peça magna. Tudo deriva, pois, de critérios de condutas de um indivíduo perante seu grupo e o todo social. Tem como base as virtudes que devem ser exigíveis e respeitadas no exercício da profissão, abrangendo o relacionamento com usuários, colegas de profissão, classe e sociedade. O interesse no cumprimento do aludido código passa, entretanto a ser de todos. O exercício de uma virtude obrigatória torna- se exigível de cada profissional, como se uma lei fosse, mas com proveito geral. Cria-se a necessidade de uma mentalidade ética e de uma educação pertinente que conduza à vontade de agir, de acordo com o estabelecido. Essa disciplina da atividade é antiga, já encontrada nas provas históricas mais remotas, e é uma tendência natural na vida das comunidades. É inequívoco que o ser tenha sua individualidade, sua forma de realizar seu trabalho, mas também o é que uma norma comportamental deva reger a prática profissional no que concerne a sua conduta, em relação a seus semelhantes. Toda comunidade possui elementos qualificados e alguns que transgridem a prática das virtudes; seria utópico admitir uniformidade de conduta. A disciplina, entretanto, através de um contrato de atitudes, de deveres, de estados de consciência, e que deve formar um código de ética, tem sido a solução, notadamente nas classes profissionais que são egressas de cursos universitários (contadores, médicos, advogados, etc.) Uma ordem deve existir para que se consiga eliminar conflitos e especialmente evitar que se macule o bom nome e o conceito social de uma categoria. IMAGEM PESSOAL E PROFISSIONAL A construção de uma boa imagem pessoal e profissional está inerentemente relacionada com dois conceitos básicos: a dualidade e a credibilidade. A dualidade significa que as pessoas têm ou não uma boa imagem. É construída num processo, não pode ser imposta, sendo obtida como resultado cumulativo de interações. É composta por comportamentos, hábitos, posturas, ética, conhecimentos, habilidades e competência. A credibilidade significa que uma boa imagem pessoal passa por transmitir confiança ao cliente, a qual se vai mantendo ao longo do tempo, e que vem da consistência dos resultados com a satisfação do cliente. Esta imagem pessoal e profissional é tanto mais importante, quanto maior for o contacto direto com clientes, por exemplo em atividades de atendimento ao público. A nossa imagem pessoal é construída normalmente em três momentos distintos: A Primeira Impressão que é formada nos três primeiros segundos; A Imagem Inicial que é formada nos primeiros contactos; 16 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro A Imagem propriamente dita, que é aquela imagem já formada que temos que manter e melhorar. Em seguida iremos abordar algumas considerações sobre cada uma delas. - A Primeira Impressão: Normalmente sabe-se que “ninguém tem uma segunda oportunidade de causar uma primeira boa impressão”. Estudos* atestam que são necessários somente 3 segundos, para a formação da Primeira Impressão e nesses escassos segundos, os principais factores que influenciam na formação da imagem são: - A Visão (conjunto da imagem) do primeiro impacto com 25%; - O Tom da Voz com 18%; - A Adequação das palavras utilizadas com 14%; - A Linguagem Corporal com 10%. (*Management Institute of Tecnology – EUA – Revista Venda Mais – Dez 2001) O interlocutor é influenciado principalmente pela aparência e pelo vestuário. Assim, no que diz respeito à aparência, o que mais chama a atenção além dos tradicionais traços de higiene pessoal, é a expressão facial. Espera-se desta expressão nos três segundos iniciais que seja de um sorriso que demonstre sinceridade. No conjunto que compõe a expressão facial, devemos ter uma atenção especial no género feminino com os cabelos, que devem estar bem cuidados e penteados e no género masculino, para além destes, com a face, que deve estar limpa e barbeada. Relativamente ao vestuário, o ideal é que corresponda às expectativas do interlocutor dentro dos seus conceitos de apresentação pessoal adequados ao contexto. Um profissional deve sempre optar por peças de vestuário que não constituam um elemento de distração e não perturbem a comunicação com os interlocutores. Para facilitar na definição do vestuário ideal a usar na sua atividade profissional, sempre que possível, é importante analisar antecipadamenteas características dos seus interlocutores, o ambiente e objetivos da sua empresa e os costumes locais. Caso não seja possível, o mais adequado é usar a discrição e o “bom senso”. Se na sua empresa tiver de usar farda ou uniforme, estes deverão estar sempre impecáveis. Ainda sobre a aparência, sem entrar na linguagem corporal que será tratada mais à frente, iremos falar sobre a postura. Assim, nos primeiros três segundos do primeiro impacto, é importante ter em atenção a colocação da cabeça e tronco, que devem estar eretos. Não se deve manter a curvatura dos ombros que denota cansaço ou mesmo desânimo. Por outro lado, se estiver na posição de sentado, esta deve manter-se correta no assento, pois caso contrário, a primeira impressão que causar será negativa. No que diz respeito ao tom de voz, deverá utilizar um tom e velocidade da fala igual à do seu interlocutor garantindo assim a necessária sintonia. As palavras utilizadas devem ser adequadas, o que significa principalmente a atenção no uso de palavras condizentes e pertinentes ao momento, sem erros de pronúncia, vícios de linguagem, gírias, expressões que denotem intimidade, frases feitas sem originalidade, frases em tom de anedota, ou mesmo citar um volume enorme de informações para a qual o momento não é o adequado. O momento pode ser sóbrio ou descontraído e a pessoa deve-se adequar a ele, demonstrando já neste início de contacto, que a peça chave desse relacionamento profissional é a pessoa do “cliente” e não a sua. Relativamente à linguagem corporal incidimos especial atenção sobre o cumprimento social e o contacto visual. O cumprimento na nossa cultura materializa-se com um “aperto de mão”, ato que deve obedecer a algumas regras simples como: 17 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro - A mão deve ser fechada de forma firme e sem apertar; - O braço não deve balançar mais do que três vezes e de forma natural, porém segura. Como todo o contacto físico, o aperto de mão é revestido de interpretações e consequentemente obriga-nos a alguns cuidados especiais, nomeadamente quanto à não invasão do também denominado espaço pessoal, mantendo uma distância socialmente aceite do nosso interlocutor (é normalmente tolerada a distância de dois antebraços).No contacto visual, importantíssimo na formação da “primeira impressão”, se queremos de fato iniciar um processo de conquista da credibilidade do cliente, o olhar deve ser direto nos olhos do nosso interlocutor e ao mesmo tempo deve demonstrar segurança e seriedade, mas tendo cuidado para não parecer demasiado intrusivo. Assim, os olhos são a “janela da alma”, e o nosso olhar deve transmitir exatamente a nossa saudação sincera. - A Imagem Inicial: A Imagem Inicial é formada no decorrer dos primeiros contactos. Partindo da premissa que causamos uma primeira impressão positiva, em seguida, no decorrer da primeira entrevista a nossa principal preocupação é deixar no final uma Imagem inicial positiva sem prejuízo, no entanto, do nosso relacionamento profissional. Queremos que seja criada uma boa imagem pessoal e profissional, sem esquecer o nosso objetivo específico para aquela visita. Lembrando o que foi dito no início quanto à formação da imagem, aqui estão em jogo os nossos comportamentos, hábitos, postura, ética, conhecimentos, habilidades e competência e o que temos é que utilizá-los corretamente para conquistar a pretendida credibilidade e confiança junto do cliente. Existem, no entanto alguns conselhos que podem ser úteis na promoção desta imagem inicial positiva, a saber: Comportamentos: para além das regras de etiqueta social obrigatórias, existem algumas sugestões práticas que consideramos mais importantes neste momento. Demonstre claramente desde o início o objectivo da sua visita. Demonstre orgulho no que faz e/ou vende. Mostre respeito pelo seu tempo e do cliente. Seja educado, porém fique preparado para a marcação de outra visita ou uma reclamação se não conseguir a “atenção selectiva” necessária. Hábitos: a maioria dos bons hábitos profissionais está relacionada com a educação que recebemos e portanto, tal como nas regras de etiqueta, vamos apenas lembrar de algumas situações consideradas críticas para a imagem profissional. 1. O cumprimento do horário de trabalho, ou seja, a assiduidade e pontualidade são fundamentais para a formação de uma boa imagem profissional. 2. Outro hábito fundamental é o da comunicação personalizada, ou seja, usar desde a apresentação, o nome do seu interlocutor sempre que possível. 3. Não interromper a pessoa que está a falar, por nenhum motivo. Postura: deve ser amistosa, agradável, natural e cativante, apesar de comedida. Ética: Tendo sempre como referência as normas éticas da sua atividade profissional, em face a um cliente/ outro interlocutor, deve ter também em atenção aos seguintes conselhos: 18 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro 1. Não falar mal da sua concorrência, pois será mais vantajoso salientar as vantagens da sua empresa e se possível fazer com que o cliente descreva os pontos negativos das outras; 2. Não falar mal da concorrência do cliente, pois ainda não sabe de onde ele veio e nem vai saber para onde vai no futuro, cative um aliado, esteja ele onde estiver; 3. Ser ético respeitando as regras vigentes na empresa onde trabalha e incluindo e principalmente nas informações consideradas confidenciais. Conhecimentos: principalmente se for um primeiro contacto, e no caso de ter como objetivo conhecer o máximo possível do seu cliente, seja comedido em demonstrar excesso de conhecimentos, forneça informações na medida do necessário e do interesse do seu cliente, mas não queira “aparecer” como o “sabe- tudo”, pois tal atitude pode interferir negativamente na sua imagem e bloquear a concretização. Habilidades: é importante salientar não todas as suas habilidades, mas especificamente aquela pela qual você normalmente se sobressai, que todos comentam ser uma virtude nos primeiros contactos, o que em si cativa a pessoas. Essa habilidade é denominada de “fator único”. Descubra o seu fator único e faça uso dele principalmente nesse momento. Competências: são um conjunto de conhecimentos, aptidões e atitudes que harmonicamente desenvolvidas, produzem um resultado final esperado e desejado. Finalmente e como objetivo essencial da construção da Imagem Inicial, mais do que “ser” é preciso “parecer” competente. Assim, antes do estabelecimento do contacto deve estudar a mensagem que quer transmitir, treinar e visualizar mentalmente os resultados pretendidos. A manutenção da imagem: Uma vez que a imagem já esteja formada, devemos colocar periodicamente a nós próprios as seguintes questões: Será que eu sei realmente como o meu cliente me vê? Estou realmente a cumprir com todas as minhas promessas? Tenho feito efetivamente o suficiente pelos meus clientes? Se respondermos sim a todas as questões acima referidas, não temos muito que nos preocupar com a nossa imagem, ela está a ser mantida, no entanto... Lembre-se que as indicações e referências relativas à sua empresa são influenciadas principalmente pela sua imagem. De reter também que a imagem ideal do profissional é que uma imagem de confiança perante o cliente. Finalizando, lembramos que a Imagem Pessoal faz parte do seu Marketing Pessoal e que o mesmo se faz com clareza de objetivos, integridade, posicionamento, comprometimento, relacionamentos, conhecimento, imagem, auto-estima e motivação. A melhoria da imagem pessoal deve ser contínua, pelo que se vai construindo com progressivas e pequenas conquistas e não apenas com uma grande conquista. ÉTICA, CIDADANIA E OS DEVERES DO TRABALHADOR Se nos sentirmos desmotivados e com a auto-estima em baixa, porque não somos valorizados e nossos direitos não são respeitados, devemos utilizaros meios e aproveitar as oportunidades para reverter tal situação, reivindicando, defendendo juridicamente nossos direitos, aprimorando-nos ou procurando outras 19 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro organizações que nos ofereçam melhores condições de trabalho. Até mesmo, se houver oportunidade, abrir o nosso próprio negócio. Entretanto, o trabalhador cidadão também tem deveres. O que não podemos é agir de forma descuidada em nossa vida profissional, pois somos responsáveis pelas conseqüências de nossos descuidos, tanto sobre nós mesmos como sobre os outros. Por isso, como trabalhadores, devemos estar sempre nos questionando e nos avaliando sob determinados aspectos, de modo que nos comportemos sempre de acordo com os nossos deveres, orientados pelos princípios da ética profissional e conforme os valores da cidadania organizacional. Assim, quando nos auto-avaliamos, é preciso nos perguntar: 1. Como lidamos com os instrumentos e com os recursos físicos que usamos em nosso trabalho, seja produzindo algo concreto ou prestando serviços? Somos cuidadosos, parcimoniosos, sensatos e prudentes ao usá-los? Compreendemos a importância de evitar desperdício, estrago e destruição desses materiais? Temos consciência de que os recursos naturais podem se esgotar e de que economizar nos custos permite a diminuição dos preços e o aumento dos salários? Sabemos que a qualidade do nosso trabalho depende também do bom estado e do funcionamento dos instrumentos que utilizamos e da qualidade da matéria- -prima com que operamos? Passamos, por isso, a ficar atentos aos materiais de que esses instrumentos são feitos e a seu funcionamento, para empregá-los de forma adequada? 2. Qual a atenção que damos à qualidade do que oferecemos aos consumidores, clientes ou usuários? Sabemos que devemos tratá-los da mesma forma que gostaríamos de ser tratados? Sabemos que devemos ficar atentos às condições de higiene e de segurança necessárias tanto para a preparação de um produto quanto para a prestação de um serviço? Seguimos as normas de qualidade na produção? Considerando o tipo de produto que oferecemos, nós caprichamos na sua durabilidade, conforto, clareza, estética, aroma, som e sabor? Reparamos as falhas que encontramos ou informamos àqueles que devem fazê-lo, para que o produto ou serviço corresponda ao seu protótipo? Sugerimos ou indicamos maneiras para melhorar a qualidade do que produzimos? Observamos se o trabalho realizado por outros, e do qual dependemos para fazer o nosso com qualidade, está sendo desenvolvido com o mesmo cuidado? 3. Como nos comportamos, considerando a importância de nosso trabalho e sua repercussão tanto no ambiente em que ele se desenvolve quanto na vida em sociedade? Estamos conscientes de que tudo de que dispomos é resultado de trabalho coletivo e, portanto, dos esforços de muitas outras pessoas que aplicaram suas energias, competências, vontade e tempo para oferecer algo à comunidade? Temos consciência de que somos um elo nessa cadeia de energias e intenções que permite a sociabilidade e garante a sobrevivência e continuidade de nossa espécie? Ao nos darmos conta disso, atuamos de forma responsável? Sabemos que, quando falhamos, podemos causar danos físicos ou morais, prejuízos materiais, desconforto, descontentamento, comprometimento de patrimônio e da imagem de pessoas, categorias profissionais, marcas e organizações? Respeitamos o ambiente, conservando a natureza e evitando a poluição? Exigimos o mesmo comportamento de todos? Reconhecemos a importância de aprender mais e nos atualizar para melhorar nossa prática profissional e a dos que nos cercam? 4. Qual a nossa disposição para trabalhar em equipe de forma cooperativa, oferecendo e recebendo ajuda, dividindo responsabilidades, respeitando direitos e compartilhando poder e sucesso? 20 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro Reconhecemos o valor da contribuição de cada um em nosso grupo? Expressamos esse reconhecimento elogiando esforços e talentos dos demais, orientando-os e indicando caminhos que os façam melhorar? Solicitamos sua opinião e colaboração quando precisamos de ajuda? Divulgamos informações e conhecimentos que possam ajudá-los? Estimulamos seu desenvolvimento, sua autonomia e seu protagonismo? Ficamos atentos às condições de segurança e salubridade do ambiente que partilhamos com os outros e também às maneiras de preservar nossa saúde e a dos demais? Ao tomarmos esses cuidados, exigimos que os outros também o façam, para que toda a comunidade seja respeitada?. A CONCEPÇÃO DAS COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS O atual modelo de ocupação marcado por forte segmentação do mercado de trabalho ─ descontínuo, precário, desqualificado ─ carece de mecanismos de controle e regulamentação das experiências ocupacionais, de forma a favorecer a profissionalização. A elaboração de itinerários nos quais se consolidem competências, patrimônio individual, de grupos, de continuidade profissional, sejam elas homogêneas e/ou heterogêneas pela especialização disciplinar, deve ser tornada objetivamente possível. Gallart e Jacinto (1997) observam que atualmente, em todos os debates sobre formação para o trabalho, o termo competência aparece como uma resposta para os problemas concernentes às mudanças tecnológicas e a globalização econômica. No interior das organizações de trabalho, a especialização flexível; o surgimento de setor informal com suas variedades de ocupações, em alguns casos qualificados e semiqualificados, com baixo enquadramento organizacional; a flexibilidade laboral que promove o desempenho alternativo de várias ocupações qualificadas e as mudanças freqüentes dos postos de trabalho; as tecnologias microeletrônicas que exigem maiores níveis de abstração e manejo de equipamentos mais elaborados ─ todos estes foram fatores que convergiram para que cada vez um maior número de ocupações, e de trajetórias ocupacionais, não se adaptassem às rigidezes do antigo sistema fordista. A tendência à flexibilização em um contexto marcado pelas transformações tecnológicas e organizacionais sob o efeito da reestruturação produtiva, em que polivalência e rotatividade nos postos de trabalho são habituais, as competências profissionais configuradas como um conjunto de saberes dos trabalhadores voltadas para resolver situações concretas de trabalho passam a ser focos de atenção no interior das empresas, alcançando diferentes formas de recrutamento, promoção, capacitação e remuneração. Para Gallart e Jacinto (1997), a elaboração de competências profissionais como forma de suporte aos processos de transição no trabalho, de oportunidades diversas de qualificação social e profissional, de percursos possíveis de ocupação, de crescimento contínuo do emprego, favorecerá a potencialização dos saberes. Para esses pesquisadores podem ser distintos dois grupos de competências necessárias para atender as exigências do mercado de trabalho: competências de empregabilidade, adquiridas de forma sistemática e gradual, resumem- se em habilidades básicas, tais como a capacidade de expressão oral e escrita, matemática aplicada (como capacidade de resolução de problemas), capacidade de pensar (abstrair as características cruciais dos problemas, decidir sobre eles e aprender com a experiência); e competências relacionadas ao uso dos recursos materiais, humanos e financeiros para alcançar objetivos; as competências interpessoais (trabalhar em grupo, ensinar e aprender, liderar, negociar, atender clientes, manejar a diversidade cultural); competências de comunicação (identificar, adquirir e avaliar informações); competências sistêmicas (aproximar a realidade em sua complexidade de relações); competências tecnológicas (conhecimentos e utilização de tecnologias usuais). Gallart e Jacinto (1997) fazem notar quea capacitação específica, os saberes profissionais de referência, os conhecimentos e as representações próprias de cada campo de atividade se edificam sobre a base de competências adquiridas na escola formal e na experiência da vida ativa a partir do trabalho 21 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro profissional. A formação profissional deve focalizar as ocupações do mundo de trabalho, integrando as competências, como comportamentos efetivos, com as habilidades necessárias para o desempenho das tarefas, o uso dos equipamentos e da tecnologia, e a aprendizagem organizacional das empresas e dos mercados. O modelo de competência é um construto dinâmico, onde se encontram em jogo as competências- chaves de uma organização (definidas nos modelos condutistas desenvolvido ao nível das empresas), as competências pessoais e coletivas e o impacto destas na avaliação organizacional. Tal como é usada em relação ao mundo de trabalho, a noção de competência está entre os saberes e as habilidades concretas, sendo inseparável da ação, porém exigindo cada vez mais a aplicação de conhecimentos em circunstâncias críticas (Gallart e Jacinto, 1997; Zarifian, 1999). Na percepção de Zarifian (1999), é competente quem sabe fazer, tomar iniciativa e assumir responsabilidades, com êxito, tanto no plano individual como de grupo, ante uma situação profissional. Para o autor, assumir a responsabilidade de uma situação profissional é enfrentar todas as obrigações e acontecimentos que possam surgir em determinada circunstância e adotar todas as iniciativas necessárias. É competente, também, quem sabe apelar, quando se vê superado pela complexidade da situação, quando há colegas de trabalho mais experientes e que podem ajudá-lo a dominá-la, e que, portanto, sabe ativar uma rede de cooperação. A tomada de iniciativa e de responsabilidade somente pode vir do indivíduo: é ele quem controla suas competências para enfrentar a situação. Segundo Zarifian (1996/1999/2001/2003), a competência é a colocação de recursos em ação em uma circunstância prática. Não somente aqueles recursos que se possuí ou adquire, mas aqueles que se sabe como pôr em ação. É uma inteligência prática das situações que, se apoiando em conhecimentos, transforma-os à medida que a diversidade das situações aumenta. A competência é a iniciativa sob a condição de autonomia, que supõe a mobilização de dois tipos de recursos: os internos pessoais (adquiridos, solicitados e desenvolvidos pelos indivíduos em dada situação) e os coletivos (trazidos e postos à disposição pelas organizações). É a faculdade de mobilizar redes de atores em volta das mesmas situações, de compartilhar desafios, de assumir áreas de responsabilidade. Este conhecimento necessário para a resolução de problemas é uma mescla de conhecimentos tecnológicos e de experiências concretas, provenientes fundamentalmente do mundo de trabalho. Para Gallart e Jacinto (1997), a definição das competências e da sua conseqüente aprendizagem exige a colaboração entre os sistemas educacionais e o mundo do trabalho, o que implica a combinação da educação formal, aprendizagem no trabalho e, eventualmente, educação não formal. Por sua vez, Zarifian (1999) salienta que cabe ao sistema educativo o papel de constituir conhecimentos e validá-los por meio de diplomas e desenvolver capacidades próprias do indivíduo; cabe à empresa a incumbência de empregar estes conhecimentos, combinado-os com as experiências profissionais e de formação permanente, a fim de desenvolver as competências e validá-las. Portanto, os conhecimentos se constituem e são validados pelos sistemas educativos por meio dos diplomas. As competências são desenvolvidas, utilizadas e validadas pelas empresas de acordo com o tipo de certificado Tal como Gallart e Jacinto, Zarifian (2001) considera que toda atividade em situação de trabalho mobiliza uma orientação intelectual, assim como toda atividade escolar depende de um exercício prático no sentido de que implica a transformação, por meio de ações, de um conhecimento ou de uma situação prática. Verifica-se, entretanto, que a ênfase na educação geral e nas competências mais amplas que permitem um bom desempenho no mercado de trabalho e na aprendizagem de ocupações diferentes, pode ofuscar a necessidade permanente de aprendizagens teórico-práticas no interior dos grupos ocupacionais qualificados. Portanto, o exercício em situações de trabalho é fundamental para a concretização da aprendizagem, na medida em que os saberes específicos não sejam uma acumulação 22 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro de aprendizagens descontextualizadas, e sim que possam ser atualizados na vida diária e em situações profissionais. De acordo com Zarifian (2001), podem ser diferenciadas competências profissionais (mobilizadas na prática profissional em dada situação), competências organizacionais (desenvolvidas na organização), competências sobre a organização (organização de fluxos de trabalho), sobre processos (desenvolvidas nos processos de trabalho), técnicas (conhecimentos de técnicas e formas de trabalho), de serviço (aliadas ao impacto sobre o cliente) e competências sociais (ligadas ao comportamento e atitudes das pessoas). Para Zarifian, contudo, a parte mais estável e duradoura das competências é constituída pela associação entre os saberes gerais e profissionais (referências de um dado universo profissional) e as competências de fundo (adquiridas em situação educativa e formalizadas em conquistas cognitivas e comportamentais necessárias para enfrentar as categorias de situações-problema). A CONCEPÇÃO DAS COMPETÊNCIAS INDIVIDUAIS Para Deluiz (1995), as competências humanas contextualizadas, historicamente definidas, e individual e coletivamente constituídas, desenvolvem a transposição das relações de trabalho, de modo a estabelecer, no currículo, o diálogo dos conhecimentos já formalizados nas disciplinas e nas experiências e saberes gerados nas atividades de trabalho: Conhecimentos, valores, histórias e saberes da experiência. No âmbito das ciências sociais, Le Boterf (1994) assinala que a competência do indivíduo não se reduz a um conhecimento ou know-how específico e sim à soma dos resultados das experiências pessoais e sociais, da formação educacional e da experiência profissional. Competência é o conjunto de aprendizagens sociais e comunicacionais, nutridas pela aprendizagem e pela formação e analisadas por um sistema de avaliações. Segundo Le Boterf, competência é um saber-agir responsável e como tal, implica saber mobilizar, integrar recursos e transferir os conhecimentos, recursos e habilidades, num contexto profissional determinado. Refere-se, portanto, à competência de colocar conhecimentos em prática, na ação. Todos os dias, a experiência mostra que pessoas que possuem conhecimentos ou capacidades não sabem mobilizá-los de modo pertinente e no momento oportuno, em uma situação de trabalho. A atualização daquilo que se sabe em um contexto singular (marcado por relações de trabalho, por uma cultura institucional, por eventualidades, imposições temporais, recursos…) é reveladora da “ passagem” à competência. Esta realiza-se na ação (Le Boterf, 1994, p. 16). Observa-se que Le Boterf (1994) trabalha com o conceito da competência individual, buscando a sua operacionalização, avaliação e desenvolvimento no contexto organizacional, considerando-a como conhecimentos e habilidades na ação, no contexto organizacional e, nesse sentido, desenvolvido dentro de cada organização. As competências individuais serão diferentes conforme a pessoa atua em uma ou noutra organização. Neste sentido, as competências não são consideradas prévias ao exercício profissional, pelo contrário, são emergentes aos processos de mobilização e confronto de saberes, em contexto profissional.As definições de competência individual atrelada à ação, ou seja, resultando de conhecimentos, habilidades, atitudes e outras características, que emergem diante de um contexto dado e que será o critério de avaliação, mensuração e remuneração, não pressupõem a existência de um critério de avaliação. Além disso, nenhum trabalho conseguiu efetivamente descrever como seriam operacionalizadas as funções de recrutamento, seleção, treinamento, desenvolvimento e remuneração com base em competências individuais, sem a referência ao cargo ou a um critério-padrão. A partir da apresentação de uma proposta de problematização e operacionalização do conceito, Le Boterf se propôs a fazer uma nova classificação de 23 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro competências, por considerar a noção e classificação existente demasiadamente genérica. Para tanto, denominou “recursos de competências” os conhecimentos, as capacidades e as aptidões mobilizados na aplicação das competências, classificando-os como: . Conhecimentos ─ gerais e teóricos, operacionais e acerca do ambiente. . Habilidades ─ operacional, “experiencial”, relacional cognitivo. . Atitudes ─ atributos pessoais e relacionais. . Recursos Fisiológicos ─ energia e disposição. . Recursos do Ambiente ─ sistemas de informação e banco de dados. Para o autor, quanto mais agregada for a definição dos recursos de competência, estes serão mais abstratos e complexos; portanto, menos controláveis se tornam às iniciativas e procedimentos para desenvolvê-los. Neste sentido, é mais criativo descrever e organizar a diversidade das competências do que estabelecer uma distinção entre habilidades e competências. Concreta ou abstrata, comum ou especializada, de acesso fácil ou difícil, uma competência permite afrontar, regular e adequadamente, tarefas e situações, apelando para noções, conhecimentos, informações, procedimentos, métodos, técnicas ou ainda para outras competências, mais específicas. Para Fleury e Fleury (2001), as competências individuais em uma perspectiva sistêmica compreendem as competências de negócio (relacionadas à compreensão do negócio); competências técnico-profissionais (especificamente ligadas a operações, ocupações ou atividades); e as sociais (necessárias para interagir com as pessoas). As autoras defendem a concepção de que: A competência individual encontra seus limites, mas não sua negação, no nível dos saberes alcançados pela sociedade, ou pela profissão do individuo numa época determinada. As competências são sempre contextualizadas. Os conhecimentos e o know how não adquirem status de competência a não ser que sejam comunicados e trocados. A rede de conhecimento em que se insere o indivíduo é fundamental para que a comunicação seja eficiente e gere a compet6encia (Fleury e Fleury, 2001, p.190). Fleury e Fleury (2001) propõem ainda uma definição de competência individual. “Como um saber agir responsável e reconhecido, implica em mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos, habilidades, que agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo”. 1.1.3 Complexidade e incertezas na ética e na moral. Hoje em dia, há muitas dúvidas com relação aos fundamentos da ética e da moral que levam a questionar antigas certezas e a introduzir nesse campo do agir humano uma visão que Edgar Morin caracteriza como “complexa” (MORIN, 2005, p. 41-53) e Zygmunt Bauman como “ambivalente” (BAUMAN, 2005, p. 24-40). Por isso, nem tudo está correto no agir humano. Morin sugere uma correção quando se afirma que os princípios éticos decorrem da “natureza humana”, supondo tratar-se de um princípio unidimensional. Assim, ele constata uma “complexidade” na “natureza” do indivíduo e da sociedade, pois, nas duas esferas, convivem e entram em conflito duas tendências: a da inclusão, que acolhe o outro e o diferente e realiza o altruísmo, e a da exclusão, que os rejeita e descamba no egocentrismo. A razão como fonte absoluta de certezas científicas e morais é hoje questionada, pois a própria ciência admite seus limites e, constata Morin, o ser humano não é apenas sapiens – sábio ou racional –, mas envolve também um conjunto de potencialidades e atividades que estão além da racionalidade, tais como os instintos, as pulsões, os desejos, as paixões, a imaginação, o poético e outras. Quando se passa da intenção, da consciência do “agir pelo bem” para a ação, a “essência” da moral encontra sérias dificuldades. Morin alerta para a necessidade de contextualizar a ação moral, pois, no ato, a intenção corre o risco de fracassar, e a moral que ignora os efeitos e consequências dos seus atos torna-se insuficiente, fragiliza-se e se surpreende ao 24 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro perceber que a ação nem sempre pode realizar a intenção, o que vale dizer que a ética está cercada de incertezas. No próprio coração da ética já se instala uma incerteza primordial que diz respeito à noção do bem e do mal. Não há aí uma única forma de ver as coisas, nem definições exatas, nem um código binário excludente a separar o bem do mal, o justo do injusto, como na ética tradicional. Embora haja um princípio ético universal com força de lei, que obriga todo ser humano, sem exceção, a não fazer ao outro o que não deseja seja feito a si mesmo, o bem e o mal nem sempre são evidentes e às vezes são falsamente evidentes. Decorrem daí as incertezas e contradições internas, que constituem a complexidade intrínseca à ética, pela qual o bem pode conter o mal, o justo abrigar o injusto, e vice-versa. Toda ação escapa à vontade do seu autor na medida em que entra no jogo das circunstâncias que o influenciam. O jogo das circunstâncias é o que Morin denomina de “ecologia da ação”, que pode levar o agente ao fracasso, ao desvio ou distorção das suas intenções, ou até voltando-se contra ele, como num efeito bumerangue. Não é certo afirmar que a pureza dos meios sempre vá alcançar resultados puros ou que a impureza deles produza sempre efeitos nocivos. Muitas ações consideradas salutares podem ter efeitos colaterais perversos. Invenções criadas para fins bélicos, portanto mortíferos, muitas vezes trouxeram benefícios quando aplicados para o bem da humanidade. O contrário também ocorreu e vem ocorrendo quando pesquisas científicas, cujos resultados em si são benéficos, foram e continuam sendo desviados para a produção de engenhos de destruição e morte. Somos impotentes diante do futuro, já dizia Voltaire. Daí a imprevisibilidade de nossas ações, pois não temos o dom da onisciência (dom de quem sabe tudo). A MORAL EM CRISE E A REVALORIZAÇÃO DA ÉTICA Otaviano Pereira aborda em seu livro O que é moral as transformações que vêm ocorrendo em ritmo acelerado no planeta e na humanidade desde a década de 1950, e que estariam influenciando a moral contemporânea. Para ele, a crescente urbanização, metropolização, globalização, mundialização da cultura e do poder dos meios de comunicação e informação estão entre os fatores responsáveis pelas mudanças no campo moral, sobretudo em culturas de origem cristã e ocidental, como é a brasileira. Pereira enumera as instituições tradicionais consideradas por muito tempo como “guardiãs da moral” e que hoje estão em crise, sendo questionadas pelas novas gerações. Entre os valores defendidos por essas instituições, ele cita o casamento indissolúvel, a infalibilidade papal, o sentimento de “honra”, notadamente masculina, a virgindade, notadamente feminina, autoridade inquebrantável de pais e educadores. Se eu soubesse algo que me fosse útil e que fosse prejudicial à minha família, expulsá-lo-ia de meu espírito. Se eu soubesse algo útil à minha família que não o fosse à minha pátria, tentaria esquecê-lo. Se eu soubesse algo útil à minha pátria que fosse prejudicial à europa, ou que fosse útil à europa e prejudicialao gênero humano, considerá-lo-ia um crime, pois sou necessariamente homem, ao passo que sou francês por mera casualidade. (Montesquieu). É bom lembrar que toda concepção do que é ou não moral e toda teoria ética surge estimulada pelas teorias e éticas anteriores. A nova teoria surge em oposição à antiga ou em seu apoio, para atualizá-la ou para a sua releitura. Com o tempo, elas também vão dar lugar a outras. Quanto mais dinâmica é uma sociedade, mais mudanças nos costumes ela provoca. Nos tempos atuais, esse dinamismo chega a ser excessivo. Provavelmente seja por isso que hoje em dia se fale mais em ética do que em moral, pois, diante das mudanças, a frequência com que os valores precisam ser questionados é bem maior. É por esse motivo que a postura ética é mais valorizada. Ela supõe que o cidadão não esteja alienado do seu tempo. Ela subentende que ele seja capaz de analisar e avaliar historicamente antigas e novas possibilidades e fazer sua opção. A ética 25 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro reflete sobre os valores morais e questiona se o que a sociedade considera bom ou mau é realmente bom ou mau, se as normas e regras de conduta moral realmente fazem bem a todos e devem ser obedecidas ou se existem apenas porque convêm a alguns. Como a ética faz isso? levando-nos a raciocinar sobre por que julgamos alguns comportamentos e normas como válidos, a partir dos conhecimentos que temos da natureza humana e comparando diferentes interpretações e julgamentos sobre os mesmos atos ou posturas. Como se vê, enquanto a moral procura limitar nossa liberdade de ação, a ética visa à sua ampliação, pois nos estimula a fazer escolhas, tomando por base valores universais, racionais e mais duradouros, como o respeito à vida e ao bem estar humano. Nós, seres humanos, somos livres, o que significa que podemos escolher entre dizer sim ou não a uma ordem, costume ou lei, independentemente do que os outros pensam, do que querem que façamos, de prêmios ou de punições. É o que chamamos de livre-arbítrio. Por termos livre-arbítrio, há pessoas que escolhem ficar ricas ou famosas, mesmo que para isso procedam de forma contrária às regras morais; da mesma forma, há outras que arriscam a própria vida e deixam de aceitar ofertas e acordos que lhes tragam melhorias financeiras porque não abrem mão dos princípios éticos como orientadores de sua conduta. Infelizmente temos mais notícias sobre casos de corrupção, crime e outros tipos de violência do que de casos exemplares de comportamento ético. Entretanto, a nossa sociedade evoluiu bastante em relação à concepção de direitos humanos e de cidadania, e as pessoas estão mais abertas ou pelo menos mais tolerantes em relação a algumas das questões de gênero, étnicas e raciais que causaram tanto sofrimento a algumas pessoas. ***** Referenciais Bibliográficos Básicos: CORTINA, A.; MARTINEZ, E. Ética. São Paulo; Loyala, 2005. CORTINA, A. Ética Mínima. Introdução a La filosofia prática. 9 ed. Madrid: Tecnos, 2004. DALAI – LANA. Uma ética para o novo milênio. Rio de Janeiro: Sextante, 2006. FORTES, R. A. ;Ética e Saúde. São Paulo, EPU, 1998. SEGRE, M. a Questão da ética e a saúde humana. SãoPaulo: Atheneu, 2006. VASQUEZ, A. S.Ética.28ª Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 2006. 26 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro ANEXO PORTARIA N.º 3.275 de 21 de Setembro de 1989 Art. 1º - As atividades do Técnico de Segurança do Trabalho são as seguintes: PORTARIA 3275/1989 PORTARIA N.º 3.275 de 21 de Setembro de 1989 A MINISTRA DE ESTADO DO TRABALHO, no uso de suas atribuições, considerando o disposto no art. 6º do Decreto n.º 92.530, de 9 de abril de 1986, que competência ao Ministério do Trabalho para definir as atividades do Técnico de Segurança do Trabalho, resolve: Art. 1º - As atividades do Técnico de Segurança do Trabalho são as seguintes: I - informar o empregador, através de parecer técnico, sobre os riscos exigentes nos ambientes de trabalho, bem como orientá-los sobre as medidas de eliminação e neutralização; II - informar os trabalhadores sobre os riscos da sua atividade, bem como as medidas de eliminação e neutralização; III - analisar os métodos e os processos de trabalho e identificar os fatores de risco de acidentes do trabalho, doenças profissionais e do trabalho e a presença de agentes ambientais agressivos ao trabalhador, propondo sua eliminação ou seu controle; IV - executar os procedimentos de segurança e higiene do trabalho e avaliar os resultantes alcançados, adequando-os estratégias utilizadas de maneira a integrar o processo prevencionista em uma planificação, beneficiando o trabalhador; V - executar programas de prevenção de acidentes do trabalho, doenças profissionais e do trabalho nos ambientes de trabalho, com a participação dos trabalhadores, acompanhando e avaliando seus resultados, bem como sugerindo constante atualização dos mesmos estabelecendo procedimentos a serem seguidos; VI - promover debates, encontros, campanhas, seminários, palestras, reuniões, treinamentos e utilizar outros recursos de ordem didática e pedagógica com o objetivo de divulgar as normas de segurança e higiene do trabalho, assuntos técnicos, visando evitar acidentes do trabalho, doenças profissionais e do trabalho; VII - executar as normas de segurança referentes a projetos de construção, aplicação, reforma, arranjos físicos e de fluxos, com vistas à observância das medidas de segurança e higiene do trabalho, inclusive por terceiros; VIII- encaminhar aos setores e áreas competentes normas, regulamentos, documentação, dados estatísticos, resultados de análises e avaliações, materiais de apoio técnico, educacional e outros de divulgação para conhecimento e autodesenvolvimento do trabalhador; IX - indicar, solicitar e inspecionar equipamentos de proteção contra incêndio, recursos audiovisuais e didáticos e outros materiais considerados indispensáveis, de acordo com a legislação vigente, dentro das qualidades e especificações técnicas recomendadas, avaliando seu desempenho; X - cooperar com as atividades do meio ambiente, orientando quanto ao tratamento e destinação dos resíduos 27 Fundamentos da Formação Profissional www.ifcursos.com.br Profº Cléber Pinheiro industriais, incentivando e conscientizando o trabalhador da sua importância para a vida; XI - orientar as atividades desenvolvidas por empresas contratadas, quanto aos procedimentos de segurança e higiene do trabalho previstos na legislação ou constantes em contratos de prestação de serviço; XII - executar as atividades ligadas à segurança e higiene do trabalho utilizando métodos e técnicas científicas, observando dispositivos legais e institucionais que objetivem a eliminação, controle ou redução permanente dos riscos de acidentes do trabalho e a melhoria das condições do ambiente, para preservar a integridade física e mental dos trabalhadores; XIII - levantar e estudar os dados estatísticos de acidentes do trabalho, doenças profissionais e do trabalho, calcular a freqüência e a gravidade destes para ajustes das ações prevencionistas, normas regulamentos e outros dispositivos de ordem técnica, que permitam a proteção coletiva e individual; XIV - articular-se e colaborar com os setores responsáveis pelo recursos humanos, fornecendo-lhes resultados de levantamento técnicos de riscos das áreas e atividades para subsidiar a adoação de medidas de prevenção a nível de pessoal; XV - informar os trabalhadores e o empregador sobre as atividades insalubre, perigosas e penosas existentes na empresa, seus riscos específicos, bem como as medidas e alternativas de eliminação ou neutralização dos mesmos; XVI - avaliar as condições ambientais de trabalho e emitir parecer técnico que subsidie o planejamentoe a organização do trabalho de forma segura para o trabalhador; XVII - articula-se e colaborar com os órgãos e entidades ligados à prevenção de acidentes do trabalho, doenças profissionais e do trabalho. XVIII - particular de seminários, treinamento, congressos e cursos visando o intercâmbio e o aperfeiçoamento profissional. Art. 2º - As dúvidas suscitadas e os casos omissos serão dirimidos pela Secretaria de Segurança e Medicina do Trabalho. Art. 3º - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário. (of. n.º 242/89) DOROTÉIA WERNECK