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Marcos Munhoz

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Prévia do material em texto

2013
1a Edição
Psicologia social
Prof. Fernando Scheeffer
Copyright © UNIASSELVI 2013
Elaboração:
Prof. Fernando Scheeffer
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
S315p
 Scheeffer, Fernando
 Psicologia social / Fernando Scheeffer. Indaial: Uniasselvi, 2013.
 192 p.; il.
 ISBN 978-85-7830-747-9
1. Psicologia social. I. Centro Universitário Leonardo da Vinci.
CDD 301.1
III
aPresentação
Caro acadêmico!
Iniciamos neste momento os estudos referentes à disciplina Psicologia 
Social e a partir de agora temos um interessante caminho a ser percorrido. 
A Psicologia Social enquanto área da Psicologia talvez seja uma das áreas 
mais emblemáticas e intrigantes dadas as divergências e os entraves que a 
acompanham. Estas especificidades podem ser exemplificadas a partir da 
dificuldade de delimitação do seu objeto de estudo ou até mesmo diante da 
dificuldade de definição da mesma. 
A Psicologia Social vê o social, ou seja, o que circunda o ser humano, 
algo a ser privilegiado ao se buscar a compreensão do comportamento 
humano e aí reside a sua principal contribuição para a Psicologia e para 
as ciências humanas como um todo. Esta importância se dá por propor 
compreender o ser humano a partir de um enfoque histórico-cultural, 
diferente do individualizante, que acompanhou a Psicologia por longo 
tempo e que acreditava que os mais variados aspectos relacionados ao 
comportamento humano poderiam ser desvendados a partir do acesso aos 
próprios sujeitos pura e simplesmente.
Diante dessas palavras iniciais, o presente Livro de estudos apresenta 
três momentos distintos, organizados em uma sequência lógica, ou seja, as 
ideias apresentadas em cada unidade são essenciais para a compreensão dos 
seguintes e à continuação do estudo. 
A partir dessa ressalva, a primeira unidade busca explorar alguns 
elementos introdutórios indispensáveis a quem se aventura a explorar a 
Psicologia Social. Primeiramente, busca-se defini-la e delimitar seu objeto de 
estudo, para daí então compreender sua origem tanto a nível mundial como 
no Brasil. Feito isso são apresentadas as diferentes “Psicologias Sociais”, 
que não passam de leituras de mundo diferenciadas e, consequentemente, 
propostas diferentes de intervenção na realidade social.
A segunda unidade traz uma reflexão a respeito do desenvolvimento 
humano por uma perspectiva chamada, neste material, de enfoque 
psicossocial, enfoque este que busca encontrar no “outro” explicações para 
o que somos e como nos desenvolvemos. Nesta seção, além de ser discutida 
esta abordagem, são feitas algumas inferências a respeito da infância, 
adolescência, idade adulta e velhice, etapas do desenvolvimento humano.
IV
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para 
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há 
novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é 
o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um 
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova 
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também 
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenho de Estudantes – ENADE. 
 
Bons estudos!
NOTA
A terceira unidade busca propiciar a aproximação com conceitos 
extremamente relevantes em Psicologia Social, como: subjetividade, 
identidade, atividade, consciência, representações sociais, ideologia e 
alienação. Estas categorias são chamadas de fundamentais, pois possibilitam 
que tenhamos um referencial teórico e técnico que nos instrumentaliza a 
analisarmos vários fenômenos à luz da Psicologia Social.
Prontos para entrar em contato com este campo de estudo? 
Mãos à obra!
Prof. Fernando Scheeffer
V
VI
VII
UNIDADE 1 – PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO..............................................1
TÓPICO 1 – PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO ...................................3
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................3
2 A PSICOLOGIA ENQUANTO CIÊNCIA ......................................................................................3
3 DEFINIÇÃO E OBJETO DE ESTUDO DA PSICOLOGIA SOCIAL ........................................7
4 RELAÇÃO COM ÁREAS AFINS .....................................................................................................10
5 O SIGNIFICADO DO TERMO “SOCIAL”: POSSIBILIDADES DE INTERPRETAÇÃO ...12
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................15
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................18
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................19
TÓPICO 2 – A INVENÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL ..............................................................21
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................21
2 PSICOLOGIA SOCIAL MODERNA: UM FENÔMENO CARACTERISTICAMENTE 
AMERICANO ......................................................................................................................................22
3 A PSICOLOGIA SOCIAL NO BRASIL ..........................................................................................24
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................29
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................30
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................31
TÓPICO 3 – A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA ....................................................................33
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................33
2 O MODELO ESTADUNIDENSE DE PSICOLOGIA SOCIAL ..................................................34
3 ALGUNS CONCEITOS FUNDAMENTAIS ..................................................................................36
3.1 PERCEPÇÃO OU COGNIÇÃO SOCIAL ....................................................................................36
3.2 ATITUDES .........................................................................................................................................38
3.3 PRECONCEITO, ESTEREÓTIPOS E DISCRIMINAÇÃO......................................................41
3.4 INFLUÊNCIA SOCIAL ...................................................................................................................44
3.5 PAPÉIS SOCIAIS ............................................................................................................................46
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................48
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................49
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................50
TÓPICO 4 – A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA ......................................................................51
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................51
2 A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA PSICOLOGIA SOCIAL ...................................................52
3 A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA...........................................................................................54
4 A PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA .................................................................................59
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................65
RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................66
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................67
sumário
VIII
UNIDADE 2 – DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL ..........69
TÓPICO 1 – O LUGAR DO OUTRO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO ........................71
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................71
2 DESENVOLVIMENTO HUMANO: PRINCÍPIOS GERAIS .....................................................71
3 O PAPEL DO OUTRO E DAS RELAÇÕES SOCIAIS NO
 DESENVOLVIMENTO HUMANO ................................................................................................75
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................79
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................80
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................81
TÓPICO 2 – INFÂNCIA
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................83
2 A INFÂNCIA ENQUANTO CONSTRUÇÃO SOCIAL ..............................................................83
3 O INTERACIONISMO DE PIAGET E VYGOTSKY ...................................................................85
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................93
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................94
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................95
TÓPICO 2 – ADOLESCÊNCIA ...........................................................................................................97
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................97
2 DEFININDO ADOLESCÊNCIA ......................................................................................................97
3 A INVENÇÃO DA ADOLESCÊNCIA ............................................................................................98
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................104
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................105
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................106
TÓPICO 4 – IDADE ADULTA E VELHICE ......................................................................................107
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................107
2 IDADE ADULTA .................................................................................................................................107
3 VELHICE ..............................................................................................................................................110
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................114
RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................115
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................116
TÓPICO 5 – COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL E PRÓ-SOCIAL ........................................117
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................117
2 O COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL: AGRESSÃO .............................................................117
3 O COMPORTAMENTO PRÓ-SOCIAL: ALTRUÍSMO ..............................................................120
RESUMO DO TÓPICO 5......................................................................................................................124
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................125
UNIDADE 3 – CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL ......................127
TÓPICO 1 – SUBJETIVIDADE E IDENTIDADE ............................................................................129
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................129
2 SUBJETIVIDADE: UM DOS OBJETOS DA PSICOLOGIA ......................................................129
3 IDENTIDADE .....................................................................................................................................133
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................137
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................138
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................139
IX
TÓPICO 2 – ATIVIDADE E CONSCIÊNCIA ..................................................................................141
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................141
2 ATIVIDADE .........................................................................................................................................141
3 CONSCIÊNCIA ...................................................................................................................................143
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................146RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................148
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................149
TÓPICO 3 – REPRESENTAÇÕES SOCIAIS ....................................................................................151
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................151
2 COMO NASCE A TEORIA ...............................................................................................................151
3 CONCEITO ..........................................................................................................................................152
4 COMO SÃO CRIADAS AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS .....................................................154
5 COMO AS INVESTIGAMOS ..........................................................................................................155
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................157
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................160
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................161
TÓPICO 4 – IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO ......................................................................................163
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................163
2 IDEOLOGIA ........................................................................................................................................163
3 ALIENAÇÃO .......................................................................................................................................168
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................171
RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................174
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................175
TÓPICO 5 – COMUNIDADE E SOCIEDADE .................................................................................177
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................177
2 O CONCEITO DE COMUNIDADE ................................................................................................177
3 COMUNIDADE VERSUS SOCIEDADE: DIFERENÇAS FUNDAMENTAIS .......................180
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................182
RESUMO DO TÓPICO 5......................................................................................................................185
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................186
REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................187
X
1
UNIDADE 1
PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E 
DEFINIÇÃO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade você será capaz de:
• compreender a origem e a evolução da Psicologia Social;
• defini-la e diferenciá-la das áreas afins; 
• apresentar as diferentes perspectivas em Psicologia Social.
A Unidade 1 está dividida em quatro tópicos. Ao final de cada um deles, você 
terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos realizando as atividades 
propostas.
TÓPICO 1 – PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO 
TÓPICO 2 – A INVENÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL
TÓPICO 3 – A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
TÓPICO 4 – A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
2
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO
1 INTRODUÇÃO
A ideia deste primeiro tópico é trazer princípios fundamentais que 
contribuam para a compreensão de todo o caderno. Em um primeiro momento 
serão trazidos elementos que permitam compreender o surgimento da Psicologia 
enquanto ciência. Você tem noção do que é a Psicologia? Qual o seu objeto de 
estudo? Por que é possível afirmar que não existe uma única Psicologia e sim 
“Psicologias”? É importante que estas e outras questões estejam claras para 
adentrarmos na Psicologia, uma divisão ou campo da Psicologia. É importante 
que você tenha claro que mais do que trazer respostas prontas ou verdades, 
pretenderemos problematizar várias questões que ainda permeiam a Psicologia 
Social. Dentre as várias divergências ainda existentes, encontraremos uma 
diversidade enorme de definições, de compreensão a respeito do seu objeto de 
estudo, bem como sua relação com outras ciências humanas. 
Ao final da leitura deste tópico é importante que você consiga perceber 
qual a intenção da Psicologia social, bem como se aproprie dos principais 
dilemas presentes neste campo de estudo, dentre eles o significado do termo 
“social”, questões essenciais para uma primeira aproximação com essa área do 
conhecimento. 
2 A PSICOLOGIA ENQUANTO CIÊNCIA
FIGURA 1 – PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO
FONTE: Disponível em: <http://psicologia-fadeup-jpgf.webnode.com.pt/materia-/>. Acesso em: 
31 out. 2011.
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
4
O termo Psicologia talvez seja um dos que, para o leigo, tenha um sentido 
mais controverso e pouco definido. Qualquer pessoa se dispõe a falar sobre e 
acredita se apropriar dela em vários momentos. O fato é que no cotidiano ela 
acaba tendo vários sentidos, poucos ancorados em uma sistemática mais 
rigorosa. Esta Psicologia “despreocupada” costumeiramente é denominada de 
“Psicologia do senso comum”, muito diferente da Psicologia dos psicólogos ou 
esta compreendida enquanto ciência.
Esta breve contextualização não pretende desconsiderar o saber popular, 
mas sim deixar claro que nesse momento a intenção é apresentar a Psicologia 
científica. 
A partir de uma análise mais rigorosa e sistemática, percebe-se que um 
primeiro desafio é defini-la. De acordo com a origem grega da palavra, Psicologia 
significa o estudo (logos) acerca da alma ou espírito (psique). A etimologia da palavra 
não traduz a dificuldade e a diversidade de possibilidades de interpretação do 
objeto de estudo e do próprio conceito de Psicologia.
Típico das ciências humanas são as diversas leituras da realidade e isso, 
no caso da Psicologia, é percebido diante da diversidade de abordagens presentes 
na mesma. Essas diferentes abordagens trazem consigo divergentes teorias e 
formas de analisar e intervir diante de um mesmo fenômeno. De forma unificada, 
normalmente se define a Psicologia como a ciência que estuda o comportamento. 
Nesse sentido não há consenso, visto que para a Psicanálise (uma das abordagens 
em Psicologia), por exemplo, o objeto de estudo da Psicologia é o inconsciente.
Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2002), as três mais importantes 
tendências teóricas da Psicologia neste século são o Behaviorismo, chamado 
também de Psicologia comportamental, a Gestalt e a Psicanálise. O Behaviorismo, 
de base americana, tornou-se bastante importante por ter definido o fenômeno 
psicológico como algo bastante concreto, o comportamento (behavior). A Gestalt 
tem seu berço na Europa, a partir da premissa de que o todo é maior que a 
soma das partes. Esta encontra no fenômeno da percepção as condições para a 
compreensão do comportamento humano.A Psicanálise teve como principal 
precursor Sigmund Freud e surge da prática médica propondo um objeto de 
estudo totalmente inusitado, o inconsciente, se contrapondo à tradição da 
Psicologia em voga entendida como ciência da consciência e da razão. Abaixo 
é apresentada uma síntese dos principais achados e contribuições das escolas 
psicológicas citadas anteriormente. 
TÓPICO 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO
5
QUADRO 1 – PRINCIPAIS ABORDAGENS PSICOLÓGICAS DO SÉCULO XX
Principais representantes Objeto e método de estudo Fatores determinantes
Behaviorismo
Watson (1878-1958) - EUA
Skinner (1904-1990)
Comportamento humano 
o b s e r v á v e l . S e u t i l i z o u 
frequentemente de pesquisas 
sobre estímulos e respostas em 
animais em laboratório.
Somos governados pelas 
consequências dos nossos 
atos. Reforços e punições 
promovem condicionamento 
e modelam o comportamento 
e o desenvolvimento humano.
Gestalt
Koffka (1886-1941) - Alemanha Pe r c e p ç ã o e c o n s c i ê n c i a 
humana. Promoviam situações 
exper imenta is com seres 
humanos e animais.
A percepção humana possui 
leis próprias. O ser humano 
não atende de forma direta à 
lógica estímulo–resposta.
Psicanálise
Freud (1856-1939) – Áustria
Lacan (1901-1981) – França 
Jung (1875-1961) – Suíça 
Relação entre inconsciente e 
consciente. Principal método: 
associação livre (escuta pela 
fala), análise dos sonhos e atos 
falhos.
A subjetividade humana é 
determinada pelos vínculos 
afetivos estabelecidos ao longo 
da vida.
FONTE: O autor
DICAS
Para melhor compreender as diversas teorias em Psicologia é válido o contato 
com a obra “Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia”, organizada por Bock, 
Furtado e Teixeira (São Paulo: Saraiva, 2002) ou então “A diversidade da Psicologia: uma 
construção teórica”, organizada por Kahhale (São Paulo: Cortez, 2008), uma das poucas obras 
que se dedica exclusivamente a essa questão.
O fato é que o próprio termo comportamento atualmente tem um sentido 
bem mais amplo do que no passado. O comportamento inclui muito mais do 
que movimentos ou ações flagrantes, como os que fazemos ao andar. Inclui 
os chamados comportamentos incobertos, atividades muito mais sutis, como 
perceber, pensar, sentir. A Psicologia se ocupa desta infinidade de formas dos 
sujeitos se expressarem e se apresentarem para o mundo. A Psicologia, nesta 
ótica, trata e se atém a todas as formas de manifestação do ser humano. 
Ouve-se muito a ideia de que a Filosofia é a mãe de todas as ciências. Isto 
é um fato e no caso da Psicologia não é diferente. Muito antes de se tornar uma 
ciência, o homem já buscava explicações sobre si mesmo. As primeiras explicações 
sobre o ser humano e sua conduta foram de natureza sobrenatural, assim como 
todos os eventos. Aos poucos a Filosofia toma as rédeas e os mais variados 
eventos passam a ser analisados por uma ótica racional. Desta forma, a matriz 
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
6
da Psicologia é a Filosofia, e já por volta de 500 a.C. temas como alma, espírito, 
já eram discutidos na Grécia por filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles. O 
primeiro tratado de Psicologia é considerado Da anima, redigido por Aristóteles. 
Seguem abaixo as principais contribuições destes para a Psicologia.
QUADRO 2 – CONTRIBUIÇÕES DOS FILÓSOFOS GREGOS PARA A FORMAÇÃO DA 
PSICOLOGIA
Filósofo Contribuições para a formação da Psicologia Influência nas
a b o r d a g e n s a t u a i s d a 
Psicologia
Sócrates 
(469 - 399 a.C.)
Postula que a principal característica do homem é 
a razão e que esta o diferencia de outros animais.
Teorias Psicológicas que se 
apoiam no estudo da razão 
e da consciência, como, por 
exemplo, o Cognitivismo.
Platão
(427 - 347 a.C.)
Concebe a razão (alma) separada do corpo, tendo 
como elemento de ligação a medula. A razão 
se localizaria na cabeça. Para ele, as ideias ou 
características humanas eram geradas a partir do 
próprio interior do homem.
Teorias Psicológicas que 
se apoiam no inconsciente, 
como, por exemplo, a 
Psicanálise de Freud e a 
Psicologia Analítica de Jung.
Aristóteles 
(384 - 322 a.C.)
Alma e corpo não podem ser dissociados. Para ele, 
a psyche seria o princípio ativo da vida. O homem 
possuiria a alma racional, com a função pensante. 
Estuda os fenômenos de sensação e percepção 
(órgãos dos sentidos). Reconhece a influência dos 
fatores externos que são percebidos pelos órgãos 
sensoriais. Considerado o pai da Psicologia por ter 
escrito o tratado Da Anima.
Te o r i a s q u e a t r i b u e m 
destaque às influências do 
ambiente na constituição 
d o h o m e m , c o m o o 
Comportamentalismo.
FONTE: Bock (2002)
Já a Psicologia, enquanto ciência, nasce tendo como marco histórico o ano 
de 1875, quando Wilhelm Wundt (1832-1926) criou o primeiro Laboratório de 
Psicologia experimental, em Leipzig, na Alemanha. Wundt se ateve ao estudo das 
reações a estímulos realizados sob condições controladas por ele. Ao estudar as 
sensações e as percepções adotando o método experimental, o mesmo abandonou 
ideias abstratas expressas no conceito de alma em voga para se arraigar aos 
princípios e métodos científicos, um tipo de conhecimento extremamente rigoroso 
e sistemático.
IMPORTANT
E
Segundo o Oxford American Dictionary, ciência é a atividade intelectual e 
prática que abarca a estrutura e o comportamento do mundo físico e natural por meio da 
observação e da experimentação. Esta parece ser uma forma bastante objetiva, mesmo que 
simplificada, de conceituar ciência. 
TÓPICO 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO
7
Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2002), na Psicologia o status de ciência 
é obtido à medida que a mesma se liberta da Filosofia e passa a se pautar em 
novos padrões de produção de conhecimento, ao:
• Definir claramente seu objeto de estudo (comportamento, consciência etc.).
• Delimitar seu campo de estudo, diferenciando-o de outras áreas do conhecimento.
• Formular métodos de estudo do seu objeto.
• Formular teorias enquanto um corpo consistente de conhecimento na área.
As variadas teorias psicológicas, a partir desse momento, passam a 
obedecer aos critérios básicos do método científico, isto é, buscar a neutralidade, 
os dados passam a ser passíveis de comprovação e o conhecimento acaba sendo 
acumulativo, ou seja, permite a continuação de pesquisas na área.
Embora a Psicologia tenha nascido na Alemanha, é nos Estados Unidos que 
ela encontra condições para crescer rapidamente. A partir do que foi apresentado, 
uma constatação interessante é que as primeiras ciências a se desenvolverem 
foram justamente as que tratam do que está mais distante do homem, como, por 
exemplo, a Astronomia. As que se referem ao que está mais próximo são as que 
tiveram desenvolvimento mais tardio. Nesse sentido, a Psicologia é uma das 
áreas mais novas da Ciência, com, aproximadamente, 135 anos. Em termos de 
história, isso é muito pouco e exemplifica a fragilidade da mesma em explicar 
ainda muitas coisas.
3 DEFINIÇÃO E OBJETO DE ESTUDO DA 
PSICOLOGIA SOCIAL
FIGURA 2 – GENEALOGIA DO GÊNERO, RAÇA, ESPÉCIE
FONTE: Disponível em: <http://permissaveniablogspotcom.blogspot.com/2010/06/cotacao.
html>. Acesso em: 31 out. 2011.
A partir do conceito de Psicologia parece óbvio que a Psicologia Social 
deveria então estudar o comportamento social, porém, como afirma Lane (2008), 
surgem algumas polêmicas: quando o comportamento se torna social? São 
possíveis comportamentos não sociais nos seres humanos?
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
8
Para Ramos (2003), a dificuldade de definição da Psicologia Social pode 
ser explicada na imprecisão de seus objetivos. Sendo uma disciplina relativamente 
recente, ainda não há consenso no sentido dedelimitação dos seus objetivos de 
forma precisa e ainda da extensão da sua aplicação. 
Considerada por muitos como um mix entre Psicologia e Sociologia, no 
polo da Psicologia a impressão que se tem é que tudo que não pertence à Psicologia 
fisiológica seria Psicologia social: suas funções psíquicas só se compreenderiam no 
jogo das suas relações sociais. O comportamento humano é social pela sua natureza 
e/ou pelos seus fins. No polo da Sociologia todo estudo dos fatos sociais, tendo o 
homem como centro, converter-se-ia em uma Psicologia Social. 
Kimbal Young (apud RAMOS, 2003) traz uma concepção de Psicologia 
Social bastante interessante e completa. Segundo ele, o estudo da personalidade 
é o grande objetivo da Psicologia Social, no entanto, enquanto que a Psicologia 
individual estuda os aspectos organopsicológicos da personalidade, a Psicologia 
Social trata do estudo da personalidade e do desenvolvimento em relação à 
ambiência social. Essa definição deixa claro o grande objetivo e o recorte bastante 
específico da Psicologia Social: estudar a personalidade como expressão da 
interação do indivíduo em seu meio social e cultural. 
Lane (2008) afirma que o enfoque da Psicologia Social é estudar o 
comportamento no que ele é influenciado socialmente. Isso acontece desde 
o momento que nascemos ou até mesmo antes do nascimento. Essa influência 
histórico-social se faz sentir, primordialmente, pela aquisição da linguagem. 
Podemos perceber, então, que é bastante difícil encontrarmos comportamentos 
humanos que não envolvam componentes sociais, embora sejam estes os 
elementos que se tornaram o enfoque da Psicologia Social. Em outras palavras, a 
Psicologia Social estuda a relação entre o indivíduo e a sociedade. 
Para Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), a Psicologia Social é a área da 
Psicologia que procura estudar a interação social. Segundo os mesmos autores 
(1999, p. 24), “[...] a Psicologia Social é o estudo científico de manifestações 
comportamentais de caráter situacional suscitadas pela interação de uma pessoa 
com outras pessoas ou pela mera expectativa de tal interação [...]”. Para os autores, 
a Psicologia Social estuda os fenômenos sociais, comportamentais e cognitivos 
decorrentes da interação entre as pessoas. 
O que caracteriza o aspecto social do comportamento estudado é a 
importância dada à influência de fatores situacionais. Todas as definições, em 
maior ou menor grau, acabam por acentuar os fatores psicológicos individuais, 
ora os fatores sociológicos presentes na interação social. Segundo Bock, Furtado 
e Teixeira (2002), a interação social, a interdependência entre os indivíduos, o 
encontro social são os objetos investigados por essa área da Psicologia.
TÓPICO 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO
9
IMPORTANT
E
Fenômenos cognitivos ou mesmo o termo cognição significam “aquisição 
de conhecimento” ou a forma como as pessoas processam as informações. Cognição é 
sinônimo de processos mentais que estão por detrás dos comportamentos. São exemplos: 
atenção, percepção, memória etc. Esse termo é bastante presente na Psicologia Social de 
base norte-americana (Psicologia social cognitiva), vertente que será apresentada no tópico 
seguinte.
Para Ramos (2003), após o exercício de buscar definir Psicologia Social, 
normalmente se chega à conclusão de que ela acaba por estudar três ordens gerais 
de fenômenos: em primeiro lugar, a Psicologia Social estuda as bases psicológicas do 
comportamento social e, nesse sentido, aproxima-se da Psicologia do indivíduo. Em 
seguida, estuda as interações psicológicas dos indivíduos na vida social. Por último, a 
Psicologia Social se atém à influência dos grupos sobre a personalidade, acaba então 
sendo uma espécie de Sociologia psicológica ou uma Psicologia cultural.
DICAS
Para aprofundar algumas questões introdutórias em relação à Psicologia Social, 
um livro de fácil compreensão é: LANE, Silvia T. M. O que é Psicologia social. Coleção 
Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 2008.
Partindo da convicção de que ela não é uma ciência autônoma, e mais do 
que isso, diante da dificuldade de delimitação de suas especificidades, a seguir, 
buscaremos fazer algumas relações, apontaremos semelhanças e diferenças 
com áreas que de alguma forma “disputam” o mesmo objeto de estudo, até por 
fazerem também parte das chamadas ciências humanas.
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
10
4 RELAÇÃO COM ÁREAS AFINS
FIGURA 3 – COMUNICAÇÃO – FALAR EM PÚBLICO
FONTE: Disponível em: <http://www.babado.org/tag/medo>. Acesso em: 31 out. 2011.
Dificilmente, ao entrar em contato com a Psicologia Social, não surge 
dúvida em relação à diferença entre Psicologia Social e outros setores afins do 
conhecimento, tais como: Sociologia, Antropologia, Filosofia e até mesmo as 
demais áreas da Psicologia. Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999) relatam as 
aproximações e os distanciamentos da Psicologia Social com outros campos do 
saber de maneira bastante perspicaz. 
Uma primeira área do conhecimento que tem relações bastante próximas 
com a Psicologia Social e que, provavelmente, acaba sendo a área que gera mais 
dúvida em relação às diferenças é a Sociologia. De maneira bastante breve, 
podemos afirmar que a Sociologia é a ciência que tem como objeto de estudo a 
sociedade, as instituições sociais e as relações sociais. Podemos dizer que é uma 
“teoria da sociedade”. A Sociologia pode ser considerada uma ciência social 
cujo objeto de estudo é a sociedade moderna. Em outros termos, é uma teoria da 
modernidade.
Dificilmente se encontra um psicólogo social ou um sociólogo que 
afirme, categoricamente, que Psicologia Social e Sociologia são ramos totalmente 
distintos. A maioria se inclina a acreditar que tem um objeto formal até distinto, 
embora reconheçam que exista algo em comum de maneira bastante nítida. 
É comum e coerente, inclusive, a afirmação de que quando temos um campo 
de interseção entre Psicologia e Sociologia, é exatamente aí que encontramos a 
Psicologia Social, que estudaria não só o indivíduo nas suas reações sociais como 
também a sociedade nos seus aspectos psicológicos. Dessa forma, a Psicologia 
Social e a Sociologia têm um objeto idêntico ou quase idêntico, no entanto, diferem 
na maneira pela qual estudam esse objeto, formulando perguntas diferentes 
aos seus processos investigativos. Talvez uma afirmação possível e simples 
para delimitar a diferença seria a de que enquanto o psicólogo social estuda o 
indivíduo no grupo, o sociólogo considera o grupo como um todo. Não há como 
negar, porém, uma área de interseção grande entre essas duas disciplinas e, em 
alguns momentos alguns estudos, acabam por pouco ou nada diferirem.
TÓPICO 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO
11
Já a distinção entre a Psicologia Social e a Antropologia é bem mais 
nítida. De forma extremamente simplificada, é possível dizer que a Antropologia 
se refere à ciência que estuda as culturas humanas nos mais variados aspectos. 
Normalmente, ela é dividida em Antropologia biológica e Antropologia cultural. 
A primeira, como o nome já indica, dedica-se aos aspectos biológicos dos seres 
humanos e, por isso, normalmente, é classificada como uma ciência natural, 
enquanto que a segunda busca analisar e compreender o desenvolvimento das 
sociedades humanas ao redor do mundo e é considerada uma ciência social. 
Não se tem dúvida de que os estudos antropológicos fornecem dados 
valiosos para o entendimento do comportamento humano em diferentes culturas, 
principalmente os ligados à Antropologia cultural, entretanto, a Antropologia 
estuda as produções humanas nas diferentes culturas, embora não faça isso de 
forma individualizada tal como pretende em alguns momentos fazer a Psicologia 
Social. Em suma, a Antropologia é uma área de importância incontestada para a 
Psicologia Social,embora tenha nuances e características bastante distintas.
 Diferente da Psicologia Social, da Sociologia e da Antropologia, citadas 
anteriormente e que compartilham o método científico (observação – hipótese – 
experimentação – generalização), a Filosofia coloca-se em um patamar diferente. 
Embora trabalhe com enunciados precisos e rigorosos, por ter como objeto de estudo 
coisas abstratas, ela busca encadeamentos lógicos a partir da utilização da razão. Mais 
importante do que as respostas alcançadas via experimentação, a Filosofia contenta-
se em suscitar perguntas e questionar aquilo que comumente se tem como natural. 
Dessa forma, em relação à Psicologia Social, a primeira diferença consiste 
exatamente na diferença entre objetividade por parte da Psicologia Social e 
especulação por parte da Filosofia. Vale ressaltar que nos referimos a métodos e a 
objetos de estudo diferentes, o que faz com que seja inconveniente a terminologia 
melhor/pior. Embora todo psicólogo ou mesmo toda pessoa tenha suas convicções 
filosóficas, como a melhor organização da sociedade, finalidade da vida em 
sociedade etc., a Psicologia Social acaba por se ater a questões mais superficiais, 
diferente da Filosofia, que busca e faz questão de ser radical (ir à raiz das coisas). A 
grande diferença reside, então, sobretudo, no grau de abstração de uma e de outra. 
Outra dúvida que aparece com frequência quando se entra em contato 
com a Psicologia Social é a da diferença entre ela e os demais setores ou áreas da 
Psicologia. Como será colocado a seguir, ao se discutir o significado do termo 
“social”, não há consenso em relação a isso. Por um lado, é possível dizer que 
em comum com as demais áreas da Psicologia (Psicologia Clínica, Psicologia 
Organizacional, Psicologia Escolar etc.), temos o fato de que todas se veem 
constantemente às voltas com o estudo das interações humanas. Por outro lado, 
a distinção entre as várias áreas da Psicologia parecem se dar pela ênfase posta 
no estudo de certos fenômenos psicológicos em detrimento de outros. No caso da 
Psicologia Social parece evidente o fato de que o que a caracteriza, como colocado 
no item 2 (definição e objeto de estudo), é a ênfase dada às relações sociais, ao 
estudo da influência dos fatores situacionais no comportamento humano. 
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
12
5 O SIGNIFICADO DO TERMO “SOCIAL”: POSSIBILIDADES 
DE INTERPRETAÇÃO
Muitas poderiam ser as áreas nas quais as comparações teriam sentido e 
importância, no entanto, foram escolhidas algumas em que as dúvidas são mais 
comuns, com o intuito de exercitarmos as relações, a partir da compreensão da 
definição e objeto de estudo expostos no item 2 desse tópico. Feito isso, para 
encerrar esse primeiro contato com a Psicologia Social, buscaremos aprofundar o 
significado do termo “social” a seguir.
FIGURA 4 – ECONOMIA CRIATIVA
FONTE: Disponível em: <http://www.papocriativo.com.br/tag/economia-criativa/>. Acesso em: 
31 out. 2011.
Reflexão interessante é a trazida por Moreira (2007) a respeito da formação 
em Psicologia Social e as primeiras perguntas que os alunos fazem ao entrar em 
contato com a disciplina: “O que é Psicologia Social?”, “O que faz um psicólogo 
social?”. Aparentemente essas perguntas e as respectivas respostas deveriam 
ser trabalhadas como conteúdo obrigatório e como introdução da disciplina de 
Psicologia Social, no entanto, o autor revela que, na prática cotidiana, o que se 
percebe é que essas questões permanecem pouco claras.
Moreira (2007) expõe que, ao lecionar a disciplina de Psicologia Social, 
propôs aos alunos que expusessem o significado da palavra “social” para eles. 
Vale ressaltar que esses alunos não tinham qualquer contato anterior com a 
disciplina. Suas visões foram construídas a partir dos comentários de outros 
alunos que cursaram alguma disciplina afim ou mesmo pelo que já haviam lido 
ou escutado a respeito, nos mais diversos meios de informação. Moreira percebeu 
que algumas ideias estão frequentemente associadas à Psicologia Social e que as 
respostas podiam ser agrupadas em três categorias básicas, entre elas a de que 
“toda psicologia é social”, a de que “a psicologia social trabalha com os pobres” 
e, finalmente, que “a psicologia social é essencialmente crítica”. Buscaremos, a 
seguir, analisar as seguintes proposições, tentando esclarecer o que há de verdade 
e mito nessas afirmações.
TÓPICO 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO
13
A primeira ideia presente e expressa por parte dos alunos se refere à 
opinião de que “toda psicologia é social”. Freud, em 1921, na sua obra “Psicologia 
de grupo e análise do ego”, aponta que toda a psicologia individual pode ser 
considerada uma psicologia social, pelo fato de que não é possível pensar o 
sujeito fora de suas relações com o outro. Em consonância com essa afirmação, 
Silvia Lane, em várias obras, faz exatamente essa afirmação: toda psicologia é 
social ou pelo menos deveria ser. “[...] esta afirmação não significa reduzir as 
áreas específicas da Psicologia à Psicologia Social, mas sim cada uma assumir 
dentro da sua especificidade a natureza histórico-social do ser humano”. (LANE, 
1984, p. 19). O que está implícita nessa afirmação é o fato de ela defender que não 
há a possibilidade de conhecer e compreender qualquer comportamento humano 
isolando-o ou fragmentando-o, como se existisse em si e por si. 
O sujeito com o qual a Psicologia trabalha é um ser relacional e histórico e, 
nesse sentido, as explicações que tomam como base a natureza, a herança genética 
e o comportamento inato acabam sendo colocadas em xeque nessa concepção. 
Diante do exposto, a afirmação de que “toda psicologia é social” parece ter sentido 
ao se compartilhar a premissa colocada até então. Como não existe uma única 
Psicologia e sim “psicologias”, temos dificuldade de colocar um ponto final nessa 
discussão, visto que algumas abordagens não compartilham esses pressupostos. 
Outra proposição recorrente é a de que “a psicologia social trabalha com 
os pobres”. Nesse caso o “social” acaba estando bastante atrelado à Assistência 
Social e na qual a Psicologia teria, nesse caso, a função de intervir no meio 
social, a fim de “ajudar” as classes menos favorecidas. É interessante o fato de 
que a universalidade da expressão “toda psicologia é social” se perde, pois é a 
Psicologia Social que se dedica e trabalha com os pobres. O “social”, nesse caso, 
acaba sendo quase um sinônimo de “carente”. 
É fato que a Psicologia Social produziu e produz constantemente 
metodologias para a intervenção em grupos e comunidades das periferias das 
grandes cidades e para a população em situação de vulnerabilidade social, 
sobretudo com o intuito de incluir esses grupos e comunidades, em defesa da 
cidadania. No entanto, o grande equívoco talvez esteja no ponto em que se reduz 
o campo de atuação da Psicologia Social a somente isso. 
A Psicologia Social debruça-se sobre todo e qualquer fenômeno coletivo da 
sociedade e às relações sociais existentes. Entretanto, a partir de uma perspectiva 
crítica, em uma sociedade desigual e produtora de desigualdades de toda ordem 
como no Brasil, ela acaba por se ater a esta problemática de forma significativa, 
com o objetivo de contribuir para a melhoria da qualidade de vida de grande 
parte da população que vive em condições precárias.
A última ideia presente no estudo relatado por Moreira (2007) é a de que 
a Psicologia Social tem natureza crítica. Nesse sentido, essa concepção parece 
ser equivocada, já que parte do princípio de que todas as outras psicologias e 
suas práticas seriam alienadas e alienantes. Não seriam se fizessem a almejada 
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
14
crítica social. Nessa ótica, a Psicologia Social seria o “certo”, enquanto as outras 
psicologias seriam “erradas”, dando à PsicologiaSocial um status superior e, 
inclusive, autorizando-a a criticar os mais diversos campos da Psicologia. Outro 
problema reside na dificuldade, a partir dessa suposta superioridade, de ser 
feita uma crítica interna, um olhar sobre a própria Psicologia Social, acertos e 
equívocos.
Diante do que foi apresentado até então sobre o significado do “social” 
acrescido ao termo Psicologia, é importante notarmos que facilmente podemos 
cair em armadilhas, visto que não é raro esse termo significar muitas coisas e, 
em alguns momentos, totalmente distintas. No caso da nomenclatura “Psicologia 
Social”, e voltando às discussões expostas no início desse tópico, o “social” acaba 
por significar “relações sociais” ou até mesmo “sociedade”, adjetivo que designa 
o que é relativo à sociedade, como é trazido por vários dicionários da língua 
portuguesa. 
O termo “social” exprimiria a aplicação da Psicologia aos fatos sociais, 
assim como a Psicologia educacional se voltaria à educação e a Psicologia 
organizacional às organizações. Em síntese, o termo “social” traz a ideia de 
um “olhar para fora”, contrário à cegueira que fez por muito tempo parte da 
Psicologia e que levou à mesma a falácia de achar que o ser humano pode ser 
explicado e compreendido a partir dele mesmo, ignorando o entorno, as várias 
variáveis externas que acabam por interferir no desenvolvimento humano e na 
construção da subjetividade.
ESTUDOS FU
TUROS
Na Segunda Unidade, abordaremos a temática desenvolvimento humano por 
um viés psicossocial, que é o da Psicologia Social. Na Terceira unidade, entraremos em 
contato com vários conceitos importantes em Psicologia Social, dentre eles a subjetividade.
TÓPICO 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO
15
OS OUTROS
S. T. M. Lane
O ser humano ao nascer necessita de outras pessoas para a sua 
sobrevivência, no mínimo de mais uma pessoa, o que já faz dele membro 
de um grupo (no caso, de uma díade – grupo de dois). E toda a sua vida será 
caracterizada por participações em grupos, necessárias para a sua sobrevivência, 
além de outros, circunstanciais e esporádicos, como os de lazer ou aqueles que se 
formam em função de um objetivo imediato.
Assim, desde o primeiro momento de vida, o indivíduo está inserido 
num contexto histórico, pois as relações entre o adulto e a criança recém-nascida 
seguem um modelo ou padrão que cada sociedade desenvolve e que considera 
correta. São práticas consideradas essenciais e, portanto, valorizadas; se não 
forem seguidas, dão direito aos “outros” de intervirem direta ou indiretamente. 
E, quando se fala em “dar o direito”, significa que a sociedade tem normas e/
ou leis que institucionalizam aqueles comportamentos que historicamente vêm 
garantindo a manutenção desse grupo social.
Em cada grupo social encontramos normas que regem as relações 
entre indivíduos, algumas são mais sutis, ou restritas a certos grupos, como as 
consideradas de “bom-tom”, outras são rígidas, consideradas imperdoáveis se 
desobedecidas, até aquelas que se cristalizam em leis e são passíveis de punição 
por autoridades institucionalizadas. Essas normas são o que, basicamente, 
caracteriza os papéis sociais, e que determinam as relações sociais: os papéis de 
pai e de mãe se caracterizam por normas que dizem como um homem e uma 
mulher se relacionam quando eles têm um filho, e como ambos se relacionam 
com o filho e este, no desempenho de seu papel com os pais.
Do mesmo modo, o chefe de uma empresa só o será, em termos de papel, 
se houver chefiados que, exercendo seus respectivos papéis, atribuam um sentido 
à ação do chefe, ou seja, um complementa o outro: para agir como chefe tem que 
ter outros que ajam como chefiados. Essa análise poderia ser feita em todas as 
relações sociais existentes em qualquer sociedade – amigos, namorados, estranhos 
LEITURA COMPLEMENTAR
UNI
No texto a seguir fica clara a importância dada aos outros, às relações sociais. 
Buscando explicar como nos tornamos sociais, a autora ressalta a importância dos “outros” 
na construção do que somos. Leia com atenção, pois além de se relacionar com o conteúdo 
apresentado anteriormente, também é importante para a leitura da Unidade 2.
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
16
na rua, que interagem circunstancialmente, balconista e freguês – em relação 
a todos existem expectativas de comportamentos mais ou menos definidos e 
quanto mais a relação social for fundamental para a manutenção do grupo e da 
sociedade, mais precisas e rígidas são as normas que a definem.
E a pergunta que sempre ocorre é: e a individualidade? Aquelas 
características peculiares de cada indivíduo? Afinal, se nós apenas desempenhamos 
papéis, e tudo que se faz tem sua determinação social, onde ficam as características 
que individualizam cada um de nós?
A resposta é, mais ou menos, como aquela estória do pai dizendo à filha: 
“Você pode se casar com quem quiser, desde que seja como o João...”. Em outras 
palavras, podemos fazer todas as variações que quisermos, desde que as relações 
sejam mantidas, isto é, aquelas características do papel que são essenciais para 
que a sociedade se mantenha tal e qual.
Existem teorias que definem os papéis sociais em termos de graus 
máximos e mínimos, de variações possíveis, e exemplificam com fatos como: 
a rainha Elizabeth (Inglaterra), na abertura do Parlamento, desempenha um 
papel totalmente definido; qualquer ação ou não ação que saia fora do protocolo 
gera confusão. Por outro lado, quando Zé da Silva está em um país estranho, 
se aventurando por conta própria (sem ser um “turista” o que já é um papel), 
atuando como um cidadão comum, sem ter as determinações daquela sociedade e, 
sabendo que a qualquer momento ele poderá se explicar como sendo estrangeiro, 
ele se dá o direito de fazer como sente, como gosta, “ele pode ser ele mesmo”, 
ou seja, fazer coisas que não faria se as pessoas o conhecessem, o identificassem 
como filho de “fulano”, casado com “sicrana”, que trabalha na firma X.
Agora podemos pensar em toda a variedade de situações que nós vemos 
cotidianamente e reconhecermos situações em que somos mais determinados e 
outras em que somos menos determinados, ou seja, “livres”.
Essa liberdade de manifestarmos a nossa personalidade também tem a 
sua determinação histórica: naquelas atividades sociais que não são importantes 
para a manutenção da sociedade, ou, às vezes, até o contrário, a contravenção 
necessária para reforçar o considerado “correto”, “normal” – os grupos 
considerados “marginais” reafirmam os sérios e trabalhadores, desde que não 
ponham em risco a ordem da sociedade; então a ordem é: façam como quiserem, 
sabendo que o “querer” é limitado; porém, naquelas situações, as quais podem 
abalar todo o sistema de produção da sobrevivência social, a liberdade se restringe 
a um “estilo” (ser mais ou menos sorridente, mais ou menos sério, mais expansivo 
ou mais tímido, entre outros). Assim como a rainha Elizabeth na abertura do 
Parlamento, o trabalhador se relaciona com suas ferramentas e máquinas, com 
seus chefes e mesmo com seus colegas de trabalho segundo um protocolo muito 
bem definido, pois, afinal, se ele não o fizer, o outro se sairá melhor ou ele perderá 
o emprego.
TÓPICO 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: EM BUSCA DE UM CONCEITO
17
O viver em grupos permite o confronto entre as pessoas e cada um vai 
construindo o seu “eu” nesse processo de interação, através de constatações 
de diferenças e semelhanças entre nós e os outros. É nesse processo que 
desenvolvemos a individualidade, a nossa identidade social e a consciência de 
si mesmo.
FONTE: Lane (2008, p. 12-16)
18
Neste tópico, que pretendeu aproximá-lo(a) do conceito de Psicologia 
Social (definição e objeto de estudo), as principais informações podem ser 
agrupadas nos seguintes itens:
• É possível definir a psicologia comoa ciência que estuda o comportamento.
• É clara a dificuldade de definição da Psicologia Social por não se ter consenso 
em relação aos seus objetivos e aplicação.
• Psicologia Social pode ser definida como a área da Psicologia que estuda a 
relação entre indivíduo e sociedade ou, então, a interação social.
• A Psicologia Social compartilha com as demais ciências humanas o estudo do 
homem e, por esse motivo, as diferenças e semelhanças com as demais áreas 
em alguns momentos gera dúvida por grande parte dos que se atrevem a 
conhecê-la com mais afinco. A maior dúvida está na diferença entre Psicologia 
Social e Sociologia, porque é comum o fato dela ser colocada entre a Psicologia 
e a Sociologia.
• O termo “social” desperta vários significados e conotações. Em seu sentido 
“puro” se refere às relações sociais, à sociedade: Psicologia Social seria então a 
aplicação da Psicologia aos fatos sociais.
RESUMO DO TÓPICO 1
19
1 A partir das informações trazidas neste tópico, defina Psicologia Social, 
diferencie-a das demais áreas da Psicologia e da Sociologia e, por último, 
explique o significado do termo “social” presente nesta nomenclatura.
AUTOATIVIDADE
DICAS
Para um aprofundamento destes temas, sugiro que você leia os seguintes livros:
RAMOS, A. Introdução à Psicologia Social. 4. ed. São Paulo: Casa do 
Psicólogo, 2003.
FIGUEIREDO, Luís Cláudio Mendonça; DE SANTI, Pedro Luiz Ribeiro. 
Psicologia: uma nova introdução. 2.ed. São Paulo: EDUC, 2004.
20
21
TÓPICO 2
A INVENÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
FIGURA 5 – PSICOLOGIA SOCIAL
FONTE: Disponível em: <http://psicologiaadm.blogspot.com/2011/04/psicologia-social-do-que-
se-trata.html>. Acesso em: 1 nov. 2011.
Falar em invenção da Psicologia Social não significa acreditar que seu 
surgimento se deve a um mero acaso ou “capricho” de algum intelectual buscando 
evidência, mas invenção a partir da premissa de que é fruto de uma necessidade 
histórica, em que se exige um novo campo do saber, que possa trazer respostas e 
propor soluções até então inacessíveis e inconcebidas. A partir dessa constatação, 
explicar o aparecimento relativamente recente de um campo de conhecimento 
e de um conjunto de práticas, para se ocupar das “relações sociais” entre os 
indivíduos, é o que nos propomos a seguir. 
Iniciaremos buscando melhor compreender seu surgimento em nível 
mundial, para daí, então, refletirmos sobre as peculiaridades do surgimento e 
construção da Psicologia Social no Brasil.
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
22
2 PSICOLOGIA SOCIAL MODERNA: UM FENÔMENO 
CARACTERISTICAMENTE AMERICANO
FIGURA 6 – MEDITAÇÃO
FONTE: Disponível em: <http://prcardson.blogspot.com/2011/03/confissao-positiva-realmente-
vale-pena.html>. Acesso em: 1 nov. 2011.
São infindáveis as controvérsias ou mesmo a ênfase dada na bibliografia da 
área a respeito do histórico da Psicologia Social. Temos desde os que ignoram essa 
temática a alguns poucos que se atrevem a fazer algumas inferências. Muito poucos 
são os que buscam aprofundar essa questão de forma consistente.
Entre os que consideram esse tema relevante, há o consenso de que existem 
resquícios da Psicologia Social tal como é concebida hoje, desde o momento em 
que se buscou estudar e compreender a natureza social do homem ou mesmo a 
formação da sociedade. No entanto, de forma mais sistemática, normalmente, tem-
se sua demarcação, enquanto área do conhecimento, no final do século passado 
ou mesmo durante este século. Buscaremos melhor compreender esse momento 
em específico, deixando de lado a “pré-história” da Psicologia Social (as bases 
filosóficas que serviram como alicerce ao momento que vivenciamos hoje).
Em se tratando de marcos, datas e nomes, ao final do século XIX, encontramos 
grande produção no que foi denominado “Psicologia das massas”. Nessa época 
surgem livros como “As leis da imitação”, de Gabriel Tarde (1890), “A Psicologia das 
multidões”, de Gustave Le Bon (1895), “As representações individuais e coletivas”, 
de Émile Durkheim (1898) e, ainda, os dez volumes de “Psicologia dos povos”, de 
Wundt, entre 1900 e 1920 (MAYORGA; PRADO, 2007).
Nesse sentido, não há consenso em relação ao seu surgimento exatamente, 
no entanto, muitos autores acabam por considerar como marco inaugural da 
Psicologia Social, e inauguração da denominação “psicologia social”, a publicação, 
em 1908, de “Social psychology” pelo sociólogo Edward A. Ross, e “An introduction 
TÓPICO 2 | A INVENÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL
23
to social psychology”, pelo psicólogo William McDougall. O que parece ser consenso 
é que a Psicologia Social surge no século XX como uma área da Psicologia que faz 
uma ponte entre a Psicologia e a Sociologia. Sua formação está muito atrelada aos 
movimentos ideológicos e conflitos presentes nesse período.
Já ao se referir a acontecimentos recentes que contribuíram para a 
solidificação da Psicologia Social enquanto estudo científico e sistemático, temos um 
desenvolvimento bastante grande após a Primeira Guerra Mundial. Juntantemente 
com outras ciências sociais, buscou-se procurar compreender as crises e as convulsões 
que abalavam o mundo naquela ocasião. No entanto, seu reconhecimento e o período 
de maior produção se dão, segundo Farr (1999), após a Segunda Guerra Mundial. 
A guerra, com suas nuances e consequências, acabou por impulsionar de 
forma avassaladora o desenvolvimento da Psicologia Social, semelhante ao que 
a Primeira Guerra Mundial fez com os testes psicométricos. Nessa perspectiva, a 
Segunda Guerra Mundial é um elemento-chave para a compreensão da construção 
da Psicologia Social e, a partir dela, é possível significar as características da 
mesma tal qual conhecemos hoje.
Na Segunda Guerra Mundial são inúmeras as pesquisas realizadas pelos 
cientistas sociais, com o intuito de buscar respostas para várias questões que 
se colocavam naquele momento. Como exemplo, foram realizados inúmeros 
levantamentos sociais com o objetivo de adequar os soldados à vida do exército, 
bem como entender a participação nos combates e as consequências associadas. 
As várias pesquisas realizadas naquele momento foram importantes por 
uma série de razões, sobretudo para o desenvolvimento de programas conjuntos 
de pesquisa entre Psicologia e Sociologia. Vários programas interdisciplinares têm 
início nesse período, em várias universidades. Esse fato em específico é de suma 
importância para o desenvolvimento da Psicologia Social na era moderna. Em 
muitas disciplinas, inclusive em Psicologia Social, a geração de estudantes de pós-
graduação após a guerra foi qualitativamente e quantitativamente rica.
É possível afirmar que foram muitos os fatores que moldaram e interferiram 
no desenvolvimento histórico da Psicologia Social. Acontecimentos da vida real 
podem e acabam tendo uma influência marcante e, muitas vezes, dramática no 
desenvolvimento histórico das disciplinas acadêmicas. Em relação à Psicologia 
Social isso não foi diferente. Para Cartwright (apud FARR, 1999, p. 24) “[...] se 
fôssemos obrigados a nomear uma pessoa que teve o maior impacto nesse campo, 
essa deveria ser Adolf Hitler”. O que fica claro é a importância e os grandes reflexos 
da Segunda Guerra Mundial para a Psicologia Social. 
Além dos estudos anteriormente citados, o próprio surgimento do nazismo 
na Alemanha fez com que vários intelectuais migrassem para a América, dentre 
eles, Kurt Lewin, Heider, Kohler, Wertheimer etc. Foi de particular importância 
a migração dos psicólogos da Gestalt da Áustria e da Alemanha para a América. 
A presença desses personagens e de muitos outros nos Estados Unidos, mais 
especificamente, foi crucial para o engrandescimento da Psicologia Social. 
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
24
Nesse sentido, ao buscarmos compreender a origeme as raízes da 
Psicologia Social, percebemos que, apesar de encontrarmos resquícios em toda 
a tradição ocidental, seu florescimento atual é reconhecido como um fenômeno 
caracteristicamente americano. As raízes são vistas como europeias e as flores 
como especificamente americanas. É nos Estados Unidos que ganha um status 
experimental e surge inclusive a primeira forma estruturada de Psicologia Social, 
conhecida como Psicologia Social Cognitiva. 
Embora entremos em maiores detalhes em um tópico posterior é importante 
deixar claro, nesse momento, que a Psicologia Social americana pode ser considerada 
uma forma psicológica de Psicologia Social. Embora seja incontestável que faça 
parte do nascimento da Psicologia Social a relação com a Sociologia e outras 
ciências sociais, o enfoque emergente tem uma natureza bastante individual, típica 
da tradição psicológica dominante da Psicologia Social nos EUA, e alvo de críticas 
por muitos que atestam seu caráter ideológico e mantenedor das relações sociais 
existentes, ou seja, uma Psicologia claramente conservadora.
ESTUDOS FU
TUROS
As características bem como as diferenças entre as considerada Psicologia social 
psicológica e a Psicologia social sociológica serão abordadas em breve quando buscarmos 
compreender as diferentes “psicologias” sociais: Psicologia social cognitiva e Psicologia 
sócio-histórica.
3 A PSICOLOGIA SOCIAL NO BRASIL
FIGURA 7 – PSICOLOGIA SOCIAL NO BRASIL
FONTE: Disponível em: <http://ucha.blogia.com/2009/061601-psicologia-do-esporte-no-brasil-
uma-historia-a-ser-contada....php>. Acesso em: 1 nov. 2011.
TÓPICO 2 | A INVENÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL
25
No Brasil, semelhante ao que ocorreu em toda a América Latina, a 
influência maior na Psicologia foi a norte-americana. É pertinente a afirmação 
de que a primeira obra em Psicologia Social foi publicada em 1921. De autoria de 
Francisco José de Oliveira Viana e intitulada “Pequenos estudos de Psicologia”, 
foi composta de vários artigos, dentre eles alguns com temas enfatizando o meio 
social e o meio político. 
É importante ressaltar que nessa época já havia um pensamento psicossocial 
no Brasil. Dentre os autores mais relevantes, destacam-se, ainda no século XIX 
e na passagem para o século XX, Sylvio Romero, Raimundo Nina Rodrigues e 
Manoel Bomfim, todos frutos de um momento no qual se tinha o predomínio das 
ideias positivistas de forma bastante evidente. O regime escravocrata era uma 
questão bastante discutida em suas obras.
IMPORTANT
E
Positivismo: termo complexo e com reflexos em várias áreas, designa uma 
corrente de pensamento que prevê que a ciência é a única explicação legítima da realidade. 
A Psicologia, assim como nas demais ciências humanas defende a noção de que se deve 
adotar os mesmos métodos nas ciências da natureza, como a objetividade e a mensuração.
Na década de 30 surgem os primeiros cursos superiores em Psicologia 
Social, dos quais se destaca o ministrado em 1935 por Arthur Ramos e que resultou 
na edição do livro “Introdução à Psicologia Social”, em 1936. 
Ao tentar compreender a origem da Psicologia Social no Brasil, exercício 
interessante é, primeiramente, analisar o que a Psicologia buscou explicar e fazer 
através dos tempos. Antunes (1999) expõe que já no Brasil Colonial encontramos 
estudos sobre fenômenos psicológicos embutidos em outras áreas, como: Teologia, 
Pedagogia, Política e Arquitetura. 
A produção daquele momento se debruçava sobre o estudo das emoções, 
sentidos, autoconhecimento, adaptação ambiental, diferenças raciais, entre 
outros temas. Escritos por autores de formação jesuítica, a intenção claramente 
detectável era a de contribuir para o controle dos indígenas.
Mais tarde, com a vinda da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, 
são muitas as alterações sociais associadas. O crescimento das cidades, sem 
infraestrutura e preparo apropriado, faz emergir problemas até então não tão 
alarmantes, como: doenças, miséria, prostituição e loucura. Surge uma demanda 
de serviços até então inexistentes, como: educação em seus diversos níveis. 
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
26
É nesse período (século XIX) que se desenvolvem, no país, as ideias de 
saneamento (físico e moral) e higienização das cidades. Os conteúdos psicológicos 
aparecem nas produções médicas para caracterizar as doenças mentais e morais 
presentes nas prostitutas, nos pobres e nos loucos. É o período da criação dos 
grandes hospícios. Buscava-se uma sociedade livre da desordem e dos desvios.
O final do século XIX trouxe a República e no século XX tem-se a 
modernização da sociedade brasileira, a Psicologia começa a se separar como 
área. Acontece a efetivação da Psicologia enquanto ciência autônoma e a produção 
da Psicologia se atém à Educação, as escolas transformam-se em verdadeiros 
laboratórios e surge o movimento chamado Escola Nova.
IMPORTANT
E
Escola Nova foi o nome dado ao movimento que ganhou impulso na década 
de 1930 que pregava a Educação como elemento-chave para o crescimento do país. Buscou 
uma renovação na Educação a partir da defesa de métodos ativos e criativos, diferente do 
que era feito até então.
As ideias psicológicas nesse período podem ser caracterizadas pelo 
interesse em diferenciar as pessoas, pois a predominância é a de que as 
capacidades são inerentes ou não aos indivíduos. Com esse intuito, percebe-se 
o desenvolvimento dos testes psicológicos, instrumentos que permitiam essa 
prática diferenciadora e categorizadora da Psicologia. O chavão “o homem certo 
no lugar certo” também está presente, principalmente associado à Administração 
e à gestão do trabalho, no qual se busca, a todo custo, a seleção de trabalhadores 
para as empresas.
Em síntese, para Bock (2003), temos o controle como marca fundamental 
no período colonial, a higienização no início do século XIX e a diferenciação no 
século XX. Já no século XX a institucionalização da Psicologia torna-se evidente 
e, em 1962, tem-se como marco a Lei nº 4.119, que regulamentou a profissão no 
país. Nos anos que se seguem, proliferaram, no país, os cursos de Psicologia, 
associações profissionais e científicas, assim como a abertura de campos de 
trabalho, indicando que a Psicologia passa a se desenvolver com vigor.
Diante do que foi colocado até então, fica claro que a tradição da Psicologia 
no Brasil foi marcada por um compromisso com as elites, a partir da constatação 
de que o interesse maior era controlar, higienizar, categorizar e diferenciar, 
objetivos claramente de uma minoria e necessários à manutenção e/ou incremento 
do lucro, dentre outros interesses secundários. 
TÓPICO 2 | A INVENÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL
27
Assim, a Psicologia se institui como uma ciência extremamente 
conservadora, pouco ou praticamente nada preocupada com qualquer tipo 
de projeto de transformação social. Adotou no seu início uma perspectiva 
essencialmente naturalizante de homem e de seu desenvolvimento psíquico 
(BOCK, 2003).
UNI
Você deve se perguntar: o que significa isso? Vamos lá!
O que fica evidente até esse momento é uma concepção de fenômeno 
psicológico como algo possível de ser explicado a partir do próprio sujeito. O 
fenômeno psicológico pode ser considerado naturalizado e universal, por se ter 
a prevalência da ideia de que está em todos nós, ao nascermos, e se desenvolverá 
conforme o homem for entrando em contato com o meio no qual está inserido. 
Essa concepção teve como resultado uma Psicologia de costas para a realidade 
social, já que naquele momento não se sentiu necessidade de fazer referência ao 
cotidiano vivido pelas pessoas, à cultura, às relações sociais, para compreender o 
mundo psíquico. Nessa concepção predominante até então, a sociedade não tem 
papel algum, já que é vista como algo externo ao sujeito, que nada tem a ver com 
seu desenvolvimento.
Nesse sentido aPsicologia se instituiu na sociedade como uma profissão 
basicamente corretiva, utilizada apenas quando desvios ou patologias fossem 
detectados. Caso tudo esteja bem, é sinal de que a natureza fez o seu trabalho e não há 
necessidade da contribuição da área. A Psicologia nasce, então, associada a patologias, 
desvios, doenças, conflitos, desequilíbrios e desajustes, pouco contribuindo para a 
qualidade de vida ou mesmo promoção de saúde da maioria da população.
As coisas começam a mudar no final da década de 70 diante dos novos 
acontecimentos sociopolíticos, como a luta pela redemocratização do país, as 
grandes greves operárias e a ascensão dos movimentos sociais, sobretudo como 
forma de protesto à ditadura militar. 
Na Psicologia ocorre a criação de vários sindicatos e os conselhos da 
categoria passam a ser ocupados por grupos mais progressistas. A partir desse 
momento é dada a largada para um período em que a Psicologia e os próprios 
psicólogos se perguntarão sobre a relação de seu trabalho ou do próprio fenômeno 
psicológico com a realidade social. A preocupação e a importância dadas à 
realidade social passam a ser algo inusitado, o que impulsiona o desenvolvimento 
da Psicologia social de forma importante. Nessa perspectiva, a grande divergência 
está em defini-la enquanto uma área ou campo da Psicologia ou uma perspectiva 
em disputa com a própria Psicologia, pressupostos e fazeres predominantes.
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
28
Assim, como afirmam Bock, Furtado e Teixeira (2002), a Psicologia 
Social, como área do conhecimento, passa a estudar o psiquismo humano, objeto 
da Psicologia, agora por uma nova ótica, tentando compreender como se dá a 
construção da subjetividade a partir das relações sociais vividas pelo homem. 
O mundo objetivo passa a ser visto como um fator a ser levado em conta 
ao buscar compreender o psiquismo humano. Esse enfoque, distinto da Psicologia 
“tradicional”, justificou o surgimento dessa nova área da Psicologia: a Psicologia 
Social, que no Brasil, principalmente na década de 80, buscou autonomia científica, 
com um aumento significativo de estudos realizados. Nessa década, ainda, foram 
criados os primeiros cursos de doutorado específicos na área, várias associações 
científicas, dentre elas a Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), 
em julho de 1980.
Segundo Bomfim (2003), muitos são os fatores relacionados ao surgimento 
e à produção de conhecimento em Psicologia Social no Brasil. A autora destaca 
três: o progresso de áreas afins, como: Sociologia, Antropologia, Educação, dentre 
outras; o avanço da Psicologia Social em países da Europa, nos Estados Unidos 
e, mais recentemente, na América Latina; e, ainda, as condições nacionais que, 
aliadas às novas demandas, abriram caminho nesse campo do conhecimento, 
agora um enfoque psicossocial.
TÓPICO 2 | A INVENÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL
29
LEITURA COMPLEMENTAR
Por que a Psicologia Social é considerada uma subdisciplina da Psicologia? 
Questão importante, sim, pois como uma especialidade pode ser entendida na 
diversidade a partir de um tronco comum. Se voltarmos ao seu desenvolvimento, 
descobriremos que no seu início, não só na Europa ou nos Estados Unidos, mas 
também em diversos países latino-americanos, as menções de algo como uma 
Psicologia Social ou que represente temas considerados como próprios a ela, era 
produzida por pessoas que pertenciam não só à Psicologia, mas também e com 
muita frequência à Sociologia, à Filosofia Social, ao campo da Ciência política ou 
da História e da Antropologia. 
Sociólogos como Gabriel Tarde e Émile Durkheim, na França do final do 
século XIX e início do século XX, fizeram importantes contribuições à Psicologia 
coletiva. No entanto, para muitos, Augusto Comte ainda é considerado o 
antecessor. 
Na história da Psicologia Social estadunidense, aparecem como fundadores 
um psicólogo, W. McDougall, e um sociólogo, E. Ross. O interacionismo 
simbólico tem início com a obra de um filósofo: G. H. Mead; e na segunda metade 
do século XX, Stryker já alardeava a existência social de uma Psicologia social 
psicológica e outra sociológica. Para fazer uma história breve, cabe dizer que 
quase todos os temas abordados pela Psicologia Social se enriquecem com os 
aportes provenientes de outras ciências sociais, com as quais mantém diálogos 
frutíferos, ou seja, é certo que a história dessa disciplina pode ser contada desde 
dentro, mas também de fora dela mesma. Se as origens da Psicologia social são 
pluridisciplinares, então, como são suas fronteiras? São claras essas fronteiras?
FONTE: Montero apud Mayorga; Prado (2007, p. 8)
UNI
No texto a seguir, você perceberá que a Psicologia Social não é uma área 
totalmente nova, mas sim um novo recorte feito e com semelhanças e diferenças um 
tanto confusas em relação a outras ciências humanas. Fique atento a esta peculiaridade da 
Psicologia Social e que servirá como uma primeira reflexão do que trataremos no próximo 
tópico, em que procuraremos conceituá-la, diferenciá-la de áreas afins, assim como delimitar 
seu objeto de estudo.
30
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico são trazidas algumas informações a respeito da origem 
da Psicologia Social, sendo que as informações mais significativas podem ser 
resumidas nos seguintes itens:
l	A Psicologia Social tal qual a conhecemos hoje surge a partir de uma necessidade 
histórica.
l	Tem-se como marco inaugural da Psicologia Social a publicação, em 1908, de 
“Social psychology”, pelo sociólogo Edward A. Ross, e “An introduction to social 
psychology”, pelo psicólogo William McDougall.
l	A Psicologia social cognitiva, assim como a Psicologia social moderna, é 
principalmente um produto do após-guerra.
l	No Brasil, a primeira obra em Psicologia Social data de 1921, embora a Psicologia 
Social enquanto área do conhecimento tenha crescido e se desenvolvido de 
forma significativa na década de 70, a partir da vinculação do fenômeno 
psicológico com a realidade social.
31
1 A partir do que foi colocado até então, relate os marcos de início da Psicologia 
Social no mundo e no Brasil. Feito isso, exponha os momentos históricos 
que alavancaram seu desenvolvimento e acabaram por contribuir para seu 
formato atual.
AUTOATIVIDADE
DICAS
Para um aprofundamento destes temas, sugiro que você leia o seguinte livro:
BRAGHIIROLLI, E. Psicologia geral. Petrópolis: Vozes, 2004.
32
33
TÓPICO 3
A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
FIGURA 8 – PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
FONTE: Disponível em: <http://carlospsicologo.blogspot.com/>. Acesso em: 1 nov. 2011.
O estudo dos processos mentais (cognição) se dá em várias áreas da 
Psicologia e inclusive na Psicologia Social. De base norte-americana, a Psicologia 
social cognitiva é a primeira vertente de Psicologia Social existente, tendo como 
principal representante, no Brasil, Aroldo Rodrigues. A seguir, compreenderemos 
melhor as características desta Psicologia Social, origem, principais conceitos e 
sobre que tipo de questões ela vem se preocupando recentemente. 
34
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
2 O MODELO ESTADUNIDENSE DE PSICOLOGIA SOCIAL
FIGURA 9 – REESTRUTURAÇÃO COGNITIVA
FONTE: Disponível em: <http://psicomental.com/category/emocoes/page/4/>. Acesso em: 1 
nov. 2011.
Em se tratando de Psicologia, não só Psicologia Social, é fato que o modelo 
estadunidense influenciou significativamente a Psicologia brasileira a partir de 
1930, buscando dar a ela um caráter de neutralidade e, com isso, automaticamente, 
levou-a a certo afastamento da realidade social, o que mais tarde inclusive será 
alvo de críticas ferrenhas.
ESTUDOS FU
TUROS
A chamada crise da relevância da Psicologia Social será aprofundada no tópico 
seguinte, ao entrarmos em contato com a outra vertenteda Psicologia Social, a Psicologia 
sócio-histórica.
Essa Psicologia Social que nos referimos é denominada Psicologia social 
cognitiva e, como afirma Vilela (2007), seus princípios situam-se em F. Alport e 
são institucionalizados pelos discípulos de K. Lewin. 
Kurt Lewin (1890-1947), dentre outras coisas, pensou a dinâmica de 
grupo como um dispositivo facililtador da pesquisa-ação, daquela que produz 
conhecimento ao mesmo tempo em que intervém no campo em análise. Buscou 
explorar as consequências psicológicas dos fenômenos em grupo e, nesse sentido, 
a pesquisa em Psicologia Social ainda hoje se inspira nas suas descobertas e 
teorias. O estudo de pequenos grupos, segundo ele, permitiria que se pudesse 
TÓPICO 3 | A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
35
esclarecer questões mais macro a respeito dos fenômenos grupais presentes na 
nossa sociedade. Devido a essa iniciativa, foi um dos responsáveis a tornar a 
Psicologia Social uma ciência experimental. 
Como colocado na introdução, no Brasil, o principal nome e difusor da 
Psicologia social cognitiva é Aroldo Rodrigues, psicólogo formado na primeira 
turma da PUC-Rio. Inicia sua carreira acadêmica com pós-graduação nos 
Estados Unidos. Entre o final dos anos 60 e início dos anos 80, firma-se como 
um importante personagem da Psicologia Social, defendendo a neutralidade e o 
apolitismo da mesma. 
É a partir do trabalho de F. H. Allport que se estabelece uma dicotomia 
que se tornou clássica: a distinção entre uma Psicologia social psicológica e uma 
Psicologia social sociológica. A Psicologia social cognitiva é considerada uma 
espécie de Psicologia social “psicológica”, pois é centrada no indivíduo, em seus 
processos cognitivos e/ou em seu comportamento e, recentemente, volta-se ao 
estudo das emoções e aos processos internos. 
O que fica evidente nesse enfoque é uma ênfase no indivíduo em 
detrimento a aspectos externos/sociais. A sociedade é um elemento ou fator 
“a mais” a ser levado em conta, uma espécie de coadjuvante dos fenômenos e 
processos individuais. Outra forma de explicar o significado dessa terminologia é 
afirmar que a Psicologia social psicológica enfatiza prioritariamente os processos 
psicológicos individuais, compreendendo o social como um mero somatório de 
indivíduos.
DICAS
A respeito da distinção entre a chamada Psicologia social psicológica e 
Psicologia social sociológica, obra que permitiu ampla divulgação no Brasil dessa distinção é 
a publicação brasileira de Raízes da Psicologia social, de Robert Farr (1998).
Esse enfoque da Psicologia Social fica claro na própria definição de 
Psicologia Social trazida por Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999, p. 21) no qual, 
segundo esses autores, a “Psicologia Social é o estudo científico da influência 
recíproca entre as pessoas (interação social) e do processo cognitivo gerado por 
esta interação”. Embora se fale em interação social, o foco está no indivíduo 
que reage a esse processo, o foco está nos processos cognitivos decorrentes da 
interação social pura e simplesmente. 
36
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
3 ALGUNS CONCEITOS FUNDAMENTAIS
FIGURA 10 – HUMOR E COGNIÇÃO
FONTE: Disponível em: <http://www.antidrogas.com.br/mostraartigo.
php?c=607&msg=Efeitos%20dos%20ester%F3ides%20sobre%20o%20humor%20e%20a%20
cogni%E7%E3o>. Acesso em: 1 nov. 2011.
Em se tratando de Psicologia Social Cognitiva, é necessário entender 
alguns conceitos de suma importância para a compreensão dessa vertente da 
Psicologia Social, assim como para se ter ideia das questões que ela costuma se 
ater em seus estudos. 
Dentre os vários conceitos, destacam-se: percepção ou cognição social, 
atitudes, influência social e papéis sociais. A seguir, nos aproximaremos dessas 
terminologias presentes no vocabulário dessa ênfase em Psicologia Social.
3.1 PERCEPÇÃO OU COGNIÇÃO SOCIAL
FIGURA 11 – COGNIÇÃO SOCIAL
FONTE: Disponível em: <http://popteen-lna.blogspot.com/2011/05/beneficos-da-danca.html>. 
Acesso em: 1 nov. 2011.
TÓPICO 3 | A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
37
Quando nos encontramos com o outro, um dos primeiros processos 
desencadeados é o da percepção social. Percebemo-nos um ao outro, o que nos 
possibilita ter uma impressão dele. A partir de nossos contatos com o mundo, 
vamos organizando essas informações em nossa cognição (organização do 
conhecimento no nível da consciência) e é essa organização que será a responsável 
e nos permitirá compreender o que nos rodeia. 
Assim, como exemplo, se vermos uma pessoa de calça jeans, camiseta, 
tênis e com cadernos e livros nas mãos, essas informações nos levarão a pensar que 
esse indivíduo é um estudante. E assim sucessivamente, tendemos a categorizar 
e a classificar os eventos que nos rodeiam a partir da nossa forma de “enxergar” 
os mesmos. Vale ressaltar que essa forma, princípio particular de cada um ver e 
interpretar as coisas, não é algo tão particular ou individual como imaginamos. 
Somos sobrecarregados de informações no cotidiano que nos fazem 
julgar o que é certo e errado, feio e bonito. Utilizando como exemplo esses dois 
adjetivos, consideramos certo ou bonito o que é “normal” e errado ou feio aquilo 
que é “anormal”. Somos tomados por padrões e regras sociais que, na maioria das 
vezes, sem nos darmos conta, nos induzem a termos determinadas convicções. 
NOTA
Pouco refletido, o conceito de “normal” e “anormal” pode ter vários significados. 
O significado mais comum é o da chamada normalidade estatística. É considerado “normal” 
o que é mais comum, o que ocorre com maior frequência, e “anormal” o que é raro ou pouco 
frequente.
Termo com significado semelhante é o de cognição social, trazido por 
Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999). Esse pode ser entendido como o estudo 
de como as pessoas fazem inferências a partir da informação obtida no ambiente 
social. 
A partir do nosso processo de socialização (intercâmbio com pessoas 
na família, escola e demais instituições), acabamos coletando informações, 
processando as mesmas e, por último, fazemos julgamentos. Nesse sentido, 
cognição social se refere a esse processo cognitivo no qual, em contato com o 
ambiente social que nos circunda, acabamos formando uma ideia de nós mesmos 
(autoconceito) e categorizamos tudo que está ao nosso redor. 
Em relação à percepção social, voltada para o que está ao nosso redor, 
o que está despertando maior interesse nos psicólogos sociais é o fenômeno de 
como percebemos as outras pessoas, muito mais do que como percebemos as 
coisas. Assim, rotulamos pessoas e grupos (João é mau caráter, italianos são 
38
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
“pães-duros”), discriminamos (os velhos tem ideias tradicionais, as mulheres 
não têm algumas habilidades), esperamos que determinados profissionais ajam 
de uma forma preestabelecida (bibliotecários são meticulosos, matemáticos são 
um tanto “loucos”), ou, então, com base nas primeiras impressões que temos, 
tendemos a elaborar teorias a respeito da personalidade das pessoas, o que fará 
com que aceitemos com facilidade tudo aquilo que confirme nossas teorias e a 
rejeitar qualquer informação contrária ao que nós pressupomos. 
Em relação ao autoconceito, para a Psicologia Social é de particular 
relevância a influência da interação social na formação do mesmo. Sempre fomos 
e somos avaliados pelos outros e isso nos dá, em certa medida, a consciência do 
que somos. Para sabermos quem somos “por dentro”, é preciso que dirijamos 
nosso olhar para “fora” de nós. Nossas crenças a respeito de nós mesmos são em 
grande parte resultado do processo de interação social a que estamos submetidos 
diariamente em nossas vidas.
Os psicólogos sociais têm estudado esse processo de constituição das 
nossas impressões sobre nós mesmos e em relação ao que nos rodeia, seja 
utilizando o termo percepção social ou cogniçãosocial. Esses termos denotam 
claramente o quão social são as nossas percepções e compreender a raiz das 
mesmas é tarefa árdua, que cabe à Psicologia Social realizar.
3.2 ATITUDES
FIGURA 12 – ATITUDES
FONTE: Disponível em: <http://www.blogbrasil.com.br/atitudes-femininas-que-podem-fazem-
um-homem-desistir-do-relacionamento/>. Acesso em: 1 nov. 2011.
Um dos conceitos mais explorado, ao se referir à Psicologia social 
cognitiva, é o de atitudes. Diferentemente do senso comum, que a compreende 
como comportamento, ação, ou seja, nós tomaríamos atitudes, para a Psicologia 
Social nós desenvolvemos atitudes (crenças, valores, opiniões, sentimentos) em 
relação ao que nos rodeia.
TÓPICO 3 | A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
39
Para Bock, Furtado e Teixeira (2002), a partir da percepção que temos do meio 
social e dos outros, o indivíduo vai organizando essas informações e relacionando-
as com afetos (positivos ou negativos) e desenvolvendo uma predisposição para 
agir (favorável ou desfavoravelmente) em relação às pessoas e aos objetos presentes 
no meio social. A essas informações, com forte carga afetiva e que predispõem o 
indivíduo para uma determinada ação, dá-se o nome de atitudes. Atitudes seriam, 
então, sentimentos pró ou contra pessoas ou coisas com quem entramos em contato. 
Segundo Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999, p. 98), atitude social seria “[...] uma 
organização duradoura de crenças e cognições em geral, dotada de carga afetiva 
pró ou contra um objeto social definido, que predispõe a uma ação coerente com as 
cognições e afetos relativos a este objeto”. Essas atitudes, em sua grande parte, são 
aprendidas e servem para nos ajudar a lidar com o ambiente social.
Fica evidente que as atitudes são anteriores à ação. Nossas ações teriam 
relação direta com as atitudes que temos. Se tivermos uma atitude positiva 
em relação à determinada pessoa, por exemplo, é bastante provável que 
nosso comportamento em relação à mesma seja amistoso, a trataremos bem. 
Vale a ressalva de que nem sempre temos uma relação direta entre atitude e 
comportamento, nem sempre é possível prevermos o comportamento de alguém 
a partir do conhecimento de sua atitude. Nosso comportamento é resultante 
também da situação dada, ao contexto na qual nos encontramos com os outros. A 
título de exemplificação, imaginemos uma situação na qual estamos extremamente 
atrasados para algum compromisso importante. Com essa variável, é bastante 
provável que você não se comporte da forma prevista em relação ao seu melhor 
amigo ao encontrá-lo na rua. A situação, nesse momento, apresenta elementos 
que interferem no comportamento esperado.
Segundo Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), embora existam inúmeras 
formas de conceituar atitude, as atitudes sociais contam com três componentes 
claramente discerníveis: o componente cognitivo, o componente afetivo e o 
componente comportamental.
O componente cognitivo diz respeito à representação cognitiva que criamos 
a respeito das coisas. As crenças, o conhecimento, a maneira de “ver” ou “encarar” 
o objeto em questão constituem o componente cognitivo da atitude. Para que se 
tenha uma carga afetiva pró ou contra alguma coisa é necessário que tenhamos 
alguma representação cognitiva a respeito. Pensando em pessoas preconceituosas, 
é evidente que é necessário que tenham uma série de cognições a respeito do grupo 
que é objeto de discriminação. Alguém que não gosta de índios vê sentido esse 
parecer por considerá-los selvagens, ameaçadores, preguiçosos etc., por exemplo.
O componente afetivo pode ser definido como o sentimento pró ou contra 
um determinado objeto social, é o componente característico das atitudes sociais. 
O componente cognitivo e o comportamental são apenas importantes para que 
se tenha acesso às atitudes propriamente ditas (sentimentos envolvidos). O 
componente afetivo, então, dá uma conotação afetiva às coisas e nos leva ao 
componente comportamental.
40
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
Posição aceita por grande parte dos psicólogos sociais é a de que as atitudes 
possuem um componente ativo e coerente com as cognições e afetos envolvidos, o 
chamado componente comportamental. As atitudes (componente afetivo) seriam 
a força motivadora para a ação e a relação entre atitude e o comportamento acaba 
por ser um dos grandes campos de interesse da Psicologia Social. 
Apesar de serem relativamente estáveis, as atitudes podem ser modificadas. 
A partir do que foi colocado até então, dá-se, para a Psicologia social cognitiva, ao 
elemento cognitivo, um papel fundamental. A mudança no elemento cognitivo 
resultará em mudança no componente afetivo e no comportamental. Se pegarmos 
como exemplo a ação preconceituosa em relação aos negros percebe-se que o 
elemento-chave está nas crenças construídas em relação a esse grupo. Percebidas 
que as crenças não têm sentido, serão modificados os componentes afetivos e os 
comportamentos relacionados, a discriminação em si. A seguir, a relação entre os 
três componentes:
QUADRO 3 – RELAÇÃO ENTRE OS TRÊS COMPONENTES DAS ATITUDES
Componente cognitivo → Componente afetivo (atitude propriamente dita) → Componente comportamental
FONTE: O autor
É importante ressaltar, como expõem Bock, Furtado e Teixeira (2002), 
que existe uma forte tendência a mantermos os componentes das atitudes em 
consonância. Informações positivas em relação às mulheres, por exemplo, 
levarão ao afeto positivo. Informação positiva e afeto positivo levarão a um 
comportamento favorável em direção a elas.
IMPORTANT
E
É chamado de dissonância cognitiva (teoria desenvolvida por Festinger) o 
processo no qual se tem crenças divergentes, cognições contraditórias, que estimulam a 
pessoa a substituir sua cognição, atitude ou comportamento, buscando um equilíbrio entre 
essas instâncias.
TÓPICO 3 | A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
41
3.3 PRECONCEITO, ESTEREÓTIPOS E DISCRIMINAÇÃO
FIGURA 13 – DISCUSSÃO
FONTE: Disponível em: <http://www.inclusive.org.br/?p=19051>. Acesso em: 1 nov. 2011.
Vamos agora buscar refletir a respeito de três termos que relacionados 
referem-se a comportamentos negativos direcionados a pessoas ou grupos 
específicos, baseados em um julgamento prévio mantido mesmo diante de fatos 
que mostrem a incoerência dos mesmos.
Pelo fato de o preconceito ainda estar bastante entranhado nas relações 
humanas, dilema decorrente é a sua origem. Embora a facilidade com que o 
adquirimos nos faça pensarmos que há uma predisposição inata, a aprendizagem 
pode ser responsabilizada em grande parte por este fenômeno.
É um fato que o preconceito não é fruto da nossa época. Ele talvez seja tão 
velho quanto a humanidade, como bem coloca Rodrigues (1999). Independente 
do momento no qual ele ocorre, o que é notório e bastante preocupante são os 
males decorrentes do mesmo. Temos como exemplo mais estarrecedor de todos 
o holocausto, momento em que milhões de judeus foram aniquilados, grupo 
politicamente indesejado pelo movimento nazista chefiado por Adolf Hitler. 
De forma bastante simplificada, pode-se afirmar que o preconceito 
revela-se por meio de comportamentos hostis contra indivíduos pelo fato de os 
mesmos fazerem parte de um grupo socialmente desvalorizado. Falamos então de 
preconceito contra as mulheres ou sexismo, preconceito contra os homossexuais, 
homofobia, preconceito contra os idosos ou ageísmo, etc. Dentre as várias formas 
possíveis de preconceito, destaca-se a que se dirige a grupos em função de 
características físicas ou fenotípicas herdadas: trata-se do preconceito racial ou 
étnico. Seja por raça, credo ou cor, qualquer grupo social (e não apenas minorias) 
pode ser alvo de preconceito. 
Segundo Rodrigues (1999), apenas por volta dos anos 20 é que o preconceito 
passa a ser uma questão discutida, principalmente pelo fato de que até esse 
momento praticamentetoda a comunidade científica americana e europeia partia 
da premissa de que realmente havia diferenças significativas entre as raças e que 
42
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
naturalmente algumas seriam inferiores a outras. As teorias da época buscavam 
comprovar a suposta inferioridade dos negros a partir de um “atraso evolutivo”. 
Somos diferentes não por questões culturais, mas por questões biológicas. Vários 
estudos justificavam as diferenças encontradas de desempenho entre brancos e 
negros a uma base genética diferente.
Conceitos estritamente relacionados com o de preconceito são o de 
estereótipo e discriminação. Embora haja tantas definições quanto estudiosos 
do tema, a maioria dos psicólogos sociais considera o estereótipo como a base 
cognitiva do preconceito e a discriminação como o componente comportamental. 
O preconceito estaria relacionado aos sentimentos negativos em relação a um 
grupo. Alguns teóricos consideram desnecessária essa divisão, já que o termo 
preconceito estaria relacionado a estes três componentes. De qualquer forma, 
para fins didáticos segue uma diferença possível, onde temos uma sequência 
lógica da esquerda para a direita. Os estereótipos levariam ao preconceito, que 
levaria à discriminação.
QUADRO 4 – POSSIBILIDADE DE DIFERENÇAS ENTRE OS TERMOS ESTEREÓTIPOS, 
PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO
Estereótipos 
(crenças irracionais)
Preconceito 
(sentimentos negativos)
Discriminação
(comportamento discriminatório)
FONTE: O autor
IMPORTANT
E
Como você pôde notar, o quadro acima tem relação direta com o conceito de 
atitudes apresentado anteriormente. Estão presentes os três componentes, componentes 
centrais para a compreensão do comportamento humano segundo a Psicologia social 
cognitiva.
O estereótipo estaria relacionado à nossa visão a respeito de determinado 
grupo. Rodrigues (1999), para exemplificar, cita a imagem que se tem em outros 
países de uma brasileira típica. Esta brasileira, cogitada por italianos, por exemplo, 
poderia ser mulata, sensual, com senso de ritmo, expansiva e carnavalesca, imagem 
construída a partir dos meios de comunicação de massa, dentre outras fontes de 
informação. Agora pense um pouco. Quantas brasileiras semelhantes a este relato 
você conseguiu detectar? O que fica evidente é que, muitas vezes, construímos 
crenças irracionais a partir de generalizações infundadas. Os psicólogos sociais 
costumeiramente se utilizam de lista de adjetivos para detectar estereótipos. 
TÓPICO 3 | A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
43
NOTA
O termo estereótipo normalmente é tido como sinônimo de representação 
social. O conceito de representação social será discutido na Unidade 3. Em se referindo a 
preconceito, parte-se do princípio de que os estereótipos se referem a crenças irracionais ou 
leituras incorretas da realidade, embora eles possam ser condizentes com a mesma. 
Gordon Allport (1954) é considerado um dos autores fundamentais na 
discussão a respeito do preconceito. Em sua obra “The nature os prejudice” ele 
expõe que estereotipar é fruto da “lei do menor esforço”. Dada a complexidade 
de entendimento de muitas coisas, não raramente preferimos economizar energia 
desenvolvendo opiniões baseadas em poucas informações ou informações 
duvidosas.
Conceito trazido por Allport como um processo bastante similar, um 
caso especial de estereótipo é a rotulação. A colocação de um rótulo de certa 
forma facilita nossos relacionamentos, ao permitir que antecipemos certos 
comportamentos. Quando rotulamos alguém de “folgado”, por exemplo, 
prevemos a forma desse sujeito se comportar diante de diversas situações. O 
grande problema deste fenômeno é que a atribuição de um rótulo ao nos predispor 
a pressupor comportamentos compatíveis com o rótulo dado pode distorcer 
nossa percepção. Tendemos a ignorar comportamentos que contradigam o rótulo 
imposto, bem como inconscientemente podemos induzir o rotulado a se comportar 
da maneira que esperamos. Em síntese, uma vez atribuído, tendemos a perceber os 
comportamentos da pessoa à luz do rótulo.
De forma geral, tomados por um certo otimismo, podemos dizer que 
o preconceito já não é o mesmo de outrora. Isso pode ser constatado inclusive 
experimentalmente, ao detectar que grupos historicamente discriminados 
começam a ser tratados de forma diferenciada. Entretanto, os progressos devem 
ser olhados com cautela. O preconceito pode ter se tornado apenas mais sutil, 
menos explícito, até porque foram gigantes os avanços legais na tentativa de 
barrar comportamentos dessa natureza. 
DICAS
A fim de melhor compreender as novas formas de expressão do preconceito e 
do racismo à luz da Psicologia social, vale a leitura do artigo referenciado a seguir: LIMA, M. E. 
O.; VALA, J. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estud. psicol. (Natal), 
Natal, v. 9, n. 3, Dec. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S1413-294X2004000300002&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 1 out. 2011. 
44
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
Na tentativa de se ter uma raça pura, foram realizadas verdadeiras 
atrocidades, nada compatíveis com o caráter racional do ser humano. Partindo 
do pressuposto de que a única coisa natural em se tratando de ser humano é 
a diferença, parece extremamente coerente não supormos comportamentos 
e características individuais a partir de “fachadas”. Se somos diferentes, nos 
fazemos diferentes nas relações que estabelecemos, melhores ou piores, e este 
deve ser o princípio primeiro para conseguirmos nos despir de certas amarras 
que historicamente nos envolvem.
3.4 INFLUÊNCIA SOCIAL
FIGURA 14 – INFLUÊNCIA SOCIAL
FONTE: Disponível em: <http://www.socialmib.com/>. Acesso em: 1 nov. 2011.
Como exposto por Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), um dos 
fenômenos mais corriqueiros no relacionamento interpessoal e por isso um 
dos fenômenos mais estudados pela Psicologia Social é o da influência social. 
A todo momento estamos sendo influenciados pelos outros e sendo por eles 
influenciados, inclusive nossas atitudes, conceito explorado no tópico anterior, 
são em grande parte influenciadas pelas pessoas que estão a nossa volta. 
Tal a importância da influência social para a Psicologia Social que, 
segundo Zadone (apud RODRIGUES; ASSMAR; JABLOSNKI, 1999, p. 179) a 
Psicologia Social pode ser caracterizada como “[...] o estudo da dependência e a 
interdependência entre as pessoas”. Em outras palavras, a Psicologia Social acaba 
por estudar exatamente isso, a influência recíproca entre as pessoas.
Em relação ao significado de influência social, podemos afirmar que 
está relacionado ao fato de uma pessoa induzir outra a um determinado 
comportamento. A diferença em relação a atitudes está no fato dela se referir a 
mudanças internas e não necessariamente comportamentais, como no caso da 
influência social.
TÓPICO 3 | A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
45
Robert Cialdini (apud RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 1999), em 
sua monografia, apresentou uma série de táticas utilizadas para influenciar as 
pessoas. A seguir serão apresentadas algumas delas.
l	Tática ou técnica do “um pé na porta”: é comum vendedores oferecerem 
brindes para que possam apresentar seus produtos. Uma vez com “um pé na 
porta” buscam persuadir para vender determinado produto ou serviço. Essa 
tática torna o recebedor predisposto a aceitar bem o vendedor.
l	Tática ou técnica da “bola baixa”: aqui o persuasor começa solicitando algo 
que leve a uma fácil adesão para depois apresentar outras ações que a pessoa 
tenha dificuldade de recusar. Normalmente se omitem algumas informações 
essenciais para que essa técnica funcione.
l	Tática ou técnica da “porta na cara”: essa técnica consiste em fazer um pedido 
que provavelmente será negado(porta fechada na cara), para em seguida fazer 
o pedido realmente desejado, o qual é muito mais modesto do que o que foi 
rejeitado.
l	Contraste perceptivo: o contraste perceptivo é utilizado como tática de 
influência social quando, por exemplo, um vendedor mostra ao cliente vários 
produtos bastante inferiores, antes de mostrar o que realmente quer vender. 
Baseado nos inferiores, o produto que quer ser vendido acaba adquirindo 
características muito mais atraentes.
l	Reciprocidade: fazendo um favor a alguém acabamos nos autorizando a 
solicitar favor igual ou semelhante no futuro.
Ao nos referirmos à influência social, não podemos esquecer que as bases 
de poder se mostram com um alto potencial de influência social. São exemplos 
de tipo de bases de poder: o poder de recompensa (influência exercida pela 
capacidade do influenciador em administrar recompensas), poder de coerção 
(uso de sanções por A, caso B não atenda ao solicitado), poder de referência (as 
pessoas podem desempenhar papel de ponto de referência positiva ou negativa), 
poder de conhecimento (a influência depende do reconhecimento de que o 
influenciador tem mais conhecimento a respeito) etc.
O conteúdo anteriormente apresentado demonstra as inúmeras 
possibilidades de estudo em se tratando de influência social. No campo da 
interação social, o tema “influência social” é presente e mais do que isso, 
indispensável, dada a sua importância.
46
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
3.5 PAPÉIS SOCIAIS 
FIGURA 15 – REDES SOCIAIS
FONTE: Disponível em: <http://www.i9socialmedia.com/as-redes-sociais-e-a-sua-saude>. 
Acesso em: 1 nov. 2011.
O último conceito que veremos é o de papel social. Quando pensamos 
na sociedade como um todo, percebemos que ela pode ser entendida enquanto 
um conjunto de posições sociais (médico, professor, aluno, filho, pai etc.). 
Segundo Newcomb (apud CORNICK; SAVOIA, 1989, p. 51) “[...] papel social 
consiste de expectativas de comportamento, ou seja, como devemos nos portar 
de acordo com a função ou status que temos em um grupo social”. Denomina-se 
papel prescrito as expectativas de comportamento estabelecidas pelo conjunto 
social para os ocupantes de diferentes posições sociais. Os comportamentos 
desempenhados são chamados, pela Psicologia Social, de papel desempenhado. 
Tais comportamentos podem ou não estar de acordo com os papéis prescritos. 
Quando esses dois aspectos não coincidem, percebe-se que há um entrave no 
processo de interação social.
Desenvolvemos, em nossas vidas, simultaneamente, múltiplos papéis, 
sendo que eles se inter-relacionam e alguns acabam tendo menor e outros, maior 
importância. No processo de socialização, configuramos nosso conjunto de papéis. 
Munné (apud CORNICK; SAVOIA, 1989), para exemplificar como em nossas 
vidas podemos nos deparar com os conflitos de papéis, traz a seguinte situação: 
imaginemos um honrado e prestigiado militar, pai de família, além de jogador 
de golfe, vizinho, católico praticante etc. No caso do seu filho ser chamado para 
a guerra ele poderia usar sua influência e conseguir evitar esse fato a partir da 
convicção de que um pai deve proteger os filhos, no entanto seu senso de dever 
militar lhe prescreve outra coisa. Temos duas condutas contrárias (a prescrita pelo 
papel familiar de um lado, e a exigida pelo papel militar), nesse caso, prevalecerá 
TÓPICO 3 | A PSICOLOGIA SOCIAL COGNITIVA
47
aquela que for dada maior importância pelo sujeito. Os diferentes papéis sociais 
que desempenhamos deixam clara nossa enorme plasticidade de nos adaptarmos 
a diferentes situações, comportando-nos de forma diferente em cada uma delas.
É importante termos consciência que, além dos papéis, também o status é 
nos ensinado pelo processo de socialização. O status é uma forma de imagem social 
que um indivíduo recebe de seus pares a partir de uma comparação social feita 
com os demais membros da sociedade. As fontes de status são diversas, como: sexo, 
raça, religião e, foco do nosso estudo, os papéis sociais assumidos. Comparando 
os dois conceitos, podemos dizer que papel se refere a comportamento, realização 
de ação, já status é o prestígio que se tem a partir do papel desempenhado.
Nos dias de hoje esse tema é mais do que atual, haja vista que se 
percebem mais do que nunca os chamados conflitos de papéis. Esses acabam 
podendo ser explicados por inúmeros fatores, dentre eles, a proliferação de 
papéis recentemente, a existência de inconsistência nos papéis, como no caso dos 
adolescentes que agem como crianças em determinadas situações e como adultos 
em outras, assim como a própria evolução dos papéis, como no caso do papel da 
mulher contemporânea (CORNICK; SAVOIA, 1989).
Encerramos, nesse momento, a apresentação da Psicologia social cognitiva, 
que se volta à compreensão do papel ativo do homem em reagir aos estímulos do 
meio, interpretando correta ou distorcidamente, antes de responder aos mesmos. 
Alvo de críticas contribuiu para que surgisse uma nova Psicologia Social e nessa 
entraremos em contato a seguir.
48
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
LEITURA COMPLEMENTAR
PERCEPÇÃO E ESQUEMAS COGNITIVOS DA PESSOA
H. Gleitman
D. Reisberg
J. Gross
Sempre que fazemos atribuições causais, vamos além das informações 
disponíveis aos nossos sentidos, preenchendo as lacunas com nossas expectativas. 
Isso é evidente no fato de que diferentes pessoas fazem diferentes atribuições para 
o mesmo comportamento, cada uma interpretando as evidências à sua maneira. 
Essa variação de um observador para outro deixa claro que a atribuição, na 
verdade, está no olho de quem vê, e não se baseia diretamente nos comportamentos 
que observamos.
As mesmas questões surgem quando consideramos o amplo processo 
pelo qual, dito de forma simples, tentamos entender outra pessoa, ou seja, 
perguntamos a nós mesmos: “Que tipo de pessoa ela é?”. Às vezes, fazemos essa 
pergunta ampla, porque estamos tentando obter uma sensação geral de como 
uma pessoa é – talvez porque estejamos avaliando a pessoa como uma possível 
colega de quarto, um possível amigo ou empregado. Porém, também podemos 
fazer a pergunta ampla como parte do processo atributivo (p. ex., “Por que ele 
está atrapalhado hoje? Será que ele sempre é atrapalhado?” Todavia, em todos 
os casos, fazemos essas avaliações gerais de modo que, mais uma vez, nos leva 
muito além das informações disponíveis, forçando-nos a usar todo tipo de atalhos 
e regras gerais em nossas interpretações.
FONTE: GLEITMAN, H.; REISBERG, D.; GROSS, J. Psicologia. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009, p. 472-473.
UNI
Segue um texto importante por tratar sobre “cognição”, elemento--chave para a 
compreensão do que é e dos objetivos da Psicologia social cognitiva.
49
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, não se esqueça que:
l	A Psicologia Social Cognitiva consiste no primeiro formato de Psicologia Social 
existente e é de base americana.
l	A Psicologia Social Cognitiva é considerada uma espécie de Psicologia social 
psicológica por centrar seus estudos prioritariamente no indivíduo, em seus 
processos cognitivos, comportamentos e processos internos.
l	São inúmeras as questões da qual se ocupa a Psicologia Social Cognitiva, dentre 
elas se destacam os fenômenos da percepção ou cognição social, atitudes, 
preconceito, influência social e papéis sociais.
50
1 A partir das questões apresentadas neste tópico, procure definir cognição, 
bem como alguns processos frequentemente estudados pela Psicologia Social 
cognitiva: percepção ou cognição social, atitudes, preconceito, influência social 
e papéis sociais.
AUTOATIVIDADE
DICAS
Para um aprofundamento destes temas, sugiro que você leia os seguintes livros:
EYSENCK, Michael W.; KEANE, Mark T. Manual de psicologia cognitiva. 5. 
ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.
LANE, SíviaT. M. (Org.); CODO, Wanderley (Org.); ANDREY, Alberto A.; 
NAFFAH NETO, Alfredo; CIAMPA, Antônio da C.; ...[et al.]. Psicologia social: 
o homem em movimento. São Paulo: Brasiliense, 2004.
51
TÓPICO 4
A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
FIGURA 16 – PROCESSO GRUPAL E PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
FONTE: Disponível em: <http://psicologiaereflexao.wordpress.com/2011/03/07/identidade-
processo-grupal-e-psicologia-socio-historica/>. Acesso em: 26 mar. 2012.
Para encerrar esta unidade, conheceremos a chamada nova Psicologia 
Social, que surge enquanto crítica à Psicologia Social Cognitiva ou Psicologia 
Social Norte-americana, que conhecemos no tópico anterior. Conhecida como 
Psicologia Sócio-histórica, ela propõe uma Psicologia Social distinta, com um 
objeto de estudo e um método de análise diferenciado, assim como prega um 
compromisso social até então inexistente. Essas e outras questões serão abordadas 
a seguir.
52
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
2 A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA PSICOLOGIA SOCIAL
FIGURA 17 – DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO
FONTE: Disponível em: <http://insightsdapsicologia.blogspot.com/2010/12/desenvolvimento-
psicologico-segundo.html>. Acesso em: 26 mar. 2012.
É fato que por muito tempo teve-se a hegemonia da Psicologia social 
cognitiva em todo o mundo, no entanto, a partir dos anos de 1960 são colocados 
em xeque muitos dos seus pressupostos, o que foi chamado de “crise de relevância 
da Psicologia Social”.
Vilela (2007) propõe-se a refletir sobre algumas questões, destacando duas, 
e que são centrais para compreendermos melhor esse momento específico: a que se 
refere essa crise? O que seria a tão falada relevância da Psicologia Social? Segundo o 
mesmo autor, as críticas se dirigem tanto à metodologia da Psicologia Social quanto 
às formas de teorização até então utilizadas. 
Em relação a esses dois aspectos, questiona-se o método experimental, 
sobretudo pela artificialidade da situação experimental que, na maioria das 
vezes, não dá conta de simular as inúmeras variáveis que acabam estando 
presentes no dia a dia dos sujeitos pesquisados. Sobretudo em Psicologia Social, 
questiona-se o método experimental no sentido de, a partir dele, poderem ser 
feitas generalizações confiáveis. Em relação à relevância social, é afrontado o 
modelo estadunidense, que defende a chamada neutralidade e o afastamento 
da realidade social. Esse modelo ficou claro na Psicologia social cognitiva que 
acabou “virando as costas” para os problemas sociais que se colocavam nesse 
período e pouco comprometida com a transformação social. 
O problema principal, nesse caso, seria a relevância social, a aplicabilidade 
da Psicologia às questões sociais emergentes. A partir dessa crítica, tem-se uma 
mudança de rumo e, pela primeira vez, passam a ser objeto de estudo não apenas 
determinados espaços físicos (clínica, indústria, escola), mas situações concretas de 
vida (relações de gênero, o jovem em conflito com a lei, a saúde do trabalhador etc.).
TÓPICO 4 | A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
53
Para Rosa e Andriani (2008), durante muito tempo a Psicologia Social 
esteve marcada por um caráter e uma tradição pragmáticos. Seus trabalhos se 
resumiam ao estudo das atitudes, sua mensuração e suas alterações, bem como a 
aspectos ligados ao funcionamento grupal. A crítica a essa tradição pragmática de 
base americana consistia principalmente no seu caráter ideológico e reprodutor 
de interesses da classe dominante, assim como ao embasamento positivista que, 
em nome da objetividade, acabou fazendo uma compreensão reduzida do ser 
humano, perdendo a dimensão da sua totalidade.
Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2002), as principais críticas em relação 
à Psicologia Social de base americana ou Psicologia Social Cognitiva podem ser 
resumidas nos seguintes pontos:
l	É uma Psicologia Social que se apoia no método descritivo (a descrever aquilo 
que é observável) e, nesse sentido, volta-se a organizar e dar nome aos processos 
observáveis dos encontros sociais.
l	É uma Psicologia Social que tem seu desenvolvimento diretamente ligado aos 
objetivos da sociedade norte-americana do pós-guerra, que necessitava de 
conhecimentos e instrumentos que garantissem o aumento da produtividade na 
intenção de recuperar a nação (comunicação persuasiva, mudança de atitudes, 
dinâmica grupal são exemplos de temas nesse período). Buscou-se, sobretudo, 
fórmulas de ajustamento e adequação de comportamentos individuais ao 
contexto social.
l	É uma Psicologia Social que parte de uma noção reduzida do social. Esse é 
considerado basicamente a relação entre as pessoas, a interação social, e não como 
um conjunto de produções humanas que ao mesmo tempo que vão construindo 
a realidade social constroem também o indivíduo. Esse será o alicerce rumo à 
construção de uma nova Psicologia Social.
Com uma posição bem mais crítica em relação à realidade social e com o 
intuito de contribuir para a transformação da sociedade vem sendo desenvolvida 
uma nova Psicologia Social, buscando a superação dos limites apontados até 
então pela Psicologia Social Americana e se atendo a construir conhecimentos 
sobre a natureza social do fenômeno psíquico. 
O comportamento humano deixa de ser o objeto de estudo para ser uma 
das expressões do mundo psíquico e uma fonte de dados importantes para a 
compreensão da subjetividade já que se encontra no nível empírico e pode ser 
observado. Entretanto, essa nova Psicologia Social pretende ir além do que é 
observável, buscando compreender o homem nos seus mais diversos aspectos e 
em constante movimento. Essa tendência na Psicologia Social é conhecida como 
Psicologia Sócio-histórica.
54
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
ESTUDOS FU
TUROS
Os principais conceitos da Psicologia Sócio-histórica serão apresentados na 
Unidade 3. São conceitos que servem para apreender o ser humano a partir desta perspectiva 
de análise.
FIGURA 18 – A PSICOLOGIA E O MUNDO
FONTE: Disponível em: <http://www.pedagogiaaopedaletra.com/posts/a-psicologia-e-o-
mundo/>. Acesso em: 26 mar. 2012.
A Psicologia, como já deve ter ficado claro diante do que foi colocado até 
então, apresenta-se em constante movimento, isto é, a todo momento surgem 
novos conhecimentos na área e, mais do que isso, novas abordagens vão sendo 
construídas. Uma das abordagens mais recentes na Psicologia e que se torna 
referência para a Psicologia do Desenvolvimento, para a Educação e, nosso foco 
nesse momento, para a Psicologia Social, é a Psicologia Sócio-histórica.
Para Bock, Furtado e Teixeira (2002), a Psicologia Sócio-histórica é uma 
vertente teórica da Psicologia, que nasce no início do século XX na ex-União 
Soviética, embalada pela Revolução de 1917 e pela teoria marxista. Dentro 
dessa perspectiva, destaca-se o nome de Vygotsky (1896-1934) e seus principais 
seguidores: Luria (1902-1977) e Leontiev (1903-1979). 
Vygotsky, por volta de 1924, mostra-se insatisfeito com as correntes 
psicológicas soviéticas e aponta uma crise mundial da Psicologia. Na tentativa de 
compreender o que é o homem e como se constrói sua subjetividade, permeado 
3 A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
TÓPICO 4 | A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
55
pela dualidade objetividade versus subjetividade, mundo interno versus mundo 
externo, a compreensão das funções superiores por intermédio da psicologia 
animal e a concepção de desenvolvimento humano natural, essas funções seriam 
resultado de um processo de maturação. Essas e outras questões passam a ser 
superadas com a chamada teoria histórico-cultural de Vygotsky. 
Vygotsky e seus seguidores buscaram construir uma Psicologia que 
superasse as tradições positivistas, estudando o homem e seu mundo psíquico 
como uma construção histórica e social da humanidade.
ESTUDOS FU
TUROS
Na Unidade 2,no primeiro tópico, ao pensarmos o desenvolvimento humano 
na infância, teremos contato com mais afinco com a teoria Vigotskiana e seus pressupostos.
A contribuição marxista está no método, o chamado materialismo histórico 
e dialético. A produção de Karl Marx (1818-1883) está intimamente relacionada ao 
momento histórico em que viveu e construiu sua teoria. Ele presencia a ascensão 
e os inúmeros problemas sociais do capitalismo e acaba sendo o precursor do 
chamado socialismo científico.
IMPORTANT
E
Diferente dos socialistas utópicos que sonhavam com uma sociedade ideal, mas 
não tinham clareza de como chegar nela, Karl Marx e seu parceiro Friedrich Engels acabaram 
sendo considerados pertencentes à outra categoria, a do socialismo científico, por sugerir o 
que deveria ser feito para se chegar à tão almejada sociedade igualitária.
A obra marxista constituiu-se em análises sociais, históricas, econômicas 
e políticas que buscaram alertar para o momento crítico em que, principalmente, 
a classe trabalhadora se encontrava e, em termos mais gerais, questionou o modo 
de produção capitalista. 
Em síntese e muito apressadamente, pode-se dizer que para Marx 
a única forma de acabar com a estrutura capitalista seria a classe operária (os 
trabalhadores) conquistar o Estado, instaurando o que ele denomina de ditadura 
do proletariado (socialismo), para terminar com todo o resquício de burguesia 
56
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
que existe e depois, finalmente, o Estado desapareceria. Chegaríamos, então, ao 
comunismo. O sonho comunista prevê uma sociedade na qual todos sejam iguais, 
não haja exploradores e explorados, oprimidos e opressores. 
A partir do referencial marxista, fica claro que a Psicologia sócio-histórica 
pode ser caracterizada como uma Psicologia crítica e, nesse contexto, conceitos 
como alienação, ideologia e dominação acabam se tornando essenciais para a 
compreensão da subjetividade humana e de sua relação com a realidade social. 
Segundo Lane (1984, p. 15-16):
É dentro do materialismo histórico e da lógica dialética que vamos 
encontrar os pressupostos epistemológicos para a reconstrução e um 
conhecimento que atenda à realidade social e ao cotidiano de cada 
indivíduo e que permita uma intervenção efetiva na rede de relações 
sociais que define cada indivíduo – objeto da Psicologia Social.
UNI
Você deve estar se perguntando: qual o significado de materialismo histórico? 
Dialética? Vamos buscar responder essas questões a partir de agora.
A Psicologia Sócio-histórica fundamenta-se no marxismo e compartilha 
com o mesmo, o materialismo histórico e dialético, teoria e método. Por 
materialismo entendemos a defesa da ideia de que “[...] o modo de produção da 
vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual 
em geral”. (MARX, 1983, p. 24). 
Falar da subjetividade humana é falar da objetividade em que vivem os 
homens. O termo histórico traz com ele a ideia de que os homens, interagindo para 
satisfazer suas necessidades, desencadeiam o processo histórico e que é algo dialético. 
Embora, dependendo do contexto, possa significar outras coisas, dialética se refere a 
movimento, a contradições e a transformações as quais a sociedade e as pessoas estão 
submetidas, a partir do momento em que nos construímos historicamente. 
Em síntese, o materialismo histórico e dialético traz consigo a concepção 
do homem como ativo, social e histórico. Ter claro esse método é essencial para 
entendermos melhor as proposições teóricas e metodológicas da Psicologia Sócio-
histórica. 
Se a Psicologia Social Cognitiva é considerada uma forma de Psicologia 
Social Psicológica (como colocado no tópico anterior), a Psicologia Sócio-histórica 
é considerada uma Psicologia Social Sociológica. O que isso quer dizer? Ela se 
preocupa menos com as condutas particulares e mais com a interação social, os 
processos situacionais e a relação da estrutura social com os indivíduos. 
TÓPICO 4 | A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
57
A Psicologia Sócio-histórica pode ser considerada, então, uma espécie 
de Psicologia Social Sociológica por não conseguir compreender o homem a 
partir dele mesmo. Falar do fenômeno psicológico é obrigatoriamente falar da 
sociedade. Ela se volta à compreensão do “macro”, do que está ao seu redor, e 
por isso se aproxima da Sociologia ao apreender a sociedade em que o homem 
está inserido, complexificando algo que a Psicologia simplificou ao buscar, por 
exemplo, fazer uma relação direta entre causa e efeito. Para a Psicologia Sócio-
histórica o homem é multideterminado, constituído nas suas relações sociais e de 
forma menos sistemática do que foi pensado até então. 
Como afirmam Rosa e Andriani (2008), a Psicologia Sócio-histórica 
fundamenta-se basicamente na concepção de homem como um ser histórico-
social. Ele não nasce formado ou possuindo uma essência pronta e imutável; ao 
contrário, ele se constrói como homem a partir das relações que estabelece com o 
meio e com os outros homens em um processo dialético. 
O homem, ao nascer, é candidato à humanidade, no entanto, a adquire 
no processo de apropriação do mundo. Através das atividades que desenvolve 
e das relações que estabelece torna-se homem e se individualiza. Nesse processo 
a linguagem acaba sendo um instrumento fundamental. Juntamente com a 
atividade, é através dela que o homem desenvolve o seu pensamento, o pensamento 
objetiva-se, permitindo a comunicação, bem como o desenvolvimento humano.
A compreensão do “mundo interno” exige a compreensão do “mundo 
externo”, visto que são dois aspectos de um mesmo movimento, de um processo 
no qual o homem atua e constrói/modifica e, por sua vez, interfere na constituição 
psicológica do homem. Subjetividade e objetividade se constituem uma à outra. O 
homem é, portanto, um ser ativo, histórico e social. É essa sua condição humana. 
O homem constrói sua existência a partir de sua ação sobre a realidade. Seu 
desenvolvimento se dá na relação com os outros homens, através do contato com a 
cultura e das atividades que realiza.
É importante ressaltar o fato de não nos constituirmos a partir de uma 
absorção imediata do meio, mas por um processo de subjetivação da realidade que 
nos torna únicos. Nesse processo de subjetivação o mundo objetivo é convertido 
em subjetivo. O psiquismo constrói-se pela transformação do plano social em 
plano psicológico, a partir das significações que damos para as coisas. É chamado 
de sentido pessoal essa forma bastante particular de interpretarmos e lidarmos 
com o que está à nossa volta. 
ESTUDOS FU
TUROS
Relacionado ao conceito de sentido pessoal temos algumas categorias
fundamentais estudadas pela Psicologia Sócio-histórica como identidade, consciência e
subjetividade. Essas categorias serão abordadas na Unidade 3.
58
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
Diante dessa perspectiva, a construção do psiquismo humano está 
diretamente ligada à relação desse sujeito com a realidade, se constitui em um 
contexto social, histórico e cultural. Por cada um ter uma história particular, isso 
justifica o fato de cada um significar suas relações de um modo bastante peculiar, 
dando um sentido pessoal, único e singular que a Psicologia Sócio-histórica não 
nega. 
Em síntese, é possível afirmar que a Psicologia Sócio-histórica se interessa 
em compreender as atividades do homem vinculadas às suas significações. 
Ambas irão constituir o psiquismo humano e é a partir dessa compreensão que 
sua preocupação consiste na transformação da atuação e das relações desse ser 
humano em seu meio. Para a Psicologia Sócio-histórica, a Psicologia não foi capaz 
de, ao falar do fenômeno psicológico, falar da vida, das condições econômicas, 
sociais e culturais nas quais se inserem os homens. Como afirma Bock (2007, p. 
25):
A Psicologia tem,ao contrário, contribuído significativamente para 
ocultar essas contradições. Fala-se da mãe e do pai sem falar da família 
como instituição social marcada historicamente pela apropriação dos 
sujeitos; fala-se da sexualidade sem falar da tradição judaico-cristã de 
repressão à sexualidade; fala-se da identidade das mulheres sem se 
falar das características machistas de nossa cultura; fala-se do corpo 
sem inseri-lo na cultura; fala-se de habilidade e aptidões de um sujeito 
sem se falar das suas reais possibilidades de acesso à cultura; fala-se 
do homem sem falar do trabalho; fala-se do psicológico sem falar do 
cultural e do social.
A partir dessa constatação é que a Psicologia Sócio-histórica propõe 
redefinir o fenômeno psicológico. O mundo social e o mundo psicológico 
caminham juntos. Para compreender o mundo psicológico, a Psicologia terá, 
obrigatoriamente, de se aproximar da realidade social na qual o fenômeno 
psicológico se constrói. Por outro lado, ao estudar o mundo psicológico, estará 
contribuindo para a compreensão do mundo social. 
A Psicologia Sócio-histórica, nascida na ex-União Soviética, com os 
trabalhos de Vygotsky, Luria e Leontiev, posteriormente passou a ser estudada em 
outros países. Na América Latina, mais especificamente no Brasil, gradativamente 
acabou sendo incorporada à Psicologia Social, voltando-se para a realização de 
trabalhos comunitários e teve como principal incentivadora a professora Dra. Silvia 
Lane, que se colocou à frente desde movimento com produções guiadas pelos 
pressupostos marxistas. A contribuição dos trabalhos desenvolvidos pela PUC/
SP são de suma importância para a consolidação da Psicologia Sócio-histórica no 
Brasil. Se revela crítica, posicionada e sua forma de pensar a realidade e o mundo 
psicológico demonstram isso. Mais do que um reflexo, para a Psicologia Sócio-
histórica essa é uma necessidade, ela pode e deve ser utilizada para a construção 
de uma sociedade mais justa, uma Psicologia que responda às reais necessidades 
de nossa população e de nossa realidade.
TÓPICO 4 | A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
59
4 A PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA
FIGURA 19 – A PSICOLOGIA NO CINEMA
Disponível em: <http://cinemaconsciencia.blogspot.com/2009/06/psicologia-no-cinema-i.
html>. Acesso em: 26 mar. 2012.
É por volta de meados da década de 60 que, no Brasil, a Psicologia coloca 
em prática muitas de suas teorias e métodos em comunidades de baixa renda, com 
dois objetivos principais. De um lado pretende deselitizar a profissão e, de outro, 
contribuir para a melhoria das condições de vida da população trabalhadora. 
Bairros populares, favelas, associações de bairro, movimentos populares, dentre 
outros espaços, passam a fazer parte do cotidiano de uma Psicologia crítica e 
comprometida socialmente.
Frente à Psicologia Social tradicional, preocupada com o estudo de 
grupos, atitudes, estereótipo, etc., e sem a preocupação de os vincular ao 
contexto histórico-cultural, surge um movimento alternativo questionando esta 
postura e concepção. Surgem novos conceitos e categorias de análise, dentre elas: 
mudança social, ideologia, alienação, representação social, identidade social, 
empoderamento, atividade, consciência crítica, conscientização etc. 
Se nos Estados Unidos a Psicologia Comunitária originou-se principalmente 
como negação ao modelo médico tradicional, sobretudo em contraposição à 
concepção acerca da saúde mental comunitária, na América Latina surgiu da 
problematização e da crítica à própria Psicologia Social. Claro que o contexto 
socioeconômico da América do Sul, carregado do peso de uma longa histórica 
de colonização, de governos autoritários, de exploração e de miséria, justifica as 
diretrizes da Psicologia Comunitária latino-americana. Surgem nesse momento 
indagações do tipo: que conhecimentos socialmente relevantes temos produzido? 
Que tipo de compromisso temos assumido e que alianças temos estabelecido? Estas 
e outras questões colocam em xeque a contribuição da Psicologia na perspectiva 
da construção de relações mais justas e dignas. A insatisfação com as péssimas 
condições de vários setores da população, bem como um contexto patológico de 
submissão e exploração, deixam clara a necessidade de se promover a mudança 
social. 
60
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
Segundo Campos (2008), a perspectiva da Psicologia Social Comunitária 
evidencia vários problemas da Psicologia tradicional, e contribuindo para a 
solução ao enfatizar: 
• Em termos teóricos, a problematização da relação entre produção teórica e 
aplicação do conhecimento ao partir do pressuposto de que o conhecimento 
se produz na interação entre profissional e os sujeitos da investigação. É uma 
Psicologia próxima da realidade, muito diferente do que era feito até então;
• Em termos de metodologia, utiliza-se sobretudo de pesquisa participante, onde o 
pesquisador e os sujeitos da pesquisa trabalham juntos na busca de explicações 
e soluções para os problemas colocados;
• Em termos de valores, os trabalhos de psicologia comunitária enfatizam a ética 
da solidariedade, os direitos humanos fundamentais e a busca incessante da 
melhoria da qualidade de vida da população-alvo.
Vasconcelos (1985) apresenta um quadro comparativo na tentativa 
de sistematizar as diferenças entre a Psicologia Tradicional e a Psicologia 
Comunitária.
QUADRO 5 – SISTEMATIZAÇÃO COMPARATIVA ENTRE A PSICOLOGIA TRADICIONAL E A 
PSICOLOGIA COMUNITÁRIA
Psicologia Tradicional Psicologia Comunitária
1. As abordagens enfatizam o enfoque do 
psicólogo como esfera predominantemente 
independente do social. As análises são 
essencialmente unidiscipl inares , e o 
trabalho realizado é predominantemente 
uniprofissional.
1. As divisões do saber são fruto da história 
das instituições acadêmicas e profissionais. A 
realidade se apresenta como uma integração 
dos aspectos orgânicos, psíquicos e sociais. A 
abordagem é interdisciplinar, e o trabalho é feito 
em equipes multiprofissionais.
2. Enfatiza a abordagem individual do psíquico. 2. A ênfase está nas pessoas enquanto seres sociais, 
onde o conteúdo psicológico tem conotações 
também institucionais, sociais, culturais e 
políticas, e vice-versa.
3. A abordagem é desarticulada de uma visão 
mais ampla do social e, muitas vezes, pretende-
se neutra com relação aos problemas sociais.
3. É uma abordagem articulada a uma visão 
totalizante do social e busca a explicitação de um 
compromisso político e social.
4. A prática desenvolvida é dirigida 
prioritariamente para os grupos sociais 
mais privilegiados, tanto do ponto de vista 
econômico quanto cultural.
4. A prioridade básica são as classes populares, 
ainda sem acesso a serviços básicos de saúde 
mental.
5 . N a s f a c u l d a d e s , a f o r m a ç ã o é 
predominantemente teórica, intramuros, e 
desvinculada da prática.
5. A formação só é coerente se baseada na prática 
concreta no campo social, com reflexão teórica e 
pesquisas concomitantes.
6. As técnicas são predominantemente 
curativas.
6. Integração de recursos curativos e preventivos, 
com ênfase na prevenção.
TÓPICO 4 | A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
61
7. A teorização e o conjunto de técnicas são 
dirigidos principalmente para consultórios, 
hospitais e gabinetes separados da vida social, 
e em locais concentrados nas áreas dos grandes 
centros urbanos.
7. Teorização e técnicas são dirigidas para 
situações institucionalizadas e de campo, junto 
aos locais de trabalho e moradia da população, 
proporcionando maior acessibilidade e coerência 
com a realidade vivida por ela.
8. A prática profissional é altamente 
especializada por técnicas de trabalho 
(principalmente na clínica). A clientela se 
adapta ao esquema teórico e técnico do 
profissional. Raramente se buscam práticas 
alternativas.
8. Formam-seprofissionais mais generalistas, 
envolvidos com faixa mais ampla de técnicas 
e práticas adequáveis à variedade de situações 
sociais. Há uma busca constante de pesquisa e 
sistematização de práticas alternativas.
9. A prática predominante exige sempre a 
presença do profissional, e é mantenedora do 
monopólio do saber profissional. O lugar do 
poder é fixo e constantemente centrado no 
profissional.
9. O profissional atua primordialmente como 
assessor, transmissor de habilidades e treinador 
de agentes de saúde mental. O objetivo é a 
desmonopolização gradativa do saber, com a 
integração da saúde mental na vida cotidiana e 
na cultura do povo. O lugar do poder é alternado 
e distribuído.
10. A abordagem não reconhece o conhecimento 
difuso e as práticas informais populares em 
saúde mental.
10. Há um reconhecimento e busca de constante 
coaprendizagem com o saber e as práticas 
autônomas da população que têm implicações 
ou que são diretamente ligadas à saúde mental.
11. As práticas têm alto nível de especialização 
e sofisticação. A formação é longa, demorada, 
de alto custo, que é repassado aos serviços, e 
daí sua elitização.
11. Propõe-se pesquisa e síntese de práticas mais 
simplificadas, apropriadas às condições sociais 
e culturais populares. Um dos objetivos básicos 
é a extensão da cobertura com manutenção da 
qualidade.
12. As práticas são planejadas e executadas 
pelo profissional sem qualquer participação 
da clientela.
12. Busca-se efetiva participação da clientela 
na definição das prioridades de atuação, 
planejamento, execução e avaliação das atividades. 
Ou seja, participação comunitária efetiva.
13. A ação do psicólogo é restrita aos 
consultórios, seções de contato ou trabalho na 
escola ou empresa.
13. A ação do psicólogo envolve também o 
conhecimento da saúde pública, a administração, 
gestão e supervisão dos serviços. Assim, as 
técnicas em Psicologia comunitária são de 
três tipos: a) técnicas ligadas diretamente à 
intervenção em saúde mental com a clientela; b) 
técnicas voltadas ao treinamento de pessoal para 
atuar em saúde mental; c) técnicas administrativas 
e de gestão dos serviços em saúde mental.
FONTE: Vasconcelos (1985, p. 38-42)
Este quadro sintetiza a Psicologia Comunitária enquanto uma perspectiva 
crítica e com um campo de atuação ampliado. No Brasil a principal representante 
desta corrente é Sílvia Lane, que com outros autores trouxe à tona um enfoque 
sociopolítico para a Psicologia. Com a criação da Associação Brasileira de 
Psicologia Social – ABRAPSO – em julho de 1980, pela autora, surge um espaço 
de discussão importante em Psicologia Social/Psicologia Social Comunitária. 
62
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
A Psicologia Comunitária pode ser definida, de forma bastante 
simplificada, como um campo da Psicologia social que se propõe a contribuir para 
a resolução dos problemas sociais no lugar dos problemas particulares de cada 
indivíduo. Segundo Góis (2004), a Psicologia Social Comunitária está centrada 
em dois grandes modelos: o do desenvolvimento humano e o da mudança 
social (busca de alternativas sociopolíticas). Nos dois modelos está presente o 
reconhecimento da capacidade do indivíduo e da própria comunidade de serem 
responsáveis por suas vidas, mesmo que para isso seja necessária a existência de 
uma facilitação social alcançada na ação local e na conscientização.
NOTA
Um pressuposto básico da Psicologia Social Comunitária é que entre sujeito 
e realidade não existiria uma separação radical. Não se tratam de entidades separadas 
e independentes. Fazem parte de uma mesma dimensão onde há uma relação de mútua 
influência. O sujeito constrói uma realidade que, por sua vez, o transforma. 
Para Góis (2004), a Psicologia Social Comunitária estuda o modo de vida 
da comunidade e como esta se apresenta no imaginário dos seus moradores, sem 
perder de vista a importância de compreender as necessidades dos mesmos. Ela 
tem como foco as condições psicossociais da vida da comunidade, sobretudo 
aquelas que impedem os moradores de se construírem como sujeitos de sua 
comunidade. O objetivo central é contribuir para que os moradores se tornem 
responsáveis por sua história e pela história da comunidade, ao serem capazes 
de transformá-la em seu próprio benefício e no de toda a coletividade. Tem-se a 
efetivação de moradores-sujeitos.
O que tem se observado é que o papel da Psicologia Social Comunitária 
primordialmente tem sido o de educar e o de politizar. Para Freitas (2003), é o 
educar relacionado a um forte compromisso coletivo expresso em valores como 
solidariedade, dignidade, justiça e sem tolerância a qualquer tipo de preconceito, 
e o politizar ligado às diferentes possibilidades de ação cotidiana e ao processo 
de conscientização. Nesse caso, o grande objetivo passa a ser contribuir para a 
construção de sujeitos coletivos, atores da transformação social. A partir desta 
vertente crítica é possível afirmar que os maiores objetivos da área são: 
a) O desenvolvimento dos moradores enquanto sujeitos da 
comunidade (potenciação, empoderamento e desenvolvimento 
humano);
b) O desenvolvimento da comunidade como instância ativa do poder 
local, da autossustentabilidade e do crescimento endógeno do 
lugar, município ou região;
c) A construção da Psicologia Comunitária dentro do encaixe teoria-
prática-compromisso social. (GÓIS, 2004, p. 146-147).
TÓPICO 4 | A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
63
Bonfim (apud CAMPOS, 2008), ao analisar a situação da Psicologia 
social no Brasil, afirma que as atividades, em sua grande maioria, resumem-se a 
atuações em equipes multidisciplinares que agem a partir das demandas locais. 
As estratégias de ação detectadas consistiram em reuniões com moradores para 
análise das necessidades e possíveis soluções. Nesse sentido, a Psicologia Social 
acaba tendo uma função primordialmente analítica-facilitadora. 
O fato é que a Psicologia Comunitária tem se consolidado como uma 
importante área da Psicologia Social. Desenvolve-se no interior da Psicologia 
Social e, de acordo com Góis (2004), responde com bastante especificidade às 
questões psicossociais decorrentes da vida comunitária, às ações interdisciplinares 
de desenvolvimento comunitário e desenvolvimento local (trabalho e renda, 
saúde, educação, assistência social, ação política, ação cultural, urbanização, 
organização da comunidade, planejamento social, orçamento participativo e 
outros) e à necessidade de um novo olhar da Psicologia.
Vale ressaltar que as possibilidades de atuação são gigantescas. Muita 
coisa foi feita, mas muito há de se fazer. Freitas (2003, p. 84-85) busca sintetizar as 
variadas práticas possíveis e com características bastante distintas. Segundo ela:
a) Dirigem-se aos mais diversos segmentos da população (como 
bairros; cortiços; favelas; mangues; alagados; diferentes grupos 
populares, civis, religiosos; diversos movimentos populares; 
segmentos ou setores de entidades civis, profissionais, 
comunitárias; comissões e/ou fóruns em educação, saúde, direitos 
humanos; entre outros).
b) Localizam o objeto de investigação e/ou ação dentro de um 
enquadre teórico diversificado (indo do individual, passando pelo 
familiar, por pequenos grupos, até organizações e movimentos 
comunitários e/ou populares de dimensões maiores).
c) Selecionam algum tema como central e prioritário em suas 
proposições (provenientes da área da saúde, educação, trabalho; 
relações comunitárias e organizativas; direitos humanos, violência 
e cidadania; formação profissional; qualidade de vida; relações 
de exclusão e inclusão social; emprego, desemprego e falta de 
perspectiva de vida, entre outros).
d) Empregam aportes teórico-metodológicos diferentes e, em 
algumas ocasiões, antagônicos entre si (podem se distribuir em um 
continuum em que em um dospolos há a adoção de referenciais 
mais objetivistas, quantitativos e supostamente imparciais, e no 
outro extremo há, somente, a adoção de perspectivas analíticas 
qualitativas e participativas, excluindo qualquer tipo de recurso e/
ou material quantitativo.
e) Estabelecem um tipo de relação de conhecimento entre o 
profissional e a comunidade que imprime rumos para o trabalho 
desenvolvido (o foco da decisão recai em um dos polos da relação 
ou na síntese de ambos).
O que se percebe é que a possibilidade de práticas em Psicologia Comunitária 
é bastante ampla. Por esta razão teria sentido falar que existem várias psicologias 
(sociais) comunitárias. 
64
UNIDADE 1 | PSICOLOGIA SOCIAL: ORIGEM E DEFINIÇÃO
IMPORTANT
E
Diante da enorme gama de possibilidades de atuação da Psicologia Social 
Comunitária, um cuidado deve ser tomado: o de não achar que todo o trabalho realizado 
nas comunidades necessariamente está atrelado à Psicologia Social Comunitária. Esta leitura 
revela-se bastante simplista e pouco rigorosa.
Em se tratando de Brasil, é evidente que a Psicologia Social Comunitária se 
desenvolve em terreno fértil, haja visto que o contexto socioeconômico brasileiro 
e seus contrastes justificam sua ação. Independente de questões ideológicas que, 
querendo ou não, nos levam a diferentes soluções na sociedade na qual estamos 
inseridos, o mais importante parece ser colocar na pauta da discussão temas que 
até pouco tempo atrás eram negligenciados. Se o sentido último da Psicologia 
Comunitária é contribuir para que tenhamos cada vez mais cidadãos, o que é 
consenso é que ainda hoje uma parcela significativa da população ainda não 
conseguiu atingir esse status.
UNI
Nas linhas a seguir há um texto que pretende diferenciar a nova Psicologia 
Social da Psicologia Social descrita no tópico anterior. Atente-se às diferenças!
TÓPICO 4 | A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
65
LEITURA COMPLEMENTAR
UMA ÚLTIMA QUESTÃO
A. M. B Bock
O. Furtado
M. de L. T. Teixeira
Que diferença há entre essa nova Psicologia Social e aquela do início do 
capítulo?
Há muitas diferenças. A do início do capítulo é uma Psicologia descritiva. 
Procura organizar e dar nome aos processos observáveis que ocorrem nas 
interações sociais. A nova proposta busca ser explicativa ou compreensiva. Deseja-
se explicar/compreender a relação que o indivíduo mantém com a sociedade e os 
processos subjetivos que vão ocorrendo nessa relação.
Outro aspecto bastante significativo, que merece destaque nessa 
diferenciação, é a maneira de conceber o homem. A Psicologia social tradicional 
pensa o homem como um ser que reage às estimulações externas, atribui-lhes 
significado e se comporta. O homem é um ser no espaço social. A nova Psicologia 
Social o concebe como um ser de natureza social. O homem é um ser social, que 
constrói a si próprio, ao mesmo tempo que constrói, com os outros homens, a 
sociedade e sua história. 
A nova Psicologia Social desvincula-se da tradição norte-americana de 
ciência pragmática, com intenções de prever o comportamento e manipulá-lo, 
optando por uma ciência que, ao melhorar a compreensão que se tem da realidade 
social e humana, permita ao homem transformá-la. Assim, é um conhecimento 
que se busca produzir para ser divulgado, distribuído, discutido por um número 
maior de pessoas, extrapolando os muros das universidades. Esses aspectos são 
muito importantes, porque abrem a possibilidade para uma ciência comprometida 
com a transformação, abandonando de vez os modelos de ciência que servem para 
justificar a desumanidade existente em nossa sociedade, por considerar naturais 
todas as desigualdades e formas de exploração.
Essa nova Psicologia Social permite que se compreenda o que acontece conosco 
na sociedade brasileira, pois ela parte dessa realidade para compreender os elementos do 
mundo interno que estão sendo construídos: como estamos representando a juventude 
ou infância? Como estamos representando a nossa sexualidade? Nosso trabalho? 
Quem somos nós, os brasileiros? Para responder a questões como essas, a Psicologia 
Social vai recorrer aos conceitos de atividade, consciência e identidade, promovendo 
um estudo sobre o fazer, o pensar e o agir dos homens em nossa sociedade, e será a 
articulação entre esses elementos que permitirá a resposta à questão.
FONTE: Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 146)
66
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, dentre outras questões, lembre-se de que:
l	A chamada “crise da relevância da Psicologia social” consistiu na afronta ao 
modelo estadunidense de Psicologia Social que defendia a neutralidade da 
Psicologia e, por consequência, o afastamento da realidade social.
l	A Psicologia Sócio-histórica é uma vertente teórica da Psicologia, que nasce no 
início do século XX na ex-União Soviética, embalada pela Revolução de 1917 e 
pela teoria marxista. Por essa razão é considerada uma perspectiva crítica em 
Psicologia.
l	Diferente da Psicologia Social Cognitiva, a Psicologia Sócio-histórica é 
considerada uma Psicologia Social Sociológica, ou seja, se preocupa menos 
com as condutas particulares das pessoas e mais com a interação social, os 
processos situacionais e a relação da estrutura social com os indivíduos.
l	A Psicologia Sócio-histórica fundamenta-se basicamente na concepção 
de homem como um ser histórico-social. Falar da subjetividade é falar da 
objetividade em que vivem os homens. Para compreender o mundo psicológico, 
a Psicologia terá obrigatoriamente de se aproximar da realidade social na qual 
o fenômeno psicológico se constrói.
l	Vinculada fundamentalmente à Psicologia Sócio-histórica, a Psicologia 
Comunitária caracteriza-se como a formalização de um novo paradigma de 
prática profissional do psicólogo.
DICAS
Para conhecer melhor a Psicologia Sócio-histórica e desvendar os principais 
dilemas ligados a ela, consulte o livro “Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em 
psicologia”, organizado por Bock, Gonçalves e Furtado (São Paulo: Cortez, 2007). 
67
AUTOATIVIDADE
1 A partir da leitura desse tópico, faça dois exercícios: o primeiro consiste 
em diferenciar a Psicologia Social Tradicional da dita “nova Psicologia 
Social”. Quais as divergências fundamentais? O segundo exercício facilitará 
a compreensão das noções básicas trazidas neste tópico a respeito da 
Psicologia Sócio-histórica. Busque refletir a respeito do que sente, pensa e 
age, identificando em seu mundo social, os espaços nos quais essas formas se 
fazem presentes. Feito isso, você conseguirá identificar a matéria-prima da sua 
forma particular de ser.
DICAS
Para um aprofundamento destes temas, sugiro que você leia o seguinte livro:
Este livro se destina a psicólogos, estudantes de Psicologia e interessados no 
debate da construção social do indivíduo e de sua subjetividade. Os temas e 
questões que estão aqui apresentados são fruto da construção coletiva da equipe 
de Psicologia Sócio-Histórica da Faculdade de Psicologia da PUC de São Paulo. 
A psicologia sócio-histórica vem se desenvolvendo, no Brasil, nos últimos 20 
anos e tem suas raízes na obra de pensadores russos como Vygotsky, Luria, 
Leontiev e outros. Esta obra pretende ser introdutória na Psicologia Sócio-
Histórica, trazendo os fundamentos teóricos da abordagem, assim como a 
discussão metodológica e o debate sobre a prática a partir dessa perspectiva.
BOCK, Ana M. M. B.; GONÇALVES, Graça M.; FURTADO, Odair. Psicologia 
sócio-histórica. São Paulo: Cortez, 2001.
68
69
UNIDADE 2
DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM 
ENFOQUE PSICOSSOCIAL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade você será capaz de:
• conceituar desenvolvimento humano;
• analisar e refletir sobre as diferentes etapas do desenvolvimento humano.
A Unidade 2 está dividida em cinco tópicos. Ao final de cada um deles, vocêterá a oportunidade de fixar seus conhecimentos realizando as atividades 
propostas.
TÓPICO 1 – O LUGAR DO OUTRO NO 
 DESENVOLVIMENTO HUMANO
TÓPICO 2 – INFÂNCIA
TÓPICO 3 – ADOLESCÊNCIA
TÓPICO 4 – IDADE ADULTA E VELHICE
TÓPICO 5 – COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL E PRÓ-SOCIAL
70
71
TÓPICO 1
O LUGAR DO OUTRO NO 
DESENVOLVIMENTO HUMANO
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Neste tópico será apresentada a possibilidade de interface entre a 
Psicologia do Desenvolvimento e a Psicologia Social, ou melhor, do estudo do 
desenvolvimento humano a partir de um enfoque psicossocial, enfoque este 
que norteará toda a unidade. Existem inúmeras teorias psicológicas a respeito 
do desenvolvimento humano, entretanto, a grande distinção entre elas se dá no 
privilégio de alguns fatores de influência em detrimento de outros. No caso da 
Psicologia Social, seu olhar se volta para a importância dada ao estudo do outro, 
para compreendermos o que somos e como nos constituímos. Esta possibilidade 
será apresentada a seguir.
2 DESENVOLVIMENTO HUMANO: PRINCÍPIOS GERAIS
Falar em desenvolvimento humano é, sem dúvida, desafiador, intrigante 
e nos faz buscar respostas para várias perguntas, como: Por que os seres humanos 
são, em alguns aspectos, tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes? Por 
que algumas pessoas são tão amigáveis e extrovertidas, enquanto outras são 
tímidas e introvertidas? O ambiente familiar influencia na personalidade? Se sim, 
por que as crianças de uma mesma família são frequentemente tão diferentes 
umas das outras? Essas e outras questões nos remetem indiscutivelmente à 
Psicologia, mais especificamente, à Psicologia do desenvolvimento humano, área 
da Psicologia que busca responder estas e outras perguntas.
Para Shaffer (2005), desenvolvimento se refere a continuidades sistemáticas 
e mudanças ocorridas no ser humano, que vão desde a concepção até a morte. O 
termo sistemáticas é empregado devido ao fato de estas mudanças serem, de certa 
forma, padronizadas e até previsíveis. O campo do desenvolvimento humano se 
volta a estas mudanças estáveis, não se atendo a mudanças ocasionais de humor, 
pensamentos e comportamentos, que seriam alterações momentâneas e muito 
pouco sistemáticas. Se desenvolvimento representa a continuidade e as mudanças 
que um indivíduo sofre “do berço ao túmulo”, a Psicologia do desenvolvimento é 
exatamente o estudo deste fenômeno.
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
72
Ao nos referirmos ao desenvolvimento, é quase que consenso a importância 
dada a dois processos subjacentes ao mesmo: maturação e aprendizagem. A 
maturação corresponde ao desenvolvimento biológico, fruto de um plano contido 
no código genético, material hereditário passado de pai para filho ou de geração 
para geração. 
O processo maturacional humano nos torna capazes de andar por 
volta de 1 ano de idade, atingir a maturidade sexual entre os 11 e 15 anos, até 
envelhercermos e morrermos. Pelo fato de o cérebro passar por muitas mudanças 
maturacionais, a maturação é, em parte, sem dúvida, responsável por mudanças 
psicológicas, como a capacidade de concentração, resolução de problemas etc. 
Já a aprendizagem está relacionada ao processo pelo qual nossas experiências 
produzem mudanças relativamente constantes em nossos sentimentos, 
pensamentos e comportamentos. 
No que diz respeito à relação entre essas duas esferas, é possível afirmarmos 
que, embora certo grau de maturação física seja necessária para que uma criança 
possa tocar um instrumento musical, horas de prática e a devida instrução serão 
essenciais para que em algum momento ela possa ser extremamente habilidosa 
neste quesito. Desta forma, grande parte das mudanças no desenvolvimento são 
resultado da relação entre maturação e aprendizagem. Hoje, raros estudiosos 
desmerecem qualquer uma dessas instâncias. A grande divergência, no entanto, 
reside em qual a porcentagem de importância de cada uma dessas instâncias no 
processo de desenvolvimento. 
A Psicologia Genética e a Psicologia Evolucionista, por exemplo, ressaltam 
o que trazemos de inato para explicar o comportamento humano, enquanto a 
Psicologia Social ressalta o que aprendemos e o contexto histórico-cultural em 
que estamos inseridos.
Para Bock, Furtado e Teixeira (2002), vários fatores indissociados e em 
constante interação afetam todos os aspectos do desenvolvimento. São eles:
l	Hereditariedade: carga genética de cada um, que estabelece nosso potencial, 
podendo ou não se desenvolver. De nada adianta alguém ter uma certa aptidão 
inata para ser músico, por exemplo, se nunca tiver contato com um instrumento 
musical. Neste caso, este sujeito não saberá disso e nunca exercitará esta 
facilidade. É chamado de gatilho ambiental a situação ambiental que aciona 
qualquer predisposição que temos.
l	Crescimento orgânico: diz respeito ao aspecto físico. O aumento da altura 
e a estabilização do esqueleto, por exemplo, permitem, ao indivíduo, 
comportamentos e uma relação com o mundo que até então eram impossíveis 
de serem imaginados.
l	Maturação neurofisiológica: refere-se ao desenvolvimento neurológico, o que 
é condição para a aquisição de determinado padrão de comportamento. A 
alfabetização é um exemplo disso. Para segurar o lápis e manejá-lo, é necessário 
à criança uma maturação neurológica, que uma criança de 2 ou 3 anos não tem.
TÓPICO 1 | O LUGAR DO OUTRO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO
73
l	Meio: falar de meio é falar do conjunto de influências ambientais que interferem 
significativamente nos padrões de comportamento do indivíduo. Como 
exemplo, podemos imaginar uma criança de 3 anos. Se a estimulação verbal for 
bastante intensa, ela pode adquirir um repertório verbal muito maior do que a 
média das outras crianças de sua idade. Por outro lado, isso não garantirá que 
ela desça e suba uma escada com facilidades, pois esta situação pode não ter 
feito parte da sua rotina diária.
Em se tratando de Psicologia Social, é óbvio que ela acaba por privilegiar 
o último aspecto citado: o meio. Isso não significa que ela não considere os demais 
aspectos, mas que ela se atenha ao último por considerá-lo fundamental e, por 
isso, digno de ser estudado com maior ênfase. 
Antigamente, era comum o fato de os estudiosos do desenvolvimento 
se agruparem em grupos distintos: (1) aqueles que estudavam o crescimento 
e desenvolvimento físico; (2) aqueles que estudavam os aspectos cognitivos, 
incluindo percepção, linguagem, aprendizagem e pensamento; e (3) aqueles que 
se concentravam nos aspectos psicossociais, emoções, personalidade e relações 
interpessoais. Hoje, está claro que essa classificação acaba sendo equivocada, já 
que mudanças em um aspecto do desenvolvimento acabam por interferir e ter 
implicações nos outros aspectos. 
Desta forma, quando falamos em desenvolvimento humano, falamos do 
desenvolvimento em todos os seus aspectos: físico-motor, intelectual, afetivo-
emocional e social; aspectos que sofrem alterações do nascimento até a nossa 
morte. Todas as teorias do desenvolvimento compartilham do pressuposto de 
que esses quatro aspectos são indissociados, no entanto, elas podem enfatizar 
aspectos diferentes, isto é, estudar o desenvolvimento a partir da ênfase em um 
desses aspectos. A psicanálise, por exemplo, estuda o desenvolvimento a partir 
do aspecto afetivo-emocional (desenvolvimento da sexualidade), Jean Piaget 
enfatiza o desenvolvimento intelectual etc.
O que parece ser consenso é que existem características um tanto 
semelhantes em cada período do desenvolvimento e que nós temos ideias de 
como as pessoas são em diferentes idades. As crianças de dois anos têm reputação 
de “terríveis”, os adolescentes de “problemáticos”, estudantes universitários de 
idealistas etc. Estas representações sociais revelam que é possível afirmarmos que 
existemem cada idade características que, na maioria das vezes, estão presentes. 
Não podemos esquecer, no entanto, que o curso “normal” do 
desenvolvimento mudou drasticamente em questão de décadas, isso muito 
em decorrência das gigantes transformações societárias presentes nos últimos 
tempos. O quadro a seguir traz uma possibilidade de nomenclatura das fases do 
desenvolvimento humano. Vale ressaltar que há divergência entre os teóricos do 
desenvolvimento e algumas vezes se percebem discrepâncias significativas entre 
um autor e outro, no que se refere ao início e término de cada fase.
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
74
QUADRO 6 – UMA VISÃO CRONOLÓGICA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
Uma visão cronológica do desenvolvimento humano
Período de vida Idade aproximada
Período pré-natal Concepção ao nascimento
Infância Primeiros dois anos de vida
Período pré-escolar Dos 2 aos 6 anos de idade
Meninice Dos 6 aos 12 anos aproximadamente
Adolescência Dos 12 aos 20 anos
Adulto jovem Dos 20 aos 40 anos
Meia-idade Dos 40 aos 65 anos
Velhice A partir dos 65 anos
FONTE: SHAFFER, D. R. Psicologia do desenvolvimento: infância e adolescência. São Paulo: 
Pioneira Thomson Learning, 2005.
Então, desenvolvimento humano trata-se de um processo contínuo e a 
relevância de seu estudo está no fato de podermos ter acesso às características 
de cada etapa de nossas vidas, nos permitindo prevermos e compreendermos os 
comportamentos típicos em cada faixa etária. Tem-se, desta forma, a emergência 
do termo “ciclo de vida”, presente no estudo do desenvolvimento e relacionado à 
sucessão de estágios, padrões de mudanças ocorridas ao longo da vida. Erik Erikson 
(psicanalista alemão) consagrou o uso do termo na Psicologia, quando o utilizou 
em sua teoria do desenvolvimento, definida por ele como epigenética, palavra 
que etimologicamente significa algo que se revela ou se desdobra sucessivamente, 
sendo que os estágios mais avançados estão contidos nos anteriores. 
Ele se destaca nesta área por ter sido inovador em vários aspectos 
importantes, dentre eles, por ter sido um dos primeiros a contemplar a vida 
humana em toda a sua extensão, o que pode ser considerado uma novidade ao 
nos voltarmos à Psicologia do desenvolvimento em seu início.
ESTUDOS FU
TUROS
A seguir, abordaremos o enfoque psicossocial do desenvolvimento humano, 
enfoque compartilhado por Erik Erikson e por isso ele será retomado em breve.
É possível afirmar que o grande objetivo do estudo do desenvolvimento 
está em descrever, explicar e melhorar o desenvolvimento. Ao buscar descrever, 
observa-se o comportamento das pessoas em diferentes idades, procurando 
especificar as características típicas de cada período, mesmo tendo claro que não 
existem duas pessoas exatamente iguais, ou seja, existem variações individuais e, 
muitas vezes, bastante significativas. 
TÓPICO 1 | O LUGAR DO OUTRO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO
75
As descrições permitem que se busque explicar as mudanças observadas. 
Finalmente, os pesquisadores da área concentram esforços para otimizar o 
desenvolvimento e direcionando, de certa forma, para direções consideradas 
positivas. Se quisermos nos compreender melhor, a nós próprios e aos outros, o 
estudo do desenvolvimento humano poderá desempenhar aí um papel crucial. 
3 O PAPEL DO OUTRO E DAS RELAÇÕES SOCIAIS 
NO DESENVOLVIMENTO HUMANO
De acordo com Martínez e Simão (2004), as diferentes teorias do 
desenvolvimento humano foram fortemente influenciadas pelas representações 
epistemológicas que dominaram a Psicologia no século XX, sobretudo o positivismo 
acompanhado da visão naturalista e evolucionista do desenvolvimento. 
Um exemplo é a teoria piagetiana voltada ao estudo do desenvolvimento 
do intelecto e das operações lógicas. Piaget deixa claro o forte cognitivismo e 
individualismo hegemônico na compreensão de desenvolvimento. O que se 
percebe é que as teorias do desenvolvimento, de forma geral, acabam por 
ignorar os contextos sociais e culturais nos quais o desenvolvimento acontece. 
Diferentemente, o caráter cultural do processo de desenvolvimento foi marcado 
fortemente nos trabalhos de M. Mead na Antropologia, assim como pelos de 
Vygotsky na Psicologia. Neste, o conceito de cultura faz emergir uma nova 
concepção da psique (palavra de origem grega e que significa mente, alma) e que 
marca uma diferença qualitativa entre o homem e o animal. O outro acaba tendo 
um papel fundamental nas teorias de inspiração sociocultural e nas chamadas 
teorias construtivistas pós-piagetianas e socioconstrucionistas. 
Nestas teorias o contexto histórico e cultural têm papel fundamental a 
partir da constatação de que cada cultura, subcultura e classe social transmitem 
um padrão particular de crenças, costumes, valores e habilidades passadas de 
geração para geração e o conteúdo desta socialização cultural tem forte influência 
nos atributos e competências que os indivíduos apresentam. 
O desenvolvimento também é influenciado pelo contexto histórico a que 
estamos submetidos. Eventos históricos, como: guerras, avanços tecnológicos e 
movimentos sociais presentes em momentos específicos da história, por exemplo, 
acabam por interferir significativamente no processo de desenvolvimento 
humano e na construção da subjetividade dos sujeitos inseridos em cada contexto 
histórico específico.
Desde que chegamos ao mundo, por essa perspectiva, estamos implicados 
com o outro, inclusive em um primeiro momento, no qual garantimos a 
sobrevivência. Humanizamo-nos nas relações sociais e com a cultura a partir 
das suas múltiplas possibilidades de significações e implicações históricas. Nas 
relações sociais tranformamos e somos transformados continuamente em um 
processo constante, enquanto existimos. Falar de relações sociais é falar de pessoas 
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
76
e, portanto, falar de relacionamentos nos mais diversos espaços relacionais: 
família, comunidade, associações, instituições, todos eles sempre tendo como 
pano de fundo valores, crenças e ideologias. Compreender quem somos nos leva 
ao encontro do “outro”. 
A ideia do “outro” nos remete à premissa básica que está presente no 
termo “psicossocial”, a ideia de que não há possibilidade de compreendermos 
o comportamento humano sem nos atermos ao social, ou melhor, a constituição 
humana é, em grande parte, decorrente do nosso contato com o outro. 
Buscar compreender o ser humano é buscar compreender as relações que 
este estabelece com o meio no qual está inserido, em determinado tempo e espaço. 
Esta acaba sendo a proposta da Psicologia Social, estudar o psiquismo humano, 
objeto da Psicologia, mas procurando compreender como se dá a construção 
deste a partir das relações sociais que o homem estabelece. Por isso, é comum 
termos a Psicologia Social como sinônimo de enfoque psicossocial, já que esta 
busca estudar o homem e o meio ambiente em suas interações recíprocas.
Um autor importante e considerado o precursor da chamada “teoria do 
desenvolvimento psicossocial”, foi Erik Erikson, por divergir dos psicanalistas que 
até então pregavam que o comportamento era resultado única e exclusivamente 
de fatores pulsionais, biológicos e inatos. Segundo ele, os fatores sociais tinham 
também um papel fundamental, o que a Psicanálise até então havia desconsiderado. 
Nossa personalidade é uma estrutura aberta e dinâmica, construída ao longo do 
tempo e mediante a influência das situações a que o indivíduo está submetido.
IMPORTANT
E
Erik Erikson, em sua teoria do desenvolvimento, propôs que o desenvolvimento 
humano ocorre em oito estágios, que, no seu conjunto, formam o que ele denominou ciclo 
de vida. Em cada estágio será constituído um aspecto importante da personalidade. Segundo 
ele, ainda será inevitável a existência de crises e conflitos nodecorrer da nossa existência, 
embora possamos resolvê-los positiva ou negativamente, com ganhos ou perdas.
Ao analisar o desenvolvimento humano enfatizando o outro, este acaba 
sendo uma fonte de produção de sentido. Temos então um processo integral que 
acontece em torno de sistemas de sentido subjetivo, que comprometem, de forma 
simultânea, várias esferas de nossa vida. 
Esta noção rompe com a ideia de que o desenvolvimento humano se 
dá de forma fragmentada e de acordo com os tipos de atividade e de áreas da 
vida. Essa representação permitiu falarmos em desenvolvimento intelectual, 
moral, profissional etc. Contrário a essa perspectiva, temos a categoria “sujeito”, 
TÓPICO 1 | O LUGAR DO OUTRO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO
77
categoria que traz consigo a ideia de ativo, presente, pensante, que se posiciona 
no próprio curso de sua atividade, superando o determinismo, que buscou situar 
as causas ou construir leis que servissem a todos, e menosprezando a trajetória de 
cada sujeito e o processo de significação envolvido nisso tudo. 
Em uma perspectiva histórico-cultural, o sujeito ganha destaque. Sem 
sujeito, teríamos uma subjetividade assujeitada, não superando o essencialismo 
que, por muito tempo, esteve presente em várias tendências do pensamento 
moderno. O outro é significativo para o desenvolvimento, quando o sujeito se 
relaciona com esse outro, de modo que esse vínculo o carrega de sentido. O sentido 
subjetivo, como produção singular, pressupõe um posicionamento diferenciado, 
que entra em tensão com várias possibilidades de escolha e influencia no rumo do 
seu desenvolvimento e processo de construção subjetiva.
IMPORTANT
E
O termo essencialismo traz consigo uma discussão bastante presente tanto na 
Filosofia quanto na Psicologia por muito tempo. A questão é: a essência precede a existência 
ou a existência precede a essência? O que isso quer dizer? Na primeira afirmação defende-
se que nascemos com uma essência e a partir dela existimos (essencialismo). Nesse sentido 
somos determinados por esta essência inata. Na segundo construímos nossa essência (o 
que vamos ser) a partir da nossa existência. Essa corrente de pensamento foi chamada 
de Existencialismo e ao ressaltarmos o outro e o papel das relações sociais no curso do 
desenvolvimento fica claro que partimos desta convicção.
Na nossa existência nos construímos e um dos fatores de maior influência 
acaba sendo o processo de socialização. Se não dá para se negar os fatores inatos, 
basicamente a herança genética, por outro lado, muitos são os fatores adquiridos, 
fatores de natureza social e cultural. Desde o momento do nosso nascimento 
aprendemos comportamentos que são próprios da nossa cultura. 
Tradicionalmente, quando se fala em socialização, tem-se a clássica 
distinção entre a chamada socialização primária e secundária. A primária refere-
se aos contatos que estabelecemos com pessoas na qual temos uma forte ligação 
emocional. Normalmente a família é responsável por essa socialização e na qual 
as primeiras experiências se fazem, prioritariamente a partir desses contatos que 
estabelecemos. Por outro lado, temos a chamada socialização secundária, na qual 
é baseada em contatos mais impessoais e formais, pois, normalmente, é posterior 
à primária e começa a ocorrer quando a criança já tem interiorizado um conjunto 
de comportamentos, a partir da mediação presente desde seu nascimento. A 
escola é um bom exemplo desse segundo momento.
A partir das grandes inovações tecnológicas presentes na história 
contemporânea, fica difícil falarmos em socialização sem citarmos o papel 
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
78
socializador dos meios de comunicação de massa. Por mais que no caso da família 
e da escola se tenha uma relação dialógica, no caso da televisão, por exemplo, a 
comunicação é direta e extremamente impessoal, o que não desmerece a influência 
desses novos agentes socializadores que se fazem presentes atualmente.
Para Martínez e Simão (2004), o grande diferencial da perspectiva 
histórico-cultural e que, de certa forma, revolucionou as concepções dominantes 
da Psicologia da época, é o buscar compreender o desenvolvimento humano e 
colocar em primeiro plano a significação do social na constituição do homem. 
Vygotsky defendeu que os processos psicológicos superiores, ou seja, aqueles que 
diferenciam qualitativamente o homem do animal, são constituídos a partir das 
condições de vida e existência, não sendo possível a humanização sem a apropriação 
da cultura humana no interjogo das relações sociais, que o sujeito estabelece com 
os outros sociais. A ideia da constituição social e cultural da psique humana 
trouxe inúmeros desdobramentos, entre eles a relevância dada à linguagem e à 
tentativa de compreender os mecanismos pelas quais essa constituição social do 
homem acontece. Por essa razão, ao falarmos do desenvolvimento humano, é 
impossível deixar de citar o autor soviético Vygotsky. Por suas premissas serem 
compartilhadas pelo enfoque psicossocial ou pela Psicologia Social, a seguir 
analisaremos a infância e o desenvolvimento infantil a partir desta perspectiva.
UNI
O texto seguinte trará uma síntese da perspectiva de desenvolvimento adotada 
neste caderno, o desenvolvimento a partir da apropriação da cultura e a partir das relações 
sociais estabelecidas, enfoque privilegiado pela Psicologia Social.
TÓPICO 1 | O LUGAR DO OUTRO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO
79
LEITURA COMPLEMENTAR
O HOMEM APRENDE A SER HOMEM
A. M. B. Bock
O. Furtado
M. L. T. Teixeira
Não queremos dizer com isso que o homem esteja subtraído do campo 
de ação das leis biológicas, mas que as modificações biológicas hereditárias não 
determinam o desenvolvimento sócio-histórico do homem e da humanidade: 
dão-lhe sustentação. As condições biológicas permitem ao homem apropriar-se 
da cultura e formar as capacidades e funções psíquicas. A única aptidão inata no 
homem é a aptidão para a formação de outras aptidões. [...] H. Piéron resume 
esse pensamento em uma frase bastante interessante: “A criança, no momento do 
nascimento, não passa de um candidato à humanidade, mas não a pode alcançar 
no isolamento: deve aprender a ser um homem na relação com os outros homens”.
[...] Se retomarmos agora a formação biológica de cada indivíduo, com 
cargas genéticas diferentes, poderemos postular aqui que as disposições inatas 
que individualizam, deixando marcas no seu desenvolvimento, não interferem no 
conteúdo ou na qualidade das possibilidades de desenvolvimento, mas apenas em 
alguns traços particulares da sua atividade. Como exemplo, a partir do aprendizado 
ou da apropriação de uma língua tonal, os indivíduos, independentemente de suas 
cargas hereditárias, formarão o ouvido tonal (capaz de discernir a altura de um 
complexo sonoro e distinguir as relações tonais). No entanto, nessa população, 
alguém poderá ter herdado de seus pais ouvido absoluto, o que lhe dará uma 
acuidade auditiva diferenciada, possibilitando-lhe tornar-se um músico brilhante.
Essas diferenças entre os indivíduos existem, mas não são elas que justificam 
as grandes diferenças que temos em nossa sociedade. Pois, repetindo, essas diferenças 
biológicas geram apenas alguns traços particulares na atividade dos indivíduos. Ou 
seja, todos aprendem a fazer, só que colorem seu fazer com alguns traços particulares, 
singulares, individuais. As nossas diferenças sociais são muito maiores – temos crianças 
que sabem fazer e outras que não aprenderam e, portanto, não desenvolveram certas 
aptidões. Essas diferenças estão fundadas no acesso à cultura, que em nossa sociedade 
se dá de forma desigual. Existem crianças que não têm brinquedos sofisticados, e até 
aquelas que não têm os mais comuns; crianças que não manuseiam talheres ou lápis; 
crianças que não andam de bicicleta, ou que nuca viajaram.Temos até muitos adultos 
que não aprenderam a ler e escrever e, portanto, nunca leram um livro; que nunca 
saíram do local onde nasceram e não sabem que o homem já vai à Lua; nunca viram 
um avião, nem imaginam o que seja um computador. Esses são alguns exemplos. 
Não precisamos nos alongar, por que você, com certeza, já percebeu essas diferenças. 
Ora, se desenvolvemos nossa humanidade a partir da apropriação das realizações do 
progresso histórico, é claro que, numa sociedade em que essa igualdade não ocorre, 
fica excluída a possibilidade de igualdade entre os indivíduos.
FONTE: Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 170-172)
80
RESUMO DO TÓPICO 1
Deste tópico é importante que você tenha claro que:
l	O estudo do desenvolvimento humano é o estudo das mudanças de certa forma 
sistemáticas, padronizadas e estáveis, ocorridas do nascimento até a morte.
l	Em se tratando de desenvolvimento humano, têm-se dois processos subjacentes: 
maturação e aprendizagem. O desenvolvimento é resultado da relação entre 
esses dois processos.
l	É comum, no estudo do desenvolvimento humano, o estudo dos chamados 
ciclos de vida, da sucessão de estágios, padrões de mudanças ocorridas ao 
longo da vida.
l	O grande objetivo do estudo do desenvolvimento está em descrever, explicar e 
melhorar o desenvolvimento.
l	Para o enfoque psicossocial do desenvolvimento humano, o outro tem um 
papel fundamental. Para estudar o desenvolvimento, temos que nos voltar às 
relações sociais que estabelecemos, à cultura em que estamos inseridos e ao 
contexto histórico que vivenciamos.
l	Na nossa existência nos construímos e um dos fatores de maior influência é o 
processo de socialização.
81
AUTOATIVIDADE
Após a leitura deste tópico busque responder às seguintes questões:
1 Qual é o objetivo do estudo do desenvolvimento humano? 
2 Qual é o significado do termo “psicossocial” e qual é o papel do outro e das 
relações sociais implícito no termo?
82
83
TÓPICO 2
INFÂNCIA
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Por muito tempo o estudo do desenvolvimento humano era sinônimo 
de estudo da infância, visto a importância dada a esse período: a infância seria, 
por este ideário, a responsável pela formação da personalidade do adulto. 
Embora hoje se perceba que o ser humano se constrói em um processo que se 
inicia no nascimento e acaba na morte, fica difícil negar que os acontecimentos e 
aprendizados ocorridos neste período têm uma relevância ímpar. 
A partir desta constatação, este tópico apresentará uma breve discussão 
da infância enquanto período significativo do desenvolvimento humano.
2 A INFÂNCIA ENQUANTO CONSTRUÇÃO SOCIAL
Apesar de ser um termo comum e presente no nosso cotidiano, é válido 
primeiramente definirmos infância, para, a partir daí, analisarmos a forma 
que a concebemos. Embora não seja tarefa fácil, faz-se imprescindível esse 
exercício inicial, dada a complexidade dessa temática e alicerce para o estudo do 
desenvolvimento infantil.
Etimologicamente falando, a palavra infância tem origem latina e é 
construída a partir do prefixo in que indica negação e fante que significa falar, dizer. 
Infante traria, então, a ideia de ausência de fala. Talvez, por isso, por não falar, 
essa etapa foi desconsiderada por muito tempo, bem como foram desrespeitadas 
as especificidades deste período. Essa discussão faremos em breve.
Embora exista divergência nesse sentido, de forma mais sistemática e mais 
simplista, como colocado no Quadro nº 1, presente no tópico anterior, a infância 
pode ser compreendida como o período do nascimento até aproximadamente 
dois anos. Se nos atermos ao significado etimológico da palavra, entretanto, 
vários autores optam em, ao se referir à infância, falarem da criança. 
Com a mesma dificuldade de respeitarmos esses limites nessa seção, ao 
falarmos de infância, estaremos falando da criança e, dessa forma, buscaremos 
adentrar em características e especificidades presentes neste sujeito até o 
surgimento da adolescência, período que será apresentado no próximo tópico.
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
84
Se fosse realizado um levantamento dos trabalhos de investigação que 
tratam sobre o desenvolvimento, verificaríamos com muita facilidade que a maior 
parte desses se centram nos primeiros anos e este fato revela a importância dada 
aos primeiros anos de vida no que diz respeito ao que seremos quando adultos. 
Essa premissa se faz presente em muitos pensamentos, provérbios e ditados 
bem conhecidos sobre o desenvolvimento, como: “é de pequeno que se torce o 
pepino”, “cão velho não aprende truques novos”, “educa a criança no caminho 
que deve seguir, pois quando envelhecer não se desviará dele”. 
A essência de todos esses dizeres está na crença de que os primeiros anos 
ou a infância acabam por moldar o adulto e torná-lo naquilo que será. Outro 
exemplo da ênfase dada à infância parte de Freud, precursor da Psicanálise e do 
estudo do inconsciente. Ao estudar as causas e o funcionamento das neuroses, 
afirmou que a maioria das neuroses podem ser explicadas a partir de conflitos 
de ordem sexual presentes nos primeiros anos de vida dos indivíduos. A vida 
infantil, segundo ele, deixa marcas profundas na estruturação da pessoa.
Para Shaffer (2005), embora não se possa afirmar precisamente o que reserva 
a vida adulta de alguém com base em uma análise meticulosa de sua infância, 
a grande maioria dos desenvolvimentalistas concordam que os primeiros doze 
anos de vida são extremamente importantes, pois interferem substancialmente 
na adolescência e na vida adulta. 
Em contraposição ao que se pode imaginar, o interesse no estudo do 
desenvolvimento humano e a ideia da infância ser um período importante e 
valioso é um fenômeno relativamente recente. Até pouco tempo atrás, as crianças 
eram consideradas adultos em miniatura ou até mesmo como adultos inferiores. 
Até o final da Idade Média, a criança não tinha espaço no seio familiar. Ela 
era entendida como um ser incompleto, inacabado, que precisava evoluir para se 
tornar completa quando adulta. Essa visão adultocêntrica teve como principal 
agravante o desrespeito a esse período e à compreensão da criança apenas como 
um “vir a ser”, um futuro adulto. 
Somente entre os séculos XVII e XVIII a criança é tida como diferente do 
adulto. Dessa forma, enquanto convenção social, semelhante ao que temos hoje, a 
infância é um produto moderno. A partir desse momento, a infância é tida como 
um período no qual prevalece a inocência e a fragilidade e, por isso, exige uma 
série de incentivos e regalias (“paparicação”). Esses dois extremos acabaram 
por despertar uma série de questionamentos no que toca ao tão almejado 
desenvolvimento infantil saudável.
Essas duas concepções distintas (Idade Média e Séculos XVII e XVIII) 
se fazem válidas para compreendermos que, embora as crianças existam desde 
sempre, a infância enquanto construção social é um produto recente. A infância, 
enquanto categoria construída histórica e socialmente, acaba sendo um resultado 
das relações sociais estabelecidas em determinado tempo e espaço. Teremos 
tantas infâncias quantas forem as ideias, práticas e concepções a respeito dela.
TÓPICO 2 | INFÂNCIA
85
NOTA
Em “História social da criança e da família” Philippe Ariés faz uma análise 
minunciosa de como a criança veio historicamente sendo tratada e compreendida. Esta obra 
é fundamental por problematizar a infância a partir dos perigos e consequências das relações 
e aspectos culturais presentes em diversos momentos da história.
Atualmente, percebemos que são outras as questões que se colocam 
quando nos referimos às crianças, fruto do nosso tempo. Nascimento (2010) afirma 
que as condições de vida moderna contribuíram para a emergência de crianças-
objeto, que precisam se adequar ao ritmo dos pais, que, por suavez, acabam 
não tendo tempo para se relacionarem com elas. Outro ponto que merece uma 
ressalva é o fato de hoje as crianças passarem a ter responsabilidades até então 
nunca vistas. As mesmas passam a não ter tempo para serem apenas crianças, 
em decorrência de uma agenda repleta de compromissos, como inglês, natação, 
computação, uma necessidade precoce de inserção no mundo adulto. Voltamos à 
ideia do pequeno adulto.
Embora, como falado anteriormente, temos diversas e diferentes infâncias, 
até em um mesmo tempo e espaço, enquanto convenção social e não um estado 
natural, a Psicologia vem se ocupando da infância e propondo leituras diversas 
a respeito da mesma. Na Psicologia, autor com importância indiscutível é Piaget, 
visto que a partir dele a criança passou a ser considerada um sujeito epistêmico, 
ou seja, capaz de construir conhecimentos e que se tornam mais complexos na 
medida em que seus esquemas mentais também se complexificam. Outro autor 
bastante significativo é Vygotsky, por compreender que a criança é um sujeito 
histórico, social e cultural. O desenvolvimento humano seria, então, resultado 
sobretudo das relações sociais que esse sujeito estabelece. Buscar melhor 
compreender essas e outras questões é o que nos propomos a seguir.
3 O INTERACIONISMO DE PIAGET E VYGOTSKY
Em se tratando de desenvolvimento humano, constata-se que, atualmente, 
as teorias que adotam a perspectiva interacionista ganham destaque por grande 
parte dos desenvolvimentistas, bem como dos educadores, por acreditarem que 
essa perspectiva garante uma explicação satisfatória de como ocorre o processo 
de conhecimento. Nesse sentido, acabam ganhando força Piaget e Vygotsky, 
considerados os dois grandes nomes nessa categoria, embora sejam modelos 
interacionistas bastante distintos.
Diante dessa primeira afirmação, é indispensável que discutamos em que 
consiste uma abordagem interacionista. Discussão bastante presente no campo da 
epistemologia (área da Filosofia voltada ao estudo de como se dá o conhecimento), 
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
86
através da aprendizagem, bem como do desenvolvimento humano, é como se dá 
o processo de conhecimento, ou melhor, como ocorre a relação entre o sujeito que 
busca conhecer e o objeto a ser conhecido (meio). 
Nesse sentido, a perspectiva interacionista prevê que ambos estabeleçam 
relações recíprocas, que modificam tanto o primeiro quanto o segundo. De 
outra forma, as teorias interacionistas não enfatizam um ou outro polo e, sim, 
compartilham da premissa de que há uma interação entre ambos e que essa deve 
ser levada em conta.
Entretanto, embora as teorias interacionistas se caracterizem por considerar 
a interação enquanto condição para que o desenvolvimento e o conhecimento se 
realizem, há uma distinção significativa entre elas. Mesmo sendo interacionistas, 
as mesmas acabam por divergir na ênfase dada ao sujeito ou ao objeto ou, ainda, 
à dialética constituída entre esses dois elementos. Piaget e Vygotsky, embora 
compartilhem da noção de que o sujeito é ativo na construção do conhecimento, 
adotam condutas reconhecidamente diferentes. Essas diferenças buscaremos 
conhecer ou aprofundar daqui pra frente: começaremos por Piaget.
Jean Piaget é leitura obrigatória para qualquer um que busque se aventurar 
na área do desenvolvimento humano, por ter organizado um conhecimento 
extremamente sistemático e estruturado, o que de um lado lhe trouxe visibilidade 
e, por outro atualmente é alvo de críticas. Piaget é considerado um grande 
estudioso do desenvolvimento intelectual da criança, ao defender a ideia de que 
o desenvolvimento ocorre em etapas ou fases. Segundo ele há quatro estágios 
bem definidos no desenvolvimento intelectual da criança e em cada um há o 
aparecimento de novas qualidades do pensamento o que, por sua vez, interfere 
no desenvolvimento global. Para Piaget, cada período é caracterizado por 
aquilo de melhor que o indivíduo consegue fazer nessas faixas etárias. Todos os 
indivíduos passam por todas essas fases ou períodos, embora haja diferença no 
início e término de cada uma delas. 
O quadro a seguir elenca as quatro fases apresentadas por Piaget e as 
respectivas faixas etárias correspondentes.
QUADRO 7 – AS QUATRO FASES DE PIAGET
Período Faixa etária
1º - Sensório-motor 0 a 2 anos
2º - Pré-operatório 2 a 7 anos
3º - Operações concretas 7 a 11 ou 12 anos
4º - Operações formais 11 ou 12 anos em diante
FONTE: O autor
TÓPICO 2 | INFÂNCIA
87
Tanto Braghirolli et al. (1990) quanto Bock, Furtado e Teixeira (2002) 
apresentam um resumo das características apresentadas pelas crianças em cada 
estágio designado por Piaget. 
O primeiro estágio é denominado de sensório-motor, pelo fato de a 
percepção estar diretamente relacionada aos movimentos. O desenvolvimento 
físico acelerado favorece o aparecimento rápido de novas habilidades. Nesse 
período, a criança aprende a diferenciar o seu corpo dos demais objetos, 
compreendidos através do seu uso ou manipulação e, aliás, eles só existem 
quando estão à vista. Embora compreenda algumas palavras, mesmo no final do 
período, só é capaz de uma fala imitativa.
O próximo estágio é denominado de pré-operatório e o que se tem de 
mais importante é o aparecimento da linguagem, o que irá interferir em todos os 
demais aspectos (intelectual, afetivo e social). O desenvolvimento do pensamento 
se acelera significativamente e, no plano afetivo, a criança passa a respeitar e 
considerar as pessoas que considera superiores. Em suma, tem-se nesse período 
a completa maturação neurofisiológica, o que permite o desenvolvimento de 
habilidades até então inimagináveis como a coordenação motora fina.
O terceiro estágio é o das operações concretas. Esse nome provém do 
surgimento de uma nova capacidade mental, a das operações, ou seja, a criança 
é capaz, agora, de pensar logicamente, mesmo que ainda tenha que ter por base 
fatos e objetos concretos. Ela ainda não é capaz de abstrair, no entanto consegue, 
por exemplo, em um quebra-cabeça na metade do jogo, descobrir um erro, 
desmanchar uma parte e retomar até terminá-lo. No aspecto afetivo surge a 
vontade, ou certa autonomia em relação aos adultos, e o sentimento de pertencer 
a um grupo se torna cada vez mais forte. A cooperação é uma capacidade que é 
aprimorada nesse período e facilita o relacionamento em grupo.
O quarto e último estágio é o das operações formais. Nesse período, a 
criança/adolescente já consegue realizar as operações no plano das ideias, sem 
necessitar mais de manipulações ou de referências concretas para tal. Nessa fase, 
o já adolescente desenvolve a capacidade de abstrair e generalizar, criar teorias 
sobre o mundo, ou seja, tirar suas próprias conclusões e formular hipóteses à 
revelia. No campo das relações sociais ocorre um certo distanciamento em relação 
aos outros, o que, aparentemente, nos leva a caracterizá-lo como antissocial, isso 
provavelmente por colocar em xeque a maioria das coisas da qual tem contato. 
O aspecto afetivo é tomado por conflitos por inúmeros fatores, como o desejo 
de liberdade, por um lado, e a dependência que ainda tem dos pais, por outro. 
A estabilidade chega com a proximidade da idade adulta. Nessa fase não surge 
nenhuma nova estrutura mental, caminhando o indivíduo para um gradual 
desenvolvimento cognitivo, afetivo e social.
Três conceitos são fundamentais em Piaget: esquemas, assimilação e 
acomodação. Esquemas se referem a estruturas mentais ou cognitivas a partir 
das quais o indivíduo se adapta e organiza as informações do meio. Assimilação 
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
88
é o processo cognitivo caracterizado pela inserção de uma nova informação 
(perceptual, motor ou conceitual) às estruturas cognitivas prévias. Quando 
a criança tem novas experiências, ela buscaadaptar esses novos estímulos às 
informações que já possui. A acomodação ocorre quando a criança não consegue 
assimilar um novo estímulo, ou seja, quando não existe uma estrutura cognitiva 
que suporte a nova informação, restando duas saídas: modificar o esquema 
existente ou criar um novo esquema. Em ambos os casos, tem-se uma modificação 
da estrutura cognitiva. Em outros termos, a assimilação refere-se a uma mudança 
quantitativa enquanto a acomodação, a uma mudança qualitativa, processos que 
juntos resultam na mudança e no desenvolvimento das estruturas cognitivas. 
Para exemplificar, pensemos em uma criança que por estar aprendendo 
a reconhecer animais conheça apenas o animal cachorro. Em sua estrutura 
cognitiva, ela tem o esquema de um cachorro. Quando apresentado a essa criança 
um outro animal, um cavalo, por exemplo, ela o terá também como um cachorro, 
por ter características semelhantes (quadrúpede, marrom, rabo, formato do corpo 
semelhante etc.). Temos, nesse momento, o processo de assimilação. A partir do 
momento em que ocorrer a diferenciação entre o cachorro e o cavalo, teremos a 
chamada acomodação.
NOTA
Entre as inúmeras obras de Piaget, “Seis estudos de Psicologia” (Rio de Janeiro: 
Forense Universitária, 1985), é um dos livros de leitura mais acessível. O primeiro capítulo 
apresenta um resumo dos períodos de desenvolvimento, com suas principais características.
Outro autor que não pode ser esquecido, ao falarmos de desenvolvimento 
humano, é o soviético Vygotsky (Lev Semenovich Vygotsky). Com uma teoria 
menos sistemática que a de Piaget, ao lado de Luria e Leontiev, Vygotsky 
construiu propostas inovadoras sobre temas, como: relação entre pensamento e 
linguagem e o papel da instrução no desenvolvimento.
Vygotsky dedicou-se principalmente ao estudo das funções psicológicas 
superiores ou processos mentais superiores (pensamento, memória, atenção 
voluntária etc.). Buscou compreender os mecanismos psicológicos mais 
sofisticados, mais complexos, típicos do ser humano e o que lhe diferenciam dos 
outros animais. Para isso, buscou explicações nas relações sociais que o homem 
mantém no seu dia a dia, um processo ativo, no qual a história da sociedade 
e o desenvolvimento do homem caminham juntos. Nessa perspectiva estuda o 
desenvolvimento infantil. 
Oliveira (1997) apresenta os principais conceitos elaborados por Vygotsky. 
Um primeiro conceito e talvez o mais importante na concepção vygotskyana sobre 
TÓPICO 2 | INFÂNCIA
89
o funcionamento psicológico é o de mediação. A mediação pode ser interpretada 
como o processo de intervenção de um elemento intermediário em uma relação. 
Nesse sentido, ao longo do desenvolvimento do indivíduo, as relações mediadas 
passam a predominar sobre as relações diretas e ele vê uma importância 
fundamental no aprofundamento desse aspecto relacionado ao desenvolvimento 
(apud OLIVEIRA, 1997). O indivíduo se relaciona com o meio social através da 
mediação e é através dela que são desenvolvidas suas funções psicológicas. A 
mediação não é necessariamente a presença física do outro. Ocorre através dos 
signos, da palavra, dos instrumentos de mediação. A presença física do outro não 
garante a mediação. 
Vygotsky distingue dois tipos de elementos mediadores: os instrumentos 
e os signos, instrumentos materiais e instrumentos psicológicos. Os instrumentos 
são elementos interpostos entre o trabalhador e o objeto do seu trabalho. Os 
instrumentos são elementos externos ao indivíduo e que têm como função 
provocar mudanças nos objetos. Por outro lado, temos os signos, chamados por 
Vygotsky de instrumentos psicológicos, que são orientados para o próprio sujeito. 
São ferramentas que auxiliam nos processos psicológicos. 
Como exemplo, podemos imaginar o uso de varetas ou pedras para 
registro e controle da contagem de cabeças de gado. Assim como o machado 
(instrumento) corta melhor que a mão humana, as varetas permitem que o 
ser humano armazene informações e quantidades muito superiores as que ele 
poderia guardar na memória. 
Para Vygotsky, no decorrer do desenvolvimento humano ocorrem 
mudanças qualitativas no uso dos signos. Talvez a mais importante delas seja 
o momento em que a utilização das velhas marcas externas dão lugar aos 
processos internos de mediação, chamado de processo de internalização, ou 
seja, representações mentais que substituem os objetos do mundo real e que 
dizem respeito à nossa capacidade de lidar com representações, possibilitando, 
ao homem, libertar-se do espaço e do tempo presentes, fazer relações mentais na 
ausência das coisas, imaginar, fazer planos etc. 
Em se tratando de processos superiores e que caracterizam o funcionamento 
psicológico tipicamente humano, as representações mentais da realidade são 
nossos principais mediadores na nossa relação com o mundo. Um exemplo seria 
o momento em que o indivíduo aprende o significado de “cavalo”. A ideia de 
cavalo fará a mediação entre o cavalo real (que pode estar ausente) e a atividade 
psicológica (pensar sobre o cavalo, imaginá-lo em determinadas ações etc.). 
A linguagem é considerada um sistema de signos e com uma função 
primordial: o intercâmbio social. Através dela transmitimos ideias, planejamos 
ações, expressamos sentimentos. É a principal mediadora do homem com o 
mundo e é indispensável no nosso processo de humanização, já que sem ela 
não há aprendizagem. Através da linguagem o homem cria cultura e organiza o 
mundo simbolicamente.
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
90
Para Vygotsky, a interação face a face entre os indivíduos desempenha 
um papel fundamental na construção do ser humano. É através da relação 
interpessoal que o indivíduo internaliza as formas culturalmente estabelecidas 
de funcionamento psicológico. Dessa forma, a interação social fornece a 
matéria-prima para o desenvolvimento psicológico do indivíduo. A partir dessa 
perspectiva, ele busca aprofundar a relação entre pensamento e linguagem, com 
origens e trajetórias diferentes e independentes. Em determinado momento essas 
duas trajetórias se unem e o pensamento se torna verbal e a linguagem racional 
(domínio da linguagem propriamente dita pela criança), momento crucial no 
desenvolvimento da espécie humana, momento em que o biológico se transforma 
no sócio-histórico.
IMPORTANT
E
O choro, o riso e o balbucio da criança podem ser considerados uma forma 
de linguagem, mesmo que enquanto sistema simbólico. Essas reações têm clara função de 
alívio emocional, mas também contato social, uma forma de comunicação ainda difusa com 
as outras pessoas.
Na análise que Vygotsky faz entre pensamento e linguagem, a palavra acaba 
tendo um lugar privilegiado. No significado da palavra se percebe claramente a 
união entre o pensamento e a fala (pensamento verbal). Os significados estão em 
constante transformação em todo o desenvolvimento do indivíduo, ganhando 
contornos peculiares quando a criança começa a frequentar a escola. Isso nos 
aproxima de outros conceitos fundamentais em sua obra: o de desenvolvimento 
real, desenvolvimento potencial e desenvolvimento proximal.
Vygotsky denomina de desenvolvimento real a capacidade que a criança 
tem de realizar tarefas de forma independente. No entanto, para compreendermos 
adequadamente o desenvolvimento devemos também considerar o nível de 
desenvolvimento potencial, isto é, a capacidade que a criança tem de desempenhar 
tarefas com a ajuda dos adultos. Esta possibilidade de alteração no desempenho 
pela interferência do outro é fundamental na teoria de Vygotsky. Representa um 
momento significativo de desenvolvimento, já que não é qualquer indivíduo que, 
a partir da ajuda do outro, realiza uma tarefa. 
A partir destes dois níveis, real e potencial, chegamos ao chamado 
desenvolvimento proximal, que nada mais é do que a distância entre o que a 
criança conseguefazer sozinha (desenvolvimento real) e o que será possível 
realizar com a ajuda dos adultos (desenvolvimento potencial). A zona de 
desenvolvimento proximal acaba sendo um lugar em constante transformação, 
visto que o que uma criança é capaz de fazer hoje com o auxílio de um adulto 
TÓPICO 2 | INFÂNCIA
91
ela conseguirá fazer sozinha amanhã. Vale a ressalva de que o brinquedo e as 
brincadeiras para Vygotsky têm um papel importante, já que fazem com que a 
criança se comporte de forma mais avançada do que é habitual para a sua idade. 
A criação de uma situação imaginária (faz de conta) e/ou de regras imaginárias 
acaba criando uma zona de desenvolvimento proximal na criança.
A partir dos conceitos apresentados anteriormente, é importante termos 
claro que sua teoria, formulada em seu pouco tempo de vida, não é uma teoria 
muito bem estruturada e talvez nem tenha essa intenção. Seu trabalho, muito 
mais do que organizar, inspira a reflexão sobre o desenvolvimento humano. 
Para ele, no início, as respostas dadas pelas crianças podem ser explicadas por 
processos naturais, especialmente pela herança genética. No entanto, é a partir da 
mediação dos adultos que os processos psicológicos superiores mais complexos 
tomam forma. O desenvolvimento está, dessa forma, pautado nas interações, em 
que as funções psicológicas emergem, consolidam-se e são internalizadas.
NOTA
Para conhecer melhor Vygotsky, uma boa escolha é ter um contato com suas 
próprias obras, “Formação social da mente” (São Paulo: Martins Fontes, 1984).
A partir do que foi apresentado até o momento, acaba sendo necessário 
buscarmos aproximações e distanciamentos entre as teorias piagetiana e vygotskyana, 
o que proporcionará uma melhor compreensão das mesmas. A título de curiosidade, 
é interessante o fato que Piaget e Vygotsky nasceram no mesmo ano (1896), embora 
Vygotsky tenha tido uma vida bem mais curta. Vygotsky chegou a ler e discutir em 
seus textos os dois primeiros trabalhos de Piaget. Piaget tomou conhecimento da 
obra de Vygotsky aproximadamente 25 anos após a sua morte e acabou escrevendo 
o texto “Comentários sobre as observações críticas de Vygotsky”, apêndice da edição 
norte-americana de 1962 do livro “Pensamento e linguagem”. Ambos nos deixaram 
uma produção vasta, densa e merecedora de um estudo aprofundado.
Palangana (1998) propõe-se a discutir as principais diferenças entre 
esses autores e, segundo ele, Piaget tem um viés mais biológico, o que faz 
com que ele postule sua teoria a partir de um caráter universal dos estágios de 
desenvolvimento. Diferentemente, Vygotsky se atém à interação entre o biológico 
e o cultural. Pautado na dialética marxista, vê no organismo humano alto grau de 
plasticidade, a partir do momento que enfatiza o efeito diferencial que o ambiente 
sócio-histórico pode exercer sobre o desenvolvimento. 
É na e pela interação social que as funções cognitivas são elaboradas. 
Vygotsky acaba sendo considerado mais do que um interacionista. É considerado 
um autor sociointeracionista, dada a ênfase colocada no estudo das relações 
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
92
recíprocas que se estabelecem entre sujeito e objeto. Exatamente por este fato, 
Vygotsky tem uma aproximação maior com a Psicologia Social e é referência ao 
estudo do desenvolvimento humano, partindo de um enfoque psicossocial.
Analisadas as informações expostas até agora, percebe-se com clareza 
que na perspectiva interacionista de Piaget e Vygotsky, o papel do social sofre 
alterações significativas. Em Piaget, tem-se um meio ambiente extremamente 
genérico, abstrato e a-histórico. É nesse ambiente, concebido de forma imediata e 
descontextualizada, que o sujeito interage com os objetos físicos e com as pessoas, 
construindo seu conhecimento. A ênfase maior é colocada na interação do sujeito 
com os objetos físicos. Vygotsky, por sua vez, refere-se ao meio social como sendo 
o contexto das relações que os homens estabelecem entre si e com a natureza na luta 
pela sobrevivência e em que a linguagem ocupa um papel central. Nesse sentido, 
por essas e outras razões, é comum termos acesso à ideia de que Vygotsky supera 
Piaget, exatamente por predominar uma visão de homem, mundo e sociedade 
mais dinâmica, flexível e contextualizada. 
Embora pautada em uma matriz epistemológica diferenciada e de 
certa forma mais totalizadora (não ignora nenhum dos aspectos presentes no 
desenvolvimento), temos na teoria sociointeracionista um longo caminho a ser 
percorrido. Vygotsky nos oferece várias reflexões a respeito do desenvolvimento 
humano, embora não seja uma teoria estruturada e que consiga nos dar suporte 
para o complexo processo de construção psicológica. Temos um quadro esboçado 
com sugestões e caminhos, embora tenhamos ainda que buscar maiores 
informações para compreendermos os mecanismos presentes no complexo 
processo de desenvolvimento.
UNI
O texto a seguir enfatiza a abordagem interacionista do desenvolvimento e da 
aprendizagem, bem como a ligação e o distanciamento entre os dois principais teóricos 
dessa corrente: Piaget e Vygotsky.
TÓPICO 2 | INFÂNCIA
93
LEITURA COMPLEMENTAR
[...] uma autêntica abordagem interacionista deve estar voltada 
prioritariamente para a relação, para a interação entre indivíduo e meio. Isso 
significa tomar esta interação como sendo o fator no e pelo qual se produz 
aprendizagem e desenvolvimento. Quando analisados por esse prisma, esses 
dois processos, sem perder suas respectivas identidades, são inseparáveis. 
Desenvolvimento e aprendizagem condicionam-se mutuamente: o sujeito se 
constrói e se desenvolve à medida em que interage socialmente, apropriando-
se e recriando a cultura elaborada pelas gerações precedentes. As trocas sociais 
incidem, por um lado, sobre processos maturacionais em via de se realizarem, 
completando-os. De outro, tais processos, por se completarem, propiciam 
condições para aprendizagens mais complexas, e assim sucessivamente. 
Nesse sentido, o papel do social no processo de construção do conhecimento é 
extremamente relevante: sua contribuição na constituição das funções superiores 
do pensamento é tão profunda e significativa quanto a que se atribui ao sujeito. De 
acordo com esse raciocínio, homem e sociedade compõem de fato uma totalidade, 
em cujo movimento dialético se produz aprendizagem e desenvolvimento. 
Trata-se, portanto, de uma unidade em que os dois polos se completam e se 
influenciam reciprocamente, em uma situação de troca e complementariedade, 
que se manifesta e se concretiza por intermédio de interações sociais e históricas, 
dos homens e destes com a natureza.
Não se trata aqui de assinalar todos os possíveis encontros e desencontros 
entre Piaget e Vygotsky, no que se refere ao papel e à função do social nos 
processos de desenvolvimento e aprendizagem. Pretende-se, isto sim, mostrar 
que, mesmo sendo dois autores considerados interacionistas, eles desenvolvem 
leituras fundamentalmente divergentes dos mesmos fenômenos. Portanto, investir 
na abordagem interacionista como uma forma de promover o conhecimento 
implica em se ter consciência de tais sutilezas teóricas que, se para alguns podem 
parecer insignificantes, são, na verdade, suficientes para produzirem condutas 
pedagógicas potencialmente muito distintas. 
FONTE: Palangana (1998, p. 163-164)
94
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, dentre outras questões, lembre-se de que:
• Etimologicamente, a palavra infância significa ausência de fala, embora em 
diversos momentos signifique o período do desenvolvimento referente à 
criança.
• Embora hoje se tenha claro que o desenvolvimento é um processo que se inicia 
no nascimento e caminha até a morte, é inegável a importância dos primeiros 
anos de vida na constituição do que somos.
• Se a criança sempre existiu, a infância tal qual conhecemoshoje é uma 
construção social. Nesse sentido nem sempre existiu.
• Atualmente as teorias interacionistas ganham destaque ao buscar explicar 
como se dá o desenvolvimento e a aprendizagem e como Piaget e Vygotsky se 
destacam.
• Piaget é leitura obrigatória por ter construído uma teoria extremamente 
sistemática. Para ele o desenvolvimento intelectual ocorre em etapas ou fases 
universais.
• Vygotsky, diferente de Piaget, buscou analisar o desenvolvimento infantil, 
voltando-se à compreensão das relações sociais que este estabelece. Estas são 
matérias-primas principais para o desenvolvimento psicológico do indivíduo.
95
AUTOATIVIDADE
O que significa a afirmação de que “embora as crianças existam desde sempre, 
a infância é uma construção social”? Embora seja uma pergunta complexa, 
qual a diferença fundamental entre Piaget e Vygotsky (ambos considerados 
interacionistas) ao buscar compreender como se dá o desenvolvimento infantil?
96
97
TÓPICO 3
ADOLESCÊNCIA
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
A adolescência pode ser considerada uma das fases do desenvolvimento 
humano mais curiosa e isso nos leva a uma infinidade de materiais à disposição 
para consulta e a uma diversidade de teorias explicativas e concepções a respeito 
da mesma. Três questões centrais estão presentes e são de enorme valia nesse 
sentido: a adolescência existe? Há características naturais na adolescência? O que 
é a adolescência? 
Estranhamente, a concepção apresentada a seguir acaba não ganhando 
destaque na literatura vigente e faz um contraponto à maioria do material 
disponível e produzido pela Psicologia e ciências médicas. Na Psicologia Social, 
e mesmo na Antropologia, é concepção predominante e defende a ideia de que a 
adolescência é um produto recente e característico da sociedade moderna.
2 DEFININDO ADOLESCÊNCIA
Parece bastante óbvio que uma primeira questão que se coloca, ao 
buscarmos adentrar no estudo da adolescência, é a sua definição, bem como a 
idade cronológica em que esse período ocorre. Há ainda autores que defendem 
uma subdivisão desse período como é o caso de Stone e Church (apud CARMEN, 
1988). Para eles, ocorrem três momentos distintos com os respectivos termos: 
pubescência, puberdade e adolescência. 
Por pubescência entende-se o período que antecede a puberdade e as 
mudanças físicas nela ocorridas. A principal característica desse período é o 
crescimento físico intenso, trazendo mudanças drásticas na estrutura e proporção 
corporal. A puberdade é compreendida como o clímax das mudanças corporais 
iniciadas na pubescência. Nesse período, ocorrem a primeira menstruação na 
garota e a produção e ejaculação de espermatozoides no garoto. Já a adolescência 
propriamente dita acaba envolvendo a conquista da maturidade social, ou seja, 
acaba sendo um processo mais psicológico, enquanto os outros dois períodos têm 
contornos nitidamente mais biológicos. 
Exatamente por isso, mesmo tendo consciência da importância dos dois 
primeiros períodos e do fato que as mudanças físicas associadas acabam por 
acarretar alterações no nível psicológico, nossa análise se dará em um nível mais 
98
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
psicológico, até porque em Psicologia Social é comum a explicação das mudanças 
comportamentais presentes nessa fase se darem mais em razão de uma invenção 
cultural do que em razão de uma turbulência hormonal.
Para Carmen (1988), fica difícil fixar com precisão em termos de idade 
o início e término da adolescência. Segundo ela, uma possibilidade seria a de 
compreendê-la em três etapas: adolescência inicial (11 aos 15 anos), adolescência 
mediana (11 aos 17 anos), e a adolescência terminal ou tardia (17 aos 24 anos). 
Não há consenso em relação a esses números, embora a maioria dos teóricos 
compartilhe que a adolescência é o estágio intermediário do desenvolvimento, 
aquele situado entre a infância e a adultez ou, como afirmam Bock, Furtado e 
Teixeira (2002), é a fase caracterizada sobretudo pela aquisição de conhecimentos 
necessários para o ingresso do jovem no mundo do trabalho e constituição da sua 
própria família.
 Esse período acaba, na nossa cultura, tendo importância incontestável, 
dadas às novas situações que são colocadas (novo corpo, intensidade do 
contingente amoroso, dúvidas em relação ao projeto de vida etc.). Segundo alguns 
autores aí está a explicação para as dificuldades encontradas nesse período. Se, 
por um lado, busca-se e há uma aproximação da identidade adulta, por outro, 
gradativamente, abandona-se a identidade infantil, tendo que lidar com essa 
espécie de luto. Como afirmam Bock, Furtado e Teixeira (2002), as inquietações 
da juventude caminham entre a loucura e a liberdade contraposta ao controle e 
responsabilidade, assim como uma vontade de criança e adulto ao mesmo tempo.
O fato é que a grande maioria dos autores compartilha a ideia de que, 
por si só, as mudanças corporais e biológicas não dão conta de explicar todas as 
reações e a chamada crise adolescente, bem como admitem ser a adolescência, 
pelo menos na cultura ocidental, um período crítico. 
3 A INVENÇÃO DA ADOLESCÊNCIA
A definição de adolescência nos leva à discussão central e que atormenta 
de certa forma a maioria dos estudiosos nesse campo. Seria a adolescência algo 
natural e universal ou uma invenção cultural? O que seria exatamente adolescência? 
Essas perguntas nos levam a uma série de reflexões bastante valiosas sobre o 
tema. Infelizmente, a Psicologia tradicionalmente não teve dúvida em relação a 
estas respostas e optou por acreditar que a adolescência é algo natural e, por isso, 
a pergunta o que é adolescência acaba não tendo sentido. Isso pode ser explicado 
em grande parte pela própria formação que acaba por ignorar a relação entre 
adolescência e a sua determinação histórica e cultural. Tanto as ciências médicas 
quanto psicológicas acabaram por historicamente naturalizar, universalizar e até 
patologizar a adolescência.
Ozella (2003) apresenta os resultados de uma pesquisa realizada no 
final da década de 1990 e que teve como objetivo entender os significados que 
TÓPICO 3 | ADOLESCÊNCIA
99
os profissionais de Psicologia tinham dos adolescentes, que acabam sendo seus 
objetos de intervenção. Os resultados foram surpreendentes. A grande maioria 
relatou ter uma visão naturalizante, universalizante e negativa em relação à 
adolescência. 
Natural, por fazer parte indiscutivelmente do nosso ciclo de vida; 
universal, por ocorrer em todos os lugares e todos os tempos; e negativa, por ser 
caracterizada como uma crise e, por isso, trará para o adolescente vários sintomas 
maléficos associados. A fala dos entrevistados nada mais é do que um reflexo da 
concepção que a Psicologia tem acatado sobre o adolescente e tem uma marca 
pontual da Psicanálise. 
A partir do século XX, o adolescente começa a ocupar um espaço enquanto 
objeto de estudo e é nesse momento que começam a ser construídas várias 
teorias, que em comum têm a crença de que esta seria uma etapa marcada por 
tormentos e conturbações, vinculadas à emergência da sexualidade. Essa visão 
predominante pode ser resumida na fala de Bock (apud OZELLA, 2003, p. 205) 
em que a adolescência:
[...] como fase do desenvolvimento, as características são universais 
e inevitáveis. Tomadas como fruto do desenvolvimento são também 
naturalizadas. É da natureza do homem e de seu desenvolvimento 
passar por uma fase como a adolescência. As características desta 
fase, tanto biológicas quanto psicológicas, são naturais. Rebeldia, 
desenvolvimento do corpo, instabilidade emocional, tendência 
à bagunça, hormônios, tendência à oposição, crescimento, 
desenvolvimento do raciocínio lógico, busca da identidade, busca da 
independência, enfim, todas as características são equipadas e tratadas 
da mesma forma, porque são da naturezahumana.
Esta concepção é compartilhada pela Psicanálise, em especial a assumida 
por Aberastury e Knobel (1989), que introduziram o conceito de “síndrome 
normal da adolescência”. Segundo eles, a adolescência pode ser caracterizada 
por uma sintomatologia expressa em uma série de itens. Nesta concepção fica 
evidente um enfoque naturalizador, universalizador e ainda patologizador por 
ser carregada de conflitos naturais.
Osório (1992) é outro autor que apresenta a postura típica da Psicologia em 
relação à adolescência. Também adepto da abordagem psicanalítica, segundo ele 
“[...] sem rebeldia e sem contestação não há adolescência normal” ou então “[...] 
o adolescente submisso é que é exceção à normalidade”. (OSÓRIO, 1992, p. 47). 
Todas estas afirmações pecam por apresentarem alguns riscos. Para Blasco (apud 
AGUIAR; BOCK; OZELLA, 2007), o primeiro risco seria rotular de patológico o 
adolescente não rebelde ou o que não apresente as dificuldades previstas nesse 
período. Um segundo risco se refere considerar saudável o ser “anormal” e no qual 
problemas sérios podem acabar passando despercebidos ao serem considerados 
“bobagens da idade”, por exemplo. Outro risco seria o de estudos dessa natureza 
se pautarem em algum tipo de jovem, como: homem branco, burguês e ocidental, 
o que já em primeira instância mostraria suas limitações. 
100
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
Entretanto, existem saídas para estes equívocos e alternativas para superar 
estas visões ainda bastante presentes e dominantes na Psicologia. Em outra 
perspectiva, embora não possamos negar as alterações biológicas e corporais 
presentes neste período e que isto possa ser algo natural e universal (ocorra em 
todos os lugares), o fato de a adolescência, como compreendida por nós, não se 
fazer presente em algumas sociedades, leva-nos à ideia de ela ser uma invenção 
cultural. 
Em muitas sociedades primitivas, tinham-se os chamados “ritos de 
iniciação” e estes não duravam mais do que algumas semanas. Terminados esses 
rituais, os jovens adquiriam o status de adultos, sem que fossem verificados 
conflitos ou tensões nesse intermédio. Isso nos leva a crer que o nosso modo de 
convívio incrementa e dificulta essa passagem para o estado adulto. 
Além de ser uma passagem demasiadamente longa (vários anos), há 
uma tensão e sobrecarga que justifica o termo tão utilizado: crise. Como afirmam 
Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 292), “[...] quando uma sociedade exige de seus 
membros uma longa preparação para entrar no mundo adulto, como na nossa, 
teremos de fato o adolescente e as características psicológicas que definirão a 
fase”. E nesse sentido Freud (apud CARMEN, 1988, p. 16) nos coloca um desafio: 
“[...] já que se invocaram os fantasmas, não é o caso de sair correndo quando 
eles aparecem”, ou seja, se a nossa cultura criou a crise adolescente, cabe a ela se 
encarregar de entendê-la.
UNI
Para entender melhor a ideia de invenção cultural, segue o relato de um estudo 
realizado pelo etnólogo Bronislaw Malinowski acerca da cultura dos nativos trobriandeses, 
povo morador das ilhas do noroeste da Nova Guiné na Oceania.
De acordo com Bock; Furtado; Teixeira (2002, p. 292):
No caso dos jovens trobriandeses, a puberdade começa antes que na 
nossa sociedade, mas, nessa fase, as meninas e os meninos trobriandeses já 
iniciaram sua atividade sexual. Não há, como em outras culturas primitivas, 
um determinado rito de passagem para a vida adulta. Apenas, gradualmente, 
o rapaz vai participando cada vez mais das atividades econômicas da tribo e 
até o final de sua puberdade será um membro pleno da tribo, pronto para se 
casar, cumprir as obrigações e desfrutar dos privilégios de um adulto.
TÓPICO 3 | ADOLESCÊNCIA
101
Essa fase descrita pelo etnólogo, se é possível estabelecer um paralelo, 
estaria para a nossa sociedade, em termos etários, definida como pré-
adolescente. Entretanto, no nosso caso, as relações sexuais vêm depois dessa 
fase. Outra diferença é que os nativos das ilhas Trobriand, devido ao tabu que 
representam as relações sociais com irmãs, saem de casa na puberdade, para 
uma espécie de república organizada por um jovem mais velho não casado, 
ou por um jovem viúvo. Essa “república” tem o nome de bukumatula, e lá os 
jovens, moças e rapazes moram sem controle dos pais. Mas, até que casem e 
organizem suas próprias casas, trabalham para as suas famílias.
Esse exemplo deixa claro que a adolescência não pode ser considerada 
uma fase natural do desenvolvimento humano. Não podemos negar a existência 
em qualquer cultura da passagem da infância para a fase adulta, embora ela se 
dê de forma muito diferente em um lugar e outro: duração, comportamentos 
associados etc. No caso dos trobriandeses, como há um salto da pré-adolescência 
para a fase adulta, poderíamos afirmar, sem medo, de parecermos ridículos que 
lá não existe adolescência. 
A adolescência, dessa forma, é uma fase típica do desenvolvimento 
do jovem na nossa sociedade. Nessa sociedade altamente industrializada há 
uma exigência sem precedentes de um período específico para que os jovens se 
preparem para o ingresso no mundo do trabalho, dentre outras. Aguiar, Bock e 
Ozella (2007, p. 170), ao tentarem defini-la, afirmam que “[...] a adolescência se 
refere, assim, a esse período de latência social constituída a partir da sociedade 
capitalista gerada por questões de ingresso no mercado de trabalho e extensão 
do período escolar, da necessidade do preparo técnico”. Vale ainda o destaque 
de que a partir do momento que temos como determinante o fator econômico, 
jovens de diferentes classes sociais acabarão passando por essa transição de 
forma diferenciada. Em uma mesma cultura ainda assim teremos várias 
adolescências. 
Diante dessas constatações fica claro que o “normal” em nossa sociedade 
nada mais é do que aquilo que hoje é valorizado e que a maioria acaba acatando: 
não é natural nem eterno e isso é válido também para o psiquismo humano. Tudo 
no psiquismo humano pode ser diferente, já que é constituído por um processo 
histórico. As características da adolescência somente podem ser entendidas se 
olharmos as relações sociais e a cultura nas quais estamos inseridos e não somente 
o desenvolvimento do adolescente considerado de forma isolada. Não há como 
negar a adolescência, mas sim devemos ter o cuidado de compreendê-la como 
uma produção humana. 
Em termos genéricos é possível afirmar que temos várias questões 
colocadas, dentre elas a tendência do jovem se sentir confuso e “perdido” diante 
de muitas contradições ligadas ao fato de não ser mais menino, ao mesmo tempo 
que ainda não pode ser considerado um adulto propriamente dito. Estando no 
meio do caminho, tem dificuldade de abandonar os resquícios de uma infância 
102
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
que, querendo ou não, lhe traz segurança e proteção; e, por outro lado, sente-
se atraído pelo mundo adulto, mesmo que ainda tenha dificuldade de gozá-
lo plenamente. Por se perceberem no meio do caminho, acabam tendo muitas 
dúvidas. 
Para Kahhale (2007), no que tange à sexualidade, ressaltada pela 
abordagem psicanalítica, esta deve ser analisada a partir de uma leitura histórica 
e contextualizada. Devemos buscar resgatar a gênese da sexualidade tal qual a 
vivemos e a concebemos atualmente em nossa sociedade. A sexualidade deve 
ser sempre pensada e debatida a partir do campo das relações sociais, da cultura, 
dos valores e formas sociais de vida, algo vivido no âmbito individual, mas 
cuja constituição nos sujeitos é regida pelas normas e valores sociais vigentes. 
A construção de tabus como a proibição do sexo antes do casamento pela Igreja 
católica, ou então, a heterossexualidade enquanto algo esperável são exemplos 
disso.
Se temos como adolescência o momento em que homens emulheres 
começam a ingressar no universo adulto, não há como negarmos que a 
sexualidade acaba sendo um ingrediente presente. É evidente que a sexualidade, 
que tem seu lugar no corpo humano, deve ser considerada nos seus aspectos 
biológicos. Entretanto, as mudanças físicas ocorridas na adolescência devem 
ser significadas na cultura. Dessa forma, não podemos ignorar os processos de 
maturação fisiológica, ao mesmo tempo devemos compreendê-los na sua dinâmica 
sociocultural. Se tínhamos a sexualidade com uma função básica: a sobrevivência 
da espécie, hoje acaba tendo contornos muito mais complexos e que, por muito 
tempo, foram ignorados pela Psicologia ao naturalizar este fenômeno.
Para Bock, Furtado e Teixeira (2002), a sexualidade passa a ser uma 
incógnita por ser recoberta de preconceitos, de moralismo, de dúvidas. Na nossa 
cultura o sexo em si, por exemplo, acaba sendo um tabu por ser algo velado e em 
que o adolescente acaba tendo muitas perguntas e poucas respostas, o que gera 
uma ansiedade de certa forma esperada. Na adolescência, tem-se a emergência de 
várias questões ligadas à sexualidade, como: a opção sexual, o início da atividade 
sexual-afetiva, anticoncepção etc. Na juventude, em específico a questão sexual, é 
aflorada e se apresenta diante da contradição desejo/repressão. 
De forma geral, como apresentam Aguiar, Bock e Ozella (2007), a 
contradição básica da adolescência está no fato de que os jovens apresentam 
todas as possibilidades de se inserir na sociedade adulta em termos cognitivos, 
afetivos, de capacidade de trabalho e de reprodução, no entanto, esse não é 
autorizado a essa inserção. Dessa relação e contradição será constituída grande 
parte das características daquilo que concebemos como adolescência: rebeldia, 
instabilidade, busca de identidade e conflitos. Por isso, não há como negar estas 
dificuldades, no entanto, elas foram e são construídas socialmente. O “ser” 
jovem é o “ser” vinculado nos meios de comunicação, fruto das relações que 
estabelecemos cotidianamente a partir da contradição condição/autorização.
TÓPICO 3 | ADOLESCÊNCIA
103
Em síntese, a nossa sociedade ocidental, além da infância, criou uma 
etapa do desenvolvimento como passagem do mundo infantil para o mundo 
adulto. Em outras épocas isso não se deu dessa maneira. De um simples ritual de 
iniciação, esse momento foi transformado em algo complexo, complexo como as 
relações dos homens entre si e com a natureza hoje.
UNI
A seguir, você lerá um trecho de um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 
20 de setembro de 1998, pelo psicanalista Contardo Calligaris e citado por Bock, Furtado e 
Teixeira (2002, p. 303-304). Em contramão com a psicanálise clássica, suas palavras revelam 
muito bem o contraposto entre a visão hegemônica da adolescência e a concepção de 
adolescência enquanto construção recente.
104
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
LEITURA COMPLEMENTAR
A SEDUÇÃO DOS JOVENS
Contardo Calligaris
De qualquer forma, para que a adolescência seduza os adultos, é necessário 
primeiro que ela exista. Só recentemente ela se tornou uma ideia forte na nossa 
cultura. O conceito de um momento crucial e crítico da vida, entre a infância e a 
vida adulta, afirma-se no fim do século passado. A adolescência é vista como um 
momento difícil, arriscado, de preparação e acesso ao exercício da sexualidade e 
da plena autonomia social. Ela é concebida como o corolário psicológico e social 
de uma crise biológico-hormonal de crescimento.
 
As coisas mudam quando a antropóloga Margaret Mead publica, em 
1928, Coming of Age in Samoa (crescendo em Samoa), com o intento específico de 
mostrar que os tempos da vida não são ciclos naturais ou biológicos, mas culturais. 
Mead mostra que a adolescência nas ilhas Samoa mal merece ser considerada 
um momento específico da vida, ou seja, a adolescência como nós parecemos 
concebê-la não é a tradução psicológica obrigatória das tempestades hormonais 
da puberdade. O estresse da adolescência – ela afirmava – “está em nossa cultura, 
não nas mudanças físicas pelas quais passam as crianças”.
 
Tornava-se então possível e necessário se perguntar por que, logo em 
nossa cultura, a adolescência se constituiria numa época proverbialmente difícil 
e crucial. A resposta de Mead vale ainda hoje. Em resumo, ela dizia: em uma 
sociedade aberta como a nossa – na qual a função social de cada um não é decidida 
de antemão – a adolescência é um momento de grande intensidade dramática, 
por ser o tempo da possibilidade (e necessidade) de preparar e fazer escolhas 
decisivas para a vida futura.
105
RESUMO DO TÓPICO 3
As informações principais deste tópico podem ser resumidas nos 
seguintes itens:
• A partir de uma perspectiva temporal é possível dizer que a adolescência é um 
estágio intermediário do desenvolvimento, se coloca entre a infância e a vida 
adulta.
• Tanto a Psicologia como as ciências médicas historicamente acabaram 
naturalizando, universalizando e patologizando a adolescência.
• Tanto a Psicologia Social como a Antropologia tendem a compreender a 
adolescência como uma invenção cultural já que, como compreendida por nós, 
não se faz presente em algumas sociedades.
• Na perspectiva adotada neste tópico, a adolescência pode ser considerada uma 
fase típica do desenvolvimento do jovem na nossa sociedade industrializada 
e que exige um período específico de preparo para o ingresso no mundo do 
trabalho, assim como se fazem presentes várias contradições como desejo/
repressão e condição/autorização.
106
1 Interprete a afirmação da antropóloga Margaret Mead presente no texto 
complementar anterior: “O estresse da adolescência está em nossa cultura, 
não nas mudanças físicas pelas quais passam as crianças”.
AUTOATIVIDADE
107
TÓPICO 4
IDADE ADULTA E VELHICE
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Normalmente, ao se referir à Psicologia do desenvolvimento, tem-se a 
ideia de que esta é uma área da Psicologia voltada a compreender como se dá o 
desenvolvimento humano do nascimento até a morte. Entretanto, ao entrarmos 
em contato com a literatura da área, percebemos que a maioria do material 
voltado a esta temática se volta à compreensão da infância. O que fica evidente 
no estudo do desenvolvimento humano é que este acabou sendo considerado por 
muito tempo como sinônimo de desenvolvimento infantil e isto mudou apenas 
recentemente. 
A vida adulta e a velhice, enquanto etapas estudadas no campo do 
desenvolvimento humano, é algo verificável somente nas últimas décadas, e este 
surgimento tardio fica claro ao nos depararmos com a escassez de material voltado 
especificamente à maturidade, enquanto momento importante e merecedor de 
aprofundamento na Psicologia. 
Mesmo com essa limitação, a seguir serão apresentadas e discutidas 
algumas nuances importantes presentes na vida adulta e velhice, períodos 
significativos do desenvolvimento humano.
2 IDADE ADULTA
A vida adulta e a velhice constituem desafios a todas as sociedades 
humanas, sobretudo no mundo moderno, cuja dimensão social se encontra 
centrada na juventude, como mito e como valor que orientam a percepção de 
mundo e a compreensão possível da vida. No entanto, como afirma Gusmão 
(2001), ao ser vivida, a própria vida se encarrega de destruir o mito e expor a 
realidade humana em sua fragilidade biológica e social. 
Papalia, Olds e Feldman (2006) expõem que a idade adulta já foi 
considerada um período relativamente estável, no entanto, parece mais coerente 
termos que, assim como em outras fases do desenvolvimento humano, o debate 
deve ir além da questão estabilidade versus mudança, já que o desenvolvimento 
psicossocial envolve ambas e a questão central deve ser: que tipos de mudança 
ocorrem? O que os ocasiona? 
108
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIALA palavra maturidade pode se referir tanto à vida adulta quanto à velhice, 
já que normalmente é compreendida como sinônimo de idade madura, estado 
em que há maturação, amadurecimento. Os dicionários trazem também outros 
aspectos como precisão, exatidão, prudência, perfeição, primor. Diante destes 
aspectos presentes na maturidade, fica evidente a mesma enquanto um rol de 
qualidades tanto objetivas como subjetivas. A maturidade, portanto, envolve 
várias dimensões: social, cultural, biológica, psicológica, dentre outras. No 
entanto, o desafio não está em definir o que é maturidade para entendê-la como 
uma época ou fase específica da vida, já que como afirma Iturra (apud GUSMÃO, 
2001, p. 117), “[...] a maturidade tanto pode chegar aos 14 anos como aos 40, como 
aos 80, nada tem a ver com a idade, tem a ver com o entendimento do real [...]”. 
Dessa forma, o desenvolvimento da personalidade adulta depende 
menos da idade e mais de eventos importantes da vida, como: o casamento, a 
vida profissional, o nascimento dos filhos, dentre outros bastante significativos. 
Lidz (apud MOSQUERA, 1978) afirma que se compararmos a vida com uma peça 
teatral, a adultez é o período no qual se chega ao ponto culminante do drama. 
Todas as personagens já apareceram em cena, já que se apresentou o tema e, ao 
findar o terceiro ato, chega-se ao desenlace que conduzirá à conclusão da peça no 
quarto ato. Na vida adulta, diferente da adolescência, que é repleta de alterações 
corporais e exigências das mais diversas, aparentemente, atinge-se certo grau 
de estabilidade. Nessa fase, normalmente, tem-se uma profissão, um lar, uma 
família, o que garante um novo lugar, uma nova relação até então não vivenciada 
pelo jovem. Por outro lado, como apresentado por Papalia, Olds e Feldman (2006), 
a idade adulta acaba sendo um período movimentado e, às vezes, até estressante, 
por ser repleta de muitas responsabilidades e se ter a emergência de múltiplos 
papéis, como: administrar o lar, departamentos ou empresas, ter filhos ou lidar 
com a independência dos mesmos, talvez cuidar de pais idosos e ainda iniciar 
novas carreiras. 
Embora seja perigoso e, muitas vezes pouco interessante, é necessário 
buscar estabelecer uma certa padronização de comportamentos por faixa etária 
e se ter consciência disso. Isso pode nos ser útil para buscarmos pensar sobre 
algumas questões comuns e presentes na vida de muitas pessoas. Para Mosquera 
(1978), o adulto que tem por volta de trinta anos desfruta de certa estabilização, 
como citado no parágrafo anterior, por ter no âmbito pessoal e profissional mais 
certezas do que indefinições. Com quarenta anos de idade, chega-se ao auge de 
uma busca de consolidação, em que se colhem os frutos do esforço de uma vida 
repleta de buscas e de superação de desafios. Nesse momento, fica claro o que 
é realizável e o que agora já é visto como inalcançável ou inatingível, o que só 
é evidente ao se atingir uma certa maturidade. Com cinquenta anos de idade, a 
capacidade física decresce e começam a ser abandonadas atividades que antes 
faziam parte do repertório de comportamentos rotineiros. Tarefas sedentárias e 
contemplativas substituem gradativamente as atividades anteriormente bastante 
intensas. Com sessenta anos, o adulto aproxima-se da velhice, na qual se prepara 
para receber sua aposentadoria e, mais importante do que isso, de encerrar sua 
vida profissional, deixando esta a cargo de pessoas mais jovens. 
TÓPICO 4 | IDADE ADULTA E velhice
109
Para Erikson, o funcionamento psicológico saudável na fase adulta 
depende do êxito na resolução da chamada crise de geratividade versus estagnação. 
Propõe a ideia de que saúde e doença são sinônimos de geratividade e estagnação 
e esta resolução ocorre nos relacionamentos sociais a partir do desempenho de 
vários papéis. A geratividade é fundamental para um ajustamento psicossocial 
bem-sucedido. Nesse sentido, a geratividade é algo que surge na idade adulta 
e pode ser definida como o interesse em guiar a geração seguinte. É mais do 
que a paternidade e a maternidade, embora esses processos sejam bons exemplos 
de geratividade e representem momentos cruciais do desenvolvimento afetivo 
humano. De forma geral, geratividade pode ser entendida como uma capacidade 
de cuidado e implica em responsabilidade para com os outros. Essa consciência 
gerativa se estrutura com o desenvolvimento e a maturidade do adulto e traz ao 
mesmo a noção de responsabilidade social, um sentimento de grande valia para 
o crescimento pessoal.
IMPORTANT
E
O conceito de geratividade traz a noção de cuidado e atendimento e isso 
permite pensarmos em adultos gerativos, que se dispõem a “cuidar” de outros adultos. 
Profissões como a do médico, psicoterapeuta e a do professor podem ser exemplos típicos 
de geratividade.
Dentro da idade adulta, frequentemente, há ainda a necessidade de 
se distinguirem vários momentos, dentre eles a meia-idade, período entre 
as idades de 40 a 65 anos, aproximadamente. Outro critério de definição é o 
contexto da família. Nesse sentido, uma pessoa de meia-idade seria aquela que 
possui filhos crescidos e/ou pais idosos. Segundo Chazaud (1986), após os 40 
anos, aproximadamente, temos um período de involução, no qual se verificam 
diferenças individuais significativas tanto na velocidade quanto na sua conotação 
mais ou menos patológica. Segundo Papalia, Olds e Feldman (2006), a meia-idade 
é um período importante por ser uma época em que se olha tanto para frente 
quanto para trás, os anos já vividos e os anos que virão. Nesse momento é feito 
um balanço do que já foi vivido, com o intuito de reavaliar objetivos e aspirações 
e decidir os caminhos a serem percorridos desse momento em diante. 
Esse período ímpar é chamado por muitos de crise da meia-idade, 
caracterizada por uma crise de identidade, que tem outro aspecto importante 
presente: a consciência da mortalidade. “Muitas pessoas nessa época percebem 
que não serão capazes de realizar os sonhos de sua juventude ou que a realização 
de seus sonhos não trouxe a satisfação que esperavam. Sabem que, se quiserem 
mudar de direção, precisam agir rapidamente” (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 
2006, p, 630).
110
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
Em suma, as dificuldades e/ou características da vida adulta estão longe 
de se limitar a questões sexuais e reprodutoras. A inserção na vida produtiva 
(trabalho) e nas diferentes formas de vida associativa repercutirão fortemente na 
construção da subjetividade do adulto. Se de um lado temos uma tendência à 
aquisição de certa estabilidade, por outro, a idade adulta começa a apresentar 
dados novos e inquietadores: passa-se por uma crise muito diferente da vivenciada 
pelo adolescente. Na idade adulta começam a ser percebidos indicativos de um 
gradual declínio físico e da capacidade de desempenho. Inicia-se, nesse momento, 
o envelhecimento propriamente dito, ou melhor, a perda de algumas habilidades 
e potencialidades, algo inusitado e causador de uma justificável angústia.
3 VELHICE
Se algumas sociedades tradicionais tinham a velhice como sinônimo de 
sabedoria, em que o ancião, por ter acumulado experiência, saber e ter algo a 
transmitir, era altamente respeitado e requisitado, entretanto, infelizmente, hoje 
é vista como sinônimo de afastamento e dificuldades das mais diversas.
Lidz (apud MOSQUERA, 1978) afirma ser algo um tanto arbitrário a 
proposição de que a velhice principia em torno dos sessenta e cinco anos de idade. 
Segundo ele, critério mais interessante é a aposentadoria, o que aprofundaremos 
em breve. Segundo Beauvoir (1990), é muito difícil precisar quando exatamente 
começa a decadência senil, visto que são muitos os fatores que acabam interferindo 
no envelhecer humano. Um destes é a classe a qual se pertence. Um mineiro, aos 
50 anos, será um homem “acabado”, ao passo queentre os privilegiados, muitos 
carregarão alegremente seus 80 anos.
Bastante comum é a compreensão de velhice como terceira idade, 
caracterizada por um período no qual se olha muito mais para o passado do que 
para o futuro e o panorama o conduz a reflexões não muito otimistas, como as 
que a perspectiva do porvir produz no jovem. É comum, nesse momento, ser 
feito um certo balanço entre o que foi realizado e os frutos obtidos, o que, muitas 
vezes, acarreta um certo desengano. Dentre as várias dificuldades presentes nesse 
momento da vida, destacam-se as limitações físicas, mas, sobretudo, e de maior 
interesse nesse Livro de estudos, as de ordem psicológica e social. Novamente, 
é importante advertir que a medida e o tempo dos processos de envelhecimento 
estão submetidos a grandes diferenças individuais. Embora não seja possível 
negar que haja limitações corporais e dificuldades cognitivas, há casos em que 
se percebe assombroso vigor físico e mental, ao passo que outros se encontram 
muito debilitados e em alguns casos em processos de demência.
TÓPICO 4 | IDADE ADULTA E velhice
111
IMPORTANT
E
Em contramão ao que normalmente se constata, surge o termo utilizado 
atualmente “melhor idade”. Esse termo parece ser equivocado diante das várias dificuldades 
e dos vários obstáculos presentes na velhice e que revela um movimento que pode ser 
chamado de “juvenização da velhice”, ou seja, em que cada indivíduo tenta construir para si 
uma idade desejada, que difere da idade que possui. 
Para marco de início da velhice, vários autores têm a aposentadoria como 
algo com um significado importante. Associada a ela, surge um novo modo de 
vida que precisa ser bem assimilado. Se biologicamente a velhice é a etapa da 
vida caracterizada pela queda da força e degeneração do organismo, da mesma 
forma existem implicações sociais e psicológicas que não podem deixar de ser 
consideradas. Se o envelhecimento biológico pode ser considerado como inerente 
ao processo da vida, muitos reflexos psicológicos e sociais podem e devem ser 
contextualizados. É importante o fato de que o envelhecimento biológico por si 
só traz mudanças inevitáveis no campo psicológico. A dificuldade em realizar 
coisas, que anteriormente eram fáceis e consideradas significativas, acaba por 
despertar um sentimento de perda e inutilidade, típico nessa faixa etária.
Em relação à aposentadoria, citada no início do parágrafo anterior, o fato 
é que são vários os estudos que trazem os efeitos deletérios da aposentadoria da 
vida dos idosos e a perda de áreas de interesse, que acabam por dar sentido às 
suas vidas. De tão preocupante essa questão, tem-se observado mortes repentinas 
em pessoas que a pouco tempo são aposentadas. 
Essas ocorrências são mais comuns naquelas que passaram quase toda a 
sua vida ocupadas em um trabalho especializado e acabaram não encontrando 
satisfação em outros aspectos da vida. Algumas empresas, diante da constatação 
de que uma aposentadoria brusca, em muitas pessoas, pode ser uma ameaça 
para a saúde, optaram por estabelecer aposentadorias parciais, promovendo, 
dessa forma, uma gradual transição no ato de aposentar. Para McKinney (apud 
MOSQUERA, 1978), a aposentadoria traz consigo o abandono ou a diminuição 
da força de trabalho, o que acaba por ameaçar a integração de si mesmo. Na nossa 
cultura, a aposentadoria é tida como o não emprego e, aliado a isso, são vários os 
reflexos sentidos pelo idoso, principalmente de ordem psicológica e social. 
O que parece estar em voga nessa discussão é que uma das melhores 
garantias para a conservação de uma boa saúde na velhice é estar ocupado em 
coisas que despertam verdadeiro interesse. Para Beauvoir (1990), é exatamente 
esse o grande desafio para o idoso, continuar perseguindo fins que deem sentido 
à nossa vida: dedicação a indivíduos, a coletividades, a causas, trabalho social ou 
político, intelectual, criador. 
112
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
No campo relacional, como expõe Chazaud (1986), os apegos são 
geralmente questionados, assim como os papéis familiar, sexual e profissional. 
De forma geral, o grande drama, que parece estar presente no idoso, é a mudança 
brusca de seu padrão de vida. Seu modo habitual de se relacionar, de fazer, de 
se comportar, e que durante muito tempo fez parte do seu repertório, precisa ser 
agora reformulado e, por isso, gera medo e incerteza. 
Outro grande drama é a morte. Embora inevitável e encerre a história 
de uma existência, para muitos acaba não sendo uma ameaça a ideia de uma 
ampulheta com a areia chegando ao fim e a impossibilidade de começar essa 
contagem novamente, despertando um sentimento único para o ancião. 
O corpo passa a ser uma preocupação, principalmente no campo cognitivo, 
a partir do momento em que se constata a depreciação das funções intelectuais, 
como: a concentração, memória, fluidez mental e percepção. Estranhamente, o 
envelhecimento psicológico nem sempre é estreitamente relacionado à senilidade 
orgânica. Não há dúvida que há uma deterioração no nível orgânico, no entanto, 
a grande questão que se coloca é o que vem antes: o processo orgânico acarreta 
disfunções cognitivas ou o isolamento afetivo desencadeia essas alterações físicas? 
Vários estudos compartilham a ideia de que é uma via de mão dupla. 
O fato é que a velhice assume um alto significado por trazer o fim de 
um processo. Se o ser nasce, cresce, amadurece, envelhece e morre, esse último 
período acaba sendo único, por ser pautado em um declínio no desenvolvimento, 
o que nos incumbe da responsabilidade de perceber e ter atitudes diante disso, 
surgindo, assim, um problema central. Para Beauvoir (1990), o que caracteriza a 
atitude prática do adulto para com os velhos é sua duplicidade. O adulto, por um 
lado, inclina-se a agir de acordo com a moral vigente e, por uma pressão societal 
de séculos, a respeitar os idosos, enquanto, por outro lado, há o interesse em 
tratá-los como inferiores e em convencê-los de sua decadência. Segundo Beauvoir 
(1990), de maneira dissimulada, o adulto tiraniza o velho que depende dele. A 
sociedade pré-fabrica a condição mutilada presente na última idade e, muito por 
culpa dela, a decadência senil começa prematuramente, explorados, alienados e 
considerados “refugos”, “destroços”, denunciando o fracasso de uma civilização. 
Se não há como negarmos que a partir de certo número de anos o organismo 
humano sofre uma involução com uma redução das atividades do indivíduo, 
uma diminuição das faculdades mentais e uma mudança de atitude em relação 
ao mundo são impressionantes, que um grande número de animais morrem sem 
passar por um estágio degenerativo. Imaginada uma sociedade ideal, poderíamos 
afirmar que talvez a velhice não existisse. O indivíduo secretamente enfraquecido 
pela idade, mas não aparentemente debilitado, seria um dia acometido de uma 
doença e não resistiria. Infelizmente, a sociedade acaba se preocupando com o 
indivíduo somente na medida em que ele rende. 
TÓPICO 4 | IDADE ADULTA E velhice
113
Para Lloret (apud GUSMÃO, 2001), o caráter do mundo moderno, em 
sua natureza capitalista, está dado pela ordem produtiva que torna o jovem e o 
adulto como úteis e compreende o velho e a velhice como uma irrupção perigosa 
da ordem, já que não são mais produtivos para o capital. Nesse sentido, os 
marginais da ordem devem ser postos sob controle, passando, agora a fazer parte 
de uma nova etapa da educação, que busca o enquadramento e a adaptação. 
O saber acumulado pelo velho o habilita a um lugar de destaque, porém, em 
uma sociedade centrada no jovem e no que representa sua força de trabalho e 
produção, o velho torna-se aquele que já não pode responder aos objetivos do 
sistema. São, pois, sujeitos reprimidos no contexto social, sem possuir ou ter uma 
forma particular de expressão. 
UNI
A seguirserá apresentado um texto de Antropologia, uma ciência “parceira” da 
Psicologia Social e que apresenta um conteúdo significativo tanto para a compreensão da 
velhice como do desenvolvimento humano considerado como um todo.
114
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
LEITURA COMPLEMENTAR
MATURIDADE E VELHICE DA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA
N. M. M. de Gusmão
De modo geral, entre os antropólogos, afirma-se que a idade é uma 
construção social. Para Debert (1998, p. 51), a idade não é um dado da natureza, 
nem um princípio natural dos grupos sociais, nem um fator explicativo dos 
comportamentos humanos. O processo biológico que nos constitui, afirma a 
autora, resulta da elaboração simbólica que define fronteiras entre as idades pelas 
quais os indivíduos passam e que não são necessariamente as mesmas em todas 
as sociedades. De igual modo, Motta (1998, p. 227) observa que as sociedades, em 
diferentes momentos históricos, atribuem um significado específico às etapas do 
curso de vida dos indivíduos, conferindo-lhes papéis e funções. Assim, alguém 
pode ser socialmente velho sem estar biologicamente velho ou vice-versa, ou, 
ainda, um fato pode corresponder ao outro.
Tais circunstâncias exigem que se olhe para determinadas realidades 
empíricas, a fim de fazer-lhes uma leitura que revele o lugar do velho e da velhice. 
Uma leitura que mostre alternativas de inserção social do velho, que rompa com 
papéis previstos e prescritos, impondo uma rebeldia que inove, conteste e mostre 
ser possível à velhice atitudes e comportamentos marcados por ações e iniciativas 
inteiramente outras e, portanto, transformadoras.
FONTE: Gusmão, (2001. p. 123)
UNI
O texto anterior deixa claro que a velhice, assim como as demais fases do 
desenvolvimento humano, não passa de construções sociais, logo é passível de mudanças 
e não se revela enquanto uma resposta direta à idade cronológica pura e simplesmente. No 
grupo indígena suyá, estudado por Seeger (apud GUSMÃO, 2001), os velhos são tomados 
por absoluta irreverência e têm atitudes cômicas, inclusive em relação a temas considerados 
privados ou pouco falados como a sexualidade. Espera-se que o comportamento do velho 
ou da velha seja o oposto daquele que o suyá moralmente correto deve ter. Além de 
representar o divertimento e a comédia, são respeitados e prestigiados ao adentrar à “classe 
de idade dos velhos”. 
Diante de uma realidade bastante diferente da nossa, podemos perceber que a velhice na 
nossa sociedade acaba tendo contornos bastante diferentes e característicos. A velhice e o 
envelhecimento em nossa sociedade fazem parte de um processo contraditório, no qual o 
velho transita entre ser e não ser parte integrante das relações sociais, ter e não ter um lugar 
e um papel que diga de si e diga de sua experiência consolidada pela maturidade. Se a velhice 
deveria ser o momento em que se coroa toda uma existência, no cotidiano percebemos que 
estamos longe disso.
115
RESUMO DO TÓPICO 4
Dentre as várias informações levantadas neste tópico, em relação à idade 
adulta e à velhice, destacam-se as seguintes:
• Por muito tempo o desenvolvimento humano se resumiu ao estudo do 
desenvolvimento infantil, em contramão à ideia de processo que se dá do 
nascimento à morte.
• A palavra maturidade prevê um estado em que há amadurecimento. Tanto a 
idade adulta quanto a velhice se enquadram nessa categoria.
• A idade adulta pode ser caracterizada como um período de estabilidade, por 
um lado, em que normalmente tem-se um lar, uma profissão, uma família. Por 
outro lado, juntamente surge uma carga de responsabilidades e a emergência 
de múltiplos papéis, algo até então inusitado.
• A velhice pode ser considerada um período de involução, no qual, além das 
limitações físicas, econtram-se outras de ordem psicológica e social.
• O grande dilema presente no idoso é a mudança e o abandono brusco de seu 
padrão de vida anterior. A aposentadoria é um exemplo disso. Compreendido 
como aquele que não “rende” mais, o grande desafio parece ser encontrar 
objetivos que deem sentido à sua vida.
116
1 Depois de lido este tópico, faça uma síntese dos aspectos psicossociais mais 
importantes presentes na idade adulta e velhice.
AUTOATIVIDADE
117
TÓPICO 5
COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL E PRÓ-SOCIAL
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Em se tratando de desenvolvimento humano, além do estudo de 
características gerais decorrentes das chamadas fases ou ciclos de desenvolvimento, 
há também outras possibilidades de análise. Neste tópico trataremos do 
comportamento antissocial, mais especificamente da agressão, assim como o seu 
oposto, o comportamento pró-social, denominado altruísmo.
Por estarmos tratando de desenvolvimento humano a partir da perspectiva 
da Psicologia social, este tópico se faz relevante por serem foco da nossa análise 
os comportamentos a “favor” ou “contra” a coletividade, comportamentos estes 
que se dão nas relações sociais e com implicação direta aos que nos rodeiam.
2 O COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL: AGRESSÃO
Talvez um dos temas mais presentes nos mais diversos meios de 
comunicação seja o da agressão e o da violência. Inúmeros casos são apresentados, 
casos estes que revelam a capacidade do homem em ocasionar danos aos demais, 
muitas vezes de forma bastante fria e gratuita. Este passa a ser um fenômeno 
contemporâneo, universal, tendência não seguida por algumas comunidades 
isoladas do alcance da tecnologia e do progresso. Você já pensou nisso? Não 
seria o homem primitivo menos agressivo? Estas e outras questões nos fazem 
pensar sobre o rumo equivocado que estamos tomando e na capacidade ou não 
de mudarmos isso.
É alarmante a constatação de que, ao mesmo tempo em que vivenciamos 
intenso progresso e desenvolvimento construído pelo homem, somos tomados por 
atos até então nunca imaginados, atos que se contrapõem ao adjetivo “racional”. 
Pegando como exemplo o assassinato, temos a seguinte colocação que nos faz 
refletir exatamente sobre isso. “O assassinato dentro da própria espécie, seja em 
escala individual ou coletiva, é um fenômeno desconhecido no reino animal, 
exceto pelo homem e por algumas variedades de ratos e formigas”. (KOESTLER, 
apud RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 1999, p. 203).
Mesmo que tenhamos consciência de que principalmente a Psicologia 
busca analisar este fenômeno por um viés individual, e algumas abordagens 
inclusive defendem uma propensão natural dos homens para agredir (instinto), 
118
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
nossa intenção é refletir a respeito da construção desta problemática, visto que 
as ações humanas destrutivas parecem ter características e incidências diferentes 
através do tempo. Isolar estes fenômenos ou simplesmente responsabilizar os 
sujeitos envolvidos é irmos contra o enfoque psicossocial, enfoque este inclusive 
que ganha força e predomina atualmente na Psicologia.
Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999, p. 206) definem agressão como 
“qualquer comportamento que tem a intenção de causar danos, físicos ou 
psicológicos, em outro organismo ou objeto”. É importante destacar nesta 
definição a intencionalidade da ação por parte do agente da agressão. Só se 
caracteriza como agressivo o ato que deliberadamente se propõe a infligir um 
dano a alguém. Para Morais (1981), se refere a tudo o que é capaz de imprimir 
sofrimento ou destruição ao corpo do homem, bem como o que pode degradar 
ou causar transtornos à sua integridade psíquica. Sendo o ser humano uma 
integração entre físico e psíquico, o que está implícito neste conceito é a afronta 
à dignidade. 
NOTA
Vale a ressalva de que não é tão simples a questão da intencionalidade ou não 
em se referindo à agressão. No Brasil isso fica evidente no incidente onde jovens de classe 
média em Brasília incendiaram um índio pataxó que dormia nacalçada. Embora houvesse 
indignação generalizada por parte da população, surpreendentemente o juiz decretou que 
os jovens não seriam condenados, pois não houve intenção dos rapazes em queimar o índio. 
Ele interpretou o incidente como uma brincadeira malsucedida.
Adentrando no campo das raízes da violência, é notória a diversidade de 
perspectivas teóricas que se propõem a explicar o comportamento agressivo dos 
seres humanos. Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999) citam três categorias gerais 
de explicação da agressão. A primeira a tem como associada à natureza humana. 
Desta forma, inevitavelmente o ser humano terá que encontrar uma forma de 
expressá-la. A segunda parte do princípio de que a mesma é uma resposta à 
frustração. A terceira e última acredita que a agressão é essencialmente aprendida, 
resultado das relações sociais que estabelecemos e que se dá no processo de 
socialização. Em geral a Psicologia social acaba privilegiando a última, por ter 
severas restrições às teorias instintivas, o que não significa desmerecimento de 
uma base biológica. Já em relação à hipótese da frustração-agressão, o grande 
entrave parece estar na relação direta entre esta dicotomia. Não necessariamente 
a frustração gera agressão.
A partir de uma perspectiva bastante objetiva, Bandura (apud 
RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 1999) sugere dois tipos básicos de 
aprendizagem: a aprendizagem instrumental, que defende que qualquer 
TÓPICO 5 | COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL E PRÓ-SOCIAL
119
comportamento que é reforçado ou recompensado tem maior probabilidade 
de ocorrer no futuro, e a aprendizagem observacional, que prevê que podemos 
aprender novos comportamentos pela observação das ações de outras pessoas 
tidas como modelos. 
IMPORTANT
E
Não há como negar a influência da mídia atualmente (televisão, internet etc.) no 
tocante à agressão. Não é possível dizer que há uma relação direta entre estímulos agressivos 
e comportamento agressivo, embora pareça que a mesma pode servir como amplificadora 
de padrões societários.
Quanto à possibilidade de controlarmos e prevenirmos a agressão, 
vislumbram-se perspectivas mais pessimistas ou mais otimistas, dependendo 
do ponto de vista adotado. Os que concebem a agressão como algo inerente 
ao ser humano serão pessimistas. Já os mais otimistas se valem de explicações 
sociopsicológicas. Se fatores ambientais e sociais são responsáveis pela aquisição 
e manutenção de comportamentos agressivos, mudanças nesse sentido levariam 
a decréscimos da agressão e da violência. 
Os fatores ambientais e sociais são centrais para a Psicologia social, e isso 
nos faz questionar muitas coisas nas quais somos submetidos. Isto fica claro na 
colocação de Auzelle (apud MORAIS, 1981, p. 16):
O consumo faz as cidades e o excesso de consumo as desfaz. Os 
espaços das metrópoles estão literalmente tomados por uma noção 
comercial da vida. É ali que se fabricam febrilmente necessidades, 
é ali que os moradores se têm que render ao feitiço dos objetos, de 
possuir objetos. Especialistas afirmam que a objetalidade (consumo 
desvairado de coisas) excita a ambição, e esta instala a frustração. Há 
os que não podem seguir o ritmo terrível do consumo, mas, ao longo de 
sua história de vida, desenvolveram alguma possibilidade de assumir 
suas impossibilidades. Mas há também aqueles que, não podendo 
acompanhar a maratona do possuir, transformam a fragilidade que 
suas frustrações impõem num feroz potencial de agressividade.
Desta forma, embora possamos dizer que a agressividade, de alguma 
forma, sempre se fez presente, tal como compreendida hoje, está bastante arraigada 
ao homem moderno. Desta forma, sua nova face é um fenômeno típico de nossa 
época, está diretamente relacionada ao modo de ser do homem contemporâneo. 
Se antes tínhamos a violência como uma defesa para a sobrevivência, hoje ela se 
delineia diferentemente e se torna a maneira pela qual o homem passa a organizar 
sua vida em comum com outros homens (ODALIA, 1983).
120
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
 Villamarín (2002) afirma que parece haver acordo entre os cientistas 
sociais como também entre os psicólogos, e até mesmo da população em geral, 
quanto ao entendimento de que os fantásticos progressos alcançados pelo homem 
nos mais variados campos da ciência e da tecnologia não foram acompanhados 
pelo aperfeiçoamento psicológico e moral dos indivíduos. 
Morais (1981) ressalta os aspectos sociais relacionados ao crime ao afirmar 
que a maior parte dos crimes (e até mesmo das doenças mentais) resulta da 
opressão das injustiças sociais, da miséria financeira ou afetiva. A partir desta 
concepção, descontados os distúrbios orgânicos e as doenças mentais com suas 
consequências, todos os demais crimes são políticos. Afirma ele que quisera ser 
um pessimista, pois este encontrou a verdadeira fórmula do descanso. Ora, se 
tudo está perdido, não nos resta outra coisa senão contemplar o espetáculo. 
O que está em jogo é a negação da tendência de naturalizarmos aquilo que é 
fruto da ação humana. Se, como diz José Ortega y Gasset, a violência é a retórica 
de nosso tempo, cabe a nós construirmos algo diferente do que presenciamos 
cotidianamente.
Segundo Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), alguns psicólogos sociais 
consideram a necessidade de estimular o sentimento de empatia e altruísmo nas 
pessoas como forma de prevenir a agressão. Seria este o oposto da desumanização, 
comportamento que será melhor discutido a seguir.
3 O COMPORTAMENTO PRÓ-SOCIAL: ALTRUÍSMO
Oposto à agressão, temos os comportamentos em prol da coletividade, 
sejam eles chamados de generosidade ou mesmo solidariedade. São muitos os 
exemplos de atos humanos voltados ao bem dos outros, sejam eles indivíduos ou 
grupos. Esta outra perspectiva nos traz uma visão mais positiva e otimista acerca 
das possibilidades humanas de convívio e relacionamento social. Em Psicologia 
social estas e outras condutas se enquadram no rótulo comportamento pró-social, 
sendo o altruísmo uma de suas formas.
Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999) definem altruísmo como qualquer 
ato que beneficia alguém, sem trazer qualquer benefício para quem o faz. É 
comum envolver ainda algum custo social para aquele que ajuda. São exemplos 
de comportamentos dessa natureza o comportamento de alguém que arrisca a 
sua própria vida para salvar alguém sem se preocupar com qualquer tipo de 
recompensa ou com a possível imagem de herói decorrente da ação.
TÓPICO 5 | COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL E PRÓ-SOCIAL
121
NOTA
Não há como negar o dilema presente na definição de altruísmo. Pode o homem 
ser capaz de renunciar às suas necessidades e desejos em detrimento das necessidades dos 
outros?
Uma primeira questão parece ser fundamental nessa discussão: que motivos 
induzem as pessoas a fazer alguma coisa em favor de alguém em necessidade? Como 
no comportamento antissocial, o comportamento pró-social pode ser adquirido via 
reforçamento e modelação. Pelo princípio do reforço, repetimos e aumentamos 
a frequência dos comportamentos que trazem consequências positivas para nós. 
Desta forma, as crianças, por exemplo, aprendem a ajudar os outros quando são 
recompensadas por estes comportamentos. Embora para os críticos da teoria do 
reforço o altruísmo não passa de uma falácia, é possível dizer que este retorno pode 
ser bastante sutil, como um sentimento de bem-estar, não relacionado diretamente 
a um egoísmo ou desejo de uma recompensa imediata pela ação feita. 
Para Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), a partir do enfoque da 
sociobiologia ou da chamada teoria evolucionista que retoma a teoria de Charles 
Darwin, o altruísmo seria explicado como componentes constitutivos no nosso 
código genético. Esta teoria é passível de contestação, ao detectarmos uma 
certa incoerência. Se o objetivo maior dos seres humanos é garantira própria 
sobrevivência, por que ajudar os outros com os custos e riscos envolvidos? 
Para uma parcela significativa de teóricos em Psicologia social, o 
comportamento pró-social pode ser explicado, sobretudo, pela cultura na qual estamos 
inseridos. Isso fundamenta-se na constatação de que há diferenças significativas 
na tendência a manifestar comportamentos pró-sociais de uma cultura para outra. 
Segundo Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), o altruísmo é fortemente estimulado 
nas chamadas culturas coletivistas (culturas latino-americana e asiática). Em sentido 
contrário, nas culturas individualistas, como a norte-americana e a canadense, esse 
tipo de comportamento já é bem menos visível. Enquanto na primeira temos que o 
bem-estar do grupo prevalece sobre os desejos individuais, na segunda a busca dos 
objetivos pessoais se sobrepõe à responsabilidade individual pelo bem coletivo.
A partir desta visão claramente antropológica, os padrões sociais 
predominantes em uma dada cultura acabam por interferir diretamente na 
tendência a nos comportarmos de forma mais ou menos altruísta. Desta forma, 
não há como negarmos que os indivíduos também ajudam os outros diante de 
certas normas que prescrevem o comportamento apropriado em determinadas 
situações. Nesses casos teríamos algo como: “algo me diz que devo ajudá-lo(s)”. 
De acordo com Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), estas normas criam uma 
base sólida para o comportamento pró-social. 
122
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
Através do processo de socialização os indivíduos aprendem e incorporam 
normas que favorecem a se comportar pró-socialmente. Três normas sociais são 
consideradas por eles importantes na promoção do comportamento de ajuda: 
norma da reciprocidade, norma da justiça social e norma da responsabilidade 
social. A norma da reciprocidade prescreve sinteticamente que tendemos a 
retribuir os benefícios e favores que recebemos dos outros. Nesse sentido, 
geralmente ajudamos quem já nos ajudou ou quem esperamos que nos ajude 
no futuro. Já as normas de justiça social, principalmente a da equidade, nos 
pressionam a buscar promover relações justas entre as pessoas. Tendemos a 
promover a equidade nas relações que estabelecemos com os demais. Já a norma 
da responsabilidade social nos induz a ajudar as pessoas que dependem de nós 
ou que são incapazes de se autogerenciar. Em suma, as explicações normativas, 
aquelas as quais internalizamos padrões sociais de comportamento que nos 
motivam a agir segundo esses padrões, são úteis para o entendimento do 
comportamento de ajuda. 
Infelizmente, há uma grave constatação a ser feita. Atualmente, tomados 
pela cultura ocidental que valoriza muito mais o “ter” do que o “ser”, o 
comportamento pró-social perde espaço. Diante da lógica do “salve-se quem 
puder”, o individualismo exacerbado nos faz ter dificuldade em se preocupar e 
agir em prol dos demais. 
É importante destacar que, independente dos motivos que levam as 
pessoas a ajudarem os outros, não há como negar que existem outros tipos de 
fatores associados. Como explicar que, em determinadas situações, certas pessoas 
mostram-se mais altruístas e outras mais egoístas? Nestes casos é um tanto óbvio 
que apenas explicações culturais e societárias acabam sendo bastante restritivas. 
Estamos, nesse caso, falando de diferenças individuais que dizem respeito ao 
modo bastante particular de cada um ser e se comportar no mundo. Estamos 
falando de personalidade ou subjetividade, termo preferido neste material. 
Embora estejamos em um contexto “X”, isto não garante que seremos uma 
reprodução fiel do mesmo. Como afirma Sartre: somos livres porque fazemos 
escolhas. Temos capacidade de discernimento, não somos tão passivos quanto 
alguns imaginam, e nem tão autônomos como podemos julgar ser. A Psicologia 
social ressalta o papel das relações sociais que estabelecemos não por julgar 
que aí está a explicação do porquê somos o que somos, mas por perceber que a 
Psicologia em vários momentos de sua história negou este viés.
ESTUDOS FU
TUROS
Conceito relacionado ao que estamos falando é o conceito de subjetividade, 
que será apresentado na última unidade.
TÓPICO 5 | COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL E PRÓ-SOCIAL
123
Para encerrar este tópico, segue um breve texto que nos faz refletir sobre 
as diversas possibilidades de nos apresentarmos no mundo a partir de uma 
perspectiva otimista que nos leva à ação.
Todos nós temos o potencial para nos tornarmos pessoas altruístas 
ou agressivas. Mas ninguém será altruísta se suas experiências lhe 
ensinarem a se preocupar apenas consigo mesmo. O relacionamento 
humano é intrinsecamente satisfatório e prestativo. Basta deixarmos 
que isso aconteça.
124
RESUMO DO TÓPICO 5
Deste tópico é importante que você tenha claro que:
• Em se tratando de desenvolvimento humano, uma possibilidade de análise é o 
estudo dos comportamentos pró ou contra os outros seres humanos.
• A agressão, um tipo de comportamento antissocial, pode ser compreendido 
como qualquer comportamento que tem a intenção de causar danos, físicos ou 
psicológicos, em outro organismo ou objeto.
• Oposto à agressão temos os comportamentos pró-sociais. Um deles é o 
chamado altruísmo, normalmente entendido como o ato que beneficia alguém 
sem trazer qualquer benefício para quem o faz.
• Tanto a agressão como o altruísmo, para a Psicologia Social, têm base 
fundamentalmente social, embora não sejam descartados os componentes 
biológicos.
125
1 Questão única: Defina agressão e altruísmo expondo a visão da psicologia 
social a respeito de como esses comportamentos fazem parte do repertório 
comportamental do homem contemporâneo.
AUTOATIVIDADE
126
127
UNIDADE 3
CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM 
PSICOLOGIA SOCIAL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade você será capaz de:
• apresentar alguns conceitos básicos em Psicologia Social;
• propor uma leitura da realidade a partir de algumas categorias da 
Psicologia Social.
A Unidade 3 está dividida em cinco tópicos. Ao final de cada um 
deles, você terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos realizando as 
atividades propostas.
TÓPICO 1 – SUBJETIVIDADE E IDENTIDADE
TÓPICO 2 – ATIVIDADE E CONSCIÊNCIA
TÓPICO 3 – REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
TÓPICO 4 – IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
TÓPICO 5 – COMUNIDADE E SOCIEDADE
128
129
TÓPICO 1
SUBJETIVIDADE E IDENTIDADE
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Ao buscarmos nos aproximar dos estudos em Psicologia Social, não há 
como negarmos algumas categorias fundamentais, conceitos de extrema relevância 
e que servem como base aos estudos na área. Entre esses conceitos importantes, 
destacam-se “subjetividade” e “identidade”. Se tivermos a subjetividade como 
o “ser” e a identidade como o “pensar ser”, não há como negarmos a relação 
desses dois conceitos e o fato de que os mesmos acabam servindo para a análise 
e compreensão do homem, sobretudo, do homem moderno, um dos grandes 
objetivos da Psicologia Social contemporânea. 
Neste tópico, entraremos em contato com esses conceitos a partir das suas 
definições, dos elementos que constituem a subjetividade e a identidade, assim 
como analisaremos essas categorias no contexto histórico-social atual. 
2 SUBJETIVIDADE: UM DOS OBJETOS DA PSICOLOGIA
Como já discutimos anteriormente, temos vários objetos de estudo 
na Psicologia, ou melhor, cada abordagem encarrega-se de defender o estudo 
de algum componente em específico. Não há como negar que a Psicologia, 
considerada como um todo, colabora com o estudo da subjetividade e, exatamente, 
por isso esse termo é encontrado frequentemente nos materiais da área e tem 
uma importância indiscutível.
Você deve estar se perguntando: “certo, mas afinal, o que é subjetividade?” 
Bock, Furtado e Teixeira (2002) exploramesse conceito muito bem. Segundo 
esses autores, a subjetividade é a síntese singular e individual que cada um de 
nós constrói ao longo da vida, a partir do nosso contato com a cultura e com as 
relações sociais que estabelecemos. Em síntese, a subjetividade diz respeito ao 
mundo de ideias, significados e emoções construídos internamente pelo sujeito 
e que nos diferencia dos outros por ser única; ao mesmo tempo que nos iguala, 
já que tendemos a ter características semelhantes expostas a um mesmo contexto 
histórico-social.
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
130
IMPORTANT
E
Termo utilizado frequentemente como sinônimo de subjetividade é o de 
personalidade, que nos últimos tempos acabou por ser menos utilizado na Psicologia. O 
termo personalidade, diferente de subjetividade, é mais estático, prevê um conjunto de 
características fixas que nos acometem e, por isso, inclusive, buscou ser medido através de 
testes psicométricos.
Dessa forma, o mundo social e cultural, conforme é experienciado por 
nós, faz com que possamos construir nosso mundo interior. Esse mundo interior 
pode ser considerado a nossa subjetividade, a nossa maneira de sentir, pensar, 
fantasiar, sonhar, amar e fazer de cada um. Em suma, é o nosso modo de ser. 
Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 23) trazem de forma mais concreta o que consiste 
nossa subjetividade:
Sou filho de japoneses e militante de um grupo ecológico, detesto 
Matemática, adoro samba e black music, pratico ioga, tenho vontade, 
mas não consigo ter uma namorada. Meu melhor amigo é filho de 
descendentes de italianos, primeiro aluno da classe em Matemática, 
trabalha e estuda, é corinthiano fanático, adora comer sushi e navegar 
pela internet. 
Esse exemplo deixa claro o quanto que cada um de nós tem suas 
singularidades. Essa síntese, que revela o que somos (subjetividade), é construída 
aos poucos, ao nos apropriarmos do mundo e, ao mesmo tempo, enquanto atuamos 
nesse mundo, ou seja, criando e transformando esse mundo (externo), o homem 
constrói e transforma a si próprio (interno). Dito de outra forma, o indivíduo é, ao 
mesmo tempo, personagem e autor: personagem de uma história que ele mesmo 
constrói. Nessa relação, o homem acaba sendo construtor ao mesmo tempo que é 
construído e, nesse sentido, podemos afirmar que a subjetividade não é fabricada, 
produzida, moldada pura e simplesmente. Ela é automoldável, ou seja, o homem tem 
um papel ativo nesse processo ao não assimilar e “digerir” de forma inerte tudo o que 
é vinculado nos meios de comunicação de massa, ao questionar criticamente muitos 
hábitos considerados “normais” ou “naturais” etc. Dessa forma, o ser humano não é 
um mero produto do meio, mas sim participa da construção de si próprio. 
Essa perspectiva que nos convoca à ação é compartilhada por Sartre, um 
dos precursores do Existencialismo, que em várias de suas obras afirma que 
somos livres, porque fazemos escolhas. Nesta concepção, não importa o que 
fizeram de nós, mas sim o que fazemos com o que fizeram de nós. Essa afirmação 
tem o intuito de provocar o homem e convidá-lo para a ação. Se tendemos a ter 
atitudes “X” e crenças “Y” na nossa sociedade, diante das informações que nos 
são apresentadas, isso não significa que não há saída para isso ou que não há 
como nos comportarmos e crermos em coisas diferentes. 
TÓPICO 1 | SUBJETIVIDADE E IDENTIDADE
131
A construção da subjetividade é um processo contínuo e isso fica claro 
nas palavras de Guimarães Rosa em “Grande sertão: Veredas”. “O importante e 
bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram 
terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam”. (ROSA, 
apud BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2002, p. 24). 
A ideia de que as pessoas não foram terminadas, ou ainda, que nunca 
serão terminadas, é bastante válida, já que o que se percebe é que a subjetividade, 
nosso mundo interno, estará sempre em movimento e as novas experiências 
trarão sempre novos elementos para renová-la. 
Essa ideia de constante modificação já foi expressa há muito tempo pelo 
filósofo Heráclito, quando afirmou que um homem jamais poderá entrar duas 
vezes no mesmo rio, pois nem o homem e nem o rio serão os mesmos. Embora 
seja comum a ideia de que não nos modificamos ou pouco mudamos, e isso possa 
ser explicado por acompanharmos de perto nossas próprias transformações, nós 
mudamos de vontades, de gostos, nossa subjetividade se transforma.
Posto de outra forma, subjetividade não é o ser, mas os modos de ser, uma 
emergência constituída em um determinado tempo e espaço e, por isso, convém 
falarmos em processos de subjetivação, já que se tem a constituição de um sujeito, 
de uma subjetividade, a partir das relações que esse estabelece cotidianamente 
ou, então, a subjetividade como produto da subjetivação da objetividade.
Em Psicologia Social, o estudo da subjetividade acaba sendo central, 
pois essa ciência busca frequentemente compreender como nos tempos atuais 
são produzidos novos modos de ser, isto é, as subjetividades emergentes, cuja 
fabricação é social e histórica. O estudo dessas novas subjetividades permite 
acessarmos ao ser humano, ao mesmo tempo que nos remete às condições que 
esses estão submetidos. 
Segundo Mancebo (2003), nos dias atuais, multiplicam-se as possibilidades 
de organização subjetiva e novas exigências comportamentais se desdobram 
velozmente, ao ponto de afrontar os padrões subjetivos até então defendidos e 
verificados. Segundo essa mesma autora, por essa razão a discussão a respeito da 
subjetividade diante da complexidade que tem marcado a contemporaneidade 
é fundamental. Os efeitos dessa dinâmica múltipla e veloz são verificados em 
diversas áreas do cotidiano – trabalho, lazer, vida familiar, relacionamentos 
afetivos – e atingem em cheio as subjetividades. Essa constatação evidencia o 
fato da subjetividade não poder ser compreendida como uma coisa em si, uma 
essência imutável. Os modos de existência, ou de subjetivação, são históricos e 
têm estreitas relações com uma conjuntura dada. 
Conforme Guattari (apud MANCEBO, 2003, p. 83), “[...] na era das 
revoluções informáticas, do surgimento das biotecnologias, da criação acelerada, 
de novos materiais, de uma “maquinização” cada vez mais fina do tempo, novas 
modalidades de subjetivação estão prestes a surgir”.
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
132
Essa citação nos convida a refletir sobre a subjetividade nesse contexto. 
De acordo com Mancebo (2003), são vários os reflexos subjetivos verificados 
no mundo contemporâneo. O primeiro deles seria a convocação permanente 
de rearranjos e reconfigurações internas no sentido de dar conta de assimilar e 
se relacionar com um tempo no qual as mudanças surgem em uma velocidade 
nunca então vista. 
Outro reflexo seria a tendência a um individualismo diante da aceleração 
do ritmo de vida e a falta de tempo para coisas agora consideradas supérfluas. Ao 
invés de perdermos tempo com conversas na rua, por exemplo, procuramos nos 
ater a nossos “amigos virtuais”. 
Outra característica do homem moderno e que fica evidente mais do que 
nunca é a própria necessidade do consumo em demasia, verificado em massa, ou 
seja, irmos muito além da satisfação das nossas necessidades básicas. Constroem-
se desejos e a necessidade desenfreada de satisfazê-los a todo custo. Essas 
seriam algumas características, dentre muitas possíveis de serem mencionadas, 
que permitem pensarmos e repensarmos sobre qual a configuração subjetiva 
emergente no nosso tempo.
Para vários autores, temos hoje a chamada “síndrome do loop”, somos 
tomados por instabilidade e velocidade (semelhante ao loop de uma montanha 
russa), que exige “deletarmos” muitos valores e estilos de vida até então ressaltados 
e adentrarmos ao que Jameson (apud MANCEBO, 2003) chama de “mentalidadeesquizofrênica”, uma vida de impulsos momentâneos, sem rotinas sustentáveis, 
uma vida sem hábitos, uma existência até certo ponto irracional. Temos, então, 
a emergência de uma “mentalidade contemporânea”, em que o retorno ou a 
mudança passa por buscarmos uma certa desaceleração, um desprendimento do 
ritmo acelerado a que estamos submetidos.
Para Strey et al. (1998), atualmente tem-se uma certa padronização do 
modo de pensar, perceber, de sentir, de se relacionar e isso pode ser explicado 
a partir da análise do modo de produção capitalista, pautado especialmente na 
competição e no controle. Essa forma de organização da sociedade acaba por 
alicerçar o processo de constituição do mundo em todas as suas dimensões, 
inclusive a subjetiva. Tendemos a banalizar a vida, reduzindo-a ao trabalho, 
fazemos apologia ao individualismo, somos consumistas. 
Essas e outras características do homem moderno se dão a partir do 
processo de subjetivação. A subjetividade, dessa forma, é um produto cultural 
complexo. Desvelar o conjunto de condições que possibilitam a emergência de 
instâncias individuais e/ou coletivas é um desafio. 
TÓPICO 1 | SUBJETIVIDADE E IDENTIDADE
133
3 IDENTIDADE
Outro conceito importante em Psicologia Social é o de identidade, que não 
é exclusividade dessa ciência. Como afirma Strey et al. (1998), a música, a literatura, 
o cinema e as artes em geral têm se ocupado com frequência dessa temática e o que 
causa preocupação. O senso comum acaba atribuindo uma variedade bastante 
grande de significados a esse termo, o que acarreta constantemente uma certa 
confusão no uso e aplicação desse conceito. 
É interessante também termos claro que a importância dada ao estudo da 
identidade foi variável ao longo da história e esteve muito atrelada à relevância 
atribuída à individualidade nesses diferentes momentos.
Para Bock, Furtado e Teixeira (2002), identidade é a denominação atribuída 
às representações e sentimentos que desenvolvemos a respeito de nós mesmos, a 
partir do conjunto de nossas vivências. Se a subjetividade é a síntese do que somos, 
a identidade pode ser entendida como a síntese das representações que temos 
de nós mesmos: representações por envolver várias instâncias (dados pessoais, 
trajetória pessoal, qualidades, defeitos etc.). Como expõe Strey et al. (1998), ao nos 
referirmos ao conceito de identidade, os diversos autores empregam expressões 
distintas, como: imagem, representação e conceito de si. 
Em geral, a maioria dos conceitos refere-se ao conjunto de traços, de 
imagens, de sentimentos, que o indivíduo reconhece como fazendo parte dele 
próprio. Na literatura norte-americana, o termo utilizado é self ou self concept, o 
que corresponde a conceito de si. A tradição europeia privilegia a denominação 
“representação de si”.
Essas várias terminologias presentes na diversidade teórico-metodológica, 
como o interesse dessa temática pelas mais diversas áreas, expressam toda a 
dificuldade de exprimir conceitualmente sua complexidade. Nesse sentido, 
rotineiramente, há ainda uma classificação dos chamados sistemas identificatórios. 
Denomina-se de identidade pessoal os atributos específicos do indivíduo e/ou 
identidade social os atributos que assinalam a pertença a grupos ou categorias. 
Com base no pressuposto de que essas duas esferas (individual e social) são 
diretamente relacionadas e inseparáveis, a expressão “identidade psicossocial” 
vem sendo empregada nos últimos tempos (NETO apud STREY et al., 1998).
Diante da complexidade embutida no termo e após a tentativa de conceituar 
identidade, faz-se necessário analisarmos algumas especificidades importantes 
nessa discussão. A primeira delas pode ser resumida em uma questão de suma 
importância: como se constitui a identidade? 
Semelhante ao que foi discutido no Tópico 2 da Unidade 2, não há 
como negarmos os fatores biológicos e genéticos, entretanto, esse suporte 
biológico para a Psicologia Social não passa de um aparato que nos dá uma 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
134
gama de potencialidades e limitações típicas do homo sapiens sapiens, ou seja, as 
características humanas só podem ser compreendidas a partir da verificação das 
relações sociais estabelecidas. 
A utilização do termo apropriação no lugar de adaptação traz o caráter 
ativo desse processo individual com o contexto sócio-histórico. Nesse sentido, a 
constituição da identidade só pode ser compreendida a partir do contexto histórico 
e social em que o homem vive. É determinada de um lado, e determinante do 
outro, a partir do momento que esse processo é ativo a partir da sua inserção e 
apropriação dessa conjuntura que se faz presente.
Se partirmos do princípio de que o indivíduo é um eterno transformar-
se, estamos nos transformando a cada momento, então, a consciência que 
desenvolvemos sobre quem somos também não é estática. As situações sociais que 
nos deparamos, as relações sociais que estabelecemos, dentre outros inúmeros 
fatores, farão com que mudemos a todo o momento a impressão que temos de nós 
mesmos, e essa ideia é transmitida por Ciampa (1994) – psicólogo social brasileiro 
que, de longa data, vem se dedicando ao estudo da identidade. 
Ele propõe a presença de múltiplos personagens que ora coexistem, ora 
se alternam. Esses personagens garantem a processualidade da identidade e 
emergem constantemente um outro que também faz parte da identidade. O autor 
emprega o termo “metamorfose” para expressar esse movimento.
Ciampa (1994) apresenta relatos da vida de dois personagens, Severino 
(fictício) e Severina (real), e a partir desses discute o conceito de identidade 
enquanto algo nada estático. Segundo ele ser é ser metamorfoseada. A metamorfose 
é a expressão da vida. Como tal é um processo inexorável, tenhamos ou não 
consciência disso. Tanto Severino como Severina são exemplos de sujeitos que 
se transformam permanentemente, adquirem consciência disso e se reconhecem 
como ser humano, metamorfose essa que se concretiza em cada momento, dadas 
as condições históricas e sociais determinadas. 
Temos, dessa forma, a temporalidade da identidade. O conteúdo que surgirá 
dessa metamorfose é subordinado à razão, ao que consideramos que merece ser 
vivido, é uma produção humana dotada de sentido. A partir dessa constatação, a 
busca da nossa identidade pode ser uma busca vazia, já que é metamorfose.
Cada indivíduo encarna as relações sociais configurando uma identidade 
pessoal, uma história de vida, um projeto de vida. A identidade traz consigo 
concomitantemente o ato de pensar e ser, uma articulação de vários personagens, 
articulação de igualdades e diferenças: identidade é história. 
Ciampa (1994) dá um exemplo: se sou professor é por que me tornei 
professor. Se me identifico e sou identificado assim, tenho essa identidade, 
compreendida como uma posição (tal como filho). A posição que ocupo me 
identifica, discriminando-me como dotado de certos atributos que me dão uma 
identidade considerada, embora essa esteja sempre em constante movimento.
TÓPICO 1 | SUBJETIVIDADE E IDENTIDADE
135
Em sentido semelhante, Guareschi e Bruschi (2003) afirmam que hoje 
mais do que nunca o self passa a ser necessariamente incompleto, inacabado. 
Somos sujeitos em processo, não temos mais uma identidade essencial, mas 
várias identidades. Assim, “[...] à medida em que os sistemas de significação 
e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma 
multiplicidade desconcertante e cambiantes de identidades possíveis, com cada 
uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente”. (HALL 
apud GUARESCHI; BRUSCHI, 2003, p. 185). As características da sociedade 
contemporânea trazem consigo o dinamismo enquanto tônica. Precisamos saber 
lidar com uma variedade enorme de papéis que, diariamente, desenvolvemos 
e é a partir dessespapéis que construímos nossa identidade, um somatório de 
“vários eus” e a forma como eu os vejo.
Desta forma, para Bruschi (2003) a identidade preenche o espaço entre 
o “interior” (mundo pessoal) e o “exterior” (mundo público), entretanto, em 
um mundo em constante movimento, o sujeito, que antes tinha uma única 
identidade e estável, passa a ter várias identidades, algumas até contraditórias. 
Ela será formada e transformada continuamente, a partir das formas pelas quais 
as pessoas entrarão em contato com os sistemas culturais que a rodeiam. 
Kellner (apud BRUSCHI, 2003) defende ainda que a publicidade, a moda, 
o consumo e os meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, 
favorecem instabilidade à mesma. Abandona-se a ideia de obrigatoriamente 
termos “uma identidade”, pois, segundo o mesmo autor, figuras como Michael 
Jackson e Madonna mostram como a identidade não passa de uma construção 
que pode ser constantemente mudada e não fixa. Michael Jackson, como exemplo, 
rompeu a fronteira entre branco e preto, masculino e feminino, adulto e jovem na 
sua construção de imagem. Abandona-se a ideia de “uma” identidade. 
Diante do que foi apresentado até aqui, podemos afirmar que a identidade 
envolve escolha e ação e que cada indivíduo acaba produzindo sua própria e 
ímpar identidade, constituída de materiais das nossas situações de vida. 
Para concluir este tópico, é notório que, na Psicologia, os estudos 
sobre identidade tendem a entender a identidade como produto do processo 
de socialização e garantida pela individualização (processo de diferenciação 
dos outros), embora a resposta da pergunta “quem sou” suscite dúvida e 
intranquilidade. A partir da proposta de compreensão apresentada até aqui, não 
há outra possibilidade que não esta, já que é constituída na relação interpessoal 
(eu-grupo). O “eu”, nesse sentido, acaba sendo o produto de como os outros 
me veem e como eu me vejo, ou melhor, fruto de uma articulação entre o 
individual e o social, da ação do indivíduo e das relações nas quais está envolvido 
concretamente, algo complexo sem dúvida.
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
136
DICAS
Uma das poucas obras que explora o tema “identidade” em uma perspectiva 
semelhante a desenvolvida neste tópico é “A estória do Severino e a história da Severina”, 
escrita por Antônio da Costa Ciampa (São Paulo: Brasiliense, 1994). A partir do poema “Morte 
e vida Severina” de João Cabral de Melo Neto e da análise de uma história de vida, o autor 
apresenta uma série de considerações sobre o tema “identidade” sob a perspectiva da 
Psicologia Social.
TÓPICO 1 | SUBJETIVIDADE E IDENTIDADE
137
LEITURA COMPLEMENTAR
A seguir, você terá acesso a um trecho do poema “Morte e vida Severina”. 
Leia com atenção e busque fazer uma conexão com os conceitos trabalhados neste 
tópico: subjetividade e identidade.
O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI
João Cabral de Melo Neto
O meu nome é Severino, 
como não tenho outro de pia. 
Como há muitos Severinos, 
que é santo de romaria, 
deram então de me chamar 
Severino de Maria; 
como há muitos Severinos 
com mães chamadas Maria, 
fiquei sendo o da Maria 
do finado Zacarias. 
Mas isso ainda diz pouco: 
há muitos na freguesia, 
por causa de um coronel 
que se chamou Zacarias 
e que foi o mais antigo 
senhor desta sesmaria. 
Como então dizer quem fala
no mesmo ventre crescido 
sobre as mesmas pernas finas, 
e iguais também porque o sangue 
que usamos tem pouca tinta. 
E se somos Severinos 
iguais em tudo na vida, 
morremos de morte igual, 
mesma morte severina: 
que é a morte de que se morre 
de velhice antes dos trinta, 
de emboscada antes dos vinte, 
de fome um pouco por dia 
(de fraqueza e de doença 
é que a morte severina 
ataca em qualquer idade,
ora a Vossas Senhorias? 
Vejamos: é o Severino 
da Maria do Zacarias, 
lá da serra da Costela, 
limites da Paraíba. 
Mas isso ainda diz pouco: 
se ao menos mais cinco havia 
com nome de Severino 
filhos de tantas Marias 
mulheres de outros tantos, 
já finados, Zacarias, 
vivendo na mesma serra 
magra e ossuda em que eu vivia. 
Somos muitos Severinos 
iguais em tudo na vida: 
na mesma cabeça grande 
que a custo é que se equilibra, 
e até gente não nascida). 
Somos muitos Severinos 
iguais em tudo e na sina: 
a de abrandar estas pedras 
suando-se muito em cima, 
a de tentar despertar 
terra sempre mais extinta, 
a de querer arrancar 
algum roçado da cinza. 
Mas, para que me conheçam 
melhor Vossas Senhorias 
e melhor possam seguir 
a história de minha vida, 
passo a ser o Severino 
que em vossa presença emigra.
FONTE: Disponível em: <http://www.culturabrasil.pro.br/joaocabraldemelonetoo.htm>. Acesso 
em: 18 mar. 2010.
138
Em relação aos conceitos de subjetividade e identidade discutidos neste 
tópico, é importante destacar que:
• Subjetividade é a síntese do que somos. Envolve nossa maneira de sentir, 
pensar, fantasiar, sonhar, amar e fazer de cada um.
• Temos a emergência de uma certa homogeneização de subjetividades ao 
vivermos em um mesmo momento histórico e compartilharmos os elementos da 
cultura. No modo de produção capitalista, tendemos a cativar o individualismo 
e o consumismo, assim como desempenhamos vários papéis ao mesmo tempo, 
para nos adequarmos às rápidas mudanças a que estamos submetidos.
• Identidade é a denominação dada às representações e sentimentos que 
desenvolvemos a respeito de nós mesmos.
• Tanto a subjetividade como a identidade só podem ser compreendidas no 
campo das relações sociais estabelecidas. A variabilidade de ambas pode ser 
explicada exatamente nessa perspectiva.
RESUMO DO TÓPICO 1
139
1 A partir da leitura do texto complementar, o que queremos dizer ao nos 
referirmos à subjetividade e identidade de Severino?
AUTOATIVIDADE
140
141
TÓPICO 2
ATIVIDADE E CONSCIÊNCIA
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Este tópico aborda dois conceitos aparentemente dissociados já que 
um se refere à prática humana, algo observável e palpável (atividade), e outro 
algo à primeira vista de difícil acesso por se referir a nosso mundo interno 
(consciência). Embora pareçam conceitos totalmente distintos, o objetivo deste 
tópico é apresentar os dois conceitos e, mais do que isso, mostrar o quanto que 
eles são interdependentes. A prática humana produz a consciência ao passo que a 
consciência explica a atividade humana. O objetivo deste tópico pode ser resumido 
na tentativa de desvendar essa relação.
2 ATIVIDADE
Outro conceito em Psicologia Social significativo e que nos permite vários 
planos de análise é o de atividade. Termo pautado no materialismo histórico 
(retomar Psicologia sócio--histórica), e utilizado sobretudo por Leontiev, busca 
superar o esquema estímulo-resposta e a passividade característica desse 
modelo, ao propor um papel ativo do homem e unificar sujeito e objeto em uma 
síntese inseparável. Por essa ótica, o mundo psíquico é resultado da atividade 
humana e não como algo deslocado dessa. A grande contribuição desse enfoque 
é o de superar a noção de subjetividade e consciência humana deslocadas das 
transformações sociais e históricas, ou seja, da ação humana.
Embora pouco explorado na Psicologia, para Bock, Furtado e Teixeira 
(2002), a prática humana, aqui chamada de atividade, é a base do conhecimento 
e do pensamento do homem. É através da atividade que o homem se apropria do 
mundo. Ao pensarmos em uma criança, isso fica mais evidente. Ela se apropria do 
mundo engatinhando, andando, analisando com seus olhos o mundo ou mesmo 
manuseando os objetos que a rodeia. Para a Psicologia Social, esse movimento é 
essencial para que essa consiga construir seu mundo interno. Somos convocados e 
necessitamos nos relacionar com o mundo externo e, ao fazermosisso, transformá-
lo e nos construírmos. No processo de relação social com os outros, ou seja, a 
partir da atividade, o indivíduo apropria-se da linguagem e se humaniza.
Dessa forma, nos subjetivamos na medida em que atuamos e transformamos 
o mundo externo. Mundos externo e interno são, portanto, imbricados, já que são 
construídos em um mesmo processo e no qual um depende do outro. Atuar no 
mundo é uma propriedade do homem e essa diz muito do que ele é.
142
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
Duarte (2010) apresenta vários aspectos que justificam que a atividade 
humana diverge substancialmente da atividade animal. Essas diferenças serão 
expostas nesse momento e a diferença entre elas explica a historicidade do ser 
humano. 
Os animais, quando se relacionam com o meio ambiente, realizam 
atividades que buscam satisfazer suas necessidades e sobreviver nesse meio. 
Algumas atividades animais nos chamam a atenção, como o joão-de-barro e muitas 
outras espécies de pássaros que constroem seus ninhos, abelhas que constroem 
os favos ou, então, as formigas que constroem sua habitação coletiva. No entanto, 
essas consideradas engenhosidades dos animais não sofrem alterações, ou seja, 
esses animais constroem esses artefatos como a milhares ou milhões de anos. Aí 
temos uma primeira distinção em relação à diferença entre a atividade animal e a 
humana. O ser humano, diferente disso, tendo como exemplo nossas habitações, 
constrói as mesmas hoje de forma muito diferente do que antigamente.
Em relação à outra especificidade da atividade humana, o ser humano é 
o único que realiza uma atividade chamada “trabalho”. Se os animais agem para 
satisfazer suas necessidades, o seres humanos agem para produzir os meios de 
satisfação de suas necessidades. Qual a diferença entre essas duas afirmações? 
Diferente dos animais, o ser humano utiliza-se de instrumentos, de elementos 
intermediários, para satisfazer suas necessidades. Como exemplo, imaginemos 
nossos ancestrais: ao transformar uma pedra em um objeto perfurante ou cortante, 
esse será utilizado para caçar e, com o produto da caçada, poderá satisfazer sua 
necessidade de alimento. A atividade humana conta com uma estrutura diferente 
e mais complexa, consonante com uma complexa estrutura psicológica.
Outra característica peculiar da atividade humana diz respeito à própria 
diferença entre as necessidades humanas e as necessidades animais. Se os animais 
têm necessidades puramente biológicas como fome, sede etc., o ser humano busca 
transformar os objetos naturais em objetos sociais. Isso pode ser exemplificado 
pela própria atividade de caça, a partir do momento em que o próprio homem cria 
novas maneiras de se organizar para caçar. Nesse exemplo fica claro que, além da 
produção de instrumentos, temos também a “produção” de relações sociais. O ser 
humano constrói cultura e sofre interferência da mesma. Diferente dos animais, 
o homem sofre interferência do processo de transmissão da experiência social, 
apropria-se da produção dos outros. Esse processo fica claro na escola a partir da 
qual o indivíduo é levado a se apropriar das formas mais desenvolvidas do saber 
produzido historicamente pelo gênero humano. 
Duarte (2010) apresenta uma pergunta essencial: o que dá sentido à 
atividade desse indivíduo, ou seja, o que conecta sua ação com o motivo dessa 
ação? Segundo ele, a resposta se dá no campo das relações sociais existentes entre 
o sujeito e o restante do grupo, o conjunto da atividade social. Somente fazendo 
parte desse conjunto é que a ação individual adquire um sentido racional. Duarte 
(2010, p. 59), ao se referir ao modo de produção capitalista, alerta que existem 
vários fenômenos importantes para serem analisados, inclusive os processos 
TÓPICO 2 | ATIVIDADE E CONSCIÊNCIA
143
psicológicos decorrentes desse modo. Nesse sentido, afirma que “[...] no que se 
refere aos processos psicológicos, a ruptura entre o sentido e o significado das 
ações humanas tem como uma de suas consequências o cerceamento do processo 
de desenvolvimento da personalidade humana”. 
Essa constatação parte do princípio de que ao vender sua força de trabalho, e 
como decorrência, o indivíduo tem o sentido de sua atividade como algo dissociado 
do conteúdo dessa atividade, esse acaba distanciando o núcleo de sua personalidade 
da atividade de trabalho. O trabalho, nesse caso, torna-se algo estranho ao indivíduo. 
O autor faz uma análise crítica e preocupada a respeito de alguns efeitos da sociedade 
capitalista contemporânea. Para ele, essa ruptura entre o significado e o sentido das 
ações humanas atinge níveis absolutamente destrutivos nos dias atuais.
ESTUDOS FU
TUROS
Esse distanciamento entre o trabalhador e o que produz será melhor explorado 
no Tópico 4, ao abordarmos outra categoria em Psicologia Social: alienação.
Percebidas as características da atividade humana, podemos explorar 
outro conceito em Psicologia Social, conceito esse intimamente relacionado com 
o de atividade: consciência.
3 CONSCIÊNCIA
Atkinson et al. (2006), ao abordarem o termo consciência, afirmam que 
não existe um consenso em relação ao significado de consciência e, mais do que 
isso, preferem dizer que existem quase tantas teorias da consciência quanto 
indivíduos que teorizam sobre o assunto. Segundo esses autores, os primeiros 
psicólogos tinham consciência como sinônimo de mente e esse era o objeto de 
estudo da Psicologia: mente e consciência. Em relação à definição de consciência, 
afirmam que muitos textos didáticos a trazem como nossa percepção sobre 
estímulos internos e externos, ou seja, dos eventos do ambiente e das sensações 
corporais, memórias e pensamentos. Essa definição parece incompleta quando 
nos deparamos que estamos conscientes não apenas quando monitoramos nosso 
ambiente (interno e externo), mas também quando atuamos no mesmo.
Faz-se válida a ressalva de que nem todas as ações são guiadas por 
decisões conscientes e nem todas as soluções que encontramos se dão nesse 
plano. É praticamente consensuosa a ideia de que os eventos mentais envolvem 
tanto processos conscientes quanto inconscientes, e que muitas decisões e ações 
se dão fora da consciência. 
144
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
IMPORTANT
E
A Psicanálise, uma das abordagens da Psicologia, e que tem como fundador e 
maior representante Sigmund Freud, propôs e ainda propõe uma leitura bastante diferenciada 
em relação às demais teorias psicológicas. Para a Psicanálise, a explicação da maioria dos 
comportamentos humanos se dá fora da consciência. A existência e a importância do 
inconsciente constituem um dos pilares básicos da teoria e prática psicanalítica, em que 
nessa instância se fariam presentes memórias, impulsos e desejos inacessíveis à consciência, 
mas que motivariam o comportamento humano. 
Em alguns momentos, o inconsciente poderia ser acessado como no caso dos chamados 
atos falhos (lapsos) e nos sonhos. No caso do sofrimento mental, o grande objetivo da 
Psicanálise seria tornar consciente o que está inconsciente, levando as pessoas a sofrer. 
Além dos atos falhos e da análise dos sonhos, a Psicanálise utiliza-se, hoje, do método da 
associação livre, no qual o paciente recebe instruções para dizer tudo o que lhe ocorrer no 
momento. O psicanalista interfere pouco (ouve e estimula com perguntas quando o paciente 
se cala) e por essas características esse método é chamado de “cura pela fala”.
Na perspectiva da Psicologia Social, um dos conceitos de maior destaque é 
o de consciência, visto que a consciência humana expressa a forma como o homem 
se relaciona com o mundo e, ao falarmos em desenvolvimento da consciência, a 
Psicologia Social se afasta de outros postulados da Psicologia tradicional, que 
concebe a consciência como um “estar ciente” ou, então, “ter consciência de”.Ao ver um sinal vermelho em um semáforo, se meu comportamento for parar, 
isso revela que estou ciente (tenho consciência) das leis e das regras de trânsito, 
por exemplo. Para a Psicologia Social, essa é uma leitura bastante simplista e que 
reduz o conceito a ter acesso a algumas informações ou não.
De acordo com Franco (2010), pelo contrário, temos acesso à consciência 
quando se exige investigarmos a própria vida das pessoas, as relações sociais, as 
condições sociais e históricas que essas estão submetidas, visto que o homem, 
como afirmam Bock, Furtado e Teixeira (2002), diferente dos animais, reage ao 
mundo, compreendendo-o através da formação de ideias e imagens, assim como 
estabelecendo relações entre essas informações. Nesse sentido, a consciência acaba 
sendo um certo saber a respeito das coisas, a partir do momento que reagimos ao 
mundo, compreendendo-o, “sabendo-o”. Como maneira de reagir ao mundo está 
em constante movimento.
Bock, Furtado e Teixeira (2002) buscam analisar como é formada a 
consciência e afirmam, categoricamente, que a consciência não é manifestação 
de alguma capacidade mística do cérebro humano. Pelo contrário, é produto das 
relações sociais que os homens estabelecem. Através delas, construímos nossa 
compreensão sobre o mundo, sobre si mesmo e os outros. Embora não se possam 
negar as características físicas do cérebro ou até mesmo o aperfeiçoamento do 
mesmo no decorrer dos tempos, a Psicologia Social procura dar maior ênfase às 
condições externas, como: o trabalho, a vida social e a linguagem. 
TÓPICO 2 | ATIVIDADE E CONSCIÊNCIA
145
Sem dúvida, a grande contribuição da utilização dos termos “atividade” 
e “consciência” para a Psicologia reside na articulação entre subjetividade e 
objetividade. Essa relação é fundamental para o avanço da ciência psicológica, ao 
compreender o fenômeno psíquico a partir de um plano social e histórico.
Dessa forma, a atividade humana orienta a formação da consciência ao 
mesmo tempo que a consciência do homem explica a atividade humana. Em 
outras palavras, a consciência transforma-se com a atividade humana, é um 
produto social, assim como a atividade humana é produto da consciência, pode 
ser explicada através da consciência do(s) sujeito(s). Nesse sentido, a relação entre 
atividade e consciência pode ser assim esquematizada:
ATIVIDADE → CONSCIÊNCIA
CONSCIÊNCIA → ATIVIDADE
Para Codo et al. (1992), o grande mérito de Leontiev e da relação 
estabelecida por ele entre atividade e consciência foi a de explicitar e sistematizar 
a relação homem-mundo como algo constituinte da Psicologia. Nesse sentido, 
o conceito de atividade demarca um objeto de estudo da Psicologia ao situar o 
homem na realidade objetiva, ao mesmo tempo que transforma essa realidade em 
subjetividade. 
Para Leontiev, citado por Codo et al. (1992), a consciência é constituída por 
um conjunto de representações formadas a partir da apropriação dos significados 
socialmente contituídos pelos grupos na qual o indivíduo se encontra em processo 
de relação contínua; por isso, o estudo das representações sociais para se ter 
acesso à consciência, como será exposto a seguir.
Outra questão pertinente duvidosa é: como podemos estudar a consciência 
dos indivíduos já que ela é invisível por se tratar do mundo interno? Para Bock, 
Furtado e Teixeira (2002), no mundo observável, conseguimos ter acesso a ela. 
Um exemplo disso é o estudo das representações sociais, que seriam uma espécie 
de expressões da consciência veiculadas pela linguagem. 
Quando alguém discursa ou simplesmente fala sobre algum assunto, não 
deixa de estar se referindo ao mundo e esse movimento expressa sua consciência 
através das suas representações sociais, sentido construído coletivamente 
(crenças, valores, opiniões construídos no decorrer de nosssa vida a partir da 
nossa vivência em sociedade). Fica evidente, então, que o desenvolvimento da 
consciência é um produto social. Isso fica claro na fala de Lefébre (apud FRANCO, 
2004. p. 183) quando afirma que “[...] as representações sociais e sua reconstrução, 
via desenvolvimento da consciência, formam-se pela construção de ideias, a partir 
das condições reais que, justamente, representam o primado econômico, social e 
político deste ou daquele grupo, ou desta ou daquela classe social”.
146
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
ESTUDOS FU
TUROS
No próximo tópico exploraremos melhor o significado de “representação social”, 
bem como a sua importância na Psicologia Social, sobretudo no campo da pesquisa.
LEITURA COMPLEMENTAR
Se atendermos a relação entre mundo interno e objetivo chegaremos em 
um termo que traz exatamente essa relação. Concebido como coerência ou união 
entre teoria e prática ou, no nosso caso, como convergência entre consciência e 
atividade, o conceito de práxis, construído principalmente por Marx, talvez seja 
o que mais deixa clara a relação sempre existente entre esses dois mundos que se 
autorregulam. Conceito tido como distinto para alguns autores e idêntico para 
outros, mostra que a atividade humana é algo intencional e relativa à consciência. 
O texto a seguir traz a práxis enquanto relação entre essas duas esferas.
O QUE É A PRÁXIS
A. S. Vázquez
Toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis. [...] Por 
atividade em geral entendemos o ato ou conjunto de atos em virtude dos quais 
um sujeito ativo (agente) modifica uma matéria-prima dada. Justamente por sua 
generalidade, essa caracterização da atividade não especifica o tipo de agente 
(físico, biológico ou humano) nem a natureza da matéria-prima sobre a qual atua 
(corpo físico, ser vivo, vivência psíquica, grupo, relação ou instituição social) 
nem determina a espécie de atos (físicos, psíquicos, sociais) que levam a certa 
transformação. O resultado da atividade, ou seja, seu produto, também se dá em 
diversos níveis: pode ser uma nova partícula, um conceito, um instrumento, uma 
obra artística ou um novo sistema social. [...]
A atividade propriamente humana apenas se verifica quando os atos 
dirigidos a um objeto para transformá-lo se iniciam com um resultado ideal, ou 
fim, e terminam com um resultado ou produto efetivo, real. Nesse caso, os atos 
não só são determinados causalmente por um estado anterior que se verificou 
efetivamente – determinação do passado pelo presente –, como também por algo 
que ainda não tem uma existência efetiva e que, no entanto, determina e regula os 
diferentes atos antes de desembocar em um resultado real; ou seja, a determinação 
não vem do passado, mas sim do futuro.
TÓPICO 2 | ATIVIDADE E CONSCIÊNCIA
147
Esse modo de articulação e determinação dos diferentes atos do processo 
ativo distingue radicalmente a atividade especificamente humana de qualquer 
outra que se encontre em um nível meramente natural. Essa atividade implica 
a intervenção da consciência, graças a qual o resultado existe duas vezes – e em 
tempos distintos: como resultado ideal e como produto real. O resultado real, que 
se quer obter, existe primeiro idealmente, como mero produto da consciência, 
e os diferentes atos do processo se articulam ou estruturam de acordo com o 
resultado que se dá primeiro no tempo, isto é, o resultado ideal. Em virtude 
dessa antecipação do resultado real que se deseja obter, a atividade propriamente 
humana tem um caráter consciente. Sua característica é que, por mais que o 
resultado real diste do ideal, trata-se, em todo caso, de adequar intencionalmente 
o primeiro ao segundo. Isso não significa que o resultado obtido tenha de ser 
necessariamente uma mera duplicação real de um modo ideal preexistente. Não; 
a adequação não tem por que ser perfeita. Pode assemelhar-se pouco, e/ou mesmo 
nada, ao fim original, já que este sofre mudanças, às vezes radicais, no processo 
de sua realização. Desse modo, para que se possa falar deatividade humana é 
preciso que se formule nela um resultado ideal, ou fim a cumprir, como ponto de 
partida, e uma intenção de adequação, independentemente de como se plasme, 
definitivamente, o modelo ideal originário. [...]
A atividade humana é, portanto, atividade que se orienta conforme a 
fins, e estes só existem através do homem, como produtos de sua consciência. 
Toda ação verdadeiramente humana exige certa consciência de um fim, o qual se 
sujeita ao curso da própria atividade.
FONTE: Vázquez (2007, p. 219-222) 
Como afirmam Aranha e Martins (1993), o existir humano decorre do 
agir, visto que o homem se autoproduz à medida que transforma a natureza pelo 
trabalho. Como projeto humano, o trabalho depende da consciência que antecipa 
a ação pelo pensamento. Nesse movimento, estabelece-se a dialética homem-
natureza e pensar-agir. Marx (1983, p. 242) chama de práxis a ação humana de 
transformar a realidade e faz questão de ressaltar a junção entre teoria e prática, 
atividade e consciência em uma via de mão dupla, isto é, “ao mesmo tempo que a 
consciência é determinada pelo modo como os homens produzem a sua existência, 
também a ação humana é projetada, refletida, consciente”. Por isso, a práxis é uma 
possibilidade apenas do ser humano. Um animal não tem medo da morte, não 
sente angústia, euforia diante da beleza, ou, então, planeja seus atos e reflete sobre 
sua prática.
148
Ao tratar dos conceitos de atividade e consciência é importante se ter 
claro que:
• A prática humana (atividade) é a base do conhecimento e do pensamento do 
homem.
• O ser humano é o único que realiza a atividade chamada “trabalho”, essa é 
uma distinção fundamental entre a atividade humana e a animal.
• Em Psicologia Social, a consciência pode ser definida como um certo saber 
a respeito das coisas. Através dela construímos nossa compreensão sobre o 
mundo, sobre si mesmo e os outros.
• Os termos atividade e consciência revelam a relação indissociável entre homem 
e mundo, trazem de forma clara o quanto que o ser humano, ao mesmo tempo 
que é construtor, também é construído.
RESUMO DO TÓPICO 2
149
AUTOATIVIDADE
1 Feita a leitura deste tópico, defina atividade e consciência, expondo a relação 
entre essas duas categorias utilizadas em Psicologia Social.
150
151
TÓPICO 3
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Atualmente, as discussões em torno da teoria das representações sociais 
são uma constante no campo da Psicologia Social. Isso pode ser explicado por 
essa proporcionar novas formas de analisar, entender e interpretar os fenômenos 
sociais e, mais do que isso, ajudando-nos a compreender por que as pessoas 
fazem o que fazem. 
O estudo das representações sociais é uma das ferramentas mais utilizadas 
em Psicologia Social e seu conhecimento é obrigatório, exatamente por isso e por 
proporcionar uma forma bastante peculiar de leitura dos fenômenos psicológicos 
e do comportamento humano.
2 COMO NASCE A TEORIA
Como apresentado por Oliveira e Werba (1998), embora possamos citar 
várias contribuições para a criação da teoria das representações sociais, sua 
origem se dá fundamentalmente na Sociologia e na Antropologia, através de 
figuras como Durkheim e de Lévi-Bruhl, respectivamente. O primeiro termo 
utilizado por Durkheim foi representação coletiva, pelo qual buscou compreender 
questões ligadas à religião, mitos, dentre outros conhecimentos compartilhados 
e inerentes à sociedade. Já o conceito representação social é mencionado pela 
primeira vez pelo psicólogo social francês Serge Moscovici em seu estudo 
sobre a representação social da psicanálise, como os grupos populares a viam e 
compreendiam. Moscovici (apud OLIVEIRA, WERBA, 1998) afirmava que sua 
ambição não era criar e consolidar um campo específico de estudos. Seu maior 
objetivo era redefinir os problemas e os conceitos da Psicologia Social a partir do 
estudo desse fenômeno. 
A teoria das representações sociais surge na Europa, especialmente na 
França na década de 50. No Brasil, o interesse por essa teoria se inicia no final da 
década de 70, com estreita relação, inclusive, com o desenvolvimento da própria 
Psicologia Social, a partir do momento que essa assume uma postura mais crítica 
e preocupada com questões mais abrangentes, que extrapolavam o ser humano 
em si, ou seja, questões de ordem macrossocial. 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
152
Tal qual compreendida hoje, a teoria das representações sociais pode ser 
considerada uma forma sociológica de Psicologia Social, ou seja, conduz um 
modo de olhar a Psicologia Social, que exige a manutenção de um laço estreito 
entre a Psicologia e a Sociologia. Tendo origem em Durkheim, um sociólogo, 
contrapõe-se à vertente americana de Psicologia Social e acaba ampliando 
inclusive a noção de social. Moscovici (apud OLIVEIRA, WERBA, 1998) criou o 
conceito de representação social para enfatizar a visão de sujeito ativo e criativo 
na sociedade, em contraposição à passividade a que foi reduzido o homem na 
teoria cognitivista.
Como afirma Franco (2010):
[...] a decisão de valorizar o estudo das representações sociais 
enquanto categoria analítica e com aplicação nas mais diversas 
áreas está pautada na crença de que essa valorização representa um 
avanço, um ingrediente indispensável tanto para a compreensão 
do comportamento humano quanto para a melhor compreensão 
da sociedade ou, ainda, oferece um passo à frente comparada aos 
conceitos que historicamente fizeram parte da Psicologia Social.
3 CONCEITO
Muitas são as possibilidades de conceituação do termo “representação 
social”. Segundo Minayo (1995), o termo representação social é um termo que 
nos remete à reprodução de uma percepção. Utilizado nas ciências humanas com 
frequência, normalmente refere-se a categorias de pensamento do coletivo ou dos 
grupos em relação à realidade, explicando-a, justificando-a ou até questionando-a. 
Como material de estudo, essas percepções são consideradas consensualmente 
importantes.
Moscovici, embora não tenha apresentado um conceito definitivo de 
representações sociais, buscou se referir às mesmas como “[...] um conjunto de 
conceitos, proposições e explicações originado na vida cotidiana no curso de 
comunicações interpessoais. Elas, o equivalente, em nossa sociedade, aos mitos e 
sistemas de crença das sociedades tradicionais: podem também ser vistas como 
a versão contemporânea do senso comum”. (MOSCOVICI apud OLIVEIRA; 
WERBA, 1998, p. 106). 
Dessa forma, as representações sociais podem ser consideradas “teorias 
do senso comum”, saber popular, elaboradas e partilhadas coletivamente por 
sujeitos pertencentes a grupos sociais específicos e com a finalidade de interpretar 
a realidade. Essas representações são dinâmicas e acarretam a produção de 
comportamentos e interações com o meio condizentes com elas.
Segundo Oliveira e Werba (1998), talvez seja Jodelet quem melhor e mais 
detalhadamente conceitua representação social, essa compreendida como “[...] 
uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e compartilhada, tendo 
uma visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum 
TÓPICO 3 | REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
153
a um conjunto social” (JODELET apud OLIVEIRA; WERBA, 1998, p. 106). Essa 
seria uma forma de pensamento social, um saber do senso comum, que revelaria 
processos socialmente marcados e que teriam relação direta com as condições e 
os contextos nos quais as representações sociais emergem.
De forma mais prática, Franco (2010) define as representações sociais 
como os elementos simbólicos que os homens expressam por diversas formas, 
a principal delas, pelo uso de palavras. No caso do uso de palavras (linguagem 
oral ou escrita), os homens deixam claro o que pensam, como percebem essa ou 
aquela situação, que opinião têma respeito de determinado fato ou objeto, que 
expectativas desenvolvem a respeito disso ou daquilo. Essas representações são 
construídas socialmente e podem ser explicadas ao nos voltarmos à situação real 
e concreta dos sujeitos que as emitem.
Em síntese, as representações sociais surgem como consequência das 
relações sociais que estabelecemos. Por todo momento lidarmos com fenômenos 
e objetos desconhecidos, nos sentimos obrigados a de alguma forma construir 
interpretações para os mesmos no sentido de dar conta da angústica do não 
conhecimento, bem como para sabermos lidar com estes fatos novos. As 
representações sociais estão presentes nos espaços de comunicação interpessoal, 
na mídia ou em todos os lugares em que vigora o senso comum. 
Desta forma, as representações sociais têm uma função bastante prática, 
que pode ser tipificada da seguinte forma:
• Função de saber: permite uma explicação e compreensão da realidade;
• Função identitária: permite a constituição de uma identidade para o grupo. 
As explicações são compartilhadas e favorecem a criação de normas e regras 
comuns;
• Função de orientação: guia os comportamentos e as práticas dos sujeitos e dos 
grupos;
• Função justificatória: possibilita que entendamos os motivos das ações dos 
sujeitos em um determinado contexto social.
Em relação à utilidade de estudar as representações sociais, Oliveira e 
Werba (1998) afirmam que conhecê-las significa conhecer o modo de como os 
grupos humanos constroem um conjunto de saberes que expressam sua identidade 
e, principalmente, o conjunto de códigos culturais que revelam as regras de uma 
comunidade, que busca dar significado às crenças coletivas, às ideologias, aos 
saberes populares e ao senso comum. Esses estudos são fundamentais já que, 
muitas vezes, praticamos determinadas ações, como, por exemplo, comprar e 
votar, não por razões lógicas e racionais, mas por razões afetivas, simbólicas, 
míticas, religiosas etc. 
Allansdottir, Jovchelovitch e Stathoupoulou (apud GUARESCHI, 1995, p. 
203), trazem três postulados que revelam a relevância do conceito: 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
154
a) É um conceito abrangente, que compreende outros conceitos tais 
como atitudes, opiniões, imagens, ramos de conhecimento.
b) Possui poder explanatório: não substitui, mas incorpora os outros 
conceitos, indo mais a fundo na explicação causal dos fenômenos.
c) O elemento social, na teoria das representações sociais, é algo 
constitutivo delas, e não uma entidade separada. O social não 
determina a pessoa, mas é parte substantiva dela. O ser humano é 
tomado como essencialmente social.
O estudo das representações sociais nos leva a várias dimensões, como: o 
que as forma e quais os efeitos dessas representações. Isso faz dela um conceito 
amplo, dinâmico, político-ideológico (valorativo) e, por isso tudo, social. A teoria 
das representações sociais sugere que as conheçamos para compreendermos 
o comportamento das pessoas. O conceito de representação social aponta a 
necessidade de partirmos das relações sociais para compreender como e por que 
os homens agem e pensam de determinada maneira, afirmando o caráter histórico 
da consciência. Essa talvez é a grande contribuição dessa área para a Psicologia 
Social e, por que não, para a Psicologia considerada como um todo.
4 COMO SÃO CRIADAS AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
Em relação à origem dessa forma de pensamento social, podemos 
afirmar que a explicação é psicossociológica, ou seja, o processo de gênese das 
representações sociais tem início nas mesmas circunstâncias e ao mesmo tempo 
em que se manifestam. Dito de outra forma, surgem da dinâmica que se estabelece 
entre a atividade psíquica do sujeito e o objeto do conhecimento ou da relação 
mundo interno e externo ou, ainda, subjetividade/objetividade. Sujeito e objeto 
formam um conjunto indissociável. 
Buscando dar conta da resposta para como são criadas as representações 
sociais, a grande questão que se coloca é: as representações sociais tratam-se 
de conhecimentos inerentes à própria sociedade ou pensamentos elaborados 
individualmente? A resposta parece transitar entre esses dois extremos. Trata-se 
de uma compreensão alcançada por indivíduos que pensam, mas não sozinhos. A 
semelhança de opiniões entre pessoas pertencentes ao mesmo grupo demonstra 
o quanto as pessoas tendem a pensar juntos sobre os mais diversos assuntos. 
Moscovici (apud OLIVEIRA; WERBA, 1998) chama de “sociedade pensante”, 
algo localizado entre uma explicação estritamente sociológica e uma concepção 
puramente psicológica. 
Oliveira e Werba (1998), tentando entender a formação e a origem das 
representações sociais, constatam que as criamos para tornar familiar o não 
familiar. O que eles querem dizer com isso? Segundo esses autores, tendemos a 
gerar um movimento que se processa internamente no sentido de gerar um “bem-
estar”, visto que tendemos a rejeitar o estranho, o diferente, ou seja, negamos 
informações novas, sensações e percepções que nos trazem desconforto. 
TÓPICO 3 | REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
155
Nesse sentido, fala-se em “universo consensual”, referindo-se ao lugar 
onde todos compartilham das mesmas crenças e onde alguém pode falar em 
nome do grupo. Por outro lado, existem os chamados “universos reificados”, 
que são mundos restritos, onde circulam a ciência e as teorizações abstratas. No 
“universo consensual”, encontramos as teorias do senso comum e a produção 
de representações sociais que teriam o intuito de tornar o novo ou o não 
familiar em algo socialmente conhecido e real. O universo reificado da ciência 
pode ser transferido ao universo consensual. Essa tarefa é constantemente feita 
por jornalistas, comentaristas econômicos, professores, ao utilizar os meios de 
comunicação de massa e vincular informações que serão amplamente divulgadas. 
Ambos os universos (reificado e consensual) atuam simultaneamente no sentido 
de explicar ou dar conta da realidade.
A partir dos conceitos de “universo reificado” e “universo consensual” 
surgem outros dois conceitos importantes: ancoragem e objetivação, processos 
sociocognitivos responsáveis por grande parte da formação das representações 
sociais. Ancoragem é o processo no qual procuramos classificar, encontrar um 
lugar para encaixar o não familiar. Esse processo é importante no nosso dia a dia, 
já que nos auxilia a enfrentar as dificuldades de compreensão ou conceituação. 
Um exemplo trazido por Oliveira e Werba (1998) é quando começou a 
ser vinculado o problema da AIDS. Diante da incapacidade de ser entendida e 
compreendida, uma das formas encontradas pelo senso comum para dar conta 
dessa ameaça, foi “ancorá-la” como uma peste, mais especificamente “a peste 
gay”. Assim representada, embora de forma equivocada e preconceituosa, a nova 
doença pareceu menos ameaçadora ao ser categorizada como algo. 
Já a objetivação é o processo pelo qual procuramos tornar concreto, visível, 
uma realidade. Um exemplo típico e citado por Moscovici (apud OLIVEIRA; 
WERBA, 1998) refere-se à religião. Ao chamar Deus de pai, busca-se objetivar 
uma imagem jamais visualizada (Deus), em uma imagem conhecida (pai), o que 
facilita a ideia do que seja “Deus”.
5 COMO AS INVESTIGAMOS
Se o estudo das representações sociais faz parte da Psicologia Social, não 
há como falarmos delas sem adentrarmos ao campo da pesquisa. Nesse sentido, 
não é possível afirmar que existe uma metodologia única para a investigação das 
representações sociais. Encontramos desde investigações de ordem quantitativa 
como as que trabalham com dados qualitativos, assim como algumas fazem uso 
dessas duas abordagens.
Uma vez definido o problema a ser estudado e o público-alvo, a grande 
questão que se coloca é qual aspecto será investigado para, em seguida, elaborar 
o instrumento e/ou o procedimento da pesquisa.Para Oliveira e Werba (1998), 
um dos instrumentos mais utilizados na investigação das representações sociais 
tem sido a técnica dos grupos focais. 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
156
Os grupos focais podem ser descritos como entrevistas realizadas com 
vários membros pertencentes a um grupo, no qual é conduzida uma discussão 
no grupo, semelhante a uma conversação realizada entre amigos ou vizinhos. Os 
dados são discutidos e aprofundados pelos membros do grupo e exatamente por 
essa razão a fidedignidade dos dados pode ser considerada superior aos dados 
coletados em uma entrevista individual. Chega-se mais próximo às compreensões 
que os participantes têm a respeito do tema de interesse do pesquisador, já que as 
respostas e as representações são elaboradas coletivamente.
Para Geerz (apud SPINK, 1995), é importante se destacar que ao 
trabalhar com o senso comum não cabe somente buscarmos o que é estável e 
consensual. Muitas vezes, os conteúdos são heterogêneos e, da mesma forma que 
a homogeneidade, a heterogeneidade e a contradição também são informações 
ricas para serem analisadas.
DICAS
A teoria das representações sociais é recente, o que explica a pouca bibliografia 
em português na área. Entre os poucos materiais disponíveis encontram-se “O conhecimento 
no cotidiano: as representações sociais na perspectiva da Psicologia Social”, livro organizado 
por Mary Jane Spink e com a colaboração de pesquisadores da PUC de São Paulo, e “Textos 
em representações sociais” que apresenta os trabalhos desenvolvidos na PUC do Rio Grande 
do Sul, sob a coordenação de Pedrinho Guareschi. 
TÓPICO 3 | REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
157
LEITURA COMPLEMENTAR
A seguir será apresentada uma pesquisa realizada com o intuito de 
buscar compreender o porquê que frequentadores de grupos neopentecostais ao 
apelo do pregador dão seu dinheiro, mesmo que seja tudo que têm. A partir de 
uma perspectiva crítica, os pesquisadores em questão buscaram dar conta das 
seguintes questões: como é possível tal exploração? Será que as pessoas não se 
dão conta de tamanha manipulação? As respostas para essas perguntas podem 
ser encontradas no campo das representações sociais.
IMPORTANT
E
Guareschi chama de “pentecostais novos” ou “neopentecostais” os grupos 
religiosos surgidos nas últimas duas ou três décadas, originando-se de todos os tipos de 
igrejas tradicionais.
“SEM DINHEIRO NÃO HÁ SALVAÇÃO”: 
ANCORANDO O BEM E O MAL ENTRE NEOPENTECOSTAIS
P. A. Guareschi
Metodologia
Nossos dados foram coletados em situações bastante diversas. A maior 
parte deles foram tomados de observações participantes (ao redor de 50) de cultos 
e práticas das várias igrejas. Além disso, foram gravados programas de TV (10) e 
rádio (5) das igrejas que os transmitem. Finalmente, foram feitas entrevistas com 
pastores (95) e com os fiéis (25), procurando saber, da parte deles, o que achavam 
das práticas econômicas das igrejas. Os pastores mostravam-se extremamente 
arredios, dizendo que nada se exige dos fiéis, que tudo é espontâneo. A prova 
central disso (muitas vezes repetida durante as pregações) é de que nunca se 
cobrou entrada. O que verdadeiramente nos interessava era compreender como 
os membros se colocavam diante da questão econômica. É de suas falas que se 
pode perceber como funcionam as estratégias empregadas pelos pregadores 
para, a partir de uma necessidade que é fundamentalmente econômica, ancorar 
a extorsão do dinheiro a representações já existentes na mente dos fiéis para, a 
partir daí, tirar, deles mesmos, o que eles mais necessitavam.
A dimensão econômica nas práticas neopentecostais: dados
[...] A forte ênfase dada ao econômico, nas igrejas pentecostais, salta 
imediatamente à vista. Não há reunião, oração, serviço ou concentração, em 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
158
que a necessidade de contribuir não seja constantemente lembrada. Hugarte 
(1990) sintetiza as práticas cerimoniais dessas igrejas como sendo uma série de 
discursos ininterruptos, nos quais os pastores insistem fundamentalmente sobre 
as necessidades materiais da igreja, a virtude do desprendimento, os benefícios 
do jejum e das esmolas (“dar para receber”) e a importância de se escutar os 
programas de rádio ou televisão dessas próprias igrejas. Lembra-se continuamente 
que é graças às contribuições dos fiéis, que a igreja pode continuar a crescer, 
ampliando-se geograficamente e no número de seguidores de sua mensagem; 
com isso aumenta o número de milagres e curas. É admirável a capacidade dos 
pregadores em convencer os fiéis da obrigação e necessidade de contribuir, até 
mesmo para eles se salvarem, e de o que se pede é insignificante se comparado, 
por exemplo, ao preço de uma cerveja, a uma passagem de ônibus, ou mesmo 
a um refrigerante. Alguns exemplos desses raciocínios e motivações: “Você não 
pode ganhar nada de graça, nem mesmo Deus; para se conseguir uma graça você 
tem de pagar”. “É dando (dinheiro) que você vai receber (a graça)”.
A atividade milagrosa de igreja é apresentada como se fosse um serviço e, 
com isso, tem-se como normal e justificado o fato de que se cobre. Algumas falas 
que mostram isso: “Se pagamos a um médico, se pagamos o aluguel, por que 
não pagar a quem cura nossos males?” “É necessário aumentar, ou reconstruir 
a igreja, desse modo Deus poderá continuar a operar o ‘festival de milagres’”. 
“Precisamos continuar com nossos programas de rádio e televisão para podermos 
vencer o demônio”. “Você tem de se livrar de seu dinheiro, desse modo você 
poderá se purificar”. “Se você doar seu dinheiro para a igreja, você poderá até 
certo ponto purificar o mundo”. “Se você doar dinheiro para a igreja, você não 
estará dando dinheiro ao pastor, mas a Deus”.
Os fiéis estão convencidos de que eles não estão sendo explorados 
economicamente por seus pastores. Nem chegam a pensar nessa possibilidade. 
Eis a reação de uma mulher à tentativa de questionamento sobre a possibilidade 
de exploração econômica: “Exploração? Nunca! A pessoa dá o que ela quiser. 
Não há obrigação de dar. Você não paga por tudo o que compra? Do mesmo 
modo, por que não pagar a Deus?”
 
FONTE: Guareschi (1995, p. 205-208).
A partir dos dados coletados na pesquisa é possível serem feitas algumas 
considerações a partir da teoria das representações sociais e analisados os 
mecanismos empregados nesse processo. Esse é o intuito de Guareschi (1995) ao 
propor a análise desse fenômeno a partir de dois processos considerados por ele 
fundamentais: a situação da não familiaridade e o processo de ancoragem.
Na pesquisa apresentada, o não familiar, ou o grande temor dos 
frequentadores das instituições em questão, está nas dificuldades presentes no 
dia a dia, dificuldades essas de ordem financeira e pessoal. Lembrando Moscovici 
(apud OLIVEIRA; WERBA, 1998) e a afirmação de que o grande propósito de 
todas as representações é o de transformar algo não familiar em familiar, nesse 
TÓPICO 3 | REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
159
caso, o mistério ou angústia dos fiéis é a impotência de não poder solucionar 
os seus problemas. Entram em jogo, então, os “interpretadores” do mistério e 
que se municiam com um instrumento absolutamente legitimado: a Bíblia. “O 
importante é obedecer cegamente, crer sem restrições, atirar-se confiantemente 
em seus braços”. (GUARESCHI, 1995, p. 213).
Para Guareschi (1995), a ancoragem é outro processo que auxilia a 
compreender esse fenômeno, ao analisar o universo simbólico dessas pessoas, 
as representações sociais já existentes e como as práticas empregadas pelos 
pregadores nada mais fazem que ligar, “ancorar” essas novas práticas a situações 
anteriores, representações tradicionais típicas da religiosidade popular de nosso 
povo. Entre elas é possível citar a representação da reciprocidade (dar e receber), 
a representaçãodo mercado capitalista (as leis que determinam o mercado vão 
determinar também as relações com Deus, “supermercado da fé”) e, ainda, a 
representação da culpa e do castigo (o sentimento de culpa e a ameaça de castigo 
são também empregados para incentivar as contribuições).
Em suma, o mecanismo de ancoragem é decisivo na legitimação da 
extorsão. O “dar dinheiro” é firmemente legitimado e ancorado no universo 
simbólico cultural-religioso brasileiro. A atividade religiosa dessas igrejas 
apresenta-se como uma simples continuação da vida cotidiana dessas pessoas, 
apresentando as mesmas regras de funcionamento. Guareschi (1995, p. 222), 
encerra seu estudo ao afirmar que “[...] é após estes momentos poderosos de 
catarse e alívio espiritual que se chega ao elemento material. Deus fez sua parte, 
operando milagres e curas. Os fiéis devem fazer a deles: pagar a conta”.
De forma geral, em relação aos avanços trazidos pela teoria das 
representações sociais, destacam-se dois apontados por Oliveira e Werba (1998, 
p. 114):
a) A teoria das representações sociais trata do conhecimento 
construído e partilhado entre pessoas, saberes específicos à 
realidade social, que surgem na vida cotidiana no decorrer 
das comunicações interpessoais, buscando a compreensão de 
fenômenos sociais.
b) A teoria das representações sociais colocou os saberes do 
senso comum em uma categoria científica. Ela veio valorizar 
este conhecimento popular, tornando possível e relevante sua 
investigação.
O campo de estudos em representações sociais, embora recente, tem 
se mostrado cada vez mais produtivo e isto é evidenciado pela crescente 
diversidade de questões pesquisadas. As representações sociais, enquanto 
imagens construídas sobre o real, vêm se revelando material importante nas 
ciências humanas, principalmente dentro da Psicologia Social.
160
No que diz respeito ao estudo das representações sociais é importante 
destacar que:
• As representações sociais são saberes provenientes do senso comum. São 
formas de conhecimento elaboradas coletivamente e, por isso, partilhadas por 
um mesmo conjunto social.
• A utilidade do estudo das representações sociais para a Psicologia Social é 
tamanha por garantir a aproximação com o conjunto de saberes e regras de 
uma determinada comunidade ou, em termos gerais, por aproximar a ciência 
ao senso comum.
• A origem das representações sociais ou do pensamento social é psicossociológica, 
ou seja, se dá a partir das relações entre sujeitos e circunstâncias a que são 
submetidos. Criamos para tornar familiar o não familiar.
• Ancoragem e objetivação explicam grande parte da formação de representações 
sociais.
RESUMO DO TÓPICO 3
161
AUTOATIVIDADE
1 Depois de ler este tópico, defina representação social e exponha a importância 
do estudo das mesmas para a Psicologia Social.
162
163
TÓPICO 4
IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
A partir de uma Psicologia Social crítica, ideologia e alienação são dois 
conceitos imprescindíveis para serem analisados por uma série de fenômenos 
relacionados ao homem moderno, homem imerso na sociedade aos moldes do 
que temos hoje. Se temos a Psicologia Social como o campo da Psicologia voltado 
ao estudo da interação social e à compreensão do homem nas suas relações 
sociais, como exposto na Unidade 1, faz-se necessário compreender toda a forma 
de opressão e dominação a que muitos são submetidos cotidianamente sem se dar 
conta. 
Com esse intuito, abordaremos tais conceitos na tentativa de contribuir 
para a emancipação humana e para o afastamento das ideias enganosas que a todo 
momento se fazem presentes no cotidiano.
2 IDEOLOGIA
Segundo Guareschi (1998), por muito tempo o termo ideologia não 
foi citado na Psicologia Social, porque a mesma foi uma disciplina altamente 
individualizante e experimental. O conceito e a teoria da ideologia só começam 
a fazer parte da Psicologia Social a partir da década de 70, do século XX, quando 
muitos autores iniciam a incorporação do tema em seus estudos e pesquisas. 
Embora o nome “ideologia” tenha surgido há pouco mais de um século, 
com diferentes nomes, o fenômeno, semelhantemente a como é compreendido 
hoje, já se fazia presente desde o momento que a vida social passa a ser analisada. 
A partir do século XV e XVI surgem estudos mais sistemáticos a respeito 
desse tema, embora ainda não fosse empregado o termo. Um exemplo disso é 
Maquiavel (1469-1527) que, em sua célebre obra “O Príncipe” (MAQUIAVEL, 
2007), discutiu as práticas dos príncipes, principalmente o uso da força e da fraude 
para conseguirem se perpetuar no poder. Essas estratégias ainda hoje são usadas 
para que os dominantes consigam se legitimarem.
Para Guareschi (1998), talvez não exista conceito mais complexo e sujeito 
a equívocos do que o de ideologia, o que é justificado quando se tem acesso à 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
164
infinidade de enfoques teóricos que dão sustentação a esse conceito e à atribuição 
de diferentes significados e funções ao mesmo. Nesse sentido, não é tarefa fácil 
abordar esse tema de modo claro e preciso. 
Guareschi (1998), no intuito de expor os muitos significados de ideologia, 
propõe alguns planos de análise, sendo dois os mais significativos e nos quais se 
percebe uma distinção central: estamos falando da dimensão positiva ou negativa 
da ideologia. 
Ideologia no sentido positivo ou neutro é entendida como uma cosmovisão, 
ou seja, o conjunto de valores, ideias e ideais de uma pessoa ou grupo. Nessa 
dimensão, todos, sem distinção, possuem sua ideologia, já que é impossível 
alguém não ter ideias, ideais e posicionamento a respeito das coisas. 
Já a ideologia no sentido negativo ou crítico seria constituída por ideias 
distorcidas e enganadoras: seria algo que ajuda a obscurecer a realidade e a 
enganar as pessoas. É algo ilusório e expressa interesses dominantes, no sentido 
de sustentar relações de dominação. Segundo Guareschi (1998, p. 94), tomar a 
ideologia no sentido negativo é bem mais interessante e proveitoso do que 
empregá-la como sendo um conjunto de ideias. “Ideias todos nós temos e não 
há como ser diferente. O importante, porém, é saber se essas ideias são falsas, 
enganadoras, se elas podem trazer prejuízos aos nossos colegas”. Nesse sentido, 
a seguir serão apresentadas essas duas “ideologias”, sendo que será enfatizada a 
ideologia no sentido negativo pela razão descrita anteriormente.
Tomelin e Tomelin (2004) falam em uma “boa ideologia” e uma “má 
ideologia”. A “boa ideologia” está associada a uma necessidade social e a um 
conjunto de ideias a respeito de algo. Por essa perspectiva, tudo o que nós 
pensamos acaba podendo ser considerado ideológico. Já o outro emprego faz 
alusão à manipulação social como forma de dominação. Enquanto prática, é o 
conhecimento utilizado interesseiramente, uma tentativa de convencer as pessoas 
por meio de um falseamento da realidade. Pode significar ainda o conjunto 
de ideias vinculadas por uma minoria dominante que, proveitosamente, quer 
manipular uma maioria dominada. 
Segundo os mesmos autores, a pergunta norteadora ao se referir à 
ideologia é: como pode o poder de poucos determinar a condição de muitos? 
Nesse sentido, a má ideologia ou a ideologia em seu sentido negativo, como o 
pensamento marxista, passa a ter um emprego político. Sua origem é constatada 
na ambição capitalista, que ao buscar acumular capital e explorar, precisa 
dificultar a percepção do que realmente acontece e alienar. Marx (1983) então se 
refere à ideologia como um mecanismo sutil, utilizado pela classe dominante para 
dominar e perpetuar-se no poder. “A ideologia é a voz do opressor e a alienação, 
o silêncio do oprimido”. (TOMELIN; TOMELIN, 2004, p. 138).
TÓPICO 4 | IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
165
ESTUDOS FU
TUROS
Embreve nos ateremos especificamente ao termo “alienação”, processo 
relacionado à ideologia em seu sentido negativo.
Semelhante a Guareschi (1998) e Tomelin e Tomelin (2004), Aranha e 
Martins (1993) também citam os vários sentidos da palavra ideologia. Eles falam 
em sentido amplo e restrito. Ideologia, em seu sentido amplo, seria o conjunto 
de ideias, concepções ou opiniões sobre determinada temática qualquer. Nesse 
sentido, quando perguntamos qual é a ideologia de determinado pensador, 
estaríamos nos referindo à doutrina, às ideias e ao seu posicionamento diante de 
certos fatos. 
A ideologia em seu sentido amplo é a “boa ideologia”, citada por Tomelin 
e Tomelin (2004), ou a ideologia na sua dimensão positiva, apresentada por 
Guareschi (1998). Já a ideologia em seu sentido restrito ganha evidência com 
Marx (1983), pelo qual é defendido um conhecimento ilusório, com o intuito de 
mascarar os conflitos sociais. Com a concepção marxista, a ideologia adquire 
um sentido negativo como instrumento de dominação, acaba sendo uma “má 
ideologia”. 
Para melhor compreendermos a ideologia na sua dimensão negativa, a 
“má ideologia”, ou então a ideologia em seu sentido restrito, buscaremos agora 
elencar algumas características da mesma enquanto instrumento de dominação. 
No que tange a esse conceito são válidas as palavras de Guareschi (1998, p. 97) 
quando afirma que: 
[...] dominação é uma relação, e se dá quando determinada pessoa 
expropria poder (capacidades) de outro, ou quando relações 
estabelecidas de poder são sistematicamente assimétricas, fazendo 
com que determinados agentes, ou grupos de agentes, não possam 
participar de determinados benefícios, sendo assim injustamente 
deles privados, independentemente da base sobre a qual tal exclusão 
é levada a efeito.
A partir do conceito de dominação fica mais fácil pensarmos nas 
estratégias utilizadas para a criação e manutenção das relações de dominação, 
talvez a questão mais relevante e útil para quem busca se aproximar do conceito 
de ideologia. Dentre os vários mecanismos utilizados ideologicamente, destacam-
se a naturalização e a universalização.
Tanto Tomelin e Tomelin (2004) como Aranha e Martins (1993) buscam 
explicar esses processos utilizados para conseguir criar e/ou manter o falseamento 
da realidade. A naturalização, para esses autores, seria uma forma de dirigir a 
consciência da população ao naturalizar situações que, na verdade, são produtos 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
166
da ação humana e, por conseguinte, são históricos e não naturais. A naturalização 
é detectada em afirmação como “sempre foi assim e sempre será” ou então que 
a existência de ricos e pobres faz parte da natureza, assim como a ideia de que é 
natural que alguns mandem e outros obedeçam. Guareschi (1998) cita o caso de 
uma mãe que, ao descobrir que sua filha está namorando vários rapazes, afirma: 
“Minha filha, isso não é natural. Isso nunca foi assim”. As tibetanas possuem 
muitos maridos e os árabes muitas mulheres, o que demonstra o quão presente 
está entre nós esse processo ao tirarmos dos fenômenos seu caráter histórico, 
relativo e transformá-los em eternos, imutáveis, naturais.
Brecht (2010), poeta marxista, faz uma denúncia à ideologia e ao processo 
de naturalização em seu poema “Nada é impossível de mudar":
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
Outro processo citado pelos autores em questão é a universalização, na 
qual os valores da classe dominante são estendidos à classe dominada. Consiste 
na formação de uma consciência universal, uma espécie de correnteza ideológica, 
o que dificulta que alguém resolva “remar contra”. A consciência de classe é um 
exemplo desse mecanismo, no qual a empregada doméstica “boazinha” não se 
incomoda em trabalhar além do horário e com o salário que recebe. Ciente do seu 
lugar e situação, acredita que essa é uma espécie de regra a ser seguida. 
Outro exemplo trazido por Guareschi (1998) é o do político que em 
algum discurso afirma que a competição em âmbito mundial e a globalização 
são fundamentais para o desenvolvimento de todas as nações. Segundo ele, 
estamos diante da estratégia ideológica da universalização e fica uma pergunta: 
esses processos irão de fato beneficiar a todos os países ou só a alguns? Uma 
leitura possível é a de que eles vêm a favorecer só a alguns a partir da constatação 
de que os países não estão em pé de igualdade, ou seja, os fracos saem muito 
prejudicados, semelhante ao atleta que posicionado à frente e com muito mais 
preparo físico tende a ganhar daqueles que estão posicionados atrás dele e com 
menos recursos. 
Outro exemplo trazido por ele e ainda mais comum pode ser resumido na 
fala “rico é quem poupa”. Por detrás dessa fala está uma enorme legitimação da 
riqueza de poucos e uma espécie de mistificação da realidade, já que na grande 
maioria das vezes são pobres aqueles que não tiveram igualdade de oportunidades 
e/ou foram explorados.
Para Tomelin e Tomelin (2004), a função principal da ideologia dominante 
é a manutenção das coisas como estão, buscar o status quo ao criar uma realidade 
TÓPICO 4 | IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
167
ilusória, que traz conforto a todos os dominados. A ingenuidade coletiva faz com 
que não sejam enxergadas as contradições e a opressão e isso fica claro em dizeres 
cotidianos como: todos os homens são livres, os pobres não enriquecem porque 
não se esforçam, todos são iguais perante a lei, todos possuem igualdade de 
oportunidades, o trabalho dignifica o homem, as crianças não aprendem porque 
não são inteligentes, o salário paga o trabalho do operário. 
Analisando a afirmação de que os pobres não enriquecem porque não se 
esforçam, fica evidente a ideia de que as diferenças sociais podem ser explicadas 
no campo individual, sobretudo no talento e esforço de cada sujeito. Esse 
argumento é falacioso ao percebermos que a pobreza envolve muitas dimensões, 
inclusive de ordem social e política, o que nos levaria a questionarmos essa 
afirmação individualizante. A quem serve essa crença? Quem são os beneficiados 
de todos pensarem assim? Essas perguntas nos remetem à função das várias 
leituras equivocadas e tendenciosas da realidade.
Segundo Chaui (2003), não temos acesso à realidade em si mesma. Se 
assim fosse, seria incompreensível que os seres humanos, conhecendo as causas 
da exploração, da miséria e da injustiça, nada fizessem contra elas. Esse imaginário 
social constitui a ideologia, que teria algumas funções primordiais: dissimular a 
presença da luta de classes, negar as desigualdades sociais e oferecer a imagem 
ilusória de uma comunidade (Estado) originada do contrato social entre homens 
livres e iguais. A ideologia é a lógica da dominação social e política.
Tomelin e Tomelin (2004) deixa claro que a ideologia está presente nos 
mais diversos meios, como: na escola, na família, na religião, na política, na mídia 
e em todos os lugares onde existem pessoas se relacionando. Ela se propaga 
em todas as instituições sociais que, de alguma forma, acabam exercendo um 
papel formativo da consciência humana. Segundo Tomelin e Tomelin (2004, p. 
140), algumas características evidenciam o que a ideologia faz e como atua na 
consciência humana:
l	Estabelece uma visão de mundo.
l	Manipula as vontades, cria desejos e necessidades, desenvolve 
o fascínio pela mercadoria.
l	Encobre a verdade.
l	Deixa a realidade confusa e distorcida.
l	Coisifica a relação entre as pessoas.
l	Prescreve normas para a conduta humana.
l	Cria representações sociais,símbolos e modelos.
l	Possui um discurso lacunar.
l	Explica a realidade a partir da visão de mundo da classe 
dominante.
l	Afasta o produtor do produto, para que ele não veja 
significado em seu trabalho – alienação.
l	Naturaliza os problemas sociais, criando valores de conduta.
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
168
3 ALIENAÇÃO
Embora muitos autores compreendam a alienação enquanto um dos 
processos subjacentes à ideologia, ou uma das estratégias da ideologia no seu 
sentido negativo, o frequente uso desse termo e a importância desse conceito 
nos leva a analisarmos esse fenômeno em separado. Dada a complexidade e 
infinidade de significados que o termo acaba carregando, buscaremos discuti-lo.
 O vocábulo “alienação” talvez seja tão usado como o vocábulo 
“democracia” e com a mesma falta de rigor. O senso comum o utiliza constantemente 
como ofensa. Se você assiste a muita televisão é um alienado, se não assiste também. 
Se alguém se veste de forma diferente é alienado, se veste terno e gravata da mesma 
forma o é. Essa confusão de sentido e generalização bastante ampla do termo mostra 
o quanto que há falta de compreensão do assunto.
Segundo Aranha e Martins (1993), etimologicamente, a palavra alienação 
vem do latim alienare e significa “que pertence a um outro” e é utilizada em vários 
sentidos. Em todos os sentidos utilizados, o homem alienado perde a compreensão 
do mundo em que vive e torna alheio à sua consciência um segmento importante 
da realidade em que se acha inserido.
Embora possamos interpretar esse significado de inúmeras formas, Marx 
(1983) foi um dos teóricos que mais explorou o tema e excluído do senso comum, é 
esse o referencial teórico mais utilizado ao se referir à alienação. Nesta perspectiva 
Codo (1995) explora o termo de forma bastante minuciosa. Segundo ele, falarmos 
em alienação é falarmos do mistério de ser e não ser ao mesmo tempo. Como 
exemplo, temos o termo usado no comércio. Ao comprar um carro e não ter todo 
o dinheiro necessário você poderá pegar um empréstimo e seu carro passará a 
estar alienado. Nesse caso, o carro é e não é seu, já que você pagou e não pagou 
por ele. A própria Psicologia fez uso do termo “alienação mental”, passando a 
designar um estado patológico do indivíduo que se tornou alheio a si mesmo. 
Nesse estado, a pessoa acaba não podendo responder plenamente por seus atos. 
Aqui também a palavra alienação parece uma síntese da magia de ser e não ser. 
É, sobretudo, com Marx (1983) que o termo ganha destaque ao propor em 
sua leitura crítica que, no trabalho organizado pela sociedade capitalista ocorre 
uma ruptura, uma cisão entre o produto e o produtor, a partir do momento que 
o trabalhador produz o que não consome e consome o que não produz. Pior do 
que isso, muitas vezes produz e não consegue comprar o produto que produziu. 
Segundo Marx (1983), o trabalhador foi roubado. 
O conceito que explica esse processo é o conceito de mais-valia, termo 
utilizado por Marx como alicerce para o modo de produção capitalista. É 
importante destacar que em Marx o que quer que sejamos, somos pelo nosso 
trabalho. É o trabalho humano que marca a nossa existência e nos diferencia 
dos outros animais, por transformarmos o meio ambiente que nos rodeia nesse 
processo.
TÓPICO 4 | IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
169
Mais-valia foi o termo utilizado por Marx (1983) para falar a respeito do 
lucro que sobra ao proprietário dos meios de produção (terras, empresas etc.), 
depois de descontadas todas as despesas. Por exemplo: um sofá é vendido pelo 
dono da fábrica por R$ 500,00. Um operário gasta 10 horas para fazer esse sofá. 
Recebe pelas 10 horas R$ 100,00. O material para o sofá custa mais R$ 150,00. Temos 
R$ 250,00. Os impostos (quando são pagos) mais R$ 50,00. São R$ 300,00. Mais 
uns R$ 50,00 para despesas com luz, reposição das máquinas quando estragadas 
etc., R$ 350,00. O dono da fábrica, ao vender o sofá por R$ 500,00, tem um lucro de 
R$150,00 que é a mais-valia, o lucro líquido que o capitalista tem, descontada toda 
a despesa. 
Para se obter a mais-valia, de acordo com Marx (1983), seria preciso que o 
possuidor do dinheiro descobrisse no mercado uma mercadoria que fosse fonte de 
valor, criação de mais-valia, ou então, que o dono da fábrica pudesse comprar por 
preço menor do que vale. E essa mercadoria existe: é a força de trabalho humano. 
No entanto, a força de trabalho dos homens não foi sempre mercadoria. 
Imaginando um artesão, um produtor independente que vendia o seu produto, 
ao não vender a sua força de trabalho, essa passa a não ser mercadoria. Isso se 
torna possível, porque o artesão é dono tanto de seu trabalho como de seus meios 
de produção, quer dizer, é dono de seus instrumentos e da matéria-prima que 
utiliza; em consequência, é dono também do produto que o seu trabalho produziu. 
A expansão capitalista, entretanto, liquidou a maior parte dos artesãos, 
que não puderam concorrer com as fábricas sempre crescentes. Endividavam-se 
e perdiam os seus meios de produção, até que nada lhes restasse para vender, 
a não ser a sua força de trabalho. Assim, o trabalhador foi forçado a procurar o 
capitalista para vender-lhe a sua força de trabalho, em troca de um salário e é isso 
que ocorre até hoje (CATANI, 1980). 
É nesses termos que o conceito de alienação pode ser entendido a partir de 
uma leitura marxista. Para Codo (1995, p. 31), “essa dupla relação – mercadoria 
e lucro – promove a ruptura entre o homem e o seu próprio gesto, entre a ação 
e o dono dela, entre o trabalho e o seu produtor; eis como a alienação é gerada 
na nossa sociedade”. Quando o nosso produto se apresenta como estranho a nós 
mesmos, alienamo-nos da nossa própria humanidade. O homem alienado passa 
a ser um estranho perante si mesmo e perante sua historicidade. Depositamos 
no trabalho (produto da ação humana sobre a natureza) nossa alma, e esse se 
transforma em uma mera mercadoria.
Reflexão interessante é trazida por Codo (1995), ao afirmar que embora 
o processo de alienação sempre implique em uma alteração de consciência, isso 
não significa dizer que ela é apenas um produto da consciência humana. Vamos 
entender isso. O autor traz um exemplo a esse respeito e sugere imaginarmos 
dois trabalhadores. O primeiro não sabe que está alienado, acha natural que não 
participe dos lucros e/ou da mordomia do patrão. O segundo é um militante 
sindical, luta para eliminar a “exploração do homem pelo próprio homem”. 
E a pergunta que não quer calar: qual dos dois é alienado? Você respondeu, 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
170
o primeiro? Na verdade os dois são igualmente alienados, a diferença é que o 
segundo luta contra a alienação, sabe a causa dos seus males e tem uma proposta 
de como superá-los. Os dois sofrem do mesmo mal, estão alheios do produto 
do seu trabalho, sua força de trabalho é vendida ao dono da fábrica como uma 
mercadoria qualquer. 
Vale ressaltar que, nos dias de hoje, o termo alienação acaba também sendo 
entendido como a falta de capacidade do indivíduo de pensar e agir por si próprio, 
o que acaba tendo uma certa sintonia com a alienação proposta por Marx (1983), 
embora, nesse caso, o termo tenha uma conotação mais abrangente. Nessa ótica, 
Tomelin e Tomelin (2004) afirmam que pode ser considerado alienado aquele 
que faz a vontade alheia sem perceber as incoerências a que é submetido. Nesse 
sentido, a alienação passa a ter uma relação bastante próxima com a ideologia no 
seu sentido negativo.
UNI
A seguinte figura, embora busque enfatizar o conceito de mais-valia utilizado 
por Marx e enquanto base para a sobrevivência do modo de produção capitalista (exploração 
do homem pelo próprio homem), deixa claro o quanto somos alienados e o quanto que 
tomados pela ideologia dominante não nos damos conta de muitos processos a que somossubmetidos indevidamente.
FIGURA 20 – CONCEITO DE MAIS-VALIA
FONTE: Disponível em: <http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/08/259982.shtml>. 
Acesso em: 2 fev. 2010.
TÓPICO 4 | IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
171
LEITURA COMPLEMENTAR
Partindo do pressuposto que a “má ideologia” se faz presente em todos 
os espaços, nosso próximo passo será ter acesso a um texto que busca pensar 
a relação entre televisão e ideologia, ou mais especificamente, entre novela e 
ideologia, o que permite que de forma mais prática consigamos perceber como 
a ideologia está presente entre nós.
NOVELA E IDEOLOGIA
M. L. Aranha
M. H. P. Martins
Embora a escolha de um ou outro tema dependa do momento histórico, 
uma vez que é a importância de um assunto em determinado momento que 
vai possibilitar o envolvimento do espectador (resultando em bom índice 
de audiência que, por sua vez, eleva o preço da publicidade inserida naquele 
horário), os valores propostos não são muito diferentes ao longo do tempo. E isto 
se dá porque o discurso da telenovela é um discurso altamente ideológico.
O que isso quer dizer? Que a telenovela universaliza os valores de uma 
determinada classe, fazendo com que pareçam ser válidos para todos. Ao proceder 
assim, faz desaparecer os confrontos de valores das diversas classes, bem como os 
conflitos de interesses, apresentando uma visão homogênea da sociedade.
Considerando-se a diversidade cultural da população, a diversidade de 
interesses e de valores existentes no Brasil, a telenovela, ao propor os valores da classe 
média alta do Rio de Janeiro e de São Paulo para todo o país, está fazendo, nada mais, 
nada menos, propaganda ideológica, numa tentativa de construir a “massa” homogênea 
nacional, de gosto médio, para a qual é produzida. Vejamos alguns exemplos.
Apesar de retratar o cotidiano dos personagens, o trabalho, que em nossas 
vidas ocupa pelo menos metade do tempo em que estamos acordados, quase 
não aparece. Presidentes de firmas e altos funcionários são mostrados em umas 
poucas reuniões-chave, nas quais há sempre disputa de poder, assinando alguns 
papéis ou dando ordens a subalternos. Talvez seja por isso que garotos de vinte 
anos, que jamais trabalharam antes nem completaram sua educação, possam 
assumir as companhias herdadas e ter enorme sucesso. As secretárias, por sua 
vez, limitam-se a atender telefonemas, a evitar que pessoas indesejadas visitem 
seus chefes e que passem informações secretas aos inimigos. Além de muita 
fofoca, é claro. As empregadas domésticas servem para atender à campainha ou 
passar pela sala, de uniforme engomado, com um espanador na mão. Às vezes, 
são confidentes da patroa. Perguntamos: de onde vem o dinheiro? Como os 
personagens mantêm o padrão de vida mostrado pelas roupas, pelo tamanho 
das casas, pelos móveis e objetos de decoração? Mesmo quando, teoricamente, a 
casa é de um personagem pobre, não faltam a cristaleira, o sofá da moda coberto 
de tecido, adornos variados. O próprio padrão da casa é o mesmo da classe 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
172
dominante: quartos individuais, banheiro, sala, cozinha, cada cômodo com sua 
finalidade específica. Isso se estende, também, aos hábitos: até o café da manhã 
é tomado sentado, com a mesa posta segundo padrões da classe média alta. 
Ninguém toma café no copo de geleia!
Desse modo, a pobreza, na televisão, é saneada, limpa, esterelizada. Ficamos 
com a pobreza idealizada que não faz ninguém perder o sono, embora saibamos da 
desigualdade da distribuição de renda no Brasil, onde 50% da população precisa 
sobreviver com apenas 10% da renda nacional. Não precisamos pensar no que seria 
preciso para que todos os brasileiros levassem uma vida digna.
Os conflitos que aparecem nas novelas se dão entre os representantes 
do Bem e os do Mal. Não há conflitos de classe ou de interesses sem que, 
necessariamente, alguém seja mau. Além disso, Bem e Mal são reduzidos 
à dimensão moral individual, jamais sendo levado em conta o social ou o 
político. Problemas sociais e políticos só são tratados em tom de farsa (como 
em “O Bem Amado”, “Roque Santeiro” ou “Que rei sou eu”?). As pessoas 
riem, reconhecem que é assim mesmo, mas acabam achando que o país não 
tem jeito, que nada pode ser feito. E, desse modo, jogando a culpa num 
passado histórico, o discurso ideológico mantém o mesmo estado de coisas, 
as mesmas pessoas ou classe de pessoas no poder, sem que sejam feitas 
mudanças sociais que beneficiem a maioria da população.
 
FONTE: Aranha; Martins (1998, p. 235-236).
Uma outra questão pertinente nesse momento é: qual a relação do conceito 
de ideologia com o de representação social? Em seu sentido positivo, ou seja, a 
“boa ideologia” tem relação direta com o conceito de representação social, ou 
seja, são praticamente sinônimos, embora a teoria das representações sociais faça 
questão de ressaltar que busca compreender como se constrói o pensamento 
social, representações socialmente compartilhadas. 
Em se tratando da ideologia no seu sentido negativo, ou da “má ideologia”, 
para Sawaia (1995) é inegável que a teoria das representações sociais é extremamente 
relevante e pertinente, no entanto, essa não se atém e não explica por que se tornam 
hegemônicos os conhecimentos que favorecem a servidão do ser humano. 
Nesse sentido, o conceito marxista de ideologia desmistifica a ingenuidade 
do processo cognitivo, colocando-o como mediação nas relações de dominação e 
exploração socioeconômica. Essa parece ser a maior diferença em relacão às duas 
teorias.
Para concluir mais essa etapa, é importante destacarmos a contribuição 
do conceito de ideologia ao estudo da consciência pelo viés da ética, do juízo de 
valor e criticidade. Essas preocupações denotam uma preocupacão e a esperança 
de emancipação dos seres humanos e na melhoria das condições de vida da 
maioria da população. O conceito de ideologia, essencialmente crítico, busca 
TÓPICO 4 | IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
173
abrir os olhos dos que, como fala Platão, vivem no mundo das sombras: vivem 
em um mundo enganoso. Trazendo as pessoas para o mundo das ideias, esses 
conseguirão enxergar o mundo o mais próximo possível do que ele realmente 
é, assim estarão essas emancipadas, mais livres e aptas a fazerem suas escolhas.
DICAS
Filme que trata com primor o conceito de ideologia no seu sentido negativo é 
o documentário “Muito além do cidadão Kane”. Produzido pela BBC de Londres, em 1993, e 
proibido de ser vinculado no Brasil, revela a história de uma das principais, se não a principal 
emissora de televisão do Brasil, a Rede Globo, mostrando o quanto que em determinados 
momentos da história ela foi tendenciosa e contribuiu para ocultar informações e direcionar 
os telespectadores a comportamentos de seu interesse e/ou de grupos específicos. Esse 
documentário pode ser encontrado na rede mundial de computadores.
DICAS
m estudo abrangente e bastante completo a respeito do conceito e da teoria da 
ideologia pode ser encontrado no livro “Ideologia e cultura moderna” de John B. Thompson 
(Petrópolis: Vozes, 1995). Já para uma leitura mais simples e introdutória, uma boa leitura é o 
livro “O que é ideologia” de Marilena Chauí (São Paulo: Brasiliense, 1983).
174
Ao nos referirmos aos conceitos de ideologia e alienação é importante 
termos claro que:
• Em se tratando de ideologia é importante a peculiaridade do termo. O mesmo 
apresenta dois sentidos, o que justifica falar-se em uma “boa” e uma “má” 
ideologia.
• No seu sentido positivo, ideologia significa o conjunto de ideias a respeito de algo. 
Em seu sentido negativo, trata-se do conhecimento utilizado interesseiramente 
e com a intenção de falsear a realidade. A maioria dos estudos em relação a 
esse tema se voltam à ideologia em seu sentido negativo.
• A ideologia, em seu sentido negativo, temevidência com Marx, entendida 
como um instrumento de dominação.
• Apesar de utilizado indescriminadamente, o termo alienação refere-se ao 
mistério de ser e não ser ao mesmo tempo, sobretudo quando o trabalhador 
não se enxerga no produto produzido por ele ao vender sua força de trabalho 
aos proprietários dos meios de produção.
RESUMO DO TÓPICO 4
175
AUTOATIVIDADE
1 Você tem ideologia? A respeito dessa pergunta, defina ideologia a partir das 
duas grandes formas de compreendê-la. Feito isso, responda também: Você 
é alienado? Caso sim, acha justo isso?
176
177
TÓPICO 5
COMUNIDADE E SOCIEDADE
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
A afirmação de que o ser humano é um ser social é presente tanto em 
abordagens sociológicas como psicológicas, mais centradas no indivíduo. Esta 
crença parece ser incontestável, embora alguns acreditem que isto se dá por nos 
construirmos inseridos em grupos e, outros, por termos uma natureza social inata 
(carregamos desta forma uma espécie de “gene da sociabilidade”). A primeira 
hipótese para a Psicologia social se demonstra mais coerente. Aristóteles afirma 
que o homem não pode deixar de viver em sociedade, o que provavelmente 
justifica a ideia de que nascemos abertos para nos construirmos mais ou menos 
sociais, mesmo que seja difícil nos isolarmos por completo.
A partir desta constatação, de que um componente quase indiscutível 
na existência humana sejam as relações sociais e o convívio em comunidade/
sociedade, neste momento iremos aprofundar estes dois conceitos, que trazem à 
tona a necessidade das relações sociais e de alguma forma estarmos organizados, 
concepção que de alguma forma esteve presente em todo o caderno. Embora 
muitas vezes tidos como sinônimos, há diferenças importantes entre os conceitos. 
Estas diferenças serão apresentadas a seguir, partindo do princípio de que temos 
a decadência das comunidades e a emergência das sociedades. Vamos lá!
2 O CONCEITO DE COMUNIDADE
O termo “comunidade” é usado cotidianamente, entretanto, na maioria 
das vezes de forma pouco rigorosa. Podendo significar coisas bastante distintas, 
de forma geral está relacionado ao lugar em que grande parte da vida cotidiana 
é vivida. 
Autora que analisa este conceito com afinco é Bader B. Sawaia, trazendo 
alguns elementos bastante significativos, que serão expostos a seguir. 
Para Sawaia (2008), o conceito de comunidade por muito tempo não fez 
parte do arcabouço teórico da Psicologia. Passou a fazer parte apenas nos anos 
70, quando um ramo da Psicologia social se autoqualificou de comunitária. A 
descoberta da comunidade não foi algo exclusivo da Psicologia social. Fez parte 
de um movimento mais amplo que avaliou criticamente o papel social das 
ciências. No caso da Psicologia social, trouxe ganhos enormes, sobretudo no 
178
sentido de propor uma teoria crítica que passa a interpretar o mundo no sentido 
de transformá-lo. Vale lembrarmos que é rotineiro o uso deste conceito de forma 
demagógica, significando compromisso com o povo e/ou união com o mesmo. 
Dada a diversidade de significados e o uso demagógico citado há pouco, é 
importante, primeiramente, se discutir este conceito, suas múltiplas significações 
e o enfoque privilegiado. É na Sociologia, ciência emergente no início do século 
XIX, que este conceito ganha destaque, onde principalmente o foco está em 
diferenciar comunidade de sociedade.
NOTA
Karl Marx difere de forma significativa com os teóricos da sua época que 
traziam as diferenças entre comunidade e sociedade. Segundo ele, a sociedade é conflitiva, 
dado o que ele chama de luta de classes. No modo de produção vigente, o capitalista, o 
individualismo seria exacerbado e se demonstrando inimigo das relações comunitárias.
Na Psicologia, mais especificamente, este conceito aparece de forma 
bastante vaga entre os pioneiros, significando na maioria das vezes o elo entre o 
homem e a sociedade, ou então como sinônimo de sociedade. Wilhelm Wund, em 
1904, no seu estudo sobre psicologia dos povos, apresenta o termo como sinônimo 
de interação coletiva. O fato é que nem mesmo na Psicologia social, que se volta 
à análise da relação homem/sociedade, o conceito de comunidade aparece como 
central. Em lugar dele, o conceito de grupo e interação social aparece de forma 
bem mais significativa.
Segundo Nisbet (apud SAWAIA, 2008, p. 50):
Comunidade abrange todas as formas de relacionamento caracterizado 
por um grau elevado de intimidade pessoal, profundeza emocional, 
engajamento moral [...] e continuado no tempo. O elemento que lhe dá 
vida e movimento é a dialética da individualidade e da coletividade.
Nesta tentativa de conceituação se percebe um aspecto fundamental, que 
é a relação face a face. É este um espaço não antagônico à individualidade, mas 
aquele que permite o amadurecimento e o desenvolvimento do ser humano no 
seu cotidiano.
De acordo com Oliveira (2003), existem algumas características que 
contribuem para a definição de comunidade, dentre elas a nitidez, ou seja, 
sabe-se onde ela começa e onde termina (limite territorial, claro). Cita ainda a 
homogeneidade, tendência para que o curso de uma geração é semelhante ao 
da precedente. Outra característica relevante é a autossuficiência. A comunidade 
consegue atender às necessidades dos seus membros. 
179
Muitas são as definições de comunidade, embora na literatura vigente 
percebe-se duas grandes categorias conceituais. A primeira está relacionada 
a uma noção territorial ou geográfica. Nesse sentido, comunidade pode ser 
entendida como um prédio, a vizinhança, um bairro, uma cidade. Pertencer a 
uma comunidade implica em um senso de pertencimento a uma determinada 
região. A segunda diz respeito à qualidade das relações humanas dentro de 
um determinado espaço. Nesta perspectiva, o lugar ou o espaço não garante 
a existência de uma comunidade e, sim, o processo interativo, o alto grau de 
intimidade pessoal, o compromisso moral e o alto grau de coesão social. Esta 
perspectiva parece ser a mais adequada.
O conceito de comunidade passa a ser introduzido de forma mais clara 
na área clínica, a partir da bandeira de humanização do atendimento ao doente 
mental e através das políticas propagadas por vários organismos internacionais, 
como ONU, BID etc. A intenção primordial era promover ações educativas e 
preventivas. A comunidade passa a ser tida como lugar de gerenciamento de 
conflito e de mudanças de atitude. 
Na Psicologia, o trabalho com comunidades se revela bastante diferente, 
a partir da concepção adotada. O termo mudança social revela a diferença 
fundamental entre as duas vertentes principais da Psicologia social apresentadas 
nos tópicos 3 e 4 da Unidade 1. Na Psicologia comunitária de base norte-americana 
a mudança está atrelada à adequação dos setores atrasados e pobres, visando 
adaptá-los ao modo de produção atual. Já para a Psicologia sócio-histórica, a 
mudança social está embasada no ideal revolucionário, o de construir uma nova 
ordem dando fim à exploração.
Atualmente, tomados pelo processo de globalização, que de forma 
bastante simplificada pode ser conceituado como a eminência de uma “aldeia 
global”, surge inclusive um novo tipo de comunidade, chamada de comunidade 
virtual. A partir do avanço da informática e da internet, as relações passam a se 
dar também no espaço virtual. Grupos dos mais diversos, com interesses comuns, 
passam a trocar experiências e informações no ambiente virtual. A dispersão 
geográfica dos membros é uma característica dessas comunidades, bem como o 
uso de tecnologias de informação e comunicação que minimizam as dificuldades 
espaciais e temporais. 
Está na pauta da discussão hoje a repercussão das chamadas redes sociais. 
Quem já não ouviu falar em Orkut, Facebook? A grande questão que se coloca em 
relação ao uso exacerbado desse novo formato de relacionamentocontemporâneo 
é a tendência descrita por vários estudiosos da área. Ao mesmo tempo em que 
estas tecnologias aproximam pessoas distantes, elas acabam distanciando pessoas 
próximas. Esta acaba sendo a tônica do nosso tempo, onde o anonimato, de vilão, 
passa a ser herói.
180
DICAS
Para saber mais sobre o tema, consulte as seguintes obras abaixo listadas:
FORTIM, I.; FARAH, R. M. (orgs). Relacionamentos na era digital. São Paulo: Giz Editorial, 2007.
RECUERO, R. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2010.
3 COMUNIDADE VERSUS SOCIEDADE: DIFERENÇAS 
FUNDAMENTAIS
Termo muito falado, mas pouco estudado, é o de sociedade, essencial para 
a Sociologia, mas negligenciado pela Psicologia social. 
Segundo Meksenas (1995), dizer o que é exatamente sociedade é algo 
bastante difícil, até porque são muitas as possibilidades de caracterização. 
Segundo ele, em sua definição mais geral, sociedade significa o relacionamento 
dos homens entre si, que, organizado por uma forma distinta de trabalho, dá 
origem a uma cultura. Para ele, existem cinco tipos possíveis de sociedade: tribal, 
escravista, feudal, capitalista e socialista. A organização do trabalho é diferente em 
cada modelo de sociedade e explica se esta é pautada em um sistema igualitário 
ou de dominação.
De forma menos simplista, Dias (2005) conceitua sociedade como um 
grupo de pessoas que ocupam um território comum, compartilham da mesma 
cultura e têm uma identidade compartilhada. As sociedades são unidades não 
somente pelas relações sociais entre as pessoas, mas também entre as instituições 
sociais (família, educação, religião, política, economia). O autor apresenta 
algumas características universais da sociedade elaboradas pelo antropólogo 
Ralph Linton, sendo elas:
• A sociedade, e não o indivíduo, é a unidade que possibilita a sobrevivência dos 
membros que fazem parte dela. Os seres humanos vivem como membros de 
grupos organizados e têm os seus destinos indiscutivelmente ligados ao grupo 
ao qual pertencem;
• Normalmente perdura muito além do tempo de vida dos seus membros;
• É uma unidade funcional e operante, ou seja, funcionam como entidades 
próprias e os interesses dos membros individualmente estão subordinados aos 
do grupo como um todo;
• As atividades necessárias são divididas e distribuídas aos vários membros.
Temos como exemplo a sociedade brasileira, onde as pessoas que a 
formam ocupam um mesmo território, compartilham da mesma cultura e têm a 
sensação de pertencer a ela. 
181
Dias (2005) cita alguns tipos de sociedade onde, para ele, a característica 
fundamental de cada uma está na relação com a tecnologia presente em cada 
momento histórico. Segundo ele, temos, através dos tempos, as “sociedades de 
caçadores-coletores” (utilizavam tecnologia simples para caçar animais e coletar 
vegetação), as “sociedades de horticultura e de pastoreio” (momento em que 
surgem os primeiros seres humanos produtores de alimentos), “sociedades 
agrárias” (baseadas fundamentalmente na agricultura), “sociedades industriais” 
(as tarefas passam a ser realizadas por máquinas) e a chamada por ele “sociedade 
pós-industrial” (surgindo como produto da tecnologia da informação – 
computadores e outros dispositivos eletrônicos).
Em relação à diferença entre comunidade e sociedade, para Oliveira (2003), 
quando falamos em comunidade, estamos falando em um tipo de sociedade. 
Segundo ele, existem dois tipos de sociedade: a comunitária e a societária.
Por sociedade comunitária entende-se aquela pequena, com uma divisão 
simples do trabalho e, consequentemente, com limitada diferenciação de papéis. 
As relações sociais são duradouras e os contatos sociais são pautados em uma 
base emocional. Há pouca necessidade da lei formal. Vários estudos apontam 
que um aspecto bastante positivo encontrado nas favelas brasileiras é exatamente 
a rede de relações próximas que possibilita a ajuda mútua entre os membros. 
Nestas comunidades predominantemente compostas por pessoas de baixa renda 
não são raras dificuldades das mais variadas. Para dar conta destes entraves, 
recurso utilizado com frequência são os laços sociais estreitos, onde o problema 
de um acaba sendo o problema de todos.
Recente artigo intitulado “Pobreza e redes sociais em uma favela 
paulistana”, de autoria de Reinaldo de Almeida e Tiaraju D’Andrea, trouxe 
elementos importantes acerca do funcionamento de uma grande favela da zona 
sul de São Paulo, Paraisópolis. Na referida pesquisa contatou-se que as redes 
sociais permitem que circulem benefícios materiais dos mais diversos, bem como 
e fundamentalmente afetivos (amizades, patrimônio, apoio emocional etc.). Estas 
relações próximas contribuem para fomentar de forma bastante intensa a integração 
socioeconômica dos membros daquela comunidade, atenuando as condições de 
vulnerabilidade. Embora não seja uma regra, este e outros estudos demonstram 
características semelhantes em comunidades de baixa renda de todo o país.
Por outro lado, a chamada sociedade societária é caracterizada pela 
acentuada divisão do trabalho e pela proliferação de papéis sociais. As relações 
sociais tendem a ser transitórias, superficiais e impessoais. Os indivíduos associam-
se uns aos outros em função de propósitos bastante objetivos. Prevalecem os 
acordos racionais de interesses. Este tipo de agrupamento social caracteriza muito 
bem o que predomina hoje. O contato social é cada vez mais evitado e, quando 
ocorre, se deve a dar conta de problemáticas bastante específicas. Assim que 
resolvidas, a tendência é que o contato seja evitado ou, na melhor das hipóteses, 
não almejado. Embora possa parecer uma leitura bastante rigorosa, não há 
como negar que este parece ser o rumo tomado pela sociedade contemporânea, 
sobretudo nas grandes cidades.
182
NOTA
Um exemplo para distinguir comunidade de sociedade é imaginarmos a 
negociação de uma casa. Se negociarmos com um familiar (comunidade), prevalecerão 
relações emotivas e de exclusividade. Negociando com um desconhecido (sociedade), o 
que irá valer é o uso da razão. As relações tendem a ser bastante distintas.
Nota-se que a tendência atual acaba sendo a transformação das sociedades 
comunitárias em sociedades societárias. “O crescimento das cidades, o suposto 
declínio da importância da família, a extensão da burocracia, o enfraquecimento 
das tradições, o papel diminuído da religião na vida cotidiana, tudo isso comprova 
essa transformação” (OLIVEIRA, 2003, p. 51). 
LEITURA COMPLEMENTAR
A fim de melhor visualizar, segue uma distinção clássica feita por 
Ferdinand Tönnies, sociólogo alemão. Ele apresenta dois tipos básicos de 
organização social, a comunidade (Gemeinschaft) e a sociedade (Gesellschaft).
GEMEINSHAFT E GESELLSHAFT
Para o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936), Gemeinshaft 
(comunidade) é definida pelo ato de “viver junto, de modo íntimo, privado e 
exclusivo”, como a família, os grupos de parentescos, a vizinhança, o grupo de 
amigos e a aldeia. Gesellshaft (sociedade ou associação) é definida como “vida 
pública”, como algo em que se ingressa cônscia e deliberadamente.
Nas comunidades os indivíduos estão envolvidos como pessoas completas, 
que podem satisfazer todos os seus objetivos no grupo. Nas sociedades os 
indivíduos também se encontram envolvidos entre si, mas a busca da realização 
de certos fins comuns é específica e parcial.
Uma comunidade é unida por um acordo de sentimentos ou emoções entre 
pessoas, ao passo que a associação é unida por um acordo racional de interesses.
Foi a mudança das normas sociais do século XIX que levou Ferdinand 
Tönnies a fazer essa distinção entre comunidade (Gemeinshaft) e sociedade 
(Gesellshaft), talvez o mais completo conceito da sociologia moderna.
Como afirma Tönnies, a Gemeinshaft, que caracterizava a sociedade 
camponesa europeia pré-moderna típica, consistianuma densa rede de relações 
pessoais baseadas principalmente no parentesco e no contato social direto. As 
183
normas em grande parte não eram escritas e os indivíduos estavam ligados 
uns aos outros numa teia de interdependência fechada, que envolvia todos os 
aspectos da vida: a família, o trabalho, as poucas atividades de lazer, etc. Assim, 
a comunidade é um tipo de agrupamento humano no qual se observa um grau 
elevado de intimidade e coesão entre seus membros e onde predominam os 
contatos sociais primários, com influência fundamental da família.
 A Gesellshaft, por outro lado, é a estrutura de leis e outros 
regulamentos que caracterizam as grandes sociedades urbanas industriais. As 
relações sociais são mais formalizadas e impessoais; os indivíduos não dependem 
uns dos outros para seu sustento e estão muito menos obrigados moralmente entre 
si. Portanto, a sociedade designa agrupamentos humanos que se caracterizam 
pelo predomínio de contatos sociais secundários e impessoais, próprios da 
sociedade industrial, da complexa divisão do trabalho e da burocracia.
FONTE: Oliveira (2003, p. 51-52).
A leitura complementar e a distinção trazida até o momento entre 
comunidade e sociedade nos fazem refletir sobre o modo de organização social 
contemporâneo alicerçado por relações sociais cada vez mais indiretas. Surge o 
termo single como um modo de vida buscado constantemente nos dias atuais. 
Principalmente nas cidades grandes é notória a escolha que muitas pessoas 
estão fazendo ao, por exemplo, morarem sozinhas. Até pouco tempo atrás essa 
condição era interpretada como incompetência afetiva. Hoje passa a ser comum 
a busca pelo anonimato, conseguido por uma mudança drástica no estilo de vida 
presenciado atualmente.
O número de pessoas que moram sozinhas no Brasil aumentou 
consideravelmente, segundo dados levantados pelo Censo 2010 divulgado pelo 
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Atualmente são quase 7 
milhões de pessoas que moram sozinhas, o que equivale a cerca de 12,2% dos 
domicílios particulares permanentes no país. Em 2000 o número de domicílios 
com apenas um morador era de aproximadamente 4 milhões, o que representava 
um pouco mais de 9% do total. 
Uma questão fundamental fica diante desse diagnóstico. Por que tantas 
pessoas vêm optando por uma vida solitária? Esta questão pode ser respondida 
por vieses os mais diversos. 
A primeira constatação e um tanto óbvia é que o número de solteiros 
está cada vez maior, sejam eles aqueles que optaram por não se casar ou então 
casar mais tarde, ou aqueles que se divorciaram. É grande também o número de 
viúvos que moram sozinhos. Mais importante do que esta análise conjuntural é 
a emergência de um novo padrão, bastante egoísta e individualista. Os singles 
consideram ser um prejuízo estar com outra pessoa. Os próprios confessam ser 
pouco tolerantes em relação aos outros. Este novo perfil é encontrado muito mais 
em grandes metrópoles do que no campo. 
184
DICAS
Documentário que faz uma análise crítica das novas tecnologias é “Amigos 
virtuais”, exibido pela TV Escola. Neste material é enfatizado o papel dos novos meios de 
comunicação, que possibilitou que muitos relacionamentos sejam mantidos à distância, 
tanto por necessidade quanto por opção. Ao mesmo tempo que nos torna mais “eficientes”, 
contribuiu para um maior isolamento dos indivíduos.
Em termos de prognóstico, restam algumas dúvidas. Será necessário, para 
darmos conta dos novos problemas sociais, retomarmos valores tradicionais e 
modos mais antigos de organização? Serão os singles aqueles que se adequaram 
mais rapidamente à sociedade complexa na qual vivemos, onde privilegia-se a 
competição, a liberdade e a individualidade? 
Segundo Oliveira (2003, p. 55):
A economia capitalista, dinâmica e tecnologicamente inovadora, 
colabora para reforçar a cultura do individualismo e isolamento; 
favorece a formação de uma sociedade com pessoas egocentradas, 
com frágil conexão entre si e que buscam satisfazer apenas as próprias 
vontades e necessidades. A satisfação individualista fica acima de 
qualquer obrigação comunitária.
A grande questão diante desta citação é: será essa uma tendência “natural” 
ou cabe a nós tomarmos a “rédea” da história e revermos nossos erros com o 
intuito de retomarmos os laços sociais que outrora eram mais indispensáveis e 
desejáveis? Se é a Psicologia social a área da Psicologia que tem como objeto de 
estudo primordialmente as relações sociais, é ela uma defensora incondicional do 
ser humano “social” e “comunitário”. Se nos constituímos com o outro e se, da 
mesma forma, contribuímos na constituição de outros “outros”, esta premissa nos 
remete à contramão da tendência atual. Se temos a emergência dos singles, nada 
nos impede de, nas nossas relações cotidianas e no espaço em que nos fazemos 
presentes, reforçarmos a prevalência de um sujeito coletivo e altruísta.
185
A partir do que foi visto neste tópico é importante lembrar que:
• Embora tidos normalmente como sinônimos, o termo comunidade traz a ideia 
de relacionamento próximo, interdependência, enquanto o de sociedade a 
existência de leis formais e de união a partir de interesses bastante objetivos.
• Atualmente temos a prevalência das chamadas “sociedades societárias”, já que 
as “sociedades comunitárias” estão gradativamente desaparecendo. 
• A tendência atual é a prevalência do individualismo e do anonimato, 
características da sociedade contemporânea pautada em relações sociais 
“frias”.
RESUMO DO TÓPICO 5
186
AUTOATIVIDADE
1 Feita a leitura deste tópico, distinga os conceitos de comunidade e sociedade 
expondo qual a tendência atual, a partir dos elementos apresentados no tópico.
187
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