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ORIENTAÇÕES PARA O ALUNO Debates são fundamentais para as interações em sociedade, uma vez que, deles, surgem, além de boas reflexões e novos conhe- cimentos, potenciais transformações socioculturais. Eles ocorrem em circunstâncias variadas, podendo ser mais ou menos formais, envolvendo duas ou mais pessoas, presencial ou virtualmente. Hoje em dia, é comum que assuntos polêmicos do momento tornem-se verdadeiros debates em aplicativos de troca de mensagens, por exemplo. Quando exigem mais formalidade, é importante conce- der um pouco mais de atenção à estrutura do gênero, de modo que todos os participantes acompanhem a discussão do início ao fim. Confira os textos a seguir e utilize-os como incentivo para de- senvolver a proposta de redação. TEXTO 1 Por que não falar sobre suicídio? Um fantasma ronda a imprensa desde os seus primórdios: o temor de reportar casos de suicídio. As razões desse receio são perfeitamente compreensíveis. O tema é envolto por um véu de sofrimento e perplexidade. Para familiares de suicidas, o sentimento de culpa é inescapável. Como em todo luto, há negação, raiva e tristeza. E há mais: no suicídio, é preciso tentar entender e aceitar as razões de quem decidiu abreviar a vida, contrariando o instinto de sobrevivência comum a todas as espécies. Falar sobre quem morreu é sempre uma tarefa delicada para a mídia, mas, mesmo nas maiores tragédias humanas, o sentimento que prevalece é o da consternação com a morte. Morrer é uma certeza sobre a qual as dúvidas prevalecem: exceto alguns pacientes desenganados, quase ninguém sabe como, quando, onde ou de que irá morrer. Matar a si próprio é impor uma certeza sobre todas as dúvidas, exceto uma: como seria o restante da vida se a escolha de morrer não triunfasse. O suicídio, em muitos casos, pode ser um ato extremo de comunicação: uma busca sem volta de expor sentimentos antes represados. Segundo o alerta Prevenir suicídio – um imperativo global (2014), da Organização Mundial de Saúde, uma prevenção eficaz depende de inúmeros fatores – entre eles, informação de qua- lidade. Negligenciar as ocorrências pode aumentar o risco de novas tentativas. A mídia tem o dever de dar à sociedade a melhor informação para evitar que as pessoas se desencantem com a vida. E talvez estejamos falhando em ajudar quem sofre com a perda de um ente querido a lidar com essa angústia. Os Sofrimentos do Jovem Werther, obra do poeta alemão Goethe lançada em 1774, narra como uma desilusão amorosa levou o per- sonagem do título ao suicídio. A publicação do romance, embora PRECISAMOS FALAR SOBRE SUICÍDIO? ficcional, provocou uma onda de suicídios pelo mesmo motivo, o que ficou conhecido como “Efeito Werther” – uma das razões pelas quais criou-se o tabu de que a divulgação de um suicídio pode estimular novos casos. Tal crença poderia ser válida no século 18 de Goethe, mas não sobrevive aos tempos atuais de comunicação instantânea, em que tais atos são cometidos ao vivo diante de câmeras de tevê ou transmitidos em tempo real por redes sociais. Negar a existência dessas ocorrências é um equívoco tão grande quanto acreditar que torná-las públicas é decisivo para que outros escolham o mesmo des- tino. Um dos princípios do jornalismo é buscar a verdade. MASSON, Celso. “Por que não falar sobre suicídio?”. IstoÉ, 27 abr. 2018. Disponível em: <https://istoe.com.br/por-que-nao-falar-sobre-suicidio/>. Acesso em: 17 dez. 2020. TEXTO 2 Efeito Werther: como um suicídio pode afetar outras pessoas Estudos mostram que, dependendo de como um suicídio for noticiado, pode fazer com que outras pessoas o imitem Um homem se apaixona por uma mulher que irá se casar com outra pessoa e comete suicídio. Esse é o enredo de Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), escrito por Johann Wolfgang Goethe. A obra poderia ser mais uma trágica história de amor da literatura, mas levou a um grande problema: o suicídio de muitas pessoas na Europa, que se mataram usando uma pistola e roupas parecidas com as do protagonista. De tão significativo, o caso foi usado para nomear o Efeito Werther, que é quando ocorre um aumento do número de suicídios depois de um caso amplamente divulgado. O termo foi proposto pelo pesquisador americano David Phillips em 1974. Segundo Karen Scavacini, psicóloga e diretora do Instituto Vita Alere, de São Paulo, o suicídio por imitação só acontece quando a pessoa já está em um estado de vulnerabilidade. De acordo com a especialista, a maior probabilidade de ocorrer o suicídio por imitação é quando há uma identificação com um personagem, uma pessoa pública ou até mesmo um colega de escola. “Também depende de como é retratado na mídia, se for muito romantizado, trouxer informa- ções simplistas ou dizer que a pessoa encontrou paz”, exemplifica. Recentemente tivemos um exemplo do Efeito Werther com a série 13 Reasons Why. Estudos mostraram um aumento de suicí- dio entre adolescentes nos meses após a estreia do programa, que conta a história de Hannah Baker, uma jovem estudante que tira a própria vida. “O Efeito Werther realmente existe e essa série da Netflix cometeu muitos erros que os principais manuais orientam a não fazer”, avalia o psiquiatra Neury Botega, autor de diversos livros sobre suicídio. BALCÃO DE REDAÇÃO www.poliedroeducacao.com.br PVPRÉ-VESTIBULAR 1 TEMA 1 – 2021 | Período de 25 a 31 de janeiro Tema já publicado na semana de 10 a 16 de fevereiro de 2020. BALCÃO DE REDAÇÃO – TEMA 1 – 2021 2www.poliedroeducacao.com.br Entre os problemas citados pelo psiquiatra estão: cada episódio culpar uma pessoa ou um acontecimento, a glorificação da Hannah Baker (chegando ao ponto de mostrar o armário dela transformado em altar) e ainda mostrar detalhes sobre o método que ela usou em uma longa cena. “Tudo isso é contrário às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de outras instituições que batalham na prevenção [do suicídio]”, destaca Botega. A cena do suicídio da personagem – que recebe críticas desde 2017 – foi removida em julho deste ano da série [2019], que está na terceira temporada. Publicado na revista JAMA Psiquiatry, o estudo mostra um au- mento de 13% no número de suicídios de norte-americanos de 10 a 19 anos entre abril e junho de 2017 – os três meses seguintes à estreia do seriado. Em relação ao gênero, o crescimento foi de 12% para os meninos e 21% entre meninas. Ainda não há uma pesquisa dizendo qual foi o efeito no Brasil. A situação também acontece quando famosos cometem suicídio e isso se torna público. Em uma pesquisa divulgada na revista científica PLOS One, notou-se que os casos nos Estados Unidos aumentaram logo após o ator Robin Williams se matar, em 2014. O estudo diz que, nos cinco meses seguintes à morte do ator, houve 10% mais casos que o esperado para o período: 18 690 pessoas tiraram a própria vida entre agosto e dezembro de 2014; sendo que 16 849 casos eram esperados com base na série histórica. No caso de suicídio de pessoas próximas, como amigos e fa- miliares, Botega afirma que é preciso ainda mais cuidado. “Pessoas que estão vivendo o luto de alguém por suicídio merecem uma atenção especial porque elas sofrem de sentimentos muitas vezes contraditórios. É uma sensação de culpa muito grande, muitas ve- zes uma vergonha ou receio de falar sobre o assunto com outras pessoas”, explica o psiquiatra. [...] BRITO, Carina. “Efeito Werther: como um suicídio pode afetar outras pessoas”. Revista Galileu, 18 set. 2019. Disponível em: <https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2019/09/efeito- werther-como-um-suicidio-pode-afetar-outras-pessoas.html>. Acesso em: 17 dez. 2020. TEXTO 3 (T ai ná C ec ca to /S up er in te re ss an te ) BALCÃO DE REDAÇÃO – TEMA 1 – 2021 3www.poliedroeducacao.com.br SZLARZ, Eduardo; HUECK, Karin; CARBONARI, Pamela. “Sim, o melhor é falar sobre suicídio”. Superinteressante, 6 set. 2018. Disponível em: <https://super.abril.com.br/sociedade/sim-o-melhor-e-falar-sobre-suicidio/>.[Fragmentos]. Acesso em: 17 dez. 2020. (T ai ná C ec ca to /S up er in te re ss an te ) BALCÃO DE REDAÇÃO – TEMA 1 – 2021 4www.poliedroeducacao.com.br PROPOSTA DE REDAÇÃO Após a leitura atenta da coletânea, imagine que você é um estudante de Ensino Médio e, depois de algumas polêmicas em sua turma, você foi encarregado de organizar e mediar um deba- te sobre o tema Precisamos falar sobre suicídio?. Para tanto, sua tarefa será a de introduzi-lo, justificando a razão pela qual a discussão será feita, além de apresentar alguns argumentos prós e contras extraídos dos textos-fonte para que os demais participantes possam embasar seus posicionamentos. Por fim, você terá que indicar as regras que precisam ser respeitadas na ocasião. Embora se trate de um gênero majoritariamente oral, para evi- tar confundir-se e garantir que todos acompanhem integralmente o conteúdo, você deverá apresentar essa introdução por escrito. Lembre-se de adequar a linguagem e a interlocução à situação de comunicação proposta e de respeitar o mínimo de 15 e o máximo de 25 linhas. Boa produção! Professora Andressa Tiossi