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Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Literatura Brasileira III - Prof.ª Dra. Priscila Loyde Gomes Figueiredo
Fernando Iago de Souza Rodrigues Pereira – 11881262
Turma: quarta-feira 10h / sexta-feira 8h
O romance malandro e a poesia indianista no romantismo brasileiro
Este trabalho tem como objetivo resumir e articular os tópicos referentes a “Memórias de um Sargento de Milícias” de Manuel Antônio de Almeida, e a “Primeiros Cantos” de Gonçalves Dias, conforme estudados em sala de aula. O trabalho tem ainda como proposta, por meio da articulação, traçar um panorama referente aspectos do romantismo brasileiro presentes nas obras buscando aproximar ambos os autores e evidenciar as diferentes temáticas exploradas no período em questão.
Após as aulas de introdução ao tema, com a leitura dos textos críticos e das obras de Rousseau e Goethe, a primeira obra brasileira estudada no curso foi o romance de Manuel Antônio de Almeida. Publicado primeiramente como folhetim entre 1852 e 1853, e apenas tendo sua publicação em romance em 1984, “Memórias de um Sargento de Milícias” introduz na literatura brasileira um tipo de narrativa que se propôs a romper e a subverter a tradição já consolidada com sua temática e abordagem, até então pouco explorada. Segundo a leitura de Rosenfeld e Guinsburg, conforme visto em aula, “O Romantismo é, antes de tudo, um movimento de oposição violenta ao Classicismo”[footnoteRef:1], isto é, a escola literária em pauta passa a rejeitar a visão de mundo racionalista e a estética neoclássica ao dar o enfoque ao indivíduo e sua inserção na sociedade, enquanto, em contrapartida, o autor clássico mantem-se voltado para a elite e explora temáticas mais subjetivas e atreladas a esse público. Sob essa abordagem, uma das subversões apontadas por Rosenfeld e Guinsburg, que são próprias do romantismo, diz respeito ao “aparecimento do autor”, ou seja, a partir desse momento, o poeta ou o romancista não estaria mais oculto por trás de sua obra, que possuía uma visibilidade maior que ele, mas ambos teriam o mesmo grau de evidência e reconhecimento devido a tendência do Romantismo de deslocar essa ênfase valorativa da obra para o autor. [1: “Romantismo e classicismo”.] 
 Essa análise, portanto, torna-se mais clara ao transportá-la ao romance de Antônio de Almeida. Apresentando uma narrativa que mescla o fabuloso e o documental, o livro apresenta sua construção de trama ao se basear na vida cotidiana realista para desenvolver os personagens e a história enquanto insere elementos cômicos e satíricos que expõem ao leitor as críticas e reflexões sociais pretendidas. Nesse sentido, referindo-se ao segmento narratológico, a linguagem aqui empregada apresenta uma narração em terceira pessoa que, além de reforçar a ideia de descrição documental, constrói o texto como uma espécie de fala informal. Esse recurso, ademais, se propõem não apenas em aproximar o leitor do romance, mas também evidencia a quebra de padrões apontada por Rosenfeld e Guinsburg, uma vez que a estilização linguística deixa de dialogar com um público erudito restrito e se propõem a popularizar-se entre o público geral. 
Indo mais além, essa popularização da literatura passa a ganhar mais força a partir do período romântico devido ao novo modo em que a obra chega ao leitor e os impactos que o causa. Conforme dito anteriormente, romances como o próprio “Memórias...”, ou “Senhora” de José de Alencar, ou até mesmo, posteriormente, os romances realistas de Machado de Assis, são em um primeiro momento publicados semanalmente em folhetins, em jornais ou revistas, antes de serem editados em um único volume. Assim, esse formato de publicação cria no público leitor um efeito semelhante ao espectador contemporâneo que aguarda diariamente um capitulo inédito de uma telenovela e que, durante a expectativa do desenrolar da narrativa, inevitavelmente traz o assunto para seu meio social nos momentos de interação. Essa tradição, portanto, segue sendo uma herança cultural provinda do período romântico, no qual o leitor, do mesmo modo, teria contato com a continuidade da narrativa apenas após a publicação de um novo capitulo logo após a sua escrita[footnoteRef:2]. Cabe aqui ressaltar, acrescentando a isso, que a maneira em que a narrativa repercutia, sendo positiva ou negativa, poderia influenciar seu encaminhamento, quer dizer, o autor, ao obter uma devolutiva de como sua história está sendo recebida pelo público, poderia modificá-la brevemente para adequar-se a essa demanda, mesmo não sendo essa uma prática comum[footnoteRef:3]. [2: Comentários feitos em aula.] [3: CASTRO, Ruy. “Maneco: um autor que escreveu sua obra-prima aos vinte anos — e levou os dez restantes a caminho do oblívio”.] 
Ora, deixando um pouco de lado os elementos formais e focalizando agora na temática e nos aspectos estilísticos do romance, é necessário trazer para a análise a leitura de Antônio Candido sobre a obra. Em “Dialética da Malandragem[footnoteRef:4]”, Cândido define o livro como um “romance pícaro”, ou um “romance malandro”, mesmo essa denominação não se dando unicamente ao fato da presença de um “personagem pícaro”. Herança da literatura espanhola, das obras de Josué Montello, o pícaro surge, inicialmente, representando a figura de um anti-herói, isto é, seu caráter difere-se dos protagonistas tradicionais por representar um tipo social de uma figura distanciada das classes mais elevadas. Cabe aqui salientar também que o caráter picaresco do personagem não é uma característica unicamente intrínseca, mas pode ser uma consequência de sua vivência pessoal. Cândido ainda esquematiza a oposição entre o pícaro subjetival e o pícaro adjetival, ou seja, a diferença seria entre o ser por nascença e ter essa nominação atribuída a si devido suas ações. “Memórias de um Sargento de Milícias”, nesse sentido, apresenta um de seus protagonistas, Leonardo, filho de Pataca, como uma espécie de malandro subjetival, isto é, nas palavras de Cândido, “Leonardo, bem abrigado pelo Padrinho, nasce malandro feito, como se se tratasse de uma qualidade essencial, não um atributo adquirido por força das circunstâncias[footnoteRef:5]”. Esse contraste a respeito do caráter malandro, cria, no contexto da publicação do romance, um aspecto interessante que se relaciona com a formação da estética romântica brasileira. Ainda que Leonardo cumpra a função de malandro, é notável, entretanto, que Antônio de Almeida opta por não replicar em sua obra o arquétipo picaresco tradicional, provindo da tradição espanhola. “Na origem, o pícaro é ingênuo; a brutalidade da vida é que aos poucos o vai tornando esperto e sem escrúpulos[...] (Cândido). Isso nos sugere que há aqui uma distância entre o pícaro espanhol e um pícaro essencialmente brasileiro, fazendo com que a retratação desse caráter no romance veicule uma subversão do próprio caráter picaresco. Ora, essa subversão, no contexto exposto, é um elemento empregado pelo autor que contribuí para a construção de uma estética e essência propriamente brasileira, sendo essa uma das características principais do período[footnoteRef:6]. Leonardo, apesar de desempenhar a função de um verdadeiro pícaro, representa, simultaneamente, um pícaro brasileiro. O protagonista vive boa parte do romance em uma tensão entre a malandragem e a ascensão social, tendo partido da origem humilde e irregular, “filho de uma pisadela e um beliscão”, e sendo um tipo social representante da estética que a escola romântica visava construir. [4: Revista do Instituto de estudos brasileiros, nº8, São Paulo, USP, 1970.] [5: “Dialética da malandragem”.] [6: BOSI, Alfredo. “História concisa da literatura brasileira.] 
Essas ideias, no entanto, não são as únicas que contribuem para a construção de uma identidade nacional através da literatura, ainda que outros autores representem isso de forma mais destinta. Conforme visto em sala de aula, outro autor que na sequência foi estudado, foi Gonçalves Dias, e, em relação à sua poética, o curso teve comofoco o livro “Primeiros Cantos”, publicado em 1847. Em uma primeira leitura, o que nos é mais aparente ao entrar contato com o texto, é sua forma e estrutura mais semelhantes aos modelos tradicionais. Com um esquema de metrificação e de rimas regular, os poemas aqui, segundo a classificação de Wolfgang Kayser, configuram-se propriamente como cantos, sendo divisões categóricas do gênero lírico[footnoteRef:7]. Essa classificação leva em consideração elementos como a expressão monologada de um “eu”, a expressão da alma do poeta e o relato da situação do espaço ou tempo que deu origem ao poema[footnoteRef:8]. Logo no primeiro poema, “Canção do exílio”, já é possível notar esses elementos, ainda mais levando em conta o próprio título, que já nos indica qual o tom aqui adotado. O poema, através da meditação do eu-lírico, fala com saudosismo de sua terra natal, referindo-se, dentro do contexto, ao Brasil. Esse sentimento de saudade aparece aqui como uma outra marca fundamental do período romântico. Neste sentido, o eu-lírico entra em um momento reflexivo para extravasar sua melancolia decorrente da falta que sente da terra natal. No entanto, a maneira idealizada em que a terra é descrita no poema não apenas é utilizada para ilustrar seu sentimento de afeto e nostalgia, mas também para moldar a imagem de um Brasil ideal que se contrapõem ao lugar estrangeiro em que o poeta se encontra. [7: Comentários feitos em aula.] [8: KAYSER, Wolfgang. Problemas de apresentação do gênero lírico (Técnica da Lírica).] 
Com base nessas ideias, mas indo um pouco mais além, em “História concisa da literatura brasileira”, Alfredo Bosi aponta na poesia de Gonçalves Dias seu caráter indianista. Em poemas como “O canto do piaga”, “O canto do índio” e “Deprecação”, também lidos em sala de aula, é notável a noção trazida por Bosi de “o bom selvagem”, como uma exaltação do primitivismo em contraste com a tirania europeia. Essa visão idealizada do indígena é abordada aqui como um dos traços da essência brasileira buscada; noção essa vastamente explorada pelos românticos. Cabe lembrar, inclusive, que boa parte dos autores do período tiveram sua instrução acadêmica em faculdades direcionadas a alta classe social, tanto no Brasil como em Portugal e na Europa[footnoteRef:9]. Isso explica, portanto, a recorrência dos ideais positivistas presentes nas obras, tendo em vista que uma das principais características dessa ideologia é justamente a construção de uma identidade nacional a partir dos elementos e tradições fundamentais de uma nação e de sua história e memória social. [9: BOSI, Alfredo. “História concisa da literatura brasileira.] 
 Este caráter brasileiro, no entanto, não se limita apenas a questão indianista, pois, segundo a leitura de Cilaine Alves Cunha, o que está posto aqui é a união de três fatores: “a tristeza vivenciada pelos africanos diante da escravidão, da saudade da terra natal experimentada pelo português e da melancolia do aborígene, arrancado de seu habitat natural.[footnoteRef:10]”. Apesar da poética de Gonçalves Dias explorar bem todos esses elementos, por ora daremos mais atenção a um dos poemas que foi analisado em aula, “O canto do guerreiro”, buscando evidenciar alguns desses aspectos. Seguindo o padrão do livro, o poema é constituído por estrofes e versos regulares que não apresentam variação em sua métrica. O ritmo composto com base da repetição das silabas métricas, se lido em voz alta, assemelha-se a um grito de guerra evocando a imagem de uma marcha, o que por si só já alude ao título e à temática abordada. O poema, em cima dessa ideia, experimenta um recurso pouco convencional: a transferência da voz poética para o índio, o que indica a intenção do autor de deixá-lo narrar seu próprio estado de espírito e não mais ser apenas uma entidade a ser descrita por uma voz externa. A exploração desse aspecto tem como efeito sua elevação à condição de herói, pois o índio apresenta aqui o caráter de um indivíduo que luta bravamente pela liberdade que preza e de um guerreiro que encarna o modelo ideal de brasileiro, possui força e coragem bélica, espirito de liderança, sentimento de união na coletividade e preservação da memória dos heróis da nação[footnoteRef:11]. É seguro afirmar, portanto, que este caráter exposto, não apenas neste poema, mas no livro como um todo, tem o objetivo de criar um projeto de Brasil ideal. Essa vertente da literatura romântica busca remontar os mitos e tradições fundadores com o intuito de projetar uma nação grandiosa e idealizada, ou em outras palavras, a ideologia aqui em questão parte da tradição de voltar e exaltar o passado para construir um futuro. [10: “Introdução” in “Cantos” Martins Fontes] [11: CUNHA, Cilaine Alves. “Introdução” in “Cantos”] 
Por fim, para concluirmos, cabe traçar agora uma breve síntese do que foi explorado a respeito dos autores expostos e como ambos se relacionam. As duas obras possuem uma forte carga nacionalista que se propõe a exaltar a identidade brasileira e consolidá-la em sua inserção no mundo moderno. No entanto, por um lado, o romance de Manual Antônio de Almeida apresenta um enfoque mais social que busca retratar o caráter individual na estética brasileira. É necessário, dentro dessa proposta, buscar referências nos padrões de construção de personagem de outras literaturas, mas ao mesmo tempo subvertê-las para a formação de um caráter próprio e que simbolize precisamente uma nação específica. Já, por outro lado, a poesia de Gonçalves Dias se propõe também em consolidar uma estética, mas se distância por, primeiramente, apelar para um sentimentalismo. A noção de melancolia e saudosismo que é explorada ganha um peso a mais por justamente estar inserida neste contexto, tendo em vista a recorrência da temática “saudade” na literatura de língua portuguesa remontando à tradição cultural de valorizar o termo como uma exclusividade da língua. Sua poesia, ainda, espelha o patriotismo influenciado pela corrente positivista ao buscar no passado histórico os elementos tradicionais e mitológicos que satisfaçam a estética nacional que se tem como objetivo. O romantismo brasileiro, portanto, segue sendo um período vasto que se subdivide em momentos e fases distintas, cada uma possuindo suas próprias particularidades referentes ao autor ou ao contexto. No entanto, apesar dessa diversidade temática e estética, existem esses paralelos que permitem a aproximação de obras atreladas a seus cenários específicos, e que, assim, evidenciam quais eram as tendências vigentes da época e as influências em comum em obras que, aparentemente, não dialogam entre si.
Referências bibliográficas
ALMEIDA, Manuel Antônio de. “Memórias de um sargento de milícias”. Penguin & Cia das letras. São Paulo, 2017
BOSI, Alfredo. “Romantismo” in “História concisa da literatura brasileira”. Cultrix. São Paulo, 2021.
CANDIDO, Antônio. “Dialética da malandragem”. revistas.usp.br,1970.
CASTRO, Ruy. “Maneco: um autor que escreveu sua obra-prima aos vinte anos — e levou os dez restantes a caminho do oblívio” in “Memórias de um sargento de milícias”. Penguin & Cia das letras. São Paulo, 2017
CUNHA, Cilaine Alves. “Introdução” in “Cantos” Martins Fontes. São Paulo, 2001.
DIAS, Gonçalves. “Cantos”. Martins Fontes. São Paulo, 2001. 
GUINSBURG, Jacob; ROSENFELD, Anatol. “Romantismo e classicismo”.
KAYSER, Wolfgang. “Problemas de apresentação do gênero lírico (Técnica da Lírica)” in “Análise e interpretação da obra literária (Introdução à ciência da literatura) Vol. 1”. Coimbra, 1963.