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VERSÃO ATUALIZADA 2020-2021 - v.3.01 (C) TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. USO EXCLUSIVO DOS ALUNOS DO CURSO. Introdução Esta é a apostila base referente ao módulo IV da parte teórica do Curso. Nesse módulo, vamos aprofundar alguns conceitos centrais que estruturam a clínica psicanalítica, isto é, começaremos a abordar a metapsicologia freudiana (ou seja, a psicanálise falando de si mesma, analisando-se enquanto método) e da relação entre analista e analisando. Para fins de realização de prova, a leitura da apostila de cada módulo é suficiente. Na fase final do Curso (Supervisão), isto é, após você concluir os 12 módulos teóricos, você terá encontros ao vivo por vídeo-conferência (transmissões ao vivo por vídeo), em que serão debatidos estudos de casos, a dinâmica da clínica psicanalítica e suas técnicas, bem como serão revisados alguns conceitos teóricos essenciais à melhor interpretação dos casos. Dedique-se ao máximo às leituras e demais materiais. Embora a formação on-line possibilite uma autonomia de tempo e andamento para a compreensão dos conteúdos, a qualidade da absorção e entendimento das temáticas, fundamentais à formação e prática profissional, dependem muito mais do comprometimento e seriedade com a qual você irá se dedicar. Aproveite bem os materiais e bons estudos! CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 1 http://www.psicanaliseclinica.com/ Módulo IV - O Método Psicanalítico Índice 1. A técnica da psicanálise para Freud 5 1.1. Freud e a Técnica da Psicanálise 5 1.2. A entrevista na psicanálise 7 2. O início da análise na psicanálise 11 2.1. Atos falhos para Freud 11 2.1.1. DEFINIÇÃO DE ATO FALHO 12 2.1.2. TIPOS DE ATOS FALHOS 14 2.1.2.1. ATOS FALHOS NA LINGUAGEM 14 2.1.2.2. ATOS FALHOS DE ESQUECIMENTO 16 2.1.2.3. ATOS FALHOS NO COMPORTAMENTO 17 3. Procedimentos de Análise 19 3.1. O Método da Associação Livre 20 4. TOPOGRAFIA DO APARELHO PSÍQUICO 26 4.1. Conceituação da Teoria Topográfica 27 4.1.1. Como representar a Teoria Topográfica? 29 4.2.1. O Consciente 29 4.2.2. O Pré-Consciente 36 4.2.3. O Inconsciente 39 4.3. Processo primário e processo secundário 45 4.4. Processos de funcionamento do Inconsciente 51 4.5. Topografia de Personalidade 56 5. Conceituação da Teoria Estrutural 58 5.1. Em que consiste a Teoria Estrutural? 58 CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 2 http://www.psicanaliseclinica.com/ 5.2.1. O Id 60 5.2.2. O Ego 64 5.2.3. O Superego 67 5.4. Uma representação visual para as duas tópicas 69 5.5.1. O Funcionamento do ID 71 5.5.2. O Funcionamento do Ego 75 5.5.3. O Funcionamento do Superego 80 5.5.4. A personalidade e sua dinâmica na Teoria Estrutural 83 6. Revisão 85 CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 3 http://www.psicanaliseclinica.com/ IMPORTANTE Estamos constantemente revisando e melhorando nosso material. Você está recebendo esta que é a nova versão da apostila do Módulo 4. Nossos materiais são revisados e melhorados com certa frequência. Recomendamos que, após concluir o Curso, você revise os módulos já estudados: servirá para você aprofundar seu aprendizado e para verificar novas versões de nossos materiais. Este material pertence ao Curso de Formação em Psicanálise Clínica (www.psicanaliseclinica.com). Sua divulgação paga ou gratuita não é permitida sem prévia autorização do nosso Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica (CNPJ 28.447.037/0001-81). Informe-nos qualquer uso não autorizado, pelo e-mail contato@psicanaliseclinica.com. Este material é parte das aulas do Curso de Formação em Psicanálise. Proibida a distribuição onerosa ou gratuita por qualquer meio, para não alunos do Curso. Os créditos às obras usadas como referências ou citações constam nas Referências Bibliográficas. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 4 http://www.psicanaliseclinica.com/ mailto:contato@psicanaliseclinica.com https://drive.google.com/file/d/0BzB3Lb9sbna2SzVCYmYtbmh1N0k/view?usp=sharing http://www.psicanaliseclinica.com/ 1. A técnica da psicanálise para Freud Embora haja uma modificação dos conceitos teóricos de Freud ao longo de sua obra, dois pontos são mantidos no que concerne à sua importância: ● o papel central da sexualidade, que se origina desde a vida infantil; e ● o inconsciente. No que diz respeito à técnica da Psicanálise, após passar a adotar o método da associação livre, Freud não o abandona. Este método é, também, uma constante na obra de autores pós-freudianos. Ao associar livremente suas ideias, o paciente no decorrer do tratamento vai superando as suas resistências e deste modo os conteúdos do inconsciente são trazidos para a consciência. 1.1. Freud e a Técnica da Psicanálise O paciente neurótico é aquele no qual o conflito psíquico entre consciente e inconsciente é intenso. O recalque incide sobre o neurótico e sua satisfação é realizada nas “formações de compromisso”, principalmente por meio dos sintomas. Segundo Freud, a mola mestra da Psicanálise é a transferência, que é ambígua, ou seja, positiva e negativa: amor transferencial e hostilidade. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 5 http://www.psicanaliseclinica.com/ A transferência é, então, a “permissão” que o analisando concede para que o analista esteja imerso na rede de significados do analisando, permitindo ao analista indagar e propor interpretações. É através da transferência, da inserção do psicanalista na cadeia de representações do paciente que o psicanalista pode, por meio da interpretação e construção, dar prosseguimento à análise. Como a doença inicial do paciente não é estática, com a transferência ela se transforma em neurose de transferência. Segundo Freud, “eliminar essa neurose equivale a eliminar a doença inicial”. A construção designa a atividade do analista de completar aquilo que foi esquecido a partir dos traços que foram deixados pelo paciente. A interpretação indica o desejo. A psicanálise se contrapõe à sugestão hipnótica na medida em que esta tenta solucionar os sintomas, e por outro lado o seu próprio emprego acarreta no encobrimento do recalque. A psicanálise é uma terapia causal, isto é, busca identificar evidenciar as relações entre causa e consequência, sendo: ● a causa: aquilo que está recalcado; ● a consequência: os sintomas ou os incômodos que o paciente relata. A Psicanálise se propõe identificar e remover suas causas; embora a Psicanálise não incida só sobre as raízes dos fenômenos, mas possa também refletir sobre as consequências (a forma de ver os sintomas, por exemplo). Deste modo, a Psicanálise com seu arcabouço teórico se insere no campo da ética, e, como tal, se revela a ética do impossível, já que não impõe uma determinada moral aos seus pacientes, mas deixa a cargo dos mesmos tomar a decisão por si mesmos. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE- www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 6 http://www.psicanaliseclinica.com/ INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) Em algumas de nossas apostilas, indicaremos artigos relacionados aos assuntos do módulo. A leitura desses artigos é opcional para fins de prova, mas recomendamos que você busque sempre essas (e outras) fontes para se aprofundar nos temas abordados. ● Artigo: O que é o Método Psicanalítico? ● Artigo: 4 Etapas da Terapia Psicanalítica 1.2. A entrevista na psicanálise Também a Psicanálise se utiliza das entrevistas em seu método clínico, porém o faz com algumas peculiaridades em relação às teorias psicológicas. Vejamos alguns pontos centrais. Freud, em seus textos técnicos, menciona o hábito de praticar o que chamava de tratamento de ensaio. Este ocorria antes da análise propriamente dita, e nesta etapa Freud decidia se aceitaria ou não o paciente. Posteriormente, Lacan irá falar em entrevistas preliminares, que seriam correlatas ao tratamento de ensaio de Freud. Esta fase seria anterior ao paciente deitar-se no divã, ou seja, é a fase de estabelecimento do contrato psicanalítico. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 7 https://www.psicanaliseclinica.com/o-que-e-metodo-psicanalitico/ https://www.psicanaliseclinica.com/etapas-terapia/ http://www.psicanaliseclinica.com/ O objetivo principal das entrevistas preliminares consiste em ● direcionar a transferência àquele analista específico; simultaneamente, serve para ● elaborar uma hipótese diagnóstica, a produção de um sintoma analítico – o qual não é necessariamente aquele do qual o sujeito chega se queixando – e a produção de uma demanda de análise propriamente (Quinet, 1991; Ariadne, 1998). As entrevistas preliminares marcam que o início de uma análise não se dá com a entrada do paciente no consultório do analista. É o fim das entrevistas preliminares que cumpre a função de estabelecer um corte, marcando a entrada no discurso analítico. Numa primeira vista, essa diferença pode não ser facilmente perceptível, pois as entrevistas preliminares seguem as mesmas regras da análise: também nas entrevistas preliminares o sujeito deve associar livremente, isto é, mencionar livremente “o que lhe vier à cabeça”. Contudo, não se interpreta o discurso do paciente durante as entrevistas; neste momento o analista fala o mínimo possível, apenas o suficiente para que o sujeito prossiga em seu discurso. Isto porque está em jogo a questão diagnóstica: deixa-se o paciente falar para que uma hipótese possa ser formulada acerca da estrutura do sujeito (neurose, perversão, psicose), e também porque é próprio paciente quem introduz os significantes que irão “guiar” sua análise. É neste momento que o analista decide se irá ou não acatar aquela demanda de análise. “O fato de receber alguém em seu consultório não significa que o analista o tenha aceito em análise” (Quinet, 1991, p.15). O analista pode recusar-se a autorizar uma análise se, por exemplo, percebe uma estrutura psicótica (devido aos riscos de desencadeamento de CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 8 http://www.psicanaliseclinica.com/ um surto, pelo qual terá que se responsabilizar), ou porque o paciente já se encontra num estágio que o analista acha por bem não levar adiante – lembremo-nos daquela máxima que uma análise só vai até o ponto onde foi a análise do analista. Vamos reforçar este aspecto: o analista, após formado, segue em análise, isto é, deve ser ele analisando de outro psicanalista. Se o analista não enfrenta suas questões e se depara com um paciente cujas demandas vão além daquelas que o próprio analista já estudou e analisou em si mesmo (junto a outro profissional), dizemos que a análise foi além do ponto de análise do analista, este analista não estará apto para aceitar aquele paciente. As entrevistas preliminares servem também para que se configure o sintoma analítico enquanto tal. O sintoma do qual o sujeito chega ao consultório se queixando expressa, geralmente, uma demanda de cura, ou de amor (no sentido de “dedicar uma atenção”), mas não uma demanda de análise: esta deverá ser produzida através da retificação subjetiva. Quando o sujeito procura o analista, ele se apresenta a este através de seu sintoma: um significante. Por exemplo, se a demanda do paciente é um angústia insuportável, este é o significante a partir do qual a entrevista partirá. É este significante que irá representar o paciente, num primeiro momento, ao menos, para o analista. O paciente é esta angústia. O analista, por sua vez, é um outro significante, um significante qualquer fabricado pelo analisando em sua fantasia. Por exemplo, o analisando pode atribuir ao analista um significante de autoridade, ou de alguém que irá resolver suas dores, ou de alguém que não levará o paciente a lugar nenhum: essas ideias são criadas pelo paciente em decorrência de sua trajetória, de sua formação mental e deste contato inicial com o psicanalista. Assim, o sujeito, no início do processo, acredita que o analista detém um saber ou um poder de cura, e coloca o analista no lugar de autoridade, que Lacan denominou de Sujeito Suposto Saber. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 9 http://www.psicanaliseclinica.com/ Se no início do processo a demanda do sujeito é a de se desvencilhar, de se curar de um sintoma, a retificação subjetiva fará com que o sintoma inicial passe ao estatuto de sintoma analítico (ou seja, um sintoma que agora estabelece o vínculo entre analista e analisando), constituindo uma demanda de análise propriamente dita, endereçada àquele analista específico. Ao mesmo tempo, estabelece-se a transferência, simbólica, em relação ao analista, fenômeno fundamental para que se dê uma análise. Ao se configurar o sintoma analítico, este passa a ser um enigma a ser decifrado pelo sujeito, um enigma que aponta para sua divisão. É o que se chama de histericização do discurso. É como se a energia afetiva do paciente voltasse menos para o sintoma em si e mais para o sintoma analítico e para a forma como ele ajudou a criar o vínculo de transferência com o analista. Assim, resumidamente, as entrevistas preliminares cumprem as seguintes funções: ● instaurar a transferência num nível simbólico; ● implicar (isto é, comprometer) o sujeito no sintoma, para que se configure um sintoma analítico; ● retificar a demanda, transformando a demanda de amor ou de cura em demanda de análise; ● colocar o sujeito a questionar-se sobre seu sintoma, histericizando seu discurso e ● permitir a elaboração, por parte do analista, de uma hipótese diagnóstica. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO- pág. 10 http://www.psicanaliseclinica.com/ INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) ● Artigo: O que é Entrevista Psicanalítica? ● Artigo: Tipos de entrevistas na Psicanálise 2. O início da análise na psicanálise Quando dizemos que uma pessoa está fazendo análise, queremos dizer que esta pessoa está fazendo um tratamento clínico com psicanálise, ou seja, ela faz terapia com um psicanalista. Neste texto, você aprenderá como é o início de um processo de análise, e falaremos também sobre a diferença entre demanda e desejo. Utilizaremos a teoria de Freud e algumas elaborações de Jacques Lacan, fazendo referência principalmente a Jacques Alain Miller. 2.1. Atos falhos para Freud CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 11 https://www.psicanaliseclinica.com/entrevista-psicanalitica/ https://www.psicanaliseclinica.com/entrevista-na-psicanalise/ http://www.psicanaliseclinica.com/ Em 1901, Freud publicou mais uma obra que viria a se tornar mundialmente conhecida: A Psicopatologia da Vida Cotidiana. Após publicar no ano anterior (1900), A Interpretação dos Sonhos, o criador da psicanálise expandiu as suas teses sobre o inconsciente para englobar comportamentos do dia-a-dia. Se até então ele havia comprovado a existência do inconsciente, do desejo e da repressão (ou recalque) nos sonhos e nos sintomas dos neuróticos, o seu objetivo com a obra de 1901 foi mostrar como o inconsciente aparece em erros e falhas cotidianas, os chamados atos falhos. 2.1.1. DEFINIÇÃO DE ATO FALHO Segundo a definição de LAPLANCHE & PONTALIS, o ato falho: “É o ato em que o resultado explicitamente visado não é atingido, mas se vê substituído por outro. Fala-se de atos falhos não para designar o conjunto das falhas da palavra, da memória e da ação, mas para as ações que habitualmente o sujeito consegue realizar bem, e cujo fracasso ele tende a atribuir apenas à sua distração ou ao acaso. Freud demonstrou que os atos falhos eram, assim como os sintomas, formações de compromisso* entre a intenção consciente do sujeito e o recalcado.” Observe que Freud dá ao erro um valor de dado. Isto é, quando vemos o erro como um simples erro ou simples acaso, podemos simplesmente julgá-lo como erro, mas não tiramos nenhum aprendizado dele, o que só acontece quando atribuímos ao erro uma dignidade científica, isto é, encaramos-o como um dado. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 12 http://www.psicanaliseclinica.com/ Em português, utilizamos o termo ato falho para designar: ● erros na linguagem (escrita, fala, leitura), ● erros de memória (esquecimentos) e ● erros no comportamento (tropeçar, cair, quebrar, etc). Em inglês, estes erros ficaram conhecidos como Freudian Slips ou parapraxis. Esses erros não seriam por acaso, mas sim sinais das formações de compromisso (vínculo) entre o inconsciente e o consciente. É um tipo de “sem querer” mas “querendo”: conscientemente, a pessoa julgaria não querer cometer tal erro de linguagem, memória ou comportamento; mas, inconscientemente, haveria uma explicação causal. Em alemão, a língua de certa forma traz uma unidade entre esses erros através do prefixo ver-. ● Erros na fala (versprechen), ● Erros na escrita (verschreiben), ● Erros de leitura (verlesen), ● Erros de memória ou esquecimentos (vergessen), ● Erros no comportamento ou ações desastradas (vergreifen). Ainda de acordo com LAPLANCHE & PONTALIS, "... disso se deduz que, em outro plano, o chamado ato falho é um ato bem-sucedido: o desejo inconsciente realiza-se nele, muitas vezes, de uma forma bastante clara. A expressão “ato falho” traduz a palavra alemã Fehlleistung, que para Freud engloba não apenas ações stricto sensu, mas todo tipo de erros, de lapsos na palavra e no funcionamento psíquico. (...) Note-se que antes de Freud o conjunto desses fenômenos marginais da vida cotidiana não tinha sido agrupado nem conotado por um mesmo conceito; foi a sua teoria que fez surgir a noção". CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 13 http://www.psicanaliseclinica.com/ Tais erros não são apenas erros, falhas sem significado. Se investigarmos o porquê de acontecerem, veremos que – por um outro ponto de vista – o erro é um acerto indireto. A famosa frase do pequeno Shakespeare (Chespirito), criador do personagem Chaves, expressa muito bem: “Foi sem querer, querendo”. Um ato falho foi sem querer (conscientemente falando) mas também foi querendo (inconscientemente). 2.1.2. TIPOS DE ATOS FALHOS No livro A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), estudamos os três tipos de atos falhos, portanto: ● 1) Atos falhos na linguagem (fala, escrita, leitura); ● 2) Atos falhos de esquecimento (falha na memória); ● 3) Atos falhos no comportamento (cair, quebrar, derrubar, tropeçar, etc), enfim, perturbações do controle motor. Para ficar claro, vamos exemplificar os 3 tipos abaixo. 2.1.2.1. ATOS FALHOS NA LINGUAGEM São os atos falhos mais conhecidos. Um exemplo seria quando as pessoas chamam “ato fálico” (em vez do correto “ato falho”): é como se CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 14 http://www.psicanaliseclinica.com/ inconscientemente elas soubessem a justificativa fálica/sexual para um determinado comportamento. De volta à frase “isso foi um ato fálico”, vemos que a pessoa trocou a palavra “falho” por “fálico” (pênis). Um erro na fala que se, formos investigar, poderemos encontrar um significado inconsciente para ela. Cabem aqui duas críticas ao risco de generalizar tal entendimento, provas contrárias à aplicação do conceito de ato falho na linguagem. As pessoas podem não ter acesso (nem mesmo inconsciente) a esta troca de palavras. Pode ser, mesmo, um mero acaso ou erro linguístico: uma analogia é com um corretor ortográfico, que propõe trocas de palavras sem uma motivação inconsciente. Obviamente, dentro do contexto de terapia, e sem impor uma interpretação unívoca, o analista pode buscar motivações inconscientes ao fenômeno do ato falho. Em uma apresentação na faculdade, no primeiro período, uma aluna estava falando sobre Freud. Ela disse: “Foi assim que o Fraude”… Também teríamos que investigar porque a aluna considera o Freud uma fraude, mas é obviamente um exemplo de um ato falho. Agora, há que se pensar que, se a aluna não conhecia a pronúncia correta do nome de Freud, será que ela nutriria por Freud alguma desavença inconsciente, uma recusa de sua teoria como se essa recusa fosse um mecanismo de defesa? CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 15 http://www.psicanaliseclinica.com/ 2.1.2.2. ATOS FALHOS DE ESQUECIMENTO No Psicopatologia da Vida Cotidiana, Freud dá diversos exemplos dos três tipos deatos falhos. Logo no início, ele menciona e analisa um ato falho de esquecimento que aconteceu com ele mesmo. Visitando a catedral de Orvieto, ele se esquece do nome do pintor dos afrescos. Ele procura buscar em sua memória, os nomes que aparecem são Botticelli e Boltraffio, mas ele reconhece que ambos não são o nome correto. Uma outra pessoa lhe informa o nome: Signorelli, e Freud imediatamente reconhece-o como o nome correto. Analisando o porquê do esquecimento, ele vê que na conversa anterior falavam dos costumes na Bósnia e Herzegovina. O tema relacionado era da morte e da sexualidade. As palavras Herzegovina e Herr (“senhor” em alemão, “signor” em italiano, Signorelli), que estavam na conversa anterior interferiram na cadeia associativa e afetaram a sua memória. Um exemplo mais simples consiste quando esquecemos de ligar para alguém. O esquecimento é um erro, mas se formos investigar a fundo a causa do esquecimento, veremos que seria como se “uma parte” de nós não quisesse realmente ligar. O ato falho pode sugerir um componente inconsciente do desejo. Por isso, o ato falho é um erro, mas também um acerto (do ponto de vista do desejo inconsciente). CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 16 http://www.psicanaliseclinica.com/ 2.1.2.3. ATOS FALHOS NO COMPORTAMENTO O último tipo de ato falho (vergreifen) é traduzido para o português como equívocos na ação. Como mencionamos acima, são perturbações do controle motor que, se analisados, nos conduzem também a uma formação de compromisso entre o inconsciente e o consciente. No capítulo VIII da Psicopatologia, Freud nos dá o seguinte exemplo: “Em anos anteriores, quando eu visitava o paciente em domicílio com maior frequência que hoje, ocorria-me muitas vezes, ante a porta em que eu deveria bater ou tocar a campainha, tirar do bolso as chaves da minha própria casa e, logo em seguida, tornar a guardá-las, quase envergonhado. Quando considero os pacientes em cujas casas isso acontecia, sou forçado a supor que esse ato falho – apanhar minha chave em vez de tocar a campainha – tinha o sentido de uma homenagem à casa onde eu cometia esse erro. Era equivalente ao pensamento: ‘Aqui me sinto em casa’, pois só ocorria em lugares onde eu me havia afeiçoado ao doente” (É óbvio que não toco a campainha da minha própria casa). Um exemplo de uma pessoa dita “desastrada” também por ser um exemplo: ela pode não estar fazendo aquilo que inconscientemente ela gostaria de fazer, então o inconsciente vai de encontro a obstáculos. * * * CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 17 http://www.psicanaliseclinica.com/ É importante notar que, apesar das diferenças entre os três tipos de atos falhos, ele possuem uma unidade na linguagem, pois não só os atos falhos linguísticos (fala, escrita, leitura) são erros deste tipo. Quando nos esquecemos de um nome ao ter que apresentar uma pessoa ou não lembramos de enviar um e-mail, estamos vivenciando um conflito entre um traço mnêmico (um representante da pulsão ou um significante) e, igualmente, os atos falhos comportamentais são ocasionados por uma formação de compromisso entre dois significantes, um do lado do desejo e o outro do lado da repressão. Quais as implicações dos atos falhos durante a análise? O analista deve estar atento a sinais aparentemente casuais que o analisando lhe trouxer. Hábitos ditos como errados ou desastrados. Ou mesmo erros que o analisando realiza sem saber. E, daí, investigar (por meio de perguntas ao paciente, por exemplo) se determinado erro poderia estar sugerindo algum conteúdo inconsciente, recalcado, desejado. INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) ● Artigo: Atos falhos: significado e exemplos CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 18 https://www.psicanaliseclinica.com/atos-falhos/ http://www.psicanaliseclinica.com/ 3. Procedimentos de Análise Os psicanalistas praticam técnicas específicas e que se valem, acessoriamente, de vários outros conhecimentos para atuar sobre a dinâmica humana definida como Psíquica e que se caracteriza por ser uma realidade absoluta de natureza não tangível e idiossincrática (individualizada). Falamos do não tangível apenas para, de saída, reforçarmos a dificuldade do nosso trabalho, pois se os males a que nos contrapomos são reais, tudo o mais que temos de considerar é impalpável e de complexo acesso, uma vez que lidamos com o emocional e um emocional, na maioria das vezes, desconhecido por ser inconsciente. Nós, psicanalistas, não usamos instrumentos e, tratando de pessoas, não as tocamos, não lhes ministramos qualquer droga e nem ao menos lhe damos conselhos e, no entanto, os procedimentos da psicanálise são capazes de provocar melhoras significativas e, para alguns casos, a cura para sintomas geradores de mal-estar. Daí dizermos que o nosso ofício é uma arte, desafiadora, é verdade, e que, por isso mesmo, exige de nós uma total dedicação, o máximo de horas de estudo, o máximo de pesquisas, o máximo de trocas com as comunidades de trocas entre profissionais. Segundo Freud, “Os processos psíquicos são, em si mesmos, inconscientes e os processos conscientes são atos isolados, frações da vida psíquica total. Os processos da vida psíquica inconsciente, são dominados, na maior parte, pelas tendências que podem ser qualificadas de sexuais, no sentido restrito ou lato do termo. Este último pressuposto é, na realidade, a característica fundamental da Psicanálise, que consiste, essencialmente, na tentativa de explicar a vida inteira do homem e não só aquela privativa ou individual, mas também a CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 19 http://www.psicanaliseclinica.com/ pública e a social, recorrendo a uma única força que é o instinto sexual ou libido, no sentido técnico deste termo.” Temos que ter sempre presente que, mesmo sendo dedicadamente estudiosos, jamais teremos atingido o grau desejável de conhecimento, pois nunca nos firmaremos num diagnóstico a partir do estudo de peças anatômicas, nem de filmes radiográficos, nem de exames laboratoriais, nem da descoberta de novas drogas, nem de testes psicométricos, uma vez que o nosso paciente é um ser humano ímpar, que veio de um ambiente familiar ímpar e que se desenvolveu ajustando-se às condições ímpares, influenciadas pela maneira ímpar como ele entendeu o que atuou sobre ele de forma continuada ou então lhe aconteceu por uma fração de segundo, num abrir e fechar de olhos. 3.1. O Método da Associação Livre Teremos oportunidade de aprofundar outros aspectos da clínica psicanalítica, como transferência, contratransferência e resistência. Faremos isso nos módulos seguintes e nos estudosde casos práticos na etapa de Supervisão do nosso Curso. Por ora, convém abordar a essência da clínica psicanalítica, que é a técnica ou método da associação livre. Vimos nos módulos anteriores que Freud substituiu a primazia da sugestão hipnótica em favor da associação livre. Isso significa dizer que a associação livre passa a ser o método psicanalítico por excelência, o que permanecerá durante toda a trajetória de Freud. Em outras palavras, a CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 20 http://www.psicanaliseclinica.com/ associação livre é a forma mais notadamente psicanalítica para conduzir uma sessão de análise. O paciente fala e, falando, já há um alívio psicofísico, pelo simples fato da mobilização mecânica descarregar parte da tensão psíquica. Mas, além deste aspecto quantitativo, há a dimensão qualitativa, isto é, do conteúdo: falando o que lhe vier na cabeça (sem autocensura, sem censuras do analista e sem censuras das representações sociais ou morais), o paciente “distrai” seus mecanismos de defesa, permitindo aflorar aspectos inconscientes. Nesse sentido, não há certo ou errado, não há “perder o foco”. Ou melhor, Freud diria que “perder o foco” é exatamente a chave para encontrar o inconsciente. Afinal, os sonhos, os atos falhos e os chistes são exemplos desses ricos “erros”. Nós nos basearemos na contribuição de LAPLANCHE & PONTALIS, para aprofundarmos a reflexão sobre a associação livre. A associação livre é, portanto, um método que consiste em exprimir indiscriminadamente todos os pensamentos que ocorrem ao espírito, quer a partir de um elemento dado (palavra, número, imagem de um sonho, qualquer representação), quer de forma espontânea. O processo de associação livre é constitutivo da técnica psicanalítica. Não é possível definir uma data exata de sua descoberta, que se deu de modo progressivo entre 1892 e 1898, e por diversos caminhos. Como é demonstrado pelos Estudos sobre a histeria (Freud, 1895), a associação livre emana de métodos pré-analíticos de investigação do inconsciente que recorriam à sugestão e à concentração mental do paciente em uma determinada representação; a procura insistente do elemento patogênico desaparece em proveito de uma expressão espontânea do paciente (entenda melhor este aspecto lendo os comentários de Freud ao caso CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 21 http://www.psicanaliseclinica.com/ Emmy Von N., abaixo sintetizado). Os Estudos sobre a histeria põem em evidência o papel desempenhado pelos pacientes nesta evolução. Paralelamente, Freud utiliza o processo de associação livre na sua auto-análise e particularmente na análise dos seus sonhos. Aqui, é um elemento do sonho que serve de ponto de partida para a descoberta das cadeias associativas que levam aos pensamentos 38 do sonho. As experiências anteriores à Freud consistiam no estudo das reações e dos tempos de reação (variáveis segundo o estado subjetivo) a palavras indutoras. Isto é, o analista sugeria algumas palavras e o analisando respondia rapidamente, com o que lhe vinha à cabeça. Jung põe em evidência o fato de que as associações que assim se produzem são determinadas pela totalidade das idéias em relação a um acontecimento particular dotado de uma coloração emocional, totalidade à qual dá o nome de complexo. Freud, em A história do movimento psicanalítico (1914), admite o interesse dessas experiências “para se chegar a uma confirmação experimental rápida das constatações psicanalíticas e para mostrar diretamente ao estudante esta ou aquela conexão que um analista apenas pode relatar”. Talvez convenha ainda fazer referência a uma fonte que o próprio Freud indicou em Uma nota sobre a pré-história da técnica analítica (1920): o escritor Ludwig Börne, que Freud leu na juventude, recomendava, para alguém “se tornar um escritor original em três dias”, escrever tudo o que ocorre ao espírito, e denunciava os efeitos da autocensura sobre as produções intelectuais. Essas ideias, sem dúvidas, influenciaram a livre associação de Freud, que, depois, aproveitaria a noção da livre expressão de ideias como forma de minimizar a autocensura. Além disso, Freud não focaria no processo de induzir o paciente com palavras sugestivas de forma aleatória, mas sim aproveitando CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 22 http://www.psicanaliseclinica.com/ de conteúdos trazidos pelo próprio analisando (seus sonhos, seus atos falhos, seus desejos relatados etc.). No mais das vezes, a iniciativa das escolhas sobre o que falar se originavam do próprio analisando, sendo o analista alguém que faz apontamentos curtos, em geral na forma de perguntas que provocam no analisando o sentido por trás de suas associações. Nesse sentido, a título de conclusão, o termo “livre” na expressão “associação livre” exige as seguintes observações: ● Mesmo nos casos em que o ponto de partida é fornecido por uma palavra indutora (experiência de Zurique) ou por um elemento do sonho (método de Freud em A interpretação de sonhos, 1900), pode-se considerar que é “livre” o desenrolar das associações, na medida em que esse desenrolar não é orientado e controlado por uma intenção seletiva; ● Essa “liberdade” acentua-se no caso de não ser fornecido qualquer ponto de partida. É nesse sentido que se fala de regra de associação livre como sinônimo de regra fundamental para a Psicanálise. ● Na verdade, não se deve tomar liberdade no sentido de uma indeterminação: a regra de associação livre visa em primeiro lugar eliminar a seleção voluntária dos pensamentos, ou seja, segundo os termos da primeira tópica freudiana, pôr fora de jogo a censura dos processos secundários (entre o consciente e o pré-consciente). A associação livre ajudaria a revelar, assim, as defesas inconscientes, quer dizer, a ação da primeira censura (entre o pré-consciente e o inconsciente), a censura daquilo que está mais profundamente recalcado. ● Por fim, o método das associações livres destina-se a pôr em evidência uma ordem determinada do inconsciente: “Quando as representações-metas conscientes são abandonadas, são CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 23 http://www.psicanaliseclinica.com/ representações-metas ocultas que reinam sobre o curso das representações”, diz Freud. Explicando esta última frase de Freud: uma ideia fixa trazida à terapia (por exemplo, uma fobia específica) é uma representação consciente, isso pode ir se relacionando a outras ideias (livremente associadas), de modo a sugerir um sistema de funcionamento psíquico que motivaria a fobia e todo aquele constructo, até então oculto. Verifique esta ideia sobretudo no que Freud nos relata da sua pacienteEmmy Von N. Respondendo à solicitação insistente de Freud, que busca a origem de um sintoma, ela lhe diz “... que não deve ficar sempre perguntando de onde vem isto ou aquilo, mas deixá-la contar o que tem para contar” (Estudo sobre a histeria, 1895). Sobre a mesma doente, Freud nota que ela parece ter-se apropriado do seu processo”: “As palavras que me dirige [...] não são tão inintencionais como parecem; reproduzem antes com fidelidade as recordações e as novas impressões que agiram sobre ela desde a nossa última conversa e emanam muitas vezes, de modo inteiramente inesperado, de reminiscências patogênicas de que ela se liberta espontaneamente pela palavra.” (idem) CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 24 http://www.psicanaliseclinica.com/ INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) ● Artigo: O Método da Associação Livre em Psicanálise ● Artigo: Associação Livre para Freud e a Psicanálise ● Artigo: Freud, Charcot e a Hipnose na paciente Emmy Von N. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 25 https://www.psicanaliseclinica.com/metodo-da-associacao-livre-em-psicanalise/ https://www.psicanaliseclinica.com/associacao-livre-freud/ https://www.psicanaliseclinica.com/freud-charcot-e-a-hipnose-na-paciente-emmy/ http://www.psicanaliseclinica.com/ 4. TOPOGRAFIA DO APARELHO PSÍQUICO A teoria psicanalítica tem a particularidade de não considerar os atos psíquicos da mesma maneira que o faz a psicologia clássica. A Psicanálise estuda como elementos justapostos e associados. A Psicanálise concebe a vida psíquica como evolução incessante de forças elementares, antagônicas, compostas ou resultantes, com um conceito dinâmico do psiquismo. Fala-se de duas tópicas freudianas, sendo ● a primeira (topográfica) aquela em que a distinção principal é feita entre inconsciente, pré-consciente e consciente, e ● a segunda (estrutural) a que distingue três instâncias: o id, o ego e superego. O termo “topográfico” significa uma teoria dos lugares, vem do grego topos (singular) ou topoi (plural), que quer dizer “lugar” / “lugares”. A hipótese freudiana de uma tópica psíquica tem origem em todo um contexto científico de debates, avaliações, observações que vai de 1891 a 1900, quando Freud apresenta a primeira concepção tópica do aparelho psíquico no capítulo VII de A Interpretação de Sonhos (1900). CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 26 http://www.psicanaliseclinica.com/ 4.1. Conceituação da Teoria Topográfica Em que consiste esta teoria? Freud propôs dividir o aparelho psíquico. De acordo com esta Teoria, devem existir três partes que fundamentam nosso sistema mental, cada uma delas se caracterizando por sua relação com a consciência. Vamos apresentar a caracterização, segundo Freud: ● Sistema Ics: Inconsciente. ● Sistema Pcs: Pré-Consciente. ● Sistema Cs: Consciente. O primeiro sistema, chamado Inconsciente (Ics), abrange os elementos psíquicos cuja acessibilidade à consciência é muito difícil ou impossível. Ou seja, não podemos trazer ao nível racional, “lúcido”, ao nível da nossa concentração ativa. O segundo sistema, denominado Pré-consciente (Pcs), compreende os elementos mentais prontamente acessíveis à consciência. Como exemplo, as coisas em que não estamos pensando agora, mas que podemos pensar assim que quisermos. São fatos não conscientes ao momento atual, mas que não foram recalcados ou “esquecidos”, e que poderemos levá-los à conciência conforme haja uma mobilização mental para isso. O terceiro sistema, chamado Consciente (Cs), inclui tudo que é consciente em determinado momento. Entretanto, considera-se que todo material que fora consciente, no momento seguinte passa para o pré-consciente. Consideramos, também, que certas experiências, conscientes, ao serem vencidas, em parte são gravadas no pré-consciente, enquanto outra parte é recalcada no inconsciente. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 27 http://www.psicanaliseclinica.com/ Entre os sistemas Ics e Pcs, opera uma censura intersistêmica que faculta ao Pcs excluir elementos indesejáveis do sistema Ics e recusar-lhes o ingresso no sistema Cs. A idéia central da Teoria Topográfica é de que o aparelho psíquico pode ser dividido em sistemas baseando-se na relação entre os mesmos e a consciência. Quando nos perguntamos sobre o nível de consciência que temos de certos fatos ou atos, estamos inseridos nas questões freudianas da Primeira Tópica. INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) ● Artigo: As Três Instâncias do Aparelho Psíquico CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 28 https://www.psicanaliseclinica.com/instancias-psiquicas/ http://www.psicanaliseclinica.com/ 4.1.1. Como representar a Teoria Topográfica? Concebemos uma figura única constituída de camadas, sendo a mais estreita atribuída ao sistema Cs. Um pouco mais abaixo aparece uma camada igualmente estreita, que atribuímos ser o sistema Pcs. O centro da figura, a parte maior em termos cúbicos, compreendemos ser o sistema Ics. Assim, o inconsciente passa a ser o miolo e a parte mais importante do aparelho mental. 4.2.1. O Consciente O consciente é o sistema de percepção para as impressões que nos absorvem no momento e deve ser considerado como um sistema sensorial situado no limite entre o interno (da pessoa) e o externo (do mundo), com capacidade para perceber processos de uma ou outra procedência. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 29 http://www.psicanaliseclinica.com/ Freud, em sua teoria metapsicológica, usa a expressão sistema percepção – consciência (Pc – Cs). [Nota: aqui Pc significa Percepção, não confundir com Pcs: Pré-Consciente]. Do ponto de vista funcional, o sistema percepção – consciência opõe-se ao sistema de traços mnésicos que são o inconsciente e pré-consciente. Do ponto de vista econômico, caracteriza-se pelo fato de dispor de uma energia livremente móvel. Isto é, a energia consciente (mecanismo do foco e da atenção) do indivíduo pode tratar de centenas ou milhares de assuntos durante um único dia. Para LAPLANCHE & PONTALIS, “Segundo a teoria metapsicológica de Freud, a consciência seria função de um sistema, o sistema percepção-consciência (Pc-Cs). Do ponto de vista tópico, o sistema percepção-consciência está situado na periferia do aparelho psíquico, recebendo ao mesmo tempo as informações do mundo exterior e as provenientes do interior, isto é, as sensações que se inscrevem na série desprazer-prazer e as revivescências mnésicas [da memória]. Muitas vezes Freud liga a função percepção-consciência ao sistema pré-consciente, então designado como sistema pré-consciente-consciente(Pcs-Cs). (...) A teoria psicanalítica se constitui recusando definir o campo do psiquismo pela consciência, mas nem por isso considerou a consciência como um fenômeno não essencial. Freud criticou a psicologia behaviorista (comportamentalista) exatamente por ela considerar exclusivamente a dimensão do consciente: “Uma tendência extrema, como por exemplo a do behaviorismo, nascida na América, pensa poder estabelecer uma psicologia que não tenha em conta este fato fundamental!” (FREUD, Compêndio da Psicanálise, 1938). CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 30 http://www.psicanaliseclinica.com/ É muito importante que o psicanalista perceba este aspecto essencial da Teoria e Prática Clínica da Psicanálise. ● Para muitas escolas da psicologia, das ciências humanas e das ciências naturais, o ser humano é uma única coisa, uma coisa só, indivíduo, indivisível, dono de suas vontades e responsável por todos os seus atos. Para essas correntes teóricas, o sujeito seria unicamente consciente. ● Para a Psicanálise, o sujeito é dividido, cindido. A ideia de haver um inconsciente é a ideia discordar do sujeito unívoco das escolas que mencionamos no parágrafo anterior. O sujeito não é senhor de si. É, ao mesmo tempo, sujeito e sujeitado: por suas memórias, por sua trajetória, pelas imposições sociais, por seus relacionamentos, por suas experiências durante o desenvolvimento psicossexual, por seus desejos etc. Mas, ainda assim, não é possível dizer que o sujeito é puramente inconsciente, já que a Psicanálise considera também a dimensão consciente. Se você tem alguma dúvida de que o ser humano é um sujeito dividido, propomos uma experiência empírica, pela qual você certamente já passou. Você está estudando e, paralelamente, surge o desejo pelo prazer (de estar descansando ou passeando ou fazendo qualquer outra atividade que lhe dê mais prazer). O seu “eu” agora está dividido, correto? Mentalmente, você formaliza uma frase imperativa: “Continue estudando!”. Ora, se você não fosse dividido, precisaria lhe dar esta ordem? Claro que não, pois o seu desejo coincidiria exatamente com o que você estaria fazendo. Mas, ao dar uma ordem a si mesmo, na verdade você já se tornou dois: um “eu” racional/moral que demanda o estudo, um “eu” pulsional que demanda o prazer. A escolha teórica entre um sujeito indivíduo ou um sujeito dividido tem implicações em vários campos: nas artes, no direito, nas relações sociais, no mundo trabalho, no convívio interpessoal, nos processos de CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 31 http://www.psicanaliseclinica.com/ ensino-aprendizagem (educação), na política e, obviamente, no tipo de terapia e suas técnicas. Freud considera a consciência como uma função do sistema Pc-Cs e um dado da experiência individual que se oferece à intuição imediata, e não renova sua descrição. Quando se fala de consciência, todos sabem, imediatamente, por experiência, do que se trata. Para que um ato psíquico seja consciente, é necessário que percorra todos os níveis do sistema psíquico. O sonho, por exemplo, as representações de objetos pertencentes ao inconsciente devem associar-se às representações pré-conscientes correspondentes. Só depois de vencer a estrutura instalada entre os dois campos, entram em contato com esse sistema e chegam ao conhecimento do indivíduo. O sujeito não reage a todo estímulo. Tem-se impressão de que o sistema consciente conta com um dispositivo especial, capaz de protegê-lo de certas excitações que poderiam perturbar seu equilíbrio, que Freud chamou de detector ou amortecedor de estímulos. Se um estímulo externo é excessivamente intenso para o psiquismo, ele é captado pelo aparelho protetor amortecido e transmitido de forma econômica e gradual. Em síntese, o aparelho protetor recebe o estímulo do exterior, amortece-o e transmite-o gradualmente, evitando que o equilíbrio psíquico do organismo se perturbe. O amortecedor de excitações é o que capacita o sujeito regular sua vida psíquica, mediante uma distribuição econômica das cargas energéticas, o que lhe permite conservar o repouso e manter em equilíbrio adequado sua tensão energética. Apesar de não ser a instância única a escolher o que será recalcado, a consciência desempenha um papel importante na dinâmica: CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 32 http://www.psicanaliseclinica.com/ ● do conflito: evitação consciente do desagradável, regulação mais discriminadora do princípio de prazer; e ● do tratamento: função e limite da tomada de consciência. Observe que, para Freud, há duas visões principais sobre o consciente, e isso demandará a necessidade da formulação de uma teoria que inclua também o consciente: ● o Cs é apenas parte de nossos processos psíquicos, sendo que nossa vida mental é, de maioria, inconsciente; ● o Cs não é irrelevante, também não é irrelevante o fato de algo ser consciente ou não, já que a consciência marca o indivíduo e é preciso estudar porque algumas coisas são conscientes enquanto outras não. A ideia de que o Cs é a porta de entrada da percepção e é a conexão entre o universo interior e o universo exterior de um sujeito será mantida por Freud no decorrer de toda a sua obra. No fenômeno da consciência essa tese dá uma prioridade à percepção, e principalmente à percepção do mundo exterior: “O acesso à consciência está antes de mais nada ligado às percepções que os nossos órgãos sensoriais recebem do mundo exterior”, escreveu Freud. A questão se complexifica quando relacionamos a consciência com a memória e os processos de representações. Aí, são mobilizados elementos pré-conscientes e inconscientes que interferem a forma atual como a pessoa vê e recebe uma percepção. “Para que seja conferida uma qualidade [aos processos de pensamento], estes são associados, no homem, às recordações verbais, cujos restos qualitativos são suficientes para atrair a atenção da consciência; a partir daí um novo CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 33 http://www.psicanaliseclinica.com/ investimento móvel se dirige para o pensamento.” (FREUD, Estudos sobre a histeria) Ou seja, o “órgão” (como Freud chamava) do consciente percebe a realidade externa, mas essa precisa ser simbolizada, não pode ser apenas uma coisa. São as memórias (representadas por restos de palavras) pré-existentes que absorvem a percepção ao sistema psíquico do sujeito. Afirma Freud: “A regra biológica da atenção enuncia-se assim para o ego: quando aparece um indicador de realidade, o investimento de uma percepção que está simultaneamente presente deve ser sobre-investido”. Na segunda tópica, Freud vai relacionar o sistema Pc-Cs como sendo uma tarefa do ego. O egoprecisa investir ao máximo sua energia para novos fatos relevantes do mundo, como um mecanismo de sobrevivência (“regra biológica”). Podemos entender como duas ações principais do ego: 1) perceber de forma vívida (como vimos no parágrafo anterior); 2) amortecer o excesso de informações, como vimos quando falamos do sistema detector e amortecedor de estímulos. No início da obra freudiana, era possível supor que o consciente fazia o trabalho de “esquecer” o que seria insuportável lembrar, ou seja, que era o consciente (e somente ele) quem promovia o recalcamento. Mas, depois, houve uma “ênfase cada vez maior dada ao caráter pelo menos parcialmente inconsciente das defesas e da resistência que se exprimem no tratamento” (LAPLANCHE & PONTALIS). Na teoria do tratamento, a problemática da tomada de consciência e da sua eficácia permaneceu um tema primordial de reflexão na obra freudiana. Ou seja, mesmo tendo modificado muitas de suas ideias, permaneceu em Freud a CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 34 http://www.psicanaliseclinica.com/ noção de que a terapia deve permitir ao analisando “tomar consciência” de uma causa, e essa tomada de consciência promoveria a cura de seus sintomas. Porém, a passagem à consciência não implica por si só uma cura, pode não haver uma verdadeira integração do recalcado no sistema pré-consciente. Ou seja, não basta o psicanalista “contar” ao analisando que o sintoma Y é causado pelo fato X, que fora recalcado. É preciso que isso seja construído e que faça sentido ao analisando, por isso é preciso “todo um trabalho que dissipe as resistências que impedem a comunicação entre os sistemas inconsciente e pré-consciente, e capaz de estabelecer uma ligação cada vez mais estreita entre os traços mnésicos [memórias] inconscientes e a sua verbalização” (L&P). Este tempo para o analisando derrubar as resistências, incorporar o “aprendizado” ao seu pré-consciente para, só depois, verbalizar isso como uma tomada de consciência própria dele (analisando) é chamado por Freud de perlaboração. Sem este tempo, uma mera revelação interpretativa do analista ao analisando poderá ser um ato de prepotência do analista e (ainda que “verdadeira”) não será verdadeira ao analisando, porque não terá sido amadurecida enquanto tal pelo analisando. INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) ● Artigo: Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 35 https://www.psicanaliseclinica.com/consciente-pre-consciente-e-inconsciente/ http://www.psicanaliseclinica.com/ 4.2.2. O Pré-Consciente Termo utilizado por Freud no quadro da sua primeira tópica. Como substantivo, designa um sistema do aparelho psíquico nitidamente distinto do sistema inconsciente (Ics); como adjetivo, qualifica as operações e conteúdos desse sistema pré-consciente (Pcs). Estes não estão presente no campo atual da consciência e, portanto, são inconsciente no sentido “descritivo” do termo, mas distingue-se dos conteúdos do sistema inconsciente na medida em que permanecem de direito acessíveis à consciência (conhecimento e recordações não atualizados por exemplo). Ou seja, os conteúdos pré-conscientes estão disponíveis ao consciente, só não estão conscientes agora. Um exemplo: você se esqueceu do nome de uma pessoa, mas você tem certeza de você sabe o nome, apenas não se lembra dele agora. Quando o nome lhe é revelado por outra pessoa, você sabia que o nome existia na sua mente. O pré-consciente está localizado entre o consciente e o inconsciente, e nele ficam as idéias, os pensamentos, experiências passadas e outras impressões que podem, com algum grau de esforço, ser trazidos à consciência. As impressões do mundo exterior também são radicadas no Pcs, em forma de representações fonéticas e verbais. É o sistema pré-consciente que leva as tendências e representações objetivas inconscientes à consciência, só que nesta função, associa-se em forma de representações verbais, adquiridos na realidade. Como o pré-consciente se relaciona com a realidade externa e também com o CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 36 http://www.psicanaliseclinica.com/ inconsciente, no decorrer do sonho, são usados fatos reais, uma idéia concebida em estado de vigília, a fim de expressar um desejo inconsciente. Enquanto o sistema inconsciente é regido pelo processo primário (inconsciente), o pré-consciente (também com suas leis próprias) é regido pelo processo secundário, que compreende: ● A elaboração de sucessão cronológica nas representações; ● A descoberta de uma relação lógica; ● O preenchimento de lacunas existentes entre idéias isoladas; ● A introdução do fator causal, ou seja, relação de coexistência e sucessão entre os fenômenos: relação causa-efeito. Durante o sono, essa tarefa se cumpre no pré-consciente, tal como acontece nos estados de vigília, em que a atividade se constitui o ato de pensar. Afirma NUMBERG: “As idéias pré-conscientes aparecem enxertadas nos impulsos inconscientes, e daí surge a necessidade de distinguir a essência da enfermidade daquilo que é o resultado da elaboração secundária”. Do ponto de vista metapsicológico, o sistema Pcs difere do Ics pelo fator da censura: ● Enquanto o Ics é inacessível ao Cs, não está construído sobre ideias lógicas do ponto de vista espacial e temporal, restando interditado ao Cs em função do recalque; ● O Pcs é acessível ao Cs, é construído sob a lógico espácio-temporal. ● O Ics pode passar para o Pcs, porém após processos de transformação. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 37 http://www.psicanaliseclinica.com/ Enquanto na Primeira Tópica este conceito tem o status de um dos três pilares da psique humana, na Segunda Tópica Freud falará de “pré-consciente” apenas como adjetivo, para qualificar o que escapa à consciência atual mas que não se tornou inconsciente no sentido estrito do termo. Por ser um sistema psíquico, só é possível entender Pcs, Ics e Cs quando os comparamos entre si. Nesse sentido, o Pré-Consciente tem uma semelhança: ● do ponto de vista descritivo, com o Inconsciente: tanto o Pcs quanto o Ics não estão presentes na nossa consciência atual; ● do ponto de vista funcional, com o Consciente: tanto o Pcs quanto o Cs representam memórias que podem ser postas em palavras e que não foram recalcadas. Uma outra forma bastante interessante de entender o Pcs é identificarmos a diferença entre os dois tipos de censura: ● Primeira Censura ou Censura propriamente dita: barreira existente entre o Ics e Pcs, é uma transição complexa, porque há transformações que precisam ser feitas (o Ics não se revela tal como é, por ter suas leis e linguagens próprias); baseia-se no princípio da transformação(“deformando” os conteúdos que escapam do Ics); ● Segunda Censura: barreira existente entre o Pcs e Cs, é uma transição mais simples, sem transformações significativas, já que há coincidências entre a lógica Pcs e a lógica Cs; baseia-se no princípio da seleção (isto é, o Cs precisa atender suas necessidades atuais e vai buscar informações necessárias no Pcs). Quando a Psicanálise falar apenas “censura”, é a primeira censura que provavelmente estará sendo abordada (por isso é chamada de “censura CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 38 http://www.psicanaliseclinica.com/ propriamente dita”). Apesar disso, Freud diferenciou esses dois tipos de censura, exatamente para a melhor compreensão da dinâmica Ics - Pcs - Cs. INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) ● Artigo: Recalque, Repressão e Censura 4.2.3. O Inconsciente O conceito de o inconsciente é empregado no sentido daquilo que nunca foi observado diretamente. Mas ao mesmo tempo é um conceito empírico (da experiência), pelo fato de representar uma indiferença imprescindível para explicar, de maneira lógica e sistemática, um grande número de observações. Será difícil, portanto, dar uma definição categórica de algo cuja a natureza só se desconhece intimamente e cujo conhecimento só se pode obter de forma indireta, mediante os dados que nos são fornecidos pelos sonhos, os atos falhos, os chistes, a associação livre, os testes projetivos e a história de sintomas neuróticos e psicóticos. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 39 https://www.psicanaliseclinica.com/recalque-repressao-e-censura-para-a-psicanalise/ http://www.psicanaliseclinica.com/ Praticamente se conhece o inconsciente em expressão do pouco que chega (e chega distorcido) ao pré-consciente e ao consciente. Os psicanalistas não são os únicos que admitem a existência de um inconsciente: filósofos e os psicólogos admitem a existência de um inconsciente, mas muitos o fazem de modo negativo: aquilo que não é consciente e não é racionalizável, por isso ficando de fora do campo de saber de inúmeras ciências. Mas, para a Psicanálise, o inconsciente é psiquicamente positivo, ou seja, é algo em relação ao qual a teoria pode afirma o que é, e não só o que não é. Nesse sentido, o Ics é um sistema em constante evolução e investido de energia psíquica. Segundo o conceito de Freud, é simplista definir o inconsciente somente como o contrário do consciente, como dizia Lipps. Também é errôneo definir o Ics como o degradé ou o latente, como afirmam os filósofos da introspecção e da intuição. Pelo contrário, o Ics é o grau preparatório do consciente e, ainda mais exatamente, é o verdadeiro psiquismo, o psiquismo real (Freud), a maior parte da nossa vida psíquica é pertinente à instância Ics. Para LAPLANCHE & PONTALIS, “Se fosse preciso concentrar numa palavra a descoberta freudiana, seria incontestavelmente na palavra inconsciente, pois em psicanálise é a estrutura psíquica que compreende os impulsos e sentimentos dos quais o indivíduo não tem consciência; é a pedra do fecho de toda teoria da psicanálise, em alemão é o não sabido.” O inconsciente é desconhecido para o indivíduo, mas partes de seu conteúdo podem, às vezes, passar à pré-consciência e daí virem manifestar no CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 40 http://www.psicanaliseclinica.com/ consciente. A maior parte dos textos freudianos anteriores à Segunda tópica associam o inconsciente àquilo que é recalcado (Ics = recalcado). Ao modo de atuar no inconsciente dá-se o nome de processo primário por ser a primeira forma de atuação, a mais primitiva do psiquismo. A teoria psicanalítica considera os processos psíquicos essencialmente inconscientes e que antes de chegarem a ser conscientes devem sofrer um complicado processo, que tem suas leis determinantes, regras de gramática especial e lógica primitiva que regem esse sistema, e que neste caso são as do processo primário. No processo primário devem-se considerar os elementos que atuam, levando-se em conta que no aparelho psíquico o que chega a ser consciente provém do inconsciente. Ou seja, existe uma dinâmica que, como tal, deve ser regras que a regem. No sentido 'tópico' ou funcional, isto é, como parte da estrutura psíquica da Primeira Tópica, o conceito de inconsciente designa um dos sistemas definidos por Freud no quadro desta 1a Tópica (modelo topográfico). É constituído por conteúdos recalcados aos quais foi recusado o acesso ao sistema pré-consciente e consciente pela ação do recalque. Não haveria inconsciente sem recalque, como só faz sentido dizer que haja recalque se houver um “lugar” (Ics) para onde recalcar. Podemos resumir do seguinte modo as características essenciais do Inconsciente como sistema (ou Ics): a) os seus 'conteúdos' são 'representantes' das pulsões, ou seja, estão em contato direto com energias psíquicas primitivas; b) estes 'conteúdos' são regidos por mecanismos específicos do processo primário, principalmente a condensação e o deslocamento (abordaremos esta temática no capítulo seguinte, neste Módulo); CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 41 http://www.psicanaliseclinica.com/ c) fortemente investidos pela energia pulsional, os conteúdos Ics procuram retornar à consciência e à ação; mas só podem ter acesso ao sistema Pcs-Cs nas formações de compromisso, depois de terem sido submetidos às deformações da censura. [formações de compromisso: quando se forma o vínculo entre um conteúdo recalcado no Ics e um sintoma perceptível no nível Pcs-Ics] d) os conteúdos Ics são, mais especialmente, desejos da infância que conhecem uma fixação no inconsciente. No quadro da Segunda tópica freudiana, o termo inconsciente é usado sobretudo na sua forma adjetiva: efetivamente, inconsciente deixa de ser o que é próprio de uma instância especial (como ocorre na 1a Tópica). Na Segunda tópica, “inconsciente” qualifica o id (principalmente) e o ego e o superego (em partes). Mas convém notar, conforme propõem LAPLANCHE & PONTALIS: ● as características atribuídas ao sistema Ics na primeira tópica são de um modo geral atribuídas ao id na segunda tópica; ● o bloco relativo a Pcs e Cs terá uma parte consciente e uma parte inconsciente na segunda tópica. O inconsciente freudiano brotou da experiência do tratamento. Este mostrou que o psiquismo não é redutível ao consciente e que certos 'conteúdos' só se tornam acessíveis à consciência depois de superadas certas resistências. Freud revelou que a vida psíquica era “... cheia de pensamentos eficientes embora inconscientes, e que era destes que emanavam os sintomas”, o que o levou a supor a existência de 'grupos psíquicos separados' (em três partes,como vimos) e, de modo mais geral, a admitir o inconsciente como um 'lugar psíquico' particular que deve ser concebido não como uma CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 42 http://www.psicanaliseclinica.com/ Segunda consciência, mas como um sistema que possui conteúdos, mecanismos e, talvez, uma 'energia' específica. Mas, quais serão esses conteúdos inconscientes, que tipo de “informação” há lá? No artigo O Inconsciente, Freud denomina-os 'representantes da pulsão'. A pulsão está fronteira entre corpo e mente, é o inconsciente que traz a energia da pulsão de fato para dentro da psique ou da mente. As representações inconscientes são dispostas em fantasias, histórias imaginárias em que a pulsão se fixa e que podemos conceber como verdadeiras encenações do desejo. Outro aspecto classicamente reconhecido é o do inconsciente relacionado àquilo que é infantil em nós, mas também aqui se impõe uma reserva. Nem todas as experiências infantis estão destinadas ao Ics. Para Freud, é pela ação do recalque infantil que se opera a primeira clivagem (separação) entre o inconsciente e o sistema Pcs-Cs. Sabe-se que o sonho foi para Freud o caminho por excelência da descoberta do inconsciente. Os mecanismos do sonho (deslocamento, condensação, simbolismo) evidenciados em A Interpretação de Sonhos (1900) são também constitutivos do processo primário e do Ics em geral e das formações que revelam o Ics (atos falhos, chistes, lapsos, sintomas etc.). Quando Freud procura definir o inconsciente como sistema, resume assim as suas característica específicas: ● é um processo primário e que é móvel (não se fixa a um objeto claro de desejo, característica de uma energia livre); ● tem ausência de negação ou de dúvida, por possuir um elevado de grau de certeza; ● é indiferente perante a realidade (tem sua própria realidade), e CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 43 http://www.psicanaliseclinica.com/ ● tem sua regulação exclusivamente pelo princípio de desprazer-prazer, não se baseia por preceitos morais (certo-errado). As considerações tópicas (isto é, do Ics, Pcs e Cs cada qual em seu lugar) não devem fazer-nos perder de vista o valor dinâmico do inconsciente freudiano, que o seu autor tantas vezes sublinhou. Devemos nas distinções tópicas o meio de explicar o conflito fenômenos do nosso aparelho psíquico, não vermos essas partes de uma forma dogmática e estanque. Sabe-se que, a partir de 1920, a teoria freudiana do aparelho psíquico foi profundamente remodelada. Foram introduzidas novas distinções tópicas que já não coincidiam com as do inconsciente, pré-consciente e consciente. Com efeito, se é verdade que reencontramos na instância do id as principais características do sistema Ics, também nas outras instâncias - ego e superego - há uma parte inconsciente. INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) ● Artigo: O lado oculto da mente ● Artigo: Freud e o Inconsciente: um guia CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 44 https://www.psicanaliseclinica.com/lado-oculto-mente/ https://www.psicanaliseclinica.com/freud-e-o-inconsciente/ http://www.psicanaliseclinica.com/ 4.3. Processo primário e processo secundário São os dois modos de funcionamento do aparelho psíquico, tais como foram definidos por Freud. Podemos distingui-los radicalmente: a) do ponto de vista tópico (ou seja, do ponto de vista das partes que integram o modelo topográfico): ● o processo primário caracteriza o sistema inconsciente e ● o processo secundário caracteriza o sistema pré-consciente-consciente; b) do ponto de vista econômico-dinâmico: ● no processo primário, a energia psíquica escoa-se livremente, passando sem barreiras de uma representação para outra, segundo os mecanismos de deslocamento e condensação; tende a reinvestir plenamente as representações ligadas às vivências de satisfação constitutivas do desejo (alucinação primitiva); ● no processo secundário, a energia começa por estar “ligada” antes de se escoar de forma controlada; as representações são investidas de uma maneira mais estável, a satisfação é adiada, permitindo assim experiências mentais que põem à prova os diferentes caminhos possíveis da satisfação. c) do ponto de vista do princípio que rege cada processo: CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 45 http://www.psicanaliseclinica.com/ ● o processo primário rege-se pelo princípio do prazer, buscando satisfação imediata e evitar o desprazer; ● o processo secundário rege-se pelo princípio da realidade, buscando a sobrevivência (que é uma forma de satisfação no médio e longo prazo). Associe assim: Processos primários Processos secundários Instância Ics Instâncias Pcs e Cs Energia livre: passa de uma representação a outra, por meio de mecanismos de condensação e deslocamento. Energia ligada a representações mais fixas (estáveis). Busca a satisfação imediata, só se guia pelo mecanismo do prazer e de evitar o desprazer. Permite adiar a satisfação com base em critérios sociais/morais, buscando caminhos de compensação da satisfação (ex.: a segurança social é compensação para o sujeito abrir mão de fazer tudo o que deseja, pois, se o fizesse, seria socialmente punido). Princípio do prazer Princípio da realidade Os termos “primário” e “secundário” têm implicações temporais (o primário vem antes), e mesmo genéticas (o primário está mais ligado ao organismo, enquanto o secundário está ligado às experiências de vida). Estas implicações acentuam-se em Freud no quadro da segunda tópica, em que o ego é definido como resultado de uma diferenciação progressiva do id. Ou seja, o ego é um desenvolvimento tardio do id. Como o id (relacionado ao Ics) antecede o ego, os processos inconscientes são chamados de primários. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 46 http://www.psicanaliseclinica.com/ A questão, no entanto, está presente desde a primeira tópica. É assim que os dois tipos de processos parecem corresponder não apenas a modos de funcionamento ao nível das representações, mas a duas etapas na diferenciação do aparelho neurônico (formação física da mente) e mesmo na evolução do organismo. O processo primário é assim designado por ser o primeiro dos dois padrões de funcionamento mental no quadro da Teoria Topográfica. Desde os primeiros momentos da vida, quando o sistema Ics compreende praticamente a totalidade do aparelho psíquico, sua maneira de funcionar é, também, a única maneira de funcionar da mente. Um pouco mais tarde, começa a aparecer um meio de funcionamento diferente, a que se dá o nome de processo secundário. Para muitos intérpretes de Freud, os qualificativos primário e secundário, exprimem, apenas, uma conotação temporal e biológica, pelo que não se deve consideraro caráter de importância que pode sugerir a nomenclatura. Um dos processos é chamado primário por ser eminentemente imediatista (buscar satisfação imediata), enquanto o outro seria secundário por aceitar adiar sua satisfação e admitir uma mediação social (é justamente no adulto que prepondera o processo secundário, quando as regras sociais morais foram introjetadas via superego). A principal característica do processo primário é a tendência de apresentar descargas totais e imediatas das energias mentais. Assim, essas energias exercem pressão contínua no sentido de serem descarregadas. Isto pode ser observado ante os desejos instintivos da primeira infância, que é quando o processo primário predomina sobre a mente. Seu campo de ação se desenrola dentro do Ics. No inconsciente, devem ser considerados os seguintes mecanismos: CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 47 http://www.psicanaliseclinica.com/ ● deslocamento; ● condensação; ● projeção e ● identificação. É importante observar que a Psicanálise é uma ciência da interpretação. O que mais se interpretam são fatores aparentemente “por acaso” como tendo, na verdade, motivações reveladoras do inconsciente. Nesse sentido, ● são causas: os fenômenos do Ics, que geram uma formação de compromisso (um vínculo) com as consequências. ● são consequências: os sonhos, os sintomas (como fobias e angústias), os atos falhos, os chistes, os lapsos; O estudo da formação dos sintomas e a análise dos sonhos levam Freud a reconhecer um tipo de funcionamento mental que apresenta os seus mecanismos próprios, que é regido por certas leis e é muito diferente dos processos de pensamento que se oferecem à observação psicológica tradicional. Em A interpretação dos sonhos (1900), Freud propõe os mecanismos de formação dos sonhos. Esses mecanismos, na verdade, foram muito além: serviram para explicar o funcionamento do Ics na formação do vínculo com todas as consequências, pois explicavam mecanismos reveladores de como o inconsciente trabalha. Este modo de funcionamento, particularmente evidenciado pelo sonho, caracteriza-se não por uma ausência de sentido, como afirmava a psicologia clássica, mas por um incessante deslizar de sentido. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 48 http://www.psicanaliseclinica.com/ Vejamos quais são esses mecanismos que sustentam os sonhos e, também, os processos primários e o próprio Ics. Aprofundaremos esta temática em Módulos seguintes do nosso Curso de Formação, em que aprofundaremos os mecanismos dos sonhos. a) O deslocamento Consiste na mobilização e mudança de lugar de uma carga psíquica, um deslocamento da importância de uma unidade para outra. No deslocamento, a uma representação muitas vezes aparentemente insignificante podem ser atribuídos todo o valor psíquico, o significado e a intensidade originalmente atribuídos a outra. No exemplo dos sonhos, para Freud um elemento significante do sonho levava a um outro significado, como na poesia a palavra “casa” não reflete apenas “casa” (pode significar “proteção”, por exemplo). b) A condensação Consiste na união de vários elementos separados que tem uma certa afinidade. Na condensação, para uma representação única podem confluir todos os significados trazidos pelas cadeias associativas que se cruzam ali. No exemplo dos sonhos, “sonhar com caixão” (p.ex.) pode condensar uma série de fobias, angústias, ambivalências (como um complexo de Édipo mal resolvido que implique metaforicamente o desejo pela morte do pai). CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 49 http://www.psicanaliseclinica.com/ c) A projeção Produz-se tipicamente na paranoia, em que o sujeito projeta seus impulsos agressivos sobre outro ou outros, e depois sente-se perseguido e acusado por esses mesmos impulsos que ele projetou. d) A identificação A identificação ou transferência da ênfase do objeto para o sujeito constitui uma manifestação psíquica geral. Diz Numberg: “em todo momento nos identificamos com alguém”. Mediante esse processo, uma pessoa considera-se, em certa medida, semelhante a outra, o menino copia o modo de agir do pai, e esse processo de identificação parece ser a possibilidade de uma mútua compreensão humana. Tanto a identificação como a projeção constituem modos de deslocamento, daí se dizer que são dois os mecanismos principais que regem o funcionamento do Ics: (1) o deslocamento (incluindo projeção e identificação) e (2) a condensação. INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) ● Artigo: Formas de acessar o inconsciente ● Artigo: Freud e o Inconsciente: um guia ● Artigo: Princípio do Prazer e Princípio da Realidade CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 50 https://www.psicanaliseclinica.com/como-acessar-o-inconsciente/ https://www.psicanaliseclinica.com/freud-e-o-inconsciente/ https://www.psicanaliseclinica.com/principio-do-prazer-realidade/ http://www.psicanaliseclinica.com/ 4.4. Processos de funcionamento do Inconsciente Ainda relacionado ao processo primário do inconsciente, devemos listar as seguintes características: a) Ausência de cronologia No inconsciente, a cronologia não existe, e tampouco no sonho. Na vivência onírica, podem ocorrer casos em que o tempo e o espaço estejam totalmente ausentes. Carecendo de sentido cronológico, o inconsciente não reconhece passado nem futuro, mas apenas um presente. Por exemplo, um evento traumático da infância é guardado no Ics como se estivesse ocorrendo agora. Todas as tendências são vividas pelo inconsciente no tempo atual, inclusive quando se referem ao passado ou ao futuro. Outro exemplo: um paciente de quarenta anos lutava inconscientemente contra a autoridade paterna, apesar de seu pai ter falecido quando ele tinha apenas oito anos de idade. b) Ausência de conceito de contradição O princípio lógico da não-contradição não funciona no inconsciente, pois nele não há lugar para negação, a negação só acontece pelo trabalho da censura na fronteira dos três sistemas Ics e Pcs. Inconscientemente, podem CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 51 http://www.psicanaliseclinica.com/ viver ódio e amor ao mesmo tempo, sem que um atrapalhe o outro, nem mesmo parcialmente. Podem existir ao mesmo tempo um sim e um não... c) Linguagem simbólica Quando o inconsciente tem que dizer, expressa-se em forma arcaica, utilizando símbolos (será abordado com maior detalhe no módulo sobre sonhos). Na Psicanálise, só é considerado símbolo se o simbolizado estiver reprimido. Um significante (palavra, imagem etc.) revelado estaria no lugar de um significante oculto, cabendo ao analista propor esse deslocamento. d) Igualdade de valores para a realidade interna e a externa,ou supremacia da primeira Nos psicóticos e neuróticos, a realidade interna é tão ou mais valorizada que a externa. O psicótico que vive a fantasia de ser outra pessoa tem nela algo que é tanto ou mais válido do que sua personalidade real. Portanto, é perfeitamente natural que atue como tal. Também o psicótico que se crê milionário vive uma realidade interna mais válida do que a externa; está convencido de que comprou todos os rios e campos do país e, num gesto de generosidade, que nele é autêntico, presenteia um amigo com duas fazendas e um outro com um rio inteiro. Isso parece engraçado, mas, para o homem cuja ação psíquica está condicionada CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 52 http://www.psicanaliseclinica.com/ pelo processo primário, é algo tão sério e tão concreto quanto seria para um sujeito não psicótico que efetivamente vivencia tal situação. e) Predomínio do princípio do prazer O sujeito normal aprende a esperar e a acomodar-se a fim de conseguir a satisfação dos instintos: por exemplo, é capaz de estudar por anos na perspectiva de uma recompensa profissional futura. Por outro lado, o neurótico e sobretudo o psicótico que se encontrem dominados pelo processo primário não podem suportar o desprazer momentâneo, pois estão presos a processos primários inconscientes que demandam a satisfação imediata, sem preocupar-se com as conseqüências que essa satisfação possa apresentar. Esse imperativo constitui o que se denomina de predomínio do princípio do prazer. Dentro do sistema inconsciente, é necessário levar em conta uma porção, uma parte dele, que se encontra integrada por elementos de uma natureza tal que, se chegassem a ser consciente, apresentariam notáveis diferenças em relação aos demais. Esses elementos diferentes, que não têm livre acesso ao sistema consciente, constituem o que se denomina inconsciente reprimido. Portanto, no inconsciente podem ser consideradas, hipoteticamente, ● uma parte composta por elementos que se encontram temporariamente nele e estão, por conseguinte, submetidos às suas leis, mas que podem a qualquer momento tornar-se conscientes; e ● uma parte reprimida cujos elementos não podem aflorar ao consciente mas chegam, mesmo assim, a produzir determinados efeitos por vias indiretas, alcançando a consciência sob forma de sintomas, sonhos, atos falhos, chistes ou sonhos. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 53 http://www.psicanaliseclinica.com/ Todo o reprimido tem que permanecer inconsciente mas não forma por si só todo o conteúdo desse sistema. O conteúdo reprimido é, portanto, uma parte do inconsciente (o inconsciente reprimido), segundo Freud. De acordo com o sistema hipotético, ● o id em sua totalidade é inconsciente; ● parte do ego e parte do superego são inconscientes; ● a outra parte do ego e a outra parte do superego são conscientes. Quando estudamos a Teoria Topográfica, chegamos à conclusão de que a idéia central dominante é de que o aparelho psíquico pode ser dividido em sistemas (Ics, Pcs e Cs), a partir da relação existente entre os mesmos e a consciência. Freud estabeleceu que a Teoria Topográfica reflete, em grande parte, a sua experiência ao analisar neuróticos e que, em decorrência dessa experiência, a sua teoria retrata a mente humana em geral, dividida em três sistemas distintos, a partir da acessibilidade à consciência. Dito isto, podemos, agora, detalhar mais, assim: ● o somatório da energia mental investida num processo ou representação, é chamada de sua catexização; ● o aspecto do funcionamento mental que se relaciona com a energia mental empenhada em determinado fenômeno psíquico é chamado de aspecto econômico (ou seja, quantitativo) desse fenômeno. ● tendo sido a energia mental definida como originária dos impulsos instintivos e desencadeadora da atividade mental, podemos, então, presumir que a gratificação instintiva, resulta em uma descarga de energia mental e que qualquer tipo de atividade psíquica costuma fazer-se acompanhar de transferência de seu fluxo de energia mental. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 54 http://www.psicanaliseclinica.com/ INDICAÇÃO DE LEITURA (OPCIONAL) ● Artigo: Influências do inconsciente no comportamento ● Artigo: “7 Minutos Depois da Meia Noite”: análise do filme CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 55 https://www.psicanaliseclinica.com/influencias-inconsciente/ https://www.psicanaliseclinica.com/7-minutos-depois-da-meia-noite/ http://www.psicanaliseclinica.com/ 4.5. Topografia de Personalidade Ainda estamos abordando a primeira tópica ou teoria topográfica de Freud. A divisão topográfica da Personalidade compreende o Consciente, o Pré-consciente e o Inconsciente, como vimos. ● Consciente: inclui as porções da vida mental a que o indivíduo tem acesso de forma imediata, pelo emprego de sua atenção ou foco. Inclui, também, grande parte (mas não a totalidade) do Ego. ● Pré-consciente: inclui as partes da vida mental que podem ser trazidas ao consciente após um esforço de concentração da atenção e uma “busca na memória”. Na segunda tópica, esta parte compreenderá, principalmente, o Ego. ● Inconsciente: é desconhecido para o indivíduo, apesar de que partes do seu conteúdo possam, às vezes, passar para a pré-consciência e daí virem a se manifestar no consciente, de maneira “distorcida” (na forma de sintomas, elementos do sonho etc.). Na segunda tópica, o inconsciente englobará todo o id e parte do ego e do superego. Veremos, a seguir, a segunda tópica ou teoria estrutural, que não descarta a teoria topográfica (acima), apenas representa uma nova forma com que Freud passou a abordar o sistema psíquico humano. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 56 http://www.psicanaliseclinica.com/ Resumindo a Teoria Topográfica (1ª Tópica): Inconsciente Pré-consciente Consciente Processos primários Processos secundários Processos secundários Representação de coisa Representação de palavra e de coisa Representação de palavra e de coisa Funcionamento atemporal, ambivalente e composto só de afirmações Fronteira entre Ics e Cs Linguagem racional, temporal e espacial CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 57 http://www.psicanaliseclinica.com/ 5. Conceituação da Teoria Estrutural Freud a ela se refere nos anos de 1923, 1926, 1932 e 1940. Encontramos referências espalhadas em vários textos, porém sem uma estruturação sistemática. A sistematização coube aos estudiosos de Freud. Para comparar a 1ª e a 2ª tópicas, vamos retomar um quadro trabalhado em módulos anteriores de nosso Curso. Associe: Modelo Instâncias Primeira Tópica TopográficoIcs, Pcs e Cs Segunda Tópica Estrutural Ego, Id e Superego 5.1. Em que consiste a Teoria Estrutural? A Teoria Estrutural (ou Segunda Tópica) divide o aparelho psíquico em ego, id e superego. As três partes podem ser pensadas nesses blocos: ● Um chamada de Id – acha-se diretamente relacionada com os impulsos instintivos, ao passo que CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 58 http://www.psicanaliseclinica.com/ ● O outro – denominada Ego – é mais coerente e mais organizada. Ela regula ou opõe-se aos impulsos, exercendo função mediadora entre estes e as exigências do mundo externo. ● Na verdade, a segunda parte – o Ego – é já constituído pela ação do mundo externo sobre as idiossincrasias da pessoa em desenvolvimento. Desse modo, parece melhor colocar a terceira parte desta Teoria, a vir ser chamada de Superego, como o mediador, permitindo que o Ego seja desenvolvido de um modo socialmente possível. O que embase a organização de cada Tópica? ● Na primeira tópica, Freud dividiu as instâncias de acordo com a relação com o grau de acesso à consciência. ● Na segunda tópica, a divisão proposta corresponde ao que é possível observar-se do funcionamento da mente em situações de conflito em torno de um impulso instintivo. Explicando melhor a questão do conflito, na segunda tópica. ● De um lado deste conflito, encontra-se o desejo instintivo com as lembranças e fantasias a ele associadas, localizadas no id. ● De outro lado deste conflito, estão as forças anti-instintivas da mente, tanto morais (superego) como racionais/defensivas (ego). A Teoria Estrutural cria uma segunda divisão dentro do próprio Ego, separado do resto do Ego, aquelas funções que podem ser chamadas de morais. A estas dá-se o nome de Superego. Esta divisão corresponde aos conflitos auto-punitivos, isto é, aos conflitos com o id que precisam ser evitados, para assim evitar uma punição externa (social). CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 59 http://www.psicanaliseclinica.com/ A Teoria Estrutural, portanto, divide a mente em três grupos de funções, denominada o Id, o Ego e o Superego. A divisão faz-se de tal maneira que os principais tipos de conflitos mentais com os quais estamos familiarizados possam ser descritos como ocorrendo entre: ● O Id de um lado e o Ego/Superego do outro lado. ● Às vezes, o conflito pode ser também entre o Superego e o Ego. Entendemos, contudo, que o Superego tem natureza de mediador de conflitos. No que estamos apresentando, cada grupo de funções é comumente chamado de estrutura mental, de onde vem o nome de Teoria Estrutural. Passamos a apresentar a caracterização desta Teoria Estrutural. 5.2.1. O Id De acordo com LAPLANCHE & PONTALIS, o id é: “Uma das três instâncias diferenciadas por Freud na sua segunda teoria do aparelho psíquico. O id constitui o pólo pulsional da personalidade. Os seus conteúdos, expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, por um lado hereditários e inatos e, por outro, recalcados e adquiridos. Do ponto de vista econômico, o id é, para Freud, o reservatório inicial da energia psíquica; do ponto de vista dinâmico, entra em conflito com o ego e o superego que, do ponto de vista genético, são as suas diferenciações.” CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 60 http://www.psicanaliseclinica.com/ O id é formado pelos representantes mentais dos impulsos instintivos. Representa a grande fonte de energia mental para o aparelho psíquico, considerado em seu todo. Ou seja, o id (em traduções no português também chamado de “isso”) responde pela nossa motivação para agir. Imagine uma situação em que uma pessoa é extremamente motivada no trabalho. Muitos aspectos poderiam ser discutidos, mas, vamos nos prender ao aspecto da energia mental. Essa pessoa pode estar se empenhando de forma consciente. Mas, para Freud, ainda assim, a energia dessa consciência tem sua origem na energia do id. A energia do id buscaria sua satisfação imediata. Mas, uma vez refreada, essa energia transfere-se ao ego. O ego, por sua vez, sabe que não pode realizar o prazer a qualquer custo, inclusive porque o superego torna presente a ameaça da punição. Assim, a energia precisa se realizar de alguma forma, e isso ocorre, neste exemplo, na forma de uma sublimação: uma energia para o trabalho, que é uma ação considerada legítima aos olhos da sociedade (“olhos” que o superego incorpora no aparelho psíquico do indivíduo). Os desejos do Id exigem gratificação, e assim fazendo, impelem as funções do Ego à ação. O essencial é saber que o impulso e a energia do Ego provêm do Id (o que reforça que não são instâncias isoladas). O termo id foi introduzido com a remodelação a que Freud sujeitou a sua tópica nos anos de 1920-23. Podemos considerar aproximadamente (mas não exatamente) equivalentes: ● o lugar ocupado pelo id na segunda tópica e ● o lugar do sistema inconsciente (Ics) na primeira; com algumas diferenças, porém, que podemos especificar assim: CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 61 http://www.psicanaliseclinica.com/ Se excetuarmos certos conteúdos ou esquemas adquiridos geneticamente (biologicamente), o inconsciente da primeira tópica coincidirá com o recalcado. Ou seja, o id é parte pulsão (surgida desde o nascimento), parte conteúdos vividos (sobretudo na infância) e que foram recalcados. Em O ego e o id (cap. I), pelo contrário, Freud destaca o fato de que a instância recalcante — o ego — e as suas operações defensivas são igualmente, na sua maior parte, inconscientes. Ou seja, o ego precisa ter parte inconsciente para comunicar-se com a instância recalcada (id), que é inconsciente. Daí resulta que o id passa a abranger a partir de então os mesmos conteúdos anteriormente abrangidos pelo Ics, mas já não o conjunto do psiquismo inconsciente inteiro, já que o Cs e o Pcs também possuem partes inconscientes. Por isso, os mecanismos de defesa não atacam (na nova teoria) o inconsciente, mas sim o polo pulsional da personalidade (o id). É neste sentido que o id é concebido como “o grande reservatório” da libido e, mais geralmente, da energia pulsional. A energia do ego advém também do id, porque o id é reservatório da energia pulsional de todo o aparelho psíquico. De acordo com esta Teoria, também chamada de “Dualidade dos Instintos” (Freud, 1920), supõe-se que a energia do Id seja de dois tipos: ● energia agressiva, decorrente do instinto agressivo, e ● a libido, proveniente do instinto erótico. Terá o id um modo de organização, uma estrutura interna específica? O próprio Freud afirmou que o id era “um caos”: “Ele se enche de uma energia proveniente das pulsões, mas não tem organização, não promove qualquer vontade geral...” (FREUD). CURSO DEFORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 62 http://www.psicanaliseclinica.com/ As características do id só se definiriam, de forma negativa, isto é, afirmando o que ele não é, por oposição ao modo de organização do ego (que pode ser melhor conhecido). Na verdade, convém ressaltar que Freud retoma, a propósito do id, a maior parte das propriedades que definiam, na primeira tópica, o sistema Ics: ● processo primário ● ausência de negação ou de dúvida ● realidade própria ● regulação pulsional ● ambivalência. A ambivalência que rege o id é agora representada pela convivência de duas pulsões no id: pulsão de vida e pulsão de morte. A ausência de organização do id é, pois, apenas relativa. O id não tem as relações lógicas evidentes do ego, mas também possuiria um mecanismo (embora mais primitivo), que se caracteriza antes de mais nada pelo fato de que “nela subsistem, lado a lado, moções [pulsionais] contraditórias, sem se suprimirem uma à outra ou se subtraírem uma da outra” (FREUD). É a ausência de sujeito coerente o que melhor caracteriza, como enfatizou Daniel Lagache, a organização do id, e que é expressa pelo pronome neutro escolhido por Freud para designá-lo, como sendo algo próximo ao desconhecido, inalcançável. Finalmente, é a diferença das perspectivas genéticas em que se inscrevem que melhor permite compreender a passagem do inconsciente da primeira tópica para o id da segunda tópica. O inconsciente ia buscar a sua origem no recalcamento, que, sob o seu duplo aspecto histórico e mítico, introduzia no psiquismo a cisão radical entre os sistemas Ics e Pcs-Cs. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 63 http://www.psicanaliseclinica.com/ Com a segunda tópica, este momento da separação entre as instâncias perde a sua característica fundamental. A gênese das diferentes instâncias é antes concebida como uma diferenciação progressiva, uma emergência dos diferentes sistemas. Daí a preocupação de Freud em insistir na continuidade, na gênese que leva da necessidade biológica ao id e, deste, tanto ao ego como ao superego. É neste sentido que a nova concepção freudiana do aparelho psíquico se presta mais facilmente do que a primeira a uma interpretação “biologizante” ou “naturalizante”. 5.2.2. O Ego O ego é, falando em sentido figurado, uma camada diferenciada que se desenvolveu a partir do id. Para aqueles que compreendem a estrutura psíquica como um contínuo, o ego é a parte que nasce do id e se especializa ainda na infância, para que o sujeito possa lidar com o mundo externo. O ego não está separado do id de forma nítida; na sua parte inferior, [o ego] mistura-se com ele [id]. Mas o recalcado mistura-se igualmente com o id, do qual é apenas uma parte. O recalcado só se separa do ego de forma clara pelas resistências de recalcamento, e pode comunicar-se com ele pelo id. (...) [O ego é] a parte do id que foi modificada sob a influência direta do mundo exterior, por intermédio do sistema percepção-consciência.” (FREUD) O ego é a instância que Freud, na sua segunda teoria do aparelho psíquico (segunda tópica), distingue do id e do superego. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 64 http://www.psicanaliseclinica.com/ Do ponto de vista tópico, o ego está numa relação de dependência: ● tanto para com as reivindicações do id, ● como para com os imperativos do superego e exigências da realidade. Embora se situe como mediador, encarregado dos interesses da totalidade da pessoa, a autonomia do ego é apenas relativa. Do ponto de vista dinâmico, o ego representa eminentemente, no conflito neurótico, o pólo defensivo da personalidade; põe em jogo uma série de mecanismos de defesa, estes motivados pela percepção de um afeto desagradável (sinal de angústia), que precisa ser evitado, escondido. O ego, então, empurra a presença deste afeto desagradável para o id, que é um lugar que não vem à tona do consciente, permitindo ao ego “seguir em frente” com a vida prática, apesar dos sintomas que a manutenção deste recalcamento no id irá causar. Do ponto de vista econômico, o ego surge como um fator de ligação entre os processos psíquicos (isto é, o ego “cuida” de si mesmo e faz a mediação entre as demandas sociais do superego e as demandas pulsionais do id). Em comparação à primeira tópica, na segunda o ego é mais vasto do que o sistema pré-consciente/consciente, na medida em que as suas operações defensivas são em grande parte inconscientes. Ou seja, apesar do ego ser responsável por boa parte do que a 1ª tópica atribuía ao par Pcs-Cs, ego (na 2ª tópica) é mais amplo que isso, porque, além da dimensão do consciente, também lida com os imperativos morais (superego) e com os mecanismos de defesa (em boa parte, inconsciente) que conduzem o “lixo” consciente para o id. De um ponto de vista histórico, o conceito tópico do ego é o resultado de uma noção constantemente presente em Freud desde as origens do seu pensamento. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 65 http://www.psicanaliseclinica.com/ O papel determinado pelo Ego na vida psíquica desenvolve-se gradativamente. A princípio, o ego é representado por um grupo de funções sensoriais e motoras que atuam como reservas obedientes do id e, assim dizendo, como suas representantes junto ao mundo externo. Parece fora de dúvida que numerosos fatores acham-se envolvidos na evolução do ego para uma organização coerente das funções mentais. Um desses fatores é o amadurecimento do sistema nervoso. Igualmente indispensável ao desenvolvimento normal do ego são o que chamamos de boas relações objetais primitivas. Queremos referir-nos aqui a um conjunto de experiências com pessoas de seu meio ambiente capaz de oferecer ao indivíduo, enquanto bebê, gratificação e frustração em doses adequadas ou favoráveis (Spitz, 1945 e Kris, 1950). Um passo especialmente significativo no desenvolvimento do Ego é a aquisição da linguagem, que segundo Freud, é um processo elaborado pelo ego que resulta em incalculável facilitação do pensamento. Não confundir o ego com narcisismo (ego narcísico ou ego narcisista). O ego é parte essencial de autoproteção, de desenvolvimento psicossocial, de aprendizado e de autoidentificação (“saber quem sou”). Para isso, o ego transforma a energia pulsional do id para usá-la como energia motriz para todas ações humanas (como o trabalho, a arte, a religiosidade, o estudo, o lazer, o afeto amoroso, a amizade, a participação política etc.). Já o narcisismo é uma condição “patológica” do ego, quando esta pulsão libidinal do ego volta-se excessivamente para o próprio ego, isto é, o sujeito volta sua energia basicamente em favor de si mesmo (o sujeito que ama coincide com osujeito amado), o que o coloca em confronto com o mundo e numa condição de distorção da realidade. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 66 http://www.psicanaliseclinica.com/ 5.2.3. O Superego Da mesma forma que o ego, o superego não constitui uma instância francamente autônoma do id; em grande parte inconsciente, o superego “mergulha no id” (nas palavras de Freud). Pode ser definido como grupo de funções psíquicas ligado às aspirações ideais [ideal: aquilo que “deveria ser”], aos padrões de exigências e às proibições morais. Podemos acrescentar que constituem o Superego todo o processo de educação e controle da sociedade, exercido de modo sistemático e assistemático. O Complexo de Édipo é uma metáfora da formação do Superego: o filho deseja a mãe e rivaliza com o pai; mas, como não pode vencer o pai, acaba se sujeitando e buscando aprendizado e autodesenvolvimento fora desta relação. Mas, antes, para de fato poder “seguir em frente”, deverá aceitar a hegemonia do pai. Como regra, tanto na psicanálise quanto no senso comum, temos a figura do pai como aquela ligada à moral (certo ou errado) e à sanção pelo descumprimento desta moral, enquanto à mãe atribui-se mais um papel da permissão e da acolhida. Encontramos o rival edipiano (o pai) como a fonte principal das identificações que formam o núcleo do superego. A mesma voz “autoritária” do pai vai ser, depois, percebida pela criança em outros contextos sociais, nas figuras: do professor, da autoridade religiosa (como um padre ou um pastor), da propaganda (nossos ideais de consumo e de estética), da pátria (suas regras e leis), enfim, de outras fontes de padrões de conduta moral, de normas para funcionamentos de grupos sociais, entre outros. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 67 http://www.psicanaliseclinica.com/ Freud imaginou o superego como sendo uma parte especializada do Ego. Assim como o Ego se desenvolve do Id, o Superego seria uma especialização do Ego, isto é, uma parte do Ego destinada a reger a internalização das condutas, dos padrões ideais e das punições. O sentimento de culpa é um exemplo de regras que o superego interiorizou no aparelho psíquico. No livro “O mal-estar da civilização” (também traduzido como “O mal-estar da cultura”), Freud dirá que, após sobreviver ao Complexo de Édipo, o sujeito vê que precisa aceitar adiar a satisfação imediata do desejo (id) e admitir as regras externas, para usufruir dos benefícios menos explosivos porém mais perenes (permanentes) da ajuda mútua que (ao menos teoricamente) a vida em sociedade lhe oferece. Normalmente, atribui-se a psicopatas a característica de não terem um superego interiorizado e, em função disso, não terem regras morais rígidas tampouco empatia (que também é uma afeição socialmente aprendida). Assim, esses sujeitos dão satisfação imediata às suas pulsões de libido e de agressividade instintiva em relação a outras pessoas. Como o superego não internalizou as regras morais, só resta a punição social exterior para lhes ser aplicada. Tal punição é exterior em relação a esses psicopatas, mas será internalizada por outros sujeitos (servindo de “exemplo”), pois a punição reforça em outras pessoas a necessidade de ter um superego bem formado. Assim, constitui-se para Freud a noção de “civilização” (sinônimo de “cultura”), em oposição à barbárie (que é um contexto em que prevalece os instintos do id dos indivíduos mais fortes). Pela instância do superego, Freud faz uma ponte entre a dimensão do indivíduo e a dimensão sociológica, firmando a Psicanálise como (a) método terapêutico, (b) teoria sobre o sujeito e CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 68 http://www.psicanaliseclinica.com/ (c) forma de interpretar a cultura e as relações sócio-históricas (uma teoria social). A atividade do Superego pode manifestar-se de várias maneiras. Assim, pode reger as atividades do Ego – em particular as atividades anti-instintivas (isto é, de adiamento do prazer) – de acordo com os seus padrões morais. O Superego funciona, também, de maneira a dar origem, dentro do Ego, a um sentimento de culpa, de remorso, ou a um desejo de penitenciar-se ou de fazer uma reparação. 5.4. Uma representação visual para as duas tópicas CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 69 http://www.psicanaliseclinica.com/ Vamos comentar a imagem acima, que servirá para fazermos uma revisão da matéria estudada neste Módulo. O id é a primeira instância psíquica da vida do sujeito. O sujeito é puro desejo e instinto, busca a satisfação imediata (“eu quero”), impulsionado pela pulsão sexual (Eros ou libido) e a pulsão de agressividade (Tânatos). Com o amadurecimento da vida psíquica (ainda na primeira infância), o id se desdobra em ego (a autoconsciência) e o superego (as limitações de autopunição e os ideais de padrão), aquilo que o sujeito pode/deve e não pode/deve ser e fazer. O id, que, desde o nascimento da pessoa, era apenas pulsional, com o amadurecimento do sujeito (ainda na infância) passa a ser também o lugar dos conteúdos reprimidos. Para isso, o ego se baseará nas regras e padrões do superego para adiar a satisfação imediata, para direcionar a energia do id para “afetos legítimos” de serem realizados e para reprimir ao id aquelas dores que seriam insuportáveis à consciência. A figura acima mescla a teoria estrutural (sintetizada no parágrafo anterior) e a teoria topográfica. Em tal mescla, o id estaria todo inconsciente (e muito do que falamos sobre o Ics na 1ª tópica se aplicaria ao id na 2ª tópica), enquanto o ego e o superego seriam parte consciente, parte inconsciente. Por exemplo, o superego tem uma parte consciente (das regras morais e dos padrões ideais que estão presentes no “eu” consciente) e uma parte inconsciente (as ameaças de punição e os padrões ideais que foram interiorizados como regras que o sujeito incorporou como legítimos, como se fossem originariamente seus, sem mais questioná-los). Ainda considerando a figura acima, o ego tem uma parte consciente que responde pelo racional e pela vida prática (self) e outra que gerencia os mecanismos de defesa e que ajudam a empurrar para as profundezas do id os conteúdos que devam ser reprimidos. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 70 http://www.psicanaliseclinica.com/ 5.5.1. O Funcionamento do ID O id constitui o pólo pulsional da personalidade. Os conteúdos, expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, por um lado hereditários e inatos (nascidos com o sujeito), e por outro, recalcadose adquiridos (resultado das experiências da vida). Do ponto de vista econômico, o id é, para Freud, o reservatório inicial da energia psíquica. A denominação id foi introduzida na terminologia psicanalítica por George Groddeck, que por sua vez a tomou de Nietzsche, sendo legitimada por Freud em seu livro “O ego e o id”, ao lhe conferir um determinado conteúdo conceitual. O id está integrado pela totalidade dos impulsos instintivos. Tem conexão íntima com o biológico, de onde extrai as energias distintivas que, por intermédio do id, adquirem sua exteriorização psíquica. As tendências do id coexistem de forma independente e não são regidas por nenhuma organização unitária. Tudo o que se desenvolve no id está submetido ao processo primário, por isso é regido pelo princípio do prazer e é, em suma, o ser primitivo sem freios. Isso nos leva à questão do instinto, o qual é considerado um excitante interno contínuo que produz, quando é respondido de forma adequada, um gozo específico. Os instintos fazem parte do id, que está totalmente submerso no inconsciente, são regidos pelas leis desse sistema. Todo instinto tende a chegar a um fim – estado de prazer, sendo o exemplo mais típico o do orgasmo genital. Os instintos têm características que lhe são próprias e distintivas: fonte de origem, impulso, objeto e fim. Quando este estado de prazer lhe é vedado, sua energia passa à instância do ego, para ser elaborada na forma de sintoma ou outra forma de ação. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 71 http://www.psicanaliseclinica.com/ Para Freud, são características do id (em muito semelhantes ao que Freud propôs ao Ics, na 1ª tópica): 1. O id é o responsável pelo processo primário. Diante da manifestação do desejo, forma, no plano do imaginário, objeto que permitirá sua satisfação. Um exemplo ilustrativo é o sonho, onde os desejos vão tentando uma satisfação alucinatória ao nível das imagens geradas. Um desejo corresponde a uma carência que, ao ser satisfeita, gerará prazer. 2. O id funciona pelo princípio do prazer. Busca a satisfação imediata das necessidades. Não questiona qualquer aspecto da adaptação do desejo à realidade física, social ou moral. As interdições virão do ego ou do superego, jamais do id. O id sempre manterá o modelo de querer, e de querer a qualquer preço. 3. No id, inexiste o princípio da não-contradição, que é o princípio racional e lógico por excelência. Como não é dimensionado pela realidade, podem estar presentes desejos ou fantasias mutuamente excludentes do ponto de vida lógico, como o de desejar uma pessoa e, ao mesmo tempo, desejar sua morte. Não fosse a “civilização” promovida pelo ego e superego, haveria a “barbárie” provocada pelo id. Voltemos aos sonhos, que são a melhor maneira de exemplificarmos os processos do id. Neles podemos estar mortos e vivos ao mesmo tempo. Podemos entrar no fogo, e o fogo ser frio. Podemos nos ver em dois lugares ao mesmo tempo. Na medida em que o princípio da não-contradição inexiste, todas as coisas são possíveis ao nível do id. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 72 http://www.psicanaliseclinica.com/ 4. O id é atemporal. A única dimensão da vivência é o presente. Não há passado ou futuro. Existe a elaboração de uma única dimensão, vivida como presente. Reviver (recordar) é o mesmo que viver nos sonhos, a recapitulação de um acidente é vivida como o próprio acidente. Nos sonhos, um projeto de realização futura ou os eventos passados são vividos como realização presente: exemplo é quando o sujeito sonha com filhos e netos que ainda não nasceram, ou quando sonha com antepassados já falecidos há anos. Nos próprios devaneios que temos, ou seja, quando sonhamos acordados, transformamos em realizações presentes os desejos com perspectivas realizações futuras. Fantasiamos também em relação aos desejos socialmente produzidos, como por meio da propaganda. Quando o sujeito compra um bilhete de loteria faz planos para a utilização do dinheiro, “vivenciando” a ilusão de real daquele sonho (pelo menos no mundo mental e por uma fração pequena de tempo). 5. O id não é verbal. Funciona pela produção de imagens e, para alguns psicanalistas, por frações de palavras, mas sem formar um discurso coerente. Temos utilizado os sonhos para exemplificar o Id. Mas quando nos recordamos de um sonho, já efetuamos uma elaboração secundária sobre ele, ou seja, já o reduzimos ao domínio da linguagem. Em sua forma original, os sonhos são basicamente plásticos. As imagens são criadas, fragmentadas, deslocadas, combinadas, de forma a se adequarem à satisfação do desejo. O enredo do sonho é o que nos é acessível, mas os mecanismos que geraram o sonho permanecem inalcançáveis. 6. O id funciona basicamente pelos processos de condensação e deslocamento, que são os processos básicos do inconscientes. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 73 http://www.psicanaliseclinica.com/ Na condensação, agrupamos, dentro de uma imagem, características pertencentes a vários processos inconscientes, como fragmentos empilhados uns sobre os outros. No deslocamento, as características de uma imagem são transferidas para outra, com a qual o sujeito estabelece relações como se fosse a primeira. A diferenciação é enquanto modelo, porque dentro do funcionamento real os processos de condensação e deslocamento são superpostos, simultâneos. 7. Finalmente, o id é uma instância estruturalmente inconsciente, está todo imerso no inconsciente. O ego e o superego também têm parte inconsciente, porém essas instâncias têm uma outra parte consciente, que o id não tem. Isto é, todos os processos descritos sobre o id são estruturados sem percepção ou participação do consciente. Os desejos oriundos do id podem ser percebidos pela consciência (podem alcançar o ego), quando não sofrem repressão. Por exemplo, o sujeito pode perceber que parte de sua angústia advém de reprimir um determinado desejo sexual. Às vezes, o desejo toma uma forma compulsiva de realização: um exemplo seria um sujeito com um desejo sexual reprimido que “realiza” o desejo de forma deslocada, por meio da compulsão (por comida, por bebida, por trabalho ou por hábitos ilógicos de TOC, por exemplo). Veremos a seguir que as outras instâncias, o Ego e o Superego, são em parte consciente e inconsciente. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 74 http://www.psicanaliseclinica.com/ Associe assim: Características do id Processo primário Princípio do prazer Não segue a lógica Atemporal Não é verbal Processos de condensação e deslocamento Nível inconsciente 5.5.2. O Funcionamento doEgo De um ponto de vista histórico, o conceito tópico do ego é o resultado de noção constantemente presente em Freud desde as origens do seu pensamento, mas que se tornou mais evidente no contexto da segunda tópica. Para Freud, o ego nada mais é do que uma parte do id modificada pelo impacto ou interação das pulsões internas e dos estímulos externos. Durante as primeiras etapas da Psicanálise, identificava-se todo o ego com o consciente. Mas posições posteriores do próprio Freud colocaram essa instância como tendo partes que no pré-consciente e até mesmo no inconsciente. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 75 http://www.psicanaliseclinica.com/ O principal papel do ego, portanto, é coordenar funções e impulsos internos, e fazer com que os mesmos possam expressar-se no mundo exterior sem conflitos. Uma força do ego – que foi tomada do id – opõe-se aos impulsos instintivos que tentam expressar-se. O ego dispõe de uma organização e é capaz de dirigir todas as tendências do id para uma finalidade determinada. O ego representa eminentemente, no conflito neurótico, o pólo defensivo da personalidade. Isto é, usa de mecanismos de defesa para refrear o id e para reprimir afetos desagradáveis, chamados de sinais de angústia. Freud não teve a preocupação de delimitar pedagogicamente as características do Ego. De seus vários trabalhos, podemos enumerar as seguintes características como constituintes do Ego: 1. O ego dá o juízo de realidade ou senso de realidade, funcionando pelo processo secundário. Vimos que o id dá o nível do desejo, o nível do querer, independentemente das possibilidades reais de o desejo ser satisfeito ou não. Já o ego partirá do desejo da imagem formada pelo processo primário, para tentar construir na realidade caminhos que possibilitem a satisfação do desejo (ou uma consumação real do desejo ou, se não for possível, o ego buscará realizar o desejo da forma permitida, por meio de trabalho, arte, lazer, sintomas etc.). 2. Num esquema mais simples, o processo seria assim: Diante da manifestação do desejo, duas proibições podem opor-se: (1) as proibições morais (oriundas do superego) e as (2) interdições da realidade objetiva (não ser possível ou factível a realização do desejo). Por exemplo, é um sonho humano voar. Quantas vezes, nos nossos sonhos magicamente CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 76 http://www.psicanaliseclinica.com/ alçamos voo sem que tenhamos asas. O desejo não conhece proibições. É necessário que o Ego, instância de realidade, nos estabeleça limites, ou possibilita-nos a aquisição de instrumentos de vôo. Se estivermos apenas no nível do desejo, faríamos de tudo para realizar tal desejo, mas o ego (e sua dimensão moral: o superego) surgem para mostrar que determinado ato não é permitido ou não é factível por outras razões lógicas. Daí, o ego vai buscar uma outra forma de dar vazão à energia que lhe chegou a partir do desejo não realizado. Cabe exatamente ao Ego efetuar a conciliação entre os desejos e proibições internas e os desejos e proibições da realidade objetiva, de forma a possibilitar a atuação conciliatória mais produtiva para o sujeito, dentro dos cenários possíveis. 3. O ego é o segmento mais organizado e atual da personalidade. Mais “atual” no sentido de estar presente, de se confundir com o que sabemos sobre nós. Vimos que o id é uma matriz instintiva, é uma estrutura arcaica, filogenética. O superego contém proibições que também são oriundas da evolução, por exemplo, os tabus contra o incesto, o parricídio (morte ao pai), o matricídio (morte à mãe), o filicídio (morte ao filho). Os valores morais a serem internalizados são o produto dos valores morais dos diversos grupos sociais ao qual o sujeito pertence (família, escola, igreja, mídia e outros grupos que o sujeito escolha ou não pertencer), portanto, são valores também anteriores a ele. Cabe ao Ego organizar uma síntese atual, tornando o sujeito único e original (ou melhor, dando-lhe esta ilusão de “exclusividade”) e permitindo-lhe uma adaptação ativa ao mundo presente em que vive. 4. O ego domina a capacidade da síntese. Aqui englobam todas as funções lógicas do funcionamento mental, que para a Psicanálise são atributos CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 77 http://www.psicanaliseclinica.com/ do Ego. A memória e o desenvolvimento do pensamento lógico e operatório (isto é, a habilidade técnica) estão aqui contidos. Resta lembrar que o conhecimento epistemológico da construção do real é obra de Piaget. Para a Psicanálise, a organização destas funções interessa especialmente ao nível individual, quando as perturbações afetivas comprometem seu funcionamento. 5. O ego detém o domínio da motilidade (capacidade do indivíduo se mover). O domínio do esquema corporal instrumental (o domínio das praxias) é uma função do Ego. A nossa atuação corporal é o nosso instrumento prático de realização do processo secundário. E é exatamente por estar o domínio da motilidade situado no Ego, que quando o ego se vê enfraquecido por distúrbios afetivos a atuação corporal fica prejudicada, rígida, estereotipada, perturbada em suas relações práxicas. Exemplos de transtorno desta função é quando há movimentos aparentemente involuntários, como ocorre na histeria ou na síndrome da perna inquieta ou na paralisia corporal temporária após um forte abalo emocional. 6. O ego organiza a simbolização. O processo primário do id é plástico, não forma discursos complexos e coerentes. Já o processo secundário, ao qual o ego está associado, é responsável por organizar a linguagem, organizar o domínio sobre a realidade física e psíquica, formar gêneros e discursos que permitem as ideias serem elaboradas e comunicadas, além do fato de que esses discursos formam a própria subjetividade das pessoas. 7. O ego é uma sede da angústia, isto é, quando alguém relata que tem uma angústia, é no ego que este sintoma se manifesta, ainda que, na origem, tal fato tenha surgido no id. Como instância adaptativa, o Ego é o responsável CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 78 http://www.psicanaliseclinica.com/ pela detecção dos perigos reais e psicológicos que ameacem a integridade do indivíduo. De acordo com a origem do perigo, classificamos a angústia em: a) Angústia real – normalmente denominada “medo”. É o sinal que mobiliza o indivíduo diante da perspectiva de uma agressão real. Tem inclusive uma dimensão biológica bem definida. Diante do perigo, uma descarga de adrenalina na corrente sanguínea mobiliza uma vasodilatação muscular e uma vasoconstrição periférica e visceral, propiciandoao organismo condições para lutar ou fugir. b) Angústia neurótica. É o temor existente no ego de que o id, ou seja, os desejos, prevaleçam sobre os dados da realidade. Na prática isto acontece numa espécie de sentimento de que estamos enlouquecendo, ou de que não resistiremos ao impulso de matar alguém ou de aceitarmos uma dimensão reprimida de nossa sexualidade ou de fazer quaisquer atos em que estejamos fora do controle. c) Angústia mortal. É um sentimento acusatório no qual sentimos que erramos, que somos maus, e nada mais poderá ser feito a não ser expiar a culpa. Este sentimento provém da atuação de um superego rigoroso que, ao perceber os desejos que condena, passa a punir permanentemente o sujeito que deseja, como se a transgressão houvesse já ocorrido. A confissão dos pecados por pensamento existe em diversas religiões, é um bom exemplo do processo. Por imaginar um ato desonesto, a acusação superegóica de criminoso nos perseguirá, ao imaginar uma atuação sexual nos sentimos imorais e desmerecedores do amor das outras pessoas. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 79 http://www.psicanaliseclinica.com/ Associe assim: Características do id Características do ego Processo primário Processo secundário Princípio do prazer Princípio da realidade Não segue a lógica Segue a lógica, detém capacidade de síntese Atemporal Temporal Não é verbal Verbal, discursivo, organiza o simbólico; controla a motilidade Processos de condensação e deslocamento Responde pela nossa autoimagem (“eu sou”) e negocia com o id a possibilidade de realizar os desejos, por isso é também onde se formam as angústias. Nível inconsciente Nível consciente e inconsciente 5.5.3. O Funcionamento do Superego Para os teóricos, é uma parte do ego que pertence ao desenvolvimento mental considerado sadio. Está integrado ao id e ao ego. É comparado a um filtro ou sensor, e é influenciado pelos princípios religiosos, cultural, história do povo etc. Esse estatuto para “viver bem em relação” denomina-se “consciência” ou “voz da consciência”, e é o conhecido na nomenclatura psicanalítica, desde CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 80 http://www.psicanaliseclinica.com/ a publicação de o Ego e o Id, de Freud, em 1923, como superego, a terceira das instâncias em que consiste o aparelho psíquico na teoria estrutural de Freud. Para ficar mais claro, vamos usar uma imagem pertinente ao imaginário popular. Na cena (muito comum dos desenhos animados) em que um diabinho e um anjinho ficam tentando convencer uma pessoa (um de cada lado do seu ombro), o diabinho seria o id (seus desejos de libido ou agressão, seus instintos), o anjinho seria o superego (suas regras de conduta) e a pessoa “concreta” seria o ego (que vai mediar os conflitos do superego e do id, atendendo-os na medida do possível). O Superego representa todas as restrições morais e todos os impulsos para a perfeição (ideal do que é certo, do que é belo etc.). O conhecimento de sua existência e suas formas de atuação constitui uma grande ajuda para a compreensão de diferentes sintomas, da conduta social do homem, das ciências humanas (sociologia, pedagogia, artes, história, economia, filosofia etc.) e de problemas sociais agudos, como a delinquência e a criminalidade. Segundo Freud, a formação do superego é correlativa do declínio do Complexo de Édipo. A criança, renunciado a satisfação dos seus desejos edipianos marcados pela interdição, transforma seu investimento nos pais em identificação com os pais, isto é, a criança interioriza a interdição e “segue sua vida”, buscando outros objetos (pessoas, coisas, profissão etc.) para investir seu desejo. Um Complexo de Édipo não superado ou mal resolvido (fase fálica) tende a estar na base de um superego fragilizado. Por outro lado, um superego extremamente rígido impõe ao sujeito e à sociedade resultados nada agradáveis, como a angústia pela autocobrança, a CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 81 http://www.psicanaliseclinica.com/ autopunição, o autoflagelo, o perfeccionismo exacerbado, a inação (dificuldade em tomar decisões e praticar ações), a baixa autoestima (por não alcançar os ideais de padrão), a tendência ao autoritarismo, o fanatismo, o aniquilamento do desejo do outro, o antropocentrismo e o desrespeito à diversidade (cultural, sexual, racial e de gênero). Em síntese, são funções do Superego: a auto-observação, autocrítica, a consciência moral, a censura onírica, a influência principal na repressão e a exaltação dos ideais (criação dos “padrões”, como morais e estéticos). Associe assim: Características do id Características do ego Características do superego Processo primário Processo secundário Processo secundário Princípio do prazer Princípio da realidade Princípio da realidade Não segue a lógica Segue a lógica, detém capacidade de síntese Segue a lógica, detém capacidade de síntese Atemporal Temporal Temporal Não é verbal Verbal, discursivo, organiza o simbólico; controla a motilidade Verbal, discursivo, organiza o simbólico especialmente em relação à moral e aos padrões Processos de condensação e deslocamento Responde pela nossa autoimagem (“eu sou”) e negocia com o id a possibilidade de realizar os desejos, por isso é também onde se formam as angústias. É uma derivação do ego, por isso tem muito em comum com ele. Recebe, organiza e interioriza as regras de conduta e os ideais. Nível inconsciente Nível consciente e inconsciente Nível consciente e inconsciente CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 82 http://www.psicanaliseclinica.com/ 5.5.4. A personalidade e sua dinâmica na Teoria Estrutural A energia psíquica, de que, mais acima, já se falou, aparece, subjetivamente, nas manifestações de força, de motivação e de entusiasmo. É universal e indiscutivelmente reconhecida, mas é, também, intraduzível em termos fisiológicos. Constitui-se uma hipotética força propulsora originária no id, responsável por todas as ações psicológicas. No interior da personalidade, encontram-se, em plena atividade, os instintos e a ansiedade pela não vazão desses instintos. Os instintos emanam do id, dispostos de dois pólos pulsionais: o sexual e o agressivo. ● O Sexual (libido, instinto de vida; Eros: o deus grego do amor) compreende o conjunto de energias instintivas que produzem a gratificação individual e a perpetuação da espécie. Sua parte principal está relacionada ao impulso sexual, que tem suas fontes nas zonas erógenas do corpo (genital, oral e anal), cujo estímulo ou manipulação pode produzir sensações agradáveis. Temos como derivados desse instinto: o afeto, o amor, o prazer sexual, o desejo de reprodução, a necessidade de nos associarmos à outras pessoas, a criatividade no trabalho, a prática das artes etc.● O Agressivo (instinto de morte, Thanatos: o deus grego da destruição): compreende todas as forças destrutivas e hostis da psique humana e seus derivados compreendem o impulso de auto-afirmação, a ambição, a competição, o desejo de vencer, o impulso para rivalizar e para triunfar. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 83 http://www.psicanaliseclinica.com/ Frequentemente ocorrem fusões entre os impulsos sexuais e os agressivos, que é o que se observa quando alguém compete na conquista de alcançar um objeto de amor, ou quando luta para preservar a integridade do lar e, ainda, as atividades sadomasoquistas. Constituem exemplos da fusão referida, com a agressão contra os outros ou ao próprio ego. Quanto à ansiedade, sob condições normais, ela previne contra um perigo iminente, pois ao ser despertada motiva a pessoa a se pôr em condições de luta ou fuga. Mas, quando perpetuada, acarreta um mal-estar, porque a energia pulsional não encontra a adequada liberação. Há três tipos de ansiedade: ● A ansiedade real, que é o medo de perigos reais do mundo exterior, assim é que, ao sentirmos o cheiro da fumaça, teremos o fogo. ● A ansiedade neurótica: que é o medo de que os instintos escapem do controle, obrigando a pessoa a fazer algo que não a leve a punição. É o caso do indivíduo que odiando um chefe, tema que por meio de seus atos transpareça o ódio, o que poderia resultar na sua demissão do emprego. ● A ansiedade moralística: que é o medo do Superego, que sente o indivíduo quando faz algo que fira seu código moral. Pode acontecer que a ansiedade neurótica se torne em ansiedade livremente flutuante. Isso ocorre quando os sentimentos ansiosos que emanam de um conflito específico se expandem para uma série de situações aparentemente neutras ou irrelevantes, de tal modo que o indivíduo não consegue explicar qualquer ligação entre os sentimentos ansiosos e quaisquer outras situações específicas. A ansiedade se generaliza e o indivíduo fica aflito em relação a situações diversificadas da vida. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 84 http://www.psicanaliseclinica.com/ 6. Revisão Vamos repassar alguns dos principais pontos estudados. Esta é a diferenciação entre 1a e 2a tópicas freudianas: ● Primeira Tópica: primeira fase da obra de Freud, em que ele dividia as instâncias do aparelho psíquico em Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente. ● Segunda Tópica: segunda fase da obra de Freud, em que o autor estabelece as instâncias do aparelho psíquico como sendo Id, Ego e Superego. Sobre os termos mais relacionados a cada tópica: Modelo Instâncias Primeira Tópica Topográfico Ics, Pcs e Cs Segunda Tópica Estrutural Ego, Id e Superego São as três instâncias do aparelho psíquico de acordo com a 1a tópica (modelo topográfico): ● Inconsciente (Ics): Constituído por conteúdos reprimidos e que não têm acesso direto ao sistema Pcs/Cs. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 85 http://www.psicanaliseclinica.com/ ● Pré-consciente (Pcs): instância que mantém conteúdos acessíveis ao nível consciente, ou seja, disponibiliza os conteúdos, mas não pertence à consciência no atual momento. Mantém parte de sua estrutura ligada tanto Ics quando ao Cs. ● Consciente (Cs): Instância que se relaciona os estímulos/informações provenientes do mundo externo e do mundo interno. É responsável pela percepção, atenção e raciocínio. Um quadro comparativo entre as três instâncias da 1a tópica: Inconsciente Pré-consciente Consciente Processos primários Processos secundários Processos secundários Representação de coisa Representação de palavra e de coisa Representação de palavra e de coisa Funcionamento atemporal, ambivalente e composto só de afirmações Fronteira entre Ics e Cs Linguagem racional, temporal e espacial As três instâncias psíquicas de acordo com a Segunda Tópica: ● ID: instância psíquica mais profunda e vasta, a qual contém reservada a energia psíquica, ou seja, as pulsões que, aqui, se configuram regidas pelo princípio do prazer, em busca da satisfação do desejo, alheios à realidade e à moral. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 86 http://www.psicanaliseclinica.com/ ● EGO: instância psíquica que tem como principal função buscar um equilíbrio entre as descargas de excitações. Orientado pelo princípio da realidade, o ego é um regulador que busca atender os desejos, considerando as condições objetivas da realidade. Portanto, situa-se entre a satisfação do id e as impossibilidades advindas do superego. Além disso, atua como um supervisor dos processos psíquicos, evitando um sofrimento psíquico exacerbado que leve à desorganização, a exemplo das censuras presentes nos sonhos. ● SUPEREGO: instância psíquica que busca a regulação moral condicionada pelas exigências sociais e culturais. Surge com a internalização de conteúdos como limitações, proibições e autoridade, em geral a partir da relação com os pais. Uma representação gráfica reunindo as duas tópicas: CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 87 http://www.psicanaliseclinica.com/ CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 88 http://www.psicanaliseclinica.com/ Sobre as características mais marcantes de cada uma das instâncias da teoria estrutural: Características do id Características do ego Características do superego Processo primário Processo secundário Processo secundário Princípio do prazer Princípio da realidade Princípio da realidade Não segue a lógica Segue a lógica, detém capacidade de síntese Segue a lógica, detém capacidade de síntese Atemporal Temporal Temporal Não é verbal Verbal, discursivo, organiza o simbólico; controla a motilidade Verbal, discursivo, organiza o simbólico especialmente em relação à moral e aos padrões Processos de condensação e deslocamento Responde pela nossa autoimagem (“eu sou”) e negocia com o id a possibilidade de realizar os desejos, por isso é também onde se formam as angústias. É uma derivação do ego, por isso tem muito em comum com ele. Recebe, organiza e interioriza as regras de conduta e os ideais. Nível inconsciente Nível consciente e inconsciente Nível consciente e inconsciente Este material é parte das aulas do Curso de Formação em Psicanálise. Proibida a distribuição onerosa ou gratuita por qualquer meio, para não alunos do Curso. Os créditos às obras usadas como referências ou citação constam nas Referências Bibliográficas. Todos os direitos reservados ao Curso. CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com Todos os Direitos Reservados - MÓDULO 4 - O MÉTODO PSICANALÍTICO - pág. 89 https://drive.google.com/file/d/0BzB3Lb9sbna2SzVCYmYtbmh1N0k/view?usp=sharing http://www.psicanaliseclinica.com/