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UNIVERSDADE FEDERAL FLUMINENSE 
 PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO 
FACULDADE DE DIREITO 
 
 
 
CECILIA ROXO BRUNO 
 
 
 
 
LEI MARIA DA PENHA: 
UM ESTUDO SOBRE OS MECANISMOS DE PROTEÇÃO À MULHER EM SITUAÇÃO 
DE VIOLÊNCIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Niterói 
2016 
 
 
 
 
 
UNIVERSDADE FEDERAL FLUMINENSE 
PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO 
FACULDADE DE DIREITO 
 
 
 
CECILIA ROXO BRUNO 
 
 
 
 
LEI MARIA DA PENHA: 
UM ESTUDO SOBRE OS MECANISMOS DE PROTEÇÃO À MULHER EM SITUAÇÃO 
DE VIOLÊNCIA 
 
 
 
 
 
Monografia apresentada ao Curso de Direito da 
Universidade Federal Fluminense como requisito à 
aprovação da disciplina TCC II 
 
Orientadora: Profa Dra. Cristiana Vianna Veras 
 
 
Niterói 
 2016 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Universidade Federal Fluminense 
Superintendência de Documentação 
 Biblioteca da Faculdade de Direito 
 
 
B898 
 
Bruno, Cecilia Roxo. 
 Lei Maria da Penha: um estudo sobre os mecanismos de proteção à 
mulher em situação de violência / Cecilia Roxo Bruno. – Niterói, 2016. 
 56 f. 
 
 Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito) – 
Universidade Federal Fluminense, 2016. 
 
1. Violência doméstica. 2. Violência contra a mulher. 3. 
Discriminação sexual. 4. Relações familiares. 5. Direitos da 
mulher. I. Universidade Federal Fluminense. Faculdade de 
Direito. II. Título. 
 
CDD 341.5 
 
 
 
 
 
 
CECILIA ROXO BRUNO 
 
 
LEI MARIA DA PENHA: 
UM ESTUDO SOBRE OS MECANISMOS DE PROTEÇÃO À MULHER EM SITUAÇÃO 
DE VIOLÊNCIA 
 
 
 Monografia apresentada ao Curso de 
Direito da Universidade Federal 
Fluminense como requisito à aprovação da 
disciplina TCC II 
 
Aprovada em ____ de __________ de 2016. 
 
BANCA EXAMINADORA 
 
 
Profa. Cristiana Vianna Veras – Orientador 
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE 
 
Profa. Tatiana Carvalho 
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE 
 
Prof. Joaquim L. de R. Alvim 
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aos meus amados pais e à minha doce irmã, Raquel. 
 
 
 
 
 AGRADECIMENTOS 
 
Inicialmente, gostaria de agradecer a Deus, Senhor da minha vida, que, por toda a minha 
trajetória acadêmica, abriu portas, guiou meus caminhos e me capacitou mesmo quando eu 
não me considerava capaz. Tenho certeza de que se hoje estou completando esta etapa, isso 
se deve à maravilhosa graça e à misericórdia divina; 
 
Agradeço à minha super mãe Maria do Rosário, mulher sensível e dedicada, que sempre 
me encorajou a superar meus limites e medos. Por sempre acreditar na minha capacidade 
de romper barreiras e, com muito amor, ter me ajudado a realizar este trabalho. Minha mãe 
é um exemplo de mulher empoderada, em quem me espelho para alcançar meus sonhos; 
 
Ao meu amado pai Sebastião Bruno, melhor amigo, incansavelmente dedicado às filhas e 
amostra viva do amor de Deus como pai. Guardarei eternamente em meu coração todos os 
seus ensinamentos e lições de sabedoria. Agradeço por ser sempre meu porto seguro e por 
se fazer presente em todos os aspectos da minha vida desde a infância; 
 
À minha linda irmã Raquel, companheira de aventuras, verdadeira amiga com quem tenho 
o privilégio de conviver. Por ser um exemplo de maturidade, autenticidade e pureza. Por 
tantas vezes me acolher com o espírito cuidadoso e protetor em momentos difíceis, como 
se fosse a mais velha entre nós. Minha doce "sá", você me inspira a viver! 
 
Aos meus adoráveis amigos, sempre bem humorados, amorosos e fiéis. À Mayara, Larissa, 
Alexia, Anna Gabi e Paulla, por compartilharem comigo as alegrias e momentos de tristeza 
em todos esses anos de graduação. Ao Edesio, Gabriella, Sharon, Susane e Wisrah por me 
apoiarem, ouvirem e acreditarem na minha competência, com todo o carinho e lealdade; 
 
Ao NUDEM - Rio de Janeiro, pela concessão da entrevista que tornou possível a 
realização desta pesquisa; 
 
Por fim, agradeço à minha orientadora Profa. Dra. Cristiana Veras, por me auxiliar neste 
trabalho, me incentivando a realizar a pesquisa de campo e, por conseguinte, ensinando-me 
a fazê-la corretamente, de modo a enriquecer este estudo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Há pessoas que nos roubam... 
Há pessoas que nos devolvem." 
 
Padre Fábio de Melo 
 
 
 
 
 
 
 
 RESUMO 
 
O princípio da igualdade é um dos pressupostos essenciais à realização do estado 
democrático de direito, sem o qual não é possível desenvolver uma sociedade plenamente 
fundada nos direitos humanos. Diante disso, propomos este trabalho com o objetivo de 
demonstrar a aplicabilidade dos mecanismos de proteção à mulher em situação de 
violência, introduzidos pela Lei Maria da Penha, problematizando a igualdade de gênero 
no Brasil. O foco deste estudo está na constitucionalidade e eficiência da Lei 11.340/2006, 
bem como na necessidade de desconstrução da mentalidade patriarcal. Neste sentido, como 
metodologia de pesquisa, efetuamos uma entrevista no Núcleo de Defesa dos Direitos da 
Mulher Vítima de Violência (NUDEM), órgão pertencente à Defensoria Pública do Rio de 
Janeiro, onde analisamos a eficácia do sistema de proteção à mulher, incorporado pela Lei 
Maria da Penha, segundo o ponto de vista da coordenadora do núcleo, Arlanza Maria 
Rodrigues Rebello. Os resultados do estudo revelam a necessidade de empoderamento 
feminino, da desconstrução do imaginário machista e da multidisciplinaridade no 
atendimento a mulher. 
 
Palavras-chave: Lei Maria da Penha. Violência Doméstica. Igualdade de Gênero. 
Empoderamento. Mecanismos de Proteção. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 ABSTRACT 
 
The principle of equality is one of the essential assumptions to the realization of the 
democratic rule of law, without which it is not possible to develop a fully established 
society on human rights. Therefore, we propose this work in order to demonstrate the 
applicability of the protection mechanisms for women in situations of violence, introduced 
by Maria da Penha Law, problematising gender equality in Brazil. The focus of this study 
is on the constitutionality and efficiency of the 11.340/2006 Law, as well as the need to 
deconstruct the patriarchal mentality. In this sense, as a research methodology, we have 
made an interview in the "Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher Vítima de Violência 
(NUDEM)", an agency that belongs to the Public Defender's Office of Rio de Janeiro, 
where we analyzed the effectiveness of the women's protection system, built by Maria da 
Penha Law, from the point of view of the core coordinator, Arlanza Maria Rodrigues 
Rebello. The study results reveal the need for women's empowerment, the deconstruction 
of sexist imagery and multidisciplinary care in women. 
 
Palavras-chave: Maria da Penha Law. Domestic violence. Gender equality. 
Empowerment. Protection mechanisms. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
1. GARANTIA DA IGUALDADE DE “GÊNERO” 
 
1.1 A questão de "gênero": perspectiva histórico-social 
1.2 Igualdade material e igualdade formal 
1.3 LeiMaria da Penha como instrumento de igualdade 
 
2. LEI MARIA DA PENHA 
 
2.1 Surgimento da Lei 11.340 de 2006 
 
2.2 Inovações da Lei Maria da Penha 
2.2.1 Afastamento da Lei 9.099/95 
2.2.2 Introdução da expressão "situação de violência" 
2.2.3 Tutela específica para as mulheres e conceituação da "violência de 
gênero" 
2.2.4 Proteção nas relações homoafetivas 
2.2.5 As Medidas Protetivas de Urgência 
2.2.6 Criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar com 
competência híbrida 
 
2.3 O tratamento do homem na Lei Maria da Penha 
 
3. APLICABILIDADE DA LEI MARIA DA PENHA: A EXPERIÊNCIA DO 
NUDEM NO RIO DE JANEIRO 
 
3.1 Aplicação do protocolo entrevista 
 
3.2 Análise da entrevista 
3.2.1 Sobre os crimes mais recorrentes 
3.2.2 Dos crimes no âmbito da internet 
3.2.3 Sobre o comportamento da mulher vítima 
3.2.4 Mudanças produzidas pela Lei Maria da Penha 
3.2.5 Sobre a efetividade das Medidas Protetivas 
3.2.6 Sobre as dificuldades encontradas pelo NUDEM 
3.2.7 Sobre a inexistência de um perfil da mulher em situação de violência 
 
 
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
9 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
 
 Esta pesquisa tem por objetivo analisar os institutos legais introduzidos pela Lei Maria 
da Penha, bem como sua aplicabilidade e eficácia. Para tanto, utilizaremos referenciais 
teóricos, realizando, ao fim, como metodologia desse trabalho, uma entrevista no Núcleo de 
Defesa dos Direitos da Mulher Vítima de Violência (NUDEM) da Defensoria Pública do Rio 
de Janeiro. 
 A Lei Maria da Penha surge em 2006 como instrumento legal apropriado para o 
enfrentamento da violência doméstica, diante de uma demanda social urgente. Vivemos em 
uma sociedade marcada pela cultura patriarcal de "objetificação", pela qual subsiste o ideário 
de que a mulher está subjugada ao homem, excluindo sua condição de sujeito de direitos. Esta 
construção machista tem como um de seus piores desdobramentos a violência de gênero, que 
atinge mulheres dos mais diversos grupos sociais, seja fisicamente, psicologicamente, 
sexualmente, patrimonialmente ou moralmente. 
 Neste sentido, ainda que a Constituição da República preveja a igualdade como um de 
seus princípios fundamentais, reconhecemos a importância da elaboração de normas 
específicas e políticas públicas voltadas à redução das desigualdades de fato, de modo a 
alcançar uma sociedade mais justa e equilibrada. 
 Perante o panorama destacado, este estudo justifica-se pela necessidade contínua de 
informações que possam demonstrar não só o teor dos mecanismos de proteção da lei, como 
também a execução e efetividade destas inovações normativas, que compõem o sistema de 
atendimento à mulher vítima. 
 Para isso, partiremos do pressuposto de constitucionalidade da Lei Maria da Penha, à 
luz dos princípios da igualdade material, isonomia e dignidade da pessoa humana, pelos quais 
o estatuto pode ser considerado como ação afirmativa de proteção específica das mulheres e 
instrumento capaz de contribuir para a superação da desigualdade de gênero. 
 Desse modo, esperamos colaborar para a desconstrução do senso comum de 
naturalização das práticas de violência e para o desenvolvimento de uma perspectiva solidária 
em relação à mulher vítima, assimilando a complexidade desta forma de violação. Além 
disso, esperamos encorajar o sentimento de empoderamento feminino, o diálogo e as 
discussões acerca da violência doméstica, de maneira a promover a não aceitação e a 
identificação de relações abusivas. 
10 
 
 
 Sob tais fundamentos, como metodologia deste trabalho, realizamos uma pesquisa de 
campo, entrevistando a defensora pública Arlanza Maria Rodrigues Rebello, coordenadora do 
Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher Vítima de Violência (NUDEM), situado na cidade 
do Rio de Janeiro. O órgão é responsável pelo atendimento jurídico às mulheres 
hipossuficientes em situação de violência, bem como pela difusão de iniciativas voltadas ao 
tema. A intenção é compreender como a Lei Maria da Penha vem sendo aplicada na prática e 
a efetividade de seus mecanismos. Assim, levamos em conta os relatos e a experiência da 
entrevistada, considerando a relevância do ponto de vista de quem atua na esfera jurídica se 
utilizando da Lei Maria da Penha em defesa das mulheres vítimas. 
 Esperamos com esta pesquisa, abrir caminhos para futuros estudos engajados no 
aprimoramento das práticas de enfrentamento da violência doméstica e superação da 
desigualdade de gênero, sempre através do diálogo e da informação, para nos tornarmos 
agentes capazes de promover a construção de uma sociedade livre desta problemática. 
 Para tanto, o presente estudo segue em quatro capítulos numerados de um a quatro. 
 No capítulo um, damos destaque ao conceito de gênero, para, a partir de então, 
introduzir o panorama histórico no qual se desenvolveram as lutas feministas e o processo de 
constitucionalização no Brasil. Também demonstramos a constitucionalidade da Lei Maria da 
Penha, diante do princípio da igualdade material, observando que a lei procura transformar 
um contexto social de real desproporção em relação às mulheres. 
 No capítulo dois, apresentamos o caso concreto de Maria da Penha Fernandes, bem 
como o desencadeamento do processo de elaboração da Lei 11.340 de 2006, ressaltando a 
importância do movimento feminista. Além disso, tratamos das inovações e mecanismos de 
proteção introduzidos pela Lei Maria da Penha no ordenamento jurídico brasileiro, 
analisando, outrossim, o tratamento dado ao homem pelo estatuto. 
 Finalmente, no capítulo três, trazemos o resultado da entrevista realizada no NUDEM, 
descrevendo as observações detectadas em nossa conversa, de modo a enriquecer o presente 
trabalho através de uma perspectiva prática sobre os institutos legais fornecidos pela Lei 
Maria da Penha. 
 
 
 
 
 
11 
 
 
 
1. GARANTIA DA IGUALDADE DE "GÊNERO" 
 
 
Neste capítulo, trataremos do conceito de gênero, considerando a igualdade entre 
homens e mulheres estabelecida na Constituição da República e o processo histórico no qual 
as lutas pelo reconhecimento das mulheres como “sujeitos de direito” se desenvolveram. Será 
demonstrada a distinção entre igualdade formal e material, tendo em vista a necessidade de 
implementação de políticas públicas que promovam a igualdade de gênero, além de uma 
maior participação feminina na política e no judiciário brasileiros. 
 
 
1.1 A QUESTÃO DE "GÊNERO": PERSPECTIVA HISTÓRICO-SOCIAL 
 
 O direito à igualdade de gênero é estabelecido na Constituição da República 
Federativa do Brasil de 1988, com fulcro no princípio da isonomia entre homens e mulheres 
no que se refere a direitos e obrigações, conforme dispõe o art. 5º, inciso I. Em 2002, o Brasil 
aderiu à Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a 
Mulher (CEDAW), adotada em 1979, além de outros instrumentos legais que tinham por base 
a Carta das Nações Unidas
1
. A Convenção tratou de vedar qualquer tipo de distinção, 
exclusão ou restrição baseada no sexo, determinando a elaboração de políticas públicas de 
inclusão, com o objetivo de se obter uma maior participação feminina nas esferas política, 
econômica e social, como se nota no trecho destacado de Pimentel (s/d, p. 20): 
 
Artigo 1º - Para fins da presente Convenção, a expressão "discriminação contra a 
mulher" significará toda distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que 
tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou 
exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, com base na 
igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanose liberdades fundamentais 
nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo. 
 
 
1“O Protocolo Facultativo da CEDAW foi adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1999. Até 
fevereiro de 2002, 73 países já o haviam assinado – dentre eles o Brasil – e 31 países já o haviam ratificado. O 
Governo brasileiro assinou o Protocolo Facultativo à CEDAW em março de 2001 e, em 2002, ratificou-o”. In: 
PIMENTEL, Silvia. Convenção Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher. 
Cedaw 1979, pp. 17-18. Disponível em: http://compromissoeatitude.org.br/wp-
content/uploads/2012/08/SPM2006_CEDAW_portugues.pdf. 
 
 
12 
 
 
Artigo 2º - Os Estados-partes condenam a discriminação contra a mulher em todas 
as suas formas, concordam em seguir, por todos os meios apropriados e sem 
dilações, uma política destinada a eliminar a discriminação contra a mulher, e com 
tal objetivo se comprometem a: 
 
a) consagrar, se ainda não o tiverem feito, em suas Constituições nacionais ou em 
outra legislação apropriada, o princípio da igualdade do homem e da mulher e 
assegurar por lei outros meios apropriados à realização prática desse princípio; 
 
b) adotar medidas adequadas, legislativas e de outro caráter, com as sanções cabíveis 
e que proíbam toda discriminação contra a mulher; 
 
c) estabelecer a proteção jurídica dos direitos da mulher em uma base de igualdade 
com os do homem e garantir, por meio dos tribunais nacionais competentes e de 
outras instituições públicas, a proteção efetiva da mulher contra todo ato de 
discriminação; 
 
d) abster-se de incorrer em todo ato ou prática de discriminação contra a mulher e 
zelar para que as autoridades e instituições públicas atuem em conformidade com 
esta obrigação; 
 
e) tomar as medidas apropriadas para eliminar a discriminação contra a mulher 
praticada por qualquer pessoa, organização ou empresa; 
 
f) adotar todas as medidas adequadas, inclusive de caráter legislativo, para modificar 
ou derrogar leis, regulamentos, usos e práticas que constituam discriminação contra 
a mulher; 
 
g) derrogar todas as disposições penais nacionais que constituam discriminação 
contra a mulher. 
 
 
 O crescente movimento pela valorização dos direitos humanos restituiu a discussão 
acerca do direito à igualdade de tratamento entre homens e mulheres, fazendo com que 
voltássemos à problematização do conceito de gênero. Neste sentido é necessário esclarecer 
que "gênero" diz respeito à ótica do indivíduo sobre si mesmo, para além do sexo, do corpo e 
da orientação sexual (HEILBORN, 1997). O estudo do gênero visa, portanto, compreender a 
naturalização de aspectos sociais e comportamentais que são atribuídos culturalmente ao 
homem ou à mulher. 
 Ao tratar da questão do gênero, pretende-se demonstrar, especificamente, a existência 
de atribuições femininas e masculinas que são fruto de uma construção social, sendo certo que 
estas atribuições são absorvidas pelo corpo e pelo psicológico humano de modo tão arraigado 
culturalmente que são consideradas como produto da própria essência do sexo ou da natureza 
do corpo (HEILBORN, op. cit.). Sobre o tema, Heilborn afirma que: 
 
A Antropologia tem chamado a atenção de que estas realidades são apenas 
aparentes. Trata-se de uma ilusão de que compartilhamos com os outros seres 
humanos uma mesma condição fundada na existência do corpo, do sexo, no sentido 
13 
 
 
de existirem machos e fêmeas, e da sexualidade. Na verdade, isso passa sempre e 
necessariamente por uma simbolização, por uma construção cultural e social 
específica. (HEILBORN, 1997, p. 01) 
 
 
 Sob esta perspectiva de gênero, entende-se que a desigualdade de direitos entre 
homens e mulheres se desenvolveu com base em uma construção social de que algumas áreas 
de atuação, características e comportamentos são "femininos", enquanto as demais esferas são 
de domínio "masculino" e, portanto, inacessíveis às mulheres. Esta distinção que por tanto 
tempo suprimiu os direitos das mulheres tornou-se alvo de lutas e movimentos sociais que 
reivindicavam a igualdade de gênero, notadamente o movimento feminista. 
 O movimento feminista foi fundamental na luta pela igualdade de gênero, sendo 
registrado historicamente através de duas grandes ondas (MEYER, 2004). A primeira é 
marcada, principalmente, pelo movimento em prol do sufrágio universal, o qual teve início no 
Brasil com a Proclamação de República em 1890, sendo conquistado pelas mulheres em 1934. 
A segunda onda de movimentos feministas, por sua vez, se insere no cenário político de pós 
2ª Guerra Mundial, caracterizando-se por uma maior produção intelectual, e pelos crescentes 
movimentos de contestação que percorreram a Europa e a América no século XX, culminando 
em maio de 1968
2
 na França. 
No Brasil, a segunda onda de lutas feministas por direitos sociais e políticos se 
associava aos movimentos estudantis de oposição à ditadura militar e, posteriormente, ao 
processo de redemocratização na década de 80 (MEYER, 2004). 
 A conjuntura política da segunda metade do século XX trouxe uma atmosfera de 
questionamento e favoreceu a discussão acerca dos direitos das mulheres. Com o fim da 2ª 
Guerra Mundial e a decadência dos regimes totalitários, a Europa passou por um longo 
período de constitucionalização, marcado pela filosofia pós-positivista e pela instauração do 
Estado Democrático de Direito, através da aproximação das ideias de constitucionalismo e 
democracia (BARROSO, 2011). 
 A constitucionalização brasileira ocorre após o período autoritário de ditadura militar, 
no âmbito da redemocratização, consolidando-se com a Constituição de 1988 que previa 
formalmente a igualdade entre homens e mulheres perante a lei, além de mecanismos e 
 
2
 V. Mario Schmidt, Nova História Crítica, 2008, p. 673: "Acontece que 1968 incorporou uma nova visão 
política. Até então a esquerda privilegiava a luta econômica contra a exploração capitalista e restringia o objetivo 
político ao combate para destruir o Estado burguês. Pois 1968 mostrou que a opressão capitalista também 
acontecia em outros pontos, esmagando as individualidades e provocando angústia. Temas como ecologia, os 
direitos da mulher, dos velhos e dos homossexuais, a loucura, as necessidades existenciais e a realização do ser 
humano passaram a ser enfocados com toda a atenção e sob perspectivas libertárias". 
14 
 
 
diretrizes para promover os direitos das mulheres. Sobre o marco da Constituição de 1988, 
Barroso indica que: 
 
Sob a Constituição de 1988, o direito constitucional no Brasil passou da 
desimportância ao apogeu em menos de uma geração. Uma Constituição não é só 
técnica. Tem de haver, por trás dela, a capacidade de simbolizar conquistas e de 
mobilizar o imaginário das pessoas para novos avanços. O surgimento de um 
sentimento constitucional no país é algo que merece ser celebrado. Trata-se de um 
sentimento ainda tímido, mas real e sincero, e de maior respeito pela Lei Maior, a 
despeito da volubilidade de seu texto. É um grande progresso. Superamos a crônica 
indiferença que, historicamente, se mantinha em relação à Constituição. E para os 
que sabem, é a indiferença, não o ódio, o contrário do amor. (BARROSO, 2011, p. 
268) 
 
 
 Segundo Barroso (op. cit.), o neoconstitucionalismo consagrou valores morais 
compartilhados pela sociedade que se configuram no texto constitucional na forma de 
princípios. Dentre os diversos princípios incorporados pela Constituição brasileira, o princípio 
da dignidade humana eo princípio da isonomia consolidaram-se como referências essenciais 
na busca pela igualdade de gênero e no reconhecimento da figura feminina como sujeito de 
direitos. 
 O princípio da dignidade se deslocou do campo ético e religioso, passando a figurar 
em diversos documentos internacionais após a 2ª Guerra Mundial. Por ele temos a máxima de 
respeito ao próximo (BARROSO, 2011), determinando, mais precisamente, que todas as 
pessoas possuem direito a tratamento digno. A dignidade humana traz a reafirmação do 
imperativo categórico Kantiano, pelo qual cada indivíduo é um fim em si mesmo, excluindo 
proposições utilitaristas. Nas palavras de Barroso (op. cit., p. 274), "ele representa a superação 
da intolerância, da discriminação, da exclusão social, da violência, da incapacidade de aceitar 
o outro, o diferente, na plenitude de sua liberdade de ser, pensar e criar". 
 Para o estudo da igualdade de gênero, a incorporação do princípio da dignidade 
humana no ordenamento jurídico brasileiro significou o reconhecimento da mulher como 
detentora de direitos. A Constituição de 1988 contemplou cerca de 80% das propostas 
feministas à época, o que modificou substancialmente o status jurídico das mulheres no Brasil 
(CARNEIRO, 2003). Daí a substancialidade e força do movimento feminista no Brasil, que 
foi capaz de proporcionar a inserção de direitos e prerrogativas das mulheres no instrumento 
legal de maior importância do nosso ordenamento jurídico. 
 O feminismo brasileiro foi responsável, juntamente a outros movimentos 
progressistas, pela redemocratização e incorporação constitucional de pautas que garantiam 
15 
 
 
direitos às minorias sociais, o que permitiu a discussão e elaboração de políticas públicas de 
proteção à mulher. Sobre as inovações no campo das políticas públicas em favor das 
mulheres, Carneiro destaca o seguinte: 
 
Destaca-se, nesse cenário, a criação dos Conselhos da Condição Feminina – órgãos 
voltados para o desenho de políticas públicas de promoção da igualdade de gênero e 
combate à discriminação contra as mulheres. A luta contra a violência doméstica e 
sexual estabeleceu uma mudança de paradigma em relação às questões de público e 
privado. A violência doméstica tida como algo da dimensão do privado alcança a 
esfera pública e torna-se objeto de políticas específicas. Esse deslocamento faz com 
que a administração pública introduza novos organismos, como: as Delegacias 
Especializadas no Atendimento à Mulher (Deams), os abrigos institucionais para a 
proteção de mulheres em situação de violência; e outras necessidades para a 
efetivação de políticas públicas voltadas para as mulheres, a exemplo do treinamento 
de profissionais da segurança pública no que diz respeito às situações de violência 
contra a mulher, entre outras iniciativas. (CARNEIRO, 2003, p. 01) 
 
 
 A nova Constituição ganhou força normativa, superando-se o paradigma pelo qual a 
Carta Magna seria um documento apenas de caráter político e atribuindo ao Poder Judiciário o 
papel de protetor do conteúdo constitucional (BARROSO, 2011). Com tal característica, o 
princípio da dignidade humana e as proposições de igualdade de gênero recepcionadas na 
Constituição revelam-se imperativas e de cumprimento obrigatório, possibilitando a criação 
de mecanismos de coação e realização do texto constitucional. 
 Ainda existem diversas dificuldades para que se alcance a igualdade de gênero de 
forma plena, tendo em vista que a mulher continua a ser objeto de pretensão de igualdade, 
enquanto o homem é paradigma deste sistema (PEREIRA, 1999). Entretanto é inegável que a 
Constituição de 1988 reforçou o status da mulher como sujeito de direitos. Além disso, a 
Constituição trouxe a possibilidade de reclamação desses direitos e fomentação de políticas 
públicas que tornem a igualdade de gênero uma realidade. 
 Assim, para maior compreensão de nosso estudo, trataremos no item seguinte sobre a 
distinção entre igualdade formal e igualdade material, para que possamos reconhecer o 
fundamento de constitucionalidade da Lei Maria da Penha e, à vista disso, investigar seus 
institutos. 
 
 
 
 
 
16 
 
 
1.2 IGUALDADE MATERIAL E IGUALDADE FORMAL 
 
 O princípio da igualdade é um dos alicerces do estado constitucional de direito e foi 
consagrado por meio dos artigos 5º, inciso I e 7º da Constituição Brasileira, sendo vedada 
qualquer possibilidade de discriminação entre homens e mulheres. Mais do que isso, o 
princípio da igualdade foi lapidado pela concepção de isonomia, segundo a qual devemos 
tratar, igualmente, os iguais e desigualmente os desiguais, abarcando ainda o princípio da 
especialidade (DINIZ, 2010). À luz destes princípios, podemos compreender porque a Lei 
Maria da Penha foi introduzida no ordenamento jurídico brasileiro como instrumento legal de 
igualdade, bem como sustentar sua constitucionalidade. Para tanto, cabe inicialmente discernir 
os conceitos de igualdade formal e igualdade material. 
 Tem-se a igualdade formal mediante a máxima de que todos são iguais perante à lei, 
preceito este acolhido pelo modelo jurídico ocidental após a Revolução Francesa. Por sua vez, 
a igualdade material diz respeito à postulação de um tratamento uniforme de todas as pessoas 
perante os bens da vida (BASTOS, 1994), o que exige a elaboração de normas e políticas 
protetivas na tentativa de obter equilíbrio e de se assegurar o direito à igualdade de fato 
(DIAS, 1997). 
 Na tentativa de promover a igualdade material, a Constituição concedeu tratamento 
diferenciado entre homens e mulheres em decorrência de uma realidade cultural na qual a 
mulher se encontra em situação de desproporção (DIAS, op. cit.). À título exemplificativo, a 
Carta Magna outorgou medidas de proteção à mulher no mercado de trabalho (artigo 7º, 
inciso XX da Constituição), além de assegurar aposentadoria aos 60 anos para a mulher, 
enquanto que para os homens a idade mínima é de 65 anos (artigo 202 da Constituição). 
 Neste sentido, garantias constitucionais e infraconstitucionais análogas não 
proporcionam incompatibilidade, mas são normas de discriminação positiva elaboradas na 
tentativa de corrigir distorções sociais e promover direitos (DIAS, op. cit.), como afirma 
Emerique: 
 
 
Os legisladores constituintes deram maior ênfase à igualdade formal, porém o 
entendimento não se circunscreve apenas a igualdade perante a lei, mas também a 
igualdade na lei. A simples referência ao princípio da isonomia, no aspecto formal, 
nos textos normativos não alcançou o propósito de produzir uma sociedade mais 
igualitária, daí a necessidade de desenvolver mecanismos que também observassem 
a igualdade no aspecto material, com o propósito de minimizar as diferenças sociais, 
mesmo que na prática sua aferição fosse complexa. A introdução de normas 
programáticas nos textos constitucionais foi um passo importante para a consecução 
deste objetivo. (EMERIQUE, 2005, p. 04) 
17 
 
 
 
 
 Veja-se que não só a Lei Maria da Penha como outras normas de discriminação 
positiva possuem fundamento no conceito de igualdade material, já que buscam a redução das 
desigualdades de fato, aproximando o texto constitucional da realidade social. O caráter 
programático da Constituição brasileira não exclui a eficácia dos dispositivos constitucionais, 
mas pressupõe a elaboração de projetos e normas que reduzam essas lacunas de desigualdade, 
o que também afasta a ideia de utopia do conteúdo constitucional. 
 Apesar disso, são tímidas as ações positivas no sentido de promover a igualdade de 
gênero, uma vez que subsiste o receio de se ferir o princípio da igualdade formal. Este 
raciocínio faz com que se perpetue um status dedisparidade que já é naturalmente acentuado 
em nossa sociedade (DIAS, 1997). Ademais, a incorporação de dispositivos legais que 
promovem a proteção da mulher possui respaldo nos tratados e convenções internacionais que 
consagram as ações afirmativas de gênero como não discriminatórias, posto que essas ações 
possuem a finalidade de sanar situações de desigualdade. 
 Ainda que aos poucos, as iniciativas de promoção de igualdade de gênero e de direitos 
das mulheres vêm se tornando mais frequentes no universo político e social, muito em virtude 
do amparo legal conferido pela Constituição ao estabelecer direitos subjetivos às mulheres, 
perante os quais não é admissível comportamento antagônico. 
 O Brasil teve participação na Plataforma de Ações aprovada na IV Conferência 
Mundial sobre a Mulher, em Pequim, no ano de 1995, onde foi legitimado o compromisso de 
promover ações estratégicas e políticas públicas concretas de redução de desigualdade entre 
homens e mulheres, com foco e incentivo ao empoderamento feminino. 
 Outrossim, o governo brasileiro vem lançando desde 2003 o Plano Nacional de 
Políticas para as Mulheres, realizado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, que traça 
planejamentos e metas específicas para a redução das desigualdades de gênero nas mais 
diversas áreas, tendo como fundamento o princípio da transversalidade, conforme destacado: 
 
Sabemos que as práticas patriarcais seculares enraizadas nas relações sociais e nas 
diversas institucionalidades do Estado devem ser combatidas no cotidiano de 
maneira permanente. A busca pela igualdade e o enfrentamento das desigualdades 
de gênero fazem parte da história social brasileira, história esta construída em 
diferentes espaços e lugares com a participação de diferentes mulheres, com maior e 
menor visibilidade e presença política. Há muito as mulheres vêm questionando nos 
espaços públicos e privados a rígida divisão sexual do trabalho; com isto, vêm 
contribuindo para mudar as relações de poder historicamente desiguais entre 
mulheres e homens. Nesse sentido, gerações de mulheres têm se comprometido em 
construir um mundo igual e justo, buscando igualdade entre mulheres e homens, 
18 
 
 
com respeito às diferentes orientações sexuais, além da igualdade racial e étnica. 
Afinal, tais diferenças são apenas mais uma expressão da rica diversidade humana e 
é preciso garantir igualdade de oportunidades para todas as pessoas. Para a 
transformação dos espaços cristalizados de opressão e invisibilidade das mulheres 
dentro do aparato estatal, faz-se necessário um novo jeito de fazer política pública: a 
transversalidade. A transversalidade das políticas de gênero é, ao mesmo tempo, um 
construto teórico e um conjunto de ações e de práticas políticas e governamentais. 
Enquanto construto teórico orientador, a transversalidade das políticas de gênero 
consiste em ressignificar os conceitos-chave que possibilitam um entendimento mais 
amplo e adequado das estruturas e dinâmicas sociais que se mobilizam – na 
produção de desigualdades de gênero, raciais, geracionais, de classe, entre outras. Já 
enquanto conjunto de ações e de práticas, a transversalidade das políticas de gênero 
constitui uma nova estratégia para o desenvolvimento democrático como processo 
estruturado em função da inclusão sociopolítica das diferenças tanto no âmbito 
privado quanto no público; sendo também, e sobretudo, necessária nos espaços de 
relação de poder e de construção da cidadania. (Plano Nacional de Políticas para as 
Mulheres. Brasília: Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2013, p. 10) 
 
 
 Baseado nos princípios da isonomia e transversalidade, o Plano Nacional de Políticas 
para as Mulheres define estratégias concretas de proteção à mulher, com ênfase nos seguintes 
objetivos: igualdade no trabalho e autonomia econômica; educação para igualdade e 
cidadania; saúde, principalmente no que tange aos direitos sexuais e reprodutivos; 
enfrentamento da violência contra mulher; fortalecimento da participação feminina nos 
espaços públicos; desenvolvimento sustentável com igualdade econômica e social; direito à 
terra com igualdade no campo para as mulheres; cultura, esporte, comunicação e mídia; 
enfrentamento do racismo, sexismo e lesbofobia; igualdade para as mulheres jovens, idosas e 
mulheres com deficiência. 
 É indispensável a realização de ações afirmativas em todas as esferas de governo, 
observando-se a necessidade de proteger a mulher em situação de opressão, e de proporcionar 
maior participação feminina no campo político, transformando a cidadania "formal" em 
cidadania "real" através de uma dupla intervenção: nas estruturas da própria sociedade e nas 
formas jurídico-políticas de atuação (TREVISO, 2008). 
 Sob esta perspectiva, a obediência ao princípio da isonomia formal não pode coibir a 
elaboração de normas e programas de proteção à mulher, sob pena de se aprofundarem os 
contextos e as relações de desigualdade já existentes e construídos socialmente. Sobre este 
aspecto, Ferraz esclarece que: 
 
Entre ambas, há uma enorme diferença. JOAQUIM B. BARBOSA GOMES 
observa que o conceito de igualdade material ou substancial recomenda que se 
levem na devida conta as desigualdades concretas existentes na sociedade, devendo 
as situações ser tratadas de maneira dessemelhante, evitando-se assim o 
aprofundamento e a perpetuação de desigualdades engendradas pela própria 
19 
 
 
sociedade. Produto do Estado Social de Direito, a igualdade substancial ou material 
propugna redobrada atenção por parte dos aplicadores da norma jurídica à variedade 
das situações individuais, de modo a impedir que o dogma liberal da igualdade 
formal impeça ou dificulte a proteção e a defesa dos interesses das pessoas 
socialmente fragilizadas ou desfavorecidas. (FERRAZ, 2005, p. 1199) 
 
 
Cabe ressaltar que o contexto de desigualdade no qual a mulher está inserida, não é 
universal ou homogêneo, porém dinâmico e heterogêneo, variando de acordo com o 
enquadramento que diferentes grupos de mulheres possuem na sociedade (TREVISO, 2008). 
Sendo assim, mesmo que a desigualdade afete os mais diversos coletivos de mulheres em 
áreas distintas, a intensidade da opressão que recai sobre cada mulher aumenta conforme sua 
condição de adquirir bens materiais e imateriais para obter uma vida digna. Ou seja, a 
desigualdade se intensifica à medida que a mulher se encontra em situação mais pobre e 
desfavorecida (TREVISO, op. cit.). 
 A distinção entre igualdade formal e igualdade material tem como função precípua 
demonstrar que a discriminação positiva, no que concerne à realização de políticas públicas 
de gênero e à elaboração de normas protetivas, não infringe o princípio da isonomia, mas 
possui caráter compensatório em face de uma demanda socialmente autêntica. Sobre o 
princípio da igualdade, Dias afirma que: 
 
O que se deve atentar não é à igualdade perante a lei, mas o direito à igualdade 
mediante a eliminação das desigualdades, o que impõe que se estabeleçam 
diferenciações específicas como única forma de dar efetividade ao preceito 
isonômico consagrado na Constituição. (DIAS, 1997, p. 04) 
 
 
As ações afirmativas e a elaboração de normas de discriminação positiva, tais como a 
Lei Maria da Penha, são artifícios necessários para que possamos alcançar uma sociedade 
mais justa e equilibrada, reduzindo os espaços de desigualdade. Junto às ações afirmativas, há 
ainda a necessidade de se reconhecer culturalmente a mulher como “sujeito de direitos”, bem 
como promover sua maior participação e representatividade na esfera política, de modo que o 
respeito e a igualdade de gênero sejam características de uma realidade tangível.20 
 
 
1.3 LEI MARIA DA PENHA COMO INSTRUMENTO DE IGUALDADE 
 
 Conforme demonstrado no início deste capítulo, a Constituição de 1988 transcende a 
perspectiva da igualdade formal, pela qual, tradicionalmente, todos são iguais perante a lei, 
para introduzir a igualdade material, exigindo-se uma postura positiva do estado na 
construção de uma sociedade igualitária (PIOVESAN; PIMENTEL, 2007). 
 Sob este fundamento constitucional, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340 de 2006) surge 
como instrumento legal para combater a violência doméstica contra a mulher, buscando tornar 
mais efetiva a superação do paradigma da desigualdade de gênero. A lei trata da criação de 
mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher e representa uma 
resposta aos movimentos internacionais em defesa dos direitos femininos, tendo em vista uma 
realidade cultural e histórica de desigualdade de gênero. Nas palavras de Piovesan e Pimentel, 
considera-se a Lei Maria da Penha como instrumento de igualdade material, que confere 
efetividade aos preceitos constitucionais: 
 
A "Lei Maria da Penha", ao enfrentar a violência que, de forma desproporcional, 
acomete tantas mulheres, é instrumento de concretização da igualdade material entre 
homens e mulheres, conferindo efetividade à vontade constitucional, inspirada em 
princípios éticos compensatórios. (PIOVESAN; PIMENTEL, 2007, p. 01) 
 
 
 A Lei Maria da Penha se destaca como ação afirmativa, uma vez que traz novos 
mecanismos para a erradicação da cultura de violência contra a mulher, o que era – e ainda é – 
uma demanda urgente. 
 O contexto social brasileiro é marcado por uma cultura secular de dominação machista 
que tem a violência doméstica como um de seus efeitos. Reconhecer a existência de uma 
sociedade desigual justifica a realização de políticas públicas, dentre elas a própria criação da 
Lei Maria da Penha, no sentido de promover os direitos fundamentais femininos para que a 
dignidade humana atinja o mesmo patamar entre homens e mulheres (ÁVILA, 2007). 
 Além disso, a própria Constituição em seu artigo 226, parágrafo 8º, estabelece que o 
Estado deve assegurar a assistência à família, coibindo a violência no âmbito de suas relações. 
Este dispositivo não possui caráter meramente abstrato, mas é efetivo e vincula a norma infra-
constitucional (ÁVILA, op. cit.), sendo certo que o ordenamento jurídico deve ser 
interpretado de modo que os direitos fundamentais de todos os cidadãos sejam ampliados. 
21 
 
 
 A partir da consciência de que a violência doméstica caracteriza-se por ser um 
problema histórico de desigualdade de gênero, podemos compreender a Lei Maria da Penha 
como instrumento benéfico e direcionado à superação de tais práticas, sinalizando a alteração 
de paradigma quanto à não-aceitação da violência contra a mulher (ÁVILA, 2007). Neste 
sentido, Ávila alega que: 
 
O novo regramento legal parte do reconhecimento de que há todo um conjunto de 
poder simbólico, interiorizado por homens e mulheres desde a infância, que coloca a 
mulher em uma postura de dependência e acaba por fragilizá-la na relação de 
gênero, especialmente no âmbito doméstico, potencializando sua vitimização e 
criando óbices à alteração deste status, pela dificuldade psicológica de sua denúncia 
e pela tendência de minimização da gravidade da violência pelas instâncias formais 
e informais de controle social. Infelizmente, não é raro ouvir-se a expressão que 
"agressão de marido contra mulher não é ''violência contra a mulher'' mas violência 
contra a sua mulher", argumento estapafúrdio fundado numa perspectiva coisificante 
da mulher e utilizada para justificar a desnecessidade de interferência do Estado para 
quebrar este ciclo de violência que se repete diariamente em milhares de lares. 
(ÁVILA, 2007, p. 02) 
 
 
A Lei 11.340 de 2006 institui categoricamente as modalidades de violência doméstica 
e familiar que, além de física, pode ser psicológica, sexual, patrimonial e moral (artigo 7º da 
Lei 11.340 de 2006). Mais ainda, a lei fornece uma série de medidas de proteção e assistência 
à mulher (artigos 12, 18, 19, 22 e 24 da Lei 11.340 de 2006) que inovaram o conceito de 
medida protetiva já existente no ordenamento jurídico brasileiro. As medidas protetivas na Lei 
Maria da Penha obrigam diretamente o agressor e não somente a vítima, como acontece, por 
exemplo, no Estatuto da Criança e do Adolescente (artigo 101 da Lei 8.069 de 1990) e no 
Estatuto do Idoso (artigo 45 da Lei 10.741 de 2003), onde tais medidas são direcionadas 
apenas às pessoa em situação de hipossuficiência, quais sejam, os menores e os idosos. 
 Estudaremos no capítulo seguinte as peculiaridades da Lei Maria da Penha, 
considerando seu papel no desenvolvimento de uma sociedade menos desigual e na superação 
do paradigma da violência de gênero. Veremos que a lei criou um sistema de proteção e 
atendimento à mulher, introduzindo medidas protetivas de urgência e mecanismos próprios 
para coibir a violência. A Lei Maria da Penha retirou da esfera privada o problema da 
violação à dignidade da mulher, proporcionando maior amparo legal e institucional às 
mulheres em situação de violência. 
 
 
 
22 
 
 
 
2. LEI MARIA DA PENHA 
 
 Este capítulo abordará o contexto de elaboração da Lei 11.340 de 2006, considerando 
a influência dos movimentos feministas e de direitos humanos, bem como o caso concreto de 
Maria da Penha Fernandes e sua apreciação pela Comissão Interamericana de Direitos 
Humanos. Estes foram os principais fatores que provocaram o Estado brasileiro a elaborar 
políticas públicas eficientes de enfrentamento à problemática da violência doméstica. 
 Em seguida, serão analisadas as inovações trazidas pela Lei Maria da Penha e o 
tratamento conferido ao homem em situação de violência, demonstrando que a lei não possui 
cunho discriminatório. 
 
 
2.1 SURGIMENTO DA LEI 11.340 DE 2006 
 
 A Lei 11.340 de 2006 surge em um contexto político de forte intervenção da 
comunidade internacional, em prol dos direitos humanos e dos direitos das mulheres 
(SANTOS, 2008). A Conferência dos Direitos Humanos, promovida pela ONU em 1993, 
trouxe reconhecimento à nível internacional da violência contra a mulher como uma violação 
aos direitos humanos, proporcionando, naquele mesmo ano, a aprovação pela Assembléia 
Geral da ONU da Declaração sobre a Eliminação da Violência Contra as Mulheres. O 
documento visava reforçar o processo de superação da violência contra a mulher, 
reconhecendo a desigualdade histórica das relações de poder entre homens e mulheres e 
determinando o posicionamento preventivo e punitivo dos Estados no sentido de eliminar a 
violência, independente de costumes, tradições e fundamentos religiosos (artigo 4º da 
Declaração sobre a Eliminação da Violência Contra as Mulheres). 
 Em 1994, a OEA aprovou igualmente a Convenção para Eliminação, Prevenção, 
Punição e Erradicação da Violência contra a Mulher - conhecida como Convenção de Belém 
do Pará - que também definiu a violência contra a mulher como violação aos direitos 
humanos, orientando os Estados Partes a adotarem meios de prevenção e punição dos atos de 
violência (artigo 7º da Convenção de Belém do Pará). 
 Esta movimentação internacional que culminou na elaboração de tais documentos, 
ocorreu especialmente em razão das mobilizações de grupos feministas transnacionais e 
23 
 
 
acabou surtindo efeitos nos discursos locais. No Brasil, especialmente, ele foi incorporado à 
luta contra a impunidade nos casos de assassinato contra mulheres, assim como na busca por 
leis de proteção aos direitos humanos da mulher, movimento este que foi impulsionado eliderado por organizações não governamentais (SANTOS, 2008). 
 Como já mencionado no capítulo anterior, o Brasil foi signatário de tratados 
internacionais que ratificavam o compromisso de erradicar a violência contra a mulher e 
promover internamente os direitos humanos. Assim, cabe destacar os seguintes documentos 
que foram incorporados ao sistema jurídico nacional: a Convenção Interamericana para 
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, ratificada pelo Brasil em 1995; a 
Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial sobre as Mulheres, promovida pela ONU em 
1995 e assinada pelo Brasil no mesmo ano; o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a 
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, adotado pela ONU em 
1999, assinado pelo governo brasileiro em 2001 e ratificado pelo Congresso Nacional em 
2002; a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as 
Mulheres (CEDAW), adotada pela ONU em 1979 e assinada com reservas pelo Brasil em 
1983. Em 1984, a CEDAW foi ratificada pelo Congresso Nacional, mantendo-se as reservas 
do poder executivo. Apenas em 1994, o governo brasileiro retirou as reservas e ratificou 
integralmente a Convenção (FREIRE, 2006). Em 1992, o Brasil ratificou, ainda, a Convenção 
Americana dos Direitos Humanos, que trouxe maior possibilidade de denúncia em âmbito 
nacional nos casos de violação aos direitos humanos (SANTOS, op. cit.). 
 A inserção de tais tratados e convenções no ordenamento jurídico brasileiro trouxe 
nova perspectiva de mobilização às organizações feministas e em prol dos direitos humanos, 
que agora poderiam recorrer às instâncias internacionais diante da inércia do governo 
brasileiro. Além disso, a discussão sobre violência de gênero no plano internacional e a 
produção de documentos que reforçavam o objetivo de combater a violência contra a mulher, 
foram o ponta pé inicial na mudança de uma mentalidade culturalmente enraizada segundo a 
qual a mulher deve ocupar uma posição de subordinação em relação ao homem. 
 O fundamento legal dos tratados e convenções internacionais de proteção à mulher, 
fortaleceu os movimentos feministas que reivindicavam uma resposta mais afetiva do governo 
brasileiro no que diz respeito ao combate da violência contra a mulher. Sobre a maior 
movimentação das organizações feministas não-governamentais após a incorporação dos 
referidos instrumentos legais, Santos reforça que: 
 
24 
 
 
O recurso das feministas a instâncias supra-nacionais de proteção dos direitos 
humanos, como a OEA e a ONU, também foi um fator importante, (...) sobretudo 
por mostrar, internacionalmente, que o governo brasileiro não estava cumprindo as 
suas obrigações de defesa dos direitos humanos. (SANTOS, 2008, p. 23) 
 
 
Esta abertura para a discussão acerca da violência contra a mulher, fez com que na 
segunda metade da década de 1990 fossem enviados dois casos brasileiros à Comissão 
Interamericana de Direitos Humanos (CIDH): o caso Maria Lepoldi, que foi assassinada por 
seu ex-namorado (1996), e o caso Maria da Penha, que sofreu dupla tentativa de homicídio 
por parte de seu marido (1998). 
 Em ambos os casos foi verificada a falta de compromisso do Estado brasileiro no 
combate à violência doméstica. Ademais, a repercussão internacional expôs as fraquezas e 
necessidade de transformação radical do sistema criminal brasileiro, que era marcado pela 
falta de seriedade e morosidade em relação aos processos que envolviam situações de 
violência contra a mulher (SANTOS, 2008). 
 O caso de Maria da Penha ganhou maior destaque no cenário nacional e foi vinculado 
à Lei 11.340 de 2006, merecendo ser relatado. Maria da Penha Maia Fernandes foi vítima de 
duas tentativas de homicídio realizadas por seu marido, Marco Antônio Heridia Viveros, em 
maio e junho de 1983. A primeira tentativa ocorreu quando Viveiros atirou contra Maria da 
Penha enquanto ela dormia. Por consequência desta agressão, a vítima precisou se submeter a 
diversos procedimentos cirúrgicos, sofrendo, ao final, paraplegia irreversível, além dos 
traumas físicos e psicológicos. A segunda tentativa de assassinato ocorreu duas semanas após 
Maria da Penha ter retornado do hospital, quando seu marido tentou eletrocutá-la enquanto se 
banhava. Antônio Viveros, possuía um histórico de agressões contra suas filhas e esposa, que, 
por sua vez, temia se separar por conta de seu comportamento violento. Finalmente a segunda 
agressão homicida motivou Maria da Penha a se separar judicialmente. 
 Os atentados contra a vida de Maria da Penha foram premeditados por seu marido que 
semanas antes teria tentado convencê-la a assinar um seguro de vida em favor dele, bem como 
realizar a venda de um carro de propriedade da vítima sem que constasse no contrato o nome 
do comprador (Corte Interamericana de Direitos Humanos, Relatório n. 54/01, Caso n. 
12.051). Cecília Macdowell Santos descreve como se desenrolou o caso no judiciário 
brasileiro: 
 
No primeiro julgamento, ocorrido nove anos depois do crime, Viveros foi 
condenado a uma pena de 15 anos de reclusão, reduzida a 10 anos por se tratar de 
25 
 
 
réu primário. Em 1996, a decisão do júri foi anulada e o réu, sendo submetido a 
novo julgamento, foi condenado a 10 anos e 6 meses de reclusão. Recorrendo da 
sentença diversas vezes e valendo-se, inclusive, de práticas de corrupção, Viveros 
permaneceu em liberdade por dezenove anos, sendo preso em outubro de 2002, 
pouco antes de o crime prescrever. Pode-se afirmar que a conclusão do processo 
judicial e a prisão do réu só ocorreram graças às pressões da Comissão 
Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que recebera o caso em 1998. 
(SANTOS, 2008, p. 24) 
 
 
Mesmo após o encaminhamento da petição à CIDH o processo criminal ainda não 
havia sido decidido e embora existissem provas concretas da autoria do fato, a morosidade da 
justiça brasileira por pouco não ocasionou a prescrição do caso. O processo foi levado à 
CIDH pelas organizações Comitê Latino-Americano e do Caribe pela Defesa dos Direitos da 
Mulher – CLADEM-Brasil e Centro pela Justiça e o Direito Internacional – CEJIL, além da 
vítima Maria da Penha, com base na "Convenção de Belém do Pará" e na Convenção 
Americana de Direitos Humanos. O relatório final da CIDH responsabilizou o Estado 
brasileiro pelas violações sofridas por Maria da Penha, em razão da ineficiência e lentidão da 
justiça local que impediu a vítima de ser amparada pelo devido processo legal. A CIDH 
concluiu que as agressões sofridas por Maria da Penha resultaram do descaso e inércia do 
Brasil no que diz respeito à não aceitação da violência doméstica. 
As recomendações da CIDH ao Estado brasileiro incluíam: a condução de uma 
investigação séria, imparcial e exaustiva com vistas ao estabelecimento da responsabilidade 
do agressor pela tentativa de assassinato sofrida por Maria da Penha; identificação das 
práticas dos agentes do Estado que teriam impedido o andamento célere e eficiente da ação 
judicial contra o agressor; que o Estado providenciasse de imediato a devida reparação 
pecuniária à vítima; que adotasse medidas no âmbito nacional visando a eliminação da 
tolerância dos agentes do Estado face à violência contra as mulheres (Corte Interamericana de 
Direitos Humanos, Relatório n. 54/01, Caso n. 12.051). 
 O caso Maria da Penha se tornou emblemático, considerando que pela primeira vez 
um organismo internacional havia aplicado a "Convenção de Belém do Pará" e condenado um 
Estado soberano pelas violações de direitos humanos sofridas por um particular. Além disso, 
foi confirmado o atraso e negligência do Brasil quanto à erradicação da violência contra a 
mulher, o queexplicitou a urgência em formular novos instrumentos normativos e políticas 
públicas de prevenção e proteção das mulheres (SANTOS, 2008). 
 Apesar disso, em um primeiro momento, as autoridades brasileiras ignoraram as 
recomendações da CIDH, mesmo após o Estado ter sido condenado pelo relatório de mérito. 
26 
 
 
Somente 3 anos depois da publicação do relatório, em 2004, o governo iniciou o cumprimento 
das recomendações, elaborando um projeto de lei que introduzia mecanismos de combate e 
prevenção à violência doméstica contra mulheres (Decreto 5.030, de 31 de março de 2004). 
 Assim, em 07 de agosto de 2006 nasceu a Lei 11.340, denominada intencionalmente 
de "Lei Maria da Penha" com o objetivo de reparar de forma simbólica Maria da Penha 
Fernandes pelas agressões sofridas por seu ex-marido e pela inércia do judiciário brasileiro 
(SANTOS, op. cit.). 
 O processo de criação da Lei 11.340 de 2006 foi resultado da articulação entre o 
governo e os movimentos feministas que, no que lhes concerne, tiveram praticamente a 
totalidade de suas propostas absorvidas pelo novo instrumento legal. Porém é imperioso 
reconhecer que especialmente o caso Maria da Penha e toda a pressão internacional que 
sucedeu sua apreciação pela CIDH foram essenciais para que o Estado brasileiro se 
movimentasse de maneira precisa, buscando a prevenção e erradicação da violência contra a 
mulher (SANTOS, op. cit.). 
 A exposição internacional do Brasil, após a apreciação do caso de Maria da Penha pela 
CIDH, trouxe à tona o descaso do judiciário e do governo brasileiro em relação à elaboração 
de medidas eficientes de superação da violência contra a mulher, mesmo perante a 
participação do Brasil em tratados internacionais que garantiam, em tese, este compromisso. 
 A condenação do Estado brasileiro diante dos olhares de reprovação da comunidade 
internacional fez com que o governo enfrentasse com mais seriedade a violência doméstica, 
acolhendo grande parte das proposições feministas no instrumento legal que transformaria o 
paradigma de impunidade da justiça brasileira no que diz respeito à violência de gênero. A 
elaboração da Lei Maria da Penha marcou a luta pela igualdade de gênero e modificou 
profundamente a forma como os casos de violência contra a mulher eram contemplados pelo 
judiciário. Mais ainda, a repercussão e popularidade da lei proporcionaram uma atmosfera 
social de discussão e questionamento sobre o tema da violência doméstica, tornando pública 
uma realidade que se escondia nas relações privadas. 
 Adiante, estudaremos as mudanças introduzidas pela Lei Maria da Penha e suas 
especificidades, analisando os reflexos do novo instrumento legal no ordenamento jurídico 
brasileiro. 
 
 
 
27 
 
 
2.2 INOVAÇÕES DA LEI MARIA DA PENHA 
 
 A Lei 11.340 de 2006 deu aplicabilidade ao princípio da dignidade humana e à 
igualdade de gênero que, apesar de previstos na Constituição, precisavam ser transportados 
para um diploma legal específico e detalhado, comunicando à sociedade o novo paradigma de 
não aceitação da violência doméstica (ÁVILA, 2007). A lei reafirma o artigo 226, parágrafo 
8º, da Constituição, através de seu artigo 3º, parágrafo 2º, pelo qual é dever da família, do 
Estado e da sociedade criar condições necessárias para o efetivo direito à vida digna e à 
convivência familiar da mulher. 
A projeção na lei do artigo 226 da Constituição o tornou tangível, produzindo 
igualdade material entre homens e mulheres ao propor o enfrentamento da violência 
doméstica e reforçar: a proteção dos direitos fundamentais; a incorporação dos tratados 
internacionais de direitos humanos; e o propósito da legislação de contribuir para a igualdade 
nas relações de gênero no âmbito familiar (CAMPOS e CARVALHO, 2011). 
 A Lei Maria da Penha cria um sistema jurídico autônomo e multifacetado, com regras 
e procedimentos específicos, que desvinculam a violência de gênero do campo 
exclusivamente penal (CAMPOS e CARVALHO, op. cit.), ampliando o amparo da mulher 
em situação de violência. Assim, destacamos as principais inovações instituídas pelo diploma 
legal. 
 
 
2.2.1 Afastamento da Lei 9.099/95 
 
 Antes da Lei Maria da Penha, os casos de violência doméstica eram encaminhados aos 
Juizados Especiais Criminais e julgados nos termos da Lei 9.099/95 como crimes de menor 
potencial ofensivo, o que possibilitava a aplicação de medidas despenalizadoras tais como a 
composição civil, a transação penal e a suspensão condicional do processo (artigos 72, 74, 76, 
88 e 89 da Lei 9.099/95). Aqui reconhecemos a relevância das medidas despenalizadoras na 
esfera penal, uma vez que afastam a aplicação da pena privativa de liberdade e a 
estigmatização que é inerente ao processo penal. Entretanto, a lei se orienta por critérios de 
simplicidade e celeridade que não comportavam a complexidade dos casos de violência de 
gênero e familiar. Os crimes cometidos no âmbito da violência doméstica quase nunca eram 
28 
 
 
solucionados pelo procedimento previsto na Lei 9.099/95 que se conduzia pela lógica binária 
de "autor" e "vítima", inerente ao sistema penal. 
 A situação de violência doméstica exigia um olhar cuidadoso e multidisciplinar do 
judiciário que não era contemplado pelos Juizados Especiais Criminais, gerando na vítima um 
sentimento de impunidade e insegurança quanto à ocorrência de uma nova agressão: 
 
A Lei Maria da Penha proibiu expressamente a incidência da Lei 9.099/95 nos casos 
de violência doméstica, sobretudo em face da crítica feminista à universalização da 
aplicação de prestações comunitárias (contribuições financeiras a entidades 
filantrópicas, conhecidas vulgarmente como “penas de cestas básicas”) como 
resposta judicial às violências praticadas contra mulheres. Situação que foi projetada 
igualmente para as modalidades de sanção previstas na Lei. (CAMPOS e 
CARVALHO, 2011, p. 147) 
 
 Ao afastar a incidência total da Lei 9.099/95, através de seu artigo 41, a Lei Maria da 
Penha introduziu no ordenamento jurídico brasileiro novo procedimento para a efetiva 
proteção da mulher em situação de violência, excluindo a possibilidade de aplicação das 
medidas despenalizadoras. Neste sentido, foi alterada a pena máxima prevista no artigo 129, § 
9º do Código Penal para três anos de detenção, o que impede que o crime de lesão corporal se 
configure como de menor potencial ofensivo. Além disso, houve a limitação da possibilidade 
de renúncia à representação por meio do artigo 16 da lei, que previa a necessidade de 
audiência especialmente designada para tal finalidade, antes do recebimento da denúncia e 
ouvido o Ministério Público. Mais tarde, o STF consolidou o entendimento de que a natureza 
da ação penal em caso de crime de lesão, praticado contra a mulher no ambiente doméstico é 
de ação penal incondicionada, pouco importando a extensão da lesão (AdIn. n. 4.424 de 
9/02/2012). 
 Em semelhante perspectiva, a descaracterização da violência doméstica como infração 
de menor potencial ofensivo transformou a interpretação sobre este tipo de agressão, que 
passou a ser compreendida como penalmente relevante. 
 
 
2.2.2 Introdução da expressão "situação de violência" 
 
 Outra inovação da Lei Maria da Penha que merece ser discutida foi a intencional 
utilização da expressão "mulher em situação de violência" em oposição ao termo "vítima", em 
razão da carga estigmatizante contida nesta intitulação. Não se trata portanto de mero detalhe 
linguístico, mas sim da necessidade de se deslocar a violência doméstica do plano da 
29 
 
 
dicotomia penal (autor e réu; sujeito ativo e passivo), expressando a verdadeira complexidade 
deste tipo de agressão (CAMPOSe CARVALHO, 2011). 
 O próprio movimento feminista reconheceu que o termo "vítima" não era adequado e 
atribuía à mulher a condição de objeto da violência ou de não-sujeito de direitos, excluindo 
sua autonomia. Já a crítica à expressão "situação de violência" apontava que o termo se 
aproximava de "menor em situação irregular", o que colocaria a mulher em um patamar de 
incapacidade jurídica (CAMPOS e CARVALHO, op. cit.). Isto não foi suficiente para que a 
nova expressão não fosse fortemente aceita, transmitindo a ideia de transitoriedade e 
recuperando o status de sujeito de direitos da mulher. 
 
 
2.2.3 Tutela específica para as mulheres e conceituação da "violência de gênero" 
 
 A Lei Maria da Penha criou mecanismos para coibir a violência contra a mulher e 
promover igualdade material mesmo que isso implique em aparente desigualdade formal, 
como foi demonstrado no capítulo anterior. Neste sentido, a lei é direcionada especificamente 
às mulheres e não aos homens, de modo que se possa corrigir uma realidade social marcada 
pela desigualdade de gênero, pela qual a mulher é objetificada. Lenio Luiz Streck acrescenta 
que: 
 
A feitura de uma lei – que garante um agir rápido do Estado em face da violência 
doméstica – é uma exigência constitucional. Trata-se da garantia da proteção da 
integridade física e moral da mulher. Não esqueçamos que, na contemporaneidade, 
além do princípio da proibição de excesso (Übermassverbot), que serve para proibir 
o Estado de punir com exageros, há também o princípio da proibição de proteção 
insuficiente (Untermassverbot), que obriga o Estado (legislador, judiciário, 
Ministério Publico) a proteger os direitos fundamentais. Há hipóteses em que o 
Estado, ao não proteger o bem jurídico (inclusive via direito penal), estará agindo 
(por omissão) de forma inconstitucional. (STRECK, s/d, p. 100) 
 
 
Ainda assim, a Lei Maria da Penha foi benéfica aos homens em situação de violência, 
uma vez que aumentou a pena máxima do artigo 129, § 9º, do Código Penal de um ano para 
três anos, sendo certo que ainda é aplicável aos homens o artigo 69, parágrafo único, da Lei 
9.099/95 que possibilita o afastamento do agressor (a) do lar como medida cautelar. A questão 
da proteção do sexo masculino será esclarecida adiante neste trabalho. 
 Sobre a conceituação de "violência de gênero", a Lei Maria da Penha introduziu 
normativamente esta categoria de violência, em consonância com a "Convenção de Belém do 
30 
 
 
Pará", seguindo as diretrizes normativas da comunidade internacional. A importância da 
utilização do termo se assenta no fato de que a violência doméstica, por ser violência de 
gênero, se configura como violação aos direitos humanos da mulher (artigos 5º e 6º da Lei 
11.340/2006), rompendo com o modelo jurídico tradicional, que incorporava a violência de 
gênero nos tipos penais genéricos (CAMPOS e CARVALHO, 2011). 
A lei dispôs sobre as espécies de violência em seu artigo 7º – física, psicológica, 
sexual, patrimonial e moral – sem criar novos tipos penais, mas elucidando inúmeras 
situações que caracterizam a violência doméstica e estabelecendo a condição deste tipo de 
violência como circunstância agravante ou qualificadora das penas nos crimes já existentes. 
 
2.2.4 Proteção nas relações homoafetivas 
 
 O artigo 5º da Lei 11.340/2006 conceitua a violência doméstica e determina em seu 
parágrafo único que "as relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação 
sexual", permitindo o processamento da mulher agressora. Pode-se dizer que a pretensão da 
lei está na proteção da mulher em situação de violência, sendo irrelevante o sexo ou 
orientação sexual de quem a tenha agredido. Segundo Campos e Carvalho: 
 
O estatuto incorpora as constatações alcançadas pelos estudos feministas de que as 
relações homossexuais entre mulheres igualmente podem ser violentas e que esta 
situação de violência, mesmo entre mulheres, reproduz a mesma lógica dessa 
violência de gênero, circunstância que legitima a intervenção protetiva. (CAMPOS e 
CARVALHO, 2011, p. 148) 
 
 O dispositivo não apenas protege as relações homoafetivas entre mulheres como 
também as relações de convivência e afinidade, ainda que não exista coabitação ou vínculo 
familiar. Sob este entendimento as relações entre irmãs, amigas ou mãe e filha, por exemplo, 
também são abrangidas pela Lei Maria da Penha, bastando que subsista a associação 
"doméstica", que é marcada pela afetividade. 
 
 
2.2.5 As Medidas Protetivas de Urgência 
 
 As medidas protetivas, um dos pontos mais importantes deste trabalho, são 
amplamente reconhecidas pela doutrina como um grande acerto da Lei Maria da Penha. Isto 
porque tais medidas atuam nos casos de risco eminente e são capazes de resguardar a 
31 
 
 
integridade da mulher desde seu primeiro contato junto à delegacia. Os artigos 18 a 21 da lei 
determinam o procedimento que deverá ser utilizado pelo juiz na aplicação das medidas 
protetivas, observando-se que cabe ao magistrado se atentar aos critérios de celeridade e 
simplicidade, tendo em vista que o texto legal não estabelece rito específico de 
processamento. 
 As medidas protetivas podem ser concedidas pelo juiz, mediante pedido da ofendida 
ou a requerimento do Ministério Público (artigo 19, caput, da Lei 11.340/2006). Por serem de 
caráter provisório, poderão ser revogadas a qualquer tempo, bem como substituídas por outras 
de maior eficácia, de modo proporcional à efetiva proteção da ofendida, podendo culminar na 
prisão preventiva (artigo 20 da Lei 11.340/2006). 
 
 Ressalte-se que Lei Maria da Penha afasta a lógica prisional do sistema penal, pela 
qual a prisão provisória atua como medida cautelar por excelência. Não que a prisão 
preventiva ou temporária não possa ser aplicada, mas foram introduzidas novas formas de 
proteção para além da prisão cautelar, que, como sabemos, é caracterizada pela carga 
estigmatizadora da privação de liberdade. Acerca disso, Ávila esclarece que: 
 
Estas medidas protetivas de urgência que obrigam o agressor são, na realidade, 
novas alternativas à tradicional bipolaridade do sistema cautelar penal brasileiro, que 
conhecia apenas dois extremos: a prisão cautelar ou a liberdade provisória. A lei cria 
novas medidas cautelares intermediárias, que permitem uma resposta mais efetiva e 
menos violenta do Estado, para situações que, a princípio, não seriam hipótese de 
decretação da prisão preventiva. (ÁVILA, 2007, p. 06) 
 
 Portanto, a prisão preventiva será aplicada apenas excepcionalmente, nos termos dos 
artigos 312 e 313 do Código de Processo Penal e nas hipóteses onde não há alternativa senão 
o encarceramento, para que se assegure a integridade pessoal da mulher. Lavigne e 
Perlingeiro acrescentam: 
 
Assim, por exemplo, quando se verifica a não-colaboração do indivíduo com 
a medida restritiva de direito imposta através de medida protetiva, 
sucessivamente descumprida, forma-se situação complexa na qual se 
configuram, por um lado, a necessidade de devida diligência estatal na 
proteção dos direitos da mulher (integridade pessoal e vida) e, por outro, a 
observância à mínima intervenção penal (liberdade). Nesta ponderação, não 
se pode desprezar a severidade da interferência estatal na privação de 
liberdade cautelar de alguém, mas tampouco se pode mitigar a gravidade do 
ato e seu potencial lesivo face aos direitos humanos de outra pessoa 
(mulher). Neste caso, justifica-se a privação de liberdade cautelar do sujeito 
pelo fato de representar ameaça ou perigo de dano a bem jurídico tutelado, 
32 
 
 
quando observada a excepcionalidade autorizadora dessa medida. 
(LAVIGNE e PERLINGEIRO,2011, p. 300) 
 
 A doutrina ainda não definiu a natureza jurídica das medidas protetivas, que podem ser 
cíveis, criminais, ou híbridas. Porém, prevalece o entendimento de que tais medidas devem 
ser interpretadas de modo que se amplie e se obtenha a máxima proteção dos direitos 
fundamentais das mulheres (ÁVILA, 2007). 
 A lei classificou as medidas protetivas em medidas que obrigam o agressor e medidas 
que obrigam à ofendida. O artigo 22 prevê as medidas que obrigam o agressor, quais sejam: a 
suspensão da posse ou restrição do porte de armas; afastamento do lar ou do local de 
convivência; proibição de contato com a ofendida ou seus familiares; restrição ou suspensão 
da visitação aos menores; e prestação de alimentos provisionais ou provisórios. Sobre as 
medidas que obrigam o agressor, Juliana Belloque explica que: 
 
O elenco das medidas que obrigam o agressor foi elaborado pelo legislador a 
partir do conhecimento das atitudes comumente empregadas pelo autor da 
violência doméstica e familiar que paralisam a vítima ou dificultam em 
demasia a sua ação diante do cenário que se apresenta nesta forma de 
violência. Como a violência doméstica e familiar contra a mulher ocorre 
principalmente no interior do lar onde residem autor, vítima e demais 
integrantes da família, em especial crianças, é muito comum que o agressor 
se aproveite deste contexto de convivência e dos laços familiares para 
atemorizar a mulher, impedindo-a de noticiar a violência sofrida às 
autoridades. Este quadro contribui sobremaneira para a reiteração e a 
naturalização da violência, sentindo-se a mulher sem meios para interromper 
esta relação, aceitando muitas vezes o papel de vítima de violência 
doméstica para manter seu lar e seus filhos. (BELLOQUE, 2011, p. 308) 
 
 Por sua vez, o artigo 23 estabelece as medidas protetivas voltadas à mulher, tais como: 
encaminhamento da ofendida e seus familiares a programa de proteção; recondução ao 
domicílio após o afastamento do agressor; afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo de 
seus direitos relativos aos bens, guarda de filhos e alimentos; e separação de corpos. 
 Por fim, vale destacar que o rol de medidas protetivas é exemplificativo, o que permite 
que o julgador se utilize de outras medidas, não previstas em lei, conforme a necessidade de 
proteção da ofendida, de seus familiares, ou de seu patrimônio. Sob o mesmo fundamento de 
proteção da integridade física, sexual, psíquica e patrimonial da mulher, o juiz também poderá 
aplicar as medidas protetivas cumulativamente, tudo de maneira proporcional, observando-se 
as peculiaridades do caso concreto e a resposta do agressor à ordem judicial. 
 
33 
 
 
 
2.2.6 Criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar com competência híbrida 
 
 Outra grande inovação da Lei 11.340/2006 foi a criação dos Juizados de Violência 
Doméstica e Familiar contra a mulher, com competência cível e criminal, responsáveis pelos 
julgamentos de todas as causas oriundas da violência doméstica. O movimento feminista 
entendeu que não seria coerente cindir a prestação jurisdicional, tendo em vista que a 
fragmentação da demanda tornava o processo burocrático e exaustivo. Antes da Lei Maria da 
Penha, a mulher em situação de violência precisava enfrentar uma demanda em âmbito penal, 
o que envolvia a notícia crime na delegacia e o processo no Juizado Especial Criminal, além 
das demandas nas Varas de Família (alimentos, divórcio e guarda de menores, basicamente). 
 Este percurso em duas esferas distintas, que poderia envolver dois ou mais processos, 
caracterizava-se por ser extremamente desgastante, além de não proporcionar à mulher em 
situação de violência o cuidado e suporte necessários para enfrentamento de uma conjuntura 
tão complexa como é da violência de gênero. Dando continuidade, Campos e Carvalho 
comentam: 
 
Com a Lei Maria da Penha, a violência contra mulheres passa a ser tratada como um 
problema complexo, originado em uma relação afetiva marcada pela desigualdade 
de gênero, cuja complexidade o direito deve responder de forma minimamente 
satisfatória. Desde o ponto de vista do movimento de mulheres, era injustificável 
cindir artificialmente a situação, como se as questões de família e criminais fossem 
instâncias distintas da relação afetiva que as originou. (CAMPOS e CARVALHO, 
2011, p. 149) 
 
 Certamente, o caráter híbrido dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar foi 
duramente criticado por parte dos pensadores jurídicos que não admitiam o enfrentamento da 
questão da violência contra a mulher em uma única jurisdição autônoma, sendo inconcebível 
a aproximação das esferas civil e criminal (CAMPOS e CARVALHO, 2011). 
 Entretanto, o posicionamento do movimento feminista a respeito da unicidade do 
processo de violência doméstica se assenta no fato de que, por mais que as ações cíveis, 
criminais e de família possuam natureza distintas, todas elas são motivadas pelo mesmo fato 
gerador, o que exige enfrentamento específico e estruturado. 
Em relação ao dever de correspondência entre a lei e a realidade das mulheres, 
Campos e Carvalho novamente observam que: 
 
34 
 
 
Contrariamente à tradição do pensamento jurídico, a partir da reforma legal, é o 
sistema jurídico que necessita se adequar à realidade e não o contrário. 
Especificamente em relação à violência contra mulheres, a possibilidade de que, na 
mesma esfera jurisdicional, de forma concentrada e com economia de atos, possam 
ser resolvidas questões penais e de família representa importante inovação e, em 
termos pragmáticos, significa efetividade dos direitos. (CAMPOS e CARVALHO, 
2011, p. 149) 
 
 Por fim, cabe salientar que a regra de concentração das questões civis e criminais nos 
Juizados de Violência Doméstica e Familiar não alcança os crimes dolosos contra a vida, os 
quais são julgados perante o Tribunal do Júri, por força de previsão constitucional (artigo 5º, 
XXXVIII, alínea d, da Constituição). 
 No entanto, a fase de instrução do Tribunal do Júri (primeira fase), que culmina ou não 
no pronunciamento do réu, poderá correr nos Juizados De Violência Doméstica e Familiar, de 
acordo com as normas de organização judiciária de cada ente federativo, conforme decidiu o 
STJ: 
 
Ressalvada a competência do Júri para julgamento do crime doloso contra a vida, 
seu processamento, até a fase de pronúncia, poderá ser pelo Juizado de Violência 
Doméstica e Familiar contra a Mulher, em atenção à Lei 11.340/06. (STJ, HC 
73161/SC, Rel. JANE SILVA, 29/08/2007) 
 
 
 De todo o modo, a Lei Maria da Penha deverá ser integralmente observada pelo 
julgador, principalmente no que tange às medidas protetivas de urgência, ainda que o processo 
seja de competência do Tribunal do Júri, uma vez que a natureza da violência e a qualidade da 
vítima são sempre preponderantes. 
 
 
2.3 O TRATAMENTO DO HOMEM NA LEI MARIA DA PENHA 
 
 Muito se discute, ainda hoje, sobre a constitucionalidade da Lei Maria da Penha. O 
estatuto foi alvo de diversas críticas, sob o fundamento de que seu conteúdo violaria o 
princípio da igualdade, sendo discriminatório em relação ao homem em situação de violência. 
Esta concepção propõe o entendimento de que, pela Lei Maria da Penha, o homem estaria em 
condição de "domínio", "subjugo" e desprotegido da violência doméstica. Por sua vez, Fausto 
Rodrigues de Lima verifica a incoerência deste posicionamento: 
 
35 
 
 
Ambos os argumentos são falhos, mas não apenas por desconsiderar as questões 
histórico-culturais que justificam uma norma específica para lidar com a 
discriminação de gênero – com atenção especial à sua vítima predileta (a mulher) –, 
ou pordesprezar a teoria das ações afirmativas (discriminações positivas) que há 
mais de quatro décadas orienta o Estado a tratar “desigualmente os desiguais na 
medida da sua desigualdade”, sob pena de não tornar realidade a igualdade formal 
preconizada nas Constituições modernas. As criticas pecam na base principalmente 
porque a LMP não criou um sistema para punir homens e nem os desprotegeu 
quando acossados pela violência familiar. (LIMA, 2011, p. 269) 
 
 Vemos, portanto, que a Lei Maria da Penha não criou novos tipos penais 
incriminatórios ou mesmo suprimiu algum direito dos homens, mas tão somente introduziu 
um sistema de atendimento e proteção às mulheres, uma vez que a violência doméstica atinge 
muito mais a mulher do que o homem. 
 Além disso, a mulher também se submete à Lei Maria da Penha quando agride outra 
mulher no âmbito da violência doméstica, o que demonstra que a lei é essencialmente 
direcionada à proteção da vítima, independente de quem seja o agressor, ou agressora. Neste 
sentido, não é do interesse da Lei Maria da Penha punir homens, mas apenas proteger a 
mulher, não importando o gênero de quem lhe tenha agredido (LIMA, 2011). 
 Mais ainda, pode-se dizer que a Lei Maria da Penha foi benéfica aos homens em 
situação de violência ao aumentar a pena prevista para o crime de lesão corporal para três 
anos de detenção (artigo 129, § 9º, do Código Penal), sem fazer qualquer distinção de gênero. 
Por conseguinte, o crime de lesão corporal deixou de ser um crime de menor potencial 
ofensivo, de modo que não há o emprego das medidas despenalizadoras, mesmo que a 
agressão seja praticada em face de pessoa do gênero masculino. Vale destacar a elucidação de 
Lima: 
 
Além disso, a Lei Maria da Penha não excluiu o homem do sistema de proteção dos 
direitos humanos, nem retirou sua dignidade humana. O homem continua protegido 
na esfera penal. A lei não criou crimes para tutelar unicamente a mulher como 
sujeito passivo, nem estabeleceu penas maiores para os crimes cometidos contra as 
mulheres. Os tipos penais que protegem a mulher são os mesmos que protegem o 
homem; a pena prevista para os crimes praticados contra elas é igual à prevista 
quando a vítima for um homem. (LIMA, 2011, p. 269) 
 
 É perfeitamente possível afirmar que o homem possui proteção jurídica quando está 
em situação de violência doméstica, ressaltando-se que, em termos práticos, nem mesmo a lei 
9.099/95 se provou ineficaz em sua proteção (LIMA, 2011). Deste modo, o homem que for 
vítima de um crime de menor potencial ofensivo no âmbito doméstico terá como recorrer ao 
artigo 69, parágrafo único, da Lei 9.099/95, que permite o afastamento do agressor, ou 
agressora, do lar, sem prejuízo da incidência das medidas despenalizadoras. 
36 
 
 
 Caso a agressão sofrida pelo homem seja de maior potencial ofensivo, o procedimento 
será o mesmo previsto para a mulher, com exceção de que o processo não correrá no Juizado 
de Violência Doméstica e Familiar. No que concerne às medidas cautelares, o afastamento do 
lar (artigo 69, parágrafo único, da Lei 9.099/95) poderá ser requerido mesmo nos crimes de 
competência das Varas Criminais, além das cautelares de família que poderão ser requeridas 
em seu respectivo juízo. 
 Vemos que a Lei Maria da Penha não criou qualquer instituto de desproteção ou de 
revogação dos direitos do homem, o qual foi inclusive beneficiado, quando vítima, pelo 
aumento de pena nos crimes de lesão corporal. Assim, a Lei Maria da Penha não poderá ser 
interpretada extensivamente para a proteção de pessoas do sexo masculino, sob pena de 
nulidade, tendo em vista que o referido instrumento legal foi especialmente formulado para o 
enfrentamento da violência contra a mulher. Além dessas questões, Lima igualmente nos traz 
a seguinte teorização: 
 
Apesar da LMP não estabelecer diferenças penais entre os gêneros, ainda que possa 
fazê-lo em nome da teoria das ações afirmativas, ela buscou inovar no 
enfrentamento da violência contra a mulher notadamente nas regras processuais – 
procedimentais e cautelares –, situações em que elas eram sabidamente 
desfavorecidas. As normas foram criadas apenas para as mulheres vítimas porque 
jamais se julgou necessário aprimorá-las para a vítima homem. Se necessário fosse, 
já se teria buscado alterar o sistema, inclusive pelos mesmos grupos de juristas e 
instituições que alardeiam, só agora, a inconstitucionalidade da LMP. Se nunca 
reclamaram da atuação do sistema na proteção do homem, porque querem agora 
fulminar do mundo a Lei Maria da Penha sob alegação de que não protege esse 
mesmo homem? (LIMA, 2011, p. 272) 
 
 Logo, percebe-se que os mecanismos de proteção introduzidos pela Lei Maria da 
Penha são direcionados exclusivamente à mulher, o que é plenamente justificável se 
observarmos o contexto histórico e cultural de violência, perante o qual as mulheres são 
submetidas. 
 Nunca é demais salientar que a lei propôs a coibição de uma situação fatídica que não 
vinha sendo efetivamente erradicada pelo modelo jurídico anterior, fornecendo um sistema de 
proteção à mulher que pela primeira vez considerou a dimensão e a complexidade deste tipo 
de violência. Certo é que inconstitucional seria a omissão do Estado brasileiro diante desta 
realidade. 
 
 
 
37 
 
 
 
3. APLICABILIDADE DA LEI MARIA DA PENHA: A EXPERIÊNCIA DO NUDEM 
NO RIO DE JANEIRO 
 
 Para a melhor fundamentação do presente trabalho, percebeu-se a necessidade de se 
observar empiricamente como a Lei Maria da Penha vem sendo aplicada e quais são os 
desafios das instituições que trabalham na defesa dos direitos da mulher. Sendo esta pesquisa 
focada no estudo acerca da lei, com destaque às medidas protetivas como instrumento eficaz 
para a proteção da vítima, nada mais coerente do que realizar uma aproximação entre as 
teorias aqui expostas e a prática de enfrentamento da violência, analisando se há efetividade 
nos institutos introduzidos pela Lei Maria da Penha. 
 Para tanto, foi realizada uma visita ao Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher 
Vítima de Violência (NUDEM), órgão da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, onde 
entrevistei a defensora Arlanza Maria Rodrigues Rebello, coordenadora do núcleo. O 
NUDEM é o órgão da Defensoria Pública especializado no atendimento às mulheres em 
situação de violência desde 1997, sendo responsável pela elaboração de políticas 
institucionais e pela difusão de iniciativas voltadas ao tema. O trabalho do NUDEM é 
realizado mediante a atuação de uma equipe técnica multidisciplinar, que conta com 
defensores públicos, psicólogos, assistentes sociais e estagiários. 
 Além da assistência jurídica, o órgão também promove eventos e debates sobre 
questões ligadas à violência de gênero, integrando a rede de atendimento à mulher vítima, que 
é vinculada à Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). 
 
 
3.1 APLICAÇÃO DO PROTOCOLO ENTREVISTA 
 
 No dia 26/01/2016, compareci ao NUDEM, situado à Rua da Carioca, nº 72 no Centro 
da cidade do Rio de Janeiro, onde participei de uma entrevista junto à defensora Arlanza 
Maria Rodrigues Rebello, coordenadora do núcleo. Antes de realizar este trabalho, tive a 
oportunidade de participar de um debate sobre violência doméstica organizado na UFF pelos 
estagiários do NUDEM e posteriormente, em novembro de 2015, estive presente no seminário 
de comemoração dos 18 anos do núcleo, o que fomentou meu interesse em executar a 
38 
 
 
pesquisa de campo. Fui introduzida ao órgão por um colega, ex estagiário, que gentilmente 
agendou a entrevista em uma terça-feira à tarde. 
 Cheguei ao NUDEM por volta das 13 horas e pude observar alguns atendimentos. 
Destaque-seque uma das funcionárias do núcleo era uma mulher transexual que, segundo os 
estagiários, vinha trabalhando no NUDEM a partir de um projeto de inclusão social da 
Defensoria Pública. Quando cheguei ao núcleo a defensora Arlanza já estava sendo 
entrevistada por um grupo de alunas do curso de direito da UFRJ e, portanto, acabei me 
juntando às estudantes para realizar minha pesquisa, de modo a não tomar o tempo da 
defensora para um segundo encontro. A entrevista conjunta durou cerca de quarenta minutos, 
não havendo interrupção nas respostas. 
A pesquisa de campo foi especialmente relevante para a construção deste trabalho, 
trazendo uma perspectiva prática sobre a Lei Maria da Penha e a efetividade de seus 
institutos. Foi possível desenvolver um olhar ainda mais sensível em relação à mulher em 
situação de violência, haja vista a complexidade deste tipo de violação. 
 Assim, neste capítulo trataremos da aplicabilidade da Lei Maria da Penha, de acordo 
com a experiência do NUDEM e sob o ponto de vista da defensora entrevistada, observando a 
eficácia da lei e de seus mecanismos no enfrentamento da violência doméstica e na proteção 
da mulher. 
 
 
3.2 ANÁLISE DA ENTREVISTA 
 
3.2.1 Sobre os crimes mais recorrentes 
 
 Segundo Arlanza, coordenadora do NUDEM, a maioria dos casos de violência 
doméstica envolvem crimes de lesão corporal, crimes contra a honra (injúria e difamação) e a 
ameaça. Por mais assustador que seja se deparar com uma mulher vítima de lesão corporal, 
contendo marcas físicas da agressão sofrida, o núcleo possui uma preocupação especial com a 
mulher que vem sendo ameaçada, tendo em vista que a ameaça significa um homicídio em 
potencial. 
 Decerto, em momento algum, foi contestada a gravidade do crime de lesão corporal ou 
a importância de seu enfrentamento, mas ressaltou-se na entrevista que o crime de ameaça 
nem sempre será mera articulação de palavras em um momento de raiva do agressor, podendo 
39 
 
 
culminar na morte da mulher em situação de violência. Foi dito que os crimes de ameaça são 
negligenciados nas delegacias e tratados como crimes de pouca urgência por alguns 
operadores do sistema de proteção e atendimento à mulher. Um exemplo lamentável é 
relatado pela defensora: "houve uma vez em que o próprio delegado disse ao pai da vítima 
que a ameaça em 99% dos casos não se materializava e o pai precisou voltar à delegacia para 
dizer que a filha dele fazia parte do 1%". 
 
 
Análise: 
 
 Como se vê, ainda existem profissionais que, por mais que lidem diretamente com o 
sistema introduzido pela Lei Maria da Penha e sejam responsáveis pelo atendimento de 
mulheres fragilizadas, não consideram, em sua tarefa, a complexidade da violência de gênero 
e a importância do acolhimento à vítima, reproduzindo um comportamento um tanto quanto 
hostil, sobretudo quando admitimos que o movimento da vítima de ir até a delegacia é 
marcado pelo sentimento de medo, ao mesmo tempo que uma atitude de muita coragem. Há 
um senso comum que tende a acreditar que o crime de ameaça é "pouco" para que se recorra à 
tutela jurisdicional, o que faz com que a vítima permaneça silenciada perante a iminência de 
uma possível agressão fatal. 
 
 
3.2.2 Dos crimes no âmbito da internet 
 
 Outra questão relevante levantada pela defensora foi o aumento dos crimes contra a 
honra no âmbito da internet e das redes sociais. Com muita frequência o NUDEM atende 
mulheres que sofrem injúrias e difamações cometidas por seus ex-companheiros na internet, 
com finalidade de envergonhá-las e impedir relacionamentos futuros. Em diversos casos, o 
agressor, insatisfeito com o fim do relacionamento ou no intuito de se vingar, utiliza a internet 
como meio para denegrir a imagem da mulher. Não são raros os casos de exposição de fotos 
da ex-companheira nas redes ou de difamação e injúria no sentido de que a mulher pratica 
prostituição, sendo estes apenas alguns exemplos mencionados no núcleo. 
 
Análise: 
 
40 
 
 
 A internet se tornou um espaço para novas modalidades de violência, especialmente 
através das redes sociais que são plataformas de grande alcance de pessoas e possibilitam 
rapidamente a propagação de tais crimes. Eu, pessoalmente, acompanhei um caso de 
difamação na internet que tomou grandes proporções, no qual a mulher vinha sendo acusada 
de racismo pela comunidade virtual. Seu ex-companheiro havia publicado nas redes sociais 
uma imagem forjada (mais precisamente um Print Screen
3
) onde supostamente a mulher 
estaria cometendo injúria racial. Rapidamente a imagem se propagou nas redes e a mulher se 
tornou alvo de críticas e boicotes, sendo hostilizada e perseguida pelos internautas. Diante de 
todo o alvoroço, a vítima precisou publicar uma nota de esclarecimento, expondo sua situação 
pessoal, na qual o ex-companheiro a perseguia. Certamente o episódio foi suficiente para 
desequilibrá-la e prejudicá-la. 
 De todo o modo, não foi a natureza da violência que mudou, mas os mecanismos 
utilizados, uma vez que a tecnologia trouxe novos artifícios para que o agressor possa cometer 
determinados crimes já previstos em nosso Código Penal. 
 
 
3.2.3 Sobre o comportamento da mulher vítima 
 
Em que pese a recorrência dos crimes supracitados (lesão corporal, crimes contra a 
honra e ameaça), a entrevista demonstrou que o comportamento da mulher, por sua vez, vem 
se modificando e que hoje já existe um grupo de mulheres que busca a tutela jurisdicional 
desde o primeiro ato de violência por ela identificado, o que representa uma tremenda 
mudança de postura. 
Segundo a experiência da defensora Arlanza, por muito tempo quase a totalidade dos 
casos de violência doméstica eram formados por ciclos de agressão que duravam, em média, 
de dez a quinze anos. Os ciclos eram marcados pela agressão, pelo perdão da vítima seguido 
de um momento de paz, até que a violência voltasse a acontecer. A mulher permanecia presa 
na situação de violência por anos, porquanto se sentia responsável pela formação e bem estar 
de sua família, além da possibilidade de dependência emocional ou econômica. 
 Embora a maioria dos casos de violência doméstica ainda seja de ciclos longos, a 
defensora observa que este intervalo de tempo, até que a mulher procure o atendimento 
jurisdicional, vem se modificando, sendo considerável o número de mulheres que se impõem 
 
3
 O Print Screen – Prt Sc é um comando disponível nos teclados dos computadores, que possibilita a captura da 
imagem da tela. 
41 
 
 
desde o primeiro ato praticado pelo agressor; desde o primeiro sopro de consciência da 
violência que sofreram. 
 Em muitos casos, a ofendida sequer deseja o afastamento da convivência junto ao 
agressor, mas tão somente censurar sua atitude, mostrando que aquela agressão não pode e 
não vai acontecer de novo. Esta mulher não está interessada essencialmente na penalidade, ou 
em separar-se de seu companheiro, porém deseja mostrar que é capaz de puni-lo e que uma 
segunda agressão não será tolerada. De acordo com a entrevistada, isso demonstra um perfil 
de empoderamento feminino, autoestima e confiança que muito raramente são encontrados 
em uma mulher que viveu longos ciclos de agressão. 
 Com tal característica, a defensora afirma que a mudança de postura da vítima 
significa um avanço por asseverar que a Lei Maria da Penha trouxe respaldo legal e segurança 
à mulher em situação de violência. A lei lhe proporcionou um sistema pelo qual a mulher 
pode buscar proteção, bem como inibir a agressão, ainda que em um primeiro momento não 
seja de seu interesse cortar relações com o agressor. 
 
 
Análise:Cumpre ressaltar que, em determinados casos, apenas a ida à delegacia, ao NUDEM, 
ou qualquer órgão especializado, já é capaz de intimidar o agressor e fazer cessar a violência. 
A própria existência da Lei Maria da Penha como instrumento legal de proteção, que informa 
a possibilidade de o agressor ser seriamente processado e até mesmo privado de sua liberdade, 
em alguns casos, inibe uma ação de violência que outrora seria realizada. 
Afinal, a Lei Maria da Penha trouxe inúmeras facilidades e inovações como foi 
exposto nos tópicos anteriores. Antes, a falta de amparo legal apropriado dificultava o 
trabalho das defensorias e submetia a mulher em situação de violência ao tratamento 
infrutífero
4
 da Lei 9.099/95. Considere-se que o próprio comparecimento à delegacia para 
noticiar o crime é por si só um movimento da mulher de muita força e coragem, que lhe gera 
um sentimento de culpa e muitas vezes simboliza o fracasso de sua estrutura familiar. Mais 
ainda, em regra, não é desejo da mulher ver seu companheiro; pai dos seus filhos preso. 
 
 
 
4
 V. Fauzi Hassan Choukr, Lei Maria da Penha comentada em uma perspectiva jurídico-feminista, 2011, pp. 
367-377. 
42 
 
 
3.2.4 Mudanças produzidas pela Lei Maria da Penha 
 
 A entrevistada ressalta que, com a Lei 9.099/95, a mulher realizava o movimento de ir 
até a delegacia para finalmente chegar na fase judicial e se deparar com a composição civil, 
ou a transação penal, além de agentes públicos despreparados para lidar com a violência de 
gênero. 
 No que diz respeito aos crimes de menor potencial ofensivo, pode-se dizer que a Lei 
9.099/95 foi benéfica ao introduzir as medidas despenalizadoras, afastando a criminalização e 
as penas prisionais. Entretanto, no que concerne à violência doméstica, a defensora considera 
que a lei promovia tão somente sua banalização. Conforme relatado, a transação penal 
oferecida pela Lei 9.099/95 consistia, efetivamente, no pagamento de cestas básicas, o que 
muitas vezes se voltava contra a mulher por se tratar de uma pena "fútil". Uma vez que o mal 
causado pelo agressor não era devidamente recriminado ou limitado, a mulher sofria punições 
em consequência. Assim, por conta do pagamento de cestas básicas, o agressor não fornecia 
alimentos para o lar, por exemplo, ou aumentava a frequência das agressões. 
 Outra mudança proporcionada pela Lei Maria da Penha foi a concentração de todas as 
ações provenientes da situação de violência nos Juizados de Violência Doméstica e Familiar, 
de modo que as questões desencadeadas pela violência sejam trabalhadas em conjunto. A 
defensora destaca que esta mudança evitou o processo de "fragmentação da pessoa". No 
entanto, os tribunais superiores não vêm acatando integralmente o comando legal, decidindo 
que as demandas de família devem correr nas Varas de Família, enquanto os JVDF devem se 
ocupar precipuamente das questões criminais.das agressões. 
 Explica a defensora que, com a Lei Maria da Penha, os crimes realizados no âmbito da 
violência doméstica passaram a ser "valorizados" e combatidos com seriedade. A lei inovou 
ao introduzir um sistema de proteção à mulher que não permite a aplicação de medidas 
despenalizadoras, além de fornecer um rol extenso de medidas protetivas de urgência, que 
podem obrigar tanto a vítima quanto o agressor. 
A entrevistada salienta que as medidas protetivas afastam de imediato a mulher do 
contexto da violência, protegendo-a desde seu primeiro contato na delegacia. Tais medidas 
devem ser utilizadas independentemente do resultado final do processo, uma vez que visam 
garantir e resguardar o bem estar físico, psicológico e até mesmo patrimonial da vítima, 
considerando-se ainda que o rol de medidas protetivas seja exemplificativo, devendo o juiz 
adotar as espécies de medidas que entender necessárias para proteger a mulher. 
43 
 
 
 Sobre a efetividade das medidas protetivas, a entrevistada afirma que algumas medidas 
menos gravosas são suficientes para conter alguns agressores, enquanto para outros não 
restará alternativa senão a prisão preventiva. Foi relatado um caso de uma assistida do 
NUDEM cujo agressor já havia cumprido pena de prisão durante quatro meses, justamente 
por descumprimento de medidas protetivas. Ao deixar o encarceramento, o agressor passou a 
perseguir sua ex-companheira, porém sempre respeitando o limite de aproximação fixado pela 
medida protetiva de distanciamento. Ou seja, se a mulher estava de um lado da rua, ele a 
observava do outro lado; se a mulher estava no trabalho, ele a acompanhava pela janela do 
prédio à frente; e assim por diante. O agressor cumpria a medida protetiva, de modo que, 
mesmo assim, a mulher não possuía liberdade. 
 Esta mulher foi instruída pela Defensoria Pública a deixar a cidade e fugir do alcance 
de seu agressor, mudando totalmente de vida, para que pudesse de fato desfrutar de sua 
liberdade. Ressaltou-se na entrevista que, mesmo nos casos onde não há possibilidade de 
qualquer proteção jurídica, a mulher possui poder de decisão e de mudança sobre sua própria 
vida, ainda que, para se livrar da situação de violência, precise depreender grandes esforços. 
 
Análise: 
 
 Sobre o poder de decisão da ofendida, outro ponto extremamente importante foi 
levantado pela defensora: a mulher é co-responsável pelas relações que estabelece e, por 
conseguinte, por retirar-se de tais relações. De modo algum, afirmou-se que a mulher é 
culpada pela situação de violência, mas que a responsabilidade pelo movimento de libertação 
também recai sobre a mulher. O empoderamento feminino gera a consciência de que a mulher 
é dona de sua própria vida; de que possui poder para se livrar da situação de violência e do 
agressor que lhe perturbar. Por certo, a mulher precisará do apoio de sua família, do judiciário 
ou de outras instituições, todavia, em qualquer hipótese, o fim da situação de violência 
depende da predisposição da vítima em fazer com que a aquela violação aos seus direitos 
chegue ao fim. 
 Durante a entrevista, a defensora reforçou a magnitude do empoderamento, sendo este 
necessário e imprescindível à continuidade do enfrentamento da violência doméstica, uma vez 
que o processo judicial é marcado pela burocracia e pela formalidade de seus atos, o que faz 
com que demande longo período de tempo. Neste sentido, muitas inconveniências do agressor 
podem ser interrompidas pela mulher mediante atitudes simples e instantâneas, através de seu 
próprio poder de decisão e independentemente de ordem judicial. 
44 
 
 
 Por exemplo, se estamos diante de um agressor que, ao tentar se reaproximar da 
vítima, lhe envia mensagens de texto pelo celular e a importuna com ligações, a mulher, 
perante esta situação, deve ter consciência de que tem poder para simplesmente bloquear o 
contato do agressor ou, se necessário, trocar de número telefônico. Estas pequenas atitudes de 
empoderamento permitem que a vítima se liberte da relação abusiva, percebendo a força que 
possui sobre si mesma. 
 
 
3.2.5 Sobre a efetividade das medidas protetivas 
 
 Igualmente, o empoderamento se mostra essencial no curso do processo para que a 
vítima se encoraje a movimentá-lo até as últimas instâncias. Conforme apontado pela 
entrevistada, o deferimento da medida protetiva implica organicamente na intimação do 
agressor para ciência da ordem judicial. Caso o comando seja descumprido, a mulher deve 
comunicar o fato ao judiciário, para que uma medida mais eficaz seja deferida. 
 Logo, a mulher em situação de violência precisa se manter firme em todo o caminho a 
ser percorrido, considerando que o deferimento da medida protetivaconstitui apenas um dos 
primeiros momentos processuais. 
 
Análise: 
 
 Note-se que a mulher fragilizada e sem apoio dificilmente será capaz de cortar as 
investidas de seu agressor e de movimentar o processo judicial até o fim, tendo em vista que a 
situação de violência em regra compromete sua autoestima. Por estes motivos o diálogo, o 
trabalho conjunto e o empoderamento são tão importantes. 
 Sob esta perspectiva, a multidisciplinaridade no acompanhamento da mulher em 
situação de violência, também produz o empoderamento. A defensora explica que os grupos 
de discussão e o contato com outras mulheres em situação semelhante fazem com que a 
vítima não se sinta sozinha, dando-lhe forças para persistir. É importante que a vítima perceba 
que existem outras mulheres em situação de violência igual ou pior, e que a violência de 
gênero é um mal que atinge a sociedade como um todo. 
 Assim, ainda que em condição de vítima, a mulher não pode cair em um estado de 
"vitimização" e apatia, dado que sua autoestima é essencial para o fim da situação de 
violência por completo. Ao mesmo tempo, segundo o relato da defensora, a medida protetiva 
45 
 
 
sem o acompanhamento por uma rede de serviços que proporcione o diálogo é ineficaz. A 
multidisciplinaridade faz com que a vítima entenda o processo judicial e o contexto de 
violência que está enfrentando. 
 
 
3.2.6 Sobre as dificuldades encontradas pelo NUDEM 
 
 De acordo com o relato da defensora, a maior dificuldade encontrada pelo NUDEM no 
enfrentamento da violência doméstica está na superação do pensamento patriarcal. O agressor 
acredita seguramente que pode e possui o direito de agredir "sua" mulher. 
 A experiência no núcleo lhe demonstrou que frases como "mas ela é minha mulher"; 
"mas ela me irritou"; "mas ela me traiu"; ou "ela provocou" são comuns entre os homens que 
realizam os atos de violência, o que evidencia a subsistência do pensamento machista de que a 
mulher pertence ao homem. Permanece arraigada no imaginário masculino a construção 
social de que a mulher, tal qual uma criança, precisa ser corrigida por seu marido, 
companheiro ou por quem a "detenha". 
 
 
Análise: 
 
 Diante disso, voltamos à necessidade de superação do pensamento machista nas 
famílias e instituições sociais. O machismo se materializa em padrões de comportamento que 
são reproduzidos culturalmente e que culminam na violência de gênero. Assim, é de extrema 
relevância que os órgãos especializados na defesa dos direitos das mulheres e no combate à 
violência atuem de maneira conjunta e em constante diálogo com a população e com os 
movimentos feministas, de maneira que a sociedade tome conhecimento da disponibilidade de 
órgãos como o NUDEM, ao passo que tais órgãos estejam em sincronia com as demandas 
coletivas atuais. 
 Devemos salientar que a participação do movimento feminista foi essencial na 
elaboração da Lei Maria da Penha e tem contribuído em sua aplicação ao problematizar as 
diversas formas de violência de gênero. A 3ª onda de movimentos feministas
5
 trouxe novas 
 
5
 A 1ª onda de movimentos feministas consolidou a luta por direitos políticos, principalmente no que diz respeito 
ao sufrágio universal. Já a 2ª onda de movimentos feministas deu continuidade à primeira na busca por uma real 
igualdade entre os sexos, caracterizando-se por uma atmosfera de maior produção intelectual e questionamento, 
46 
 
 
ferramentas de conscientização do machismo, utilizando-se das redes sociais para articular 
campanhas que promovem o respeito e a igualdade. Em 2015, iniciativas feministas como o 
"meu amigo secreto" e o "meu primeiro assédio"
6
 repercutiram na internet, fazendo com que a 
comunidade virtual se questionasse acerca de inúmeros comportamentos machistas que são 
constantemente naturalizados. 
 Tanto a violência no âmbito doméstico quanto as demais formas de assédio e 
discriminação de gênero são reflexo do machismo e consistem em violência, mesmo que em 
proporções menores, muitas vezes culturalmente normalizadas. O ponto comum entre as 
diversas formas de violência de gênero está na objetificação da mulher, ainda que por um 
momento, circunstância, ou ainda que de maneira inconsciente. Certo é que a movimentação 
da juventude feminista vem transformando o olhar sobre a mulher como sujeito de direitos, o 
que ecoa positivamente no enfrentamento da violência doméstica. 
 
 
3.2.7 Sobre a inexistência de um perfil da mulher em situação de violência 
 
 Imperioso destacar que não é possível estabelecer um perfil de mulheres vítimas de 
violência doméstica. A entrevistada relata que seu trabalho realizado na Defensoria Pública, 
atendendo especialmente o público hipossuficiente, permitiu que colegas, mulheres, de 
diversas classes e grupos sociais a procurassem em busca de auxílio. Estas mulheres eram 
médicas, juízas, promotoras, professoras universitárias, entre outras, que precisavam 
"desabafar" e que não se sentiam confortáveis ou encorajadas a ir à delegacia. 
Frisou-se na entrevista que o tema da violência doméstica não era amplamente 
discutido no judiciário, tampouco na Defensoria Pública. Pelo contrário, era um assunto 
silenciado e evitado pelos próprios profissionais do direito, o que dificultava o enfrentamento 
e inibia as vítimas. Com o aumento dos debates sobre o tema, campanhas e políticas públicas, 
houve mais espaço para denunciar as agressões e, por conseguinte, demonstrar que a violência 
doméstica não recai apenas sobre uma ou outra mulher, mas trata-se de um problema social 
que atinge a coletividade. 
 
com o objetivo de identificar as estruturas sociais e culturais que colocavam a mulher em condição de 
subordinação. Essa informação encontra-se no capítulo 2, p. 14. 
 
6
 As campanhas “Meu amigo secreto” e “Meu primeiro assédio” se desenvolveram espontaneamente para 
denunciar o machismo nas redes sociais em 2015. Na primeira, as mulheres traziam relatos sobre 
comportamentos e experiências machistas que vivenciaram; enquanto, na segunda, narraram publicamente suas 
experiências de primeiro assédio moral ou abuso sexual sofrido. 
47 
 
 
 
 
Análise: 
 
 Concluímos, portanto, que não existe um perfil determinado de mulheres vítimas de 
violência doméstica, visto que todas nós podemos ocasionalmente iniciar uma relação 
abusiva, não importando o contexto social no qual nos inserimos. 
 Além disso, através da entrevista, compreendemos que a situação de violência possui 
estruturas complexas e que limitar os motivos da continuidade de uma relação abusiva à mera 
dependência econômica ou dependência emocional, seria um tanto quanto reducionista. 
 A defensora explica que, mesmo a mulher financeiramente emancipada, possui 
dificuldades para se libertar da relação de violência, uma vez que existe uma construção social 
de que a violência é provocada pela própria mulher. Esta construção culturalmente aceita faz 
com que a mulher se sinta culpada pela agressão sofrida, a ponto de reproduzir o discurso 
machista, que coloca a violência como resultado de seu fracasso. Foi relatado na entrevista 
que é comum que algumas mulheres justifiquem a violência sofrida com os mesmos 
argumentos utilizados por seus agressores: "ele só fez isso porque a minha comida é ruim"; 
"ele só fez isso porque sentiu ciúmes"; "ele só fez isso porque eu fiz aquilo". Isso mostra o 
quão consolidado é o paradigma de culpabilização da vítima em nossa sociedade.Segundo o ponto de vista da defensora, a mulher se sente responsável, não só pela 
agressão sofrida, como também pela felicidade de seu companheiro e de sua família, sendo 
certo que desistir e abandonar a relação abusiva, em um primeiro momento, significa falhar 
como mulher. 
À vista disso, não é simplesmente a questão financeira que mantém a mulher no ciclo 
de violência, tampouco o apego emocional no que diz respeito ao amor Eros, mas sim o 
sentimento de que a mulher é responsável pelo bem estar de seu lar e daqueles que ama. 
A defensora elucida que a vítima passa a sentir pena de seu agressor, receio de afastar 
os filhos do pai e de desconstituir sua família, aprisionando-se na concepção idealista de que 
"por traz de um grande homem existe uma grande mulher". 
 Vemos que a estrutura da situação de violência é complexa e marcada por construções 
sociais de culpabilização da vítima. Neste sentido, reforça-se a necessidade de um trabalho 
sério e multidisciplinar voltado ao enfrentamento da violência doméstica e à superação do 
pensamento patriarcal. 
48 
 
 
 Acreditamos que o empoderamento feminino e o olhar sobre a mulher como sujeito de 
direitos se efetivam através do diálogo, dos esforços conjuntos de diversas instituições, e 
inclusive das famílias, de modo que se alcance a igualdade de gênero. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
49 
 
 
 
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 
 O principal objetivo deste trabalho foi analisar a Lei Maria da Penha, informando suas 
inovações para, a partir de então, realizar a pesquisa de campo no NUDEM no Rio de Janeiro 
e observar a aplicabilidade dos mecanismos de proteção à mulher oferecidos pela lei. Assim 
fazendo, acreditamos estar contribuindo efetivamente com práticas transformadoras voltadas 
para o empoderamento feminino e a busca pela igualdade material entre os sexos. 
 Para isso, o presente trabalho embasou-se em diversos artigos acadêmicos sobre 
violência doméstica e desigualdade de gênero, na obra do constitucionalista Luís Roberto 
Barroso (2011), além dos dispositivos legais pertinentes ao tema. Tais estudos consideram 
fundamental a elaboração de ações afirmativas no sentido de promover a isonomia e, por 
conseguinte, enfrentar o problema da violência contra a mulher. Diante disso, percebe-se a 
necessidade de desconstruir socialmente a mentalidade machista, além de fomentar o 
empoderamento feminino e a maior participação das mulheres na política e no judiciário. 
 Assim, seguimos o nosso estudo e organizamos este trabalho de conclusão de curso 
em quatro capítulos numerados de um a quatro. 
 Na introdução deste trabalho, apresentamos o objetivo principal desta pesquisa, que 
foi esclarecer diversos questionamentos comuns no que diz respeito às possibilidades de 
aplicação da Lei Maria da Penha, suas inovações e sua eficácia. Tal objetivo está ligado ao 
fundamento constitucional de validade da lei, que se apóia no princípio da igualdade material. 
 No capítulo um, justificamos inicialmente a necessidade de problematização do 
conceito de gênero, enfatizando que determinados aspectos sociais são atribuídas 
culturalmente aos homens e mulheres. A partir desse enquadramento, realizamos um breve 
panorama histórico sobre a evolução dos movimentos feministas, bem como o processo de 
constitucionalização e valorização dos direitos humanos da mulher. Além disso, nesse 
capítulo, explicamos os princípios da igualdade formal e da igualdade material, demonstrando 
a constitucionalidade da Lei Maria da Penha, à medida que o estatuto promove a redução das 
desigualdades de fato e anuncia a não aceitação da violência doméstica no contexto social 
brasileiro. 
 No capítulo dois, descrevemos o processo de elaboração da lei 11.340 de 2006, que se 
deu sob influência e participação do movimento feminista. Além disso, relatamos o caso 
50 
 
 
concreto de Maria da Penha Fernandes, ressaltando a importância de sua apreciação pela 
CIDH, que pressionou o Estado brasileiro a realizar políticas públicas de enfrentamento à 
violência de gênero. Tratamos, ainda, dos institutos jurídicos introduzidos pela Lei Maria da 
Penha, a saber: o afastamento da Lei 9.099/95; a utilização da expressão "situação de 
violência"; a tutela específica para as mulheres; a conceituação da "violência de gênero"; a 
proteção nas relações homoafetivas; as medidas protetivas de urgência; e a criação dos 
Juizados de Violência Doméstica e Familiar. Por último, analisamos brevemente o tratamento 
conferido ao homem em situação de violência. 
 No capítulo três, apresentamos uma análise das questões abordadas na pesquisa de 
campo realizada no Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher Vítima de Violência 
(NUDEM), onde foi entrevistada a defensora pública Arlanza Maria Rodrigues Rebello, 
coordenadora do núcleo. O NUDEM é órgão pertencente à Defensoria Pública e especializado 
na assistência jurídica às mulheres em situação de violência. Assim, transcrevemos o 
conteúdo da entrevista, tecendo observações a respeito do relato da entrevistada, com o 
objetivo de analisar a real aplicabilidade da Lei Maria da Penha e apontar informações que 
possam viabilizar e contribuir efetivamente para a superação da desigualdade de gênero. 
Ressaltamos as práticas que consideramos essenciais para ultrapassar este paradigma, quais 
sejam: o empoderamento feminino; a multidisciplinaridade e sensibilidade no atendimento à 
mulher em situação de violência; e a desconstrução social do pensamento patriarcal que se 
fundamenta na "objetificação" da mulher. 
 Assim sendo, por meio do nosso estudo, acreditamos ter sido possível obter os devidos 
esclarecimentos acerca das inovações da Lei Maria da Penha, desmistificando informações 
sobre seu sistema de proteção e reforçando sua constitucionalidade. Com base no trabalho de 
campo, conseguimos apontar certas dificuldades enfrentadas pelos agentes que atuam na 
defesa da mulher vítima de violência, tal como diversas percepções em relação à eficácia da 
lei, principalmente no que tange às medidas protetivas, a fim de colaborar com a 
conscientização e o enfrentamento da violência de gênero. 
 A pesquisa oferece ainda material que pode enriquecer futuros estudos jurídicos sobre 
a violência doméstica, com enfoque na criminologia feminista e na articulação de políticas 
públicas e programas voltados à busca pela igualdade de gênero. 
 Dessa forma, acreditamos que o presente trabalho traz contribuições para uma 
verdadeira percepção acerca da complexidade da violência doméstica e da necessidade de 
51 
 
 
constante desconstrução do imaginário machista que naturaliza a violência e enxerga a mulher 
como objeto. 
 Afinal, quando compreendemos a realidade e as estruturas da violência de gênero, 
estamos de fato desenvolvendo um olhar sensível e solidário em relação à mulher que vive um 
relacionamento abusivo, independentemente do patamar de violação à sua subjetividade. 
 Acreditamos contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e acolhedora, 
que não tolera qualquer situação de opressão. Isso porque, através do diálogo, do 
conhecimento e das discussões, podemos pouco a pouco transformar as estruturas sociais que 
admitem as inúmeras formas de violência, muitas vezes sutis, mas que roubam a posição de 
sujeito de direitos das mulheres. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
52 
 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
ÁVILA, Thiago André Pierobom de. Lei Maria da Penha. Uma análise dos novos 
instrumentos de proteção às mulheres.Projeto BuscaLegis 2007. Disponível em: 
<http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/13477-13478-1-PB.pdf>. Acessado 
em 27 de março de 2016. 
BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos 
fundamentais e a construção do novo modelo / Luís Roberto Barroso. - 3. ed. - São Paulo: 
Saraiva, 2011. 
BASTOS, Celso Ribeiro. Dicionário de Direito Constitucional. Verbete "Princípio da 
Igualdade". São Paulo: Saraiva, 1994. 
BELLOQUE, J.: Das medidas protetivas que obrigam o agressor – artigos 22. In: 
CAMPOS, C. H. (Org.). Lei Maria da Penha comentada em uma perspectiva jurídico-
feminista. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2011, p. 307-314. 
BRASIL. "Constituição da República Federativa do Brasil". Brasília: Senado Federal, 
1988. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acessado em 27 de 
março de 2016. 
_______.“Código Penal”. Brasília: Congresso Nacional, 1940. Disponível em 
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>. Acessado em 28 
de março de 2016. 
_______.Decreto 5.030 de 31 de março de 2004. Institui o Grupo de Trabalho 
Interministerial para elaborar proposta de medida legislativa e outros instrumentos para coibir 
a violência doméstica contra a mulher, e dá outras providências. Disponível em: 
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5030.htm>. Acessado 
em 28 de março de 2016. 
_______.Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do 
Adolescente e dá outras providências. Disponível em: 
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acessado em 27 de março de 2016. 
_______.Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995. Dispõe sobre os Juizados Especiais 
Cíveis e Criminais e dá outras providências. Disponível em: 
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9099.htm>. Acessado em 27 de março de 2016. 
_______.Lei nº 10.741 de 1º de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá 
outras providências. Disponível em: 
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm>. Acessado em 27 de março de 
2016. 
53 
 
 
_______.Lei n° 11.340, de 07 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência 
doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8
o
 do art. 226 da Constituição Federal, 
da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e 
da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; 
dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera 
o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras 
providências. 
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