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1 
 
SUMÁRIO 
 
1 LINGUAGEM JURÍDICA .................................................................... 2 
2 O ACESSO À JUSTIÇA ..................................................................... 5 
3 SEMIÓTICA E SUA RELAÇÃO COM O DIREITO ............................. 9 
4 A HISTÓRICA APLICAÇÃO DOS JARGÕES JURÍDICO ................ 15 
5 DIREITO, LINGUAGEM E MÉTODO ............................................... 15 
6 O USO DO LATIM ........................................................................... 24 
7 A SENTENÇA E A COMPREENSÃO POPULAR ............................ 26 
8 LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................... 30 
BIBLIOGRAFIA ...................................................................................... 48 
 
 
 
2 
 
 
1 LINGUAGEM JURÍDICA 
 
Fonte: revistavisaojuridica.uol.com.br 
A linguagem é o lugar da interação humana, interação comunicativa pela 
produção de efeitos de sentido entre interlocutores, em uma dada situação de 
comunicação e em um contexto sócio histórico e ideológico. Os usuários da 
língua ou interlocutores interagem como sujeitos ocupantes de lugares sociais. 
“Falam” e “ouvem” desses lugares de acordo com formações imaginárias que a 
sociedade estabeleceu para tais lugares sociais. Por esse motivo, o diálogo, em 
sentido amplo, é o que caracteriza a linguagem. 
Uma vez que a palavra permeia todos os nossos atos, em todas as 
instâncias da realidade social, forma-se em todo setor do conhecimento humano 
uma linguagem e, consequentemente, um diálogo particular. À medida que 
aumenta o grau de especialização de um determinado conhecimento, o 
vocabulário técnico também se especializa, aumentando a distância entre o 
diálogo dos iniciados nesse conhecimento e dos não iniciados. Podemos dizer 
que temos o idioma - a Língua Portuguesa - e os sub idiomas de cada área de 
conhecimento produzindo e alimentando particularidades terminológicas. Dentre 
 
3 
 
esses sub idiomas, no Brasil, destaca-se a linguagem jurídica devido à 
fascinação exercida pela atividade profissional jurídica, atividade reconhecida 
como espaço de extremo poder. 
A linguagem jurídica interpretada pelos estudiosos da Língua Portuguesa: 
desvelamento técnico e linguístico em prol da cidadania e responsabilidade 
social. 
 
 
Fonte: userscontent2.emaze.com 
A linguagem jurídica, instrumental do profissional do direito: linguagem 
ímproba, jurisdição precária. 
A conjugação das duas focalizações procurou a conciliação entre as 
distintas experiências, articulando propostas e evolução para pesquisas 
posteriores, em especial a da prática jurídica voltada para o ensino 
aprendizagem da linguagem jurídica no curso de Direito. 
O desvelamento técnico e linguístico das interfaces da linguagem jurídica 
objetivou esclarecimento e atuação indispensáveis à cidadania e 
responsabilidade social. Afinal, a palavra é o instrumento de trabalho dos 
profissionais do Direito e, havendo ruído ou impropriedade linguística, a 
jurisdição se torna precária. 
 
 
4 
 
“É incontestável que, na prática jurídica, a linguagem escrita exerce papel 
fundamental. Dentre outras razões, destaque-se o fato de revelar informações 
juridicamente relevantes, viabilizando o mais perfeito entendimento do caso 
concreto. Entretanto, sabemos que não é tarefa de fácil envergadura expressar 
se de acordo com a exigência do rigor jurídico e, ao mesmo tempo, manter a 
clareza, a transparência e a elegância. (...) com muita propriedade, os autores, 
por meio de exemplos de narrativas extraídas de algumas peças processuais, 
disponibilizaram aos discentes meios de contextualizar a teoria e também 
compreender a narrativa como parte integrante de um todo mais complexo. Além 
disso, de forma didática, muitas vezes sugerindo uma conversa com o leitor, 
abriram uma clareira em mata densa, carente de luz”. 
_________________________________Desembargador Sergio 
Cavalieri Filho. 
A linguagem como meio de comunicação e interação entre indivíduos de 
uma sociedade é utilizada para transmitir mensagens e códigos, a fim de 
esclarecer significados e facilitar a compreensão de informações. Este recurso 
encontra espaço essencial na ciência do direito, seja através do uso da retórica, 
e até mesmo da própria escrita forense, dando assim, contornos característicos 
a ciência jurídica. 
Entretanto, verifica-se que a função precípua da linguagem no ramo do 
direito vem desvirtuando seu objetivo principal. O uso da linguagem em latim, e 
de sinônimos rebuscados acaba por dificultar a compreensão e interpretação da 
mensagem jurídica. 
Porém, quando esta prática é analisada sob a ótica do indivíduo, constata-
se que o cidadão, por desconhecer e não compreender o que a lei, uma 
sentença, ou mesmo o que o próprio advogado profere, tem seu acesso à justiça 
restrito e em alguns casos não há acesso, por falta de compreensão. Assim, o 
indivíduo é cerceado de obter o bem jurídico pretendido. 
Por se tratar de um fenômeno recorrente, e que afeta diretamente o 
jurisdicionado, sociólogos, juristas e filósofos criaram diversas teses para 
justificar o uso deste tipo de linguagem no meio jurídico. Dentre as mais 
conhecidas, a teoria do poder simbólico, do sociólogo Pierre Bourdieu, explica 
como a linguagem é utilizada para manter o poder de quem a utiliza, em 
detrimento da sociedade. 
 
5 
 
Para BOURDIEU, as diferentes classes e frações de classes estão 
envolvidas numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do 
mundo social mais conforme aos seus interesses e imporem o campo das 
tomadas de posições ideológicas reproduzindo em forma transfigurada o campo 
das posições sociais. Elas podem conduzir esta luta quer diretamente, nos 
conflitos simbólicos da vida quotidiana, quer por produção, por meio da luta 
travada por especialistas da produção simbólica (…) e na qual está em jogo 
o monopólio da violência simbólica legítima (cf. Weber), quer dizer, do poder de 
impor – e mesmo de inculcar – instrumentos de conhecimento e de expressão 
(taxonomias) arbitrários – embora ignorados como tais – da realidade social. 
Assim, o poder simbólico é aquele decorrente dos nossos instrumentos 
de comunicação e conhecimento. Trata-se de um poder invisível, pois é exercido 
ou sofrido de tal forma que o agente ou a vítima não se sabe atingido por esse 
poder. 
O poder simbólico acaba por desencadear uma imposição sobre como as 
relações serão vistas e compreendidas, imposição está sob o comando de quem 
detém esse poder. No mundo jurídico, os indivíduos que atuam na área, ao 
utilizarem-se da linguagem jurídica acabam sendo os detentores deste poder, 
deixando os demais indivíduos de uma sociedade à margem da realidade. 
2 O ACESSO À JUSTIÇA 
A linguagem jurídica como vem sendo utilizada desencadeia uma 
problemática não apenas relacionada à hierarquia judicial e a disputa pelo poder, 
mas também acaba por incidir diretamente sobre um dos pilares do direito, qual 
seja, o acesso à justiça e consequentemente uma barreira à concretização do 
Estado Democrático de Direito. 
Segundo José Afonso da Silva, o Estado democrático de Direito possui 
um compromisso com a justiça material, aquela caracterizada não apenas como 
a igualdade perante a lei, igualdade formal, porém aquela que vá levar à 
redistribuição da riqueza, de modo a reestruturar as relações sociais e 
econômicas, alicerçando a sociedade democrática a qual não se concebe sem 
 
6 
 
a participação do cidadão comum nos mecanismos de decisão.” (SILVA, 2012, 
p. 58) 
Apreende-se que o escopo da democracia possui seus alicerces no 
tratamento isonômico entreos cidadãos, pretendendo garantir a participação da 
maioria, objetivo este oposto à segregação, que vem sendo afirmada pelo 
instrumento da linguagem. 
Desta forma, o emprego de uma linguagem técnica, estilística em 
demasia, acaba por privar o cidadão comum do entendimento e das 
interpretações da lei e, consequentemente, este recurso que tem como função 
transmitir uma informação, acaba por impedir a concessão da tutela jurisdicional, 
uma vez que as próprias partes envolvidas na lide têm de enfrentar mais esta 
essa barreira da linguagem. 
 
 
Fonte: www.correioforense.com.br 
Nota-se que essa problemática não se resume a requisitos 
econômicos/sociais, pois o elevado nível hermético dos termos jurídicos acaba 
por refletir nas inúmeras páginas de livros, em que os próprios doutrinadores 
destinam à alcançar o conceito de determinada palavra, discussão essa, que na 
maioria das vezes não finda em um consenso. 
 
7 
 
O Direito, enquanto instrumento condicionante da vida em sociedade, 
requer uma aplicação minimamente possível no cotidiano de uma civilização, 
afinal, a essencialidade das condutas humanas são permeadas por normas de 
direito, envolvendo constantemente obrigações e deveres entre os indivíduos. 
Assim, o acesso a este direito não pode ser mitigado, ou mesmo colocado à 
disposição de uma parcela mínima da população. 
A expressão “acesso à justiça” vai além do direito de acesso ao Poder 
Judiciário, compreendendo-a como o acesso uma ordem jurídica que vá 
proporcionar ao cidadão resultados que sejam individual e socialmente justos. 
Atualmente, o acesso à justiça vem sendo permitido prima facie, no âmbito 
puramente formal, no tocante aos indivíduos que desconhecem o ordenamento 
jurídico. A utilização de uma linguagem jurídica hermética empregada pelos 
operadores do direito acaba por difundir barreiras e segregações aos indivíduos 
que procuram os tribunais a fim de tutelar seu bem da vida. 
A obra realista O Processo, ainda que remonte à primeira metade do 
século XX, consagra- se como atual, na medida em que faz alusão a diversas 
falhas do Poder Judiciário que vigoram até os dias atuais. Dentre elas, o 
problema da linguagem jurídica é considerado por ser utilizada como uma 
ferramenta que acaba dificultando o acesso à justiça. 
A teoria do poder simbólico apresenta-se como uma das justificativas 
plausíveis, ao interesse dos operadores do direito, em continuar fazendo uso de 
uma linguagem rebuscada, que acaba por afastar o cidadão da prestação 
jurisdicional. 
Compreende-se que a real democratização implica uma aproximação do 
direito da realidade que procura representar e sobre a qual pretende agir, implica 
ainda a adoção de uma postura que não cria divisões e separações entre 
universos discursivos, quando a síntese a simplicidade podem significar mais. 
É aceitável atribuir o conhecimento da linguagem jurídica a partir do 
exercício da racionalidade humana. 
Assim, o significado das coisas torna-se inteligível a partir da interpretação 
delas pela atividade racional operada pelo homem, o que se exprime 
basicamente pela linguagem. 
Logo, as coisas não antecedem à linguagem. Esta faz desvelar o próprio 
significado das coisas segundo a interpretação humana. 
 
8 
 
 
 
Fonte: www.cradvogados.com 
Em outros termos, o significado das coisas não é dado. Ao contrário, é 
algo construído, até porque a linguagem atua na elaboração desse objeto de 
significação. Nessa linha, Lenio Luiz Streck afirma que “estamos mergulhados 
num mundo que somente aparece (como mundo) na e pela linguagem. Algo só 
é algo se podemos dizer que é algo”. 
Assim, extrai-se o significado do mundo por intermédio da linguagem e, 
por isso mesmo, o mundo jurídico é igualmente compreendido pelos precisos 
limites permitidos pela linguagem. 
Veja-se, com isso, que o pensamento sobre a ordem jurídica passa, ainda 
que lateralmente, pela via da linguagem. E, de certo modo, o Direito é 
parcialmente produzido pela linguagem. Assinala-se, entretanto, que a 
linguagem não é o único instrumento de visualização do universo jurídico, 
cabendo ao intérprete da norma jurídica investigar o sentido das coisas dizíveis 
a fim de identificar o verdadeiro significado do justo que, por natureza, é 
modificável segundo o percurso histórico. 
De qualquer forma, assume importância o recurso da linguagem no 
âmbito jurídico, a fim de estabelecer a relação entre as normas jurídicas e, no 
caso concreto, estabelecer e reforçar a unidade do ordenamento jurídico, a partir 
de paradigmas cognitivos extraídos pela análise semiótica. 
 
9 
 
3 SEMIÓTICA E SUA RELAÇÃO COM O DIREITO 
 
Fonte: www.scrittaonline.com.br 
O Direito, como espécie de sistema de controle social dos 
comportamentos intersubjetivos, é igualmente considerado uma forma de 
instituição social que se manifesta pela linguagem: a linguagem jurídica. 
Ademais, o Direito, como ramo do conhecimento científico, inclina-se a 
compreender a realidade social (mundo do ser), a partir de causas próximas e 
remotas, gerais e específicas, a fim de ordenar socialmente (mundo do dever 
ser) os comportamentos humanos, num dado momento histórico, por meio de 
normas jurídicas indispensáveis à manutenção do corpo coletivo. 
Para Maria Helena Diniz, “o fundamento das normas está na exigência da 
natureza humana de viver em sociedade, dispondo sobre o comportamento de 
seus membros”. No ponto, adverte-se que “as normas são fenômenos 
necessários para a estrutura ôntica do homem”, isto é, as normas jurídicas 
seriam elementos indispensáveis à composição da própria vida humana, com o 
fim de estabelecer padrões de conduta social com densidade valorativa de 
razoavelmente aceitação. 
E quanto à relação com o homem e a sua cultura, desponta a importância 
da linguagem. 
A propósito dessa amarração entre linguagem e cultura, afirma Cândido 
Rangel Dinamarco que a linguagem constitui objeto “de uma cultura, servindo 
não só para medir o grau de civilização que através dela se manifesta, mas 
 
10 
 
também para chegar-se ao conhecimento das particularidades de determinada 
civilização”. 
Em termos de civilização, cumpre dizer que a noção de linguagem 
remonta à antiga civilização grega. 
Particularmente no mundo grego, a linguagem aparece relacionada com 
o discurso filosófico, pois “à medida que se formava a polis grega, ao lado da 
linguagem poética se criava, pois, uma outra linguagem, a linguagem dos 
oradores, a linguagem retórica”. 
Com efeito, no mundo cultural da antiga Grécia, arvoraram-se duas 
linguagens a tratar das coisas da polis, “a linguagem poética, inspiração das 
Musas, que falam por meio de poeta; a linguagem retórica, em que o homem fala 
por si, pessoal por definição”. 
De qualquer sorte, em tempos modernos, contudo, a estrutura jurídica, 
por seu turno, é explicitada por meio de uma linguagem multifacetada que 
carrega valores racionais específicos e disformes. 
A linguagem, pois, representa e, ao mesmo tempo, estabelece a 
comunicação do conhecimento jurídico científico, de modo que a norma jurídica 
abstratamente considerada é desvelada, no plano concreto, pelo veículo da 
linguagem. 
Sucede, entretanto, que a linguagem que veicula o conhecimento jurídico 
contém limitação inerente à própria dificuldade natural de conhecimento pontual 
e acabado dos objetos investigados. 
É dizer, a linguagem não dá conta de apreender a totalidade do objeto de 
conhecimento. Ela apenas revela e comunica parcialmente o substrato valorativo 
da norma jurídica, a partir de uma perspectiva de linguagem. 
Por sua vez, o pensamento jurídico também encontra na linguagem a sua 
forma de exteriorização,até porque “o pensamento precisa da articulação 
linguística, pois os signos linguísticos constituem o essencial da comunicação 
humana, sendo, portanto, o fundamento da linguagem”. 
Importa dizer, aliás, que a condição de possibilidade de existência da 
ciência jurídica reside na linguagem. Nesse sentido, para Maria Helena Diniz, a 
ciência jurídica “encontra na linguagem sua possibilidade de existir”. 
Vê-se, portanto, que a temática jurídica, particularmente a formação, a 
interpretação e a aplicação do Direito, encontra-se intimamente imbricada com 
 
11 
 
a análise de importantes estruturas, como a palavras, os conceitos, a 
representação, a comunicação, o conhecimento e a linguagem, tudo, de certa 
forma, ligado ao domínio sobre o qual se debruça a Semiótica, aqui entendida, 
em síntese, como instrumento de estudo preciso da linguagem jurídica. 
Assenta-se, então, a necessária articulação entre os paradigmas da 
Semiótica e do Direito, já que tudo isso reflete na problemática da decidibilidade 
das questões jurídicas e atinge diretamente os direitos e as garantias 
fundamentais do ser humano. Aliás, no dizer de Maria Helena Diniz, “o problema 
nuclear da ciência jurídica é a decidibilidade”. 
 
 
Fonte: www.univali.br 
Vê-se, pois, que a relação entre linguagem e Direito mostra-se implicada, 
até porque o objeto jurídico é produzido a partir da dimensão da linguagem, de 
modo que a própria linguagem reúne um conjunto de símbolos sujeitos à 
compreensão do intérprete. 
Para Maria Helena Diniz, a aproximação entre linguagem e Direito firma-
se a partir de algumas premissas de sustentação. É o que se passa a analisar, 
a título exemplificativo. 
A primeira premissa assenta que “o Direito não poderia produzir seu 
objeto numa dimensão exterior à linguagem”. É que no Direito, particularmente 
 
12 
 
na perspectiva do direito positivo, a linguagem imbrica-se com as palavras e 
ocupa um lugar de destaque a desempenhar variadas funções de comunicação 
do discurso jurídico. 
A segunda entende que “onde não há rigor linguístico não há ciência, pois 
esta requer rigorosa linguagem científica. 
A terceira sustenta que o operador da ciência jurídica deve utilizar a 
espécie de interpretação cabível, a partir do significado da palavra no texto 
normativo, a fim de extrair a sua ideia no tempo e no espaço. Até porque “as 
palavras guardam o segredo do seu significado”. Veja-se: 
“O elemento linguístico entra em questão como instrumento de interpretação, pois, sendo 
a linguagem do legislador subjetiva e variável, o jurista deverá, na interpretação literal, atingir o 
sentido específico e objetivo da palavra, buscando verificar o sentido da lei. Na interpretação 
histórica deverá analisar as causas de elaboração das propostas normativas e, na sistemática, 
levar em conta os vários significados que as palavras assuem nos textos legislativos em que são 
inseridas, procurando formar uma linguagem coerente e unitária. Em suma, o intérprete deve 
partir das palavras para atingir a ideia.” 
Destaca-se como quarta premissa a importância do elemento linguístico 
no universo de construção da própria ciência, uma vez que: “Se a linguagem do 
legislador não é ordenada, o jurista deve reduzi-la a um sistema. A atividade 
sistemática ou construção de um determinado sistema jurídico é uma das 
principais tarefas do jurista. ” 
Vê-se, portanto, que no plano da comunicação jurídica existe perfeita 
sintonia entre linguagem e Direito, a ponto de surgir uma autêntica, singular e 
complexa linguagem jurídica. 
Nesse sentido, o Direito ganha contornos de existência segundo uma 
“linguagem, imposta pelo postulado da alteridade”. E a decisão jurídica (no 
sentido de lei, costume ou decisão judicial), por sua vez, “é um componente de 
uma situação comunicativa entendida como um sistema interativo, pois decidir é 
ato de comportamento referido a outrem”. 
Assim, o papel do discurso jurídico relaciona-se, ainda que indiretamente, 
a uma ação linguística que envolve outrem. Dessa forma, todo discurso sugere 
a importância do próprio homem no contexto da comunicação. Nessa linha, veja-
se: 
“Logo, o objeto do discurso da ciência do direito (...) não é o conjunto das 
normas positivadas, mas o ser (o próprio homem), que, no interior da positividade 
 
13 
 
que o cerca, representa, discursivamente, o sentido das normas ou proposições 
prescritivas que ele estabelece, obtendo uma representação da própria 
positivação. ” 
Ademais, a importância do homem conta com o histórico drama que 
permeia o universo jurídico, e isso é sinalizado por Francesco Carnelutti, no 
sentido de que “o direito tem necessidade da lei para guiar os homens; mas a lei 
o estorva para julgá-los”. 
 
 
Fonte: www.editoraforum.com.br 
Em relação à linguagem jurídica em geral, Maria Helena Diniz adverte 
quanto à existência de características particulares da ciência jurídica que as 
difere de outros ramos do conhecimento científico. Eis o texto: 
“É preciso lembrar, ainda, que a linguagem utilizada pelo direito não é 
precisa por ter caracteres da linguagem natural que, em oposição à linguagem 
formal, como a da lógica e a da matemática puras, possui expressões ambíguas, 
termos vagos e palavras que se apresentam com significado emotivo, o que leva 
o jurista a desentranhar o sentido dos termos empregados pelo legislador (...) A 
textura aberta das palavras da lei, a ambiguidade e vagueza das expressões 
legais viabilizam a redefinição dos sentidos normativos pela ciência jurídica e a 
adoção de uma das alternativas de decisão pela autoridade ou juiz ao aplicar o 
direito”. 
No prisma do direito positivado, pode-se atribuir a noção de linguagem 
legal, consistente numa estrutura de linguagem jurídica ditada pelo órgão 
 
14 
 
legiferante competente, segundo certa organização de palavras tendente a 
indicar determinado significado. Aqui, destaca-se mais um problema: o 
significado das palavras. 
E a problemática em torno do significado das palavras restou enunciada 
pelo jurista Eros Roberto Grau, ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal, ao 
afirmar que “as palavras são potencialmente ambíguas e imprecisas” e que “a 
mesma palavra conota, em contextos diferentes, sentidos distintos. O significado 
de cada uma delas há de ser discernido sempre no quadro do jogo de 
linguagem no qual elas apareçam”. 
Assim, a análise isolada da palavra pode subverter o sentido do texto e 
comprometer o entendimento do natural e cambiante processo de alteração dos 
valores que compõem a norma jurídica. 
A propósito, cabe destacar a advertência de que o “abuso de regras e 
filigramas gramaticais estagnam e mumificam o sentido dos textos, impedem sua 
adaptação às necessidades sociais sempre mutáveis e sempre revestidas de 
modalidades novas”, o que faz comprometer a natural adaptação do Direito à 
realidade fática. 
Aliás, o componente histórico-valorativo do Direito é acentuado por Miguel 
Reale, no sentido da “adequação entre a ordem normativa e as múltiplas e 
cambiantes circunstâncias espaciotemporais, uma experiência dominada ao 
mesmo tempo pela dinamicidade do justo”. 
E mais. É de se assentar que a linguagem “só pode ser entendida de 
maneira estrutural, em correlação com as estruturas e mutações sociais”. 
A forma escrita contém signos (símbolos) construídos por convenções 
linguísticas e a linguagem especializada caracteriza-se por intermédio de um 
texto comunicacional com múltiplos significados específicos inerentes à quadra 
jurídica. 
Vê-se que o processo de comunicação das normas jurídicas se dá pelo 
instrumento da linguagem das normas, isto é, da linguagem legal. Tem-se, com 
isso, a dimensãoem que se situa a Teoria Comunicacional do Direito Positivo e, 
nesse contexto, surge a Semiótica como uma técnica de investigação do Direito 
positivado pelo Estado. 
 
15 
 
4 A HISTÓRICA APLICAÇÃO DOS JARGÕES JURÍDICO 
A linguagem na norma culta é essencial para qualquer profissional. 
Expressar-se de maneira correta e inequívoca é fundamental para estabelecer 
comunicação sem qualquer desentendimento. Mas no mundo jurídico, uma das 
principais características na escrita é o excesso de tecnicismo, que levou a 
sociedade a cunhar o termo ‘’ juridiquês’’ para se referir à linguagem usada nas 
peças processuais. 
Importante esclarecer que o texto jurídico sempre foi marcado por 
construções fraseológicas complexas e por um elevado grau de conhecimento 
da língua, não só no processo de estruturação textual, mas também no 
conhecimento profundo da gramática da língua portuguesa... no entanto essa 
imagem positiva tem sido depreciada por uma vasta quantidade de erros básicos 
referentes à utilização da língua e à estruturação da linguagem. 
Fato é que vivemos em um país de questionável qualidade de educação. 
Temos centenas de milhares de analfabetos completos ou funcionais que, ao se 
depararem com o texto do pedido de seu advogado ou com sentenças proferidas 
pelo judiciário, não compreendem a linguagem, criando assim um abismo entre 
o mundo jurídico e a população, principal usuária deste. 
O distanciamento da classe jurídica do restante da população através de 
sua linguagem própria torna a busca pelo conhecimento do mundo do Direito 
pedante e impossível. Os jurisdicionados então passam a ter sentimento de 
descrédito e repulsa pelo judiciário e todas suas ramificações. Os juristas 
tornam-se então, caricatos para a sociedade. 
5 DIREITO, LINGUAGEM E MÉTODO 
O Direito, enquanto objeto cultural é entendido como um fenômeno 
linguístico que constrói realidades próprias, dentro de um conjunto de 
fundamentos que são a unidade do sistema. 
A unidade do sistema é formada por pontos que se baseiam em uma 
estrutura que é a norma, consistente em estrutura lógica que conjuga um 
antecedente e um consequente por meio de um funcho deôntico. 
 
16 
 
Segundo Jonathan Barros Vita é da contingência e generalidade que 
surge a unidade do sistema jurídico, o seu código lícito/ilícito, que cria 
assimetrias e realiza a comunicação jurídica, sustentada pela linguagem. 
O Direito é norma e norma é linguagem, de consequência, direito é 
linguagem. 
Enquanto objeto do mundo o Direito é e existe através da linguagem, que 
é a forma de criação de realidades, de existência do mundo, já que a linguagem 
é que está à frente dos acontecimentos, que são, somente, alcançados a 
posteriori, quando captados de maneira eficaz por um eixo linguístico-
comunicativo. 
Obviamente, qualquer objeto de estudo, no caso, o direito, acaba tendo 
de ser aproximado mediante um método que é a forma do conhecer em sentido 
científico. 
 
 
Fonte: institutocarrion.com.br 
O vocábulo “método” deriva do grego methodos que significa “caminho 
para se chegar a um fim”. Os métodos regem a produção da linguagem científica, 
do modo que não existe conhecimento científico sem método e este influi 
diretamente na construção do objeto. 
O método, bem como as técnicas utilizadas, está intimamente ligado às 
escolhas epistemológicas do cientista e influi diretamente na construção de seu 
objeto, demarcando o caminho percorrido para justificação de suas asserções. 
 
17 
 
Olhando externamente ao sistema, constatamos que o direito cria suas 
próprias realidades, ao passo que dentro de uma visão interna, somente existe 
o direito, não existindo uma distinta realidade para este. 
De outra parte, o método também pode ser descrito como uno e ao 
mesmo tempo plural, pois para conhecer um objeto de estudo de nada adianta 
ter apenas uma visão, que é sempre deturpada, falha e arreflexiva por natureza. 
Consiste o método num posicionamento/reposicionamento frente ao 
objeto constante, quer seja por meio da semiótica, lógica, da filosofia, o que 
infere que o método é aplicado na construção e investigação do objeto, que é 
dúplice e uno ao mesmo tempo, pois se estuda a linguagem que é a forma de 
expressão do direito. 
O método, portanto, bem como as técnicas utilizadas, está intimamente 
ligado às escolhas epistemológicas do cientista e influi diretamente na 
construção de seu objeto, demarcando o caminho percorrido para justificação de 
suas asserções. 
Cumpre pontuar inicialmente que o Direito é entendido, para todos os 
efeitos, aqui, como um fenômeno que se expressa e existe como linguagem 
esquematizada em um contexto de comunicação, organizado sob a forma de um 
sistema único. 
Tal unidade consiste dizer que as meras divisões de abordagem ou 
distinções entre os ramos do direito são de caráter meramente metodológico, 
pois a simplificação é base de qualquer estudo científico, do que é válido afirmar 
a existência de uma divisão na ciência do direito, mas nunca será válido afirmar 
que o direito positivo divide-se. 
 
18 
 
 
Fonte: blog.hernandez-vilches.com 
Inobstante o caráter da unidade, temos que o termo “direito” é passível de 
inúmeras referências denotativas. 
Nesse contexto, temos a realidade do Direito Positivo e da ciência do 
Direito, que, enquanto mundos diferentes, não se confundem. Todavia, por 
serem representados linguisticamente pela mesma palavra e por serem ambos 
tomados como objeto do saber jurídico, acabam não sendo percebidos 
separadamente por todos. 
Importante destacar a distinção feita por Paulo de Barros Carvalho entre 
a realidade do Direito Positivo e da Ciência do Direito. Assevera que “são dois 
corpos de linguagem, dois discursos linguísticos, cada qual portador de um tipo 
de organização lógica e de funções semântica e pragmática diversas”. 
Correspondem, portanto, a duas regiões do conhecimento jurídico. Assim, se o 
direito positivo é o conjunto de regras jurídicas válidas em um determinado país 
e em determinada época, “à Ciência do Direito cabe descrever esse enredo 
normativo, ordenando-o, declarando sua hierarquia, exibindo as formas lógicas 
que governam o entrelaçamento das várias unidades do sistema e oferecendo 
seus conteúdos de significação”. 
 
 
19 
 
 
Fonte: d2f17dr7ourrh3.cloudfront.net 
A Ciência do Direito possui uma linguagem própria e distinta do Direito 
Positivo, pois as ciências, de uma forma geral, são apresentadas com a 
linguagem em sua função descritiva, forma declarativa, e tipologicamente 
qualificada como científica. 
Consiste, em verdade, num ramo científico que visa descrever, 
organizando o conhecimento, seguindo metodologia que dê conteúdo de 
segurança ao conhecimento exposto, fazendo notas e observações a respeito 
do seu objeto, que é o direito positivo ou, de forma mais abrangente, o direito 
possível, seguindo a técnica de Robles. 
Já o direito positivo apresenta-se revestido, normalmente, da função 
prescritiva, podendo ser ainda afásica, operativa, persuasiva ou, também, sob 
função metalinguística, com forma declarativa e tipologicamente classificada em 
técnica. 
Na doutrina do ilustre Professor Paulo de Barros Carvalho encontramos o 
ensinamento de que “o direito positivo aparece como um plexo de preposições 
que se destinam a regular a conduta das pessoas, nas relações inter-
humanidade”. 
A partir de um vínculo ciência – objeto, o mesmo jurista concebe ciência 
jurídica como aquela à qual “cabe descrever esse enredo normativo” (o direito 
positivo) ordenando-o, declarando sua hierarquia, exibindo suas formas lógicas 
que governam o entrelaçamento das várias unidadesdo sistema e oferecendo 
seus conteúdos de significação. 
 
20 
 
Com os dados apresentados, podemos dizer que o Direito Positivo 
exprime valores de validade ou invalidade, enquanto a Ciência do Direito, que 
emprega linguagem descritiva, transporta valores de verdade ou falsidade. 
Quanto aos valores dos dois mundos linguísticos o saudoso Lourival 
Vilanova disserta: “Examinando-se os textos onde a teoria pura do direito tem 
feito a distinção entre norma jurídica (Rechatnorm) e proposição jurídica 
(Rechatssatz), vê-se que se estriba nos seguintes pontos: I – a norma jurídica 
provém do fato do costume, ou do ato de legislador (em sentido amplo); a 
proposição jurídica procede do ato cognoscente, da Ciência do Direito; II – o 
modo-de-referência (semântico) da norma jurídica é prescritivo de possíveis 
fatos de um universo-de-fatos; o modo-de-referência das proposições jurídicas 
é o descritivo de fatos; III – consequentemente os valores de normas diferem dos 
valores de proposições: umas, válidas ou não-válidas; outras, verdadeiras ou 
falsas.” 
Portanto, a linguagem prescritiva do direito positivo estabelece regras de 
comportamento denominadas normas jurídicas, ao passo que o discurso da 
Ciência do Direito caracteriza-se por uma sobre linguagem descritiva das normas 
jurídicas. 
 
 
Fonte: www.primecursos.com.br 
 
21 
 
Tem-se que o direito se trata, em verdade, de objeto cultural e se traduz 
num fenômeno linguístico que constrói realidades próprias. 
Direito é norma e norma é linguagem, logo, direito é linguagem, silogismo 
básico e eficaz na demonstração de que o direito e linguagem são 
interconectados. 
Enquanto objeto do mundo o direito é e existe através da linguagem, que 
é a forma de criação de realidades, de existência do mundo, já que a linguagem 
é que está à frente dos acontecimentos, que são, somente, alcançados a 
posteriori, quando captados de maneira eficaz por um eixo linguístico-
comunicativo. 
Em outras palavras, a linguagem é o meio pelo qual o cientista visualiza 
o direito, por esta ser o direito, em determinadas condições. 
Neste ótica há que se destacar a importante contribuição do professor 
Paulo de Barros Carvalho que, reinterpretando Lourival Vilanova, apresentou 
uma teoria chamada de Constructivismo Lógico-Semântico. Esta teoria 
apresenta um foco específico que perfaz um importante entrecruzamento entre 
aspectos lógicos (sintáticos), o chamado giro linguístico e uma forte investigação 
semântica das estruturas e palavras dispersas no corpo do direito positivo. 
As expressões comumente utilizadas no âmbito jurídico, como sentença 
transitada em julgado, ad hoc e espia, além de frases longas, vistas pela 
comunicação como ruídos, muitas vezes dificultam ou mesmo impedem o 
entendimento por parte da população. 
Este refinamento, que torna a linguagem rebuscada, contribui, muitas 
vezes, para falhas na compreensão do receptor da mensagem, incluindo aí 
estudantes de Direito e até mesmo outros profissionais da área jurídica, o que 
leva a linguagem dos juristas a ser pejorativamente denominada juridiquês. 
A linguagem jurídica é vista como algo tão complexo a ponto de ser 
pejorativamente chamada, pela maioria, de juridiquês. Isto porque para os não 
operadores do Direito a linguagem do meio jurídico é algo bastante técnico e 
específico, com diversos termos próprios, inclusive em latim, que acabam por 
dificultar a compreensão. 
No entanto, a linguagem jurídica nada mais é que uma extensão da 
linguagem natural, aperfeiçoada e transformada em algo que a torna parte do 
exercício da profissão. Mas, para adentrar e entender o que é e como é utilizada 
 
22 
 
a linguagem jurídica, cabe, primeiramente, tratar da linguagem propriamente 
dita. 
O conhecimento adquirido acerca de uma determinada coisa só pode ser 
difundido e transmitido, de geração a geração, por meio da linguagem a qual, 
torna-se, então, o veículo de comunicação entre os indivíduos de uma 
sociedade, diferenciando, por conseguinte, cada grupamento humano. 
Quando o assunto é organização, a linguagem, segundo Martino (2014), 
é vista como uma forma de manutenção da ordem no caos, podendo-se, por 
meio dela, estabelecer regras de convívio, sendo, portanto, “o elemento usado 
por nossa mente para organizar a realidade exterior.” (Odgen e 
Richard apud MARTINO, 2014). Para França et al (2015) “a capacidade de 
organizar informações em linguagem” seria, aliás, uma das propriedades 
inalienáveis da comunicação. 
Martino (2014), a partir daí, apresenta a linguagem como fenômeno social 
haja vista que “nós aprendemos a falar, e, junto com ela, aprendemos categorias 
de ação, percepção e comportamentos sociais”, ou seja, aprende-se formas de 
manter uma Comunicação dentro de um contexto social. 
Ao tratar do assunto França et al (2015) busca as palavras de Lotman & 
Uspenski segundo o qual “[...] ‘as línguas e as culturas são indivisíveis: não é 
admissível a existência de uma língua (...) que não esteja imersa num contexto 
cultural, nem de uma cultura que não possua no seu próprio centro uma estrutura 
do tipo da duma língua natural’ (1981: 38)”, isto é, tanto a linguagem como a 
língua irão variar de acordo com a cultura na qual estão inseridas, diferenciando-
se de acordo com o lugar. 
 
 
23 
 
 
Fonte: bcctorres.com 
Vale observar que, assim como a linguagem está inserida em um contexto 
social, sendo específica de uma cultura e lugar, será ela também a limitadora do 
mundo de cada indivíduo haja vista que, como retratado em Wittgenstein 
(apud MARTINO, 2014) “‘os limites de minha linguagem são os limites do meu 
mundo’” o que significa que a mesma linguagem que pode acrescer a noção de 
mundo de cada um pode, também, limitar “a compreensão de mundo do 
indivíduo falante dentro de suas estruturas” (MARTINO, 2014). 
Ressalte-se, por fim, que mundo, como acima exposto, pode também 
referir-se ao contexto em que o indivíduo está inserido, como o mundo jurídico 
caracterizado pela linguagem jurídica. 
Tendo em vista o conceito de linguagem, tem-se a linguagem jurídica 
como uma extensão, uma expressão da linguagem natural, um subproduto 
desta, um aperfeiçoamento que a torna técnica, isto é, torna-a específica, o que 
não significa, entretanto, que deve ser complexa e de difícil entendimento. 
Tratando-se de meio em que o Direito se insere, Nader (2014) assim 
justifica a criação de uma linguagem técnica jurídica: “para que o Direito cumpra 
a finalidade de prover o meio social de segurança e justiça, é indispensável que, 
paralelamente ao seu desenvolvimento filosófico e científico, avance também no 
campo da técnica” isto porque como explica Reale (2002) “[...] sem a linguagem 
do Direito não haverá possibilidade de comunicação [...]”. 
A linguagem jurídica, assim é um conjunto de termos específicos e 
técnicos criados de modo a ter sua própria expressão e se firmar enquanto 
 
24 
 
ciência, sendo utilizada e compreendida por grande parte daqueles que operam 
o Direito. 
Enquanto realidade cultural de um lugar, o Direito vai se expressar como 
uma manifestação linguística local, revelando-se como “um produto cultural mais 
rígido (...)” (NADER, 2014) contendo termos que, em alguns casos, não serão 
aplicados fora daquele contexto, até mesmo pela dificuldade de compreensão 
quando deslocada daquela realidade, é o que acontece com a denominação 
‘peça ovo’ referindo-se à petição inicial do Código de Processo Civil ou ‘fumaça 
do bom Direito’ (também usada em sua forma em latim: fumus bom iuris) que é 
utilizada quando se quer mostrar a presença de um Direito existente no caso 
concreto. 
O Direito pode ser vistotambém como uma forma de arte, já que é por 
meio desta que os seus aplicadores expressam ideias, transpondo, de algum 
modo, para o papel, o que poderia ser chamado de veia poética, como reforçado 
por Nader (2014) na seguinte passagem: “a arte como processo cultural que 
realiza o belo, é também utilizada pelo Direito, especialmente em relação à 
linguagem (...). Vista como talento, é indispensável ao técnico que elabora o 
Direito, aos intérpretes e aos aplicadores”. 
6 O USO DO LATIM 
O latim, como um estrangeirismo muito utilizado no discurso jurídico, 
pode, quando usado de forma excessiva, atrapalhar o leitor dificultando a sua 
compreensão uma vez que a língua latina está praticamente em desuso, sendo 
recepcionada apenas em algumas áreas muito específicas, como o Direito, 
conforme exemplificado: sic: assim. Significa estar de acordo, conforme, 
segundo o original; escreve-se entre parênteses; sine qua non: sem a qual 
não; sui generis: o seu próprio gênero, peculiar; ultima ratio: última 
razão; ultra petita: além do pedido; vacatio legis: dispensa ou isenção da lei. 
As expressões retrocitadas, apesar de fácil compreensão pelos 
aplicadores do Direito, são comumente entraves ao entendimento de textos 
jurídicos não só pelas pessoas fora da área como até mesmo por estudantes de 
início de graduação que se veem diante termos como estes tanto nos livros e 
 
25 
 
salas de aula como ao longo de um contrato de estágio quando se é a primeira 
experiência, e depara-se com peças recheadas de expressões em latim ainda 
menos conhecidas, como: mora ex re: mora pela falta de cumprimento da 
obrigação no dia do seu vencimento; non bis in idem: não duas vezes contra o 
mesmo delito. Não se deve punir duas vezes alguém pelo mesmo crime; nonem 
juris: nome do direito; notitia criminis: conhecimento de um crime; nulla 
poena sine culpa: não há pena sem culpa; nulla poena sine lege: não há 
punição sem lei. 
A linguagem e o discurso jurídico, assim, podem ser mais claros, menos 
tecnicista, mas sem deixar de se apresentar como discurso jurídico, deixando de 
lado, por conseguinte, a excessiva técnica que faz essa linguagem ser vista 
como juridiquês. 
A linguagem jurídica sofre interferência de diversos ruídos da 
comunicação, como o excesso de técnica, de tal modo que leva a erros de 
compreensão por parte de quem recebe a informação, cabendo, portanto, 
retificação a fim de tornar a Comunicação a mais clara possível. 
O profissional do Direito, independentemente da carreira que siga, sempre 
vai precisar escrever peças, sejam opinativas, informativas ou argumentativas, 
onde será preciso também ter, desenvolver, ou mesmo adquirir a capacidade de 
interpretação e síntese de ideias de modo a transformar em texto aquilo que se 
tem em mente de forma clara, direta e objetiva, colocando na escrita tudo o que, 
de fato, gostaria de falar. 
Advogados, juízes, procuradores, dentre outros profissionais da área 
jurídica, em seus textos, de forma a redigir com linguagem técnica, fazem uso 
de diversos termos em latim, termos esses que vão desde os mais simples, 
comuns e de fácil compreensão até os mais complexos e não usuais. 
Enquanto forem utilizadas poucas expressões, e de fácil entendimento, 
não há problema, ao contrário, torna a linguagem jurídica específica. O problema 
surge no excesso; quando o texto é totalmente preenchido com um extenso 
vocabulário em latim, com expressões incomuns, onde, em vários casos, até 
mesmo outro operador do Direito tem dificuldade em entender. Nesses casos, 
se um aplicador do Direito não consegue entender o que lhe foi dirigido em 
redação, logicamente, o entendimento e compreensão do não jurista também 
será prejudicado. 
 
26 
 
Uma vez que a sociedade é a base do Direito e da linguagem sendo para 
quem as regras e normas do Direito são criadas e aplicadas, cabe o uso de uma 
linguagem menos complexa e refinada de modo que qualquer cidadão que ler 
ou ouvir um discurso jurídico tenha a clara compreensão do que percebeu. 
Vale dizer que o português, língua nacional, e a linguagem, como veículo 
da comunicação, devem ser utilizados de modo a facilitar o acesso da sociedade 
ao profissional do Direito e não a afastar. Afinal se o Direito surge do convívio 
em sociedade e, até mesmo a linguagem jurídica nasce da linguagem natural, 
nada mais coerente que trazer o jurídico para próximo do ambiente onde se 
originou, fazendo da linguagem não só um meio de comunicação entre os 
operadores do Direito, mas também entre eles e o seu público alvo: a sociedade. 
Assim é que se propõe uma melhora na comunicação entre juristas e não 
juristas, não de forma a abolir os termos técnicos que tornam a linguagem 
específica da área, mas de modo a redigir de forma mais clara, com peças 
formais, com boa redação, boa escrita, com técnica, mas sem excessos, onde 
qualquer leitor, qualquer pessoa que venha a ler o documento consiga 
compreender o que está escrito. 
Não é a técnica, a formalidade das peças e discursos ou aquele termo em 
latim mais usual que interfere na comunicação, mas sim o excesso, o uso 
demasiado de expressões técnicas que dificultam a impreensão e o acesso ao 
Poder Judiciário daqueles que são os mais interessados: a sociedade. 
 
7 A SENTENÇA E A COMPREENSÃO POPULAR 
Visando o acesso à justiça em seu mais amplo sentido, buscando a 
melhor compreensão popular nas resoluções do processo, alguns juízes 
alteraram sua forma de redigir uma sentença judicial com a intenção de facilitar 
o entendimento da parte interessada, levando em consideração seu nível de 
conhecimento jurídico e sua classe social. 
A linguagem técnica é aplicada, assim como toda ciência ela é necessária, 
bem como a prática da boa redação. A diferença consiste na forma que ela é 
apresentada, em uma esfera simples, abolindo o “juridiquês”. O leigo consegue 
 
27 
 
entender a ideia central da sentença e a cultura e o conhecimento dos 
interessados são respeitados, é aceitável a utilização de expressões 
latpopulares para compor o gênero textual e facilitar o acesso. 
O Direito está presente no cotidiano social e é a ciência humana que 
estuda as normas jurídicas que envolvem as relações dos indivíduos, e sua 
principal ferramenta é a linguagem. 
A comunicação utilizando termos rebuscados de domínio restrito é 
caracterizado por um preceito histórico, no qual apenas pessoas com poder 
aquisitivo teriam condições para estudar e ser os mediantes dos conflitos sociais. 
Com a evolução dos tempos e os ganhos dos direitos e garantias estabelecidos 
na constituição, o Direito acabou fazendo ainda mais parte da vida das pessoas. 
A Linguagem é uma das maiores problemáticas dessa ciência, pois há uma 
demasia de termos técnicos, expressões latinas e jargões que chegam a fugir da 
linguagem técnica, que é natural em qualquer área de conhecimento. O 
“Juridiquês” prejudica a compressão daqueles que necessitam do Direito e são 
leigos no entendimento jurídico. 
Alguns operadores do Direito e do Legislativo já identificaram a questão e 
começaram a se manifestar sobre o assunto, trazendo a debate o dilema para 
academia e sociedade. A sentença que é a manifestação do juiz sobre o mérito 
da causa e é de total interesse das partes, que muitas vezes são leigas do âmbito 
jurídico, necessita de uma linguagem mais simplória para ser compreendida. 
Por tanto, é de total importância a contestação referente a linguagem 
aplicada no meio jurídico e de os operadores do direito levarem em consideração 
as partes que estão interessadas nos autos do processo, utilizando assim, de 
um palavreado mais acessível para todos. 
 
 
28 
 
 
Fonte: atmosferaonline.com.brBIBLIOGRAFIA 
 
ALMEIDA, Guilherme Assis de; BITTAR, Eduardo C. B. Curso de filosofia do 
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BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. 9 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 
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CARVALHO, Elisa de Castro. Comunicação e Linguagem: Sistemas 
Alternativos e Aumentativos de Comunicação. 20 jun. 2015 
 
DINIZ, Maria Helena. Compêndio de Introdução à Ciência do Direito: 
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Jurídica e à Lógica jurídica. Norma jurídica e Aplicação do Direito. 20. ed. 
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FRANÇA, Vera Veiga, HOHLFELDT, Antonio & MARTINO, Luiz C. 
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GUIMARÃES, Luciana Helena Palermo de Almeida. A Simplificação da 
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http://www.revistas2.uepg.br/index.php/humanas/article/view/4270/3195. 
Acesso em: 02/12/2015. 
 
NALINI, José Renato. Novas Perspectivas no Acesso à Justiça. Disponível 
em: http://www2.cjf.jus.br/ojs2/index.php/revcej/article/viewArticle/114. Acesso 
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SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 19 ed. São 
Paulo: Malheiros, 2012. 
 
 
30 
 
8 LEITURA COMPLEMENTAR 
A SIMPLIFICAÇÃO DA LINGUAGEM JURÍDICA COMO INSTRUMENTO 
FUNDAMENTAL DE ACESSO À JUSTIÇA 
 
Luciana Helena Palermo de Almeida Guimarães 
Disponível em: http://www.revistas2.uepg.br/index.php/humanas/article/view/4270/3195 
Acesso em: 02/12/2015 
 
RESUMO 
 
Este artigo apresenta uma análise da linguagem jurídica numa perspectiva linguística, 
sob a ótica do século XXI. Tal linguagem revela-se um excelente campo para estudo: seu 
tradicionalismo, a pouca preocupação em ser entendida por aqueles que não pertencem a seu 
universo e a possibilidade de se elaborar textos forenses com linguagem clara, precisa, livre do 
verniz erudito ainda tão presente no meio jurídico, sem ignorar o vocabulário técnico deste. A 
metodologia utilizada para a elaboração desta análise foi a pesquisa bibliográfica, em livros, 
periódicos e sítios eletrônicos, visto que ela oferece subsídios para a fundamentação teórica e 
também permite que um tema seja analisado sob novo enfoque, gerando novas conclusões. O 
que se defende neste trabalho é a importância da inteligibilidade textual, com o objetivo de 
melhorar consideravelmente a relação entre o direito e o cidadão comum, facilitando assim o 
acesso dele à justiça. 
 
Palavras-Chave: Linguagem Jurídica. Juridiquês. Justiça. 
 
ABSTRACT 
 
This article presents an analysis of the juridical language in a linguistic perspective, under 
the glance of the XXI century. Such language reveals itself as an excellent field of study: its 
traditionalism, little concern about being understood by those who do not belong to its universe 
and the possibility of preparing forensic texts with clear and precise language, free of the erudite 
varnish still so presented in the juridical area, without ignoring its technical vocabulary. The 
methodology applied to elaborate this analysis was the bibliographic research, in books, journals 
and sites, since it offers subsidies to the theoretical substantiation and also allows that a topic 
can be analyzed in a new focus, thus generating new conclusions. The importance of the textual 
intelligibility is supported in this work, aiming to improve considerably the relationship between 
law and the common citizen, therefore facilitating his access to the justice. 
 
 
31 
 
Keywords: Juridical Language. Simplification. Justice. 
 
Introdução 
 
“Comecemos por dizer que a linguagem é, ao mesmo tempo, efeito e 
condição do pensamento”, segundo Delacroix. Para o jurista Nascimento (2010, 
p. 3), a linguagem é efeito por traduzir com palavras e fixar o pensamento; é 
condição porque quanto maior for o conhecimento de palavras, mais claro é o 
pensamento. 
Segundo a obra Ensaio sobre a Origem da Linguagem (1772), de autoria 
do filósofo e escritor alemão Johann Gottfried Von Herder, 
[...] A linguagem não é apenas um instrumento de comunicação, mas também o próprio 
pensamento do ato. O conhecimento não se separa da forma linguística em que se expressa, e 
por isso a linguagem também constitui o limite, ainda que móvel, do pensamento. A linguagem 
não se organiza apenas segundo princípios racionais. As palavras irradiam a capacidade de 
comunicação para os domínios mais amplos da vida e das forças que a integram, modificam-na 
e a expressam. (HELDER apud BIDERMAN, 2001, p. 125). 
Conforme Edward Sapir (1949) – linguista e antropólogo que concentrou 
seus esforços na filologia alemã – citado por Gonçalves (2006, p. 1.703), a 
linguagem chega a ser o meio de expressão de uma sociedade, a tal ponto que 
o mundo real é “[...] Inconscientemente construído sobre os hábitos de linguagem 
do grupo [...]”. 
De acordo com Bakhtin (1979), a linguagem conjetura-se como um 
processo realizado de forma coletiva, no qual sujeitos de uma determinada 
sociedade ou grupo social criam e recriam, historicamente, um sistema de 
significados articulado e visão de mundo, através da interação verbal. Petri 
(2008) afirma que a língua funciona como um elemento de interação entre o 
indivíduo e a sociedade em que ele atua. E é por meio dela que a realidade se 
transforma em signos, com a associação de significantes sonoros a significados, 
pelos quais a comunicação linguística se processa. 
Nunes (2006) nos mostra que o Direito e a linguagem se confundem. É 
por meio da linguagem escrita e falada que os conhecimentos doutrinários são 
absorvidos; que os pronunciamentos judiciais são publicados na imprensa oficial 
e os atos e termos processuais são realizados. Freitas (2008) destaca que a 
Ciência Jurídica produziu uma linguagem específica, científica e técnica como 
 
32 
 
resultado de seu próprio desenvolvimento, pois instrumentaliza e permite ao 
operador do direito, além de seu uso correto, alcançar o verdadeiro sentido das 
normas jurídicas. Estamos falando do juridiquês, definido por doutrinadores, a 
exemplo de Arrudão (2007), como o uso de um português ininteligível, através 
de palavras de raciocínio labiríntico e expressões pedantes, ou seja, que se 
expressa exibindo conhecimento que realmente não possui. Todavia, sabemos 
que na área forense existem termos próprios que na verdade não passam a 
carga semântica desejada quando traduzidos. “Há uma linguagem do Direito 
porque o Direito dá um sentido particular a certos termos. O conjunto desses 
termos forma o vocabulário jurídico.” (PETRI, 2008, p. 29). 
A atividade jurídica tem o cidadão como destinatário e permeia todos os 
setores da sociedade. Ao lembrarmos que a intenção da linguagem, jurídica ou 
não, é comunicar algo, devemos nos lembrar da necessidade de adequá-la a 
esse cidadão, que deseja ter acesso à Justiça, mas precisa entender como 
decidem os magistrados, a fim de que possa interagir de forma mais segura no 
cumprimento de seus deveres e na exigência de seus direitos. 
Neste estudo pretende-se estabelecer a simplificação da linguagem 
jurídica como instrumento fundamental para o acesso à Justiça, bem como seus 
benefícios e os recursos que devem ser utilizados para alcançá-la. 
 
A importância da linguagem na área do direito 
 
Na área do Direito, escrever corretamente assume valores maiores que 
em outros setores da sociedade. A linguagem é o meio utilizado para transmitir 
ideias, e quanto melhor ela for,melhor será a transmissão. No campo jurídico, 
tal transmissão precisa ser perfeita para alcançar seus objetivos, obter justiça. 
No campo forense, busca-se convencer, persuadir, legislar, debater e, 
principalmente, julgar as condutas de outros membros do grupo. Portanto, o uso 
linguístico necessita ter o seu poder e o seu papel reconhecidos nessa área, 
pois, para Gnerre (1998, P. 5), 
A linguagem não é usada somente para veicular informações, isto é, a função referencial 
da linguagem não é senão uma entre outras; entre estas ocupa uma posição central, a função 
de comunicar ao ouvinte a posição que o falante ocupa de fato ou acha que ocupa na sociedade 
 
33 
 
em que vive. As pessoas falam para serem ouvidas, às vezes respeitadas e também para 
exercer alguma influência no ambiente em que realizam seus atos linguísticos. 
Citamos também aqui a tese de Bobbio (1999, p. 135), que eleva a 
jurisprudência à categoria de ciência, para demonstrar a importância da 
linguagem na área do Direito. Segundo tal teoria, o “[...] Jurista não observa 
fatos, mas estuda o significado de determinadas palavras por meio das quais 
deve reconstruir os fatos”. Dessa maneira, seu objeto de estudo é a análise da 
linguagem do legislador. Assim, esta se coloca como expressão da realidade, 
por meio de afirmações e negações compostas por orações. 
O Direito e seus operadores não falam só para si. Falam para uma 
audiência mais ampla, a sociedade. Por isso, utilizam uma linguagem pública, 
que deve ser acessível a todos. O domínio da linguagem jurídica apenas por um 
grupo é um fato de posse. Entretanto, ela não é fixa, evolui, é prática. Ela está a 
serviço do direito. Se o direito é para todos, sua linguagem também! 
Finalizamos com o pensamento do ilustre jurista Luís Roberto Barroso 
(2007), que se encaixa perfeitamente na proposta deste trabalho: “o Direito é a 
alternativa que o mundo concebeu contra a força bruta. Em lugar de guerras ou 
duelos, debates públicos; em vez de armas, ideias e argumentos”. 
 
A palavra como ferramenta do direito 
 
O Direito nos é apresentado por meio da palavra, sua ferramenta 
funcional, manifestada em todos os sentidos: nas leis, pareceres, razões, 
sentenças, acórdãos e em outras formas diversas de atos judiciais que não 
dispensam seu uso para o conhecimento da matéria jurídica. Ainda de acordo 
com o jurista Nascimento (2010), a expressão lógica, breve, clara e precisa é 
qualidade da linguagem jurídica escrita. O conjunto desses atributos dá-lhe a 
elegantia júris, como denomina Von Ihering na obra Espírito do Direito Romano 
(1943), ou beleza funcional; ou, também, estética funcional. Assim, a 
complexidade da linguagem não pode ser admitida à ciência que analisa e rege 
as relações sociais, que disciplina a conduta das pessoas, e que tem por objetivo 
primordial auxiliar na resolução de conflitos de interesse que nascem no seio de 
uma sociedade. 
 
34 
 
O mais importante num texto jurídico não é a beleza da sofisticação da 
linguagem, mas sim a clareza, a concisão e precisão que ele apresenta, 
organizado com raciocínio lógico e coerência, originários de uma seleção atenta 
de fatos relevantes que compõem o caso. Linguagem clara, portanto, é aquela 
que apresenta alto nível de qualidade, sem omissão de palavras ou sem uso de 
signos que sejam compreendidos somente por um determinado grupo de 
pessoas. Entretanto, quando primamos pela simplificação da linguagem jurídica, 
não estamos defendendo a vulgarização dela, nem estimulando o desuso de 
termos técnicos necessários ao contexto forense, mas sim, combatendo os 
excessos que podem facilitar o entendimento do cidadão, ficando mais acessível 
para todos. Portanto, a simplificação da linguagem jurídica deve ser vista como 
um instrumento fundamental que oportuniza o acesso à justiça e contribui, 
efetivamente, para a atuação do poder judiciário como um todo. 
Destacamos ainda que escrever bem não é escrever muito. A prolixidade 
é considerada um defeito e não uma qualidade. Quando um texto é simples, sem 
ser vulgar; elegante, sem ser pedante; com um acervo de palavras e expressões 
contextualizadas, sem ser arcaico; ele será respeitado, admirado e 
recomendado por um simples motivo: é convincente e seguro. Até mesmo o atual 
presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, manifestou-se sobre esse 
assunto, dizendo que “não entende porque não é possível se fazer um simples 
termo de adesão de cartão de crédito de apenas uma página”. (SIEGEL, 2010). 
Nas palavras do desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de 
São Paulo, Alexandre Moreira Germano (2005), a tendência moderna é de 
redações bem escritas, porém simplificadas e objetivas, que não abusam da 
linguagem empolada, tampouco dos termos jurídicos. Não se pode fazer 
literatura, mas, sim, facilitar a leitura do processo. Afinal, o processo deve ter o 
sentido de resolver um conflito entre duas partes, sem grandes divagações 
literárias. O magistrado também recomenda que não se utilizem termos em latim 
ou outros idiomas que não sejam o vernáculo, pois não os acha necessários e 
defende que o português supre todas as exigências do texto. 
Embora possamos considerar que a linguagem jurídica não tenha nascido 
no seio da sociedade, não podemos negar que foi justamente para a sociedade 
que o Direito foi criado. Postamos aqui para reflexão as palavras de Hegel, 
 
35 
 
filósofo alemão: “quem exagera no argumento, prejudica a causa” (PIZZINGA, 
2008). 
Há, portanto, uma parceria essencial entre o Direito e a linguagem, que 
constituem um par indissociável. Sem a qualidade da segunda, o primeiro não 
cumpre o seu papel. Leis são feitas com palavras. O jurista não lida diretamente 
com os fatos, mas com palavras que denotam ou pretendem denotar esses fatos. 
Em vista do exposto, em toda profissão a palavra pode ser útil, e até mesmo 
necessária. Mas, na área do Direito, ela é indispensável e imprescindível. Como 
muito bem dito pelo jurista italiano Carnelutti, “nossas ferramentas não são mais 
que palavras” (KASPARY, 2003). 
 
A argumentação pela palavra 
 
Dominar a comunicação em todos os níveis é essencial para o profissional 
do Direito, visto que sua ferramenta de trabalho, a palavra, se exteriorizada com 
eficiência, tem o poder de convencer, persuadir e influenciar as pessoas. Tal 
ação é uma forma de exercer poder sobre os outros, estimulando-os a ver o 
mundo por uma nova ótica. 
O meio jurídico é o da argumentação pela palavra. É com ela que se 
constroem teses ou refutações, faz-se justiça. O pensamento argumentativo está 
sempre presente no discurso forense, visto que o conflito entre as partes 
contrárias exige uma sustentação lógica, a qual, por sua vez, será analisada pelo 
juiz, que terá de fundamentar sua decisão. 
Dessa maneira, o texto jurídico bem elaborado e com forte argumento 
convence o leitor, devido ao fato de que a argumentação é produzida fazendo 
uso de técnicas discursivas, de elementos que, na língua, têm o propósito de 
convencimento. 
De acordo com Perelman e Tyteca (2005, p. 252), “[...] A argumentação 
solicitando uma adesão é antes de tudo uma ação”. Por isso, são necessários 
os seguintes requisitos para alcançarmos a finalidade de persuadir o leitor a 
respeito das ideias apresentadas: conhecimento mais amplo possível do assunto 
tratado no texto, dos recursos de linguagem, do próprio leitor, e a seleção dos 
argumentos que vão ser utilizados. Além disso, jamais se deve perder o foco 
para quem se está escrevendo, para que se possa produzir um texto bem 
 
36 
 
elaborado, com as solicitações expressas com clareza e argumentação bem 
construída. 
A essência da leié ordenar, vetar, permitir e punir. O texto jurídico deve 
ser adequado para solucionar conflitos e não para causá-los, como acontece 
quando uma norma, ou apenas uma parte dela, é mal redigida. 
 
O juridiquês 
 
Conforme Mendonça (1987, p. 12), a forma clássica do “dizer jurídico” é a 
seguinte: “[...] São palavras comuns, com significados incomuns para o leigo; 
palavras e expressões arcaicas ou latinas, jargão, gíria profissional, termos 
formais ou com significação elástica ou, ainda, a redundância como tentativa de 
atingir extrema precisão”. 
O professor de Direito Penal Felix Valois, em texto escrito na 
apresentação da obra Constituição Para Todos, de Ronie Stone (1998, p. 1), 
declara que o senso comum elegeu há muito tempo a linguagem jurídica como 
arrevesada e confusa, e que, nessa concepção, ela só perderia para o 
economês. O ilustre docente prossegue relatando que: “[...] Do legislador ao 
mais humilde rábula, passando por tribunais, juízes, doutrinadores, promotores 
e advogados, todos se esforçam para complicar a palavra, na injustificável ilusão 
de que falar difícil os torna mais importantes.” 
Atualmente alguns profissionais do Direito têm direcionado sua atenção 
para a questão das normas jurídicas escritas em uma linguagem “opaca”, 
impenetrável, o que tem gerado muitos debates, vários textos, obras acadêmicas 
em geral, com o intuito de se repensar as relações entre Direito e linguagem. 
Neles se percebe a reprovação dos autores à falta de clareza, concisão e 
precisão e ao pedantismo, que são utilizados por alguns legisladores ao 
elaborarem as leis, códigos etc. 
É fato que algumas peças jurídicas são redigidas de maneira que é 
impossível a alguém que não seja parte do meio jurídico compreendê-las. Esse 
estilo rebuscado, denominado juridiquês, impede qualquer possibilidade de 
conhecimento, ao invés de permitir a compreensão sobre o assunto tratado. 
Partilha da mesma opinião Gérman Bidart Campos (apud CÁRCOVA, 1998, p. 
37), ao afirmar que: 
 
37 
 
[...] há normas tão complicadas, tão mal redigidas, tão confusas, de tanta exuberância 
regulamentarista, de técnica tão deficiente, que até os especialistas da mais alta qualidade e 
perícia quebram a cabeça para entender o que o autor quis dizer. Como então querer que o 
comum das pessoas as conheça, as compreenda e as cumpra! 
O jurisconsulto Eliasar Rosa é outro profissional do direito que defende 
uma linguagem mais clara e menos rebuscada nos textos “jurídicos”. Ele afirma 
que: 
Em verdade, não é a correção a primeira ou maior virtude do estilo. A clareza é que o é, 
não apenas para o advogado, mas para todos, pois que a linguagem é o meio geral de 
comunicação, seu fim supremo. Daí por que, quanto mais clara for, mais útil e eficaz ela será 
para preencher sua finalidade. Quem é obscuro manifesta, desde logo, ou o desejo de não ser 
facilmente compreendido, ou a inaptidão para se comunicar. (ROSA, 2003 apud SOUZA, 2011, 
p. 27). 
Mais uma citação que também vai ao encontro das ideias defendidas por 
Bidart Campos e Rosa é de autoria do advogado Kaspary (2003, p. 2), presente 
no texto eletrônico “Linguagem do Direito”: 
O que se critica, e com razão, é o rebuscamento gratuito, oco, balofo, expediente muitas 
vezes providencial para disfarçar a pobreza das ideias e a inconsistência dos argumentos. O 
Direito deve sempre ser expresso num idioma bem-feito; conceitualmente preciso, formalmente 
elegante, discreto e funcional. A arte do jurista é declarar cristalinamente o Direito. 
Pode-se deduzir, então, que a linguagem jurídica, em várias situações, 
não está alcançando o objetivo básico de toda e qualquer forma de linguagem: 
a comunicação. A maneira excessivamente culta que alguns profissionais 
insistem em utilizar só agrada a dois tipos de pessoas: a quem dela faz uso e a 
quem não entende nada, mas acha tudo muito bonito. E, o pior de tudo, a 
linguagem jurídica está repleta de seguidores dessa forma de “expressão”, já 
que não podemos chamá-la de comunicação. Para os estudiosos da área, isso 
não deixa de ser uma estratégia, pois utilizam uma linguagem de difícil 
compreensão a fim de que ela não possa ser compreendida por “leigos”. 
(MENDONÇA, 1987, p. 11). 
Não se pode esquecer que uma linguagem carente de atualização afasta 
o orador de seu público, geralmente formado por pessoas que têm afinidade com 
a linguagem jurídica, mas também por outras que não dominam esse “jargão 
profissional”. E isso torna essa linguagem, impressa no discurso, ineficaz. Por 
esse motivo, Schnaid (1998, p. 299, grifo do autor) afirma que: “a eficácia de um 
discurso depende não só do orador, mas também em grande parte do auditório, 
 
38 
 
no qual se pretende influir (convencer). A comunicação exige uma ‘linguagem 
comum’, baseada em símbolos que expressem a mesma coisa para um e outro”. 
Como resistência ao juridiquês, a tendência contemporânea é que os 
textos, e também a própria linguagem utilizada para expressar ideias da área 
forense, apresentem cada vez menos termos técnicos, a fim de tornar mais 
acessível o entendimento dos trâmites da Justiça. Movimentos em prol da 
simplificação da referida linguagem ganham cada vez mais espaço no cenário 
internacional. Não é uma iniciativa recente, visto que desde o final dos anos 70 
eles têm surgido nos Estados Unidos e na Inglaterra, originários de operadores 
do Direito, políticos e da própria sociedade civil, para fazer com que informações 
importantes na relação entre cidadãos, governos e a sociedade em geral sejam 
expostas de forma cada vez mais precisa e clara. Aqui no Brasil, tais movimentos 
ainda são tímidos. Registramos o lançamento, em 2005, da “Campanha pela 
Simplificação do Juridiquês”, promovida pela Associação dos Magistrados 
Brasileiros. Segundo ela, advogados, procuradores, promotores de justiça, 
juízes, professores e acadêmicos devem produzir peças judiciais e trabalhos 
científicos com frases menos rebuscadas, mas sem comprometer o raciocínio 
jurídico. Porém, ainda não notamos uma mobilização capaz de ocasionar 
mudanças concretas. Mas acreditamos que chegar a essas mudanças é apenas 
uma questão de tempo, pois o crescimento econômico do nosso país e do nível 
de instrução do povo brasileiro fará com que as exigências de acesso à 
informação em linguagem clara e precisa estejam na pauta das discussões do 
poder público e da sociedade civil em breve. Haverá o consenso de que a 
simplificação da linguagem jurídica trará benefícios a todos os envolvidos nesse 
processo. 
O latim como idioma auxiliar da ciência jurídica 
 
Assim como ocorre em outros setores do conhecimento, o Direito possui 
uma linguagem particular, específica, com palavras e expressões que encerram 
significações próprias. Quanto à sua origem, o uso do latim no meio jurídico se 
deve à sua raiz no Direito Romano da Antiguidade, codificado pelo francês 
Dionísio Godofredo, em 1538, responsável por editar o Corpus Juris Civilis, 
conjunto das obras do Direito e leis romanas, organizado por ordem do 
 
39 
 
imperador Justiniano. No caso do Brasil, o Direito Romano influenciou o direito 
português, ambos trazidos para o nosso país através das ordenações. 
Em qualquer obra ligada ao Direito encontramos frases, palavras ou 
expressões em latim. Assim, o uso de expressões latinas no campo jurídico 
apresenta objetivos diversos: demonstrar erudição e apego à tradição, 
impressionar o leitor, entre outros. Porém, o latim leva os operadores do Direito 
a experimentar resultados indesejáveis, com erros de grafia e de concordância, 
muitas vezes por completo desconhecimento gramatical desse idioma, 
especialmente em virtude da eliminação do ensino dalíngua latina nos cursos 
de Direito em nosso país. 
Na área jurídica o latim é indispensável, pois mantém relação de 
dependência com expressões indicativas de institutos próprios, que são, 
conforme Silva (2001, p. 487), “[...] Conjuntos de regras e princípios jurídicos que 
regem certas entidades ou certas situações de direito”. Não nos restam dúvidas 
de que o latim é um idioma auxiliar da Ciência Jurídica. Todavia, as expressões 
latinas devem ser usadas no Direito com parcimônia, bom-senso e moderação, 
dependendo do tipo de destinatário dos textos jurídicos em que elas se inserem, 
sempre em destaque, com o uso de aspas, itálico ou negrito. Conforme muito 
bem dito pelo processualista José Carlos Barbosa Moreira (2001, p. 257), “[...] O 
uso do Latim, entretanto, constitui terreno minado, onde com frequência são 
vítimas de acidentes os que a ele se lançam sem equipamento necessário”. 
 
A redação oficial e a linguagem 
 
No serviço público, somente atos que estejam expressamente previstos 
em lei podem ser praticados. Por essa razão, a redação oficial é elaborada 
sempre em nome desse serviço e em atendimento ao interesse geral dos 
cidadãos. A redação dos textos legais deve seguir, basicamente, as 
recomendações expostas na Lei Complementar n. 95, de 26 de fevereiro de 
1998, que ditou normas gerais e estabeleceu padrões para a elaboração, a 
redação, a alteração e a consolidação da legislação federal. Essa lei foi alterada 
pela Lei Complementar n. 107, de 26 de abril de 2001, em cumprimento ao 
disposto no parágrafo único do art. 59 da Constituição Federal. 
 
40 
 
O art. 11, caput, da referida lei determina que a redação do texto legal se 
paute pela “clareza, precisão e ordem lógica”. Há ainda que se observar na 
redação legislativa: a clareza, que torna o texto inteligível; a precisão, que 
complementa a clareza; a coerência, que implica a exposição de ideias bem 
elaboradas, que tratam do mesmo tema do início ao fim do texto em sequência 
lógica e ordenada; a concisão, alcançada quando se apresenta a ideia com o 
mínimo de palavras possível, uso de frases breves, eliminação dos vocábulos 
desnecessários e substituição de palavras e termos longos por outros mais 
curtos; e finalmente a consistência, decorrente do emprego do mesmo padrão e 
do mesmo estilo na redação do texto, o que evita a contradição ou dubiedade 
entre as ideias expostas. 
Quem comunica é sempre o Serviço Público; o que se comunica é sempre 
algum assunto relativo às atribuições do órgão que faz a comunicação; o 
destinatário dessa comunicação ou é o público, o conjunto dos cidadãos, ou 
outro órgão público, do Executivo ou dos outros Poderes da União. Por isso, há 
necessidade de que o texto legal possa ser lido e compreendido pelo maior 
número possível de pessoas. 
Facilitar o entendimento dos textos legislativos é uma maneira de 
aproximar a população e favorecer o cumprimento das leis e a aplicação de 
sanções, caso tais leis não sejam cumpridas, diminuindo assim esforços 
desnecessários em outra instância, inclusive dos Poderes Executivo e Judiciário. 
Não se concebe um ato normativo redigido de forma obscura, que dificulte 
ou impossibilite sua compreensão. A transparência do sentido dos atos 
normativos, bem como sua inteligibilidade, são requisitos do próprio Estado de 
Direito: é inaceitável que um texto legal não seja entendido pelos cidadãos. As 
comunicações que partem dos órgãos públicos federais devem ser 
compreendidas por todo e qualquer cidadão brasileiro. Se a administração 
federal é única, as comunicações que expede devem seguir o mesmo padrão. 
 
O uso da linguagem jurídica 
 
O Direito é uma ciência que mantém uma relação muito próxima das suas 
tradições. Como exemplo disso tem-se a insistência de alguns operadores em 
manter um vocabulário excessivamente rebuscado, repleto de termos técnicos e 
 
41 
 
que atrapalha o andamento de um processo. Tal atitude dificulta muito o 
entendimento e afasta do universo jurídico uma grande parcela do povo 
brasileiro, cujo grau de escolaridade é precário. Uma linguagem com 
terminologias tão técnicas não contribui, em nada, para a aplicabilidade da 
Justiça. Mas, infelizmente, algumas pessoas acreditam que isso seja 
demonstração de um patamar cultural superior e, às vezes, esse tipo de 
linguagem com excesso de rebuscamento se torna incompreensível até para 
profissionais da área. 
Sendo o Direito uma ciência que trata das normas obrigatórias, das leis 
que disciplinam as relações dos homens na sociedade, deveria utilizar-se de um 
vocabulário acessível a todos, sem exibicionismos ou vaidades; e não fazer uso 
de uma linguagem tão técnica, própria, hermética. É fato que usar termos 
antiquados, obsoletos não é uma demonstração de sabedoria, mas da falta dela. 
Como muito bem dito pelo poeta Thiago de Mello, “falar difícil é fácil. O difícil é 
falar fácil” (MAIA, 2010). Assim, no modo de se escrever no campo jurídico existe 
uma precaução em adaptar a linguagem e adorná-la de maneira que ela se 
transforme em um código, cuja decodificação é possível apenas ao pequeno 
grupo que compõe esse universo. 
A linguagem deve ser usada para socializar o conhecimento, e não como 
manifestação de poder, como instrumento pelo qual se afasta da discussão as 
pessoas que não possuem condições de decodificá-la. 
Para aqueles que não demonstram nenhum compromisso com a 
democratização do acesso à justiça, é realmente interessante que o universo 
jurídico continue falando apenas para si mesmo. 
 
O ato comunicativo jurídico 
 
O ato comunicativo jurídico não utiliza a linguagem apenas enquanto 
língua, mas também, e principalmente, a utiliza como discurso. Tal ato exige a 
construção de uma fala que seja capaz de convencer o julgador a respeito da 
veracidade do “real” que se pretende provar. Em virtude disso, a linguagem 
jurídica vale-se dos princípios da lógica clássica para organização do 
pensamento. Segundo São Tomás de Aquino, “lógica é a arte de pensar em 
ordem, facilmente e sem erros”. E sem a lógica, a linguagem jurídica não atingiria 
 
42 
 
seu objetivo principal: argumentar para convencer. Por isso, para o operador do 
Direito é fundamental pensar de forma lógica, encontrar ideias e organizá-las, 
para que possa escrever bem. 
O Direito é uma ciência que rege a conduta das pessoas, valendo-se de 
uma linguagem prescritiva e descritiva. Desse modo, quando há interesses em 
conflito ou uma ação humana fere os valores da norma jurídica, exigindo 
reparação dos mesmos, surge a lide, criando a polêmica na relação entre os 
interlocutores do processo. Nesse confronto, a linguagem torna-se mais 
persuasiva por objetivar o convencimento do julgador, que, por sua vez, 
acautela-se da forma de sua decisão, explicando os mecanismos racionais pelos 
quais decide na motivação da sentença. 
 
Análise da linguagem jurídica 
 
Ao analisarmos a linguagem jurídica como um todo, percebe-se que esta 
ainda é definida por alguns doutrinadores como intangível, intocável, visto que o 
vocabulário utilizado no exercício da atividade jurisdicional é apresentado com 
peculiaridades, com termos que só são utilizados por ela. Em virtude disso, há a 
falsa ideia de que para falar bem devemos falar difícil. Assim, quem se expressa 
de forma prolixa e rebuscada é considerado mais culto, inteligente e digno de 
maior respeito; e procura se diferenciar do grupo de incultos que utiliza um estilo 
informal, mas se afasta do destinatário, o povo. Esquece, porém, que as 
sentenças jurídicas não são destinadas somente aos especialistas. Esquece 
também que o bom advogado é avaliado pelos argumentos que utiliza e pelaqualidade de persuasão com que os torna convincentes, e não pela sofisticação 
de sua linguagem. A atividade jurídica, como já dito, tem o cidadão como 
destinatário. A partir do momento em que uma das partes não consegue 
compreender a mensagem, o intuito da comunicação falhou. É fato que o uso de 
uma linguagem mais viva, mais dinâmica, menos obscura, mais precisa e 
compreensível não desrespeita de maneira alguma as normas do Direito como 
ciência, e sim facilita a vida, o acesso à justiça do indivíduo leigo, pois usa um 
repertório comum entre as partes, objeto de atenção de muitos operadores do 
Direito nas últimas décadas. 
 
43 
 
A língua é um código social, de caráter mutável, que sofre alterações 
constantes. Se os indivíduos mudam, a língua também o faz. E essa 
imutabilidade, segundo a Linguística, comprova a natureza e a essência da 
linguagem. Afirma o linguista americano Steven Fischer, em entrevista para a 
revista Veja, de 5 de abril de 2000: 
Idiomas não são pedras, mas esponjas. Não se deve tentar impedir o enriquecimento do 
idioma. É assim que as línguas sobrevivem, mudando continuamente. As transformações 
sofridas pelo português brasileiro são uma prova de sua força, não da sua fraqueza. (SALGADO, 
2000, p. 14). 
Machado de Assis (1997, p. 37), que dispensa apresentações, já 
abordava o problema da língua e sua expressão: 
Não há dúvida de que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades 
dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos, é um erro igual ao de 
afirmar que a sua transplantação para a américa não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito 
a influência do povo é decisiva. Há, portanto, certos modos de dizer, locuções novas, que de 
força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade. Mas se isto é verdadeiro o princípio 
que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da 
linguagem, ainda aqueles que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A 
influência popular tem um limite, e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o 
que o abuso, o capricho e a moda inventaram e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também 
uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-
lhe a razão [...] Escrever como Azurara ou Fernando Mendes seria hoje um anacronismo 
intolerável. Cada tempo tem seu estilo. Mas estudar-lhes as formas mais apuradas da linguagem, 
desentranhar deles mil riquezas, que, à força de velhas e fazem novas -, não me parece que se 
deva desprezar. Nem tudo tinham os antigos, nem tudo tem os modernos; com os haveres de 
uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum. 
É lógico que a utilização de vocábulos que estão em desuso e de 
construções sintáticas típicas do século XIX – períodos exageradamente 
extensos, repletos de vírgulas e pontos-e-vírgulas – prejudica a compreensão do 
homem comum contemporâneo, quando ele consulta um texto legal. Lembramos 
isso aos muitos operadores do Direito que ainda redigem suas peças jurídicas 
dessa maneira, demonstrando resistência à linguagem atual, insistindo em 
manter o vocabulário e o latinismo apresentados em textos de outras épocas, 
sem deixar de mencionar aqui a vaidade que cerca alguns deles. 
Ao fazermos uma retrospectiva a respeito da linguagem jurídica, 
percebemos que, não obstante todo avanço da tecnologia e mudanças na nossa 
língua materna, a linguagem forense permanece com os mesmos termos 
 
44 
 
técnicos, e o acesso à justiça encontra aqui uma barreira substancial numa 
relação linguística que envolve polos dessemelhantes e dissonantes. Podemos 
afirmar, portanto, que seu processo de desenvolvimento vem sendo lento em 
demasia. E não nos restam dúvidas de que isso é altamente prejudicial para as 
instituições e para o próprio sistema de comunicação, pois a linguagem jurídica 
representa um sistema organizacional vinculado a um sistema de normas. 
 
Linguagem opaca 
 
A linguagem forense é considerada por alguns linguistas como opaca por 
não interagir com a sociedade, que a qualifica como uma forma da língua repleta 
de arcaísmos, peculiaridades, vocábulos exageradamente herméticos e 
preciosismos vazios de significação. 
Mesmo que Direito e linguagem formem um par indissociável, não é fácil 
aceitar que a linguagem seja um elemento que distancie o cidadão comum do 
Direito. E esse distanciamento vem ocorrendo há tempos. Juristas vêm 
discutindo sobre o desconhecimento do conteúdo das normas jurídicas pelo 
homem médio, e esse desconhecimento é o tema tratado pelo jurisconsulto 
argentino cárcova (1998, p. 14, grifo do autor), em sua obra “A Opacidade do 
Direito”, na qual demonstra que 
[...] entre o Direito e o seu destinatário, existe uma barreira “opaca” que os distancia, 
impossibilitando aquele último de absorver do primeiro os seus conteúdos e sentidos, entender 
os seus processos e instrumentos, tornando-o, por isso, incapaz de dele se beneficiar como seria 
esperado. Existe, pois, uma opacidade do jurídico. 
O pior é que esse fato não seja considerado relevante por muitos dos 
envolvidos na elaboração das normas jurídicas. O cidadão comum pode até 
mesmo conhecê-las, mas não as compreende, não as utiliza como fonte de 
consulta quando necessário. Segundo John Rawls (2000) em sua obra “O 
liberalismo político”, todos os cidadãos são livres e iguais, e também é 
necessário reconhecer e ratificar que a linguagem deve ser acessível e 
compreensível, de modo geral, a todos que dela procuram beneficiar-se. 
Presumir que tais normas sejam do conhecimento de toda a sociedade 
também é objeto de questionamentos. E existe fundamento nisso, visto que é 
praticamente impossível conceber, a qualquer indivíduo, seja ele operador do 
 
45 
 
Direito ou não, que todos de uma dada comunidade conheçam todas as referidas 
normas. Nas palavras do constitucionalista argentino Gérman Bidart Campos 
(apud CÁRCOVA, 1998, p. 37), 
Nossa sociedade está inundada de normas de toda classe, de toda hierarquia, até da 
mais inferior. Somente a repetida estupidez de que, por uma presunção juris et de jure, as leis 
são conhecidas por todos, pode colaborar para a miopia da aplicação rígida e fria do axioma. 
Ora, a realidade nos diz que não são conhecidas por ninguém ou que o são por muito poucos. 
Outro autor que também questiona a presunção acima citada é o ilustre 
jurista Eugênio Raúl Zaffaroni (1987 apud SOUZA, 2003), quando afirma que 
compreender uma norma não implica só conhecê-la. O conhecimento é um grau 
inferior à compreensão. Já o francês André Jean Arnaud (apud SOUZA, 2003), 
doutor em Direito, questiona a real necessidade de se usar uma linguagem 
jurídica obscura e, muitas vezes, ininteligível para o leigo. Para ele, seria mesmo 
uma necessidade ou uma atitude premeditada? 
De acordo com o sociólogo Henri Lévy-Bruhl, há ainda uma doutrina no 
direito que, mesmo nos dias de hoje, defende o caráter estável e perpétuo das 
normas jurídicas. O autor discorda dessa afirmação (assim como a autora deste 
artigo), enfatizando que: 
[...] se o direito emana do grupo social, não poderia ter mais estabilidade que esse 
mesmo grupo. Ora, um agrupamento humano não é senão uma reunião mais ou menos natural, 
voluntária ou fortuita, de indivíduos de sexo e idades diferentes, grupo que nunca permanece 
semelhante a si mesmo, uma vez que os elementos de que se compõe modificam-se a todo 
instante pelo efeito do tempo [...] Como o direito, sendo a expressão da vontade de um grupo, 
poderia ser imutável, enquanto o grupo modifica-se constantemente? (LÉVY-BRUHL, 1988 apud 
SOUZA, 2003, p. 29). 
O que se defende neste artigoé a importância da inteligibilidade textual. 
Numa perspectiva linguística e não jurídica demonstra-se que é possível a 
elaboração de textos forenses com linguagem clara, precisa e concisa, livre do 
verniz erudito e do preciosismo ainda tão cultuados por muitos da área jurídica, 
sem que se ignorem o aspecto formal da língua e o vocabulário técnico dessa 
área, com o intuito de melhorar substancialmente a relação entre o homem 
médio e o Direito. 
 
A linguagem jurídica na universidade 
 
 
46 
 
O operador do Direito tem a responsabilidade social de aplicar a 
linguagem técnica forense de maneira eficiente. Para que isso ocorra, deve 
aprender a utilizá-la corretamente já no seio da Universidade, visto que esta, 
conforme exigido nas diretrizes curriculares do curso de direito, elaboradas a 
partir da lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei nº. 9.394/96), com 
indicações fornecidas pelo parecer nº. 776/97, da Câmara de Educação Superior 
(CES), tem a obrigação moral de formar cidadãos críticos e conscientes: 
O perfil desejado do formando de Direito repousa em uma sólida formação geral e 
humanística, com capacidade de análise e articulação de conceitos e argumentos, de 
interpretação e valoração dos fenômenos jurídico-sociais, aliada a uma postura reflexiva e visão 
crítica que fomente a capacidade de trabalho em equipe, favoreça a aptidão para a aprendizagem 
autônoma e dinâmica, além da qualificação para a vida, o trabalho e o desenvolvimento da 
cidadania. (BRASIL, 2000, p. 3). 
 
Considerações finais 
 
Segundo o professor Luís Roberto Barroso (2007), “O mundo do Direito é 
o mundo da linguagem, falada e escrita”. Em qualquer meio de manifestação 
nessa área o texto se faz presente, com o objetivo de persuadir e convencer seu 
receptor. É fundamental que o profissional do Direito conheça e domine o uso da 
palavra, sua ferramenta básica de trabalho, indispensável para a sua vida 
profissional e para a garantia da cidadania. 
Entretanto, a escrita jurídica deve ser simples, objetiva, sem pedantismos 
e exercícios de virtuosismos, enfim, nunca uma demonstração de conhecimento 
restrito a poucas pessoas, uma apresentação da exuberância intelectual de seu 
autor. Sua eficácia está na escolha e utilização de palavras precisas: escrever 
pouco, mas com a noção exata do que se quer dizer. 
A diretriz contemporânea é a simplicidade na elaboração de textos 
jurídicos. Mas isso não significa pobreza de vocabulário nem a supressão de 
informações necessárias ao caso. Há leis de legilibidade para as palavras e a 
redundância e a ambiguidade são pecados que devem ser evitados. Quanto ao 
vocabulário jurídico, é requisito indispensável para que as ideias do texto sejam 
apresentadas de forma adequada, com precisão de significado. Por isso, esse 
vocabulário deve ser simples, embora formal; técnico, mas sem exageros. O 
 
47 
 
excesso de linguagem técnica revela superficialidade, ao contrário de 
demonstrar competência de quem escreve. 
Além do mais, não podemos nos esquecer que um texto jurídico deve ser 
eficaz, para que possa atingir seu objetivo. Mas deve ser conciso, pois ao manter 
um texto longo, o requerente corre o risco de obter o efeito mais indesejável do 
mundo jurídico: ter a sua mensagem desprezada pelo destinatário. 
Nossa sociedade necessita que a linguagem utilizada no sistema jurídico 
seja clara, objetiva e mais acessível à população, a fim de que possa atender 
aos anseios desta, proporcionar rapidez e eficácia nos trâmites. Uma escrita 
prolixa e excessivamente rebuscada afeta a prestação jurisdicional. Leis são 
criadas para orientar a vida em sociedade e devem ser observadas, respeitadas 
e aplicadas por todos. 
Diante do exposto, ressalta-se que a simplificação da linguagem jurídica 
é aconselhável, trará benefícios a todos os envolvidos e irá aproximar esse tipo 
de linguagem à população. Assim, ela passa a ser um instrumento fundamental 
para a compreensão do funcionamento e da atuação do poder judiciário como 
um todo. 
O principal foco em tal questão é conhecer o ponto de equilíbrio entre 
simplicidade e precisão. Termos técnicos devem ser mantidos, pois têm 
significados próprios. É isso que recomendam não somente os bons autores, 
mas também o próprio bom senso. 
Em resumo, o operador do direito que redige de maneira correta, que 
expõe de maneira harmoniosa suas teses, com clareza, coerência e 
objetividade, comunica-se bem, atinge sua meta. Esse profissional contribui para 
o bom andamento e o acesso à justiça. Faz justiça. 
 
48 
 
BIBLIOGRAFIA 
 
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