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1 SUMÁRIO 1 LINGUAGEM JURÍDICA .................................................................... 2 2 O ACESSO À JUSTIÇA ..................................................................... 5 3 SEMIÓTICA E SUA RELAÇÃO COM O DIREITO ............................. 9 4 A HISTÓRICA APLICAÇÃO DOS JARGÕES JURÍDICO ................ 15 5 DIREITO, LINGUAGEM E MÉTODO ............................................... 15 6 O USO DO LATIM ........................................................................... 24 7 A SENTENÇA E A COMPREENSÃO POPULAR ............................ 26 8 LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................... 30 BIBLIOGRAFIA ...................................................................................... 48 2 1 LINGUAGEM JURÍDICA Fonte: revistavisaojuridica.uol.com.br A linguagem é o lugar da interação humana, interação comunicativa pela produção de efeitos de sentido entre interlocutores, em uma dada situação de comunicação e em um contexto sócio histórico e ideológico. Os usuários da língua ou interlocutores interagem como sujeitos ocupantes de lugares sociais. “Falam” e “ouvem” desses lugares de acordo com formações imaginárias que a sociedade estabeleceu para tais lugares sociais. Por esse motivo, o diálogo, em sentido amplo, é o que caracteriza a linguagem. Uma vez que a palavra permeia todos os nossos atos, em todas as instâncias da realidade social, forma-se em todo setor do conhecimento humano uma linguagem e, consequentemente, um diálogo particular. À medida que aumenta o grau de especialização de um determinado conhecimento, o vocabulário técnico também se especializa, aumentando a distância entre o diálogo dos iniciados nesse conhecimento e dos não iniciados. Podemos dizer que temos o idioma - a Língua Portuguesa - e os sub idiomas de cada área de conhecimento produzindo e alimentando particularidades terminológicas. Dentre 3 esses sub idiomas, no Brasil, destaca-se a linguagem jurídica devido à fascinação exercida pela atividade profissional jurídica, atividade reconhecida como espaço de extremo poder. A linguagem jurídica interpretada pelos estudiosos da Língua Portuguesa: desvelamento técnico e linguístico em prol da cidadania e responsabilidade social. Fonte: userscontent2.emaze.com A linguagem jurídica, instrumental do profissional do direito: linguagem ímproba, jurisdição precária. A conjugação das duas focalizações procurou a conciliação entre as distintas experiências, articulando propostas e evolução para pesquisas posteriores, em especial a da prática jurídica voltada para o ensino aprendizagem da linguagem jurídica no curso de Direito. O desvelamento técnico e linguístico das interfaces da linguagem jurídica objetivou esclarecimento e atuação indispensáveis à cidadania e responsabilidade social. Afinal, a palavra é o instrumento de trabalho dos profissionais do Direito e, havendo ruído ou impropriedade linguística, a jurisdição se torna precária. 4 “É incontestável que, na prática jurídica, a linguagem escrita exerce papel fundamental. Dentre outras razões, destaque-se o fato de revelar informações juridicamente relevantes, viabilizando o mais perfeito entendimento do caso concreto. Entretanto, sabemos que não é tarefa de fácil envergadura expressar se de acordo com a exigência do rigor jurídico e, ao mesmo tempo, manter a clareza, a transparência e a elegância. (...) com muita propriedade, os autores, por meio de exemplos de narrativas extraídas de algumas peças processuais, disponibilizaram aos discentes meios de contextualizar a teoria e também compreender a narrativa como parte integrante de um todo mais complexo. Além disso, de forma didática, muitas vezes sugerindo uma conversa com o leitor, abriram uma clareira em mata densa, carente de luz”. _________________________________Desembargador Sergio Cavalieri Filho. A linguagem como meio de comunicação e interação entre indivíduos de uma sociedade é utilizada para transmitir mensagens e códigos, a fim de esclarecer significados e facilitar a compreensão de informações. Este recurso encontra espaço essencial na ciência do direito, seja através do uso da retórica, e até mesmo da própria escrita forense, dando assim, contornos característicos a ciência jurídica. Entretanto, verifica-se que a função precípua da linguagem no ramo do direito vem desvirtuando seu objetivo principal. O uso da linguagem em latim, e de sinônimos rebuscados acaba por dificultar a compreensão e interpretação da mensagem jurídica. Porém, quando esta prática é analisada sob a ótica do indivíduo, constata- se que o cidadão, por desconhecer e não compreender o que a lei, uma sentença, ou mesmo o que o próprio advogado profere, tem seu acesso à justiça restrito e em alguns casos não há acesso, por falta de compreensão. Assim, o indivíduo é cerceado de obter o bem jurídico pretendido. Por se tratar de um fenômeno recorrente, e que afeta diretamente o jurisdicionado, sociólogos, juristas e filósofos criaram diversas teses para justificar o uso deste tipo de linguagem no meio jurídico. Dentre as mais conhecidas, a teoria do poder simbólico, do sociólogo Pierre Bourdieu, explica como a linguagem é utilizada para manter o poder de quem a utiliza, em detrimento da sociedade. 5 Para BOURDIEU, as diferentes classes e frações de classes estão envolvidas numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses e imporem o campo das tomadas de posições ideológicas reproduzindo em forma transfigurada o campo das posições sociais. Elas podem conduzir esta luta quer diretamente, nos conflitos simbólicos da vida quotidiana, quer por produção, por meio da luta travada por especialistas da produção simbólica (…) e na qual está em jogo o monopólio da violência simbólica legítima (cf. Weber), quer dizer, do poder de impor – e mesmo de inculcar – instrumentos de conhecimento e de expressão (taxonomias) arbitrários – embora ignorados como tais – da realidade social. Assim, o poder simbólico é aquele decorrente dos nossos instrumentos de comunicação e conhecimento. Trata-se de um poder invisível, pois é exercido ou sofrido de tal forma que o agente ou a vítima não se sabe atingido por esse poder. O poder simbólico acaba por desencadear uma imposição sobre como as relações serão vistas e compreendidas, imposição está sob o comando de quem detém esse poder. No mundo jurídico, os indivíduos que atuam na área, ao utilizarem-se da linguagem jurídica acabam sendo os detentores deste poder, deixando os demais indivíduos de uma sociedade à margem da realidade. 2 O ACESSO À JUSTIÇA A linguagem jurídica como vem sendo utilizada desencadeia uma problemática não apenas relacionada à hierarquia judicial e a disputa pelo poder, mas também acaba por incidir diretamente sobre um dos pilares do direito, qual seja, o acesso à justiça e consequentemente uma barreira à concretização do Estado Democrático de Direito. Segundo José Afonso da Silva, o Estado democrático de Direito possui um compromisso com a justiça material, aquela caracterizada não apenas como a igualdade perante a lei, igualdade formal, porém aquela que vá levar à redistribuição da riqueza, de modo a reestruturar as relações sociais e econômicas, alicerçando a sociedade democrática a qual não se concebe sem 6 a participação do cidadão comum nos mecanismos de decisão.” (SILVA, 2012, p. 58) Apreende-se que o escopo da democracia possui seus alicerces no tratamento isonômico entreos cidadãos, pretendendo garantir a participação da maioria, objetivo este oposto à segregação, que vem sendo afirmada pelo instrumento da linguagem. Desta forma, o emprego de uma linguagem técnica, estilística em demasia, acaba por privar o cidadão comum do entendimento e das interpretações da lei e, consequentemente, este recurso que tem como função transmitir uma informação, acaba por impedir a concessão da tutela jurisdicional, uma vez que as próprias partes envolvidas na lide têm de enfrentar mais esta essa barreira da linguagem. Fonte: www.correioforense.com.br Nota-se que essa problemática não se resume a requisitos econômicos/sociais, pois o elevado nível hermético dos termos jurídicos acaba por refletir nas inúmeras páginas de livros, em que os próprios doutrinadores destinam à alcançar o conceito de determinada palavra, discussão essa, que na maioria das vezes não finda em um consenso. 7 O Direito, enquanto instrumento condicionante da vida em sociedade, requer uma aplicação minimamente possível no cotidiano de uma civilização, afinal, a essencialidade das condutas humanas são permeadas por normas de direito, envolvendo constantemente obrigações e deveres entre os indivíduos. Assim, o acesso a este direito não pode ser mitigado, ou mesmo colocado à disposição de uma parcela mínima da população. A expressão “acesso à justiça” vai além do direito de acesso ao Poder Judiciário, compreendendo-a como o acesso uma ordem jurídica que vá proporcionar ao cidadão resultados que sejam individual e socialmente justos. Atualmente, o acesso à justiça vem sendo permitido prima facie, no âmbito puramente formal, no tocante aos indivíduos que desconhecem o ordenamento jurídico. A utilização de uma linguagem jurídica hermética empregada pelos operadores do direito acaba por difundir barreiras e segregações aos indivíduos que procuram os tribunais a fim de tutelar seu bem da vida. A obra realista O Processo, ainda que remonte à primeira metade do século XX, consagra- se como atual, na medida em que faz alusão a diversas falhas do Poder Judiciário que vigoram até os dias atuais. Dentre elas, o problema da linguagem jurídica é considerado por ser utilizada como uma ferramenta que acaba dificultando o acesso à justiça. A teoria do poder simbólico apresenta-se como uma das justificativas plausíveis, ao interesse dos operadores do direito, em continuar fazendo uso de uma linguagem rebuscada, que acaba por afastar o cidadão da prestação jurisdicional. Compreende-se que a real democratização implica uma aproximação do direito da realidade que procura representar e sobre a qual pretende agir, implica ainda a adoção de uma postura que não cria divisões e separações entre universos discursivos, quando a síntese a simplicidade podem significar mais. É aceitável atribuir o conhecimento da linguagem jurídica a partir do exercício da racionalidade humana. Assim, o significado das coisas torna-se inteligível a partir da interpretação delas pela atividade racional operada pelo homem, o que se exprime basicamente pela linguagem. Logo, as coisas não antecedem à linguagem. Esta faz desvelar o próprio significado das coisas segundo a interpretação humana. 8 Fonte: www.cradvogados.com Em outros termos, o significado das coisas não é dado. Ao contrário, é algo construído, até porque a linguagem atua na elaboração desse objeto de significação. Nessa linha, Lenio Luiz Streck afirma que “estamos mergulhados num mundo que somente aparece (como mundo) na e pela linguagem. Algo só é algo se podemos dizer que é algo”. Assim, extrai-se o significado do mundo por intermédio da linguagem e, por isso mesmo, o mundo jurídico é igualmente compreendido pelos precisos limites permitidos pela linguagem. Veja-se, com isso, que o pensamento sobre a ordem jurídica passa, ainda que lateralmente, pela via da linguagem. E, de certo modo, o Direito é parcialmente produzido pela linguagem. Assinala-se, entretanto, que a linguagem não é o único instrumento de visualização do universo jurídico, cabendo ao intérprete da norma jurídica investigar o sentido das coisas dizíveis a fim de identificar o verdadeiro significado do justo que, por natureza, é modificável segundo o percurso histórico. De qualquer forma, assume importância o recurso da linguagem no âmbito jurídico, a fim de estabelecer a relação entre as normas jurídicas e, no caso concreto, estabelecer e reforçar a unidade do ordenamento jurídico, a partir de paradigmas cognitivos extraídos pela análise semiótica. 9 3 SEMIÓTICA E SUA RELAÇÃO COM O DIREITO Fonte: www.scrittaonline.com.br O Direito, como espécie de sistema de controle social dos comportamentos intersubjetivos, é igualmente considerado uma forma de instituição social que se manifesta pela linguagem: a linguagem jurídica. Ademais, o Direito, como ramo do conhecimento científico, inclina-se a compreender a realidade social (mundo do ser), a partir de causas próximas e remotas, gerais e específicas, a fim de ordenar socialmente (mundo do dever ser) os comportamentos humanos, num dado momento histórico, por meio de normas jurídicas indispensáveis à manutenção do corpo coletivo. Para Maria Helena Diniz, “o fundamento das normas está na exigência da natureza humana de viver em sociedade, dispondo sobre o comportamento de seus membros”. No ponto, adverte-se que “as normas são fenômenos necessários para a estrutura ôntica do homem”, isto é, as normas jurídicas seriam elementos indispensáveis à composição da própria vida humana, com o fim de estabelecer padrões de conduta social com densidade valorativa de razoavelmente aceitação. E quanto à relação com o homem e a sua cultura, desponta a importância da linguagem. A propósito dessa amarração entre linguagem e cultura, afirma Cândido Rangel Dinamarco que a linguagem constitui objeto “de uma cultura, servindo não só para medir o grau de civilização que através dela se manifesta, mas 10 também para chegar-se ao conhecimento das particularidades de determinada civilização”. Em termos de civilização, cumpre dizer que a noção de linguagem remonta à antiga civilização grega. Particularmente no mundo grego, a linguagem aparece relacionada com o discurso filosófico, pois “à medida que se formava a polis grega, ao lado da linguagem poética se criava, pois, uma outra linguagem, a linguagem dos oradores, a linguagem retórica”. Com efeito, no mundo cultural da antiga Grécia, arvoraram-se duas linguagens a tratar das coisas da polis, “a linguagem poética, inspiração das Musas, que falam por meio de poeta; a linguagem retórica, em que o homem fala por si, pessoal por definição”. De qualquer sorte, em tempos modernos, contudo, a estrutura jurídica, por seu turno, é explicitada por meio de uma linguagem multifacetada que carrega valores racionais específicos e disformes. A linguagem, pois, representa e, ao mesmo tempo, estabelece a comunicação do conhecimento jurídico científico, de modo que a norma jurídica abstratamente considerada é desvelada, no plano concreto, pelo veículo da linguagem. Sucede, entretanto, que a linguagem que veicula o conhecimento jurídico contém limitação inerente à própria dificuldade natural de conhecimento pontual e acabado dos objetos investigados. É dizer, a linguagem não dá conta de apreender a totalidade do objeto de conhecimento. Ela apenas revela e comunica parcialmente o substrato valorativo da norma jurídica, a partir de uma perspectiva de linguagem. Por sua vez, o pensamento jurídico também encontra na linguagem a sua forma de exteriorização,até porque “o pensamento precisa da articulação linguística, pois os signos linguísticos constituem o essencial da comunicação humana, sendo, portanto, o fundamento da linguagem”. Importa dizer, aliás, que a condição de possibilidade de existência da ciência jurídica reside na linguagem. Nesse sentido, para Maria Helena Diniz, a ciência jurídica “encontra na linguagem sua possibilidade de existir”. Vê-se, portanto, que a temática jurídica, particularmente a formação, a interpretação e a aplicação do Direito, encontra-se intimamente imbricada com 11 a análise de importantes estruturas, como a palavras, os conceitos, a representação, a comunicação, o conhecimento e a linguagem, tudo, de certa forma, ligado ao domínio sobre o qual se debruça a Semiótica, aqui entendida, em síntese, como instrumento de estudo preciso da linguagem jurídica. Assenta-se, então, a necessária articulação entre os paradigmas da Semiótica e do Direito, já que tudo isso reflete na problemática da decidibilidade das questões jurídicas e atinge diretamente os direitos e as garantias fundamentais do ser humano. Aliás, no dizer de Maria Helena Diniz, “o problema nuclear da ciência jurídica é a decidibilidade”. Fonte: www.univali.br Vê-se, pois, que a relação entre linguagem e Direito mostra-se implicada, até porque o objeto jurídico é produzido a partir da dimensão da linguagem, de modo que a própria linguagem reúne um conjunto de símbolos sujeitos à compreensão do intérprete. Para Maria Helena Diniz, a aproximação entre linguagem e Direito firma- se a partir de algumas premissas de sustentação. É o que se passa a analisar, a título exemplificativo. A primeira premissa assenta que “o Direito não poderia produzir seu objeto numa dimensão exterior à linguagem”. É que no Direito, particularmente 12 na perspectiva do direito positivo, a linguagem imbrica-se com as palavras e ocupa um lugar de destaque a desempenhar variadas funções de comunicação do discurso jurídico. A segunda entende que “onde não há rigor linguístico não há ciência, pois esta requer rigorosa linguagem científica. A terceira sustenta que o operador da ciência jurídica deve utilizar a espécie de interpretação cabível, a partir do significado da palavra no texto normativo, a fim de extrair a sua ideia no tempo e no espaço. Até porque “as palavras guardam o segredo do seu significado”. Veja-se: “O elemento linguístico entra em questão como instrumento de interpretação, pois, sendo a linguagem do legislador subjetiva e variável, o jurista deverá, na interpretação literal, atingir o sentido específico e objetivo da palavra, buscando verificar o sentido da lei. Na interpretação histórica deverá analisar as causas de elaboração das propostas normativas e, na sistemática, levar em conta os vários significados que as palavras assuem nos textos legislativos em que são inseridas, procurando formar uma linguagem coerente e unitária. Em suma, o intérprete deve partir das palavras para atingir a ideia.” Destaca-se como quarta premissa a importância do elemento linguístico no universo de construção da própria ciência, uma vez que: “Se a linguagem do legislador não é ordenada, o jurista deve reduzi-la a um sistema. A atividade sistemática ou construção de um determinado sistema jurídico é uma das principais tarefas do jurista. ” Vê-se, portanto, que no plano da comunicação jurídica existe perfeita sintonia entre linguagem e Direito, a ponto de surgir uma autêntica, singular e complexa linguagem jurídica. Nesse sentido, o Direito ganha contornos de existência segundo uma “linguagem, imposta pelo postulado da alteridade”. E a decisão jurídica (no sentido de lei, costume ou decisão judicial), por sua vez, “é um componente de uma situação comunicativa entendida como um sistema interativo, pois decidir é ato de comportamento referido a outrem”. Assim, o papel do discurso jurídico relaciona-se, ainda que indiretamente, a uma ação linguística que envolve outrem. Dessa forma, todo discurso sugere a importância do próprio homem no contexto da comunicação. Nessa linha, veja- se: “Logo, o objeto do discurso da ciência do direito (...) não é o conjunto das normas positivadas, mas o ser (o próprio homem), que, no interior da positividade 13 que o cerca, representa, discursivamente, o sentido das normas ou proposições prescritivas que ele estabelece, obtendo uma representação da própria positivação. ” Ademais, a importância do homem conta com o histórico drama que permeia o universo jurídico, e isso é sinalizado por Francesco Carnelutti, no sentido de que “o direito tem necessidade da lei para guiar os homens; mas a lei o estorva para julgá-los”. Fonte: www.editoraforum.com.br Em relação à linguagem jurídica em geral, Maria Helena Diniz adverte quanto à existência de características particulares da ciência jurídica que as difere de outros ramos do conhecimento científico. Eis o texto: “É preciso lembrar, ainda, que a linguagem utilizada pelo direito não é precisa por ter caracteres da linguagem natural que, em oposição à linguagem formal, como a da lógica e a da matemática puras, possui expressões ambíguas, termos vagos e palavras que se apresentam com significado emotivo, o que leva o jurista a desentranhar o sentido dos termos empregados pelo legislador (...) A textura aberta das palavras da lei, a ambiguidade e vagueza das expressões legais viabilizam a redefinição dos sentidos normativos pela ciência jurídica e a adoção de uma das alternativas de decisão pela autoridade ou juiz ao aplicar o direito”. No prisma do direito positivado, pode-se atribuir a noção de linguagem legal, consistente numa estrutura de linguagem jurídica ditada pelo órgão 14 legiferante competente, segundo certa organização de palavras tendente a indicar determinado significado. Aqui, destaca-se mais um problema: o significado das palavras. E a problemática em torno do significado das palavras restou enunciada pelo jurista Eros Roberto Grau, ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal, ao afirmar que “as palavras são potencialmente ambíguas e imprecisas” e que “a mesma palavra conota, em contextos diferentes, sentidos distintos. O significado de cada uma delas há de ser discernido sempre no quadro do jogo de linguagem no qual elas apareçam”. Assim, a análise isolada da palavra pode subverter o sentido do texto e comprometer o entendimento do natural e cambiante processo de alteração dos valores que compõem a norma jurídica. A propósito, cabe destacar a advertência de que o “abuso de regras e filigramas gramaticais estagnam e mumificam o sentido dos textos, impedem sua adaptação às necessidades sociais sempre mutáveis e sempre revestidas de modalidades novas”, o que faz comprometer a natural adaptação do Direito à realidade fática. Aliás, o componente histórico-valorativo do Direito é acentuado por Miguel Reale, no sentido da “adequação entre a ordem normativa e as múltiplas e cambiantes circunstâncias espaciotemporais, uma experiência dominada ao mesmo tempo pela dinamicidade do justo”. E mais. É de se assentar que a linguagem “só pode ser entendida de maneira estrutural, em correlação com as estruturas e mutações sociais”. A forma escrita contém signos (símbolos) construídos por convenções linguísticas e a linguagem especializada caracteriza-se por intermédio de um texto comunicacional com múltiplos significados específicos inerentes à quadra jurídica. Vê-se que o processo de comunicação das normas jurídicas se dá pelo instrumento da linguagem das normas, isto é, da linguagem legal. Tem-se, com isso, a dimensãoem que se situa a Teoria Comunicacional do Direito Positivo e, nesse contexto, surge a Semiótica como uma técnica de investigação do Direito positivado pelo Estado. 15 4 A HISTÓRICA APLICAÇÃO DOS JARGÕES JURÍDICO A linguagem na norma culta é essencial para qualquer profissional. Expressar-se de maneira correta e inequívoca é fundamental para estabelecer comunicação sem qualquer desentendimento. Mas no mundo jurídico, uma das principais características na escrita é o excesso de tecnicismo, que levou a sociedade a cunhar o termo ‘’ juridiquês’’ para se referir à linguagem usada nas peças processuais. Importante esclarecer que o texto jurídico sempre foi marcado por construções fraseológicas complexas e por um elevado grau de conhecimento da língua, não só no processo de estruturação textual, mas também no conhecimento profundo da gramática da língua portuguesa... no entanto essa imagem positiva tem sido depreciada por uma vasta quantidade de erros básicos referentes à utilização da língua e à estruturação da linguagem. Fato é que vivemos em um país de questionável qualidade de educação. Temos centenas de milhares de analfabetos completos ou funcionais que, ao se depararem com o texto do pedido de seu advogado ou com sentenças proferidas pelo judiciário, não compreendem a linguagem, criando assim um abismo entre o mundo jurídico e a população, principal usuária deste. O distanciamento da classe jurídica do restante da população através de sua linguagem própria torna a busca pelo conhecimento do mundo do Direito pedante e impossível. Os jurisdicionados então passam a ter sentimento de descrédito e repulsa pelo judiciário e todas suas ramificações. Os juristas tornam-se então, caricatos para a sociedade. 5 DIREITO, LINGUAGEM E MÉTODO O Direito, enquanto objeto cultural é entendido como um fenômeno linguístico que constrói realidades próprias, dentro de um conjunto de fundamentos que são a unidade do sistema. A unidade do sistema é formada por pontos que se baseiam em uma estrutura que é a norma, consistente em estrutura lógica que conjuga um antecedente e um consequente por meio de um funcho deôntico. 16 Segundo Jonathan Barros Vita é da contingência e generalidade que surge a unidade do sistema jurídico, o seu código lícito/ilícito, que cria assimetrias e realiza a comunicação jurídica, sustentada pela linguagem. O Direito é norma e norma é linguagem, de consequência, direito é linguagem. Enquanto objeto do mundo o Direito é e existe através da linguagem, que é a forma de criação de realidades, de existência do mundo, já que a linguagem é que está à frente dos acontecimentos, que são, somente, alcançados a posteriori, quando captados de maneira eficaz por um eixo linguístico- comunicativo. Obviamente, qualquer objeto de estudo, no caso, o direito, acaba tendo de ser aproximado mediante um método que é a forma do conhecer em sentido científico. Fonte: institutocarrion.com.br O vocábulo “método” deriva do grego methodos que significa “caminho para se chegar a um fim”. Os métodos regem a produção da linguagem científica, do modo que não existe conhecimento científico sem método e este influi diretamente na construção do objeto. O método, bem como as técnicas utilizadas, está intimamente ligado às escolhas epistemológicas do cientista e influi diretamente na construção de seu objeto, demarcando o caminho percorrido para justificação de suas asserções. 17 Olhando externamente ao sistema, constatamos que o direito cria suas próprias realidades, ao passo que dentro de uma visão interna, somente existe o direito, não existindo uma distinta realidade para este. De outra parte, o método também pode ser descrito como uno e ao mesmo tempo plural, pois para conhecer um objeto de estudo de nada adianta ter apenas uma visão, que é sempre deturpada, falha e arreflexiva por natureza. Consiste o método num posicionamento/reposicionamento frente ao objeto constante, quer seja por meio da semiótica, lógica, da filosofia, o que infere que o método é aplicado na construção e investigação do objeto, que é dúplice e uno ao mesmo tempo, pois se estuda a linguagem que é a forma de expressão do direito. O método, portanto, bem como as técnicas utilizadas, está intimamente ligado às escolhas epistemológicas do cientista e influi diretamente na construção de seu objeto, demarcando o caminho percorrido para justificação de suas asserções. Cumpre pontuar inicialmente que o Direito é entendido, para todos os efeitos, aqui, como um fenômeno que se expressa e existe como linguagem esquematizada em um contexto de comunicação, organizado sob a forma de um sistema único. Tal unidade consiste dizer que as meras divisões de abordagem ou distinções entre os ramos do direito são de caráter meramente metodológico, pois a simplificação é base de qualquer estudo científico, do que é válido afirmar a existência de uma divisão na ciência do direito, mas nunca será válido afirmar que o direito positivo divide-se. 18 Fonte: blog.hernandez-vilches.com Inobstante o caráter da unidade, temos que o termo “direito” é passível de inúmeras referências denotativas. Nesse contexto, temos a realidade do Direito Positivo e da ciência do Direito, que, enquanto mundos diferentes, não se confundem. Todavia, por serem representados linguisticamente pela mesma palavra e por serem ambos tomados como objeto do saber jurídico, acabam não sendo percebidos separadamente por todos. Importante destacar a distinção feita por Paulo de Barros Carvalho entre a realidade do Direito Positivo e da Ciência do Direito. Assevera que “são dois corpos de linguagem, dois discursos linguísticos, cada qual portador de um tipo de organização lógica e de funções semântica e pragmática diversas”. Correspondem, portanto, a duas regiões do conhecimento jurídico. Assim, se o direito positivo é o conjunto de regras jurídicas válidas em um determinado país e em determinada época, “à Ciência do Direito cabe descrever esse enredo normativo, ordenando-o, declarando sua hierarquia, exibindo as formas lógicas que governam o entrelaçamento das várias unidades do sistema e oferecendo seus conteúdos de significação”. 19 Fonte: d2f17dr7ourrh3.cloudfront.net A Ciência do Direito possui uma linguagem própria e distinta do Direito Positivo, pois as ciências, de uma forma geral, são apresentadas com a linguagem em sua função descritiva, forma declarativa, e tipologicamente qualificada como científica. Consiste, em verdade, num ramo científico que visa descrever, organizando o conhecimento, seguindo metodologia que dê conteúdo de segurança ao conhecimento exposto, fazendo notas e observações a respeito do seu objeto, que é o direito positivo ou, de forma mais abrangente, o direito possível, seguindo a técnica de Robles. Já o direito positivo apresenta-se revestido, normalmente, da função prescritiva, podendo ser ainda afásica, operativa, persuasiva ou, também, sob função metalinguística, com forma declarativa e tipologicamente classificada em técnica. Na doutrina do ilustre Professor Paulo de Barros Carvalho encontramos o ensinamento de que “o direito positivo aparece como um plexo de preposições que se destinam a regular a conduta das pessoas, nas relações inter- humanidade”. A partir de um vínculo ciência – objeto, o mesmo jurista concebe ciência jurídica como aquela à qual “cabe descrever esse enredo normativo” (o direito positivo) ordenando-o, declarando sua hierarquia, exibindo suas formas lógicas que governam o entrelaçamento das várias unidadesdo sistema e oferecendo seus conteúdos de significação. 20 Com os dados apresentados, podemos dizer que o Direito Positivo exprime valores de validade ou invalidade, enquanto a Ciência do Direito, que emprega linguagem descritiva, transporta valores de verdade ou falsidade. Quanto aos valores dos dois mundos linguísticos o saudoso Lourival Vilanova disserta: “Examinando-se os textos onde a teoria pura do direito tem feito a distinção entre norma jurídica (Rechatnorm) e proposição jurídica (Rechatssatz), vê-se que se estriba nos seguintes pontos: I – a norma jurídica provém do fato do costume, ou do ato de legislador (em sentido amplo); a proposição jurídica procede do ato cognoscente, da Ciência do Direito; II – o modo-de-referência (semântico) da norma jurídica é prescritivo de possíveis fatos de um universo-de-fatos; o modo-de-referência das proposições jurídicas é o descritivo de fatos; III – consequentemente os valores de normas diferem dos valores de proposições: umas, válidas ou não-válidas; outras, verdadeiras ou falsas.” Portanto, a linguagem prescritiva do direito positivo estabelece regras de comportamento denominadas normas jurídicas, ao passo que o discurso da Ciência do Direito caracteriza-se por uma sobre linguagem descritiva das normas jurídicas. Fonte: www.primecursos.com.br 21 Tem-se que o direito se trata, em verdade, de objeto cultural e se traduz num fenômeno linguístico que constrói realidades próprias. Direito é norma e norma é linguagem, logo, direito é linguagem, silogismo básico e eficaz na demonstração de que o direito e linguagem são interconectados. Enquanto objeto do mundo o direito é e existe através da linguagem, que é a forma de criação de realidades, de existência do mundo, já que a linguagem é que está à frente dos acontecimentos, que são, somente, alcançados a posteriori, quando captados de maneira eficaz por um eixo linguístico- comunicativo. Em outras palavras, a linguagem é o meio pelo qual o cientista visualiza o direito, por esta ser o direito, em determinadas condições. Neste ótica há que se destacar a importante contribuição do professor Paulo de Barros Carvalho que, reinterpretando Lourival Vilanova, apresentou uma teoria chamada de Constructivismo Lógico-Semântico. Esta teoria apresenta um foco específico que perfaz um importante entrecruzamento entre aspectos lógicos (sintáticos), o chamado giro linguístico e uma forte investigação semântica das estruturas e palavras dispersas no corpo do direito positivo. As expressões comumente utilizadas no âmbito jurídico, como sentença transitada em julgado, ad hoc e espia, além de frases longas, vistas pela comunicação como ruídos, muitas vezes dificultam ou mesmo impedem o entendimento por parte da população. Este refinamento, que torna a linguagem rebuscada, contribui, muitas vezes, para falhas na compreensão do receptor da mensagem, incluindo aí estudantes de Direito e até mesmo outros profissionais da área jurídica, o que leva a linguagem dos juristas a ser pejorativamente denominada juridiquês. A linguagem jurídica é vista como algo tão complexo a ponto de ser pejorativamente chamada, pela maioria, de juridiquês. Isto porque para os não operadores do Direito a linguagem do meio jurídico é algo bastante técnico e específico, com diversos termos próprios, inclusive em latim, que acabam por dificultar a compreensão. No entanto, a linguagem jurídica nada mais é que uma extensão da linguagem natural, aperfeiçoada e transformada em algo que a torna parte do exercício da profissão. Mas, para adentrar e entender o que é e como é utilizada 22 a linguagem jurídica, cabe, primeiramente, tratar da linguagem propriamente dita. O conhecimento adquirido acerca de uma determinada coisa só pode ser difundido e transmitido, de geração a geração, por meio da linguagem a qual, torna-se, então, o veículo de comunicação entre os indivíduos de uma sociedade, diferenciando, por conseguinte, cada grupamento humano. Quando o assunto é organização, a linguagem, segundo Martino (2014), é vista como uma forma de manutenção da ordem no caos, podendo-se, por meio dela, estabelecer regras de convívio, sendo, portanto, “o elemento usado por nossa mente para organizar a realidade exterior.” (Odgen e Richard apud MARTINO, 2014). Para França et al (2015) “a capacidade de organizar informações em linguagem” seria, aliás, uma das propriedades inalienáveis da comunicação. Martino (2014), a partir daí, apresenta a linguagem como fenômeno social haja vista que “nós aprendemos a falar, e, junto com ela, aprendemos categorias de ação, percepção e comportamentos sociais”, ou seja, aprende-se formas de manter uma Comunicação dentro de um contexto social. Ao tratar do assunto França et al (2015) busca as palavras de Lotman & Uspenski segundo o qual “[...] ‘as línguas e as culturas são indivisíveis: não é admissível a existência de uma língua (...) que não esteja imersa num contexto cultural, nem de uma cultura que não possua no seu próprio centro uma estrutura do tipo da duma língua natural’ (1981: 38)”, isto é, tanto a linguagem como a língua irão variar de acordo com a cultura na qual estão inseridas, diferenciando- se de acordo com o lugar. 23 Fonte: bcctorres.com Vale observar que, assim como a linguagem está inserida em um contexto social, sendo específica de uma cultura e lugar, será ela também a limitadora do mundo de cada indivíduo haja vista que, como retratado em Wittgenstein (apud MARTINO, 2014) “‘os limites de minha linguagem são os limites do meu mundo’” o que significa que a mesma linguagem que pode acrescer a noção de mundo de cada um pode, também, limitar “a compreensão de mundo do indivíduo falante dentro de suas estruturas” (MARTINO, 2014). Ressalte-se, por fim, que mundo, como acima exposto, pode também referir-se ao contexto em que o indivíduo está inserido, como o mundo jurídico caracterizado pela linguagem jurídica. Tendo em vista o conceito de linguagem, tem-se a linguagem jurídica como uma extensão, uma expressão da linguagem natural, um subproduto desta, um aperfeiçoamento que a torna técnica, isto é, torna-a específica, o que não significa, entretanto, que deve ser complexa e de difícil entendimento. Tratando-se de meio em que o Direito se insere, Nader (2014) assim justifica a criação de uma linguagem técnica jurídica: “para que o Direito cumpra a finalidade de prover o meio social de segurança e justiça, é indispensável que, paralelamente ao seu desenvolvimento filosófico e científico, avance também no campo da técnica” isto porque como explica Reale (2002) “[...] sem a linguagem do Direito não haverá possibilidade de comunicação [...]”. A linguagem jurídica, assim é um conjunto de termos específicos e técnicos criados de modo a ter sua própria expressão e se firmar enquanto 24 ciência, sendo utilizada e compreendida por grande parte daqueles que operam o Direito. Enquanto realidade cultural de um lugar, o Direito vai se expressar como uma manifestação linguística local, revelando-se como “um produto cultural mais rígido (...)” (NADER, 2014) contendo termos que, em alguns casos, não serão aplicados fora daquele contexto, até mesmo pela dificuldade de compreensão quando deslocada daquela realidade, é o que acontece com a denominação ‘peça ovo’ referindo-se à petição inicial do Código de Processo Civil ou ‘fumaça do bom Direito’ (também usada em sua forma em latim: fumus bom iuris) que é utilizada quando se quer mostrar a presença de um Direito existente no caso concreto. O Direito pode ser vistotambém como uma forma de arte, já que é por meio desta que os seus aplicadores expressam ideias, transpondo, de algum modo, para o papel, o que poderia ser chamado de veia poética, como reforçado por Nader (2014) na seguinte passagem: “a arte como processo cultural que realiza o belo, é também utilizada pelo Direito, especialmente em relação à linguagem (...). Vista como talento, é indispensável ao técnico que elabora o Direito, aos intérpretes e aos aplicadores”. 6 O USO DO LATIM O latim, como um estrangeirismo muito utilizado no discurso jurídico, pode, quando usado de forma excessiva, atrapalhar o leitor dificultando a sua compreensão uma vez que a língua latina está praticamente em desuso, sendo recepcionada apenas em algumas áreas muito específicas, como o Direito, conforme exemplificado: sic: assim. Significa estar de acordo, conforme, segundo o original; escreve-se entre parênteses; sine qua non: sem a qual não; sui generis: o seu próprio gênero, peculiar; ultima ratio: última razão; ultra petita: além do pedido; vacatio legis: dispensa ou isenção da lei. As expressões retrocitadas, apesar de fácil compreensão pelos aplicadores do Direito, são comumente entraves ao entendimento de textos jurídicos não só pelas pessoas fora da área como até mesmo por estudantes de início de graduação que se veem diante termos como estes tanto nos livros e 25 salas de aula como ao longo de um contrato de estágio quando se é a primeira experiência, e depara-se com peças recheadas de expressões em latim ainda menos conhecidas, como: mora ex re: mora pela falta de cumprimento da obrigação no dia do seu vencimento; non bis in idem: não duas vezes contra o mesmo delito. Não se deve punir duas vezes alguém pelo mesmo crime; nonem juris: nome do direito; notitia criminis: conhecimento de um crime; nulla poena sine culpa: não há pena sem culpa; nulla poena sine lege: não há punição sem lei. A linguagem e o discurso jurídico, assim, podem ser mais claros, menos tecnicista, mas sem deixar de se apresentar como discurso jurídico, deixando de lado, por conseguinte, a excessiva técnica que faz essa linguagem ser vista como juridiquês. A linguagem jurídica sofre interferência de diversos ruídos da comunicação, como o excesso de técnica, de tal modo que leva a erros de compreensão por parte de quem recebe a informação, cabendo, portanto, retificação a fim de tornar a Comunicação a mais clara possível. O profissional do Direito, independentemente da carreira que siga, sempre vai precisar escrever peças, sejam opinativas, informativas ou argumentativas, onde será preciso também ter, desenvolver, ou mesmo adquirir a capacidade de interpretação e síntese de ideias de modo a transformar em texto aquilo que se tem em mente de forma clara, direta e objetiva, colocando na escrita tudo o que, de fato, gostaria de falar. Advogados, juízes, procuradores, dentre outros profissionais da área jurídica, em seus textos, de forma a redigir com linguagem técnica, fazem uso de diversos termos em latim, termos esses que vão desde os mais simples, comuns e de fácil compreensão até os mais complexos e não usuais. Enquanto forem utilizadas poucas expressões, e de fácil entendimento, não há problema, ao contrário, torna a linguagem jurídica específica. O problema surge no excesso; quando o texto é totalmente preenchido com um extenso vocabulário em latim, com expressões incomuns, onde, em vários casos, até mesmo outro operador do Direito tem dificuldade em entender. Nesses casos, se um aplicador do Direito não consegue entender o que lhe foi dirigido em redação, logicamente, o entendimento e compreensão do não jurista também será prejudicado. 26 Uma vez que a sociedade é a base do Direito e da linguagem sendo para quem as regras e normas do Direito são criadas e aplicadas, cabe o uso de uma linguagem menos complexa e refinada de modo que qualquer cidadão que ler ou ouvir um discurso jurídico tenha a clara compreensão do que percebeu. Vale dizer que o português, língua nacional, e a linguagem, como veículo da comunicação, devem ser utilizados de modo a facilitar o acesso da sociedade ao profissional do Direito e não a afastar. Afinal se o Direito surge do convívio em sociedade e, até mesmo a linguagem jurídica nasce da linguagem natural, nada mais coerente que trazer o jurídico para próximo do ambiente onde se originou, fazendo da linguagem não só um meio de comunicação entre os operadores do Direito, mas também entre eles e o seu público alvo: a sociedade. Assim é que se propõe uma melhora na comunicação entre juristas e não juristas, não de forma a abolir os termos técnicos que tornam a linguagem específica da área, mas de modo a redigir de forma mais clara, com peças formais, com boa redação, boa escrita, com técnica, mas sem excessos, onde qualquer leitor, qualquer pessoa que venha a ler o documento consiga compreender o que está escrito. Não é a técnica, a formalidade das peças e discursos ou aquele termo em latim mais usual que interfere na comunicação, mas sim o excesso, o uso demasiado de expressões técnicas que dificultam a impreensão e o acesso ao Poder Judiciário daqueles que são os mais interessados: a sociedade. 7 A SENTENÇA E A COMPREENSÃO POPULAR Visando o acesso à justiça em seu mais amplo sentido, buscando a melhor compreensão popular nas resoluções do processo, alguns juízes alteraram sua forma de redigir uma sentença judicial com a intenção de facilitar o entendimento da parte interessada, levando em consideração seu nível de conhecimento jurídico e sua classe social. A linguagem técnica é aplicada, assim como toda ciência ela é necessária, bem como a prática da boa redação. A diferença consiste na forma que ela é apresentada, em uma esfera simples, abolindo o “juridiquês”. O leigo consegue 27 entender a ideia central da sentença e a cultura e o conhecimento dos interessados são respeitados, é aceitável a utilização de expressões latpopulares para compor o gênero textual e facilitar o acesso. O Direito está presente no cotidiano social e é a ciência humana que estuda as normas jurídicas que envolvem as relações dos indivíduos, e sua principal ferramenta é a linguagem. A comunicação utilizando termos rebuscados de domínio restrito é caracterizado por um preceito histórico, no qual apenas pessoas com poder aquisitivo teriam condições para estudar e ser os mediantes dos conflitos sociais. Com a evolução dos tempos e os ganhos dos direitos e garantias estabelecidos na constituição, o Direito acabou fazendo ainda mais parte da vida das pessoas. A Linguagem é uma das maiores problemáticas dessa ciência, pois há uma demasia de termos técnicos, expressões latinas e jargões que chegam a fugir da linguagem técnica, que é natural em qualquer área de conhecimento. O “Juridiquês” prejudica a compressão daqueles que necessitam do Direito e são leigos no entendimento jurídico. Alguns operadores do Direito e do Legislativo já identificaram a questão e começaram a se manifestar sobre o assunto, trazendo a debate o dilema para academia e sociedade. A sentença que é a manifestação do juiz sobre o mérito da causa e é de total interesse das partes, que muitas vezes são leigas do âmbito jurídico, necessita de uma linguagem mais simplória para ser compreendida. Por tanto, é de total importância a contestação referente a linguagem aplicada no meio jurídico e de os operadores do direito levarem em consideração as partes que estão interessadas nos autos do processo, utilizando assim, de um palavreado mais acessível para todos. 28 Fonte: atmosferaonline.com.brBIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Guilherme Assis de; BITTAR, Eduardo C. B. Curso de filosofia do direito. 10. ed., São Paulo: Atlas, 2012. ARAUJO, Ruy Magalhães de. Expressões Jurídicas Latinas aplicadas ao cotidiano forense. (Pequeno Dicionário Comentado). BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. 9 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. CARVALHO, Elisa de Castro. Comunicação e Linguagem: Sistemas Alternativos e Aumentativos de Comunicação. 20 jun. 2015 DINIZ, Maria Helena. Compêndio de Introdução à Ciência do Direito: Introdução à Teoria Geral do Direito, à Filosofia do direito, à Sociologia Jurídica e à Lógica jurídica. Norma jurídica e Aplicação do Direito. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. FRANÇA, Vera Veiga, HOHLFELDT, Antonio & MARTINO, Luiz C. (org.). Teorias da Comunicação: Conceitos, Escolas e Tendências. 15 ed., Petrópolis: Vozes, 2015. GUIMARÃES, Luciana Helena Palermo de Almeida. A Simplificação da Linguagem Jurídica como Instrumento Fundamental de Acesso à Justiça. Disponível em: 29 http://www.revistas2.uepg.br/index.php/humanas/article/view/4270/3195. Acesso em: 02/12/2015. NALINI, José Renato. Novas Perspectivas no Acesso à Justiça. Disponível em: http://www2.cjf.jus.br/ojs2/index.php/revcej/article/viewArticle/114. Acesso em 15.01.2014. SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 19 ed. São Paulo: Malheiros, 2012. 30 8 LEITURA COMPLEMENTAR A SIMPLIFICAÇÃO DA LINGUAGEM JURÍDICA COMO INSTRUMENTO FUNDAMENTAL DE ACESSO À JUSTIÇA Luciana Helena Palermo de Almeida Guimarães Disponível em: http://www.revistas2.uepg.br/index.php/humanas/article/view/4270/3195 Acesso em: 02/12/2015 RESUMO Este artigo apresenta uma análise da linguagem jurídica numa perspectiva linguística, sob a ótica do século XXI. Tal linguagem revela-se um excelente campo para estudo: seu tradicionalismo, a pouca preocupação em ser entendida por aqueles que não pertencem a seu universo e a possibilidade de se elaborar textos forenses com linguagem clara, precisa, livre do verniz erudito ainda tão presente no meio jurídico, sem ignorar o vocabulário técnico deste. A metodologia utilizada para a elaboração desta análise foi a pesquisa bibliográfica, em livros, periódicos e sítios eletrônicos, visto que ela oferece subsídios para a fundamentação teórica e também permite que um tema seja analisado sob novo enfoque, gerando novas conclusões. O que se defende neste trabalho é a importância da inteligibilidade textual, com o objetivo de melhorar consideravelmente a relação entre o direito e o cidadão comum, facilitando assim o acesso dele à justiça. Palavras-Chave: Linguagem Jurídica. Juridiquês. Justiça. ABSTRACT This article presents an analysis of the juridical language in a linguistic perspective, under the glance of the XXI century. Such language reveals itself as an excellent field of study: its traditionalism, little concern about being understood by those who do not belong to its universe and the possibility of preparing forensic texts with clear and precise language, free of the erudite varnish still so presented in the juridical area, without ignoring its technical vocabulary. The methodology applied to elaborate this analysis was the bibliographic research, in books, journals and sites, since it offers subsidies to the theoretical substantiation and also allows that a topic can be analyzed in a new focus, thus generating new conclusions. The importance of the textual intelligibility is supported in this work, aiming to improve considerably the relationship between law and the common citizen, therefore facilitating his access to the justice. 31 Keywords: Juridical Language. Simplification. Justice. Introdução “Comecemos por dizer que a linguagem é, ao mesmo tempo, efeito e condição do pensamento”, segundo Delacroix. Para o jurista Nascimento (2010, p. 3), a linguagem é efeito por traduzir com palavras e fixar o pensamento; é condição porque quanto maior for o conhecimento de palavras, mais claro é o pensamento. Segundo a obra Ensaio sobre a Origem da Linguagem (1772), de autoria do filósofo e escritor alemão Johann Gottfried Von Herder, [...] A linguagem não é apenas um instrumento de comunicação, mas também o próprio pensamento do ato. O conhecimento não se separa da forma linguística em que se expressa, e por isso a linguagem também constitui o limite, ainda que móvel, do pensamento. A linguagem não se organiza apenas segundo princípios racionais. As palavras irradiam a capacidade de comunicação para os domínios mais amplos da vida e das forças que a integram, modificam-na e a expressam. (HELDER apud BIDERMAN, 2001, p. 125). Conforme Edward Sapir (1949) – linguista e antropólogo que concentrou seus esforços na filologia alemã – citado por Gonçalves (2006, p. 1.703), a linguagem chega a ser o meio de expressão de uma sociedade, a tal ponto que o mundo real é “[...] Inconscientemente construído sobre os hábitos de linguagem do grupo [...]”. De acordo com Bakhtin (1979), a linguagem conjetura-se como um processo realizado de forma coletiva, no qual sujeitos de uma determinada sociedade ou grupo social criam e recriam, historicamente, um sistema de significados articulado e visão de mundo, através da interação verbal. Petri (2008) afirma que a língua funciona como um elemento de interação entre o indivíduo e a sociedade em que ele atua. E é por meio dela que a realidade se transforma em signos, com a associação de significantes sonoros a significados, pelos quais a comunicação linguística se processa. Nunes (2006) nos mostra que o Direito e a linguagem se confundem. É por meio da linguagem escrita e falada que os conhecimentos doutrinários são absorvidos; que os pronunciamentos judiciais são publicados na imprensa oficial e os atos e termos processuais são realizados. Freitas (2008) destaca que a Ciência Jurídica produziu uma linguagem específica, científica e técnica como 32 resultado de seu próprio desenvolvimento, pois instrumentaliza e permite ao operador do direito, além de seu uso correto, alcançar o verdadeiro sentido das normas jurídicas. Estamos falando do juridiquês, definido por doutrinadores, a exemplo de Arrudão (2007), como o uso de um português ininteligível, através de palavras de raciocínio labiríntico e expressões pedantes, ou seja, que se expressa exibindo conhecimento que realmente não possui. Todavia, sabemos que na área forense existem termos próprios que na verdade não passam a carga semântica desejada quando traduzidos. “Há uma linguagem do Direito porque o Direito dá um sentido particular a certos termos. O conjunto desses termos forma o vocabulário jurídico.” (PETRI, 2008, p. 29). A atividade jurídica tem o cidadão como destinatário e permeia todos os setores da sociedade. Ao lembrarmos que a intenção da linguagem, jurídica ou não, é comunicar algo, devemos nos lembrar da necessidade de adequá-la a esse cidadão, que deseja ter acesso à Justiça, mas precisa entender como decidem os magistrados, a fim de que possa interagir de forma mais segura no cumprimento de seus deveres e na exigência de seus direitos. Neste estudo pretende-se estabelecer a simplificação da linguagem jurídica como instrumento fundamental para o acesso à Justiça, bem como seus benefícios e os recursos que devem ser utilizados para alcançá-la. A importância da linguagem na área do direito Na área do Direito, escrever corretamente assume valores maiores que em outros setores da sociedade. A linguagem é o meio utilizado para transmitir ideias, e quanto melhor ela for,melhor será a transmissão. No campo jurídico, tal transmissão precisa ser perfeita para alcançar seus objetivos, obter justiça. No campo forense, busca-se convencer, persuadir, legislar, debater e, principalmente, julgar as condutas de outros membros do grupo. Portanto, o uso linguístico necessita ter o seu poder e o seu papel reconhecidos nessa área, pois, para Gnerre (1998, P. 5), A linguagem não é usada somente para veicular informações, isto é, a função referencial da linguagem não é senão uma entre outras; entre estas ocupa uma posição central, a função de comunicar ao ouvinte a posição que o falante ocupa de fato ou acha que ocupa na sociedade 33 em que vive. As pessoas falam para serem ouvidas, às vezes respeitadas e também para exercer alguma influência no ambiente em que realizam seus atos linguísticos. Citamos também aqui a tese de Bobbio (1999, p. 135), que eleva a jurisprudência à categoria de ciência, para demonstrar a importância da linguagem na área do Direito. Segundo tal teoria, o “[...] Jurista não observa fatos, mas estuda o significado de determinadas palavras por meio das quais deve reconstruir os fatos”. Dessa maneira, seu objeto de estudo é a análise da linguagem do legislador. Assim, esta se coloca como expressão da realidade, por meio de afirmações e negações compostas por orações. O Direito e seus operadores não falam só para si. Falam para uma audiência mais ampla, a sociedade. Por isso, utilizam uma linguagem pública, que deve ser acessível a todos. O domínio da linguagem jurídica apenas por um grupo é um fato de posse. Entretanto, ela não é fixa, evolui, é prática. Ela está a serviço do direito. Se o direito é para todos, sua linguagem também! Finalizamos com o pensamento do ilustre jurista Luís Roberto Barroso (2007), que se encaixa perfeitamente na proposta deste trabalho: “o Direito é a alternativa que o mundo concebeu contra a força bruta. Em lugar de guerras ou duelos, debates públicos; em vez de armas, ideias e argumentos”. A palavra como ferramenta do direito O Direito nos é apresentado por meio da palavra, sua ferramenta funcional, manifestada em todos os sentidos: nas leis, pareceres, razões, sentenças, acórdãos e em outras formas diversas de atos judiciais que não dispensam seu uso para o conhecimento da matéria jurídica. Ainda de acordo com o jurista Nascimento (2010), a expressão lógica, breve, clara e precisa é qualidade da linguagem jurídica escrita. O conjunto desses atributos dá-lhe a elegantia júris, como denomina Von Ihering na obra Espírito do Direito Romano (1943), ou beleza funcional; ou, também, estética funcional. Assim, a complexidade da linguagem não pode ser admitida à ciência que analisa e rege as relações sociais, que disciplina a conduta das pessoas, e que tem por objetivo primordial auxiliar na resolução de conflitos de interesse que nascem no seio de uma sociedade. 34 O mais importante num texto jurídico não é a beleza da sofisticação da linguagem, mas sim a clareza, a concisão e precisão que ele apresenta, organizado com raciocínio lógico e coerência, originários de uma seleção atenta de fatos relevantes que compõem o caso. Linguagem clara, portanto, é aquela que apresenta alto nível de qualidade, sem omissão de palavras ou sem uso de signos que sejam compreendidos somente por um determinado grupo de pessoas. Entretanto, quando primamos pela simplificação da linguagem jurídica, não estamos defendendo a vulgarização dela, nem estimulando o desuso de termos técnicos necessários ao contexto forense, mas sim, combatendo os excessos que podem facilitar o entendimento do cidadão, ficando mais acessível para todos. Portanto, a simplificação da linguagem jurídica deve ser vista como um instrumento fundamental que oportuniza o acesso à justiça e contribui, efetivamente, para a atuação do poder judiciário como um todo. Destacamos ainda que escrever bem não é escrever muito. A prolixidade é considerada um defeito e não uma qualidade. Quando um texto é simples, sem ser vulgar; elegante, sem ser pedante; com um acervo de palavras e expressões contextualizadas, sem ser arcaico; ele será respeitado, admirado e recomendado por um simples motivo: é convincente e seguro. Até mesmo o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, manifestou-se sobre esse assunto, dizendo que “não entende porque não é possível se fazer um simples termo de adesão de cartão de crédito de apenas uma página”. (SIEGEL, 2010). Nas palavras do desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, Alexandre Moreira Germano (2005), a tendência moderna é de redações bem escritas, porém simplificadas e objetivas, que não abusam da linguagem empolada, tampouco dos termos jurídicos. Não se pode fazer literatura, mas, sim, facilitar a leitura do processo. Afinal, o processo deve ter o sentido de resolver um conflito entre duas partes, sem grandes divagações literárias. O magistrado também recomenda que não se utilizem termos em latim ou outros idiomas que não sejam o vernáculo, pois não os acha necessários e defende que o português supre todas as exigências do texto. Embora possamos considerar que a linguagem jurídica não tenha nascido no seio da sociedade, não podemos negar que foi justamente para a sociedade que o Direito foi criado. Postamos aqui para reflexão as palavras de Hegel, 35 filósofo alemão: “quem exagera no argumento, prejudica a causa” (PIZZINGA, 2008). Há, portanto, uma parceria essencial entre o Direito e a linguagem, que constituem um par indissociável. Sem a qualidade da segunda, o primeiro não cumpre o seu papel. Leis são feitas com palavras. O jurista não lida diretamente com os fatos, mas com palavras que denotam ou pretendem denotar esses fatos. Em vista do exposto, em toda profissão a palavra pode ser útil, e até mesmo necessária. Mas, na área do Direito, ela é indispensável e imprescindível. Como muito bem dito pelo jurista italiano Carnelutti, “nossas ferramentas não são mais que palavras” (KASPARY, 2003). A argumentação pela palavra Dominar a comunicação em todos os níveis é essencial para o profissional do Direito, visto que sua ferramenta de trabalho, a palavra, se exteriorizada com eficiência, tem o poder de convencer, persuadir e influenciar as pessoas. Tal ação é uma forma de exercer poder sobre os outros, estimulando-os a ver o mundo por uma nova ótica. O meio jurídico é o da argumentação pela palavra. É com ela que se constroem teses ou refutações, faz-se justiça. O pensamento argumentativo está sempre presente no discurso forense, visto que o conflito entre as partes contrárias exige uma sustentação lógica, a qual, por sua vez, será analisada pelo juiz, que terá de fundamentar sua decisão. Dessa maneira, o texto jurídico bem elaborado e com forte argumento convence o leitor, devido ao fato de que a argumentação é produzida fazendo uso de técnicas discursivas, de elementos que, na língua, têm o propósito de convencimento. De acordo com Perelman e Tyteca (2005, p. 252), “[...] A argumentação solicitando uma adesão é antes de tudo uma ação”. Por isso, são necessários os seguintes requisitos para alcançarmos a finalidade de persuadir o leitor a respeito das ideias apresentadas: conhecimento mais amplo possível do assunto tratado no texto, dos recursos de linguagem, do próprio leitor, e a seleção dos argumentos que vão ser utilizados. Além disso, jamais se deve perder o foco para quem se está escrevendo, para que se possa produzir um texto bem 36 elaborado, com as solicitações expressas com clareza e argumentação bem construída. A essência da leié ordenar, vetar, permitir e punir. O texto jurídico deve ser adequado para solucionar conflitos e não para causá-los, como acontece quando uma norma, ou apenas uma parte dela, é mal redigida. O juridiquês Conforme Mendonça (1987, p. 12), a forma clássica do “dizer jurídico” é a seguinte: “[...] São palavras comuns, com significados incomuns para o leigo; palavras e expressões arcaicas ou latinas, jargão, gíria profissional, termos formais ou com significação elástica ou, ainda, a redundância como tentativa de atingir extrema precisão”. O professor de Direito Penal Felix Valois, em texto escrito na apresentação da obra Constituição Para Todos, de Ronie Stone (1998, p. 1), declara que o senso comum elegeu há muito tempo a linguagem jurídica como arrevesada e confusa, e que, nessa concepção, ela só perderia para o economês. O ilustre docente prossegue relatando que: “[...] Do legislador ao mais humilde rábula, passando por tribunais, juízes, doutrinadores, promotores e advogados, todos se esforçam para complicar a palavra, na injustificável ilusão de que falar difícil os torna mais importantes.” Atualmente alguns profissionais do Direito têm direcionado sua atenção para a questão das normas jurídicas escritas em uma linguagem “opaca”, impenetrável, o que tem gerado muitos debates, vários textos, obras acadêmicas em geral, com o intuito de se repensar as relações entre Direito e linguagem. Neles se percebe a reprovação dos autores à falta de clareza, concisão e precisão e ao pedantismo, que são utilizados por alguns legisladores ao elaborarem as leis, códigos etc. É fato que algumas peças jurídicas são redigidas de maneira que é impossível a alguém que não seja parte do meio jurídico compreendê-las. Esse estilo rebuscado, denominado juridiquês, impede qualquer possibilidade de conhecimento, ao invés de permitir a compreensão sobre o assunto tratado. Partilha da mesma opinião Gérman Bidart Campos (apud CÁRCOVA, 1998, p. 37), ao afirmar que: 37 [...] há normas tão complicadas, tão mal redigidas, tão confusas, de tanta exuberância regulamentarista, de técnica tão deficiente, que até os especialistas da mais alta qualidade e perícia quebram a cabeça para entender o que o autor quis dizer. Como então querer que o comum das pessoas as conheça, as compreenda e as cumpra! O jurisconsulto Eliasar Rosa é outro profissional do direito que defende uma linguagem mais clara e menos rebuscada nos textos “jurídicos”. Ele afirma que: Em verdade, não é a correção a primeira ou maior virtude do estilo. A clareza é que o é, não apenas para o advogado, mas para todos, pois que a linguagem é o meio geral de comunicação, seu fim supremo. Daí por que, quanto mais clara for, mais útil e eficaz ela será para preencher sua finalidade. Quem é obscuro manifesta, desde logo, ou o desejo de não ser facilmente compreendido, ou a inaptidão para se comunicar. (ROSA, 2003 apud SOUZA, 2011, p. 27). Mais uma citação que também vai ao encontro das ideias defendidas por Bidart Campos e Rosa é de autoria do advogado Kaspary (2003, p. 2), presente no texto eletrônico “Linguagem do Direito”: O que se critica, e com razão, é o rebuscamento gratuito, oco, balofo, expediente muitas vezes providencial para disfarçar a pobreza das ideias e a inconsistência dos argumentos. O Direito deve sempre ser expresso num idioma bem-feito; conceitualmente preciso, formalmente elegante, discreto e funcional. A arte do jurista é declarar cristalinamente o Direito. Pode-se deduzir, então, que a linguagem jurídica, em várias situações, não está alcançando o objetivo básico de toda e qualquer forma de linguagem: a comunicação. A maneira excessivamente culta que alguns profissionais insistem em utilizar só agrada a dois tipos de pessoas: a quem dela faz uso e a quem não entende nada, mas acha tudo muito bonito. E, o pior de tudo, a linguagem jurídica está repleta de seguidores dessa forma de “expressão”, já que não podemos chamá-la de comunicação. Para os estudiosos da área, isso não deixa de ser uma estratégia, pois utilizam uma linguagem de difícil compreensão a fim de que ela não possa ser compreendida por “leigos”. (MENDONÇA, 1987, p. 11). Não se pode esquecer que uma linguagem carente de atualização afasta o orador de seu público, geralmente formado por pessoas que têm afinidade com a linguagem jurídica, mas também por outras que não dominam esse “jargão profissional”. E isso torna essa linguagem, impressa no discurso, ineficaz. Por esse motivo, Schnaid (1998, p. 299, grifo do autor) afirma que: “a eficácia de um discurso depende não só do orador, mas também em grande parte do auditório, 38 no qual se pretende influir (convencer). A comunicação exige uma ‘linguagem comum’, baseada em símbolos que expressem a mesma coisa para um e outro”. Como resistência ao juridiquês, a tendência contemporânea é que os textos, e também a própria linguagem utilizada para expressar ideias da área forense, apresentem cada vez menos termos técnicos, a fim de tornar mais acessível o entendimento dos trâmites da Justiça. Movimentos em prol da simplificação da referida linguagem ganham cada vez mais espaço no cenário internacional. Não é uma iniciativa recente, visto que desde o final dos anos 70 eles têm surgido nos Estados Unidos e na Inglaterra, originários de operadores do Direito, políticos e da própria sociedade civil, para fazer com que informações importantes na relação entre cidadãos, governos e a sociedade em geral sejam expostas de forma cada vez mais precisa e clara. Aqui no Brasil, tais movimentos ainda são tímidos. Registramos o lançamento, em 2005, da “Campanha pela Simplificação do Juridiquês”, promovida pela Associação dos Magistrados Brasileiros. Segundo ela, advogados, procuradores, promotores de justiça, juízes, professores e acadêmicos devem produzir peças judiciais e trabalhos científicos com frases menos rebuscadas, mas sem comprometer o raciocínio jurídico. Porém, ainda não notamos uma mobilização capaz de ocasionar mudanças concretas. Mas acreditamos que chegar a essas mudanças é apenas uma questão de tempo, pois o crescimento econômico do nosso país e do nível de instrução do povo brasileiro fará com que as exigências de acesso à informação em linguagem clara e precisa estejam na pauta das discussões do poder público e da sociedade civil em breve. Haverá o consenso de que a simplificação da linguagem jurídica trará benefícios a todos os envolvidos nesse processo. O latim como idioma auxiliar da ciência jurídica Assim como ocorre em outros setores do conhecimento, o Direito possui uma linguagem particular, específica, com palavras e expressões que encerram significações próprias. Quanto à sua origem, o uso do latim no meio jurídico se deve à sua raiz no Direito Romano da Antiguidade, codificado pelo francês Dionísio Godofredo, em 1538, responsável por editar o Corpus Juris Civilis, conjunto das obras do Direito e leis romanas, organizado por ordem do 39 imperador Justiniano. No caso do Brasil, o Direito Romano influenciou o direito português, ambos trazidos para o nosso país através das ordenações. Em qualquer obra ligada ao Direito encontramos frases, palavras ou expressões em latim. Assim, o uso de expressões latinas no campo jurídico apresenta objetivos diversos: demonstrar erudição e apego à tradição, impressionar o leitor, entre outros. Porém, o latim leva os operadores do Direito a experimentar resultados indesejáveis, com erros de grafia e de concordância, muitas vezes por completo desconhecimento gramatical desse idioma, especialmente em virtude da eliminação do ensino dalíngua latina nos cursos de Direito em nosso país. Na área jurídica o latim é indispensável, pois mantém relação de dependência com expressões indicativas de institutos próprios, que são, conforme Silva (2001, p. 487), “[...] Conjuntos de regras e princípios jurídicos que regem certas entidades ou certas situações de direito”. Não nos restam dúvidas de que o latim é um idioma auxiliar da Ciência Jurídica. Todavia, as expressões latinas devem ser usadas no Direito com parcimônia, bom-senso e moderação, dependendo do tipo de destinatário dos textos jurídicos em que elas se inserem, sempre em destaque, com o uso de aspas, itálico ou negrito. Conforme muito bem dito pelo processualista José Carlos Barbosa Moreira (2001, p. 257), “[...] O uso do Latim, entretanto, constitui terreno minado, onde com frequência são vítimas de acidentes os que a ele se lançam sem equipamento necessário”. A redação oficial e a linguagem No serviço público, somente atos que estejam expressamente previstos em lei podem ser praticados. Por essa razão, a redação oficial é elaborada sempre em nome desse serviço e em atendimento ao interesse geral dos cidadãos. A redação dos textos legais deve seguir, basicamente, as recomendações expostas na Lei Complementar n. 95, de 26 de fevereiro de 1998, que ditou normas gerais e estabeleceu padrões para a elaboração, a redação, a alteração e a consolidação da legislação federal. Essa lei foi alterada pela Lei Complementar n. 107, de 26 de abril de 2001, em cumprimento ao disposto no parágrafo único do art. 59 da Constituição Federal. 40 O art. 11, caput, da referida lei determina que a redação do texto legal se paute pela “clareza, precisão e ordem lógica”. Há ainda que se observar na redação legislativa: a clareza, que torna o texto inteligível; a precisão, que complementa a clareza; a coerência, que implica a exposição de ideias bem elaboradas, que tratam do mesmo tema do início ao fim do texto em sequência lógica e ordenada; a concisão, alcançada quando se apresenta a ideia com o mínimo de palavras possível, uso de frases breves, eliminação dos vocábulos desnecessários e substituição de palavras e termos longos por outros mais curtos; e finalmente a consistência, decorrente do emprego do mesmo padrão e do mesmo estilo na redação do texto, o que evita a contradição ou dubiedade entre as ideias expostas. Quem comunica é sempre o Serviço Público; o que se comunica é sempre algum assunto relativo às atribuições do órgão que faz a comunicação; o destinatário dessa comunicação ou é o público, o conjunto dos cidadãos, ou outro órgão público, do Executivo ou dos outros Poderes da União. Por isso, há necessidade de que o texto legal possa ser lido e compreendido pelo maior número possível de pessoas. Facilitar o entendimento dos textos legislativos é uma maneira de aproximar a população e favorecer o cumprimento das leis e a aplicação de sanções, caso tais leis não sejam cumpridas, diminuindo assim esforços desnecessários em outra instância, inclusive dos Poderes Executivo e Judiciário. Não se concebe um ato normativo redigido de forma obscura, que dificulte ou impossibilite sua compreensão. A transparência do sentido dos atos normativos, bem como sua inteligibilidade, são requisitos do próprio Estado de Direito: é inaceitável que um texto legal não seja entendido pelos cidadãos. As comunicações que partem dos órgãos públicos federais devem ser compreendidas por todo e qualquer cidadão brasileiro. Se a administração federal é única, as comunicações que expede devem seguir o mesmo padrão. O uso da linguagem jurídica O Direito é uma ciência que mantém uma relação muito próxima das suas tradições. Como exemplo disso tem-se a insistência de alguns operadores em manter um vocabulário excessivamente rebuscado, repleto de termos técnicos e 41 que atrapalha o andamento de um processo. Tal atitude dificulta muito o entendimento e afasta do universo jurídico uma grande parcela do povo brasileiro, cujo grau de escolaridade é precário. Uma linguagem com terminologias tão técnicas não contribui, em nada, para a aplicabilidade da Justiça. Mas, infelizmente, algumas pessoas acreditam que isso seja demonstração de um patamar cultural superior e, às vezes, esse tipo de linguagem com excesso de rebuscamento se torna incompreensível até para profissionais da área. Sendo o Direito uma ciência que trata das normas obrigatórias, das leis que disciplinam as relações dos homens na sociedade, deveria utilizar-se de um vocabulário acessível a todos, sem exibicionismos ou vaidades; e não fazer uso de uma linguagem tão técnica, própria, hermética. É fato que usar termos antiquados, obsoletos não é uma demonstração de sabedoria, mas da falta dela. Como muito bem dito pelo poeta Thiago de Mello, “falar difícil é fácil. O difícil é falar fácil” (MAIA, 2010). Assim, no modo de se escrever no campo jurídico existe uma precaução em adaptar a linguagem e adorná-la de maneira que ela se transforme em um código, cuja decodificação é possível apenas ao pequeno grupo que compõe esse universo. A linguagem deve ser usada para socializar o conhecimento, e não como manifestação de poder, como instrumento pelo qual se afasta da discussão as pessoas que não possuem condições de decodificá-la. Para aqueles que não demonstram nenhum compromisso com a democratização do acesso à justiça, é realmente interessante que o universo jurídico continue falando apenas para si mesmo. O ato comunicativo jurídico O ato comunicativo jurídico não utiliza a linguagem apenas enquanto língua, mas também, e principalmente, a utiliza como discurso. Tal ato exige a construção de uma fala que seja capaz de convencer o julgador a respeito da veracidade do “real” que se pretende provar. Em virtude disso, a linguagem jurídica vale-se dos princípios da lógica clássica para organização do pensamento. Segundo São Tomás de Aquino, “lógica é a arte de pensar em ordem, facilmente e sem erros”. E sem a lógica, a linguagem jurídica não atingiria 42 seu objetivo principal: argumentar para convencer. Por isso, para o operador do Direito é fundamental pensar de forma lógica, encontrar ideias e organizá-las, para que possa escrever bem. O Direito é uma ciência que rege a conduta das pessoas, valendo-se de uma linguagem prescritiva e descritiva. Desse modo, quando há interesses em conflito ou uma ação humana fere os valores da norma jurídica, exigindo reparação dos mesmos, surge a lide, criando a polêmica na relação entre os interlocutores do processo. Nesse confronto, a linguagem torna-se mais persuasiva por objetivar o convencimento do julgador, que, por sua vez, acautela-se da forma de sua decisão, explicando os mecanismos racionais pelos quais decide na motivação da sentença. Análise da linguagem jurídica Ao analisarmos a linguagem jurídica como um todo, percebe-se que esta ainda é definida por alguns doutrinadores como intangível, intocável, visto que o vocabulário utilizado no exercício da atividade jurisdicional é apresentado com peculiaridades, com termos que só são utilizados por ela. Em virtude disso, há a falsa ideia de que para falar bem devemos falar difícil. Assim, quem se expressa de forma prolixa e rebuscada é considerado mais culto, inteligente e digno de maior respeito; e procura se diferenciar do grupo de incultos que utiliza um estilo informal, mas se afasta do destinatário, o povo. Esquece, porém, que as sentenças jurídicas não são destinadas somente aos especialistas. Esquece também que o bom advogado é avaliado pelos argumentos que utiliza e pelaqualidade de persuasão com que os torna convincentes, e não pela sofisticação de sua linguagem. A atividade jurídica, como já dito, tem o cidadão como destinatário. A partir do momento em que uma das partes não consegue compreender a mensagem, o intuito da comunicação falhou. É fato que o uso de uma linguagem mais viva, mais dinâmica, menos obscura, mais precisa e compreensível não desrespeita de maneira alguma as normas do Direito como ciência, e sim facilita a vida, o acesso à justiça do indivíduo leigo, pois usa um repertório comum entre as partes, objeto de atenção de muitos operadores do Direito nas últimas décadas. 43 A língua é um código social, de caráter mutável, que sofre alterações constantes. Se os indivíduos mudam, a língua também o faz. E essa imutabilidade, segundo a Linguística, comprova a natureza e a essência da linguagem. Afirma o linguista americano Steven Fischer, em entrevista para a revista Veja, de 5 de abril de 2000: Idiomas não são pedras, mas esponjas. Não se deve tentar impedir o enriquecimento do idioma. É assim que as línguas sobrevivem, mudando continuamente. As transformações sofridas pelo português brasileiro são uma prova de sua força, não da sua fraqueza. (SALGADO, 2000, p. 14). Machado de Assis (1997, p. 37), que dispensa apresentações, já abordava o problema da língua e sua expressão: Não há dúvida de que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos, é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a américa não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influência do povo é decisiva. Há, portanto, certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade. Mas se isto é verdadeiro o princípio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aqueles que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite, e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventaram e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando- lhe a razão [...] Escrever como Azurara ou Fernando Mendes seria hoje um anacronismo intolerável. Cada tempo tem seu estilo. Mas estudar-lhes as formas mais apuradas da linguagem, desentranhar deles mil riquezas, que, à força de velhas e fazem novas -, não me parece que se deva desprezar. Nem tudo tinham os antigos, nem tudo tem os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum. É lógico que a utilização de vocábulos que estão em desuso e de construções sintáticas típicas do século XIX – períodos exageradamente extensos, repletos de vírgulas e pontos-e-vírgulas – prejudica a compreensão do homem comum contemporâneo, quando ele consulta um texto legal. Lembramos isso aos muitos operadores do Direito que ainda redigem suas peças jurídicas dessa maneira, demonstrando resistência à linguagem atual, insistindo em manter o vocabulário e o latinismo apresentados em textos de outras épocas, sem deixar de mencionar aqui a vaidade que cerca alguns deles. Ao fazermos uma retrospectiva a respeito da linguagem jurídica, percebemos que, não obstante todo avanço da tecnologia e mudanças na nossa língua materna, a linguagem forense permanece com os mesmos termos 44 técnicos, e o acesso à justiça encontra aqui uma barreira substancial numa relação linguística que envolve polos dessemelhantes e dissonantes. Podemos afirmar, portanto, que seu processo de desenvolvimento vem sendo lento em demasia. E não nos restam dúvidas de que isso é altamente prejudicial para as instituições e para o próprio sistema de comunicação, pois a linguagem jurídica representa um sistema organizacional vinculado a um sistema de normas. Linguagem opaca A linguagem forense é considerada por alguns linguistas como opaca por não interagir com a sociedade, que a qualifica como uma forma da língua repleta de arcaísmos, peculiaridades, vocábulos exageradamente herméticos e preciosismos vazios de significação. Mesmo que Direito e linguagem formem um par indissociável, não é fácil aceitar que a linguagem seja um elemento que distancie o cidadão comum do Direito. E esse distanciamento vem ocorrendo há tempos. Juristas vêm discutindo sobre o desconhecimento do conteúdo das normas jurídicas pelo homem médio, e esse desconhecimento é o tema tratado pelo jurisconsulto argentino cárcova (1998, p. 14, grifo do autor), em sua obra “A Opacidade do Direito”, na qual demonstra que [...] entre o Direito e o seu destinatário, existe uma barreira “opaca” que os distancia, impossibilitando aquele último de absorver do primeiro os seus conteúdos e sentidos, entender os seus processos e instrumentos, tornando-o, por isso, incapaz de dele se beneficiar como seria esperado. Existe, pois, uma opacidade do jurídico. O pior é que esse fato não seja considerado relevante por muitos dos envolvidos na elaboração das normas jurídicas. O cidadão comum pode até mesmo conhecê-las, mas não as compreende, não as utiliza como fonte de consulta quando necessário. Segundo John Rawls (2000) em sua obra “O liberalismo político”, todos os cidadãos são livres e iguais, e também é necessário reconhecer e ratificar que a linguagem deve ser acessível e compreensível, de modo geral, a todos que dela procuram beneficiar-se. Presumir que tais normas sejam do conhecimento de toda a sociedade também é objeto de questionamentos. E existe fundamento nisso, visto que é praticamente impossível conceber, a qualquer indivíduo, seja ele operador do 45 Direito ou não, que todos de uma dada comunidade conheçam todas as referidas normas. Nas palavras do constitucionalista argentino Gérman Bidart Campos (apud CÁRCOVA, 1998, p. 37), Nossa sociedade está inundada de normas de toda classe, de toda hierarquia, até da mais inferior. Somente a repetida estupidez de que, por uma presunção juris et de jure, as leis são conhecidas por todos, pode colaborar para a miopia da aplicação rígida e fria do axioma. Ora, a realidade nos diz que não são conhecidas por ninguém ou que o são por muito poucos. Outro autor que também questiona a presunção acima citada é o ilustre jurista Eugênio Raúl Zaffaroni (1987 apud SOUZA, 2003), quando afirma que compreender uma norma não implica só conhecê-la. O conhecimento é um grau inferior à compreensão. Já o francês André Jean Arnaud (apud SOUZA, 2003), doutor em Direito, questiona a real necessidade de se usar uma linguagem jurídica obscura e, muitas vezes, ininteligível para o leigo. Para ele, seria mesmo uma necessidade ou uma atitude premeditada? De acordo com o sociólogo Henri Lévy-Bruhl, há ainda uma doutrina no direito que, mesmo nos dias de hoje, defende o caráter estável e perpétuo das normas jurídicas. O autor discorda dessa afirmação (assim como a autora deste artigo), enfatizando que: [...] se o direito emana do grupo social, não poderia ter mais estabilidade que esse mesmo grupo. Ora, um agrupamento humano não é senão uma reunião mais ou menos natural, voluntária ou fortuita, de indivíduos de sexo e idades diferentes, grupo que nunca permanece semelhante a si mesmo, uma vez que os elementos de que se compõe modificam-se a todo instante pelo efeito do tempo [...] Como o direito, sendo a expressão da vontade de um grupo, poderia ser imutável, enquanto o grupo modifica-se constantemente? (LÉVY-BRUHL, 1988 apud SOUZA, 2003, p. 29). O que se defende neste artigoé a importância da inteligibilidade textual. Numa perspectiva linguística e não jurídica demonstra-se que é possível a elaboração de textos forenses com linguagem clara, precisa e concisa, livre do verniz erudito e do preciosismo ainda tão cultuados por muitos da área jurídica, sem que se ignorem o aspecto formal da língua e o vocabulário técnico dessa área, com o intuito de melhorar substancialmente a relação entre o homem médio e o Direito. A linguagem jurídica na universidade 46 O operador do Direito tem a responsabilidade social de aplicar a linguagem técnica forense de maneira eficiente. Para que isso ocorra, deve aprender a utilizá-la corretamente já no seio da Universidade, visto que esta, conforme exigido nas diretrizes curriculares do curso de direito, elaboradas a partir da lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei nº. 9.394/96), com indicações fornecidas pelo parecer nº. 776/97, da Câmara de Educação Superior (CES), tem a obrigação moral de formar cidadãos críticos e conscientes: O perfil desejado do formando de Direito repousa em uma sólida formação geral e humanística, com capacidade de análise e articulação de conceitos e argumentos, de interpretação e valoração dos fenômenos jurídico-sociais, aliada a uma postura reflexiva e visão crítica que fomente a capacidade de trabalho em equipe, favoreça a aptidão para a aprendizagem autônoma e dinâmica, além da qualificação para a vida, o trabalho e o desenvolvimento da cidadania. (BRASIL, 2000, p. 3). Considerações finais Segundo o professor Luís Roberto Barroso (2007), “O mundo do Direito é o mundo da linguagem, falada e escrita”. Em qualquer meio de manifestação nessa área o texto se faz presente, com o objetivo de persuadir e convencer seu receptor. É fundamental que o profissional do Direito conheça e domine o uso da palavra, sua ferramenta básica de trabalho, indispensável para a sua vida profissional e para a garantia da cidadania. Entretanto, a escrita jurídica deve ser simples, objetiva, sem pedantismos e exercícios de virtuosismos, enfim, nunca uma demonstração de conhecimento restrito a poucas pessoas, uma apresentação da exuberância intelectual de seu autor. Sua eficácia está na escolha e utilização de palavras precisas: escrever pouco, mas com a noção exata do que se quer dizer. A diretriz contemporânea é a simplicidade na elaboração de textos jurídicos. Mas isso não significa pobreza de vocabulário nem a supressão de informações necessárias ao caso. Há leis de legilibidade para as palavras e a redundância e a ambiguidade são pecados que devem ser evitados. Quanto ao vocabulário jurídico, é requisito indispensável para que as ideias do texto sejam apresentadas de forma adequada, com precisão de significado. Por isso, esse vocabulário deve ser simples, embora formal; técnico, mas sem exageros. O 47 excesso de linguagem técnica revela superficialidade, ao contrário de demonstrar competência de quem escreve. Além do mais, não podemos nos esquecer que um texto jurídico deve ser eficaz, para que possa atingir seu objetivo. Mas deve ser conciso, pois ao manter um texto longo, o requerente corre o risco de obter o efeito mais indesejável do mundo jurídico: ter a sua mensagem desprezada pelo destinatário. Nossa sociedade necessita que a linguagem utilizada no sistema jurídico seja clara, objetiva e mais acessível à população, a fim de que possa atender aos anseios desta, proporcionar rapidez e eficácia nos trâmites. Uma escrita prolixa e excessivamente rebuscada afeta a prestação jurisdicional. Leis são criadas para orientar a vida em sociedade e devem ser observadas, respeitadas e aplicadas por todos. Diante do exposto, ressalta-se que a simplificação da linguagem jurídica é aconselhável, trará benefícios a todos os envolvidos e irá aproximar esse tipo de linguagem à população. Assim, ela passa a ser um instrumento fundamental para a compreensão do funcionamento e da atuação do poder judiciário como um todo. O principal foco em tal questão é conhecer o ponto de equilíbrio entre simplicidade e precisão. Termos técnicos devem ser mantidos, pois têm significados próprios. É isso que recomendam não somente os bons autores, mas também o próprio bom senso. Em resumo, o operador do direito que redige de maneira correta, que expõe de maneira harmoniosa suas teses, com clareza, coerência e objetividade, comunica-se bem, atinge sua meta. Esse profissional contribui para o bom andamento e o acesso à justiça. Faz justiça. 48 BIBLIOGRAFIA ARISTÓTELES; Horácio; Longino. A Poética Clássica. Tradução direta do Grego e do Latim de Jaime Bruna. 13 Ed. São Paulo: Cultrix, 2007. ARRUDÃO, Bias. O Juridiquês no Banco dos Réus. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, Ano 1, N. 2, p. 18-23, Jun/Dez. 2007. ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In: ______. Obra Completa. Rio De Janeiro: Agullar, 1997. (Publicado Originalmente em Novo Mundo, 24 Março de 1873). ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS BRASILEIROS. Campanha para a Simplificação da Linguagem Jurídica. DISPONÍVEL EM: <http://www.amb.com.br/portal/juridiques/book_premiados.pdf >. ACESSO EM: 10 OUT. 2011. BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1979. BARROSO, Luis Roberto. O Direito, as Emoções e as Palavras. 12 Fev. 2007. Disponível Em: <http://www. migalhas.com.br/de peso/16,mi35437,71043- o+direito +as+emocoes+e+as+palavras>. 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