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DIREITO EMPRESARIAL Contratos empresariais – Contratos intelectuais DIREITO EMPRESARIAL Contratos empresariais – Contratos intelectuais RESUMO DE DIREITO EMPRESARIAL RESUMO DE DIREITO EMPRESARIAL INTRODUÇÃO AO DIREITO EMPRESARIAL EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO COMERCIAL ORIGENS DO DIREITO COMERCIAL O Direito Comercial surgiu na Idade Antiga. Nesse período, a despeito de até já existirem algumas leis esparsas, ainda não se pode falar na existência de um direito comercial, entendido como este regime jurídico sistematizado com regras e princípios próprios. Durante a Idade Média é que surgem as raízes do direito comercial – fala-se na primeira fase desse ramo do direito. À época, ainda não havia um poder central, capaz de impor regras gerais e aplica-las a todos. Vivia-se sob o modo de produção feudal, em que o poder político era altamente descentralizado nas mãos da nobreza fundiária. Em contrapartida, ganhava força o Direito Canônico, que repudiava o lucro e não atendia, portanto, aos interesses da classe burguesa que se formava. Essa classe burguesa então se organizou e construiu seu próprio direito. As regras do direito comercial foram surgindo, então, da própria dinâmica da atividade comercial. Surgem nesse cenário as Corporações de Ofício. Nessa primeira fase, cada corporação tinha seus próprios usos e costumes e os aplicava, por meio de cônsules eleitos pelos próprios associados, para reger as relações entre os seus membros. Daí porque se usava a expressão “codificação privada” do direito comercial. Nesse período, surgem os primeiros institutos jurídicos do direito comercial, como os títulos de crédito (letra de câmbio), as sociedades (comendas), os contratos mercantis (contrato de seguro) e os bancos. Nessa toada, o direito comercial era um direito a serviço do comerciante: suas regras só se aplicavam aos mercadores filiados a uma Corporação. Enfim, o sistema de jurisdição especial que marca essa primeira fase do direito comercial provoca uma profunda transformação na teoria do direito, pois o sistema jurídico comum tradicional vai ser derrogado por um direito específico. DEFINIÇÃO DO REGIME JURÍDICO DOS ATOS DE COMÉRCIO Após o período do Renascimento Mercantil, sistema de jurisdição especial se difunde por toda a Europa. Com essa proliferação da atividade mercantil, o direito comercial também evoluiu. No ocaso da Idade Média, surgem no cenário geopolítico mundial os grandes Estados Nacionais Monárquicos, representados na figura do monarca absoluto, o qual passa a submeter seus súditos a um direito posto, em contraposição ao direito comercial de outrora, centrado na autodisciplina das relações comercial pelos próprios mercadores. Todas essas mudanças vão provocar, inclusive, a publicação da primeira grande obra doutrinária de sistematização do direito comercial: Tratactus de Mercatura seo Mercatore, de Benvenutto Stracca, publicada em 1553. As Corporações de Ofício vão perdendo paulatinamente o monopólio da jurisdição mercantil, na medida em que os Estados reivindicam e chamam para si o monopólio da jurisdição e se consagram a liberdade e a igualdade no exercício das artes e ofícios. Com o passar do tempo, os diversos tribunais de comércio existentes tornaram-se atribuição do poder estatal. Assim é que, em 1804 e 1808, respectivamente, são editados na França o Código Civil e o Código Comercial. O direito comercial inaugura, então, sua segunda fase, podendo-se falar agora em sistema jurídico estatal destinado a disciplinar as relações jurídico-comerciais. A codificação napoleônica divide claramente o direito privado: de um lado, o Código Civil, centrado no direito de propriedade ansiado pela nobreza; e do outro o Código Comercial, valorizando a riqueza mobiliária, preocupação dos burgueses. Era necessário criar um critério que delimitasse o âmbito de incidência do direito comercial, já que este surgiu como um regime jurídico especial destinado a regular as atividades mercantis. Para tanto a doutrina francesa criou a teoria dos atos de comércio: o direito comercial regularia as relações jurídicas que envolvessem a prática de alguns atos definidos em lei como atos de comércio, enquanto todos os demais atos seriam regidos pelas normas do Código Civil. A definição dos atos de comércio era tarefa atribuída ao legislador, o qual optava por descrever suas características básicas, ou por enumerar, num rol de condutas típicas, que atos seriam considerados de mercancia. Nessa segunda fase do direito comercial, podemos perceber uma importante mudança: a mercantilidade, antes definida pela qualidade do sujeito (o direito comercial era o direito aplicáveis aos membros das Corporações de ofício), passa a ser definida pelo objeto (os atos de comércio). Na doutrina estrangeira, duas formulações sobre os atos de comércio se destacaram a de Thaller, que resumia os atos de comércio à atividade de circulação de bens ou serviços, e a de Alfredo Rocco, que via nos atos de comércio a características comum de intermediação para a troca. A teoria de Rocco foi predominante; em síntese, os atos de comércio seriam aqueles que ou realizavam diretamente a referida intermediação (ato de coercio por natureza, fundamental ou constitutivo) ou facilitavam a sua execução (ato de comércio acessório ou por conexão). Outras atividades econômicas não se encontravam na enumeração legal dos atos de comércio, seja porque se desenvolveram posteriormente (v.g., a prestação de serviços), seja porque razões históricas, políticas e até religiosas motivaram sua exclusão (v.g., a propriedade imobiliária era considerada sacra). Outro problema era o referente aos chamados atos mistos, ou unilateralmente comerciais, tais como a venda de produtos aos consumidores. Nesse caso, aplicavam-se as normas do Código Comercial para a solução de eventual controvérsia, em razão da chamada vis atractiva do direito comercial. Diante disso, alguns doutrinadores denunciaram o retorno ao corporativismo do direito mercantil, que voltava a ser um “direito de classe”. Não obstante tais críticas, a teoria francesa dos atos de comércio foi adotada por quase todas as codificações oitocentistas, inclusive a do Brasil (Código Comercial de 1850). No entanto, o tempo demonstrou a insuficiência da teoria dos atos de comércio, uma vez que elas não abrangiam as atividades econômicas tão ou mais importantes que o comércio de bens, tais como a prestação de serviços, a agricultura, a pecuária e a negociação imobiliária. O surgimento desse novo critério só veio a ocorrer, todavia, em 1942, em plena 2ª Guerra Mundial. OS ATOS DE COMÉRCIO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Durante muito tempo o Brasil não possuiu uma legislação própria; aplicavam-se aqui as leis de Portugal, chamada Ordenações do Reino (Filipinas, Afonsinas, Manuelinas). A situação muda após a vinda de D. João VI para o Brasil, fazendo com que fosse criada a Real Junta de Comércio, Agricultura, Fábrica e Navegação, a qual tinha, entre outros objetivos, criar um direito comercial brasileiro. Após a Independência, foi criada, em 1832, uma comissão com a finalidade de pôr essa ideia em prática. Foi assim que, em 1934, a comissão apresentou ao Congresso um projeto de lei que, uma vez aprovado, foi promulgado em 15 de junho de 1850. Tratava-se da lei n° 556 – o Código Comercial brasileiro. A codificação adotou a teoria francesa dos atos de comércio e definiu comerciante como aquele que exercia a mercancia de forma habitual, como sua profissão. O Regulamento 737/1850 positivou o enumerou o que era mercancia: § 1º A compra e venda ou troca de effeitos moveis ou semoventes para os vender por grosso ou a retalho, na mesma especie ou manufacturados, ou para alugar o seu uso. § 2º As operações de cambio, banco e corretagem. § 3° As emprezas de fabricas; de com missões ; de depositos ; de expedição, consignação e transporte de mercadorias; de espectaculos publicos. (Vide Decreto nº 1.102, de 1903) § 4.° Os seguros, fretamentos, risco, equaesquer contratos relativos ao cornmercio maritimo. § 5. ° A armação e expedição de navios. Como se observa, ficaram de fora a prestação de serviços, a negociação imobiliária e as atividades rurais, a exemplo da codificação napoleônica. Em 1875, o Regulamento 737 foi revogado, mas seu rol enumerativo continuou a ser levado em conta pela doutrina e pela jurisprudência. Com o passar do tempo, esse conceito foi sendo ampliado por novas leis, tais como o Dec. 2.044/1908 – incluiu a letra de câmbio e a nota promissória entre os atos de comércio, ainda que não praticados por comerciante – e a Lei 6.404/1976 – incluiu as operações praticadas por Sociedades Anônimas. A TEORIA DOS ATOS DE COMÉRCIO NA DOUTRINA BRASILEIRA Enquanto na doutrina estrangeira se destacou a formulação de Rocco, no Brasil ganhou destaque merecido a formulação de Carvalho de Mendonça, que dividia os atos de comércio em três classes: Atos de comércio por natureza, que compreendiam as atividades típicas de mercancia, como a compra e venda, as operações cambiais e a atividade bancárias; Atos de comércio por dependência ou conexão, que compreendiam os atos que facilitavam os auxiliavam a mercancia propriamente dita; e Atos de comércio por força ou autoridade de lei, como, por ex., a Lei das S/A (art. 1°, § 1°). Pode concluir que, a exemplo do que ocorreu na Europa, a doutrina brasileira também não conseguiu atribuir um conceito unitário aos atos de comércio. Essa problemática foi assim descrita pelo professor Brasílio Machado: “problema insolúvel para a doutrina, martírio para o legislador, enigma para a jurisprudência”. TEORIA DA EMPRESA: NOVO PARADIGMA A noção de direito comercial fundada exclusiva ou preponderantemente na figura dos atos de comércio mostrou-se uma noção totalmente ultrapassada, com o surgimento de diversas outras atividades econômicas relevantes. Em 1942, a Itália editou um novo Código Civil, trazendo enfim um novo sistema delimitador da incidência do regime jurídico comercial: a teoria da empresa. Todavia, o Código não definiu o conceito jurídico de empresa. Merece destaque a contribuição doutrinária de Alberto Asquini, que será detalhado mais adiante. Além disso, o Código Civil italiano promoveu a unificação formal do direito privado, disciplinando as relações civis e comerciais num único diploma legislativo. O direito comercial entra, enfim, na terceira fase de sua etapa evolutiva, superando o conceito de mercantilidade e adotando, como veremos, o critério da empresariedade como forma de delimitar o âmbito de incidência da legislação comercial. A unificação, como dito, foi meramente formal, uma vez que o direito comercial conservou sua autonomia didático-científica. O mais importante é que o direito comercial deixou de ser o direito do comerciante ou o direito dos atos de comércio para ser o direito da empresa, o que o fez abranger uma gama muito maior de relações jurídicas. Para a teoria da empresa, qualquer atividade econômica, desde que seja exercida empresarialmente, está submetida à disciplina das regras do direito empresarial. A definição do conceito jurídico de empresa, no entanto, é até hoje um problema para a doutrina. Isso se dá porque empresa, segundo pontuou Alberto Asquini, é um fenômeno econômico que compreende a organização dos chamados fatores de produção: (i) natureza, (ii) capital, (iii) trabalho e (iv) tecnologia. Transposto o fenômeno econômico para o universo jurídico, o termo “empresa” acaba não adquirindo um sentido unitário. Daí porque o jurista italiano observou a empresa como um fenômeno econômico poliédrico, com quatro perfis distintos quando transposto para o direito: Perfil subjetivo – empresa no sentido da pessoa que empreende (empresário); Perfil funcional – empresa no serviço de atividade econômica organizada (sentido próprio); Perfil objetivo – empresa no sentido do complexo de bens (estabelecimento empresarial); Perfil corporativo – empresa como instituição que reúne o empresário e seus auxiliares ou colaboradores em função de um fim econômico comum. O último perfil – o corporativo – está ultrapassado, por só se sustentava a partir da ideologia fascista que predominava na Itália quando da edição do Código Civil de 1942. As demais acepções se referem, respectivamente, a três realidades distintas, mas intrinsecamente relacionadas: o empresário, o estabelecimento empresarial e a atividade empresarial. Dentre essas acepções, a mais adequada no sentido técnico-jurídico é aquela que corresponde ao perfil funcional, isto é, empresa é uma atividade econômica organizada. Assim, quando quisermos fazer menção à empresa em outros sentidos, utilizaremos outros nomes, conforme organizado nas alíneas a a d. O próprio legislador parece se atrapalhar: se analisarmos a lei 8.934/94 (Lei de Registro de Empresas Mercantis), a expressão empresa foi usada como sinônimo de empresário; na Lei 6.404/76 (Lei das S/A), como atividade econômica; e no art. 678 do CPC, como sinônimo e estabelecimento empresarial. É em torno da atividade econômica organizada, ou seja, da empresa, que vão gravitar todos os demais conceitos fundamentais do direito empresarial, sobretudo os conceitos de empresário – aquele que exerce profissionalmente atividade econômica organizada, isto é, exerce empresa – e de estabelecimento empresarial (complexo de bens usado para o exercício de uma empresa). A TEORIA DA EMPRESA NO BRASIL ANTES DO CÓDIGO CIVIL: LEGISLAÇÃO E DOUTRINA Após a edição do Codice Civile de 1942, pode-se perceber uma nítida aproximação do direito brasileiro ao sistema italiano. A doutrina começava a apontar com maior ênfase as vicissitudes da teoria dos atos de comércio e as benesses da teoria da empresa. Na mesma linha, a jurisprudência pátria demonstrava sua insatisfação com a teoria dos atos de comércio e sua simpatia pela teoria da empresa. Isso fez com que vários juízes concedessem concordata a pecuaristas e garantissem a renovação compulsória de contrato de aluguel a sociedades prestadoras de serviço, por exemplo; diversos julgados do STJ foram decididos nesse sentido, reconhecendo a mercantilidade da negociação imobiliária e da atividade de prestação de serviços. Outra prova dessa transformação é o Código de Defesa do Consumidor, em 1990. Nele, o conceito de fornecedor é bem amplo, englobando todo e qualquer exercente de atividade econômica no âmbito da cadeia produtiva, aproximando-se mais, portanto, do conceito moderno de empresário do que do conceito antigo de comerciante. Muito antes do CDC, a revogada lei n° 4.137/62 coibia o abuso de poder econômico e em seu art. 6° já considerava “empresa toda organização de natureza civil ou mercantil destinada à exploração por pessoa física ou jurídica de qualquer atividade com fins lucrativos”. Vê-se que em nosso ordenamento jurídico a passagem da teoria dos atos de comércio para a teoria da empresa não foi algo que aconteceu de repente; foi resultado de um processo lento e gradual, que se consolidou com a entrada em vigor do Código Civil de 2002. ADVENTO DO CÓDIGO CIVIL: REFLEXOS Seguindo à risca a inspiração do Codice Civile italiano de 1942, o Código Civil de 2002 derrogou grande parte do Código Comercial de 1850, do qual resta hoje apenas a parte segunda, relativa ao comércio marítimo – o direito falimentar (Parte Terceira) já havia sido revogado em 1945, com sucessivas revogações, até chegar à atual Lei de Falência, a Lei 11.101/05. O Código Civil trata, no seu Livro II, Título I (art. 966 e seguintes), do “Direito de Empresa”. Desaparece a figura do comerciante e surge a figura do empresário – da mesma forma que não se fala mais em sociedade comercial, mas em sociedade empresária. O código incorpora a teoria da empresa em nosso ordenamento jurídico, banindo definitivamente a teoria dos atos de comércio. Não se fala mais em comerciante: fala-se agora em empresário, sendo este, nos termos do art. 966 do Código Civil, aquele que “exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens oude serviços”. No que respeita ao direito intertemporal, o art. 2.037 do Código Civil estabeleceu que “salvo disposição em contrário, aplicam-se aos empresários e às sociedades empresárias as disposições da lei não revogadas por este Código, referentes a comerciantes, ou a sociedades comerciais, bem como a atividades mercantis”. Cuidou o legislador de não deixar criar-se uma categoria paralela, assegurando que as novas expressões seriam substitutivas das anteriores. Se ainda persiste a divisão material do direito privado, continua a existir, em consequência, a necessidade de se estabelecer um critério que delimite o âmbito de incidência do direito empresarial, e esse critério é justamente a teoria da empresa, que será estudada mais adiante. DIREITO COMERCIAL X DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Evolução História do Direito Comercial DIREITO EMPRESARIAL Evolução História do Direito Comercial Hodiernamente, o direito comercial, tal como costuma ser chamado, não cuida apenas do comércio, mas de toda e qualquer atividade econômica exercida com profissionalismo, intuito lucrativo e finalidade de produzir ou fazer circular bens ou serviços, ou seja, o direito comercial, hoje, cuida das relações empresariais. Por isso, mais adequado chamar o ramo de direito empresarial, e não mais de direito comercial. O DIREITO EMPRESARIAL CONCEITO DE DIREITO EMPRESARIAL A partir das observações feitas acima sobre o direito empresarial, podemos conceitua-lo como o regime jurídico especial de direito privado destinado à regulação das atividades econômicas e dos seus agentes produtivos. Contempla todo um conjunto de normas específicas que se aplicam aos agentes econômicos, antes chamados de comerciantes e hoje chamados de empresários – expressão genérica que abrange os empresários individuais e as sociedades empresárias. AUTONOMIA DO DIREITO EMPRESARIAL Direito comercial e Direito Civil, como ramos englobados na rubrica “direito privado”, possuem diversos institutos jurídicos comuns. Muitas vezes, o direito empresarial se socorre do direito civil para preencher lacunas em seu arcabouço normativo. Noutras, o direito civil incorpora conceitos e institutos do direito comercial, como é o caso do bem de família; pensado originalmente como forma de limitar a responsabilidade do comerciante individual, acabou incorporado ao CC/1916 (arts. 70 e 71). A tese da perda de autonomia do direito comercial, decorrente do processo de unificação legislativa do direito privado – concentrando-se no Código Civil -, como pretenderam alguns doutrinadores, não vingou; a suposta unificação operou-se num plano estritamente formal. A autonomia de um direito, por outro lado, deve ser analisada sob o ponto de vista substancial ou material, e nesse sentido não há dúvida de que o direito comercial ou empresarial é autônomo e independente em relação aos demais ramos jurídicos, inclusive em relação ao direito civil. Tanto é verdade que, nas faculdades, direito civil e direito comercial são disciplinas distintas; na CF/88, o art. 22, ao tratar da Competência legislativa da União, fala em “direito civil e direito comercial”, aglutinando-os no mesmo inciso (I) por serem ramos do direito privado, mas tratando-os distintamente. O direito comercial possui uma série de características que o diferenciam das demais disciplinas jurídicas. São elas: O cosmopolitismo, por seu papel de integração entre os países; A onerosidade, dado o caráter econômico e especulativo das atividades mercantis, que faz com que o lucro seja algo intrínseco ao exercício da atividade empresarial; O informalismo, em função do dinamismo da atividade empresarial, que exige meios ágeis e flexíveis para a realização e a difusão das práticas mercantis; e O fragmentarismo, pelo fato de o direito empresarial possuir uma série de sub-ramos com características específicas (direito falimentar, direito cambiário, direito societário, direito de propriedade industrial etc.); PRINCÍPIOS DO DIREITO EMPRESARIAL O direito empresarial é o direito da empresa, isto é, o regime jurídico especial de direito privado que disciplina o exercício de atividade econômica organizada. São princípios que norteiam o direito empresarial: (i) princípio da livre-iniciativa e princípio da livre concorrência; (ii) princípio da garantia e da defesa da propriedade privada; (iii) princípio da preservação da empresa; dentre outros. PRINCÍPIO DA LIVRE-INICIATIVA E PRINCÍPIO DA LIVRE CONCORRÊNCIA São princípios fundamentais do direito empresarial, previstos expressamente no caput do art. 170, caput e inciso IV, respectivamente, da CF/88, como um dos valores da ordem econômica: Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre-iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditamos da justiça social, observados os seguintes princípio: (...) IV - livre concorrência;”. Princípio da livre-iniciativa O princípio da livre-iniciativa se desdobra em quatro subprincípios, que são condições fundamentais para o funcionamento eficiente do modo de produção capitalista, a saber: Imprescindibilidade da empresa privada para que a sociedade tenha acesso aos bens e serviços de que necessita para sobreviver; Busca do lucro como principal motivação dos empresários; Necessidade jurídica de proteção do investimento privado; Reconhecimento da empresa privada como polo gerador de empregos e de riquezas para a sociedade. Sobre o assunto, André Luiz RAMOS, doutrinador adotado neste resumo, observa: “Infelizmente, porém, nos dias atuais, o princípio da livre-iniciativa vem sendo relativizado progressivamente, muito em função de uma mentalidade anticapitalista que incrivelmente se desenvolve em muitas pessoas, sobretudo entre os chamados “Intelectuais” e entre aqueles que nos dominam e nos exploram: os burocratas do Estado. O avanço do Estado sobre o mercado, com a consequente restrição da aplicação do princípio da livre-iniciativa, é tão grande que, se fizermos uma rápida pesquisa na jurisprudência dos nossos tribunais, veremos que ele sempre é deixado de lado quando confrontado com outros princípios “sociais”, como se pode ver da leitura dos julgados abaixo, todos do Supremo Tribunal Federal: (...) Da leitura das ementas dos acórdãos se pode perceber a que ponto chegou a mentalidade estatista e anticapitalista do brasileiro. A ideia de que a livre-iniciativa é algo antagônico a outros princípios ditos sociais é deveras equivocada. A história é pródiga em exemplos que demonstram que as sociedades mais livres e que defendem com mais veemência o princípio da livre-iniciativa são mais desenvolvidas, social e economicamente, e ostentam menos desigualdades e mais qualidade de vida”.[2: Para leitura das ementas, v. Direito Empresarial Esquematizado, 4ª ed., pp. 21-24 e ss.] Princípio da Livre concorrência Infelizmente, é outro princípio que não vem sendo respeitado no Brasil. E quem mais desrespeita a livre concorrência é justamente aquele ente que, em tese, deveria protege-la: o Estado. A imensa quantidade de órgãos de controle – agências reguladoras e órgãos antitruste – cria um emaranhado de regulamentos que acabam se tornando barreiras insuperáveis à entrada de novos competidores, algo que, por si só, é uma violação à livre concorrência. Enfim, a regulação estatal é algo que definitivamente não se coaduna com a liberdade de competição. Quando o Estado se propõe a, supostamente, garantir a livre concorrência, ele o faz de duas maneiras: (i) coibindo a prática de concorrência desleal, com leis que punem condutas que atingem um concorrente in concreto (pirataria, contrafação etc. - v.g., lei 9.279/96); e (ii) coibindo atos que configurem infração contra a ordem econômica, punindo condutas que atingem a concorrência em abstrato, isto é, o próprio ambiente concorrencial (v.g., os cartéis – lei 12.529/11). Finalmente, é preciso destacar uma manifestação importante do princípio da livre concorrência, queé a seguinte regra: quem acerta, ganha; quem erra, perde. O Estado não pode interferir nessa equação, sob pena de desvirtuar toda a lógica do mercado. PRINCÍPIO DA GARANTIA E DA DEFESA DA PROPRIEDADE PRIVADA A propriedade privada também está elencada no art. 170 da CF/88 como um dos princípios constitucionais relativos à da ordem econômica, ao lado da livre-iniciativa e da livre concorrência, formando a tríade que dá sustentação ao direito empresarial (inciso III). Esse princípio também vem sendo relativizado progressivamente em nosso ordenamento jurídico, a partir do fluido e nebuloso conceito de função social. PRINCÍPIO DA PRESERVAÇÃO DA EMPRESA É um princípio que vem sendo amplamente difundido, inspirando alterações legislativas recentes, tal como a nova Lei de Falência, e fundamentando decisões de Tribunais Superiores; o STJ decidiu que é admissível “a penhora sobre o faturamento da empresa, desde que (...) o percentual fixado sobre o faturamento não torne inviável o exercício da atividade empresarial”; e que “conquanto possível a penhora sobre o faturamento bruto da devedora, quando inexistentes bens disponíveis de fácil liquidação, deve ela observar percentual que não comprometa a higidez financeira, ameaçando o prosseguimento das atividades empresariais”. O princípio da preservação da empresa também tem sido muito usado pelos tribunais para fundamentar decisões em matéria de dissolução de sociedades, falência, recuperação judicial etc. Especificamente no caso da recuperação judicial, é preciso ter muito cuidado! Muitas vezes, as atividades empresariais devem mesmo ser encerradas, sobretudo quando a manutenção de tais atividades é conseguida com os famigerados “pacotes de socorro” baixados pelo governo, pois desvirtuam a lógica natural do capitalismo. Em suma, o princípio da preservação da empresa não pode jamais conferir a certos empresários um “direito de não falir”. Sua aplicação deve limitar-se às situações em que o próprio mercado, espontaneamente, encontra soluções para a crise de um agente econômico, em bases consensuais. OUTROS PRINCÍPIOS DO DIREITO EMPRESARIAL Os princípios tratados acima são o que podemos chamar de princípios gerais do direito empresarial. No entanto, existem outros princípios específicos, restritos a determinados sub-ramos do direito empresarial, os quais serão estudados ao longo do resumo. FONTES DO DIREITO EMPRESARIAL Entende-se por fontes do direito comercial ou empresarial o modo pelo qual surgem as normas jurídicas de natureza empresarial. O direito civil, na qualidade de regime jurídico geral de direito privado, não pode ser considerado como fonte do direito comercial, ainda que suas normas eventualmente sejam aplicadas na solução de litígios mercantis. Atualmente, grande parte das normas civis e comerciais encontra-se num mesmo diploma legislativo, o Código Civil. No entanto, pode-se continuar entendendo que as normas comerciais, não obstante estejam encartadas no Código Civil, conservam sua especialidade. Sendo assim, as normas estritamente civis não podem ser consideradas fontes do direito comercial, ainda que aplicáveis às relações mercantis, em casos de lacuna ou omissão do regime jurídico empresarial. Em síntese, a mais importante fonte do direito empresarial são as normas empresariais, ou seja, as regras jurídicas especiais que se destinam à regulação das atividades econômicas. O Código Civil regulou a matéria nuclear do direito comercial, mas deixou para a legislação específica a disciplina de matérias específicas, como o direito falimentar (LFR – Lei n° 11.101/05), o direito societário (LSA – Lei n° 6.404/76), o direito cambiário (Lei Uniforme de Genebra, sobre letras de câmbio e promissórias, Lei do Cheque – Lei n° 7.357/85, e Lei da Duplicata – Lei n° 5.474/68), o direito de propriedade industrial (LPI – Lei n° 9.279/96) etc. Além das normas do direito positivo, merecem destaque os usos e costumes mercantis, sobretudo porque o direito comercial surgiu como um direito consuetudinário, baseado nas práticas mercantis dos mercadores medievais. A reconhecimento de usos e costumes dependem da prática uniforme, constante, por certo período de tempo, exercida de boa-fé e não contrária à lei. A doutrina distingue os usos de direito e os usos de fato, sendo que o primeiro não é uso propriamente dito, mas um modo de agir decorrente da própria lei. Já os usos de fato são os que têm origem nos modos da sociedade e recebem desta a mesma obediência que é dispensada à lei. Como exemplo de uso de fato podemos citar o art. 488 do Código Civil, pelo qual, “convencionada a venda sem fixação de preço ou de critérios para a sua determinação, se não houver tabelamento oficial, entende-se que as partes se sujeitaram ao preço corrente nas vendas habituais do vendedor”. Ainda mais claro exemplo é o art. 337 do CPC, pelo qual “a parte que alegar direito (...) consuetudinário, provar-lhe-á o teor e a vigência, se assim determinar o juiz”. Nesse ponto, é importante destacar que compete às Juntas Comerciais “o assentamento dos usos e práticas mercantis” (art. 8°, VI, Lei 8.934/94). PROJETO DE NOVO CÓDIGO COMERCIAL Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 1.572/2011, que visa a instituir um novo Código Comercial no Brasil, de autoria do prof. Fábio Ulhôa Coelho. André Luiz RAMOS aponta diversos motivos que demandam a restauração de um código empresarial autônomo, dentre os quais se encontram problemas causados pela unificação das disciplinas direito comercial e direito civil em um mesmo código, fazendo com que: a) contratos cíveis e mercantis tivessem a mesma “teoria geral”, ignorando a distinção existente entre eles; b) normais gerais sobre títulos de crédito fossem criadas, em descompasso com as leis à época existentes; c) a transformação da sociedade limitada em uma figura societária burocrática e engessada. DIREITO EMPRESARIAL I DIREITO EMPRESARIAL O Direito Empresarial DIREITO EMPRESARIAL O Direito Empresarial O Direito de Empresa no Código Civil de 2002 O EMPRESÁRIO INTRODUÇÃO Conforme já foi estudado, a unificação da legislação civil e empresarial em um mesmo código, o Código Civil, foi apenas formal, pois ainda continuam a existir o direito comercial e o direito civil como disciplinas autônomas e independentes. O que se pode afirmar, após a entrada em vigor do Código Civil, é que nele se encontram hoje as regras básicas do direito empresarial brasileiro, que compreendem o Título I do Livro II, da Parte Especial, denominado Direito de Empresa, embora todo o Livro II trate de direito empresarial (arts. 966 a 1.195). CONCEITO DE EMPRESÁRIO Considera-se empresário aquele que com profissionalismo exerça atividade econômica organizada, para a produção ou circulação de bens ou serviços. O Código Civil de 2002, como foi visto, adotou a teoria da empresa em substituição à antiga teoria dos atos de comércio. O art. 966 do Código Civil traz o conceito de empresário Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços”. ELEMENTOS CARACTERIZADORES DO EMPRESÁRIO Do conceito pode-se extrair os seguintes elementos: Profissionalismo – só será empresário aquele que exercer determinada atividade de forma profissional, isto é, de forma reiterada, habitual e em nome próprio. Portanto, a prática de atos isolados não torna o indivíduo um empresário. Todavia, não se exige o exercício diário. Exemplificando, uma pousada que só abre nos meses de verão não perde a natureza profissional. Em nome próprio – sócio, acionista, administrador, funcionários, nenhum deles é tecnicamente empresário, porque cada um deles pratica atos em nome da sociedade empresária da qual fazem parte e não em nome próprio. Assim, a sociedade que é empresária. Sócio não é empresário. Atividade – consiste na “produção ou circulação de bens ou de serviços”, descrito no artigo 966 do Código Civil, ou seja, atividade é empresa. Em princípio, qualqueratividade econômica poderá ser empresária, bastando que seja exercida profissionalmente, de forma organizada e com intuito lucrativo. Os prestadores de serviço podem perfeitamente enquadrar-se como empresários. De acordo com o jurista italiano Alberto Asquini, o termo empresa é poliédrico, isto é comporta vários significados. Empresa pode ser sinônimo de: (i) sociedade empresária – como pela Lei n° 8.934/94; (ii) estabelecimento empresarial – utilizado pelo Código Civil, ao fazer referência à “penhora da empresa”; (iii) atividade desenvolvida pelo empresário. Este último significado é o utilizado pelo direito empresarial. Elemento econômico – toda atividade empresarial deve visar o lucro. A onerosidade é característica intrínseca das relações empresariais; indica também que o empresário é aquele que assume os riscos técnicos e econômicos da sua atividade. Organização – a atividade será organizada quando reunir quatro elementos: (i) mão de obra; (ii) capital; (iii) tecnologia; e (iv) insumos. O ambulante não pode ser considerado empresário por lhe faltar o elemento organização, nada tendo a ver com a ausência de registro na Junta Comercial (que não é requisito). REGISTRO NA JUNTA COMERCIAL NÃO É REQUISITO PARA SER EMPRESÁRIO Dispõe o artigo 967 do Código Civil: Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade. O registro do empresário na Junta Comercial é meramente declaratório da existência de uma sociedade empresária (ou seja, não é constitutivo). As consequências da falta de registro estão na falta de limitação da responsabilidade, na impossibilidade de requerer recuperação (art. 48 da LFR), entre outras, mas não é requisito para ser empresário ou para submeter-se ao regime empresarial. Portanto, quem começa a exercer profissionalmente atividade econômica organizada de produção ou circulação de bens ou serviços sem se registrar o ato constitutivo na Junta Comercial será considerado empresário e se submeterá ás regra do regime jurídico empresarial, porém será considerado irregular, sofrendo, por isso, algumas consequências, como, p. ex., a impossibilidade de requerer recuperação judicial (art. 48, Lei n° 11.101/05).[3: Lei n° 11.101/05 - Art. 48. Poderá requerer recuperação judicial o devedor que, no momento do pedido, exerça regularmente suas atividades há mais de 2 (dois) anos e que atenda aos seguintes requisitos,][4: Nesse mesmo sentido: enunciado 198 CJF/STJ: “A inscrição do empresário na Junta comercial não é requisito para a sua caracterização, admitindo-se o exercício da empresa sem tal providência. O empresário irregular reúne os requisitos do art. 966, sujeitando-se às normas do Código Civil e da legislação comercial, salvo naquilo em que forem incompatíveis com a sua condição ou diante de expressa disposição em contrário”.] Para fazer a inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis, realizado pela Junta Comercial, o empresário individual deverá formular requerimento contendo os requisitos do art. 968 do CC. O empresário que instituir sucursal, filial ou agência, em lugar sujeito à jurisdição de outro Registro Público de Empresas Mercantis, neste deverá também inscrevê-la, com a prova da inscrição originária (art. 969). Em qualquer caso, a constituição do estabelecimento secundário deverá ser averbada no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede (art. 969, parágrafo único). O domicílio do empresário individual e da sociedade empresária, doutrinariamente, será o local indicado em seus atos constitutivos, quando o registro na Junta Comercial. Contudo, nos termos do art. 75, § 1° do Código Civil, “Tendo a pessoa jurídica diversos estabelecimentos em lugares diferentes, cada um deles será considerado domicílio para os atos nele praticados”. Na mesma linha, a súmula 363 do STF estabelece que “a pessoa jurídica de direito privado pode ser demandada no domicílio da agência, ou estabelecimento, em que se praticou o ato”.[5: : I - o seu nome, nacionalidade, domicílio, estado civil e, se casado, o regime de bens; II - a firma, com a respectiva assinatura autógrafa; III - o capital; e IV - o objeto e a sede da empresa.][6: Filial é a sociedade empresária que atua sob a direção e administração de outra, chamada de matriz, mas mantém sua personalidade jurídica e seu patrimônio, bem como preserva sua autonomia diante da lei e do público. Agência é a empresa especializada em prestação de serviços que atua especificamente como intermediária. Sucursal é o ponto de negócio acessório e distinto do ponto principal, responsável por tratar dos negócios desde e a ele subordinado administrativamente.] Por fim, vale relembrar que só há duas exceções à obrigatoriedade de registro na Junta Comercial: Exercentes de atividade econômica rural (art. 971); Sociedade de advogados (Lei n° 8.906/94). QUEM NÃO É EMPRESÁRIO: AGENTES ECONÔMICOS EXCLUÍDOS DO CONCEITO DE EMPRESÁRIO A teoria da empresa optou por fixar um critério material para a conceituação do empresário, critério este abrangente, por não excluir de seu âmbito de incidência, em princípio, nenhuma atividade econômica. Ocorre que, por determinação do art. 966, parágrafo único, o conceito de empresário previsto no caput não se aplica a determinados agentes econômicos. Assim, não é empresária: (i) a atividade intelectual; (ii) a atividade rural; (iii) a Sociedade simples; (iv) a Cooperativa e (v) outras entidades sem fins lucrativos. Atividade intelectual Art. 966 (...) Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. Atividade intelectual não é empresarial. No entanto, quando a atividade intelectual for oferecida juntamente com outros serviços, prevalecerá, para fins jurídicos, a atividade empresarial. Ilustrando, um hospital oferece serviços intelectuais (médicos), mas também oferece serviços empresariais. A referência ao “elemento de empresa” remete ao Código Civil italiano de 1942, que assim considera a atividade empresarial quando o exercício dessa profissão intelectual dê lugar a uma atividade especial, organizada sob a forma de empresa, como no caso do exercício de uma Farmácia, de um sanatório ou de uma instituição de ensino. A partir do momento em que o profissional intelectual dá uma forma empresarial ao exercício de suas atividades, impessoalizando sua atuação e passando a ostentar mais a característica de organizador da atividade desenvolvida, será considerado empresário e passará a ser regido pelas normas do direito empresarial. Para se aferir se determinado profissional intelectual tornou-se ou não um empresário, André RAMOS sugere se faça as seguintes perguntas: - há mais de um ramo de atividade sendo exercido? - Há contratação de terceiros para o desempenho da atividade-fim? A resposta positiva a qualquer das perguntas implica concluir pela transformação do profissional em empresário. Enfim, a expressão elemento de empresa, utilizada pelo legislador brasileiro na parte final do art. 966, p. único, está intrinsecamente relacionada com o requisito da organização dos fatores de produção para a caracterização do empresário. Com efeito, o empresário é quem articula os diversos fatores de produção, tendo em vista a exploração de uma determinada atividade econômica; para tanto, constituirá todo um complexo de bens materiais e imateriais e buscará auferir lucro. Em regra, não se visualiza essa organização dos fatores de produção na atuação dos profissionais intelectuais, que não raro exercem suas atividades sem a necessidade de organizar um estabelecimento empresarial. É por essa razão que o profissional intelectual não é considerado empresário segundo a teoria da empresa, adotada pelo Código Civil. No entanto, não se pode afirmar peremptoriamente que o profissional intelectual, no exercício de sua profissão,nunca organize os fatos de produção a ponto de constituir um verdadeiro estabelecimento empresarial para exercício de empresa. Por mais que continuem a exercer suas profissões intelectuais, é possível que tenham assumido também a posição de organizadores do empreendimento. É isso que o caracteriza como empresário. A advocacia nunca é empresarial, independentemente da caracterizada a organização dos fatores de produção. Atividade rural Quem exerce atividade rural não é empresário. Atividade rural é aquela exercida fora do perímetro urbano. No conceito do Código Civil, a atividade rural é de subsistência. No entanto, o empresário rural poderá optar por inscrever-se na Junta Comercial, hipótese em que se tornará empresário, com todos os direitos e deveres (art. 971). Nesse caso, o registro terá natureza constitutiva.[7: Art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão, pode, observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que, depois de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro.] O mesmo vale para a sociedade que tem por objeto social a exploração de atividade econômica rural. Nos termos do art. 984, “A sociedade que tenha por objeto o exercício de atividade própria de empresário rural e seja constituída, ou transformada, de acordo com um dos tipos de sociedade empresária, pode, com as formalidades do art. 968, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da sua sede, caso em que, depois de inscrita, ficará equiparada, para todos os efeitos, à sociedade empresária”. Sociedade simples Sociedade simples não é empresarial, embora busque o lucro. É espécie societária que abriga as atividades intelectuais. Cooperativas Cooperativa não é empresarial, conforme o art. 983, parágrafo único, do Código Civil, mas os seus atos constitutivos são registrados na Junta Comercial, nos termos do artigo 32 da Lei n° 8.934/94.[8: Art. 983 (...) Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa.][9: Art. 32. O registro compreende: (...) II - O arquivamento: a) dos documentos relativos à constituição, alteração, dissolução e extinção de firmas mercantis individuais, sociedades mercantis e cooperativas] Nos termos do art. 1.093, “A sociedade cooperativa reger-se-á pelo disposto no presente Capítulo, ressalvada a legislação especial”. Por determinação expressa contida no art. 982, p. único, “independentemente de seu objeto considera-se (...) simples a cooperativa”. Por opção política, o legislador determinou que a cooperativa será sempre uma sociedade simples, sendo irrelevante se ela exerce uma atividade empresarial de forma organizada e com intuito de lucro. As sociedades de advogados São regidas pelo Estatuto da OAB, inclusive quanto ao registro, aplicando-se subsidiariamente as regras previstas no Código Civil. A sociedade de advogados é regulada pela Lei n° 8.906/94, cujo art. 15, modificado pela Lei n° 13.247/16, dispõe que “Os advogados podem reunir-se em sociedade simples de prestação de serviços de advocacia ou constituir sociedade unipessoal de advocacia, na forma disciplinada nesta Lei e no regulamento geral”. A terminologia foi adaptada ao Código Civil de 2002, sendo consideradas sociedades simples, organizadas sob a forma de sociedade em nome coletivo, ou seja, os sócios respondem de maneira solidária e ilimitada pelas obrigações sociais, nos termos do art. 17 do Estatuto da OAB. [10: Art. 17. Além da sociedade, o sócio e o titular da sociedade individual de advocacia respondem subsidiária e ilimitadamente pelos danos causados aos clientes por ação ou omissão no exercício da advocacia, sem prejuízo da responsabilidade disciplinar em que possam incorrer.] A Lei n° 13.247/16 criou a chamada sociedade individual de advocacia, que corresponde uma sociedade simples formada por um único advogado em seu quadro societário. A sua responsabilidade também é ilimitada (art. 17) e a sua denominação será obrigatoriamente formada pelo nome do advogado, mais a expressão “sociedade individual de advocacia”. A sociedade unipessoal de advocacia pode resultar da concentração por um advogado das quotas de uma sociedade de advogados, independentemente das razões que motivaram tal concentração (art. 15, § 7°, do EOAB). No que se refere às obrigações tributárias, o STJ já reconheceu que “as empresas prestadoras de serviços advocatícios são estabelecimentos de índole empresarial, por exercerem atividade econômica organizada com fins lucrativos”, sendo, portanto, sujeitos passivos das contribuições sociais ao SESC e ao SENAC. Sob o aspecto do direito empresarial, André Luiz S. C. RAMOS entende que os dispositivos da Lei n° 8.906/94 prevalecem sobre o art. 966, p. único, Código Civil em razão de sua especialidade, mas reconhece a necessidade de revisão legislativa do tratamento dispensado à hipótese.[11: STJ, AgRg no Ag 518.309/PR, 1ª T, 2003.] Outras entidades que não visam lucro Estão incluídas nesse grupo as associações, as fundações, os partidos políticos etc. ESPÉCIES DE EMPRESÁRIO Existem três maneiras de exercer atividade empresária: (i) como empresário individual (art. 972 do CC); (ii) como sociedade empresária (art. 981); e (iii) como EIRELI (art. 980-A) ESPÉCIE 1 – EMPRESÁRIO INDIVIDUAL O empresário é a pessoa física que exerce atividade empresarial em nome próprio, respondendo com todos os seus bens pelas dívidas contraídas no exercício da atividade empresarial. Não existem sócios, nem contrato (só inscrição), e o nome empresarial será o nome civil do empresário. O empresário individual tem patrimônio empresarial e patrimônio não empresarial. O empresário pode ter sua falência decretada e seus bens irão compor a massa falida objetiva. Embora seja uma forma ruim de exercer atividade empresarial, o empresário pessoa física ainda é maioria na Junta Comercial. Para o STJ, “a empresa individual é mera ficção jurídica, criada para habilitar a pessoa natural a praticar atos de comércio, com vantagens do ponto de vista fiscal”. Requisitos para ser empresário Art. 962. Podem exercer a atividade de empresário os que estiverem em pleno gozo da capacidade civil e não forem legalmente impedidos. São dois os requisitos para ser empresário (individual): Requisito 1 – Ter capacidade civil plena – incapaz não pode iniciar a atividade como empresário individual, nem mesmo com representação ou assistência, diferentemente dos contratos do direito civil. Embora não possa iniciar a atividade, o incapaz pode continuar a atividade uma atividade empresarial (art. 974): No caso de incapacidade superveniente; Antes exercida pelos pais, que morreram; Recebida em herança. Antes de o incapaz dar continuidade à atividade empresarial (art. 974, §§ 1° e 2°), seu representante legal deverá requerer uma autorização judicial, em procedimento de jurisdição voluntária, ouvido o Ministério Público (art. 82, I, CPC). A autorização judicial só será concedida “após exame das circunstâncias e dos riscos da empresa, bem como da conveniência em continuá-la, podendo a autorização ser revogada pelo juiz, ouvidos os pais, tutores ou representantes legais do menor ou do interdito, sem prejuízo dos direitos adquiridos por terceiros” (art. 974, § 1°); Parte da doutrina (enunciado 197 CJF/STJ) entende que, embora seja reputado empresário para os efeitos dos arts. 966 e 967, o incapaz não tem direito à recuperação (da Lei de Falência), porque não tem capacidade penal para responder por crimes falimentares que porventura venha a cometer. O juiz, ao conceder autorização para que o incapaz continue a atividade empresarial, determinará medidas visando à proteção dos bens do incapaz que não estão afetados à atividade empresarial (art. 974, § 1°), bens esses que não ficarão sujeitos ao resultado da empresa (§ 2°). Para tanto, o juiz expedirá um alvará contendoa lista dos bens que, embora pertencentes ao incapaz, não responderão por dívidas contraídas por ele no exercício da atividade empresarial. Se o representante ou assistente do incapaz for pessoa que, por disposição de lei, não puder exercer atividade de empresário (pessoa impedida), nomeará, com a aprovação do juiz, um ou mais gerentes (art. 975). O gerente também será nomeado nos casos em que o juiz entender ser conveniente, independentemente de impedimento do representante ou não (§ 1°). A aprovação do juiz não exime o representante ou assistente do menor ou do interdito da responsabilidade pelos atos dos gerentes nomeados (§ 2°). As pessoas impedidas a que o dispositivo se refere são as tratadas no requisito 2, bem como as pessoas previstas no art. 1.735. [12: Art. 1.735. Não podem ser tutores e serão exonerados da tutela, caso a exerçam: I - aqueles que não tiverem a livre administração de seus bens; II - aqueles que, no momento de lhes ser deferida a tutela, se acharem constituídos em obrigação para com o menor, ou tiverem que fazer valer direitos contra este, e aqueles cujos pais, filhos ou cônjuges tiverem demanda contra o menor; III - os inimigos do menor, ou de seus pais, ou que tiverem sido por estes expressamente excluídos da tutela; IV - os condenados por crime de furto, roubo, estelionato, falsidade, contra a família ou os costumes, tenham ou não cumprido pena; V - as pessoas de mau procedimento, ou falhas em probidade, e as culpadas de abuso em tutorias anteriores; VI - aqueles que exercerem função pública incompatível com a boa administração da tutela.] Requisito 2 – Não ter impedimento legal (art. 972, in fine) – algumas pessoas são impedidas de exercer atividade como empresários (mas poderiam ser sócios de sociedade), seja em razão da função que exercem, como os servidores públicos e os militares da ativa, ou por sanção, como é o caso das pessoas falidas enquanto não reabilitadas. Art. 1.011 (...) § 1° Não podem ser administradores, além das pessoas impedidas por lei especial, os condenados à pena que vede, ainda que temporariamente, o acesso a cargos públicos; ou por crime falimentar, de prevaricação, peita ou suborno [sinônimos], concussão, peculato; ou contra a economia popular, contra o sistema financeiro nacional, contra as normas de defesa da concorrência, contra as relações de consumo, a fé pública ou a propriedade, enquanto perdurarem os efeitos da condenação. Se, apesar de impedida, a pessoa legalmente impedida de exercer atividade própria de empresário a exercer, responderá pelas obrigações contraídas (art. 973, CC). Por outro lado, o sócio de sociedade empresária poderá ser incapaz (representado) e ter impedimento (desde que não exerça a administração), conforme será estudado no capítulo sobre as sociedades. Outras causas de impedimento estão previstas na legislação. Vejamos: O art. 117, X, da Lei n° 8.112/90, proíbe o servidor público federal de “participar de gerência ou administração de sociedade privada, personificada ou não personificada, exercer o comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou comanditário”; O art. 36, I, da LC 35/79, estabelece que é proibido ao magistrado “exercer o comércio ou participar de sociedade comercial, inclusive de economia mista, exceto como acionista ou quotista”; O art. 44, III, da Lei n° 8.625/93, proíbe os membros do Ministério Público de “exercer o comércio ou participar de sociedade comercial, exceto como cotista ou acionista”. O art. 29 da Lei n° 6.880/80 veda ao militar da ativa “comerciar ou tomar parte na administração ou gerência de sociedade ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista ou quotista, em sociedade anônima ou por quotas de responsabilidade limitada”. Note-se que as vedações são, em regra, restritas ao exercício de empresa, e não à adesão como sócio de sociedades empresariais. Por conseguinte, essas pessoas não podem ser empresário individuais. A Constituição Federal prevê pelo menos duas hipóteses que restringem a participação de certas pessoas em determinadas sociedades empresariais: O art. 176, § 1°, estabelece que “a pesquisa e a lavra de recursos minerais e o aproveitamento dos potenciais a que se refere o "caput" deste artigo somente poderão ser efetuados mediante autorização ou concessão da União, no interesse nacional, por brasileiros ou empresa constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no País, na forma da lei, que estabelecerá as condições específicas quando essas atividades se desenvolverem em faixa de fronteira ou terras indígenas”. O art. 222, caput, dispõe que “A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sede no País”. Em ambas as hipóteses, a restrição constitui proteção à soberania nacional, na medida em que veda a participação de pessoas e empresas estrangeiras, sem vínculo estável com o Brasil, em atividades consideradas estratégicas ou de segurança nacional. Caso desrespeitem a vedação imposta pela lei, as pessoas impedidas responderão pelas obrigações contraídas (art. 973). Portanto, as obrigações contraídas por um “empresário” impedido não são nulas e sim plenamente validade em relação a terceiros de boa-fé que com ele contratarem. Bem imóvel do empresário individual Em prosseguimento, o Código Civil autoriza o empresário (pessoa física) casado em qualquer regime de bens a alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa (leia-se “atividade empresarial”) ou gravá-los de ônus real, independentemente de outorga do cônjuge (art. 978). O mesmo vale para a atividade empresarial de compra e venda de imóveis. A finalidade da regra é dar agilidade à atividade empresarial, permitindo que o empresário possa vender imóveis, ou gravá-los de ônus reais, com agilidade que o tráfico mercantil necessita. No entanto, será difícil para o empresário demonstrar ao Cartório de Imóveis que determinado imóvel de sua propriedade é afetado à atividade empresarial e não requer outorga do cônjuge. Para tentar solucionar a questão, foi editado o Enunciado n° 6 da Jornada de Direito Comercial, com o seguinte teor: “O empresário individual regularmente inscrito é o destinatário da norma do art. 978 do Código Civil, que permite alienar ou gravar de ônus real o imóvel incorporado à empresa, desde que exista, se for o caso, prévio registro de autorização conjugal no Cartório de Imóveis, devendo tais requisitos constar do instrumento de alienação ou de instituição do ônus real, com a consequente averbação do ato à margem de sua inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis”. ESPÉCIE 2 – SOCIEDADE EMPRESÁRIA Nesta hipótese, empresário será a sociedade criada e não os sócios que a criaram. Os sócios poderão limitar as suas responsabilidades pessoais pelos resultados da sociedade, protegendo, assim, o seu patrimônio. Em caso de falência, a sociedade será falida e não os sócios que dela fazem parte. O tema sociedade será tratado no capítulo “SOCIEDADE EMPRESÁRIA”. Empresário individual x sociedade empresária O art. 966 do Código Civil, ao definir empresário (gênero), inclui tanto a pessoa física (empresário individual), como a pessoa jurídica (sociedade empresária) - espécies. ATENÇÃO! Em uma sociedade empresária, os sócios não são empresários: empresária é a própria sociedade, à qual o ordenamento jurídico confere personalidade e, consequentemente, capacidade para adquirir direitos e contrair obrigações. Nesse sentido foi proferido o acórdão do STJ: “...o sócio de sociedade empresarial não é comerciante, uma vez que a prática de atos nessa qualidade são imputados à pessoa jurídica à qual está vinculada, esta sim, detentora de personalidade jurídica própria (SIC)”. A grande diferença entre o empresário individual e a sociedade empresária é que, por ser uma pessoa jurídica, a sociedade tem patrimônio próprio, distinto do patrimônio dos sócios, Assim, osbens particulares dos sócios, em princípio, não podem ser executados por dívidas da sociedade, senão depois de executados os bens sociais, na forma do art. 1.024 do Código Civil. O empresário individual, por sua vez, não goza dessa separação patrimonial, respondendo com todos os seus bens pelo risco do empreendimento.[13: REsp 785.101/MG, 4ª T, 2009.] A responsabilidade dos sócios de uma sociedade empresária, além de ser subsidiária, pode ser limitada, o que ocorre, por exemplo, nas sociedades limitadas (LTDA) e nas sociedades anônimas (S/A). Em ambas, os sócios se comprometem a contribuir com determinada quantia para a formação do capital social e, uma vez integralizado esse capital, a sua responsabilidade de cada um fica adstrita a esse valor, ainda que o patrimônio constituído pela sociedade seja insuficiente para saldar as dívidas contraídas em nome dela, salvo em hipóteses específicas que serão estudadas, nas quais o juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade (art. 50, CC), alcançando os bens pessoais dos sócios. ATENÇÃO! Responsabilidade do empresário individual: DIRETA e ILIMITADA Responsabilidade do sócio de uma sociedade empresária: SUBSIDIÁRIA e pode ser LIMITADA. ESPÉCIE 3 – EMPRESA INDIVIDUAL DE RESPONSABILIDADE LIMITADA (EIRELI) Art. 980-A. A empresa individual de responsabilidade limitada será constituída por uma única pessoa titular da totalidade do capital social, devidamente integralizado, que não será inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo vigente no País. § 1º O nome empresarial deverá ser formado pela inclusão da expressão "EIRELI" após a firma ou a denominação social da empresa individual de responsabilidade limitada. § 2º A pessoa natural que constituir empresa individual de responsabilidade limitada somente poderá figurar em uma única empresa dessa modalidade. § 3º A empresa individual de responsabilidade limitada também poderá resultar da concentração das quotas de outra modalidade societária num único sócio, independentemente das razões que motivaram tal concentração. § 4º ( VETADO). § 5º Poderá ser atribuída à empresa individual de responsabilidade limitada constituída para a prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração decorrente da cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da pessoa jurídica, vinculados à atividade profissional. Exemplificando, um jogador de futebol poderá constituir uma EIRELI para representa-lo nos contratos que versam sobre os direitos de imagem. § 6º Aplicam-se à empresa individual de responsabilidade limitada, no que couber, as regras previstas para as sociedades limitadas. A lei n° 12.441/11 criou uma nova figura jurídica, a qual se assemelha a essas duas figuras citadas. A nova lei promoveu três alterações no Código Civil: (i) acrescentou o inciso VI ao art. 44, ou seja, inseriu “as empresas individuais de responsabilidade limitada” entre as pessoas jurídicas de direito privado; (ii) acrescentou o art. 980-A ao Livro II da Parte Especial, criando e regulamentando a EIRELI com seu caput e seis parágrafos, tendo sido o § 4° vetado; (iii) alterou o parágrafo único do art. 1.033, para admitir que a sociedade plural que ficar um apenas único sócio possa converter-se em EIRELI e não mais ser extinta. Perda da pluralidade de sócios da sociedade Antes da Lei n° 12.441/11 Depois da Lei n° 12.441/11 Uma sociedade que ficasse com apenas um sócio só podia se transformar em empresário individual Uma sociedade que ficasse com apenas um sócio poderá se transformar em empresário individual ou em empresa individual de responsabilidade limitada – EIRELI, desde atendidos os requisitos previstos no art. 980-A Natureza jurídica da EIRELI Existem duas correntes que tentam explicar a natureza jurídica da EIRELI: EIRELI é empresário individual (USP, Rubens Requião) – EIRELI é empresário individual que agora poderá limitar a sua responsabilidade, destinando uma parcela do seu patrimônio para o exercício da atividade empresarial. Para quem adota esse entendimento, todos os dispositivos inerentes ao empresário individual (art. 966 a 980). O fundamento dessa corrente é a localização topográfica do dispositivo (LIVRO II - TÍTULO I - Do Empresário). EIRELI é sociedade empresária (Fábio Ulhôa Coelho) – a EIRELI é a possibilidade da criação da sociedade unipessoal no direito brasileiro. O fundamento principal dessa corrente é a a literalidade do art. 980-A e parágrafos, que fazem menção a “sócio”, “capital social”, “integralizado” etc. A EIRELI poderá ser originária, isto é, ser constituída por uma pessoa natural, que destacará parte de seu patrimônio para transferir à EIRELI, e também poderá se tornar EIRELI por conversão, nos termos do § 3°, quando ocorrer a concentração das quotas de outra modalidade societária num único sócio, independentemente das razões que motivaram tal concentração (morte, exclusão ou retirada dos demais sócios). Nesse ponto, surge a seguinte dúvida: (Im)possibilidade de pessoa jurídica ser único “sócio” de EIRELI A doutrina e a jurisprudência divergem acerca da possibilidade de uma pessoa jurídica preexistente constituir uma EIRELI. Prevalecia o entendimento de que somente pessoas físicas podem ser titular de EIRELI. Entretanto, o DREI editou a IN nº 38/2017, prevendo que pode ser titular de EIRELI a pessoa jurídica, nacional ou estrangeira. Deste modo, a pessoa jurídica pode, sim, constituir uma EIRELI. Tal entendimento doutrinário, capitaneado por Fábio Ulhôa Coelho, era sustentado pelos seguintes argumentos: (i) o art. 980-A determina que a EIRELI “será constituída por uma única pessoa”, sem limitar à pessoa natural; (ii) § 2° só se aplicaria às pessoas naturais; (iii) uma norma infralegal – a instrução normativa do DREI – não pode tratar da matéria, que é reservada à lei; (iv) o § 6º determina a aplicação subsidiária, à EIRELI, das regras previstas para as sociedades limitadas e, nesse passo, o sócio de limitada pode ser pessoa natural ou jurídica. Esta corrente também vinha sendo adotada pelo Judiciário.[14: Para a segunda corrente doutrinária, agora vencida, a EIRELI só pode ser constituída por pessoa natural – o fundamento é o artigo 980-A, § 2°, que restringiria a EIRELI às pessoas naturais ao dispor que “a pessoa natural que constituir empresa individual de responsabilidade limitada somente poderá figurar em uma única empresa dessa modalidade”. Nesse sentido é o enunciado n° 468 CJF/STJ: “A empresa individual de responsabilidade limitada só poderá ser constituída por pessoa natural”. No mesmo sentido: IN nº 117/DNRC (extinto) e IN nº 10/DREI (substituto).][15: TRF 3ª Região, 22º Vara Federal de São Paulo, MS 00174394720144036100. A competência da Justiça se deve à subordinação técnica das Juntas Comerciais ao DREI – órgão da União; TRF 2ª Região, 9ª Vara da Fazenda Pública do Rio de Janeiro.] Além da pessoa jurídica, também poderá constituir uma EIRELI o menor emancipado (IN 38/DREI). EXIGÊNCIA DE CAPITAL MÍNIMO A parte final do art. 980-A, caput, determina que o capital da empresa individual de responsabilidade limitada “não será inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo vigente no País” – ou R$ 78.800,00 (2015). O STF examinou a constitucionalidade do capital social mínimo, decidindo que a exigência do capital mínimo é perfeitamente compatível com os princípios constitucionais, na medida em que viabiliza a constituição da EIRELI e dá alguma proteção aos credores. A decisão também se baseou no relatório do Banco Mundial (Doing Business 2011) que mostra que outros países, como Itália, Argentina, China e Índia, possuem exigências similares.[16: ADI n° 4.637] Prevalece na doutrina que o montante do capital a ser integralizado deve ser aferido no com base no valor do salário mínimo vigente no momento da constituição da EIRELI, sendo irrelevantes os reajustes posteriores. NOME EMPRESARIAL Art. 1.155. Considera-se nome empresarial a firma ou a denominação adotada, de conformidadecom este Capítulo, para o exercício de empresa. Nome empresarial não pode ser confundido com marca nem com título do estabelecimento (“nome fantasia”). O nome empresarial é o elemento vulgarmente chamado de “razão social”. Existem três espécies de nome empresarial: (i) Firma individual (art. 1.156); (ii) Firma/razão social (art. 1.157); e (iii) denominação (art. 1.160). Firma é nome de sócio. Denominação designação de criação dos sócios. Firma = empresário individual. Firma social = sociedade de responsabilidade ilimitada. ESPÉCIES Firma individual Art. 1.156. O empresário opera sob firma constituída por seu nome, completo ou abreviado, aditando-lhe, se quiser, designação mais precisa da sua pessoa ou do gênero de atividade. A firma individual identifica o empresário individual (pessoa física), cujo nome deverá obrigatoriamente compor o nome empresarial, por extenso ou abreviando o prenome (exceto o nome familiar). Não é permitido usar nome fantasia (princípio da veracidade). Exemplo: “João da Silva comércio de alimentos”; “J. Silva comércio de alimentos”. FIRMA SOCIAL Art. 1.157. A sociedade em que houver sócios de responsabilidade ilimitada operará sob firma, na qual somente os nomes daqueles poderão figurar, bastando para formá-la aditar ao nome de um deles a expressão "e companhia" ou sua abreviatura. Parágrafo único. Ficam solidária e ilimitadamente responsáveis pelas obrigações contraídas sob a firma social aqueles que, por seus nomes, figurarem na firma da sociedade de que trata este artigo. A firma social identifica algumas espécies de sociedades (ex: sociedade em nome coletivo). A firma poderá ser composta pelos nomes (ou parte do nome) dos sócios ou composta apenas pelo nome de um dos sócios e a expressão “e companhia” no final (porque no começo só as S/A). No caso de morte, exclusão ou retirada de sócio que tem o nome integrando a firma social, seu nome deverá ser removido da firma (art. 1.165). [17: Art. 1.165. O nome de sócio que vier a falecer, for excluído ou se retirar, não pode ser conservado na firma social.] Atenção! Se uma questão perguntar, por exemplo, que tipo de nome empresarial é “Brasil e companhia, a resposta é firma! DENOMINAÇÃO É o nome que identifica algumas sociedades (obrigatório para as S/A) e que é de livre escolha pelos sócios. Ex: PETROBRAS. O sobrenome do sócio pode ser empregado livremente, e no caso das S/A o sócio que não faça mais parte da sociedade pode continuar compondo o nome empresarial, a título de homenagem (art. 1.160, parágrafo único, do CC). [18: Código Civil - Art. 1.160. A sociedade anônima opera sob denominação designativa do objeto social, integrada pelas expressões "sociedade anônima" ou "companhia", por extenso ou abreviadamente.][19: Art. 1.160. (..) Parágrafo único. Pode constar da denominação o nome do fundador, acionista, ou pessoa que haja concorrido para o bom êxito da formação da empresa.] PRINCÍPIOS QUE REGEM O NOME EMPRESARIAL Princípio da novidade Ao contrário da marca, que pode ser a mesma desde que para produtos diferentes (Veja revista e Veja limpante), o nome empresarial (ou o núcleo do nome) não pode ser igual ao de outro registrado no mesmo Estado membro (em estados diferentes o nome empresarial pode, Mas não confunda com a marca!). A prioridade é de quem registrou primeiro e a ação é imprescritível. Princípio da veracidade Lei n° 8.934/94 (Dispõe sobre o Registro Público de Empresas Mercantis) Art. 34. O nome empresarial obedecerá aos princípios da veracidade e da novidade. O nome empresarial deve representar uma situação fática verdadeira. Na firma, esse princípio fica bem claro na medida em que o Código Civil determina que a firma deve ser formada pelos nomes dos sócios e que o nome do sócio excluído ou retirante não poderá ser mantido na firma. Em razão do princípio da veracidade, o nome empresarial não pode ser objeto de alienação, conforme a literalidade do art. 1.164 do Código Civil. O negócio que tenha por objeto a alienação do nome empresarial é considerado inexistente. Na prática, a transferência da denominação é feita através da alteração dos sócios da sociedade que detém aquele nome. AUXILIARES DO EMPRESÁRIO O Código Civil reuniu esses personagens auxiliares do empresário sob a rubrica de preposto no art. 1.169 a 1.178. A codificação cuidou especificamente apenas do gerente e do contabilista, enquadrando os demais colaboradores na categoria outros auxiliares. O preposto assume responsabilidade semelhante à do mandatário pela realização de atos em nome do preponente, a exemplo do contido no art. 1.169, in verbis: “O preposto não pode, sem autorização escrita, fazer-se substituir no desempenho da preposição, sob pena de responder pessoalmente pelos atos do substituto e pelas obrigações por ele contraídas”. Segundo o art. 1.170, “O preposto, salvo autorização expressa, não pode negociar por conta própria ou de terceiro, nem participar, embora indiretamente, de operação do mesmo gênero da que lhe foi cometida, sob pena de responder por perdas e danos e de serem retidos pelo preponente os lucros da operação”. Em outras palavras, o Código proíbe os prepostos de fazerem concorrência aos seus proponentes, salvo se estes lhes autorizarem para tanto. A violação dessa vedação configura ainda crime previsto no art. 195 da Lei n° 9.279/96 (concorrência desleal). Nos termos do art. 1.171, “considera-se perfeita a entrega de papéis, bens ou valores ao preposto, encarregado pelo preponente, se os recebeu sem protesto, salvo nos casos em que haja prazo para reclamação”. O Código privilegiou a teoria da aparência no que se refere aos atos praticados pelo preposto no interior do estabelecimento comercial, ao determinar no art. 1.178, caput, que “Os preponentes são responsáveis pelos atos de quaisquer prepostos, praticados nos seus estabelecimentos e relativos à atividade da empresa, ainda que não autorizados por escrito”. Diferentemente, “Quando tais atos forem praticados fora do estabelecimento, somente obrigarão o preponente nos limites dos poderes conferidos por escrito, cujo instrumento pode ser suprido pela certidão ou cópia autêntica do seu teor” (p. único). No exercício de suas funções, os prepostos são pessoalmente responsáveis, perante os preponentes, pelos atos culposos; e, perante terceiros, solidariamente com o preponente, pelos atos dolosos (art. 1.177, p. único). O dispositivo distingue claramente o ato culposo, pelo qual o preposto não responde diretamente perante terceiro, mas só regressivamente perante o preponente, do ato doloso, pelo qual responderá perante terceiro solidariamente com o preponente. O contabilista, também chamado de contador, é profissional legalmente habilitado para zelar pela contabilidade do empresário. Sua atuação é obrigatória, salvo quando na localidade não houver nenhum (art. 1.182). Como o contabilista é responsável pela escrituração do empresário, os assentos lançados nos livros ou fichas do empresário, pelo contabilista, produzem, salvo se houver procedido de má-fé, os mesmos efeitos como se o fossem pelo empresário (art. 1.177, caput), aplicando-se-lhe a norma do p. único do art. 1.177, relativa à responsabilidade por dolo e por culpa. O gerente – aqui entendido o gerente empregado, não o sócio-gerente – é o preposto ao qual se atribuem as funções de chefia, tanto que, “Quando a lei não exigir poderes especiais, considera-se o gerente autorizado a praticar todos os atos necessários ao exercício dos poderes que lhe foram outorgados” (art. 1.173). Havendo dois ou mais gerentes e não houver estipulação diversa, consideram-se solidários os poderes conferidos a cada um deles (p. único). Os poderes conferidos pelo contrato de gerência são amplos, podendo o gerente até mesmo “estar em juízo em nome do preponente, pelas obrigações resultantes do exercício da sua função” (art. 1.176). Todavia, esses poderes poderão ser limitados. E há duas formas de fazê-lo: (i) através do arquivamento e averbação do instrumento no Registro Público de Empresas Mercantis(Junta Comercial); ou (i) se as limitações comprovadamente se fizerem conhecidas da pessoa que tratou com o gerente (art. 1.174). O dispositivo não especifica o meio, devendo ser analisado o caso concreto. Por fim, registre-se que o gerente pode atuar, eventualmente, em nome próprio, mas por conta do preponente empresário – como ocorre nos contratos de comissão mercantil. Nesses casos, “o preponente responde com o gerente pelos atos que este pratique em seu próprio nome, mas à conta daquele”. DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL O empresário DIREITO EMPRESARIAL O empresário REGISTRO DO EMPRESÁRIO E JUNTA COMERCIAL A LEI DE REGISTRO PÚBLICO DE EMPRESAS MERCANTIS Embora o Código Civil contenha algumas regras específicas sobre registro (art. 1.150 a 1.154), a disciplina é feita pela Lei n° 8.934/94, que dispõe sobre o Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins e dá outras providências. O art. 1° da Lei expõe as finalidades do registro: Dar garantia, publicidade, autenticidade, segurança e eficácia aos atos jurídicos das empresas mercantis, submetidos a registro na forma desta lei; Cadastrar as empresas nacionais e estrangeiras em funcionamento no País e manter atualizadas as informações pertinentes; Proceder à matrícula dos agentes auxiliares do comércio, bem como ao seu cancelamento. O art. 3° cria o SINREM – Sistema Nacional de Registro de Empresas Mercantis, que regula o registro de empresa no Brasil. O SINREM é composto por dois órgãos: (i) o DNRC – Departamento Nacional de Registro do Comércio; e (ii) as Juntas Comerciais dos Estados. DNRC O Departamento Nacional de Registro do Comércio, órgão central SINREM, tem funções supervisora, orientadora, coordenadora e normativa, no plano técnico; e supletiva, no plano administrativo; JUNTAS COMERCIAIS As Juntas Comerciais têm funções executora e administradora dos serviços de registro e são responsáveis pela execução e Administração dos atos de registro. Elas são órgãos locais, ou seja, integram estrutura administrativa dos Estados-membros. Cada unidade federativa possui uma Junta Comercial (art. 5° da Lei). As Juntas Comerciais têm subordinação hierárquica híbrida (art. 6°): No plano técnico, subordina-se ao DNRC, ligado ao Ministério do Desenvolvimento; No plano administrativo, submete-se à Administração Estadual. Apenas a Junta Comercial do Distrito Federal se submete, tanto técnica como administrativamente, ao DNRC (art. 6°, p. único). Em razão desse caráter híbrido, o STJ consolidou algumas regras de competência para apreciar ações judiciais em que a Junta Comercial seja parte: Tratando-se de matéria administrativa, a competência será da Justiça Comum Estadual; Tratando-se de matéria técnica, relativa ao registro de empresa, a competência será da Justiça Federal, em razão do interesse do DNRC na causa (art. 109, I, CF/88). Alguns acórdãos do STJ ajudam a esclarecer o entendimento da Corte. Vejamos: As juntas Comerciais estão, administrativamente, subordinadas aos Estados, mas as funções por elas exercidas são de natureza federal. Conflito conhecido para declarar competente o juízo federal.[20: STJ, CC 43.225/PR, 2ª S, 2005] Os serviços prestados pelas juntas comerciais, apenas de criadas e mantidas pelos estados são de natureza federal. Para julgamento de ato, que se compreenda nos serviços do registro de comércio, a competência da justiça federal.[21: STJ, CC 15.575/BA, 1996] As Juntas Comerciais efetuam o registro do comércio por delegação federal, sendo da competência da Justiça Federal, a teor do artigo 109-VIII, da Constituição, o julgamento de mandado de segurança contra ato do Presidente daquele órgão.[22: STJ, CC 31.357/MG, 2003] Juntas Comerciais. Órgãos administrativamente subordinados ao Estado, mas tecnicamente à autoridade federal, como elementos do Sistema Nacional dos Serviços de Registro do Comércio. Consequente competência da Justiça Federal para o julgamento de mandado de segurança contra ato do Presidente da Junta, compreendido em sua atividade fim.[23: RE 199.793/RS, 2000] No entanto, recentemente o próprio STJ alterou um pouco esse entendimento, passando a reconhecer a competência da Justiça Federal somente em duas hipóteses: Quando se discutir a lisura do ato praticado pela Junta Comercial; e Nos casos de mandado de segurança impetrado contra ato de seu presidente. Porém, quando o mandado de segurança visar questão não diretamente relacionada à competência da Junta Comercial (ex: o reajuste de servidores da Junta Comercial), a competência será da Justiça Estadual, porque nesse caso a lide versa sobre matéria eminentemente administrativa.[24: CC 54.590/MG, 2006] Em suma: a competência só será da Justiça Federal quando a Junta Comercial estiver agindo no exercício de delegação de função pública federal, referente aos atos de registro previstos na Lei n° 8934/94. Em casos em que particulares litigam acerca de registros de alterações societárias perante a Junta Comercial, o STJ vem reconhecendo a competência da Justiça Comum estadual, posto que uma eventual decisão judicial de anulação dos registros societários, almejada pelos sócios litigantes, produziria apenas efeitos secundários para a Junta Comercial do Estado, fato que obviamente não revela questão afeta à validade do ato administrativo e que, portanto, afastaria o interesse da Administração e, consequentemente, a competência da Justiça Federal para julgamento da causa. Portanto, quando se tratar de demanda que envolve apenas questões particulares, como conflitos societários, a competência será da Justiça Estadual, ainda que no processo esteja sendo discutido um ato ou registro praticado pela Junta Comercial.[25: REsp 678.405/RJ, 3ª T, 2006] Ação declaratória de falsidade de documento público. Junta Comercial. Anulação de alteração contratual. Ato fraudulento. Terceiros. Indevido registro de empresa. Atividade federal delegada não afetada. Competência da Justiça Estadual.[26: AgRg no CC 101.060/RO, 2010] Compete à Justiça comum processar e julgar ação ordinária pleiteando anulação de registro de alteração contratual efetivado perante a Junta Comercial, ao fundamento de que, por suposto uso indevido do nome do autor e de seu CPF, foi constituída, de forma irregular, sociedade empresária, na qual o mesmo figura como sócio.[27: CC 90.338/RO, 2ª S, 2008] ATOS DE REGISTRO As juntas comerciais têm função executiva na estrutura do SINREM. Os atos por elas praticados são: Matrícula – consiste em ato de registro de alguns profissionais, os chamados auxiliares do comércio: leiloeiros, tradutores públicos, intérpretes, trapicheiros e administradores de armazéns-gerais. Arquivamento – ato de registro que diz respeito, basicamente, aos atos constitutivos da sociedade empresária ou do empresário individual. Quanto às cooperativas, o Código Civil estabelece que elas devem ser consideradas sociedades simples (art. 982, p. único); em tese, deveria ser registrada no Cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas; mas o art. 18 da Lei do Cooperativismo (lei n 5.764/71) prevê que as cooperativas devem ser registradas nas Juntas Comerciais; prevalece, portanto, que as cooperativas são sociedades simples sujeitas à inscrição nas Juntas Comerciais. Autenticação – ato de registro que se refere aos instrumentos de escrituração contábil do empresário e dos agentes auxiliares do comércio; é um requisito extrínseco de regularidade da escrituração; sua função precípua é tornar públicos os atos desses agentes econômicos, a fim de se tornarem conhecidos de terceiros e a eles poderem ser opostos. ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DAS JUNTAS COMERCIAIS Consoante o disposto no art. 9º, a estrutura básica das juntas comerciais será integrada pelos seguintes órgãos: I - a Presidência, como órgão diretivo e representativo; II - o Plenário, como órgão deliberativo superior; III - as Turmas, como órgãos deliberativos inferiores; IV - a Secretaria-Geral, como órgão administrativo;V - a Procuradoria, como órgão de fiscalização e de consulta jurídica. Membros das Junta Comercial Os membros da Junta Comercial que decidem sobre os atos de registro e compõem as turmas e o órgão plenário são chamados de vogais; nos termos do art. 11, caput, “Os Vogais e respectivos suplentes serão nomeados, no Distrito Federal, pelo Ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e nos Estados, salvo disposição em contrário, pelos governos dessas circunscrições (...)”. O mandato do Vogal e de seus suplentes é de 4 anos, permitida apenas um recondução (art. 16), Lei n° 8.934/94. As Turmas são compostas por 3 vogais, não participando o Presidente e o Vice-Presidente da Junta Comercial, os quais possuem atribuições específicas, previstas nos arts. 23 e 24 da Lei, respectivamente. [28: Art. 23. Compete ao presidente: I - a direção e representação geral da junta; II - dar posse aos vogais, convocar e dirigir as sessões do Plenário, superintender todos os serviços e velar pelo fiel cumprimento das normas legais e regulamentares.Art. 24. Ao vice-presidente incumbe substituir o presidente em suas faltas ou impedimentos e efetuar a correição permanente dos serviços, na forma do regulamento desta lei.] A Secretaria-Geral é titularizada pelo Secretário-Geral, “nomeado, em comissão, no Distrito Federal, pelo Ministro de Estado da Indústria, do Comércio e do Turismo, e, nos Estados, pelos respectivos governadores, dentre brasileiros de notória idoneidade moral e especializados em direito comercial”, cuja competência é “a execução dos serviços de registro e de administração da junta” (arts. 25 e 26). Por fim, a Procuradoria é composta “de um ou mais procuradores e chefiadas pelo procurador que for designado pelo governador do Estado” (art. 27). A atribuição do órgão é “fiscalizar e promover o fiel cumprimento das normas legais e executivas, oficiando, internamente, por sua iniciativa ou mediante solicitação da presidência, do plenário e das turmas; e, externamente, em atos ou feitos de natureza jurídica, inclusive os judiciais, que envolvam matéria do interesse da junta” (art. 28). O PROCESSO DECISÓRIO NAS JUNTAS COMERCIAIS Art. 36. Os documentos referidos no inciso II do art. 32 deverão ser apresentados a arquivamento na junta, dentro de 30 (trinta) dias contados de sua assinatura, a cuja data retroagirão os efeitos do arquivamento; fora desse prazo, o arquivamento só terá eficácia a partir do despacho que o conceder. [29: a) dos documentos relativos à constituição, alteração, dissolução e extinção de firmas mercantis individuais, sociedades mercantis e cooperativas; b) dos atos relativos a consórcio e grupo de sociedade de que trata a Lei nº 6.404/76; c) dos atos concernentes a empresas mercantis estrangeiras autorizadas a funcionar no Brasil; d) das declarações de microempresa; e) de atos ou documentos que, por determinação legal, sejam atribuídos ao Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins ou daqueles que possam interessar ao empresário e às empresas mercantis;] O Código Civil possui dispositivo normativo análogo – art. 1.151, §§ 1° e 2°, complementado pelo § 3°, o qual estabelece que “As pessoas obrigadas a requerer o registro responderão por perdas e danos, em caso de omissão ou demora”. Assim, quando o ato for levado a registro dentro do prazo legal de 30 dias, o registro operará efeitos ex tunc. Porém, quando levado a registro fora do prazo legal de 30 dias, produzirá efeitos ex nunc, tornando-se eficaz a partir do seu deferimento. [30: § 1º Os documentos necessários ao registro deverão ser apresentados no prazo de trinta dias, contado da lavratura dos atos respectivos. § 2º Requerido além do prazo previsto neste artigo, o registro somente produzirá efeito a partir da data de sua concessão.] Decisões colegiadas Em regra, as decisões sobre os atos de registro submetidos à apreciação da Junta Comercial são proferidas pelo Presidente, pelos Vogais ou por servidores que possuam comprovados conhecimentos de Direito Comercial e de Registro de Empresas Mercantis, em decisões singulares (art. 42). O prazo para decisão é de 2 dias úteis, contados do recebimento. Todavia, alguns atos de registro específicos se submetem a um regime de decisão colegiada, devido à sua maior complexidade. Os atos que se submetem a decisão colegiada estão previstos no artigo 41: I - o arquivamento: a) dos atos de constituição de sociedades anônimas, bem como das atas de assembleias gerais e demais atos, relativos a essas sociedades, sujeitos ao Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins; b) dos atos referentes à transformação, incorporação, fusão e cisão de empresas mercantis; c) dos atos de constituição e alterações de consórcio e de grupo de sociedades, conforme previsto na Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; II - o julgamento do recurso previsto nesta lei. O prazo para decisão é de 5 dias úteis, contados do recebimento. Profundidade do exame No exame do pedido de registro apresentados perante a Junta, a autoridade deverá ater-se ao exame do cumprimento das formalidades legais previstas (art. 40), sem adentrar no mérito do ato praticado. Verificada a existência de vício insanável, o requerimento será indeferido. Sendo sanável, o processo será colocado em exigência (§ 1°). As exigências formuladas pela junta comercial deverão ser cumpridas em até 30 dias, contados da data da ciência pelo interessado ou da publicação do despacho (§ 2°). O processo em exigência será entregue completo ao interessado; não devolvido no prazo previsto no parágrafo anterior, será considerado como novo pedido de arquivamento, sujeito ao pagamento dos preços dos serviços correspondentes (§ 3º). No mesmo sentido dispõe o art. 1.153, p. único, do Código Civil.[31: Art. 1.153 (...) Parágrafo único. Das irregularidades encontradas deve ser notificado o requerente, que, se for o caso, poderá saná-las, obedecendo às formalidades da lei.] Além de ater-se aos requisitos formais do ato de registro, as Juntas Comerciais não poderão criar exigências que não encontrem suporte na Lei. Na prática, algumas Juntas instituíram a exigência de certidão de regularidade fiscal estadual para o registro de alteração contratual. Tal exigência, porém, não está prevista na Lei n° 8.934/94, nem no Dec. 1.800/96, que a regulamentou.[32: Sobre a questão: STJ, REsp 724.015/PE, 4ª T, 2012. No sentido da observância de expressa previsão legal: STJ, REsp 513.356/CE, 1ª T, 2003; REsp 1.103.009/RS, 1ª S, 2009.] O art. 37 da Lei n° 8.934/94 elenca os documentos que devem instruir os pedidos de arquivamento de atos constitutivos e suas respectivas alterações: “I - o instrumento original de constituição, modificação ou extinção de empresas mercantis, assinado pelo titular, pelos administradores, sócios ou seus procuradores; II - declaração do titular ou administrador, firmada sob as penas da lei, de não estar impedido de exercer o comércio ou a administração de sociedade mercantil, em virtude de condenação criminal; III - a ficha cadastral segundo modelo aprovado pelo DNRC; IV - os comprovantes de pagamento dos preços dos serviços correspondentes; V - a prova de identidade dos titulares e dos administradores da empresa mercantil”. O parágrafo único do art. 37 da Lei n° 8.934/94 dispõe que, “além dos referidos neste artigo, nenhum outro documento será exigido das firmas individuais e sociedades referidas nas alíneas a, b e d do inciso II do art. 32” (firmas mercantis individuais, sociedades mercantis e cooperativas; sociedades anônimas; e microempresas). O dispositivo é inócuo, porquanto o Dec. 1.800/96 veda a exigência de outros documentos sem que haja “expressa determinação legal”. [33: Empresas elencadas no art. 32, II, a, b e d. A alínea c, que ficou de fora no p. único do art. 37, refere-se às “empresas mercantis estrangeiras autorizadas a funcionar no Brasil”.] RECURSOS Contra as decisões da Junta Comercial cabem, porém sem efeito suspensivo (art. 49), as seguintes impugnações (art. 44):PEDIDO DE RECONSIDERAÇÃO Terá por objeto obter a revisão de despachos singulares ou de Turmas que formulem exigências para o deferimento do arquivamento e será apresentado no prazo para cumprimento da exigência para apreciação pela autoridade recorrida em 3 (três) dias úteis ou 5 (cinco) dias úteis, respectivamente (art. 45). RECURSO AO PLENÁRIO É recurso cabível contra decisões definitivas, singulares ou de turmas. Deverá ser decidido no prazo máximo de 30 (trinta) dias, a contar da data do recebimento da peça recursal, ouvida a procuradoria, no prazo de 10 (dez) dias, quando a mesma não for a recorrente (art. 46). RECURSO AO MINISTRO DE ESTADO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR[34: A redação oficial dispositivo ainda fala em “Ministro de Estado da Indústria, do Comércio e do Turismo”, mas o texto foi alterado neste resumo de acordo com o nome atual do ministério.] Última instância administrativa, contra decisões proferidas pelo plenário da Junta (art. 47). Todos os recursos previstos nesta lei deverão ser interpostos no prazo de 10 (dez) dias úteis, cuja fluência começa na data da intimação da parte ou da publicação do ato no órgão oficial de publicidade da junta comercial (art. 50). A procuradoria e as partes interessadas, quando for o caso, serão intimadas para, no mesmo prazo de 10 (dez) dias, oferecerem contrarrazões (art. 51). PUBLICIDADE DOS ATOS DE REGISTRO Qualquer pessoa, sem necessidade de provar interesse, poderá consultar os assentamentos existentes nas juntas comerciais e obter certidões, mediante pagamento do preço devido (art. 29). A forma, prazo e procedimento de expedição de certidões serão definidos no regulamento desta lei (Art. 30). O art. 31 determina que “os atos decisórios da junta comercial serão publicados no órgão de divulgação determinado em portaria do presidente, publicada no Diário Oficial do Estado e, no caso da Junta Comercial do Distrito Federal, no Diário Oficial da União”. O Código Civil repetiu toda a regulamentação sobre a publicidade dos atos das juntas comerciais no art. 1.152, in verbis: Art. 1.152. Cabe ao órgão incumbido do registro verificar a regularidade das publicações determinadas em lei, de acordo com o disposto nos parágrafos deste artigo. § 1º Salvo exceção expressa, as publicações ordenadas neste Livro serão feitas no órgão oficial da União ou do Estado, conforme o local da sede do empresário ou da sociedade, e em jornal de grande circulação. § 2º As publicações das sociedades estrangeiras serão feitas nos órgãos oficiais da União e do Estado onde tiverem sucursais, filiais ou agências. § 3º O anúncio de convocação da assembleia de sócios será publicado por três vezes, ao menos, devendo mediar, entre a data da primeira inserção e a da realização da assembleia, o prazo mínimo de oito dias, para a primeira convocação, e de cinco dias, para as posteriores. ESCRITURAÇÃO DO EMPRESÁRIO Art. 1.179. O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico. A escrituração contábil é obrigação imposta a todo empresário, seja individual ou sociedade empresária. A obrigação é tão importante que a legislação falimentar considera crime a escrituração irregular, caso a falência do empresário seja decretada (arts. 178 e 180 da Lei n° 11.101/05). Ademais, os livros comerciais são equiparados a documento público para fins penais. Embora a lei fale apenas em livros, os instrumentos de escrituração são: a) livros; b) conjunto de fichas ou folhas soltas; c) conjunto de folhas contínuas; d) microfichas extraídas a partir da microfilmagem por computador. A escrituração do empresário é tarefa que a lei incumbe ao contabilista (art. 1.182, Código Civil), ressalvados os casos nos quais não exista contabilista habilitado na localidade, hipótese em que qualquer pessoa poderá fazer a escrituração. O livro Diário é o único livro obrigatório comum a todo e qualquer empresário, podendo ele ser substituído por fichas no caso de ser adotada escrituração mecanizada ou eletrônica (art. 1.180, Código Civil). O livro Diário também pode ser substituído pelo livro Balancetes Diários e Balanços quando o empresário adotar o sistema de fichas e lançamentos (art. 1.185). Outros livros também poderão ser exigidos do empresário, por força de legislação fiscal, trabalhistas e previdenciária. Todavia, nunca serão considerados livros empresariais, porquanto só a legislação empresarial pode instituí-los. São facultativos os livros (i) Caixa, no qual se controlam as entradas e saídas de dinheiro; (ii) o Estoque e (iii) Razão, que classifica o movimento das mercadorias; (iv) Borrador, que funciona como um rascunho do diário; e o (v) Conta Corrente, que é usado para as contas individualizadas de fornecedores ou clientes. No livro Diário devem ser lançadas “com individuação, clareza e caracterização do documento respectivo, dia a dia, por escrita direta ou reprodução, todas as operações relativas ao exercício da empresa” (art. 1.184, caput), admitindo-se a escrituração resumida (§ 1°). Também “Serão lançados no Diário o balanço patrimonial e o de resultado econômico, devendo ambos ser assinados por técnico em Ciências Contábeis legalmente habilitado e pelo empresário ou sociedade empresária” (§ 2°). Alguns livros específicos, todavia, são exigidos a certos empresários, i.e., o livro de Registro duplicatas, aos que trabalham com emissão de duplicatas mercantis; às sociedades anônimas são obrigatórios os livros específicos previstos no art. 100 da Lei. Afora esses livros obrigatórios, o empresário poderá escriturar outros, a seu critério (art. 1.179, § 1°, Código Civil). A SITUAÇÃO DAS ME E EPP O art. 1.179, § 2° dispensa o pequeno empresário das exigências relativas à necessidade de manter um sistema de escrituração e de levantar anualmente os balanços patrimonial e de resultado econômico, referindo-se ao art. 970, o qual determina que “A lei assegurará tratamento favorecido, diferenciado e simplificado ao empresário rural e ao pequeno empresário, quanto à inscrição e aos efeitos daí decorrentes”. No entanto, o último dispositivo deixou de esclarecer quais são os empresários que se enquadram no conceito de pequeno empresário, uma vez que a CF/88 e as leis especiais vinham empregando os termos microempresário e empresário de pequeno porte. Vinha prevalecendo na doutrina que a expressão pequeno empresário abrangia tanto os ME quanto os EPP. A LC n° 123/06 definiu pequeno empresário: “Considera-se pequeno empresário, para efeito de aplicação do disposto nos arts. 970 e 1.179 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), o empresário individual caracterizado como microempresa na forma desta Lei Complementar que aufira receita bruta anual até o limite previsto no § 1º do art. 18-A”.[35: R$ 60.000,00.] O SIGILO DOS LIVROS EMPRESARIAL Art. 1.190. Ressalvados os casos previstos em lei, nenhuma autoridade, juiz ou tribunal, sob qualquer pretexto, poderá fazer ou ordenar diligência para verificar se o empresário ou a sociedade empresária observam, ou não, em seus livros e fichas, as formalidades prescritas em lei. Considerando que nenhum direito é absoluto, o art. 1.193 prevê que as normas sobre o sigilo “...não se aplicam às autoridades fazendárias, no exercício da fiscalização do pagamento de impostos, nos termos estritos das respectivas leis especiais”. No mesmo sentido dispõe o art. 195 do CTN, segundo o qual, “Para os efeitos da legislação tributária, não têm aplicação quaisquer disposições legais excludentes ou limitativas do direito de examinar mercadorias, livros, arquivos, documentos, papéis e efeitos comerciais ou fiscais, dos comerciantes industriais ou produtores, ou da obrigação destes de exibi-los”. De acordo com a Súmula n° 439/STF “estão sujeitos à fiscalização tributária ou previdenciária quaisquer livroscomerciais, limitado o exame ao ponto objeto da investigação”. O sigilo dos livros empresariais também poderá ser afastado por decisão judicial. A exibição determinada poderá ser integral ou parcial, com tratamento legal distinto. Para fins civis, a exibição integral só pode ser feita mediante requerimento da parte interessada e nos casos expressamente previstos em lei, conforme dispõe o art. 381 do CPC73, in verbis: “O juiz pode ordenar, a requerimento da parte, a exibição integral dos livros comerciais e dos documentos do arquivo: I - na liquidação de sociedade; II - na sucessão por morte de sócio; III - quando e como determinar a lei”. O Código Civil vai na mesma direção, dispondo que “O juiz só poderá autorizar a exibição integral dos livros e papéis de escrituração quando necessária para resolver questões relativas a sucessão, comunhão ou sociedade, administração ou gestão à conta de outrem, ou em caso de falência”. Em se tratando de sociedade anônima, o art. 105 da Lei n° 6.404/76 – LSA determina que a exibição total dos livros da S/A pode ser determinada por juiz quando houver requerimento de acionistas que representem pelo menos 5% do capital social, apontando violação ao estatuto ou à lei ou suspeita de graves irregularidades levadas a efeito por órgão da companhia. Por seu turno, a exibição parcial pode ser determinada, de ofício, pelo juiz ou a requerimento das partes, “extraindo-se deles a suma que interessar ao litígio, bem como reproduções autenticadas” (art. 382, CPC73). Na mesma linha, dispõe o art. 1.191, § 1°, do Código Civil que “O juiz ou tribunal que conhecer de medida cautelar ou de ação pode, a requerimento ou de ofício, ordenar que os livros de qualquer das partes, ou de ambas, sejam examinados na presença do empresário ou da sociedade empresária a que pertencerem, ou de pessoas por estes nomeadas, para deles se extrair o que interessar à questão”. Ressalte-se que a exibição parcial dos livros, a rigor, não atinge os livros auxiliares. Precisamente por não serem obrigatórios, não têm sua existência presumida. Porém, é permitido à parte interessada a exibição de livros auxiliares, desde prove que o empresário possui tais livros e que os mesmos constituem prova indispensável de determinado fato, estabelecendo-se a presunção contra o empresário caso este se recuse a exibir os livros comprovadamente existentes. A EFICÁCIA PROBATÓRIA DOS LIVROS EMPRESARIAIS Os livros empresariais são documentos que possuem força probante, podendo-se dele extrair a exigência de relações contratuais, o seu respectivo adimplemento ou inadimplemento, eventual fraude contábil, entre outros elementos. É por isso que a lei determina que os livros empresariais devem ser conservados enquanto não ocorrer prescrição ou decadência no tocante aos atos nele consignados (art. 1.194, Código Civil). Ainda sobre o tema, dispõe o art. 378 do CPC73 que “Os livros comerciais provam contra o seu autor. É lícito ao comerciante, todavia, demonstrar, por todos os meios permitidos em direito, que os lançamentos não correspondem à verdade dos fatos”. Em contrapartida, os livros comerciais corretamente escriturados “provam também a favor do seu autor no litígio entre comerciantes” (art. 379). A regularidade da escrituração exige a obediência a requisitos intrínsecos e extrínsecos. Requisitos intrínsecos – estão previstos no art. 1.183 do Código Civil, quais sejam a escrituração feita em idioma e moeda corrente nacionais e em forma contábil, por ordem cronológica de dia, mês e ano, sem intervalos em branco, nem entrelinhas, borrões, rasuras, emendas ou transportes para as margens; Requisitos extrínsecos – são o termo de abertura e de encerramento, bem como a autenticação da Junta Comercial. DIREITO EMPRESARIAL Registro do empresário e Junta Comercial DIREITO EMPRESARIAL Registro do empresário e Junta Comercial ESTABELECIMENTO INTRODUÇÃO Art. 1.142. Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária. O empresário, individual ou em forma de sociedade, exercerá a empresa (atividade) através da constituição de um estabelecimento, isto é, de um conjunto de bens que o empresário ou a sociedade empresária utiliza para a realização da sua atividade. O conceito de estabelecimento não se confunde com o conceito de patrimônio. Enquanto patrimônio constitui o conjunto de direitos e obrigações economicamente relevantes, o estabelecimento se limita aos bens e direitos afetados à atividade empresarial (ponto empresarial, máquinas, utensílios, marca, aviamento etc.). NATUREZA JURÍDICA DO ESTABELECIMENTO O estabelecimento comercial é uma universalidade de fato (art. 90 do Código Civil), organizada pelo empresário, que receberá uma tutela específica do ordenamento jurídico, sem que os bens que componham o estabelecimento percam a sua tutela individual.[36: Art. 90. Constitui universalidade de fato a pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária.] ESTABELECIMENTO COMO OBJETO UNITÁRIO DE DIREITO Art. 1.143. Pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, translativos ou constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza. NEGÓCIOS JURÍDICOS TRANSLATIVOS: TRESPASSE Trespasse é o contrato que tem por objeto a venda do estabelecimento empresarial. Os débitos do empresário ou da sociedade não podem ser considerados bens do estabelecimento (exceto os trabalhistas e fiscais). Logo, na hipótese de alienação do estabelecimento, a regra é que o adquirente não responde pelo passivo, salvo aqueles regularmente contabilizado, isto é, as obrigações assumidas pelo alienante e que constam expressamente do contrato de trespasse ou estejam escriturados nos livros obrigatórios do empresário. Art. 1.146. O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento. Como foi dito, acompanham o estabelecimento os débitos de natureza trabalhista (art. 448 da CLT) e tributária (art. 133 do CTN). Eventual cláusula no contrato de trespasse transferindo esses encargos ao adquirente produzirá efeitos apenas entre as partes, não sendo oponível a terceiros (os empregados, o Fisco). Exceção: quando o trespasse se der em processo falimentar, por previsão expressa do art. 141, inciso II, da Lei n° 11.101/05 – LFR, e no processo de recuperação judicial, por previsão do art. 60, parágrafo único, da mesma lei, quanto às obrigações tributárias, e por construção jurisprudencial (STF) quanto às obrigações trabalhistas.[37: LFR, Art. 141. Na alienação conjunta ou separada de ativos, inclusive da empresa ou de suas filiais, promovida sob qualquer das modalidades de que trata este artigo: (...) II – o objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematante nas obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária, as derivadas da legislação do trabalho e as decorrentes de acidentes de trabalho.][38: Art. 60. Se o plano de recuperação judicial aprovado envolver alienação judicial de filiais ou de unidades produtivas isoladas do devedor, o juiz ordenará a sua realização, observado o disposto no art. 142 desta Lei. Parágrafo único. O objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematante nas obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária, observado o disposto no § 1º do art. 141 desta Lei.] Cláusula de não restabelecimento Art. 1.147. Não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subsequentes à transferência. A regra é que o alienante de estabelecimento empresarial não pode restabelecer-se no mesmo ramo de atividade nos cinco anosseguintes à celebração do contrato de trespasse, salvo quando constar do contrato de trespasse autorização expressa. A cláusula de não concorrência decorre do princípio da boa-fé objetiva nas relações contratuais e alcança a fase pós-contratual, sendo mais abrangente que o art. 442, que cria uma cláusula geral de boa-fé contratual, mas se limita às fases de negociação, conclusão e execução do contrato, não alcançando a fase pós-contratual. O objetivo da cláusula é evitar o desvio da clientela em detrimento do empresário-adquirente. Nada impede, porém, que as partes estipulem no contrato de trespasse que o alienante pode se restabelecer a qualquer momento, ou que o prazo de abstenção será menor ou maior que cinco anos. Quanto à possibilidade de estipulação de prazo maior, o CJF/STJ aprovou o enunciado n° 489 com redação no sentido de que a ampliação do prazo de não concorrência, quando abusivo, pode ser revisto judicialmente. As partes podem inserir no contrato uma cláusula de raio, que determinará o espaço geográfico dentro do qual o alienante fica proibido de se restabelecer. Não havendo tal cláusula, o Tribunal de Justiça de São Paulo entende que o espaço geográfico dependerá do tipo de atividade empresarial e da clientela. Exemplo: uma padaria tem a clientela restrita ao bairro; uma empresa revendedora de autopeças pela internet atua em todo o país. Para o CADE, a cláusula de não concorrência é vista com muita cautela, porquanto configura disposição contratual que impede a concorrência entre agentes econômicos. Em linhas gerais, o entendimento do CADE tem sido de que as cláusulas de não concorrência são válidas, desde que: (i) sejam medidas auxiliares ao negócio principal (acessoriedade); (ii) sirvam de garantia da viabilidade negocial (instrumentalidade); e (iii) submetam-se a parâmetros mínimos fixados pelo Conselho, notadamente relacionados aos limites material, territorial e temporal da cláusula. SUB-ROGAÇÃO NOS CONTRATOS Art. 1.148. Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não tiverem caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em noventa dias a contar da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a responsabilidade do alienante. A regra é que todos os contratos relacionados ao estabelecimento (de trabalho, de fornecimento etc.) serão transferidos ao adquirente. O art. 1.148 cria uma hipótese de sub-rogação legal. As exceções são os contratos de caráter pessoal (obrigações intuito personae), tais como a fiança, a franquia, concessionária etc., que só serão transferidos ao adquirente se houver concordância do terceiro. Se tiverem motivo justo, os terceiros que possuíam relação jurídica contratual com o alienante do estabelecimento poderão rescindir o contrato, se o fizerem no prazo de 90 dias, contados da publicação do trespasse. ELEMENTOS QUE INTEGRAM O ESTABELECIMENTO O estabelecimento é formado por elementos corpóreos e incorpóreos. Os corpóreos recebem a tutela direta do direito civil e do direito penal. Interessa para o direito empresarial o estudo dos elementos incorpóreos: (i) nome empresarial; (ii) título de estabelecimento; Nome empresarial Art. 1.164. O nome empresarial não pode ser objeto de alienação. Parágrafo único. O adquirente de estabelecimento, por ato entre vivos, pode, se o contrato o permitir, usar o nome do alienante, precedido do seu próprio, com a qualificação de sucessor. O nome empresarial é o nome que consta do registro da sociedade (ex: Empresa Brasileira de Distribuição”. Pão de Açúcar e Extra são títulos de estabelecimento) Como foi dito, o nome empresarial não pode ser alienado. Entretanto, o parágrafo único do art. 1.164 permite que, em caso de trespasse, se houver cláusula permitindo, o adquirente poderá usar o nome do alienante, desde que precedido do seu próprio nome e com a qualificação de sucessor. Isso não é vender, é permitir o uso. Título de estabelecimento Já o título do estabelecimento (ex: Pão de Açúcar), que identifica o estabelecimento empresarial – mais precisamente o local onde o empresário oferece os seus produtos – pode ser alienado. Não existe hoje em dia um órgão próprio para a proteção do título do estabelecimento, isto é, para o registro. Não pode ser registrado na Junta Comercial nem no INPI, sendo que a única forma de proteger o título é registrá-lo como marca. Apesar disso, o art. 191 da Lei n° 9.279/96 – Lei de Propriedade Industrial – considera crime utilizar título de estabelecimento alheio. [39: Art. 191. Reproduzir ou imitar, de modo que possa induzir em erro ou confusão, armas, brasões ou distintivos oficiais nacionais, estrangeiros ou internacionais, sem a necessária autorização, no todo ou em parte, em marca, título de estabelecimento, nome comercial, insígnia ou sinal de propaganda, ou usar essas reproduções ou imitações com fins econômicos. Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) meses, ou multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem vende ou expõe ou oferece à venda produtos assinalados com essas marcas.] Ponto empresarial O ponto empresarial é o local onde o empresário oferece seus produtos ou serviços e não se confunde com a propriedade onde está inserido. Enquanto o bem imóvel é um bem corpóreo que recebe proteção do direito civil e do direito penal, o ponto é um bem incorpóreo protegido pelo direito empresarial, através de instrumentos como a ação renovatória. A ação renovatória é o meio legal da tutela do ponto, que obriga o locador a renovar compulsoriamente a locação e, em certos casos, permite que o locatário seja indenizado pela perda do ponto. São requisitos para a propositura da ação renovatória, previstos no artigo 51 da Lei n° 8.245/91: Contrato escrito e por prazo determinado – o contrato de locação por prazo indeterminado (originário ou por renovação tácita) não protege o ponto empresarial. O contrato deve ter prazo de 5 anos – é admitida a soma de contratos anteriores, entre as mesmas partes (renovação de contratos com prazo menor que 5 anos) ou no caso de sucessão empresarial. Só não pode ter havido interrupção na locação. Exercício da mesma atividade nos últimos 3 anos – é a formação da clientela que fundamenta a norma de proteção ao ponto. Na jurisprudência, admite-se que a atividade seja similar. Quanto ao requisito temporal, o período contratual de 5 anos exigido pela legislação não precisa ter sido obtido por meio de um único contrato, podendo ser alcançado também pela soma dos prazos de vários contratos escritos, desde que a relação contratual não tenha sofrido interrupção. A lei ainda estende a proteção do ponto ao cessionário ou sucessor da locação (art. 51, § 1°). Não sendo sucessor, incidirá a Súmula n° 482/STF: “o locatário que não for sucessor não pode somar os prazos de locação para pedir a renovação compulsória”. O prazo propositura da ação renovatória começa no último ano de contrato e termina com seis meses do final. Nos termos do art. 51, § 5°: “Do direito a renovação decai aquele que não propuser a ação no interregno de um ano, no máximo, até seis meses, no mínimo, anteriores à data da finalização do prazo do contrato em vigor”. Segundo o art. 71 da Lei de Locações, “além dos demais requisitos exigidos no art. 282 do Código de Processo Civil [requisitos da petição inicial], a petição inicial da ação renovatória deverá ser instruída com: I - prova do preenchimento dos requisitos dos incisos I, II e III do art. 51; [40: Art. 51. Nas locações de imóveis destinados ao comércio, o locatário terá direito a renovação do contrato, por igual prazo, desde que, cumulativamente: I - o contrato a renovar tenha sido celebrado por escrito e com prazo determinado; II - o prazo mínimo do contrato a renovar ou a soma dos prazos ininterruptos dos contratos escritos seja de cinco anos; III - o locatário esteja explorando seu comércio, no mesmo ramo, pelo prazo mínimo e ininterrupto de três anos.] II - provado exato cumprimento do contrato em curso; III - prova da quitação dos impostos e taxas que incidiram sobre o imóvel e cujo pagamento lhe incumbia; IV - indicação clara e precisa das condições oferecidas para a renovação da locação; V – indicação do fiador quando houver no contrato a renovar e, quando não for o mesmo, com indicação do nome ou denominação completa, número de sua inscrição no Ministério da Fazenda, endereço e, tratando-se de pessoa natural, a nacionalidade, o estado civil, a profissão e o número da carteira de identidade, comprovando, desde logo, mesmo que não haja alteração do fiador, a atual idoneidade financeira; VI - prova de que o fiador do contrato ou o que o substituir na renovação aceita os encargos da fiança, autorizado por seu cônjuge, se casado for; VII - prova, quando for o caso, de ser cessionário ou sucessor, em virtude de título oponível ao proprietário. Julgada improcedente a ação renovatória, havendo na contestação pedido do locador, deverá o juiz fixar o prazo de até seis meses para a desocupação do imóvel, contados a partir do trânsito em julgado da respectiva sentença.[41: STJ, REsp 996.621/BA, 2008.] O Superior Tribunal de Justiça já decidiu que a renovação deve ser feita pelo mesmo prazo do último contrato e que o prazo máximo de renovação é de cinco anos.[42: REsp 182.713/RS, 1999; REsp 693.729/MG, 6ª T, 2006; REsp 267.129/RJ, 5ª T, 2000; REsp 962.945/MG, 6ª T, 2008. ] O direito à renovação compulsória não é absoluto, encontrando limites na própria Lei n° 8.245/91. São cinco os fundamentos para o locador recusar a renovação do contrato: Quando o locatário fizer uma proposta insuficiente para a renovação do contrato de aluguel (art. 72, inciso II, da Lei) – o locador não será obrigado a renovar o contrato, desde que apresente em contraproposta as condições de locação que repute compatíveis com o valor locativo real e atual do imóvel (art. 72, § 1°). Já decidiu o STJ que o juiz não poderá apoiar-se em resultado pericial para arbitrar aluguel superior (em ação de majoração) nem inferior (em ação de redução) àquele pretendido pela parte e explicitamente indicado em sua petição inicial, sob pena de prolatar sentença ultra petita. Para o STJ, deverão ser consideradas eventuais benfeitorias realizadas no imóvel pelo próprio locatário, pois incorporadas ao domínio do locador proprietário, sob pena de privilegiar o enriquecimento ilícito.[43: STJ, REsp 767.300/MG, 2007.][44: EREsp 172.791/PR, 3ª S, 2000.] Quando o locador possuir proposta de aluguel feita por terceiro, em melhores condições que a proposta do locatário (art. 72, inciso III) - “o locador deverá juntar prova documental da proposta do terceiro, subscrita por este e por duas testemunhas, com clara indicação do ramo a ser explorado, que não poderá ser o mesmo do locatário. Nessa hipótese, o locatário poderá, em réplica, aceitar tais condições para obter a renovação pretendida” (art. 72, § 2°). Embora possa retomar o imóvel na hipótese de melhor proposta, o locador ficará obrigado a indenizar o locatário pela perda do ponto (§ 3), em montante suficiente para ressarcir os prejuízos e os lucros cessantes que o locatário tiver que arcar com mudança, perda do lugar e desvalorização do estabelecimento comercial. Quando o locador precisar fazer uma reforma substancial no imóvel locado, por determinação do Poder Público, ou para aumentar o valor do negócio ou da propriedade (art. 52, inciso I) - “a contestação deverá trazer prova da determinação do Poder Público ou relatório pormenorizado das obras a serem realizadas e da estimativa de valorização que sofrerá o imóvel, assinado por engenheiro devidamente habilitado” (art. 72, § 3°). Quando o locador desejar o imóvel para utilizá-lo ele próprio (art. 52, II, 1ª parte); Quando o locador desejar transferir fundo de comércio existente há mais de um ano, sendo detentor da maioria do capital o locador, seu cônjuge, ascendente ou descendente – retomado o imóvel, este não poderá ser destinado ao uso do mesmo ramo explorado pelo locatário, salvo se a locação também envolvia o fundo de comércio, com as instalações e pertences – a chamada locação-gerência (art. 52, § 1°). Por fim, o artigo 52, § 3° dispõe que, nas últimas três hipóteses – reforma substancial, uso próprio e transferência de estabelecimento empresarial -, o locador terá o prazo de 3 meses para dar ao imóvel a destinação alegada ou para iniciar as obras determinadas pelo Poder Público, sob pena de ter que indenizar o locatário pelos prejuízos e lucros cessantes que tiver que arcar com a mudança, perda do lugar e desvalorização do estabelecimento empresarial (art. 52, § 3°), salvo caso fortuito ou força maior. Não ocorrendo a providência alegada pelo locador, o locatário poderá exigir indenização do, conforme já decidiu o STJ.[45: REsp 594.637/SP, 5ª T, 2006.] A SUCESSÃO EMPRESARIAL Art. 1.146. O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento. Pode-se concluir que o adquirente do estabelecimento empresarial responde solidariamente pelas dívidas existentes regulamente contabilizadas, contraídas pelo alienante, com dois prazos distintos: Dívidas vencidas: um ano após a publicação do contrato de trespasse; Dívidas vincendas: um ano após o vencimento da dívida. Dívidas tributárias ou trabalhistas – não se aplica o disposto no art. 1.146 do Código Civil, uma vez que a sucessão tributária e a sucessão trabalhista possuem regimes jurídicos próprios, previstos em legislação específica (arts. 133 do CTN e art. 448 da CLT).[46: CTN - Art. 133. A pessoa natural ou jurídica de direito privado que adquirir de outra, por qualquer título, fundo de comércio ou estabelecimento comercial, industrial ou profissional, e continuar a respectiva exploração, sob a mesma ou outra razão social ou sob firma ou nome individual, responde pelos tributos, relativos ao fundo ou estabelecimento adquirido, devidos até à data do ato: I - integralmente, se o alienante cessar a exploração do comércio, indústria ou atividade; II - subsidiariamente com o alienante, se este prosseguir na exploração ou iniciar dentro de seis meses a contar da data da alienação, nova atividade no mesmo ou em outro ramo de comércio, indústria ou profissão.][47: CLT - Art. 448 - A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados.] Por fim, o art. 141, II, da Lei de Falência determina que a alienação do estabelecimento empresarial feita em processo de falência ou de recuperação judicial não acarreta, para o adquirente do estabelecimento, nenhum ônus, isto é, o adquirente não responderá pelas dívidas anterior do alienante, inclusive dívidas tributárias e trabalhistas. CLÁUSULA DE NÃO CONCORRÊNCIA Art. 1.147. Não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subsequentes à transferência. Parágrafo único. No caso de arrendamento ou usufruto do estabelecimento, a proibição prevista neste artigo persistirá durante o prazo do contrato. No passado, um famoso julgamento do STF que teve como advogados das partes adversárias os juristas Carvalho de Mendonça e Rui Barbosa resultou no afastamento da cláusula de concorrência. Porém, a jurisprudência acabou consolidando-se em sentido oposto, com o entendimento de que, mesmo na ausência de cláusula contratual expressa, o alienante tem a obrigação contratual implícita de não fazer concorrência ao adquirente do estabelecimento empresarial. A AVALIAÇÃO DO ESTABELECIMENTO E A DUE DILLIGENCE Em regra, os contratos de trespasse passam por um longo período de tratativas até que o negócio se concretize, devido à sua complexidade. Esse período é chamado comumente de due dilligence(devida diligência), que significa basicamente o procedimento de análise dos documentos, da contabilidade, dos contratos, das informações etc. de um determinado empresário ou sociedade empresária, geralmente com o intuito de aferir o “valor da empresa” (valuation). De todos os métodos existentes para a avaliação do estabelecimento empresarial, o mais usado e que melhor exprime o real “valor da empresa” é o método de fluxo de caixa descontado (Oral TJSP), o qual é feito da seguinte forma: pegam-se os fluxos de caixa futuros que se esperam do empresário ou sociedade empresária que está sendo avaliada e depois se tenta chegar ao valor presente desses fluxos de caixa, por meio da aplicação de uma taxa de desconto. AVIAMENTO E CLIENTELA Aviamento significa, em síntese, a aptidão que um determinado estabelecimento possui para gerar lucros ao exercente da empresa; é qualidade ou atributo que vai influir sobremaneira na sua valoração econômica. A doutrina ainda costuma subdividir o aviamento em: objetivo, ou real, quando derivado de condições objetivas (v.g., local do ponto); e subjetivo, ou pessoal, quando derivado de condições subjetivas, ligadas às qualidades pessoais do empresário. É em função do aviamento, sobretudo, que se calcula o valor de um estabelecimento empresarial, como dito acima. Para exemplificar, a Microsoft, em 1999, atingiu o valor de mercado de US$ 507,5 bilhões, sendo a mais cara da história. Todavia, seus ativos reais e eram de apenas US$ 11 bilhões e o faturamento anual era de US$ 15 bilhões, bem menor que o valor de mercado, sendo a 127° maior empresa do mundo. A importância do aviamento é tão grande que o Superior Tribunal de Justiça já decidiu que mesmo uma empresa temporariamente inativa deve ser avaliada levando-se em conta o seu potencial aviamento. [48: STJ, REsp 704.726/RS, 2ª T, 2005. ] A clientela, por sua vez, é o conjunto de pessoas que mantêm com o empresário ou sociedade empresária relações jurídicas constantes. Assim como o aviamento, a clientela não é um elemento do estabelecimento, mas apenas uma qualidade ou atributo deste. OUTRAS NORMAS SOBRE TRANSFERÊNCIA ESTABELECIMENTO PREVISTAS NO CÓDIGO CIVIL Art. 1.148. Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não tiverem caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em noventa dias a contar da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a responsabilidade do alienante. Uma discussão polêmica que surge desse dispositivo diz respeito ao contrato de locação. Para André RAMOS, a locação de imóvel é dotada de “caráter pessoal”, ou seja, é intuitu personæ. Portanto, deve-se entender necessária a concordância prévia do locador do imóvel onde se situa o ponto do negócio para que o adquirente do estabelecimento suceda o alienante como locatário. O mesmo vale para o contrato de prestação de serviços específicos (ex: advocacia), que por possuir caráter pessoal não se transmite ao adquirente do estabelecimento empresarial. Art. 1.149. A cessão dos créditos referentes ao estabelecimento transferido produzirá efeito em relação aos respectivos devedores, desde o momento da publicação da transferência, mas o devedor ficará exonerado se de boa-fé pagar ao cedente Efetuada a transferência, a partir do registro no órgão competente (art. 1.044), cabe aos devedores pagar ao adquirente do estabelecimento. Caso esses devedores paguem ao alienante, poderá o adquirente exigir-lhe a quantia da recebeu indevidamente. PROTEÇÃO AO PONTO DE NEGÓCIO (LOCAÇÃO EMPRESARIAL) Ponto de negócio é o local em que o empresário exerce sua atividade e se encontra com a sua clientela. Nos dias atuais, não se deve entender o ponto de negócio apenas como local físico, em função da proliferação dos negócios via internet, chamado de ponto empresarial virtual. Sendo o ponto de negócio um dos mais relevantes elementos do estabelecimento empresarial, o ordenamento jurídico lhe confere uma proteção especial, que se manifesta, sobretudo, quando o ponto é alugado, caracterizando-se pela possibilidade de o empresário locatário permanecer no imóvel locado mesmo contra a vontade do locador. Isso ocorre porque a lei confere ao empresário locatário, quando preenchidos os requisitos legais, o direito à renovação compulsória do contrato de aluguel. SHOPPING CENTER A doutrina diverge acerca da natureza jurídica do contrato de shopping center, dadas as suas peculiaridades. André RAMOS entende que se trata de contrato de locação sui generis. Todavia, o entendimento majoritário é de que se trata de contrato atípico misto, ensejando a locação de bens e serviços, conforme decisão proferida pelo Superior Tribunal de Justiça. [49: REsp 178.908/CE, 2ª T, 2000.] A legislação admite a propositura de ação renovatória nos contratos de locação de espaços em shopping centers. Nesse caso, o locador não poderá recusar a renovação do contrato com fundamento no inciso II do art. 52 – para “ser utilizado por ele próprio ou para transferência de fundo de comércio existente há mais de um ano, sendo detentor da maioria do capital o locador, seu cônjuge, ascendente ou descendente” (§ 2°). CLÁUSULA DE RAIO NOS SHOPPING CENTERS Esta cláusula é comumente utilizada nos contratos de shopping centers e vem sendo admitida nos tribunais brasileiros. No entanto, o CADE entendeu que em alguns casos ela viola o princípio da livre concorrência, por configurar prática anticompetitiva. RESUMO DE DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Estabelecimento DIREITO EMPRESARIAL Estabelecimento DIREITO DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL INTRODUÇÃO A organização do complexo de bens pelo empresário para iniciar o exercício de uma atividade econômica (empresa) demanda a organização não apenas dos bens materiais, mas também os bens imateriais, assim compreendidos os desenhos industriais, as marcas, invenções, modelos de utilidade etc. Esses bens imateriais que compõem o estabelecimento empresarial são tão importantes que o ordenamento jurídico confere a eles uma tutela jurídica especial, agrupada no chamado direito de propriedade industrial, compreendendo o conjunto de regras e princípios que conferem tutela jurídica específica aos elementos imateriais do estabelecimento empresarial, como as marcas e desenhos industriais registrados e as invenções e modelos de utilidade patenteados. DIREITO DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL X DIREITO DE PROPRIEDADE INTELECTUAL O direito de propriedade intelectual é espécie do direito de propriedade industrial, gênero que abrange também o direito autoral e, segundo alguns autores, o direito antitruste. Os dois direitos têm em comum a proteção de bens imateriais (é isso que os insere em um mesmo ramo), com a diferença fundamental que o direito autoral protege a obra em si, enquanto o direito de propriedade industrial protege uma técnica. HISTÓRICO DO DIREITO DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL Somente após a Revolução Industrial é que se percebeu a real importância de conferir proteção aos direitos de propriedade industrial, o que acabou provocando a realização de um grande encontro de nações – a Convenção de Paris, formada pela primeira vez em 1883 com a finalidade de tentar harmonizar e uniformizar o sistema internacional de proteção à propriedade industrial. No Brasil, as Constituições sempre conferiram proteção à propriedade industrial. A Constituição de 1988, mantendo a tradição, cuidou dos direitos de propriedade industrial. Dispõe o art. 5°, XXIX, que “a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País”. Mais recentemente, foi celebrado o Acordo TRIPS – iniciais em inglês do Tratado Internacional integrantes de um conjuntode acordos assinados em 1994 que encerraram a conhecida Rodada Uruguai, dando origem à Organização Mundial do Comércio. O Brasil ratificou o Acordo TRIPS por meio do Decreto Legislativo n° 30/94 e o promulgou pelo Decreto n° 1.355/94. Dentre os termos do Acordo, ficou acertado que os países em desenvolvimento, dentre os quais o Brasil, teriam cinco anos de vacatio legis. O STJ chegou a entender que o Acordo TRIPS tinha aplicação imediata, porque o Brasil não concordou expressamente com esse Vacatio, mas acabou modificando seu entendimento, reconhecendo o período de vacância de cinco anos para o acordo ter vigência no Brasil.[50: REsp 661.536/RJ, 3ª T, 2005.] HISTÓRICO DO DIREITO DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL O art. 5°, XXIX, da CF/88 foi regulamentado pela Lei n° 9.279/96 - Lei de Propriedade Industrial, que regulou os direitos e obrigações relativos à propriedade industrial no Brasil, estabelecendo no art. 2° que “a proteção dos direitos relativos à propriedade industrial, considerado o seu interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País, efetua-se mediante: I - concessão de patentes de invenção e de modelo de utilidade; II - concessão de registro de desenho industrial; III - concessão de registro de marca; IV - repressão às falsas indicações geográficas; e V - repressão à concorrência desleal”. PRINCÍPIOS DA PROPRIEDADE INTELECTUAL Em função da adoção dos preceitos da Convenção de Paris pela legislação brasileira, a Lei n° 9.279/96 contemplou dois princípios: Princípio da prioridade – dispõe art. 3°, inciso I, da Lei: “Aplica-se também o disposto nesta Lei (...) ao pedido de patente ou de registro proveniente do exterior e depositado no País por quem tenha proteção assegurada por tratado ou convenção em vigor no Brasil”; Princípio da assimilação – está contido no artigo 3°, inciso II, da Lei: “Aplica-se também o disposto nesta Lei (...) aos nacionais ou pessoas domiciliadas em país que assegure aos brasileiros ou pessoas domiciliadas no Brasil a reciprocidade de direitos iguais ou equivalentes”. BENS MÓVEIS POR EQUIPARAÇÃO LEGAL Art. 5º Consideram-se bens móveis, para os efeitos legais, os direitos de propriedade industrial. INSTITUTO NACIONAL DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL – INPI Lei n° 5.648/70 Art. 2° O INPI tem por finalidade principal executar, no âmbito nacional, as normas que regulam a propriedade industrial, tendo em vista a sua função social, econômica, jurídica e técnica, bem como pronunciar-se quanto à conveniência de assinatura, ratificação e denúncia de convenções, tratados, convênios e acordos sobre propriedade industrial. Os direitos de propriedade industrial no Brasil são concedidos pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial – INPI, autarquia federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento. De acordo com a jurisprudência do STJ, as ações contra o INPI são de competência da Justiça Federal do Rio de Janeiro, em razão de ser o INPI autarquia da União e sua sede ser naquela cidade. A exceção fica por conta do art. 46, § 4°, do NCPC, que permite ao autor, no caso de litisconsórcio passivo, escolher o domicílio de qualquer dos demandados. PATENTES DE INVENÇÃO E DE MODELO DE UTILIDADE A proteção da invenção e do modelo de utilidade se dá mediante a concessão de patente, instrumentalizada pela respectiva carta-patente. A invenção e o modelo de utilidade podem ser chamados de inventos. CONCEITO E REQUISITOS Invenção A Lei de Propriedade Industrial não contém a definição de invenção, muito em razão da dificuldade de se formular um conceito abrangente e ao mesmo tempo em razão da noção razoavelmente difundida na sociedade. Pode-se dizer que invenção é o “ato original decorrente da atividade criativa do ser humano”. A Lei limitou-se a afirmar que “é patenteável a invenção que atenda aos requisitos de novidade, atividade inventiva e aplicação industrial” (art. 8°). Modelo de utilidade Art. 9º É patenteável como modelo de utilidade o objeto de uso prático, ou parte deste, suscetível de aplicação industrial, que apresente nova forma ou disposição, envolvendo ato inventivo, que resulte em melhoria funcional no seu uso ou em sua fabricação. Requisitos comuns de patenteabilidade Para que o autor de uma invenção ou de um modelo de utilidade obtenha a proteção jurídica ao seu invento, deverá demonstrar o preenchimento dos seguintes requisitos de patenteabilidade: Novidade – nos termos do artigo 11 da Lei, “A invenção e o modelo de utilidade são considerados novos quando não compreendidos no estado da técnica”. Em outras palavras, um determinado invento (invenção ou modelo de utilidade) atenderá ao requisito da novidade quando constituir algo desconhecido até mesmo para a comunidade científica especializada na respectiva área de conhecimento. Atividade inventiva – dispõe o artigo 13: “A invenção é dotada de atividade inventiva sempre que, para um técnico no assunto, não decorra de maneira evidente ou óbvia do estado da técnica” (non-obviousness). Aplicação industrial – o artigo 15 estabelece que “A invenção e o modelo de utilidade são considerados suscetíveis de aplicação industrial quando possam ser utilizados ou produzidos em qualquer tipo de indústria”. Licitude – dispõe o artigo 18: “Não são patenteáveis: I - o que for contrário à moral, aos bons costumes e à segurança, à ordem e à saúde públicas; II - as substâncias, matérias, misturas, elementos ou produtos de qualquer espécie, bem como a modificação de suas propriedades físico-químicas e os respectivos processos de obtenção ou modificação, quando resultantes de transformação do núcleo atômico; e III - o todo ou parte dos seres vivos, exceto os microorganismos transgênicos que atendam aos três requisitos de patenteabilidade - novidade, atividade inventiva e aplicação industrial - previstos no art. 8º e que não sejam mera descoberta”. Note que o artigo 18 trata de inventos que, embora preencham os requisitos novidade, atividade inventiva e aplicação industrial, não interessam ao direito ser preservados como criação intelectual. Não se confunde com o rol do artigo 10, que estabelece o que “Não se considera invenção nem modelo de utilidade”, mas que eventualmente poderão ser protegidos de outra maneira. É o caso dos “programas de computador em si”. Embora expressamente excluídos da proteção da LPI por não serem considerados inventos (art. 10, inciso V), são protegidos pela Lei de Direitos Autorais - Lei n° 9.610/98. PROCEDIMENTO DO PEDIDO DE PATENTE O ato de concessão da carta-patente é precedido de um procedimento administrativo burocrático e muitas vezes lento, que perdura por diversos anos. LEGITIMIDADE DO AUTOR DO PEDIDO DE PATENTE Art. 6º Ao autor de invenção ou modelo de utilidade será assegurado o direito de obter a patente que lhe garanta a propriedade, nas condições estabelecidas nesta Lei. § 1º Salvo prova em contrário, presume-se o requerente legitimado a obter a patente. § 2º A patente poderá ser requerida em nome próprio, pelos herdeiros ou sucessores do autor, pelo cessionário ou por aquele a quem a lei ou o contrato de trabalho ou de prestação de serviços determinar que pertença a titularidade. § 3º Quando se tratar de invenção ou de modelo de utilidade realizado conjuntamente por duas ou mais pessoas, a patente poderá ser requerida por todas ou qualquer delas, mediante nomeação e qualificação das demais, para ressalva dos respectivos direitos. Precedência do depósito mais antigo Art. 7º Se dois ou mais autores tiverem realizado a mesma invenção ou modelo de utilidade, de forma independente, o direito de obter patente será assegurado àquele que provar o depósito mais antigo, independentemente das datas de invenção ou criação. O depósito da invenção ou modelo de utilidade tem efeito constitutivo, assegurando à propriedade industrial a efetiva proteção a partir do ato, “independentemente das datas de invenção ou criação”. Em suma: terá direito à patente aquele que primeiro depositar o invento no INPI. Difere-se do direito autoral, regido pela Lei n° 9.610/98,segundo a qual a proteção ao direito autoral é conferida desde o momento da criação e “independe de registro”, que terá efeito meramente declaratório. O invento realizado por funcionários do empresário Art. 88. A invenção e o modelo de utilidade pertencem exclusivamente ao empregador quando decorrerem de contrato de trabalho cuja execução ocorra no Brasil e que tenha por objeto a pesquisa ou a atividade inventiva, ou resulte esta da natureza dos serviços para os quais foi o empregado contratado. § 1º Salvo expressa disposição contratual em contrário, a retribuição pelo trabalho a que se refere este artigo limita-se ao salário ajustado. § 2º Salvo prova em contrário, consideram-se desenvolvidos na vigência do contrato a invenção ou o modelo de utilidade, cuja patente seja requerida pelo empregado até 1 (um) ano após a extinção do vínculo empregatício. Todavia, é permitido a quem seja empregado de empresa produzir seus próprios inventos, “desde que desvinculado do contrato de trabalho e não decorrente da utilização de recursos, meios, dados, materiais, instalações ou equipamentos do empregador” (art. 90). Nesta hipótese, a invenção ou o modelo de utilidade pertencerá exclusivamente ao empregado. Eventualmente, o invento poderá ser considerado comum do empregador e do empregado, em partes iguais, “quando resultar da contribuição pessoal do empregado e de recursos, dados, meios, materiais, instalações ou equipamentos do empregador, ressalvada expressa disposição contratual em contrário” (art. 91), mas mesmo assim será “garantido ao empregador o direito exclusivo de licença de exploração”, enquanto ao empregado será assegurada a justa remuneração (§ 2°), ou seja, o empregado não poderá explorar o invento de forma individual e autônoma. Já decidiu o STJ que o empregado poderá exigir remuneração ao empregador pela sua comprovada contribuição pessoal na realização do invento, ainda que a patente não tenha sido deferida, bastando que tenha havido o depósito do pedido. Encerrando o tema do artigo 91, dispõe o seu § 4º que “no caso de cessão, qualquer dos co-titulares, em igualdade de condições, poderá exercer o direito de preferência”. Exemplificando, o empregado que pretender ceder seus direitos de exploração da patente a terceiros deverá oferece-lo antes ao empregador, que poderá exercer a preempção. Todas essas regras se aplicam: (i) às relações entre o trabalhador autônomo ou o estagiário e a empresa contratante e entre empresas contratantes e contratadas (art. 92); e (ii) às entidades da Administração Pública, direta, indireta e fundacional, federal, estadual ou municipal (art. 93, caput), sendo assegurada ao inventor premiação de parcela no valor das vantagens auferidas com o pedido ou com a patente, a título de incentivo (art. 93, parágrafo único).[51: REsp 195.759/PR, 3ª T, 2000.] ANÁLISE DOS PEDIDOS DE PATENTEABILIDADE O procedimento de análise dos requisitos da patente se inicia com o depósito do pedido, cujo requerimento deverá ser instruído com relatório descritivo, reivindicações, desenhos, resumo e comprovante do pagamento da retribuição relativa ao depósito (art. 19). O pedido será submetido a exame formal preliminar e, estando devidamente instruído, o depósito será considerado realizado (art. 20), contando-se a partir dessa data a precedência do invento. Os arts. 22 e 23 determinam que “o pedido de patente de invenção terá de se referir a uma única invenção ou a um grupo de invenções inter-relacionadas de maneira a compreenderem um único conceito inventivo”, devendo “se referir a um único modelo principal, que poderá incluir uma pluralidade de elementos distintos, adicionais ou variantes construtivas ou configurativas, desde que mantida a unidade técnico-funcional e corporal do objeto”. Em suma: a proteção será conferida ao conceito inventivo, isto é, a ideia que norteia uma criação, ainda que a mesma envolva vários objetos que possam se inter-relacionar. O art. 24 estabelece requisito dirigido à verificação da industriabilidade do invento, ao prever que “o relatório deverá descrever clara e suficientemente o objeto, de modo a possibilitar sua realização por técnico no assunto e indicar, quando for o caso, a melhor forma de execução”. O pedido de patente poderá ser dividido em dois ou mais, de ofício pelo INPI ou a requerimento do depositante, até o final do exame, desde que o pedido dividido (i) faça referência específica ao pedido original e (ii) não exceda à matéria revelada constante do pedido original (art. 26). Em caso de divisão, os pedidos resultantes da divisão terão a data de depósito do pedido original (art. 27). Finalizando a fase de análise das condições do pedido, o art. 29 estabelece que “o pedido de patente retirado ou abandonado será obrigatoriamente publicado”. O direito de retirada do pedido de patente deverá ser apresentado em até 16 meses, contados da data do depósito ou da prioridade mais antiga (art. 29, § 1°). Após a fase da análise das condições do pedido, passa-se à fase do processo e exame do pedido. Feito o pedido dentro do que determina a lei, o INPI manterá o pedido de patente em sigilo durante o período de 18 meses, após o que determinará a publicação, constar dados identificadores do pedido de patente, ficando cópia do relatório descritivo, das reivindicações, do resumo e dos desenhos, salvo quando se tratar de patente de interesse da defesa nacional (arts. 30 e 75). O autor do pedido poderá requerer a antecipação da publicação, que será feita na Revista da Propriedade industrial (RPI), publicação oficial do INPI. Caso o empresário opte por busca a proteção ao seu invento, a partir da publicação caberá exclusivamente a ele providencias as diligências necessárias à fiscalização do uso indevido de sua criação e, consequentemente, requerer as medidas judiciais pertinentes. Em contrapartida, se optar pela exploração do invento em segredo de empresa, correrá o risco de um concorrente chegar ao mesmo resultado e requerer a proteção posteriormente. Como a proteção é assegurada àquele que primeiro requerer, e não necessariamente àquele que primeiro inventar, poderá acontecer de o concorrente passar a titularizar a patente da respectiva invenção e tentar impedi-lo de continuar explorando-a economicamente. Publicados os dados do pedido, para que o INPI examine o pedido de patente apresentado será necessário haver o requerimento de exame pelo depositante ou por qualquer interessado, no prazo de 36 meses, contados da data do depósito, sendo facultada a apresentação de documentos e informações , pelos interessados para subsidiarem o exame (art. 31, caput), sob pena de arquivamento (art. 33). O exame não será iniciado antes de decorridos 60 (sessenta) dias da publicação do pedido (art. 31, parágrafo único). Por “qualquer interessado” entende-se apenas pelo autor do pedido, mas também um empresário do ramo relacionado ao invento que vê a possibilidade futura de explorá-lo, por meio de licença da patente. Parece estranho e desnecessário, à primeira vista, que a LPI exija que o inventor, após o depósito e a posterior publicação do pedido, requeira o seu exame. A prática mostrou que não. Isso ocorre porque a velocidade do desenvolvimento tecnológico e científico atingiu um grau tão espetacular que, não raro, uma invenção é superada por outra em curtíssimo espaço de tempo, tornando-se obsoleta. Quando o parecer for pela não patenteabilidade ou pelo não enquadramento do pedido na natureza reivindicada ou formular qualquer exigência, o depositante será intimado para manifestar-se no prazo de 90 (noventa) dias (art. 36). Não respondida a exigência, o pedido será definitivamente arquivado (§ 1°). Todavia, respondida a exigência, ainda que não cumprida, ou contestada sua formulação, e havendo ou não manifestação sobre a patenteabilidade ou o enquadramento, dar-se-á prosseguimento ao exame (§ 2°). CONCESSÃO DA PATENTE Art. 37. Concluído o exame, será proferida decisão, deferindo ou indeferindo o pedido de patente. Dessa decisão não caberá recurso,segundo a sistemática recursal prevista nos arts. 212 a 215 da LPI. Comprovado o pagamento da retribuição correspondente, será expedida a respectiva carta-patente (art. 38, caput). Reputa-se concedida a patente na data de publicação do respectivo ato (§ 3°). VIGÊNCIA DA PATENTE Art. 40. A patente de invenção vigorará pelo prazo de 20 (vinte) anos e a de modelo de utilidade pelo prazo 15 (quinze) anos contados da data de depósito. Parágrafo único. O prazo de vigência não será inferior a 10 (dez) anos para a patente de invenção e a 7 (sete) anos para a patente de modelo de utilidade, a contar da data de concessão, ressalvada a hipótese de o INPI estar impedido de proceder ao exame de mérito do pedido, por pendência judicial comprovada ou por motivo de força maior. A proteção legal do invento é temporária. A proteção vigorará pelo seguinte prazo: Patente de invenção: 20 anos, contados do depósito, sendo no mínimo 10, contados da concessão da carta-patente; Modelo de utilidade: 15 anos, contados do depósito, sendo no mínimo 7, contados da concessão da carta-patente. Entenda a existência de dois prazos diferentes para a mesma parente: em regra, o prazo será contado da data do depósito. Ocorre que, por vezes, o processo de registro junto ao INPI demora tanto que o prazo acaba se exaurindo antes da concessão do registro, de modo que a lei assegurou período mínimo de exploração do invento. Assim, por exemplo, quando uma patente for concedida somente 15 anos depois do respectivo depósito, ela ainda terá vigência por mais 10 anos (e por 7 se fosse modelo de utilidade), após a sua concessão, e não por cinco anos. PROTEÇÃO CONFERIDA PELA PATENTE Art. 41. A extensão da proteção conferida pela patente será determinada pelo teor das reivindicações, interpretado com base no relatório descritivo e nos desenhos. Art. 42. A patente confere ao seu titular o direito de impedir terceiro, sem o seu consentimento, de produzir, usar, colocar à venda, vender ou importar com estes propósitos: I - produto objeto de patente; II - processo ou produto obtido diretamente por processo patenteado. § 1º Ao titular da patente é assegurado ainda o direito de impedir que terceiros contribuam para que outros pratiquem os atos referidos neste artigo. Ocorrerá violação de direito da patente de processo (inciso II) quando o possuidor ou proprietário não comprovar, mediante determinação judicial específica, que o seu produto foi obtido por processo de fabricação diverso daquele protegido pela patente (§ 2°). Art. 44. Ao titular da patente é assegurado o direito de obter indenização pela exploração indevida de seu objeto, inclusive em relação à exploração ocorrida entre a data da publicação do pedido e a da concessão da patente. § 1º Se o infrator obteve, por qualquer meio, conhecimento do conteúdo do pedido depositado, anteriormente à publicação, contar-se-á o período da exploração indevida para efeito da indenização a partir da data de início da exploração. Condutas que não violam a propriedade industrial Art. 43. O disposto no artigo anterior não se aplica: I - aos atos praticados por terceiros não autorizados, em caráter privado e sem finalidade comercial, desde que não acarretem prejuízo ao interesse econômico do titular da patente; II - aos atos praticados por terceiros não autorizados, com finalidade experimental, relacionados a estudos ou pesquisas científicas ou tecnológicas; III - à preparação de medicamento de acordo com prescrição médica para casos individuais, executada por profissional habilitado, bem como ao medicamento assim preparado; IV - a produto fabricado de acordo com patente de processo ou de produto que tiver sido colocado no mercado interno diretamente pelo titular da patente ou com seu consentimento; V - a terceiros que, no caso de patentes relacionadas com matéria viva, utilizem, sem finalidade econômica, o produto patenteado como fonte inicial de variação ou propagação para obter outros produtos; e VI - a terceiros que, no caso de patentes relacionadas com matéria viva, utilizem, ponham em circulação ou comercializem um produto patenteado que haja sido introduzido licitamente no comércio pelo detentor da patente ou por detentor de licença, desde que o produto patenteado não seja utilizado para multiplicação ou propagação comercial da matéria viva em causa. VII - aos atos praticados por terceiros não autorizados, relacionados à invenção protegida por patente, destinados exclusivamente à produção de informações, dados e resultados de testes, visando à obtenção do registro de comercialização, no Brasil ou em outro país, para a exploração e comercialização do produto objeto da patente, após a expiração dos prazos estipulados no art. 40. Tratamento legal do terceiro de boa-fé Art. 45. À pessoa de boa fé que, antes da data de depósito ou de prioridade de pedido de patente, explorava seu objeto no País, será assegurado o direito de continuar a exploração, sem ônus, na forma e condição anteriores. § 1º O direito conferido na forma deste artigo só poderá ser cedido juntamente com o negócio ou empresa, ou parte desta que tenha direta relação com a exploração do objeto da patente, por alienação ou arrendamento. § 2º O direito de que trata este artigo não será assegurado a pessoa que tenha tido conhecimento do objeto da patente através de divulgação na forma do art. 12, desde que o pedido tenha sido depositado no prazo de 1 (um) ano, contado da divulgação. NULIDADE DA PATENTE Art. 46. É nula a patente concedida contrariando as disposições desta Lei. Art. 47. A nulidade poderá não incidir sobre todas as reivindicações, sendo condição para a nulidade parcial o fato de as reivindicações subsistentes constituírem matéria patenteável por si mesmas. Art. 48. A nulidade da patente produzirá efeitos a partir da data do depósito do pedido. Art. 49. No caso de inobservância do disposto no art. 6º, o inventor poderá, alternativamente, reivindicar, em ação judicial, a adjudicação da patente. O artigo 49 permite que, na hipótese de preterição daquele que primeiro depositou o pedido de depósito, o autor da ação poderá requerer a adjudicação da patente no lugar de sua anulação. Anulação por processo administrativo Art. 50. A nulidade da patente será declarada administrativamente quando: I - não tiver sido atendido qualquer dos requisitos legais; II - o relatório e as reivindicações não atenderem ao disposto nos arts. 24 e 25, respectivamente; III - o objeto da patente se estenda além do conteúdo do pedido originalmente depositado; ou IV - no seu processamento, tiver sido omitida qualquer das formalidades essenciais, indispensáveis à concessão. Art. 51. O processo de nulidade poderá ser instaurado de ofício ou mediante requerimento de qualquer pessoa com legítimo interesse, no prazo de 6 (seis) meses contados da concessão da patente. Parágrafo único. O processo de nulidade prosseguirá ainda que extinta a patente. Nulidade por processo judicial Art. 56. A ação de nulidade poderá ser proposta a qualquer tempo da vigência da patente, pelo INPI ou por qualquer pessoa com legítimo interesse. § 1º A nulidade da patente poderá ser argüida, a qualquer tempo, como matéria de defesa. § 2º O juiz poderá, preventiva ou incidentalmente, determinar a suspensão dos efeitos da patente, atendidos os requisitos processuais próprios. Art. 57. A ação de nulidade de patente será ajuizada no foro da Justiça Federal e o INPI, quando não for autor, intervirá no feito. § 1º O prazo para resposta do réu titular da patente será de 60 (sessenta) dias. § 2º Transitada em julgado a decisão da ação de nulidade, o INPI publicará anotação, para ciência de terceiros. A ação de nulidade seguirá o procedimento comum do Código de Processo Civil, com as adaptações previstas nos dispositivos acima. O prazo para propositura da ação coincide com a vigência da patente, que correspondem aos prazos previstos no artigo 40 da Lei. Esse prazo parece valer também para quem seja réu em processo em que se discuta apatente poder alegar a nulidade dela como tese de defesa. Expirado o prazo, o prejudicado pela patente deverá buscar tutela reparatória, porém sem observar o procedimento especial da LPI. São legitimados para propositura da ação: (i) o INPI; e (ii) qualquer interessado, entendido como aquele que tenha direitos sobre o registro ou que tenha sofrido prejuízos em virtude dele. O sujeito passivo será o titular da patente. A suspensão dos efeitos da patente poderá ser determinada pelo juiz no curso do processo, quando presentes os pressupostos que justificam a concessão de medida cautelar (presença do periculum in mora e do fumus boni juris). A competência da Justiça Federal se justifica pelo interesse do INPI, autarquia federal, na correção de eventuais vícios existentes em seus registros. Quando não for autor da ação, o INPI atuará como interessado. O foro competente será a Seção Judiciária da Justiça Federal de 1° grau do Rio de Janeiro – RJ, em virtude de a sede do órgão estar situada naquela seção judiciária. Todavia, havendo litisconsórcio passivo, o autor poderá propor a ação do domicílio de qualquer um dos corréus, conforme dispõe o artigo 46, § 1°, do NCPC.[52: Art. 46 (...) § 1º Tendo mais de um domicílio, o réu será demandado no foro de qualquer deles.] CESSÃO DE DIREITOS Art. 58. O pedido de patente ou a patente, ambos de conteúdo indivisível, poderão ser cedidos, total ou parcialmente. Os direitos de propriedade industrial são considerados bens móveis para os efeitos legais. Havendo a cessão, ou outra alteração qualquer, cabe ao INPI fazer as respectivas anotações (art. 59). Note que a cessão poderá ocorrer mesmo que pendente a concessão da patente. LICENCIAMENTO DA PATENTE O licenciamento pode ser voluntário ou compulsório. Licenciamento voluntário Art. 61. O titular de patente ou o depositante poderá celebrar contrato de licença para exploração. Parágrafo único. O licenciado poderá ser investido pelo titular de todos os poderes para agir em defesa da patente. Art. 62. O contrato de licença deverá ser averbado no INPI para que produza efeitos em relação a terceiros. (...) Art. 63. O aperfeiçoamento introduzido em patente licenciada pertence a quem o fizer, sendo assegurado à outra parte contratante o direito de preferência para seu licenciamento. Em regra, os contratos preveem uma contraprestação por parte do licenciado, chamada de royalty. O INPI só admite o licenciamento oneroso de patente concedida, não autorizando a cobrança de royalty sobre patente pendente. Licença compulsória Art. 68. O titular ficará sujeito a ter a patente licenciada compulsoriamente se exercer os direitos dela decorrentes de forma abusiva, ou por meio dela praticar abuso de poder econômico, comprovado nos termos da lei, por decisão administrativa ou judicial. § 1º Ensejam, igualmente, licença compulsória: I - a não exploração do objeto da patente no território brasileiro por falta de fabricação ou fabricação incompleta do produto, ou, ainda, a falta de uso integral do processo patenteado, ressalvados os casos de inviabilidade econômica, quando será admitida a importação; ou II - a comercialização que não satisfizer às necessidades do mercado. A licença compulsória tem previsão na Convenção da União de Paris, como forma de punir o titular da patente (art. 68) ou para atender a imperativos de ordem pública (art. 71). Uma característica das licenças compulsórias é que elas serão sempre concedidas sem exclusividade e não será admitido o sublicenciamento (art. 72). § 2º A licença só poderá ser requerida por pessoa com legítimo interesse e que tenha capacidade técnica e econômica para realizar a exploração eficiente do objeto da patente, que deverá destinar-se, predominantemente, ao mercado interno, extinguindo-se nesse caso a excepcionalidade prevista no inciso I do parágrafo anterior. § 5º A licença compulsória de que trata o § 1º somente será requerida após decorridos 3 (três) anos da concessão da patente. Note que as hipóteses de licenciamento compulsória por inércia do titular da patente somente poderão ser suscitadas após decorridos três anos da concessão da patente, o que permite concluir que não caberá licenciamento compulsório fundado no § 1° enquanto pendente a concessão (desde o depósito). Além disso, o licenciamento compulsório fundado em abuso de direito ou em abuso de poder econômico (caput) poderá ser requerido a qualquer tempo. O licenciamento compulsório também poderá ser fundado na necessidade de utilização dessa patente para o desenvolvimento de outro invento, que dela depende, conforme dispõe o artigo 70, caput, da Lei, para a qual patente dependente é “aquela cuja exploração depende obrigatoriamente da utilização do objeto de patente anterior” (parágrafo único). Quando se tratar de patentes dependentes, “O titular da patente licenciada na forma deste artigo terá direito a licença compulsória cruzada da patente dependente”, ou seja, aquele que foi forçado a licenciar seu invento terá idêntico direito em relação à patente dependente. O artigo 73, §§ 2° e 3°, atribuem o ônus da prova: Ao requerente, quando invocar abuso de direitos patentários ou abuso de poder econômico; Ao titular da patente, no caso de a licença compulsória ser requerida com fundamento na falta de exploração. O artigo 69 prevê três hipóteses de justa causa para a não exploração da patente por parte de seu titular: (i) por razões legítimas; (i) por estar realizando sérios e efetivos preparativos para a exploração; ou (i) por estar enfrentando obstáculo de ordem legal para fabricação ou comercialização do invento. Em tais hipóteses, o licenciamento compulsório não será deferido. Art. 71. Nos casos de emergência nacional ou interesse público, declarados em ato do Poder Executivo Federal, desde que o titular da patente ou seu licenciado não atenda a essa necessidade, poderá ser concedida, de ofício, licença compulsória, temporária e não exclusiva, para a exploração da patente, sem prejuízo dos direitos do respectivo titular. Foi com base neste dispositivo que o Poder Executivo Federal “quebrou” a patente do retroviral efavirenz, utilizado no combate ao vírus HIV. A competência para declarar o licenciamento compulsório nesta hipótese é do Presidente da República, não havendo instauração de processo administrativo no INPI. Patente de interesse da defesa nacional Art. 75. O pedido de patente originário do Brasil cujo objeto interesse à defesa nacional será processado em caráter sigiloso e não estará sujeito às publicações previstas nesta Lei. § 1º O INPI encaminhará o pedido, de imediato, ao órgão competente do Poder Executivo para, no prazo de 60 (sessenta) dias, manifestar-se sobre o caráter sigiloso. Decorrido o prazo sem a manifestação do órgão competente, o pedido será processado normalmente. § 2º É vedado o depósito no exterior de pedido de patente cujo objeto tenha sido considerado de interesse da defesa nacional, bem como qualquer divulgação do mesmo, salvo expressa autorização do órgão competente. § 3º A exploração e a cessão do pedido ou da patente de interesse da defesa nacional estão condicionadas à prévia autorização do órgão competente, assegurada indenização sempre que houver restrição dos direitos do depositante ou do titular. PATENTES PIPELINE As patentes pipeline, ou de revalidação, são os pedidos feitos para a patente de produtos farmacêuticos e alimentícios existentes antes da revogação da Lei n° 5.772/71 – que não permitia a patente de tais produtos – pela atual LPI. As regras para a conversão do pedido ordinário em pedido de pipeline estão previstas nos arts. 230 e 231 da LPI. Como Muitos desses produtos possuíam pedido de patente em países estrangeiros, o art. 230 previu que “Poderá ser depositado pedido de patente relativo às substâncias, matérias ou produtos obtidos por meios ou processos químicos e as substâncias, matérias, misturas ou produtos alimentícios, químico-farmacêuticos e medicamentos de qualquer espécie, bem como os respectivosprocessos de obtenção ou modificação, por quem tenha proteção garantida em tratado ou convenção em vigor no Brasil, ficando assegurada a data do primeiro depósito no exterior, desde que seu objeto não tenha sido colocado em qualquer mercado, por iniciativa direta do titular ou por terceiro com seu consentimento, nem tenham sido realizados, por terceiros, no País, sérios e efetivos preparativos para a exploração do objeto do pedido ou da patente”. Os prazos e condições estão previstos nos parágrafos do art. 230 e no art. 231. Há séria discussão acerca da constitucionalidade dos arts. 230 e 231 da LPI. Em 2009, foi ajuizada a ADI 4.234 pelo Procurador-Geral da República. A jurisprudência do STJ vem decidindo pela legitimidade das regras em estudo, entendendo que a proteção oferecida pelo ordenamento jurídico brasileiro às patentes estrangeiras pelo prazo remanescente de proteção no país onde foi depositado o primeiro pedido, limitando-se tal prazo a 20 anos, frustrando as tentativas, por parte de laboratórios farmacêuticos, de tentar estender o prazo de vigência da respectiva patente no Brasil, quando no país de origem da patente o prazo de vigência está mais próximo de expirar. [53: REsp 445.712/RJ, 3ª T, 2004. ] DESENHO INDUSTRIAL Art. 95. Considera-se desenho industrial a forma plástica ornamental de um objeto ou o conjunto ornamental de linhas e cores que possa ser aplicado a um produto, proporcionando resultado visual novo e original na sua configuração externa e que possa servir de tipo de fabricação industrial. O desenho industrial é protegido pelo registro, assim como ocorre com as marcas. Não existe ‘patente de desenho’ e sim registro de desenho. Os direitos e a proteção relativos a ele estão previstos na Lei n° 9.279/96. Os desenhos industriais não se confundem com as obras de arte, que são figuras meramente estéticas e decorativas, sem função utilitária, sendo por isso protegidas pela Lei de Direitos Autorais – Lei n° 9.610/98. Também não se confundem com os modelos de utilidade, porque os desenhos não têm qualquer relação com a utilidade do produto, preocupando-se apenas com o design. Modelo de utilidade Desenho industrial Obra de arte Liga-se à funcionalidade do produto Liga-se à estética Têm aplicação industrial Aplicação meramente decorativa Regulada pela Lei n° 9.279/96 Regulada pela Lei n° 9.810/98 REQUISITOS DE REGISTRABILIDADE DO DESENHO São requisitos obrigatórios para o registro do desenho industrial: Novidade – de acordo com o art. 96, caput, “o desenho industrial é considerado novo quando não compreendido no estado da técnica”, assim entendido (estado da técnica) “tudo aquilo tornado acessível ao público antes da data de depósito do pedido, no Brasil ou no exterior, por uso ou qualquer outro meio” ou até 180 dias antes do depósito ou da reivindicação da prioridade , quando o acesso ao público tenha conferido pelo inventor, pelo IPI ou por terceiro, com base em informações obtidas com o inventor ou em decorrência de atos por este realizados (§ 1° c/c § 3°). Para aferição unicamente da novidade, o conteúdo completo de pedido de patente ou de registro depositado no Brasil, e ainda não publicado, será considerado como incluído no estado da técnica a partir da data de depósito, ou da prioridade reivindicada, desde que venha a ser publicado, mesmo que subsequentemente. (§ 2°).[54: Art. 96 (...) § 3º Não será considerado como incluído no estado da técnica o desenho industrial cuja divulgação tenha ocorrido durante os 180 (cento e oitenta) dias que precederem a data do depósito ou a da prioridade reivindicada, se promovida nas situações previstas nos incisos I a III do art. 12.] Originalidade – nos termos do art. 97, “O desenho industrial é considerado original quando dele resulte uma configuração visual distintiva, em relação a outros objetos anteriores”, inclusive quando a originalidade decorrer da combinação de elementos conhecidos (art. 97, parágrafo único). A diferença precisa ser significativa. Aplicação industrial – o desenho deve ter aplicabilidade industrial, distinguindo-se nesse ponto da obra de arte, pois ambos são criações estéticas. Licitude – não são registráveis os desenhos previstos no artigo 100: I - o que for contrário à moral e aos bons costumes ou que ofenda a honra ou imagem de pessoas, ou atente contra liberdade de consciência, crença, culto religioso ou ideia e sentimentos dignos de respeito e veneração; II - a forma necessária comum ou vulgar do objeto ou, ainda, aquela determinada essencialmente por considerações técnicas ou funcionais. PROCEDIMENTO DE REGISTRO Art. 94. Ao autor será assegurado o direito de obter registro de desenho industrial que lhe confira a propriedade, nas condições estabelecidas nesta Lei. Parágrafo único. Aplicam-se ao registro de desenho industrial, no que couber, as disposições dos arts. 6º e 7º. Dos dispositivos se extrai as seguintes noções: Presume-se legitimado a obter o registro aquele que o requereu; Prevalecerá a data do depósito, quando duas ou mais pessoas tiverem criado o mesmo desenho; O registro poderá ser requeridos em nome próprio, por sucessores ou por aquele que em razão de contrato de trabalho pertencer a titularidade do desenho; O desenho criado em coautoria poderá ser registrado no nome de uma só, com anotação dos nomes das demais para efeitos de resguardar os respectivos direitos; O criador do desenho poderá requerer a não divulgação do seu nome; Ao contrário da patente, o registro de desenho industrial é concedido imediatamente (art. 106, caput), podendo ser mantido em sigilo por até 180 dias, a pedido do requerente (§ 1°), sendo que durante os primeiros 90 dias o depósito poderá ser retirado sem que haja divulgação (art. 105), mas dará prioridade a eventual desenho igual depositado depois dele (art. 105, parágrafo único). PRAZO DE VIGÊNCIA DO REGISTRO DO DESENHO INDUSTRIAL Art. 108. O registro vigorará pelo prazo de 10 (dez) anos contados da data do depósito, prorrogável por 3 (três) períodos sucessivos de 5 (cinco) anos cada. O prazo máximo de vigência é de 25 anos, assim composto: O primeiro registro terá validade de 10 anos; O registro poderá ser prorrogado por 3 vezes, valendo por 5 anos a cada prorrogação, a qual deverá ser requerida no último ano de vigência. PROTEÇÃO CONFERIDA PELO REGISTRO DO DESENHO INDUSTRIAL Art. 109. A propriedade do desenho industrial adquire-se pelo registro validamente concedido. O registro confere ao seu titular o direito de exploração econômica exclusiva do seu objetivo, aplicando-se as mesmas normas relativas à invenção e ao modelo de utilidade. Parágrafo único. Aplicam-se ao registro do desenho industrial, no que couber, as disposições do art. 42 e dos incisos I, II e IV do art. 43. Nos termos do artigo 42, “a patente confere ao seu titular o direito de impedir terceiro, sem o seu consentimento, de produzir, usar, colocar à venda, vender ou importar com estes propósitos: I - produto objeto de patente; II - processo ou produto obtido diretamente por processo patenteado”. Já o artigo 43 prevê as hipóteses que a lei não considera violado o direito do titular do registro: em caráter privado e sem finalidade comercial (inciso I), com finalidade experimental relacionada a estudos ou pesquisas científicas ou tecnológicas (inciso II) ou quando fabricado de acordo com o registro concedido ou que tiver sido colocado no mercado interno diretamente pelo titular do registro ou com seu consentimento (inciso III). O art. 43 possui várias outras exceções, que não foram contempladas pelo art. 109, parágrafo único. NULIDADE DO REGISTRO Art. 112. É nulo o registro concedido em desacordo com as disposições desta Lei. § 1º A nulidade do registro produzirá efeitos a partir da data do depósito do pedido. § 2º No caso de inobservância do disposto no art. 94, o autor poderá, alternativamente, reivindicar a adjudicação do registro. Nulidade administrativa e ação judicial de nulidade Art. 118. Aplicam-se à ação de nulidadede registro de desenho industrial, no que couber, as disposições dos arts. 56 e 57. A declaração de nulidade do registro poderá ser obtida pela via administrativa, na forma dos artigos 113 a 117, ou pela via judicial, aplicando-se o procedimento para a declaração de nulidade da patente, previsto nos artigos 56 e 57 (art. 118): Art. 56. A ação de nulidade poderá ser proposta a qualquer tempo da vigência da patente, pelo INPI ou por qualquer pessoa com legítimo interesse. § 1º A nulidade da patente poderá ser arguida, a qualquer tempo, como matéria de defesa. § 2º O juiz poderá, preventiva ou incidentalmente, determinar a suspensão dos efeitos da patente, atendidos os requisitos processuais próprios. Art. 57. A ação de nulidade de patente será ajuizada no foro da Justiça Federal e o INPI, quando não for autor, intervirá no feito. § 1º O prazo para resposta do réu titular da patente será de 60 (sessenta) dias. § 2º Transitada em julgado a decisão da ação de nulidade, o INPI publicará anotação, para ciência de terceiros. MARCA Art. 123. Para os efeitos desta Lei, considera-se: Considera-se marca registrável “os sinais distintivos visualmente perceptíveis, não compreendidos nas proibições legais”. I - marca de produto ou serviço: aquela usada para distinguir produto ou serviço de outro idêntico, semelhante ou afim, de origem diversa; Esta é a noção geral de marca, que é aquela utilizada pelos empresários para identificar seus produtos ou serviços. II - marca de certificação: aquela usada para atestar a conformidade de um produto ou serviço com determinadas normas ou especificações técnicas, notadamente quanto à qualidade, natureza, material utilizado e metodologia empregada; e A certificação poderá ser de órgão governamental (ex: INMETRO) ou de órgãos credenciados pelos órgãos oficiais competentes (ex: ABRINQ, ABIC). O registro da marca de certificação é feito pelo órgão certificador. III - marca coletiva: aquela usada para identificar produtos ou serviços provindos de membros de uma determinada entidade. O uso de marca coletiva é aquele que indica para o consumidor que os empresários são membros de determinada associação ou que as técnicas estão de acordo com as normas estabelecidas por uma associação. Nesse caso, “O uso da marca [coletiva] independe de licença, bastando sua autorização no regulamento de utilização” (art. 150). A marca de certificação e a marca coletiva são chamadas por parte da doutrina de marcas indiretas, porque não são utilizadas pelos requerentes. De acordo com o artigo 128, § 2°, “o registro de marca coletiva só poderá ser requerido por pessoa jurídica representativa de coletividade, a qual poderá exercer atividade distinta da de seus membros”; e de acordo com o § 3º, “o registro da marca de certificação só poderá ser requerido por pessoa sem interesse comercial ou industrial direto no produto ou serviço atestado”. SINAIS NÃO REGISTRÁVEIS COMO MARCA Art. 124. Não são registráveis como marca: I - brasão, armas, medalha, bandeira, emblema, distintivo e monumento oficiais, públicos, nacionais, estrangeiros ou internacionais, bem como a respectiva designação, figura ou imitação; II - letra, algarismo e data, isoladamente, salvo quando revestidos de suficiente forma distintiva; III - expressão, figura, desenho ou qualquer outro sinal contrário à moral e aos bons costumes ou que ofenda a honra ou imagem de pessoas ou atente contra liberdade de consciência, crença, culto religioso ou idéia e sentimento dignos de respeito e veneração; IV - designação ou sigla de entidade ou órgão público, quando não requerido o registro pela própria entidade ou órgão público; V - reprodução ou imitação de elemento característico ou diferenciador de título de estabelecimento ou nome de empresa de terceiros, suscetível de causar confusão ou associação com estes sinais distintivos; VI - sinal de caráter genérico, necessário, comum, vulgar ou simplesmente descritivo, quando tiver relação com o produto ou serviço a distinguir, ou aquele empregado comumente para designar uma característica do produto ou serviço, quanto à natureza, nacionalidade, peso, valor, qualidade e época de produção ou de prestação do serviço, salvo quando revestidos de suficiente forma distintiva; VII - sinal ou expressão empregada apenas como meio de propaganda; VIII - cores e suas denominações, salvo se dispostas ou combinadas de modo peculiar e distintivo; IX - indicação geográfica, sua imitação suscetível de causar confusão ou sinal que possa falsamente induzir indicação geográfica; X - sinal que induza a falsa indicação quanto à origem, procedência, natureza, qualidade ou utilidade do produto ou serviço a que a marca se destina; XI - reprodução ou imitação de cunho oficial, regularmente adotada para garantia de padrão de qualquer gênero ou natureza; XII - reprodução ou imitação de sinal que tenha sido registrado como marca coletiva ou de certificação por terceiro, observado o disposto no art. 154; XIII - nome, prêmio ou símbolo de evento esportivo, artístico, cultural, social, político, econômico ou técnico, oficial ou oficialmente reconhecido, bem como a imitação suscetível de criar confusão, salvo quando autorizados pela autoridade competente ou entidade promotora do evento; XIV - reprodução ou imitação de título, apólice, moeda e cédula da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios, dos Municípios, ou de país; XV - nome civil ou sua assinatura, nome de família ou patronímico e imagem de terceiros, salvo com consentimento do titular, herdeiros ou sucessores; XVI - pseudônimo ou apelido notoriamente conhecidos, nome artístico singular ou coletivo, salvo com consentimento do titular, herdeiros ou sucessores; XVII - obra literária, artística ou científica, assim como os títulos que estejam protegidos pelo direito autoral e sejam suscetíveis de causar confusão ou associação, salvo com consentimento do autor ou titular; XVIII - termo técnico usado na indústria, na ciência e na arte, que tenha relação com o produto ou serviço a distinguir; XIX - reprodução ou imitação, no todo ou em parte, ainda que com acréscimo, de marca alheia registrada, para distinguir ou certificar produto ou serviço idêntico, semelhante ou afim, suscetível de causar confusão ou associação com marca alheia; XX - dualidade de marcas de um só titular para o mesmo produto ou serviço, salvo quando, no caso de marcas de mesma natureza, se revestirem de suficiente forma distintiva; XXI - a forma necessária, comum ou vulgar do produto ou de acondicionamento, ou, ainda, aquela que não possa ser dissociada de efeito técnico; XXII - objeto que estiver protegido por registro de desenho industrial de terceiro; e XXIII - sinal que imite ou reproduza, no todo ou em parte, marca que o requerente evidentemente não poderia desconhecer em razão de sua atividade, cujo titular seja sediado ou domiciliado em território nacional ou em país com o qual o Brasil mantenha acordo ou que assegure reciprocidade de tratamento, se a marca se destinar a distinguir produto ou serviço idêntico, semelhante ou afim, suscetível de causar confusão ou associação com aquela marca alheia. Entendimento jurisprudencial sobre o tema Algumas decisões do STJ acerca da matéria merecem destaque: Não existe conflito entre uma marca e o nome de um edifício (REsp 862.067/RJ); Havendo a possibilidade de confusão entre consumidores em razão de conflito entre marcas, uma deverá ser extinta, prevalecendo o registro mais antigo (REsp 899.839/RJ); O termo “Brasil” é vocábulo comum, não merecendo proteção (REsp 1.082.734/RS); Expressões de pouca originalidade, de fraco potencial criativo ou que simplesmente designem o componente principal do produto não merecem proteção como marca (REsp 1.325.621/SP). Com relação ao “elemento característico ou diferenciador de título de estabelecimento ou nome de empresa de terceiros, suscetível de causar confusão ou associação com estes sinais distintivos” (art. 124, inciso V), não existirá conflito quando a marcae nome empresarial pertencerem a ramos de atividade diferentes (REsp 119.998/SP). O critério territorial também é preponderante, restringindo-se a proteção ao Estado membro em que foi registrado, salvo quando se tratar de marca de alto renome. Sinais sonoros e marcas olfativas Não podem ser registrados os sinais sonoros nem determinados cheiros ou odores, porque a Lei exige que o sinal distintivo seja visualmente perceptível. PROCEDIMENTO DO PEDIDO DE REGISTRO DE MARCA Art. 128. Podem requerer registro de marca as pessoas físicas ou jurídicas de direito público ou de direito privado. § 1º As pessoas de direito privado só podem requerer registro de marca relativo à atividade que exerçam efetiva e licitamente, de modo direto ou através de empresas que controlem direta ou indiretamente, declarando, no próprio requerimento, esta condição, sob as penas da lei. O dispositivo homenageia a função social da marca, proibindo o registro de marcas aleatórias, simplesmente voltadas à “mercado de marcas”. Concessão do registro Art. 161. O certificado de registro será concedido depois de deferido o pedido e comprovado o pagamento das retribuições correspondentes. Art. 163. Reputa-se concedido o certificado de registro na data da publicação do respectivo ato. PRAZO DE VIGÊNCIA DO REGISTRO DA MARCA Art. 133. O registro da marca vigorará pelo prazo de 10 (dez) anos, contados da data da concessão do registro, prorrogável por períodos iguais e sucessivos. A marca poderá permanecer registrar por tempo ilimitado, da seguinte forma: O primeiro registro terá vigência de 10 anos; O registro poderá ser prorrogado a cada 10 anos, quantas vezes desejar o titular, devendo ser requerida a prorrogação no último ano de vigência (§ 1°) e até mesmo até seis meses depois de expirado o prazo, mediante o pagamento de contribuição adicional (§ 2°). O termo inicial do registro é a data da concessão (e não a data do depósito, como no desenho industrial, na patente e no modelo de utilidade). PROTEÇÃO DA MARCA Art. 129. A propriedade da marca adquire-se pelo registro validamente expedido, conforme as disposições desta Lei, sendo assegurado ao titular seu uso exclusivo em todo o território nacional, observado quanto às marcas coletivas e de certificação o disposto nos arts. 147 e 148. O “uso exclusivo em todo o território nacional” cede às hipóteses de utilização literária, licenciada e as demais já estudadas. Além disso, não existirá conflito quando a marca e nome empresarial pertencerem a ramos de atividade diferentes, conforme já decidiu o STJ, que aplicou o princípio da especialidade ou princípio da especificidade. Além disso, a exclusividade será restrita ao Estado membro em que foi registrado, salvo quando se tratar de marca de alto renome. § 1º Toda pessoa que, de boa fé, na data da prioridade ou depósito, usava no País, há pelo menos 6 (seis) meses, marca idêntica ou semelhante, para distinguir ou certificar produto ou serviço idêntico, semelhante ou afim, terá direito de precedência ao registro. § 2º O direito de precedência somente poderá ser cedido juntamente com o negócio da empresa, ou parte deste, que tenha direta relação com o uso da marca, por alienação ou arrendamento. Marca de alto renome Art. 125. À marca registrada no Brasil considerada de alto renome será assegurada proteção especial, em todos os ramos de atividade. A marca de alto renome configura exceção ao princípio da especialidade. O reconhecimento de “alto renome” é concedido pelo INPI, não cabendo ao Poder Judiciário declarar se uma marca é ou não de alto renome, conforme já decidiu o STJ. De acordo com resolução 121/05 do INPI, o título de marca de alto renome deve ser requerido ao INPI incidentalmente, como matéria de defesa, quando apresentada oposição ao registro da mesma marca por terceiro, ou em processo de nulidade de registro. O registro de marca alto renome concedido terá vigência de 5 anos.[55: AgRg no REsp 1.165.653/RJ, 2013.] A marca de alto renome não se confunde com a marca notoriamente conhecida, que será estudada no próximo subitem. Marca notoriamente conhecida Art. 126. A marca notoriamente conhecida em seu ramo de atividade nos termos do art. 6º bis (I), da Convenção da União de Paris para Proteção da Propriedade Industrial, goza de proteção especial, independentemente de estar previamente depositada ou registrada no Brasil. § 1º A proteção de que trata este artigo aplica-se também às marcas de serviço. Ao contrário da marca de alto renome, a marca notoriamente conhecida goza de proteção especial somente em seu ramo de atividade. A diferença dela para as demais marcas é que a proteção à marca notoriamente reconhecida independe de prévio registro ou depósito no Brasil. Em razão disso, “o INPI poderá indeferir de ofício pedido de registro de marca que reproduza ou imite, no todo ou em parte, marca notoriamente conhecida” (§ 2°), ainda que ela não esteja registrada. Uso indevido de marca registrada O proprietário da marca registrada tem direito ao seu uso exclusivo em todo o território nacional (art. 129 da LPI), de modo que aquele que a utilizar indevidamente deverá indenizar o proprietário da marca. Sobre o tema, anote-se importantes decisões do STJ: A simples contrafação de marca gera direito a indenização por danos materiais, mesmo que o produto não tenha sido comercializado;[56: STJ, REsp 466.761/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª Turma, 2003.] O uso indevido da marca poderá causar dano moral, quando restar provada a vulgarização da marca registrada;[57: Idem anterior.] Súmula n° 143/STJ: Prescreve em 5 anos a ação de perdas e danos pelo uso de marca comercial. CESSÃO DO REGISTRO DA MARCA Art. 134. O pedido de registro e o registro poderão ser cedidos, desde que o cessionário atenda aos requisitos legais para requerer tal registro. É direito do proprietário da marca cedê-la a terceiro (art. 130, inciso I), tanto o registro completado quanto o registro pendente de confirmação. Porém, o cessionário deverá preencher os mesmos requisitos exigidos do requerente primitivo, dentre os quais a relação entre a marca e o ramo de atividade empreendida (art. 128, § 1°). A verificação do preenchimento dos requisitos será realizada por ocasião da averbação da cessão junto ao INPI, na forma do art. 136 da LPI. Além disso, a averbação fará com que a cessão produza efeitos perante terceiros (art. 137). Havendo mais de um pedido ou registro acerca de marcas iguais ou semelhantes, a cessão deverá compreender todos os registros ou pedidos, em nome do cedente, sob pena de cancelamento dos registros ou arquivamento dos pedidos não cedidos, conforme determina o art. 135. LICENCIAMENTO PARA USO DA MARCA Art. 139. O titular de registro ou o depositante de pedido de registro poderá celebrar contrato de licença para uso da marca, sem prejuízo de seu direito de exercer controle efetivo sobre as especificações, natureza e qualidade dos respectivos produtos ou serviços. Parágrafo único. O licenciado poderá ser investido pelo titular de todos os poderes para agir em defesa da marca, sem prejuízo dos seus próprios direitos. Além da cessão, que implica a transferência de titularidade do registro, é possível ao titular do registro (ou depositante do pedido) celebrar um contrato de licença de uso da marca com terceiro (licenciado), que a explorará nos termos e condições estabelecidas no documento. Nesse caso, a titularidade do registro não se transfere ao terceiro. A eficácia do licenciamento perante terceiro depende do registro do contrato de licença junto ao INPI (art. 140, caput), produzindo efeitos a partir de sua publicação (§ 1°), mas para efeito de validade de prova de uso, o contrato de licença não precisará estar averbado no INPI (§ 2°). Porém, a averbação do contrato de licença autoriza a remessa dos royalties para o exterior e a dedução fiscal dos valores pagos pelo licenciado. NULIDADE DO REGISTRO DE MARCA Art. 165. É nulo o registro que for concedido em desacordo com as disposições desta Lei.Parágrafo único. A nulidade do registro poderá ser total ou parcial, sendo condição para a nulidade parcial o fato de a parte subsistente poder ser considerada registrável. A declaração de nulidade produzirá efeito a partir da data do depósito do pedido (efeito ex tunc), conforme dispõe o art. 167, mas, segundo o STJ, o efeito retroativo só se operará quando o vício for “apto a macular a concessão do registro desde seu início”.[58: EResp 964.780/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, 2011.] A nulidade poderá ser reconhecida em processo administrativo, instaurado a requerimento ou de ofício pelo INPI, seguindo o procedimento previsto nos artigos 168 a 172 da LPI, ou decretada judicialmente, através da ação de nulidade prevista nos artigos 173 a 175 da lei. Ação de nulidade do registro Art. 173. A ação de nulidade poderá ser proposta pelo INPI ou por qualquer pessoa com legítimo interesse. Parágrafo único. O juiz poderá, nos autos da ação de nulidade, determinar liminarmente a suspensão dos efeitos do registro e do uso da marca, atendidos os requisitos processuais próprios. A ação de nulidade deverá ser proposta no prazo de 5 anos, contados da data de concessão do registro (art. 174). Art. 175. A ação de nulidade do registro será ajuizada no foro da justiça federal e o INPI, quando não for autor, intervirá no feito. Quando a ação for proposta apenas contra o INPI, a competência será Seção Judiciária da Justiça federal no Rio de Janeiro/RJ, sede do INPI. Havendo mais de um réu, e sendo ele domiciliado em outra cidade, aplica-se o art. 46, § 4°, do NCPC: “Havendo 2 (dois) ou mais réus com diferentes domicílios, serão demandados no foro de qualquer deles, à escolha do autor”. § 1º O prazo para resposta do réu titular do registro será de 60 (sessenta) dias. Com o advento do NCPC, o prazo de resposta deverá ser contado em dias úteis. § 2º Transitada em julgado a decisão da ação de nulidade, o INPI publicará anotação, para ciência de terceiros. O autor poderá, em vez de requerer a decretação de nulidade do registro, pedir ao juiz a transferência do registro para si, valendo-se do art. 166 da lei, segundo o qual “o titular de uma marca registrada em país signatário da Convenção da União de Paris para Proteção da Propriedade Industrial poderá, alternativamente, reivindicar, através de ação judicial, a adjudicação do registro, nos termos previstos no art. 6º septies (1) daquela Convenção”. EXTINÇÃO DO REGISTRO DA MARCA Art. 142. O registro da marca extingue-se: I - pela expiração do prazo de vigência; Relembre-se que o registro de marca é renovável a cada 10 anos, sem limite de renovações. II - pela renúncia, que poderá ser total ou parcial em relação aos produtos ou serviços assinalados pela marca; Quando se tratar de marca coletiva, a renúncia somente poderá ocorrer “nos termos do contrato social ou estatuto da própria entidade, ou, ainda, conforme o regulamento de utilização” (art. 152). III - pela caducidade; ou A caducidade do registro individual ocorrerá nas hipóteses previstas no art. 143 da lei, tais como o não uso ou o desuso da marca pelo período de 5 (cinco) anos consecutivos. Tratando-se de marca coletiva, será reconhecida a caducidade pela extinção da entidade, pela utilização com desvio da finalidade ou pelo uso por apenas uma só pessoa autorizada (viola a principal característica da marca coletiva), conforme dispõem o arts. 151 e 153. Em qualquer caso, a ocorrência de motivo de força maior para não utilização da marca afasta os efeitos da caducidade, conforme já decidiu o STJ envolvendo produto cuja importação foi inviabilizada.[59: STJ, REsp 1.071.622/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, 2009.] O reconhecimento da caducidade da marca produz apenas efeitos prospectivos (ex nunc), conforme decisão do STJ. [60: STJ, EREsp 964.780/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, 2ª Seção, 2011.] IV - pela inobservância do disposto no art. 217. INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS Art. 176. Constitui indicação geográfica a indicação de procedência ou a denominação de origem. PROCEDÊNCIA X ORIGEM A lei distingue procedência e origem, conferindo proteção a ambas. O objetivo é proteger não apenas os produtores contra o uso indiscriminado da indicação geográfica, mas também os consumidores. Por consequência disso, o STJ já decidiu que a indicação geográfica não poderá ser registrada como marca.[61: STJ, REsp 989.105/PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª Turma, 2009.] Indicação de procedência Art. 177. Considera-se indicação de procedência o nome geográfico de país, cidade, região ou localidade de seu território, que se tenha tornado conhecido como centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de determinado serviço. São exemplos de indicação de procedência os calçados de Franca, os vinhos da Serra Gaúcha, as malhas de Petrópolis. Denominação de origem Art. 178. Considera-se denominação de origem o nome geográfico de país, cidade, região ou localidade de seu território, que designe produto ou serviço cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos fatores naturais e humanos. Art. 179. A proteção estender-se-á à representação gráfica ou figurativa da indicação geográfica, bem como à representação geográfica de país, cidade, região ou localidade de seu território cujo nome seja indicação geográfica. É exemplo o champanhe, que designa uma qualidade de vinho produzido originalmente na região de Champagne, na França. O mesmo vale para a “cachaça do Brasil”, assim, reconhecida no Decreto n° 4.062/2001. Quando ocorrer de o nome geográfico se tornar de uso comum, designando um produto ou serviço, perderá a proteção inerente à indicação geográfica, conforme dispõe o art. 180 da LPI (é o caso do iogurte grego?). QUADRO COMPARATIVO Patente Registro Invenção Modelo de utilidade Desenho industrial Marca Duração 20 anos (min. 10 anos) 15 anos (mín. 7 anos) 10 anos Prorrogação Não permitida Licenciamento Cabe licenciamento compulsório Só voluntário Requisitos Novidade; Atividade inventiva; Aplicação industrial Licitude Novidade Originalidade Licitude Novidade relativa Não Colidência Licitude TRADE DRESS Também chamado de conjunto-imagem de produto, ocorrerá a violação do trade dress quando um concorrente não copiar exatamente a marca ou o desenho industrial registrado por outrem, isto é, não realizar contrafação, mas imitar sutilmente uma série de características do produto ou a forma de prestação de um serviço. Imagine a seguinte situação adaptada: “Leto” e “Fonte” são duas marcas concorrentes, que fabricam algodão. A empresa titular da marca “Leto” ajuizou ação de obrigação de fazer cumulada com indenização contra a empresa titular da marca “Fonte”. Na ação, a “Leto” afirmou que é líder do mercado e que a ré (empresa nova) passou a utilizar embalagem copiando as cores e o design da autora. Em outras palavras, a “Leto” afirmou que a “Fonte” está imitando sua embalagem com o objetivo de confundir o público consumidor. Proteção ao conjunto-imagem (trade dress) Trade dress ou conjunto-imagem consiste no conjunto de elementos distintivos que caracterizam um produto, um serviço ou um estabelecimento comercial fazendo com que o mercado consumidor os identifique. Nas palavras do Min. Marco Aurélio Bellizze: “O conjunto-imagem (trade dress) é a soma de elementos visuais e sensitivos que traduzem uma forma peculiar e suficientemente distintiva, vinculando-se à sua identidade visual, de apresentação do bem no mercado consumidor.” Ao contrário de outros países, no Brasil ainda não existe uma legislação que proteja, de forma específica, as violações ao trade dress. Apesar disso, a jurisprudência tem protegido os titulares das marcas copiadas. Nesse sentido: (...) A despeito da ausência de expressa previsão no ordenamento jurídico pátrio acerca da proteção ao trade dress, é inegável que o arcabouço legal brasileiro confere amparo ao conjunto-imagem,sobretudo porque sua usurpação encontra óbice na repressão da concorrência desleal. Incidência de normas de direito de propriedade industrial, de direito do consumidor e do Código Civil. (...) STJ. 3ª Turma. REsp 1677787/SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 26/09/2017. Trade dress é diferente de marca e desenho industrial O conjunto-imagem distingue-se dos institutos denominados “marca” e “desenho industrial”. Tanto a marca, como o desenho industrial e o conjunto-imagem têm, em comum, a finalidade de designar um produto, mercadoria ou serviço, diferenciando-o dos concorrentes. Apesar da finalidade ser semelhante, eles possuem características diferentes. Marca É um sinal que designa a origem do produto, mercadoria ou serviço. A marca cria um vínculo duradouro entre o bem e a pessoa que o colocou em circulação As marcas, para serem registradas, devem atender à distintividade ou novidade relativa, ou seja, dentro do mercado em que se insere o produto, o sinal visivelmente perceptível deve se distanciar do domínio comum, a fim de propiciar a utilização comercial exclusiva por seu titular. Esta fruição exclusiva, que será assegurada por meio do registro, pode se estender indefinidamente no tempo, desde que promovidas as tempestivas prorrogações. Isso porque o direito de exclusividade da marca tem por escopo assegurar ao consumidor a correspondência entre o produto designado e a empresa que o colocou em circulação. Desenho industrial Protege a configuração externa de um objeto tridimensional ou um padrão ornamental (bidimensional) que possa ser aplicado a uma superfície ou a um objeto. O desenho industrial insere no mercado uma inovação estética em objeto comum ou facilmente reproduzível em escala industrial. O desenho industrial, por se caracterizar em uma inovação estética facilmente reproduzível em escala industrial, a partir de sua publicidade, passa a integrar o estado da técnica. Nota-se, portanto, que o desenvolvimento de desenhos industriais movimenta-se, ao longo do tempo, numa crescente, podendo ser posteriormente incorporada pelos produtos de seus concorrentes de forma lícita e regular. Ao seu desenvolvedor (autor) é assegurado, mediante registro, o direito de exploração exclusiva, porém temporária (até, no máximo, 25 anos), nos termos do art. 108 da Lei nº 9.279/96. Trade dress O denominado trade dress, não disciplinado na legislação nacional atual, tem por finalidade proteger o conjunto visual global de um produto ou a forma de prestação de um serviço. Materializa-se, portanto, pela associação de variados elementos que, conjugados, traduzem uma forma peculiar e suficientemente distintiva de inserção do bem no mercado consumidor, vinculando-se à identidade visual dos produtos ou serviços. Como vimos, apesar de não haver legislação específica a proteção do trade dress é assegurada com fundamento no dever geral de garantia de livre mercado, ou seja, no dever estatal de assegurar o funcionamento saudável do mercado, de forma a expurgar condutas desleais tendentes a criar distorções de concorrência. Violação ao trade dress O trade dress é violado quando uma empresa imita sutilmente diversas características da marca concorrente (normalmente a líder do mercado) com o objetivo de confundir o público e angariar vendas com base na fama da marca copiada. Exemplo de violação ao trade dress Em um caso concreto, o TJSP entendeu que houve uma empresa cuja marca era “Uai in box” teria violado a trade dress da “China in box”. Além do nome parecido, a empresa “Uai in box” também oferecia comida em delivery com pacotes iguais ao da “China in box”. Voltando ao exemplo: No caso concreto, o juiz indeferiu o pedido de prova pericial formulado pela ré e julgou procedente o pedido da autora reconhecendo que houve violação ao trade dress. O STJ não concordou com a decisão por entende que esse tema exige discussão fática para o qual é indispensável a prova pericial: A caracterização de concorrência desleal por confusão, apta a ensejar a proteção ao conjunto-imagem (trade dress) de bens e produtos é questão fática a ser examinada por meio de perícia técnica. STJ. 3ª Turma. REsp 1.353.451-MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 19/09/2017 (Info 612). Ainda que se esteja diante de uma notória semelhança entre os dois produtos, é indispensável analisar se esta similitude é aceitável do ponto de vista legal ou se estamos diante de um ato abusivo, usurpador de conjunto-imagem alheio e passível de confundir o consumidor. A dificuldade existe no fato de que muitas das características que assemelham os produtos se situam numa zona limítrofe entre o que se admite como concorrência saudável – e até desejável – e o que se reputa concorrência desleal e parasitária. Assim, a confusão que caracteriza concorrência desleal é questão fática, sujeita a exame técnico, a fim de averiguar o mercado em que inserido o bem e serviço e o resultado da entrada de novo produto na competição, de modo a se alcançar a imprevisibilidade da conduta anticompetitiva aos olhos do mercado. Nesses casos, não é possível, portanto, que o magistrado consulte única e exclusivamente o seu íntimo para concluir pela existência de confusão. Dessa forma, o indeferimento de prova técnica, para utilizar-se de máximas da experiência como substitutivo de prova, é conduta que cerceia o direito de ampla defesa das partes. DIREITO EMPRESARIAL Direito de propriedade industrial DIREITO EMPRESARIAL Direito de propriedade industrial TEORIA GERAL DOS TÍTULOS DE CRÉDITO NOÇÕES INTRODUTÓRIAS Chama-se direito cambiário (ou direito cambial) o ramo do Direito Empresarial que disciplina todo o regime jurídico aplicável aos títulos de crédito. HISTÓRICO DOS TÍTULOS DE CRÉDITO Os títulos de crédito são instrumentos de circulação de riqueza, pois surgiram da necessidade de viabilizar um meio de circulação de riqueza mais rápido que a moeda manual. Sua criação e desenvolvimento são marcados por quatro períodos históricos: No período italiano ( – 1650), os títulos de crédito substituíam as diversas moedas que circulavam em diferentes nações, facilitando o comércio entre elas. Foram criados nesse período dois títulos: o cautio (nota promissória) e o littera cambii (letra de câmbio). No período francês (1650 – 1848), surgiram a cláusula “à ordem” e, por consequência, o endosso. No período alemão (1848 – 1930), foi editada a “Ordenação Geral do Direito Cambiário” – uma espécie de Código. Como reflexo da codificação do direito cambiário, muita doutrina foi produzida sobre o tema. Por fim, o período uniforme, desde 1930 até a atualidade, a letra de câmbio cai em desuso; o cheque e a nota promissória são progressivamente substituídos por cartões de débito e de crédito. É a era do comércio eletrônico. HISTÓRICO DA LEGISLAÇÃO CAMBIÁRIA Um dos traços do direito comercial é, sem dúvida, o cosmopolitismo. Por consequência disso, foi necessária a criação de leis uniformes sobre transações comerciais, a cuja observância todos os países envolvidos estivessem obrigados. Foram formadas com esse fim as associações internacionais como as Câmaras de Comércio italianas e a Association Internationalle por le Progrès de Sciences Sociales, que organizaram congressos e encontros, culminando nas duas Conferências de Haia, em 1910 e 1912. Na Conferência de 1912, foi aprovado o Regulamento Uniforme relativo à Letra de Câmbio – um importante passo para a uniformização do Direito Cambiário. Finda a 1ª Grande Guerra, a Liga das Nações organizou, em 1930, a Convenção de Genebra, que aprovou a Lei Uniforme das Cambiais (letras de câmbio e notas promissórias). Em, em novo encontro em 1931, foi aprovada a Lei Uniforme do Cheque. O Brasil aderiu às convenções em 1942, mas as Leis Uniformes foram incorporadas ao direito brasileiro em 1964 (Dec. Legislativo n° 54) e em 1966 (Dec. Legislativos n° 57.663 e 57.595). Na ocasião, instalou-se uma acirra discussão acerca da revogação ou não,pelos Decretos Legislativos, do Decreto 2.044/1908, que já regulava a matéria. Somente em 1971, o Supremo Tribunal Federal pôs fim à controvérsia, ao decidir que foi legítima a incorporação e têm aplicação imediata as Leis Uniformes ao nosso ordenamento jurídico, revogando, assim, a lei de 1908. O Código Civil de 2002 dedicou quatro capítulos para tratar de títulos de crédito (arts. 887 a 926). No entanto, ressalvou que as regras do Código Civil só se aplicam se não houver disposição diversa em lei específica (art. 903). CONCEITO E CARACTERÍSTICAS DO TÍTULO DE CRÉDITO Segundo Cesare Vivante, título de crédito é o documento necessário ao exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado. Esse conceito foi acolhido pelo Código Civil: Art. 887. O título de crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei. O conceito desenvolvido por Vivante nos remete aos princípios informadores do título de crédito: Cartularidade; Literalidade; Autonomia. Além desses princípios, há quem aponte o princípio da (iv) legalidade/tipicidade, tendo em vista que só é título de crédito o documento assim definido em lei. Quanto às características, os títulos de créditos são: Documentos formais, por precisarem observar os requisitos essenciais previstos na legislação; Bens móveis (arts. 82 a 84 do Código Civil), submetendo-se às normas sobre boa-fé e propriedade inerente a tal classe de bens; Títulos de apresentação, pois só com a exibição deles o direito pode ser exercido; Títulos executivos extrajudiciais, por força do artigo 585, I e VII, do CPC73;[62: Art. 585. São títulos executivos extrajudiciais: (...) I - a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque; (...) VIII - todos os demais títulos a que, por disposição expressa, a lei atribuir força executiva.] Obrigações quesíveis (querable), cabendo a credor dirigir-se ao devedor para receber a importância devida; De natureza pro solvendo – a sua entrega ao credor não implica, em regra, em novação que se refere à relação jurídica que originou o título. Título de resgate – sua emissão pressupõe futuro pagamento em direito, que extinguirá a relação cambiária. PRINCÍPIOS APLICÁVEIS AOS TÍTULOS DE CRÉDITO PRINCÍPIO DA CARTULARIDADE É chamado por parte da doutrina de princípio da incorporação. O crédito deve estar materializado em um documento (título). Para transferência do crédito, é necessário a transmissão do documento (tradição). Não há que se falar em exigibilidade do crédito sem a apresentação do documento. Em razão do princípio da cartularidade, (i) a posse do título pelo devedor presume o pagamento do título; (ii) só é possível protestar o título apresentando-o; (iii) só é possível executar o título apresentando-o; (iv) a prova da quitação se dá pelo resgate do título. O princípio da cartularidade não se aplica à duplicata mercantil. Ao contrário dos demais títulos, a duplicata pode ser protestada por meio da exibição do livro de duplicatas no cartório de protesto de títulos, acompanhado do comprovante de entrega da mercadoria ou da prestação do serviço. O princípio da cartularidade vem sendo relativizado com o surgimento de documentos eletrônicos, tais como a duplicata virtual. A validade dos títulos eletrônicos está prevista no art. 889, § 3°, do CC. Na prática, a duplicata eletrônica é emitida eletronicamente. O sacador (credor) negocia a duplicata com uma instituição financeira, que na data de vencimento envia um boleto bancário ao sacado (devedor, em regra uma sociedade empresária que adquiriu mercadoria ou serviço), que realiza o pagamento através de boleto de cobrança. No caso de inadimplemento por parte do sacado, o banco realiza o protesto por indicação daquele título (art. 20, § 3°, da lei 5474/68 – lei da duplicata). A ação cabível para a cobrança de um cheque é a ação de execução (CPC, art. 585, I), face à natureza de título executivo extrajudicial. No caso de execução de título eletrônico, a petição inicial deverá será instruída com (i) o boleto de cobrança, (ii) o título de protesto e (iii) o comprovante de entrega da mercadoria. Caso o título esteja prescrito, isto é, tenha perdido sua executoriedade, a ação cabível será a ação monitória, conforme orientação sumulada do STJ. Qualquer que seja a ação, a legitimidade ativa é de quem tem a posse do título, reafirmando o princípio da cartularidade.[63: STJ, decisão publicada no informativo n° 467 (2011).][64: Súmula 299 – “É admissível ação monitória para cobrar cheque prescrito”] A relativização do princípio da cartularidade aparece também no art. 365, § 2°, do CPC, situado na Seção V – Da Prova Documental, Subseção – Da Força Probante dos Documentos, dispõe: Art. 365 (...) § 2º Tratando-se de cópia digital de título executivo extrajudicial ou outro documento relevante à instrução do processo, o juiz poderá determinar o seu depósito em cartório ou secretaria. (Incluído pela Lei nº 11.419, de 2006). Caso o título de crédito se perca, essa perda não aniquila o direito de crédito, mas o credor terá que reconstituir o título de crédito por meio do processo de reconstituição de crédito (processo de conhecimento) Finalizando o estudo do princípio da cartularidade, não se admite execução com cópia reprográfica de título de crédito, salvo quando o título estiver compondo processo criminal ou inquérito policial para apurar crime a ele diretamente ligado (ex: estelionato). PRINCÍPIO DA LITERALIDADE É princípio absoluto do direito cambiário, segundo o qual o título de crédito só vale pelo que nele está escrito. Nem mais, nem menos. Todas a relações cambiárias devem estar escritas no título para produzirem efeitos jurídicos, inclusive o endosso-mandato (procuração do credor). O credor não pode ser obrigado a receber menos do que está escrito, nem o devedor pode ser compelido a entregar mais do que o mesmo tanto. A literalidade assegura certeza quanto à natureza, ao conteúdo e à modalidade de prestação mencionada no título. A inserção de informações adicionais ou com omissões no título pode ser feita a qualquer momento, pelo credor de boa-fé ou pelo devedor, a depender da natureza do elemento (STF, súmula 387). PRINCÍPIO DA AUTONOMIA Traduz-se no princípio segundo o qual eventuais vícios na relação jurídica que deu origem ao título não compromete a validade deste nem as demais relações envolvidas nisso. Assim, o endosso, o aval e demais atos cambiários não atingem as demais obrigações assumidas no título. Ilustrando: 1) um adolescente de 14 anos pede a uma pessoa capaz que seja seu fiador em um contrato de locação. O contrato será nulo, porque celebrado com incapaz, e a fiança também, porque cláusula acessória de garantia de natureza civil (princípio da gravitação jurídica); 2) o mesmo adolescente pede à pessoa capaz que seja seu avalista em um contrato. A relação que o adolescente contrair com qualquer um será nula, mas o aval é válido (princípio da autonomia). Na verdade, o possuidor de boa-fé do título exercita um direito próprio, que não pode ser restringido ou destruído pelas relações ocorridas entre os possuidores precedentes e o devedor. Com base no princípio da autonomia dos títulos de crédito, o Superior Tribunal de Justiça editou as seguintes súmulas: Súmula n° 233: “O contrato de abertura de crédito, ainda que acompanhado de extrato da conta corrente, não é título executivo”. Súmula n° 247: “O contrato de abertura de crédito em conta-corrente, acompanhado de demonstrativo de débito, constitui documento hábil para o ajuizamento da ação monitória”. Súmula n° 258: “A nota promissória vinculada a contrato de abertura de crédito não goza de autonomia em razão da iliquidez do título que a originou”. Súmula n° 300: “O instrumento de confissão de dívida, ainda que originário de contrato de abertura de crédito, constitui título executivo extrajudicial”. Súmula n° 531: “Em ação monitória fundada em cheque prescrito ajuizada contrao emitente, é dispensável a menção ao negócio jurídico subjacente à emissão da cártula”. A autonomia possui DOIS subprincípios: (i) a inoponibilidade de exceções pessoais a terceiros de boa-fé; e (ii) a abstração. Subprincípio da inoponibilidade de exceções pessoais a terceiros de boa-fé É uma limitação quanto à matéria nos embargos de execução. Se o terceiro de boa-fé promover uma ação de execução fundada no título cambiário, o devedor não poderá opor ao terceiro a exceção que caberia contra o credor originário (exemplo: o inadimplemento do credor), em consequência da autonomia de que goza o título. Assim, a exceção somente pode ser apresentada ao credor originário, com quem o devedor teve a relação jurídica que deu origem ao título cambiário. Ao terceiro de boa-fé, a exceção não pode ser oposta. Exemplificando, comprador A vai comprar um carro e oferece o à concessionária B o pagamento com uma nota promissória, que vencerá quinze dias depois. B aceita e negocia o título com o banco C. A recebe o carro, que logo apresenta vícios redibitórios graves. Passados os quinze dias, o banco C procura o comprador A para receber o valor expresso na nota promissória. A nega-se a pagar. C executa A, que apresenta embargos do devedor fundado no vício redibitório que comprometeu a compra e venda. O juiz, ao examinar os embargos, não pode sequer examinar a procedência dos fundamentos apresentados pelo comprador A, com fulcro no subprincípio da inoponibilidade de exceções pessoais a terceiro de boa-fé. Isto porque, quando o título circula, ele se desvincula da relação jurídica que lhe deu causa, e o banco C é um terceiro de boa-fé. Por outro lado: 1) se o título não tivesse circulado e a concessionária B fosse o exequente, o comprador A poderia perfeitamente opor a exceção pessoal fundada no vício redibitório do veículo; 2) se a defesa de A consistisse na prescrição da nota promissória, o juiz reconheceria, contra o banco C, a inexequibilidade do título e extinguiria a execução. E como esse efeito poderia ser evitado? Apondo a cláusula “não à ordem” ou anotando o negócio jurídico que deu causa ao título. Sendo um título à ordem, ao apor a expressão “não à ordem” no título, o emitente faz com que o título circule por cessão de crédito e não por endosso. Nessa situação, modifica-se o regime cambiário: o título continua a circular, mas perde a abstração. Além disso, a jurisprudência tem admitido que o emitente pode escrever no título o negócio jurídico que deu causa à emissão do título, de modo que a causa vai acompanhar o título quando este circular. Subprincípio da abstração A circulação do título de crédito o desvincula do negócio jurídico que lhe deu origem. O que autoriza a execução é exclusivamente o título e não a obrigação que o gerou. Circulou, o título se “purifica”. Exemplificando, A vende um celular a B, absolutamente incapaz, e B paga a A com um cheque de titularidade de X, pessoa plenamente capaz, titular da conta. A repassa o cheque a C, como pagamento de uma dívida. C repassa o título a D como pagamento em um outro negócio. D então vai ao banco para descontar o cheque e descobre o cheque não tem fundos. D ajuíza uma ação de execução contra correntista X. X resolve apresentar embargos, alegando que o negócio entre A e B é nulo, porque foi feito sem a necessária representação. Conclusão: de fato, o negócio jurídico é nulo, mas em nada afetará a validade da relação jurídica entre B e C e da relação entre C e D. D vai cobrar de A, e se A não pagar, poderá cobrar de B e, se este também não pagar, poderá cobrar de C. Só A é que não poderá cobrar de B, porque é com ele que tem a relação jurídica eivada de nulidade (recebeu um título de um incapaz). As demais relações são “purificadas” quando o título circula (aplicação do subprincípio da abstração). Diferença entre abstração e inoponibilidade de exceções pessoais a terceiro de boa-fé A diferença reside no fundamento de cada princípio. O fundamento da abstração se revela pelo desligamento entre direito contido no título de crédito e relação causal que dá origem ao título, de forma que esse direito se torna abstrato. Já o fundamento da inoponibilidade se refere à independência entre as obrigações assumidas na cadeia cambial. Nos dizeres de Pontes de Miranda (2000, p. 194), “O princípio da autonomia das obrigações cambiárias exige que cada obrigação tenha a sua sorte”. Quanto aos efeitos, pode-se destacar duas diferenças. A primeira: enquanto a abstração se refere à distinção entre validade do título e validade do negócio jurídico causal, a autonomia e a inoponibilidade se refere à não interferência entre as relações ocorridas na formação da cadeia cambial. Por segundo, há que se ter atenção ao fato de que a abstração não caracteriza todos os títulos de crédito (caso da duplicata, que pode deixar de ser paga caso a mercadoria não tenha sido entregue ou o serviço não tenha sido prestado, ou tenha sido uma ou outro rejeitados), ao passo que a autonomia é característica essencial de todos os títulos. Exceção ao princípio da autonomia A duplicata é um título causal, ou seja, é um título sempre atrelado a um negócio jurídico adjacente, qual seja uma compra e venda mercantil ou a uma prestação de serviço. A obrigação contida na duplicata não poderá ser exigida se não restar comprovado que a mercadoria foi entregue ou que o serviço foi prestado. Além disso, a duplicata não pode ser emitida se não houver um negócio jurídico para lhe dar causa, caracterizando o crime de duplicata simulada, previsto no artigo 172 do Código Penal.[65: Art. 172 - Emitir fatura, duplicata ou nota de venda que não corresponda à mercadoria vendida, em quantidade ou qualidade, ou ao serviço prestado. Pena - detenção, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa. Parágrafo único. Nas mesmas penas incorrerá aquêle que falsificar ou adulterar a escrituração do Livro de Registro de Duplicatas] CONCEITO DE TÍTULO DE CRÉDITO Para Cesare Vivante, “título de crédito é o documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado”. Este conceito foi adotado pelo nosso Código Civil: CLASSIFICAÇÃO DO TÍTULO DE CRÉDITO QUANTO AO MODELO Vinculado: aquele cuja forma é determinada pela lei. Exemplos: duplicata; cheque. Livre: ao contrário, é aquele cuja forma não tem previsão legal. Exemplos: nota promissória; letra de câmbio. QUANTO À HIPÓTESE DE EMISSÃO Causal: é aquele que precisa de uma causa específica para sua emissão. Exemplo: duplicata – só pode ser emitida duplicata para compra e venda mercantil ou prestação de serviço. Não causal ou abstrato: não precisa de causa específica para sua emissão, podendo ser emitido para qualquer fim. Exemplo: cheque, nota promissória, letra de câmbio. QUANTO À SUA ESTRUTURA Ordem de pagamento – contém três intervenientes: (i) quem dá a ordem (sacador); (ii) quem recebe a ordem (sacado); e (iii) o destinatário da obrigaçãoo (tomador ou beneficiário). Exemplos: cheque, duplicata, letra de câmbio Promessa de pagamento: contém dois intervenientes: (i) quem assume a promessa (promitente ou subscritor); (ii) quem recebe a promessa e é destinatário da obrigação ao mesmo tempo (Tomador/beneficiário). Exemplos: nota promissória DIREITO EMPRESARIAL Títulos de crédito – noções introdutórias DIREITO EMPRESARIAL Títulos de crédito – noções introdutórias TÍTULOS DE CRÉDITO EM ESPÉCIE LETRA DE CÂMBIO INTRODUÇÃO A letra de câmbio é regulada pelo Decreto n° 57.663/66 – Lei Uniforme de Genebra (LUG). Por força do artigo 903, “salvo disposição diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste Código”. Por isso, as regras do Código Civil só se aplicam subsidiariamente às letras de câmbio (o mesmo vale para o cheque, a duplicata e a nota promissória). A letra de câmbio é o título de crédito por excelência. O Tratado que deu origem à Lei Uniforme de Genebra teve por objetivo uniformizar as regras que disciplinam os títulos de créditos, para que eles possam circulam alémdas fronteiras nacionais (característica do direito empresarial de um modo geral). CONCEITO É uma ordem de pagamento efetuada pelo sacador ao sacado, determinando que este pague ao tomador determinada quantia em determinada data. ESTRUTURA Sujeitos A letra de câmbio é formada pelos seguintes sujeitos: (i) o sacador; (ii) o sacado; e (iii) o tomador. Sacador – é quem emite a ordem de pagamento; Sacado – é quem recebe a ordem de pagamento; Tomador – é o credor da obrigação contida na letra de câmbio. PROTESTO A letra de câmbio comporta o protesto: Por falta de pagamento – a letra de câmbio poderá ser levada ao cartório de protesto de títulos quando não for paga pelo devedor no dia do vencimento. Por falta de aceite – o cartório vai notificar o sacado a manifestar-se. A não manifestação do sacado será interpretada como recusa. O cartório certificará a recusa do aceite. Essa certidão acompanhará o título em eventual execução do título contra o sacador. Há jurisprudência do TJ/SP no sentido de que não é mais válido o protesto por falta de aceite, em razão das graves consequências que ele acarreta para o sacado, que muitas vezes sequer possui relação jurídica com o sacador. VENCIMENTOS A letra de câmbio admite quatro tipos de vencimento: À Vista: é o título exigível de imediato; Com data certa ou fixada ou marcada: é a indicação de data determinada. A certo termo de data: é o prazo em número de dias (“em 20 dias”), contados a partir da data da emissão; A certo termo de vista: é o prazo em número de dias, contados a partir da data do aceite. REQUISITOS DA LETRA DE CÂMBIO REQUISITOS ESSENCIAIS São requisitos essenciais, sob pena de não produzir efeito como letra (art. 2°): Nome do título: deve estar constando expressamente expressão “letra de câmbio” ou simplesmente “letra”; Mandato puro e simples de pagar quantia determinada – é essencial a uma ordem de pagamento; Nome do sacado (recebedor da ordem); Nome do tomador (beneficiário do pagamento); Assinatura do sacador (aquele que dá a ordem de pagamento); REQUISITOS ACIDENTAIS São requisitos acidentais, não essenciais ou supríveis: Época de pagamento (à vista ou pós-datado): a omissão presume ser à vista. Lugar de pagamento: a falta de menção presume o domicílio do sacado. Indicação de data e lugar do saque (emissão): a ausência presume ser no domicílio do sacador. REQUISITO FACULTATIVO O aceite – vide item “ACEITE” no próximo subtítulo. ATOS CAMBIÁRIOS O estudo dos atos será feito sobre a letra de câmbio com data certa de vencimento. Os atos cambiários são seis: (i) aceite; (ii) endosso; (iii) aval; (iv) pagamento; (v) protesto; (vi) prescrição. ATO 1 - ACEITE Manifestação do sacado, que assina a letra de câmbio concordando com a ordem dada pelo sacador. A partir do aceite, o sacado se torna o obrigado principal e o sacador passa a ser um obrigado subsidiário. O aceite pode ser obtido até o dia do vencimento e é facultativo na letra de câmbio (ao contrário da duplicata, em que é obrigatório). Se o sacado se recusar a dar o aceite, ocorrerá o vencimento antecipado do título. Cláusula “não aceitável” É cláusula que, quando inserida na letra de câmbio, impede o vencimento antecipado do título por recusa do sacado. Note-se que o tomador não fica impedido de procurar o sacado e nem o sacado fica impedido de dar o aceite na letra de câmbio. Os dois atos poderão ocorrer perfeitamente. O que muda apenas é que a letra de câmbio com cláusula “não aceitável” não vence antecipadamente por recusa de aceite. Recusa parcial A recusa parcial consiste na objeção do sacado em relação a uma ou algumas das informações contidas no título. Tem por consequência o vencimento antecipado do título. A recusa parcial pode ser: Modificativa – ocorre quando o sacado altera algum dado contido no título que não diga respeito ao valor do aceite. Caso ela ocorra, o tomador terá direito (i) contra o sacador, nos termos por ele escritos, porém com o vencimento antecipado, e (ii) contra o sacado, nos termos por ele anotados a título de retificação. Limitativa – o sacado discorda do valor indicado pelo sacador no título e aceita apenas uma parte da quantia, escrevendo no título “aceite no valor de $...”. Se isso acontecer: 1ª corrente (prevalece) – o tomador terá (i) contra o sacador, direito à totalidade do valor, com vencimento antecipado; (ii) contra o sacado, direito ao montante aceito. Com isso, o sacador terá o direito de cobrar a diferença do sacado (em relação não cambiária); 2ª Corrente) - o sacador ficará obrigado somente à diferença entre o total e o montante aceitado, com vencimento antecipado para o sacador e com o vencimento escrito no título para o tomador. ATO 2 - ENDOSSO É o endosso próprio, também chamado de endosso translativos. Trata-se do ato cambiário por meio do qual o endossante transmite ao endossatário o crédito contido no título de crédito, de que é credor. O primeiro endossante será sempre o tomador. Quem endossa também se torna codevedor, salvo se o endossante escrever (a cláusula) “sem garantia” ao lado de sua assinatura. O endosso se faz pela assinatura do endossante no verso do título. O endosso pode ser (i) em preto e (ii) em branco. Endosso em preto – é o endosso com nome do endossatário. Endosso em branco – é o endosso sem o nome do endossatário. O portador de boa-fé pode complementar as omissões em branco, desde que não exceda os poderes contidos no título (Súmula n° 387/STF). O endosso em branco não transforma a letra em título ao portador (ao portador é só o título emitido sem nome do tomador). Endosso parcial O endosso parcial é nulo. É impossível transmitir parcialmente e crédito e manter consigo a cártula (vai rasga-la ao meio? Não né). Cláusula “não à ordem” A cláusula “não à ordem” impede a circulação do título por endosso. Caso ele seja transmitido a terceiro, a relação entre quem entrega e quem recebe o título será de cessão civil e não mais cambiária. Endosso impróprio Não possui a finalidade de transmitir o crédito para o endossatário e sim de transmitir ao endossatário alguns poderes relativos ao título. É feito escrevendo-se no verso “Pague-se, por procuração, a fulano”. Divide-se em: (i) endosso mandato Endosso-mandato – transmite ao endossatário o direito de receber, protestar e executar o título. Endosso-caução – é a entrega do título ao endossatário, em garantia de dívida contraída junto a ele pelo endossante, que poderá resgatá-lo após adimplido integralmente a obrigação. O cheque não admite endosso-caução, por ser ordem de pagamento à vista. ATO 3 - AVAL É o ato cambiário pelo qual o avalista se compromete a pagar a obrigação contida no título nas mesmas condições assumidas pelo avalizado. Aval é garantia. Eventuais vícios entre o avalizado e o credor não afetam o aval (diferente da fiança, que é cláusula acessória e se contamina pelo vício na relação principal). Por exemplo: se o avalizado era incapaz à época do recebimento do título, o credor poderá cobrar normalmente do avalista. O aval não garante benefício de ordem ao avalista. O aval é equivalente, ou seja, devedor e avalista são codevedores, em igualdade de condições (inclusive, se o devedor é liberado, o avalista também o será). O aval também pode ser em preto ou em branco. Essa questão é importante porque o avalista terá mesma responsabilidade do avalizado no pagamento do crédito. Aval em preto – o avalista identifica o avalizado; Aval em branco – o avalista simplesmente assina o título, sem, no entanto, identificar o avalizado. Na falta de identificação do avalizado (aval em branco), a lei considera que o aval foi feito em benefício do sacador (emitente do título). Aval parcial É admitido, por previsão na Lei Uniforme de Genebra. Assim, o avalista poderia anotar no título “aval até o limite de $...”. Essa regra vale para todos os títulos títulos. O aval pode ser (i) em preto ou (ii) em branco. Diferenças entre aval e fiança Aval Fiança Está condicionada à emissãode um título de crédito É efetuada em um contrato É garantia pessoal É autônomo (vício na obrigação principal não contamina o aval) É acessório (o vício no contrato invalida a fiança) Não existe benefício de ordem No silêncio do contrato, existirá benefício de ordem (art. 827) Sua validade depende de outorga conjugal (Art. 1.647, inciso III, do CC/02) Consentimento do cônjuge Art. 1.647. Ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta: (...) III - prestar fiança ou aval; O art. 1.647, inciso III, do Código Civil determina que nenhuma pessoa casada sob regime diverso da separação absoluta poderá ser fiadora ou avalista de terceiro, sem a autorização de seu cônjuge, podendo o juiz suprir a outorga, quando um dos cônjuges a denegue sem motivo justo, ou lhe seja impossível concedê-la (art. 1.648). Art. 903. Salvo disposição diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste Código Os doutrinadores empresarialistas e civilistas divergiam sobre a interpretação do art. 903. Para os estudiosos do Direito Empresarial, o art. 1.647, inciso III, era inaplicável ainda que subsidiariamente, porque afetaria a confiabilidade dos títulos. Porém, prevalecia o entendimento de que o Código Civil, além de reger os títulos atípicos, tinha aplicação subsidiária aos títulos de crédito típicos, de modo que o aval prestado em títulos de crédito típicos - letra de câmbio, nota promissória, cheque – por pessoa casada, sem a autorização do respectivo cônjuge, acarretava a nulidade da cláusula de aval. Esse era o posicionamento do STJ. Porém, o STJ modificou seu entendimento, pacificando-o no sentido de que o artigo 1.647, III, não se aplica aos títulos de crédito nominados (típicos), valendo apenas para os títulos inominados, que são os títulos que venham a ser formulados e firmados entre particulares com base no Código Civil. Para o Tribunal Cidadão, “a submissão da validade do aval à outorga do cônjuge do avalista compromete, sobremaneira, a garantia que decorre do instituto, enfraquecendo os próprios títulos de crédito, tão aptos à circulação em face de sua tranquila aceitação no mercado, tranquilidade essa a decorrer das garantias que dimanam de suas características e dos institutos cambiários que os coadjuvam, como o aval”. [66: REsp 1.526.560/MG, 3ª Turma, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, 2017. O entendimento se alinha com o da 4º Turma.] ATO 4 - PAGAMENTO É um modo de extinção das obrigações cambiárias. Aquele que paga um título de crédito deve ter duas cautelas: (i) exigir que título lhe seja entregue; (ii) exigir quitação do credor no corpo do título. O pagamento acarreta o desfazimento das obrigações cambiárias posteriores à daquele que cumpriu as obrigações, ou seja, quem paga libera os que vieram depois. Todo título de crédito tem um obrigado principal. Vencida a letra de câmbio, serão obrigados ao pagamento na seguinte ordem obrigatória (essa ordem deixa de existir após o protesto do título): Com aceite Sem aceite 1° O sacado O sacador 2° O avalista do sacado O avalista do sacador 3° O sacador ----------- 4° O avalista do sacador ----------- Diferente do endosso, o pagamento parcial no direito cambiário é um direito do devedor e não pode ser recusado pelo credor. No entanto, o credor não é obrigado a receber o pagamento antecipado (atenção para regras específicas das relações de consumo). Essa regra vale inclusive para o cheque (art. 38 da Lei do Cheque), embora não seja aplicada na prática. ATO 5 - PROTESTO É ato formal e solene pelo qual se comprova o descumprimento de uma obrigação cambiária ou a inadimplência de um título de crédito. O protesto da letra de câmbio no prazo de 2 dias úteis é condição para que o credor possa ajuizar ação de execução em face dos codevedores (sacador, endossantes e respectivos avalistas). Assim, não pago o título na data do vencimento, o credor deverá apresentar a letra de câmbio (também vale para a nota promissória) para protesto no prazo de dois dias úteis. Protestado o título, o credor passa a ter o direito de cobrar de quem preferir. Pago o título pelo coobrigado demandado: Todos os codevedores ficam liberados perante o credor; Os codevedores “para frente” na sequência de circulação do título ficam liberados perante o codevedor que pagou (o endossatário de quem pagou e os endossatários seguintes; o sacador, se o sacado deu o aceite); Os codevedores “para trás” na sequência de circulação do título (o endossante e os endossantes anteriores a ele; o sacado que deu o aceite) continuam obrigados perante o codevedor que pagou, podendo ser por ele cobrados. Assim, na coluna “com aceite” (quadro supra), se apesar da liberdade de cobrar de quem preferisse o credor optou por cobrar do sacador, este poderá cobrar do sacado e do avalista deste (porque o aceite fez do sacado o obrigado principal). Porém, se quem pagou foi o sacado, ele não poderá cobrar do sacador. Sentido de circulação do título Endosso Endosso Sacador Beneficiário Endossatário Endossatário Sacado Aceite PAGOU Sentido obrigatório da cobrança Se a letra câmbio ou nota promissória não for protestada no prazo de 2 dias úteis, ou a duplicata no prazo de 30 dias, o credor perderá o direito de cobrar dos codevedores (sacador e endossantes). Só o sacado poderá ser cobrado. Em suma: para cobrar do devedor principal, o protesto é facultativo; para cobrar de todos os codevedores, o protesto no prazo de dois dias úteis é obrigatório. Interrupção do prazo prescricional A tradição no direito cambiário era de que o protesto não interfere no curso do prazo prescricional para a execução do título, entendimento este que havia sido sumulado pelo STF (Súmula n° 153). No entanto, o Código Civil de 2002 passou a prever que o protesto cambial interrompe o prazo prescricional, fazendo-o voltar a correr por inteiro a partir do protesto. Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez, dar-se-á: (...) III - por protesto cambial; Cláusula “sem despesas” Se o sacador escrever “sem despesas” na letra de câmbio, o protesto cambial torna-se facultativo para o credor e este não perderá o direito de ação contra os coobrigados. ATO 6 – PRESCRIÇÃO É a perda do direito de ação pelo decurso do tempo para o seu exercício. A letra de câmbio se submete aos seguintes prazos prescricionais: 3 anos, a partir do vencimento do título – para o credor do título ou o coobrigado que pagou propor ação de execução contra o devedor principal (esse é sempre o prazo contra o sacado).[67: A Lei Uniforme de Genebra comete uma atecnias, determinando que todas as ações propostas em face do sacado prescrevem em três anos, contados do vencimento do título, mesmo que o autor da ação seja um coobrigado.] 1 ano, para o credor cobrar os coobrigados, a contar do protesto do obrigado principal. 6 meses, para o codevedor que pagou cobrar os demais coobrigados, contados do pagamento. DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Títulos de crédito – Letra de câmbio DIREITO EMPRESARIAL Títulos de crédito – Letra de câmbio NOTA PROMISSÓRIA INTRODUÇÃO Trata-se de uma promessa de pagamento efetuada pelo emitente em face do beneficiário (não existe sacado), comprometendo-se pessoalmente a pagar determinada quantia, em determinada data. A nota promissória está regulamentada pela Lei Uniforme de Genebra – Decreto n° 57.663/66, a mesma norma regulamentadora da letra de câmbio. As peculiaridades estão contidas nos arts. 75 a 78. Nossa legislação não permite a criação de títulos de crédito ao portador (salvo o cheque no valor de até R$ 100,00), ou seja, a nota promissória tem como requisito obrigatório o nome do beneficiário (credor). Assim, caso não o beneficiário da nota promissória não tenha sido identificadona cártula, o próprio credor poderá completar as omissões, conforme entendimento do STF consolidado na Súmula n° 387.[68: O objetivo do legislador é impedir que título de crédito se transformem em moeda paralela.][69: Súmula n° 387/STF: “A cambial emitida ou aceita com omissões, ou em branco, pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da cobrança ou do protesto”.] Embora os títulos de crédito devam ser criados com o nome do beneficiário, eles poderão ser transformados em título ao portador através do endosso em branco, caso em que serão plenamente válidos. A nota promissória pode ser vinculada a um contrato bancário envolvendo concessão de crédito, mas terá como consequência ser ilíquida e não autônoma, conforme estabelece a Súmula n° 258/STJ: “A nota promissória vinculada a contrato de abertura de crédito não goza de autonomia em razão da iliquidez do título que a originou”. Assim, na hipótese de inadimplemento, a instituição financeira deverá apurar o valor devido pelo cliente em ação de liquidação antes de iniciar a execução. REQUISITOS REQUISITOS ESSENCIAIS São requisitos da nota promissória, sem os quais ela não produzirá efeitos: Nome do título – todo título de crédito típico deve estar identificado pelo nome. No caso do título em estudo, a cártula que representa a obrigação deverá conter a expressão “Nota promissória”; Promessa pura e simples de pagar quantia determinada; Época de pagamento; Lugar de pagamento Nome do emitente; Nome do beneficiário – equivale à figura do tomador na letra de câmbio. Note-se que a nota promissória não conta com a figura do sacado (que só as ordens de pagamento podem ter). Lugar de emissão; Data de emissão; Assinatura do emitente. VENCIMENTO Aplicam-se os mesmos prazos de vencimento da letra de câmbio. A doutrina diverge apenas sobre a aplicabilidade do prazo “a certo termo de vista”, por ser inerente a ele o aceite, que não existe na nota promissória. Os defensores do prazo “a certo termo de vista” veem como alternativa à falta da figura do sacado a criação de um “visto” em substituição ao aceite, servindo como termo inicial do prazo de vencimento. ATOS CAMBIÁRIOS APLICÁVEIS À NOTA PROMISSÓRIA Todos os atos cambiários que disciplinam a letra de câmbio e que forem compatíveis com a natureza da nota promissória são a ela aplicáveis (art. 77 da LUG). ACEITE O aceite tal como conhecemos – manifestação do sacado – é incompatível com a nota promissória, pois é uma promessa de pagamento e não uma ordem de pagamento (para que terceiro pague). ENDOSSO Plenamente admitida, aplicando-se as mesmas regras da letra de câmbio. AVAL Plenamente admitida, aplicando-se as mesmas regras da letra de câmbio. Por não existir a figura do sacado na nota promissória, o aval beneficiará sempre o emitente. PAGAMENTO Aplicando-se as mesmas regras da letra de câmbio. Por não existir a figura do sacado na nota promissória, o obrigado principal será o emitente, seguido dos endossantes. Nota promissória pro solvendo e nota promissória pro soluto A nota promissória poderá servir (i) como uma garantia dada pelo devedor ao credor por uma dívida contida numa relação jurídica contratual, a ser adimplida em momento futuro (pro solvendo) ou (ii) como pagamento de uma dívida, através da entrega da nota ao credor, que dará ao devedor a quitação do débito e circulará o título através de endosso, ficando o devedor obrigado a pagar a quantia prometida quando a nota lhe for apresentada pelo endossatário (pro soluto). Quando a nota promissória não for omissa, presume-se que ela é pro solvendo. A nota promissória pro solvendo não gera novação da obrigação contida na relação jurídica causal, permanecendo esta incólume e agora garantida por um título de crédito, extinguindo-se somente com o pagamento e resgate do título de crédito. Exemplificando, em um contrato de compra e venda no valor de R$ 300 mil, pagos com 3 notas promissórias de R$ 100 mil, só se considerará pago o preço da coisa quando o comprador-devedor pagar e resgatar as notas promissórias. Caso não pague, o credor poderá executar a nota promissória e requerer a rescisão do contrato com fundamento no inadimplemento do devedor. A nota promissória pro soluto gera a novação da obrigação na qual o emitente se encontrava na posição de devedor, extinguindo-a pela quitação. No exemplo acima, em caso de não pagamento da obrigação contida na nota promissória, só resta ao credor a execução do título, pois o bem objeto do contrato de compra e venda se considera pago. PROTESTO Por não existir a figura do aceite, a nota promissória admite somente o protesto por falta de pagamento. As regras são as mesmas da letra de câmbio. Perdido o prazo de 2 dias úteis para o protesto, só o emitente, como obrigado principal, poderá ser demandado pelo credor, ficando liberados o avalista e os endossantes. PRESCRIÇÃO Aplicam-se às notas promissórias as mesmas regras sobre prescrição da letra de câmbio. O prazo para o credor ajuizar ação de execução contra o emitente é de três anos. Passado esse prazo, a nota promissória perde a força executiva, restando ao credor ajuizar ação monitória, a fim de recuperar a exequibilidade do título de crédito. De acordo com a Súmula n° 504/STJ, “o prazo para ajuizamento de ação monitória em face do emitente de nota promissória sem força executiva é quinquenal, a contar do dia seguinte ao vencimento do título”. Note que os prazos correm paralelamente: (i) do vencimento até três anos, a ação será a de execução; (ii) do dia seguinte (ao fim do prazo de três anos) até cinco anos após o vencimento, ação monitória. DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Títulos de crédito – Nota promissória DIREITO EMPRESARIAL Títulos de crédito - Nota promissória CHEQUE CONCEITO O cheque é ordem de pagamento à vista, efetuada pelo emitente em face do banco sacado, em razão de provisão que o emitente possui junto à instituição financeira, em benefício de determinada pessoa. É regido pela Lei n° 7.357/85. Tem as seguintes figuras: (i) Emitente; (ii) sacado (banco); (iii) beneficiário. Caminho do cheque $$$ Emitente Sacado Beneficiário Cheque TÍTULO À VISTA Art. 32 O cheque é pagável à vista. Considera-se não-estrita qualquer menção em contrário. Parágrafo único - O cheque apresentado para pagamento antes do dia indicado como data de emissão é pagável no dia da apresentação. De acordo com a Lei n° 7.357/85, o cheque é sempre à vista e qualquer anotação de pós-datação (ex: “bom para”) será irrelevante a apresentação do título. Entretanto, se for ajustada a pós-datação entre emitente e beneficiário, a apresentação antecipada gera o dever de indenizar. LIMITAÇÕES DO SACADO De acordo com a Lei do Cheque, o banco não pode (i) dar aceite (art. 6°); (ii) fazer endosso (art. 18, § 1°); ou (iii) dar aval. Todavia, o banco pode emitir cheque – o chamado cheque administrativo (art. 9°), hipótese em que ele figurará como emitente e beneficiário ao mesmo tempo, mediante reserva de valor equivalente pelo cliente solicitante. Para o Professor Fabio Konder Comparato, o cheque administrativo é uma promessa de pagamento. Já o cheque visado, por sua vez, é aquele em que o banco atesta, no cheque do próprio cliente, que esse cliente possui fundos disponíveis durante o prazo de apresentação, reservando o valor equivalente durante esse prazo. PAGAMENTO PARCIAL Art. 38 (...) Parágrafo único. O portador não pode recusar pagamento parcial, e, nesse caso, o sacado pode exigir que esse pagamento conste do cheque e que o portador lhe dê a respectiva quitação. O pagamento parcial é direito do devedor. PRAZOS DO CHEQUE 30/60 dias 6 meses Emissão Apresentação (extrajudicial) Execução (Judicial) Cobrança (Judicial) PRAZO DE APRESENTAÇÃO O prazo de apresentação do cheque será de: 30 dias, quando o cheque for emitido na mesma praça (Município) em que deva ser pago (agência onde ficaa conta do emitente); 60 dias, quando a praça de emissão e de pagamento forem distintas. A inobservância do prazo de apresentação acarretará para o portador a perda do direito de promover ação de execução em face dos endossantes e respectivos avalistas (art. 47, inciso II, da Lei n° 7.357/85). Note que, diferente do que ocorre com a letra de câmbio, em que a perda do prazo (de 48h) elimina o vínculo jurídico endossatário com os endossantes, no cheque a perda do prazo atinge apenas o direito de promover ação de execução em face dos endossantes, subsistindo todavia o vínculo jurídico e a possibilidade de promover outras ações (ex: monitória). Nesse sentido é a Súmula n° 600/STF: “Cabe ação executiva contra o emitente e seus avalistas, ainda que não apresentado o cheque ao sacado no prazo legal, desde que não prescrita a ação cambiária” (só contra os endossantes e respectivos avalistas). Como se viu, o prazo de apresentação em regra não impede o credor de promover ação de execução contra o emitente. Exceção: nos termos do art. 47, § 3°, da Lei do Cheque, o “portador que não apresentar o cheque em tempo hábil, ou não comprovar a recusa de pagamento pela forma indicada neste artigo, perde o direito de execução contra o emitente, se este tinha fundos disponíveis durante o prazo de apresentação e os deixou de ter, em razão de fato que não lhe seja imputável” (ex: liquidação extrajudicial do banco, confisco). O saque por um cotitular de conta conjunta não é fato não imputável. A penhora online também não. PRAZO DE EXECUÇÃO DO CHEQUE Art. 59 Prescrevem em 6 (seis) meses, contados da expiração do prazo de apresentação, a ação que o art. 47 desta Lei assegura ao portador. Encerrado o prazo de apresentação, a partir do dia seguinte o credor terá o prazo de seis meses para ajuizar ação de execução em face do emitente do cheque. O STJ conta o prazo da seguinte forma: 30/60 dias + 6 meses. Para o Tribunal de Justiça de São Paulo, prazo de execução inicia com a efetiva apresentação, quando ela ocorrer antes do fim do prazo. Em síntese: Devolvido sem fundos o cheque apresentado durante o prazo de apresentação, o prazo da execução se inicia no dia seguinte ao da devolução; Perdido o prazo de apresentação pelo credor, o prazo de execução tem início no dia seguinte. PROTESTO Se o cheque for protestado antes do fim do prazo prescricional, o protesto interrompe o prazo da prescricional da ação de execução, devolvendo-o integralmente ao credor, conforme dispõe o art. 202, inciso III, do Código Civil.[70: Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez, dar-se-á: (...) III - por protesto cambial;] COBRANÇA JUDICIAL Ação de enriquecimento indevido Art. 61 A ação de enriquecimento contra o emitente ou outros obrigados, que se locupletaram injustamente com o não-pagamento do cheque, prescreve em 2 (dois) anos, contados do dia em que se consumar a prescrição prevista no art. 59 e seu parágrafo desta Lei. Decorrido in albis o prazo prescricional, o credor poderá ainda ingressar com a ação prevista no artigo 61 da Lei do Cheque, denominada de ação de enriquecimento indevido. O prazo prescricional dessa ação será de dois anos, contados da prescrição do cheque. Ação monitória O cheque prescrito servirá de começo de prova escrita para o ajuizamento de ação monitória. Se o devedor não apresentar embargos, o juiz proferirá sentença, que servirá de título executivo judicial. Com isso, o mandado inicial da ação monitória será convertido em mandado executivo e ação de execução terá início (art. 1.102-C do CPC73). A vantagem da ação monitória é que o devedor que pagar sem embargar ficará isento do pagamento de custas e honorários advocatícios (art. 1.102-C, § 1°). O prazo da ação monitória se inicia no dia seguinte à data de emissão do cheque, de acordo com a Súmula n° 503/STJ: “O prazo para ajuizamento de ação monitória em face do emitente de cheque sem força executiva é quinquenal, a contar do dia seguinte à data de emissão estampada na cártula”. DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Títulos de crédito – Cheque DIREITO EMPRESARIAL Títulos de crédito – Duplicata mercantil DUPLICATA MERCANTIL CONCEITO Duplicata é uma ordem de pagamento efetuada pelo sacador-vendedor em face do sacado-comprador, em virtude de uma compra e venda mercantil ou da prestação de um serviço. É regulada pela Lei n° 5.474/68. É criação brasileira. Art. 2º No ato da emissão da fatura, dela poderá ser extraída uma duplicata para circulação como efeito comercial, não sendo admitida qualquer outra espécie de título de crédito para documentar o saque do vendedor pela importância faturada ao comprador. É título causal, isto é, ele só pode ser sacado (emitido) se existir a compra e venda mercantil ou prestação de serviço correspondente, sob pena de crime de duplicata simulada, previsto no art. 172 do Código Penal. Entretanto, essa causalidade não interfere na circulação, ou seja, eventual vício no negócio jurídico que deu origem ao título não poderá ser oposto ao terceiro. É o vendedor quem emite a duplicata. O aceite do comprador é feito através de sua assinatura atestando o recebimento da mercadoria. É o vendedor quem emite a duplicata. O aceite do comprador é feito através de sua assinatura atestando o recebimento da mercadoria. 2º ato – devolução da fatura, com aceite 1º ato – Envio da fatura Envio da mercadoria ao sacado-comprador Sacador (Vendedor) Sacado (Comprador) Bancos e Factoring A emissão da duplicata mercantil é facultativa, mas, uma vez emitida, a sua escrituração em livro obrigatório é compulsória, sob pena de incidir em crime falimentar caso a falência venha a ser decretada. ANTECIPAÇÃO DO CRÉDITO O sacador-vendedor tem duas possibilidades para antecipar o crédito contido na duplicata: Através de um contrato de desconto bancário, junto a uma instituição financeira (banco) – trata-se de um contrato bancário típico, em que o banco não fica limitado a cobrar taxa de juros de 12% ao ano, podendo exceder este patamar. No contrato de desconto bancário está implícita a cláusula de que o sacador responde pelo pagamento do título no caso de inadimplemento do sacado; Através de um contrato de fomento mercantil (factoring – não é banco) – não é contrato bancário típico. Por isso, a empresa de factoring fica limitada à cobrança de juros de 12% ao ano. Caso ultrapasse este patamar de 12%, cometerá crime de Usura. No entanto, o contrato de fomento mercantil poderá incluir a prestação de serviço denominado “administração do crédito”. Para a jurisprudência, se tal contrato estiver presente no contrato de fomento mercantil, está implícita a responsabilidade da empresa de factoring pelo título. Logo, se o sacado não adimplir a obrigação contida na duplicata, a empresa e factoring não terá tutela para acionar o sacador-vendedor, ainda que a duplicata lhe tenha sido transmitida por ele por endosso. O art. 20 da Lei de Duplicatas Mercantis autoriza os profissionais liberais a emitir duplicata mercantil em virtude de prestação de serviços. O único profissional liberal impedido de emitir duplicata mercantil é o advogado (art. 42 do Código de Ética) ACEITE O aceite é a manifestação do sacado-comprador em virtude da ordem dada pelo vendedor-sacador. O aceite na duplicata mercantil é obrigatório (diferente da letra de câmbio), salvo quando ocorrer um dos três motivos previstos da própria lei, sempre relacionados ao negócio subjacente: A mercadoria não tiver sido recebida, ou tiver sido recebida com avaria, quando a entrega tiver corrido por conta e risco do vendedor. Vícios, defeitos ou diferença de qualidade ou de quantidade das mercadorias, devidamente comprovados. Divergência nos prazos ou nos preços ajustados. A falência ou o pedido de recuperação judicial do sacador-vendedor não são causas que justificama recusa do aceite. Espécies de aceite O aceite pode ser de três espécies: Aceite ordinário: decorre da simples assinatura do sacado no título. Pressupõe que a duplicata mercantil tenha sido sacada (emitida e enviada). Aceite por comunicação: dá-se quando o comprador-sacado retém o título consigo e comunica à instituição financeira que ele deu seu aceite. Também pressupõe que o a duplicata foi sacada. Aceite por presunção: opera-se mediante a simples assinatura do sacado-comprador no canhoto de recebimento das mercadorias. Não há saque de uma cártula fisicamente falando, mas apenas uma troca de mensagens eletrônicas entre o sacador-vendedor e a instituição financeira. Apenas o aceite dado pelo sacado-comprador é feito fisicamente. É o aceite mais utilizado atualmente, especialmente pelas grandes empresas. PROTESTO DA DUPLICATA MERCANTIL A duplicata mercantil pode ser protestada pelos seguintes motivos: (i) falta de aceite, (ii) falta de devolução ou (iii) falta de pagamento. O prazo para o protesto da duplicata por falta de pagamento é de 30 dias, contados do vencimento do título. A perda do prazo acarreta para o credor a impossibilidade de ingressar com ação em face do sacador, dos endossantes e dos respectivos avalistas, conforme dispõe o art. 13, § 4º, da Lei nº 5.474/68 (efeito idêntico ao da perda de prazo na letra de câmbio).[71: Art. 13 (...) § 4º O portador que não tirar o protesto da duplicata, em forma regular e dentro do prazo da 30 (trinta) dias, contado da data de seu vencimento, perderá o direito de regresso contra os endossantes e respectivos avalistas. Note que o dispositivo não menciona o sacador-vendedor. Isto porque ele próprio é endossante (o primeiro endossante).] Os prazos prescricionais da duplicata mercantil são de (art. 18): 3 anos, contra o obrigado principal; 1 ano, contra os coobrigados; 1 ano, para os coobrigados em face de outro coobrigado. Protesto por indicação O protesto da duplicata mercantil que não tenha sido sacada é efetuado por meio dados que o credor informará ao cartório de protesto (não é preciso comprovar a entrega das mercadorias!), que com base nesses dados notificará o sacado-comprador para que efetue o pagamento. Se o pagamento não ocorrer, o cartório expedirá o chamado protesto por indicação. De posse dessa certidão de protesto, acompanhado do comprovante de entrega das mercadorias, o credor terá um título executivo extrajudicial. A duplicata mercantil é, portanto, uma exceção ao princípio da cartularidade. AVAL EM BRANCO Na duplicata mercantil, o aval em branco beneficiará a pessoa cuja assinatura esteja sobreposta no título (ex: o sacador-vendedor). Não havendo nenhuma assinatura sobre a cláusula de aval, presumir-se-á em benefício do sacado. QUADRO DE PRAZOS DOS TÍTULOS TÍPICOS PRAZOS Letra de câmbio Nota promissória Cheque Duplicata mercantil Apresentação -------------- -------------- 30/60 dias -------------- Protesto 2 dias úteis Dentro do prazo prescricional (STJ)[72: STJ, REsp 1.297.797/MG, Rel. Min. João Otávio de Noronha.] 30 dias Efeito Interrompe o prazo prescricional Consequências da falta de protesto ou apresentação Obrigatório para execução dos coobrigados e facultativo em relação ao sacado Obrigatória é a apresentação e não o protesto. Obrigatório para execução dos coobrigados e facultativo em relação ao sacado Perde o direito de ação contra os coobrigados e avalistas (CONTINUAÇÃO) PRAZOS Letra de câmbio Nota promissória Cheque Duplicata mercantil Prescrição contra o obrigado principal 3 anos 6 meses, contados do fim do prazo de apresentação 3 anos Prescrição contra os coobrigados 1 ano 1 ano Prescrição da ação de um coobrigado contra outro 6 meses 1 ano DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Títulos de crédito – Duplicata mercantil DIREITO SOCIETÁRIO TEORIA GERAL DAS SOCIEDADES AQUISIÇÃO DE PERSONALIDADE JURÍDICA Art. 985. A sociedade adquire personalidade jurídica com a inscrição, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos constitutivos (arts. 45 e 1.150). Personalidade jurídica não se confunde com tornar-se pessoa jurídica. Toda pessoa natural tem personalidade jurídica. Já para tornar-se pessoa jurídica é necessária a prática determinados atos. A sociedade nasce no momento da manifestação do acordo de vontade entre os sócios sobre o desempenho de determinada atividade, sendo por ora despersonificada. Apenas com o registro dos atos constitutivos na junta comercial é que essa sociedade adquirirá personalidade jurídica. Como veremos, algumas sociedades nunca terão personalidade jurídica (ex: sociedade em comum – art. 986). EFEITOS DA AQUISIÇÃO DA PERSONALIDADE Efeitos de natureza processual Com a aquisição da personalidade jurídica, a sociedade passa a ser sujeito de direito, podendo estar ativa ou passivamente em juízo, bem como realizar negócios jurídicos. Ressalte-se, todavia, que o art. 12, inciso VII, do CPC/73 confere ao administrador dos bens da sociedade sem personalidade jurídica a chamada capacidade processual, isto é, o poder para defender em juízo os interesses da sociedade. Efeitos de natureza material A partir do momento da aquisição da personalidade jurídica, os sócios não mais se confundirão com a sociedade criada e o patrimônio desta não poderá se confundir com o patrimônio dos sócios, sob pena de os sócios incidirem na chamada confusão patrimonial, que autoriza a desconsideração da personalidade jurídica (art. 50 do CC). CLASSIFICAÇÕES DAS SOCIEDADES QUANTO À RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS As sociedades se dividem quanto à responsabilidade dos sócios em Limitada – os sócios limitam sua responsabilidade à sua contribuição para o capital social (quota, ação). Exemplo: sociedade limitada, sociedade anônima, EIRELI. Ilimitada – se a sociedade não cumprir as suas obrigações, os sócios poderão ser responsabilizados (responsabilidade subsidiária dos sócios). Exemplo: sociedade em comum (art. 986); sociedade em nome coletivo (art. 1.039). Mista – a sociedade terá sócios de responsabilidade limitada e sócios de responsabilidade ilimitada. Exemplos: sociedade em comandita simples (art. 1.045); sociedade em comandita por ações (art. 1.090). QUANTO À FORMAÇÃO Sociedade de pessoas – o elemento preponderante para a constituição da sociedade é o vínculo subjetivo que une os sócios, como o conhecimento técnico, a moral etc. (affectio societatis). Todas as sociedades reguladas no Código Civil são de pessoas. São características das sociedades de pessoas: A alienação das cotas a não sócio não é livre (art. 1.057 do CC); Em caso de morte as cotas são liquidadas (art. 1.028); As cotas são impenhoráveis por dívidas pessoais dos sócios (art. 1.026); É possível excluir sócio minoritário, quando há quebra do affectio societatis; Sociedade de capital – o elemento preponderante é a contribuição patrimonial do sócio para a sociedade. São duas sociedades de capital (i) a sociedade anônima; e (ii) a sociedade em comandita por ações. São características das sociedades de pessoas: É livre a alienação das ações, mesmo a não acionista; Em caso de morte do acionista, o herdeiro ingressa automaticamente na sociedade; As ações podem ser penhoradas por dívidas pessoais contraídas pelos acionistas; Não existe a possibilidade de excluir sócio por quebra de affectio societatis, porque ela não existe. Quadro comparativo Sociedades de pessoas Sociedades de capital A alienação das cotas a não sócio não é livre (art. 1.057 do CC); É livre a alienação das ações, mesmo a não acionista; Em caso de morte as cotas são liquidadas (art. 1.028); Em caso de morte do acionista, o herdeiro ingressa automaticamente na sociedade; As cotas são impenhoráveis por dívidas pessoais dos sócios (art. 1.026); As ações podem ser penhoradas por dívidas pessoais contraídas pelos acionistas; É possível excluir sócio minoritário,quando há quebra do affectio societatis; Não existe a possibilidade de excluir sócio por quebra de affectio societatis, porque ela não existe. ESPÉCIES SOCIETÁRIAS SOCIEDADE EM COMUM Art. 986. Enquanto não inscritos os atos constitutivos, reger-se-á a sociedade, exceto por ações em organização, pelo disposto neste Capítulo, observadas, subsidiariamente e no que com ele forem compatíveis, as normas da sociedade simples. É uma sociedade que não tem personalidade jurídica porque seus atos constitutivos não foram registrados em nenhum órgão oficial. Pela mesma razão, a sociedade em comum não tem nome empresarial. Apesar de não ter nem personalidade jurídica nem nome empresarial, a sociedade em comum tem um patrimônio especial, afetado à atividade exercida, conforme dispõe o artigo 988. A responsabilidade dos sócios é ilimitada e solidária, mas os sócios que não participaram do contrato que deu origem à dívida só respondem com seus bens pessoais depois de esgotado o patrimônio especial, ou seja, eles têm benefício de ordem (art. 1.024). Já o sócio que contratou não goza do benefício de ordem, tudo nos termos do art. 990. Para se valer do benefício de ordem, os sócios só poderão provar a existência da sociedade em comum através de documento escrito (o contrato social). Já o terceiro pode provar a existência da sociedade por qualquer meio, conforme prevê o art. 987. Apesar de não ter personalidade jurídica, a sociedade em comum tem capacidade processual, ou seja, pode estar em juízo para defender os interesses da sociedade, na “pessoa a quem couber a administração de seus bens” (art. 12, inciso VII, do CPC73). Por que existe esse tipo de sociedade? Em regra, ela não existe para ser assim. O que ocorre é que os sócios pretendem constituir uma sociedade limitada e registrá-la, mas acabam perdendo o prazo de trinta dias para efetuar o registro (perdendo o efeito retroativo à data de assinatura do contrato). Com a perda do prazo, os contratos celebrados pela sociedade no período entre a celebração do contrato social e o registro serão considerados como contratos celebrados por sociedade em comum, autorizando o credor a acionar diretamente os sócios que participaram da celebração do contrato (em regra, os administradores), pois eles não gozam do benefício de ordem, podendo acionar os demais sócios depois. A sociedade em comum não se confunde com a sociedade de fato, que é a sociedade que sequer possui um contrato social. Ela é absolutamente informal. Por isso, elas não gozam do benefício de ordem. Por fim, a sociedade irregular é a sociedade que deixou de preencher os requisitos de regularidade (ex: ficou com apenas um sócio por mais de 180 dias). SOCIEDADE EM CONTA DE PARTICIPAÇÃO Art. 991. Na sociedade em conta de participação, a atividade constitutiva do objeto social é exercida unicamente pelo sócio ostensivo, em seu nome individual e sob sua própria e exclusiva responsabilidade, participando os demais dos resultados correspondentes. É sociedade que nunca adquire personalidade jurídica, ainda que o contrato social seja levado a registro (art. 993). O contrato produz efeito apenas entre os sócios. Por isso, é a única sociedade cujo contrato pode ser verbal sem que isso interfira em sua estrutura (porque o contrato escrito só é necessário para registro na Junta Comercial). Não tem nome empresarial. Sócios A sociedade em conta de participação possui duas modalidades de sócios: O sócio ostensivo – deve ser obrigatoriamente empresário (individual) ou sociedade empresária, pois será ele quem praticará atividade empresarial em nome próprio. Consequentemente, sua responsabilidade é exclusiva e ilimitada. O sócio participante – pode ser empresário ou sociedade empresária, ou pode ser mera pessoa física. Sua principal característica é que não pratica atividade empresarial em nome próprio, assim, não assume nenhuma responsabilidade perante terceiros. Havendo a falência do sócio ostensivo, eventual crédito do sócio participante será classificado como quirografário. Exemplo comum é um investidor (participante) injetar capital em uma construtora (sócio ostensivo), que construirá imóveis e os venderá, entregando parte do lucro ao investidor, que não se envolverá na negociação dos imóveis. SOCIEDADE EM NOME COLETIVO Art. 1.039. Somente pessoas físicas podem tomar parte na sociedade em nome coletivo, respondendo todos os sócios, solidária e ilimitadamente, pelas obrigações sociais. É uma sociedade personificada que utiliza obrigatoriamente a firma social (art. 1.041). Só as pessoas físicas podem ser sócias. O administrador precisa ser sócio. A responsabilidade dos sócios é solidária e ilimitada, porém os sócios podem, no ato constitutivo, ou por unânime convenção posterior, limitar entre si a responsabilidade de cada um (art. 1.039, parágrafo único). A responsabilidade dos sócios é solidária e ilimitada. No entanto, ela é sempre subsidiária, como em toda sociedade com personalidade jurídica. SOCIEDADE EM COMANDITA SIMPLES Art. 1.045. Na sociedade em comandita simples tomam parte sócios de duas categorias: os comanditados, pessoas físicas, responsáveis solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais; e os comanditários, obrigados somente pelo valor de sua quota. É uma sociedade personificada que utiliza obrigatoriamente a firma social (formada somente pelo nome do sócio comanditado). É sociedade de pessoas. Sócios A sociedade em comandita simples têm duas espécies de sócios: Sócio comanditado – deve ser pessoa física. É quem administrará a sociedade, tendo responsabilidade solidária e ilimitada pelas obrigações sociais. Sócio comanditário – pode ser pessoa física ou jurídica. Ele não pode participar da administração. Sua responsabilidade é limitada ao valor de suas quotas. Seu nome não pode aparecer na firma social, sob pena de responder ilimitadamente pelas obrigações da sociedade (teoria da aparência). SOCIEDADE LIMITADA Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social. Conceito e responsabilidade Sociedade limitada é uma espécie societária personificada, na qual a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas cotas, mas todos terão responsabilidade pessoal solidária pela parcela não integralizada do capital social subscrito. Uma vez integralizado todo o capital subscrito, os sócios não responderão por dívidas contraídas pela sociedade. O incapaz pode ser sócio de sociedade limitada, desde que, nos termos do art. 974, § 3°: i) o capital esteja totalmente integralizado; ii) o incapaz não participe da administração da sociedade; iii) o incapaz esteja devidamente representado ou assistido. Exceções à regra da responsabilidade limitada São três as exceções: Dívida trabalhista – em virtude do risco da atividade assumida pelos sócios, a Justiça do Trabalho entende que se a sociedade limitada tiver dívidas trabalhistas, os sócios deverão suportá-las pessoalmente. Desconsideração da personalidade jurídica – nos termos do artigo 50 do Código Civil, “em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”. O ônus da prova caberá ao credor. A desconsideração é momentânea, apenas para o credor obter a satisfação do crédito. Aprovação de matéria infração à lei ou ao contrato social – nos termos do artigo 1.080, “As deliberações infringentes do contrato ou da lei tornam ilimitada a responsabilidade dos que expressamente as aprovaram”. Assim, o sócio dissidente deverá fazer constar em ata sua discordância, liberando-se assim da responsabilidade. O sócio ausente à assembleia também não responde. Exemplo: os sócios distribuemlucro com prejuízo do capital social, violando o artigo 1.059.[73: Art. 1.059. Os sócios serão obrigados à reposição dos lucros e das quantias retiradas, a qualquer título, ainda que autorizados pelo contrato, quando tais lucros ou quantia se distribuírem com prejuízo do capital.] DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Direito societário – Teoria Geral das Sociedades DIREITO EMPRESARIAL Direito societário – Teoria Geral das Sociedades SOCIEDADE ANÔNIMA QUESTÕES INTRODUTÓRIAS A responsabilidade do acionista é limitada ao preço de emissão de suas ações, sem responsabilidade solidária pela integralização do capital. A sociedade anônima é sempre sociedade empresária, independentemente do objeto e da organização dos fatores de produção, conforme dispõem o art. 2°, § 1°, da LSA e o art. 982, parágrafo único, do Código Civil. Por isso, seu registro é feito sempre na Junta Comercial.[74: Art. 2° (...) § 1º Qualquer que seja o objeto, a companhia é mercantil e se rege pelas leis e usos do comércio.][75: Art. 982 (...) Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa.] Sua administração é dualista – a sociedade é administrada: (i) pelo conselho de administração; e (ii) pela diretoria. O nome empresarial é obrigatoriamente a denominação, acompanhada da palavra “Companhia” no início ou “Sociedade Anônima” ou “S/A” em qualquer posição. É permitido utilizar o nome de uma pessoa, em sua homenagem. Poderá ser: (i) S/A aberta – o registro da companhia é outorgado pela Comissão de Valores Mobiliários, autorizando-a a negociar valores mobiliários (ações, debêntures, bônus de subscrição) no mercado de capitais primário (balcão) e secundário (bolsa). A emissão de ações é facultativa. Por isso, a empresa pública pode ser S/A aberta ; ou (ii) fechada – o registro é efetuado somente na Junta Comercial, o que restringe a negociação de títulos mobiliários. Affectio societatis – para o STJ, será o exercício do direito de retirada ou a exclusão de um sócio, por quebra da affectio societatis, na somente S/A fechada de natureza familiar. Nessa hipótese, será preciso demonstrar ainda a existência de justa causa, caracterizada pela violação dos deveres de sócio.[76: REsp 1.129.222/PR, 2011. Informativo 487/STJ.] VALORES MOBILIÁRIOS Lei n° 6.385/76 Art. 2º São valores mobiliários sujeitos ao regime desta Lei: I - as ações, debêntures e bônus de subscrição; II - os cupons, direitos, recibos de subscrição e certificados de desdobramento relativos aos valores mobiliários referidos no inciso II; III - os certificados de depósito de valores mobiliários; IV - as cédulas de debêntures; V - as cotas de fundos de investimento em valores mobiliários ou de clubes de investimento em quaisquer ativos; VI - as notas comerciais; VII - os contratos futuros, de opções e outros derivativos, cujos ativos subjacentes sejam valores mobiliários; VIII - outros contratos derivativos, independentemente dos ativos subjacentes; e IX - quando ofertados publicamente, quaisquer outros títulos ou contratos de investimento coletivo, que gerem direito de participação, de parceria ou de remuneração, inclusive resultante de prestação de serviços, cujos rendimentos advêm do esforço do empreendedor ou de terceiros. O rol do artigo 2° da Lei da CVM – Lei n° 6.385/76 é exemplificativo, porque na atualidade existem outros valores mobiliários previstos em leis esparsas. BOLSA DE VALORES A bolsa de valores foi associação civil até 2006. Em 2007, tornou-se S/A fechada e, no final do mesmo ano, transformou-se em S/A aberta (processo chamado de desmutualização). Em 2008 a BOVESPA e a BMF foram fundidas, dando origem à NOVA BOLSA. ações Ações nominativas e ações escriturais Quanto à forma, as ações podem ser: Nominativas – podem ter um certificado; fica averbada no livro de registro de ações nominativas (art. 100 da LSA). Escriturais – é virtual, sem certificado; fica averbada na instituição financeira que faz a sua custódia. A diferença tem relevância quando as ações forem dadas em garantia (penhor), como determina do artigo 39 da LSA: Art. 39. O penhor ou caução de ações se constitui pela averbação do respectivo instrumento no livro de Registro de Ações Nominativas. § 1º O penhor da ação escritural se constitui pela averbação do respectivo instrumento nos livros da instituição financeira, a qual será anotada no extrato da conta de depósito fornecido ao acionista. Ações ordinárias e ações preferenciais Ações ordinárias – são as ações que garantem ao acionista o direito ao voto. Em regra, as ações ordinárias não podem ser divididas em classes. Exceção: as ações ordinárias das companhias fechadas poderão ser divididas nas classes determinadas nos incisos do artigo 16 da Lei.[77: Art. 16. As ações ordinárias de companhia fechada poderão ser de classes diversas, em função de: I - conversibilidade em ações preferenciais; II - exigência de nacionalidade brasileira do acionista; ou III - direito de voto em separado para o preenchimento de determinados cargos de órgãos administrativos.] Ações preferenciais - Em regra, dão direito ao voto, mas poderá ser retirado pelo estatuto, desde que não ultrapasse 50% do capital social (art. 15, § 2°). Ainda que retirado o direito a voto, o acionista preferencialista poderá votar em situações especificadas na Lei:[78: Art. 15 (...) § 2º O número de ações preferenciais sem direito a voto, ou sujeitas a restrição no exercício desse direito, não pode ultrapassar 50% (cinqüenta por cento) do total das ações emitidas.] Na assembleia de constituição (art. 87, § 2°);[79: Art. 87 (...) § 2º Cada ação, independentemente de sua espécie ou classe, dá direito a um voto; a maioria não tem poder para alterar o projeto de estatuto.] Na assembleia de liquidação da companhia (art. 213, § 1°);[80: Art. 213 (...) § 1º Nas assembléias-gerais da companhia em liquidação todas as ações gozam de igual direito de voto, tornando-se ineficazes as restrições ou limitações porventura existentes em relação às ações ordinárias ou preferenciais; cessando o estado de liquidação, restaura-se a eficácia das restrições ou limitações relativas ao direito de voto.] Quando a S/A deixar de pagar dividendos pelo prazo previsto no estatuto (art. 111, § 1°).[81: Art. 111 (...) § 1º As ações preferenciais sem direito de voto adquirirão o exercício desse direito se a companhia, pelo prazo previsto no estatuto, não superior a 3 (três) exercícios consecutivos, deixar de pagar os dividendos fixos ou mínimos a que fizerem jus, direito que conservarão até o pagamento, se tais dividendos não forem cumulativos, ou até que sejam pagos os cumulativos em atraso.] Golden share – é ação preferencial de classe especial, que será titularizada tão somente pelo ente federativo que promover a desestatização da companhia. As ações Golden share poderão assegurar direitos especiais, conforme previr o estatuto (ex: direito de veto em matérias determinadas). Exemplo: EMBRAER. Direitos essenciais do acionista São direitos que nem o estatuto nem a assembleia poderão retirar os previstos no art. 109 da Lei: Participar dos lucros sociais; Participar do acervo da companhia, em caso de liquidação; Fiscalizar a gestão dos negócios sociais; Preferência para a subscrição de ações, partes beneficiárias conversíveis em ações, debêntures conversíveis em ações e bônus de subscrição, observado o disposto nos artigos 171 e 172; Retirar-se da sociedade nos casos previstos nesta Lei. Note que o direito a voto não é direito essencial. debêntures Art. 59. A deliberação sobre emissão de debêntures é da competência privativa da assembleia-geral, que deverá fixar, observado o que a respeito dispuser o estatuto: (...) § 1º Na companhia aberta, o conselho de administração pode deliberar sobre a emissão de debêntures não conversíveis em ações, salvo disposição estatutária em contrário. A função dasdebêntures é de aumentar o capital social por meio de “empréstimo” feito pelo debenturista, que não se torna sócio da S/A e sim um credor. Porém, as debêntures poderão ser conversíveis em ações, conforme constar da escritura de emissão. Nesse caso, a extinção da obrigação se dá pela conversão e não pelo pagamento. A competência para deliberar sobre a emissão de debênture é da assembleia geral. Porém, na S/A aberta, o conselho de administração também poderá emitir debêntures, como dispõe o § 1°. Espécies Art. 58. A debênture poderá, conforme dispuser a escritura de emissão, ter garantia real ou garantia flutuante, não gozar de preferência ou ser subordinada aos demais credores da companhia. § 1° A garantia flutuante assegura à debênture privilégio geral sobre o ativo da companhia, mas não impede a negociação dos bens que compõem esse ativo. São espécies de debêntures Debênture de garantia real; Debênture flutuante; Debênture quirografária; Debênture subordinada. Na hipótese de decretação de liquidação da companhia, os créditos serão habilitados no quadro de credores do artigo 83 da Lei n° 11.101/05, na classe a que o nome faz referência (art. 83, incisos II, V, VI e VII, respectivamente. certificado de potencial adicional de construção – cepac O CEPAC é valor imobiliário previsto na Instrução Normativa n° 401/03 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e no artigo 34 do Estatuto da Cidade – Lei n° 10.257/01: Art. 34. A lei específica que aprovar a operação urbana consorciada poderá prever a emissão pelo Município de quantidade determinada de certificados de potencial adicional de construção, que serão alienados em leilão ou utilizados diretamente no pagamento das obras necessárias à própria operação. § 1º Os certificados de potencial adicional de construção serão livremente negociados, mas conversíveis em direito de construir unicamente na área objeto da operação. Note que o CEPAC é valor mobiliário emitido por pessoa diversa da S/A. ACIONISTA CONTROLADOR Art. 116. Entende-se por acionista controlador a pessoa, natural ou jurídica, ou o grupo de pessoas vinculadas por acordo de voto, ou sob controle comum, que: a) é titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, a maioria dos votos nas deliberações da assembleia-geral e o poder de eleger a maioria dos administradores da companhia; e b) usa efetivamente seu poder para dirigir as atividades sociais e orientar o funcionamento dos órgãos da companhia. Note que acionista controlador não se confunde com acionista majoritário. Acionista controlador é aquele que, tendo condições de obter maioria de votos, usa efetivamente o poder para aprovar seus interesses e para dirigir as atividades sociais. Exemplificando, serão majoritários, mas não controladores: (i) o acionista que detém a maioria das ações com direito a voto, mas não comparece às assembleias; (ii) o acionista que detiver 50% + 1 do total de ações, porém os 50% são de ações preferenciais sem direito a voto. Quando o acionista majoritário coincidir com o controlador, ele será chamado de controlador majoritário. O controlador que não é majoritário é chamado de controlador minoritário. Algumas companhias não têm a figura do controlador. deveres do controlador Art. 116 (...) Parágrafo único. O acionista controlador deve usar o poder com o fim de fazer a companhia realizar o seu objeto e cumprir sua função social, e tem deveres e responsabilidades para com os demais acionistas da empresa, os que nela trabalham e para com a comunidade em que atua, cujos direitos e interesses deve lealmente respeitar e atender. São deveres do acionista controlador: Respeitar a função social da companhia; Respeitar os direitos e interesses dos acionistas de modo geral; abuso do poder de controle Art. 117. O acionista controlador responde pelos danos causados por atos praticados com abuso de poder. § 1º São modalidades de exercício abusivo de poder: a) orientar a companhia para fim estranho ao objeto social ou lesivo ao interesse nacional, ou levá-la a favorecer outra sociedade, brasileira ou estrangeira, em prejuízo da participação dos acionistas minoritários nos lucros ou no acervo da companhia, ou da economia nacional; b) promover a liquidação de companhia próspera, ou a transformação, incorporação, fusão ou cisão da companhia, com o fim de obter, para si ou para outrem, vantagem indevida, em prejuízo dos demais acionistas, dos que trabalham na empresa ou dos investidores em valores mobiliários emitidos pela companhia; c) promover alteração estatutária, emissão de valores mobiliários ou adoção de políticas ou decisões que não tenham por fim o interesse da companhia e visem a causar prejuízo a acionistas minoritários, aos que trabalham na empresa ou aos investidores em valores mobiliários emitidos pela companhia; d) eleger administrador ou fiscal que sabe inapto, moral ou tecnicamente; e) induzir, ou tentar induzir, administrador ou fiscal a praticar ato ilegal, ou, descumprindo seus deveres definidos nesta Lei e no estatuto, promover, contra o interesse da companhia, sua ratificação pela assembleia-geral; f) contratar com a companhia, diretamente ou através de outrem, ou de sociedade na qual tenha interesse, em condições de favorecimento ou não equitativas; g) aprovar ou fazer aprovar contas irregulares de administradores, por favorecimento pessoal, ou deixar de apurar denúncia que saiba ou devesse saber procedente, ou que justifique fundada suspeita de irregularidade. h) subscrever ações, para os fins do disposto no art. 170, com a realização em bens estranhos ao objeto social da companhia. Ação por prejuízo causado por abusivo do poder de controle Art. 246. A sociedade controladora será obrigada a reparar os danos que causar à companhia por atos praticados com infração ao disposto nos artigos 116 e 117. O legitimado é somente o acionista, que atuará como substituto processual da companhia (legitimação extraordinária), desde atendidos os requisitos previstos no § 1°: § 1º A ação para haver reparação cabe: a) a acionistas que representem 5% (cinco por cento) ou mais do capital social; b) a qualquer acionista, desde que preste caução pelas custas e honorários de advogado devidos no caso de vir a ação ser julgada improcedente. § 2º A sociedade controladora, se condenada, além de reparar o dano e arcar com as custas, pagará honorários de advogado de 20% (vinte por cento) e prêmio de 5% (cinco por cento) ao autor da ação, calculados sobre o valor da indenização. ACORDO DE ACIONISTAS Art. 118. Os acordos de acionistas, sobre a compra e venda de suas ações, preferência para adquiri-las, exercício do direito a voto, ou do poder de controle deverão ser observados pela companhia quando arquivados na sua sede. O acordo de acionista poderá conter os seguintes objetos: Compra e venda de ações; Preferência para aquisição de ações; O exercício do direito a voto; O poder de controle. O descumprimento de uma dessas matérias admite a execução específica, enquanto o descumprimento de outras obrigações será indenizado (perdas e danos), segundo entendimento da doutrina majoritária extraído do art. 118, § 3º, da Lei (“Nas condições previstas no acordo, os acionistas podem promover a execução específica das obrigações assumidas”). O acordo de acionista é um contrato parassocial (Fábio Konder Comparato), isto porque a sociedade não participa do acordo, mas o registro dele na sua sede vinculará a companhia. efeitos do acordo de acionistas O acordo poderá ter efeito: Unilateral – materializa-se no exercício da preferência na aquisição de ações; Bilateral – materializa-se na compra e venda de ações; Plurilateral – materializa-se no poder de controle. O acordo de acionistas gera efeitos em relação à companhia quando registrados na sua sede, e em relação a terceiros “depois de averbados nos livros de registro e nos certificados das ações, se emitidos” (art. 118, § 1°, da Lei), junto à instituição responsável pela custódia desses valores. As ações averbadasnos termos deste artigo não poderão ser negociadas em bolsa ou no mercado de balcão (§ 4º). O acionista não se livra da responsabilidade pelo voto abusivo alegando que só votou de tal forma porque estava vinculado ao acordo de acionistas, conforme estabelece o art. 118, § 2°.[82: Art. 118 (...) § 2º As empresas públicas e as sociedades de economia mista não poderão gozar de privilégios fiscais não extensivos às do setor privado.] descumprimento do acordo de acionista Art. 118 (...) § 8º O presidente da assembleia ou do órgão colegiado de deliberação da companhia não computará o voto proferido com infração de acordo de acionistas devidamente arquivado. Note que o voto não será redirecionado pelo presidente da assembleia para atender ao acordo e sim desconsiderado. Porém, o prejudicado a ingressar com ação judicial, visando à modificação do voto proferido em contrariedade com o acordo. § 9º O não comparecimento à assembleia ou às reuniões dos órgãos de administração da companhia, bem como as abstenções de voto de qualquer parte de acordo de acionistas ou de membros do conselho de administração eleitos nos termos de acordo de acionistas, assegura à parte prejudicada o direito de votar com as ações pertencentes ao acionista ausente ou omisso e, no caso de membro do conselho de administração, pelo conselheiro eleito com os votos da parte prejudicada. Já na hipótese de ausência ou abstenção do acionista participante do acordo, o prejudicado poderá votar em seu lugar, sem a necessidade de recorrer ao Poder Judiciário – parte da doutrina classifica a hipótese como autotutela. ÓRGÃOS DA SOCIEDADE ANÔNIMA As sociedades anônimas poderão ter quatro órgãos: Assembleia; Diretoria; Conselho Fiscal; Conselho de administração – dispensável nas S/A fechadas. assembleia-geral Divide-se em Ordinária e Extraordinária. As matérias elencadas no artigo 132 (abaixo) deverão ser discutidas e votadas na Assembleia-Geral Ordinária e não poderão ser discutidas em AGE. As demais matérias poderão ser deliberadas em Assembleia-Geral Extraordinária. Nada impede que a AGO e a AGE ocorram no mesmo dia, uma depois da outra, e sejam registradas em ata única. Porém, a AG ordinária deverá ocorrer obrigatoriamente até quarto mês do exercício social seguinte (em regra, até o dia 30 de abril), enquanto a AG Extraordinária poderá ocorrer a qualquer tempo. Assembleia-Geral Ordinária Art. 132. Anualmente, nos 4 (quatro) primeiros meses seguintes ao término do exercício social, deverá haver 1 (uma) assembleia-geral para: I - tomar as contas dos administradores, examinar, discutir e votar as demonstrações financeiras; II - deliberar sobre a destinação do lucro líquido do exercício e a distribuição de dividendos; III - eleger os administradores e os membros do conselho fiscal, quando for o caso; IV - aprovar a correção da expressão monetária do capital social (artigo 167). Assembleia-Geral Extraordinária Art. 135. A assembleia-geral extraordinária que tiver por objeto a reforma do estatuto somente se instalará em primeira convocação com a presença de acionistas que representem 2/3 (dois terços), no mínimo, do capital com direito a voto, mas poderá instalar-se em segunda com qualquer número. § 1º Os atos relativos a reformas do estatuto, para valerem contra terceiros, ficam sujeitos às formalidades de arquivamento e publicação, não podendo, todavia, a falta de cumprimento dessas formalidades ser oposta, pela companhia ou por seus acionistas, a terceiros de boa-fé. § 2º Aplica-se aos atos de reforma do estatuto o disposto no artigo 97 e seus §§ 1º e 2° e no artigo 98 e seu § 1º. § 3º Os documentos pertinentes à matéria a ser debatida na assembléia-geral extraordinária deverão ser postos à disposição dos acionistas, na sede da companhia, por ocasião da publicação do primeiro anúncio de convocação da assembléia-geral. Art. 136. É necessária a aprovação de acionistas que representem metade, no mínimo, das ações com direito a voto, se maior quorum não for exigido pelo estatuto da companhia cujas ações não estejam admitidas à negociação em bolsa ou no mercado de balcão, para deliberação sobre: conselho de administração Relembrando que a S/A é dualista, ou seja, é dirigida pela Diretoria e pelo Conselho de Administração. Os membros do conselho de Administração são denominados administradores. Competência Art. 142. Compete ao conselho de administração: I - fixar a orientação geral dos negócios da companhia; Essa orientação geral da política de negócios fixada pelo conselho de administração deve se basear nas deliberações aprovadas pela assembleia-geral. Fixadas as orientações, elas são encaminhadas à Diretoria para execução. II - eleger e destituir os diretores da companhia e fixar-lhes as atribuições, observado o que a respeito dispuser o estatuto; III - fiscalizar a gestão dos diretores, examinar, a qualquer tempo, os livros e papéis da companhia, solicitar informações sobre contratos celebrados ou em via de celebração, e quaisquer outros atos; IV - convocar a assembléia-geral quando julgar conveniente, ou no caso do artigo 132; V - manifestar-se sobre o relatório da administração e as contas da diretoria; VI - manifestar-se previamente sobre atos ou contratos, quando o estatuto assim o exigir; VII - deliberar, quando autorizado pelo estatuto, sobre a emissão de ações ou de bônus de subscrição; Art. 59 (...) § 1º Na companhia aberta, o conselho de administração pode deliberar sobre a emissão de debêntures não conversíveis em ações, salvo disposição estatutária em contrário. Composição Art. 140. O conselho de administração será composto por, no mínimo, 3 (três) membros, eleitos pela assembleia-geral e por ela destituíveis a qualquer tempo, devendo o estatuto estabelecer: I - o número de conselheiros, ou o máximo e mínimo permitidos, e o processo de escolha e substituição do presidente do conselho pela assembleia ou pelo próprio conselho; II - o modo de substituição dos conselheiros; III - o prazo de gestão, que não poderá ser superior a 3 (três) anos, permitida a reeleição; IV - as normas sobre convocação, instalação e funcionamento do conselho, que deliberará por maioria de votos, podendo o estatuto estabelecer quorum qualificado para certas deliberações, desde que especifique as matérias. Parágrafo único. O estatuto poderá prever a participação no conselho de representantes dos empregados, escolhidos pelo voto destes, em eleição direta, organizada pela empresa, em conjunto com as entidades sindicais que os representem. Para ser membro do conselho de administração, basta ser pessoa natural (não precisa ser brasileiro, nem residir no país). Obrigatoriedade Art. 138 (...) § 2º As companhias abertas e as de capital autorizado terão, obrigatoriamente, conselho de administração. Art. 239. As companhias de economia mista terão obrigatoriamente Conselho de Administração, assegurado à minoria o direito de eleger um dos conselheiros, se maior número não lhes couber pelo processo de voto múltiplo. O conselho de administração é obrigatório nas: Companhias abertas; Companhias de capital autorizado – recebem essa denominação as S/A que contêm no seu estatuto cláusula que autoriza o aumento do capital social até determinado limite sem a realização de assembleia. Sociedades de Economia mista. Facultatividade Nas sociedades fechadas que não se enquadram nas hipóteses do subitem anterior, a constituição de conselho de Administração será facultativa. Deveres dos administradores Art. 153. O administrador da companhia deve empregar, no exercício de suas funções, o cuidado e diligência que todo homem ativo e probo costuma empregar na administração dos seus próprios negócios. O administrador deve tratar os negócios da companhia com os cuidados e com a diligência profissionais. Nesse ponto, o administrador é protegido pela chamada business judgement rule (regra da decisão negocial), que protegerá o administrador, desde suadecisão tenha sido: Informada – baseada em estudos. Refletida – afasta a culpa por eventual prejuízo causado à companhia. Desinteressada – fundada na boa-fé objetiva. Art. 154. O administrador deve exercer as atribuições que a lei e o estatuto lhe conferem para lograr os fins e no interesse da companhia, satisfeitas as exigências do bem público e da função social da empresa. Art. 155. O administrador deve servir com lealdade à companhia e manter reserva sobre os seus negócios, sendo-lhe vedado: I - usar, em benefício próprio ou de outrem, com ou sem prejuízo para a companhia, as oportunidades comerciais de que tenha conhecimento em razão do exercício de seu cargo; II - omitir-se no exercício ou proteção de direitos da companhia ou, visando à obtenção de vantagens, para si ou para outrem, deixar de aproveitar oportunidades de negócio de interesse da companhia; Eventuais oportunidades comerciais que surjam no exercício do cargo do administrador pertencem à companhia e não a ele. Para que ele possa explorar pessoalmente essa oportunidade, o administrador deverá obter autorização da companhia. III - adquirir, para revender com lucro, bem ou direito que sabe necessário à companhia, ou que esta tencione adquirir. § 1º Cumpre, ademais, ao administrador de companhia aberta, guardar sigilo sobre qualquer informação que ainda não tenha sido divulgada para conhecimento do mercado, obtida em razão do cargo e capaz de influir de modo ponderável na cotação de valores mobiliários, sendo-lhe vedado valer-se da informação para obter, para si ou para outrem, vantagem mediante compra ou venda de valores mobiliários. Caracteriza o chamado insider trading, que cria uma situação de desequilíbrio entre eles e os demais jogadores do mercado de ações. Art. 156. É vedado ao administrador intervir em qualquer operação social em que tiver interesse conflitante com o da companhia, bem como na deliberação que a respeito tomarem os demais administradores, cumprindo-lhe cientificá-los do seu impedimento e fazer consignar, em ata de reunião do conselho de administração ou da diretoria, a natureza e extensão do seu interesse. Existem duas teorias sobre o conflito de interesses entre o administrador e a companhia: Teoria do conflito formal – surgido o conflito de interesses, o administrador deve apontar o conflito e se afastar da negociação. Teoria do conflito substancial (adotada pelo art. 156) – o administrador poderá participar da negociação, e só posteriormente a essa negociação será verificada a ocorrência de dano à companhia. Exemplificando, a negociação da aquisição de um imóvel de propriedade do filho de um dos administradores. Aplicada a teoria do conflito formal, o administrador deverá afastar-se imediatamente da negociação. Por outro lado, se aplicada a teoria do conflito substancial o administrador participará da negociação e poderá comprovar que a negociação não apenas ocorreu sem vantagens pessoais como foi vantajosa à companhia. Art. 157. O administrador de companhia aberta deve declarar, ao firmar o termo de posse, o número de ações, bônus de subscrição, opções de compra de ações e debêntures conversíveis em ações, de emissão da companhia e de sociedades controladas ou do mesmo grupo, de que seja titular. O dever de informar é restrito ao administrador de S/A aberta. O descumprimento de qualquer desses deveres pelo administrador poderá ensejar ação de responsabilidade civil. conselho fiscal Art. 161. A companhia terá um conselho fiscal e o estatuto disporá sobre seu funcionamento, de modo permanente ou nos exercícios sociais em que for instalado a pedido de acionistas. Composição § 1º O conselho fiscal será composto de, no mínimo, 3 (três) e, no máximo, 5 (cinco) membros, e suplentes em igual número, acionistas ou não, eleitos pela assembleia-geral. Art. 162. Somente podem ser eleitos para o conselho fiscal pessoas naturais, residentes no País, diplomadas em curso de nível universitário, ou que tenham exercido por prazo mínimo de 3 (três) anos, cargo de administrador de empresa ou de conselheiro fiscal. De acordo com o art. 161, § 4°, o conselho fiscal será constituído respeitando-se as seguintes regras: Titulações de ação preferencial sem direto a voto ou de voto restrito: 1 membro + suplente; Acionistas minoritários que representes no mínimo 10% das ações com direito a voto: 1 membro + suplente. Demais acionistas com direito a voto: 3 membros + suplentes, se os anteriores houverem eleito membros, ou a regra “número igual ao dos eleitos nos termos dos itens anteriores, mais um”. Obrigatoriedade e funcionamento Art. 161. A companhia terá um conselho fiscal e o estatuto disporá sobre seu funcionamento, de modo permanente ou nos exercícios sociais em que for instalado a pedido de acionistas. § 2º O conselho fiscal, quando o funcionamento não for permanente, será instalado pela assembleia-geral a pedido de acionistas que representem, no mínimo, 0,1 (um décimo) das ações com direito a voto, ou 5% (cinco por cento) das ações sem direito a voto, e cada período de seu funcionamento terminará na primeira assembleia-geral ordinária após a sua instalação. § 3º O pedido de funcionamento do conselho fiscal, ainda que a matéria não conste do anúncio de convocação, poderá ser formulado em qualquer assembleia-geral, que elegerá os seus membros. A existência do conselho fiscal é obrigatória, mas poderá ou não funcionar de forma permanente, conforme decida a assembleia-geral, exceto nas sociedades de economia mista, que devem ter conselho fiscal permanente (art. 240). Caso não seja permanente, poderá ser instalado pelo voto de:[83: Art. 240. O funcionamento do conselho fiscal será permanente nas companhias de economia mista; um dos seus membros, e respectivo suplente, será eleito pelas ações ordinárias minoritárias e outro pelas ações preferenciais, se houver.] 10% das ações com direito a voto; ou 5% das ações sem direito a voto. A sua duração é entre a assembleia que a instalou e a assembleia seguinte. Competência do conselho fiscal Art. 163. Compete ao conselho fiscal: I - fiscalizar, por qualquer de seus membros, os atos dos administradores e verificar o cumprimento dos seus deveres legais e estatutários; II - opinar sobre o relatório anual da administração, fazendo constar do seu parecer as informações complementares que julgar necessárias ou úteis à deliberação da assembleia-geral; III - opinar sobre as propostas dos órgãos da administração, a serem submetidas à assembleia-geral, relativas a modificação do capital social, emissão de debêntures ou bônus de subscrição, planos de investimento ou orçamentos de capital, distribuição de dividendos, transformação, incorporação, fusão ou cisão; IV - denunciar, por qualquer de seus membros, aos órgãos de administração e, se estes não tomarem as providências necessárias para a proteção dos interesses da companhia, à assembleia-geral, os erros, fraudes ou crimes que descobrirem, e sugerir providências úteis à companhia; V - convocar a assembléia-geral ordinária, se os órgãos da administração retardarem por mais de 1 (um) mês essa convocação, e a extraordinária, sempre que ocorrerem motivos graves ou urgentes, incluindo na agenda das assembléias as matérias que considerarem necessárias; VI - analisar, ao menos trimestralmente, o balancete e demais demonstrações financeiras elaboradas periodicamente pela companhia; VII - examinar as demonstrações financeiras do exercício social e sobre elas opinar; VIII - exercer essas atribuições, durante a liquidação, tendo em vista as disposições especiais que a regulam. Os membros do Conselho Fiscal não são administradores. Porém, têm os mesmos deveres dos administradores de que tratam os arts. 153 a 156 (diligência, lealdade etc.) e respondem pelos danos resultantes de omissão no cumprimento de seus deveres e de atos praticados com culpa ou dolo, ou com violação da lei ou do estatuto, conforme estabelece o artigo165 da LSA. O único dever de administrador que os membros do Conselho Fiscal não têm é o dever de informar, previsto no art. 157.. QUADRO COMPARATIVO Conselho de Administração Conselho fiscal Obrigatório/facultativo Facultativo*[84: Exceto nas seguintes: Companhias abertas; Companhias de capital autorizado; Sociedades de Economia mista. ] Obrigatório Número de membros Mínimo de 3 De 3 a 5 + suplentes Eleitos pelo(a): Assembleia-geral Assembleia-geral Tempo de mandato Máximo de 3 anos Até a próxima AGO Destituível A qualquer tempo Precisa ser acionista? Não Não Precisa ser brasileiro? Não Não Deve residir no Brasil? Não Sim Pode ser P. Jurídica? Não Não Outros requisitos Nível universitário ou 3 anos de experiência. Não pode ser do CF os membros do CA e da Diretoria e os empregados da empresa e suas controladas ou grupo, cônjuges e parentes. AÇÃO DE RESPONSABILIDADE CIVIL São espécies de ação de responsabilidade por ato do administrador da sociedade anônima: A ação individual (art. 159, § 7°); A ação social – divide-se em: Ação social universal (art. 159); e Ação uti singuli (art. 159, §§ 3º e 4°). A distinção entre a ação individual e social diz respeito à vítima direta do dano: (i) quando o dano direto é sofrido pelo acionista ou por terceiro, a ação proposta deverá ser a individual, pelo prejudicado; (ii) quando a vítima direta do dano é a companhia, a ação social poderá ser proposta pela companhia, por acionista ou por grupo de acionistas, conforme o caso. ação individual Art. 159 (...) § 7º A ação prevista neste artigo não exclui a que couber ao acionista ou terceiro diretamente prejudicado por ato de administrador. A ação individual segue as regras processuais ordinárias, sem peculiaridades. Nos termos do art. 159, § 5°, “Os resultados da ação promovida por acionista deferem-se à companhia, mas esta deverá indenizá-lo, até o limite daqueles resultados, de todas as despesas em que tiver incorrido, inclusive correção monetária e juros dos dispêndios realizados”. Em outras palavras, quando a ação individual tiver trazido benefícios à companhia (ex: porque recuperou ativos desviados pelo administrador), a companhia deverá dividir com o acionista os custos que ele teve com o processo. A norma visa impedir o enriquecimento ilícito. ação social Art. 159. Compete à companhia, mediante prévia deliberação da assembleia-geral, a ação de responsabilidade civil contra o administrador, pelos prejuízos causados ao seu patrimônio. A prévia deliberação da assembleia geral é condição específica da ação, conforme decidiu o STJ, independentemente do resultado da deliberação. Duas situações poderão ocorrer:[85: Informativo n° 530.] A assembleia autoriza A assembleia não autoriza Art. 159 (...) § 3º Qualquer acionista poderá promover a ação, se não for proposta no prazo de 3 (três) meses da deliberação da assembléia-geral. A S/A poderá ajuizar a ação social. Caso não o faça no prazo de três meses, qualquer acionista poderá propor a ação social, na posição de substituto processual (art. 159, § 3°)[86: Art. 159 (...) § 3º Qualquer acionista poderá promover a ação, se não for proposta no prazo de 3 (três) meses da deliberação da assembleia-geral.] Art. 159 (...) § 4º Se a assembléia deliberar não promover a ação, poderá ela ser proposta por acionistas que representem 5% (cinco por cento), pelo menos, do capital social. A S/A não poderá ajuizar a ação social. Porém, acionistas com 5% do capital social poderão ajuizar a ação, também na condição de substituto processual. Os administradores contra os quais deva ser proposta ação ficarão impedidos e deverão ser substituídos na mesma assembleia (§ 2°). Os administradores não ficarão impedidos nem serão substituídos. De acordo com o artigo 159, § 6°, da Lei, “O juiz poderá reconhecer a exclusão da responsabilidade do administrador, se convencido de que este agiu de boa-fé e visando ao interesse da companhia”. Trata-se da aplicação do business judgement rule. REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA São quatro as modalidades de reorganização da S/A: Transformação; Incorporação; Fusão; Cisão. transformação Art. 220. A transformação é a operação pela qual a sociedade passa, independentemente de dissolução e liquidação, de um tipo para outro. Trata-se da mudança de um tipo societário para outro (ex: de S/A para LTDA), sem liquidação ou dissolução da companhia. A transformação obedecerá aos preceitos que regulam a constituição e o registro do tipo a ser adotado pela sociedade (art. 220, parágrafo único). Proteção dos credores Art. 222. A transformação não prejudicará, em caso algum, os direitos dos credores, que continuarão, até o pagamento integral dos seus créditos, com as mesmas garantias que o tipo anterior de sociedade lhes oferecia. A transformação não poderá prejudicar os direitos dos credores anteriores à reorganização. Assim, os credores de sociedade formada por sócios com responsabilidade ilimitada (ex: sociedade em nome coletivo) que venha a ser transformada em S/A poderão atingir o patrimônio pessoal dos sócios (agora acionistas) para satisfazer as obrigações assumidas antes da transformação. Porém, na hipótese de sobrevir após a transformação um pedido de falência da sociedade transformada, só os credores titulares de crédito anterior à transformação poderão requerer a falência, assim como só serão atingidos pela decretação da falência os acionistas que eram sócios à época em que a sociedade não era S/A. Decretada a falência, só os credores de obrigações anteriores à falência poderão inscrever seus créditos no quadro de credores. É o que dispõe o artigo 222, parágrafo único, da LSA. Art. 232. Até 60 (sessenta) dias depois de publicados os atos relativos à incorporação ou à fusão, o credor anterior por ela prejudicado poderá pleitear judicialmente a anulação da operação; findo o prazo, decairá do direito o credor que não o tiver exercido. § 1º A consignação da importância em pagamento prejudicará a anulação pleiteada. § 2º Sendo ilíquida a dívida, a sociedade poderá garantir-lhe a execução, suspendendo-se o processo de anulação. § 3º Ocorrendo, no prazo deste artigo, a falência da sociedade incorporadora ou da sociedade nova, qualquer credor anterior terá o direito de pedir a separação dos patrimônios, para o fim de serem os créditos pagos pelos bens das respectivas massas. Essas regras valem também para a fusão. Quórum para transformação Art. 221. A transformação exige o consentimento unânime dos sócios ou acionistas, salvo se prevista no estatuto ou no contrato social, caso em que o sócio dissidente terá o direito de retirar-se da sociedade. Parágrafo único. Os sócios podem renunciar, no contrato social, ao direito de retirada no caso de transformação em companhia. incorporação Art. 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações. Na incorporação, uma das sociedades (incorporada) se extingue e passa a integrar outra sociedade (incorporadora). Ex: A é incorporada a B. A deixa de existir. Essas sociedades incorporadas poderão ser de qualquer tipo (ex: LTDA absorvida por uma S/A). Os sócios ou acionistas das sociedades incorporadas receberão diretamente da companhia incorporadora as ações que lhes couberem (art. 223), assim como as obrigações da sociedade incorporada serão sucedidas pela sociedade incorporadora. fusão Art. 228. A fusão é a operação pela qual se unem duas ou mais sociedades para formar sociedade nova, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações. cisão Art. 229. A cisão é a operação pela qual a companhia transfere parcelas do seu patrimônio para uma ou mais sociedades, constituídas para esse fim ou já existentes, extinguindo-se a companhia cindida, se houver versão de todo o seu patrimônio, ou dividindo-se o seu capital, se parcial a versão. A cisãopoderá ser integral ou parcial: Cisão integral – a sociedade cindida verte todo seu patrimônio para outra sociedade, extinguindo-se; Cisão parcial – a sociedade cindida verte apenas parte do seu patrimônio e continua existindo com o patrimônio restante. A parcela vertida poderá dar origem a uma nova companhia ou passar a integrar o patrimônio de uma companhia já existente. Direitos dos credores Art. 233. Na cisão com extinção da companhia cindida, as sociedades que absorverem parcelas do seu patrimônio responderão solidariamente pelas obrigações da companhia extinta. A companhia cindida que subsistir e as que absorverem parcelas do seu patrimônio responderão solidariamente pelas obrigações da primeira anteriores à cisão. Parágrafo único. O ato de cisão parcial poderá estipular que as sociedades que absorverem parcelas do patrimônio da companhia cindida serão responsáveis apenas pelas obrigações que lhes forem transferidas, sem solidariedade entre si ou com a companhia cindida, mas, nesse caso, qualquer credor anterior poderá se opor à estipulação, em relação ao seu crédito, desde que notifique a sociedade no prazo de 90 (noventa) dias a contar da data da publicação dos atos da cisão. DIREITO EMPRESARIAL Direito societário – Sociedade Anônima DIREITO EMPRESARIAL Direito societário – Sociedade Anônima FALÊNCIA E RECUPERAÇÃO JUDICIAL FALÊNCIA CONCEITO Falência é um processo judicial de “execução coletiva” do patrimônio do empresário ou da sociedade empresária. “Execução coletiva” é termo usado a grosso modo, pois a falência não é execução, nem precisa ser coletiva (poderá existir um único credor). O objetivo do processo falimentar não é de proporcionar aos credores a satisfação do crédito. Isso deve ser buscado pelo credor por meio de execução individual. Na verdade, o processo de falência tem as seguintes finalidades: Dar tratamento igualitário aos credores – derivado do termo latino “par conditio creditorum”, a igualdade conferida pela Lei de Falência é material. No momento em que é verificado que o empresário ou sociedade empresária não será capaz de honras todas as obrigações assumidas perante os credores, a Lei determina a reunião de todos eles, para que inscrevam seus créditos e recebam o quanto for possível, seguindo a ordem de preferência dos credores, conforme a classe a que pertençam. Eliminar do mercado as empresas deficitárias – o processo de falência pressupõe a irrecuperabilidade do empresário ou da sociedade empresarial. PRESSUPOSTOS DA FALÊNCIA São três os pressupostos da lei: (i) ser empresário; (ii) insolvência; (iii) sentença declaratória (constitutiva) de falência. SER EMPRESÁRIO OU SOCIEDADE EMPRESÁRIA Art. 1º Esta Lei disciplina a recuperação judicial, a recuperação extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária, doravante referidos simplesmente como devedor. Só empresário ou sociedade empresária pode falir e requerer recuperação judicial. Quem não pode falir Considerando que ser empresário ou sociedade empresária é pressuposto para sujeitar-se à falência, bem como para beneficiar-se da recuperação judicial, como decorrência estudo do direito societário, não poder falir nem requerer recuperação judicial, porque não são empresários: O profissional liberal; O empresário rural não inscrito na Junta Comercial; A sociedade simples; A cooperativa (porque é sempre sociedade simples). Além dos não empresário, a Lei de Falência exclui expressamente alguns tipos de sociedades empresárias, ao determinar que “Esta lei não se aplica a”: I – empresa pública e sociedade de economia mista – deve-se ao fato do capital social de ambas é total ou parcialmente público (prevalece). Parte da doutrina entende que é inconstitucional a exclusão das empresas públicas e sociedades de economia mista que não exploram serviços públicos, por violar o artigo 173, § 2°, da CF/88, que veda a concessão de privilégios a elas. [87: § 2º As empresas públicas e as sociedades de economia mista não poderão gozar de privilégios fiscais não extensivos às do setor privado.] II – instituição financeira pública ou privada, cooperativa de crédito, consórcio, entidade de previdência complementar, sociedade operadora de plano de assistência à saúde, sociedade seguradora, sociedade de capitalização e outras entidades legalmente equiparadas às anteriores. Vamos organizar em lista: Instituições financeiras – sujeitam-se parcialmente à Lei de Falência. Inicialmente, o Banco Central do Brasil nomeia um interventor, que calculará o montante do passivo da instituição. Verificado que o montante do passivo atingiu mais da metade dos créditos comuns, o interventor comunica ao Banco Central e requer a falência da instituição. Seguradoras – também se sujeitam parcialmente à Lei. A seguradora inicialmente sofre intervenção da SUSEP, que requererá a falência da instituição. Cooperativas de crédito; Consórcio; Entidade de previdência complementar; Sociedade operadora de plano de saúde; Seguradora; Sociedade de capitalização Outras entidades semelhantes às anteriores INSOLVÊNCIA Art. 94. Será decretada a falência do devedor que: Impontualidade I – sem relevante razão de direito, não paga, no vencimento, obrigação líquida materializada em título ou títulos executivos protestados cuja soma ultrapasse o equivalente a 40 (quarenta) salários-mínimos na data do pedido de falência; O empresário é impontual quando não paga no vencimento obrigações que somadas superem 40 salários mínimos vigentes na data do pedido, desde que essa obrigação esteja materializada em título executivo protestado. Portanto, são requisitos: A soma das dívidas ultrapasse 40 salários mínimos - juros e correção monetária não podem ser considerados para alcançar o valor. É permitido o litisconsórcio ativo de credores para somar o valor mínimo (art. 94, § 1°)[88: § 1º Credores podem reunir-se em litisconsórcio a fim de perfazer o limite mínimo para o pedido de falência com base no inciso I do caput deste artigo.] As dívidas estejam vencidas; O credor tenha contra o réu título executivo, judicial ou extrajudicial; Os títulos tenham sido levados a protesto específico para fins falimentares – embora o art. 94, § 3°, da Lei n° 11.101/05 exija o protesto específico para fins falimentares, dando a entender que o título executivo extrajudicial já protestado para fins cambiais deverá ser protestado novamente, desta vez para fins falimentares, a jurisprudência tem dispensado o novo protesto, quando o protesto cambiário já tiver sido feito. Assim, só será necessário esse protesto específico em duas hipóteses: (i) quando o título for sentença judicial; (ii) quando o protesto anterior não tiver identificado a pessoa que recebeu a intimação do protesto – quando o cartório notificar o devedor sobre o protesto para fins falimentares realizado pelo credor, deverá identificar na certidão de protesto o representante da sociedade que recebeu a notificação, conforme determina a Súmula n° 361/STJ (“A notificação do protesto, para requerimento de falência da empresa devedora, exige a identificação da pessoa que a recebeu”). Por execução frustrada II – executado por qualquer quantia líquida, não paga, não deposita e não nomeia à penhora bens suficientes dentro do prazo legal; O credor que detém título vencido, porém de valor inferior a 40 salários mínimos, se não obtiver a satisfação do crédito na ação ou fase de execução individual, poderá utilizar o título executivo da ação individual para pedir a falência do devedor. A vantagem do credor é que eventual acordo lá no processo de execução será plenamente válido, porque não é alcançado pela força atrativa do juízo falimentar. Na execução frustrada o devedor é citado e não paga nem nomeia bens à penhora suficientes para saldar a dívida (tripla omissão). Neste caso, o credor comprovará a tripla omissão por meio de uma certidão e, juntamente com o título, comparecer ao juízo falimentar e requerer a falênciado empresário. Não é preciso protesto específico nem valor mínimo, conforme entendimento jurisprudencial dominante. A única exigência é a suspensão da execução individual. A falência requerida com base em execução frustrada pode ser fundado em dívida com valor ínfimo. O Tribunal de Justiça de São Paulo editou três súmula a respeito: Súmula n° 39: “No pedido de falência fundado em execução frustrada é irrelevante o valor da obrigação não satisfeita”. Súmula n° 48: “Para ajuizamento com fundamento no art. 94, II, da lei n 11.101/05, a execução singular anteriormente aforada deverá ser suspensa”. Súmula n° 50: no pedido de falência com fundamento na execução frustrada ou nos atos de falência não é necessário o protesto do título executivo”. Por atos falimentares II – pratica qualquer dos seguintes atos, exceto se fizer parte de plano de recuperação judicial: a) procede à liquidação precipitada de seus ativos ou lança mão de meio ruinoso ou fraudulento para realizar pagamentos; b) realiza ou, por atos inequívocos, tenta realizar, com o objetivo de retardar pagamentos ou fraudar credores, negócio simulado ou alienação de parte ou da totalidade de seu ativo a terceiro, credor ou não; c) transfere estabelecimento a terceiro, credor ou não, sem o consentimento de todos os credores e sem ficar com bens suficientes para solver seu passivo; d) simula a transferência de seu principal estabelecimento com o objetivo de burlar a legislação ou a fiscalização ou para prejudicar credor; e) dá ou reforça garantia a credor por dívida contraída anteriormente sem ficar com bens livres e desembaraçados suficientes para saldar seu passivo; f) ausenta-se sem deixar representante habilitado e com recursos suficientes para pagar os credores, abandona estabelecimento ou tenta ocultar-se de seu domicílio, do local de sua sede ou de seu principal estabelecimento; g) deixa de cumprir, no prazo estabelecido, obrigação assumida no plano de recuperação judicial. É hipótese na qual o título não precisa estar vencido, logo, não exige protesto. Basta ser credor. São todas situações taxativas, previamente elencadas pelo legislador, que farão presumir que o empresário é insolvente. A “liquidação precipitada” deve ser entendida como o encerramento de todas as atividades. Decorar essa lista! DEFESA DO DEVEDOR CONTRA O PEDIDO DE FALÊNCIA DEPÓSITO ELISIVO Art. 98. Citado, o devedor poderá apresentar contestação no prazo de 10 (dez) dias. Parágrafo único. Nos pedidos baseados nos incisos I e II do caput do art. 94 desta Lei, o devedor poderá, no prazo da contestação, depositar o valor correspondente ao total do crédito, acrescido de correção monetária, juros e honorários advocatícios, hipótese em que a falência não será decretada e, caso julgado procedente o pedido de falência, o juiz ordenará o levantamento do valor pelo autor. Para ter efeito elisivo do pedido de falência, o devedor deverá depositar: O valor total do crédito, corrigido monetariamente; Os juros de mora; Os honorários advocatícios. Note que o depósito do valor devido ao credor não elidirá a falência na hipótese do art. 84, inciso III (atos falimentares). A jurisprudência tem relativizado o prazo para depósito elisivo, reconhecendo seus efeitos mesmo quando o depósito é realizado muito tempo depois do fim do prazo. CONTESTAÇÃO DO PEDIDO DE FALÊNCIA Art. 98. Citado, o devedor poderá apresentar contestação no prazo de 10 (dez) dias. Atenção! O prazo não segue o CPC. Fundamentos de defesa I – falsidade de título; II – prescrição; III – nulidade de obrigação ou de título; IV – pagamento da dívida; V – qualquer outro fato que extinga ou suspenda obrigação ou não legitime a cobrança de título; VI – vício em protesto ou em seu instrumento; VII – apresentação de pedido de recuperação judicial no prazo da contestação, observados os requisitos do art. 51 desta Lei; VIII – cessação das atividades empresariais mais de 2 (dois) anos antes do pedido de falência, comprovada por documento hábil do Registro Público de Empresas, o qual não prevalecerá contra prova de exercício posterior ao ato registrado. § 1º Não será decretada a falência de sociedade anônima após liquidado e partilhado seu ativo nem do espólio após 1 (um) ano da morte do devedor. § 2º As defesas previstas nos incisos I a VI do caput deste artigo não obstam a decretação de falência se, ao final, restarem obrigações não atingidas pelas defesas em montante que supere o limite previsto naquele dispositivo. O artigo 96 contém as matérias que podem ser alegadas pelo devedor na contestação. Prevalece que o rol do artigo 96 é exemplificativo. O depósito elisivo sem contestação é entendido como reconhecimento do pedido do autor. Nesse caso, o juiz julgará procedente o pedido do credor, mas deixará de decretar a falência. Já quando o autor apresentar contestação, o efeito do depósito será somente impedir a decretação da falência, devendo o juiz examinar a defesa do devedor. PEDIDO INCIDENTAL DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL Art. 95. Dentro do prazo de contestação, o devedor poderá pleitear sua recuperação judicial. Trata-se de um pedido feito em apartado, porém apresentado juntamente com a contestação, no qual o devedor observará os requisitos do pedido de recuperação previstos no artigo 51 da Lei (será estudado em item próprio). DECRETAÇÃO DA FALÊNCIA SENTENÇA DECLARATÓRIA DE FALÊNCIA Art. 99. A sentença que decretar a falência do devedor, dentre outras determinações: A sentença que decreta a falência tem natureza constitutiva, pois é ela que transforma o empresário em falido. Ela é o marco inicial da falência propriamente dita. O Ministério Público intervirá como fiscal da lei sempre e, eventualmente, como autor na ação revocatória. A sentença de falência: Deverá nomear o administrador judicial, que nos termos do art. 21 da Lei será profissional idôneo, preferencialmente advogado, economista, administrador de empresas ou contador, ou pessoa jurídica especializada. Suas funções são: Arrecadar todos bens que estiverem em posse do falido, ou seja, o falido perde a posse a administração de seus bens – mesmos os bens de terceiro que estejam em posse do falido serão arrecadados. Representar a massa falida em juízo, ativa e passivamente – o empresário decretado falido passa a existir como massa falida (universalidade de bens) da empresa X. Elaborar e publicar a primeira lista de credores, com base na lista apresentada pelo devedor, mais as habilitações que tiverem sido feitas em juízo até aquele momento. Só a Fazenda Pública não precisa habilitar-se, bastando informar o montante do seu crédito quando cientificado. Fixará o termo legal da falência (art. 99, inciso II) – é um período suspeito que antecede a sentença de falência, em que alguns atos lá praticados, embora válidos, poderão ser considerados ineficazes em relação à massa falida. O termo legal poderá abranger no máximo os noventa dias anteriores a um dos momentos seguintes, definidos pelo juiz: [89: Art. 99. A sentença que decretar a falência do devedor, dentre outras determinações: (...) II – fixará o termo legal da falência, sem poder retrotraí-lo por mais de 90 (noventa) dias contados do pedido de falência, do pedido de recuperação judicial ou do 1º (primeiro) protesto por falta de pagamento, excluindo-se, para esta finalidade, os protestos que tenham sido cancelados;] Pedido de falência; Ao pedido de recuperação judicial; ou Ao primeiro protesto por falta de pagamento, excluindo-se, para esta finalidade, os protestos que tenham sido cancelados; A ineficácia poderá ser declarada de ofício pelo juiz, alegada em defesa ou pleiteada mediante ação própria ou incidentalmente no curso do processo, compreendendo os seguintes atos praticados pelo empresário falido (artigo 129, caput, da Lei): I – o pagamento de dívidas não vencidas realizado pelo devedor dentro do termo legal, por qualquer meio extintivo do direito de crédito, ainda que pelo descontodo próprio título; II – o pagamento de dívidas vencidas e exigíveis realizado dentro do termo legal, por qualquer forma que não seja a prevista pelo contrato; III – a constituição de direito real de garantia, inclusive a retenção, dentro do termo legal, tratando-se de dívida contraída anteriormente; se os bens dados em hipoteca forem objeto de outras posteriores, a massa falida receberá a parte que devia caber ao credor da hipoteca revogada; IV – a prática de atos a título gratuito, desde 2 (dois) anos antes da decretação da falência; V – a renúncia à herança ou a legado, até 2 (dois) anos antes da decretação da falência; VI – a venda ou transferência de estabelecimento feita sem o consentimento expresso ou o pagamento de todos os credores, a esse tempo existentes, não tendo restado ao devedor bens suficientes para solver o seu passivo, salvo se, no prazo de 30 (trinta) dias, não houver oposição dos credores, após serem devidamente notificados, judicialmente ou pelo oficial do registro de títulos e documentos; VII – os registros de direitos reais e de transferência de propriedade entre vivos, por título oneroso ou gratuito, ou a averbação relativa a imóveis realizados após a decretação da falência, salvo se tiver havido prenotação anterior. EFEITOS DA DECRETAÇÃO DE FALÊNCIA A decretação da falência produz efeitos para os credores, para o falido e para os contratos que entre ambos. Efeitos para os credores Vencimento antecipado das obrigações – nos termos do art. 77 da Lei, “a decretação da falência determina o vencimento antecipado das dívidas do devedor e dos sócios ilimitada e solidariamente responsáveis, com o abatimento proporcional dos juros, e converte todos os créditos em moeda estrangeira para a moeda do País, pelo câmbio do dia da decisão judicial, para todos os efeitos desta Lei”. Suspensão das ações e execuções contra o falido (art. 6°), exceto: [90: Art. 6º A decretação da falência ou o deferimento do processamento da recuperação judicial suspende o curso da prescrição e de todas as ações e execuções em face do devedor, inclusive aquelas dos credores particulares do sócio solidário.] As ações nas quais se estiver pleiteando quantia ilíquida (art. 6°, parágrafo único, da Lei). As ações trabalhistas, inclusive as impugnações ao rol de credores. Prosseguirão na Justiça do Trabalho até a apuração do respectivo crédito, que será então inscrito no quadro-geral de credores pelo valor determinado em sentença (art. 6°, § 2°). Nas duas hipóteses (exceções ao princípio da indivisibilidade), o juiz competente para as comentadas ações poderá determinar a reserva da importância que estimar devida na falência, e, uma vez reconhecido líquido o direito, será o crédito habilitado perante o juízo da falência. As ações fiscais, até a sentença; O prazo prescricional das ações não corre enquanto não encerrado o processo falimentar, para o qual não existe prazo máximo. O prazo máximo de suspensão de 180 dias se aplica somente à recuperação judicial. Suspensão do direito de retenção sobre os bens sujeitos à arrecadação, os quais deverão ser entregues ao administrador judicial (art. 116, inciso I); Suspensão do direito de retirada, bem como a suspensão do pagamento das quotas ou ações de sócio que tenha se retirado antes da decretação da falência (art. 116, inciso II). Suspensão da incidência de juros sobre o credito, a partir da data da quebra, exceto quando o crédito tiver garantia real e o bem que garante a dívida suportar o crédito e os juros. Efeitos sobre o falido Inabilitação para o exercício da atividade empresarial, enquanto: (i) não ocorrer uma das hipóteses de reabilitação previstas no art. 158 (art. 159), na inabilitação civil; ou (ii) por sentença condenatória por crime falimentar, na qual o juiz tenha decretado a inabilitação do condenado (como efeito extrapenal não automático), enquanto não obtiver a habilitação penal (art. 181). A inabilitação do falido não retira sua capacidade processual, podendo propor ação rescisória contra sentença que decretou a falência e intervir como assistente da massa falida (assistência litisconsorcial sui generis), conforme já decidiu o STJ. Porém, não pode propor ação em nome da massa falida, por eventuais créditos que a massa falida deveria ter exigido, mas não exigiu. Somente o administrador judicial poderá fazê-lo.[91: Informativo 551 e 503/STJ.][92: Informativo 513/STJ.] Perda da posse e administração de seus bens – os bens serão administrados pelo administrador judicial, que os alienará para o pagamento dos credores. Efeitos sobre os contratos firmados pelo falido Art. 117. Os contratos bilaterais não se resolvem pela falência e podem ser cumpridos pelo administrador judicial se o cumprimento reduzir ou evitar o aumento do passivo da massa falida ou for necessário à manutenção e preservação de seus ativos, mediante autorização do Comitê. (...) Art. 118. O administrador judicial, mediante autorização do Comitê, poderá dar cumprimento a contrato unilateral se esse fato reduzir ou evitar o aumento do passivo da massa falida ou for necessário à manutenção e preservação de seus ativos, realizando o pagamento da prestação pela qual está obrigada. Em poucas palavras, o administrador judicial poderá manter os contratos sempre que o cumprimento seja mais vantajoso à massa falida que o desfazimento, seja o contrato bilateral ou unilateral. LEGITIMAÇÃO ATIVA Art. 97. Podem requerer a falência do devedor: O PRÓPRIO EMPRESÁRIO I – o próprio devedor, na forma do disposto nos arts. 105 a 107 desta Lei; (...) III – o cotista ou o acionista do devedor na forma da lei ou do ato constitutivo da sociedade; A autofalência é dever do próprio empresário. Nos termos do artigo 105 da Lei, “o devedor em crise econômico-financeira que julgue não atender aos requisitos para pleitear sua recuperação judicial deverá requerer ao juízo sua falência, expondo as razões da impossibilidade de prosseguimento da atividade empresarial (...)”. Cônjuge, sucessores e inventariante do empresário morto II – o cônjuge sobrevivente, qualquer herdeiro do devedor ou o inventariante; O CREDOR IV – qualquer credor. Qualquer credor, pessoa física ou jurídica, tem legitimidade para requerer a falência do empresário, desde que satisfaça os requisitos previstos no artigo 94 da Lei. Quando o credor for empresário, ele deverá juntar prova de inscrição na Junta Comercial (art. 97, § 1°). Em razão disso, a sociedade em comum (tem contrato, porém não registrado na Junta Comercial) não pode requerer falência, mas pode ter sua falência requerida, resultando em falência da sociedade e também dos sócios, na forma do artigo 81 da Lei. Essa regra vale para todas as sociedades nas quais os sócios respondem ilimitadamente.[93: Art. 81. A decisão que decreta a falência da sociedade com sócios ilimitadamente responsáveis também acarreta a falência destes, que ficam sujeitos aos mesmos efeitos jurídicos produzidos em relação à sociedade falida e, por isso, deverão ser citados para apresentar contestação, se assim o desejarem.] Nos termos do art. 97, § 1°, o credor que não tiver domicílio no Brasil deverá prestar caução relativa às custas e ao pagamento da indenização devida por eventual improcedência do pedido, em cuja sentença o juiz considere que o credor agiu com dolo de causar prejuízo ao devedor (art. 101, caput, da Lei).[94: Art. 101. Quem por dolo requerer a falência de outrem será condenado, na sentença que julgar improcedente o pedido, a indenizar o devedor, apurando-se as perdas e danos em liquidação de sentença.] Credores sem legitimidade Fazenda Pública – é pacífico no STJ desde 2002 que a fazenda pública não poderá requerer a falência do credor;[95: REsp 164.389/MG] Debenturista – o detentor da debênture não pode requerer a falência. Essa faculdade é conferida ao agente fiduciário (representante dos debenturistas perante a companhia emissora), e somente quando ele não tiver uma garantia real suficiente para satisfação do crédito (art. 68, § 3°,alínea c, da Lei n° 6.404/76). Exceção: quando o debenturista houver adquirido a debênture diretamente da companhia (em oferta privada de debêntures), poderá requerer ele próprio a falência da companhia.[96: Art. 68. O agente fiduciário representa, nos termos desta Lei e da escritura de emissão, a comunhão dos debenturistas perante a companhia emissora. (...) § 3º O agente fiduciário pode usar de qualquer ação para proteger direitos ou defender interesses dos debenturistas, sendo-lhe especialmente facultado, no caso de inadimplemento da companhia: (...) c) requerer a falência da companhia emissora, se não existirem garantias reais;] Credor com garantia real – em regra, não tem interesse para requerer falência. Exceção: (i) quando abrir mão da garantia; (ii) quando provar que a garantia não é suficiente. Credor empresário irregular (art. 97, § 1°) Credor estrangeiro – deverá prestar caução (art. 97, § 2°). HABILITAÇÃO DE CRÉDITO Art. 99. A sentença que decretar a falência do devedor, dentre outras determinações: (...) III – ordenará ao falido que apresente, no prazo máximo de 5 (cinco) dias, relação nominal dos credores, indicando endereço, importância, natureza e classificação dos respectivos créditos, se esta já não se encontrar nos autos, sob pena de desobediência; Apresentada a relação de credores ao juízo falimentar, o magistrado determinará a publicação de edital da íntegra da decisão que decretou a falência e a relação de credores (art. 99, parágrafo único), Os credores terão o prazo de 15 dias, contados da publicação, para (i) apresentar seus créditos para ser habilitados ou (ii) apresentar uma divergência (impugnação) sobre a lista apresentada pelo falido, conforme dispõe o artigo 7°, § 1°, da Lei. [97: Art. 7° (...) § 1º Publicado o edital previsto no art. 52, § 1º, ou no parágrafo único do art. 99 desta Lei, os credores terão o prazo de 15 (quinze) dias para apresentar ao administrador judicial suas habilitações ou suas divergências quanto aos créditos relacionados.] As habilitações serão apresentadas ao administrador judicial, que julgará as habilitações e divergências e publicará a lista de credores no prazo de 45 dias (art. 7°, § 2°). Até aqui não haverá necessidade de advogado. Não havendo impugnações, o juiz homologará a lista de credores formulada pelo administrador, sem a necessidade de nova publicação (art. 14).[98: Art. 7° (...) § 2º O administrador judicial, com base nas informações e documentos colhidos na forma do caput e do § 1º deste artigo, fará publicar edital contendo a relação de credores no prazo de 45 (quarenta e cinco) dias, contado do fim do prazo do § 1º deste artigo, devendo indicar o local, o horário e o prazo comum em que as pessoas indicadas no art. 8º desta Lei terão acesso aos documentos que fundamentaram a elaboração dessa relação.] Os credores que não concordarem com a lista do administrador judicial, bem como o Comitê de credores, o devedor ou seus sócios e o Ministério Público, poderão impugnar a lista no prazo de 10 dias, dirigida ao juiz falimentar, em regra (ou ao juiz trabalhista na hipótese do art. 6°, § 2°). Poderão ser alegadas as seguintes matérias (art. 8°):[99: Art. 6° (...) § 2º É permitido pleitear, perante o administrador judicial, habilitação, exclusão ou modificação de créditos derivados da relação de trabalho, mas as ações de natureza trabalhista, inclusive as impugnações a que se refere o art. 8º desta Lei, serão processadas perante a justiça especializada até a apuração do respectivo crédito, que será inscrito no quadro-geral de credores pelo valor determinado em sentença.] A legitimidade do credor; A importância (valor) do crédito; A classificação do crédito Apresentadas as impugnações por petição, elas serão autuadas em apartado, reunindo nos mesmos autos apartados as impugnações que versarem sobre o mesmo crédito (art. 13). Em seguida, sucessivamente: O credor que teve o impugnado será intimado para apresentar contestação no prazo de 5 dias (art. 11); O devedor e o Comitê (se houver) serão intimados a se manifestarem no prazo de 5 dias (art. 12, caput); O administrador judicial deverá apresentar ao juiz a sua manifestação, instruída de todos os documentos e livros que deram suporte à sua decisão, bem como de laudo, se for o caso, no prazo de 5 dias (art. 12, parágrafo único);[100: Art. 12 (...) Parágrafo único. Findo o prazo a que se refere o caput deste artigo, o administrador judicial será intimado pelo juiz para emitir parecer no prazo de 5 (cinco) dias, devendo juntar à sua manifestação o laudo elaborado pelo profissional ou empresa especializada, se for o caso, e todas as informações existentes nos livros fiscais e demais documentos do devedor acerca do crédito, constante ou não da relação de credores, objeto da impugnação.] O juiz fixará os pontos controvertidos e, se necessário, determinará as provas a serem produzidas e designará audiência de instrução e julgamento (art. 15). Encerrada a instrução, o juiz proferirá “sentença” recorrível por meio de agravo (art. 17) de instrumento. A apresentação de impugnação não impedirá o pagamento da parte incontroversa ao credor (art. 16, parágrafo único). HABILITAÇÃO RETARDATÁRIA Art. 10. Não observado o prazo estipulado no art. 7º, § 1º, desta Lei, as habilitações de crédito serão recebidas como retardatárias. Considera-se retardatária a habilitação feita após o fim do prazo de 15 dias, fixado pelo administrador judicial para que os credores apresentassem seus respectivos créditos ou suas divergências, previsto no artigo 7°, § 1°, da Lei). O credor que perdeu o prazo de 15 dias para habilitar-se ainda poderá fazê-lo, porém será considerado retardatário, do que advirão as seguintes consequências: Não terão direito a nova assembleia-geral de credores, se ela já tiver ocorrido (art. 10, § 1° c/c § 2°); Perderão o direito a rateios eventualmente realizados (§ 3°, 1ª parte), se não requereram a reserva dos valores (§ 4°) – isso ocorre quando a ação trabalhista ainda está em andamento ou quando o título executivo ainda é ilíquido. Nesse caso, o juiz poderá requerer a reserva do valor ao juiz falimentar, diretamente ou por meio do juiz competente para a causa onde se discute o crédito (ex: juiz trabalhista). Ficarão sujeitos ao pagamento de custas, não se computando os acessórios compreendidos entre o término do prazo e a data do pedido de habilitação (§ 3°, 2ª parte); Os créditos retardatários só poderão ser incluídos pela via judicial, seguindo procedimentos distintos a depender do momento do pedido de habilitação: Se no momento da habilitação do crédito retardatário o quadro-geral de credores ainda não tiver sido homologado pelo juiz, a habilitação do crédito retardatário será recebida como impugnação (art. 10, § 5°); Se o quadro-geral de credores já tiver sido homologado pelo juiz, a habilitação será feita em processo autônomo, seguindo o procedimento comum ordinário do CPC, em cuja petição inicial requererá ao juiz da falência a retificação do quadro-geral de credores para inclusão do crédito objeto da ação (art. 10, § 6°). A Fazenda Pública poderá habilitar seu crédito, em vez de promover ação de execução fiscal (ou uma, ou outra), conforme tem decidido o STJ. Em regra, a opção pela habilitação é feita quando o valor do crédito é inferior ao mínimo estabelecido pelo órgão para propor execução fiscal, pois nesses casos a Fazenda normalmente nem ajuizaria a ação. Os créditos habilitados pela Fazenda Pública poderão ser impugnados pelos legitimados, sem qualquer problema, gerando inclusive honorários sucumbenciais contra a Fazenda. Os honorários advocatícios são classificados como créditos trabalhistas para todos os efeitos, inclusive para a sujeição à limitação de 150 salários mínimos prevista no artigo 83, inciso I, da Lei, conforme decidiu o STJ. AÇÃO REVOCATÓRIA É ação que tem por finalidade tornar ineficaz perante à massa falida os negócios jurídicos celebrados pelo falido em infringência à Lei, trazendo de volta os bensalienados e os valores pagos antes da decretação da falência, desde que dentro do termo legal, que é o período retroativo de até 90 dias contados da data (i) do pedido de falência ou recuperação ou (ii) do primeiro protesto do título por falta de pagamento ainda não levantado. Esse termo legal não se confunde com o período suspeito, que compreende os últimos dois anos, contados da sentença de decretação da falência, durante o qual todos os atos a título gratuito e a renúncia a herança ou legado serão considerados ineficazes perante a massa falida, retornando ao patrimônio do falido por meio da ação revocatória (hipóteses do artigo 129, incisos IV e V, da Lei). [101: Conforme dispõe o artigo 99, inciso II, da Lei. Sobre o assunto, vide título “DECRETAÇÃO DA FALÊNCIA”, item “SENTENÇA DECLARATÓRIA DE FALÊNCIA”, retro).] HIPÓTESES DE CABIMENTO DA AÇÃO REVOCATÓRIA A Lei n° 11.101/05 prevê o cabimento de ação revocatória nas as hipóteses descritas nos artigos art. 129 e 130 da Lei, que serão estudadas a seguir. Além da Lei de Falência, a Lei das Sociedades Anônimas – Lei n° 6.404/76, no art. 45, § 8°, estabelece hipótese de cabimento de ação revocatória para que os credores anulem o reembolso, fazendo o valor pago retornar à sociedade anônima falida: Art. 45. O reembolso é a operação pela qual, nos casos previstos em lei, a companhia paga aos acionistas dissidentes de deliberação da assembleia-geral o valor de suas ações. (...) § 8º Se, quando ocorrer a falência, já se houver efetuado, à conta do capital social, o reembolso dos ex-acionistas, estes não tiverem sido substituídos, e a massa não bastar para o pagamento dos créditos mais antigos, caberá ação revocatória para restituição do reembolso pago com redução do capital social, até a concorrência do que remanescer dessa parte do passivo. A restituição será havida, na mesma proporção, de todos os acionistas cujas ações tenham sido reembolsadas. A ação revocatória correrá perante o juízo da falência e obedecerá ao procedimento ordinário previsto no Código de Processo Civil, conforme dispõe o artigo 134 da Lei. Da sentença cabe apelação (parágrafo único). O juiz poderá o sequestro dos bens retirados do patrimônio do devedor que estejam em poder de terceiros, visando garantir o seu retorno à massa falida, segundo autoriza o art. 137. Hipóteses do artigo 129 da Lei n° 11.101/05 Art. 129. São ineficazes em relação à massa falida, tenha ou não o contratante conhecimento do estado de crise econômico-financeira do devedor, seja ou não intenção deste fraudar credores: O dispositivo estabelece um rol taxativo de hipóteses de presunção legal da fraude do ato do falido e do dano à massa falida, sendo irrelevante: Se o credor conhecia o estado de crise econômico-financeira do devedor; Se o ato do devedor tinha ou não a intenção de fraudar; Se o devedor era solvente no momento da prática do ato. Ocorrendo uma das situações previstas no artigo 129, a ação revocatória será apenas um dos meios. O art. 129, parágrafo único autoriza o reconhecimento nos próprios autos da falência: De ofício pelo juiz; Em defesa apresentada; Incidentalmente no curso do processo. A presunção legal se operará em relação aos seguintes atos praticados pelo falido dentro do termo legal: I – o pagamento de dívidas não vencidas realizado pelo devedor dentro do termo legal, por qualquer meio extintivo do direito de crédito, ainda que pelo desconto do próprio título; II – o pagamento de dívidas vencidas e exigíveis realizado dentro do termo legal, por qualquer forma que não seja a prevista pelo contrato; III – a constituição de direito real de garantia, inclusive a retenção, dentro do termo legal, tratando-se de dívida contraída anteriormente; se os bens dados em hipoteca forem objeto de outras posteriores, a massa falida receberá a parte que devia caber ao credor da hipoteca revogada; Os atos previstos nos três incisos acima serão eficazes se realizados de acordo com o plano de recuperação judicial, conforme dispõe o artigo 131 da Lei.[102: Art. 131. Nenhum dos atos referidos nos incisos I a III e VI do art. 129 desta Lei que tenham sido previstos e realizados na forma definida no plano de recuperação judicial será declarado ineficaz ou revogado.] IV – a prática de atos a título gratuito, desde 2 (dois) anos antes da decretação da falência; V – a renúncia à herança ou a legado, até 2 (dois) anos antes da decretação da falência; O prazo de dois anos mencionado nos incisos IV e V se referem ao chamado período suspeito. Note que o termo inicial do prazo é diferente do termo legal (vide explicação no início deste Título). Os atos unilaterais de disposição patrimonial praticados além dos dois anos anteriores à decretação da falência também poderão ser tornados ineficazes, porém com fundamento no artigo 130 da Lei, que exige prova da fraude e do dano. VI – a venda ou transferência de estabelecimento feita sem o consentimento expresso ou o pagamento de todos os credores, a esse tempo existentes, não tendo restado ao devedor bens suficientes para solver o seu passivo, salvo se, no prazo de 30 (trinta) dias, não houver oposição dos credores, após serem devidamente notificados, judicialmente ou pelo oficial do registro de títulos e documentos; O inciso VI se refere ao contrato de trespasse celebrado dentro do termo legal. A presunção somente se operará se o falido não tiver notificado os credores ou se, notificados os credores, eles não tiverem se oposto expressamente ao trespasse. O dispositivo é semelhante à previsão do artigo 1.145 do Código Civil: “Se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a eficácia da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, ou do consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua notificação”. O trespasse será eficaz se realizado de acordo com o plano de recuperação judicial, ainda que sem autorização dos credores exigida no dispositivo. VII – os registros de direitos reais e de transferência de propriedade entre vivos, por título oneroso ou gratuito, ou a averbação relativa a imóveis realizados após a decretação da falência, salvo se tiver havido prenotação anterior. O inciso VII, 2ª parte, privilegia a boa-fé do adquirente de imóvel do falido, ao limitar a presunção de fraude a partir da decretação da falência. Caso contrário, a lei geraria insegurança jurídica, pois todos os adquirentes de imóveis pertencentes a pessoas jurídicas teriam que executar a impossível tarefa de verificar com profundidade a situação contábil do alienante. Hipótese do artigo 130 da Lei n° 11.101/05 Art. 130. São revogáveis os atos praticados com a intenção de prejudicar credores, provando-se o conluio fraudulento entre o devedor e o terceiro que com ele contratar e o efetivo prejuízo sofrido pela massa falida. O artigo 130 tem aplicação residual, isto é, será o fundamento da ação revocatória sempre que o ato do falido não se enquadrar em uma das situações descritas no artigo 129. Nesse caso, o autor da ação deverá: Comprovar que o devedor praticou o ato com o fim de prejudicar os credores; Comprovar a existência de conluio entre o devedor e o terceiro no negócio fraudulento; Demonstrar a existência de prejuízo à massa falida. EXCEÇÕES AO CABIMENTO DE AÇÃO REVOCATÓRIA Art. 131. Nenhum dos atos referidos nos incisos I a III e VI do art. 129 desta Lei que tenham sido previstos e realizados na forma definida no plano de recuperação judicial será declarado ineficaz ou revogado. Embora já mencionados nos respectivos incisos, vale organizar as hipóteses nas quais o juiz não declarará a ineficácia do ato praticado pelo falido, durante a execução do plano de recuperação judicial: O pagamento de dívidas não vencidas realizado pelo devedor dentro do termo legal, por qualquer meio extintivo do direito de crédito, ainda que pelo desconto do próprio título; O pagamento de dívidas vencidas e exigíveis, por forma que não seja a prevista pelo contrato;A constituição de direito real de garantia, inclusive a retenção, dentro do termo legal, tratando-se de dívida contraída anteriormente. O contrato de trespasse celebrado sem a anuência expressa ou tácita dos credores. Os demais atos praticados com fraude contra os credores poderão ser declarados ineficazes ou revogados, ainda que praticados com autorização judicial. A sentença que declarar a eficácia do ato terá efeito rescisório da decisão judicial que o autorizara outrora, conforme estabelece o artigo 138, caput e parágrafo único, da Lei. LEGITIMIDADE ATIVA São legitimados para propor a ação revocatória com fundamento no artigo 130: O administrador judicial; Os credores O Ministério Público PRAZO O prazo decadencial para propositura da ação é de 3 (três) anos, contado da decretação da falência. LEGITIMIDADE PASSIVA Art. 133. A ação revocatória pode ser promovida: I – contra todos os que figuraram no ato ou que por efeito dele foram pagos, garantidos ou beneficiados; II – contra os terceiros adquirentes, se tiveram conhecimento, ao se criar o direito, da intenção do devedor de prejudicar os credores; III – contra os herdeiros ou legatários das pessoas indicadas nos incisos I e II do caput deste artigo. Em regra, a ação será cabível contra a todos que tenham sido beneficiados pelo ato do falido. Note que o falido não tem legitimidade ativa nem passiva na ação revocatória. O terceiro de boa-fé prejudicado pela declaração de ineficácia do negócio jurídico terá direito à imediata restituição do valor pago, antes do concurso de credores do artigo 83, conforme dispõe o artigo 86, inciso III, da Lei (vide o título “QUADRO GERAL DE CREDORES”). O terceiro que não comprovar a boa-fé terá ação contra o devedor ou seus garantes (fiador, avalista etc.), mas deverá fazê-lo em ação própria, conforme dispõe o art. 136, § 2°, da Lei.[103: Art. 136 (...) § 2º É garantido ao terceiro de boa-fé, a qualquer tempo, propor ação por perdas e danos contra o devedor ou seus garantes.] EFEITOS DA SENTENÇA Art. 136. Reconhecida a ineficácia ou julgada procedente a ação revocatória, as partes retornarão ao estado anterior, e o contratante de boa-fé terá direito à restituição dos bens ou valores entregues ao devedor. § 1º Na hipótese de securitização de créditos do devedor, não será declarada a ineficácia ou revogado o ato de cessão em prejuízo dos direitos dos portadores de valores mobiliários emitidos pelo securitizador. PAGAMENTO DE CREDORES PRECEDÊNCIA AOS CREDORES DO ARTIGO 83 Existem credores que receberão antes dos listados no artigo 83. São eles: Os credores dos créditos relativos à administração da falência e continuação das atividades da massa falida (art. 150). [104: Art. 150. As despesas cujo pagamento antecipado seja indispensável à administração da falência, inclusive na hipótese de continuação provisória das atividades previstas no inciso XI do caput do art. 99 desta Lei, serão pagas pelo administrador judicial com os recursos disponíveis em caixa.] Os créditos trabalhistas de natureza estritamente salarial vencidos nos 3 (três) meses anteriores à decretação da falência, até o limite de 5 (cinco) salários-mínimos por trabalhador (art. 151)[105: Art. 151. Os créditos trabalhistas de natureza estritamente salarial vencidos nos 3 (três) meses anteriores à decretação da falência, até o limite de 5 (cinco) salários-mínimos por trabalhador, serão pagos tão logo haja disponibilidade em caixa.] Os credores da restituição, em dinheiro, nas situações descritas no artigo 86 da Lei, após satisfeitos os créditos trabalhistas salariais previstos no parágrafo anterior (art. 86, parágrafo único).[106: Art. 86. Proceder-se-á à restituição em dinheiro: I – se a coisa não mais existir ao tempo do pedido de restituição, hipótese em que o requerente receberá o valor da avaliação do bem, ou, no caso de ter ocorrido sua venda, o respectivo preço, em ambos os casos no valor atualizado; II – da importância entregue ao devedor, em moeda corrente nacional, decorrente de adiantamento a contrato de câmbio para exportação, na forma do art. 75, §§ 3º e 4º, da Lei n° 4.728, de 14 de julho de 1965, desde que o prazo total da operação, inclusive eventuais prorrogações, não exceda o previsto nas normas específicas da autoridade competente; III – dos valores entregues ao devedor pelo contratante de boa-fé na hipótese de revogação ou ineficácia do contrato, conforme disposto no art. 136 desta Lei.] Os credores extraconcursais previstos no artigo 84. As duas últimas classes de credores serão detalhadas a seguir. Credores da restituição em dinheiro Dispõe o artigo 85 da Lei: Art. 85. O proprietário de bem arrecadado no processo de falência ou que se encontre em poder do devedor na data da decretação da falência poderá pedir sua restituição. Parágrafo único. Também pode ser pedida a restituição de coisa vendida a crédito e entregue ao devedor nos 15 (quinze) dias anteriores ao requerimento de sua falência, se ainda não alienada. Art. 86. Proceder-se-á à restituição em dinheiro: I – se a coisa não mais existir ao tempo do pedido de restituição, hipótese em que o requerente receberá o valor da avaliação do bem, ou, no caso de ter ocorrido sua venda, o respectivo preço, em ambos os casos no valor atualizado; O proprietário do bem indevidamente arrecadado pelo administrador judicial deverá propor ação de restituição, cuja petição inicial será distribuída por dependência ao juiz da falência e deverá ser instruída com prova da propriedade do bem e de prova da arrecadação. O pedido de restituição poderá ser de três espécies: Pedido de restituição ordinário – é o pedido do art. 85, caput. Quando o proprietário tiver prova da arrecadação do bem, mas esse bem não for encontrado para ser restituído, o administrador judicial deverá restituir ao devedor o equivalente em dinheiro, na forma do art. 86, inciso I. Pedido de restituição extraordinário – é o pedido do art. 85, parágrafo único. Ela pressupõe que: O credor tenha vendido a prazo; O bem tenha sido entregue ao falido nos 15 dias anteriores ao requerimento de falência; O bem não tenha sido alienado pelo falido. Caso a coisa já tenha sido alienada, o credor deverá habilitar seu crédito. Pedido de restituição em dinheiro – dá-se em três hipóteses: De o bem de terceiro ter sido arrecadado pelo administrador, mas não ter sido encontrado (inciso I). De importância entregue ao devedor, em moeda corrente nacional, decorrente de adiantamento a contrato de câmbio para exportação, desde que o prazo total da operação, inclusive eventuais prorrogações, não exceda o previsto nas normas específicas da autoridade competente (inciso II); Dos valores entregues ao devedor pelo contratante de boa-fé na hipótese de revogação ou ineficácia do contrato, conforme disposto no art. 136 desta Lei – trata-se da hipótese de ação revocatória em que for reconhecida a ineficácia, perante a massa falida, de negócio jurídico celebrado entre o falido e terceiro. Quando o juiz julgar improcedente o pedido de restituição, mas verificar que o autor é credor, determinará de ofício a habilitação do seu crédito na classe correspondente. Os embargos de terceiro são subsidiários – nos termos do art. 93, “nos casos em que não couber pedido de restituição, fica resguardado o direito dos credores de propor embargos de terceiros, observada a legislação processual civil”. Eles serão cabíveis quando o proprietário tiver a posse apenas turbada pelo administrador judicial, que estiver visando à arrecadação do bem. Credores extraconcursais Art. 84. Serão considerados créditos extraconcursais e serão pagos com precedência sobre os mencionados no art. 83 desta Lei, na ordem a seguir, os relativos a: São chamados de extraconcursais os créditos relativos aos atos praticados na administração da falência ou da recuperação judicial, na seguinte ordem: Remunerações devidas ao administrador judicial e seus auxiliares; Créditos derivados da legislação do trabalho ou decorrentes deacidentes de trabalho relativos a serviços prestados após a decretação da falência; Quantias fornecidas à massa pelos credores; Despesas com arrecadação, administração, realização do ativo e distribuição do seu produto; As custas do processo de falência; As custas judiciais relativas às ações e execuções em que a massa falida tenha sido vencida; As obrigações resultantes de atos jurídicos válidos praticados durante a recuperação judicial, inclusive aqueles relativos a despesas com fornecedores de bens ou serviços e contratos de mútuo, bem como os praticados após a decretação da falência; Os tributos relativos a fatos geradores ocorridos após a decretação da falência, respeitada a ordem estabelecida no art. 83 desta Lei. Essa determinação legal também está prevista no artigo 188 do CTN, acrescentado pela LC n° 118/05. As obrigações resultantes de atos jurídicos válidos praticados durante a recuperação judicial, nos termos do art. 67 desta Lei, ou após a decretação da falência, e tributos relativos a fatos geradores ocorridos após a decretação da falência, respeitada a ordem estabelecida no art. 83 desta Lei (créditos tributários antes, multas depois). Somente após o pagamento desses credores é que serão pagos os credores habilitados na falência. QUADRO DE CREDORES HABILITADOS DO ARTIGO 83 Art. 83. A classificação dos créditos na falência obedece à seguinte ordem: Após o pagamento dos credores arrolados no item anterior, serão pagos os credores restantes, na seguinte ordem, conforme a natureza do crédito: Trabalhista ou decorrente de acidente de trabalho I – os créditos derivados da legislação do trabalho, limitados a 150 (cento e cinqüenta) salários-mínimos por credor, e os decorrentes de acidentes de trabalho; Note que o limite de 150 salários-mínimos não se aplica ao crédito oriundo de acidente de trabalho. Além disso, os créditos trabalhistas pagos nesta fase correspondem ao que excedeu os 5 salários mínimos, referentes a salários dos últimos três meses antes da decretação da falência (art. 151), bem como os salários pagos durante a manutenção das atividades da massa falida. Também estão incluídos os honorários advocatícios devidos pelo falido (Informativo STJ n° 540). O crédito trabalhista que ultrapassar 150 salários-mínimos será classificado como quirografário. Os direitos de sócio não são oponíveis à massa (art. 83, § 2°). Os créditos trabalhistas cedidos a terceiros serão reclassificados como quirografários (art. 83, § 4°) Com garantia real II - créditos com garantia real até o limite do valor do bem gravado; Será considerado como valor do bem a importância efetivamente arrecadada com sua venda, ou, no caso de alienação em bloco, o valor de avaliação do bem individualmente considerado (art. 83, § 1°). O restante será inscrito como crédito quirografário. Fazenda Pública III – créditos tributários, independentemente da sua natureza e tempo de constituição, excetuadas as multas tributárias; Estão excluídos desse inciso: As multas tributárias – encontra-se classificadas no inciso VII, após os créditos quirografários. Os créditos tributários cujo fato gerador ocorreu após a decretação da falência – esses créditos são o 5° na ordem dos créditos extraconcursais (vide item anterior). Entre as Fazendas Públicas, receberá primeiro a União, depois os Estados e por fim os Municípios, conforme determina o artigo 187, parágrafo único, do CTN. Esse concurso foi julgado constitucional pelo STF. Com privilégio especial IV – créditos com privilégio especial, a saber: a) os previstos no art. 964 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002;[107: Art. 964. Têm privilégio especial: I - sobre a coisa arrecadada e liquidada, o credor de custas e despesas judiciais feitas com a arrecadação e liquidação; II - sobre a coisa salvada, o credor por despesas de salvamento; III - sobre a coisa beneficiada, o credor por benfeitorias necessárias ou úteis; IV - sobre os prédios rústicos ou urbanos, fábricas, oficinas, ou quaisquer outras construções, o credor de materiais, dinheiro, ou serviços para a sua edificação, reconstrução, ou melhoramento; V - sobre os frutos agrícolas, o credor por sementes, instrumentos e serviços à cultura, ou à colheita; VI - sobre as alfaias e utensílios de uso doméstico, nos prédios rústicos ou urbanos, o credor de aluguéis, quanto às prestações do ano corrente e do anterior; VII - sobre os exemplares da obra existente na massa do editor, o autor dela, ou seus legítimos representantes, pelo crédito fundado contra aquele no contrato da edição; VIII - sobre o produto da colheita, para a qual houver concorrido com o seu trabalho, e precipuamente a quaisquer outros créditos, ainda que reais, o trabalhador agrícola, quanto à dívida dos seus salários. IX - sobre os produtos do abate, o credor por animais. ] b) os assim definidos em outras leis civis e comerciais, salvo disposição contrária desta Lei; c) aqueles a cujos titulares a lei confira o direito de retenção sobre a coisa dada em garantia; d) aqueles em favor dos microempreendedores individuais e das microempresas e empresas de pequeno porte de que trata a Lei Complementar no 123, de 14 de dezembro de 2006 (Incluído pela Lei Complementar nº 147, de 2014) Com privilégio geral As notas promissórias e duplicatas rurais detêm privilégio especial (Dec. n° 167/67). V – créditos com privilégio geral, a saber: a) os previstos no art. 965 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002;[108: Art. 965. Goza de privilégio geral, na ordem seguinte, sobre os bens do devedor: I - o crédito por despesa de seu funeral, feito segundo a condição do morto e o costume do lugar; II - o crédito por custas judiciais, ou por despesas com a arrecadação e liquidação da massa; III - o crédito por despesas com o luto do cônjuge sobrevivo e dos filhos do devedor falecido, se foram moderadas; IV - o crédito por despesas com a doença de que faleceu o devedor, no semestre anterior à sua morte; V - o crédito pelos gastos necessários à mantença do devedor falecido e sua família, no trimestre anterior ao falecimento; VI - o crédito pelos impostos devidos à Fazenda Pública, no ano corrente e no anterior; VII - o crédito pelos salários dos empregados do serviço doméstico do devedor, nos seus derradeiros seis meses de vida; VIII - os demais créditos de privilégio geral.] b) os previstos no parágrafo único do art. 67 desta Lei;[109: Art. 67 (...) Parágrafo único. Os créditos quirografários sujeitos à recuperação judicial pertencentes a fornecedores de bens ou serviços que continuarem a provê-los normalmente após o pedido de recuperação judicial terão privilégio geral de recebimento em caso de decretação de falência, no limite do valor dos bens ou serviços fornecidos durante o período da recuperação.] c) os assim definidos em outras leis civis e comerciais, salvo disposição contrária desta Lei; São hipóteses legais de privilégio geral: As debêntures com garantia flutuante, conforme dispõe o artigo 58, § 1°, da Lei das S/A – Lei n° 6.404/76. [110: Art. 58 (...) § 1º A garantia flutuante assegura à debênture privilégio geral sobre o ativo da companhia, mas não impede a negociação dos bens que compõem esse ativo.] O crédito do comissário nos contratos de comissão mercantil. Quirografário VI – créditos quirografários, a saber: a) aqueles não previstos nos demais incisos deste artigo; b) os saldos dos créditos não cobertos pelo produto da alienação dos bens vinculados ao seu pagamento; c) os saldos dos créditos derivados da legislação do trabalho que excederem o limite estabelecido no inciso I do caput deste artigo; Note que, apesar da redação da alínea a, existem créditos de classe inferior ao quirografário. Portanto, atenção para a leitura do dispositivo: são quirografários os créditos não previstos em qualquer outro inciso do artigo 83, estejam eles antes ou depois do inciso VI. Multas VII – as multas contratuaise as penas pecuniárias por infração das leis penais ou administrativas, inclusive as multas tributárias; Na legislação falimentar anterior, os créditos relativos a multa não podiam ser habilitados na falência. Na Lei n° 11.101/05, os créditos não habilitáveis estão contidos no artigo 5°. As cláusulas penais dos contratos unilaterais não serão atendidas se as obrigações neles estipuladas se vencerem em virtude da falência (art. 83, § 3°). Créditos subordinados VIII – créditos subordinados, a saber: a) os assim previstos em lei ou em contrato; b) os créditos dos sócios e dos administradores sem vínculo empregatício. É exemplo de crédito subordinado a debênture subordinada. DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Falência e recuperação judicial - Falência DIREITO EMPRESARIAL II Falência e recuperação judicial Falência RECUPERAÇÃO JUDICIAL PETIÇÃO INICIAL Art. 51. A petição inicial de recuperação judicial será instruída com: I – a exposição das causas concretas da situação patrimonial do devedor e das razões da crise econômico-financeira; II – as demonstrações contábeis relativas aos 3 (três) últimos exercícios sociais e as levantadas especialmente para instruir o pedido, confeccionadas com estrita observância da legislação societária aplicável e compostas obrigatoriamente de: a) balanço patrimonial; b) demonstração de resultados acumulados; c) demonstração do resultado desde o último exercício social; d) relatório gerencial de fluxo de caixa e de sua projeção; [as microempresas e empresas de pequeno porte poderão apresentar livros e escrituração contábil simplificados nos termos da legislação específica (art. 51, § 2°)]. III – a relação nominal completa dos credores, inclusive aqueles por obrigação de fazer ou de dar, com a indicação do endereço de cada um, a natureza, a classificação e o valor atualizado do crédito, discriminando sua origem, o regime dos respectivos vencimentos e a indicação dos registros contábeis de cada transação pendente; IV – a relação integral dos empregados, em que constem as respectivas funções, salários, indenizações e outras parcelas a que têm direito, com o correspondente mês de competência, e a discriminação dos valores pendentes de pagamento; V – certidão de regularidade do devedor no Registro Público de Empresas, o ato constitutivo atualizado e as atas de nomeação dos atuais administradores; VI – a relação dos bens particulares dos sócios controladores e dos administradores do devedor; VII – os extratos atualizados das contas bancárias do devedor e de suas eventuais aplicações financeiras de qualquer modalidade, inclusive em fundos de investimento ou em bolsas de valores, emitidos pelas respectivas instituições financeiras; VIII – certidões dos cartórios de protestos situados na comarca do domicílio ou sede do devedor e naquelas onde possui filial; IX – a relação, subscrita pelo devedor, de todas as ações judiciais em que este figure como parte, inclusive as de natureza trabalhista, com a estimativa dos respectivos valores demandados. A partir da distribuição do pedido de recuperação judicial, o devedor não poderá alienar ou onerar bens ou direitos de seu ativo permanente, com exceção daqueles previamente relacionados no plano de recuperação judicial. Caso o devedor necessite alienar outros bens do ativo permanente, deverá requerer ao juiz, que poderá autorizar a alienação, depois de ouvido o Comitê de credores (art. 63). O deferimento do “processamento” significa o deferimento da recuperação judicial. Na hipótese de indeferimento do processamento, o empresário poderá interpor apelação com fundamento no Código de Processo Civil. DEFERIMENTO DO PROCESSAMENTO Art. 52. Estando em termos a documentação exigida no art. 51 desta Lei, o juiz deferirá o processamento da recuperação judicial e, no mesmo ato: I – nomeará o administrador judicial, observado o disposto no art. 21 desta Lei; II – determinará a dispensa da apresentação de certidões negativas para que o devedor exerça suas atividades, exceto para contratação com o Poder Público ou para recebimento de benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, observando o disposto no art. 69 desta Lei; III – ordenará a suspensão de todas as ações ou execuções contra o devedor, na forma do art. 6º desta Lei, permanecendo os respectivos autos no juízo onde se processam, ressalvadas as ações previstas nos §§ 1º, 2º e 7º do art. 6º desta Lei e as relativas a créditos excetuados na forma dos §§ 3º e 4º do art. 49 desta Lei; IV – determinará ao devedor a apresentação de contas demonstrativas mensais enquanto perdurar a recuperação judicial, sob pena de destituição de seus administradores; V – ordenará a intimação do Ministério Público e a comunicação por carta às Fazendas Públicas Federal e de todos os Estados e Municípios em que o devedor tiver estabelecimento. Embora o artigo 52 mencione o exame apenas dos requisitos do artigo 51, o juiz deverá examinar também se o requerente tem direito à recuperação judicial. Nos termos do artigo 48 da Lei, poderá requerer recuperação judicial o devedor que preencher os seguintes requisitos: Exercer regularmente suas atividades há mais de 2 (dois) anos; Não ser falido ou, se já o foi, provar que está reabilitado. Não ter obtido concessão de recuperação judicial há menos de 5 (cinco) anos; Não ter obtido, há menos de 5 (cinco) anos, concessão de recuperação judicial com base no plano especial destinado às micro e pequenas empresas, previsto no artigo 70 da Lei – o prazo de 8 anos foi reduzido para 5 anos pela LC n° 147/14. Não ter sido condenado por crime falimentar nem ter como administrador ou sócio controlador pessoa condenada. EFEITOS DO DEFERIMENTO São efeitos decorrentes da decisão que admite o processamento da decisão: Nomeará o administrador judicial, fixando a sua remuneração, que será de até 5% do total de créditos habilitados na recuperação judicial. Tratando-se de ME ou EPP, a remuneração será de apenas até 2%. Intimação do Ministério Público e da Fazenda Pública; Suspensão de todas as ações e execuções e do prazo prescricional, salvo as ações anteriores que demandam quantia ilíquida, as reclamações trabalhistas e as execuções fiscais; sobre contratos de arrendamento mercantil de alienação fiduciária; e sobre contratos de adiantamento de câmbio. A suspensão das ações durará somente 180 dias, nos termos do art. 6°, § 4°, que estabelece que ele é improrrogável. Porém, o STJ tem decidido que o prazo de suspensão das ações poderá ser prorrogado excepcionalmente, quando o retardamento do pedido de recuperação judicial não puder ser imputado ao devedor.[111: Art. 6° (...) § 4º Na recuperação judicial, a suspensão de que trata o caput deste artigo em hipótese nenhuma excederá o prazo improrrogável de 180 (cento e oitenta) dias contado do deferimento do processamento da recuperação, restabelecendo-se, após o decurso do prazo, o direito dos credores de iniciar ou continuar suas ações e execuções, independentemente de pronunciamento judicial.] Dispensa de apresentar certidões negativas de débito, exceto para contratação com o Poder Público ou para recebimento de benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios – todavia, o STJ tem admitido a dispensa inclusive para a participação da sociedade recuperanda em licitações junto ao poder público, fundado no princípio da preservação da empresa. Os administradores são mantidos nos seus cargos e na posse dos seus bens, ao contrário do que ocorre na falência. Novação das dívidas do devedor O deferimento do processamento da recuperação judicial gera a novação das dívidas do devedor com os credores. Decorrido o período de dois anos da recuperação judicial (art. 61) sem o descumprimento do plano, as dívidas estarão extintas. Porém, na hipótese de descumprimento do plano, a novação será desfeita. Note que a novação na recuperação judicial não é idêntica à novação do Código Civil, porque neste a novação acarreta a extinção da obrigaçãoanterior. Já na recuperação judicial a novação é reversível no caso de descumprimento. A novação não alcança os coobrigados (ex: avalistas, fiadores), salvo quando eles concordarem com o plano. crédito trabalhista posterior, mas por trabalho anterior De acordo com o art. 49, “Estão sujeitos à recuperação judicial todos os créditos existentes na data do pedido, ainda que não vencidos”. O STJ deu ao dispositivo interpretação no sentido de que a execução de crédito trabalhista decorrente de serviço prestado antes do deferimento do processamento da recuperação judicial, reconhecido em ação proposta antes do processamento desta, enquadra-se no art. 49 e poderá ser incluída no plano de recuperação judicial. Isto porque o crédito trabalhista era existente, embora em fase de apuração pela justiça do trabalho. [112: REsp 1.641.191/RS, 3ª Turma, Rel. Min. Ricardo Villas Boas Cueva, 2017.] créditos insuscetíveis de inclusão no plano de recuperação Art. 49 (...) § 3º Tratando-se de credor titular da posição de proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis, de arrendador mercantil, de proprietário ou promitente vendedor de imóvel cujos respectivos contratos contenham cláusula de irrevogabilidade ou irretratabilidade, inclusive em incorporações imobiliárias, ou de proprietário em contrato de venda com reserva de domínio, seu crédito não se submeterá aos efeitos da recuperação judicial e prevalecerão os direitos de propriedade sobre a coisa e as condições contratuais, observada a legislação respectiva, não se permitindo, contudo, durante o prazo de suspensão a que se refere o § 4º do art. 6º desta Lei, a venda ou a retirada do estabelecimento do devedor dos bens de capital essenciais a sua atividade empresarial. Em relações aos créditos que não podem ser incluídos no plano de recuperação judicial, o STJ decidiu que o juízo em que tramita o processo de recuperação judicial – juízo universal – é o competente para decidir sobre o destino dos bens e valores objeto de execuções singulares movidos contra a recuperanda, ainda que se trate de crédito decorrente de relação de consumo. [113: REsp 1.630.702/RJ, 3ª Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, 2017.] O mesmo vale para os atos de constrição nas execuções fiscais movidas pela recuperanda: as execuções deverão ser propostas perante a vara da Fazenda Pública e não serão suspensas, por força do dispõe o art. 6º, § 7º, mas, quanto aos atos de constrição sobre bens da recuperanda, estes sim serão de competência do juízo universal da recuperação.[114: Ag CC 150.852/SC, 2ª Seção, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, 2017.] Afinal, um ato executório realizado em descompasso com o plano de recuperação poderá arruinar definitivamente a empresa recuperanda. § 4º Não se sujeitará aos efeitos da recuperação judicial a importância a que se refere o inciso II do art. 86 desta Lei. RECURSO CONTRA O DEFERIMENTO A decisão que defere o processamento da recuperação judicial é recorrível por agravo de instrumento, que poderá ser interposto por qualquer credor e pelo Ministério Público (art. 59, § 2°). PLANO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL Art. 53. O plano de recuperação será apresentado pelo devedor em juízo no prazo improrrogável de 60 (sessenta) dias da publicação da decisão que deferir o processamento da recuperação judicial, sob pena de convolação em falência, e deverá conter: I – discriminação pormenorizada dos meios de recuperação a ser empregados, conforme o art. 50 desta Lei, e seu resumo; II – demonstração de sua viabilidade econômica; e III – laudo econômico-financeiro e de avaliação dos bens e ativos do devedor, subscrito por profissional legalmente habilitado ou empresa especializada. O juiz ordenará a publicação de edital contendo aviso aos credores sobre o recebimento do plano de recuperação e fixando o prazo para a manifestação de eventuais objeções, a serem apresentadas no prazo de 30 dias (art. 53, parágrafo único, c/c art. 55). Havendo objeção de qualquer credor ao plano de recuperação judicial, o juiz convocará a assembleia-geral de credores para deliberar sobre o plano de recuperação, a qual deverá ocorrer em até 150 dias, contados do deferimento do processamento da recuperação judicial (art. 56, caput e § 1°). O plano de recuperação judicial não poderá prever prazo superior a 1 (um) ano para pagamento dos créditos derivados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidentes de trabalho vencidos até a data do pedido de recuperação judicial (Art. 54) A análise da viabilidade econômica do recuperando cabe à assembleia de credores, cabendo ao juiz assegurar a observância da Lei. O descumprimento do plano de recuperação judicial durante o seu prazo de vigência acarretará a convolação da recuperação em falência. Rejeição do plano pelos credores Art. 56 (...) § 4º Rejeitado o plano de recuperação pela assembléia-geral de credores, o juiz decretará a falência do devedor. Em princípio, diante da recusa do plano pela assembleia de credores, o juiz deveria convolar o pedido em falência. Todavia, o artigo 58, § 1°, estabelece o chamado cram down (“para baixo”), segundo o qual o juiz poderá afastar o abuso de direito da minoria que votou pela rejeição do plano, desde que o devedor tenha obtido na assembleia, cumulativamente: Voto favorável de credores que representem mais da metade do valor de todos os créditos presentes à assembleia, independentemente de classes; Aprovação de 2 (duas) das classes de credores nos termos do art. 45 da Lei ou, caso haja somente 2 (duas) classes com credores votantes, a aprovação de pelo menos 1 (uma) delas; Na classe que o houver rejeitado, o voto favorável de mais de 1/3 (um terço) dos credores, computados na forma dos §§ 1º e 2º do art. 45 da Lei. SENTENÇA DE ENCERRAMENTO DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL Art. 61. Proferida a decisão prevista no art. 58 desta Lei, o devedor permanecerá em recuperação judicial até que se cumpram todas as obrigações previstas no plano que se vencerem até 2 (dois) anos depois da concessão da recuperação judicial. DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Falência e recuperação judicial - Recuperação Judicial DIREITO EMPRESARIAL Falência e recuperação judicial - Recuperação Judicial A recuperação judicial terá duração máxima de dois anos, contados do deferimento do seu processamento. Vencido esse prazo sem o cumprimento integral do plano judicial, a recuperação será encerrada. Nesse caso, não será mais admitida a convolação em falência, cabendo ao credor executar o crédito ou requerer a falência em ação autônoma. CONTRATOS EMPRESARIAIS CONTRATOS MERCANTIS INTRODUÇÃO LIMITES DO PRESENTE CAPÍTULO Alguns contratos mercantis são estudados também pelo Direito Civil (ex: compra e venda, comissão). Assim, o estudo da teoria geral dos contratos e das normas gerais de cada contrato previsto no Código Civil será feito no resumo de Direito Civil, de modo que no presente capítulo serão estudadas somente as especificidades dos contratos no âmbito empresarial. QUANDO UM CONTRATO É MERCANTIL O empresário e a sociedade empresária celebram diversos contratos ao longo de sua existência, a fim de efetivar a sua atividade, e neles estabelecem obrigações que poderão ser coercitivamente exigidas pela parte credora, caso não venham a ser cumpridas voluntariamente. Porém, nem todas os contratos firmados por um empresário serão contratos mercantis. Os contratos serão considerados mercantis quando oar partes contratantes forem empresárias, independentemente da natureza da relação jurídica, que poderá ser regida: pelo Código de Defesa do Consumidor, quando o um dos empresários for qualificado como consumidor (art. 2° do CDC); pelas normas de direito administrativo, quando o empresário contratar com a administração pública; e pelo Código Civil e leis extravagantes, nos demais contratos mercantis. Note que contrato mercantil não é o oposto de contrato de consumo. Cada vez que um empresário celebra com uma instituição financeira um contratode leasing para aquisição de maquinário ou um contrato de factoring para se capitalizar, tem-se a celebração de um contrato mercantil regido pelo Código de Defesa do Consumidor. PRINCÍPIOS REGENTES DOS CONTRATOS MERCANTIS Dois princípios regem a constituição do vínculo contratual: (i) o do consensualismo; e (ii) o da relatividade. Princípio do consensualismo Pelo princípio do consensualismo, um contrato se constitui com o simples acordo de vontades manifestado pelas partes, não sendo necessário nenhum outro elemento para completar esse contrato. Porém, alguns contratos dependem de outro elemento para serem válidos e eficazes: (i) os contratos reais dependem da entrega da coisa para se completar; e (ii) os contratos solenes só serão válidos quando celebrados com observância das formalidades previstas na lei. Não existem contratos mercantis solenes no direito brasileiro atualmente. Existem apenas contratos que deverão observar obrigatoriamente a forma escrita, tais como o contrato de licença da marca e o contrato de seguro. Nos contratos mercantis consensuais, deverão ser observadas as regras sobre proposta previstas no artigo 427 e seguintes do Código Civil. Princípio da relatividade Pelo princípio da relatividade, o contrato gera efeitos apenas entre as partes por ele vinculadas, não criando, em regra, direitos ou deveres para pessoas estranhas à relação. Porém, excepcionalmente os contratos poderão gerar direitos para terceiros. É o que ocorre no seguro de vida e na estipulação em favor de terceiro (art. 436 a 438 do Código Civil). Parte da doutrina defende a existência de situações nas quais o contrato será apto a criar obrigação para terceiro, com fundamento da teoria da aparência. Imagine‑se um comerciante que, no decorrer de alguns anos, tivesse mantido reiteradas negociações com um certo atacadista por meio de um representante deste (contrato de agência e distribuição – arts. 710 a 721 do Código Civil). Rompido o vínculo de representação, sem o conhecimento do comerciante, os negócios posteriormente realizados por meio do antigo representante vincularão o atacadista. Também nos contratos mercantis regidos pelo Código de Defesa do Consumidor, o princípio da relatividade também tem a sua aplicabilidade ressalvada na maioria dos casos, em vista da responsabilidade solidária de toda a cadeia produtiva e não apenas do comerciante. Força obrigatória dos contratos É representada pela clássica cláusula pacta sunt servanda, pela qual a ninguém é possível liberar‑se de uma obrigação assumida em contrato por sua própria e exclusiva vontade, sendo indispensável para o desfazimento do contrato a concordância de todas as partes envolvidas, o que reforça o caráter irretratável e intangível dos contratos. A irretratabilidade e intangibilidade dos contratos ao mesmo tempo impede a dissolução unilateral do vínculo e a alteração unilateral das condições nele estabelecidas. Teoria da imprevisão Há muito que a cláusula pacta sunt servanda, de caráter puramente individualista, deixou de ser absoluta nas relações contratuais, sendo mitigada pela cláusula rebus sic stantibus, base da teoria da imprevisão, segundo a qual é possível a revisão ou a resolução do contrato quando ocorrer fatos supervenientes, imprevisíveis e não imputáveis aos contratantes, com reflexos sobre o objeto ou o valor do contrato. O tratamento da questão dependerá se o contrato é regido pelo Código de Defesa do Consumidor ou pelo Código Civil. Código Civil – dois dispositivos consagram a teoria da imprevisão no Código Civil: Art. 317. Quando, por motivos imprevisíveis, sobrevier desproporção manifesta entre o valor da prestação devida e o do momento de sua execução, poderá o juiz corrigi-lo, a pedido da parte, de modo que assegure, quanto possível, o valor real da prestação. Art. 478. Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar retroagirão à data da citação. Art. 479. A resolução poderá ser evitada, oferecendo-se o réu a modificar eqüitativamente as condições do contrato. Código de Defesa do Consumidor – a teoria da imprevisão está disposta no art. 6°, inciso V: Art. 6º São direitos básicos do consumidor: (...) V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas; Existe uma diferença sensível dentro da teoria da imprevisão, conforme a relação seja ou não de consumo: Código Civil Código de Defesa do Consumidor Fato superveniente não imputável às partes Onerosidade excessiva para uma das partes Simultânea vantagem extrema para a outra Onerosidade excessiva para o consumidor Exceção de contrato não cumprido Art. 476. Nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro. Art. 477. Se, depois de concluído o contrato, sobrevier a uma das partes contratantes diminuição em seu patrimônio capaz de comprometer ou tornar duvidosa a prestação pela qual se obrigou, pode a outra recusar-se à prestação que lhe incumbe, até que aquela satisfaça a que lhe compete ou dê garantia bastante de satisfazê-la. A cláusula exceptio non adimpleti contractus também relativiza a força vinculativa dos contratos. Segundo a dita cláusula, uma parte não pode exigir o cumprimento do contrato pela outra, se estiver em mora em relação à sua própria prestação, nem se houver risco concreto de que a outra parte não venha a cumprir a sua obrigação. DESCONSTITUIÇÃO DO VÍNCULO CONTRATUAL A doutrina atribui diferentes nomenclaturas à extinção do vínculo contratual, conforme os motivos ensejadores da desconstituição: Desfazimento Poderá ocorrer em razão da prescrição, da confusão, da compensação, etc. Invalidação Ocorre em função de causas anteriores ou contemporâneas à constituição, tais como a incapacidade das partes, a ilicitude do objeto, a inidoneidade da forma ou vício de consentimento ou social (erro, dolo, simulação etc.). Pode verificar‑se, de acordo com a causa operante, uma hipótese de nulidade ou anulabilidade do contrato. As duas atingirão a própria validade do negócio jurídico praticado, e, por isso, as partes devem retornar à situação em que se encontravam anteriormente ao contrato. Dissolução Já a dissolução está relacionada com causas posteriores à constituição do contrato, podendo se dar por: (i) resolução, decorrente da inexecução da obrigação; e (ii) resilição, decorrente da vontade das partes (distrato). Resolução A resolução resulta do não cumprimento das obrigações assumidas por uma das partes, seja em decorrência de ação ou omissão a ela imputável (resolução voluntária ou culposa), seja em função de fatores externos à atuação do contratante que impossibilitam a execução do contrato, tais como o caso fortuito, a força maior ou a insolvência (resolução involuntária). Nos contratos bilaterais, existe a cláusula resolutiva tácita, pela qual o descumprimento de uma obrigação por um dos contratantes autoriza o outro a requerer em juízo a dissolução do vínculo. Com a resolução, as partes retornam à situação jurídica anterior ao contrato (efeitos retroativos). Neste sentido, as partes terão direito de pleitear a restituição do que entregaram no cumprimento de suas obrigações contratuais. Além disto, será devida indenização por perdas e danos nas hipóteses de inexecução voluntária, na forma do artigo 475 do Código Civil: “a parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do contrato, se não preferir exigir-lhe o cumprimento, cabendo, em qualquer dos casos, indenização por perdas e danos”. O valor da indenização pode ser previamente acordado entre as partes, por meio da estipulação de uma cláusula penal compensatória, que dispensa o prejudicado de promover a provada extensão dos danos sofridos, mas em regra não poderá ser superior ao valor do contrato (art. 412 do Código Civil). Resilição É a dissolução do vínculo contratual por vontade das partes. Como regra, resulta de um acordo bilateral, salvo quando constar do próprio instrumento uma cláusula autorizando a resilição unilateral. Operada a resilição do contrato, ele conservará os seus efeitos até aquela data (não retroagirá). Rescisão Costuma ser empregada como sinônimo de dissolução. Porém, parte da doutrina defende que o termo rescisão é adstrito à invalidação do contrato em decorrência de lesão (art. 159 do Código Civil). COMPRA E VENDA MERCANTIL Contrato de compra e venda mercantil é aquele celebrado entre empresários. Em regra, submete-se ao Código Civil e à Lei de Falência. Porém, quando um dos empresários for destinatário final das mercadorias, o contrato será regido pelo Código de Defesa do Consumidor. É muito comum no meio empresarial a celebração de contratos de compra e venda continuada - contrato de fornecimento ou contrato de assinatura -, isto é, o ajuste de sucessivos contratos de compra e venda ao longo de determinado período (ex: entre o fabricante e o lojista). Considerando que “a compra e venda, quando pura, considerar-se-á obrigatória e perfeita, desde que as partes acordarem no objeto e no preço” (art. 482 do Código Civil), pouco importa se as mercadorias foram entregues de uma só vez ou em lotes periódicos (ex: todo mês durante um ano), não desnaturando a compra e venda, que não se confunde com o contrato de colaboração, que será visto mais adiante. FALÊNCIA OU INSOLVÊNCIA DO COMPRADOR DIREITO EMPRESARIAL Contratos empresariais - Contratos mercantis DIREITO EMPRESARIAL Contratos empresariais - Contratos mercantis A especificidade do contrato de compra e venda mercantil está na hipótese de instauração da execução concursal do patrimônio do comprador – falência ou insolvência. De acordo com a regra geral do Código Civil, “Não obstante o prazo ajustado para o pagamento, se antes da tradição o comprador cair em insolvência, poderá o vendedor sobrestar na entrega da coisa, até que o comprador lhe dê caução de pagar no tempo ajustado” (art. 495). Já na compra e venda mercantil, os direitos do vendedor no caso de falência do comprador variarão de acordo com o momento em que se encontrava a execução do contrato quando da “quebra”, mas em nenhuma hipótese o vendedor poderá exigir caução do comprador falido como condição para fazer a entrega da coisa vendida, ou seja, não se aplica à compra e venda mercantil o artigo 495 do Código Civil e sim os artigos 117 a 119 da Lei n° 11.101/05 – Lei de Falência e Recuperação. Nos termos do art. 117 da LFR, “Os contratos bilaterais não se resolvem pela falência e podem ser cumpridos pelo administrador judicial se o cumprimento reduzir ou evitar o aumento do passivo da massa falida ou for necessário à manutenção e preservação de seus ativos, mediante autorização do Comitê”. Logo, o contrato de compra e venda mercantil em execução não se extinguirá pelo simples fato da decretação da falência do comprador. Além disso, “o vendedor não pode obstar a entrega das coisas expedidas ao devedor e ainda em trânsito, se o comprador, antes do requerimento da falência, as tiver revendido, sem fraude, à vista das faturas e conhecimentos de transporte, entregues ou remetidos pelo vendedor” (art. 119, inciso I). Na promessa de compra e venda de imóveis, aplicar-se-á a legislação respectiva (art. 119, inciso VI). CONTRATO DE COLABORAÇÃO INTRODUÇÃO Em classificação proposta por Fábio Ulhôa Coelho, o contrato de colaboração é gênero que abrange a comissão, a representação comercial, a concessão mercantil, a franquia e a distribuição. No contrato de colaboração, o colaborador contratado (comissário, representante, concessionário, franquiado ou distribuidor) se obriga a colocar junto aos interessados as mercadorias comercializadas ou produzidas pelo fornecedor contratante (comitente, representado, concedente, franquiador ou distribuído), observando as orientações gerais ou específicas por este fixadas, ou seja, existe entre fornecedor e colaborador uma relação de subordinação empresarial.[115: A subordinação diz respeito aos empresários e não às pessoas, sob pena de configurar vínculo empregatício regido pela CLT.] Os contratos de colaboração empresarial definem-se por uma obrigação particular, que um dos contratantes (colaborador) assume, em relação aos produtos ou serviços do outro (“fornecedor”), a de criação ou ampliação de mercado. Em termos concretos, o colaborador se obriga a fazer investimentos em divulgação, propaganda, manutenção de estoques, treinamento de pessoal e outros destinados a despertar, em consumidores, o hábito de adquirir os produtos ou serviços do fornecedor. Dependendo da espécie de colaboração contratada, os investimentos na criação ou consolidação do mercado são maiores ou menores; a obrigação de realizá-los, contudo, é inerente aos contratos de colaboração empresarial. É o dever de criação ou ampliação de mercado que diferencia a colaboração da compra e venda. Colaboração por intermediação e por aproximação O contrato de colaboração pode ser de dois tipos: Colaboração por intermediação – o colaborador adquire as mercadorias do fornecedor e as revende a terceiros. A remuneração do colaborador se dá pela obtenção de lucro entre uma compra e venda (ou prestação de serviço) e outra. Exemplos: concessionário, franquiado. Colaboração por aproximação – o colaborador não adquire o produto do fornecedor, apenas identifica o potencial comprador, aproximando-o do vendedor, para que ambos celebrem o negócio. A remuneração é feita mediante o pagamento de um percentual do valor do negócio, a ser pago pelo fornecedor, que é parte no contrato de colaboração. Exemplos: comitente e representante comercial. O contrato de distribuição é espécie de contrato de colaboração que pode ser qualquer dos tipos – por intermediação ou por aproximação, conforme o distribuidor adquira a mercadoria e a revenda (intermediação) ou apenas identifique o potencial comprador e o aproxime do vendedor (aproximação). COMISSÃO Código Civil Art. 693. O contrato de comissão tem por objeto a aquisição ou a venda de bens pelo comissário, em seu próprio nome, à conta do comitente. Consiste em vínculo contratual no qual um empresário (comissário) se obriga a realizar negócios mercantis por conta de outro (comitente), mas em nome próprio, assumindo, portanto, perante terceiros responsabilidade pessoal pelos atos praticados. Como o comissário atua em nome próprio, não precisa exibir o contrato de comissão a terceiros. Por isso, o contrato de comissão é comumente utilizado para que o terceiro com quem o comissário celebra negócios sequer tenha conhecimento da existência de quem é o verdadeiro interessado no negócio, isto é, quem é o comitente. Exemplificativamente, um grande construtor constitui um comissário para adquirir um imóvel que pretende demolir para a construção de um grande empreendimento no local, evitando assim que o comprador hipervalorize o imóvel ao saber das pretensões subjacentes à compra e venda. A comissão não se confunde com o mandato, porque neste o mandatário age em nome do mandante, não respondendo perante o terceiro se tiver agido nos limites dos poderes que lhe foram conferidos. Já o comissário age em nome próprio, respondendo ele – e apenas ele – perante o terceiro. Fixe-se: o comitente não é parte do contrato celebrado com o terceiro. Embora a comissão tenha regramento próprio (arts. 693 a 708 do Código Civil), São aplicáveis à comissão, no que couber, as regras sobre mandato (art. 709), previstas nos artigos 653 a 691 do Código Civil. REPRESENTAÇÃO COMERCIAL A representação comercial é o contrato pelo qual uma das partes (representante comercial autônomo) se obriga a obter pedidos de compra e venda de mercadorias fabricadas ou comercializadas pela outra parte (representado). A atividade de representante comercialé regulamentada pela Lei n° 4.886/65, cujo art. 1° dispõe que “Exerce a representação comercial autônoma a pessoa jurídica ou a pessoa física, sem relação de emprego, que desempenha, em caráter não eventual por conta de uma ou mais pessoas, a mediação para a realização de negócios mercantis, agenciando propostas ou pedidos, para, transmiti-los aos representados, praticando ou não atos relacionados com a execução dos negócios”. Como regra, quem concluirá o negócio será o representado, sendo este o principal ponto que difere a representação comercial do contrato de mandato. Porém, quando a representação comercial incluir poderes atinentes ao mandato mercantil, serão aplicáveis os preceitos próprios da legislação comercial (art. 1°, parágrafo único, da lei). Requisitos do contrato de representação Lei n° 4.886/65 Art. 27. Do contrato de representação comercial, além dos elementos comuns e outros a juízo dos interessados, constarão obrigatoriamente: a) condições e requisitos gerais da representação; b) indicação genérica ou específica dos produtos ou artigos objeto da representação; c) prazo certo ou indeterminado da representação; d) indicação da zona ou zonas em que será exercida a representação, bem como da permissibilidade ou não de a representada ali poder negociar diretamente; d) indicação da zona ou zonas em que será exercida a representação; e) garantia ou não, parcial ou total, ou por certo prazo, da exclusividade de zona ou setor de zona; f) retribuição e época do pagamento, pelo exercício da representação, dependente da efetiva realização dos negócios, e recebimento, ou não, pelo representado, dos valores respectivos; g) os casos em que se justifique a restrição de zona concedida com exclusividade; h) obrigações e responsabilidades das partes contratantes; i) exercício exclusivo ou não da representação a favor do representado; j) indenização devida ao representante pela rescisão do contrato fora dos casos previstos no art. 35, cujo montante não poderá ser inferior a 1/12 (um doze avos) do total da retribuição auferida durante o tempo em que exerceu a representação. Extinção do contrato de representação Sem justa causa Art. 34. A denúncia, por qualquer das partes, sem causa justificada, do contrato de representação, ajustado por tempo indeterminado e que haja vigorado por mais de seis meses, obriga o denunciante, salvo outra garantia prevista no contrato, à concessão de pré-aviso, com antecedência mínima de trinta dias, ou ao pagamento de importância igual a um têrço (1/3) das comissões auferidas pelo representante, nos três meses anteriores. Por justa causa, manifestada pelo representado Art. 35. Constituem motivos justos para rescisão do contrato de representação comercial, pelo representado: a) a desídia do representante no cumprimento das obrigações decorrentes do contrato; b) a prática de atos que importem em descrédito comercial do representado; c) a falta de cumprimento de quaisquer obrigações inerentes ao contrato de representação comercial; d) a condenação definitiva por crime considerado infamante; e) força maior. Interessante notar que, ao contrário das causas justificadoras previstas nas alíneas a a d, que são intuitivas, a Lei n° 4.886/65 considera justa causa a força maior (ex: lei posterior proíbe o comércio da mercadoria), autorizando a extinção do contrato sem qualquer indenização ao representante. A ocorrência de justa causa autoriza o representado a reter as comissões devidas ao representante, com o fim de ressarcir-se de danos por ele causados ou a título de compensação (art. 37). Por justa causa, manifestada pelo representante Art. 36. Constituem motivos justos para rescisão do contrato de representação comercial, pelo representante: a) redução de esfera de atividade do representante em desacordo com as cláusulas do contrato; b) a quebra, direta ou indireta, da exclusividade, se prevista no contrato; c) a fixação abusiva de preços em relação à zona do representante, com o exclusivo escopo de impossibilitar-lhe ação regular; d) o não-pagamento de sua retribuição na época devida; e) força maior. Note que o representante também poderá invocar a força maior para resolver o contrato de representação (ex: acompanhar cônjuge militar removido de ofício), ficando dispensado do aviso prévio ou do pagamento da indenização previstos no art. 34. Competência Art. 39. Para julgamento das controvérsias que surgirem entre representante e representado é competente a Justiça Comum e o foro do domicílio do representante, aplicando-se o procedimento sumaríssimo previsto no art. 275 do Código de Processo Civil, ressalvada a competência do Juizado de Pequenas Causas. O “procedimento sumaríssimo previsto no art. 275 do Código de Processo Civil” de 1973 foi revogado pela Lei n° 9.245/95, que instituiu o procedimento sumário. O Novo CPC, por sua vez, extinguiu o procedimento sumário, de modo que atualmente eventual processo envolvendo representação comercial seguirá o procedimento comum (antigo procedimento comum ordinário) ou o procedimento da Lei n° 9.099/95, quando cabível e o autor assim optar. CONCESSÃO COMERCIAL É o contrato pelo qual um empresário (concessionário) se obriga a comercializar os produtos fabricados por outro empresário (concedente). O contrato poderá conter cláusula de exclusividade, pela qual o concessionário assume o compromisso de não comercializar produtos não fabricados pelo concedente, e cláusula de territorialidade, consistente na proibição de o concedente comercializar, direta ou indiretamente (através de outro contrato de concessão), na área de atuação reservada ao concessionário. Concessão comercial de veículos automotores terrestres Lei n° 6.729/79 – Lei Ferrari Art. 1º A distribuição de veículos automotores, de via terrestre, efetivar-se-á através de concessão comercial entre produtores e distribuidores disciplinada por esta Lei e, no que não a contrariem, pelas convenções nela previstas e disposições contratuais. A concessão comercial de veículos automotores terrestres é a única modalidade de representação comercial que possui regulamentação legal. A Lei n° 6.729/79 utiliza a nomenclatura tanto a nomenclatura concedente e concessionário (art. 1°, § 1°, alínea a) quanto as denominações produtor e distribuidor para se referir às partes do contrato de concessão, definindo-os da seguinte forma: Produtor: empresa industrial que realiza a fabricação ou montagem de veículos automotores; Distribuidor: a empresa comercial pertencente à respectiva categoria econômica, que realiza a comercialização de veículos automotores, implementos e componentes novos, presta assistência técnica a esses produtos e exerce outras funções pertinentes à atividade. A cláusula de exclusividade, também chamada de cláusula de fidelidade, poderá ser prevista no contrato de concessão em estudo (art. 3°, § 1°, alínea “b”). Porém, essa exclusividade abrange somente os veículos novos, não alcançando os usados de outras marcas, que poderão ser livremente comercializados pelo concessionário (art. 4°, inciso III), nem os acessórios e implementos agrícolas, os quais se encontram fora da cláusula de fidelidade (art. 8°, parágrafo único). A cláusula de territorialidade é implícita nesses contratos, nos termos do art. 5°, inciso II, segundo o qual “são inerentes à concessão (...) distâncias mínimas entre estabelecimentos de concessionários da mesma rede, fixadas segundo critérios de potencial de mercado”, o que não significa que não poderá existir mais de um concessionário na mesma área, porque o critério que prevalece é o de potencial de mercado e não o da área geográfica pura e simplesmente. Nesse sentido, dispõe o art. 5°, § 1°: “a área poderá conter mais de um concessionário da mesma rede”. Exemplificativamente, a cidade de São Paulo tem potencial para a coexistência de mais que um concessionário da maioria dos fabricantes de veículos. O artigo 15 prevê as hipóteses em que o concedente poderá realizar vendas diretas na área dos concessionários,