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Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1
Márcio André Lopes Cavalcante
ÍNDICE
DIREITO CIVIL
BEM DE FAMÍLIA
Impenhorabilidade do único imóvel comercial do devedor que esteja alugado.
CONTRATO DE SEGURO
Direito de a seguradora ser ressarcida pelos gastos que houve com o segurado mesmo que este tenha dado
quitação integral para o autor do dano.
ARBITRAGEM
Competência para declarar nulidade de cláusula de compromisso arbitral.
Para que haja cláusula compromissória no contrato de franquia deverá ser observado o art. 4º, § 2º, da Lei nº
9.307/96.
DIREITO DE VIZINHANÇA
Construção em terreno alheio de aqueduto para passagem de águas.
DIREITO DO CONSUMIDOR
CONCEITO DE CONSUMIDOR
É inaplicável o CDC ao contrato de franquia.
PROTEÇÃO CONTRATUAL
É válido o desconto de pontualidade presente em contratos de serviços educacionais.
PRÁTICA ABUSIVA
Instituição não pode negar a matrícula inicial do aprovado no vestibular porque ele tem outros débitos anteriores,
relativos a outro curso.
PROTEÇÃO EM JUÍZO
Mesmo sem 1 ano de constituição, associação poderá ajuizar ACP para que fornecedor preste informações ao
consumidor sobre produtos com glúten.
DIREITO EMPRESARIAL
RECUPERAÇÃO JUDICIAL
Vinculação de todos os credores à determinação de plano de recuperação judicial aprovado por maioria pela
assembleia geral de credores.
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
AGRAVO DE INSTRUMENTO
É possível que as peças do agravo de instrumento sejam entregues em DVD.
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EMBARGOS DE TERCEIRO
Desconstituída penhora indevida, em regra, não haverá condenação do embargado em honorários se o imóvel
ainda estava no nome do antigo proprietário.
PROCESSO COLETIVO
Cabe ACP com o objetivo de proibir tráfico de veículos pesados no Município.
Mesmo sem 1 ano de constituição, associação poderá ajuizar ACP para que fornecedor preste informações ao
consumidor sobre produtos com glúten.
DIREITO PENAL
CLONAGEM DE CARTÃO DE CRÉDITO
Clonagem de cartão de crédito ou débito antes da entrada em vigor da Lei nº 12.737/2012.
DIREITO PROCESSUAL PENAL
PRISÃO
O advogado suspenso dos quadros da OAB não tem direito a recolhimento em sala de Estado Maior.
SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO
Não se aplica a Súmula 337 do STJ se a denúncia foi julgada totalmente procedente e pela pena em concreto um
dos delitos foi extinto pela prescrição.
COMUTAÇÃO DE PENA
Condenado que pratica falta grave nos 12 meses antes da publicação do decreto de indulto natalino não terá
direito ao benefício mesmo que a homologação ocorra após o decreto.
DIREITO TRIBUTÁRIO
PROCESSO TRIBUTÁRIO
O § 2º do art. 12 da Portaria 643/2009 da PGFN é ilegal.
PIS/PASEP/COFINS
Juiz não pode extinguir execução fiscal de ofício invocando a inconstitucionalidade do art. 3º, § 1°, da Lei nº
9.718/98.
DIREITO CIVIL
BEM DE FAMÍLIA
Impenhorabilidade do único imóvel comercial do devedor que esteja alugado
Segundo a redação literal da súmula 486-STJ, "é impenhorável o único imóvel RESIDENCIAL do
devedor que esteja locado a terceiros, desde que a renda obtida com a locação seja revertida
para a subsistência ou a moradia da sua família."
A 2ª Turma do STJ, contudo, ampliou esta proteção e decidiu que também é impenhorável o
único imóvel COMERCIAL do devedor que esteja alugado quando o valor do aluguel é
destinado unicamente ao pagamento de locação residencial por sua entidade familiar.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.616.475-PE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Espécies de bem de família
No Brasil, atualmente, existem duas espécies de bem de família:
a) bem de família convencional ou voluntário (arts. 1711 a 1722 do Código Civil);
b) bem de família legal (Lei nº 8.009/90).
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Bem de família legal
O bem de família legal consiste no imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar.
Considera-se residência um único imóvel utilizado pelo casal ou pela entidade familiar para moradia
permanente.
Na hipótese de o casal, ou entidade familiar, ser possuidor de vários imóveis utilizados como residência, a
impenhorabilidade recairá sobre o de menor valor, salvo se outro tiver sido registrado, para esse fim, no
Registro de Imóveis e na forma do Código Civil (bem de família convencional).
Proteção conferida ao bem de família legal
O bem de família legal é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal,
previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus
proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas na Lei nº 8.009/90.
Situação 1:
João possui em seu nome um único imóvel, qual seja, um apartamento que está alugado para terceiro por
R$ 2 mil.
Ele e sua família, por sua vez, moram em uma casa alugada em um bairro mais simples, pagando R$ 1 mil.
A renda recebida com a locação é utilizada para pagar o aluguel da sua casa e para a subsistência da família.
João está sendo executado e o juiz determinou a penhora do apartamento que está em seu nome.
Esta penhora poderá ser desconstituída invocando a proteção do bem de família?
SIM. Veja o que diz o seguinte enunciado:
Súmula 486-STJ: É impenhorável o único imóvel residencial do devedor que esteja locado a terceiros,
desde que a renda obtida com a locação seja revertida para a subsistência ou a moradia da sua família.
STJ. Corte Especial. Aprovada em 28/06/2012, DJe 01/08/2012.
A Lei conceitua o que seja imóvel residencial para fins de impenhorabilidade:
Art. 5º Para os efeitos de impenhorabilidade, de que trata esta lei, considera-se residência um único
imóvel utilizado pelo casal ou pela entidade familiar para moradia permanente.
Parágrafo único. Na hipótese de o casal, ou entidade familiar, ser possuidor de vários imóveis utilizados
como residência, a impenhorabilidade recairá sobre o de menor valor, salvo se outro tiver sido registrado,
para esse fim, no Registro de Imóveis e na forma do art. 70 do Código Civil.
Desse modo, pela redação legal, somente seria impenhorável o imóvel próprio utilizado pelo casal ou pela
entidade familiar para moradia permanente. No entanto, o STJ ampliou a proteção ao bem de família,
conforme pudemos observar pela Súmula 486.
Assim, se um casal, uma entidade familiar ou mesmo uma pessoa solteira e sozinha, possui um imóvel
residencial “X” e o aluga, pela redação da lei ele não seria bem de família legal e poderia ser penhorado.
Entretanto, o STJ afirma que esse imóvel poderá ser considerado também impenhorável desde que
cumpridos os seguintes requisitos:
O imóvel alugado seja o único do devedor;
A renda obtida com a locação seja revertida para a subsistência ou a moradia.
O STJ assim decide porque entende que, em uma interpretação teleológica e valorativa, o objetivo da
norma é o de garantir a moradia familiar ou a subsistência da família.
Situação 2:
Pedro possui em seu nome um único imóvel, qual seja, uma sala comercial que está alugada para uma
empresa, que explora no local uma loja, pagando ao proprietário R$ 2 mil.
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Ele e sua família, por sua vez, moram em uma casa alugada, pagando R$ 1 mil.
A renda recebida com a locação é utilizada para pagar o aluguel da sua casa e para a subsistência da família.
Pedro está sendo executado e o juiz determinou a penhora da sala comercial que está em seu nome.
Esta penhora poderá ser desconstituídainvocando a proteção do bem de família?
SIM.
É impenhorável o único imóvel comercial do devedor que esteja alugado quando o valor do aluguel é
destinado unicamente ao pagamento de locação residencial por sua entidade familiar.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.616.475-PE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Se você observar bem a redação da Súmula 486 do STJ verá que esta situação 2 não está abrangida na
proteção por ela conferida. Em outras palavras, a redação literal do enunciado protege como bem de
família apenas o imóvel residencial do devedor que esteja locado a terceiros (não inclui o imóvel
comercial). No entanto, seguindo uma tendência, o STJ, nesta decisão, ampliou a abrangência da súmula
486 e entendeu que o imóvel comercial também pode gozar da proteção como bem de família caso esteja
locado para terceiro e a renda obtida seja utilizada para o pagamento da moraria do proprietário.
CONTRATO DE SEGURO
Direito de a seguradora ser ressarcida pelos gastos que houve com o segurado
mesmo que este tenha dado quitação integral para o autor do dano
Importante!!!
Em regra, mesmo que o proprietário do veículo segurado tenha dado termo de quitação ou
renúncia ao causador do sinistro, a seguradora continuará tendo direito de ajuizar ação
regressiva contra o autor do dano e de ser ressarcida pelas despesas que efetuou com o reparo
ou substituição do bem sinistrado.
Ex: o segurado combina com o causador do dano que este irá pagar apenas o valor da franquia
do seguro, em troca de um termo de quitação. A seguradora paga, então, os prejuízos e poderá
cobrar do causador do dano porque ela tem direito à sub-rogação por força de lei (art. 786, CC)
e este acordo não é eficaz perante ela (art. 786, § 2º).
Exceção: a seguradora não terá direito de regresso contra o autor do dano caso este demonstre
que indenizou realmente o segurado pelos prejuízos sofridos, na justa expectativa de que
estivesse quitando, integralmente, os danos provocados por sua conduta. Neste caso, protege-
se o terceiro de boa-fé e a seguradora poderá cobrar do segurado com base na proibição do
enriquecimento ilícito.
Ex: o causador do dano paga todas as despesas do segurado e recebe um termo de quitação; de
má-fé, o segurado, mesmo já tendo sido indenizado, aciona o seguro para consertar seu carro.
Se a seguradora ajuizar ação regressiva contra o causador do dano, ele poderá provar que
pagou integralmente as despesas e, neste caso, a ação será julgada improcedente. Protege-se a
boa-fé do terceiro.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.533.886-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Imagine a situação hipotética:
Carla, dirigindo de forma negligente, bateu seu veículo na traseira do carro de João.
Este ficou com pena de Carla, que estava muito nervosa, e propôs a ela o seguinte: "eu tenho seguro;
então, você paga apenas a franquia do meu seguro e ele vai custear as despesas com o conserto dos dois
carros. Não precisa se preocupar."
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No mesmo instante, João ligou para a seguradora, que recomendou que ele fizesse um boletim de
ocorrência e tirasse fotos da batida.
No dia seguinte, João e Carla se encontraram. Ela deu o dinheiro referente à franquia e ele, em
contrapartida, assinou uma declaração dizendo que renunciava ao direito de postular qualquer reparação
pelos danos sofridos.
João entregou à seguradora o dinheiro da franquia e os dois veículos foram consertados.
Dois meses depois, Carla é citada como ré em uma ação regressiva proposta pela seguradora. A autora
cobra R$ 10 mil referentes ao custo do conserto dos dois veículos.
Carla apresenta contestação alegando que o proprietário do automóvel segurado, por ocasião do sinistro,
renunciou ao direito de postular qualquer reparação pelos danos então sofridos. Dessa maneira, não
havendo direito de crédito do credor primitivo (segurado), não pode a seguradora cobrar o ressarcimento,
já que ela não pode se sub-rogar de um direito que não existe.
Um caso semelhante a este, que é muito comum no dia-a-dia, chegou até o STJ. O que decidiu o
Tribunal? A seguradora terá direito de ser ressarcida pelo conserto mesmo tendo o segurado assinado
este termo de quitação ou renúncia?
SIM.
Previsão legal da sub-rogação
O Código Civil prevê que a seguradora que paga a indenização sub-roga-se nos direitos do segurado. Confira:
Art. 786. Paga a indenização, o segurador sub-roga-se, nos limites do valor respectivo, nos direitos e ações
que competirem ao segurado contra o autor do dano.
Isso também já estava consagrado na jurisprudência:
Súmula 188-STF: O segurador tem ação regressiva contra o causador do dano, pelo que efetivamente
pagou, até ao limite previsto no contrato de seguro.
O art. 786 consiste, portanto, em espécie de sub-rogação legal, específica para o contrato de seguro de
dano. Vale ressaltar que esta sub-rogação opera-se de pleno direito, independentemente da vontade do
devedor originário, ou seja, do causador do dano ao bem segurado.
Vale ressaltar que este direito da seguradora de se sub-rogar tem relevância social porque na sociedade de
risco que vivemos hoje em dia é cada vez maior a importância dos contratos de seguro. Se a seguradora
tiver garantias de que poderá ser ressarcida pelo real causador do dano, isso será levado em consideração
no momento do cálculo do prêmio que é cobrado dos segurados. Em tese, quanto menores as garantias
que a seguradora tiver, maior será o valor do prêmio, o que prejudica a sociedade em geral. Daí se extrai a
relevância social de proteção ao direito de sub-rogação do segurador.
Ineficácia do termo de renúncia firmado pelo proprietário do bem segurado
Ao disciplinar a sub-rogação no art. 786, o Código Civil previu, de forma expressa e inequívoca, a ineficácia,
perante o segurador, de atos de disposição praticados pelo segurado juntamente ao autor do dano. Veja:
Art. 786 (...) § 2º É ineficaz qualquer ato do segurado que diminua ou extinga, em prejuízo do segurador,
os direitos a que se refere este artigo.
Desse modo, eventual termo de renúncia ou quitação outorgado pelo segurado ao terceiro causador do
dano não impede o exercício do direito de regresso pelo segurador. O legislador buscou proteger o direito
do segurador de ser ressarcido da quantia que gastou para indenizar o segurado.
Assim, se o segurado optou por acionar o seguro, cobrando a garantia contratada, não lhe cabe firmar com
o causador do dano qualquer tipo de transação que possa importar na extinção ou diminuição do direito
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de regresso do segurador. Se o fizer, o ato será absolutamente ineficaz em relação ao segurador, como
peremptoriamente determina o art. 786, § 2º, do CC.
No exemplo dado, o acordo celebrado entre João e Carla é válido e eficaz entre eles (contratantes). No
entanto, não se pode admitir que os efeitos dessa avença sejam estendidos ao segurador que, além de
não ter participado do ajuste, possui, por força de lei, o direito de ser reembolsado de todos os valores
gastos com o reparo do bem sinistrado.
Normas de caráter público
Dada a importância social do contrato de seguro, as normas insertas no art. 786, caput e § 2º, do Código
Civil, ao assegurarem a sub-rogação do segurador nos direitos que competirem ao segurado contra o autor
do dano, independentemente da vontade daquele, revestem-se de caráter público, não havendo como um
ato negocial do segurado excluir a prerrogativa outorgada por lei ao segurador.
Em suma, a regra é a seguinte:
Mesmo que o segurado tenha outorgado termo de quitação ou renúncia ao causador do sinistro, o
segurador terá direito de ser ressarcido, em açãoregressiva contra o autor do dano, pelas despesas que
efetuou com o reparo ou substituição do bem sinistrado.
Situação excepcional de má-fé do segurado e boa-fé do autor do dano
A regra foi acima exposta. No entanto, a prática demonstra que pode acontecer uma situação na qual se
revela a má-fé do segurado e a boa-fé do autor do dano. Imagine o seguinte:
Pedro, dirigindo de forma negligente, bateu seu veículo na traseira do carro de João, que não revela que
tem seguro.
Pedro assume para João que realmente foi culpado do acidente e que irá pagar o conserto.
No dia seguinte, João mostra um orçamento da oficina e Pedro lhe entrega o dinheiro. Em contrapartida,
João assinou uma declaração dando quitação integral.
Ocorre que João, de má-fé, aciona o seguro pedindo o conserto do carro, o que é feito.
Em seguida, a seguradora ajuíza ação regressiva contra Pedro cobrando a quantia gasta para consertar o
carro do segurado.
Nessa hipótese específica e excepcional, o STJ entende que o terceiro (em nosso exemplo, Pedro), ao ser
demandado na ação regressiva, poderá se eximir do ressarcimento das despesas com o bem sinistrado,
bastando que, nos termos do art. 373, II, do CPC, prove que já realizou a reparação completa dos prejuízos
causados, apresentando o recibo assinado pelo segurado ou eventuais documentos que comprovem o
custeio das despesas.
Neste caso, o juiz deverá julgar improcedente o pedido regressivo formulado, restando à seguradora a
alternativa de demandar contra o próprio segurado, por locupletamento ilícito, tendo em vista que, em
evidente ato de má-fé contratual, requereu, indevidamente, a cobertura securitária mesmo já tendo sido
indenizado diretamente pelo autor do dano.
Protege-se aqui o terceiro de boa-fé, que pagou indenização ao segurado na justa expectativa de que
estivesse reparando, por completo, os danos que causou com seu ato.
Conclusão
Em regra, mesmo que o proprietário do veículo segurado tenha dado termo de quitação ou renúncia ao
causador do sinistro, a seguradora continuará tendo direito de ajuizar ação regressiva contra o autor do
dano e de ser ressarcida pelas despesas que efetuou com o reparo ou substituição do bem sinistrado.
Exceção: a seguradora não terá direito de regresso contra o autor do dano caso este demonstre que
indenizou realmente o segurado pelos prejuízos sofridos, na justa expectativa de que estivesse
quitando, integralmente, os danos provocados por sua conduta. Neste caso, protege-se o terceiro de
boa-fé e a seguradora poderá cobrar do segurado com base na proibição do enriquecimento ilícito.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.533.886-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
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ARBITRAGEM
Competência para declarar nulidade de cláusula de compromisso arbitral
Importante!!!
O Poder Judiciário pode decretar a nulidade de cláusula arbitral (compromissória) sem que
essa questão tenha sido apreciada anteriormente pelo próprio árbitro?
Regra: Não. Segundo o art. 8º, parágrafo único da Lei de Arbitragem (Lei nº 9.307/96), antes de
judicializar a questão, a parte que deseja arguir a nulidade da cláusula arbitral deve formular
esse pedido ao próprio árbitro.
Exceção: compromissos arbitrais patológicos. O Poder Judiciário pode, nos casos em que prima
facie é identificado um compromisso arbitral "patológico", isto é, claramente ilegal, declarar a
nulidade dessa cláusula, independentemente do estado em que se encontre o procedimento
arbitral.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.602.076-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Em que consiste a arbitragem?
Arbitragem representa uma técnica de solução de conflitos por meio da qual os conflitantes aceitam que a
solução de seu litígio seja decidida por uma terceira pessoa, de sua confiança.
Vale ressaltar que a arbitragem é uma forma de heterocomposição, isto é, instrumento por meio do qual o
conflito é resolvido por um terceiro.
Regulamentação
A arbitragem, no Brasil, é regulada pela Lei n. 9.307/96, havendo também alguns dispositivos no CPC
versando sobre o tema.
Em que consiste a chamada cláusula compromissória?
A cláusula compromissória, também chamada de cláusula arbitral, é...
- uma cláusula prevista no contrato,
- de forma prévia e abstrata,
- por meio da qual as partes estipulam que
- qualquer conflito futuro relacionado àquele contrato
- será resolvido por arbitragem (e não pela via jurisdicional estatal).
Exemplo:
"Cláusula 5.1.2 Eventuais controvérsias que porventura surgirem na interpretação ou execução deste
contrato serão resolvidas por meio de arbitragem, segundo a Lei nº 9.307/96 e o Código de Processo Civil
brasileiro (este aplicado de forma apenas subsidiária à Lei de Arbitragem e ao Regulamento da Câmara de
Arbitragem)."
A cláusula compromissória está prevista no art. 4º da Lei n. 9.307/96:
Art. 4º A cláusula compromissória é a convenção através da qual as partes em um contrato
comprometem-se a submeter à arbitragem os litígios que possam vir a surgir, relativamente a tal contrato.
Imagine agora a seguinte situação hipotética:
“X” e “Y” celebram um contrato e estipulam, no pacto, uma cláusula compromissória, ou seja, uma
previsão contratual na qual as partes dizem que qualquer conflito futuro relacionado com o ajuste será
resolvido por meio de arbitragem. Após um tempo, “X” e “Y” começam a discordar quanto ao
cumprimento do contrato. “X” ajuíza ação anulatória na vara cível da Justiça Estadual, alegando que essa
cláusula arbitral é nula.
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O Poder Judiciário pode decretar a nulidade de cláusula arbitral (compromissória) sem que essa questão
tenha sido apreciada anteriormente pelo próprio árbitro?
REGRA: NÃO.
Segundo a Lei de Arbitragem (Lei nº 9.307/96), antes de judicializar a questão, a parte que deseja arguir a
nulidade da cláusula arbitral deve formular esse pedido ao próprio árbitro, nos termos do art. 8º,
parágrafo único:
Art. 8º (...) Parágrafo único. Caberá ao árbitro decidir de ofício, ou por provocação das partes, as questões
acerca da existência, validade e eficácia da convenção de arbitragem e do contrato que contenha a
cláusula compromissória.
Assim, por expressa previsão legal, não pode a parte ajuizar ação anulatória para desconstituir acordo com
base na nulidade da cláusula compromissória ali presente antes de submeter o assunto ao árbitro.
Luiz Antônio Scavone Júnior explica esse art. 8º, parágrafo único:
“O significado do dispositivo, portanto, indica que qualquer alegação de nulidade do contrato ou da
cláusula arbitral, diante de sua existência e seguindo o espírito da lei, deve ser dirimida pela arbitragem e
não pelo Poder Judiciário.
A lei pretendeu, neste sentido, "fechar uma brecha" que permitiria às partes, sempre que alegassem a
nulidade da cláusula arbitral ou do contrato, ignorar o pacto de arbitragem e acessar o Poder Judiciário
para dirimir o conflito.
Em resumo, ainda que o conflito verse sobre a nulidade do próprio contrato ou da cláusula arbitral, a
controvérsia deverá ser decidida inicialmente pela arbitragem e não pelo Poder Judiciário, (...)” (Manual de
Arbitragem. 4ª ed. São Paulo: RT, 2010, p. 87).
Isso é conhecido como aplicação do princípio da kompetenz-kompetenz (competência-competência)
considerando que compete ao próprio árbitro dizer se ele é ou não competente para conhecer aquele
conflito. Assim, se a parte está alegando que a cláusula compromissória é nula e que a questão não deve
ser submetida à arbitragem, quem primeiro deverá examinar a questão é o próprio árbitro. Veja as
palavras da Ministra Nancy Andrighi sobre o tema:
"A kompetenz-kompetenz (competência-competência)é um dos princípios basilares da arbitragem, que
confere ao árbitro o poder de decidir sobre a sua própria competência, sendo condenável qualquer
tentativa, das partes ou do juiz estatal, no sentido de alterar essa realidade. Em outras palavras, no
embate com as autoridades judiciais, deterá o árbitro preferência na análise da questão, sendo dele o
benefício da dúvida.
Dessa forma, a resolução de questões litigiosas fica a cargo do árbitro e, para isso, não exige a lei que o ato
jurídico seja válido ou imune a nulidades ou causas supervenientes de ineficácia, como se defende na
espécie. Ao contrário, a questão litigiosa pode ser justamente a ineficácia do ato jurídico. Nessas
circunstâncias, a jurisdição arbitral não se desloca, pois legalmente é o árbitro quem detém competência
para dirimir essas matérias assim como para decidir sobre sua própria competência.
Essa prioridade não apenas se perfila com os princípios que circundam o instituto da arbitragem e com a
sistemática introduzida pela Lei nº 9.703/96, que se censuram atos de protelação ou afastamento do rito
arbitral, como também assegura a proposta de tornar o procedimento, uma vez eleito pelas partes, uma
alternativa segura e incontornável de resolução de conflitos, limitando a atuação do Poder Judiciário à
execução da sentença arbitral." (MC 14.295/SP, DJe 13/06/2008).
Vale ressaltar que não haverá prejuízo à parte porque, mesmo se o árbitro considerar que a cláusula é
válida (e julgar a arbitragem), essa questão da nulidade poderá ser apreciada pelo Poder Judiciário em
momento posterior. Isso porque, para fazer cumprir a sentença arbitral, o credor terá que ajuizar uma
execução judicial. Nesse momento, o devedor poderá se defender por meio de embargos à execução
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alegando a nulidade da cláusula arbitral e, consequentemente, da sentença arbitral.
Nesse sentido é a jurisprudência do STJ:
Segundo a Lei de Arbitragem (art. 8º, parágrafo único, da Lei nº 9.307/96), se a parte quiser arguir a
nulidade da cláusula arbitral, deverá formular esse pedido, em primeiro lugar, ao próprio árbitro, sendo
inadmissível que ajuíze diretamente ação anulatória.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.302.900-MG, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 9/10/2012.
As questões relacionadas à existência de cláusula compromissória válida para fundamentar a
instauração do Juízo arbitral devem ser resolvidas, com primazia, por ele, e não pelo Poder Judiciário.
Nos termos do art. 8º, parágrafo único, da Lei de Arbitragem, a alegação de nulidade da cláusula
arbitral, bem como do contrato que a contém, deve ser submetida, em primeiro lugar, à decisão do
próprio árbitro, sendo prematura a apreciação pelo Poder Judiciário.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.602.696-PI, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 09/08/2016.
EXCEÇÃO:
O STJ relativizou esta regra e decidiu que se a nulidade da cláusula compromissória for muito evidente,
será possível ao Poder Judiciário declarar a sua invalidade mesmo sem que este pedido tenha sido
formulado, em primeiro lugar, ao próprio árbitro. Veja trecho da ementa e fique atento para a expressão
"compromisso arbitral patológico", que poderá ser cobrada em sua prova:
O Poder Judiciário pode, nos casos em que prima facie é identificado um compromisso arbitral
"patológico", isto é, claramente ilegal, declarar a nulidade dessa cláusula, independentemente do
estado em que se encontre o procedimento arbitral.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.602.076-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Trata-se de exceção à regra geral de prioridade do Juízo arbitral.
ARBITRAGEM
Para que haja cláusula compromissória no contrato de franquia
deverá ser observado o art. 4º, § 2º, da Lei nº 9.307/96
Importante!!!
A franquia não é um contrato de consumo (regido pelo CDC), mas, mesmo assim, é um contrato
de adesão.
Segundo o art. 4º, § 2º da Lei nº 9.307/96, nos contratos de adesão, a cláusula compromissória
só terá eficácia se o aderente:
• tomar a iniciativa de instituir a arbitragem; ou
• concordar, expressamente, com a sua instituição, por escrito, em documento anexo ou em
negrito, com a assinatura ou visto especialmente para essa cláusula.
Todos os contratos de adesão, mesmo aqueles que não consubstanciam relações de consumo,
como os contratos de franquia, devem observar o disposto no art. 4º, § 2º, da Lei nº 9.307/96.
Assim, é possível a instituição de cláusula compromissória em contrato de franquia, desde que
observados os requisitos do art. 4º, § 2º, da Lei nº 9.307/96.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.602.076-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Veja comentários em Direito Empresarial.
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DIREITO DE VIZINHANÇA
Construção em terreno alheio de aqueduto para passagem de águas
O proprietário de imóvel tem direito de construir aqueduto no terreno do seu vizinho,
independentemente do consentimento deste, para receber águas provenientes de outro
imóvel, desde que não existam outros meios de passagem de águas para a sua propriedade e
haja o pagamento de prévia indenização ao vizinho prejudicado.
Trata-se de direito de vizinhança assegurado pelo art. 1.293 do Código Civil.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.616.038-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 27/9/2016 (Info 591).
Imagine a seguinte situação hipotética:
A empresa agropecuária 1 é vizinha da empresa agropecuária 2, cada uma ocupando uma fazenda.
Do lado esquerdo da empresa 1 existe um açude (represa) e do lado direito fica a empresa 2.
A empresa 2 precisa de água para fazer a irrigação da lavoura de arroz em sua propriedade. Ocorre que o
único local com água disponível na região é o referido açude.
A empresa 2 entrou em contato com a empresa 1 pedindo para construir um aqueduto que liga a represa
até a sua propriedade. Para isso, seria necessário que alguns canos passassem pelo subsolo da empresa 1,
sendo, portanto, oferecida uma indenização por conta disso. A empresa 2 não concordou.
Diante disso, a empresa 2 ajuizou ação pedindo que a empresa 1 fosse condenada a tolerar a passagem da
água por meio de aqueduto, mediante indenização a ser arbitrada pelo juiz.
Na petição inicial, a requerente demonstrou que este é o único meio de obter água para a sua propriedade.
Veja na imagem abaixo o que a autora pediu na ação:
O pedido da empresa 2 é amparado pelo ordenamento jurídico?
SIM.
O proprietário de imóvel tem direito de construir aqueduto no terreno do seu vizinho,
independentemente do consentimento deste, para receber águas provenientes de outro imóvel, desde
que não existam outros meios de passagem de águas para a sua propriedade e haja o pagamento de
prévia indenização ao vizinho prejudicado.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.616.038-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 27/9/2016 (Info 591).
Direito de propriedade e sua função social
O direito de propriedade, sob a ótica civilista e constitucional moderna, deve atender a sua função social,
não consistindo mais, como anteriormente, em um direito absoluto e ilimitado.
Assim, o direito de propriedade está limitado por outros direitos de terceiros igualmente protegidos pelo
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 11
ordenamento jurídico.
Direitos de vizinhança como limitações aos direitos de propriedade
O direito de propriedade pode ser limitado, por exemplo, pelos chamados direitos de vizinhança.
Direitos de vizinhança são restrições impostas pela lei ao exercício da propriedade com o objetivo de
assegurar uma convivência harmoniosa entre os donos e ocupantes de imóveis vizinhos.
Desse modo, o direito de vizinhançaé o conjunto de regras que o legislador previu para resolver conflitos
entre proprietários de prédios vizinhos, o que se mostra extremamente comum.
Vale ressaltar que os direitos de vizinhança não se aplicam apenas para imóveis contíguos, ou seja, que
estão lado a lado. Algumas vezes eles poderão incidir para resolver conflitos entre prédios que estão
próximos, mas não são colados.
Os direitos de vizinhança estão regulamentados pelos arts. 1.277 a 1.313 do Código Civil.
Direito de vizinhança é diferente de servidão
DIREITOS DE VIZINHANÇA SERVIDÕES
Surgem da lei (são impostos pela lei). Constituem-se por meio de: a) declaração expressa
do proprietário; b) testamento; ou c) usucapião.
Possuem natureza de limitações legais ao exercício
do direito de propriedade.
Possuem natureza de direito real sobre coisa
alheia.
Não necessitam de um título constitutivo nem
precisam ser registrados em cartório.
Só se formam se o título constitutivo (acordo) for
registrado no Registro de Imóveis.
As limitações são impostas reciprocamente, ou
seja, tanto um vizinho como o outro deverão
respeitar os direitos de vizinhança.
Existe um prédio dominante e um serviente.
Apenas o dono do prédio dominante tira utilidade
do prédio serviente.
Têm por objetivo evitar um dano ao proprietário
do prédio prejudicado.
A utilização de parte da propriedade alheia é
essencial para que o titular do prédio vizinho
possa aproveitar o seu imóvel.
Não há uma necessidade imperativa. inafastável,
essencial.
As servidões têm por objetivo conceder uma
maior facilidade (utilidade) ao prédio dominante.
Direito à água
O direito às águas e a seu curso e transporte é matéria de inegável importância para a sobrevivência das
pessoas, dos animais e também para a indústria, especialmente a agrícola.
Pensando nisso, o Código Civil trouxe um artigo tratando sobre o assunto e que ampara a pretensão da
empresa autora. Confira:
Art. 1.293. É permitido a quem quer que seja, mediante prévia indenização aos proprietários prejudicados,
construir canais, através de prédios alheios, para receber as águas a que tenha direito, indispensáveis às
primeiras necessidades da vida, e, desde que não cause prejuízo considerável à agricultura e à indústria,
bem como para o escoamento de águas supérfluas ou acumuladas, ou a drenagem de terrenos.
§ 1º Ao proprietário prejudicado, em tal caso, também assiste direito a ressarcimento pelos danos que de
futuro lhe advenham da infiltração ou irrupção das águas, bem como da deterioração das obras destinadas
a canalizá-las.
§ 2º O proprietário prejudicado poderá exigir que seja subterrânea a canalização que atravessa áreas
edificadas, pátios, hortas, jardins ou quintais.
§ 3º O aqueduto será construído de maneira que cause o menor prejuízo aos proprietários dos imóveis
vizinhos, e a expensas do seu dono, a quem incumbem também as despesas de conservação.
Desse modo, o direito à água, sob a ótica do Direito Civil, é um direito de vizinhança. A legislação garante
aos proprietários de imóveis que não sejam abastecidos por água o direito ao aproveitamento dessa
riqueza natural, nas condições do artigo acima transcrito.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 12
Nesse sentido é a interpretação da doutrina:
“(...) a passagem por terreno alheio do aqueduto é permitida pela lei e independe do consentimento do
vizinho; trata-se de imposição legal que atende ao interesse social e na qual só se especifica uma
indenização para evitar que seja sacrificada a propriedade individual.” (WALD, Arnoldo. Direito das Coisas.
9ª ed. São Paulo: RT, 1993, p. 165).
A obrigatoriedade da sujeição ao direito do vizinho às águas é também ressaltada pelo art. 1.294 do CC,
que prevê a aplicação ao aqueduto das regras da passagem de cabos e tubulações, a qual é obrigatória,
conforme as regras dos arts. 1.286 e 1.287 do CC.
Este deverá ser o único meio de obter água
Para que seja garantido o direito previsto no art. 1.293 do CC, é fundamental que o titular do imóvel não
tenha outro meio de acesso às águas. Se houver outra forma viável, não deve ser reconhecido este direito de
vizinhança, pois, neste caso, a passagem do aqueduto seria uma mera "utilidade". Vimos acima nas
distinções entre direito de vizinhança e servidão, que se a situação representar mera utilidade, estaremos
diante de servidão, o que exigiria o consentimento do titular do prédio serviente, nos termos do art. 1.378 do
CC.
No exemplo dado, a construção do aqueduto atravessando o imóvel da ré era o único meio pelo qual a
primeira empresa poderia ter acesso à água, o qual é imprescindível para a irrigação do plantio de arroz.
Diante disso, constata-se que, de fato, trata-se de direito de vizinhança, inerente à propriedade de imóveis
vizinhos, cuja única exigência para exercício é o pagamento de prévia indenização.
DIREITO DO CONSUMIDOR
CONCEITO DE CONSUMIDOR
É inaplicável o CDC ao contrato de franquia
A franquia é um contrato empresarial e, em razão de sua natureza, não está sujeito às regras
protetivas previstas no CDC.
A relação entre o franqueador e o franqueado não é uma relação de consumo, mas sim de
fomento econômico com o objetivo de estimular as atividades empresariais do franqueado.
O franqueado não é consumidor de produtos ou serviços da franqueadora, mas sim a pessoa
que os comercializa junto a terceiros, estes sim, os destinatários finais.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.602.076-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Contrato de franquia
A franquia é um contrato por meio do qual uma empresa (franqueador) transfere a outra (franqueado) o
direito de usar a sua marca ou patente e de comercializar seus produtos ou serviços, podendo, ainda,
haver a transferência de conhecimentos do franqueador para o franqueado.
O contrato de franquia está regido pela Lei nº 8.955/94, que conceitua esse pacto nos seguintes termos:
Art. 2º Franquia empresarial é o sistema pelo qual um franqueador cede ao franqueado o direito de uso de
marca ou patente, associado ao direito de distribuição exclusiva ou semi-exclusiva de produtos ou serviços
e, eventualmente, também ao direito de uso de tecnologia de implantação e administração de negócio ou
sistema operacional desenvolvidos ou detidos pelo franqueador, mediante remuneração direta ou
indireta, sem que, no entanto, fique caracterizado vínculo empregatício.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 13
O contrato firmado entre o franqueado e o franqueador é regido pelo Código de Defesa do Consumidor?
O franqueado poderá invocar o CDC para discutir seus direitos em relação ao franqueador?
NÃO.
A franquia é um contrato empresarial e, em razão de sua natureza, não está sujeito às regras protetivas
previstas no CDC.
A relação entre o franqueador e o franqueado não é uma relação de consumo, mas sim de fomento
econômico com o objetivo de estimular as atividades empresariais do franqueado.
O franqueado não é consumidor de produtos ou serviços da franqueadora, mas sim a pessoa que os
comercializa junto a terceiros, estes sim, os destinatários finais.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.602.076-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
PROTEÇÃO CONTRATUAL
É válido o desconto de pontualidade presente em contratos de serviços educacionais
Importante!!!
O denominado "desconto de pontualidade", concedido pela instituição de ensino aos alunos
que efetuarem o pagamento das mensalidades até a data do vencimento ajustada, não
configura prática comercial abusiva.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.424.814-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 4/10/2016 (Info 591).
Obs: sobre este tema, importante reler o REsp832.293-PR, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em
20/8/2015 (Info 572) que traz um entendimento ligeiramente diferente em determinado aspecto.
Imagine a seguinte situação hipotética:
Centro Educacional "Bom Saber" é uma escola de ensino fundamental e médio.
O valor da mensalidade é R$ 1.000,00. No entanto, para quem paga até a data do vencimento, a
instituição confere um desconto e a prestação cai para R$ 900,00.
E se a pessoa pagar depois da data do vencimento, ou seja, com atraso? Neste caso, haverá multa
moratória de 2% sobre o valor "cheio" da mensalidade, ou seja, multa de 2% de 1.000 = R$ 20,00.
Recapitulando:
Valor da mensalidade = 1.000
Valor se pagar até a data do vencimento = 900
Valor se pagar depois da data do vencimento 1.020 (mais juros).
ACP proposta pelo MP
O Ministério Público ajuizou ação civil pública contra o colégio afirmando que este "desconto de
pontualidade" concedido, na verdade, seria uma multa camuflada.
O raciocínio do MP foi o seguinte: o valor "real" da mensalidade é R$ 900. Se a pessoa se atrasa, ela pagará
R$ 1.020, ou seja, uma "multa disfarçada" de R$ 120,00, que equivale a 13,33% de 900.
Logo, para o Parquet, a intenção da escola é cobrar uma mensalidade de R$ 900,00 e uma multa de 13,33%.
Esta conduta seria, portanto, ilegal considerando que seria uma forma de burlar a proibição contida no §
1º do art. 52 do CDC, que afirma que a multa não poderá ser superior a 2%:
Art. 52 (...) § 1º - As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações no seu termo não
poderão ser superiores a dois por cento do valor da prestação .
A tese defendida pelo MP foi acolhida pelo STJ? O chamado "desconto de pontualidade" deve ser
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 14
considerado uma prática abusiva?
NÃO.
O denominado "desconto de pontualidade", concedido pela instituição de ensino aos alunos que
efetuarem o pagamento das mensalidades até a data do vencimento ajustada, não configura prática
comercial abusiva.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.424.814-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 4/10/2016 (Info 591).
O "desconto de pontualidade", também chamado de "abono de pontualidade" possui uma característica
em comum com a multa moratória: ambos têm por objetivo reforçar na parte contratante a vontade de
cumprir a sua obrigação, ou seja, de pagar a mensalidade em dia. No entanto, apesar de terem este ponto
de semelhança, não se pode dizer que o desconto de pontualidade seja uma multa disfarçada.
A multa contratual tem um caráter coercitivo e punitivo. O desconto de pontualidade, por outro lado,
possui natureza de prêmio, incentivando o contratante a realizar um comportamento positivo ("sanção
premial").
É absolutamente possível a coexistência de sanções negativas e de sanções positivas em um contrato. Não
há e nem poderia haver proibição nesse sentido, na medida em que tais disposições incitam justamente o
cumprimento voluntário das obrigações contratuais assumidas.
Para o STJ, a tese defendida pelo MP, além de desconsiderar as cláusulas que foram estipuladas pelas
partes contratantes, propõe que o Estado, no âmbito de uma relação privada, estipule o "preço ideal"
pelos serviços prestados pela instituição de ensino, como se possível fosse mensurar todas as variáveis
mercadológicas que o empresário/fornecedor leva em conta para definir o preço de seus serviços, em
indevida intervenção no domínio econômico.
Além disso, o procedimento adotado pela escola, ao invés de representar onerosidade excessiva, consiste,
na verdade, em benefício ao consumidor.
A previsão do desconto de pontualidade estimula o cumprimento da obrigação avençada, o que vai ao
encontro dos interesses de ambas as partes contratantes. De um lado, representa uma vantagem
econômica ao consumidor que efetiva o pagamento tempestivamente (colocando-o em situação de
destaque em relação ao consumidor que paga com atraso) e, em relação à instituição de ensino, propicia
um adiantamento do valor a ser recebido.
Proibir o "desconto de pontualidade" contribuiria para que houvesse uma elevação do preço das
mensalidades escolares, considerando que aumentaria o risco de inadimplência das instituições de ensino.
JULGADO DA 4ª TURMA UM POUCO DIFERENTE ENVOLVENDO CONTRATO DE LOCAÇÃO
Sobre o tema "desconto de pontualidade", penso que é preciso relembrarmos um julgado do STJ de 2015
envolvendo contrato de locação. Explicarei abaixo.
Imagine a seguinte situação hipotética:
João é inquilino (locatário) de um apartamento pertencente a Pedro (locador).
No contrato está previsto que o valor do aluguel é de R$ 1.200, mas se houver pagamento até o dia do
vencimento, haverá um abatimento (desconto) e o valor é reduzido para R$ 1.000. A isso se chama de
"bônus de pontualidade" ou "desconto de bonificação ".
No contrato também é prevista multa de 10% em caso de atraso.
Esse desconto de bonificação é válido?
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 15
SIM. Nos termos do art. 17 da Lei nº 8.245/91, as partes têm liberdade para convencionar o aluguel,
prevalecendo o que elas contrataram, de acordo com seus interesses e necessidades, sendo vedada,
apenas, a estipulação em moeda estrangeira e a vinculação à variação cambial ou ao salário mínimo.
Desse modo, o desconto para pagamento pontual do aluguel (abono de pontualidade) é, em princípio,
liberalidade do locador, em obediência ao princípio da livre contratação, representando um incentivo
concedido ao locatário, caso venha a pagar o aluguel em data convencionada. Referido bônus tem,
portanto, o objetivo de induzir o locatário a cumprir corretamente sua obrigação de maneira antecipada.
João atrasou o pagamento. Surgiu, então, uma dúvida: o valor de 10% da multa deverá incidir sobre o
valor cheio (R$ 1.200) ou sobre o valor com desconto (R$ 1.000)?
Sobre o valor com desconto.
Na hipótese em que, na data de vencimento, o valor do aluguel seja cobrado com incidência de
desconto de bonificação, a multa prevista para o caso de atraso no pagamento deverá incidir sobre o
valor do aluguel com o referido desconto.
STJ. 4ª Turma. REsp 832.293-PR, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 20/8/2015 (Info 572).
A incidência da multa sobre o valor cheio somente seria permitida se o valor do desconto fosse para
pagamentos em data anterior à do vencimento. Ex.: o vencimento é dia 05; para quem paga até o dia 05, o
valor é R$ 2.000; no entanto, para quem paga até o dia 01, há um desconto e o aluguel será de R$ 1.700; a
multa, contudo, somente incide se a pessoa pagar depois do dia 05 (data do vencimento); neste exemplo, o
valor da multa poderia incidir sobre o valor cheio (R$ 2.000), isso porque aqui teríamos realmente um desconto
para pagamentos antes do vencimento. Se, contudo, o desconto é para pagamentos dentro do vencimento, na
verdade, o valor com desconto é o preço real do aluguel e, sobre ele é que deve incidir a multa.
Desse modo, muito cuidado no momento da prova para ver como a questão será cobrada. Isso porque,
neste novo julgado (REsp 1.424.814-SP), o STJ não mais exigiu que o desconto fosse apenas para quem
pagou antes da data do vencimento. Mesmo quem pagar no dia do vencimento, terá direito ao abono, que
continua sendo válido.
PRÁTICA ABUSIVA
Instituição não pode negar a matrícula inicial do aprovado no vestibular
porque ele tem outros débitos anteriores relativos a outro curso
Importante!!!
Instituição de ensino superior não pode recusar a matrícula de aluno aprovado em vestibular
em razão de inadimplência em curso diverso anteriormente frequentado por ele na mesma
instituição.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.583.798-SC, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 24/5/2016 (Info 591).
Imagine a seguintesituação hipotética:
João era aluno do curso de Administração de Empresas da faculdade privada "Étude".
Depois de estudar dois anos, ele começou a ter dificuldades financeiras para pagar o curso e o abandonou,
ficando, contudo, com um débito de 4 mensalidades.
Alguns meses depois, fez novo vestibular para a mesma faculdade e foi aprovado para o curso de Direito.
Ao tentar fazer a sua matrícula, esta foi recusada pela instituição sob o argumento de que há um débito
pendente do curso anterior e que precisa ser pago antes da inscrição no novo curso.
Diante disso, João impetrou mandado de segurança contra o dirigente da faculdade particular afirmando
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 16
que a presente recusa violou o Código de Defesa do Consumidor.
Cabe mandado de segurança neste caso? De quem será a competência para julgar?
Cabe mandado de segurança porque a conduta do dirigente de faculdade particular que indefere matrícula
para curso superior é considerada como ato de autoridade, já que ele atua no exercício de função pública
delegada da União (STJ. 2ª Turma. REsp 725.955/SP, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 08/05/2007).
A competência é da Justiça Federal neste caso, conforme se percebe pelo quadro-abaixo que resume a
problemática segundo o entendimento do STJ:
Instituição de ensino superior
FEDERAL
Instituição de ensino superior
ESTADUAL/MUNICIPAL
Instituição de ensino superior
PARTICULAR
MS ou outras ações:
Justiça Federal.
MS ou outras ações:
Justiça Estadual.
MS: Justiça Federal.
Outras ações: Justiça Estadual.
(...) A competência para o julgamento de causas relativas a instituição de ensino superior particular, nos
casos que versem sobre questões privadas relacionadas ao contrato de prestação de serviços firmado
entre a instituição de ensino superior e o aluno (por exemplo, inadimplemento de mensalidade, cobrança
de taxas, matrícula), em se tratando de ação diversa à do mandado de segurança, é, via de regra, da
Justiça comum, não havendo interesse da União no feito, o que afasta a sua legitimidade para figurar na
ação. (...)
STJ. 2ª Turma. REsp 1295790/PE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 06/11/2012.
O CDC pode ser aplicado na relação jurídica mantida entre aluno e instituição de ensino superior?
SIM.
O contrato de prestação de serviços educacionais está sujeito às disposições contidas no Código de
Defesa do Consumidor - CDC.
A prestação de serviços educacionais caracteriza-se como relação de consumo.
O estudante é um consumidor de serviços educacionais.
STJ. 3ª Turma. REsp 1155866/RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 10/02/2015.
Falando de forma abstrata, sem analisar ainda o caso concreto, é possível que a instituição de ensino
particular se recuse a renovar a matrícula do aluno inadimplente? Ex: Pedro está devendo 4
mensalidades; a faculdade pode se recusar a matriculá-lo no período seguinte caso ele não pague?
SIM. O tema é tratado pelos arts. 5º e 6º da Lei nº 9.870/99 e as regras podem ser assim resumidas:
Os alunos já matriculados possuem, em regra, direito à renovação das matrículas, observado o
calendário escolar da instituição, o regimento da escola e as cláusulas contratuais;
Os alunos que estejam inadimplentes há mais de 90 dias estão sujeitos a sanções legais e
administrativas e podem ser desligados.
Contudo, esse desligamento por inadimplência somente pode ocorrer ao final do ano letivo ou, no
caso de ensino superior, ao final do semestre letivo quando a instituição adotar o regime didático
semestral.
Assim, o aluno inadimplente não pode ser desligado durante o período de aulas.
Se a inadimplência for maior que 90 dias, a instituição tem o direito de se recusar a renovar sua
matrícula para o semestre ou ano seguinte.
O que a instituição financeira não pode fazer com o aluno inadimplente:
proibir que ele faça provas;
reter seus documentos escolares;
aplicar quaisquer outras penalidades pedagógicas por motivo de inadimplemento.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 17
Os estabelecimentos de ensino fundamental, médio e superior deverão expedir, a qualquer tempo, os
documentos de transferência de seus alunos, independentemente de sua adimplência ou da adoção de
procedimentos legais de cobranças judiciais (art. 6º, § 2º da Lei nº 9.870/99).
Veja julgado do STJ sobre o tema:
4. O aluno, ao matricular-se em instituição de ensino privado, firma contrato oneroso, pelo qual se obriga
ao pagamento das mensalidades como contraprestação ao serviço recebido.
5. O atraso no pagamento não autoriza aplicarem-se ao aluno sanções que se consubstanciem em
descumprimento do contrato por parte da entidade de ensino (art. 5º da Lei 9.870/99), mas a entidade
está autorizada a não renovar a matrícula se o atraso é superior a noventa dias, mesmo que seja de uma
mensalidade apenas. (...)
STJ. 2ª Turma. REsp 725.955/SP, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 08/05/2007.
Voltando ao exemplo hipotético dado no início. A instituição agiu corretamente ao negar a matrícula de
João no curso de Direito considerando que sua inadimplência quanto às mensalidades do curso de
Administração era superior a 90 dias?
NÃO. Neste exemplo, não se está falando em renovação de matrícula, mas sim na constituição de uma
nova relação jurídica, ainda que na mesma instituição de ensino. Logo, não se aplicam os arts. 5º e 6º da
Lei nº 9.870/99, uma vez que tais dispositivos tratam apenas de renovação de matrícula, ou seja, do caso
da pessoa que já está no curso, deixa de pagar e, por isso, pode ser impedida de renovar sua matrícula
para o semestre seguinte.
Não se mostra razoável que se faça uma interpretação extensiva dos arts. 5º e 6º de modo a prejudicar o
consumidor, em especial aquele que almeja a inserção no ambiente acadêmico.
Assim, a conduta da instituição de negar a matrícula inicial do aprovado no vestibular porque ele tem
outros débitos anteriores, relativos a outro curso, não tem respaldo legal.
A eventual cobrança de valores em aberto poderá ser realizada, porém pelos meios legais ordinários, não
se admitindo a pretendida negativa de matrícula.
Resumindo:
Instituição de ensino superior não pode recusar a matrícula de aluno aprovado em vestibular em razão
de inadimplência em curso diverso anteriormente frequentado por ele na mesma instituição.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.583.798-SC, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 24/5/2016 (Info 591).
PROTEÇÃO EM JUÍZO
Mesmo sem 1 ano de constituição, associação poderá ajuizar ACP para que
fornecedor preste informações ao consumidor sobre produtos com glúten
Como regra, para que uma associação possa propor ACP, ela deverá estar constituída há pelo
menos 1 ano.
Exceção. Este requisito da pré-constituição poderá ser dispensado pelo juiz, quando haja
manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do dano, ou pela
relevância do bem jurídico a ser protegido (§ 4º do art. 5º da Lei nº 7.347/85). Neste caso, a
ACP, mesmo tendo sido proposta por uma associação com menos de 1 ano, poderá ser
conhecida e julgada.
Como exemplo da situação descrita no § 4º do art. 5º, o STJ decidiu que:
É dispensável o requisito temporal (pré-constituição há mais de um ano) para associação
ajuizar ação civil pública quando o bem jurídico tutelado for a prestação de informações ao
consumidor sobre a existência de glúten em alimentos.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 18
STJ. 2ª Turma. REsp 1.600.172-GO, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Vide comentários em Direito Processual Civil.DIREITO EMPRESARIAL
FRANQUIA
Para que haja cláusula compromissória no contrato de franquia
deverá ser observado o art. 4º, § 2º, da Lei nº 9.307/96
Importante!!!
A franquia não é um contrato de consumo (regido pelo CDC), mas, mesmo assim, é um contrato
de adesão.
Segundo o art. 4º, § 2º da Lei nº 9.307/96, nos contratos de adesão, a cláusula compromissória
só terá eficácia se o aderente:
• tomar a iniciativa de instituir a arbitragem; ou
• concordar, expressamente, com a sua instituição, por escrito, em documento anexo ou em
negrito, com a assinatura ou visto especialmente para essa cláusula.
Todos os contratos de adesão, mesmo aqueles que não consubstanciam relações de consumo,
como os contratos de franquia, devem observar o disposto no art. 4º, § 2º, da Lei nº 9.307/96.
Assim, é possível a instituição de cláusula compromissória em contrato de franquia, desde que
observados os requisitos do art. 4º, § 2º, da Lei nº 9.307/96.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.602.076-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
CONTRATO DE FRANQUIA
A franquia é um contrato por meio do qual uma empresa (franqueador) transfere a outra (franqueado) o
direito de usar a sua marca ou patente e de comercializar seus produtos ou serviços, podendo, ainda,
haver a transferência de conhecimentos do franqueador para o franqueado.
O contrato de franquia está regido pela Lei nº 8.955/94, que conceitua esse pacto nos seguintes termos:
Art. 2º Franquia empresarial é o sistema pelo qual um franqueador cede ao franqueado o direito de uso de
marca ou patente, associado ao direito de distribuição exclusiva ou semi-exclusiva de produtos ou serviços
e, eventualmente, também ao direito de uso de tecnologia de implantação e administração de negócio ou
sistema operacional desenvolvidos ou detidos pelo franqueador, mediante remuneração direta ou
indireta, sem que, no entanto, fique caracterizado vínculo empregatício.
O contrato firmado entre o franqueado e o franqueador é regido pelo Código de Defesa do Consumidor?
O franqueado poderá invocar o CDC para discutir seus direitos em relação ao franqueador?
NÃO.
A franquia é um contrato empresarial e, em razão de sua natureza, não está sujeito às regras protetivas
previstas no CDC.
A relação entre o franqueador e o franqueado não é uma relação de consumo, mas sim de fomento
econômico com o objetivo de estimular as atividades empresariais do franqueado.
O franqueado não é consumidor de produtos ou serviços da franqueadora, mas sim a pessoa que os
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 19
comercializa junto a terceiros, estes sim, os destinatários finais.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.602.076-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
O contrato de franquia é um contrato de adesão?
SIM. O contrato de franquia é um contrato de adesão.
"Caracterizam-se os contratos de adesão pela desigualdade entre as partes contratantes: basicamente,
uma das partes, o policitante, impõe à outra – o oblato – as condições e cláusulas que previamente
redigiu. Não existe, assim, discussão a respeito do teor do contrato e suas cláusulas, de modo que o oblato
cinge-se a anuir à proposta do policitante. Tais contratos supõem, antes de mais nada, a superioridade
econômica de um dos contratantes, que fixa unilateralmente as cláusulas contratuais; o contratante
economicamente mais fraco manifesta seu consentimento aceitando, pura e simplesmente, as condições
gerais impostas pelo outro contratante; a proposta é, de regra, aberta a quem se interessar pela
contratação; e a oferta é predeterminada, uniforme e rígida." (CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e
Processo: um comentário à Lei nº 9.307/96. São Paulo: Atlas, 3ª ed., 2009, p. 106)
Mas o contrato de franquia não é um contrato de consumo...
Não importa. Essa confusão, aliás, é um erro comum em muitos estudantes. Nem todo contrato de adesão é
um contrato de consumo e nem todo contrato de consumo é de adesão. São conceitos diferentes. Portanto,
o contrato de franquia não é um contrato de consumo, mas, mesmo assim, é um contrato de adesão.
CLÁUSULA ARBITRAL NO CONTRATO DE FRANQUIA
Em que consiste a arbitragem?
Arbitragem representa uma técnica de solução de conflitos por meio da qual os conflitantes aceitam que a
solução de seu litígio seja decidida por uma terceira pessoa, de sua confiança.
Vale ressaltar que a arbitragem é uma forma de heterocomposição, isto é, instrumento por meio do qual o
conflito é resolvido por um terceiro.
Regulamentação
A arbitragem, no Brasil, é regulada pela Lei n. 9.307/96, havendo também alguns dispositivos no CPC
versando sobre o tema.
Em que consiste a chamada cláusula compromissória?
A cláusula compromissória, também chamada de cláusula arbitral, é...
- uma cláusula prevista no contrato,
- de forma prévia e abstrata,
- por meio da qual as partes estipulam que
- qualquer conflito futuro relacionado àquele contrato
- será resolvido por arbitragem (e não pela via jurisdicional estatal).
Exemplo:
"Cláusula 5.1.2 Eventuais controvérsias que porventura surgirem na interpretação ou execução deste
contrato serão resolvidas por meio de arbitragem, segundo a Lei nº 9.307/96 e o Código de Processo Civil
brasileiro (este aplicado de forma apenas subsidiária à Lei de Arbitragem e ao Regulamento da Câmara de
Arbitragem)."
A cláusula compromissória está prevista no art. 4º da Lei n. 9.307/96:
Art. 4º A cláusula compromissória é a convenção através da qual as partes em um contrato
comprometem-se a submeter à arbitragem os litígios que possam vir a surgir, relativamente a tal contrato.
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A cláusula compromissória é válida?
REGRA: a cláusula compromissória é VÁLIDA.
Peculiaridade 1:
contratos de ADESÃO
Peculiaridade 2:
contratos de CONSUMO
Peculiaridade 3:
Dissídios individuais de TRABALHO
É válida, desde que o aderente:
• tenha tomado a iniciativa de
instituir a arbitragem; ou
• concorde, expressamente, com
a sua instituição, por escrito, em
documento anexo ou em
negrito, com a assinatura ou
visto especialmente para essa
cláusula (art. 4º, § 2º, da Lei nº
9.307/96).
Não é válida. O CDC estipula que
é nula de pleno direito a cláusula
que determina a utilização
compulsória de arbitragem (art.
51, VII).
Vale ressaltar, no entanto, que é
possível compromisso arbitral
nas relações de consumo (REsp
1.169.841-RJ).
Não é válida arbitragem nos
dissídios individuais de trabalho,
conforme entendimento pacífico
do TST.
Obs: é permitida a arbitragem
no caso de dissídios coletivos de
trabalho (art. 114, § 1º da
CF/88).
É possível a previsão de cláusula compromissória em contratos de franquia?
O contrato de franquia é uma espécie de contrato de adesão.
Assim, só será válida cláusula compromissória em contrato de franquia se o aderente (franqueado):
tomar a iniciativa de instituir a arbitragem; ou
concordar, expressamente, com a sua instituição, por escrito, em documento anexo ou em negrito,
com a assinatura ou visto especialmente para essa cláusula.
Desse modo, aplica-se ao contrato de franquia a regra prevista no § 2º do art. 4º da Lei n. 9.307/96:
§ 2º Nos contratos de adesão, a cláusula compromissória só terá eficácia se o aderente tomar a iniciativa
de instituir a arbitragem ou concordar, expressamente, com a sua instituição, desde que por escrito em
documento anexo ou em negrito, com a assinatura ou visto especialmente para essa cláusula.
Todos os contratos de adesão, mesmo aqueles que não consubstanciam relações de consumo, como os
contratos de franquia, devem observar o disposto no art.4º, § 2º, da Lei nº 9.307/96.
RECUPERAÇÃO JUDICIAL
Vinculação de todos os credores à determinação de plano de recuperação judicial
aprovado por maioria pela assembleia geral de credores
Se, no âmbito de Assembleia Geral de Credores, a maioria deles - devidamente representados
pelas respectivas classes - optar, por meio de dispositivo expressamente consignado em plano
de recuperação judicial, pela supressão de todas as garantias fidejussórias e reais existentes
em nome dos credores na data da aprovação do plano, todos eles - inclusive os que não
compareceram à Assembleia ou os que, ao comparecerem, abstiveram-se ou votaram
contrariamente à homologação do acordo - estarão indistintamente vinculados a essa
determinação.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.532.943-MT, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 13/9/2016 (Info 591).
RECUPERAÇÃO JUDICIAL
A recuperação judicial surgiu para substituir a antiga “concordata” e tem por objetivo viabilizar a
superação da situação de crise do devedor, a fim de permitir que a atividade empresária se mantenha e,
com isso, sejam preservados os empregos dos trabalhadores e os interesses dos credores.
A recuperação judicial consiste, portanto, em um processo judicial, no qual será construído e executado
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 21
um plano com o objetivo de recuperar a empresa que está em vias de efetivamente ir à falência.
FASES DA RECUPERAÇÃO
De forma resumida, a recuperação judicial possui três fases:
a) postulação: inicia-se com o pedido de recuperação e vai até o despacho de processamento;
b) processamento: vai do despacho de processamento até a decisão concessiva;
c) execução: da decisão concessiva até o encerramento da recuperação judicial.
JUÍZO FALIMENTAR
A Lei nº 11.101/2005, em seu art. 3º, prevê que é competente para deferir a recuperação judicial o juízo
do local do principal estabelecimento do devedor ou da filial de empresa que tenha sede fora do Brasil.
A falência e a recuperação judicial são sempre processadas e julgadas na Justiça estadual.
PLANO DE RECUPERAÇÃO
Em até 60 dias após o despacho de processamento da recuperação judicial, o devedor deverá apresentar
em juízo um plano de recuperação da empresa, sob pena de convolação (conversão) do processo de
recuperação em falência.
Este plano deverá conter:
discriminação pormenorizada dos meios de recuperação a serem empregados (art. 50);
demonstração de sua viabilidade econômica; e
laudo econômico-financeiro e de avaliação dos bens e ativos do devedor, subscrito por profissional
legalmente habilitado ou empresa especializada.
Os credores analisam o plano apresentado, que pode ser aprovado ou não pela assembleia geral de
credores.
Credores são avisados sobre o plano, podendo apresentar objeções
Após o devedor apresentar o plano de recuperação, o juiz ordenará a publicação de edital contendo aviso
aos credores sobre o recebimento do plano e fixando prazo para a manifestação de eventuais objeções.
Desse modo, os credores serão chamados a analisar esse plano e, se não concordarem com algo, poderão
apresentar objeção.
O prazo para os credores apresentarem objeções é de 30 dias.
Se não houver objeção dos credores
Caso nenhum credor apresente objeção ao plano no prazo fixado, considera-se que houve aprovação
tácita.
Nessa hipótese, não será necessária a convocação de assembleia-geral de credores para deliberar sobre o
plano.
Se houver objeção por parte dos credores
Havendo objeção de algum credor, o juiz deverá convocar a assembleia-geral de credores para que ela
decida sobre o plano de recuperação apresentado.
A assembleia-geral, após as discussões e esclarecimentos pertinentes, poderá:
a) aprovar o plano sem ressalvas;
b) aprovar o plano com alterações;
c) não aprovar o plano.
Se o plano não for aprovado: o juiz decreta a falência (salvo na hipótese do art. 58, § 1º).
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 22
Se o plano for aprovado: o juiz homologa a aprovação e concede a recuperação judicial, iniciando-se a
fase de execução. Atenção: no regime atual, o plano de recuperação é aprovado pelos credores e apenas
homologado pelo juiz.
APROVADO O PLANO, OCORRE A NOVAÇÃO DOS CRÉDITOS ANTERIORES AO PEDIDO
A homologação do plano de recuperação judicial autoriza a retirada do nome da empresa recuperanda e
dos seus respectivos sócios dos cadastros de inadimplentes, bem como a baixa de eventuais protestos
existentes em nome destes?
SIM. A Lei de Falências e Recuperação Judicial estabelece que o plano de recuperação judicial acarreta a
novação dos créditos anteriores ao pedido:
Art. 59. O plano de recuperação judicial implica novação dos créditos anteriores ao pedido, e obriga o
devedor e todos os credores a ele sujeitos, sem prejuízo das garantias, observado o disposto no § 1º do
art. 50 desta Lei.
Qual é a consequência jurídica de haver a novação dos créditos?
A novação ocorre, dentre outras hipóteses, quando o devedor contrai com o credor nova dívida para
extinguir e substituir a anterior (art. 360, I, do CC).
Desse modo, o que o art. 59 está afirmando é que, quando o plano de recuperação judicial é homologado,
as dívidas que o devedor (recuperando) possuía com os credores são extintas e substituídas por outras
novas obrigações.
Como a novação induz a extinção da relação jurídica anterior, substituída por uma nova, não será mais
possível falar em inadimplência do devedor com base na dívida extinta (Min. Nancy Andrighi).
Diante disso, não se justifica a manutenção do nome da recuperanda ou de seus sócios em cadastros de
inadimplentes em virtude da dívida novada.
Assim, “a novação extingue a dívida anterior; estando o autor adimplente quanto ao novo débito, é ilícita a
inscrição em órgãos de proteção ao crédito fundamentada em inadimplemento de parcela vencida
anteriormente à novação” (AgRg no Ag 948.785/RS, 3ª Turma, Rel. Min. Ari Pargendler, DJe de 05.08.2008).
Essa regra do art. 59 tem como norte a preocupação de recuperar a empresa em dificuldade financeira,
atendendo ao chamado “princípio da preservação da empresa”.
A novação decorrente da recuperação judicial implica a extinção de garantias que haviam sido
prestadas aos credores?
NÃO. A novação prevista no Código Civil extingue sim os acessórios e as garantias da dívida, sempre que
não houver estipulação em contrário (art. 364).
No entanto, na novação prevista no art. 59 da Lei nº 11.101/2005 ocorre justamente o contrário, ou
seja, as garantias são mantidas, sobretudo as garantias reais, as quais só serão suprimidas ou
substituídas “mediante aprovação expressa do credor titular da respectiva garantia”, por ocasião da
alienação do bem gravado (art. 50, § 1º).
Novação do CC: em regra, extingue as garantias prestadas.
Novação da recuperação judicial: em regra, não extingue as garantias prestadas.
Portanto, muito embora o plano de recuperação judicial opere novação das dívidas a ele submetidas, as
garantias reais ou fidejussórias, de regra, são preservadas, circunstância que possibilita ao credor
exercer seus direitos contra terceiros garantidores e impõe a manutenção das ações e execuções
aforadas em face de fiadores, avalistas ou coobrigados em geral.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.326.888-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 8/4/2014 (Info 540).
Exemplo:
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 23
A sociedade GW Ltda. emitiu uma nota promissória em favor da empresa X. Gabriel (sócio da GW) figurou
como avalista na nota promissória, ou seja, ele ofereceu uma garantia pessoal de pagamento da dívida.
Ocorre que a sociedade GW Ltda. requereu recuperaçãojudicial e o plano foi aprovado. A empresa X
ajuizou, então, execução de título extrajudicial cobrando de Gabriel o valor da nota promissória vencida.
Gabriel defendeu-se alegando que, como foi aprovado o plano de recuperação judicial, houve novação e a
execução deveria ser extinta.
Este argumento não deverá ser acolhido. A homologação do plano de recuperação judicial da devedora
principal não implica a extinção de execução de título extrajudicial ajuizada em face de sócio coobrigado.
Conforme já explicado, muito embora o plano de recuperação judicial opere novação das dívidas
anteriores, as garantias (reais ou fidejussórias), como regra, são preservadas. Logo, o aval (garantia)
prestado por Gabriel não foi extinto com a aprovação do plano.
Diante disso, o credor poderá exercer seus direitos contra Gabriel (terceiro garantidor), devendo,
portanto, ser mantida a execução proposta contra ele.
Qual é o fundamento legal para essa conclusão?
O § 1º do art. 49 da Lei n. 11.101/2005:
§ 1º Os credores do devedor em recuperação judicial conservam seus direitos e privilégios contra os
coobrigados, fiadores e obrigados de regresso.
O STJ reafirmou esse entendimento em recurso especial repetitivo, fixando a seguinte tese:
A recuperação judicial do devedor principal não impede o prosseguimento das execuções nem induz
suspensão ou extinção de ações ajuizadas contra terceiros devedores solidários ou coobrigados em
geral, por garantia cambial, real ou fidejussória, pois não se lhes aplicam a suspensão prevista nos arts.
6º, caput, e 52, inciso III, ou a novação a que se refere o art. 59, caput, por força do que dispõe o art. 49,
§ 1º, todos da Lei nº 11.101/2005.
STJ. 2ª Seção. REsp 1333349/SP, Rel. Min.Luis Felipe Salomão, julgado em 26/11/2014.
Na I Jornada de Direito Comercial do CJF/STJ já havia sido aprovado enunciado espelhando a posição:
Enunciado 43: A suspensão das ações e execuções previstas no art. 6º da Lei n. 11.101/2005 não se
estende aos coobrigados do devedor.
O tema foi, inclusive, sumulado:
Súmula 581-STJ: A recuperação judicial do devedor principal não impede o prosseguimento das ações e
execuções ajuizadas contra terceiros devedores solidários ou coobrigados em geral, por garantia cambial,
real ou fidejussória.
ASSEMBLEIA GERAL DE CREDORES PODERÁ DISPENSAR AS GARANTIAS PRESTADAS
Vimos acima que, na novação da recuperação judicial, em regra, não haverá a extinção das garantias
prestadas. Portanto, muito embora o plano de recuperação judicial opere novação das dívidas a ele
submetidas, as garantias reais ou fidejussórias, de regra, são preservadas, circunstância que possibilita ao
credor exercer seus direitos contra terceiros garantidores e impõe a manutenção das ações e execuções
aforadas em face de fiadores, avalistas ou coobrigados em geral.
Indaga-se: a Assembleia Geral de Credores poderá dispensar as garantias que haviam sido prestadas por
terceiros?
SIM. Na deliberação do plano de recuperação os credores negociam com a empresa devedora e decidem a
extensão de esforços e renúncias que estão dispostos a suportar, no intento de reduzir os prejuízos que se
avizinham. Apesar disso não ser exigido pela lei, os credores poderão decidir dispensar as garantias real e
fidejussórias se assim entenderem pertinente.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 24
Esta decisão da Assembleia vincula também os credores que não estavam presentes?
SIM. Essa deliberação atinge a todos os credores, inclusive os que não compareceram à Assembleia ou os
que, ao comparecerem, abstiveram-se ou votaram contrariamente à homologação do acordo. Todos eles,
indistintamente, estarão vinculados a essa determinação. Nesse sentido é também a opinião da doutrina:
"Em princípio, todos os credores anteriores ao pedido de recuperação judicial estão sujeitos aos efeitos do
plano de recuperação aprovado em juízo. Mesmo os que haviam se oposto ao plano e votado por sua
rejeição devem se curvar à decisão judicial respaldada na maioria dos credores. Não tem outra alternativa.
Se no plano aprovado em juízo é prevista a substituição de determinada garantia real por outra de menor
valor, o credor atingido simplesmente não tem meios para se opor ao mérito dessa medida, por mais que
considere seus interesses injustamente sacrificados." (COELHO, Fábio Ulhoa. Comentários à Lei de
Falências e de Recuperação de Empresas. 9ª ed. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 236)
Se, no âmbito de Assembleia Geral de Credores, a maioria deles - devidamente representados pelas
respectivas classes - optar, por meio de dispositivo expressamente consignado em plano de recuperação
judicial, pela supressão de todas as garantias fidejussórias e reais existentes em nome dos credores na
data da aprovação do plano, todos eles - inclusive os que não compareceram à Assembleia ou os que, ao
comparecerem, abstiveram-se ou votaram contrariamente à homologação do acordo - estarão
indistintamente vinculados a essa determinação.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.532.943-MT, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 13/9/2016 (Info 591).
É possível, em tese, que o Poder Judiciário faça o controle de legalidade do plano de recuperação judicial
aprovado pela assembleia geral de credores?
SIM.
Afigura-se absolutamente possível que o Poder Judiciário, sem imiscuir-se na análise da viabilidade
econômica da empresa em crise, promova controle de legalidade do plano de recuperação judicial.
Esse controle de legalidade do plano de recuperação não significa a desconsideração da soberania da
assembleia geral de credores.
À assembleia geral de credores compete analisar, a um só tempo, a viabilidade econômica da empresa,
assim como da consecução da proposta apresentada.
Ao Poder Judiciário, por sua vez, incumbe velar pela validade das manifestações expendidas, e,
naturalmente, preservar os efeitos legais das normas que se revelarem cogentes.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.532.943-MT, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 13/9/2016 (Info 591).
ECA
INTERNAÇÃO
Quando o art. 122, II, do ECA prevê que o adolescente deverá ser internado em caso "reiteração
no cometimento de outras infrações graves" não se exige um número mínimo
O ECA não estipulou um número mínimo de atos infracionais graves para justificar a
internação do menor infrator com fulcro no art. 122, II, do ECA (reiteração no cometimento de
outras infrações graves).
Logo, cabe ao magistrado analisar as peculiaridades de cada caso e as condições específicas do
adolescente a fim de aplicar ou não a internação.
A depender das particularidades e circunstâncias do caso concreto, pode ser aplicada, com
fundamento no art. 122, II, do ECA, medida de internação ao adolescente infrator que antes
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 25
tenha cometido apenas uma outra infração grave.
Está superado o entendimento de que a internação com base nesse dispositivo somente seria
permitida com a prática de no mínimo 3 infrações.
STF. 1ª Turma. HC 94447, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 12/04/2011.
STJ. 5ª Turma. HC 332.440/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 24/11/2015.
STJ. 6ª Turma. HC 347.434-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Antonio Saldanha
Palheiro, julgado em 27/9/2016 (Info 591).
Quais são as medidas socioeducativas que implicam privação de liberdade?
• Semiliberdade;
• Internação.
Semiliberdade (art. 120 do ECA)
Pelo regime da semiliberdade, o adolescente realiza atividades externas durante o dia, sob supervisão de
equipe multidisciplinar, e fica recolhido à noite.
O regime de semiliberdade pode ser determinado como medida inicial imposta pelo juiz ao adolescente
infrator, ou como forma de transição para omeio aberto (uma espécie de “progressão”).
Internação (arts. 121 e 122 do ECA)
Por esse regime, o adolescente fica recolhido na unidade de internação.
A internação constitui medida privativa da liberdade e se sujeita aos princípios de brevidade,
excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.
Pode ser permitida a realização de atividades externas, a critério da equipe técnica da entidade, salvo
expressa determinação judicial em contrário.
A medida não comporta prazo determinado, devendo sua manutenção ser reavaliada, mediante decisão
fundamentada, no máximo a cada seis meses.
Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos.
Se o interno completar 21 anos, deverá ser obrigatoriamente liberado, encerrando o regime de
internação.
Internação somente nas hipóteses do art. 122 do ECA
O juiz somente pode aplicar a medida de internação ao adolescente infrator nas hipóteses taxativamente
previstas no art. 122 do ECA, pois a segregação do adolescente é medida de exceção, devendo ser aplicada
e mantida somente quando evidenciada sua necessidade, em observância ao espírito do Estatuto, que visa
à reintegração do menor à sociedade (STJ HC 213778).
Veja a redação do dispositivo:
Art. 122. A medida de internação só poderá ser aplicada quando:
I — tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência a pessoa;
II — por reiteração no cometimento de outras infrações graves;
III — por descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente imposta.
“Reiteração no cometimento de outras infrações graves”
Ao se interpretar essa expressão, foi construída a tese de que, para se enquadrar na hipótese do inciso II
do art. 122, o adolescente deveria ter cometido, no mínimo, três infrações graves.
Assim, somente no terceiro ato infracional grave (após ter praticado outros dois anteriores) é que o
adolescente receberia a medida de internação.
A jurisprudência acolhe esse critério?
NÃO. Tanto o STF como o STJ entendem que, para se configurar a “reiteração na prática de atos
infracionais graves” (art. 122, II) não se exige a prática de, no mínimo, três infrações dessa natureza. Não
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 26
existe fundamento legal para essa exigência.
A exigência de no mínimo três infrações foi adotada durante muitos anos pela jurisprudência como forma
de “abrandar” a aplicação do ECA, mas esse entendimento está atualmente superado.
Em suma, o que vigora atualmente:
O ECA não estipulou um número mínimo de atos infracionais graves para justificar a internação do
menor infrator com fulcro no art. 122, II, do ECA (reiteração no cometimento de outras infrações
graves).
Logo, cabe ao magistrado analisar as peculiaridades de cada caso e as condições específicas do
adolescente a fim de aplicar ou não a internação.
A depender das particularidades e circunstâncias do caso concreto, pode ser aplicada, com fundamento
no art. 122, II, do ECA, medida de internação ao adolescente infrator que antes tenha cometido apenas
uma outra infração grave.
Está superado o entendimento de que a internação com base nesse dispositivo somente seria permitida
com a prática de no mínimo 3 infrações.
STJ. 5ª Turma. HC 332.440/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 24/11/2015.
STJ. 6ª Turma. HC 347.434-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Antonio Saldanha Palheiro,
julgado em 27/9/2016 (Info 591).
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
AGRAVO DE INSTRUMENTO
É possível que as peças do agravo de instrumento sejam entregues em DVD
Importante!!!
As peças que devem formar o instrumento do agravo podem ser apresentadas em mídia digital
(DVD).
STJ. 2ª Turma. REsp 1.608.298-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 1/9/2016 (Info 591).
O agravo de instrumento é um recurso interposto diretamente no juízo ad quem, ou seja, é encaminhado
diretamente para o Tribunal que irá julgá-lo.
Ex.: “A” ingressa com uma ação de alimentos contra “B” e pede a concessão de alimentos provisórios no
valor de R$ 2 mil. O juiz, em decisão interlocutória, nega a fixação dos alimentos provisórios. “A” interpõe
agravo de instrumento contra a decisão do juiz de 1ª instância (juízo a quo) diretamente no Tribunal de
Justiça (juízo ad quem).
O nome do recurso é agravo de instrumento porque neste tipo de agravo deverá ser formado um
“instrumento”, ou seja, um conjunto de documentos para que o Tribunal analise se as razões invocadas
pelo recorrente são procedentes ou não. Isso ocorre porque o processo continua tramitando no juízo a
quo e, para o juízo ad quem examinar as razões do recurso, será necessário que ele tenha cópias de alguns
documentos presentes naqueles autos originários.
Em nosso exemplo, “A” irá preparar a petição do recurso, tirar cópias de vários documentos dos autos,
juntá-los à petição e protocolá-los, como agravo de instrumento, no Tribunal de Justiça.
E quais são estes documentos?
Estão previstos no art. 525 do CPC 1973 (art. 1.017 do CPC 2015). Fique atento para as partes em cinza
porque são novidades:
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 27
CPC 1973 CPC 2015
Art. 525. A petição de agravo de instrumento será
instruída:
I — obrigatoriamente, com cópias da decisão
agravada, da certidão da respectiva intimação e
das procurações outorgadas aos advogados do
agravante e do agravado;
II — facultativamente, com outras peças que o
agravante entender úteis.
Art. 1.017. A petição de agravo de instrumento
será instruída:
I — obrigatoriamente, com cópias da petição
inicial, da contestação, da petição que ensejou a
decisão agravada, da própria decisão agravada, da
certidão da respectiva intimação ou outro
documento oficial que comprove a
tempestividade e das procurações outorgadas aos
advogados do agravante e do agravado;
II — com declaração de inexistência de qualquer
dos documentos referidos no inciso I, feita pelo
advogado do agravante, sob pena de sua
responsabilidade pessoal;
III — facultativamente, com outras peças que o
agravante reputar úteis.
O que acontece caso a parte agravante não junte algum dos documentos considerados obrigatórios?
Na falta da cópia de qualquer peça ou no caso de algum outro vício que comprometa a admissibilidade do
agravo de instrumento, o relator deverá, antes de considerar inadmissível o recurso, conceder o prazo de
5 dias ao agravante para que seja sanado vício ou complementada a documentação exigível (art. 1.017, §
3º do CPC/2015).
Caso, mesmo intimado, o agravante não junte o documento faltante ou corrija o vício, aí sim deverá o
relator julgar inadmissível o agravo de instrumento manejado.
Imagine que o processo é físico (em papel). Mesmo assim, poderá o agravante juntar esses documentos
acima listados em formato digital, ou seja, escaneados e salvos em um DVD?
SIM.
As peças que devem formar o instrumento do agravo podem ser apresentadas em mídia digital (DVD).
STJ. 2ª Turma. REsp 1.608.298-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 1/9/2016 (Info 591).
O art. 425, VI, do CPC/2015 prevê a validade das reproduções digitalizadas:
Art. 425. Fazem a mesma prova que os originais:
(...)
VI - as reproduções digitalizadas de qualquer documento público ou particular, quando juntadas aos autos
pelos órgãos da justiça e seus auxiliares, pelo Ministério Público e seus auxiliares, pela Defensoria Pública e
seus auxiliares, pelas procuradorias, pelas repartições públicas em geral e por advogados, ressalvada a
alegação motivada e fundamentada de adulteração.
Além disso, o CPC não exige que o agravante junte as peças originais. Desse modo, se ele apresentar as
peças em formato eletrônico (mídia contendoimagens) acompanhada da declaração de autenticidade
pelo advogado, tal apresentação deverá ser considerada válida, salvo se a parte adversária demonstrar
que sejam inautênticas.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 28
EMBARGOS DE TERCEIRO
Desconstituída penhora indevida, em regra, não haverá condenação do embargado em
honorários se o imóvel ainda estava no nome do antigo proprietário
Importante!!!
Nos embargos de terceiro cujo pedido foi acolhido para desconstituir a constrição judicial, os
honorários advocatícios serão arbitrados com base no princípio da causalidade,
responsabilizando-se o atual proprietário (embargante), se este não atualizou os dados
cadastrais. Os encargos de sucumbência serão suportados pela parte embargada, porém, na
hipótese em que esta, depois de tomar ciência da transmissão do bem, apresentar ou insistir
na impugnação ou recurso para manter a penhora sobre o bem cujo domínio foi transferido
para terceiro.
Ex: Pedro adquiriu uma casa por meio de contrato de promessa de compra e venda. Ocorre que
não foi até o Registro de Imóveis para providenciar a transcrição do título. O antigo
proprietário do imóvel estava sendo executado e o credor, após consulta no cartório, indicou a
referida casa para ser penhorada, o que foi aceito pelo juiz. Pedro foi informado da penhora e
apresentou embargos de terceiro na execução provando que o referido imóvel foi por ele
adquirido. O juiz acolheu os embargos e determinou o levantamento da penhora. A parte
embargada não se opôs a isso. Na sentença dos embargos, o juiz deverá condenar Pedro a
pagar honorários advocatícios em favor da parte embargada.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.452.840-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 14/9/2016 (recurso
repetitivo) (Info 591)
Imagine a seguinte situação hipotética:
João era proprietário de um imóvel e fez uma promessa de compra e venda com Pedro.
Por meio do contrato, João (promitente vendedor) comprometeu-se a vender a Pedro uma casa, localizada
na Rua 02, nº 13, Centro.
Em contrapartida, Pedro (promitente comprador) obrigou-se a pagar o valor do imóvel em 24 parcelas.
O contrato previa que, após os pagamentos, Pedro deveria fazer a transferência do bem no Registro de
Imóveis para seu nome, havendo, inclusive, uma procuração outorgada por João conferindo tais poderes.
Pedro pagou todas as 24 parcelas e continuou morando na casa por ele adquirida.
Ocorre que acabou esquecendo de ir até o Registro de Imóveis para providenciar a transcrição do título.
Na linguagem popular, ele não foi até o cartório passar a casa para o seu nome.
Execução contra o antigo proprietário
João, antigo proprietário da casa, possuía débitos com a União e estava sendo executado.
No processo de execução, João foi citado, mas não pagou a dívida.
A Fazenda Nacional consultou, então, os cartórios em busca de bens em nome do devedor.
O Registro de Imóveis informou à União que há uma casa localizada na Rua 02, nº 13, Centro registrada em
nome de João.
A exequente requereu, então, a penhora da casa para pagamento da dívida, o que foi deferido pelo
magistrado.
Embargos de terceiro
Pedro, que mora na casa, foi informado da penhora e procurou um advogado. Este apresentou embargos
de terceiro na execução provando que o referido imóvel foi adquirido por meio de um contrato de
promessa de compra e venda e que, inclusive, todas as parcelas já foram pagas.
Sobre o tema, vale a pena lembrar o seguinte enunciado: Súmula 84-STJ: É admissível a oposição de
Embargos de Terceiro fundados em alegação de posse advinda do compromisso de compra e venda de
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 29
imóveis, ainda que desprovido do registro.
Vale ressaltar que os órgãos da advocacia pública federal não oferecem impugnação nem recorrem em
tais casos, desde que não caracterizada a má-fé dos contratantes e o intuito de fraude à execução (IN AGU
05/2007).
O juiz acolheu os embargos e determinou o levantamento da penhora incidente sobre a casa. No entanto,
condenou Pedro a pagar honorários advocatícios em favor da União (embargada).
A União concordou com a sentença e não recorreu.
Pedro, por outro lado, apresentou recurso afirmando que, se os embargos foram julgados procedentes, ficando
provado que ele estava certo, é a União quem deverá pagar os honorários advocatícios em favor dele.
A sentença do magistrado foi correta? Afinal de contas, quem deverá pagar os honorários advocatícios
neste caso?
SIM. A sentença foi correta e quem deverá pagar os honorários é o embargante Pedro (atual proprietário).
Princípio da causalidade
O pagamento dos honorários advocatícios baseia-se no princípio da causalidade, ou seja, esta verba
deverá ser paga por aquele que deu causa à propositura da ação. Assim, a sucumbência, para fins de
arbitramento dos honorários advocatícios, tem por norte a aplicação do princípio da causalidade.
No caso dos embargos de terceiro existe inclusive um enunciado que espelha este entendimento:
Súmula 303-STJ: Em embargos de terceiro, quem deu causa à constrição indevida deve arcar com os
honorários advocatícios.
Normalmente, constata-se que o sucumbente (quem perdeu) foi o responsável pela propositura da ação.
Em outras palavras, como a parte perdeu, em regra, entende-se que foi ela quem deu causa ao
ajuizamento da demanda. O pensamento é o seguinte: se não fosse ela, a ação não teria que ter existido;
foi ela quem criou o "problema". Por essa razão, em regra, o sucumbente é condenado a pagar os
honorários advocatícios. A isso chamamos de princípio da sucumbência (quem perdeu, paga).
Assim, em geral, os princípios da sucumbência e da causalidade caminham juntos. Diz-se, inclusive que o
princípio da sucumbência é uma forma de se cumprir o princípio da causalidade. Dito de outro modo: em
geral, quem perdeu (princípio da sucumbência) é quem deu causa à demanda (princípio da causalidade).
Algumas vezes, no entanto, pode-se constatar que a responsável pela existência da causa foi a parte
vencedora. A parte venceu a demanda, mas foi uma atitude dela que fez com que o problema tenha
surgido. Nestes casos, será o vencedor (e não o sucumbente) quem irá pagar os honorários advocatícios.
Dizemos que o princípio da sucumbência cede espaço para o princípio da causalidade.
Sobre o tema, veja os seguintes julgados do STJ:
(...) O princípio da causalidade não se contrapõe ao princípio da sucumbência. Antes, é este um dos
elementos norteadores daquele, pois, de ordinário, o sucumbente é considerado responsável pela
instauração do processo e, assim, condenado nas despesas processuais. O princípio da sucumbência,
contudo, cede lugar quando, embora vencedora, a parte deu causa à instauração da lide.
Se o credor indicou à penhora imóvel objeto de contrato de compra e venda não registrado, é iniludível
que a necessidade do ajuizamento dos embargos de terceiro pelo adquirente é resultado da desídia deste
em não promover o registro, providência que a par da publicidade do ato poderia evitar a indesejada
constrição patrimonial, haja vista a eficácia erga omnes dos atos submetidos a registro. Assim, face ao
princípio da causalidade, cabe ao terceiro-embargante, adquirente do imóvel, arcar com os consectários
da sucumbência.
STJ. 3ª Turma. REsp 303.597/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 17/04/2001.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 30
(...) 1. Em regra, os ônus sucumbenciais devem ser aplicados em conformidade com o princípio da
sucumbência. Entende-se, assim, que o sucumbente é considerado responsável pelo ajuizamento da ação,
de maneira que deve ser condenado nas despesas processuais. Todavia,há casos em que, embora
sucumbente, a parte não deu causa ao ajuizamento da ação, não devendo, por conseguinte, sobre ela
recair os ônus da sucumbência. Nessas hipóteses, então, o princípio da sucumbência deve ser aplicado em
consonância com o princípio da causalidade, segundo o qual as despesas processuais e honorários
advocatícios devem ser suportados por quem deu causa à instauração do processo.
2. Em se tratando de embargos de terceiro, deve o magistrado, na condenação dos ônus sucumbenciais,
atentar para os princípios da sucumbência e da causalidade, pois há casos em que o embargante, embora
vencedor na ação, é o responsável por seu ajuizamento, devendo sobre ele recair as despesas do processo
e os honorários advocatícios. A respeito do tema, a Corte Especial editou a Súmula 303/STJ, consignando
que "em embargos de terceiro, quem deu causa à constrição indevida deve arcar com os honorários
advocatícios". (...)
STJ. 1ª Turma. REsp 724.341/MG, Rel. Min. Denise Arruda, julgado em 02/10/2007.
Embargante foi o responsável pelo fato de o bem ter sido penhorado
O adquirente, ao não providenciar a transcrição do título na repartição competente, permite que o bem
adquirido fique em risco e possa ser submetido à indevida constrição judicial em ações propostas contra o
antigo proprietário.
As diligências realizadas pelo oficial de Justiça ou pela própria parte credora destinadas à localização de
bens, no caso específico de bens sujeitos a registro (imóveis, veículos), são feitas mediante consulta aos
Cartórios de Imóveis (Detran, no caso de veículos), razão pela qual é evidente que se tais cadastros
estiverem com os nomes dos proprietários desatualizados, fatalmente haverá penhoras indevidas. Isso,
não por "culpa" do credor, mas sim do adquirente.
Desse modo, em regra, não pode ser responsabilizado pelos honorários advocatícios o credor que indica à
penhora imóvel transferido a terceiro mediante compromisso de compra e venda não registrado no
Cartório de Imóveis. Com a inércia do comprador em proceder ao registro, não havia como o exequente
tomar conhecimento de uma possível transmissão de domínio .
Resumindo:
Desconstituição de penhora indevida incidente sobre imóvel pertencente a terceiro:
REGRA: não haverá condenação da parte embargada a pagar honorários advocatícios quando
verificado que não foi registrada a alteração na titularidade dominial (no cartório ainda consta o antigo
proprietário).
EXCEÇÃO: a parte embargada terá que pagar honorários advocatícios se, mesmo ciente de que houve
transmissão da propriedade, opuser resistência e defender a manutenção da penhora (foi explicado no
processo que houve a transferência e, mesmo assim, a parte credora continua insistindo na penhora).
Tese fixada pelo STJ para fins de recurso repetitivo:
Nos embargos de terceiro cujo pedido foi acolhido para desconstituir a constrição judicial, os honorários
advocatícios serão arbitrados com base no princípio da causalidade, responsabilizando-se o atual
proprietário (embargante), se este não atualizou os dados cadastrais. Os encargos de sucumbência serão
suportados pela parte embargada, porém, na hipótese em que esta, depois de tomar ciência da
transmissão do bem, apresentar ou insistir na impugnação ou recurso para manter a penhora sobre o
bem cujo domínio foi transferido para terceiro.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.452.840-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 14/9/2016 (recurso repetitivo)
(Info 591)
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 31
PROCESSO COLETIVO
Cabe ACP com o objetivo de proibir tráfico de veículos pesados no Município
Importante!!!
É cabível ação civil pública proposta por Ministério Público Estadual para pleitear que
Município proíba máquinas agrícolas e veículos pesados de trafegarem em perímetro urbano
deste e torne transitável o anel viário da região.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.294.451-GO, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 1/9/2016 (Info 591).
Imagine a seguinte situação adaptada:
O Promotor de Justiça da comarca "X" ajuizou ação civil pública contra o Município pedindo que este seja
condenado em duas obrigações de fazer:
impedir que máquinas agrícolas e veículos pesados trafeguem no perímetro urbano; e
tornar transitável o anel viário da região.
Anel viário, também chamado de rodoanel, é uma estrada construída no perímetro de grandes cidades ligando
importantes vias de circulação de veículos com o objetivo de evitar que o tráfego afete as ruas menores.
De acordo com o Ministério Público, o intenso trânsito de caminhões e máquinas agrícolas no perímetro
urbano tem causado inúmeros acidentes fatais, além de problemas de saúde decorrentes de poeira e
poluição sonora, entre outros.
O juiz extinguiu o processo sem resolução do mérito afirmando que a ACP é meio processual inadequado
para veicular este tipo de pretensão. Afirmou que o Poder Judiciário não pode ter ingerência sobre
questões relacionadas com políticas públicas, uma vez que o Poder Público Municipal tem ampla liberdade
para eleger as obras prioritárias de seu governo, sob pena de ofensa à discricionariedade do administrador
e ao princípio da separação dos poderes.
Segundo a jurisprudência do STJ, a decisão do magistrado foi correta?
NÃO.
É cabível ação civil pública proposta por Ministério Público Estadual para pleitear que Município proíba
máquinas agrícolas e veículos pesados de trafegarem em perímetro urbano deste e torne transitável o
anel viário da região.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.294.451-GO, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 1/9/2016 (Info 591).
Poder Judiciário pode intervir quando a Administração deixa de promover políticas públicas
Os Poderes da República são independentes e harmônicos entre si (art. 2º da CF/88). O Poder Executivo
tem prioridade na implementação de políticas públicas. No entanto, em termos abstratos, o ordenamento
jurídico em vigor permite que o Poder Judiciário seja chamado a intervir em situações nas quais exista uma
ação ou uma omissão ilegítima do administrador público.
Assim, não é vedado ao Poder Judiciário debater o mérito administrativo. Se a Administração deixar de
promover políticas públicas, de proteger hipossuficientes, de garantir o funcionamento dos serviços
públicos, haverá vício ou flagrante ilegalidade a justificar a intervenção judicial (STJ. 2ª Turma. REsp
1176552/PR, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 22/02/2011).
ACP é o meio próprio de se buscar a implementação de políticas públicas com relevante repercussão social
O STJ tem admitido o debate de políticas públicas no bojo de ações civis públicas propostas pelo MP:
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 32
(...) O Ministério Público detém legitimidade ativa para o ajuizamento de ação civil pública que objetiva a
implementação de políticas públicas ou de repercussão social, como o saneamento básico ou a prestação
de serviços públicos. (...)
STJ. 1ª Turma. AgRg no AREsp 50.151/RJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 03/10/2013.
No caso dos autos, a relevância social é mais que evidente. Há notícia de que o intenso trânsito dos
caminhões e máquinas pesadas no perímetro urbano tem causado acidentes fatais e problemas de saúde
aos munícipes. O ordenamento do trânsito de veículos no perímetro das cidades tem importância central
nas sociedades modernas e repercute em inúmeros assuntos de interesse público.
Lei prevê a ACP como meio para discutir ordem urbanística
O art. 1º, VI e o art. 3º da Lei nº 7.347/85 preveem que a ação civil pública é meio processual adequado
para discutir temas relacionados com a ordem urbanística e para a obtenção de provimento jurisdicional
condenatório de obrigação de fazer:
Art. 1º Regem-se pelas disposiçõesdesta Lei, sem prejuízo da ação popular, as ações de responsabilidade
por danos morais e patrimoniais causados:
(...)
VI - à ordem urbanística.
Art. 3º A ação civil poderá ter por objeto a condenação em dinheiro ou o cumprimento de obrigação de
fazer ou não fazer.
Existe precedente do STJ afirmando que a ACP é ação adequada para discutir tema relacionado com a
segurança no trânsito: STJ. 1ª Turma. REsp 725257/MG, Rel. Min. José Delgado, julgado em 10/04/2007.
E quanto ao mérito? A ACP foi julgada procedente?
O mérito ainda não foi examinado. O STJ decidiu apenas que a ACP proposta deverá ser conhecida,
considerando que se trata de meio processual idôneo para veicular este tipo de pretensão.
No mérito, ainda serão discutidas inúmeras outras questões, como por exemplo: saber se o Município
dispõe de recursos suficientes para fazer a obra, se há necessidades ainda mais prementes da população,
se existem formas alternativas de solucionar o problema etc.
PROCESSO COLETIVO
Mesmo sem 1 ano de constituição, associação poderá ajuizar ACP para que
fornecedor preste informações ao consumidor sobre produtos com glúten
Como regra, para que uma associação possa propor ACP, ela deverá estar constituída há pelo
menos 1 ano.
Exceção. Este requisito da pré-constituição poderá ser dispensado pelo juiz quando haja
manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do dano, ou pela
relevância do bem jurídico a ser protegido (§ 4º do art. 5º da Lei nº 7.347/85). Neste caso, a
ACP, mesmo tendo sido proposta por uma associação com menos de 1 ano, poderá ser
conhecida e julgada.
Como exemplo da situação descrita no § 4º do art. 5º, o STJ decidiu que:
É dispensável o requisito temporal (pré-constituição há mais de um ano) para associação
ajuizar ação civil pública quando o bem jurídico tutelado for a prestação de informações ao
consumidor sobre a existência de glúten em alimentos.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.600.172-GO, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 33
Quem são os legitimados para propor ação civil pública?
O rol dos legitimados para a ACP está previsto no art. 5º da Lei nº 7.347/85:
Art. 5º Têm legitimidade para propor a ação principal e a ação cautelar:
I - o Ministério Público;
II - a Defensoria Pública;
III - a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios;
IV - a autarquia, empresa pública, fundação ou sociedade de economia mista;
V - a associação que, concomitantemente:
a) esteja constituída há pelo menos 1 (um) ano nos termos da lei civil;
b) inclua, entre suas finalidades institucionais, a proteção ao patrimônio público e social, ao meio
ambiente, ao consumidor, à ordem econômica, à livre concorrência, aos direitos de grupos raciais, étnicos
ou religiosos ou ao patrimônio artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.
Requisito da pré-constituição
REGRA: como vimos acima, para que uma associação possa propor ACP, ela deverá estar constituída há
pelo menos 1 ano.
EXCEÇÃO: este requisito da pré-constituição poderá ser dispensado pelo juiz quando haja manifesto
interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do dano, ou pela relevância do bem jurídico a
ser protegido (§ 4º do art. 5º da Lei nº 7.347/85). Neste caso, a ACP, mesmo tendo sido proposta por uma
associação com menos de 1 ano, poderá ser conhecida e julgada.
Imagine agora a seguinte situação:
Determinada associação de defesa do consumidor ajuizou ACP contra uma rede de lanchonetes
requerendo que ela fosse obrigada a informar, nas embalagens e rótulos de seus produtos, sempre que
houvesse a presença de glúten na composição. Isso com o objetivo de garantir a segurança dos portadores
da doença celíaca.
O juiz extinguiu a ação sem resolução do mérito afirmando que a associação autora não era parte legítima, já
que não cumpriu o requisito do art. 5º, V, "a", da Lei nº 7.347/85 (pré-constituição há pelo menos 1 ano).
A associação interpôs recurso contra a decisão e o tema chegou até o STJ.
A decisão do juiz foi correta, segundo o STJ?
NÃO. O STJ entendeu que o juiz deveria ter dispensado o requisito temporal de 1 ano da associação,
considerando que está presente no caso o interesse social evidenciado pela dimensão do dano e pela
relevância do bem jurídico tutelado.
É fundamental assegurar os direitos de informação e segurança ao consumidor celíaco, que se vê forçado a
seguir uma dieta isenta de glúten, sob pena de sofrer graves riscos à saúde. Desse modo, a pretensão veiculada
na ACP, em última análise, tem por objetivo a garantia de uma vida digna para esse grupo de pessoas.
Em resumo:
É dispensável o requisito temporal (pré-constituição há mais de um ano) para associação ajuizar ação
civil pública quando o bem jurídico tutelado for a prestação de informações ao consumidor sobre a
existência de glúten em alimentos.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.600.172-GO, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 15/9/2016 (Info 591).
Uma última pergunta correlata. Suponha que determinada associação, quando propôs a ACP, não tinha
ainda 1 ano de constituição. No entanto, ela completa este tempo no curso do feito, antes que o juiz
extinga o processo por ilegitimidade. Neste caso, a falta desse requisito é suprida? O magistrado poderá
continuar com o processo?
SIM. Em observância aos princípios da economia processual e efetividade da jurisdição, deve ser
reconhecida a legitimidade ativa da associação que complete 1 ano de constituição durante o curso do
processo (STJ. 3ª Turma. REsp 705.469/MS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 16/06/2005).
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 34
DIREITO PENAL
CLONAGEM DE CARTÃO DE CRÉDITO
Clonagem de cartão de crédito ou débito antes da entrada em vigor da Lei nº 12.737/2012
Importante!!!
A Lei nº 12.737/2012 acrescentou o parágrafo único ao art. 298 do CP prevendo o seguinte:
Art. 298. Falsificar, no todo ou em parte, documento particular ou alterar documento
particular verdadeiro: (...)
Parágrafo único. Para fins do disposto no caput, equipara-se a documento particular o cartão
de crédito ou débito.
Ocorre que mesmo antes da edição da Lei nº 12.737/2012 a jurisprudência do STJ já
considerava que cartão bancário poderia se amoldar ao conceito de "documento".
Assim, a inserção do parágrafo único no art. 298 do Código Penal apenas confirmou que cartão
de crédito/débito é considerado documento, sendo a Lei nº 12.737/2012 considerada como
lei interpretativa exemplificativa.
Logo, ainda que praticada antes da Lei nº 12.737/2012, a conduta de falsificar, no todo ou em
parte, cartão de crédito ou débito é considerada como crime de falsificação de documento
particular (art. 298 do CP).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.578.479-SC, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Rel. para acórdão Min.
Rogerio Schietti Cruz, julgado em 2/8/2016 (Info 591).
Imagine a seguinte situação hipotética:
Em 2011, João falsificou 35 cartões magnéticos de débito de diversas instituições financeiras.
Os cartões clonados seriam utilizados para a prática de furtos em contas bancárias. Ele iria utilizar para
sacar dinheiro dos clientes do caixa eletrônico.
Ocorre que João já estava sendo investigado e a Polícia, cumprindo mandado de busca e apreensão,
apreendeu os cartões que estavam na casa do agente.
Denúncia
Em 2013, o Ministério Público denunciou o agente pela prática do crime previsto no caput do art. 298 do
CPC (falsificação de documento particular):
Art. 298. Falsificar, no todo ou em parte, documento particular ou alterar documento particular verdadeiro:
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa.
A defesa do réu alegoua seguinte tese:
A Lei nº 12.737/2012 incluiu, no art. 298, um parágrafo único, prevendo:
Falsificação de cartão
Parágrafo único. Para fins do disposto no caput, equipara-se a documento particular o cartão de crédito ou
débito.
Ora, se foi necessário que o legislador alterasse o tipo penal para dizer que cartão de crédito ou de débito
é equiparado a documento particular isso significa que, antes da Lei nº 12.737/2012, o cartão de crédito
ou de débito não era considerado documento particular.
Logo, como a conduta do réu foi praticada em 2011, ou seja, antes da Lei nº 12.737/2012, esta alteração
não poderá retroagir para alcançá-la já que se trata de novatio legis in pejus, sendo, portanto, irretroativa.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 35
Resumindo a tese da defesa: antes da Lei nº 12.737/2012, como não havia o parágrafo único do art. 298
do CP, falsificar cartão de crédito ou de débito não poderia ser tipificado como crime de falsificação de
documento público (art. 298). Esta tese foi acolhida pelo STJ?
NÃO.
O conceito de documento abrange o cartão bancário
A Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) define documento como "unidade de registro de
informações, qualquer que seja o suporte ou formato" (art. 4º, II).
Desse modo, documento consiste no registro de uma informação não importante a natureza do suporte
onde isso é feito.
Logo, os dados (informações) gravados na tarja magnética de um cartão bancário constituem um
documento para fins penais.
Por que então houve a alteração legislativa?
O "cartão de crédito" não é algo recente. No entanto, de uns anos para cá ele passou a ser utilizado de
forma ainda mais acentuada, fazendo também com que surgissem mais crimes envolvendo esta
ferramenta econômica.
Diante disso, houve a necessidade de se estabelecer uma proteção penal mais significativa para essas
relações.
Mesmo antes da Lei nº 12.737/2012 STJ já considerava cartão bancário como documento
O STJ, mesmo antes da entrada em vigor da Lei nº 12.737/2012, já entendia que o cartão de crédito ou de
débito se enquadrava no conceito de documento particular para fins de tipificação da conduta,
principalmente porque dele constam dados pessoais do titular e da própria instituição financeira (inclusive
na tarja magnética) e que são passíveis de falsificação. Nesse sentido: STJ. 5ª Turma. HC 43.952/RJ, Rel.
Min. Laurita Vaz, julgado em 15/08/2006.
Inclusão do parágrafo único do art. 298 foi apenas para reforçar
Assim, a inserção do parágrafo único no art. 298 do Código Penal apenas ratificou e tornou explícito o
entendimento jurisprudencial da época, relativamente ao alcance do elemento normativo "documento",
clarificando que cartão de crédito/débito é considerado documento.
Não houve, portanto, uma ruptura conceitual que justificasse considerar, somente a partir da edição da Lei
nº 12.737/2012, cartão de crédito ou de débito como documento.
A Lei nº 12.737/2012, neste ponto, foi apenas uma lei interpretativa que veio em apoio à própria
jurisprudência já então dominante.
Como a jurisprudência era uníssona em reconhecer que cartão bancário era documento para fins do caput
do art. 298 do Código Penal, podemos concluir que a Lei nº 12.737/2012 apenas reproduziu, com palavras
mais inequívocas, os julgados daquela época, tratando-se, portanto, de lei interpretativa exemplificativa.
Resumindo:
Mesmo antes da edição da Lei nº 12.737/2012, que acrescentou o parágrafo único ao art. 298 do CP, a
jurisprudência do STJ já considerava que cartão bancário poderia se amoldar ao conceito de
"documento".
Assim, a inserção do parágrafo único no art. 298 do Código Penal apenas confirmou que cartão de
crédito/débito é considerado documento, sendo a Lei nº 12.737/2012 considerada como lei
interpretativa exemplificativa.
Logo, ainda que praticada antes da Lei nº 12.737/2012, a conduta de falsificar, no todo ou em parte, cartão
de crédito ou débito é considerada como crime de falsificação de documento particular (art. 298 do CP).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.578.479-SC, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Rel. para acórdão Min. Rogerio
Schietti Cruz, julgado em 2/8/2016 (Info 591).
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 36
DIREITO PROCESSUAL PENAL
PRISÃO
O advogado suspenso dos quadros da OAB não tem direito a recolhimento em sala de Estado Maior
O advogado só terá direito à prisão em sala de Estado-Maior se estiver no livre exercício da
profissão, o que não é o caso se ele estiver suspenso dos quadros da OAB.
Assim, decretada a prisão preventiva de advogado, este não terá direito ao recolhimento
provisório em sala de Estado Maior caso sua inscrição na ordem esteja suspensa.
STJ. 6ª Turma. HC 368.393-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 20/9/2016 (Info 591).
Prisão em sala de Estado-Maior
A legislação prevê que os advogados e os integrantes de determinadas carreiras, se forem presos antes do
trânsito em julgado da sentença penal condenatória, possuem o direito de ficar recolhidos não em uma
cela com grades, mas sim em uma sala de Estado-Maior. Veja a redação do art. 7º, V, da Lei nº 8.906/94
(Estatuto da OAB):
Art. 7º São direitos do advogado:
V — não ser recolhido preso, antes de sentença transitada em julgado, senão em sala de Estado Maior,
com instalações e comodidades condignas, assim reconhecidas pela OAB, e, na sua falta, em prisão
domiciliar;
Obs.1: a expressão riscada “assim reconhecidas pela OAB” foi declarada inconstitucional pelo STF no
julgamento da ADI n.1.127/DF. Desse modo, não é a OAB quem tem o poder de definir se o local onde foi
preso o advogado é ou não compatível com a definição de sala de Estado-Maior. Tal análise é feita pelo
juiz/Tribunal que determinou a prisão.
Obs.2: esse direito só é garantido em caso de prisão provisória. Quando houver o trânsito em julgado da
condenação, o cumprimento da pena deverá ocorrer em uma unidade prisional comum, como as demais
pessoas.
Veja as carreiras que possuem a garantia de prisão em sala de Estado-Maior:
Magistrados LC 35/79
Membros do MP Lei 8.625/93
Membros da Defensoria LC 80/94
Advogados públicos federais 13.327/2016
Advogados Lei 8.906/94
Em que consiste sala de Estado-Maior?
Segundo já explicou o ex-Ministro Nelson Jobim, a palavra “Estado-Maior” representa o grupo de Oficiais
que assessora o Comandante das Forças Armadas, do Corpo de Bombeiros ou da Polícia Militar. Logo, sala
de Estado-Maior é o compartimento localizado na unidade militar que é utilizado por eles para o exercício
de suas funções (Voto no HC 81632/SP, DJU em 21/3/2003).
Essa mesma conclusão acima exposta é comungada pelo Ministério da Defesa, que afirma que não existe uma
definição exata do que seja sala de Estado-Maior. Contudo, “aglutinando os costumes da lide castrense e
alicerçado na definição de Estado-Maior, ou seja 'Estado-Maior — Órgão composto de pessoal militar
qualificado, que tem por finalidade assessorar o comandante no exercício do comando' — glossário das Forças
Armadas MD35-G-01 (4ª Edição/2007), pode-se dizer que 'sala de Estado-Maior' é um compartimento de
qualquer unidade militar que possa ser utilizado pelo Estado-Maior para exercer suas funções”.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 37
Problema: inexistência de sala de Estado-Maior em diversas localidades
A prática constata que a grande maioria dos Municípios brasileiros não possui salas de Estado-Maior,
considerando que são poucas as localidades onde existem comandos de unidade militar das Forças
Armadas.
Além disso, nas unidades onde ela existe, normalmente só há uma sala desse tipo, sendo utilizado para osserviços militares. Logo, manter uma pessoa lá presa durante meses inviabilizaria o próprio funcionamento
regular das Forças Armadas, que não poderiam utilizar a sala neste período.
Diante disso, a jurisprudência conferiu uma interpretação teleológica ao dispositivo e passou a entender
que, quando a lei fala que determinada pessoa deve ficar presa em sala de Estado-Maior, isso significa que
ela deverá ficar recolhida em um gabinete (escritório), sem celas, sem grades, e que ofereça instalações
condignas, com condições adequadas de higiene e segurança. Esse gabinete (sala) pode ser localizado em
unidades prisionais ou em batalhões da Polícia Militar.
Em outras palavras, os advogados, membros da Magistratura, MP e Defensoria Pública, quando forem
presos provisoriamente, não precisam ficar em uma sala dentro do Comando das Forças Armadas, mas
devem ser recolhidos em um local equiparado à sala de Estado-Maior, ou seja, em um ambiente separado,
sem grades, localizado em unidades prisionais ou em batalhões da Polícia Militar, que tenha instalações e
comodidades adequadas à higiene e à segurança do preso.
STF. Plenário. Rcl 5826/PR e Rcl 8853/GO, rel. orig. Min. Cármen Lúcia, red. p/ o acórdão Min. Dias Toffoli,
julgados em 18/3/2015 (Info 778).
Se o advogado estiver suspenso dos quadros da OAB, mesmo assim ele terá direito de ficar preso em
sala de Estado Maior?
NÃO.
O advogado só faz jus a essa prerrogativa se estiver no livre exercício da profissão, o que não é o caso
se ele estiver suspenso dos quadros da OAB.
Assim, decretada a prisão preventiva de advogado, este não terá direito recolhimento provisório em
sala de Estado Maior caso sua inscrição na ordem esteja suspensa.
STJ. 6ª Turma. HC 368.393-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 20/9/2016 (Info 591).
Este é também o entendimento do STF:
O Estatuto da Advocacia (Lei nº 8.906/94), em norma não derrogada pela Lei nº 10.258/2001 (que alterou o
art. 295 do CPP), garante, ao Advogado, enquanto não transitar em julgado a sentença penal que o
condenou, o direito de "não ser recolhido preso (...), senão em sala de Estado-Maior (...) e, na sua falta, em
prisão domiciliar" (art. 7º, inciso V). - Trata-se de prerrogativa de índole profissional - qualificável como
direito público subjetivo do Advogado regularmente inscrito na OAB - que não pode ser desrespeitada pelo
Poder Público e por seus agentes, muito embora cesse com o trânsito em julgado da condenação penal.
Doutrina. Jurisprudência. Essa prerrogativa profissional, contudo, não poderá ser invocada pelo Advogado, se
cancelada a sua inscrição (Lei nº 8.906⁄94, art. 11) ou, então, se suspenso, preventivamente, o exercício de
sua atividade profissional, por órgão disciplinar competente (Lei nº 8.906/94, art. 70, § 3º). (...)
STF. 2ª Turma. HC 88702, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 19/09/2006.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 38
SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO
Não se aplica a Súmula 337 do STJ se a denúncia foi julgada totalmente procedente
e pela pena em concreto um dos delitos foi extinto pela prescrição
O réu foi denunciado pela prática de dois crimes em concurso formal. A sentença condenou o
agente pelos dois delitos. Em embargos de declaração foi reconhecida a prescrição da
pretensão punitiva, pela pena em concreto, em relação a um dos crimes.
A pena mínima do delito que restou é igual a 1 ano. Mesmo assim, não se poderá conceder
suspensão condicional do processo em relação a este crime remanescente.
A súmula 337 do STJ afirma: "É cabível a suspensão condicional do processo na
desclassificação do crime e na procedência parcial da pretensão punitiva."
No caso, no entanto, a denúncia foi julgada totalmente procedente e somente após isso foi
reconhecida a prescrição em razão da pena concreta. Assim, não houve procedência PARCIAL
da pretensão punitiva, mas sim integral, não sendo caso de incidência da Súmula 337 do STJ.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.500.029-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 27/9/2016 (Info 591).
NOÇÕES GERAIS SOBRE A SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO
Suspensão condicional do processo é:
- um instituto despenalizador
- oferecido pelo MP ou querelante ao acusado
- que tenha sido denunciado por crime cuja pena mínima seja igual ou inferior a 1 ano
- e que não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime,
- desde que presentes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. 77
do Código Penal).
Previsão legal
A suspensão condicional do processo está prevista no art. 89 da Lei nº 9.099/95. No entanto, vale ressaltar
que não se aplica apenas aos processos do juizado especial (infrações de menor potencial ofensivo), mas
sim em todos aqueles delitos cuja pena mínima seja igual ou inferior a 1 ano, podendo, portanto, a pena
máxima ser superior a 2 anos (ex: descaminho - art. 334 do CP).
Período de prova
Caso o acusado aceite a proposta, o processo ficará suspenso pelo prazo de 2 a 4 anos (período de prova),
desde que ele aceite cumprir determinadas condições impostas pela lei e outras que podem ser fixadas
pelo juízo.
Período de prova é, portanto, o prazo no qual o processo ficará suspenso, devendo o acusado cumprir as
condições impostas neste lapso temporal. O período de prova é estabelecido na proposta de suspensão e
varia de 2 até 4 anos.
Requisitos
Para que seja possível a proposta de suspensão condicional do processo é necessário o preenchimento dos
seguintes requisitos:
o réu deve estar sendo acusado por crime cuja pena mínima é igual ou inferior a 1 ano;
o réu não pode estar sendo processado ou ter sido condenado por outro crime;
devem estar presentes os demais requisitos que autorizam a suspensão condicional da pena,
previstos no art. 77 do Código Penal.
Observações quanto ao primeiro requisito:
Neste cálculo da pena, incluem-se eventuais qualificadoras, privilégios, causas de aumento e de
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 39
diminuição.
Súmula 723-STF: “Não se admite a suspensão condicional do processo por crime continuado, se a soma
da pena mínima da infração mais grave com o aumento mínimo de um sexto for superior a um ano.”
Súmula 243-STJ: O benefício da suspensão do processo não é aplicável em relação às infrações penais
cometidas em concurso material, concurso formal ou continuidade delitiva, quando a pena mínima
cominada, seja pelo somatório, seja pela incidência da majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano.
Aplica-se também nos casos em que a pena cominada for só de multa (STF HC 83.926) e também nas
hipóteses em que a pessoa for acusada da prática de contravenção penal.
Aos crimes praticados com violência doméstica e familiar contra a mulher não é possível suspensão
condicional do processo mesmo que a pena seja igual ou inferior a 1 ano.
ANÁLISE DA SÚMULA 337 DO STJ
O STJ possui o seguinte enunciado:
Súmula 337-STJ: É cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e na
procedência parcial da pretensão punitiva.
Vimos acima que só cabe suspensão condicional do processo se o crime pelo qual a pessoa foi acusada
possuir pena mínima inferior ou igual a 1 ano.
Desclassificação do crime
Algumas vezes pode acontecer de a pessoa ser denunciada por um crime que não admite suspensão
condicional do processo (pelo fato de a pena mínima ser superior a 1 ano) e, ao final, o juiz percebe que
aquela imputação estava incorreta e que o réu praticou crime diferente, cuja pena mínima é igual ou
inferior a 1 ano.
Ex: o réu foi denunciado por contrabando, crime previsto no art. 334-A do CP. Como a pena mínima do
contrabandoé de 2 anos, no momento da denúncia não cabia ao MP oferecer suspensão condicional do
processo. Houve toda a instrução e, ao final, o juiz constata que a mercadoria importada não era proibida
e que, na verdade, o agente poderia tê-la importado, mas desde que pagasse regularmente os impostos
devidos, o que não aconteceu. O magistrado conclui, portanto, que a conduta se amolda ao descaminho,
delito que permite suspensão condicional do processo porque a pena mínima é de 1 ano (art. 334).
Nesta situação, o juiz deverá intimar o MP para, diante da nova classificação jurídica, oferecer ao réu a
proposta de suspensão condicional do processo.
Repare que como a instrução já acabou, o magistrado poderia, em tese, condenar o réu por descaminho.
No entanto, isso não seria justo porque em virtude da imputação equivocada feito pelo MP o acusado
ficou privado de aceitar um benefício despenalizador que é, na maioria das vezes, mais benéfico do que
ser condenado.
Pensando nessa situação, o STJ editou, em 2007, a Súmula 337 afirmando que se houver desclassificação
do crime, será cabível a suspensão condicional do processo.
Em 2008, o legislador, percebendo que este entendimento jurisprudencial está correto, resolveu alterar o
CPP a fim de deixar isso expressamente previsto. Foi, então, incluído o § 1º ao art. 383, com a seguinte
redação:
Art. 383. O juiz, sem modificar a descrição do fato contida na denúncia ou queixa, poderá atribuir-lhe
definição jurídica diversa, ainda que, em consequência, tenha de aplicar pena mais grave.
§ 1º Se, em consequência de definição jurídica diversa, houver possibilidade de proposta de suspensão
condicional do processo, o juiz procederá de acordo com o disposto na lei. (Incluído pela Lei nº
11.719/2008).
Procedência parcial da pretensão punitiva
Vimos também que, no cálculo da pena mínima inferior ou igual a 1 ano, deverá ser incluído o aumento
decorrente de concurso material, formal ou crime continuado. Assim, não caberá suspensão condicional
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do processo se a pessoa cometeu dois ou mais crimes em concurso material, concurso formal ou
continuidade delitiva, e a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela incidência da majorante,
ultrapassa o limite de 1 ano (Súmula 243 do STJ).
Ex: o MP denuncia o agente pela prática de descaminho (art. 334) em concurso formal com a falsidade
ideológica (art. 299). A pena mínima do descaminho e a pena mínima da falsidade ideológica são iguais a 1
ano, quando isoladamente consideradas. No entanto, para fins de suspensão, elas deverão ser contadas
aplicando-se a regra do concurso formal (art. 70). Logo, deverá haver aumento de 1/6 até 1/2. Enfim,
havendo este aumento, não caberá suspensão porque a pena mínima ultrapassa 1 ano.
Pode acontecer, no entanto, de o MP denunciar o réu por dois ou mais crimes supostamente praticados
em concurso material, formal ou em continuidade delitiva e, o juiz, ao final da instrução, perceber que
este concurso ou continuidade não cabe naquele caso concreto. Desse modo, desaparece o óbice que
havia para a concessão da suspensão condicional e o benefício deverá ser oferecido mesmo já estando, em
tese, no final do processo.
Ex: o MP denuncia o réu pela prática de descaminho (art. 334) em concurso formal com a falsidade
ideológica (art. 299). Ao final da instrução, o juiz constata que o documento falso foi utilizado unicamente
para praticar o crime de descaminho e que não poderá mais ser empregado em nenhum outro delito
(perdeu sua potencialidade lesiva). Neste caso, segundo a jurisprudência, o falso deverá ser absorvido pelo
crime-fim (descaminho). Em outras palavras, a acusação quanto à falsidade ideológica deverá ser julgada
improcedente, mantendo-se apenas a imputação de descaminho.
Mais uma vez, não seria justo condenar direto o réu por descaminho sem lhe oferecer o benefício da
suspensão do processo já que ele só não teve direito a essa proposta por causa da imputação do MP que
foi excessiva. Pensando nessa situação, o STJ preconiza, na Súmula 337, que, em caso de procedência
parcial da pretensão punitiva, será cabível a suspensão condicional do processo.
Veja novamente a redação da Súmula 337 para verificar se compreendeu bem o tema:
Súmula 337-STJ: É cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e na
procedência parcial da pretensão punitiva.
PRESCRIÇÃO PELA PENA EM CONCRETO E SÚMULA 337
Imagine agora a seguinte situação hipotética:
João foi denunciado pela pratica dos crimes do art. 2º da Lei nº 8.176/91 e do art. 55 da Lei nº 9.605/98,
em concurso formal:
Art. 2º Constitui crime contra o patrimônio, na modalidade de usurpacão, produzir bens ou explorar
matéria-prima pertencentes à União, sem autorização legal ou em desacordo com as obrigações impostas
pelo título autorizativo.
Pena: detenção, de um a cinco anos e multa.
Art. 55. Executar pesquisa, lavra ou extração de recursos minerais sem a competente autorização,
permissão, concessão ou licença, ou em desacordo com a obtida:
Pena - detenção, de seis meses a um ano, e multa.
Repare que a pena mínima dos dois delitos é inferior a 1 ano. No entanto, no momento da denúncia o
acusado não teve direito à suspensão condicional do processo porque foi a ele imputado concurso formal
de crimes (Súmula 723-STF).
Ao final da instrução, o réu foi condenado pela prática dos dois delitos.
Ocorre que a defesa percebeu que, pela pena em concreto, houve prescrição do crime do art. 55 da Lei nº
9.605/98.
Diante disso, o advogado, por meio de embargos de declaração, requereu que seja declarada extinta a
punibilidade pela prescrição em relação ao delito do art. 55 da Lei nº 9.605/98 e, em consequência, como
só sobrará o crime do art. 2º da Lei nº 8.176/91, que seja oferecido ao réu o benefício da suspensão
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condicional do processo, aplicando-se a Súmula 337 do STJ.
A tese da defesa foi acolhida pelo STJ?
NÃO. A declaração de extinção da punibilidade, no caso, deu-se pela pena em concreto. Portanto, foi
necessária uma prévia condenação, na qual foi fixada a reprimenda. Somente a partir deste quantum
concreto, verificou-se qual seria o prazo prescricional, dentre aqueles inscritos no art. 109 do CP e, uma
vez constatado o cumprimento do lapso, declarou-se extinta a punibilidade do crime do art. 55 da Lei nº
9.605/98.
Conclui-se, então, que, primeiro, a denúncia foi julgada totalmente procedente e somente após isso foi
reconhecida a prescrição em razão da pena concreta. Assim, não houve procedência PARCIAL da pretensão
punitiva, mas sim integral, não sendo caso de incidência da Súmula 337 do STJ.
Em suma:
Após a sentença penal que condenou o agente pela prática de dois crimes em concurso formal, o
reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva em relação a apenas um dos crimes em razão da
pena concreta (art. 109 do CP) não autoriza a suspensão condicional do processo em relação ao crime
remanescente.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.500.029-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 27/9/2016 (Info 591).
O STF também já decidiu nesse sentido:
(...) In casu, o paciente foi condenado à pena de 1 (um) ano e 1 (um) mês de reclusão e 10 (dez) dias-multa
pela prática do crime de alteração de aspecto ou estrutura de edificação ou local especialmente protegido
(art. 63 da Lei nº 9.605/1998) e à reprimenda de 1 (um) mês e 15 (quinze) dias de detenção pela prático do
delito de desobediência (CP, art. 330) pelo juízo a quo, decisão confirmada pelo Tribunal Regional Federal
da 1ª Região. Todavia, em sede de embargos de declaração opostos pela defesa, a Corte Regional
reconheceu a prescrição da pretensão punitiva em relaçãoao crime de desobediência, o que não autoriza
a suspensão condicional do processo, que ser oportunizada quando do oferecimento da denúncia.
Ademais, a prescrição, nestas situações, não se equipara às situações jurídicas que autorizam a sursis
processual constantes da Súmula nº 337/STJ (“É cabível a suspensão condicional do processo na
desclassificação do crime e na procedência parcial da pretensão punitiva””). (...)
STF. 1ª Turma. RHC 116399, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 25/06/2013.
COMUTAÇÃO DE PENA
Condenado que pratica falta grave nos 12 meses antes da publicação do decreto de indulto
natalino não terá direito ao benefício mesmo que a homologação ocorra após o decreto
O benefício da comutação de penas previsto no Decreto de indulto natalino deve ser negado
quando o apenado tiver praticado falta disciplinar de natureza grave nos 12 meses anteriores
à publicação do Decreto, mesmo que a respectiva decisão homologatória tenha sido proferida
posteriormente.
Assim, não terá direito de comutação de pena, o apenado que praticar falta grave no lapso de
12 meses anteriores à publicação do Decreto Presidencial, desde que homologada a falta,
ainda que a decisão seja posterior ao Decreto.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.549.544-RS, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 14/9/2016 (Info 591).
STF. 2ª Turma. RHC 133443/SC, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 04/10/2016 (Info 842).
STF. 2ª Turma. HC 132236/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 30/8/2016 (Info 837).
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 42
Indulto e comutação de pena
O indulto é um benefício concedido por Decreto do Presidente da República por meio do qual os efeitos
executórios da condenação são apagados (deixam de existir).
Comutação é o mesmo que indulto parcial, ou seja, ocorre quando o Presidente da República, em vez de
extinguir os efeitos executórios da condenação, decide apenas diminuir a pena imposta ou substituí-la por
outra mais branda.
Assim, temos:
a) indulto pleno: quando extingue totalmente a pena.
b) indulto parcial: quando somente diminui ou substitui a pena. Neste caso, é chamado de comutação.
Indulto natalino
É bastante comum o Presidente da República editar um decreto, no final de todos os anos, concedendo
indulto e comutação de pena. Esse decreto é conhecido como “indulto natalino”.
No decreto de indulto já constam todas as condições para a concessão do benefício. Caso o apenado
atenda a esses requisitos, o juiz das execuções deve reconhecer o direito, extinguindo a pena.
Feitas estas considerações, imagine a seguinte situação adaptada:
Em 24/12/2013, foi publicado o Decreto 8.172/2013 concedendo indulto a todos os indivíduos que se
enquadravam nas hipóteses ali descritas.
No momento em que o Decreto foi publicado, João estava cumprindo pena por ter sido condenado com
trânsito em julgado pela prática do crime X.
O advogado de João formulou pedido ao juiz das execuções penais para que reconhecesse ter ele direito à
comutação de pena.
O juiz, contudo, negou o pedido sob o argumento de que João praticou, em 05/11/2013, falta grave,
circunstância que impede a concessão do benefício, conforme previsto no art. 5º do Decreto 8.172/2013:
Art. 5º A declaração do indulto e da comutação de penas previstos neste Decreto fica condicionada à
inexistência de aplicação de sanção, reconhecida pelo juízo competente, em audiência de justificação,
garantido o direito ao contraditório e à ampla defesa, por falta disciplinar de natureza grave, prevista na
Lei de Execução Penal, cometida nos doze meses de cumprimento da pena, contados retroativamente à
data de publicação deste Decreto.
Desse modo, o art. 5º do Decreto 8.172/2013 (publicado em 24/12/2013) prevê que a pessoa não pode ser
beneficiada com o indulto se tiver recebido sanção disciplinar grave no período de 24/12/2013 até 24/12/2012.
Argumento da defesa
A defesa não concordou com a decisão e argumentou o seguinte:
João realmente praticou a falta grave em 05/11/2013. No entanto, esta somente foi homologada em
05/03/2014, ou seja, em data posterior à publicação do Decreto (24/12/2013). Para a defesa, o art. 5º só
impede a concessão do indulto/comutação se a homologação judicial da falta grave ocorreu antes da
publicação do Decreto 8.172/2013.
A tese da defesa é acolhida pela jurisprudência do STF/STJ?
NÃO.
O benefício da comutação de penas previsto no Decreto de indulto natalino deve ser negado quando o
apenado tiver praticado falta disciplinar de natureza grave nos 12 meses anteriores à publicação do
Decreto, mesmo que a respectiva decisão homologatória tenha sido proferida posteriormente.
Assim, não terá direito de comutação de pena, o apenado que praticar falta grave no lapso de 12 meses
anteriores à publicação do Decreto Presidencial, desde que homologada a falta, ainda que a decisão seja
posterior ao Decreto.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 43
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.549.544-RS, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 14/9/2016 (Info 591).
No mesmo sentido:
Se o condenado praticou falta grave no período de 12 meses antes da publicação do decreto de indulto
natalino, ele não poderá receber o benefício mesmo que a homologação judicial desta sanção disciplinar
tenha ocorrido em data posterior à publicação do decreto.
STF. 2ª Turma. HC 132236/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 30/8/2016 (Info 837).
Se fosse exigido que a homologação judicial ocorresse antes da publicação do decreto, as faltas graves
praticadas próximas ao final do ano acabariam não tendo reflexo sobre o indulto natalino, considerando
que não haveria tempo suficiente para apurar o cometimento desta falta grave, conferindo ampla defesa e
contraditório.
Uma vez que se exige a realização de audiência de justificação, assegurados o contraditório e a ampla
defesa, não faz sentido que a homologação judicial deva ocorrer dentro do prazo de 12 meses, sob pena
de nem sequer haver tempo hábil para a apuração de eventual falta grave praticada em data próxima à
publicação do Decreto.
DIREITO TRIBUTÁRIO
PROCESSO TRIBUTÁRIO
O § 2º do art. 12 da Portaria 643/2009 da PGFN é ilegal
Apenas alguns concursos federais!
Independentemente de renegociação das dívidas em que o devedor figure como
corresponsável, é possível renegociar, com base no art. 8º da Lei nº 11.755/2008, as dívidas
em que ele figure como devedor principal.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.534.487-PR, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 29/8/2016 (Info 591).
Securitização da dívida rural brasileira
Na década de 90, muitos produtores rurais obtiveram empréstimos junto a instituições financeiras, em
especial o Banco do Brasil.
Ocorre que chegou a data do vencimento e a maioria deles não conseguiu pagar as dívidas.
Essa situação atingiu seu ápice no ano de 1995 quando o Banco do Brasil apresentou enorme prejuízo
decorrente da alta inadimplência dos produtores rurais.
Diante deste cenário, a União, preocupada tanto com os prejuízos do banco como com a situação dos
produtores rurais, decidiu "comprar" esses créditos do Banco do Brasil, subrogando-se na posição de
credor e, em seguida, instituiu um programa de renegociação das dívidas, com parcelamentos, remissões e
alongamento dos prazos de pagamento.
Essa operação ficou conhecida como securitização da dívida rural brasileira.
Neste período inicial do programa, destacam-se três atos normativos:
Lei nº 9.138/95, que autorizou a "equalização dos encargos financeiros" para os créditos rurais.
Resolução nº 2.238/96, do Conselho Monetário Nacional, que regulamentou a formalização das
operações de renegociação de crédito rural.
Resolução nº 2.471/98, do CMN: os produtores rurais que aceitassem aderir aoprograma de
alongamento de suas dívidas deveriam "comprar" (promessa de pagamento) títulos emitidos pelo
Tesouro Nacional com valor de face equivalente à sua dívida a ser renegociada e repassá-los aos
bancos credores. Dessa forma, o banco ficaria com os títulos do Governo como garantia dos seus
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 44
créditos. Em outras palavras, é como se a União tivesse falado aos bancos: fiquem com estes títulos
emitidos pelo Tesouro Nacional como garantia e se os produtores rurais não lhe pagarem, vocês
podem cobrar da União os valores nele estampados.
Vale ressaltar também que a União transferiu para si o risco das operações. Assim, os créditos passaram a
ser cobrados como dívida pública pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN), implicando, em
caso de inadimplemento, a inclusão do débito em Dívida Ativa da União .
De lá até os dias atuais, houve ainda pelo menos mais umas seis leis e inúmeras resoluções instituindo
novas regras de renegociações das dívidas. Quando chegava perto da data do vencimento, o Governo
percebia que a inadimplência continuava e concedia novos prazos e condições. Ainda hoje se discute no
Congresso Nacional um novo projeto de lei renegociando tais dívidas.
Obs: o tema renderia um livro e envolve aspectos não apenas relacionados com o Direito, mas também
com economia. Dessa forma, a exposição acima foi extremamente simplória. Tecnicamente, o correto nem
seria dizer que a União "comprou" esses créditos. No entanto, como não é necessário aprofundar o
assunto porque esta parte inicial não é cobrada em concursos, o que foi exposto é apenas para que você
entenda o motivo de estas dívidas terem se transformado em créditos tributários da União.
Lei nº 11.775/2008
Disse acima que foram editadas uma série de normas tratando sobre o assunto. Uma delas foi a Lei nº
11.775/2008, que instituiu medidas de estímulo à liquidação ou regularização de dívidas originárias de
operações de crédito rural e de crédito fundiário.
O art. 8º da Lei nº 11.755/2008 prevê a possibilidade de renegociação de dívidas originárias de operações
de crédito rural inscritas em Dívida Ativa da União.
Portaria 643/2009
A Procuradoria da Fazenda Nacional editou a Portaria nº 643/2009 para orientar os Procuradores e os
devedores sobre como fazer essa renegociação.
O § 2º do art. 12 desta Portaria prevê que o devedor só poderá renegociar as dívidas em que ele figure
como devedor principal se ele também renegociar as dívidas em que é devedor corresponsável. Veja:
Art. 12. A consolidação dos débitos incluirá todas as inscrições originárias de operações de crédito rural
descritas no art. 1º existentes em nome do devedor no mês do pedido de adesão aos benefícios desta
Portaria.
(...)
§ 2º Serão incluídos na consolidação tanto os débitos em que o devedor figura como responsável principal
quanto aqueles em que figura como co-responsável.
Portaria exigiu mais do que a Lei
Ocorre que ao se analisar a redação do art. 8º da Lei percebe-se que não se exigiu que a renegociação de
dívida deveria englobar também aquelas em que o devedor figura como corresponsável.
Logo, o art. 12, § 2º, da Portaria 643/2009 da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional extrapolou o Poder
Regulamentar, ao prever que, na negociação da dívida, deverão constar tanto os débitos em que o
devedor figura como responsável principal quanto aqueles em que figura como corresponsável, o que o
torna ilegal.
Os atos normativos administrativos gerais não podem extrapolar seu poder regulamentar, sob pena de
tornarem-se ilegais.
Desse modo, o §2º do art. 12 da Portaria 643/2009 da PGFN foi além do delimitado pelo art. 8º da Lei
11.755/2008, ao incluir na consolidação da renegociação os débitos em que o devedor figura como
devedor principal e aquele em que figura como corresponsável (avalista).
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 45
PIS/PASEP/COFINS
Juiz não pode extinguir execução fiscal de ofício invocando
a inconstitucionalidade do art. 3º, § 1°, da Lei nº 9.718/98
A declaração de inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/1998, pelo STF, não
afasta automaticamente a presunção de certeza e de liquidez da CDA, motivo pelo qual é
vedado extinguir de ofício, por esse motivo, a Execução Fiscal.
Três razões para isso: 1) existem casos em que a base de cálculo apurada do PIS e da Cofins é
composta integralmente por receitas que se enquadram no conceito clássico de faturamento;
2) ainda que haja outras receitas estranhas à atividade operacional da empresa, é possível
expurgá-las do título mediante simples cálculos aritméticos; 3) eventual excesso deve ser
alegado como matéria de defesa, não cabendo ao juízo da Execução inverter a presunção de
certeza, de liquidez e de exigibilidade do título executivo.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.386.229-PE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 10/8/2016 (recurso
repetitivo) (Info 591).
Os chamados PIS e COFINS são duas diferentes “contribuições de seguridade social”.
Atualmente, o PIS é chamado de PIS/PASEP.
PIS/PASEP
O sentido histórico dessas duas siglas é o seguinte:
PIS: Programa de Integração Social.
PASEP: Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público.
O PIS e o PASEP foram criados separadamente, mas desde 1976 foram unificados e passaram a ser
denominados de PIS/PASEP.
COFINS
Significa Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social.
A COFINS (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social) é uma espécie de tributo instituída pela
Lei Complementar 70/91, nos termos do art. 195, I, “b”, da CF/88.
Lei nº 9.718/98
A Lei nº 9.718/98 previu o seguinte:
Art. 2º As contribuições para o PIS/PASEP e a COFINS, devidas pelas pessoas jurídicas de direito privado,
serão calculadas com base no seu faturamento, observadas a legislação vigente e as alterações
introduzidas por esta Lei.
Segundo a Lei, faturamento = receita bruta.
Até aí, tudo bem. O problema foi quando o legislador conceituou o que seria receita bruta. Isso estava no §
1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98. Confira:
§ 1º Entende-se por receita bruta a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo
irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas.
(Atualmente revogado pela Lei nº 11.941/2009)
Inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98
O Fisco fez lançamento e constituiu inúmeros créditos tributários utilizando este fato gerador, conforme a
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 46
definição dada pelo § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98.
Ocorre que diversas empresas não se conformaram e questionaram a constitucionalidade desse
dispositivo alegando que ele ampliou a base de cálculo do PIS e da COFINS, criando nova fonte de custeio
da seguridade, sem lei complementar.
O STF concordou com a tese dos contribuintes e decidiu que é inconstitucional a ampliação da base de
cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98.
STF. Plenário. RE 585235 QO-RG, Rel. Min. Cezar Peluso, julgado em 10/09/2008 (repercussão geral).
Extinção de ofício das execuções ficais
Havia milhares de execuções fiscais propostas pela União cobrando o PIS e a COFINS com base nos
critérios previstos no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98.
Inúmeros juízes federais começaram a extinguir de ofício tais execuções com base na decisão do STF.
Alegaram que a certidão de dívida ativa apresenta como fundamento legal o § 1º do art. 3º da Lei nº
9.718/98 e, como este foi declarado inconstitucional, esta CDA não possui liquidez, certeza e exigibilidade.
O STJ concordou com esteprocedimento?
NÃO.
A declaração de inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º, da Lei n. 9.718/1998, pelo STF, não afasta
automaticamente a presunção de certeza e de liquidez da CDA, motivo pelo qual é vedado extinguir de
ofício, por esse motivo, a Execução Fiscal.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.386.229-PE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 10/8/2016 (recurso repetitivo)
(Info 591).
Realmente o conceito de receita bruta dado pelo legislador foi muito elástico e abrangeu quantias que não
deveriam ter sido aí incluídas. No entanto, não se pode extinguir todas as execuções fiscais envolvendo PIS
e Cofins, mesmo que mencionem o referido § 1º. Foram apontadas três razões para isso:
1) existem casos em que a base de cálculo apurada do PIS e da Cofins é composta integralmente por
receitas que se enquadram no conceito clássico de faturamento. Em outras palavras, nem todas as
empresas possuíam faturamento que abrangia as verbas incluídas pelo § 1º do art. 3º.
Se o faturamento e a receita bruta do contribuinte forem equivalentes - o que ocorre quando o sujeito
passivo tributário possui apenas receitas operacionais -, a declaração de inconstitucionalidade não
produzirá qualquer efeito prático, nada havendo a retificar na certidão de dívida ativa, devendo a
execução prosseguir normalmente.
2) ainda que haja outras receitas estranhas à atividade operacional da empresa, é possível expurgá-las do
título mediante simples cálculos aritméticos. Desse modo, não faz sentido extinguir a execução se apenas
a parte indevida poderá ser excluída.
3) eventual excesso deve ser alegado como matéria de defesa, não cabendo ao juízo da Execução inverter
a presunção de certeza, de liquidez e de exigibilidade do título executivo.
Assim, a despeito da inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, a CDA conserva seus atributos.
Informativo 591-STJ (04 a 18/10/2016) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 47
EXERCÍCIOS
Julgue os itens a seguir:
1) (PGE/MS 2014) É impenhorável o único imóvel residencial do devedor que esteja locado a terceiros, desde que a
renda obtida com a locação seja revertida para a subsistência ou a moradia da sua família. ( )
2) É impenhorável o único imóvel comercial do devedor que esteja alugado quando o valor do aluguel é destinado
unicamente ao pagamento de locação residencial por sua entidade familiar. ( )
3) O segurador tem ação regressiva contra o causador do dano, pelo que efetivamente pagou, até ao limite previsto
no contrato de seguro. ( )
4) A despeito de o segurado ter outorgado termo de quitação ou renúncia ao causador do sinistro, o segurador terá
direito a ser ressarcido, em ação regressiva contra o autor do dano, das despesas havidas com o reparo ou
substituição do bem sinistrado, salvo se o responsável pelo acidente, de boa-fé, demonstrar que já indenizou o
segurado pelos prejuízos sofridos, na justa expectativa de que estivesse quitando, integralmente, os danos
provocados por sua conduta. ( )
5) Discorra sobre o princípio da competência-competência na arbitragem e sua relação com o compromisso arbitral
"patológico".
6) (PGM São Luís 2016 FCC) Tratando-se do direito de propriedade, de acordo com o Código Civil, as limitações do
direito de vizinhança se impõem somente a imóveis contíguos. ( )
7) (Promotor MP/SC 2014) A passagem forçada é direito de vizinhança que não exige registro, enquanto que a
servidão é um direito real sobre coisa alheia e tem sua constituição com o registro no Cartório de Registro de
Imóveis. Enquanto a passagem forçada decorre da lei e é uma limitação ao direito de propriedade, a servidão
limita o domínio e constitui-se mediante declaração expressa dos proprietários, ou por testamento, e
subsequente registro no Cartório de Registro de Imóveis. ( )
8) O proprietário de imóvel não tem direito de construir aqueduto no terreno do seu vizinho, sem o consentimento
deste, para receber águas provenientes de outro imóvel, ainda que não existam outros meios de passagem de
águas para a sua propriedade. ( )
9) (Juiz TJ/GO 2012 FCC) No contrato de franquia um empresário, denominado franqueador, detentor de marca ou
produto, concede, mediante remuneração, o seu uso a outra pessoa, denominada franqueado, que a explorará
mediante vínculo empregatício com o franqueador. ( )
10) (Juiz TJDFT 2016 CESPE) Aplicam-se, na relação entre o franqueador e o franqueado, os princípios e as normas
protetivas do CDC, sendo, por força da presumida hipossuficiência do consumidor aderente (franqueado), nula a
cláusula de eleição de foro, estipulada em favor do franqueador, em contrato de franchising firmado por adesão. ( )
11) Em que consiste o "desconto de pontualidade"? Trata-se de prática comercial abusiva, vedada pelo Código de
Defesa do Consumidor?
12) O contrato de prestação de serviços educacionais está sujeito às disposições contidas no Código de Defesa do
Consumidor - CDC. ( )
13) Instituição de ensino superior não pode recusar a matrícula de aluno aprovado em vestibular em razão de
inadimplência em curso diverso anteriormente frequentado por ele na mesma instituição. ( )
14) Discorra sobre o requisito da pré-constituição para ajuizamento da ação civil pública.
15) (Promotor MP/GO 2014) De acordo com a Lei da Ação Civil Pública, o requisito da pré-constituição das
associações há pelo menos 1 (um) ano para propor ação civil pública, constitui requisito imprescindível, não
podendo ser dispensado pelo juiz mesmo diante da relevância do bem jurídico a ser protegido. ( )
16) (Juiz TJ/MS 2015) Quanto à ação civil pública, o requisito da pré-constituição poderá ser dispensado pelo juiz,
quando haja manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do dano, ou pela relevância
do bem jurídico a ser protegido. ( )
17) É dispensável o requisito temporal (pré-constituição há mais de um ano) para associação ajuizar ação civil pública
quando o bem jurídico tutelado for a prestação de informações ao consumidor sobre a existência de glúten em
alimentos. ( )
18) (Juiz TJ/PR 2013) Em matéria de proteção contratual, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, é nula
de pleno direito a cláusula contratual relativa a fornecimento de produtos e serviços que determine a utilização
compulsória de arbitragem. ( )
19) (Juiz TJ/SP 2013) Somente o Poder Judiciário pode decidir acerca da validade e eficácia da convenção de
arbitragem e do contrato que contenha a cláusula compromissória, de sorte que, em caso de tal alegação, o
Tribunal Arbitral deve submeter a questão ao juiz togado competente. ( )
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20) Não é possível a instituição de cláusula compromissória em contrato de franquia. ( )
21) Se, no âmbito de Assembleia Geral de Credores, a maioria deles - devidamente representados pelas respectivas
classes - optar, por meio de dispositivo expressamente consignado em plano de recuperação judicial, pela supressão
de todas as garantias fidejussórias e reais existentes em nome dos credores na data da aprovação do plano, todos
eles - inclusive os que não compareceram à Assembleia ou os que, ao comparecerem, abstiveram-se ou votaram
contrariamente à homologação do acordo - estarão indistintamente vinculados a essa determinação. ( )
22) A depender das particularidades e circunstâncias do caso concreto, pode ser aplicada, com fundamento no art.
122, II, do ECA, medida de internação ao adolescente infrator que antes tenha cometido apenas uma outra
infração grave. ( )
23) (Juiz TJDFT 2015 CESPE) A medida socioeducativa de internação comporta prazo determinado não superior a três
anos, devendo o juiz considerar, na sentença, o fatode ter havido, ou não, reiteração no cometimento de
infrações graves. ( )
24) (Promotor MP/SP 2012) A medida socioeducativa de internação só poderá ser aplicada quando se tratar de ato
infracional cometido por criança ou adolescente, mediante grave ameaça ou violência à pessoa, por reiteração no
cometimento de outras infrações graves e por descumprimento reiterado e injustificável da medida
anteriormente imposta. ( )
25) As peças que devem formar o instrumento do agravo podem ser apresentadas em DVD. ( )
26) (Juiz TJ/SP 2014) Em embargos de terceiro, pouco importa quem deu causa à constrição indevida para fins de
suportar a condenação em honorários advocatícios. ( )
27) Nos embargos de terceiro cujo pedido foi acolhido para desconstituir a constrição judicial, os honorários
advocatícios serão arbitrados com base no princípio da causalidade, responsabilizando-se o atual proprietário
(embargante), se este não atualizou os dados cadastrais. Os encargos de sucumbência serão suportados pela
parte embargada, porém, na hipótese em que esta, depois de tomar ciência da transmissão do bem, apresentar
ou insistir na impugnação ou recurso para manter a penhora sobre o bem cujo domínio foi transferido para
terceiro. ( )
28) Não é cabível ação civil pública proposta por Ministério Público Estadual para pleitear que Município proíba
máquinas agrícolas e veículos pesados de trafegarem em perímetro urbano deste e torne transitável o anel viário
da região. ( )
29) Se praticada antes da Lei nº 12.737/2012, a conduta de falsificar, no todo ou em parte, cartão de crédito ou
débito não pode ser considerada como crime de falsificação de documento particular (art. 298 do CP). ( )
30) O advogado só terá direito à prisão em sala de Estado-Maior se estiver no livre exercício da profissão, o que não
é o caso se ele estiver suspenso dos quadros da OAB. ( )
31) (Juiz Federal TRF4 2012) É incabível a suspensão condicional do processo na hipótese de procedência parcial da
pretensão punitiva, tendo em vista que sua admissibilidade regula-se pelo teor da denúncia, tal qual esta é
deduzida pelo Ministério Público. ( )
32) (DPE/PR 2014) É cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e na procedência
parcial da pretensão punitiva. ( )
Gabarito
1. C 2. C 3. C 4. C 5. - 6. E 7. C 8. E 9. E 10. E
11.- 12.C 13.C 14.- 15.E 16.C 17.C 18.C 19.E 20.E
21.C 22.C 23.E 24.E 25.C 26.E 27.C 28.E 29.E 30.C
31.E 32.C