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Profª Drª Marta Zanini 
	Data
	17/03/26
	Aula
	12ª
	Arquivo
	pscmt_12_fidedignidade
	Matéria
	959W Psicometria 
Aula 12 - Tema: Fidedignidade.
1. Unidade de análise e variáveis latentes
- A unidade de interesse é o sujeito e sua posição em traços psicológicos que não são diretamente observáveis: variáveis latentes (por exemplo, habilidade, sintoma de depressão, nota em matemática).
- Variáveis latentes são fenómenos ocultos inferidos a partir de indicadores observáveis (respostas a itens). Sintomas e comportamentos servem como evidência, não como medida direta.
2. Comparação entre Teoria Clássica dos Testes (TCT) e Teoria da Resposta ao Item (TRI / IRT)
- TCT: foca no teste como um todo; resultados são analisados como somas ou médias do desempenho da amostra (estimação da média populacional).
- TRI: analisa cada item individualmente; estima-se como cada item contribui para medir o traço latente, oferecendo precisão por nível de traço (medida individualizada, não somente para participantes medianos).
- Aplicações práticas: sistemas de correção e softwares estatísticos especializados são usados para estimar parâmetros de itens segundo a TRI.
3. Construto e escala
- Construto: definição operacional do traço latente que se pretende medir (ex.: nível de habilidade, estresse, depressão).
- A escala/teses de itens traduzem o construto em perguntas e opções de resposta; é necessária coerência teórica entre construto e itens.
4. Curva característica do item (Item Characteristic Curve — ICC)
- Definição: representação matemática da relação entre o nível do traço (θ, eixo X) e a probabilidade de responder corretamente ou de manifestar determinada resposta (eixo Y).
- Eixos e padronização: θ costuma ser padronizado em Z-scores (variação entre aproximadamente −3 e +3); θ = representa a média da população de referência.
- Leitura da curva: interseção com 50% de probabilidade define a dificuldade do item; inclinação da curva próximo ao ponto médio indica discriminação; nível assintótico inferior indica probabilidade de acerto ao acaso (parâmetro de chute).
5. Interpretação prática do eixo θ 
- θ = : indivíduo na média da população — exemplo numérico usado: média de pontuação 7 → θ = corresponde a nota 7.
- θ = +1: uma unidade de desvio-padrão acima da média → se desvio-padrão = 1 ponto, nota = 8; θ = −2: duas unidades abaixo, nota = 5 (exemplos demonstrativos de localização na escala).
6. Parâmetros fundamentais da TRI (3 parâmetros principais)
- Parâmetro a — discriminação:
 - Mede a capacidade do item de diferenciar indivíduos com níveis diferentes do traço.
 - Valores típicos: entre e 3; valores aceitáveis práticos citados entre ,6 e 1,8; quanto maior, melhor a discriminação.
 - Impacto na curva: maior a → curva mais inclinada, pequena variação em θ produz grande variação na probabilidade de acerto.
 - Exemplo aplicado: pergunta sobre chorar com formulação pobre não discrimina bem entre quem tem maior ou menor intensidade de tristeza.
- Parâmetro b — dificuldade:
 - Localização da ICC no eixo θ onde a probabilidade de acerto é 50%.
 - Itens com b maior exigem um nível de traço mais alto para atingir 50% de probabilidade; itens com b menor são mais fáceis.
 - Exemplo comparativo: item A cruza 50% em θ = −1 (mais fácil) e item B cruza 50% em θ = +2 (mais difícil).
- Parâmetro c — chance de acerto ao acaso (guessing):
 - Valor assintótico inferior da ICC; representa probabilidade mínima de acerto mesmo com baixo θ (por chute ou resposta aleatória).
 - Exemplo: prova de alternativas com 5 opções gera c ≈ ,20 (20% de chance de acerto ao acaso); com 4 alternativas c ≈ ,25.
 - Itens de escala (não dicotômicos) têm padrão diferente e não seguem esse comportamento de acerto ao acaso simples.
7. Exemplos práticos de formulação de itens
- Múltipla escolha com 5 alternativas:
 - Indivíduo sem conhecimento tem ~20% de probabilidade de acertar por sorte; a ICC inicia nesse nível.
 - Implicação: necessidade de considerar c na modelagem para não interpretar acertos ao acaso como domínio do traço.
- Pergunta sobre chorar (exemplo clínico):
 - Formulação dichotômica (“Você chorou na última semana?”) não captura intensidade, frequência ou duração; agrupa respostas heterogêneas.
 - Formulações que medem frequência (quantos dias da semana, quanto tempo por episódio) discriminam melhor níveis distintos do traço de tristeza.
 - Tempo de choro (30 minutos vs. 3 horas) e frequência diária influenciam a intensidade do traço; item formulado de modo bruto não separa essas variações.
8. Efeitos da redação e polaridade das questões
- Perguntas mal formuladas (ex.: inversão de polaridade, perguntas negativas) causam interpretações equivocadas e podem gerar valores de parâmetro A negativos ou problemáticos.
- Exemplo citado: avaliação sobre “erros de ortografia” redigida de forma negativa levou a respostas inconsistentes e provável valor negativo na discriminação do item.
- Consequência: itens com redação inadequada podem parecer que medem algo (ou não), mas, na prática, não ajudam na medida do construto.
9. Uso da TRI para validação e revisão de instrumentos
- A análise de itens identifica perguntas que não funcionam (baixa discriminação, alto chute, dificuldade mal posicionada).
- Itens problemáticos podem ser reformulados ou removidos durante o processo de construção do instrumento.
- Exemplos de aplicação: validação fatorial e adaptação de escalas de estresse aplicadas em contextos distintos; sem essa análise, há risco de diagnósticos errados (falsos positivos/negativos) em contextos clínicos e legais.
10. Implicações clínicas, éticas e práticas
- Laudos e decisões que afetam direitos (por exemplo, tutela ou avaliação de capacidade) exigem instrumentos confiáveis e aplicação rigorosa.
- Aplicação inadequada (sugestões do aplicador, instruções mal seguidas) pode comprometer resultados e ter consequências graves.
- A psicometria (uso de modelos e indicadores de qualidade) garante maior segurança na seleção e uso de instrumentos.
11. Aspectos operacionais e metodológicos
- TRI oferece precisão diferenciada por nível de traço; permite identificar itens fáceis e difíceis na amostra real.
- Softwares estatísticos são utilizados para estimar parâmetros e produzir curvas; usuários precisam aprender a interpretar gráficos gerados.
- Existem diversos modelos e algoritmos para estimar parâmetros; conhecimento básico é suficiente para leitura e tomada de decisão sobre instrumentos.
Relatórios de exemplos mencionados (descrições prontas para uso)
- Exemplo 1 — Prova objetiva com 5 alternativas:
 - Situação: participante sem conhecimento hipotético.
 - Probabilidade de acerto por chute: ,20 (20%).
 - Interpretação: c ≈ ,20; a curva inicia em ,2 no eixo Y para θ muito baixo.
- Exemplo 2 — Item sobre choro:
 - Formulação genérica (“Você chorou na última semana?”) não separa frequência nem duração → baixa discriminação.
 - Formulação preferível: “Quantos dias da semana você chorou?” + “Em média, quanto tempo durou o episódio de choro (minutos/horas)?” → aumenta discriminação e validade.
- Exemplo 3 — Item negativamente formulado sobre ortografia:
 - Formulação problemática: questão escrita de forma negativa (“Não há erro na ortografia?”) em meio a itens positivos → respostas inconsistentes e efeito de polaridade.
 - Solução: padronizar polaridade ou equilibrar itens e revisar redação para evitar ambiguidade.
Palavras-chave → significado
- Variável latente → Traço ou característica psicológica não observável diretamente, inferida a partir de indicadores (itens).
- θ (teta) → Posição do indivíduo no traço latente; eixo X da ICC; padronizado (média ).
- Curva característica do item (ICC) → Gráfico que relaciona θ à probabilidade de uma resposta (acerto/manifestação).
- Parâmetro a (discriminação) → Mede quanto o item diferencia indivíduos com níveis distintos do traço; maior a → mais íngreme a curva.
- Parâmetro b (dificuldade) → Valor de θ em que a probabilidade de acerto é 50%; localiza o item ao longo da escala.- Parâmetro c (chute) → Probabilidade assintótica inferior de acerto por acaso (ex.: ,20 em prova de 5 opções).
- Distribuição normal / Z-score → Padronização de θ; variação comum entre −3 e +3 desvios-padrão.
- Validação/função do item → Processo de avaliar se itens medem o construto desejado e se contribuem para um instrumento confiável.
- Modelos TRI → Diferentes formulações e algoritmos para estimar parâmetros (1PL, 2PL, 3PL etc.; aqui abordados principalmente 3 parâmetros).
Perguntas-chave → respostas → significado
1) O que indica θ = ?
- Resposta: indivíduo na média da população de referência; ponto central da escala.
- Significado: ponto de comparação para localizar facilidade/dificuldade dos itens; notas acima ou abaixo mostram desvio-padrão em relação à média.
2) Como se identifica se um item é mais difícil ou mais fácil?
- Resposta: pelo parâmetro b; o ponto onde a ICC cruza 50% indica a dificuldade — valores maiores de b são itens mais difíceis.
- Significado: sabendo b, pode-se combinar itens de diferentes dificuldades para medir toda a gama do traço.
3) O que significa um parâmetro a alto?
- Resposta: o item discrimina bem entre níveis distintos do traço (curva íngreme).
- Significado: item útil para distinguir quem tem mais ou menos do traço; porém, valores extremamente altos são raros em fenómenos psicológicos.
4) Como o número de alternativas influencia o parâmetro c?
- Resposta: mais alternativas reduzem a probabilidade de acerto por acaso; ex.: 5 alternativas → c ≈ ,20; 4 alternativas → c ≈ ,25.
- Significado: considerar c evita superestimar conhecimento de quem acerta por sorte; essencial ao modelar ICCs em itens dicotômicos.
5) Por que a redação do item é crítica?
- Resposta: redação ambígua ou polaridade negativa pode gerar respostas inconsistentes e valores de discriminação negativos ou baixos.
- Significado: boa redação aumenta validade e discriminação do item; itens mal escritos podem comprometer diagnóstico e decisões baseadas no instrumento.
6) O que evita erros de interpretação em contextos clínicos e legais?
- Resposta: uso de instrumentos validados, aplicação rigorosa do procedimento e análise psicométrica adequada (incluindo TRI).
- Significado: garante segurança para laudos, reduz risco de falsos positivos/negativos e protege direitos do avaliado.
Observações 
- Ler ICCs e parâmetros é essencial antes de usar um instrumento; instrumentos validados e aplicados conforme manuais aumentam confiabilidade.
- Na construção de questionários, priorizar clareza, variação de dificuldade e itens que discriminem bem; testar formulações (frequência, duração, intensidade) para capturar nuances do construto.
Leitura Obrigatória:
PASQUALI, L. Psicometria – Teoria dos testes na psicologia e na educação. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 192-225.
Leitura Complementar:
DAMÁSIO, B. F.; BORSA, J. C. Manual de Desenvolvimento de Instrumentos
Psicológicos. São Paulo: Ed. Vetor, 2018.
HUTZ, C. S.; BANDEIRA, D. R.; TRENTINI, C. M. Psicometria. Porto Alegre:
Artmed, 2015, cap. 6.
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