Logo Passei Direto
Buscar
Material

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

INTRODUÇÃO Em 1946, exatamente um ano após término da Segunda Guerra Mundial, trezentos acres de Hempstead Plain foram convertidos em conjun- tos de casas suburbanas. A área se localizava a menos de trinta quilômetros do centro de Manhattan, num trecho de Long Island famoso havia muito tempo por suas batatas. Esse projeto, construído por Levitt and Sons total- mente com financiamento privado, foi um dos primeiros empreendimentos urbanos produzidos em massa nos Estados Unidos. Até essa data, indivíduos desejosos de deixar o centro da cidade, mas a uma distância de onde pudes- sem viajar diariamente de ônibus ou carro ao local de trabalho, haviam dado origem às "cidades exurbanas", como as curiosas povoações de estilo New England que pontilham as praias norte e sul de Long Island. Os "exurbani- tas", como eram chamados, usaram casas construídas ou reformaram velhas fazendas. Por outro lado, a Levitt and Sons recorreu a patrocinadores inde- pendentes, criou formas pioneiras de construção modular, contratou grande número de operários não-sindicalizados e construiu milhares de casas do tipo Cape Cod que vendeu, no início, ao notável preço de dólares. Ao con- trário das casas exurbanas dos "burocratas" que precederam essa forma de empreendimento, produtos da Levitt eram dirigidos para o mercado, ain- da inexplorado, dos pracinhas que retornavam da guerra; beneficiados por recente legislação federal, veteranos receberam subsídios para a compra e financiamento de casas. A procura por esse novo tipo de habitação foi inten- sa. Em 1951, a comunidade, atualmente chamada Levittown, compreendia residências, vendidas na época por dólares (uma valorização, em12 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 13 quatro anos, de dólares, em valores de 1950). desenvolvimento maci- ço dessa área transformou a Levitt and Sons numa empresa próspera, que tes de concluir que estamos desenvolvendo, é necessário um outro exemplo veio a construir Levittowns semelhantes em Nova Jersey e Pensilvânia, em ilustrativo. Resultados preliminares do censo de 1980 indicam que áreas afas- tadas, até então consideradas rurais, estão crescendo a uma taxa mais alta do áreas até então ocupadas pela agricultura. que a das comunidades situadas próximo aos centros metropolitanos, embora Quase vinte anos depois, em fevereiro de 1970, num evento aparente- as principais regiões urbanas continuem a acomodar a maior parte da popu- mente sem qualquer relação com o fato anterior, o governo federal, através lação americana. Na Califórnia, por exemplo, a população dos municípios ao do Department of Housing and Urban Development, concedeu um emprés- norte da cadeia de montanhas que limita o sul da Califórnia teve um cresci- timo de 24 milhões de dólares aos investidores de mais um conjunto habita- mento mais acelerado do que o de todos os municípios do sul, pela primeira cional, Cedar-Riverside, localizado na parte central da cidade de Minneapo- vez na história do estado (18,6% contra 17,1%). Segundo o relatório de um lis. projeto, que organismos oficiais denominaram New Town in Town jornal sobre resultados de 1980: (Nova Cidade na Cidade), recebeu apoio de um programa de governo de desenvolvimento urbano, nascido do Urban Growth and Development Act de O crescimento dos cinqüenta municípios ao norte de Tehachapi foi provocado pelo ex- 1970. O título VII da lei, a legislação New Town, prometia garantias de em- plosivo aumento dos municípios rurais de Plumas a Fresno. E, dentro desses municípios, as préstimo de mais 500 milhões de dólares para um empreendimento que comunidades não-planejadas crescem mais que as cidades planejadas. Surpreendentemente, es- compreendesse um programa de moradias mesclado, em alguns casos, com tudos dos novos moradores das áreas rurais indicam que a maioria deles não são filhos da nata indústria, num padrão mais equilibrado de crescimento do que o então exis- da contracultura que sobraram da década de 60, mas profissionais estabelecidos e trabalhado- res especializados que no meio da vida decidiram começar de novo. (Los Angeles Sunday Times, tente de expansão urbana. Todavia, Cedar-Riverside não foi criado em terre- 18 de janeiro de 1981.) no devoluto. Desapropriou-se o espaço pertencente a um setor histórico do centro de Minneapolis, chamado Seven Corners ou West Bank. A maioria dos relatório resumia as características dessa mudança demográfica para moradores primitivos, alguns dos quais haviam residido ali por meio século, a década de 80. Parte dessa população era composta de aposentados que ti- e eram operários, aposentados ou estudantes que não podiam arcar com um raram vantagem do direito justo de possuir uma propriedade em lugares aluguel elevado, foram desalojados pelo novo projeto. governo desejava um mais desenvolvidos e agora estão vivendo do rendimento em áreas afastadas conjunto residencial que abrigasse casas e apartamentos, e empreendedo- menos caras. Além disso, um recente levantamento de 550 novos moradores res construíram os primeiros edifícios de apartamentos de vários andares no indica que os indivíduos de meia-idade são bem instruídos e especializados. distrito. Os aluguéis dos apartamentos eram consideravelmente mais altos Uma proporção significativa (40%) começou seu próprio negócio, nessas que aqueles que vigoravam antes do projeto; assim, os antigos moradores fo- áreas, dentro dos primeiros cinco anos após a mudança. Embora percebes- ram substituídos por inquilinos de classe média. Numa entrevista à revista sem que suas perspectivas de ganhar dinheiro não eram tão grandes quanto Fortune em 1971 sobre New Towns, Henry T. McKnight, um especulador nas cidades maiores, essas pessoas exprimiam uma forte preferência por um imobiliário e o principal acionista de Cedar-Riverside, afirmava: "Ninguém estilo de vida acima das considerações econômicas. Assim, de vários modos, é perito em cidades novas. Todos estamos aprendendo". Com boa disposição, seus perfis pessoais sugerem o tipo de americano que, trinta anos atrás, teria admitiu que não possuía experiência em desenvolvimento de condomínios. se mudado da cidade para os subúrbios, mas ainda mantinha um emprego Ao contrário de Levittown, um empreendimento bem-sucedido e finan- numa grande companhia (Bradshaw e Blakeley, 1979). ciado por bancos privados, o projeto de Cedar-Riverside produziu resultados Segundo o órgão estadual Office of Planning and Research de Sacra- variados. De casas térreas pequenas, que foram abandonadas para dar lugar mento, espera-se que a nova tendência afete significativamente a represen- ao projeto, ele criou um slum. Os edifícios de apartamentos ofereceram mo- tação do Legislativo do estado nos anos vindouros. Esta produziu também radia para uma nova classe média, mas também propiciaram maiores opor- um impacto imediato nas instituições públicas das cidades pequenas, devido tunidades para crimes de rua e as invasões de apartamento. Na época, o às influências da cidade grande, como pressões de impostos, congestiona- projeto removeu um número bem maior de pessoas do que abriga agora, e mento de trânsito e elevação dos preços. Mais uma vez, podemos observar empreendimento foi suspenso por falta de verbas. Em resumo, isso parece que esses aspectos parecem lembrar bastante os padrões estabelecidos ante- característico da maioria dos projetos de renovação urbana das décadas de riormente nos estágios de suburbanização encontrados logo depois da Se- 50 e 60. gunda Guerra Mundial. As diferenças residem no fato de que a atual popu- As duas comunidades, Levittown e Cedar-Riverside, são comparáveis, lação é, no conjunto, ligeiramente mais velha e de que, em vez de buscar em- embora aparentemente não tenham qualquer relação entre si. Contudo, an- pregos na cidade, os moradores estão formando o núcleo de uma infra-estru-14 MARK GOTTDIENER PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 15 tura econômica mais "portátil", menos vinculada à indústria. Assim como a quase qualquer um, um grande shopping center regional, um complexo de suburbanização foi, no começo, apenas o prelúdio de um maciço crescimento edifícios de escritório ou um conjunto residencial legalizado. Aliás, já na dé- regional, contudo, podemos admitir que tais tendências indicam as fases ini- cada de 1880, quando se construiu fora de Chicago a cidade de Pullmann, no ciais de um padrão mais abrangente de desenvolvimento para anos vin- Illinois, a fim de abrigar as imensas obras da ferrovia numa cidade particular douros. Na realidade, não devemos incorrer no erro, que os analistas urbanos de empresa, a industrialização capitalista mostrou-se capaz de tais feitos. cometeram no passado, de afirmar que a substituição de população represen- Dessa facilidade de construção resultou a total transformação da paisagem: ta um estilo de vida novo, não-urbano. Ao contrário, é muito urbano por na- quase todo americano vive dentro de uma matriz urbana disseminada de ci- tureza, e faz vislumbrar próximo estágio de um processo de desconcen- dades, vilas, comércio, indústria, forasteiros heterogêneos e grandes orga- tração do centro metropolitano que vem ocorrendo desde a década de 1880 e nismos públicos. que, sem dúvida, prosseguirá nos anos futuros, quando a expansão regional atuais padrões de desenvolvimento e suas implicações sociais, alcançar as terras localizadas nas áreas mais internas do país. Deve-se espe- econômicas e políticas foram registrados, mas os cientistas urbanos pouco rar, portanto, que em pouco tempo apareçam nessas regiões periféricas cons- avançaram no caminho de seu Qualquer livro de sociologia truções, em ampla escala, de residências e de pequenos shopping centers a urbana, por exemplo, revelará que a "cidade" constitui a forma de assenta- organização social de espaço mais típica do desenvolvimento metropolitano mento urbano, que a "urbanização" envolve a concentração de pessoas den- da área marginal e, atualmente, característica do subúrbio. tro de áreas limitadas e que existem "diferenças" entre o "modo urbano de A taxa mais rápida de crescimento de áreas afastadas, em comparação vida" e sua contrapartida "suburbana" ou "rural". Apesar de obsoletos, esses com a do centro da cidade, foi um traço permanente de regiões urbanizadas conceitos continuam sendo o foco central de textos urbanos, mesmo que a desde pelo menos a década de 1920 (Hawley, 1956). Todavia, início da dé- maioria dos americanos esteja vivendo, desde a década de 1970, em áreas cada de 1970 presenciou esse crescimento ocorrer pela primeira vez em áreas metropolitanas polinucleadas, fora da cidade central. Talvez a ênfase sobre a fora das fronteiras da metrópole, assinalando o que passou a ser conhecido cidade enquanto forma urbana persista porque muita coisa já foi dita sobre como o turnaround de população. Pela primeira vez na história, as regiões ex- ela. Por exemplo, alguns textos usualmente dedicam enfadonhas explicações ternas adjacentes a áreas urbanas constituem os receptáculos de migração às à recapitulação de décadas de pesquisa sobre a cidade central: sua gênese na custas do centro da cidade, invertendo assim o processo, há muito existente, história, de que maneira sua forma compacta representa um tipo único de da implosão urbana (Fuguitt e Beale, 1978). comunidade e de que modo uma variação em fatores urbanos (principalmen- Nossos três exemplos proporcionam casos diferentes de um aspecto te no tamanho da população) produz efeitos sócio-psicológicos distintos. Pa- fundamental do atual crescimento sócio-espacial: a vida urbana tornou-se recem intermináveis as listas de termos e os supostos contrastes entre elas, portátil e, desse modo, ocorreu o mesmo com a "cidade". Em lugar da forma embora tais taxonomias sejam insuficientes para se entenderem as atuais compacta de cidade que outrora representava um processo histórico em for- mudanças espaciais e a vida vivida em regiões espalhadas, pelo fato de a con- mação há anos, existe agora uma população metropolitana distribuída e or- veniência dos termos e das teorias ter diminuído nos últimos anos. ganizada em áreas regionais em permanente expansão, que são amorfas na Quase todos os textos sociológicos relutam em abandonar uma de- forma, maciças no escopo e hierárquicas em sua escala de organização social. pendência de paradigmas antiquados de pensamento e em analisar a morfo- Os limites desse projeto parecem ser preenchidos quase da noite para o dia, logia espacial contemporânea, que não é apenas a cidade que se ampliou, e se tornou cada vez mais difícil fugir ao ambiente construído circunscrito. mas uma forma qualitativamente nova de espaço de assentamento. Por Quando tentam mudar de um lugar de alta densidade populacional, em bus- exemplo, Gist e Fava identificam três estágios urbanos o pré-industrial, o ca de um estilo de vida mais satisfatório em termos de localização, as pessoas urbano-industrial e metropolitano -, sem oferecer ao leitor uma discussão tendem a expandir as fronteiras da dispersão populacional maciça Atual- sobre aspectos da organização social que possa tê-los produzido. Eles obser- mente, os empreendedores e especuladores imobiliários podem escolher uma vam que "o período metropolitano representa uma forma de comunidade cu- área de deserto ou de expansão agrícola, ou mesmo fincar raízes no coração jo significado ainda se acha um pouco obscuro, principalmente em termos de uma metrópole, e reunir as forças do comércio, do governo e da cons- sociais, não obstante pareça já estarmos caminhando para um quarto período trução que promoverão, num curto período, um projeto de desenvolvimento de desenvolvimento" (1974:60). Assim, a partir desse texto, temos a im- "urbano". Causa um certo desconcerto saber que, apesar dos controles de pressão de que a metrópole está abrindo caminho para uma nova transfor- zoneamento e da aversão dos habitantes locais ao crescimento, se possa mação, de que períodos de desenvolvimento se revelam através de alguns construir virtualmente em qualquer lugar, em qualquer tempo e em volta de processos categóricos estáticos e de que a maior parte daquilo que sabemos10 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 17 da cidade em sua forma atual continua obscura. Esses textos não avançam sa, o papel da ideologia e dos campos semânticos no ofuscamento e masca- nosso entendimento. Eles simplesmente catalogam o grande número de fatos ramento dos processos reais que atuam na reestruturação do espaço de as- aprendidos sobre mudanças espaciais, rotulando-os arbitrariamente, embora sentamento e os padrões de organização social responsáveis pela produção observando apenas que conceitos e teorias sobre a cidade apresentam pro- de espaço na sociedade moderna. blemas porque agora são menos úteis do que o foram no passado. No ciência urbana concentrou-se numa imagem particular A presente discussão encara de frente a atual forma dispersa de cidade. do desenvolvimento espacial urbano, ou seja, a forma confinada de cidade. Estou interessado no tipo de organização social que pode produzir e manter Embora a exata diferenciação interna desse quadro tenha sido tema de deba- (ou reproduzir) tais padrões de uso da terra. Não estou interessado num pas- te, especialmente entre a antiga visão monocêntrica de Burgess e as aborda- sado urbano baseado na forma confinada de cidade, mas na atual organi- gens policêntricas mais recentes, a ciência urbana manteve sua crença nas zação regional da vida cotidiana acho que pensamento urbano anterior capacidades organizadoras da cidade central como fonte de predominância negligenciou por muito tempo essa tarefa. Estou empenhado menos em mos- sócio-espacial regional (ver cap. 2). Num estudo isolado de uma região me- trar ao leitor presente, submetendo-o a um tratamento enfadonho das tropolitana adjacente à cidade de Nova York (Gottdiener, 1977), observei abordagens convencionais do crescimento urbano, do que em forjar uma no- que esse modelo de desenvolvimento urbano era incorreto. A dispersão re- va síntese de novas idéias sobre tema da vida moderna e seu hábitat mega- gional depende muito menos de aglomerações na cidade central do que lopolitano. Por exemplo, as três ilustrações acima indicam os vários modos amiúde se acreditou e depende muito mais das forças sociais que, no plano pelos quais grandes áreas de terra podem ser transformadas rapidamente pa- da própria sociedade, influenciam seus padrões internos de diferenciação ra cumprir muitas das funções da vida urbana, como habitação e comércio, funcional. Conseqüentemente, possuímos hoje uma nova forma de espaço de sem possuir muita coisa mais daquilo que caracterizava outrora a cidade. O assentamento, que é polinucleada e funcionalmente integrada pela matriz objetivo e teor de tal desenvolvimento tornou-se possível, em parte, graças ao tridimensional de organização social. Como o último aspecto está vinculado modo de construção habitacional iniciado por Levitt and Sons, que era vir- menos às relações horizontais de integração espacial enfatizadas por repre- tualmente desconhecido antes da Segunda Guerra Mundial. Em parte, sentações de zona concêntrica e mais às ligações hierarquicamente estrutu- porém, esse desenvolvimento foi concretizado também graças à intervenção radas a processos de sistema global, como a acumulação de capital e a nova ativa do governo, ou indiretamente através do subsídio de hipotecas e de- divisão internacional do trabalho, não se pode esboçar o novo modelo de es- duções do imposto de renda do proprietário, como no caso de Levittown, ou paço urbano mal podemos imaginar seu aparecimento. Prefiro o termo diretamente como um parceiro de especuladores imobiliários e empreende- "região metropolitana polinucleada" para designar essa forma de espaço de dores que operavam dentro dos limites de Minneapolis. Assim, a produção assentamento, a fim de distingui-la das análises daqueles que persistem em de espaço regional envolve o Estado tanto quanto a economia, e somos com- encará-la simplesmente como uma versão mais ampla da cidade (Long e pelidos a entender essa relação. DeAre, 1983; Gordon, 1984). Enfocando os padrões espaciais como produtos Além de examinar a interseção dos processos políticos e econômicos no de forças profundas que residem em modos de organização social, podemos espaço, pretendo investigar o uso do planejamento e da tecnologia da cons- abandonar todas as teorias obsoletas que reificam as próprias características trução para encerrar ato físico de conversão da terra numa linguagem de físicas do espaço, mas que ignoram a maneira instrumental e hierárquica pe- sofisticada retórica arquitetônica. Esse processo envolve a ideologia de cres- la qual todos espaços de assentamento são integrados através das ações de cimento que sempre acompanha desenvolvimento e mudança. Como uma forças sistêmicas. New Town in Town, Cedar-Riverside, por exemplo, substituiu tanto lingüísti- As características básicas da nova forma de organização sócio-espacial ca quanto fisicamente o espaço comunitário que ela então ocupava e domi- foram observadas, há algum tempo, pelos geógrafos, que estão mais afeitos nava. A conversão do espaço físico pode ser feita com sua própria ideologia e às mudanças físicas do ambiente construído. Segundo Vance (1977), por retórica, tanto quanto com o buldôzer urbano. De fato, as ideologias que exemplo, as áreas urbanizadas, especialmente aquelas que circundam nossas ofuscam ou mistificam esse desenvolvimento, como determinismo tecnoló- cidades maiores, deveriam ser entendidas como domínios multinodais. Um gico ou ambiental ou 0 promocionismo pró-crescimento, e que nos dificultam defensor dessa abordagem, Muller, assinala que "a extensão, o caráter e a es- a compreensão da origem de padrões espaciais, constituem os temas princi- trutura interna da região metropolitana e o número de seus domínios depen- pais de meu interesse. Assim, discutirei as seguintes áreas: a dinâmica dos de de quatro propriedades: o terreno físico, a dimensão da própria metrópo- atuais processos sociais de desenvolvimento metropolitano e regional, o pa- le, vigor da economia regional e a rede de transportes" (1981:8). Por pel do Estado na construção e manutenção do crescimento da cidade disper- exemplo, a área maior de Los Angeles pode ser estudada com proveito em18 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 19 termos de cinco domínios, dos quais o setor comercial original é apenas um distrito. Uma evidência empírica do modelo em que Vance descreve a forma periência de um país, os Estados Unidos, na esperança de que esse condutor do desenvolvimento capitalista possa servir de exemplo a ser evitado por ou- contemporânea de espaço de assentamento foi corroborada em outros estu- tras nações. dos (Greem, 1980; Guest, 1975). Em contraste com a imagem da cidade que Um termo que descreve bem os padrões contemporâneos de desenvol- analistas urbanos convencionais defendem, essas regiões polinucleadas vimento é "desconcentração". Definirei esse termo de uma maneira que con- não são mais organizadas pelas atividades sócio-espaciais do centro histórico trasta até certo ponto com o uso corrente. Desconcentração se refere ao au- da cidade. Palavras como "urbano" e "rural", antes empregadas para classifi- mento absoluto de população e à densidade de atividades sociais em áreas car lugares, perderam seu valor analítico. Nesta discussão, abandonei toda fora das tradicionais regiões citadinas e dos centros populacionais. Anterior- tentativa de resgatar esses conceitos comparativos, para desenvolver uma abordagem generalizada do espaço de assentamento (para uma alternativa mente, usou-se esse termo para descrever um nivelamento demográfico geral que procura manter termo "urbano", cf. Castells, 1977; Saunders, 1981; da densidade populacional em todas as regiões metropolitanas (Berry e Ka- Dunleavy, 1980). sarda, 1977). Contudo, quero enfatizar, de um lado, as atividades sociais e a Os campos da ciência urbana exigem uma reconceituação, pois os pa- dispersão populacional e, de outro, a mudança do cinturão-do-frio para drões de organização espacial mudaram. Dessa exigência decorrem várias cinturão-do-sol*. Além disso, nessa visão processo de desconcentração im- implicações. A ciência urbana em geral repousa sobre uma premissa básica plica tanto um movimento sócio-econômico que sai das cidades centrais mais de que padrões espaciais do espaço de assentamento correspondem à ação antigas para áreas afastadas ou descentralização quanto o surgimento de aglomerações tipo cidade e a formação de densidade social em áreas afas- de forças profundas de organização social. Se, como afirmo, se desenvolveu tadas ou concentração. Em geral, os efeitos da aglomeração são uma con- uma forma qualitativamente nova de espaço, isso implica que também mu- dou o próprio modo de organização social. Assim, a avaliação exigida de que seqüência da descentralização, indiretamente, através de fontes endógenas a morfologia urbana se alterou a partir do quadro defendido atualmente pe- que reagem a um aumento da atividade sócio-econômica, ou diretamente, a los cientistas urbanos convencionais possui duas implicações básicas. Em partir dos efeitos exógenos da relocalização centrífuga fora da cidade central. primeiro lugar, é preciso substituir todo o atual paradigma convencional e ul- Em resumo, escolho termo "desconcentração" para descrever os padrões trapassado da ciência urbana. Nos capítulos seguintes, provarei essa assertiva atuais de crescimento polinucleado porque ele apreende a dispersão regional e apresentarei um paradigma alternativo derivado do marxismo e que deno- maciça de pessoas, comércio, indústria e administração pública, juntamente mino perspectiva de produção do espaço. Em segundo lugar, é necessário com a reestruturação contemporânea de tais regiões em domínios multicen- explicitar a maneira pela qual mudou a estrutura da organização social. As- trados esparramados por vários quilômetros e localizados em todo lugar sim, não basta simplesmente se juntar ao coro de muitos marxistas, segundo do país, especialmente naquelas áreas consideradas antigamente imunes ao quais foi "capitalismo" que produziu as mudanças reestruturadoras do desenvolvimento urbano. Abaixo, procuraremos entender a relação entre espaço. Tampouco é suficiente apoiar as concepções convencionais que se desconcentração e capitalismo tardio. Veremos que a desconcentração é ao baseiam fundamentalmente no papel da mudança tecnológica para explicar mesmo tempo uma forma isto é, um produto e um processo ou seja, um produtor que previne as mudanças de efeito no capitalismo tardio. Em padrões contemporâneos de crescimento. Em contrapartida, a presente suma, padrões espaciais e processos sociais estão mais relacionados dialeti- discussão especificará, igualmente, a maneira precisa como evoluiu a organi- camente que ligados através de ciclos de causa e efeito. zação social capitalista e, mais importante, como atuais aspectos da formação Em sua essência, a desconcentração foi a conseqüência de muitos anos social produziram a nova forma de polinucleação metropolitana. de crescimento suburbano fora dos centros da cidade, a distâncias cada vez Enfatizando o modo quase desencarnado pode ocorrer o desen- maiores. que mais surpreende a um observador desse fenômeno é a ma- volvimento urbano, bem como sua grande extensão, estou interessado em captar uma visão generalizada dos padrões de crescimento urbano caracterís- neira pela qual, no tempo, subúrbio enquanto forma de espaço de assenta- ticos dos Estados Unidos no pós-guerra. Nesse aspecto, afirmo que a nova mento evoluiu mais depressa do que conceito que temos dele. Está claro forma de espaço de assentamento típica dos Estados Unidos ainda não apa- atualmente que primeiros analistas, especialmente aqueles que foram afe- tados pela relativa singularidade de desenvolvimentos individuais, estavam receu realmente, num sentido qualitativo, em outros países, mesmo na Euro- pa industrializada. Noutras regiões, as cidades centrais continuaram a manter muitas das funções de organização que, historicamente, cumpriram no de- Frostbelt e sunbelt. "Cinturão-do-sol" caracteriza a parte dos Estados Unidos que compreende a maioria senvolvimento do interior. Conseqüentemente, essa discussão ressalta a ex- dos estados do sul e do sudoeste, dotados de clima quente e ensolarado, e vista como uma área de rápido crescimento econômico e populacional. "Cinturão-do-frio" é usado em oposição a cinturão-do-sol.20 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 21 considerando, erroneamente, um processo de mudança a longo prazo como ram a oportunidade de se tornarem proprietários de uma casa em condomí- um padrão estável de vida comunitária. Todavia, podemos entender a subur- nios que ofereciam infra-estruturas comunitárias como facilidades religiosas, banização como parte de um processo global de desenvolvimento que evoluiu recreativas e educacionais (Gans, 1967). A progressiva importância dos fato- através de uma série de estágios. Durante cada período de desenvolvimento, res de atração como principal determinante da desconcentração demográ- a atividade acadêmica tudo fez para isolar aspectos essenciais da desconcen- fica, independentes dos caprichos da vida na cidade, foi corroborada em re- tração, sem realmente conceituar traços mais amplos do crescimento do cente pesquisa sobre a migração branca (Frey, 1979; Marshall, 1979). Essa espaço de assentamento que emergiram como típicos dos anos de explosão longa história não parece sugerir que a famosa tendência antiurbana dos do pós-guerra. Examinemos esses estágios de crescimento, tal como foram americanos tenha sido tão responsável pela suburbanização em ampla escala demarcados por interesses de pesquisa. Vou me concentrar aqui na variação quanto foram os efeitos, em termos de oferta, de um casamento entre Es- da concepção acadêmica de desconcentração. tado e economia que promoveu o desenvolvimento de áreas marginais para Inicialmente, o fenômeno do desenvolvimento fora do centro da cidade atender às necessidades habitacionais da população branca no pós-guerra. se chamou exurbano. As áreas dos municípios de Westchester e White Plains Voltarei a este tópico no capítulo 7. adjacentes a Nova York são bons exemplos de regiões invadidas, durante o O segundo estágio da pesquisa suburbana talvez seja mais bem exem- final da década de 40 e o começo da de 50, por executivos afluentes, que plificado por Dobriner (1958, 1963) e Schnore (1957, 1963, 1965). No início transformaram velhas casas de fazenda, para uso familiar "moderno", ou da década de 60, questionou-se pela primeira vez a visão monolítica do contrataram arquitetos e construtores para planejamento de casas sob en- subúrbio (abandonada mais tarde). As comunidades suburbanas eram dife- comenda. Tal movimento extemporâneo para fora da cidade com propósitos renciadas no que diz respeito à classe: eram estratificadas pela renda e pelo residenciais deu origem à primeira imagem do subúrbio como o bairro-dor- estilo de vida quanto mais vizinhas eram da cidade central. Em suma, havia mitório do centro da cidade; proporcionou também um status de classe mé- muitos tipos de subúrbio, e essa variedade foi apreendida tão logo se adotou dia alta à separação entre casa e trabalho, tornando de bom-tom a commuta- uma visão regional, metropolitana, do desenvolvimento urbano. Schnore, em imagem ampliou-se ainda mais no auge da suburbanização entre particular, sugeriu a noção fecunda de diferenciação funcional para comuni- 1950 e 1965, quando se introduziu a construção em massa de casas pequenas dades suburbanas. A região metropolitana era concebida em termos de área, e milhões de americanos fixaram residência em áreas suburbanas. Nessa e a complexidade interna da divisão de trabalho entre espaços de assenta- época, subúrbio passou a ser considerado um modo conformista de espaço mento era trazida à superfície da análise. Seguindo a obra pioneira de Dou- de assentamento, organizado em torno do consumo, com um estilo de vida glas (1925), Schnore aplicou o conceito de relação emprego-residência pela de família dividida, que compreendia o pai ausente trabalhando na cidade e a qual poderiam ser classificadas diferentes comunidades fora da cidade cen- mãe serena e calma tomando café com as vizinhas, entre viagens ao shopping tral. Identificou três categorias: a comunidade residencial ou dormitório, center em sua perua. subúrbio industrial e um tipo intermediário que mescla moradia e comércio Retrospectivamente, o mais importante com relação a esse período não ou indústria (1965). foram os comentários de fetichistas espaciais convencidos das aparentes dife- Essa obra sobre diferenciação funcional produziu vários resultados im- renças entre esse estilo de vida e o da vida no centro da cidade, diferenças portantes para a pesquisa suburbana. Em primeiro lugar, a complexidade das produzidas por mudanças ambientais (Fava, 1956), mas a clara identificação ordens sociais da comunidade implicava que a totalidade do impulso subur- dos fatores de atração que seduziram as pessoas a deixar a cidade em troca bano não mais poderia ser apreendida por um estudo isolado e particulariza- de comunidades suburbanas. Isto é, nesta época a cidade era também consi- do, como o trabalho Forest Park, de Whyte (1956). A pesquisa suburbana derada um lugar bom e decente para relocalização suburbaná evo- exigia a multiplicação de casos e a agregação de atributos individuais do tipo luiu para um movimento de massa, devido principalmente a aspectos atrati- de uma análise de macronível do censo (Riesman, 1957). Nessa época, ocor- vos em termos de oferta, colocados à disposição da maioria dos cidadãos, reu uma disjunção conceitual entre análise de dados agregados e microestu- que por acaso eram brancos. Por exemplo, nesta época muitas pessoas tive- dos de caso, e isso se adequava à própria limitação da obra sobre a cidade que havia caracterizado a imobilidade da sociologia urbana desde os primór- Viagem diária ou regular de trem entre um distrito afastado e um local de trabalho na cidade, usando o bilhete de Este bilhete, de preço reduzido, dá ao usuário direito a viagens repetidas por dios da Escola de Chicago. um número limitado de vezes, ou por um número ilimitado de vezes dentro de um período determinado. Em segundo lugar, foi introduzida uma linha central de convergência, Commuter designa usuário desse sistema. Na falta de um termo em português, preferiu-se usar vocábu- segundo a qual as cidades e os subúrbios eram considerados parte de uma lo inglês. região metropolitana em expansão, dotada de processos contínuos de dife-22 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 23 renciação interna e de crescimento. Isso foi conceituado, pela primeira vez, por McKenzie (1933). Portanto, enfoque da pesquisa deslocou-se para aná- complexidade funcional da sociedade moderna, ordenada segundo dimensões lises de área quantitativas e amplamente descritivas a partir de dados censitá- demográficas, econômicas, políticas e culturais, é encarada atualmente como rios agregados sobre a morfologia metropolitana. Tais estudos, que se torna- se se distribuísse no espaço assim, diz-se que a ordenação espacial de pes- soas e atividades situa-se no centro de uma grande quantidade de problemas ram comuns, constituem a linha central da pesquisa de jornal publicada até hoje sobre uma ampla variedade de tópicos urbanos. Foi exatamente através contemporâneos associados com a vida metropolitana. Contudo, estes são desse modo de investigação que também se revelou a mudança para cin- vistos através dos óculos ideológicos do paradigma convencional predomi- nante, discutido no próximo capítulo, que vê nessa distribuição uma con- turão-do-sol, e na década de 70 evidenciou-se a ocorrência de mudanças fun- damentais inter-regionais dentro dos Estados Unidos, embora os analistas seqüência inevitável da competição sócio-econômica e da diferenciação fun- convencionais tenham interpretado erradamente a sua natureza (Watkins e cional. Por exemplo, todos os tipos de injustiça urbana passaram a ser enca- Perry, 1977). rados, cada vez mais, como uma função da distribuição espacial, de modo a Em terceiro lugar, a perspectiva metropolitana forçou os pesquisadores poder dizer-se que os problemas sociais são causados por diferenças de loca- a considerar os efeitos interativos da desconcentração, isto é, os efeitos da lização. Assim, problema da segregação racial é considerado em termos do suburbanização sobre a cidade e os efeitos da decadência da cidade central descompasso espacial entre oportunidades de trabalho e disponibilidade de sobre a diferenciação suburbana. Isso localizou a pesquisa suburbana dentro moradia (Kain, 1968); o problema da qualidade da educação é visto como da tradição mais ampla das comparações urbano-rurais e da análise ecológi- uma função da segregação comunitária (Coleman, 1976); a política fiscal da ca de espaços sociais metropolitanos (Duncan e Reiss, 1950; Wood, 1959; cidade emergiu como um problema de diferenciação espacial (Hill, 1974); o Shevky e Bell, 1975; Greer, 1965). Em conseqüência, emergiu um quadro da crescimento econômico passou a ser cada vez mais organizado em torno dos ordem social metropolitana, segundo o qual suburbanitas eram considera- processos intermetropolitanos e intrametropolitanos de localização (Ster- dos muito mais como classe média, afluentes, conservadores, centrados na nlieb e Hughes, 1975); e a qualidade da vida comunitária é progressivamente família, brancos, com um emprego profissional e politicamente ativos, do que encarada como um problema da segregação por renda na comunidade regio- os moradores da cidade central. Por sua vez, as populações da cidade central nal (Logan e Schneider, 1981). A evidência de que dispomos indica que os padrões sócio-espaciais contemporâneos são cada vez mais desconformes se caracterizavam por abrangerem as maiores proporções de minorias, et- nias, pessoas de baixa renda, a classe operária e liberais; a cidade central com a segregação de raças e grupos de renda que aparece em toda a região constituía também o local da máquina política, sobretudo da variedade de- metropolitana. Conseqüentemente, as divergências sócio-espaciais surgem mocrática. Conseqüentemente, na década de 60 a região metropolitana como crescentemente como problemas da política oficial de governos locais (Fains- tein e Fainstein, 1980; Megret, 1981). Embora alguns analistas convencionais um todo chegou a ser considerada segregada ecologicamente por renda, raça tenham-se dedicado incansavelmente à descrição desses padrões, como vi- e estilo de vida. Continua a ser cumprido um ambicioso programa de pesqui- mos, não chegaram a um acordo no tocante à conexão básica entre os modos sa, preocupado com as dimensões desse desenvolvimento irregular manifes- pelos quais nossa sociedade atual produz injustiças sociais e suas manifes- tado territorialmente (Edmonston, 1975). De fato, essa pesquisa, que é quase totalmente descritiva e que, segundo parece, não ajudou, de qualquer modo, tações espaciais (Thurow, 1975; Gordon et al., 1982; Bluestone e Harrison, a política governamental a amenizar o caráter injusto dessa segregação, do- 1982). Um dos propósitos dessa discussão é demonstrar a relação profunda minou o campo da sociologia urbana, pelo menos nos últimos vinte anos entre esses dois aspectos estruturais do desenvolvimento desigual. (Frey, 1979; Jiobu e Marshall, 1969; Bradford e Kelejian, 1973; Coleman, Em resumo, estudo dos problemas econômicos, políticos e so- Kelly e Moore, 1975; Kasarda e Redfearn, 1975; Schnore e Winsborough, ciais que constituem o grosso do programa de pesquisa urbana, estudo que 1972; Taueber e Taueber, 1964). Esse trabalho esclareceu também a diferen- sempre foi rotulado nominal ou discursivamente de ecológico, se viu domi- ciação funcional que ocorreu entre regiões, especialmente o cinturão-do-frio nado, atualmente, por uma perspectiva espacial básica, constituída regional- mente e considerada uma análise de padrões de distribuição específicos da e cinturão-do-sol (Sternlieb e Hughes, 1975; Burchell e Listokin, 1981; South e Poston, 1982). localização. Essa pesquisa se caracteriza, de um lado, pelo uso progressivo da distribuição espacial como um meio de discutir problemas urbanos, mas, de Finalmente, a pesquisa sobre a morfologia da diferenciação funcional dentro das regiões metropolitanas forneceu à ciência urbana uma gama de outro lado, por uma relutância em debater a maneira pela qual esses padrões problemas sociais especiais que, de um modo ou de outro, são encarados sócio-espaciais são produzidos pelas ações combinadas de forças sistêmicas na sociedade. É justamente para este último problema que desejo chamar a como uma conseqüência da diferenciação espacial metropolitana. Isto é, a atenção nos capítulos seguintes; e ele requer um paradigma de explicação24 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 25 novo, crítico, para a ciência urbana contemporânea. Correntemente, portan- abordarei fato de que investimento em imóveis é sempre atraente, e al- to, a pesquisa sobre a reestruturação maciça do espaço de assentamento gumas indicações sugerem que ele conserva seu apelo mesmo em épocas de transformou-se numa investigação global dos processos e atividades associa- depressão. Ao estudar investimento em terras, é importante estar conscien- dos à desconcentração: a diferenciação interna da região metropolitana, a di- te da forma que assume o investimento, bem como do nível do capital que ferenciação das atividades sócio-econômicas entre regiões inteiras do país e o está sendo canalizado ciclicamente para essa atividade. Os usos que a terra aparecimento de um maciço desenvolvimento sócio-espacial desigual, tanto pode receber, por exemplo, são suscetíveis de mudanças quase infinitas. Con- dentro das regiões metropolitanas quanto entre elas, num ciclo agravante de seqüentemente, podemos encarar a atual redução do que era antes uma rá- períodos de grande e de pequeno crescimento. Todavia, esses padrões con- pida expansão das regiões metropolitanas como parte de outros processos as- temporâneos são descritos, correntemente, numa abordagem convencional sociados à transferência da terra que agora assumirão maior importância, da ciência urbana, que defende uma imagem imprecisa do espaço de assen- como mudanças na diferenciação interna da metrópole transformação da tamento e uma compreensão ideologicamente distorcida das forças que a cidade central em condomínio e construção de ruas exclusivas para lojas, por produziram. Como discutirei no capítulo 2, há uma convergência de pensa- exemplo e o deslocamento para outros meios, mais intensivos, de desen- mento entre cada uma das áreas da ciência urbana isto é, sociologia, geo- volvimento da terra, como edifícios de escritório. Estes últimos processos grafia e economia em torno de um núcleo de hipóteses associadas à teoria também são parte daquilo que se quer indicar por desconcentração, além do ecológica. Abaixo, será revelado que essa abordagem não constitui a melhor crescimento da área marginal, pois eles transformam a cidade e a organi- forma de entender as forças sócio-espaciais que estruturam e transformam o zação sócio-espacial da região metropolitana. Em particular, uma das con- espaço de assentamento. seqüências mais dramáticas da desconcentração foi a reestruturação maciça Na fase mais contemporânea da desconcentração, os domínios subur- das áreas de cidade central, especialmente no Nordeste e no Meio-Oeste de- banos superam as regiões metropolitanas policêntricas em todos os Estados pois de duas décadas de renovação urbana. Unidos. Segundo Muller (1981), em 1977, 39,1% da população americana re- Nos capítulos seguintes, demonstrarei a necessidade de novas formas sidia em subúrbios; 28,5% vivia em cidades centrais. Nas metrópoles maio- de pensamento que podem sinalizar um entendimento das forças poderosas res, aquelas com mais de 1 milhão de habitantes, 61,3% da população vivia que alteraram o espaço de assentamento em geral e as cidades centrais em fora da cidade central (contra 56,8% em 1970). Embora as áreas rurais abri- particular. A maioria dos pesquisadores convencionais encara surgimento gassem 32,7% da população americana em 1977, deve-se considerar que a de edifícios de escritório, por exemplo, como um sinal da continuidade histó- maior proporção é de não-rurais e pouco diferentes, no estilo de vida, de ou- rica da influência dominadora da cidade central dentro da organização me- tros suburbanitas (Fischer, 1983). De fato, como se observou acima, as atuais tropolitana regional. Essa concepção errônea revela a fraqueza inerente ao tendências demográficas revelam que, de todos os setores regionais, são as pensamento convencional, pois depende de um paradigma interpretativo fora áreas rurais as que crescem mais depressa, e que as cidades menores estão de moda. Contudo, a partir da Segunda. Guerra Mundial, as áreas de cidade experimentando maiores aumentos de população. Trata-se de um fenô- central foram reestruturadas em conseqüência das próprias forças sociais que meno urbano, decididamente não-rural (Kasarda, 1980; Fuguitt e Voss, 1979; causaram a dispersão populacional para OS subúrbios e o cinturão-do-sol. De Fuguitt e Beale, 1978). Por conseguinte, se modelo polinucleado do domí- fato, a mudança dentro da cidade é parte da transformação do espaço de as- nio urbano se adequa melhor à descrição da forma corrente do espaço de as- sentamento introduzida pelos processos intermetropolitanos e intrametropo- sentamento, o crescimento urbano desse espaço é atualmente ilimitado. A litanos de desconcentração. A erradicação dos enclaves étnicos, a crescente desconcentração está afetando as terras disponíveis mais longínquas dos Es- marginalização das áreas de gueto, o fato de terem desaparecido das cidades tados Unidos, e processos associados de diferenciação interna dentro das re- centrais a manufatura e a indústria leve, a migração das tradicionais funções giões já desenvolvidas, como a cidade central, continuam a dominar os pa- comerciais do distrito comercial central, apesar dos sinais persistentes de seu drões de crescimento através do continuum metropolitano (Fuguitt e Heaton, redesenvolvimento, são todos indicadores de que a cidade central atual difere 1980; Vining e Strauss, 1977; Berry e Dahman, 1977). grandemente do que foi no passado. Não resta dúvida de que a atual depressão da indústria habitacional Apesar dos avanços descritivos da ecologia e da geografia e a despeito provocou um considerável declínio na taxa de conversão dos terrenos na área da proliferação de análises estatísticas documentando as dimensões da des- marginal. A expansão metropolitana atingiu, hoje, um estágio em que sofreu concentração (que logo serão exponencialmente aumentadas à medida que a um retardamento. Contudo, isso representa apenas uma mudança relativa comunidade acadêmica tomar conhecimento dos dados censitários de 1980), naquilo que sempre foi um fenômeno cíclico (ver capítulo 3). No capítulo 4, as investigações teóricas das razões que estão por trás dos atuais padrões só-26 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 27 cio-espaciais são limitadas e inconsistentes. De uma perspectiva convencio- cional. Quando apareceram, vieram de fora do país. É caso do estrutura- nal, sabemos o que está ocorrendo; contudo, não temos pleno conhecimento lismo de Manuel Castells, que rejeita a sociologia urbana como um campo de suas causas. Isso não quer dizer que não existam teorias urbanas. De fato, espúrio de investigação; é o caso também da abordagem neoweberiana, que essa discussão usa tal trabalho como ponto de partida para forjar uma nova se desenvolveu na Inglaterra em resposta às limitações do estruturalismo síntese de idéias sobre o crescimento urbano. marxista, mas que compartilha a crítica ideológica de Castells à ecologia; e, No momento, examinando superficialmente as atuais tendências de finalmente, é o caso da obra de Henri Lefebvre na França sobre a produção análise dos eventos e padrões urbanos contemporâneos, podemos identificar de espaço, que discorda do marxismo dos estruturalistas. sete abordagens: ecologia, geografia e economia urbanas que podemos A discussão seguinte apresenta essas concepções alternativas, mas pro- considerar a visão convencional e que domina a produção acadêmica nos cura explicá-las pela identificação dos problemas analíticos centrais que se Estados Unidos -, estruturalismo marxista, economia política urbana, neo- tornaram responsáveis por essas diferenças teóricas. Isto é, enfoque dessa weberianismo, e a perspectiva de produção de espaço. Ecologia, economia e obra estará voltado para problemas que surgem durante a tentativa de en- geografia urbanas constituem as abordagens típicas da maioria esmagadora tender os padrões de desenvolvimento e a organização sócio-espacial. Esses dos analistas urbanos nos Estados Unidos. As perspectivas restantes têm problemas serão isolados, ao se discutirem as sete abordagens amplamente relativamente poucos adeptos; contudo, são a conseqüência de uma intensa concebidas identificadas acima. Desse modo, além de desenvolver um para- atividade intelectual em toda a década passada, que revelou as imprecisões digma crítico que pode transformar-se na base de uma nova ciência urbana, da ciência urbana convencionais. As últimas quatro formulações surgiram será necessário enfrentar o debate entre diferentes versões do marxismo e como alternativas para o que se considera agora o estrangulamento ideológi- entre visões alternativas de como analisar melhor o modo contemporâneo de que os analistas convencionais sofreram ao procurar entender o desenvol- organização social. Em suma, desejo de forjar uma nova abordagem do es- vimento urbano contemporâneo. Muito mais fascinante, contudo, é fato de paço de assentamento se funde com a necessidade de apontar defeitos há que o intenso debate em torno das perspectivas corretas produziu uma espé- muito negligenciados na análise do materialismo histórico. Ao falar sobre es- cie de crítica extensiva entre concepções alternativas. Por exemplo, a ecologia paço de assentamento e tentar entender as mudanças que ocorreram aqui, e a geografia urbanas continuam fortemente paralisadas por um determinis- somos levados inevitavelmente a falar da mesma maneira sobre sociedade. mo tecnológico obstinado, através do qual a desconcentração urbana é expli- Nos capítulos finais dessa discussão, apresentarei uma síntese da análi- cada amplamente em termos de inovações nos modos de transporte e de se sócio-espacial baseada parcialmente na obra de Lefebvre, mas com a comunicação. incorporação das observações de outras abordagens alternativas para se Em contrapartida, economistas políticos urbanos, ao tentar introdu- entender a organização sócio-espacial. E, substituindo o paradigma da análi- zir uma interpretação marxista do processo urbano em substituição à ideolo- se convencional por uma perspectiva crítica alternativa, aplicarei essa síntese gia ecológica, são coagidos por um funcionalismo endêmico. Em essência, na explicação dos padrões contemporâneos de desconcentração de uma eles encaram a mecanização do crescimento urbano como uma conspiração forma que alcance um nível profundo de entendimento. Essa abordagem, capitalista perpetrada por um seleto grupo de indivíduos contra a massa dos denominada produção social de espaço, eleva o elemento espaço a um foco habitantes, que são chamados a classe trabalhadora (qualquer que seja o sig- principal de análise junto com as atividades da economia e do Estado. Isso nificado desse termo na sociedade moderna). Ecologistas urbanos escarne- significa que a forma contemporânea de desconcentração metropolitana po- cem dos esforços desses marxistas, enquanto estes, por sua vez, vêem os eco- de ser abordada principalmente como um modo histórico e socialmente es- logistas como servas ideológicas da classe dirigente. Isso é mais irônico ainda pecífico de design que pode ser entendido se captarmos a relação entre tais porque ambas as concepções, como veremos adiante, são paradigmas essen- espaço e os elementos de organização social, como economia, política, e va- cialmente funcionalistas e igualmente culpados de querer explicar as causas lores ideológicos. A análise urbana se realiza dentro de tal contexto como um por seus efeitos e compartilham uma ênfase excessiva sobre os fatores entendimento generalizado dos processos que produzem, mantêm e reprodu- econômicos. Todavia, se se observar corretamente este conflito entre versões zem espaço de assentamento. igualmente limitadas da ciência social, ver-se-á que os ecologistas da varie- Além disso, os padrões de distribuição regional metropolitana descritos dade tecnologicamente determinista dominam, no momento, a instituição da pela análise convencional não são mais aceitos como fatos isolados sem im- sociologia urbana. Conseqüentemente, abordagens alternativas mais interes- plicações de busca da justiça social. Isto é, procuro não só entender por que o sadas em procurar a verdade conheceram um desenvolvimento muito lento meio ambiente olha o caminho que faz, mas também avaliar o importante fa- nos Estados Unidos, pois tiveram de combater as formas de coerção institu- to de que ele não precisa olhar esse caminho. Não há nada inevitável no que28 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 29 se refere aos padrões de crescimento, apesar do ímpeto conservador da teo- total da ciência urbana, não apenas a redefinição de suas formas espaciais. ria convencional que procura convencer-nos dessa inexorabilidade. Embora No capítulo 2, começarei por considerar paradigma convencional e suas li- haja certas semelhanças em padrões de desenvolvimento metropolitano entre mitações. Mais significativa será a percepção de que grande parte da obra Estados Unidos e outros países, que poderemos dizer que são produzidas realizada pelos analistas convencionais há muito vem questionando sua pró- pela adoção de práticas uniformes de dominação, há diferenças entre a cida- pria base explicativa. No capítulo 3, examinarei os esforços dos economistas de dispersa, a forma multissetorial do espaço de assentamento nos Estados políticos marxistas para fornecer uma análise do espaço urbano adequada à Unidos e a forma de locais urbanos em outros países. Esses contrastes com- sociedade moderna. pesquisa marxista inicial desafiou as conjeturas e ex- parativos são apenas indicadores de um grande design que continua irrealiza- plicações de abordagens convencionais. Essa perspectiva salienta papel de do pelas sociedades, mais do que exemplos corretos de práticas espaciais. Is- dois processos distintos que estruturam o espaço: conflito de classes e a ló- to é, não estou defendendo uma abordagem diferente da sociedade como um gica da acumulação de capital. No primeiro caso, a ênfase ecológica sobre contra-exemplo do atual sistema nos Estados Unidos, pois planejamento um processo equilibrador de ajuste mascarou a luta desigual pelos recursos urbano em toda sociedade é uma fachada para poder. Pretendo salientar que modela espaço, especialmente o conflito de classes e a resposta das o design humanista de meios ambientes sociais, até agora impenetrado e indústrias à militância trabalhista. não-realizado, que se pode pôr em prática para orientar padrões de cres- No segundo caso, economistas políticos marxistas tentaram analisar o cimento da sociedade se se aceitar uma maior compreensão de sua malea- desenvolvimento urbano em termos mais globais, mediante processo da bilidade. Questionar a forma contemporânea de organização espacial se cho- acumulação de capital e sua relação com o espaço. Em vez de separar a ci- ca com a própria essência das instituições e atitudes que perpetuam o mito dade em nós de populações funcionalmente diferenciadas, como fazem os de que não existem quaisquer alternativas originais para os padrões de espa- analistas convencionais, marxistas encaram-na como uma aglomeração ço de assentamento. Mais importante, demonstrarei que a forma de espaço que salienta a produção de riqueza espacialmente através da concentração de não só é um produto social, mas é também seu valor. Em suma, o espaço é força de trabalho e de capital. As mudanças sócio-espaciais na cidade são re- uma construção social em todas as suas dimensões. Essa descoberta significa guladas pela lógica da acumulação de capital, e resultado desse processo que o que se considera atualmente acidental ou epifenomenal, a produção do numa sociedade capitalista é o desenvolvimento desigual e injustiças sociais meio ambiente, deve tornar-se um objeto dirigido do pensamento social. As- que são distribuídas tanto espacialmente quanto demograficamente. Desi- sim, a transformação da sociedade deve ser feita através de uma criação gualdades de classe e de raça, juntamente com diferenciais no provimento de consciente de novas relações sócio-espaciais que vinculem a transformação serviços sociais, são fenômenos mais característicos do meio sócio-espacial da obra à transformação da vida da comunidade. metropolitano. O ambiente construído tornou-se cenário de altos e baixos A importância da abordagem dita produção social de espaço é que ela cíclicos no mercado imobiliário, com a existência paralela de deterioração e procura unificar vários campos da análise urbana através da observação de de superconstrução. Os dois fenômenos são produzidos pelo próprio proces- que atuais problemas da sociedade parecem ser cada vez mais articulados so de construção na cidade sob relações sociais capitalistas, isto é, o cresci- como problemas de natureza espacial. No entanto, por que hoje o espaço ga- mento desigual é intrínseco à natureza capitalista do desenvolvimento. Em nha cada vez mais importância? O que significam relações espaciais ou terri- suma, a economia política marxista, ao transformar os tradicionais conceitos toriais na sociedade? Como se produzem as formas contemporâneas do es- marxistas de uma forma adequada à análise do espaço, explica de um modo paço de assentamento? Como podemos entender a. forma desconcentrada mais verdadeiro os padrões observáveis de desenvolvimento urbano. contemporânea? Qual é a relação entre espaço e luta de classes, entre eco- Apesar do relativo sucesso da economia política marxista como alterna- nomia e espaço, entre Estado e espaço? Em que ponto a ciência urbana fa- tiva ao pensamento dominante, possui, não obstante, certas limitações bem lha, e em que ponto ela se revela uma ideologia? Em que sentido são analo- definidas. Elas são identificadas como aquelas que por algum tempo infesta- gamente limitadas as abordagens marxistas? Finalmente, como podemos es- ram o marxismo em geral. Assim, um desejo de articular um paradigma críti- pecificar a articulação de atividades sociais, políticas e econômicas com es- CO na análise do espaço nos obriga a enfrentar e resolver questões fundamen- paço, de modo a apreender os padrões de distribuição que produzem meio tais do desenvolvimento contemporâneo do pensamento marxista: a incapa- ambiente em que todos devemos viver? Esta última questão, ampla, como cidade da economia política marxista de escapar das categorias ideológicas veremos adiante, é que emoldura o que denomino debate sobre a teoria do do raciocínio econômico dominante, especialmente sua ênfase comum sobre espaço e orienta a organização dessa discussão. o crescimento econômico como tema social básico do pensamento; 0 flagelo A principal tarefa que temos à nossa frente envolve a reconceituação do positivismo, em particular a tendência a substituir os argumentos mono-30 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 31 causais, deterministas, da corrente convencional pelas versões marxistas da junção entre os serviços sociais que o governo provê e a reprodução da força mesma coisa; e, finalmente, a forma imprecisa como se especifica a articu- de trabalho de acordo com as necessidades do capital. Mediante a análise lação Estado-sociedade, que reduz a capacidade da abordagem marxista de dessa interseção, que Castells denomina consumo coletivo, explicam-se os estudar os fenômenos políticos dentro do espaço de assentamento. Além do movimentos sociais urbanos e a política dentro do lugar exato da forma con- mais, ao focalizar modelo da forma confinada de cidade, os economistas finada de cidade. políticos marxistas reproduziram as impropriedades espaciais do raciocínio Apesar das muitas resistências dessa formulação, a leitura althusseriana ortodoxo. Embora alguns marxistas tenham estudado a desconcentração em de Marx comete sérios erros conceituais, e Castells caiu vítima deles em sua certas formas limitadas, como veremos, eles persistem em falar de "ambiente análise da cidade. Em essência, uma preocupação com espaço e com uma construído" em lugar de organização espacial e de "cidade" em vez de região postura política marxista no tocante aos processos capitalistas tardios de de- metropolitana polinucleada. Mais significativamente, os economistas políticos senvolvimento foi sacrificada em favor da análise de certas questões teóricas marxistas tratam a cidade como uma forma fenomênica, exatamente como o divorciadas da práxis. Através da influência de Castells, especialmente sua fazem algumas analistas, a saber, a cidade como ponto de convergência das teoria do consumo coletivo, a abordagem marxista do espaço foi transforma- tendências de acumulação que requerem, num sentido funcionalista, uma da amplamente num exercício acadêmico. Tornou-se uma forma de discurso, aglomeração centralizada. Desse modo, as formas espaciais são pouco mais embora de grande discernimento, que substituiu a exigência que Lefebvre fa- que receptáculos de processos econômicos e políticos. Conseqüentemente, zia de uma ação política sócio-espacial, usada anteriormente, durante os grande parte da crítica à análise convencional também se pode aplicar à eco- eventos de maio de 1968 na França, como um instrumento efetivo de práxis. nomia política marxista, mesmo que esta defenda uma teoria muito mais Segundo Lefebvre, a base de hegemonia capitalista são as relações de precisa da localização urbana. propriedade vigentes que alicerçam a sociedade em seu nível mais profundo. No capítulo 4, examinarei abordagens mais compreensivas que tratam Somente estudando a natureza dessas relações e transformando-as é que a o problema do espaço num sentido generalizado e a partir da tradição mar- luta de classes pode lograr a criação de uma sociedade humanista. Todavia, xista. A questão que enfrentamos envolve a necessidade de ir além da arma- Lefebvre não é panfletário. Como as de outros marxistas, suas afirmações dilha ideológica de equiparar a análise urbana a investigações econômicas políticas estão fundamentadas numa análise teórica bem articulada da vida detalhadas, ao especificar, de um lado, a articulação entre o sistema de orga- contemporânea. Na realidade, Lefebvre hoje é talvez mais antigo estadista nização social em sua totalidade e, de outro, a organização do espaço. A ne- da filosofia social marxista. Por toda uma década, na França, ele se dedicou à cessidade de uma abordagem marxista que considere os vários níveis de or- análise da vida urbana. O resultado final desse estudo é sua obra de 1974, La ganização social, inclusive o político e o cultural, tanto quanto econômico, production de l'espace, que nunca foi analisada no mundo de língua inglesa. levou a análise a conceituações amplamente fundamentadas da articulação No capítulo 4, toda a produção intelectual de Lefebvre sobre espaço é Conseqüentemente, através desse esforço foram feitas comparada e avaliada junto com a de Castells. contribuições importantes à análise marxista; isso aguçou a compreensão crí- A comparação entre estruturalismo e dialética marxista, encontrada no tica da organização sócio-espacial na sociedade moderna. Num subcapítulo denominado Debate sobre a Teoria do Espaço", são comparadas as duas capítulo 4, suscita problemas em torno da análise espacial, somados aos que emergem da crítica que a economia política marxista faz à ciência urbana principais teorias que vinculam a organização espacial à social: a leitura al- thusseriana da ciência urbana por Manuel Castells e a abordagem dialética convencional. Enquanto Lefebvre, por exemplo, fez muitos progressos na ar- sócio-espacial de Henri Lefebvre. contraste entre-essas perspectivas alter- ticulação de uma teoria do espaço para a sociedade moderna, que inclui fato- nativas, derivando cada uma de diferentes concepções do marxismo, é bas- res políticos e culturais, bem como análise econômica, permanecem sem so- tante claro, pois a obra de Castells de muitas maneiras pode ser interpretada lução vários problemas básicos do desenvolvimento do paradigma crítico que como uma réplica estruturalista à obra de Lefebvre. pode substituir a abordagem convencional. No capítulo 5, abordo esses pro- A abordagem de Castells pede que se dê atenção tanto à sua crítica da blemas, que incluem a maneira como se pode realizar uma análise classista ecologia urbana convencional quanto à maneira singular como é especificada da organização sócio-espacial e uma especificação do processo de acumu- lação de capital no espaço. Essas discussões particulares permitem examinar a articulação Estado-espaço. Em contraste com a análise urbana convencio- nal, que ignora papel do Estado na estruturação do espaço, Castells afirma a literatura contemporânea sobre temas urbanos, da autoria daqueles analis- que a cidade é um produto ao mesmo tempo do Estado e da economia. Sua tas que tentam libertar-se do pensamento convencional. Isso torna possível obra focaliza 0 aspecto singular dos processos sociais urbanos, ou seja, a con- estudar problemas fundamentais que não foram solucionados até agora, ou,32 MARK GOTTDIENER A PRODUÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO 33 se essa tarefa se revelar impossível, fazer com que problemas aparentemente desta crítica ao pensamento convencional, junto com material desenvolvido refratários fiquem tão claros quanto podem ser para trabalho futuro. nos capítulos 2 e 3, soma-se a um paradigma admirável que remove últi- A síntese proposta nos capítulos 5 e 6 contém as seguintes proprieda- mos elos confiáveis da teoria social dominante. des. Descreve em detalhe os modos como ações de grupos sociais estão en- resultado da reestruturação sócio-espacial contemporânea foi a pro- volvidas na produção de espaço de acordo com as correspondências interati- dução de desenvolvimento desigual. Embora esse conceito, na forma como é vas e dialéticas estabelecidas pelos aspectos estruturais únicos, específicos da aqui usado, envolva ao mesmo tempo uma dimensão espacial e uma social, sociedade capitalista. A síntese invectiva a noção marxista comum de que as seu traço mais importante é o tributo em vidas pessoais cobrado pelos aspec- relações materiais se manifestam diretamente no espaço e rejeita-a como ex- tos de natureza injusta e de design desumanizado que a produção de espaço plicações simplistas dos padrões sócio-espaciais que fazem pouco mais que apresenta sob as relações sociais existentes. A noção convencional de ajuste rotulá-las de produções do "capitalismo" ou, mesmo mais antropomorfica- equitativo gerada pela interação entre grande quantidade de atores sociais mente, dos "capitalistas". Em lugar de tais asserções, a produção espacial é relativamente iguais se revela falsa. Desse modo, a necessidade de um novo analisada como a manifestação material de processos sociais complexos, as- paradigma conceitual torna-se mais do que acadêmica quando se examina a sociados às fases do desenvolvimento capitalista. Contudo, pode-se notar que política urbana contemporânea. Analistas convencionais querem que acredi- padrões sócio-espaciais e processos interativos constituem resultados contin- temos que os padrões de crescimento refletem algum processo de ajuste efi- gentes das muitas relações contraditórias que interagem no modo capitalista, ciente que envolve mudança demográfica e inovação tecnológica. Se as muni- mais do que produtos diretos ou de intenções capitalistas ou de maquinações cipalidades têm problemas por causa das disparidades sócio-espaciais, por estruturais. Além disso, conceitua-se que a linha de frente dessas relações exemplo, pouca coisa seria feita com relação a elas, pois a visão global revela está incrustada, de forma inigualada, nas atividades do setor imobiliário, des- que elas são produzidas por forças sociais "naturais". Afirma-se que a inter- critas com detalhes no capítulo 6. Assim, as relações espaciais e sociais estão ferência na maneira pela qual se desenvolve essa sociedade pode tão-somen- relacionadas dialeticamente. Se as necessidades de capital se manifestam no te obstruir a maneira orgânica da nossa evolução. Uma leitura de alguns do- espaço, as mudanças espaciais se manifestam nas necessidades de capital. cumentos de política pública urbana dos anos recentes revela a surpreenden- Depois de desenvolver um modo conceitual de analisar a produção de te amplitude com que a ideologia acima influenciou as idéias administrativas. espaço com base no materialismo, dedico capítulo 7 a uma discussão da Não obstante, recentes alternativas propostas pelos liberais de esquerda, que forma contemporânea do espaço de assentamento. O aspecto singular dos tentaram opor-se aos sentimentos dos neoconservadores, sofrem as mesmas padrões atuais implica a reestruturação da organização sócio-espacial pelos limitações que, por algum tempo, infectaram as abordagens reformistas, es- efeitos combinados do processo social capitalista tardio e do processo espa- pecialmente uma ênfase comum sobre a promoção do crescimento econômi- cial de desconcentração. Padrões de desconcentração e sua diferenciação in- às custas da transformação de todas as relações sociais. A escolha entre as terna são considerados o enfoque central da ciência Da perspectiva alternativas neoconservadoras e as liberais de esquerda para a política públi- crítica derivam explicações desses aspectos, e elas são comparadas com as ca nacional, na verdade, nem mesmo é uma escolha. tentativas limitadas da ciência convencional. Hoje, a oposição cidade-campo Num capítulo conclusivo sobre a política pública urbana, analisarei as não caracteriza mais o crescimento nos Estados Unidos, como ocorre em formas pelas quais um modo qualitativamente novo de raciocínio sócio-espa- tantas outras nações industrializadas que ainda possuem relações pré-capita- cial pode apresentar alternativas que superam as limitações oferecidas pelas listas predominantes em assentamentos rurais. A região desconcentrada, escolhas existentes. Conseqüentemente, vê-se que uma política sócio-espacial polinucleada, depende da ação das relações capitalistas tardias tanto na agri- reconstruída depende da obra que aperfeiçoa o paradigma crítico analisador cultura quanto na indústria de modo que o espaço é transformado pela da organização sócio-espacial e que nos leva a contemplar abordagens utópi- "moderna propriedade fundiária" em ambas as extremidades da região cas do design que têm suas raízes no século XIX, uma perspectiva que outro- metropolitana. O capítulo 7 conclui com uma análise da reestruturação da ra marxistas e analistas convencionais consideravam um anátema. Uma integração funcional urbana através das regiões, conhecida às vezes por investigação desse tipo dá uma nova direção ao pensamento, que, em vez de mudança para cinturão-do-sol, a qual confronta diretamente com as expli- identificar a qualidade de vida comunitária com crescimento econômico, visa cações convencionais. Em particular, o que se toma por um processo natural a ações sociais mais transformadoras. da evolução social se revela uma forma desordenada de obtenção de lucro, ajudada pelo Estado e envolvendo a manipulação de padrões espaciais por interesses legítimos que atuam dentro do setor da propriedade. A eficácia