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LEGISLAÇÃO APLICADA AOS NEGÓCIOS E MERCADO Olá! Podemos conceituar a atividade econômica como as práticas que integram a economia de uma sociedade, o que exige uma administração para formas de suprir as demandas das pessoas incluídas em um grupo social, tanto as demandas não materiais, como lazer e educação, quanto as demandas materiais, como a saúde e alimentação. Todas essas atividades são regidas por normas baseadas nos princípios presentes na Constituição Federal. Nesta aula, iremos abordar sobre os princípios da constituição que regem tais atividades e o contexto em que sua promulgação ocorreu. Por fim, conheceremos os mecanismos legais mais relevantes na regulação desses princípios na atividade econômica. Bons estudos! AULA 1 – ATIVIDADE ECONÔMICA EM GERAL 1 OS PRINCÍPIOS DA ATIVIDADE ECONÔMICA O mercado, também conhecido como atividade econômica, é composto pelas práticas de comercialização, produção e consumo realizadas pelo governo, pelas empresas e pela população, chamados de agentes econômicos. Essas práticas estão presentes desde o princípio da civilização, sendo configuradas visando suprir as intermináveis demandas do ser humano. Em um primeiro momento, a produção de serviços e bens cumpria o papel de suprir as demandas individuais, englobando uma pequena quantia de agentes econômicos. Atualmente, a atividade econômica é formada por uma quantidade bem maior de agentes e objetiva suprir as demandas humanas em nível mundial. A princípio, o direcionamento da atividade econômica era completamente liberal, possibilitando uma liberdade para os agentes econômicos formularem o modo como vão atuar no mercado. Nesse contexto, a função do Estado se reduzia à proteção da população e do país em si de invasões exteriores. Tal padrão de mercado conseguiu se manter por longos anos, sendo baseados nas ideias do economista e filósofo britânico Adam Smith. Smith buscou provar que a riqueza de uma nação poderia ser produzida somente pela atuação da população, direcionados pelo seu interesse de se autodesenvolver e crescer. Ele imaginava que o mercado ideal seria aquele formado em um cenário com pouca intervenção e regulamentação estatal. No decorrer dos anos, ficou constatado que um mercado pouco ou nada regulamentado gerava problemas graves para as demandas sociais. Um mercado sem regulamentação favorecia as demandas de grandes grupos econômicos, possibilitando a criação de mercados oligopolizados, com grande desigualdade em relação à competição dos agentes econômicos. Com isso, será preciso uma intervenção do Estado até um determinado nível, visando suprir as demandas da sociedade. Na primeira metade do século XX, os países desenvolvidos passaram a se interessar pelos ideais do keynesianismo, uma corrente criada pelo economista britânico John Keynes (2012), fortemente baseada em uma de suas obras mais populares, “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” (cujo nomen original era The General Theory of Employment, Interest and Money). Na obra supracitada, fica clara a contraposição do economista perante o modelo liberal formulado por Adam Smith ao apresentar a defesa de um modelo econômico intervencionista, falando que a geração de empregos e o desenvolvimento socioeconômico que vem junto seriam consequência de conjunturas e determinações macroeconômicas implementadas e configuradas pelos governos, ao invés das práticas microeconômicas e individuais dos agentes de mercado. Figueiredo (2014) afirma que os pensamentos e ideais keynesianos tiveram forte influência no grupo de práticas colocadas em prática por Franklin Roosevelt enquanto presidente dos Estados Unidos, tais práticas foram nomeadas de New Deal, e visavam reformar e recuperar a economia norte-americana fortemente afetada pelos eventos da Grande Depressão de 1929. A ideologia keynesiana cresceu nos principais países que mandavam na economia mundial durante a primeira metade do século XX, deixando de lado o modelo liberal, o que fez a função do Estado aumentar, passando a fornecer para a população, principalmente para os mais pobres, bem-estar social e direitos básicos. Desse modo, tivemos um aumento da atenção aos operários, lhes atribuindo direitos trabalhistas, modificando as relações entre empresários e operários. Seguindo os passos das maiores economias do mundo, o Brasil manteve o modelo econômico liberal até a promulgação da Constituição Federal de 1934, que começou a detectar um desenvolvimento econômico desorganizado devido à pouca intervenção estatal. Além disso, a constituição garantiu a proteção dos direitos trabalhistas, dando origem à promulgação do salário mínimo, da Justiça do Trabalho, das férias remuneradas, entre outros. (BRASIL, 1934). De 1934 até o presente, o Brasil promulgou outras quatro constituições federais, no qual a última foi no ano de 1988. Nesse contexto, prevaleceu no Brasil um padrão intervencionista do Estado, que atua dentro do modelo capitalista de mercado, ao mesmo tempo que procura garantir condições mínimas para a população via políticas assistencialistas. No geral, o nível de intervenção estatal sobre o mercado, o direcionando para uma política econômica que o próprio sistema idealiza, pode o classificar como um Estado intervencionista, liberal ou neoliberal. 1.1 Mecanismos legais da atividade econômica O começo da transição de um Estado liberal para um intervencionista aconteceu depois da promulgação da constituição de 1934, determinando a função da intervenção econômica do Estado e uma ordem econômica pela primeira vez, propiciando o aparecimento de constituições econômicas. Desde então, a economia passou a ter um aspecto jurídico, o que a transformou em uma parte da ordem constitucional. A ordem econômica manifesta o direcionamento principal do Estado em relação ao mercado. Seu objetivo é organizar a estrutura do Estado sobre o cumprimento das práticas econômicas, embasadas em objetivos, fundamentos e princípios que definem e orientam os limites das leis infraconstitucionais a serem promulgadas. A explicação da ordem econômica através de seus objetivos, fundamentos e princípios, permite que os agentes econômicos tenham um conhecimento prévio do modelo econômico que estão lidando. Ademais, aponta também as prováveis limitações que o Estado irá implementar aos agentes mediante suas práticas mercadológicas. A formulação da ordem econômica de um país em específico se baseia em sua constituição, sendo o principal documento que dispõe as normas para a configuração da atividade econômica. Podem ser promulgadas outras leis que conservem o objetivo dessa configuração, no entanto, todas precisarão seguir os limites que constam nas regras constitucionais, destacando a relevância da Constituição Federal no direcionamento jurídico econômico. A Constituição, em seu art. 170, destaca os fundamentos da ordem econômica determinada pelo país, assim como seus princípios e objetivos, ao dizer que, baseada na valorização da livre iniciativa e do trabalho humano, a ordem econômica possui o intuito de garantir a todos as condições dignas, seguindo os ditames da justiça social (BRASIL, 1988). Iremos observar os principais fundamentos da ordem econômica descritos anteriormente nos próximos subtópicos. 1.1.1 Valorização do trabalho humano Consiste no primeiro fundamento da ordem econômica brasileira, que significa garantir o direito ao trabalho para a população brasileira. Nesse contexto, o trabalho possibilita a existência digna do indivíduo, o atribuindo um conjunto de direitos sociais. Desse modo, fica a cargo do Estado uma série de obrigações, incluindo a geração de vagas de emprego, bem como vários outros direitos sociais. Em meio a esses direitos,podemos incluir o repouso semanal remunerado, o salário mínimo, o seguro-desemprego, o fundo de garantia por tempo de serviço, o 13º salário e a jornada de trabalho. No entanto, Del Masso (2013) destaca a qualificação do operário para a garantia, valorização e empregabilidade, uma vez que a valorização do trabalho precisa se originar anteriormente à prestação de serviços em si, já que não teria como sustentar o sistema econômico com um indivíduo sem valor produtivo. 1.1.2 Livre iniciativa Tal fundamento garante que toda a população tenha direito de empreender livremente, atribuindo a possibilidade de escolha do ramo que irá seguir, tendo a liberdade de permanecer, entrar ou sair do ramo mercadológico sem que tenha interferência externa. No entanto, a livre iniciativa não diz respeito a uma liberdade completa em relação à exploração da atividade econômica da forma como o agente quiser, pois outras regras determinarão os limites do agente econômico, como a concorrência, a justiça social, os direitos dos consumidores, entre outros. Ademais, cumprindo sua função como regulador do mercado, o Estado descreverá os requisitos mínimos que o agente precisará seguir ao exercer sua atividade com o intuito de defender a coletividade. 1.1.3 Existência digna Indo além de um fundamento de ordem econômica, a existência digna também faz parte dos fundamentos do Estado brasileiro em si, descritos no primeiro artigo da Constituição Federal. Enquanto um fundamento de ordem econômica, a existência digna atribui ao Estado a função de incentivar uma atividade econômica que não afete a dignidade de sua população e que também facilite a erradicação da pobreza, com o fim das injustiças e desigualdades sociais. Segundo Figueiredo (2014), as políticas assistencialistas formuladas pelo Estado precisam ser direcionadas para as classes menos favorecidas, isto é, para as partes hipossuficientes. No entanto, as políticas estatais precisarão direcionar seus esforços para a geração de emprego em relação às classes mais ativas economicamente, facilitando a geração de rendas individuais, que aumentarão a arrecadação de receitas para o país. 1.1.4 Justiça social Esse fundamento visa ser o resultado dos demais princípios que vimos anteriormente. Ademais, isso significa que a população precisa ter oportunidades e direitos iguais para aproveitar os serviços e produtos básicos em relação às necessidades mínimas de sobrevivência. Conforme Del Masso (2013), a procura pela justiça social precisa considerar antecipadamente que o desenvolvimento econômico não gera consequentemente um desenvolvimento social. O Estado precisa gerar um desenvolvimento econômico que dê frutos que possam ser usufruídos de forma justa pela sociedade, isto é, o resultado desse desenvolvimento precisa ser aproveitado pela população em geral. 1.1.5 Leis de conteúdo econômico Em contrapartida, aos demais ramos do direito, as regras do direito econômico não ficam dispostas em um código econômico, de forma semelhante às regras dispostas no Código Penal, do Direito Criminal e o Código Civil para o Direito Comercial, para citar alguns exemplos. Elas estão divididas em leis extravagantes, isto é, estão distribuídas em várias leis especiais. A gama de leis do direito econômico são guiadas pela ordem econômica presente na constituição de 1988. Organizadas desse modo, tais leis favorecem a intervenção que o Estado precisa fazer para alcançar os objetivos almejados e garantir o funcionamento natural da atividade econômica. Entre essas leis, podemos destacar as seguintes: ➢ Mercado financeiro: Previsto na Lei n.º 4.595, de 31 de dezembro de 1964, que garante políticas para as instituições bancárias, monetárias e creditícias, além de formar o Conselho Monetário Nacional e dá outras providências. ➢ Mercado de capitais: Previsto na Lei n.º 4.728, de 14 de julho de 1965, que regulamenta o mercado de capitais e determina ações para favorecer seu desenvolvimento. ➢ Mercado de valores mobiliários: Previsto na Lei n.º 6.385, de 7 de dezembro de 1976, que garante políticas direcionadas ao mercado mobiliário, além de formar a Comissão de Valores Mobiliários. ➢ Sociedade Anônimas (S.A.): Previsto na Lei n.º6.404, de 15 de dezembro de 1976, garante políticas para as sociedades por ações. ➢ Defesa do Consumidor: Previsto na Lei n.º 8.078, de 11 de setembro de 1990, garante políticas relacionadas com a proteção do consumidor e dá outras providências. ➢ Código de Propriedade Industrial: Previsto na Lei n.º 9.279, de 14 de maio de 1996, propõe a regulamentação de obrigações e direitos referentes à propriedade industrial. ➢ Sigilo nas operações financeiras: Previsto na Lei Complementar n.º 105, de 10 de janeiro de 2001, que garante políticas relacionadas ao sigilo das operações de organizações financeiras e dá outras providências. ➢ Falência e recuperação de empresas: Previsto na Lei n.º 11.101, de 9 de fevereiro de 2005, que propõe regulamentação sobre a recuperação extrajudicial, judicial e a falência da empresa ou do empresário. ➢ Abuso do poder econômico: Previsto na Lei n.º 12.529, de 30 de novembro de 2011, que forma o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, garantindo a repressão e a prevenção relacionadas às infrações contra a ordem econômica. Tal decreto modifica o Decreto-Lei n.º 3.689, de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal); a Lei n.º 8.137, de 27 de dezembro de 1990; a Lei n.º 7.347, de 24 de julho de 1985. Além disso, revoga os dispositivos da Lei n.º 9.781, de 19 de janeiro de 1999 e da Lei n.º 8.884, de 11 de junho de 1994, e dá outras providências. 1.2 Princípios da atividade econômica brasileira Tais princípios determinam que a ordem econômica precisa se basear na propriedade privada, na soberania nacional, na livre concorrência, na função social da propriedade, na proteção ao meio ambiente, na defesa do consumidor, na procura por emprego pleno e na diminuição das desigualdades sociais e regionais, assim como a assistência para as empresas de pequeno porte, formadas com base nas leis nacionais, tendo a administração e a sede em território brasileiro. No artigo “A Ordem Econômica Constitucional e os Limites à Atuação Estatal no Controle dos Preços” escrito por Luis Roberto Barroso (2002), ministro do Supremo Tribunal Federal, aponta que a falta de homogeneidade em relação aos princípios, podendo resultar em conflitos, além dos princípios, poderem limitar uns aos outros. A título de exemplo, podemos citar a função da livre concorrência, que limita o papel desempenhado pelo princípio do fornecimento de emprego pleno e pelo princípio da diminuição das desigualdades regionais. 1.2.1 Soberania nacional Tal princípio dispõe que todas as decisões econômicas feitas em território nacional precisam seguir os interesses do Estado em questão. Desse modo, os agentes econômicos precisam agir no mercado conforme as regras determinadas para tal atuação. A soberania nacional pode ser considerado o mais alto em questão de autoridade governamental, representando a última instância no poder decisório. Segundo Barroso (2002), a soberania consiste em um elemento fundamental para o Estado, tanto no ponto de vista interno, manifestando a supremacia da lei e da Constituição, quanto no ponto de vista externo, nivelando o país às demais nações, evitando sua subordinação. 1.2.2 Propriedade privada Esse princípio se resume na compreensão dos direitos relacionados com o domínio da coisa, ou seja, do objeto da organização dos agentes econômicos e da exploração comercial. Considerando essa ideia, os agentes econômicos terão garantia de que terão a permissão de direcionar seus recursos em uma atividade econômica em específico e, de modo semelhante, se beneficiar dos resultados produzidos por ela.1.2.3 Função social da propriedade Um exemplo de princípio que afronta diretamente o descrito no tópico anterior. O Estado precisa fornecer o direito à propriedade privada para a população, contanto que ela tenha de uma função social, isto é, precisa ser usada para produzir emprego, riqueza e tributos visando acelerar o desenvolvimento econômico. O significado de função social engloba ideias centrais, como o uso adequado de recursos naturais, o aproveitamento racional, o bem-estar da comunidade e a conservação do meio ambiente. 1.2.4 Livre concorrência Um princípio que proporciona a garantia por lei de que qualquer pessoa tenha igualdade na competição mercadológica. O Estado também precisa conservar um número expressivo de exploradores de mercado. O princípio da concorrência é um dos sustentáculos da economia liberal, sendo um resultado da livre iniciativa. Del Masso (2013) ressalta o benefício da livre concorrência para os consumidores e para o mercado, uma vez que aumenta sua eficiência e gera mais possibilidades de escolha para adquirir o produto que melhor se enquadra em suas preferências. 1.2.5 Defesa do consumidor Um princípio que atribui ao Estado a função de proteger o consumidor, englobando a base do ciclo econômico. No decorrer desse ciclo, as empresas irão produzir e começar a circulação de serviços e mercadorias caso tenha alguém para adquirí-los na base. Com isso, será fundamental protegê-los daquele que comanda o ciclo econômico no mercado. 1.2.6 Defesa do meio ambiente Esse princípio se manifesta como uma grande limitação da livre iniciativa, uma vez que nenhum agente conseguirá extrair matérias que prejudiquem os elementos de produção natural para gerar atividade econômica. Desse modo, o Estado precisa promulgar leis que mantenham o uso racional dos recursos naturais, diminuindo os impactos à natureza, como qualquer mudança química, física ou biológica com a tendência de desequilibrar a flora e a fauna. 1.2.7 Diminuição das desigualdades sociais e regionais Consiste no reconhecimento por parte do Estado de compreenderas divergências apresentadas em cada região do país em seu ordenamento econômico e jurídico. Como podemos observar, o território brasileiro possui regiões com baixa qualidade de vida e desenvolvimento e outras mais desenvolvidas e privilegiadas. Na visão macro, onde todos precisam se beneficiar com o desenvolvimento econômico, o Estado precisa elaborar políticas eficientes de distribuição de receitas e renda, visando beneficiar as classes sociais e regiões que se encontram em posição desfavorável em relação às outras. 1.2.8 Emprego pleno Engloba a promulgação de leis pelo Estado relacionadas com a geração de empregos e não prejudique os empregos que já existem, considerando que o desemprego consiste em uma das facetas mais graves da desigualdade social. O planejamento de políticas que favoreçam o emprego pleno impulsionaria a economia, proporcionando um aumento na renda per capita nacional e na arrecadação de impostos, bem como uma redução nos gastos com previdência e seguridade social. 1.2.9 Beneficiação das empresas nacionais de pequeno porte Consiste em políticas que visam defender as pequenas empresas no território nacional. De forma individual, elas ocupam uma fatia menor do mercado em comparação com seus concorrentes, que possuem atuação global e um maior poderio financeiro. Geralmente, formam uma grande porção do capital gerador de emprego e renda e, por esse motivo, o Estado não deve economizar esforços para defendê-las de ações abusivas que as grandes empresas podem realizar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARROSO, L. R. A ordem econômica constitucional e os limites à atuação estatal no controle de preços. Revista Diálogo Jurídico. n. 14, 2002. BRASIL. Constituição (1934). Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934. Rio de Janeiro, 1934. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, 1988. DEL MASSO, F. Direito econômico: esquematizado. 2. ed. São Paulo: Método, 2013. FIGUEIREDO, L. V. Lições de direito econômico. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014. KEYNES, J. M. The general theory of employment, interest and money. Lexington: [s. n.], 2012.