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A RAIA DIVISÓRIA 
GEO-FOTO-GRAFIA DA RAIA DIVISÓRIA 
SÃO PAULO – PARANÁ – MATO GROSSO DO SUL
Volume 3
 
Editora da Universidade Estadual de Maringá
Reitor: Prof. Dr. Décio Sperandio
Vice-Reitor: Prof. Dr. Mário Luiz Neves de Azevedo
Diretor da Eduem: Prof. Dr. Ivanor Nunes do Prado
Editor-Chefe da Eduem: Prof. Dr. Alessandro de Lucca e Braccini
CONSELHO EDITORIAL
Editor Associado: Prof. Dr. Ulysses Cecato
Vice-Editor Associado: Prof. Dr. Luiz Antonio de Souza
Editores Científi cos: Prof. Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima, Profa. Dra. Analete Regina Schelbauer, 
Prof. Dr. Antonio Ozai da Silva, Prof. Dr. Clóves Cabreira Jobim, Prof. Dr. Edson Carlos Romualdo, Prof. 
Dr. Eliezer Rodrigues de Souto, Prof. Dr. Evaristo Atêncio Paredes, Prof. Dr. João Fábio Bertonha, Profa. 
Dra. Maria Suely Pagliarini, Prof. Dr. Oswaldo Curty da Motta Lima, Prof. Dr. Reginaldo Benedito Dias, 
Prof. Dr. Ronald José Barth Pinto, Profa. Dra. Taqueco Teruya Uchimura, Profa. Dra. Terezinha Oliveira, 
Prof. Dr. Valdeni Soliani Franco.
MESSIAS MODESTO DOS PASSOS
A RAIA DIVISÓRIA 
GEO-FOTO-GRAFIA DA RAIA DIVISÓRIA 
SÃO PAULO – PARANÁ – MATO GROSSO DO SUL
Volume 3
Maringá
2008
Divisão de Projeto Gráfi co e Design: Marcos Kazuyoshi Sassaka
Fluxo Editorial: Edneire Franciscon Jacob, Maria José de Melo Vandresen, Mônica Tanamati 
Hundzinski, Vania Cristina Scomparin
Artes Gráfi cas: Luciano Wilian da Silva, Marcos Roberto Andreussi
Divisão de Marketing: Marcos Cipriano da Silva
Comercialização: Norberto Pereira da Silva, Paulo Bento da Silva, Solange Marly Oshima
Revisão de Língua Portuguesa: Annie Rose dos Santos
Capa – arte fi nal: Luciano Wilian da Silva
Projeto gráfi co e Editoração: Marcos Kazuyoshi Sassaka
Revisão técnica: Antonio Ozai da Silva
Fonte: Book Antiqua
Tiragem: 500 exemplares
Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
 (Biblioteca Central - UEM, Maringá – PR., Brasil)
 Passos, Messias Modesto dos
P289r A raia divisória / Messias Modesto dos Passos. -- Maringá : 
Eduem, 2006-2008.
 3 v. : il., fi gs, tabs.
 
 Conteúdo : v.1. Geosistema, paisagem e eco-história. -- 
v.2. Eco-história - São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. -- 
v.3. Geo-foto-grafi a - São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. 
 Indexado em GeoDados http://www.geodados.com.br
 ISBN 85-7628-027-2 (v.1). -- ISBN 978-85-7628-85-X (v.2). 
-- ISBN 978-85-7628-086-8 (v.3)
 
 1. Geosistema. 2. Paisagem. 3. Eco-história. 4. Geo-fo-
tografi a. I. Título.
CDD 21.ed. 910.021734
Copyright © 2008 para o autor
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo 
mecânico, eletrônico, reprográfi co etc., sem a autorização, por escrito, do autor.
Todos os direitos reservados desta edição 2008 para Eduem.
Endereço para correspondência:
Eduem - Editora da Universidade Estadual de Maringá
Av. Colombo, 5790 - Campus Universitário, 87020-900 - Maringá-Paraná-Brasil
Fone: (0XX44) 3261-4527 - Fax: (0XX44) 3261-4109
Site: http://www.eduem.uem.br - E-mail: eduem@uem.br
Aos meus fi lhos 
Luciana, Thiago e Lucas
À Fundação de Amparo à Pesquisa do 
Estado de São Paulo – Fapesp, pelo 
apoio ao Projeto Temático: “Dinâmicas 
socioambientais, desenvolvimento local 
e sustentabilidade na raia divisória São 
Paulo - Paraná - Mato Grosso do Sul” 
(Processo n. 2005/55505-3).
S U M Á R I O
 
INTRODUÇÃO ........................................................................... 11
1 - POR UMA LEITURA FOTOGRÁFICA DA PAISAGEM .................. 13
A fotografi a e a paisagem ................................................................... 13
A representação da paisagem ........................................................... 15
A geo-foto-grafi a .................................................................................. 18
O sudoeste paulista ............................................................................. 21
O noroeste paranaense ........................................................................ 27
O sudeste sul mato-grossense ............................................................ 36
Referências ............................................................................................ 44
2 - TELEDETECÇÃO APLICADA AO ESTUDO DA PAISAGEM .......... 45
Limites e perspectivas da teledetecção aplicada ao estudo da 
paisagem .............................................................................................. 45
Sudoeste paulista/Pontal do Paranapanema .................................. 47
Noroeste paranaense ........................................................................... 56
Sudeste sul mato-grossense ................................................................ 64
Referências ............................................................................................ 69
I N T R O D U Ç Ã O
Inicialmente, apresentamos à Editora da Universidade 
Estadual de Maringá - Eduem, um texto extenso (464 páginas), 
na expectativa de que o mesmo fosse acolhido e publicado, 
em um único volume, sobre o título de Eco-história da 
raia divisória São Paulo – Paraná – Mato Grosso do Sul.
No entanto, o Conselho Editorial, apresentou-nos a sugestão 
de que o volume fosse desmembrado em três, de modo a tornar 
a obra acessível a um público maior e, claro, para atender ao 
objetivo de tornar esse resultado de pesquisa, embasada 
em pressupostos teóricos e metodológicos pouco usuais na 
geografi a brasileira da atualidade, em um marco referencial.
A partir de algumas refl exões, chegamos à conclusão 
de que a avaliação dos editores era pertinente e, 
então, concordamos pelo desmembramento do texto 
original em três, a serem publicados em seqüência.
O primeiro, Raia divisória: geosistema, paisagem e eco-
história, mantém-se fi el ao texto apresentado como capítulo de 
introdução do livro inicial. Os outros dois, Eco-história da raia 
divisória São Paulo – Paraná – Mato Grosso do Sul e Geo-foto-grafi a 
da raia divisória São Paulo – Paraná – Mato Grosso do Sul, têm, 
como objetivo maior, demonstrar a validade dos conceitos, 
das técnicas e das metodologias, aqui abordadas, no estudo 
de territórios e de paisagens, cujos limites se apresentam à 
feição de “descontinuidades objetivas” de raias divisórias.
Os títulos dos três livros apresentam termos pouco 
utilizados na geografi a brasileira - raia divisória, eco-história 
e geo-foto-grafi a. Dos títulos, deduz-se que a obra tem 
um objetivo e um conteúdo claros: trata-se de uma obra 
de Geografi a sobre uma parcela territorial com enfoque 
para as transformações paisagísticas ao longo da história.
O conjunto destes três livros começa com uma abordagem 
teórica (Volume 1), que explora os conceitos e a diversidade de 
abordagem teórico-metododógica, e proporciona uma referência 
básica dos fundamentos da ciência geográfi ca, particularmente 
da forma de estudar as regiões e os lugares. O segundo volume 
aborda o território e suas dinâmicas socioambientais em 
uma perspectiva eco-histórica. O terceiro volume se presta à 
realização de uma abordagem icnográfi ca desse território, aqui 
denominado de raia divisória, a partir de imagens do satélite 
Landsat TM e de inúmeras fotos, tomadas sobre o terreno, que se 
prestam à visão do processo histórico da construção paisagística. 
 
 A R A I A D I V I S Ó R I A
|12
1
POR UMA LEITURA FOTOGRÁFICA DA PAISAGEM
[...] J´ai découvert que lire un paysage c´était lire le temps.1
P. Chaunu, 1988.
A FOTOGRAFIA E A PAISAGEM
Antes de iniciarmos nossas considerações, é importante citar 
um pequeno trecho, extraído da entrevista de José de Souza 
Martins para o Caderno Mais do Jornal Folha de São Paulo de 
15/9/02: “A fotografi a é a arte de não apertar o botão. É preciso 
pensar antes de fotografar. A fotografi a não é uma reprodução do 
que está diante da câmera. Ela é um produto do imaginário”.
A fotografi a, desde o seu aparecimento,estabelecimento de 
núcleos urbanos; o mesmo ocorre em relação às estra-
das.
1 Estamos explicitando cerrados (no plural) para exprimir a diversidade fi sionômica e 
fl orística dessa formação vegetal no Sudeste Sul mato-grossense.
 A R A I A D I V I S Ó R I A
|66
 Córrego Três Barras/MS – CC 453 – LANDSAT TM 3/6/1999
Figura 14. Córrego Três 
Barras-MS (1999).
A imagem da microbacia do Córrego Três Barras foi 
selecionada por bem representar o modelo de organização do 
espaço predominante na raia sul mato-grossense:
signifi cativas áreas de fl orestas e de cerrados (em verme-• 
lho), circundadas por pastagens artifi ciais (tonalidade es-
verdeada), e algumas áreas de agricultura (tonalidade mais 
clara): mandioca, soja, milho...;
a rodovia MS–395 que liga os municípios da raia (Taquarussu, • 
Bataiporã, Anaurilândia) à BR – 267, cujo fl uxo é, predominan-
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67|
temente, no sentido do sudoeste paulista. A MS–395, após o 
asfaltamento (uma das obras compensatórias, realizadas pela 
CESP), acentuou, ainda mais, o sentido da circulação, ou seja, 
do sudeste sul-matogrossense para o oeste/sudoeste paulista, 
apesar das relações político-administrativas se concretizarem 
a partir da capital do Estado – Campo Grande;
a elevação do lençol freático, após o preenchimento do reser-• 
vatório da UHE Engenheiro Sérgio Motta, está concretamente 
evidenciada pela passagem das lagoas temporárias a lagoas 
permanentes (azul), próximo da margem direita do rio Paraná;
observa-se que algumas áreas de fl orestas/cerradão estão • 
sendo submetidas ao desmatamento (vermelho mais claro); 
algumas delas para atender ao reassentamento da popula-
ção deslocada da área inundada.
Figura 15a. 
Anaurilândia – MS 
(1986).
 A R A I A D I V I S Ó R I A
|68
Figura 15b. 
Microbacia do 
Córrego do 
Machado (1999). 
CC 453 – LANDSAT 
TM 3/6/1999.
As observações sobre o terreno apontam para uma 
predominância muito forte das áreas de pastagens e de 
manchas signifi cativas de vegetação residual, cuja composição 
fl orística, e respectivas fi sionomias, são bastante diversifi cadas 
e complexas: cerrado, cerradão, fl oresta, vegetação complexa 
com ocorrência signifi cativa de cactáceas.
A imagem Landsat TM de 3/6/1999 deixa claro o aumento 
das áreas inundadas e, inclusive, a formação de lagoas – 
aparentemente permanentes, entre os córregos Três Barras e 
do Cateto -; onde a retenção de água estava limitada à estação 
chuvosa.
Observa-se, ainda, que apesar da valorização das áreas de 
cerradão, após o enchimento do reservatório, para formação de 
pastagens, o desmatamento fi cou restrito a pequenas parcelas. 
Essa realidade resulta, marcadamente, de dois fatos: (a) maior 
rigor dos órgãos de fi scalização ambiental, notadamente 
do Ibama e (b) introdução da prática de calagem no solo, 
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no momento de refazer os pastos, mantendo e, até mesmo, 
aumentando a capacidade de apascentamento das pastagens. 
De certa forma, esta última prática está relacionada com a 
mentalidade renovadora de alguns empresários urbanos que, 
nos últimos anos, têm na formação de fazendas de médio porte 
a oportunidade de aplicar os lucros auferidos com o comércio, 
já que a aplicação fi nanceira não é tão atrativa como era, 
anteriormente ao Plano Real.
REFERÊNCIAS
BONN, F.; ROCHON, G. Précis de télédétection. Québec: Université 
du Québec, 1992. (Principes et Méthodes, 1). 
PASSOS, M. M. dos. Amazônia: teledetecção e colonização. São 
Paulo: Ed. da Unesp, 1998.entrou na paisagem. 
Sua invenção, consecutiva à valorização do quadro pictural, veio 
para contribuir na renovação de um sistema de representação 
em mutação. A fotografi a não tomou unicamente o lugar da 
1 “Eu descobri que ler uma paisagem, era ler o tempo”.
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pintura. Ela, ao mesmo tempo, modifi cou as especifi cidades 
operatórias e o caráter do dispositivo de “artealização”. Nossa 
sensibilidade em relação aos lugares foi afetada. Nossa cultura 
paisagística passou a ser informada de maneira diferente. A 
qualidade do nosso olhar se modifi cou. 
A generalização e o uso utilitário da fotografi a constituíram, 
ao longo dos anos, uma ferramenta de registro e de restituição 
das paisagens. 
A fotografi a de paisagem é um ato de presença no mundo. 
Ela é, por si mesma, um dispositivo de expressão. 
Qualquer que seja a importância do ato da tomada de uma 
foto, uma fotografi a da paisagem é também uma imagem. Ela 
se compõe e se propõe segundo um referencial cultural. 
Desde 1945, André Bazin atraiu a atenção sobre o fato de que a 
fotografi a permitia, pela primeira vez, a uma imagem do mundo 
exterior de se formar automaticamente. A superfície fotossensível 
contém o traço imediatamente registrado da presença do objeto. 
Quando o geógrafo Jean Brunhes e o mecenas Albert Kahn 
lançaram a operação “Arquivos do Planeta”, não deixaram 
nenhuma dúvida sobre a fi nalidade dessa operação: “realizar 
um inventário fotográfi co da superfície do globo ocupada e 
organizada pelo homem, tal qual ela se apresentava no início do 
século XX” (Wieber, 1987). Jean Brunhes se inscreve no coração 
do projeto científi co da Geografi a clássica, herdeira direta 
do paradigma da “vue raisonnée”2 vidaliana: observar para 
classifi car e pensar as famílias dos fatos geográfi cos. Ele produz 
um sentido científi co a partir da observação fotográfi ca. 
Poderia-se identifi car duas maneiras de fotografar uma 
paisagem. Uma, no registro poético, levaria à apresentação de 
uma “realidade em gênese”. A outra seria mais simplesmente 
uma atividade de arquivagem do real. Se esta última maneira 
se presta a um estudo relevante de uma aproximação científi ca, 
a primeira se coloca mais diretamente sobre a experiência de 
explicitar, de forma mais simbólica, a paisagem. 
2 “Idéias sustentadas pela razão.”
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O geógrafo faz, de preferência, fotografi as que registram a 
paisagem, o cotidiano das relações sociedade-natureza. 
As fotos se prestam para explicitar como o processo de 
ocupação do território se materializou na paisagem. As fotos 
históricas foram obtidas no acervo do Museu da Bacia do 
Paraná da Universidade Estadual de Maringá. As fotos atuais 
são uma seleção das 650 fotos obtidas, pelo autor, ao longo das 
inúmeras viagens de estudo à raia divisória.
A REPRESENTAÇÃO DA PAISAGEM 
A construção e utilização de representações da paisagem, 
mesmo compreendidas no quadro de uma refl exão científi ca, 
não são jamais neutras. A escolha das visualizações condiciona, 
e é condicionada, pela análise, e se instaura um laço complexo 
entre o pesquisador, a paisagem estudada, a imagem que é 
produzida e o público ao qual ela se endereça. 
As fotografi as de paisagem tomadas sobre o terreno, por 
exemplo, representam indiscutivelmente uma paisagem real, 
mas não são menos fortemente dependentes da refl exão dirigida 
sobre esta paisagem. A escolha do território fotografado, as 
condições da tomada da foto (distância, época etc.), tudo é 
determinado em função de uma vontade precisa de análise e de 
demonstração. Assim, as fotografi as apresentadas neste capítulo 
foram selecionadas entre uma infi nidade de clichês possíveis 
para ilustrar da melhor maneira possível os tipos de paisagens 
observadas. Não somente a fotografi a deve ser representativa da 
paisagem, mas, também, ela deve, se possível, concentrar todos 
os elementos característicos que são descritos, ainda que eles 
estejam raramente presentes com densidade e promiscuidade 
signifi cativas na realidade. Mesmo quando as tomadas de 
fotos são aleatórias, elas observam sempre um princípio ou um 
protocolo fi xado pela fi nalidade operacional dos documentos. 
A representação da paisagem, qualquer que seja sua 
natureza, é, pois, fortemente sugestiva. Trata-se, em geral, não 
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de visualizar uma paisagem tal qual ela é, mas, de preferência, 
de representar uma certa idéia dessa paisagem. A interpretação, 
contrariamente ao que se poderia acreditar, não é totalmente 
aberta, mas priorizada para certas conclusões. Essa manipulação 
da imagem da paisagem, como da imagem de todo objeto 
de estudo científi co, faz parte da atitude de pesquisa e está a 
jusante da fase de apresentação dos resultados: 
a prática experimental passa pela pesquisa de um pon-
to de vista, de um olhar orientado sobre os objetos [...]. E 
para desvendar, construir, produzir seus objetos cientí-
fi cos, os pesquisadores passam seu tempo a arranjar obje-
tos de laboratório (imagens, instrumentos, fi chas...) e a re-
alçar os espaços de visibilidade (MALLARD, 1993, p. 18). 
Ver e fazer ver, aqui, o trabalho do pesquisador, não é 
fundamentalmente diferente daquele do artista que vai 
também transmitir, através da representação, uma certa idéia 
da paisagem. Que a informação seja de uma paisagem rural ou 
de uma paisagem urbana, que a ferramenta seja uma imagem 
de satélite ou uma pintura impressionista, trata-se sempre da 
análise e de uma projeção mental do homem sobre o território 
que o cerca. Neste sentido, as noções de objetividade ou de 
subjetividade que são associadas a esses dois tipos de imagens 
da paisagem são relativas. “Uma representação da paisagem 
é sempre uma imagem calculada, se não por determinismos 
estéticos, ao menos por códigos metodológicos que as técnicas 
impõem” (REGNAULD, 1993, p. 27). 
Além do status da representação da paisagem, as tentativas 
do cientista e do artista encontram-se na busca de um efeito 
estético. Se a pesquisa estética é evidente e essencial entre os 
artistas, ela não é estranha à produção de imagens no domínio 
das ciências. Isso é particularmente sensível no domínio 
do tratamento de imagens de satélites: a escolha das cores 
atribuídas aos canais, os histogramas, as combinações coloridas 
para as eqüidensidades, tudo é determinado não somente 
para fazer realçar melhor a informação mas, igualmente, para 
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produzir uma imagem que atraia o olhar e seja agradável ao 
observador. As visualizações em teledetecção são trabalhadas 
para satisfazer o olho e o espírito. Geralmente, a produção de 
um documento cartográfi co em Geografi a responde sempre a 
normas científi cas e a normas estéticas, a carta perfeita sendo 
ao mesmo tempo precisa e bela. Os exemplos de fusão entre a 
representação científi ca e a representação artística da paisagem 
são numerosos.
Essas refl exões conduzem não a uma defesa da foto, 
que ainda é uma formidável ferramenta de conhecimento 
e de comunicação, mas a uma avaliação sobre sua utilização 
incondicionada. O debate encontra-se na confl uência de três 
pólos que são: a realidade, a percepção e o saber. 
A análise descritiva da paisagem e a colocação em 
perspectiva da imagem da paisagem nos domínios 
científi cos estão estreitamente ligadas a uma refl exão sobre a 
complementaridade e a subjetividade dessas abordagens.
O conceito de paisagem é indissociável da percepção 
subjetiva (e mais precisamente estética) do espaço, pois o 
ponto de vista particular que transforma o espaço olhado em 
paisagem não tem nada de obrigatório e de universal. Assim, 
o aparecimento, relativamente tardio na civilização ocidental3 
do “sentimento paisagístico” já foi assinalado por numerosos 
autores (ROGER, 1978; LUGINBUHL, 1989). 
O termo paisagem, que jáera utilizado nos Países Baixos no 
século XV, vai aparecer na língua francesa somente em 1549; 
mais tarde, em 1598, em inglês; em 1675, em alemão e, em 1708, 
em espanhol, portanto bastante recentemente na história dessas 
línguas. A raiz (pays4) do termo paysage5, marca claramente 
a diferença entre o objeto real (pays) e a representação dele 
(paysage) e evita, pois, a confusão inerente ao termo paysage. 
3 Notadamente em relação às civilizações asiáticas que desenvolveram desde a 
antigüidade uma cultura paisagística refi nada e rica em símbolos. 
4 Região.
5 Paisagem.
 A R A I A D I V I S Ó R I A
|18
Essa percepção do pays em paysage, isto é, o distanciamento 
entre o indivíduo e o território no qual ele vive, é concomitante 
de uma mutação socioeconômica (êxodo rural, urbanização, 
industrialização...) e da profunda revolução cultural e fi losófi ca 
do século das luzes (LUGINBUHL, 1989). O nascimento da 
modernidade é caracterizado por um olhar descolado, mas 
refl etivo e sensível, do homem sobre o mundo, condição sine qua 
non da aproximação científi ca, mas, também, da aproximação 
estética da natureza. Essa transição paisagística (BERQUE, 1990, 
1991), que coloca o homem no exterior de um mundo (e mais 
particularmente da natureza) sobre o qual ele pode, à vontade, 
agir fi sicamente e simbolicamente, é verdadeiramente a origem 
da percepção da paisagem. 
O aparecimento da sensibilidade paisagística é, pois, 
histórica; a evolução dessa percepção se efetua em função de 
mecanismos datáveis. 
A GEO-FOTO-GRAFIA
Inegavelmente, é com Vidal de la Blache que a fotografi a 
ganha um signifi cado maior na representação da paisagem, com 
a publicação, em 1908, da obra La France. Tableau géographique, 
isto é, uma reedição do Tableau de la géographie de la France, 
abundantemente ilustrado de fotografi as comentadas6. 
Isso representa a valorização de um método particular de 
análise7 que, partindo do projeto icnográfi co exposto por Vidal 
de la Blache no início do livro, examina a maneira como ele 
representou, ou não, diferentes lugares da França, nessa obra, e 
os signifi cados que ele produziu associando textos e imagens. 
No Tableau de la géographie de la France (1903), que é o capítulo 
de introdução da obra Histoire de la France des origines jusqu’à 
la Révolution, de Ernest Lavisse, coube a Vidal de la Blache 
elaborar o quadro geográfi co dos acontecimentos históricos. 
6 La France. Tableau géographique. Paris: Hachette, 1908. 
7 Somente a partir do último decênio do século XIX é que a livraria Hachette começou 
a substituir as gravuras por fotografi as nas publicações geográfi cas. 
P O R U M A L E I T U R A F O T O G R Á F I C A D A P A I S A G E M 
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Com a edição ilustrada de 1908, Vidal de la Blache 
submeteu seu Tableau inicial ao testemunho dos olhos. Para 
conceber a ilustração desse livro, que ganhava dessa vez o 
status de obra, ele solicitou a contribuição icnográfi ca da maior 
parte dos geógrafos universitários franceses da época. É assim 
que os geógrafos Brunhes, Demangeon, Gallois, de Martonne, 
sobretudo Vacher, Vélain, mas, também, o botânico Flahaut, o 
agrônomo Hitier e os geólogos Haug e Kilian lhe forneceram o 
essencial das 244 fotografi as que essa edição contém. 
Portanto, Vidal de la Blache avança rápido do ponto de 
vista ilustrativo para o ponto de vista científi co, afi rmando 
que “há um método geográfi co de interpretar as paisagens”. É 
preciso que a fotografi a seja praticada num espírito geográfi co, 
por pessoas que saibam ler a natureza. Não se trata mais do uso 
da fotografi a como ilustração, mas de uma técnica de análise.
Os comentários que Vidal de la Blache associa às fotografi as 
comportam freqüentemente todos os anéis da cadeia (Geologia, 
clima e Geografi a humana).
Em geral, seu interesse se situa sobre as zonas de contactos 
geológicos e de contrastes topográfi cos bem visíveis (Pirineus, 
Vale do Rhône etc.) mais que sobre os espaços homogêneos. A 
geografi a lablachiana é, sobretudo, excepcionalista. 
Dos trabalhos dos homens, La Blache retira somente as 
culturas que eles desenvolvem, as estradas que eles constróem 
e, sobretudo, as diferentes formas de habitat rural considerados 
geralmente como um indicador da prosperidade do modo 
de vida e, portanto, da adaptação ao meio natural. Aqui, fi ca 
evidente a escolha icnográfi ca vidaliana, que pode ser resumida 
na sua célebre defi nição da Geografi a como “ciência dos lugares 
e não dos homens”. 
O discurso vidaliano é portador de numerosas metáforas 
que esclarecem ou poetizam o olhar. Um outro traço vidaliano 
pode ser observado no fato de estabelecer, em imagens, 
tipologias reforçadas visualmente e intelectualmente pela leitura 
contextual dos diapositivos icnográfi cos; de onde o hábito, 
freqüente entre os geógrafos, de apresentar os cortes fotográfi cos 
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assinalando os contrastes, as oposições ou as semelhanças. Isso 
foi igualmente observado nos trabalhos de Jean Brunhes, tal 
qual a Géographie Humaine, cujas diversas edições sucessivas 
mostram uma elaboração progressiva desse proceder em uma 
verdadeira técnica de comunicação e de pesquisa científi ca8. 
Jean Brunhes, nas suas numerosas expedições fotográfi cas, 
tomava sistematicamente inúmeras fotos panorâmicas de 
todos os lugares que ele visitava. E, a priori, dando mais ênfase 
demonstrativa às imagens da Geografi a Física.
Jean Brunhes e Emmanuel de Martonne foram os herdeiros, 
em linha direta, da prática icnográfi ca vidaliana. Este último foi 
também um grande utilizador de documentos fotográfi cos e um 
dos promotores da fotografi a aérea na França. Aplicando ao pé 
da letra a metodologia descrita por seu mestre, ele introduziu 
em todos os seus comentários uma objetividade marcante. 
Os textos dos seus diapositivos icnográfi cos são curtos, sem 
artifícios, sem vida mesmo. Sua especialização em Geografi a 
Física o conduziu a colocar sobre as paisagens um olhar analítico 
muito especializado e, portanto, necessariamente redutor. É 
preciso lembrar, na sua obra, a substituição progressiva dos 
blocos diagramas pelas fotografi as e, nota-se que, sobre esses 
desenhos modelizadores, De Martonne foi bastante prolixo. 
Para Jean Brunhes (1910), “a fotografi a é mais mostrativa 
que demonstrativa”. O texto se limita freqüentemente a 
nominar os objetos; ele contém mais nomenclatura que verbos. 
Brunhes atomiza o mundo em uma combinação sistemática dos 
fatos, enquanto que Vidal ativa as correspondências entre os 
fenômenos. Aquele constitui um catálogo analítico (de objetos 
geográfi cos) e fala à nossa inteligência, enquanto que este 
elabora um álbum cinematográfi co (de paisagens) e solicita 
nosso reconhecimento. 
A paisagem é a fi sionomia de uma região. É nela que as 
relações sociedade-natureza se materializam. As fotos são 
8 J. Brunhes, La Géographie humaine. Essai de classifi cation positive. Principes et exemples, 
Paris, F. Alcan, 1910 e sua reedição ampliada de 1925 (três volumes). Cf. MENDIBIL, 
D. Jean Brunhes: photo-grafe-iconographe. In: Autour du monde, Jean Brunhes. 
Regards d’un géographe, regards de la géographie. Paris: Vilo, Musée Albert Kahn, 
1933. p. 140-151. 
P O R U M A L E I T U R A F O T O G R Á F I C A D A P A I S A G E M 
21|
reveladoras de três unidades distintas, onde a estrutura 
socioeconômica, atuou e atua sobre a estrutura geoecológica 
para construir a paisagem atual. O pouco tempo de permanência 
de um mesmo modelo/padrão de ocupação regional é o grande 
responsável pela ausência de sinais mais marcantes da história 
paisagística na raia divisória.
O SUDOESTE PAULISTA
Fotografi a 1. Morro do 
Diabo/sudoeste de São 
Paulo, visto a partir do 
noroeste do Paraná (PASSOS, 
set./2001, foto do autor). 
Fotografi a 2. Exemplar de Cereus jamacuru (mandacaru), no interior do 
Parque Estadual do Morro do Diabo, testemunho das condições climáticas 
de semi-aridez que predominaram na região durante o Plioceno-Pleistoceno(PASSOS, 2001, foto do autor). 
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 3. Os tri-
lhos do ramal de 
Dourados/Fepasa, 
que atravessam a 
Reserva Estadual no 
sentido leste-oeste. O 
ramal foi desativado 
após ter represen-
tado expectativas e 
motivações de desen-
volvimento para o 
Pontal do Paranapa-
nema (PASSOS, 1986, 
foto do autor).
Fotografi a 4. Córrego Santo Antônio ou do Engano (a 500 m a jusante da 
ponte/SP-613). O leito principal se encontra totalmente assoreado e a lâmina 
d´água não atinge usualmente mais de 40 cm de profundidade na estação 
chuvosa. A drenagem apresenta-se anastomosada – em vários trechos desse 
córrego, devido à incompetência do curso d´água em transportar todo o 
material sedimentar que vem de montante, após o desmatamento processado 
no início da ocupação agrícola (anos 50) (PASSOS, 2001, foto do autor). 
P O R U M A L E I T U R A F O T O G R Á F I C A D A P A I S A G E M 
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Fotografi a 5. Córrego - município de Mirante do Paranapanema – 
revelador da excepcionalidade do regime fl uvial regional: as águas 
de verão têm energia sufi ciente para erodir o terraço fl uvial, enquanto 
que na estação seca (abril-setembro) observa-se desperenização em 
alguns trechos (PASSOS, 2001, foto do autor). 
Fotografi a 6. As 
condições geope-
dológicas (arenito 
e terraços fl uviais 
hidromorfizados) 
associadas à ação 
antrópica negativa 
desencadearam o 
agressivo processo 
de lesionamento 
da paisagem (PAS-
SOS, 2001, foto do 
autor). 
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 7. O uso do solo 
nas pequenas propriedades/
reforma agrária (acima) e em 
muitas das grandes fazendas 
no Pontal do Paranapanema 
(direita) (PASSOS, 2001, foto 
do autor). 
Fotografi a 8. “Morros” arredondados e com vertentes convexas atestam 
o afl oramento do Arenito Bauru carbonatado. O solo mais fértil e a maior 
densidade das nascentes atraíram os plantadores de algodão no início da 
ocupação do território (PASSOS, 2001, foto do autor). 
P O R U M A L E I T U R A F O T O G R Á F I C A D A P A I S A G E M 
25|
 
Fotografi a 10. Seqüência de fotos mostrando as etapas principais da 
construção de tijolos na olaria Santa Cruz em Teodoro Sampaio. Da 
esquerda à direita: (a) depósito de argila, retirada da área de inundação da 
UHE de Rosana e depositada no “pátio” da olaria, em obediência ao acordo 
fi rmado entre a Cesp e os proprietários das olarias; (b) barracão aberto para 
pré-secagem de tijolos. Essa atividade está “programada” para desaparecer, 
assim que o estoque de argila terminar (PASSOS, 2001, foto do autor). 
Fotografi a 9. Os inúmeros 
cemitérios de ex-bairros, 
completamente abandona-
dos no meio das pastagens, 
e as estradas vicinais “de-
sativadas” atestam o forte 
processo de desterretoriali-
zação provocado pela crise 
da cultura do algodão no 
município de Mirante do Pa-
ranapanema (denominada 
de “Capital do Pontal” e de 
“Capital do Ouro Branco”) 
no início dos anos 60 (PAS-
SOS, 2001, foto do autor). 
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 11. Barracão da Braswey (acima) e da Sanbra (abaixo) no município 
de Mirante do Paranapanema: dois símbolos da importante fase de produção 
algodoeira (1950-1965) no extremo sudoeste paulista. O abandono desses 
estabelecimentos, a exemplo do que ocorre com os depósitos da Cocamar, no 
noroeste do Paraná, atestam o processo de decadência e crise das economias 
locais-regionais observadas na raia divisória (PASSOS, 2001, foto do autor). 
P O R U M A L E I T U R A F O T O G R Á F I C A D A P A I S A G E M 
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O NOROESTE PARANAENSE
Fotografi a 12. Acampamento de um pioneiro (família do Sr. Ângelo) na 
região de Maringá (1951). Foto cedida pelo Museu da Bacia do Paraná/UEM-
Maringá-PR.
Fotografi a 13. Acampamento da turma de engenharia da Companhia de 
Terras Norte do Paraná nas proximidades de Maringá. Foto cedida pelo 
Museu da Bacia do Paraná/UEM-Maringá-PR.
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 14. Cozinha típica dos sitiantes estabelecidos no noroeste do 
Paraná. Foto cedida pelo Museu da Bacia do Paraná/UEM-Maringá-PR.
Fotografi a 15. Inauguração do Hotel Maringá em 10 de novembro de 1942. 
Foto cedida pelo Museu da Bacia do Paraná/UEM-Maringá-PR.
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Fotografi a 16. Nas terras do arenito, observa-se o predomínio das pastagens 
ou da cana-de-açúcar. As parcelas têm dimensões de média e grande 
propriedade. O desenho é menos geométrico. A “preservação” da mata 
de galeria se limita a uma estreita faixa de vegetação secundária bastante 
desfi gurada na sua composição fl orística. Foto aérea tomada por Lucas 
Rodrigues dos Passos em 20/9/2001.
Fotografi a 17. Nas terras roxas do noroeste do Paraná, o padrão da 
propriedade agrícola acusa o uso mais planifi cado do solo. A geometria das 
parcelas defi ne um mosaico cujo objetivo é atender à rotação do plantio-
colheita. A sede da propriedade está situada no espigão, protegida por cerca 
viva de eucalipto ou Grevillea sp. Esse modelo foi exportado para o Centro-
Oeste do Brasil. Foto aérea tomada por Lucas Rodrigues dos Passos em 
20/9/2001.
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 18. A propriedade rural assentada sobre o arenito Caiuá plasma na 
paisagem um padrão bem diverso daquele observado na terra roxa. Aqui, a sede 
está protegida por espécies vegetais arbóreas nativas; a morada, cercada pelo pomar, 
está muito próxima do curral. O pequeno rebanho leiteiro é uma alternativa muito 
valorizada e compete pelo uso do solo com a mandioca (primeiro plano), o milho e a 
pequena parcela de café adensado. A foto foi obtida nas proximidades do Bairro da 
Graciosa, onde está instalada a agroindústria de mandioca (Indemil/Yoka) (PASSOS, 
2001, foto do autor).
Fotografi a 19. A presença 
de agroindústrias de porte 
nacional (Indemil/Yoka, 
Cassaba etc.), associada à 
expansão do mercado e à 
diversifi cação da economia 
regional, motivou o 
plantio da mandioca cuja 
área ocupada atingiu a 
signifi cativa extensão de 
30.985 hectares na safra 
93/94 e foi reduzida a 15.427 
hectares na safra 95/96. 
A colheita da mandioca é 
totalmente manual, criando 
oportunidade de trabalho aos 
moradores das cidades pequenas e, ainda, àqueles que moram na periferia das cidades 
médias (Paranavaí) do noroeste do Paraná. A foto mostra a colheita da mandioca nas 
terras areníticas do município de São João do Caiuá/noroeste do Paraná (PASSOS, 
2001, foto do autor).
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Fotografi a 20. O café adensado é uma das alternativas mais rentáveis para 
os pequenos proprietários rurais. Os incentivos do Governo Estadual têm 
motivado o retorno do café às terras mistas do noroeste paranaense. Na 
foto, obtida em um sítio de 14 ha: 2,5 com café adensado (dois lotes não 
contínuos); o restante da área está coberto com pastagem para o gado 
leiteiro. O sitiante entrega 130/140 litros de leite/dia no laticínio Líder, 
em Tamboara. Essa produção leiteira é mantida, mesmo na estação seca 
do ano, pois as vacas são alimentadas com silagem/cocho que ajuda 
muito na manutenção do nível de produção do leite. Nessa linha – 
Estrada Cristo Rei até Água Genina – observa-se que as propriedades 
pequenas foram mantidas, e que se mantêm com a diversifi cação 
de cultivos (amora, laranja, café adensado, pastagem, mandioca). 
Infelizmente, a diversifi cação não acontece ao nível da propriedade e sim 
da microrregião. No período de 1996 a 1998, o café foi o sustentáculo 
da pequena propriedade. Atualmente, o gado leiteiro é mais interessante 
economicamente. O pequeno proprietário do lote fotografado afi rmou 
que a boa colheita de 1997 - mercado e produção favoráveis - , permitiu-
lhe comprar outra pequena propriedade (7 alqueires). O preço médio do 
alqueire de terra na microrregião varia muito em função das benfeitorias; 
em média, o alqueire é negociado a R$ 8.000,00. Em 1,3 hade café, o 
proprietário colheu, em 1997, 525 sacas (40 kg) de café em coco (PASSOS, 
2001, foto do autor).
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 21. Parcela de café 
situada no espigão da propriedade 
dos Lopes, revelando que, nessa 
posição topográfi ca, os efeitos 
das geadas são amenizados 
(acima). Registro da geada que 
atingiu a propriedade dos Lopes 
(município de Mandaguari/
noroeste do Paraná em julho de 
2000) ao centro. No fundo do vale, 
as geadas se manifestam de forma 
mais agudizada e, regra geral, 
provocam a necessidade de corte 
da planta no tronco. A parcela da 
foto (abaixo) está a apenas 700 m da 
foto acima (espigão). As geadas são 
classifi cadas quanto à intensidade: 
(a) geada de baixada – ocorre no 
fundo de vale, praticamente todos 
os anos. Nesses locais nunca se 
planta café; (b) geada de capote – 
provoca a perda parcial das folhas 
da parte superior da planta e atinge, 
também, o ponteiro; (c) geada negra 
– atinge todo o cafeeiro, e só é 
possível a recuperação da planta 
a partir do corte no seu tronco, a 
aproximadamente 30 cm acima do 
solo, de onde sairão novos brotos. 
Todos esses tipos de geadas se 
manifestaram no noroeste do 
Paraná, no ano de 2000, ou seja, 
elas foram muito intensas nas 
proximidades dos vales - exigindo o corte da planta, no tronco, conforme 
mostrado na foto à direita - e, à medida que a superfície vai da vertente para 
o espigão, os efeitos vão se atenuando. Os procedimentos necessários para 
recuperar o cafeeiro, após uma geada, são relativamente simples: uma poda 
parcial. O maior problema é fi car sem a colheita do ano seguinte. Além do que 
os serviços de manejo aumentam muito, todos os galhos podados têm que ser 
amontoados para facilitar a capina. O fato novo, em relação às geadas de 2000, 
é que, ao contrário dos anos anteriores, poucas famílias abandonaram o campo 
em favor da cidade. Nas propriedades dos Lopes, das quinze famílias “meeiras”, 
três romperam o compromisso e foram para a cidade; no entanto, muitas outras 
famílias se ofereceram para ocupar o lugar dessas. A crise de emprego na cidade 
concorre para o retorno ao campo (PASSOS, 2000, foto do autor).
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Fotografi a 22. As terras de arenito, menos atraentes à cultura de soja, foram 
palco, a partir do fi nal da década de 70, do dilema da expansão da pastagem x 
manutenção da pequena propriedade, a partir de alternativas economicamente 
viáveis. Foi nesse contexto que a “região” de Nova Esperança priorizou o 
desenvolvimento da agroindústria da seda. Os bons resultados alcançados 
aqui motivaram a expansão da amora para outros municípios. Na foto, 
um produtor rural, cuja pequena propriedade, localizada no município 
de Paranavaí (Água do Quintino), foi mantida graças à diversifi cação da 
economia (PASSOS, 2002, foto do autor).
Fotografi a 23. A laranja, 
cultivada em pequenas 
parcelas das propriedades 
assentadas no arenito Caiuá. 
As indefi nições dos projetos 
agroindustriais, observadas 
no Norte Novíssimo, 
certamente contribuíram 
para esse desenho: em 
uma mesma propriedade, 
observa-se a desconfi ança 
do pequeno/médio 
proprietário – um pouco 
de laranja, de mandioca, de 
café, de amora e, sobretudo, de pastagem (PASSOS, 2002, foto do autor).
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 24. Periferia urbana da cidade de Paranavaí, onde os excluídos 
do “novo” (?) modelo de desenvolvimento local-regional são alocados e 
constituem-se, ao mesmo tempo, numa solução economicamente interessante 
para os produtores rurais e num problema social sério para a gestão urbana. 
(PASSOS, 2002, foto do autor).
Fotografi a 25. A Vila Rural, resultado da política estadual de assentamento 
populacional em pequenos lotes rurais (PASSOS, 2002, foto do autor).
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Fotografi a 26. O modelo proposto pela Companhia de Terras Norte do Paraná, que 
serviu de instrumento para outras companhias colonizadoras, foi abandonado a 
partir de meados da década de 70. As pequenas cidades do noroeste do Paraná 
passaram, então, a viver uma realidade totalmente adversa: o Estado do Paraná 
lidera o ranking de cidades que encolheram – fenômeno que se explica pela a) 
estagnação das áreas rurais e b) modernização agrícola, que aceleraram a dispensa 
de mão-de-obra. O perfi l daqueles que deixam a zona rural é sempre o mesmo. Eles 
não foram acolhidos pelo sistema urbano de suas cidades. Não há uma integração 
entre o rural e o urbano, por isso a migração acaba sendo a única opção. Em média, 
42% das cidades paranaenses tiveram diminuição da população de 1996 até o ano 
2000, de acordo com os dados do IBGE (PASSOS, out. 2002, foto do autor).
 
Fotografi a 27. Obtida nas proximidades das nascentes do Ribeirão São 
Francisco, na periferia da cidade de Nova Esperança. Observar as três parcelas 
de amora, de idades distintas; é uma estratégia que os pequenos proprietários 
utilizam para executar os manejos “agrícolas” com a mão-de-obra familiar 
unicamente (esq.). A renda familiar é complementada com o pequeno rebanho 
leiteiro e com serviços esporádicos, inclusive na área urbana próxima (dir.). 
(PASSOS, out. 2002, foto do autor).
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 28. A economia informal também no campo: mulheres que trabalham 
na extração de folhas de maracujá “nativo”, (utilizadas para a produção 
de chá) para uma microempresa do município de Porto Rico – noroeste do 
Paraná -: ganho semanal de 8 a 12 reais! (PASSOS, 2000, foto do autor).
O SUDESTE SUL MATO-GROSSENSE
A planície de inundação do rio Paraná, no conceito do IBGE 
(1990), é uma ampla área de acumulação que ocupa toda a 
calha do rio no segmento compreendido entre Três Lagoas/MS 
e Guaíra/PR. Essa designação abrange uma área que apresenta 
duas feições distintas: o Terraço Baixo e a Planície Fluvial.
A superfície da Planície Fluvial é o resultado da evolução 
de um sistema anastomosado que esteve ativo antes da 
implantação do atual padrão de canal. As feições nela existentes 
são resultantes daquele sistema, embora haja relíquias de um 
outro padrão anterior, além das formas associadas aos canais 
atuais (SOUZA FILHO, 1993). 
As fotos a seguir se prestam para mostrar a paisagem da 
planície de inundação do alto curso do rio Paraná.
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Fotografi a 29. Apesar do 
enchimento do reservató-
rio da Hidrelétrica Sérgio 
Motta (ex-Porto Primavera, 
em 27/4/01), foram man-
tidos fragmentos de Mata 
Atlântica do interior, 
várzeas e banhados 
importantes para manter a 
rica fauna local, num total 
de 3.500 hectares. A 
redução da área inundada 
é conseqüência do acordo 
de licenciamento entre a 
Cesp e o Ibama, de operar a hidrelétrica na cota de 257 m, dois metros abaixo 
do anteriormente previsto. Esses 3.500 hectares são tudo o que resta dos 
14.200 hectares originais da Reserva Florestal da Lagoa São Paulo, decretada 
em 1942 e considerada um pequeno pantanal. Mesmo reduzida e 
fragmentada, a reserva ainda abriga algumas espécies ameaçadas de 
extinção, como cervo-do-pantanal, bugio-preto, jacaré-do-papo-amarelo e 
tamanduás mirim e bandeira. Também acolhe uma grande variedade de 
aves aquáticas e pantaneiras, moradoras e migratórias, como os jaburus, 
biguatingas, colhereiros, cabeças-secas, irerês, tucanos e araras (PASSOS, 
2000, foto do autor). 
Fotografi a 30. Lagoa do 
Rodrigo, ilha Baía, na 
raia sul mato-grossense: 
as lagoas ocupam as 
partes mais deprimidas 
dos canais secundários 
inativos ou ativos, como 
o rio Baía, e das áreas de 
bacia de inundação. Essas 
formas podem manter 
ligação constante ou 
intermitente com os canais, ou podem ser alimentadas exclusivamente pelo 
lençol freático, recebendo aporte de águas fl uviais somente nas cheias. O rio 
Baía é caracterizado por apresentar um grande número de lagoas ao longo 
de seu curso.As formas lênticas maiores são lagoas de expansão lateral, cujo 
fundo apresenta diferentes composições de acordo com a relação com o Canal 
(PASSOS, 2001, foto do autor).
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 31. A planície fl uvial constitui uma superfície plana, onde a 
cobertura vegetal é a principal forma de realce das formas de relevo, uma 
vez que as áreas altas possuem vegetação arbórea, as médias são cobertas por 
arbustos e as baixas por campos (PASSOS, 2000, foto do autor).
Fotografi a 32. Apesar do longo período (18-20 anos), entre o início das obras 
e o enchimento do lago da UHE Engenheiro Sérgio Motta, uma grande 
quantidade de vegetação arbórea foi deixada dentro da cota de inundação: 
repetição de erros e prejuízos socioambientais. Na foto à esquerda, a 
proliferação de vegetação aquática (aguapé) é uma ameaça ao pleno 
funcionamento das turbinas da usina hidrelétrica; no entanto, a não retirada 
das espécies arbóreas, que estão submersas, é elemento de fi xação das raízes 
do aguapé e, claro, estimulam a reprodução dessa espécie aquática que 
difi culta o acesso ao reservatório (PASSOS, 2000, foto do autor).
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Fotografi a 33. Acesso de barcos ao lago (esq.), mostrando que já é uma 
motivação para o surgimento de loteamentos – tipo condomínio -, muito 
procurados por pescadores amadores e amantes da natureza (dir.) 
(PASSOS, 2001, foto do autor).
Fotografi a 34. O 
enchimento do lago da 
UHE Engenheiro Sérgio 
Motta, até a cota de 257 
m, alterou o nível de base. 
O rio Paraná (240 m antes 
do lago), “afogando” os 
cursos d’água regionais e 
motivando o surgimento 
da pesca predatória e mal-
educada. A foto (acima) 
focaliza um trecho do 
Córrego Três Barras 
(Anaurilândia/MS): rede-
de nylon, plásticos, latas 
de alumínio anunciam 
uma ameaça maior à 
biodiversidade local. A 
foto (abaixo) trecho do 
curso do Córrego Peleja, 
afl uente do Três Barras, 
cujo terraço fl uvial 
hidromorfi sado está 
bastante comprometido 
pela erosão provocada 
pelo pisoteio do gado ao 
buscar acesso à água (PASSOS, 2001, foto do autor).
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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As fotos apresentadas a seguir se prestam para exemplifi car 
as obras compensatórias realizadas pela Cesp, no município de 
Anaurilândia/MS. É sempre bom lembrar que o lago formado 
pelo represamento do rio Paraná, em Porto Primavera, inundou 
cerca de 65 mil hectares da área total (aproximadamente 340 
mil hectares) do município de Anaurilândia.
Fotografi a 35. A elevação do nível de base regional – rio Paraná – para 257 m, 
após o enchimento do reservatório da UHE Engenheiro Sérgio Motta, provocou 
alterações nos cursos d’água regionais, alagando grande parte do sistema viário 
de acesso às propriedades rurais. A Cesp, então, construiu signifi cativos trechos 
de aterros elevados capeados com cascalhos, de modo a manter a circulação 
normalizada (foto à esquerda). Bueiro com muro de arrimo, para contornar o 
problema provocado pela elevação das águas do Córrego do Segredo; acesso 
à Fazenda Boa Sorte, município de Anaurilândia/MS (foto à direita) (PASSOS, 
2001, foto do autor).
Fotografi a 36. O problema da inundação nas áreas de microbacias é agravado pelo 
perfi l longitudinal dos rios – baixa declividade – e, ainda, pelas amplas várzeas/
planícies de inundação, presentes em praticamente todos os cursos regionais. A 
foto (esq.), mostra um trecho do Córrego do Machado. Planície de inundação do 
Córrego Três Barras, Anaurilândia/MS (dir.) (PASSOS, 2001, foto do autor).
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Fotografi a 37. Aterro construído pelo programa de “obras compensatórias da 
Cesp”, no sentido de viabilizar o acesso entre a cidade de Anaurilândia, a “área 
de lazer” e as fazendas Produtiva, Dois Companheiros e Brilhante (esq.). O 
“Pesqueiro” da futura área de lazer (dir.) (PASSOS, 2001, foto do autor).
Fotografi a 38. Estrada estadual 
(MS-395), cujo asfaltamento, em 
fase fi nal de conclusão (acima), 
viabilizou-se a partir do acordo 
entre a Cesp e o Governo do 
Estado do Mato Grosso do Sul. 
Ainda faltam 15 km da MS-395 
(abaixo) para que o acesso da 
raia mato-grossense ao Estado 
de São Paulo, via Bataguassu-
Presidente Epitácio, se dê por 
estrada asfaltada (PASSOS, 
2001, foto do autor).
As fotos a seguir se prestam para a visualização da paisagem 
de uma região comandada por agentes externos, que tem na 
pecuária extensiva a sua marca mais signifi cativa. 
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Fotografi a 39. Acampados do MST, ao longo da rodovia MS-395, entre 
Bataguassu e Anaurilândia (esq.). A formação de pastagens, os desmatamentos 
da área de inundação, a motivação econômica e a ocorrência de signifi cativas 
áreas de cerrado e cerradão explicam, em grande parte, a presença de 
carvoarias (dir.) na parcela mato-grossense da raia divisória (PASSOS, abril, 
2001, foto do autor).
Fotografi a 40. A presença 
da palmeira buriti, 
nos geótopos úmidos, 
acusa uma identidade 
fi togeográfi ca dessa parcela 
da raia (MS) em relação ao 
domínio mofoclimático e 
fi togeográfi co do Planalto 
Central Brasileiro (acima). 
O padrão das pastagens 
artifi ciais da raia mato-
grossense tem uma 
identidade própria: amplas 
superfícies planas, ocupadas 
com pastagens – formadas à 
base de baqueara -, onde a 
preservação de exemplares 
arbóreos (ipês, angicos, 
jatobás, perobas...) é uma 
constante na raia sul mato-
grossense (abaixo) (PASSOS, 
2001, foto do autor).
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Fotografi a 41. A presença de 
murundu - nas proximidades do 
Porto XV de Novembro/MS -, 
atesta a baixa fertilidade química 
e a alternância de períodos 
úmidos e secos na planície de 
inundação da raia sul mato-
grossense (acima). A paisagem 
da raia sul mato-grossense está 
marcada, também, pela presença 
das grandes fazendas de gado. 
Um total de 80% das terras de 
Anaurilândia são propriedades 
de grandes fazendeiros que 
residem em outros Estados: São 
Paulo (Araçatuba, Presidente 
Prudente, Presidente Venceslau, 
Presidente Epitácio...); Paraná 
(Santo Inácio, Paranavaí, 
Cornélio Procópio, Londrina, 
Araponga, Sertanópolis); Minas 
Gerais (Machado, Varginha, 
Helói Mendes...). Esses 
fazendeiros correspondem a, 
aproximadamente, 70% do 
número total de proprietários.... Quase 30% dos proprietários têm o controle de 
pequenas propriedades (sítios) e residem, a maioria, na área rural (PASSOS, 2001, 
foto do autor).
Fotografi a 42. Os pequenos e médios proprietários rurais têm no gado leiteiro 
uma importante fonte de renda. E assim, observa-se na raia sul mato-grossense 
a presença do gado nelore (fazendas de cria e engorda), e de gado mestiço, 
mais apropriado para a extração do leite (esq.). Os grandes fazendeiros da raia 
sul mato-grossense costumam construir a casa do capataz a certa distância da 
sede principal (dir.) (PASSOS, 2001, foto do autor).
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REFERÊNCIAS
BERQUE, A. Médiance: de milieux em paysages. Paris: Montpellier, 
1990.
______. Cinq propositions pour une théorie du paysage. Seyssel: 
Champs Vallon, 1991.
BRUNHES-DELAMORRE, Marielle, et al. Jean Brunhes autour du 
monde, regards d’un géographe/regards de la géeographie. Paris: 
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2
TELEDETECÇÃO APLICADA AO ESTUDO DA 
PAISAGEM
LIMITES E PERSPECTIVAS DA TELEDETECÇÃO APLICADA AO ESTUDO DA 
PAISAGEM 
A teledetecção inova sob dois aspectos em relação aos 
métodos mais antigos de observação: a escala têmporo-espacial 
da percepção e a natureza mesmo dessa percepção.
Quanto à escala têmporo-espacial da percepção da paisagem, 
os satélites fornecem uma informação praticamente sincrônica 
sobre extensas áreas e, ainda, têm a vantagem da repetitividade 
automática que, malgrado as numerosas lacunas resultantes 
da falta de transmissividade atmosférica ou da insufi ciência 
de memória dos satélites, permite a confrontação de situações 
diferentes e sincrônicas sobre grandes extensões.
Diante do grande número de informações disponíveis e 
 A R A I A D I V I S Ó R I A
|46
do aumento da capacidade de percepção satelitar, temos que 
concentrar os nossos esforços sobre aquelas que atendam 
melhor aos objetivos do estudo da paisagem.
O processo de avaliação da teledetecção depende da defi nição 
da assinatura espectral. No início (1970), a assinatura espectral 
era determinada de maneira puramente visual e qualitativa, 
com as fotografi as infravermelho coloridas. Atualmente, ela 
é determinada quantitativamente, com medidas, em vista do 
tratamento numérico. Tais medidas servem ao estabelecimento, 
pelos físicos, de modelos de transmissividade atmosférica que 
permitem afi nar a explotação quantitativa da teledetecção. 
A avaliação das informações começa pela identifi cação dos 
objetos que compõem as paisagens. Pode-se fi car no nível da 
identifi cação descritiva/fi sionômica dos objetos/elementos 
paisagísticos. 
Ao lado da precisão científi ca das assinaturas espectrais, é 
necessário estarmos atentos à identifi cação empírica, mesmo 
que esta seja pouco satisfatória e imprecisa.
As evidências indiretas fornecidas pela teledetecção 
multiplicam-se com o progresso técnico e a diversifi cação dos 
captores. Sua identifi cação e, conseqüentemente, sua utilização 
repousam sobre a abordagem sistêmica da paisagem. Essas 
evidências indiretas não existem senão na medida em que 
nós identifi camos as interações entre os componentes da 
paisagem.
A aplicação da teledetecção ao estudo da paisagem requer 
o conhecimento de cada detalhe em si mesmo e, ainda, da 
integração dos elementos do meio natural.
Tais pesquisas devem se fundar, principalmente, sobre 
a óptica naturalista. Na verdade, a natureza das interações 
no interior das paisagens difere segundo os tipos de meios 
naturais. Será, pois, ilusório e incorreto querer estabelecer um 
tipo de catálogo de descrição das paisagens identifi cáveis sobre 
os diversos tipos de teledetecção.
É bom lembrar que o uso da teledetecção não é totalmente 
 A R A I A D I V I S Ó R I A
T E L E D E T E C Ç Ã O A P L I C A D A A O E S T U D O D A P A I S A G E M 
47|
válido e efi caz, senão quando inserido no conjunto dos nossos 
conhecimentos sobre a dinâmica da paisagem.
O satélite e seus captores, como também seu sistema de 
transmissão de dados e as estações terrestres de recepção 
representam uma grande realização técnica que oferece grandes 
possibilidades à pesquisa. Contudo, para que essas possibilidades 
sejam plenamente utilizadas, é preciso que os pesquisadores, 
entre eles os geógrafos, desenvolvam métodos que lhes permitam 
tirar proveito do arsenal técnico disponível.
Nós vamos abordar a paisagem captada/visualizada a partir do 
satélite LANDSAT TM/do céu, de modo descritivo e interpretativo, 
objetivando demonstrar as transformações paisagísticas e o arranjo 
atual da paisagem em cada uma das parcelas da raia divisória. 
SUDOESTE PAULISTA/PONTAL DO PARANAPANEMA
Objetivando a visualização do conjunto da parcela territorial 
paulista da raia divisória, que permitiu, ao olhar, identifi car 
a organização do espaço e, a grosso modo, o uso da terra no 
sudoeste paulista/Pontal do Paranapanema, selecionamos as 
imagens: raia São Paulo – Paraná (1999)/extremo sudoeste 
paulista (1986); Fazenda Alcídia – Pontal do Paranapanema 
(1986)/Fazenda Alcídia – Pontal do Paranapanema (1999); 
Euclides da Cunha – SP (1986)/Euclides da Cunha – SP 
(1999); Planalto do sul – Pontal do Paranapanema (1986)/
Planalto do sul – Pontal do Paranapanema (1999); Mirante do 
Paranapanema (1986)/Córrego do Engano ou Santo Antonio 
(1999); Parque estadual do Morro do Diabo (1986)/Parque 
estadual do Morro do Diabo (1999). A compartimentação do 
conjunto, em unidades menores, acompanhadas da devida 
leitura, se prestará à descrição eco-histórica da construção da 
paisagem. É sempre bom lembrar que: (a) a seleção dessas 
unidades se efetivou após intensa visualização do conjunto do 
território e das imagens 1986, 1999 e 2001 e (b) as duas outras 
parcelas territoriais da raia divisória (noroeste do Paraná e 
sudeste de Mato Grosso do Sul) são objetos de outros estudos 
 A R A I A D I V I S Ó R I A
|48
(Dissertações e Teses) que têm como objetivos aprofundar as 
análises. É, por esta razão, que o sudoeste de São Paulo/Pontal 
do Paranapanema se apresenta, nesse momento, com um 
número maior de “unidades paisagísticas”.
Figura 1. Extremo sudoeste 
paulista (1986)/raia: São 
Paulo – Paraná (1999).
T E L E D E T E C Ç Ã O A P L I C A D A A O E S T U D O D A P A I S A G E M 
49|
A análise comparativa, entre duas unidades “diversas”, tem 
como objetivo maior chamar a atenção para as mudanças de 
uso do solo, ocorridas no período 1986-1999. Ao mesmo tempo, 
o presente estudo chama para si a responsabilidade de ressaltar 
as unidades e o todo da paisagem. 
Em relação ao extremo sudoeste paulista/1986, 
observamos:
no espigão, ao longo da SP-613, áreas desmatadas/Gleba • 
XV de Novembro (azul);
áreas signifi cativas de fl orestas tropicais do arenito Caiuá. • 
A área de fl oresta/nordeste da imagem (vermelho), acima 
da Gleba XV de Novembro já estava sendo eliminada para 
introdução da cana-de-açúcar/Destilaria Alcídia S.A. A ou-
tra área de fl oresta, ao sul desta, apresenta parcela signifi ca-
tiva de desmatamento recente (vermelho claro);
o lado paulista (margem direita do rio Paranapanema) • 
apresenta, à jusante do então canteiro de obras da UHE de 
Rosana, ampla área de planície de inundação, até a confl u-
ência com o rio Paraná – no Varjão do Paranapanema;
ao norte, aparece o rio Paraná, com destaque notável para • 
(a) o canteiro de obras da barragem, em Porto Primavera; 
(b) a larga planície de inundação, à nordeste e (c) a planície 
revestida por vegetação, relativamente densa e arbórea à 
jusante, com destaque para as lagoas temporárias (peque-
nos círculos).
A imagem de 1999 tem como objetivo mostrar o alargamento 
do rio Paranapanema, a montante da barragem UHE de Rosana. 
O maior impacto desse reservatório se deu com o desmatamento 
de cerca de seis mil hectares da Reserva estadual do Morro do 
Diabo. À jusante da barragem, houve resposta imediata com 
redução do leito do rio, atingindo a ictiofauna e também as 
áreas de inundação.
Apesar da construção da ponte e da barragem sobre o rio 
Paranapanema serem muito importantes para os fl uxos entre 
 A R A I A D I V I S Ó R I A
|50
as duas parcelas da raia (São Paulo e Paraná), observa-se, até o 
presente momento, pouca dinamização dos fl uxos por algumas 
razões, entre as quais destacamos: (a) as condições precárias, de 
abandono mesmo, das estradas asfaltadas do extremo noroeste 
do Paraná; (b) o predomínio das pastagens e da cana-de-açúcar 
nessa área; (c)os confl itos pela posse da terra, no Pontal do 
Paranapanema, ao mesmo tempo que lançam a região na mídia 
nacional a isolam em relação às perspectivas de atuação dos 
agentes regionais/inter-regionais. 
Figura 2. Fazenda Alcídia – Pontal do Paranapanema (1986)/Fazenda Alcídia 
– Pontal do Paranapanema (1999).
Esta unidade foi escolhida em função da introdução da cana-
de-açúcar, pela primeira vez e em grande escala no Pontal do 
Paranapanema, a partir de 1976, ou seja, no início do Pró-álcool, 
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51|
objetivando atender às necessidades nacionais frente à crise 
provocada pelo aumento do preço internacional do petróleo.
Observa-se que o uso do solo, predominantemente com cana 
e pastagens, pouco se alterou, nessa unidade, no período 1986 
– 1999. O grande impacto da implantação da usina de álcool 
se deu, no início, quando signifi cativa área de fl oresta tropical 
foi eliminada. A recente expansão da cana-de-açúcar, na raia 
divisória, está fortemente dinamizada no noroeste do Paraná.
Figura 3. Euclides da Cunha – SP (1986)/Euclides da Cunha – SP (1999).
As duas imagens revelam/reforçam os argumentos de que 
as grandes mudanças – no uso da terra – aconteceram de modo 
muito rápido e extensivo, em todo o Pontal do Paranapanema, 
no período de 1955 – 1965, quando as reservas foram ocupadas, 
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ilegalmente, e eliminadas para a formação das atuais fazendas. 
A estratégia, adotada pelos posseiros e grileiros, consistiu 
basicamente em eliminar a fl oresta e formar os pastos, na 
presunção de garantir a posse da terra. 
As mudanças – no uso da terra -, ocorridas no período de 
1986 – 1999, consistiram essencialmente no assentamento de 
camponeses sem terra, em áreas de pastagens, cujas mudanças 
são pouco perceptíveis nas imagens satelitares. 
Figura 4. Planalto do Sul (1986)/Planalto do Sul – Pontal do Paranapanema (1999).
A unidade Planalto do Sul, uma das portas de entrada para 
as terras devolutas do extremo sudoeste paulista, no fi nal dos 
anos 40, chama atenção por alguns elementos:
predomínio das áreas de pastagens;• 
presença de pequenas manchas de mata;• 
dendritifi cação das nascentes do Ribeirão Água Sumida e • 
das outras cabeceiras, ao leste – acusando a presença do 
Arenito Bauru, menos permeável. Ao contrário, as nascen-
tes dos ribeirões a oeste do Água Sumida apresentam-se 
pouco hierarquizadas, com insignifi cantes ramifi cações, 
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53|
próprias dos arenitos permeáveis do Caiuá;
em relação ao uso do solo, observa-se, nas proximidades • 
do núcleo urbano/curruptela de Planalto do Sul, pequenas 
parcelas de uso diversifi cado (mamona, mandioca, milho 
etc.) de difícil cartografi a. A altitude mais elevada dessa área 
e a ocorrência do arenito Bauru, ou seja, de solo mais fértil, 
orientaram o início do povoamento espontâneo, a exemplo 
do que ocorreu junto às nascentes do Ribeirão Santo Anto-
nio, no atual município de Mirante do Paranapanema.
Figura 5. Mirante do Paranapanema (1986)/Córrego do Engano ou Santo 
Antônio (1999).
Córrego do Engano ou Santo Antonio/1999
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O olhar sobre esta unidade revela:
eliminação quase que completa da floresta, para efei-• 
to de implantação da cultura do algodão, a partir de 
meados dos anos 40 e, acentuadamente, entre 1950 – 
1960. É bom lembrar que a ocupação agrícola, tanto 
no sudoeste paulista quanto no noroeste paranaense, 
teve um caráter mais agressivo, em relação à floresta, 
quando comparados com a formação das pastagens 
(Pontal do Paranapanema e sudeste sul mato-gros-
sense);
a dendritifi cação acentuada das nascentes do córrego • 
Santo Antônio é uma resposta natural à presença do are-
nito Bauru – com teor de cimento calcáreo e pouco per-
meável;
o tom azulado das margens dos baixos cursos dos ribei-• 
rões acusa a presença de areias quartzosas, resultante do 
intenso processo de erosão e assoreamento dos cursos 
fl uviais. Algumas parcelas de muitos córregos/ribeirões 
sofrem desperenização ao longo da estação seca (abril-
outubro);
as mudanças no uso do solo, no período de 1986 – 1999, • 
são pouco significativas. No entanto, a forte desterri-
torialização, observável no abandono das estradas vici-
nais, no desaparecimento dos bairros rurais e no desca-
so em relação aos cemitérios, comprovam a fragilidade/
inexistência dos agentes locais;
a microbacia do Córrego do Engano é objeto de estudo • 
(Tese de Doutorado), sob a minha orientação, e a nossa 
prioridade é desenvolver uma abordagem teórico-me-
todológica e cartográfica que nos permita avançar no 
desenho da eco-história.
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Figura 6. Parque estadual do Morro do Diabo (1986)/Parque estadual do 
Morro do Diabo (1999).
A unidade “Parque estadual do Morro do Diabo” 
– 1986/1999 – se presta à visualização e explicitação de 
signifi cativos elementos da paisagem:
no desenho da reserva estadual do Morro do Diabo estão • 
evidentes alguns problemas – herdados do passado - e não 
solucionados até o momento: (a) o seccionamento da bio-
massa fl orestal por duas barreiras físicas relevantes: a ro-
dovia asfaltada SP-613 e o corte da ferrovia (ex-Ramal de 
Dourados); (b) a inexistência de uma área tampão expondo 
toda a borda da fl oresta (exceção do limite sul/rio Parana-
panema) às queimadas, muito freqüentes nos meses mais 
secos do ano (julho-agosto), quando acontece a prática de 
refazer os pastos, nas propriedades vizinhas;
na imagem de 1986, observa-se a área desmatada (margem • 
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|56
direita do rio Paranapanema) para atender ao reservatório 
da UHE de Rosana. Na imagem de 1999, essa área já se en-
contra inundada.
NOROESTE PARANAENSE
Para efeito de leitura do uso da terra e da organização 
paisagística no noroeste do Paraná, optamos – após intensa 
visualização do conjunto – pelas unidades: raia São Paulo – 
Paraná (1986); Paranavaí (1986); nascentes do Noroeste–PR 
(1986); Ivaí-Panema (1986); Fazenda Duas Barras-PR (1999) e 
Ribeirão São Francisco-PR (1999).
Figura 7. Raia São Paulo – Paraná (1986).
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Esta unidade territorial da raia divisória tem como objetivo 
maior chamar atenção para o uso do solo e da organização 
paisagística do noroeste paranaense, ao sul do rio Paranapanema. 
Observa-se, no entanto, de forma mais explícita, quase toda a 
área da Reserva Estadual do Morro do Diabo e a confl uência 
dos dois grandes rios: Paraná e Paranapanema.
Em relação ao território paranaense, lembrando sempre que 
a exposição a seguir está apoiada, também, nas observações de 
campo e que a interpretação da imagem Landsat se deu a partir 
da tela do monitor, submetida a diversas escalas de zoom, 
observamos:
a presença mais signifi cativa de áreas de fl oresta tropical, • 
entre os córregos Maracanã e o Ribeirão do Corvo;
a aplicação de zoom permite visualizar a presença de peque-• 
nos lotes, segundo o padrão de divisão das propriedades 
rurais na fase de ocupação, nas microbacias dos ribeirões 
Coroa do Frade, Água Guairaçá e Corvo. Esse padrão – que 
tem os espigões como frente e os córregos como fundo dos 
lotes – perde essas características, progressivamente, à me-
dida que se aproxima do rio Paranapanema;
a leste (na imagem) observa-se uma tonalidade azul mais • 
intenso. Trata-se do baixo curso do Rio Pirapó, cujo solo de 
terra mista (argila + arenito) motivou uma ocupação agrí-
cola mais intensa: inicialmente com café e, atualmente, com 
soja. A imagem de 1999 e as observações de campo acusam 
uma expansão muito dinâmica da cana-de-açúcar na bacia 
do rio Pirapó;
entre o ribeirão São Francisco e o rio Pirapó predomina a • 
cana-de-açúcar;
as pastagens estão generalizadas nessa unidade da paisa-• 
gem;o divisor de águas – entre os afl uentes da margem esquer-• 
da do rio Paranapanema (ribeirões São Francisco, Água do 
Trajano, Água Guairaçá etc.), marcadamente entre o córre-
 A R A I A D I V I S Ó R I A
|58
go Maracanã e os afl uentes da margem direita do rio Ivaí, 
chama atenção pelo aspecto dentrítico das nascentes. A 
erosão mais agressiva, nesses geótipos, é motivada: (a) pela 
erosidibilidade do arenito Caiuá; (b) pela topografi a mais 
movimentada; (c) pelo despreparo dos agentes antrópicos, 
sobretudo na fase pioneira de ocupação do território;
as imagens Landsat de 1999 e 2001 não acusam mudanças • 
signifi cativas, em relação à imagem de 1986.
Muitas dessas nascentes estão seriamente comprometidas: 
(a) pela erosão; (b) pelo plantio de eucaliptos; (c) pela poluição 
química, provocada pela lavagem de máquinas agrícolas; (d) 
pela contaminação de óleo e gasolina que vazam dos postos de 
combustíveis. É bom lembrar que essas áreas (nascentes) foram 
escolhidas para o assentamento das habitações humanas, dos 
currais e das pocilgas e, ainda, de inúmeras pequenas cidades 
do noroeste paranaense.
Figura 8. Paranavaí (1986).
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Paranavaí (75.000 habitantes) é a principal cidade do 
extremo Noroeste paranaense. 
A visualização dessa unidade – submetida a diversas escalas 
de zoom, - chama atenção pela maior diversifi cação do uso do 
solo:
a ocorrência/permanência aleatória de diversas áreas de • 
fl oresta residual. As observações de campo revelaram 
que a contribuição dessas manchas fl orestais à preserva-
ção da fauna é pouco signifi cativa, visto que a maioria 
delas é totalmente desprovida de cursos d’água. Regra 
geral, as matas galerias foram as primeiras a serem eli-
minadas pois o desenho de ocupação do lote se iniciava 
com a construção da moradia e das demais dependências 
do habitat rural no fundo do vale. Além do mais, os pio-
neiros – ainda presentes na região – afi rmam que a mata 
foi sempre um problema para eles, inclusive pela ecolo-
gia do ambiente fl orestal, favorável aos insetos e aos ani-
mais nocivos;
as áreas em tonalidade vermelho-laranja acusam a • 
ocorrência de áreas ocupadas com mandioca, conforme 
constatamos a partir, também, das observações de cam-
po. As indústrias de glicose, farinha e de outros deriva-
dos do beneficiamento da mandioca vêm motivando a 
expansão dessa cultura, sobretudo nas pequenas pro-
priedades próximas a Paranavaí;
podemos afirmar que as mudanças mais significativas, • 
observadas a partir da visualização das imagens Land-
sat TM dos anos de 1986, 1999 e 2001, estão na amplia-
ção das áreas de mandioca e de cana-de-açúcar.
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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Figura 9. Nascentes do Noroeste – PR (1986).
A escolha dessa unidade de paisagem tem como objetivo 
maior explicitar dois importantes elementos da ocupação/uso 
da terra no noroeste paranaense:
a geometria da área de floresta tropical – no centro da • 
imagem – cortada pela BR-376. O desenho retangular e 
de limites retilíneos dessa parcela de floresta é explica-
do pela forma como a maioria das empresas imobiliá-
rias definiam/delimitavam as áreas vendidas, ou seja, 
se o comprador adquiria 300 hectares, por exemplo, o 
vendedor demarcava a área (numa carta/croquis) com 
ângulos retos, de modo a facilitar a medição. Nas duas 
outras parcelas da raia (SP e MS) prevaleceram os limi-
tes naturais – córregos, ribeirões…), razão pela qual as 
propriedades, nessas duas parcelas, apresentam forma-
tos irregulares;
o lesionamento das áreas de nascentes é provocado – • 
regra geral – pelo elevado grau de erosão nesses geóto-
pos.
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Figura 10. Ivaí-Panema (1986).
A unidade Ivaí-Panema tem, ao sul, áreas adjacentes ao 
curso do rio Ivaí (em tonalidade azul escuro). Aqui ocorre o solo 
fértil – terra roxa – e a ocupação agrícola é mais valorizada.
Ao norte da imagem, junto ao rio Paranapanema, aparece a 
porção sul da Reserva Estadual do Morro do Diabo – evidenciando 
a parcela desmatada para atender ao enchimento do lago da 
UHE de Rosana.
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O uso do solo, nesse perfi l norte-sul, refl ete o padrão 
predominante no Noroeste paranaense. Nas proximidades 
das pequenas cidades, como Santo Antonio do Caiuá, a 
diversifi cação do uso do solo (pequenos lotes) é signifi cativa: 
mandioca, café adensado, gado leiteiro, amora, laranja etc.
A visualização das imagens de 1999 e 2001 não acusa 
mudanças perceptíveis (nas imagens) do uso do solo, até 
porque a cartografi a dessas pequenas áreas requer tratamentos 
específi cos: objeto das Dissertações e Teses que estão sendo 
desenvolvidas sob a minha orientação. 
Figura 11. Fazenda Duas Barras-PR (1999).
A leitura da imagem Landsat referente a esta unidade revela:
o leito do rio Ivaí, cuja drenagem está totalmente submetida • 
à orientação do substrato basáltico;
a geometria (retangular) do parcelamento do uso da terra • 
– do espigão em direção ao fundo do vale -. Esse desenho 
está mais nítido nas microbacias do Ribeirão da Saudade e 
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do Córrego Horácio;
signifi cativa parcela de fl oresta tropical residual, à margem • 
esquerda do ribeirão Taquara;
manutenção da fl oresta galeria, na maioria dos ribeirões e • 
córregos (Saudade, Selma, Vinte e Um, Taquara, Horácio). 
Esse fato decorre de uma ocupação mais recente, sustenta-
da na atividade pecuarista e, ainda, na maior dimensão das 
propriedades aí existentes;
a presença de fl orestas (tonalidade vermelho, aspecto ru-• 
goso) acusa áreas de preservação, que estão enquadradas 
como Reserva Particular do Patrimônio Natural. Na área da 
RPPN da Fazenda Duas Barras, efetuamos os levantamen-
tos fi tossociológicos para efeito de avaliação da evolução da 
vegetação;
as áreas de tonalidade alaranjada e parceladas em retângu-• 
los acusam a expansão da cana-de-
açúcar. 
Figura 12. Ribeirão 
São Francisco-PR 
(1999).
 A R A I A D I V I S Ó R I A
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A imagem Landsat TM permite a visualização da rede 
urbana (pequenas cidades) e de inúmeras manchas de solo 
nuas (azul), indicadoras da atividade agrícola mais signifi cativa 
e dinâmica nessa parcela da raia divisória. Essa microbacia é 
objeto de estudo da Tese de Doutorado de minha orientada 
Eloiza C. Torres.
SUDESTE SUL MATO-GROSSENSE
O padrão mais uniforme, a ocupação mais recente e, 
ainda, as três teses de doutorado sobre esta parcela da 
raia, nos levou a optar por um número menor de unidades, 
para efeito de leitura das transformações paisagísticas: raia 
São Paulo – Mato Grosso do Sul (1986); raia São Paulo – 
Mato Grosso do Sul (1999); Córrego Três Barras-MS (1999); 
Anaurilândia – MS (1986)/microbacia do córrego do 
Machado (1999).
Figura 13a. Raia: São Paulo – Mato Grosso do Sul (1986).
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Figura 13b. Raia: São Paulo – Mato Grosso do Sul (1999).
A visualização dessa unidade se presta à constatação de 
que:
o rio Paraná e sua planície de inundação se constituíram • 
numa barreira natural que difi cultou os fl uxos entre as duas 
parcelas territoriais;
a partir da formação do lago e da possibilidade de aces-• 
so ao Sudoeste Paulista e ao Noroeste Paranaense, através 
da “ponte”/barragem do reservatório da UHE Engenheiro 
Sérgio Motta, certamente, os fl uxos, intra-raia serão dina-
mizados;
a presença mais signifi cativa, na parcela sul-matogros-• 
sense, de vegetação fl orestal e de cerrados1 é reveladora 
dos aspectos socioeconômicos e culturais que operaram/
operam de forma diferenciada nas duas parcelas territo-
riais;
a localização dos municípios sul-matogrossenses, dis-• 
tantes, em média, 30/35 quilômetros da margem direita 
do Rio Paraná, se explica pelo obstáculo imposto pela 
planície de inundação, imprópria ao