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DIREITOS HUMANOS
PROFESSORA: ANA CAROLINA LIMA SILVA
E-MAIL: a.carol.lima3@gmail.com
INDICAÇÕES DE BIBLIOGRAFIA
1-A AFIRMAÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS HUMANOS
Fábio Konder Comparato
Considerado um clássico das obras sobre Direitos Humanos, este livro apresenta as diferentes etapas do desenvolvimento desses direitos, através da análise de documentos históricos como a Magna Carta (1215) e a Lei dos Habeas Corpus (1679); a Declaração de Independência e a Constituição dos Estados Unidos; as Declarações de Direitos da Revolução Francesa; a Convenção de Genebra de 1864; as Constituições Mexicana (1917) e Alemã (1919) e mais contemporaneamente, a Carta das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O autor busca demonstrar que a criação de instituições jurídicas que se desenvolveram progressivamente, são a garantia de defesa da dignidade humana a todos os povos da Terra.
Referência: COMPARATO, Fábio K. A afirmação histórica dos direitos humanos. 12ª ed. São Paulo: Saraiva, 2019
Curso de Direitos Humanos
André Carvalho Ramos
O Curso de Direitos Humanos do professor André Carvalho Ramos é fruto do amadurecimento de suas pesquisas na área de direitos humanos, após duas décadas de docência universitária, nas palavras do próprio autor. Assim, a obra está dividida em quatro partes: aspectos gerais dos direitos humanos; abordagem crítica dos principais tratados de direitos humanos e dos mecanismos de monitoramento; os direitos humanos no ordenamento jurídico brasileiro, analisando a atuação de órgãos do Poder Executivo, Poder Legislativo, Ministério Público e Defensoria Pública e, por fim, os direitos e garantias propriamente ditos. O livro analisa os direitos humanos na esfera nacional e internacional, com comentários a casos concretos no Brasil e na Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Referência: RAMOS, André C. Curso de Direitos Humanos. 9ª edição. São Paulo: Saraiva Jur: 2022.
Teoria dos direitos humanos fundamentais
Seguiremos utilizando trechos do livro do prof. André de Carvalho Ramos
NOMENCLATURA: Os direitos essenciais do indivíduo contam com ampla diversidade de termos e designações: direitos humanos, direitos fundamentais, direitos naturais, liberdades públicas, direitos do homem, direitos individuais, direitos públicos subjetivos, liberdades fundamentais. A terminologia varia tanto na doutrina quanto nos diplomas nacionais e internacionais.
A nossa Constituição acompanha o uso variado de termos envolvendo “direitos humanos”. Inicialmente, o art. 4º, II, menciona “direitos humanos”. Em seguida, o Título II intitula-se “direitos e garantias fundamentais”. Nesse título, o art. 5º, XLI, usa a expressão “direitos e liberdades fundamentais” e o inciso LXXI adota a locução “direitos e liberdades constitucionais”. Por sua vez, o art. 5º, § 1º, menciona “direitos e garantias fundamentais”. Já o art. 17 adota a dicção “direitos fundamentais da pessoa humana”. O art. 34, ao disciplinar a intervenção federal, insere uma nova terminologia: “direitos da pessoa humana” (art. 34, VII, b). Quando trata das cláusulas pétreas, a Constituição ainda faz menção à expressão “direitos e garantias individuais” (art. 60, § 4º). No art. 7º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, há o uso, novamente, da expressão “direitos humanos”.
No Direito Internacional, há também uma utilização livre de várias expressões. A Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem de 1948 adota, já no preâmbulo, as locuções “direitos do homem” e “direitos essenciais do homem”. A Declaração Universal de Direitos Humanos, por seu turno, estabelece em seu preâmbulo a necessidade de respeito aos “direitos do homem” e logo após a “fé nos direitos fundamentais do homem” e ainda o respeito “aos direitos e liberdades fundamentais do homem”. A Carta da Organização das Nações Unidas emprega a expressão “direitos humanos” (preâmbulo e art. 56), bem como “liberdades fundamentais” (art. 56, alínea c). A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia de 2000 (revisada em 2007) lança mão da expressão “direitos fundamentais” e a Convenção Europeia de Direitos do Homem e Liberdades Fundamentais de 1950 adotou a locução “liberdade fundamental”.
Essa imprecisão terminológica é resultado da evolução da proteção de certos direitos essenciais do indivíduo, pela qual a denominação de tais direitos foi sendo alterada, a partir do redesenho de sua delimitação e fundamento. Nesse sentido, o uso da expressão “direito natural” revela a opção pelo reconhecimento de que esses direitos são inerentes à natureza do homem. Esse conceito e terminologia foram ultrapassados ao se constatar a historicidade de cada um destes direitos, sendo os direitos humanos verdadeiros direitos “conquistados”.
Por sua vez, a locução “direitos do homem” retrata a mesma origem jusnaturalista da proteção de determinados direitos do indivíduo, no momento histórico de sua afirmação em face do Estado autocrático europeu no seio das chamadas revoluções liberais, o que imprimiu um certo caráter sexista da expressão, que pode sugerir preterição aos direitos da mulher. No Canadá, há o uso corrente da expressão “direitos da pessoa”, apta a superar o sexismo da dicção “direitos do homem”.
Já a expressão “direitos individuais” é tida como excludente, pois só abarcaria o grupo de direitos denominados de primeira geração ou dimensão (direito à vida, à igualdade, à liberdade e à propriedade
Contudo, há vários outros direitos, tais como os direitos a um ambiente ecologicamente equilibrado e outros, que não se amoldam nessa expressão “direitos individuais”.
Finalmente, chegamos a duas expressões de uso corrente no século XXI: direitos humanos e direitos fundamentais. Inicialmente, a doutrina tende a reconhecer que os “direitos humanos” servem para definir os direitos estabelecidos pelo Direito Internacional em tratados e demais normas internacionais sobre a matéria, enquanto a expressão “direitos fundamentais” delimitaria aqueles direitos reconhecidos e positivados pelo Direito Constitucional de um Estado específico. Porém, como vimos, o Direito Internacional não é uniforme e nem utiliza a locução “direitos humanos” sempre. Há casos recentes de uso da expressão “direitos fundamentais” em normas internacionais, como se vê na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia (redigida em 2000 e alterada em 2007). Também o Direito Constitucional de um país pode adotar a expressão “direitos humanos”, como se viu acima em vários casos na Constituição brasileira.
Uma segunda diferença entre “direitos humanos” e “direitos fundamentais” também é comumente assinalada: os direitos humanos não seriam sempre exigíveis internamente, justamente pela sua matriz internacional, tendo então uma inspiração jusnaturalista sem maiores consequências; já os direitos fundamentais seriam aqueles positivados internamente e por isso passíveis de cobrança judicial, pois teriam matriz constitucional. Ora, a evolução do Direito Internacional dos Direitos Humanos não se coaduna com essa diferenciação. No sistema interamericano e europeu de direitos humanos, os direitos previstos em tratados podem também ser exigidos e os Estados podem ser cobrados pelo descumprimento de tais normas.
Uma segunda diferença entre “direitos humanos” e “direitos fundamentais” também é comumente assinalada: os direitos humanos não seriam sempre exigíveis internamente, justamente pela sua matriz internacional, tendo então uma inspiração jusnaturalista sem maiores consequências; já os direitos fundamentais seriam aqueles positivados internamente e por isso passíveis de cobrança judicial, pois teriam matriz constitucional. Ora, a evolução do Direito Internacional dos Direitos Humanos não se coaduna com essa diferenciação. No sistema interamericano e europeu de direitos humanos, os direitos previstos em tratados podem também ser exigidos e os Estados podem ser cobrados pelo descumprimento de tais normas
Muitos já utilizam uma união entre as duas expressões vistas acima, “direitos humanos” e “direitos fundamentais”,nacionalidade e cidadania, ou nacional e cidadão, têm sentido distinto. Nacional é o brasileiro nato ou naturalizado, ou seja, aquele que se vincula, por nascimento ou naturalização, ao território brasileiro. Cidadão qualifica o nacional no gozo dos direitos políticos e os participantes da vida do Estado (arts. 1º, II, e 14). Surgem, assim, três situações distintas: a do nacional (ou da nacionalidade), que pode ser nato ou naturalizado; a do cidadão (ou da cidadania) e a do estrangeiro, as quais envolvem, também, condições jurídicas distintas [...] (SILVA, 2007, p. 319).
Desta forma, nacionalidade é o vinculo politico das relações de um povo com seu território, exprime a qualidade ou condição de nacional, atribuída a uma pessoa, em virtude do que se mostra vinculada a nação, ou ao Estado, a que pertencem ou de onde se originaram. VALLADÃO define que “nacionalidade é o vínculo jurídico pessoal que prende um indivíduo a um Estado-Membro da comunidade internacional”. (VALLADÃO, 1980, p. 275).
Para Maria Helena Diniz, nacionalidade é:
a) qualidade de nacional; naturalidade; b) liame jurídico que prende o indivíduo a um Estado em razão do ius soli ou de ius sanguinis; c) vínculo existente entre uma pessoa e um país em virtude de naturalização; d) caráter jurídico que possuem os cidadãos de um Estado; e) vínculo jurídico que liga o indivíduo ao Estado em razão do local de nascimento, da ascendência paterna ou da manifestação de vontade do interessado; f) vínculo jurídico-político de direito público interno que faz da pessoa um dos elementos componentes da dimensão pessoal do Estado. (DICIONÁRIO JURÍDICO, 2005).
Existem duas ideias para o conceito de nacionalidade: o sociológico e o jurídico. Em síntese, sociologicamente falando, deve-se ter em mente que nacionalidade corresponde ao conjunto de indivíduos que possuem a mesma língua, raça, religião e possuem um querer viver em comum; enquanto que, juridicamente, nacionalidade nada mais é do que o vinculo jurídico politico de Direito Público Interno, o qual faz da pessoa um dos elementos componentes da dimensão do Estado.
O Estado tem o dever legal de proteger, auxiliar e assistir aos seus nacionais estejam onde estiverem, de forma a reconhecer os seus direitos políticos e civis proporcionando a esses indivíduos uma qualidade que se sobrepõe e os diferencia da população em geral. Contudo, essa afirmativa não isenta o Estado de sua responsabilidade para com os estrangeiros, de modo a lhes assegurar o pleno gozo de direitos e garantias individuais.
O direito é um forte aliado da cidadania, pois através dele se faz com que ela seja exercida, se não pela vontade individual, pela coercitividade de suas normas. Sendo um assunto sobre o qual tanto se fala, encontram-se várias definições e ideias sobre cidadania.
Cidadania é algo relacionado ao regime político, que caracteriza os nacionais que participam da vida do Estado. É um atributo às pessoas integradas nas sociedades estatais e é também um atributo político decorrente do direito de participar no governo e o direito de ser ouvido pela representação política.
Maria Helena Diniz define cidadania como:
Qualidade ou estado de cidadão; vínculo político que gera para os nacionais deveres e direitos políticos, uma vez que o liga ao Estado. É a qualidade de cidadão relativa ao exercício das prerrogativas políticas outorgadas pela Constituição de um Estado Democrático. (DICIONÁRIO JURÍDICO, 2005)
A cidadania é, portanto, o conjunto dos direitos políticos de que goza um indivíduo e que lhe permitem intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e na sua administração, seja ao votar (direto), seja ao concorrer a cargo público (indireto).
A Constituição Federal alicerçou o Estado Democrático de Direito em dois fundamentos relacionados à pessoa (indivíduos): cidadania (art. 1º, inciso II, CF) e dignidade da pessoa humana (art. 1º, inciso III, CF).
Assim, a cidadania é princípio basilar do Estado Democrático de Direito instituído pela Constituição Federal de 1988.
José Afonso da Silva descreve cidadania:
Cidadania [...], qualifica os participantes da vida do Estado, é atributo das pessoas integradas na sociedade estatal, atributo político decorrente do direito de participar no governo e direito de ser ouvido pela representação política. Cidadão, no direito brasileiro, é o indivíduo que seja titular dos direitos políticos de votar e ser votado e suas conseqüências. Nacionalidade é o conceito mais amplo do que cidadania, e é pressuposto desta, uma vez que só o titular da nacionalidade brasileira pode ser cidadão. (SILVA, op. cit., p. 345 e 346).
De forma mais clara, cidadão é o indivíduo que é titular dos direitos políticos de votar e ser votado e suas consequências. Nacionalidade é mais amplo do que cidadania, uma vez que só o titular da nacionalidade brasileira pode ser cidadão.
Portanto, nacionalidade é pressuposto da cidadania – ser nacional de um Estado é condição primordial para o exercício dos direitos políticos. O papel dos direitos políticos é reger o exercício da cidadania.
Meirelles Teixeira assim posiciona-se sobre o tema em questão:
O princípio da nacionalidade e a condição de nacional revestem-se de excepcional importância, tanto no Direito Público interno como no Direito Internacional. A nacionalidade determina a pertinência, ao indivíduo, de certos direitos e obrigações próprios do nacional; constitui a condição ou requisito básico para a condição de cidadão, isto é, do exercício de direitos políticos. Pode-se ser nacional sem ser cidadão (o menor, por exemplo), mas não pode ser cidadão (votar, ser votado) sem ser nacional. Aos nacionais corresponde a proteção de determinada soberania, da soberania corresponde à sua nacionalidade (por exemplo, ao brasileiro, a proteção da soberania brasileira, mesmo que ele se encontre no estrangeiro). E também certos deveres, como a prestação de serviço militar, a fidelidade ao Estado, etc. (TEIXEIRA, op. cit., p. 547-548).
Portanto, em breve palavras, cidadania é a participação política, econômica e social do cidadão.
O termo cidadania, empregado muitas vezes como sinônimo de nacionalidade, não deve ser confundido com a nacionalidade, conceito explanado anteriormente, tendo em vista que nacionalidade é mais amplo e complexo que o conceito de cidadania. Por ser mais abrangente, a nacionalidade engloba a cidadania.
AS GARANTIAS PROCESSUAIS DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
Texto de Frederico Tadeu: Importante frisar a diferença
Direitos fundamentais: uma série de direitos previstos na CF tanto para proteger o cidadão do arbítrio estatal (1ª dimensão dos direitos fundamentais) quanto para que o indivíduo receba prestações positivas do Estado (2ª dimensão) e possa viver numa sociedade igualitária, solidária e fraterna (3ª dimensão);
Garantias fundamentais: em termos simples, é através das garantias fundamentais que se protege ou se exercer os direitos fundamentais. Um exemplo é a impetração de Habeas Data (garantia) para exercício do direito previsto no inciso XXXIV, alínea “b”, do artigo 5º da CF.
Garantias relacionadas à competência:
Sucessão de bem estrangeiro:
artigo 5º, inciso XXI, da CF dispõe que: XXXI – a sucessão de bens de estrangeiros situados no País será regulada pela lei brasileira em benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do “de cujus”;
O mesmo também é encontrado na LINDB: Art. 10,§ 1º A sucessão de bens de estrangeiros, situados no País, será regulada pela lei brasileira em benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, ou de quem os represente, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do de cujus. (Redação dada pela Lei nº 9.047, de 1995)
Competência para julgamento:
A)Princípio do Juiz Natural: A PRIMEIRA VERTENTE do princípio do juiz natural é a de que ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente, conforme inciso LIII do artigo 5º da CF/88.
Com efeito,ao estudar o direito processual aprendemos que, na verdade, a jurisdição é una, repartindo-se em competências para fins de organização judiciária. Nesse sentido, é por isso que se pode definir a competência como sendo a medida/parte da jurisdição.
Sendo assim, se um juiz possui competência apenas para julgar causa cíveis, ele será, portanto, incompetente para julgar causas de natureza criminal.
Além disso, é importante lembrar que não apenas pela matéria é que se define a competência (ratione materiae), mas também pelo lugar (ratione loci), pelo função (ratione funcionae), pelo valor da causa e/ou pelo foro de eleição (causas cíveis), pela prevenção, etc.
Nesse sentido, ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente, conforme previamente definido por lei e pelas normas de organização judiciária da região.
Por outro lado, a SEGUNDA VERTENTE é a de que não haverá juízo ou tribunal de exceção, conforme inciso XXXVII do artigo 5º da CF.
Portanto, veda-se a criação de tribunal ou juízo especificamente para o julgamento de um ou mais casos específicos, como aconteceu, por exemplo, ao se criar o Tribunal de Nuremberg, ao fim da 2ª Guerra Mundial.
Por fim a TERCEIRA VERTENTE é a de que a CF reconhece a instituição do júri como competente para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida, vide inciso XXXVIII do art. 5º da CF: XXXVIII – é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados:
a) a plenitude de defesa;
b) o sigilo das votações;
c) a soberania dos veredictos;
d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida;
GARANTIAS PROCESSUAIS RELACIONADAS AO ACESSO À JUSTIÇA:
Ademais, temos as garantias processuais que dizem respeito ao acesso à justiça, as quais constam dos seguintes incisos do artigo 5º da CF:
XXXV – a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito;
LXXIV – o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos;
LXXVIII – a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação.
O primeiro inciso (XXXV) representa o princípio da inafastabilidade de jurisdição, também conhecido como princípio do acesso à justiça, haja vista que afirma, em termos simples, que todas as causas podem ser levadas a conhecimento do Poder Judiciário, que deverá dirimir a questão.
Há exceções já reconhecidas pelo STF, inclusive, como (I) a necessidade de se requerer administrativamente benefício previdenciário antes de ingressar com ação nesse sentido; (II) a necessidade de se requerer a informação administrativamente antes de impetrar Habeas Data; (III) prévio debate da questão na via administrativa em causas desportivas; etc.
Já o inciso LXXIV permite o acesso à justiça até aos mais necessitados, enquanto o inciso LXXVIII garante, inclusive no âmbito administrativo, um processo célere e uma estrutura voltada para essa agilidade.
GARANTIAS PROCESSUAIS RELACIONADAS AO CURSO DO PROCESSO
As garantias processuais que incidem no curso do processo judicial ou administrativo, as quais constam dos seguintes incisos do artigo 5º da CF:
XXXVI – a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada;
LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;
LV – aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;
LVI – são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos;
LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;
O inciso XXXVI encontra previsão semelhante no artigo 6º da LINDB, que possui a seguinte redação:
Art. 6º A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada. (Redação dada pela Lei nº 3.238, de 1957)
§1º Reputa-se ato jurídico perfeito o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou. (Incluído pela Lei nº 3.238, de 1957)
§ 2º Consideram-se adquiridos assim os direitos que o seu titular, ou alguém por ele, possa exercer, como aqueles cujo começo do exercício tenha têrmo pré-fixo, ou condição pré-estabelecida inalterável, a arbítrio de outrem. (Incluído pela Lei nº 3.238, de 1957)
§ 3º Chama-se coisa julgada ou caso julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso.
A importância desse inciso é justamente para estabilizar as relações jurídicas no tempo, evitando que haja insegurança jurídica e/ou conflitantes.
Além disso, os incisos LIV e LV, em verdade, representam um conjunto de princípios que, em resumo, visam a possibilitar que todas as partes possam argumentar, se defender e ter um processo justo, com igualdade de armas em todo o seu curso.
Com efeito, o princípio da ampla defesa permite a produção de todos os meios de provas admissíveis no direito.
Outrossim, o princípio do contraditório permite à parte (I) tomar ciência; (II) responder o argumento (contraditar); (III) influenciar o convencimento do julgador do mesmo modo que a parte contrária.
Já o princípio do devido processo legal (due process of law) é uma junção desses dois princípios (ampla defesa e contraditório), sendo responsável por assegurar que todo aquele que participe de um processo, administrativo ou judicial, terá como garantia a observância do preconiza a lei. Ou seja, a garantia de que o processo tramitará nos termos da legislação vigente.
Com efeito, é até nesse contexto que se insere o inciso LVI, que afirma serem inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos.
Por fim, ressalta-se que o inciso LVII preconiza que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Trata-se do princípio da não-culpabilidade (também conhecido como princípio da presunção de inocência).
DIREITOS HUMANOS
DIREITO HUMANITÁRIO E DIREITOS HUMANOS: Direitos Humanos são mais amplos, atua tanto em tempos de paz como de guerra
Proteção constitucional: Segundo a profa Karla Harada, Sob a rubrica de Direitos Humanos, em especial quanto à proteção Internacional da pessoa humana, podemos observar a construção de três grandes categorias ou âmbitos de proteção, que por mais que se interconectem e correlacionem, possuem características próprias: o Direito Internacional dos Direitos Humanos (que se desenvolve buscando criar um sistema internacional – global e regional – de proteção universal da pessoa humana), o Direito Internacional dos Refugiados (o qual, para muitos, seria na verdade uma subdivisão, uma área mais específica do Direito Internacional dos Direitos Humanos), e o Direito Humanitário Internacional, também conhecido como Direito Humanitário internacional nos/dos conflitos armados.
Os conflitos, guerras civis, guerras internacionais, massacres e demais eventos brutais de manifestações humanas infelizmente estão presentes desde os primórdios da nossa história. Buscando evitar ou minimizar ao máximo as perdas, danos e violações de direitos, no âmbito do Direito Internacional, desenvolve-se o Direito Humanitário. Nas palavras de Malcolm Shaw:
“Além de prescrever leis que regem o uso da força (jus ad bellum), o direito internacional busca regulamentar a condução das hostilidades (jus in bello). Esses princípios cobrem, por exemplo, o tratamento dado a prisioneiros de guerra, a civis em território ocupado e a doentes e feridos, e aborda também os métodos de guerra proibidos e os direitos humanos em situações de conflito”.
Destarte, este ramo do direito representa um conjunto de princípios e regras que norteiam e limitam o uso da violência em conflitos armados, tendo como objetivos precípuos: (i) proteger a pessoa humana, especialmente aquelas que não participam diretamente do evento hostil, e (ii) limitar os efeitos da violência nos combates desbravadospara atingir os propósitos do conflito.
Nas origens da humanidade, e por muito tempo e em vários momentos de sua história, a guerra caracterizava-se pela ausência de qualquer regra para além da lei do mais forte ou do mais desleal - Vae victis, vencer ou morrer implacavelmente. Diante de tantas atrocidades, especialmente diante das duas grandes guerras mundiais que provaram ao mundo a capacidade de auto-aniquilação do homem, tem-se, junto ao desenvolvimento dos Direitos Humanos – criação da Liga das nações em 1919, da Organização das Nações Unidas em 1945, a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 – a construção de um sistema baseado na ideia contrapor à noção de que tudo seria permitido contra o inimigo, estabelecendo limitações, regras e princípios, na forma de um direito internacional dos conflitos armados – o Direito Internacional Humanitário.
Conceituar o que é direitos humanos e fundamentar (1 pt)
Direitos humanos são um conjunto de direitos inerentes à dignidade da pessoa humana, universais, indivisíveis, inalienáveis e interdependentes. Eles têm como fundamento a dignidade da pessoa humana e se expressam em documentos internacionais, como a Declaração Universal de 1948, que reconhece esses direitos como pertencentes a todos os indivíduos, independentemente de nacionalidade, raça, gênero ou condição social.
Diferenciar direitos humanos e direitos fundamentais
Direitos humanos: têm caráter internacional, garantidos por tratados, convenções e declarações internacionais (ex.: Declaração Universal dos Direitos Humanos).
Direitos fundamentais: são os direitos positivados em uma ordem jurídica interna, especialmente nas constituições, protegendo os cidadãos daquele Estado (ex.: direitos previstos no art. 5º da CF/88).
Explicar a organização topográfica da Constituição
A Constituição Federal de 1988 está organizada em:
Preâmbulo – parte introdutória, que expressa os valores e princípios da Carta. Ele está no início da CF/88, antes do art. 1º, e serve como introdução, trazendo valores como a dignidade da pessoa humana, a justiça e a liberdade. O STF já reconheceu que o Preâmbulo não possui força normativa autônoma, mas orienta a interpretação constitucional (ADI 2076/AC, Rel. Min. Celso de Mello, j. 15/08/2002).
Parte dogmática – formada pelos artigos 1º a 250, onde estão os direitos fundamentais, a organização do Estado, dos poderes e a ordem econômica e social.
Vai do art. 1º ao art. 250.
É a parte normativa principal da Constituição, contendo:
Princípios fundamentais (arts. 1º a 4º).
Direitos e garantias fundamentais (arts. 5º a 17).
Organização do Estado (arts. 18 a 43).
Organização dos Poderes (arts. 44 a 135).
Defesa do Estado e das Instituições Democráticas (arts. 136 a 144).
Tributação e Orçamento (arts. 145 a 169).
Ordem Econômica e Financeira (arts. 170 a 192).
Ordem Social (arts. 193 a 232).
Disposições Gerais e Transitórias (arts. 233 a 250)
Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) – artigos transitórios que regulam a passagem do regime anterior para o novo. Inicia logo após o art. 250 da parte dogmática.
Tem atualmente mais de 120 artigos (alguns já esgotados).
Foi criado para regular a transição entre o regime autoritário anterior e o Estado Democrático de Direito.
Fundamento expresso: o ADCT é parte integrante da Constituição (art. 5º, §3º, CF/88, ao mencionar a equivalência dos tratados de direitos humanos aprovados com status constitucional, usa a expressão “Constituição”, abrangendo também o ADCT).
Questão com opções sobre direitos civil e político decorrentes da dignidade
👉 Exemplo de questão:
Assinale a alternativa que indica corretamente um direito civil e um direito político que decorrem da dignidade da pessoa humana:
A) Direito à vida (civil) e direito ao voto (político). ✅
B) Direito à saúde (civil) e direito à moradia (político).
C) Direito ao trabalho (civil) e direito à liberdade de expressão (político).
D) Direito à propriedade (político) e direito de reunião (civil).
Gabarito: A.
5. A base filosófica de validade dos direitos humanos
A base filosófica está no jusnaturalismo, que entende que os direitos humanos decorrem da natureza humana e da razão, sendo anteriores e superiores ao Estado. A dignidade da pessoa humana é o valor que fundamenta sua validade universal.
Representatividade política das minorias (questão objetiva)
👉 Questão exemplo:
A representatividade política das minorias, vinculada à participação política, tem como fundamento:
I – Garantir igualdade de oportunidades na vida política.
II – Assegurar que grupos vulneráveis tenham voz nas decisões estatais.
III – Reforçar a democracia participativa e plural.
Está correto o que se afirma em:
A) Apenas I e II.
B) Apenas II e III.
C) I, II e III. ✅
D) Apenas I.
Gabarito: C.
Os Direitos Humanos consistem em um conjunto de direitos considerado indispensável para uma vida humana pautada na liberdade, igualdade e dignidade. Sobre as características dos Direitos Humanos, é correto afirmar que: (0,5 pt)
A)Os Direitos Humanos são universais, entretanto se destinam as pessoas que cumprem as normas vigente.
B)As pessoas podem renunciar aos seus Direitos Humanos, caso não configure risco a sua vida.
C)Existe a possibilidade de alienar os Direitos Humanos pela fixação de pena pecuniária ao transgressor da norma.
D)Os Direitos Humanos são frutos do processo histórico, sendo reconhecidos gradativamente ao passar dos anos.
E)A divisibilidade dos Direitos Humanos decorre da possibilidade de identificar normas esparsas que tutelam bens jurídicos diversos.
A) Errada → Direitos Humanos são universais, mas não estão condicionados a cumprir normas vigentes, eles pertencem a todo ser humano.
B) Errada → São irrenunciáveis, não é possível abrir mão deles.
C) Errada → Não podem ser alienados nem trocados por pena pecuniária.
D) ✅ Correta → De fato, os Direitos Humanos são fruto de um processo histórico, reconhecidos e ampliados gradualmente.
E) Errada → A característica correta é a indivisibilidade, não divisibilidade.
👉 Gabarito: letra D
Sobre o conceito de direito fundamental em relação ao de Direito Humano, assinale a afirmação correta. (1,0 pt)
A)Direito fundamental é sinônimo de Direito Humano, uma vez que ambos visam à proteção da dignidade da pessoa humana.
B)Não coincidem, pois é possível haver Direito Humano que não seja direito fundamental e vice-versa.
C)O Direito Humano só tem validade na hipótese de ser convolado em direito fundamental com o reconhecimento formal em âmbito interno.
D)O direito fundamental é aquele que se refere a um Direito Humano pertinente a um tratado internacional ratificado pelo Estado-nação.
E) São conceitos excludentes, uma vez que reconhecida sua natureza de direito fundamental, não podemos admiti-lo como um Direito Humano, pois há hierarquia entre eles
A) Errada → Apesar de relacionados, não são sinônimos.
B) ✅ Correta → Nem todo Direito Humano está positivado como direito fundamental (ex.: tratados não internalizados). Da mesma forma, pode haver direitos fundamentais que não têm previsão expressa em tratados internacionais.
C) Errada → Os Direitos Humanos têm validade independente da positivação interna.
D) Errada → Direito fundamental não depende de tratado internacional, mas da Constituição de cada Estado.
E) Errada → Não são conceitos excludentes nem hierárquicos, mas complementares.
👉 Gabarito: letra Bcriando-se uma nova terminologia: “direitos humanos fundamentais” ou ainda “direitos fundamentais do homem”. Essa “união de termos” mostra que a diferenciação entre “direitos humanos, representando os direitos reconhecidos pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos, e os “direitos fundamentais”, representando os direitos positivados nas Constituições e leis internas, perde a importância, ainda mais na ocorrência de um processo de aproximação e mútua relação entre o Direito Internacional e o Direito interno na temática dos direitos humanos.
Essa aproximação entre o Direito Internacional e o Direito Nacional é consagrada, no Brasil, pela adoção do rito especial de aprovação congressual dos tratados de direitos humanos (previsto no art. 5º, § 3º). Esse rito especial consiste na aprovação de um tratado por maioria de 3/5 e em dois turnos em cada Casa do Congresso Nacional para que o futuro tratado seja equivalente à emenda constitucional. Assim, um tratado de direitos humanos será equivalente à emenda constitucional. Ou seja, um direito previsto em tratado (direitos humanos) será considerado um direito constitucional (direito fundamental).
Outro ponto de aproximação entre “direitos humanos” e “direitos fundamentais” está no reconhecimento da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo Brasil, que deve agir na falha do Estado brasileiro em proteger os direitos previstos na Convenção Americana de Direitos Humanos. Logo, a efetividade dos direitos humanos é assegurada graças a uma sentença internacional irrecorrível, que deve ser implementada pelo Estado brasileiro (artigo 68.1 da Convenção Americana de Direitos Humanos). Assim, a antiga separação entre direitos humanos (matriz internacional, sem maior força vinculante) e direitos fundamentais (matriz constitucional, com força vinculante gerada pelo acesso ao Poder Judiciário) no tocante aos instrumentos de proteção fica diluída, pois os direitos humanos também passaram a contar com a proteção judicial internacional.
Além disso, vários desses direitos previstos nacionalmente foram também previstos internacionalmente. Os direitos fundamentais espelham, então, os direitos humanos. Assim, uma interpretação nacional sobre determinado direito poderá ser confrontada e até corrigida internacionalmente, um exemplo citado pelo prof. André Ramos, foi a análise do Caso da Guerrilha do Araguaia (divergência de interpretação entre o Supremo Tribunal Federal e a Corte Interamericana de Direitos Humanos).
Abre-se a porta para a uniformização de interpretação, erodindo o sentido de termos separando rigidamente o mundo internacional dos “direitos humanos” e mundo constitucional dos “direitos fundamentais”.
CONCEITO: Os direitos humanos consistem em um conjunto de direitos considerado indispensável para uma vida humana pautada na liberdade, igualdade e dignidade. Os direitos humanos são os direitos essenciais e indispensáveis à vida digna. Não há um rol predeterminado desse conjunto mínimo de direitos essenciais a uma vida digna. As necessidades humanas variam e, de acordo com o contexto histórico de uma época, novas demandas sociais são traduzidas juridicamente e inseridas na lista dos direitos humanos. Em geral, todo direito exprime a faculdade de exigir de terceiro, que pode ser o Estado ou mesmo um particular, determinada obrigação. Por isso, os direitos humanos têm estrutura variada, podendo ser: direito-pretensão, direito-liberdade, direito-poder e, finalmente, direito-imunidade, que acarretam obrigações do Estado ou de particulares revestidas, respectivamente, na forma de: (i) dever, (ii) ausência de direito, (iii) sujeição e (iv) incompetência, como segue.
O direito-pretensão consiste na busca de algo, gerando a contrapartida de outrem do dever de prestar. Nesse sentido, determinada pessoa tem direito a algo, se outrem (Estado ou mesmo outro particular) tem o dever de realizar uma conduta que não viole esse direito. Assim, nasce o “direito-pretensão”, como, por exemplo, o direito à educação fundamental, que gera o dever do Estado de prestá-la gratuitamente (art. 208, I, da CF/88). O direito-liberdade consiste na faculdade de agir que gera a ausência de direito de qualquer outro ente ou pessoa. Assim, uma pessoa tem a liberdade de credo (art. 5º, VI, da CF/88), não possuindo o Estado (ou terceiros) nenhum direito (ausência de direito) de exigir que essa pessoa tenha determinada religião. Por sua vez, o direito-poder implica uma relação de poder de uma pessoa de exigir determinada sujeição do Estado ou de outra pessoa. Assim, uma pessoa tem o poder de, ao ser presa, requerer a assistência da família e de advogado, o que sujeita a autoridade pública a providenciar tais contatos (art. 5º, LXIII, da CF/88). Finalmente, o direito-imunidade consiste na autorização dada por uma norma a uma determinada pessoa, impedindo que outra interfira de qualquer modo. Assim, uma pessoa é imune à prisão, a não ser em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar (art. 5º, LVI, da CF/88), o que impede que outros agentes públicos (como, por exemplo, agentes policiais) possam alterar a posição da pessoa em relação à prisão.
AS DIMENSÕES/GERAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS
Com relação à nomenclatura, a doutrina diverge. Predomina o entendimento de ser mais precisa a expressão “dimensões” dos direitos humanos, como afirmou o prof. Paulo Bonavides, sobre “gerações”, uma vez que esta palavra deixa implícita a ideia de superação ou sobreposição da geração anterior, ao passo que a primeira revela uma sucessão destes direitos, em harmonia e coexistência.
A teoria das gerações dos direitos humanos foi lançada pelo jurista francês de origem checa, Karel Vasak, que, em Conferência proferida no Instituto Internacional de Direitos Humanos de Estrasburgo (França), no ano de 1979, classificou os direitos humanos em três gerações, cada uma com características próprias.
Posteriormente, determinados autores, defenderam a ampliação da classificação de Vasak para quatro ou até cinco gerações. Cada geração foi associada, na Conferência proferida por Vasak, a um dos componentes do dístico da Revolução Francesa: “liberté, egalité et fraternité” (liberdade, igualdade e fraternidade). Assim, a primeira geração seria composta por direitos referentes à “liberdade”; a segunda geração retrataria os direitos que apontam para a “igualdade”; finalmente, a terceira geração seria composta por direitos atinentes à solidariedade social (“fraternidade”)
1ª: direitos de liberdade; direitos individuais; direitos civis e políticos; direitos às prestações negativas, em que o Estado deve proteger a esfera de autonomia do indivíduo – papel passivo do Estado;
Ex: liberdade de credo e de expressão, o direito à vida, o direito de ir e vir e à propriedade, etc. Pelos direitos políticos, entende-se por aqueles que reconhecem e definem o funcionamento da democracia. Em especial, compreendem-se os direitos de votar e ser votado, assim também as prerrogativas para o exercício pleno da cidadania como o exercício de cargos públicos, de ser jurado, de prestar o serviço militar, dentre outros.
2ª: direitos de igualdade; direitos econômicos, sociais e culturais. Vigoroso papel ativo do Estado;
Ex: direito à educação, à família, à maternidade e à infância, ao lazer e à saúde, à segurança, ao transporte, etc
Os direitos econômicos visam garantir um padrão mínimo de vida em sociedade, para que cada pessoa consiga desenvolver suas potencialidades e não somente vivam em função da mera sobrevivência. Exemplificativamente, temos o direito ao trabalho e à respectiva remuneração.
Pelos direitos culturais, são aqueles relacionados às artes, ao conhecimento científico, bem como ao estímulo e preservação das formas de reprodução cultural das comunidades. São exemplos o direito autoral, o direito à preservação do patrimônio histórico e cultural, o direito à diversidade e identidade cultural e o acessoà cultura.
3ª: direitos de solidariedade; direitos de titularidade da comunidade;
Eles vem especialmente depois da II Guerra Mundial
Abrangem-se aqui os direitos difusos e coletivos, cujas discussões acerca da necessidade de se assegurar ao máximo a proteção da dignidade da pessoa
A característica central deste grupo de direitos encontra-se na valorização do homem simplesmente pela sua própria condição humana, ou seja, são direitos que pertencem à humanidade.
Em outras palavras, são direitos que se desvinculam de quaisquer condicionamentos como origem, sexo, etnia ou outro fator de discriminação. A proteção destina-se à coletividade.
Os direitos difusos são aqueles que possuem natureza indivisível e tutela uma massa indeterminada de pessoas, que não podem ser individualizadas. A exemplo, temos os direitos à paz, à segurança pública, ao meio ambiente equilibrado.
Os direitos coletivos são direitos transindividuais de pessoas ligadas por uma relação jurídica entre si ou com a parte contrária, sujeitos estes indeterminados, porém determináveis. Por exemplo, temos o interesse de uma categoria como os sindicatos, ou um grupo de consumidores prejudicados pelo defeito de um produto.
4ª (concebida apenas no século XX): direitos resultantes da globalização dos direitos humanos.
Paulo Bonavides leciona que a quarta dimensão envolve a tutela da democracia, do direito à informação e o pluralismo político. Norberto Bobbio, por sua vez, acrescenta o direito à bioética neste grupo.
Para Bonavides, estes direitos seriam mecanismos para uma máxima efetivação dos Direitos Humanos, visando a sua globalização.
Ainda, o mesmo autor desenvolve a quinta dimensão, responsável pelo direito à paz.
(por Gabriel Bearsci-Estratégia)
Os Direitos Humanos não se esgotam nessas gerações, graças a ideia de inexauribilidade dos direitos humanos, para atender a recentes demandas sociais da atualidade.
A Constituição de 1988 dividiu os direitos humanos, com base no seu Título II (denominado, sugestivamente, “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”), em cinco categorias, a saber: a) direitos e deveres individuais e coletivos; b) direitos sociais; c) direitos de nacionalidade; d) direitos políticos; e e) partidos políticos
Essa enumeração não é exaustiva, uma vez que o art. 5º , § 2º , da Constituição prevê o princípio da não exaustividade dos direitos fundamentais, também denominado abertura da Constituição aos direitos humanos, dispondo que os direitos previstos não excluem outros decorrentes do regime e princípios da Constituição, além dos que estão mencionados no restante do texto da Constituição e em tratados de direitos humanos celebrados pelo Brasil
A INTERNACIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS FUNDAMENTAIS
Antônio Enrique Pérez Luño refere-se ao fenômeno da internacionalização dos direitos humanos (ou direitos materialmente fundamentais, sendo uma das espécies os direitos sociais, econômicos, culturais, etc.) como um dos pontos que mais poderosamente tem contribuído para caracterizar a atual etapa de positivação dos direitos humanos. Para o jurista espanhol, trata-se de um processo ligado ao reconhecimento da subjetividade jurídica do indivíduo pelo direito internacional e, efetivamente, somente quando se admite a possibilidade de que a comunidade internacional possa entender questões que afetem não tanto aos Estados como tais, senão as de seus membros ao gerar um reconhecimento em escala internacional dos direitos humanos. É necessário, portanto, partir da premissa de que qualquer atentado contra os direitos e liberdades da pessoa não é uma questão doméstica dos Estados, mas um problema de relevância internacional
Segundo lição de Dimitri Dimoulis e de Leonardo Martins, as principais dimensões da internacionalização podem ser resumidas da seguinte forma: (a) vasta produção normativa internacional em defesa dos direitos humanos (declarações, convenções, pactos, tratados, etc.); (b) crescente interesse das organizações internacionais pelos direitos humanos e criação de organizações cuja principal finalidade é promovê-los e tutelá-los; (c) criação de mecanismos internacionais de fiscalização de possíveis violações e de responsabilização de Estados ou indivíduos que cometem tais violações; (d) intensa produção doutrinária em âmbito internacional, incluindo debates de cunho político e filosófico, assim como análises estritamente jurídicas de dogmática geral e especial.
Essa evolução contrapõe-se à validade do princípio do relacionamento binário entre o Estado e o indivíduo que governa a concepção tradicional dos direitos fundamentais. A introdução dos sujeitos do direito internacional e principalmente das organizações internacionais nessa relação torna mais complexas as questões do exercício e da garantia dos direitos fundamentais, vinculando-os a uma nova discussão e negociação do princípio da soberania nacional. Segundo os autores supramencionados, as mudanças são múltiplas ao destacarem as seguintes:
A)Ampliação dos titulares de direitos ao permitir uma titularidade universal, independentemente da nacionalidade e do lugar de residência, princípio esse que conhece uma série de exceções e não exclui o reconhecimento de direitos “particularistas”, em benefício de determinadas categorias de pessoas (mulheres, crianças, minorias étnicas, grupos indígenas, etc.);
B) Possibilidade de responsabilizar o Estado de forma externa, independentemente do acionamento de mecanismos de direito interno e da boa (ou má) vontade das autoridades estatais pelos instrumentos de fiscalização e responsabilização que ficam sob o encargo de comissões, Tribunais e outras autoridades internacionais;
C) Forte politização da matéria devido à necessidade de se realizarem contínuos compromissos entre os Estados e os atores internacionais, no intuito de oferecer efetividade aos direitos humanos no âmbito internacional, apesar da ausência de poder estatal e de instituições que executem diretamente normas internacionais.
No século XX, assim como no atual, produziu-se uma série de acontecimentos trágicos, gravemente lesivos à causa das liberdades, que tem potencializado o esforço dos homens e das nações a fim de estabelecer mecanismos internacionais de proteção dos direitos humanos. As catástrofes bélicas, a necessidade de reconhecer o direito de autodeterminação e o processo de descolonização dos povos, o esforço pela afirmação dos direitos da mulher, os graves atentados contra os direitos individuais praticados pelos sistemas totalitários (genocídio, tortura, discriminação, etc.), a persistência de velhas estruturas contra os direitos da pessoa humana (escravidão, trabalhos forçados, etc.), bem como as novas formas de agressão aos direitos e liberdades surgidas nos últimos anos (terrorismo, sequestro de pessoas, violação das liberdades por meio da tecnologia de informática, etc.), servem-se de constantes lutas em assegurar a todos os homens, independentemente de sua raça, local de nascimento ou ideologia, um catálogo básico de direitos e liberdades.
Reafirma-se que desde a ocorrência das duas guerras mundiais, em decorrência dos horrores cometidos durante esse período, os direitos humanos constituem um dos temas principais do direito internacional contemporâneo. A isso se acrescentam, no atual contexto em que todos se encontram, o fato de a globalização e o consequente estreitamento das relações internacionais, principalmente perante o assustador alargamento dos meios de comunicação e do crescimento do comércio internacional.
A normatividade internacional de proteção dos direitos humanos conquistada por meio de incessantes lutas históricas e consubstanciada em inúmeros tratados concluídos com este propósito (salvaguardar os direitos humanos) foi fruto de um lento e gradual processo de internacionalização e universalização desses mesmos direitos. O Direito Internacional dos Direitos Humanos (International Human Rights Law), fonte da moderna sistemática internacional de proteção de direitos, tem como o seu primeiro e mais remoto antecedente históricoos tratados de paz de Vestfália de 1648, que colocaram fim à Guerra dos Trinta Anos. Mas pode-se dizer que os precedentes históricos mais concretos do atual sistema internacional de proteção desses mesmos direitos são o direito humanitário, a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho, situados pela doutrina como os marcos mais importantes da formação do que hoje se conhece por arquitetura internacional dos direitos humanos.
O direito humanitário, criado no século XIX, é aquele aplicável no caso de conflitos armados (guerra), cuja função é estabelecer limites à atuação do Estado com vistas a assegurar a observância e cumprimento dos direitos humanos. A proteção humanitária visa a proteger, em caso de guerra, militares postos fora de combate (feridos, doentes, náufragos, prisioneiros) e populações civis, devendo os seus princípios serem hoje aplicados quer às guerras internacionais, quer às guerras civis e a quaisquer outros conflitos armados.
É nesse cenário que começam os primeiros delineamentos do Direito Internacional dos Direitos Humanos ao afastar a ideia de soberania absoluta dos Estados, em seu domínio reservado, e ao erigir os indivíduos à posição de sujeitos de direito internacional, dando-lhes mecanismos processuais eficazes para a salvaguarda de seus direitos internacionalmente protegidos
A Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Texto de Osvaldo Carvalho:
A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10 de dezembro de 1948, pela aprovação unânime de 48 Estados, com 8 abstenções. A inexistência de qualquer questionamento ou reserva feita pelos Estados aos princípios da Declaração, bem como de qualquer voto contrário às suas disposições, confere à Declaração Universal o significado de um código e plataforma comum de ação. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados.
Em consonância com a lição expendida por Flávia Piovesan, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade da pessoa humana ao consagrar valores básicos universais. Desde seu preâmbulo, é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana, titular de direitos iguais e inalienáveis. Vale dizer, para a Declaração Universal, a condição de pessoa é o requisito único e exclusivo para a titularidade de direitos. A universalidade dos direitos humanos traduz a absoluta ruptura com o legado nazista, que condicionava a titularidade de direitos à pertinência à determinada raça (a raça pura ariana). A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que, posteriormente, viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações de direitos humanos, que passaram a integrar o chamado Direito Internacional dos Direitos Humanos
Além da universalidade dos direitos humanos, de acordo com Flávia Piovesan, a Declaração de 1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com o dos direitos econômicos, sociais e culturais. Ainda para ela, concebida como a interpretação autorizada dos arts. 1º (3) e 55 da Carta da ONU, no sentido de aclarar, definir e decifrar a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”, a Declaração de 1948 estabelece duas categorias de direitos – os direitos civis e políticos e os direitos econômicos, sociais e culturais –, combinando-se, assim, o discurso liberal e o discurso social da cidadania ao conjugar o valor da liberdade com o valor da igualdade.
Seja por fixar a ideia de que os direitos humanos são universais, decorrentes da dignidade da pessoa humana e não derivados das peculiaridades sociais e culturais de determinada sociedade, seja por incluir em seu elenco não só direitos civis e políticos, mas também sociais, econômicos e culturais, a Declaração Universal de 1948 demarca a concepção contemporânea dos direitos humanos
A Declaração Universal tem sido concebida como interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”, constante da Carta das Nações Unidas, apresentando, por esse motivo, força jurídica vinculante, embora seja somente uma recomendação das Nações Unidas, adotada sob a forma de resolução de sua Assembleia-Geral, que consubstancia uma ética universal em relação à conduta dos Estados no que tange à proteção internacional dos direitos humanos. Os Estados-membros das Nações Unidas têm, assim, a obrigação de promover o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. Nesse sentido, estabelece o art. 28 da Declaração que todos têm direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades sejam plenamente realizados.
Artigo 28° Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efetivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.
Pode-se acrescentar, na esteira do pensamento de Valerio de Oliveira Mazzuoli, que a Declaração Universal, por ser a manifestação das regras costumeiras universalmente reconhecidas em relação aos direitos humanos, integra as normas de jus cogens internacional, em relação às quais nenhuma derrogação é permitida, a não ser por norma de jus cogens posterior da mesma natureza, por deterem uma força anterior a todo o direito positivo61. A Declaração Universal de 1948 é uma extensão da Carta da ONU (notadamente dos seus arts. 55 e 56), visto que a integra, sendo obrigatória para os Estados-membros da ONU tornar suas leis internas compatíveis com as disposições da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.
O jus cogens, em sua expressão mais simples, pode ser visto como o conjunto de normas imperativas de direito internacional público. Reflete padrões deontológicos sedimentados no âmbito da comunidade internacional, cuja existência e eficácia independem da aquiescência dos sujeitos de direito internacional. Deve ser observado nas relações internacionais e projeta-se, em alguns casos, na própria ordem jurídica interna. (MP/RJ)
DIREITOS FUNDAMENTAIS E A CONSTITUIÇÃO DE 1988 - A POSIÇÃO E O SIGNIFICADO
DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS:
A)POSIÇÃO E SIGNIFICADO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS:
Os direitos e garantias fundamentais constituem um dos pilares do Estado Democrático de Direito brasileiro, representando conquistas históricas da sociedade e limitações ao poder estatal. Na Constituição Federal de 1988, apelidada de "Constituição Cidadã", estes direitos receberam tratamento prioritário e especial proteção, sendo posicionados logo após o preâmbulo e os princípios fundamentais, no Título II (artigos 5º ao 17).
Este posicionamento topográfico não é acidental, mas reflete a centralidade dos direitos fundamentais na ordem constitucional brasileira, evidenciando sua importância como núcleo essencial do sistema jurídico. O presente artigo busca analisar a estrutura, as características, a eficácia e as possibilidades de restrição desses direitos, bem como suas categorias e principais implicações jurídicas.
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Os direitos e garantias fundamentais foram positivados na Constituição Federal de 1988. Eles estão previstos no Título II: Dos Direitos e Garantias Fundamentais e estão subdivididos em 5 capítulos. Assim, eles estão distribuídos conforme a seguinte classificação.
Direitos e deveres individuais e coletivos (art. 5º): Os direitos se referem a tudo o que está inerente ao conceito de pessoa humana e à sua personalidade, como a vida, a liberdade, a igualdade, a dignidade, a honra e sua propriedade.
Direitos sociais (art. 6º ao art. 11): Os Direitos Sociais envolvem as obrigações que o Estado Social de Direito deve garantir às liberdades positivas aos indivíduos, como a educação, a saúde, o trabalho, a previdência social, o lazer, a segurança, a proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados.
Direitos da nacionalidade (art. 12 e art. 13):Esses direitos se relacionam com o vínculo jurídico político entre os indivíduos e uma nação, fazendo com que ele seja considerado um cidadão daquele país. Desse modo, o Estado pode conferir proteção a seus cidadãos.
Direitos políticos (art. 14 ao art. 16): Os direitos políticos envolvem o exercício da cidadania dos indivíduos, dando a prerrogativa de votarem e serem votados, ou seja, os cidadãos podem participar de forma ativa da política do país.
Partidos políticos (art. 17): Os direitos políticos se referem à existência, à organização e à plena participação dos partidos políticos no cenário político, garantindo a autonomia desses entes para preservar as estruturas do Estado democrático de Direito.
OBS: diferença entre direitos fundamentais e princípios fundamentais?
Os direitos e garantias fundamentais costumam ser erroneamente confundidos com os princípios fundamentais da Constituição — chamados simplesmente de fundamentos da República Federativa do Brasil. No entanto, ambos tratam de questões distintas. Os princípios fundamentais se referem à função ordenadora do Estado. Confira: soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político.
CLASSIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS:
Se baseia na Teoria do Status de Georg Jellinek, O status, de acordo com a teoria, é a relação com o Estado que qualifica o indivíduo
ou seja, demonstra aquilo que ele é. Não se confunde com os direitos propriamente ditos, já que esses são detidos pelos indivíduos - uma pessoa é cidadã (status, "ser") detentora de x direitos ("ter").
Na doutrina estabelecida por Jellinek, os status são divididos da seguinte forma:
Status Passivo (status subjections): referem-se às obrigações do indivíduo perante o Estado;
Status Negativo (status libertatis): são as faculdades/liberdades do indivíduo em face do Estado (sentido estrito), assim como seus direitos de defesa (sentido amplo);
Status Positivo (status civitatis): são as prestações positivas exigidas pelo indivíduo e que devem ser tomadas pelo Estado;
Status Ativo (status da cidadania ativa): é a participação do indivíduo na atividade política.
Nesse aspecto, os doutrinadores chegaram a Teoria Trialista
Direitos de Defesa:
Também chamados de Direitos de Resistência, são aqueles que exigem o dever de abstenção por parte do Estado, impedindo a sua interferência na autonomia dos indivíduos. Dentro dessa ideia estão inseridos:
direitos ao não embaraço de ações do titular do direito fundamental;
direitos à não afetação de características e situações;
direitos à não eliminação de posições jurídicas de direito ordinário.
Assim, enquadram-se nesse rol de direitos de defesa o direito à vida, o direito à privacidade, as liberdades de pensamento e locomoção, entre outros. O ponto central desse grupo de direitos é a abstenção do Estado, a impossibilidade de interferir nas faculdades do indivíduo.
Direito a Prestações:
São os direitos que impõem um dever para o Estado, uma prestação ativa, uma atitude. Podem ser subdivididos em:
Prestações Materiais: oferecimento de bens ou serviços a pessoas que não podem adquiri-los ou oferecimento de serviços monopolizados pelo Estado (alimentação, saúde, educação, segurança pública);
Prestações Jurídicas: elaboração de normas que servem à tutela de interesses individuais.
Direitos de Participação
Direitos que objetivam garantir ao indivíduo a possibilidade de fazer parte da formação da vontade política da comunidade, consistentes basicamente nos direitos políticos negativos e positivos (arts. 15 a 17 da CF/88).
A EFETIVIDADE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
Segundo o prof. Daniel Barile (https://www.migalhas.com.br/coluna/federalismo-a-brasileira/288564/os-direitos-fundamentais--sua-efetividade-e-necessidade-de-declaração)
Direitos fundamentais são o conjunto de direitos mais importantes em uma comunidade de pessoas, reconhecidos por uma ordem constitucional. Diante da inestimável importância relacionada à concretização da dignidade da pessoa humana, tais direitos assumem, na doutrina jurídica, um patamar de prioridades para a consolidação das reivindicações sociais e para uma construção evolutiva do Direito como um todo, formando a base e os elementos conjunturais que revelam um projeto de futuro sobre o qual se assenta uma sociedade civil organizada. Assim, ao se falar de direitos fundamentais em uma ordem jurídica democrática está a se tratar tanto de normas jurídicas que geram uma alta carga de obediência, entendidos como regras que impõe deveres precipuamente importantes, mas também que, por esta razão, inclusive, estatuem valores jurídicos inafastáveis para a solidez e o desenvolvimento de uma dada sociedade
De um lado, então, os direitos fundamentais partem de uma escolha objetiva de uma sociedade livre, plural e diversamente constituída. Apesar de algumas dessas normas valoreticamente respeitarem alguns princípios universais (como o respeito à vida, à liberdade, a crença etc.), o modo como devem ser estabelecidas as regras e os limites a estes direitos parte de uma deliberação coletiva de indivíduos, que positivam estas escolhas na Constituição através de um consenso legislativo unificante. Conforme estabelece o autor alemão Jürgen Habermas, "a criação de direitos fundamentais se assenta na escolha dos indivíduos, iguais e livres, que decidem legitimamente regular a vida coletiva pelo direito positivo". Por certo, apesar de tal processo de positivação de direitos nas Constituições possa estar sujeito a falhas (como toda lei humana está sujeita a erros), o próprio mecanismo de amadurecimento das escolhas democráticas conduz a que as normas possam ser revistas, reinterpretadas e ressignificadas, atualizando-as no tempo e condicionando-as a mais bem e certeira conformação às necessidades sociais emergentes.
De qualquer forma, é importante pensarmos nos direitos fundamentais como salvaguardas das escolhas mais importantes de nossa sociedade, especialmente como instrumentos de proteção contra abusos estatais e da violência originada pelos poderes econômico, político, social, ou mesmo derivada da ignorância destemida de certos incautos.
Tanto é que, para os alemães, este conjunto protetivo de defesa contra o poderio estatal é denominado de "direitos de resistência" (Abwehrrecht), impondo-se como um verdadeiro mecanismo de escudo tutelador contra as vontades privadas, resistente ao arbítrio de certos indivíduos e instituições. Direitos fundamentais são verdadeiros critérios de legitimação do Estado Moderno, como diria Luigi Ferrajoli, "para além da função limitativa do poder", eis que fornecem uma base resistência e de respeitabilidade às escolhas dos indivíduos como sendo o centro da Política e do Direito atuais. Para Ronald Dworkin, estes direitos seriam verdadeiros "trunfos" contra o poder do Estado, já que serviriam como "cartas na manga", como "coringas", que poderiam ser eficazmente apresentados à autoridade toda vez que o manifesto sentimento de autoritarismo rodeasse seu comportamento.
Direitos fundamentais servem simbolicamente como um lembrete, sem dúvida, de que nem sempre a força e o poder tripudiam, mas que a palavra escrita da Constituição tem mais força de que qualquer ser vivo animado.
Por certo, se os direitos fundamentais são relevantes e são expressão constitutiva de um povo, como se quis até então demonstrar, é importante perceber que eles também demandam um constante acréscimo, no sentido de se buscar regularmente a positivação de novos direitos, igualmente fundamentais.
Neste sentido, a Constituição é o relicário civil da construção e da redefinição dos novos direitos fundamentais. Embora nasçam no seio da sociedade sob a veste de uma reivindicação pública, o curso regular que se espera dos novos direitos é que eles sejam alçados à norma constitucional, simbolicamente lá expressos e, a partir de então, passando ser indistintamente exigíveis. Ainda que não sejam positivados (escritos, esclarece-se), é o trâmite normal da vida democráticade que possam ser revelados a partir de uma interpretação construtiva a partir do texto constitucional, reconhecendo-se direitos socialmente exigíveis. Exemplificativamente, assim aconteceu com os direitos para a união homoafetiva, os direitos atinentes às cotas raciais ou mesmo o reconhecimento dos direitos contra o discurso de ódio, dentre muitos outros.
Neste aspecto, se o caminho trilhado para a positivação de novos direitos fundamentais é a via do Legislativo, que tem a missão de ser o filtro das expressões mais fragmentadas e significativas da sociedade, canalizando suas reclamações em forma de projetos legislativos, nem sempre isso acontece.
Como é comum de democracias tradicionais ou de um sistema político que ainda não representa essa capilarização das diversidades setoriais da sociedade, como no caso brasileiro, temas polêmicos, mas que expressam a positivação necessária de direitos fundamentais, acabam sendo abandonados porque se mostram antipáticos à maioria constituída.
Assim, qualquer causa que não seja a da maioria, acaba enfrentando o risco de ser vencida no debate público, perdendo massa evolutiva em face de discursos convergentes representativos de grupos sociais majoritários. A visão do outro desaparece em face do atendimento dos interesses macroidentitários da população, isto é, com o qual a maioria da população se identifica. Nem sempre se dá voz, assim, aos interesses, igualmente legítimos e constitucionais, das minorias estabelecidas.
É neste momento que se devem posicionar os juízes, especialmente os da Corte Constitucional de um país, como bastiões do respeito à Constituição. Quando necessário, em certa medida devem se posicionar contrários à vontade popular majoritária, por vezes decidindo a favor da Constituição e contra o povo. Não que a maioria da população não mereça atenção, longe disso; mas a história social dos povos demonstra que a maioria pode ser perversa aos desígnios humanos de evolução valorativa e de empoderamento da dignidade como vetor de construção social. As atrocidades nazistas foram as primeiras a trazer a lume esta preocupação, mas sempre as sombras de tal pesadelo ressonam nos ouvidos das democracias, desde as mais jovens até as mais experienciadas.
Veja-se: se a pena de morte fosse uma decisão a ser submetida à vontade do povo, como a maioria decidiria? E se a tortura de criminosos fosse explicitamente possível ser decidida em plebiscito? E se a decisão sobre as preferências de idosos, grávidas, deficientes ou mesmo cotas raciais fosse algo relegado para a maioria decidir incontestemente? É claro que os cenários aqui poderiam ser diversos dos atuais, especialmente porque é esperado que a maioria decida pela maioria. Ocorre que nesta decisão soberana pode estar implantado o gérmen da iniquidade, ou mesmo a raiz da intolerância e do desconcerto de uma sociedade que vive sob a égide dos direitos fundamentais e que deve, sobremaneira, garanti-los.
É neste contexto que os juízes (constitucionais, sobretudo) são os verdadeiros "guardiões de promessas" da democracia, como salienta francês Antoine Garapon. Garantir o respeito aos direitos fundamentais, certamente, é das tarefas mais dignas do comportamento judicial atual, e, diante da experiência histórica do constitucionalismo liberal ou da social democracia, o legado dos déficits do Legislativo e do Executivo, respectivamente, imprimem ao comportamento judicial esta tarefa "hercúlea" (Dworkin). Este certamente é um processo que está em curso e que merece nossa total atenção. Porque se a desconfiança popular existe publicamente sobre o Parlamento e também sobre o Chefe do Executivo, por vezes se mostrando inefetivos ao julgamento popular, o que será de nossa sociedade se os juízes também não resguardarem nossos bens constitucionais mais íntimos?
Diz-se muito por aí que temos muitos direitos. De uma certa maneira, isto é verdade. Temos mais direitos que qualquer cidadão da alta elite do século XIX. E o progresso da humanidade, tecnológico sobretudo, levará à construção de mais e mais direitos, como aqui se vaticina. Ao que tudo indica, essa é uma curva exponencial e, ao que se espera, que seja irreversível. Mas a questão que mais preocupa a todos não é necessariamente de criar mais direitos em si, por mais importante que sejam, mas de fazer garantir os direitos fundamentais que já conquistamos. A efetividade e a garantia dos direitos fundamentais ainda é uma página que estamos a construir com muito debate e esforços institucionais.
Enfim, a efetividade dos direitos fundamentais é fundamental para a garantia da dignidade da pessoa humana, para a consolidação do Estado Democrático de Direito e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
A efetividade significa, portanto, a realização do Direito, o desempenho concreto de sua função social. Ela traduz a materialização, no mundo dos fatos, dos preceitos legais e simboliza a aproximação, tão íntima quanto possível, entre o dever-ser normativo e o ser da realidade social. A efetividade das normas depende, em primeiro lugar, da sua eficácia jurídica, da aptidão formal para incidir e reger as situações da vida, operando os efeitos que lhe são inerentes. Não se trata apenas da vigência da regra, mas também, e, sobretudo, da “capacidade de o relato de uma norma dar-lhe condições de atuação”, isoladamente ou conjugada com outros normas. Se o efeito jurídico pretendido pela norma for irrealizável, não há efetividade possível.
Assim, é necessário que se estabeleça a diferença conceitual entre Eficácia Jurídica, Eficácia Social (Efetividade) e Aplicabilidade das Normas de Direitos Fundamentais para que seja possível uma melhor compreensão sobre o assunto. Porém, não vigora na doutrina um consenso no que concerne a vigência, validade e existência da norma. Segundo o professor Ingo Wolfgang Sarlet, em certo aspecto constata-se um consenso, uma vez que não parecem existir dúvidas a respeito da distinção entre a vigência (existência e/ou validade) e a eficácia, seja qual for o sentido que a esta última se vá atribuir. Nesse sentido, é preciso estabelecer a distinção entre o conceito de eficácia jurídica e eficácia social da norma. Enquanto a eficácia jurídica representa a qualidade da norma produzir, em maior ou menor grau, determinados efeitos jurídicos ou a aptidão para produzir efeitos, dizendo respeito à aplicabilidade, exigibilidade ou executoriedade da norma, a eficácia social da norma se confunde com a ideia de efetividade e designa a concreta aplicação dos efeitos da norma juridicamente eficaz. A eficácia social ou a efetividade está intimamente ligada à função social da norma e à realização do Direito.
Prestigia-se, como enriquecedora à linha de pensamento adotada, a lição de José Afonso da Silva ao lecionar “A lei é tanto mais eficaz quanto mais se projeta no meio social, em que deve atuar; quanto mais seus termos abstratos se enriquecem de conteúdo social, do Direito”. Cultural, mais eficaz ela é. Sem um mínimo de eficácia, a lei não passará de mera construção teórica”
Complemente-se a opção de plano teórico da “Eficácia Constitucional”, com a compreensibilidade Bobbiniana, que após elucidar o problema da definição do Direito enquadrando-o na “Teoria do ordenamento jurídico”, e não na “Teoria da norma”, com lucidez expõe: “O problema da validade e da eficácia, que gera dificuldades insuperáveis desde que se considere uma norma do sistema (a qual pode ser válida sem ser eficaz), diminui se nos referirmos ao ordenamento jurídico, no qual a eficácia é o próprio fundamento da validade”.
Alexandre de Moraes apresenta a tradicional divisão de José Afonso da Silva em relação à sua aplicabilidade em normas de eficácia plena, contida e limitada.
As normas constitucionais de eficácia plena seriam aquelas que produzissem ou tivessem a possibilidade de produzir seus efeitos, desde a entrada da Constituição em vigor. Para Ricardo Cunha Chimenti, as normas constitucionais de eficácia plena são autoaplicáveis, completas ou auto-executáveis, bastantesem si ou normas de aplicação. São as normas constitucionais que prescindem de qualquer outra disciplina legislativa para serem aplicáveis. Um exemplo seria a inviolabilidade do domicílio do artigo 5º, inciso XI da Constituição da República.
As normas constitucionais de eficácia contida seriam aquelas que o constituinte regulou os interesses relativos a determinado assunto, mas possibilitou que a competência discricionária do poder público restringisse o assunto. O autor paulista cita como exemplo o caso do inciso XIII, do artigo 5º da Constituição Federal de 1988 que estabelece a liberdade de qualquer trabalho, ofício ou profissão, desde que sejam respeitadas as qualificações profissionais que a lei estabelecer. Para Chimenti, a norma constitucional de eficácia contida, redutível, ou de integração restringível é aquela que prevê que legislação inferior poderá compor o seu significado. A norma infraconstitucional (subalterna) pode restringir o alcance da norma constitucional por meio de autorização da própria Constituição. O exemplo do autor é o §1º do artigo 9º da Constituição que autoriza a lei infraconstitucional a definir os serviços essenciais e, quanto a eles, restringir o direito de greve.
A eficácia da norma constitucional também poderia ser restringida ou suspensa em decorrência da incidência de outras normas constitucionais. O exemplo é referente à liberdade de reunião que, mesmo sendo consagrada no artigo 5º da Constituição, pode ser suspensa ou restrita em períodos de estado de defesa ou de sítio.
Finalmente, normas constitucionais de eficácia limitada são as que possuem e apresentam aplicabilidade indireta, mediata e reduzida, em virtude de apenas incidirem totalmente sobre esses interesses depois de desenvolvida normatividade posterior que desenvolva a sua aplicabilidade. O exemplo para o caso é o da norma do Artigo 37, inciso VII, da Constituição de 1988. Eis o seu texto: artigo 37, inciso VII – o direito de greve será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica. Aqui está o condicionamento do direito de greve, no serviço público, ao que regulamentar a lei.
Ricardo Cunha Chimenti trata das normas constitucionais de eficácia limitada lembrando que muitas vezes, a própria constituição utiliza as expressões “nos termos da lei”, “na forma da lei”, “a lei disporá”, “a lei regulará”, etc, para demonstrar que algumas de suas normas não possuem aplicabilidade imediata. São também chamadas de normas constitucionais de eficácia limitada, incompletas, não bastantes em si, de eficácia relativa, ou de integração complementável.
São normas constitucionais não auto-aplicáveis que dependem da interposição de lei para gerar seus efeitos principais. São também denominadas normas de eficácia mediata ou indireta. Inobstante suas limitações, as normas de eficácia limitada vinculam o legislador infraconstitucional aos seus comandos e paralisam as normas precedentes com elas incompatíveis. Trata-se aqui dos efeitos impeditivos de deliberação em sentido contrário ao da norma constitucional e do efeito paralisante.
Com efeito, Ingo Wolfgang Sarlet classifica as Normas de Direitos Fundamentais, quanto à sua eficácia jurídica e aplicabilidade, em Normas de Eficácia Plena, Contida e Limitada. As normas de eficácia plena seriam aquelas diretamente aplicáveis e que desde logo estão aptas para gerar a plenitude de seus efeitos, por possuírem alta densidade normativa. As normas de eficácia limitada possuem aplicação mediata ou indireta e dependem de regulamentação para gerar os principais efeitos, por possuírem baixa densidade normativa. As normas de eficácia contida, por sua vez, são aquelas diretamente aplicáveis, de eficácia plena, mas sujeitas à restrição dos efeitos por lei. A virtude dessa classificação está no fato de partir da ideia de que todas as normas têm eficácia jurídica.
Em todas as classificações realizadas pela doutrina, se percebem dois grupos de normas: aquelas que dependem, para a geração de seus efeitos principais, da intervenção do legislador infraconstitucional e aquelas que, desde logo, por possuírem suficiente normatividade, estão aptas a gerar seus efeitos e, portanto, dispensam uma interpositio legislatoris.
Ainda nesse sentido, deve-se ressaltar que os direitos fundamentais, em razão de sua multifuncionalidade, podem ser classificados basicamente em dois grandes grupos, nomeadamente os direitos de defesa (direitos de liberdade, igualdade, as garantias, bem como parte dos direitos sociais – no caso, as liberdades sociais – e políticos) e os direitos a prestações (direitos a prestações em sentido amplo, tais como os direitos à proteção e à participação na organização e procedimento, assim como pelos direitos à prestações em sentido estrito, representados pelos direitos social de natureza prestacional). Os direitos de defesa, dirigidos, em regra, a uma abstenção por parte do Estado, assumem habitualmente a feição de direitos subjetivos, inexistindo maior controvérsia acerca de sua aplicabilidade imediata e justiciabilidade. Já os direitos a prestações exigem um comportamento ativo dos destinatários, gerando dificuldades diversas, levando boa parte dos autores a negar-lhes aplicabilidade imediata e, em razão disto, plena eficácia. Assim, ao tratar o problema da eficácia dos direitos fundamentais, não há como desconsiderar suas funções precípuas (direito de defesa ou prestacional), nem suas formas de positivação no texto constitucional, já que ambos os aspectos constituem fatores intimamente vinculados ao grau de eficácia e aplicabilidade dos direitos fundamentais.
O art. 5º, § 1º da Constituição de 1988 dispõe: “As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. Ocorre que a doutrina pátria não é unânime quanto ao significado e alcance do preceito em exame. É preciso, portanto, analisar a abrangência da norma, isto é, se ela é aplicável a todos os direitos fundamentais (inclusive os situados fora do catálogo), ou se restrita aos direitos individuais e coletivos do art. 5º da Constituição. Anote-se, pois, primeiramente, que a aplicação imediata das normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais, expressa no parágrafo 1º do art. 5º , da Constituição da República do Brasil, significa que a sua exigibilidade não pode diferir por alegações de condicionamentos a situações adotáveis apenas mediatamente.
O princípio da efetividade (relativo à interpretação constitucional), por sua vez, sintetiza a idéia de que os direitos fundamentais devem ser interpretados em um sentido que lhes confira a maior efetividade possível. Ou melhor, no caso de dúvida deve prevalecer a tese que dê a maior efetividade possível ao direito fundamental.
Ainda como leciona o professor Ingo Wolfgang Sarlet, se, portanto, todas as normas constitucionais sempre são dotadas de um mínimo de eficácia, no caso dos direitos fundamentais, à luz do significado outorgado ao art. 5º, §1º, de nossa Lei Fundamental, pode afirmar-se que aos poderes públicos incumbem a tarefa e o dever de extrair das normas que os consagram (os direitos fundamentais) a maior eficácia possível, outorgando-lhes, neste sentido, efeitos reforçados relativamente às demais normas constitucionais, já que não há como desconsiderar a circunstância de que a presunção da aplicabilidade imediata e plena eficácia que milita em favor dos direitos fundamentais constitui, em verdade, um dos esteios de sua fundamentalidade formal no âmbito da Constituição
DIRETOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS.
Entendimento dos professores José Fabio Maciel – USP e Daniela Oliveira - USP (jurisprudências)
O Capítulo I do Título II da CF/1988, denominado “Dos direitos e deveres individuais e coletivos", é composto pelo art. 5º e traz faculdades, prerrogativas e disposições de proteção (garantias) que asseguram e fazem cumprir os direitos previstos em suas dezenas de incisos.
A doutrina, realizando uma interpretação sistemática e teleológica, de forma unânime considera como destinatários dos direitos previstosnesse capítulo da Constituição todas as pessoas físicas, brasileiros ou estrangeiros (residentes ou não), bem como as pessoas jurídicas e os entes despersonalizados, no que for cabível.
Os direitos fundamentais passaram a ocupar o centro do ordenamento jurídico brasileiro a partir da CF/1988. Entretanto, por mais que o art. 5º, caput , garanta a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, isso não quer dizer que sejam absolutos e ilimitados.
A hermenêutica constitucional é a responsável por definir os limites legítimos e as circunstâncias em que devem ser aplicados, sempre no intuito de atribuir-lhes a maior eficácia possível e, ao mesmo tempo, impedir desvirtuamentos em seu conteúdo. Vide as chamadas Teoria interna (Friedrich Müller) e Teoria externa (Robert Alexy).
Os direitos e garantias individuais possuem a proteção do previsto no art. 60, §4º, I a IV, da CF/1988, que traz as chamadas cláusulas pétreas, ou seja, os temas que não podem ser objeto de deliberação quando proposta de emenda tender a aboli-los. Saliente-se que pelo previsto no inciso IV mencionado, nem todos os incisos do art. 5º estão protegidos como cláusulas pétreas, haja vista que os direitos e deveres coletivos não foram alçados à essa condição.
Classificações principais
Dentre os inúmeros direitos e garantias estabelecidos no art. 5º da CF/1988, destacam-se os seguintes:
Igualdade.
Legalidade.
Proibição da tortura.
Direitos de liberdade.
Direitos de intimidade.
Direitos de propriedade.
Promoção da defesa do consumidor.
Direito de petição e obtenção de certidões.
Garantias judiciais.
Garantias penais.
Garantias processuais.
Remédios constitucionais.
O tema em análise também aborda, nos parágrafos do art. 5º da CF/1988:
da aplicabilidade imediata dos direitos fundamentais.
da abertura dos direitos fundamentais.
da aprovação de tratados e convenções sobre direitos humanos com status de emenda constitucional.
da submissão do Brasil ao Tribunal Penal Internacional.
DO DIREITO À VIDA E OUTROS ÂMBITOS EXISTENCIAIS
Segundo o site DHNet. Org. O direito à vida confunde-se com a dignidade da pessoa humana. Sem a vida assegurada, não há como exercer a dignidade humana e todos os direitos dela decorrentes. Assim, como não basta garantir a vida como mera existência ou subsistência, e sim uma vida plena de dignidade. Por isso, o núcleo essencial de onde se originam todos os demais direitos humanos reside na vida e na dignidade humana.
Em virtude do princípio da inviolabilidade da vida, é vedada a pena de morte; é proibido a tortura e o tratamento desumano ou degradante; é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral e é assegurado às presidiárias condições para que possam permanecer com seus filhos durante o período de amamentação. Observe que a proibição da tortura e a garantia da integridade física e moral traduzem a ideia de que agredir o corpo humano é uma forma de agredir a vida, pois esta (a vida) se realiza naquele (o corpo).
Cabe também considerar que a vida humana não se limita a um conjunto de elementos materiais. Ela também tem valores imateriais e morais. A Carta de 1988 destacou o valor e a proteção da moral individual, assegurando indenização em caso de dano moral (Art. 5º, incisos V e X). A moral individual sintetiza a honra da pessoa, o bom nome, a boa fama e a reputação. A dimensão moral é uma dimensão estrutural para uma vida digna. Por isso, o respeito à integridade moral assume também o caráter de direito fundamental.
Direito à Liberdade
O artigo 5o da Constituição Federal de 1988, além de conter a previsão da liberdade de ação, que é a base das demais, confere fundamento jurídico às liberdades individuais e coletivas e correlaciona liberdade e legalidade, assim como liberdade e igualdade. Ou seja, a liberdade de fazer ou deixar de fazer é para todos e não apenas para alguns.
Segundo a classificação do constitucionalista José Afonso da Silva, as liberdades objetivas específicas previstas na Constituição podem ser distinguidas em cinco grandes grupos:
Liberdade da pessoa física – opõe-se ao estado de escravidão e de prisão. Observamos que a liberdade de circulação é a manifestação característica da assegurada liberdade de locomoção: direito de ir, vir e permanecer.
Liberdade de pensamento – inclui a liberdade de opinião, de religião, de informação, artística e de comunicação do conhecimento. A liberdade de pensamento é o direito de expressar por qualquer forma o que se pense em ciência, arte, religião, política ou em qualquer outra área.
Liberdade de ação profissional – implica no direito da livre escolha e exercício de trabalho, ofício e profissão. Conforme enuncia o Art. 5o, XIII: “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”.
Liberdade de expressão coletiva – compreende o livre acesso de todos à informação. Destaca-se a dimensão coletiva do direito à informação previsto pelo Art. 5º, inciso XIV; a liberdade de reunião pacífica em lugares públicos, o que evidentemente não exclui a liberdade de reuniões privadas (art. 5o, inciso XVI); e a plena liberdade de associação, vedada as de caráter paramilitar.
Liberdade de conteúdo econômico e social – incluem a liberdade econômica, a liberdade de comércio, a livre iniciativa, a liberdade ou autonomia contratual, a liberdade de ensino e a liberdade de trabalho, das quais trataremos quando cuidarmos dos direitos sociais, que nos remetem ao direito à igualdade.
Direito à Igualdade
A igualdade constitui o signo fundamental de uma democracia republicana, uma vez que ela não admite os privilégios e distinções que um regime simplesmente liberal consagra. Em uma democracia (governo do povo), a coisa pública (res publica), o estado, devem estar a serviço do bem comum, que são os direitos humanos, cujo fundamento é justamente a igualdade de todos os seres humanos em sua comum condição de pessoas.
A Constituição Federal, em seu Art. 1º, caput, estabelece que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito. Nenhum governo em uma democracia republicana será legítimo se não mostrar igual respeito e cuidado quanto ao destino de todos os cidadãos.
As Constituições têm reconhecido a igualdade em seu sentido formal jurídico: igualdade de todos perante a lei. O princípio da igualdade já é reforçado no próprio caput do Art. 5o, quando ele é assegurado ao lado da inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade. Isto é, fica muito clara a ideia de que todos esses direitos fundamentais devem ser assegurados igualmente a todos.
Assim é que, o primeiro inciso do Art. 5o declara, pela primeira vez na história do Direito brasileiro, que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Se por um lado isso merece ser celebrado, por outro confirma o lamentável tratamento desigual dispensado às mulheres historicamente em nossa sociedade.
Cabe, ainda, menção aos comandos constitucionais que celebram o ideal da igualdade material, enquanto igualdade substantiva e justiça social, destacando-se as previsões que estabelecem: a redução das desigualdades sociais e regionais (Art. 3o, III); a universalidade da seguridade social; a garantia ao direito à saúde; à educação baseada em princípios democráticos e de igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, dentre outros.
Direito à Segurança
De modo genérico, pode-se dizer que a segurança consiste na proteção conferida pela sociedade a cada um de seus membros para conservação de sua pessoa e de seus direitos.
Vale reforçar o significado fundamental do princípio da irretroatividade da lei para a segurança e a certeza das relações jurídicas. Assim é que, além da proteção jurídica no que diz respeito às relações sociais, citada no mencionado Art. 5o, XXXVI, o princípio é previsto na Constituição de 1988 também para a proteção da liberdade do indivíduo, contra a aplicação retroativa (para trás no tempo) da lei penal, contida noArt. 5o, XL: “a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”. Para a proteção do contribuinte contra a voracidade retroativa do Fisco, constante do Art., 150, III, a: “É vedada a cobrança de tributos em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído ou aumentado”.
Além da segurança jurídica em sentido amplo, a Constituição também garante a segurança dos indivíduos em sentido estrito por meio de regras que consagram o direito do indivíduo ao aconchego do lar com sua família ou só, quando define a casa como o “asilo inviolável do indivíduo” (Art.5o, XI), bem como mediante regras que protegem as comunicações pessoais, assegurando o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas e telefônicas (Art. 5o, XII).
Direito à Propriedade
O reconhecimento constitucional da propriedade como direito fundamental na Constituição de 1988 relaciona-se essencialmente à sua função de proteção pessoal (garantia de condições mínimas de manutenção de uma vida digna) e alcança tanto os que já são proprietários quanto os que carecem desse direito para a sua subsistência própria.
A Constituição brasileira reconhece explicitamente um direito de acesso à propriedade ao admitir usucapião extraordinário, tanto de imóveis rurais (Art. 191), quanto de terrenos urbanos (Art. 183). Daí decorre que nem toda propriedade privada constitui direito fundamental da pessoa humana, a merecer, por isso, proteção constitucional.
O regime jurídico da propriedade tem seu fundamento na Constituição. Esta garante o direito de propriedade, desde que atenda sua função social: “é garantido o direito de propriedade (Art. 5o, XXII); a propriedade atenderá sua função social”.
Direitos Políticos: Direitos políticos são um conjunto de garantias que visam assegurar aos cidadãos a participação no processo político de um país. Esses direitos incluem o voto, o de candidatar-se a cargos políticos, além da possibilidade de manifestar-se politicamente.
Além disso, também estão assegurados os direitos de associação política, liberdade de expressão, organizar-se em partidos políticos e a permissão para que os cidadãos influenciem as decisões políticas do Estado, seja mediante plebiscitos, referendos, audiências públicas, etc.
Dessa forma, os direitos políticos são importantes para o exercício pleno da cidadania e para a construção de sociedades democráticas e justas.
Portanto, os direitos políticos são importantes para a consolidação da democracia e para garantir a participação ativa dos cidadãos na vida pública de uma sociedade. Eles asseguram que cada indivíduo tenha a oportunidade de influenciar as decisões que afetam suas vidas, seja por meio do voto, da candidatura a cargos eletivos ou da manifestação de suas opiniões.
Esses direitos promovem a igualdade e a inclusão ao permitir que diferentes vozes sejam ouvidas e representadas nos processos políticos, o que fortalece a legitimidade das instituições democráticas.
Além disso, eles oferecem aos cidadãos o poder de responsabilizar seus líderes, monitorar a gestão pública e exigir mudanças, quando necessário.
Quando os cidadãos podem exercer livremente seu direito de votar, de se candidatar ou de se organizar politicamente, eles têm mais capacidade de influenciar políticas públicas que promovam a justiça social, a igualdade e o bem-estar coletivo.
Em contextos em que esses direitos são negados ou limitados, frequentemente há um enfraquecimento das liberdades civis e do estado de direito. Portanto, a preservação dos direitos políticos é indispensável não apenas para a democracia, mas também para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.
Direitos Sociais: Segundo as autoras Júlia Ignácio e Layane Henriques, do site Politize, Os direitos sociais são aqueles que têm o objetivo de diminuir as vulnerabilidades sociais, garantindo direitos mínimos à sociedade. Assim, é possível proporcionar uma vida digna para todos os cidadãos de um país.
Nesse sentido, estes direitos dividem-se em áreas como: educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, proteção à maternidade e à infância, assistência aos desamparados e previdência social.
No Brasil, a Constituição Federal de 1988 prevê a garantia dos direitos sociais em seu artigo 6º.
Em concordância, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, um dos mais importantes documentos que regem os direitos humanos, passou a assegurar também os direitos sociais e sua base no princípio da dignidade da pessoa humana e da solidariedade que envolvia os seguintes direitos:
Seguridade social (artigos 22 e 25);
Direito ao trabalho e a proteção contra o desemprego (art. 23, item 1);
principais direitos ligados ao contrato de trabalho, como a remuneração igual por trabalho igual (artigo 23, item 2), salário mínimo (artigo 23, item 3);
Livre sindicalização dos trabalhadores (artigo 23, item 4);
Repouso e o lazer;
Limitação horária da jornada de trabalho;
Férias remuneradas (artigo 24);
Educação: ensino elementar obrigatório e gratuito, a generalização da instrução técnico-profissional, a igualdade de acesso ao ensino superior (artigo 26);
Itens elementares indispensáveis para a proteção das classes ou grupos sociais mais fracos ou necessitados;
Seguindo esses preceitos, os direitos sociais assegurados em âmbito internacional passaram a ser assegurados também em âmbito nacional. Portanto, no Brasil, o estabelecimento dos direitos sociais em texto constitucional ocorreu com o marco da Constituição cidadã, em 1988.
Qual a importância dos direitos sociais?
Entende-se que as desigualdades socioeconômicas podem acabar se transformando em desigualdades de prerrogativas, ou seja, podem privar cidadãos de exercerem direitos civis e políticos.
Portanto, os direitos sociais buscam melhorar as condições de vida de todos os cidadãos de um país através do papel ativo do Estado.
Além disso, a regulamentação destes direitos marcaram uma evolução na cidadania moderna ao estabelecer condições mínimas de bem-estar social e econômico para que os cidadãos exerçam seus direitos civis e políticos.
Seu objetivo não é eliminar sozinha as desigualdades por completo, mas sim, assegurar que elas não irão impedir o pleno exercício da cidadania.
No Brasil, os direitos sociais são uma garantia constante na Constituição Federal de 1988 e são definidos em dois títulos:
Direitos e garantias fundamentais: significa que eles são parte essencial daquilo que o Estado deve garantir aos seus indivíduos;
Ordem social: são uma necessidade para estabelecer uma sociedade capaz de perpetuar-se ao longo do tempo de maneira harmônica.
Estão prescritos no Art. 6º da Constituição Federal uma série de direitos sociais mais ou menos abstratos, que precisam ser regulamentados por outras leis, mas que definem a essência daquilo que a nação compromete-se a garantir.
Entre eles estão o direito à educação, à saúde, à alimentação, ao trabalho, a moradia, ao lazer, a segurança, a previdência social, proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados.
Com base no que diz a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 6º, são direitos sociais: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados.
A partir da promulgação da CF/88, passou a ser responsabilidade do Estado assegurar a implementação destes direitos.
Direitos de nacionalidade e cidadania: A nacionalidade é o vínculo de natureza jurídico-política que, por nascimento ou naturalização, associa o indivíduo a um determinado Estado, que passa, por consequência, a integrar o povo deste Estado, habilitando-o a usufruir de prerrogativas e privilégios concernentes a condição de nacional (CUNHA JR, 2012, p. 791) https://www.migalhas.com.br/depeso/363483/o-direito-de-nacionalidade-no-brasil
José Afonso da Silva tece o seguinte comentário acerca do tema:
No Direito Constitucional brasileiro vigente, os termos