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AULA 4 ATENÇÃO PRIMÁRIA E SAÚDE DA FAMÍLIA Profª Tânia Maria Santos Pires 2 INTRODUÇÃO O cuidado das condições crônicas na APs A doença crônica passou a figurar entre as preocupações sobre a saúde no Brasil após a reorganização do sistema de saúde, com a implementação do Sistema Único de Saúde (SUS) e da política nacional de atenção primária. Até então, a assistência era focada nos eventos agudos, realizada nos pronto- socorros dos hospitais. Por outro lado, as pessoas também não viviam muito, o que diminuía o risco de desenvolvimento das doenças crônicas. Ainda estávamos na fase das epidemias e verminoses, e a média de expectativa de vida era de 50 anos. A expectativa de vida alterou-se por conta de vários fatores ligados ao desenvolvimento impactaram na mudança do padrão de vida e saúde. O tempo médio de vida aumentou e, com isso, aumentou também o número de casos de pessoas com doenças crônicas. Porém, o sistema de saúde ainda não está totalmente pronto para esse novo desafio. O SUS elaborou uma estratégia para lidar com esse problema dentro da atenção primária – sobretudo na Estratégia Saúde da Família, cujos princípios enquadram-se totalmente nos quesitos para o enfrentamento das condições crônicas, mas ainda há dificuldades para a estruturação dos serviços e qualificação dos profissionais para o pleno desenvolvimento do cuidado. Discutiremos os principais modelos quanto ao manejo das condições crônicas, seu impacto na saúde das pessoas, organização das estruturas de saúde e consolidação da rede de atenção. TEMA 1 – O MANEJO DA CONDIÇÃO CRÔNICA E DA CONDIÇÃO AGUDA A necessidade de se classificar as condições de saúde das pessoas surge da compreensão de que a lógica de organização dos serviços de saúde acontece com base na demanda que lhes é apresentada. Os estudos mostraram que houve mudança no perfil epidemiológico da população; no entanto, os serviços de saúde estavam organizados pela lógica da atenção aos eventos agudos, prestando um serviço pontual, isolado e reativo, ou seja, só respondendo quando solicitado. A condição crônica se manifestava dentro desse modelo de atenção pelos momentos de agudização, como é o caso da crise hipertensiva, da cetoacidose 3 diabética e da crise asmática aguda. Havia necessidade de se ordenar uma nova lógica de atendimento, de modo a dar vasão às novas demandas de saúde, que, de fato, não eram novas: apenas não tinham vasão no contexto de saúde em que estavam inseridas. 1.1 O atendimento das condições crônicas As condições crônicas precisam ser atendidas de forma efetiva e proativa. O atendimento dessas pessoas só é considerado efetivo ou, conforme dizem Porter e Teisberg (2007), citados por Mendes (2011), somente agrega valor quando a condição crônica é enfrentada por um ciclo completo de atendimento. Seja atendendo uma condição aguda, ou uma condição crônica, o sistema de saúde deve ser capaz de dar atendimento imediato e ser referenciado para seguimento da situação apresentada; para isso precisamos entender e categorizar as demandas de saúde. Para a nova categorização, foram consideradas como referências as seguintes informações, consideradas como variáveis-chave: a) tempo de duração da condição: se breve ou longa; b) forma de enfrentamento pelo sistema de saúde: episódica e reativa, ou contínua e proativa; c) modo como se estrutura o sistema de atenção: fragmentado ou integrado (Mendes, 2011). É importante definir o que são consideradas condições crônicas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são condições de saúde de curso mais ou menos longo ou permanente que exigem respostas e ações contínuas, proativas e integradas do sistema de atenção à saúde, dos profissionais de saúde e das pessoas usuárias para sua estabilização e controle efetivo, eficiente e com qualidade. (OMS, 2003, citado por Mendes, 2011) A principal característica dessas situações é sua duração: são longas e, por esse motivo, diferem dos eventos agudos, que, na maioria das vezes, são auto resolvidos. As condições crônicas tendem a se desestabilizar se não forem corretamente manejadas, resultando em agudizações com consequências que podem ser graves para o paciente, piorando sua condição de base e gerando maior custo tanto pessoal, quanto para os serviços de saúde. Apesar de focarmos nas doenças, existem condições crônicas que não são doenças, porém requerem cuidados, como é o caso da gestação, do acompanhamento da criança, do adolescente e do idoso, para que permaneçam 4 saudáveis, além do acompanhamento de pessoas com deficiência e em outras situações semelhantes que requerem monitoramento. O diagnóstico das condições crônicas, na maioria das vezes, é, a princípio, mal definido; os exames têm resultados imprecisos e os sintomas se confundem por serem comuns a outras doenças. O tratamento dessas condições passa pelo atendimento médico e medicamentoso, mas, acima de tudo, requerem o compromisso do paciente com mudanças em seu estilo de vida. Por isso, há necessidade de pactuações com o paciente para o seu cuidado. Para atendimento dessas condições, o sistema de saúde necessita de uma rede de cuidados que possa dar suporte a esse paciente, sendo a atenção primária o centro de tal rede. O paciente necessitará, eventualmente, da atenção especializada, o que também demandará recursos de suporte diagnóstico, além de internações eventuais e algumas incursões no sistema de urgências e emergências. 1.2 O atendimento das condições agudas As doenças agudas são doenças de curta duração, geralmente abaixo de três meses, com prognósticos, na maioria das vezes, definidos. Os exames e testes diagnósticos são muito úteis nesses casos, pois, geralmente, comprovam ou descartam o diagnóstico. O tratamento é efetivo e por tempo limitado. As doenças agudas compreendem o grupo de doenças de origem viral ou bacteriana, de curta duração, como pneumonias, amigdalites, doenças respiratórias, diarreias agudas e diversas condições infecciosas. Outro grupo corresponde aos casos de manejo cirúrgico, como apendicite, colecistite e hemorragias agudas. As doenças agudas de causas externas, como traumas, acidentes e, sobretudo, as situações originárias da violência urbana, também entram nessa classificação. O sistema de saúde deve estar preparado, pois, em sua maioria, elas necessitam de atenção no modelo urgência e emergência, e atenção hospitalar. As condições agudas evoluem com resolução mais rápida, havendo até casos autolimitados. A etapa da infância é marcada por eventos agudos virais, como diarreias agudas, resfriados, estomatite e bronquiolite virais e doenças exantemáticas. Essas doenças evoluem com um ciclo próprio, relacionado à imunidade pessoal, à qualidade dos cuidados e à atenção de saúde ofertados aos pacientes. 5 As condições agudas requerem atenção rápida e oportuna, pois podem evoluir de forma desfavorável em pouco tempo. Nesse aspecto, a rede de atenção às urgências e emergências, e as linhas de cuidado para as condições agudas, são acionadas tempestivamente. TEMA 2 – MUDANÇA DO PERFIL EPIDEMIOLÓGICO NO BRASIL As doenças transmissíveis foram, por muito tempo, a grande preocupação do mundo. No Brasil e em toda a América Latina, vivíamos o drama das mortes por doenças transmissíveis que podiam ser evitadas por vacinação de massa. Entre elas, a poliomielite foi emblemática, pela sua disseminação nos países pobres da África e da América Latina, situação contornada pela vacinação com as “gotinhas” Sabin. No Brasil, o programa nacional de imunizações conseguiu avançar em todo o território nacional, chegando a atingir 75% da meta vacinal em crianças. Além disso, a vacinação foi ampliada aos idosos, gestantes e pessoas com baixa imunidade, incluindo vacinas especiais mediante justificativa médica. Apesar desse quadro favorávelna vacinação, outras condições se sobrepõem no mundo moderno, trazendo melhorias, mas também nova carga de doenças, requerendo, dos sistemas de saúde, novas adaptações. 2.1 Mudanças no estilo de vida e na carga de doenças O perfil epidemiológico mudou na maior parte do mundo, restando ainda situações focais em alguns países africanos e no Oriente Médio, por situações de guerra e de conflitos internos. O desenvolvimento tecnológico em saúde, além das vacinas, trouxe também o acesso aos anticoncepcionais, o que proporcionou a diminuição do número de nascimentos. Em contrapartida, a melhora na qualidade de vida e o desenvolvimento econômico também influenciaram na longevidade dos povos. Apesar das notícias positivas, os novos padrões sociais trouxeram mudanças no estilo de vida das populações. A urbanização crescente e o incremento de estratégias mercadológicas agressivas introduziram novos conceitos alimentares, aumentaram o estresse e a presença da mulher no mercado de trabalho, com consequente redução do tempo para a preparação de 6 alimentos dentro das famílias. O acesso aos alimentos industrializados traz economia de tempo, porém tem consequências para a saúde. A industrialização dos alimentos, com destaque àqueles altamente processados, trouxe o excesso de sal, açúcar e gordura, além de conservantes e corantes que atraem, especialmente, as crianças. No entanto, quando analisamos os hábitos de vida, nada mais danoso do que as indústrias de bebidas e de tabaco. Apesar das campanhas de saúde pública contra o tabagismo, o cigarro continua fazendo vítimas no mundo todo, prejudicando a função respiratória e a qualidade de vida. Como agravante, está o fato de que as populações mais pobres fumam cigarros da indústria clandestina, frutos de contrabando, com fabricação sem controle sanitário, fragilizando ainda mais a condição de saúde dessas pessoas. O cigarro está associado a diversos tipos de câncer que poderiam ser evitados caso as pessoas não fumassem. Além disso, o cigarro prejudica o meio ambiente pela imposição da fumaça aos outros que não fumam, provocando, ao fumante passivo, os mesmos males que causa ao fumante ativo. Outro fator importante, no contexto das novas doenças, está na migração das populações rurais ou de pequenas cidades para os grandes centros urbanos sem a devida organização prévia para sua estruturação e desenvolvimento, constituindo novas fases de êxodos urbanos. Cada vez mais nos deparamos com o agravamento das condições de vulnerabilidade das populações metropolitanas e das periferias das grandes cidades. As ocupações desordenadas acontecem por falta de oportunidades justas para todos em seus locais de origem, ou, ainda, devido às pressões por guerras, desastres naturais – como no Haiti – ou desastres econômicos, como na Venezuela. As pessoas migram em busca de oportunidades e se abrigam onde é possível. Tais populações, já vulneráveis pelo conjunto de suas histórias, tornam-se ainda mais fragilizadas pela maior exposição aos fatores de risco que encontram no contexto em que se alocam. Além disso, as populações vulneráveis são as maiores consumidoras de produtos industrializados de baixo teor nutricional, com maior quantidade de carboidratos e demais componentes prejudiciais à saúde, além do uso do álcool e do cigarro. 7 2.2 Consequências do contexto social sobre a carga de doenças crônicas A principal consequência desse conjunto de fatores está no aumento da obesidade no mundo, inclusive nas populações pobres, devido ao acesso ao carboidrato industrializado, aumentando a sobrecarga de doenças não transmissíveis e acelerando a precocidade do aparecimento de doenças que antes só eram vistas na etapa do envelhecimento, como é o caso do diabetes tipo II. Esse dado é especialmente importante quando consideramos as principais doenças que encabeçam a lista das condições crônicas que causam mortes. Entre elas, as três mais prevalentes são as doenças cardiovasculares (infarto agudo), cerebrovasculares (acidente vascular cerebral) e o câncer. Uma importante doença demonstrou aumento significativo no mundo todo, impulsionada pelos fatores já mencionados: o diabetes. Apesar de ser associado a um importante fator hereditário, o surgimento precoce do diabetes tem relação com os hábitos de vida, além de agravar todas as doenças vasculares quando não é corretamente compensado. Ter diabetes precocemente aumenta proporcionalmente os riscos para todas as demais doenças circulatórias. Estudos revelam que a maioria dos diabéticos do mundo estão nos países em desenvolvimento, demonstrando a estreita relação entre os determinantes sociais e a carga de doenças crônicas. A obesidade, o estresse emocional, o uso do tabaco, o excesso de álcool e o sedentarismo estão na base da maioria das doenças crônicas. A boa notícia é que são fatores passíveis de modificação, que podem mudar o curso das doenças e impactar a qualidade de vida das pessoas. TEMA 3 – MODELOS DE CUIDADO DAS CONDIÇÕES CRÔNICAS A carga de doenças crônicas nos países desenvolvidos, associada ao seu tradicional hábito do desenvolvimento de pesquisas, levou os Estados Unidos a elaborarem o primeiro modelo de cuidados crônicos no final da década de 1990, chamado Chronic Care Model (CCM), por estudos liderados por Ed Wagner. Esse modelo justificava-se por levantamentos que mostravam que metade da população americana vivia com algum tipo de condição crônica. Outros modelos surgiram posteriormente, tendo sido adotados pelos países europeus e por outros países desenvolvidos. A seguir, estudaremos dois modelos mais aceitos no 8 mundo e que serviram de base para adaptações em outros sistemas de saúde: o modelo de pirâmide de riscos, e o modelo embasado nos determinantes sociais de saúde. 3.1 O modelo da pirâmide de riscos Esse modelo foi elaborado por uma operadora de planos de saúde americana para organizar a oferta de serviços aos seus usuários, porém foi tão bem-sucedido que foi posteriormente utilizado em países como Austrália, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Nova Zelândia e Reino Unido. Consiste na estratificação de risco das pessoas portadoras de condições crônicas de acordo com a duração da condição, urgência da intervenção, tipos de serviços requeridos e capacidade de autocuidado apresentada pelo paciente. Esses critérios permitem a classificação dos pacientes em três níveis: • Nível 1 – Portadores de condições crônicas leves: nesse nível, estão em torno de 70 a 80% dos pacientes. Esse grupo se beneficia muito das estratégias de autocuidado apoiado e dos recursos disponíveis na comunidade e em sua rede social e familiar de apoio. Esses pacientes recebem apoio da equipe de saúde, mas mobilizam menos recursos do sistema de saúde. Os investimentos para esse estrato de risco devem ser feitos nas tecnologias leves de atenção, formação de grupos de apoio, orientações frequentes e controles anuais com médico e enfermeiro. • Nível 2 – Portadores de condições complexas: equivale a 20 a 30% de pessoas com condições complexas. Nesse segmento, estão aquelas pessoas que, apesar da complexidade de sua condição, têm boa compreensão do autocuidado, com bom suporte social. Esses indivíduos têm melhor manejo, podendo se beneficiar dos recursos utilizados no nível 1, acrescidos das estratégias de gestão da condição de saúde. Tais pacientes requerem acompanhamento mais próximo da equipe de saúde e maior controle clínico. • Nível 3 – Portadores de condições altamente complexas: equivalem de 1 a 5% dos pacientes crônicos. São pessoas que apresentam casos severos e instáveis, com grande risco de descompensação. Como agravante, esses pacientes têm pouca capacidade de autocuidado, sendo pacientes que costumam ser internados com maior frequência, usuários de UTI e que 9 necessitam de supervisãocontínua das equipes de saúde, com acompanhamento médico frequente (Mendes, 2012). Esse sistema se fundamenta no alinhamento da atenção à saúde com as necessidades do usuário de acordo com sua classificação nos estratos de risco. Os serviços de saúde devem desenvolver tecnologias de cuidado, inclusive utilizando tecnologias novas, como o e-cuidado. O uso de tecnologia deve ser uma ferramenta para o autocuidado, levando o paciente a uma constante reflexão sobre seu papel na estabilização de sua condição. Um exemplo do uso da tecnologia são os aplicativos de saúde e os portais de informações. Podem ser construídos em formato interativo, motivando o paciente a participar da construção das informações. 3.2 O modelo da determinação social da saúde Esse modelo foi elaborado por Dahlgren e Whitehead, com base nos determinantes sociais nos quais os indivíduos estão distribuídos. O modelo é representado por um semicírculo com camadas concêntricas, que posicionam as referências da estratificação (Mendes, 2012). • Camada 1 – São considerados a idade, o sexo e os fatores hereditários. Essas condições são permanentes, ou seja, não são passiveis de modificação, mas exercem grande poder no processo de saúde e doença. • Camada 2 – São considerados os estilos de vida individuais, que também são denominados de determinantes proximais, como o padrão alimentar, hábito de fumar, consumo de álcool, consumo de gordura, comportamento violento e comportamento sexual de risco. Apesar de modificáveis, a relação dos determinantes proximais com outros fatores não depende exclusivamente da vontade do indivíduo de realizar mudanças na sua vida, mas também do grau de discernimento desenvolvido e de seu contexto de vida. Pessoas com pouca escolaridade tendem a ser mais suscetíveis à mídia do que aquelas com melhor nível de escolaridade e maior desenvolvimento crítico. • Camada 3 – Redes sociais e comunitárias: valoriza a rede social de apoio a que as pessoas têm acesso, seu nível de envolvimento e amizade, sobretudo na fragilidade da doença. São resultados da construção de relacionamentos saudáveis e produtivos, desenvolvimento de 10 solidariedade e de compromisso com o próximo. As redes familiares e comunitárias destacam-se como as maiores geradoras de suporte. • Camada 4 – Determinantes intermediários: nesse nível estão as condições de trabalho, acesso a alimentos, acesso a serviços públicos essenciais, infraestrutura urbana e condições de moradia. Os determinantes intermediários demonstram a vulnerabilidade a que está submetida grande parte da população, e influenciam enormemente no manejo das condições crônicas. • Camada 5 – Determinantes distais: são as condições socioeconômicas, culturais e ambientais gerais. Sob o olhar mais amplo do processo de saúde e doença, essa camada considera os resultados de políticas de acesso ao emprego, proteção ambiental e social das pessoas. São processos que dependem de políticas públicas que devem ser pautadas pela ética da equidade, inclusive com discriminação positiva, como é o caso das políticas de inclusão, e aquelas voltadas para as minorias mais vulneráveis, como a população negra. Os modelos de manejo de condições crônicas descritos acima demonstraram-se efetivos em diversos países, porém todos têm certa limitação ao se depararem com populações de extrema vulnerabilidade. De toda forma, todos os componentes dos modelos têm similaridades, com ênfases diferentes. No Brasil, o pesquisador Eugenio Vilaça Mendes elaborou um modelo de atenção aos crônicos a ser aplicado no SUS. TEMA 4 – UM MODELO DE CUIDADOS AOS PACIENTES CRÔNICOS ADAPTADO AO SUS COM APLICAÇÃO NA APS Em um país que ainda apresenta grandes diferenças regionais e sociais, é fundamental pensar em um modelo de atenção que privilegie a equidade, considerando as necessidades e características de nossa população. Nesse caso, o melhor modelo seria o da determinação social da saúde. Considerando esses aspectos, Mendes propõe um modelo no qual adapta princípios dos modelos adotados em outros países para criar o Modelo de Atenção às Condições Crônicas (MACC) (Mendes, 2012), aplicado à atenção primária no Brasil. 11 Nesse modelo para o SUS, há cinco níveis de atuação, considerando os determinantes sociais e o risco como referenciais para estratificar a população. Para cada estrato, há um conjunto de ações prioritárias nos vários grupos, como ações de promoção, prevenção, ou ações mais enfáticas de recuperação e vigilância em saúde. Devemos considerar a aplicação do MACC na APS, sobretudo nas equipes de Estratégia Saúde da Família (ESF), quando falamos da população – entendendo que se trata da população da área de abrangência de uma equipe ESF, ou aquela da área de abrangência da Unidade de Saúde (US) –, ao aplicarmos o método em uma Unidade Básica sem ESF, ou com equipes mistas, ou outros arranjos de atenção básica previstos na Política Nacional de Atenção Básica. 4.1 Níveis de classificação do MACC • Nível 1 – Compreende a população total da área de abrangência da ESF. O foco principal são os determinantes sociais intermediários, como condições de vida, trabalho, educação, moradia, infraestrutura, entre outros. Toda a população deve ser alvo de ações de promoção e de educação em saúde, buscando recursos da comunidade e sua parceria. O foco da promoção de saúde é o empoderamento do cidadão na busca dos seus direitos e no desenvolvimento da autonomia e na busca por melhores condições de vida e saúde. • Nível 2 – A partir desse nível, há uma seleção de risco entre a população geral. Nesse nível está a subpopulação com riscos ligados aos estilos de vida e a outros fatores. O foco é a prevenção, portanto, consideramos, nesse momento, todos os níveis de prevenção, iniciando pela prevenção primordial (antes que o indivíduo faça contato com os fatores de risco), até a prevenção quaternária, que evita os danos causados pelo excesso de uso de medicamentos e práticas desnecessárias de assistência. Sob esse aspecto, as ações educativas visando à prevenção podem ser feitas em escolas, grupos comunitários e pelo contato individual, abordando vários temas, como a prevenção de doenças cardiovasculares, de queda em idosos, gravidez na adolescência, entre outras estratégias de prevenção individuais ou coletivas que podem ser usadas. O objetivo é estimular o paciente a tomar boas decisões sobre sua própria saúde e evitar agravos. 12 • Nível 3 – Seleciona a subpopulação com determinantes sociais e individuais de risco, porém com condição crônica simples, ou de baixo risco. Estudos já demonstraram que 70 a 80% das condições crônicas encontram-se nessa subpopulação. As intervenções nesse estrato são voltadas para a clínica individual (embora todas as populações se beneficiem das estratégias de promoção e prevenção). Nesse nível, aplica- se na prática o manejo descrito no nível 2 do Modelo de Pirâmide de Riscos (MPR). • Nível 4 – Seleciona a subpopulação com condição crônica complexa, que corresponde a até 30% da população, considerando os agravantes dos determinantes sociais. O manejo é semelhante ao nível 3 do MPR, com benefício de tecnologias de gestão de caso. • Nível 5 – Seleciona a subpopulação com condição crônica muito complexa, que corresponde a no máximo 5% da população. Tais condições são manejadas pelos vários pontos da rede de atenção. Geralmente, são muito custosas aos sistemas de saúde, por requererem manejos agressivos de internação, exames de alto custo e cirurgias específicas. Relembramos que, apesar de esse paciente sair em diversos momentos do nível primário de atenção por força de suas necessidades, a coordenação do caso permanece na APS. 4.2 Outros âmbitos de ação em apoio ao MACC A OMS considera três âmbitos de ação que devem ser incorporados aos modelos de manejodas condições crônicas com qualidade. São relações que envolvem o poder público, as comunidades e a relações entre as equipes de trabalho. 1. Macropolíticas – Trata-se de políticas que regulam os sistemas de saúde, suas diretrizes prioritárias e tecnologias incorporadas. As políticas públicas de saúde são editadas pelos governos federal, estadual ou municipal, e interferem diretamente na aplicação da atenção à saúde; por isso, há de haver consonância das práticas com as diretrizes formatadas oficialmente, até para a captação dos recursos aplicados em saúde. 2. Mesopolíticas – Compreendem as organizações de saúde e a comunidade, e a forma como se relacionam e se articulam. Nesse âmbito, as ações 13 propostas precisam ser validadas pelos conselhos de saúde e apoiadas por lideranças comunitárias e outros setores e pessoas de influência no local. Esses apoios são muito importantes para o sucesso das ações. 3. Micropolíticas – Referem-se à interação entres as equipes de saúde e as pessoas usuárias, entendendo que essa relação é terapêutica em si mesma. Os profissionais precisam ser referências de confiança da comunidade, e sua atuação deve ser respeitada. Quando uma equipe de saúde não tem o respeito da comunidade, pode-se dizer que a sua atuação é irrelevante naquele local. A US é recurso imprescindível de uma comunidade, portanto, sua equipe deve ter fortes vínculos comunitários. A integração entre esses três níveis é essencial para o sucesso de modelos de gestão em saúde. Na análise realizada do MAAC, considerando seus três âmbitos, podemos entendê-lo como um modelo adequado à gestão de condições crônicas na APS. TEMA 5 – O AUTOCUIDADO APOIADO O autocuidado apoiado é uma tecnologia leve e efetiva para o manejo de condições crônicas. Na verdade, ela atende aos preceitos da promoção de saúde que incentivam a autonomia e a proatividade da pessoa usuária na condução de sua saúde e qualidade de vida. Porém, sua implementação não exime as equipes de saúde do cuidado; ao contrário, entra no contexto de apoio, ofertando os instrumentos para que a pessoa se aproprie cada vez mais de sua saúde e cuidado. 5.1 A visão do paciente sobre o autocuidado A maioria das pessoas, por motivos diversos, não se apropria ou não se responsabiliza pela sua saúde. Essa situação causa frustração nas equipes, por entenderem que seu trabalho é desperdiçado, do mesmo modo como os outros recursos investidos. Contudo, para que uma tecnologia seja implantada, as equipes devem entendê-la de forma completa e aplicá-la segundo sua proposta. Um princípio importante quanto às doenças crônicas, está na compreensão de que as pessoas convivem com suas condições há muito tempo e, de alguma forma aprenderam a conviver com elas. As intervenções das equipes de saúde 14 são pontuais e não têm representatividade significativa, com impacto na vida do paciente, para promover mudanças. As pessoas são apegadas aos seus velhos hábitos, e vão permanecer com eles até que se sintam motivadas a fazer mudanças. Citamos, como exemplo, a interpretação de que uma pessoa diabética tem de sua doença. Na maioria das vezes, ela não se sente mal, mesmo que a dosagem de glicose no sangue esteja alta. O mal-estar vai surgir apenas quando a glicose estiver excessivamente alta. No entanto, quando a glicose baixa um pouco, a pessoa sente tonturas, irritabilidade e náuseas, podendo até desmaiar. A medicação para o diabetes tem efeitos colaterais que podem causar rejeição e a sensação de que o remédio está causando mal, e não bem. Muitas pessoas queixam-se de sintomas gastrointestinais, como diarreia e dor abdominal, levando-as a reduzir a dose prescrita, ou mesmo abandonar o tratamento. Além disso, há os fatores externos, que funcionam como barreiras importantes que impedem o desenvolvimento favorável à decisão do cidadão. Imaginemos, então, que em uma intervenção clínica, orientemos a pessoa a fazer caminhadas, mas o único momento que ela tem disponível é à noite. Se ela mora em um local perigoso, pouco iluminado e com ruas esburacadas, como ela poderá fazer isso? A capacidade prévia de uma pessoa com baixa escolaridade tomar corretamente um grupo de medicamentos é muito reduzida. Considerando a polifarmácia em idosos, analfabetos ou com pouca escolarização, redução da acuidade visual e auditiva, com pouco suporte social, temos um cenário de risco muito grande. Por esses motivos, cabe aos profissionais de saúde aplicar várias estratégias que possam encorajar e orientar as pessoas com maior capacidade de autogerenciamento e, ao mesmo tempo, criar estratégias de apoio e monitoramento dos casos mais graves, que necessitem de assistência mais próxima. A tecnologia do autocuidado apoiado é definida como a prestação de serviços educacionais e de intervenções de apoio para aumentar a confiança e as habilidades das pessoas usuárias dos sistemas de atenção à saúde, em gerenciar seus problemas, o que inclui o monitoramento regular das condições de saúde, o estabelecimento de metas alcançadas e o suporte para a solução desses problemas. (Institute Of Medicine, 2003, citado por Mendes, 2012) 15 5.2 Aplicando o autocuidado apoiado A metodologia dos 5 A, aplicada para avaliação de tabagistas pelo National Cancer Institute, em 1989, foi utilizada para nortear as ações do autocuidado apoiado. São elas: avaliação, aconselhamento, acordo, assistência e acompanhamento. Na etapa de avaliação, o profissional de saúde deve procurar compreender quais são as crenças que envolvem o entendimento do usuário sobre sua condição, seus valores e seu conhecimento prévio sobre sua saúde. Ainda é importante sabermos quais suas motivações para mudanças e se, de fato, desejam mudar. É comum encontramos, nessa fase, alguns pacientes que resistem a tomar medicamentos por acharem que vão ficar dependentes da medicação caso a tomem diariamente. Ao avaliarmos a condição inicial do paciente, podemos entender em que momento está sua motivação para empreender mudanças em seu comportamento, e a quantidade de apoio com que ele conta para isso. O aconselhamento é o momento em que o profissional de saúde fornece informações sobre as vantagens da mudança do comportamento, e sobre a doença em si. O que é muito importante lembrarmos, é de que esse é um momento de diálogo, e não deve ser tomado por um discurso técnico, como se fosse uma aula de fisiopatologia ao paciente. As pessoas não costumam guardar grandes quantidades de informações, portanto, é melhor perguntar o que ela quer saber e ajudá-la aos poucos, em seus diversos momentos de contato com o serviço de saúde. O acordo consiste em estabelecer as metas e pactos sobre o que se espera do paciente em sua atuação. Pode ser peso a ser perdido, melhores horários para a medicação ou sobre iniciar uma atividade física. O que importa, é estabelecermos um clima de confiança e estarmos abertos a repactuar aquilo que não foi atingido. A assistência é o compromisso da equipe em manter o cuidado, o apoio e, principalmente, não desistir quando o usuário não atingir as metas esperadas. A equipe deve ajudar as pessoas a persistirem na utilização de tecnologias de cuidado e de solução de problemas (Mendes, 2012). O acompanhamento, por fim, é o monitoramento e apoio contínuo e consistente ao paciente em todo o seu trajeto dentro da tecnologia de 16 autocuidado. Devemos lembrar o paciente de que se trata de condição de longa duração, e que não haverá resultados imediatos, além de observarmos os constantes riscos de abandono e recaídas que nossos pacientes terão ao longo do percurso. As experiências com o autocuidado apoiado demonstram que as pessoas têm potencial para cuidarem de si mesmas. A OMS afirma que, quando corretamente apoiadas pelas equipes de saúde, as pessoas desenvolvem habilidades e mudam seushábitos e o percurso de suas doenças. Tudo isso resulta em importantes ganhos para os serviços de saúde, e em qualidade de vida para as pessoas. 17 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. (Série E. Legislação em Saúde). BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde. Saúde Brasil 2018 uma análise de situação de saúde e das doenças e agravos crônicos: desafios e perspectivas. Brasília: Ministério da Saúde, 2019. MENDES, E. V. A construção social da atenção primária à saúde. Brasília, CONASS, 2015 MENDES, E. V. O cuidado das condições crônicas na atenção primária à saúde. Brasília, CONASS, 2012 PEREIRA, J. R. P.; SILVA, C. C. da; LIMA NETO, E. de A. Condições sensíveis à atenção primária: uma revisão descritiva dos resultados da produção acadêmica brasileira. Rev. Saúde em debate, 2014, v. 38, n. spe, p. 331-342. Disponível em: . Acesso em: 7 jun. 2022. SZWARCWALD, C. L.; VIACAVA, F. Pesquisa mundial de saúde no Brasil, 2003. Cadernos de Saúde Pública, 2005, v. 21, supl. 1, p. S4-S5. Disponível em: . Acesso em: 7 jun .2022.