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Nematelmintos – aula 3 ❖ Ascaris lumbricoides (ascaridíase) ➢ Mais frequente parasitose do mundo conhecida popularmente conhecida como “lombriga intestinal” ➢ Características do parasita ▪ O nematoide parasita do homem é o Ascaris lumbricoides, mas existem outras espécies, como a Ascaris suum, que são encontrados em porcos e outros animais (carneiros, cabras, bois, cavalos, aves, cães e gatos, até em humanos) ▪ É um parasita dioico e monoxênico que possui 3 fases de desenvolvimento, sendo que a fêmea deve ser fecundada repetidas vezes pelo macho ▪ Morfologia: • Ovos: São grandes e de coloração branca (castanha por causa do contato com as fezes A forma do ovo fértil é oval ou quase esférica, com a casca mais espessa Ovos férteis se tornam embrionários em 15 dias quando em TºC ótimas e presença de O2 Ovos inférteis são mais alongados e tem a casca mais delgada – fêmeas não fecundadas podem liberar ovos inférteis • Larvas: Primeiro estágio larval (L1): Quando o ovo é depositado no ambiente, ele ainda não é infeccioso. No solo ou água, o embrião dentro do ovo começa a se desenvolver até atingir o primeiro estágio larval. Segundo estágio larval (L2): No ambiente externo, após alguns dias, o embrião se desenvolve até o segundo estágio larval (L2). Terceiro estágio larval (L3): fase infecciosa que emerge no intestino do hospedeiro e migra para os pulmões e volta ao intestino, onde se torna adulta. As larvas são muito pequenas ao eclodir, medindo aproximadamente 200 a 300 micrômetros no estágio inicial. À medida que migram e amadurecem, aumentam de tamanho, mas ainda são microscópicas até atingirem a fase adulta no intestino. Elas são alongadas e possuem um corpo cilíndrico, como os vermes adultos, porém muito menores, possuindo ainda uma cutícula resistente que as protege durante sua migração pelo corpo. • Verme adulto: Vermes longos, cilíndricos e com extremidade afiladas na região anterior É o maior nematoide parasita do intestino do homem Possui boca com papilas sensoriais, esôfago, intestino, reto, ânus e órgãos genitais Apresenta três grandes lábios na extremidade anterior, que o prendem à mucosa do intestino. O tamanho é variado, inversamente proporcional à quantidade de vermes que parasitam o indivíduo, ou seja, quanto maior o número de parasitas no intestino, menor o tamanho de cada um. Características externas: Macho: mede de 15-30cm e possui um enrolamento ventral espiralado na extremidade caudal Fêmea: mede de 30-40cm e sua parte posterior é retilínea ou ligeiramente curvada ▪ Comportamento: • 90% deles se localizam-se no intestino ao longo das alças jejunais, os outros se encontram no íleo com poucos sendo vistos no duodeno ou no estômago • Eles mantêm-se em atividade contínua contra a corrente peristáltica • Não é rara a eliminação de vermes pela boca ou narinas ➢ Ciclo de vida ▪ Os vermes adultos vivem no lúmen do intestino delgado, com uma fêmea podendo produzir cerca de 200.000 ovos por dia que são excretados nas fezes. ▪ Os ovos não fertilizados podem ser ingeridos, mas não são infecciosos, já os fertilizados, a depender das condições do meio ambiente, se tornam embrionários e infecciosos entre 18 dias e algumas semanas ▪ A condição ideal para eles se desenvolverem são solo úmido, quente e sombreado ▪ Os ovos infecciosos são deglutidos e no intestino delgado eles se tornam larvas, que irão penetrar a parede do intestino delgado e migram pela circulação porta até o fígado ▪ Uma vez no fígado ele segue via circulação sistêmica até os pulmões, onde amadurecem ainda mais (cerca de 10-14 dias) e penetram as paredes alveolares, ascendem a árvore brônquica até a garganta e são deglutidas, retornando assim para o intestino delgado, onde se tornaram vermes adultos ➢ Epidemiologia e transmissão ▪ A. lumbricoides é um parasita cosmopolita, distribuído de maneira variável ao redor do mundo, porém mais frequente em regiões tropicais ▪ 20% da população mundial está parasitada ▪ O clima quente e úmido é ideal para o crescimento e embrionamento dos ovos, pois trata-se de um geohelminto - os ovos tornam-se infectantes no solo. ▪ No Brasil, é mais prevalente na faixa que beira o litoral, mas também se apresenta com alta prevalência em alguns pontos mais interiorizados, como na região central da Amazônia, no Acre, Mato Grosso e Goiás. Nas outras regiões apresenta média prevalência e, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, fora a faixa litorânea, apresenta baixa prevalência. ▪ A transmissão da ascaridíase ocorre principalmente pela ingestão de solo, água ou alimentos contaminados com ovos contendo L3 (rabditoide) – os ovos possuem grande capacidade de aderência a superfícies ▪ No caso específico da contaminação através do solo, uma forma bastante frequente se dá com crianças, que, ao brincarem no peridomicílio contaminado, sujam as mãos e as levam à boca. ▪ Há ainda casos descritos de transmissão da mãe para o feto através da placenta. ▪ Grande parte das pessoas contaminadas são assintomáticas ou oligossintomáticas, o que faz com que estas continuem a eliminar fezes contaminadas durante anos, favorecendo a transmissão. ▪ Em locais endêmicos, a reinfecção e a coinfecção com outras doenças parasitárias são comuns. ▪ Quando os ovos embrionados encontram um meio favorável podem permanecer viáveis e infectantes durante anos ▪ Poeira, aves e insetos, como moscas e baratas, também são meios de contaminação ▪ O período de incubação vai dos ovos férteis até o desenvolvimento da larva infectante (L3) ▪ O uso de fezes como fertilizante é um hábito que aumenta a disseminação da infecção, assim como a ausência de saneamento básico e educação sanitária ➢ Patologia e patogenia ▪ No homem, ocorrem manifestações clínicas relacionadas à migração das formas larvares, manifestações digestivas e fenômenos obstrutivos pelos vermes adultos ▪ A fisiopatologia está ligada a: • Dano tecidual direto • Resposta imunológica • Fenômenos obstrutivos ▪ Quadro clínico • O aparecimento de sintomas e sua intensidade dependem da carga parasitária. • As infecções por Ascaris lumbricoides podem ser de intensidade baixa (3-4 vermes), intensidade média (30-40 vermes) ou maciça (100 ou mais vermes), sendo a primeira geralmente assintomática Infecções moderadas a graves: Uma alta carga de vermes pode levar a obstrução intestinal, com sintomas como dor abdominal, distensão, náusea e vômito. Síndrome de Löeffler: Durante a fase de migração pulmonar, as larvas podem causar inflamação nos pulmões, levando a tosse, febre, sibilos e hemoptise, sendo caracterizada por infiltração transitória eosinofílica no pulmão. – Normalmente ocorre em indivíduos sem exposição prévia a Ascaris lumbricoides. Efeitos nutricionais: A infecção crônica em crianças pode resultar em desnutrição, retardando o crescimento e desenvolvimento físico e cognitivo. • Sintomas mais comuns: Tosse, diarreia, dor abdominal, náuseas, vômito, cefaleia, sono agitado, febre baixa e abaulamento do abdome. • Urticárias ocorrem nos primeiros dias da doença em 15% dos indivíduos afetados. ▪ Ações no hospedeiro • Ação espoliadora: consumo de nutrientes do hospedeiro • Ação tóxica: reação antígeno-anticorpo • Ação mecânica: formação de novelos de vermes; • Ação traumática: irritação da parede intestinal. • Complicações Localização ectópica: quando a carga parasitária é alta ou a medicação ministrada é imprópria ou ineficaz, deve-se atentar para esta possibilidade. É possível encontrar vermes no apêndice cecal, no ducto colédoco e no canal de Wirsung; Obstrução intestinal: um emaranhado de vermes adultos pode causar bloqueio do trânsito intestinal; Pneumonite eosinofílica: pacientes infectados por muitas larvas podem produzir um quadro semelhante a um ataqueasmático, podendo ocorrer eosinofilia e diminuição na saturação de oxigênio; Deficiência de vitaminas: pode ocorrer, sendo seguida de subnutrição, principalmente em casos de grandes infecções (100 ou mais exemplares). ➢ Diagnóstico ▪ Diagnóstico Clínico: • Normalmente a doença é pouco sintomática, o que dificulta o diagnóstico em exame clínico. • A gravidade é determinada pela carga parasitária e, como o parasito não se multiplica dentro do hospedeiro, é a exposição contínua a ovos infectados (ou uma única grande exposição) que leva ao aparecimento de sintomas e às complicações da doença. ▪ Diagnóstico complementar: • Exame Parasitológico de Fezes – principal ferramenta diagnóstica, feita a partir do sedimento ou flutuação das fezes, que pode revelar a presença de ovos; • Exames Laboratoriais – não são satisfatórios e não podem dispensar a coproscopia. Suas indicações estão restritas às fases de migração larvária, nas infecções só por machos, ou quando, por outras razões, o exame de fezes não for conclusivo • Exame de imagem – Vermes adultos podem ser visualizados por radiologistas durante a fase pulmonar da doença, além disso, a radiografia simples do abdômen pode demonstrar grandes coleções de vermes Ascaris adultos em indivíduos fortemente infectados, principalmente em crianças – A massa de vermes contrasta com o gás no intestino, produzindo um efeito de “redemoinho”. ➢ Tratamento ▪ Antiparasitários: As drogas de primeira escolha são Ivermectina, Albendazol ou Mebendazol, esses fármacos são eficazes na eliminação dos vermes adultos ▪ Doses recomendadas: Geralmente, uma dose única de Albendazol (400 mg) ou Mebendazol (500 mg) é eficaz. Pode ser necessário repetir o tratamento em 2-3 semanas em áreas de alta transmissão. ▪ Complicações graves: Em casos de obstrução intestinal ou outras complicações, a intervenção cirúrgica pode ser necessária para remover os vermes ou tratar complicações secundárias. ▪ Em casos de poliparasitismo, a parasitose por Ascaris lumbricoides deve sempre ser a primeira a ser tratada, devido ao risco de complicações medicamentosas que resultem em ectopia do verme. ➢ Prevenção ▪ Melhoria do saneamento básico: A prevenção da ascaridíase está intimamente ligada à melhoria das condições sanitárias. Isso inclui a construção de sistemas adequados de tratamento de esgoto e o manejo seguro de fezes humanas. ▪ Higiene pessoal: A lavagem correta das mãos antes das refeições e após o uso do banheiro é fundamental para reduzir o risco de infecção. ▪ Higiene alimentar: Alimentos crus, como vegetais, devem ser bem lavados, especialmente se cultivados em áreas com solo potencialmente contaminado. ▪ Programas de desparasitação em massa: Em áreas endêmicas, campanhas de desparasitação em massa, especialmente em escolas, têm sido eficazes para reduzir a carga parasitária e melhorar o estado nutricional das crianças. ▪ Educação em saúde: Promover o conhecimento sobre as formas de transmissão e a importância de práticas de higiene pode ajudar a reduzir significativamente a transmissão em comunidades afetadas. ❖ Trichuris trichiura (tricuríase) ➢ Características do parasita ▪ Trichuris trichiura é um parasito nematoide causador da tricuríase no homem, sendo morfologicamente parecido com o Ascaris lumbricoides, porém, ele é bem menor, medindo, em média, cerca de 4 cm contra os habituais 30 cm do áscaris ▪ Estima-se que sua sobrevida no intestino humano seja entre 1 a 2 anos, com período pré-patente de 60 a 90 dias. ▪ Conhecido popularmente como "Fio de linha". ▪ As fêmeas podem eliminar até 20.000 ovos por dia ▪ Morfologia: • Ovos: Possuem três membranas e medem cerca de 50 micrometros de comprimento por 22 micrometros de largura, com forma elíptica e com poros salientes e transparentes em ambas extremidades. O ovo de T. trichiura tem aspecto de barril arrolhado nas extremidades, isto é, possui a forma de uma “bandejinha”. São eliminados nas fezes e podem sobreviver por longos períodos no solo até serem ingeridos. • Vermes adultos: É um verme branco-rosado que mede aproximadamente 3 a 5 cm de comprimento. Como sua parte anterior (cefálica) que compreende 2/3 do verme é afilada e seu 1/3 posterior (caudal) é mais grosso, costuma-se dizer que o verme tem aparência de um chicote. A extremidade anterior longa e delgada penetra na mucosa intestinal e a extremidade posterior mais espessa é onde ficam os órgãos reprodutivos Há nítido dimorfismo sexual entre machos, que são menores, medindo aproximados 2 cm e fêmeas, com extremidade posterior retilínea, alcançando 5 cm de comprimento. ▪ Comportamento do parasita: • Os vermes adultos são parasitos do intestino grosso do homem. • Em infecções leves a moderadas, o ceco e o cólon ascendente são as regiões preferenciais. • Em infecções maciças, o T. trichiura pode ser encontrado no cólon distal, reto e porção distal do íleo. • O verme penetra na camada epitelial da mucosa intestinal do hospedeiro e alimenta-se de muco e restos celulares. ➢ Epidemiologia e transmissão ▪ A tricuríase apresenta distribuição cosmopolita e alta prevalência mundial, sendo ▪ Mais comum em zonas tropicais e subtropicais de países em desenvolvimento, pois esse parasito não se adapta bem a locais áridos ou muitos frios, mas é prevalente onde as condições de saneamento são mais precárias ▪ Em todo mundo, estima-se que mais de 1 bilhão de pessoas estejam infectadas com esse parasito, a maioria delas sem apresentar nenhum tipo de sintoma. ▪ No Brasil, é mais frequente em áreas litorâneas e na Amazônia, onde as condições ambientais são excelentes para o desenvolvimento de um geohelminto. ▪ Devido ao fato do Trichuris trichiura viver em ambientes com características semelhantes aos do parasito Ascaris lumbricoides, é muito comum a coinfecção por ambos nematódeos. ▪ Assim como na ascaridíase, a prevalência de infecção por T. trichiura é maior em crianças e pré- adolescentes. ▪ Formas de contaminação • A tricuríase é uma doença de transmissão fecal-oral. • Um indivíduo se contamina quando ingere acidentalmente ovos embrionados infectantes do parasito contidos em alimentos, água ou no solo. – Possuem grande resistência às condições ambientais e através da água ou vento contaminam o ambiente • Ocorre pela ingestão de ovos embrionados infectantes de Trichuris Trichiura, os quais possuem grande resistência às condições ambientais e através da água ou vento contaminam alimentos sólidos e líquidos - especialmente em locais que carecem de saneamento básico. • Especialmente em áreas de alta prevalência, a ingestão de ovos diretamente da mão contaminada e a geofagia são formas importantes de contaminação. ➢ Ciclo de vida ▪ Um indivíduo infectado libera milhares de ovos do parasito a cada evacuação, se as fezes entrarem em contato com o solo, os ovos encontram um local propício para amadurecer. ▪ Após cerca de 2 ou 3 semanas, os ovos passam a conter um embrião do verme capaz de infectar quem o consumir. ▪ A ingestão de ovos eliminados recentemente nas fezes não é capaz de contaminar outras pessoas, pois o embrião no seu interior precisa deste tempo de 2 semanas de amadurecimento no solo para poder completar o seu ciclo de vida. ▪ Em ambientes úmidos e com pouca exposição solar direta, os ovos do Trichuris trichiura podem permanecer viáveis por vários meses. Por outro lado, em locais secos, muito quentes ou com exposição solar direta, o ovo sofre desidratação e o embrião em seu interior morre rapidamente. ▪ As duas formas mais comuns de contaminação são através do contato da boca com mãos que manipularam solo infectado ou por consumo de alimentos plantados em terra adubada com fezes humana. ▪ Uma vez ingeridos, os ovos do parasito conseguem atravessar incólumes o estômago e eclodemao chegar ao intestino delgado, liberando as larvas do verme. ▪ A T. trichiura é uma exceção à regra, pois, ao contrário dos demais geohelminto, ele não possui ciclo pulmonar, permanecendo assim restrito à luz intestinal ▪ Após cerca de 3 meses, as larvas se tornam vermes adultos e migram para o intestino grosso, onde irão habitar definitivamente. ▪ No intestino grosso, o Trichuris trichiura pode viver por até 5 anos. A fêmea do parasito é capaz de colocar mais de 20 mil ovos por dia, que serão eliminados pelas fezes, dando início a um novo ciclo. ➢ Patologia, patogenia e quadro clínico ▪ Quadro Clínico: • A sintomatologia da tricuríase varia não apenas com a intensidade de carga parasitária, mas também de acordo com faixa etária, estrado nutricional e distribuição dos vermes adultos no intestino. • Como não existe migração sistêmica de suas larvas, as principais lesões causadas pelo T. trichiura se concentram ao intestino grosso. • Assim, na maioria dos pacientes com infecções leves, a doença é assintomática ou apresenta sintomatologia abdominal discreta • Em pacientes com carga parasitária moderada, é comum a presença de dores de cabeça, dor epigástrica e no baixo abdômen, diarreia, náuseas e vômitos. • Em relação em pacientes graves podem ocorrer sinais sistêmicos e a síndrome disentérica crônica, podendo ser observado diarreia intermitente com presença abundante de muco, algum sangue, dor abdominal com tenesmo, anemia, desnutrição grave e prolapso retal. • Devido á patogenia de fixação do verme, podem ser observados aumento da produção de muco pela mucosa intestinal, pequenas áreas de descamação da camada epitelial e infiltração de células mononucleares e polimorfonucleares na lâmina própria. – Tais sinais são crescentes de acordo com o número de parasitos e são responsáveis por parte da sintomatologia descrita anteriormente. • Um sinal físico comum é o baqueteamento digital, que é um alargamento da ponta dos dedos e da unha. ▪ Complicações: • Em infecções intensas e crônicas podem ocorrer, além da sintomatologia intestinal, alterações sistêmicas como perda do apetite, vômito, eosinofilia, anemia, desnutrição e retardo no desenvolvimento. • Devido à grande exposição da mucosa intestinal ao parasito em infecções maciças, há degeneração e necrose do tecido mucoso circundante. • Em infecções moderadas e intensas, a extensão e a intensidade da reação inflamatória aumentam, sendo relatadas ulcerações na mucosa intestinal e sangramento constante, que pode causar colite associada a tricuríase (dor abdominal, disenteria crônica e presença de muco e sangue nas fezes – quadro conhecido como síndrome disentérica crônica.) • O processo inflamatório é particularmente intenso quando os vermes atingem o reto, sendo observados edema e intenso sangramento da mucosa loca, que produz um inchaço da mucosa retal e inicia o reflexo da defecação mesmo na ausência de fezes no reto (tenesmo). • O esforço para defecação pode gerar prolapso retal (frequente em crianças da região norte do Brasil), o qual geralmente é reversível após eliminação dos vermes e resolução da reação inflamatória local. ➢ Diagnóstico ▪ Diagnóstico Clínico: • Considerando-se que a maioria dos pacientes com tricuríase são assintomáticos ou de sintomatologia difusa, a suspeita clínica requer diagnóstico laboratorial. ▪ Diagnóstico Laboratorial: • O diagnóstico laboratorial ocorre pela demonstração de ovos nas fezes (parasitológico de fezes), que possuem características que o permitem ser facilmente notado e classificado. • Em exames de colonoscopia, é possível a descoberta de vermes adultos. ➢ Tratamento ▪ As opções de tratamento para tricuríase são: • Mebendazol 100 mg, 2 vezes por dia por 3 dias. • Albendazol 400 mg, 1 vez por dia por 3 dias. • Nitazoxanida, 500 mg 2 vezes ao dia, por 3 dias, por via oral. – Medicamento de segunda linha • Ivermectina pode ser usada em alguns casos, especialmente em infecções mistas ▪ Em pacientes com infecção maciça, o tratamento pode ser prolongado por 5 a 7 dias. A taxa de cura com estes esquemas costuma ser acima de 90%. ▪ Três ou quatro semanas após o tratamento, o médico pode solicitar novo exame parasitológico de fezes para confirmar a cura. Se ainda houver ovos, sugere-se a repetição do tratamento. ▪ Deve-se evitar o uso de Albendazol ou Mebendazol nas grávidas. Em geral, nas gestantes infectadas, o tratamento é adiado até depois do parto, para diminuir o risco de toxicidade para o feto. ▪ Nos casos de prolapso retal, pode ser necessário tratamento cirúrgico. ▪ Em casos graves com anemia, pode ser necessária a reposição de ferro e outras intervenções nutricionais. ➢ Prevenção ▪ Saneamento básico: A melhoria das condições sanitárias é a principal medida preventiva. Isso inclui o tratamento adequado de esgoto e a eliminação segura de fezes humanas para evitar a contaminação do solo. ▪ Higiene pessoal: Lavar as mãos antes das refeições e após o uso do banheiro é crucial para prevenir a ingestão de ovos. ▪ Educação em saúde: Programas de conscientização sobre os riscos da parasitose e as formas de evitar a contaminação são essenciais em áreas endêmicas. ▪ Higiene alimentar: Lavar adequadamente frutas e vegetais, especialmente aqueles cultivados em solo potencialmente contaminado. ▪ Desparasitação em massa: Em áreas de alta prevalência, programas de desparasitação em massa, especialmente em escolas, são eficazes para reduzir a carga parasitária e melhorar a saúde das crianças. ▪ Atenção e cuidado com áreas do peridomicílio. ▪ Descarte correto de resíduos fecais. ▪ Não deixar crianças brincarem em áreas de risco. ❖ Enterobius vermicularis (oxiurose/enterobiose) ➢ Características do parasita ▪ Enterobius vermicularis é uma parasitose intestinal causada por um helminto nematódeo e transmitida ao homem preferencialmente por ingestão de ovos embrionados infectantes. ▪ Trata-se de uma infecção que costuma ser benigna, mas incômoda, pelo intenso prurido anal que produz e suas complicações sobretudo em crianças ▪ Conhecido popularmente como “Oxiúros” ou “lagartinha” ▪ Morfologia: • Ovos Possuem membrana dupla, lisa e transparente Apresentam um aspecto grosseiro de um “D”, sendo um dos lados normalmente achatado e o outro convexo • Verme adulto Dismorfismo sexual nítido, com algumas características comuns como a cor branca e o aspecto filiforme A fêmea é maior que o macho, possuindo cerca de 1cm de comprimento e 0,4mm de diâmetro, com cauda alongada e pontiaguda – possui a capacidade de reter cerca de 5 – 16 mil ovos O macho possui uma cauda fortemente recurvada em sentido ventral, com comprimento médio de 0,5mm e 0,2mm de diâmetro ▪ Comportamento: • Seu habitat preferencial é a luz do ceco e apêndice e não se fixam na mucosa intestinal • As fêmeas, repletas de ovos, podem ser encontradas na região perianal, pois elas migram para essa região durante a noite para depositar seus ovos • Em algumas mulheres, podem ser encontradas fêmeas na vagina, útero e bexiga ➢ Ciclo de vida ▪ O ciclo de vida começa com a ingestão dos ovos, que são frequentemente transferidos das mãos contaminadas para a boca, devido à má higiene ou coceira na região perianal. O contato com objetos contaminados ou superfícies também pode levar à infecção. ▪ Após a ingestão, os ovos eclodem no intestino delgado, liberando larvas que se deslocam para o intestino grosso. ▪ No intestino grosso, as larvas se desenvolvem em vermes adultos, que acasalam. O macho morre logo após o acasalamento, enquanto a fêmea se move em direção à região perianal para depositar seus ovos. ▪ Durante a noite, as fêmeas saem pela região anal e depositam entre 10.000 e 15.000 ovos, o que provoca intensa coceira. ▪ O ciclo podeser perpetuado pela autoinfecção, quando a pessoa infectada coça a área anal e depois leva as mãos contaminadas à boca, reiniciando o ciclo. ➢ Epidemiologia e transmissão ▪ Sua distribuição é mundial, com maior prevalência em crianças em idade escolar e em climas temperados ▪ A transmissão ocorre tipicamente no ambiente doméstico e em locais coletivos fechados ▪ Fatores que contribuem para a sua disseminação incluem a grande quantidade de ovos eliminados pela fêmea na região perianal, que se tornam infectantes em poucas horas e possuem elevada capacidade de transmissão ▪ Os ovos podem permanecer viáveis por até três semanas em ambientes domésticos, contaminando poeira e alimentos, principalmente pelo hábito de sacudir roupas de cama, pois o helminto apresenta nítida atividade noturna, mas tornam-se inviáveis após 1 ou 2 dias sob condições quentes e secas ▪ Formas de contaminação: • Heteroinfecção: ovos presentes na poeira ou alimentos atingem novo hospedeiro. • Indireta: ovos presentes na poeira ou alimentos atingem o mesmo hospedeiro. • Autoinfecção externa: os ovos são levados da região perianal à boca. É o principal mecanismo responsável pela cronicidade da verminose. • Autoinfecção interna: É rara. As larvas eclodem, ainda dentro do reto e migram para o ceco. • Retro infecção: As larvas eclodem externamente na região perianal, penetram no ânus e chegam até o ceco, onde se transformam em vermes adultos. ➢ Patologia, patogenia e quadro clínico ▪ Sua patogenia está associada a uma reação inflamatória discreta na região cecal ▪ Quadro Clínico: • Na maioria dos casos, o parasitismo passa despercebido pelo paciente, o qual só o percebe quando sente um ligeiro prurido anal (principalmente à noite), vê os vermes nas fezes ou realiza higiene pessoal após defecação. • A mucosa da região anal, em alguns casos, pode estar congesta, recoberta de muco e conter ovos e/ou vermes. • O ato de coçar essa região pode levar à infecção bacteriana secundária. • Sintomas inespecíficos como dores abdominais, insônia, inapetência e diarreia podem ser mensurados. ▪ Complicações: • Em grandes infecções, o parasita pode provocar enterite catarral por ação mecânica e irritativa • Outros sintomas em uma infecção avançada incluem náuseas, vômitos, dores abdominais e intestinais • O ceco apresenta-se inflamado e apendicites podem ocorrer. • A presença do verme nos genitais femininos pode desencadear: Vulvovaginite, resultando em prurido e secreção; Metrite (inflamação do endométrio); Salpingite (inflamação da tuba uterina); Ovarite (inflamação no ovário). • A literatura também cita casos raros de formações de granulomas por ovos de E. vermicularis no fígado, rins, próstata, ceco e apêndice cecal. Os vermes chegaram ao fígado via sistema porta ao perfurarem a parede cecal. No rim e na próstata, sua entrada ocorreu pela uretra. ➢ Diagnóstico ▪ Diagnóstico Clínico: • Prurido anal noturno e continuado pode levar a suspeita clínica de enterobiose. ▪ Diagnóstico Laboratorial: • O exame parasitológico de fezes (EPF) não funciona bem para essa verminose intestinal, pois a eliminação do E. vermicularis pelas fezes pode ser errática • Quando exames habituais são positivos, frequentemente estão relacionados a um parasitismo intenso, fazendo a passagem do bolo fecal arrastar os ovos junto com as fezes. • O melhor método para diagnosticar laboratorialmente enterobiose consiste no teste da fita adesiva, conhecido também como método de Graham, descrito a seguir: Corta-se 8 a 10 cm de uma fita adesiva transparente; Coloca-se a fita com a parte adesiva para fora, sobre uma superfície vitral e encosta-se várias vezes a fita na região perianal; Por fim, coloca-se a fita sobre uma lâmina de vidro, sem uso de lamínula, e examina-se ao microscópio. exame deve ser realizado ao amanhecer, antes do paciente se banhar, e precisa ser repetido em dias sucessivos, caso o resultado seja negativo. • Material colhido da unha de crianças infectadas pode ser útil para avaliação microscópica, pois frequentemente contém ovos ➢ Tratamento ▪ É o mesmo utilizado na maioria das parasitoses: Albendazol, Ivermectina e Mebendazol. • Pamoato de pirantel: dose de 10mg/kg em dose única, não ultrapassando 1g, VO, preferencialmente em jejum – tratamento de escolha com eficácia em torno de 80-100% de cura com poucos efeitos adversos • Mebendazol: dose de 100mg, dose única com repetição em 2 semanas, administrado VO, independentemente da idade do paciente – possui eficácia de 90-100% de cura, com raros efeitos colaterais • Albendazol: dose única de 400mg, dose única com repetição em 2 semanas, administrado VO, independentemente da idade do paciente – sua taxa de cura fica perto dos 100% com raros efeitos colaterais ▪ Taxa de cura é elevada, acima de 95%. Entretanto, se as pessoas que moram na mesma casa não forem também tratadas, o risco de reinfecção é alto ➢ Prevenção ▪ A roupa de dormir e de cama usada pelo hospedeiro não deve ser sacudida, mas sim enrolada e lavada com água fervente diariamente ▪ Limpar frequentemente superfícies e brinquedos que possam estar contaminados. ▪ Todas as pessoas parasitadas da família devem ser tratadas, com repetição de tratamento medicamentoso duas a três vexes com intervalo de 20 dias ▪ Ensinar as crianças sobre a importância de lavar as mãos e evitar levar as mãos à boca pode reduzir significativamente a propagação da infecção. ▪ Corta as unhas, aplicar pomada mercurial na região perianal ao deitar-se, banho de chuveiro após levantar-se e limpeza doméstica com aspirador de pó ou pano úmido são medidas complementares importantes ❖ Ancylostoma duodenalis (ancilostomíase) ➢ Características do parasita ▪ Ancylostoma duodenalis é um nematódeo que parasita o intestino delgado dos seres humanos, causando a ancilostomíase, também conhecida como "amarelão" ou "doença do Jeca Tatu". ▪ O Necator americanus e Ancylostoma ceylanicum também são ancilostomídeos que infectam o tubo digestivo humano ▪ Morfologia • Ovos Medem 60 µm por 40 µm e formato oval com presença de células embrionárias (4 blastômeros quando recém-eliminados). Possuem dupla membrana e são idênticos em ambas as espécies. • Larvas Rabditoides (L1) Medem 250 a 400 µm e seu esôfago é do tipo rabditoide (com constrição); Possuem vestíbulo bucal longo (a larva de ancilostomídeos apresenta vestíbulo bucal curto). Alimentam-se de algumas bactérias e microrganismos presentes no solo. Filarioides (L3) Medem 700 µm e são características pela presença de uma bainha externa protetora e cauda pontiaguda. O esôfago é reto e ocupa aproximadamente 1/3 do comprimento total da larva. Não se alimentam e necessitam encontrar um hospedeiro em 2 semanas, aproximadamente. • Verme adulto São cilíndricos, de coloração rósea (quando frescos) ou esbranquiçada (pelo uso de fixador). Ancylostoma duodenalis apresenta cápsula bucal grande e profunda com dois pares de dentes. O dimorfismo sexual é evidente, pois as fêmeas são maiores e possuem extremidade posterior afilada e vivem até 2 anos. Machos: têm 8 a 11 mm por 400 µm de largura, e sua extremidade posterior apresenta uma bolsa copuladora. Fêmeas: medem 10 a 18 mm por 600 µm de largura, com postura de até 20 mil ovos/dia. N. americanus possuem duas lâminas cortantes em forma de meia lua dispostas ao redor da cápsula bucal e vivem até 5 anos. Machos: 5 a 9 mm por 300 µm de largura. Fêmeas: 9 a 11 mm por 350 µm de largura, com postura de até 10 mil ovos/dia. ▪ Comportamento • Seu habitat é o intestino delgado, principalmente duodeno, todavia, em casos de infecções maciças, vermes podem ser encontrados no jejuno e íleo. • Os vermes adultos são hematófagos, ou seja, alimentam-se desangue. ➢ Ciclo de vida ▪ O ciclo de vida do ancilostomídeo começa com a liberação dos ovos no ambiente através das fezes de um hospedeiro humano infectado. No solo, esses ovos eclodem, dando origem a larvas rabditiformes, que se transformam em larvas filariformes infecciosas. ▪ Essas larvas podem penetrar na pele humana, geralmente através dos pés descalços em solo contaminado. ▪ Uma vez na pele, as larvas viajam pela corrente sanguínea até os pulmões, onde entram nos alvéolos e, em seguida, são engolidas e alcançam o intestino delgado. ▪ No intestino delgado, as larvas amadurecem em vermes adultos que se fixam à parede intestinal, causando perda de sangue. Em alguns casos, as larvas de A. duodenalis podem permanecer nos tecidos antes de retornarem ao intestino, o que pode atrasar a postura dos ovos. ▪ Após a fertilização, as fêmeas grávidas põem ovos no intestino, que são eliminados nas fezes. Esses ovos se tornam detectáveis nas fezes após algumas semanas. ▪ A maioria dos vermes adultos é eliminada do corpo em um a dois anos, mas a infecção pode persistir por muitos anos. ➢ Epidemiologia e transmissão ▪ A ancilostomíase atinge estimados 576 milhões de pessoas em todo o mundo e incide principalmente sobre as populações mais pobres e desfavorecidas. ▪ O A. duodenalis é predominante em regiões de clima temperado enquanto o N. americanus predomina em regiões de clima tropical. ▪ o Ancylostoma ceylanicum, um tipo de verme encontrado em cães e gatos, que pode causar infecções em humanos. Essa espécie é particularmente prevalente na Índia, no Sudeste Asiático, na Austrália tropical e em algumas ilhas do Pacífico. ▪ Suas larvas desenvolvem-se bem em solos arenoargilosos, permeáveis, ricos em matéria orgânica e com alta umidade. Sem essas condições, os ovos não sobrevivem no meio externo. ▪ No Brasil, cerca de 70% dos casos de ancilostomose são causados por Necator americanus, os quais predominam em áreas rurais, desprovidas de saneamento ambiental e cuja população têm o hábito de andar descalça. ▪ Formas de contaminação • O homem adquire infecção através de penetração ativa das larvas filarioides L3 (infectantes) na pele ou de sua ingestão (contaminação via oral, principalmente por Ancylostoma duodenalis). • Essas larvas produzem enzimas que facilitam sua penetração na pele/mucosas, que ocorre principalmente na região dos tornozelos e pés. ➢ Patologia, patogenia e quadro clínico ▪ Fatores como a espécie do agente etiológico, a carga parasitária, idade e estado nutricional do hospedeiro relacionam-se diretamente com as manifestações clínicas, especialmente com a anemia. ▪ A infecção por ancilostomídeos é frequentemente assintomática. Contudo, exantema papulovesicular pruriginoso transitório (coceira da terra) pode se desenvolver no local da penetração da larva, geralmente nos pés. ▪ A migração de um grande número de larvas através dos pulmões ocasionalmente provoca a síndrome de Löeffler, com tosse, eosinofilia, sibilos e, às vezes, hemoptise. ▪ Quadro Clínico e Patogenia • O quadro clínico pode variar desde a ausência de sinais e sintomas até situações de gravidade extrema. • Fase aguda Alterações cutâneas: pode haver presença de lesões traumáticas no local de penetração das larvas, com fenômenos vasculares associados à sensação de picada, com hiperemia, edema e prurido. A lesão na pele pode desaparecer ou desenvolver pústulas principalmente devido ao ato de coçar, sendo que a gravidade e a quantidade das lesões dependem do número de larvas invasoras, além disso, elas se apresentam maiores em reinfecção ou por reação de hipersensibilidade. Alterações pulmonares: são pouco usuais, embora o indivíduo possa apresentar tosse seca de curta ou longa duração, febre baixa, rouquidão e dispneia. Alterações gastrointestinais: podem ser percebidas após a chegada do parasita ao intestino delgado e a fixação do verme à mucosa intestinal pode determinar lesões inflamatórias que se manifestam por dor epigástrica, diminuição do apetite, indigestão, cólica, indisposição, náuseas, vômitos, flatulências, podendo ocorrer diarreia sanguinolenta ou não. Outro sintoma comumente relatado é o apetite deflagrado principalmente por geofagia, provavelmente explicado por anemia e desnutrição. • Fase crônica As mais importantes são as alterações de caráter crônico, decorrentes da perda contínua de sangue para o parasita em sua fixação espoliadora. Estima-se que o N. Americanus retire até 0,04 mL de sangue por dia e A. duodenalis até 0,3 mL de sangue/dia. A gênese da anemia também é intensificada em dietas pobres em ferro, sendo que a manifestação de anemia em ancilostomíase é produto da equação: reservas de ferro insuficientes + elevada carga parasitária = anemia. Dependendo da carga parasitária, podem ocorrer quadros de hipoproteinemia com hipoalbuminemia em razão das perdas fecais de proteína, agravadas em dietas inadequadas. Estima-se que 50 vermes sejam suficientes para iniciar quadros de anemia leve; 200 a 500 vermes causem anemia moderada e parasitoses com mais de 500 vermes resultem em anemia severa. Em cargas elevadas de ancilostomídeos, nas quais há eliminação de mais de 10.000 ovos por grama nas fezes do hospedeiro, desenvolve-se a anemia hipocrômica e microcítica, que costuma se manifestar em lassidão, dispneia, taquicardia, cefaleia e até sopros cardíacos e edema dos membros inferiores. • Complicações: Em casos fatais por A. duodenalis, os exames post mortem revelaram jejunite e jejuno- ileíte, com ulcerações, severas hemorragias, supuração, necrose, gangrena e raramente peritonite fibrinopurulenta. ➢ Diagnóstico ▪ Diagnóstico Clínico: • O da fase aguda se faz por meio da associação, quando possível, das alterações cutâneas, pulmonares e abdominais descritas no quadro clínico acima. • Na fase crônica, a anemia pode ser acentuada originando cansaço e desânimo, palidez cutânea e mucosa e baixa resistência a outras infecções. ▪ Diagnóstico Laboratorial: • O Exame Parasitológico de Fezes para busca de ovos de ancilostomídeos é fundamental para a comprovação a suspeita clínica. • Como os ovos de Ancylostoma duodenais e Necator americanus são idênticos, apenas com esse exame não é possível diferenciá-los. Assim, a identificação do gênero poderá ser realizada com o achado de vermes adultos. • Os ovos geralmente se tornam detectáveis nas fezes cerca de oito semanas após a infecção por N. americanus e até 38 semanas após a infecção por A. duodenalis. No entanto, o exame de fezes não é eficaz antes do estabelecimento da doença no trato gastrointestinal, o que inclui os estágios iniciais da infecção na pele, nos pulmões ou no intestino. • Técnicas Diagnósticas: O método padrão para diagnosticar ancilostomose é a técnica de Kato- Katz, embora outras técnicas, como a flotação com nitrato de sódio, FLOTAC e mini- FLOTAC, também sejam utilizadas. A PCR (reação em cadeia da polimerase) é uma técnica molecular mais sensível e específica que está se tornando mais acessível comercialmente. • O Hemograma identificará eosinofilia acentuada na fase aguda e anemia na fase crônica – A presença inexplicável de eosinofilia no sangue pode ser um indicador importante de infecção parasitária, incluindo ancilostomose. Os níveis de eosinófilos no sangue geralmente aumentam durante a infecção e podem permanecer elevados por vários anos se a infecção não for tratada. • Em casos graves ou específicos, os ancilostomídeos podem ser detectados durante uma endoscopia, quando estão aderidos à mucosa gástrica ou do intestino delgado. ➢ Tratamento ▪ Os fármacos de primeira escolha são Mebendazol ou Albendazol (a partir dos 2 anos de idade). • Albendazol, 400 mg por via oral em dose única – possui alta eficácia • Mebendazol, 100 mg por via oral duas vezes por dia por3 dias, ou 500 mg em dose única – eficaz, especialmente se administrado em três dias • Pamoato de pirantel, 11 mg/kg (dose máxima de 1 g) por via oral uma vez ao dia, durante 3 dias – eficácia aceitável • Ivermectina – possui baixa eficácia contra a ancilostomose • Esses fármacos só devem ser utilizados na gestação se os benefícios superam os riscos • Ivermectina, um anti-helmíntico comum, não é eficaz para a infecção intestinal por ancilostomídeos. • São necessários apoio geral e correção da anemia por deficiência de ferro se a infecção for intensa. ▪ Conforme a padronização recomendada pela Federação Latino-americana de Parasitologistas, a avaliação de cura para ancilostomíase deve ser realizada mediante exame de três amostras de fezes aos 15 ou 20 dias após o tratamento. ▪ Se necessário, a reposição de ferro e suplementação proteica e vitamínica devem fazer parte da estratégia terapêutica ➢ Prevenção ▪ A prevenção da ancilostomose envolve medidas de higiene pessoal, saneamento e controle ambiental. Algumas estratégias eficazes para prevenir essa infecção são: • Melhorar o saneamento básico Implementar sistemas de esgoto eficientes para evitar a contaminação do solo com fezes humanas. Garantir que as águas residuais sejam tratadas adequadamente antes de serem liberadas no meio ambiente. • Práticas de higiene pessoal Lavar as mãos com água e sabão regularmente, especialmente após usar o banheiro, antes de comer e antes de preparar alimentos Evitar andar descalço em áreas onde o solo possa estar contaminado com fezes e usar calçados apropriados em ambientes externos. Usar luvas ao manipular objetos possivelmente contaminados, ou mesmo solo contaminado • Controle ambiental Garantir que parques, praias e áreas de recreação estejam livres de contaminação fecal. Desparasitar regularmente cães e gatos, pois eles também podem ser hospedeiros de ancilostomídeos. • Tratamento de áreas contaminadas Em áreas endêmicas, é importante tratar o solo contaminado com fezes humanas através de medidas como a construção de sanitários e o uso de técnicas de compostagem para eliminar os ovos dos parasitas. • Desparasitação e tratamento de casos Identificar e tratar rapidamente os casos de ancilostomose para prevenir a disseminação. Realizar exames de fezes periódicos em populações de risco para detectar e tratar precocemente a infecção Nas áreas endêmicas, a desparasitação regular de grupos de risco com Albendazol, incluindo crianças, gestantes e mulheres em idade fértil, pode prevenir e reverter a desnutrição, a anemia por deficiência de ferro, o crescimento prejudicado e o baixo desempenho escolar. ❖ Strongyloides stercoralis (Estrongiloidíase) ➢ Características do parasita ▪ Strongyloides stercoralis é um parasito oportunista, geohelminto e comum no intestino humano, sendo o menor dos nematódeos parasitas. ▪ Morfologia • Ovos São elípticos, com 0,05 mm de comprimento e 0,03 mm de largura. Possuem paredes finas e são facilmente confundidos com os ovos de ancilostomídeos. Sua observação nas fezes é rara, e ocorre principalmente em casos de diarreia prolongada e uso de laxantes • Larvas Larvas rabditoides 0,02 mm de comprimento e 0,015 mm; O esôfago é do tipo rabditoide – apresenta constrição – e o vestíbulo bucal é curto; Terminam em cauda pontiaguda; Larvas ágeis e com movimentos ondulatórios; As larvas originadas da fêmea partenogênica são encontradas nas fezes; O fato de serem liberadas, frequentemente, dentro do hospedeiro, faz com que sejam importantes no diagnóstico; Nas formas disseminadas podem ser encontradas na bile, no líquido cefalorraquidiano, no escarro, na urina e nos líquidos pleural e duodenal. Larvas filarioides 0,4 mm de comprimento e 0,02 mm de largura; Esôfago longo e reto; A porção anterior é afilada e porção posterior afina- se até terminar em duas pontas, formando a cauda entalhada; É a forma infectante da espécie, encontrada no ambiente e capaz de penetrar na pele e nas mucosas; Em alguns casos, pode evoluir dentro do hospedeiro, causando casos de autoinfecção interna. • Vermes adultos Fêmeas partenogenéticas parasitas: Triploides (3n) 2 mm de comprimento por 0,04 mm de largura Corpo de aspecto filiforme, com extremidade anterior arredondada e posterior afilada Apresentam cutícula fina e transparente Vivem fixadas à mucosa do intestino delgado Eliminam na mucosa o ovo já larvado Podem gerar três tipos de larvas rabditoides: a triploide, que origina a larva filarioide infectante; a diploide, que origina a fêmea de vida livre; e a haploide, que origina o macho de vida livre. As formas de vida livre participarão do ciclo evolutivo indireto. Fêmea de vida livre: Corpo de aspecto fusiforme 1 mm de comprimento e 0,06 mm de largura A extremidade anterior é arredondada e a posterior é afilada Apresenta receptáculo seminal Macho de vida livre: Corpo de aspecto fusiforme 0,7 mm de comprimento e 0,04 mm de largura Extremidade anterior arredondada e posterior recurvada ventralmente. O canal ejaculador se abre na cloaca Apresentam dois espículos que auxiliam na cópula ▪ Comportamento • As fêmeas partenogenéticas geralmente estão localizadas na parede intestinal, mergulhadas nas criptas da mucosa duodenal, especialmente nas criptas de Lieberkhün e na porção superior do jejuno, na qual ocorre a postura dos ovos. • Em casos de infecções maciças, são encontradas desde a porção pilórica do estômago até o intestino grosso. ➢ Ciclo de vida ▪ O ciclo de vida de Strongyloides stercoralis é complexo, com duas opções principais: vida livre e parasitária. ▪ Fase de vida livre: No ambiente externo, as larvas rabditoides (L1) se desenvolvem em vermes adultos de vida livre, machos e fêmeas, que se reproduzem e geram mais larvas rabditoides (não infectantes). ▪ Fase parasitária: As larvas rabditoides (L1) também podem se desenvolver em larvas filarioides (L3), que são infectantes. Elas podem penetrar a pele de um hospedeiro humano, geralmente pelos pés, e iniciar a fase parasitária. ▪ Penetração cutânea e migração: As larvas filarioides (L3) entram pela pele, migram pelo sistema venoso até os pulmões, onde penetram nos sacos aéreos alveolares, que então sobem na árvore traqueobrônquica e são engolidas, chegando ao intestino delgado, onde as fêmeas adultas se estabelecem. ▪ As larvas amadurecem em vermes adultos que se prendem na mucosa do duodeno e do jejuno e, na ausência de adultos do sexo masculino, as fêmeas adultas patogênicas produzem ovos, a partir dos quais larvas não infecciosas (larvas rabditiformes) se desenvolvem dentro do lúmen do trato gastrointestinal, que geralmente são eliminadas nas fezes ▪ A duração do ciclo desde a penetração dérmica de larvas filarioides até o aparecimento de larvas rabditiformes nas fezes é de aproximadamente 3-4 semanas ▪ Autoinfecção: As larvas filarioides (L3) podem se desenvolver no próprio intestino do hospedeiro e reiniciar o ciclo, sem precisar sair do corpo, levando a infecções crônicas e de longa duração ▪ A transformação de larvas rabditiformes em larvas filarioides dentro do trato gastrointestinal pode ser acelerada por constipação, divertículos ou outras condições que reduzem a motilidade intestinal e uso de esteroides ou outros agentes imunossupressores. ➢ Epidemiologia e transmissão ▪ Esse parasito tem distribuição mundial, mas está presente principalmente em regiões tropicais e subtropicais. ▪ A prevalência global é estimada em pelo menos 100 milhões de casos. ▪ Atinge sobretudo as crianças e as áreas endêmicas geralmente coincidem com países em desenvolvimento. ▪ A estrongiloidíase é umimportante problema médico devido à facilidade de transmissão, à gravidade da autoinfecção e às várias complicações que pode causar em pacientes imunodeprimidos. ▪ Cães, gatos e macacos também podem ser infectados pelo Strongyloides stercoralis, tornando-se reservatórios da parasitose. ▪ Fatores que influenciam a disseminação da estrongiloidíase incluem: • Contaminação do solo com fezes de humanos e animais infectados; • Presença de larvas infectantes (filarioides) no solo, solos úmidos e pouco iluminados; • Temperaturas altas; • Condições sanitárias ruins e falta de higiene; • Contato com alimentos e água contaminados por fezes; • Falta da utilização de calçados. ▪ Formas de contaminação • Heteroinfecção: Larvas filarioides infectantes penetram na pele e nas mucosas. • Autoinfecção externa: Ocorre em indivíduos já contaminados. Larvas rabditoides presentes na região perianal se transformam em larvas filarioides infectantes e ali mesmo penetram. – Isso acontece sobretudo com idosos e crianças que usam fraldas ou quando a higienização da região anal é insuficiente. • Autoinfecção interna: Ocorre quando larvas rabditoides se transformam em filarioides infectantes ainda no intestino, penetrando na mucosa. A autoinfecção interna pode manter a parasitose por muitos anos, sendo responsável pela cronicidade da doença, ou pode causar um aumento no número de parasitos no intestino e nos pulmões, fenômeno conhecido como hiperinfecção. – A forma disseminada ocorre quando a parasitose se espalha por diversos órgãos. ▪ Pessoas que vivem em áreas de baixa condição sanitária, trabalhadores rurais, agricultores e indivíduos imunossuprimidos, como aqueles que recebem tratamento com corticosteroides, estão em maior risco de desenvolver formas graves da infecção. ➢ Patologia, patogenia e quadro clínico ▪ Quadro Clínico: • Depende da carga parasitária, da resposta imunológica do hospedeiro e de seu estado nutricional. • Pacientes com pequena carga parasitária geralmente são assintomáticos. • Os casos graves e fatais devem-se principalmente à hiperinfecção e à forma disseminada. • O parasito tem ação mecânica, traumática, irritativa, tóxica e antigênica sobre os tecidos humanos. Os sintomas podem ser: Cutâneos: são mais comuns em casos de reinfecções e causa lesões com eritema, prurido e pápulas hemorrágicas, além de poder ocorrer migração de larvas filarioides no tecido subcutâneo, formando um padrão linear ou tortuoso sob a pele e causando prurido. Essa lesão é denominada larva currens. Pulmonares: está associada ao número de larvas e ocorre com ou sem expectoração, febre, dispneia e crises asmatiformes, sendo que a travessia das larvas pode causar infiltrado inflamatório, provocando broncopneumonia, síndrome de Löeffler, edema pulmonar e insuficiência respiratória. Intestinais: o parasito pode causar Enterite catarral – reação inflamatória com grande produção de muco para a expulsão do parasito, o que leva à diarreia com muco; Enterite edematosa – os parasitos são encontrados em todas as camadas da parede intestinal, e a inflamação resulta na síndrome da má absorção; Enterite ulcerosa – há invasão bacteriana secundária e a cicatrização da parede intestinal causa um endurecimento irreversível e posterior alterações no peristaltismo, como íleo paralítico, que leva à constipação. Os sintomas incluem: dor epigástrica antes das refeições, diarreia em surtos, náuseas, vômitos, plenitude pós-prandial, pirose (esse último conjunto de sintomas simula uma úlcera péptica), esteatorreia, desidratação, entre outros Gerais: ocorrem na estrongiloidíase crônica e incluem anemia, insônia, astenia, sudorese, tontura, inapetência e irritabilidade. Forma disseminada: ocorre em pacientes imunocomprometidos e é a forma mais extrema da doença, com sintomas severos em órgãos como (além da pele, intestino e pulmão) o fígado, a vesícula biliar, a tireoide, os rins, o cérebro, o pâncreas, o coração, as glândulas adrenais, a próstata, as mamas e os linfonodos. ▪ A imunodeficiência dos pacientes com formas graves de estrongiloidíase é causada por fatores como alcoolismo, linfomas, leucemias, carcinomas, subnutrição, diabetes melito, transplante renal, HIV, AIDS, uso de corticoides e outros imunossupressores. ▪ Os corticosteroides exercem um efeito de estimulação sobre as larvas intestinais, acelerando sua conversão de rabditoide para filarioide, o que favorece a autoinfecção. ➢ Diagnóstico ▪ Diagnóstico clínico • Realizar o diagnóstico clínico não é muito fácil. • Observam-se os sintomas normalmente ligados à ingestão alimentar, como dor epigástrica antes das refeições, diarreia em surtos, náuseas e vômitos, plenitude pós-prandial e pirose. A esses, ligam-se os sintomas pulmonares, cutâneos e intestinais. ▪ Diagnóstico laboratorial • O exame de fezes é o mais utilizado, no qual pesquisam-se larvas rabditoides em fezes sem conservantes, colhidas em dias alternados. • É fundamental saber diferenciar as formas morfológicas do S. stercoralis e do ancilostomídeo, pois elas possuem muitas semelhanças. ▪ Outros exames: • Coprocultura: indicada quando o exame de fezes é repetidamente negativo ou quando há pouca quantidade de fezes. • Pesquisa de larvas em secreções e outros líquidos orgânicos, como escarro, lavado bronco pulmonar, liquor, líquido ascítico, líquido pleural, urina e líquido duodenal. • Endoscopia digestiva: permite a avaliação da mucosa duodenal e realização de biópsia. • Biópsia: Em casos de hiperinfecção, larvas podem ser encontradas em tecidos extra intestinais, como pele ou pulmões. • Métodos indiretos: raio-X de tórax para identificação da síndrome de Löeffler, métodos imunológicos como Elisa e exame PCR (reação em cadeia polimerase). ➢ Tratamento ▪ Dos parasitos nematódeos é o de mais difícil tratamento. ▪ Recomenda-se verificação da eficácia do tratamento com pesquisa de larvas nas fezes no 7º, 14º e 21º dia após o tratamento. ▪ Os medicamentos podem ser: • Tiabendazol: atua sobre fêmeas partenogenética, sendo usado 2 vezes por dia por 3 dias, com repetição em 15 e 20 dias – A eficácia varia de 90 a 95%. • Cambendazol: atua sobre fêmeas partenogenéticas e larvas, sendo a dose é de 5 mg por Kg – eficácia chega a 90%. • Albendazol: atua sobre fêmeas partenogenéticas e larvas – eficácia varia de 90 a 95%, com melhores resultados quando utilizado por 3 dias. • Ivermectina: eficácia em torno de 80 a 100%. Dose única. ➢ Prevenção ▪ Devem ser adotadas as medidas de controle de geohelmintos, como lavagem de alimentos, utilização de calçados, educação e engenharia sanitária e alimentação saudável. - Evitar andar descalço em áreas onde a infecção é endêmica é a principal medida preventiva. ▪ Melhorias nas condições sanitárias, como o tratamento adequado de esgotos e o acesso a água potável, são essenciais para reduzir a transmissão da estrongiloidíase. ▪ Conscientização da população sobre os modos de transmissão e a importância de medidas preventivas pode reduzir a propagação da infecção. ▪ Deve-se tratar todos os indivíduos parasitados da família, mesmo que assintomáticos, e eliminar as possíveis fontes de infecção. ▪ Em indivíduos imunodeprimidos, principalmente aqueles com AIDS, é recomendado o uso profilático de tiabendazol por dois a três dias todo mês, para evitar recidivas da estrongiloidíase. ❖ Onchocerca volvulus (oncocercose) – foi erradicada? ➢ Características do parasita ▪ Doença parasitária crônica também chamada de "cegueira dos rios" ou "mal do garimpeiro" decorrente da infecção produzida pelo nematódeo Onchocerca volvulus, que se instala no tecido subcutâneo das pessoas atingidas. ▪ Doença tropical negligenciada que afeta principalmente a pele e os olhos. ▪ Morfologia • Larvas As microfilárias, forma larval doparasita, medem cerca de 300 micrômetros e são responsáveis pela maioria dos sintomas clínicos. São delgadas e rombas em ambas extremidades • Verme adulto Os vermes adultos vivem em nódulos subcutâneos, chamados de oncocercomas. Fêmeas Medem entre 30 a 50 cm de comprimento O órgão genital fica logo atrás da extremidade posterior do esôfago Machos São menores, com cerca de 2 a 5 cm A extremidade posterior é curvada ventralmente As microfilárias são desembainhadas ▪ Comportamento • Os vermes adultos formam nódulos subcutâneos onde se reproduzem, liberando milhares de microfilárias. • As larvas encontram-se amarradas em pares ou grupos nos tecidos subcutâneos • As microfilárias se dispersam pela corrente sanguínea e pelos tecidos, especialmente na pele e nos olhos, onde podem causar sérios danos. ➢ Ciclo de vida ▪ O ciclo de transmissão se inicia quando o inseto pica uma pessoa infectada e suga microfilárias juntamente com o sangue. ▪ Ocorre então uma maturação das microfilárias no interior do inseto, transformando-se em formas infecciosas (as microfilárias se transformam em larvas infectantes (L3) em cerca de 10 dias) e numa próxima picada do inserto, o parasita é injetado na circulação do indivíduo. ▪ As larvas migram para o tecido subcutâneo, onde amadurecem em vermes adultos em cerca de um ano. Os vermes adultos formam nódulos subcutâneos, onde os machos fertilizam as fêmeas e essas passam a produzir um número muito grande de microfilárias, as quais se disseminam por todo o corpo e, eventualmente, podem causar alterações na córnea e consequente cegueira. ▪ Além disso, é comum a presença de lesões dermatológicas e de nódulos subcutâneos. ➢ Epidemiologia e transmissão ▪ A oncocercose é endêmica principalmente na África Subsaariana, onde se concentra a maioria dos casos. ▪ Existem focos menores nas Américas, particularmente na América Central e no norte da América do Sul, e no Iêmen. ▪ No Brasil, a área endêmica está restrita à Terra Indígena Yanomami em área fronteiriça com a Venezuela, na região norte do país, nos estados do Amazonas e Roraima ▪ Atualmente, a oncocercose está em fase de pré-eliminação. Não há registros de casos sintomáticos no Brasil entre o período de 2000 a 2018. Apenas uma proporção de portadores assintomáticos de microfilárias na pele, com baixas densidades da parasitemia detectada nas áreas-sentinela ▪ Em outras avaliadas fora das áreas-sentinela, não foram encontradas pessoas parasitadas, revelando assim resultados altamente satisfatórios da intervenção de tratamento. ▪ A transmissão da oncocercose se dá pela picada do inseto Simulium (borrachudo ou pium, mosca negra), que se reproduz em rios de correnteza rápida – O contato repetido com picadas de moscas infectadas é necessário para que ocorra uma infecção significativa ▪ Pessoas que vivem ou trabalham perto de rios em áreas endêmicas são as mais afetadas, especialmente agricultores e pescadores. ▪ Comunidades rurais em áreas próximas a rios de águas rápidas são grupos de risco, principalmente em regiões com pouca ou nenhuma intervenção de saúde pública. ➢ Patologia, patogenia e quadro clínico ▪ A oncocercose resulta de uma resposta inflamatória crônica causada pelas microfilárias. As microfilárias que migram pela pele e pelos olhos provocam danos diretos e reações imunológicas intensas, causando fibrose e destruição tecidual. ▪ Patogenia • Fase cutânea: As microfilárias que migram pela pele causam uma série de lesões, incluindo erupções, despigmentação e espessamento da pele. Isso leva ao aparecimento de "pele de lagarto" e áreas de hiperpigmentação. • Fase ocular: A migração das microfilárias para os olhos causa inflamação severa, que pode resultar em ceratite (inflamação da córnea), uveíte (inflamação da camada média do olho) e, eventualmente, cegueira. Queratite pontilhada (floco de neve): um infiltrado inflamatório agudo ao redor de microfilárias agonizantes que se resolve sem causar dano permanente Queratite esclerosante: um tecido cicatricial fibrovascular que pode provocar subluxação do cristalino e cegueira Uveíte anterior ou iridociclite: pode deformar a pupila • Nódulos subcutâneos: Os vermes adultos formam nódulos duros sob a pele, onde permanecem por anos. Estes nódulos são inofensivos, mas são um sinal característico da infecção ▪ Quadro clínico • Após cerca de um ano de infecção começam a aparecer reações às formas adultas do parasita, gerando nódulos subcutâneos palpáveis e móveis (oncocercomas). • No interior desses nódulos encontram-se os parasitas no estágio adulto que produzem as microfilárias. Essa produção de microfilárias pode levar a sintomas mais graves, tais como: Prurido (coceira); Exantemas cutâneos (erupção na pele); Perda de elasticidade da pele; Pápulas; Áreas da pele com despigmentação; Febre. • No caso das microfilárias migrarem para os olhos, pode ocorrer perda parcial da capacidade visual e até cegueira total. – Os primeiros sinais incluem inflamação e fotofobia (sensibilidade à luz), podendo evoluir para perda progressiva da visão. ➢ Diagnóstico ▪ Diagnóstico clínico: • O diagnóstico suspeito é feito com base em sintomas cutâneos e oculares em pessoas que vivem ou viajaram para áreas endêmicas. • A presença de nódulos subcutâneos e lesões cutâneas sugestivas é um forte indicativo da infecção. ▪ Diagnóstico complementar: • Exame de pele (biopsia de pele ou "skin snip"): Amostras de pele são retiradas e examinadas microscopicamente para a presença de microfilárias. – Principal método diagnóstico. • Exame oftalmológico: Um exame detalhado dos olhos pode revelar microfilárias nos tecidos oculares, bem como sinais de inflamação crônica. • Sorologia: Testes sorológicos para detecção de anticorpos contra O. volvulus podem ser úteis, especialmente em áreas onde os métodos diretos de diagnóstico são limitados. • Ultrassonografia: Pode ser usada para identificar vermes adultos nos nódulos subcutâneos. ➢ Tratamento ▪ Ivermectina: É o tratamento de escolha, administrado em doses únicas repetidas (150-200 μg/kg) a cada 6 ou 12 meses – A ivermectina mata as microfilárias, mas não elimina os vermes adultos, sendo necessário repetir o tratamento por vários anos. ▪ Doxiciclina: A doxiciclina (100 mg por dia, durante 4-6 semanas) tem sido usada para eliminar a bactéria simbiótica Wolbachia, que vive nos vermes adultos e contribui para sua sobrevivência – Isso pode levar à morte dos vermes adultos a longo prazo. ▪ Tratamento cirúrgico: Em alguns casos, pode ser necessária a remoção cirúrgica dos nódulos subcutâneos que contêm os vermes adultos, especialmente em áreas que causam desconforto ou estão próximas aos olhos ➢ Prevenção ▪ Controle do vetor: Reduzir a população da mosca negra através de inseticidas nas áreas de reprodução (próximas a rios) é uma medida eficaz de controle da transmissão. ▪ Tratamento em massa: Programas de distribuição de ivermectina em massa em áreas endêmicas são fundamentais para reduzir a carga parasitária na população e evitar a cegueira dos rios. ▪ Uso de roupas protetoras: Vestir roupas que cubram a pele exposta e usar repelentes de insetos pode ajudar a reduzir o risco de picadas da mosca negra em áreas endêmicas. ▪ Educação em saúde: Conscientizar as comunidades afetadas sobre a importância do tratamento e das medidas preventivas ajuda a reduzir a transmissão da oncocercose.