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Fundamentos socioantropológicos da
educação
Apresentação de linhas de Ciências Sociais aplicadas à Educação por intermédio do professor, com o uso
do conhecimento sociológico e antropológico em seu cotidiano.
Prof. Rodrigo dos Santos Rainha
1. Itens iniciais
Propósito
Oferecer instrumentos teóricos, por meio da Antropologia e da Sociologia, que permitam a reflexão sobre
Educação, práticas docentes e cotidiano escolar.
Objetivos
Identificar as principais linhas sociológicas aplicadas à Educação.
Relacionar a Escola com alguns conceitos fundamentais da Antropologia.
Identificar a relação entre Educação e Ciências Sociais no cotidiano escolar.
Introdução
Quem é você? Como funciona sua sociedade?
Quais são as regras dos ambientes em que você convive?
Em um antigo comercial, o exercício do conhecimento era definido como: “não são as respostas que movem o
mundo. São as perguntas”. Essa provocação vai guiar nosso estudo.
“não são as respostas que movem o mundo. São as perguntas”
Campanha publicitária do Canal Futura sobre o filme Perguntas. 
Quando convivemos, podemos vivenciar o espaço social de forma recorrente, mas tendemos a não pensar
sobre ele. Geralmente, não refletimos sobre como foram definidas suas regras e como alguns
comportamentos passaram a ser naturalizados ou negados. Ao estudar sobre as sociedades, somos
provocados a perceber que todo o palco de relações humanas é composto por construções sociais.
 
Neste tema, analisaremos como o conhecimento sobre as Ciências Sociais pode ser fundamental para
compreender o que representa a Escola, sua relação com a Educação e a dinâmica de como o professor, ao se
instrumentalizar com conceitos desse campo, torna-se mais bem preparado para a atuação docente.
Construções sociais
Compreendida como a ideia de que uma composição social não é algo natural, mas organizada, pensada,
“criada” no limite pelo conjunto das interações humanas.
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1. As principais linhas sociológicas aplicadas à Educação
Sociologia: o contexto histórico do nascimento da nova
ciência
Dividimos a construção deste módulo em duas partes: conheceremos a história e depois apresentaremos os
principais conceitos da Sociologia, sempre relacionando-os com a Educação. Vamos lá!
 
Assista ao vídeo que aborda a importância de Ciências Sociais para a Educação – com um olhar especial para
Durkheim, Weber e Marx.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
A Sociologia é uma ciência relativamente nova – do século XIX – e surgiu em um contexto de intensas
transformações na sociedade. Para conhecermos as origens da Sociologia, é necessário considerarmos
alguns fatores históricos que desencadearam a construção dessa nova proposta científica de análise e
compreensão da sociedade.
Séculos XV a XVI
Renascimento
Movimento intelectual que propunha romper com as tradições intelectuais medievais, retomando
ideias do mundo grego.
Séculos XVI a XVIII
Mercantilismo
Estrutura econômica que fortalecia o papel dos governos na economia, provocando acúmulo de
capital.
Séculos XVII a XIX
Iluminismo
Movimento filosófico que se propunha a questões sobre o funcionamento social, debates abordando
formas políticas, sociais e econômicas.
Séculos XVIII a XIX
Revolução Francesa
Marco de ruptura burguesa assumindo o poder. Tem reflexos nas independências das Américas e na
mudança de sistemas políticos e econômicos por toda a Europa, consolidando o pensamento
iluminista como símbolo de um novo mundo.
Cada um desses movimentos faz parte do processo de construção e reconstrução do olhar do homem sobre
si mesmo e sobre o mundo que o cerca.
O Renascimento marcou a entrada da Europa, até então medieval, na Idade Moderna, com o resgate de
referências da Antiguidade Clássica em diversas esferas da cultura e da sociedade: Artes, Ciência e Filosofia.
 
A partir dessa revalorização dos elementos da Antiguidade Clássica, o período renascentista foi responsável
pela valorização do conhecimento humano advindo da razão e consequente separação dos dogmas religiosos.
 
O Mercantilismo trouxe mudanças nas relações econômicas e comerciais não apenas na Europa como em
todo o mundo. Essa prática representou rápido desenvolvimento econômico para o continente europeu. A
partir da Expansão Marítima, o poder econômico e comercial do continente se intensificou com a exploração
de territórios, povos, rotas comerciais.
 
O Iluminismo, período entre o final do século XVII e início do século XVIII, foi marcado pelos esforços do
homem em analisar a sociedade em que vive sob um novo viés: o científico. Vieram à tona os avanços e
comprometimentos do homem em relação ao estudo de seus modos de vida a partir da Ciência, da pesquisa e
do debate – iniciados no Renascimento.
Iluminismo
Seus pensadores, filósofos e economistas se entendiam como propagadores da luz justamente pelo
compromisso com o conhecimento e sua difusão – daí vem o termo Iluminismo. 
A partir do Iluminismo, ocorreu a principal mudança de perspectiva sobre o homem e seu papel
na sociedade: a propagação do ideal de igualdade entre os homens.
O Iluminismo foi um movimento cultural que surgiu, principalmente, na Inglaterra, Holanda e França e que pode
ser definido pela defesa de que o pensamento racional deveria substituir o misticismo e os dogmas da Igreja.
 
Os novos moldes de pensamento sobre a vida e a sociedade revelavam os anseios da burguesia crescente e a
tendência de rompimento com as estruturas do Antigo Regime. Muitas ideias que surgiram nesse período
fazem parte das bases que utilizamos atualmente para pensar sobre o mundo ao nosso redor.
 
A partir desses elementos, podemos afirmar que o movimento defendia:
 
Antropocentrismo: o homem era o centro do universo.
Valorização da investigação e do questionamento como formas de construção do conhecimento em
todas as áreas – natureza, política, sociedade e economia.
Crença nos direitos.
Liberdade econômica.
Predomínio da classe burguesa.
 
A Revolução Francesa tem destaque quando nos propomos a analisar o contexto histórico do surgimento da
Sociologia. A Revolução, que derrubou o Antigo Regime, possuía como base a rejeição ao modelo de governo
da monarquia e sua manutenção de poder justificado pela vontade divina. Assim, os ideais defendidos pelos
revolucionários estavam alinhados com as novas propostas de pensar o mundo e a sociedade.
 
Nesse contexto, surgiu a Sociologia, apesar de ainda não ser compreendida como ciência. Nasceu com o
pensador francês Auguste Comte (1798-1857), cujas ideias fundamentaram a corrente filosófica do
Positivismo. O Positivismo buscava uma forma de enxergar a sociedade e que ajudasse a trazer estabilidade
nos campos da política, da economia e da sociedade.
Positivismo 
Sistema filosófico elaborado por Comte, baseado na ideia de que a cultura e a sociedade passam por
três estados: o teológico, o metafísico e o positivo. Para Comte, a maturidade e as ciências surgem no
terceiro estágio. A etapa positiva corresponde, então, às ciências positivas, que deveriam ser a base ou
os princípios da organização científica da sociedade. No positivismo, há uma valorização da experiência
sensível (os fatos “positivos”) como principal fonte do conhecimento.
Qual o sentido dessa história?
Essa perspectiva histórica levará você a perceber que as sociedades humanas se tornaram cada vez
mais complexas e, na transição do século XIX para o XX, isso estava muito claro.
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François Marie Voltaire.
Grandes intelectuais se debruçavam sobre as
relações sociais, sobre o seu sentido, como os
indivíduos se relacionavam. Esse campo, dentro
da nova perspectiva de Ciência (afinal, o século
XIX é o século da Ciência), fazia com que os
relatos sobre outras sociedades servissem de
comparativos e, da comparação, emergiam as
concepções universais, com perspectivas
globais que explicariam desde o domínio
europeu até o estudo sobre como as
dominações eram validadas.
Sempre foi difícil defender a Sociologia como
uma ciência,
uma ampla gama de ciências sociais e entender sua relação com a Educação, o
convite é para que você assuma a condição de educador, de professor, usando a velha característica histórica.
Importante
É preciso que você faça um esforço a mais:
tente desnaturalizar sua visão mais recorrente e
pense sobre como as relações do cotidiano
escolar são ricas de possibilidades.
Educação para além dos muros da Escola
Modernamente tão discutida, a Educação assume caráter próprio na abordagem das chamadas ciências
humanas. As reflexões teóricas sobre o assunto, pela visão de autores diversos, apresentam em comum a
característica de identificar a Educação como um componente dos espaços de poder, e dessa forma a
tratamos.
A professora Nilda Alves desenvolve seus trabalhos demarcando o trinômio cultura, Educação e cotidiano. Sua
proposta é compreender como elementos formais são reproduzidos no cotidiano e de que maneira
reconstroem elementos culturais com o objetivo de ensinar suas benesses e restrições no meio social.
Nilda Alves
É professora titular da Faculdade de Educação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Tem
trabalhos notórios sobre cotidianos escolares.
Capa da obra Praticantepensante de Cotidianos, da Professora Nilda Alves
A Escola visa a atender as demandas sociais, gerar conhecimentos, possibilidades, habilidades que os
indivíduos ou o coletivo entendem como necessários. Assim, ela cria o seu espaço de uma educação formal,
curricular. Essa educação formal, no entanto, muitas vezes acaba se distanciando do cotidiano social.
 
Você se lembra das discussões sobre a necessidade de aprender raiz quadrada ou por que estudar História?
Isso é o que chamamos de distanciamento, as pessoas passam a não entender por que a Escola trata de
determinado assunto. Mas é ilusório achar que essa educação formal fica fora da sociedade. Ela acaba
chegando aos espaços assimétricos de educação, reformulados e adaptados. Também é falso que a Escola se
isole em seus conhecimentos, pois a tradição e as trocas sociais sempre chegam a ela, ainda que de forma
adaptada.
 
Nilda Alves traz o conceito de Educação em múltiplos espaços, constituindo um sistema de interações em que
elementos escolares influenciam e são influenciados por um discurso que apresenta, inclusive, características
próximas, mas para espaços e fins diversos. Sua exposição permite que compreendamos os espaços
escolares como imersos na sociedade em que convivem, são transformados e transformam as discussões.
 
As escolas foram espaços de defesa da tradição e de discussão dos fundamentos necessários à civilidade.
Essas características estiveram presentes em discursos não escolares e nas relações dos profissionais da
Educação.
espaços assimétricos de educação
É uma educação sem um condutor, sem uma formalidade de tal construção, mas produzida pelas trocas
sociais. 
(...) é evidente que a história da Educação não se poderia reduzir à das formas escolares (...). Porque as
fontes não escolares são menos seriais e mais dispersas, sem dúvida o historiador percorreu com menos
facilidade esse vasto campo de investigação.
JULIA, 1993.
A Sociologia trabalha com a Educação de forma ampla, independentemente de sua restrição institucional, no
entanto considera que existem fenômenos diversos:
Educação formal
Tem forte tentativa de controle de forma, objetivos e processos – independe do grau de
institucionalização.
Educação informal
As relações não são ordenadas, mas estabelecidas por interesses diversos, fruto das relações sociais
do indivíduo, das afetividades.
Importante
Não crie o sinônimo organizado versus
desorganizado. As duas têm ordenamento, só
que diversos. Ambas são objetos da Sociologia
e o educador precisa saber que seu cotidiano
formal, necessariamente se relaciona a
conceitos informais, gerando o já sinalizado
movimento de troca das escolas.
O desafio é entender a Educação como um processo que ganha aspectos de discurso e se
apresenta nas relações de poder de uma sociedade.
(...) a Educação nunca se restringiu à Escola. Práticas educativas têm ocorrido, ao longo do tempo, fora
dessa instituição e, às vezes, com maior força do que se considera, principalmente em determinados
grupos sociais e em determinadas épocas.
LOPES e GALVÃO, 2001.
Caracterizando Educação
Avançando sobre a construção dessa possibilidade, podemos formular que educar é um processo que
pressupõe como base a intencionalidade do educador. Assim, educar significa:
Ensinar
No sentido de transmitir conteúdo, conduta que o outro deve seguir.
Qualificar
Para que o outro possa ter acesso a locais específicos, aos quais só os que alçam essa nova posição
podem ser considerados de alguma forma aptos.
Esclarecer
Como forma de desfazer dúvidas e iluminar questões obscuras.
Vigiar
À medida que o educador fornece ao educando pressupostos de comportamento, permite ao grupo
dos primeiros o controle frente ao não cumprimento dos comportamentos recebidos.
Disciplinar
Uma vez que o detentor do conhecimento passa a ser o delimitador das regras, permitindo-lhe,
portanto, aplicar punição quando do não cumprimento.
Essas dinâmicas têm ganhado novas possibilidades de análise, por exemplo, com a ideia de mediação, em que
o professor atua como um facilitador para o processo de despertar do aluno. Necessário, mas em processo de
consolidação.
A Educação implica intencionalidade e coerção em consonância com os objetivos do grupo que comanda o
sistema educacional. Nesse ponto, aproximamo-nos do sociólogo Pierre Bourdieu, na medida em que afirma
que a Educação não é um fator transformador, mas, sim, um espaço que introjeta a ordem, estabelece
hierarquias e garante o reconhecimento do poder, não necessariamente modificando-o.
Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu (1930-2002) foi um importante sociólogo e filósofo francês, um dos autores mais lidos
em várias áreas de conhecimento. Foi professor da École de Sociologie du Collège de France.
Pierre Bourdieu
Um conceito muito importante é o da ação pedagógica. Esta ocorre dentro de uma dinâmica em que
necessariamente o autor precisa estar imbuído da preocupação de ensinar. São três passos para a ação
pedagógica:
 
Identificar aquele que se predisporá a educar alguém.
Detectar as necessidades de quem que será ensinado, entendendo o que ele precisa naquele
momento: conteúdos e metodologia adequados.
Definir a forma e os teores que serão ensinados, demarcando as vantagens para que o proposto seja
alcançado e, dependendo da situação, os recursos a serem adotados, caso aquele processo falhe.
A Teoria da Ação
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Ao tratarmos de Educação, devemos considerar um conjunto de valores e hábitos próprios, especificamente
os valores da cultura cristã. Pierre Bourdieu ressalta que a Educação tem o papel de estabelecer ordem, não
necessariamente transformar, mas, sim, introjetar práticas que permitam aos educandos se posicionarem na
sociedade a que pertencem.
 
Assim, fundamentados nas proposições bourdianas, interessam-nos, particularmente, os conceitos de 
habitus, de campo e de capital simbólico, sobre os quais discorreremos brevemente.
Habitus
Ressalta que um grupo é regido por práticas comuns que têm o papel de integrar, fundamentar e legitimar
determinados interesses. Podemos verificar esse conceito como o elo integrador, que aproxima esses
elementos em torno de um conhecimento comum, suas práticas e formas de obtê-las.
Campo
É um espaço que agrupa os membros que compartilham do mesmo habitus, mas que são marcados por
disputas entre dominantes e dominados. É importante salientar que os campos são caracterizados pela
disputa em todos os seus segmentos, não existindo a visão dualista de dominantes e dominados. Pelo
contrário, o campo sobrevive e se modifica pela constante ação dos seus membros, por meio dos confrontos
entre os diversos dominantes e dominados.
Capital simbólico
É um conjunto de bens válidos no mercado interno de cada campo disputado por seus membros como forma
de ascensão na estrutura social. Esse capital
se reflete como um todo no campo. Um grupo terá mais
legitimidade junto à sociedade a partir do momento em que os seus bens simbólicos sejam conhecidos e
reconhecidos pelos demais campos, constituindo nesse reconhecimento o poder simbólico.
 
Bourdieu identifica a Educação como um conjunto de práticas, inscrito no habitus, e pelo qual a intenção dos
dominantes no campo é vender aos demais participantes seu olhar e sua forma de ver o mundo. O autor
rompe com a ideia de a Educação ser um instrumento inovador, mas, sim, uma prática que garante a
reprodução, algo que oferece regras e lógicas às disputas sociais.
Assim, podemos identificar como Educação processos inerentes a diversos espaços da sociedade.
Bourdieu a relaciona com um sistema de legitimidades no interior dos campos de poder.
A Educação tem um compromisso com a reprodução da realidade, afastando-se do caráter transformador que
esta poderia assumir, por exemplo, na teoria marxista. Esse conceito pressupõe o reconhecimento do poder e
do prestígio de determinado campo, quando seu habitus é reconhecido e assimilado pelos demais campos da
sociedade. Esse tipo de concepção aplicado à Idade Média nos permite, em especial, entender a dinâmica de
fortalecimento e afirmação da própria Igreja.
A cidadania
Depois da caracterização, do entendimento da relação entre Educação e Escola, falta um conceito muito
antigo e também bastante atualizado, mas que precisa estar presente no olhar de cada professor: cidadania.
 
O conceito de cidadania é ocidental, inspirado em relações greco-romanas e visava constituir os sujeitos que
tinham direitos políticos e, por causa disso, identificavam-se com aquela cultura e a defendiam. Esse conceito
foi muitas vezes reinventado e ressignificado, mas nunca perdeu sua importância. Em sociedades
contemporâneas, a noção de cidadania ganhou força após os conflitos das guerras mundiais, em especial
quando denunciadas as atrocidades promovidas na guerra e pelo domínio neocolonialista.
A partir do pós-guerra, surge uma perspectiva de mudança da Educação e de seu papel com a
defesa da sua função de fortalecer a autonomia do sujeito e não a naturalização de sua
dominação. Formar um cidadão deixa de ser formar alguém para o coletivo social, para fomentar
a capacidade do sujeito de exercer sua cidadania.
A atualização do conceito, de certa forma, deixa-o móvel, passando o sentido de que formar o cidadão não é
mais instrumentalizá-lo daquilo que seria pressuposto socialmente como verdade, mas, sim, fomentar a
capacidade de formação. A Escola não tem, ou não deveria ter mais, a função de ser um espaço de
“adestramento” dos sujeitos, mas de promover sua autonomia.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Considerando que a sociologia da educação estuda dinâmicas entre a Escola e a sociedade,
analise as afirmativas a seguir:
 
I. A Educação, como processo social global que ocorre em toda a sociedade, deve ser compreendida como um
fenômeno escolar.
II. Os sistemas escolares, ou seja, o conjunto de uma rede de escolas e sua estrutura de sustentação como
partes do sistema social mais global é um objeto possível da sociologia da educação.
III. A Escola como unidade sociológica e a sala de aula como subgrupo de ensino antropológico, assim, a
Escola é entendida como um espaço em que é possível a formalização de pesquisas de ciências sociais.
IV. A sociologia da educação, ainda que compreenda Educação e Escola como fenômenos diversos, analisa
que é fundamental compreender essa relação na diversidade social.
Devem ser consideradas corretas:
A
Somente as sentenças II e IV.
B
Somente as sentenças I e II.
C
Somente as sentenças II e III.
D
Somente as sentenças I e III.
A alternativa A está correta.
Educação e Escola na sua relação com os aspectos sociais são estudadas pela sociologia da educação. A
afirmativa I falha em generalizar Educação e Escola como algo indissociável. Já a terceira tenta criar uma
classificação em modelo de etiquetas que não tem sentido nas ciências humanas. As afirmativas II, que
define bem Escola, e IV, que demonstra a relação entre os dois fenômenos de forma correta, fazem com
que a resposta seja a letra A.
Questão 2
Das afirmativas abaixo, a única que corresponde às contribuições da relação entre a Escola e
a Educação é:
A
Ajuda os alunos de menor rendimento e inadaptação escolar a terem melhores resultados.
B
Esclarece o processo educativo e as relações entre a Escola e a sociedade como um campo de tensão.
C
Explica a influência da Escola no comportamento e na personalidade de seus membros.
D
Permite que se compreenda o papel da Educação na sociedade e em seu desenvolvimento como disciplina
escolar.
A alternativa C está correta.
Quando caracterizamos Escola e Educação, buscamos aplicar as dinâmicas que aprendemos nos módulos
anteriores em Ciências Sociais. Nesse sentido, buscamos que o professor entenda de que forma esse
conhecimento pode favorecer sua atuação escolar. Quando, neste módulo, estudamos o cotidiano e as
relações entre Educação e Escola, conseguimos identificar como esse estudo favorece o docente. Então,
conhecer a relação de Escola e sociedade, a percepção sobre o papel do sujeito em meio ao coletivo na
Educação e o papel da Educação nas relações de poder, são parte dessa caracterização. No entanto,
questões de rendimento escolar não são, necessariamente, oriundas dessa dinâmica.
4. Conclusão
Considerações finais
O tema que acabamos de estudar ofereceu uma visão dos conceitos antropológicos e sociológicos aplicados
à Educação. A partir desse estudo, aqueles que visam à docência podem perceber a possibilidade de
ampliação de sua observação e ação como docente a partir da busca de instrumentos vinculados às Ciências
Sociais.
 
Futuro professor, educar parte de sua intenção, parte de sua formação, sem dúvida. Você precisa ter vontade
de estar ali, precisa entender seus compromissos institucionais, mas não esqueça da demanda dos alunos. É
no aprendizado que você deve focar seu olhar, e o aprendizado, ao mesmo tempo, não é apenas sua
responsabilidade, mas fomentar, levar fundamentos bem estruturados e constituir estratégias é seu ofício.
 
Mais do que isso, lembre-se de que uma aula não é um sonho, não será realizada necessariamente conforme
você planejou e organizou. Ela é uma proposta a ser construída pela sua interação com os alunos e as
demandas e experiências que eles trazem para o ambiente escolar.
 
A proposta deste tema, portanto, é fomentar a reflexão sobre a prática docente e o cotidiano escolar a partir
de autores que pensaram a fundo os conceitos de Sociologia e Antropologia e sua relação com a Educação.
Desse modo, os conceitos teóricos formulados pelas Ciências Sociais, destacando-se a Antropologia e a
Sociologia, permitem observar as relações entre Educação, Escola e prática docente.
Podcast
Para encerrar, ouça sobre os fundamentos socioantropológicos da educação.
Conteúdo interativo
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Fala, mestre!
O vídeo aborda a importância dos tratados de direitos humanos no Brasil, que foram elevados ao nível de
dispositivos constitucionais, tornando seus retrocessos inadmissíveis. Além disso, destaca a trajetória de
protagonismo do Brasil na agenda internacional de direitos humanos, enfatizando sua participação histórica
em conferências e negociações internacionais. O vídeo também ressalta a relevância do multilateralismo na
política externa brasileira, exemplificando com o papel do Brasil na negociação do direito do mar. Por fim,
aborda o impacto dos costumes no direito internacional, evidenciando práticas como a concessão de asilo
diplomático na América Latina.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Explore+
Para saber mais sobre Karl Marx, assista ao filme O jovem Karl Marx, uma produção conjunta de
França, Alemanha e Bélgica, dirigido por Raoul Peck.
Para compreender os ideias positivistas e a idealização de Durkheim, assista ao filme A Onda, uma
produção alemã de 2009,
dirigida por Dennis Gansel.
Para conhecer a complexa relação da Antropologia com a Escola, assista ao filme Faça a Coisa Certa, o
primeiro grande sucesso do diretor norte-americano Spike Lee, em 1989.
Para entender a relação do homem com a cidadania de forma não inocente e idealizada, leia o livro 
Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt.
Para saber mais sobre a cultura europeia ocidental, leia o poema O Fardo do Homem Branco, de
Rudyard Kipling.
Referências
ALVES, N. Sobre movimentos das pesquisas nos/dos/com os cotidianos. In: Revista Teias. Rio de Janeiro, v.4,
p. 1-8, 2007.
 
BOURDIEU, P. Método científico e hierarquia social dos objetos. In: NOGUEIRA, M. A.; CATANI, A. (orgs.). Pierre
Bourdieu. Escritos de Educação. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
 
BOURDIEU. P. Gostos de classe e estilos de vida. In: ORTIZ, R. Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994.
 
DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. 17. ed. Tradução de Maria Isaura Pereira de Queiroz. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 2002. p. 11.
 
DURKHEIM. E. Educação e Sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
 
FREYRE, G. Casa-Grande e Senzala. Rio de Janeiro: Record, 1998.
 
GEERTZ, C. A. Interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1989.
 
GINZBURG, C. O queijo e os vermes. Companhia das Letras: São Paulo, 2006.
 
HARTOG, F. O Olhar Distanciado: Lévi-Strauss e a História. In: Topoi, v. 7, n. 12, jan.-jun. 2006, pp. 9-24.
 
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KUPER, A. Cultura, a visão dos antropólogos. Bauru, SP: EDUSC, 2002.
 
LÉVI-STRAUSS, C. Raça e História. In: Antropologia Estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976.
 
LOPES, E. M. T.; GALVÃO, A. M. O. História da Educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
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NOGUEIRA, M. A. Educação, saber, produção em Marx e Engels. São Paulo: Cortez, 1990.
 
MARX, K.; ENGELS, F. O Capital–Livro I, Volume I. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
 
RODRIGUES, A. T. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Lamparina, 2007.
 
WEBER, M. Ensaios de Sociologia. São Paulo: LTC, 2002.
 
WEBER, M. A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
	Fundamentos socioantropológicos da educação
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Objetivos
	Introdução
	Quem é você? Como funciona sua sociedade?
	Quais são as regras dos ambientes em que você convive?
	1. As principais linhas sociológicas aplicadas à Educação
	Sociologia: o contexto histórico do nascimento da nova ciência
	Conteúdo interativo
	Séculos XV a XVI
	Renascimento
	Séculos XVI a XVIII
	Mercantilismo
	Séculos XVII a XIX
	Iluminismo
	Séculos XVIII a XIX
	Revolução Francesa
	A partir do Iluminismo, ocorreu a principal mudança de perspectiva sobre o homem e seu papel na sociedade: a propagação do ideal de igualdade entre os homens.
	Qual o sentido dessa história?
	Sociologia e Educação
	A Sociologia da Educação parte do princípio de que a Educação se desenvolve em uma sociedade que também é resultante da Educação.
	De que educação estamos falando?
	Émile Durkheim
	Para Durkheim, os indivíduos não importam em sua ação, em si. O sentido do ser humano é viver socialmente e se constituir por essa relação.
	Mas o que isso tudo quer dizer?
	A Educação é um esforço dessa manutenção, de que a sociedade permaneça equilibrada.
	Karl Marx
	A única maneira de modificação e transformação social passava pela ruptura das estruturas de dominação!
	É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem.
	A Escola pode ser um importante campo de dominação, de reprodução dos interesses de determinados grupos.
	A classe que controla os meios de produção e a força material dominante também é a que controla a força dominante intelectual. E os indivíduos que possuem essa dominação têm a consciência disso.
	Na Sociologia de Marx, a Educação é algo negativo?
	Não é bem assim!
	Max Weber
	Chegamos ao terceiro autor considerado pilar da Sociologia: Max Weber (1864-1920). Sociólogo, jurista e intelectual alemão, Weber apresentou ideias muito valiosas para o debate metodológico de diversas áreas das ciências sociais, pois, enquanto a abordagem de Durkheim valorizava a coerção social e o coletivo sobre o indivíduo, Weber aponta para a valorização da escolha do indivíduo. Ele é o agente, que medeia seus interesses, atende e se permite estar submetido a regras, assim como opta, por interesse como indivíduo, pelo rompimento de regras. Assim, segundo Weber, determinados pontos e conflitos internos são possíveis e adequados à estrutura social, inclusive à realidade educacional.
	Até aqui está tranquilo? Não? Então vamos lá!
	Resumindo
	Ação racional
	Ação em função de valores
	Ação tradicional
	Ação afetiva
	Despertar o carisma
	Preparar o aluno para a vida
	Ensino de conhecimentos especializados
	Status
	Verificando o aprendizado
	A partir do estudo das proposições de Emile Durkheim em relação à Sociologia, analise as seguintes afirmativas:
	As afirmativas são:
	A relação entre a Escola e a Educação não é automática. Educação é diferente de Escola, apesar de a Escola ser uma instituição plural e vital para reprodução da Educação. Karl Marx e Max Weber se debruçam sobre a Escola na formação do capitalismo, mostrando como ela passa a ter papel destacado. A afirmativa correta sobre esta questão é:
	2. A Escola e alguns conceitos fundamentais da Antropologia
	Breve história da Antropologia
	Conteúdo interativo
	Mas existiam as outras culturas na visão dos europeus desse período? Outras formas de enxergar, viver e experienciar o mundo?
	Claro que sim!
	Atenção
	Grandes pensadores da Antropologia
	Bronislaw Kasper Malinowski (1884-1942)
	Franz Boas (1858-1942)
	Era necessário que a Antropologia servisse à compreensão do entendimento individual dos grupos; notasse sua própria dinâmica evolutiva em termos de cultura e linguagem.
	Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
	Saiba mais
	Atenção
	Clifford Geertz (1926-2006)
	Vamos entender melhor?
	A Antropologia, como campo do conhecimento, provocou, ao longo do século XX, uma mudança de entendimento, levando-nos a debater as fórmulas e noções supremacistas – provocou o pensar, o entender e, principalmente, o descobrir formas de convivência.
	Conceitos de Cultura
	Não se pode definir cultura
	Cultura como produção
	Cultura como identidade e múltiplas formas
	Cultura como ressignificação
	Exemplo
	Cultura como representação
	Exemplo
	Vivemos num tempo em que transformamos diferenças em campos diários de conflitos. Estudar cultura nunca foi tão importante.
	Conceito de Etnocentrismo
	Exemplo
	Saiba mais
	Mas, qual a relação disso com a Escola? Um professor não é etnocêntrico. Ele é cuidadoso. Será?
	Conceito de Identidade
	Mas, será que a determinação geográfica é capaz de determinar a identidade de um sujeito?
	Saiba mais
	Exemplo
	Desafios docentes
	Verificando o aprendizado
	Questão 1
	(ENADE 2014 – ADAPTADA) Observe a figura abaixo, adaptada do livro Cuidado, Escola!, de Paulo Freire.
	Relacionando-a às frases abaixo e com a história da Antropologia, você diria que a sua melhor interpretação é:
	(ENADE de 2011 – ADAPTADA) Durante os encontros para a preparação do ano letivo em uma escola, alguns tópicos foram considerados como os mais importantes. Dentre eles, destaca-se o conhecimento da realidade dos estudantes e, por isso, no planejamento das atividades, foi preciso levar em conta:
	3. A relação entre Educação e Ciências Sociais no cotidiano escolar
	O encontro entre a Educação e a sociedade
	Conteúdo interativo
	A Educação é um fenômeno muito presente na análise de qualquer formulação de sociedade. A Escola, essa instituição desenvolvida para criar um espaço próprio para formar o sujeito a fim de reproduzir as dinâmicas da sociedade, é uma das invenções mais interessantes para notar como acontecem esses processos.
	Importante
	Vamos pensar na relação entre Escola e Ciências Sociais
	As Ciências Sociais são os exercícios
para que os membros do aquário pensem sobre como funcionam o seu mundo e, em especial, percebam que o seu mundo está imerso em outro muito mais complexo do que o das suas relações afetivas e sensoriais.
	Caracterização: Educação e Escola
	Importante
	Educação para além dos muros da Escola
	Educação formal
	Educação informal
	Importante
	O desafio é entender a Educação como um processo que ganha aspectos de discurso e se apresenta nas relações de poder de uma sociedade.
	Caracterizando Educação
	Ensinar
	Qualificar
	Esclarecer
	Vigiar
	Disciplinar
	A Teoria da Ação
	Habitus
	Campo
	Capital simbólico
	Assim, podemos identificar como Educação processos inerentes a diversos espaços da sociedade. Bourdieu a relaciona com um sistema de legitimidades no interior dos campos de poder.
	A cidadania
	A partir do pós-guerra, surge uma perspectiva de mudança da Educação e de seu papel com a defesa da sua função de fortalecer a autonomia do sujeito e não a naturalização de sua dominação. Formar um cidadão deixa de ser formar alguém para o coletivo social, para fomentar a capacidade do sujeito de exercer sua cidadania.
	Verificando o aprendizado
	Considerando que a sociologia da educação estuda dinâmicas entre a Escola e a sociedade, analise as afirmativas a seguir:
	Devem ser consideradas corretas:
	Das afirmativas abaixo, a única que corresponde às contribuições da relação entre a Escola e a Educação é:
	4. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Fala, mestre!
	Conteúdo interativo
	Explore+
	Referências
pela ausência de um resultado de
pesquisas desenvolvidas de maneira direta. No
entanto, seus pensadores defendiam que o
vasto campo de história e a análise de sua
perspectiva seriam mais do que suficientes para alcançar tais resultados.
 
Ao longo do século XIX, foram fundadas as bases do pensamento sociológico. Ainda que profundamente
alterado, discutido e com autores importantes, todos, de algum modo, são reconhecidos como tributários de
três importantes pensadores: Emile Durkheim, Karl Marx e Max Weber. Tendo posições antagônicas, não
sendo contemporâneos em sua produção, os três são entendidos como pedras angulares para conhecer,
desenvolver e entender o pensamento sociológico.
 
Sobre cada um desses autores, no entanto, há rios de tinta de análise de suas ideias. Há muito mais material
do que nossa abordagem ou qualquer outra poderia, de uma única vez, alcançar. Assim, a partir de agora,
você conhecerá os fundamentos básicos de seu pensamento e, especialmente, como influenciam esse campo
comumente chamado de Sociologia da Educação.
Rios de tinta 
Expressão que faz alusão à quantidade de tinta gasta para escrever todas as informações no papel.
Sociologia e Educação
Sociologia e Educação se entrelaçam como forma de analisar, compreender e debater os processos sociais no
campo do ensino e da aprendizagem. Essa vertente, a Sociologia da Educação, tem interesse tanto pelo 
aspecto institucional e organizacional da Educação como pelas relações sociais entre os indivíduos envolvidos
nesse processo.
Aspecto institucional e organizacional da Educação
Determinado pelas bases que norteiam a ideia de Educação de uma sociedade. 
A Sociologia da Educação parte do princípio de que a Educação se desenvolve em uma sociedade
que também é resultante da Educação.
A partir de diversas linhas teóricas, ela debate sobre aspectos que envolvem cultura, sociedade, Educação e
processos de aprendizagem – as realidades socioeducacionais.
Sala de aula em 1895
 
Sociologia da Educação é um campo específico transdisciplinar. Dialoga com a Sociologia, a Pedagogia e a
Educação. Seu fim é perceber que a Escola deve ser entendida como um fenômeno social.
A construção contemporânea da Escola – urbana, a Escola 
popular que surge após a consolidação do capitalismo – só
pode ser compreendida se for associada às demandas que
a criam, ou melhor, que a inventam. A Escola é apresentada
a partir da segunda metade do século XIX e, principalmente,
ao longo do século XX, como mecanismo fundamental para
difusão da Educação.
De que educação estamos falando?
Perdendo o lirismo idealizado que temos sobre a Escola como uma instituição de natureza positiva,
devemos vê-la como uma parte do complexo social em que vivemos. Temos um desafio: estudar
como essas dinâmicas podem ser estabelecidas. O caminho será o mesmo que todos os grandes
nomes da Sociologia propuseram: conhecer Durkheim, Marx e Weber e, depois, voltar a olhar para
essa Escola.
Émile Durkheim
Émile Durkheim (1858-1917), sociólogo e psicólogo francês, é considerado o criador da Sociologia como
ciência e pai da Sociologia da Educação. O primeiro sociólogo recebeu esse título por ter sido o primeiro a
elaborar um método bem estruturado que consolidou a Sociologia como ciência.
Émile Durkheim
Durkheim afirmava que as ideias de Auguste Comte se aproximavam mais de abstrações filosóficas do que de
uma estrutura científica.
 
Ele construiu um método baseado no conceito de fato social, que representa as maneiras de agir dos
indivíduos dentro de determinado grupo social e da humanidade em geral. Tais maneiras de agir revelam a
existência de uma consciência coletiva.
Para Durkheim, os indivíduos não importam em sua ação, em si. O sentido do ser humano é viver
socialmente e se constituir por essa relação.
Todos nós vivemos sob um sistema de coerção efetivo, e essa coerção não é vista como um problema, mas
como “fato social”, uma forma dos indivíduos conseguirem conviver coletivamente. A busca social seria a do
equilíbrio, e tudo o que gera desequilíbrio é entendido como “desvio”. Desviantes têm perfeita noção de que
são desviantes e que serão punidos por isso, o que faz parte do sistema e da busca do equilíbrio social.
 
Para entendermos o papel de Durkheim na Sociologia da Educação, podemos partir de uma das ideias mais
marcantes do sociólogo: em cada aluno haveria dois seres igualmente distintos e inseparáveis; um deles seria
o individual. Esse conceito representou grande mudança na análise sobre a Educação, os alunos e o processo
Pátio escolar em 1895
de aprendizagem, pois apresentou outro lado dos alunos, formado por um sistema de ideias, no qual é
possível observar elementos da sociedade da qual fazem parte.
 
Para Durkheim (1978), "a Educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta", que deveria
seguir em forma de um processo eficiente, buscando o melhor desenvolvimento possível da comunidade na
qual a Escola estivesse inserida.
 
Essa concepção durkheimiana, também conhecida como funcionalista, entende que as consciências
individuais são formadas pela sociedade. Por meio dessa teoria, o autor considera a Educação com um bem
social, trazendo, pela primeira vez, a discussão das relações entre normas sociais e cultura local.
A construção do ser social, feita em boa parte pela
Educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de
normas e princípios – morais, religiosos, éticos ou de
comportamento – que baliza a conduta do indivíduo em um
grupo. O ser humano, mais do que formador da sociedade,
é um produto dela.
A Educação para Durkheim tinha um papel de garantir que a
sociedade humana não se perdesse em uma tábula rasa, ou
seja, o homem não traz elementos definidos de antes do
nascimento; todas as relações e construções vêm da
relação com o mundo e cada indivíduo preenche a sua
tábula ao longo da vida, sendo a garantia da continuidade
dos valores morais, religiosos, políticos e científicos de uma
sociedade.
 
A função de todos que optam por atuar na Escola é garantir a compreensão desses fatores, o que avaliza o
processo social.
 
Durkheim e sua teoria recebiam a denominação de funcionalista até por conta da percepção de uma
sociedade que funciona como um relógio. Para que efetivamente haja precisão, é necessário que cada um
entenda e reproduza plenamente seu papel social. Dinâmicas de ruptura, de quebra dos processos, mesmo
que em busca de uma ascensão social, deveriam se reprimidas.
tábula rasa
Expressão derivada do latim, significa folha de papel em branco, usada por inúmeros filósofos ao longo
da história como metáfora para categorizar as pessoas que não têm conhecimento.
Mas o que isso tudo quer dizer?
Para Durkheim, a sociedade era perfeita e o papel da Educação era manter essa sociedade perfeita?
Era uma proposta que defendia os poderosos e queria garantir que os mais pobres aceitassem sua
condição?
A Resposta é: não!
Durkheim tomava como base de sua análise o funcionamento dinâmico do presente. Sociedades humanas
tendem à conservação e, na busca de se conservarem, criam sistemas que garantem essa preservação. Para
o autor, o desvio, o desviante, a desestruturação sempre acontecerão, o que é considerado um problema e,
diante disso, a vontade coletiva busca reestabelecer seu equilíbrio.
A Educação é um esforço dessa manutenção, de que a sociedade permaneça equilibrada.
Durkheim nos ajuda a entender preceitos sociais muito presentes. Os valores de conservação, da Escola como
um ambiente de continuidade, que prepara o indivíduo para estar perfeitamente adaptado a se integrar no
tecido social, não é algo que ficou no passado e foi superado. É um preceito cotidiano, mas que claramente
gera desafios, como lidar com o outro, qual o papel da Escola, qual o papel do professor.
A ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para
a vida social; tem por objeto suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos,
intelectuais e morais, reclamados pela sociedade
política no seu conjunto e pelo meio especial a que a
criança, particularmente, destine-se.
DURKHEIM, 1978
O pensamento do autor nos ajuda a entender, discutir e discordar sobre o funcionamento social.
Karl Marx
Se a busca de Durkheim era entender o presente e a dinâmica social, a de Marx era observar como a história
poderia nos ajudar a compreender a dinâmica de transformações da sociedade. Se o primeiro buscava
compreender os mecanismos do equilíbrio social, Marx, em uma posição antagônica, propunha compreender
como o equilíbrio representava a vitória da dominação de um grupo.
Karl Marx
A única maneira de modificação e transformação social passava pela ruptura das estruturas de
dominação!
Não é difícil notar como os autores perceberam de forma diversa o conhecimento sobre a dinâmica social,
mas isso não diminui a importância de um e ou de outro. Marx é um autor que, analisando os efeitos da
consolidação do capital e politicamente incomodado com a questão, propôs uma Sociologia engajada, um
olhar sobre essa dinâmica, a percepção de suas formas de dominação e como vencer esse processo.
 
Observa-se a inovação de Karl Marx em relação às ciências humanas como eram vistas até então. Ele
propunha o entendimento de uma Sociologia que notasse que a história e as sociedades eram feitas por
pessoas e que disputas e ordenamentos abririam importantes perspectivas sobre a noção de progresso.
 
Com Marx, temos a criação do materialismo histórico, que trazia um conceito novo para a interpretação dos
acontecimentos sociais, pois chamava fatores técnicos e econômicos para a leitura e compreensão da
história.
O idealismo dialético de Hegel foi lido, criticado e transformado no materialismo dialético.
 
Marx partia da premissa de que toda a história humana é baseada na existência de indivíduos humanos e
vivos, e essa premissa é fundamental para compreender a relação existente entre o homem e a natureza.
 
Para Marx, a partir dessa percepção pode-se distinguir o homem da natureza, pois torna possível perceber
que o ser humano apresenta uma concepção de religião e, mais importante, a noção da necessidade de
produção do seu meio de subsistência, ou seja, de sua vida material.
Hegel 
Georg W. F. Hegel (1770-1831) foi um dos principais filósofos alemães do século XIX. Era notório nas
universidades e formou importantes seguidores. Sua dialética – a dinâmica da transformação do
pensamento por uma ideia construída, tese, que uma vez contraposta, por uma antítese, leva a um novo
conhecimento, síntese. Marx levou essa dinâmica para observação e transformação das estruturas
sociais. 
É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem.
A religião é a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ainda não se encontrou ou voltou a se
perder. Mas, o homem não é um ser abstrato, apartado do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado,
a sociedade. A Filosofia do Direito de Hegel é criticada e rediscutida por Marx, que formulava sua visão de
mundo a partir de um sistema:
 
dialético; e
Dialético
É a ideia de conceber a realidade como um devir, o qual se daria a partir da existência de contradições,
ou seja, esse conceito está diretamente ligado à concepção de transformação. 
materialista. 
 
Com proposições como essa, Marx vê a Escola de maneira diferente que Durkheim:
materialista
A Sociologia não deve ser pensada como um campo possível de pensamento, ele é material, estrutura-
se nas demandas e disputas presentes no cotidiano. 
A Escola pode ser um importante campo de dominação, de reprodução dos interesses de
determinados grupos.
Para Marx, o motor da História é a luta de classes. Toda sociedade é composta por grupos que dominam os
meios de produção – terras, estoque, capital –, que são as formas de garantir a subsistência, de se inserir nas
dinâmicas econômicas dentro de determinada sociedade.
 
• 
• 
Quem domina os meios de produção domina a sociedade. Mas, o que impede que os dominados, normalmente
mais numerosos, lutem e tomem para si os meios de produção? É o estudo desses mecanismos que passam à
ordem do dia do autor.
 
Junto com o inglês Engels, um autor mais prático, mas que auxilia na difusão das ideias marxistas, Marx
entende que as sociedades são divididas em classes sociais, nas quais existem as classes dominantes e as
classes oprimidas. As ideias das classes dominantes são, para ele, em todas as épocas, as ideias dominantes.
A classe que controla os meios de produção e a força material dominante também é a que
controla a força dominante intelectual. E os indivíduos que possuem essa dominação têm a
consciência disso.
O que modifica a história é a luta dos dominados contra os dominantes, travada não no campo físico, mas no
intelectual, permitindo que, por meio da alienação imposta, os dominados naturalizem a dominação e se
sintam incapazes de se levantar contra seus dominantes.
 
Para Marx, historicamente, a construção de discursos carismáticos, os treinamentos, as formas de
ensinamento sempre atuaram nesse sentido. No entanto, a Escola burguesa sofisticou esse processo. Para
legitimar a ascensão da burguesia e o seu direito aos meios de produção, passou a ser defendida e
consolidada uma estrutura escolar que tinha a finalidade de, entre outras, manter o quadro de alienação da
classe proletária e sua fragilidade diante dos dominantes. A crítica nos parece clara no trecho de Trabalho
Assalariado e Capital, de 1847.
alienação 
Conceito de Marx exposto em muitos materiais e mais famoso pela forma clara que é apresentado no
chamado Manifesto Comunista. No limite, quem controla os meios de produção aliena um conjunto de
bens, que é social, do coletivo. Essa tomada dos bens – político, culturais e principalmente econômicos –
é o motivo legitimador dos dominantes. 
Outra proposta muita apreciada pelos burgueses é a da “instrução”, mais especialmente do “ensino
industrial” geral. Nós não chamaremos a atenção para a contradição absurda que reside no fato de que a
indústria moderna substitui cada vez mais o trabalho complexo pelo trabalho simples. (...) O real sentido
da instrução para os economistas filantropos é o seguinte: ensinar a cada operário o maior número
possível de ramos industriais de tal modo que, se ele for expulso de um ramo pela introdução de uma
nova máquina ou por uma modificação na divisão de trabalho, possa se empregar em outro lugar o mais
facilmente possível.
MARX apud NOGUEIRA, 1990
Na Sociologia de Marx, a Educação é algo negativo? 
Não é bem assim!
Marx afirma que uma das estratégias burguesas foi a separação definitiva entre capital e trabalho,
fazendo com que a força trabalhadora perdesse a noção sobre o quanto vale sua força produtiva.
Esse seria um dos preceitos da alienação. Assim, os educadores que tivessem o interesse em
transformar efetivamente a sua sociedade teriam uma função social vital: combater a alienação e a
desumanização por meio do aprendizado de competências que permitissem a compreensão tanto do
mundo físico como do social.
Direta e indiretamente, a obra de Marx serviu como base para diversas linhas pedagógicas voltadas para a
mudança da sociedade. Autores que seguiam o marxismo debateram como a Educação é parte integrante do
processo de transformação das condições sociais ao mesmo tempo em que é controlada por ele.
Max Weber
Chegamos ao terceiro autor considerado pilar da
Sociologia: Max Weber (1864-1920). Sociólogo, jurista e
intelectual alemão, Weber apresentou ideias muito
valiosas para o debate metodológico de diversas áreas das
ciências sociais, pois, enquanto a abordagem de Durkheim
valorizava a coerção social e o coletivo sobre o indivíduo,
Weber aponta para a valorização da escolha do indivíduo.
Ele é o agente, que medeia seus interesses, atende e se
permite estar submetido a regras, assim como opta, por
interesse como indivíduo, pelo rompimento de regras.
Assim, segundo Weber, determinados pontos e conflitos
internos são possíveis e adequados à estrutura social,
inclusive à realidade educacional.
Max Weber
Em relação a Marx, a História tem mais uma vez papel vital, não seria racional em si mesma, mas o historiador
seria capaz de racionalizá-la parcialmente. Quer dizer, não existe um modelo de transformação ou
conservação social, mas os indivíduos se espelham em modelos, interpretativos, constantemente
reproduzidos e que permitem ser observados e interpretados.
Até aqui está tranquilo? Não? Então vamos lá!
Enquanto Durkheim e Marx tentam compreender a mecânica do funcionamento social, Weber afirma
que o que temos é uma interpretação: observar a história é construir modelos inexistentes, e que não
precisam existir, mas que dali é possível notar padrões e como cada conjunto social assume
características próprias oriundas desses padrões.
Resumindo
Imagine alguém que pregue uma mensagem em uma sociedade: Para Durkheim, se sua voz tiver
consonância social, ele terá um papel;Para Marx, sua voz visa legitimar um grupo ou se opor a ele;Weber
analisaria o seu papel, cruzando os modelos de pregadores com o comportamento desse indivíduo
específico. Ele propõe que pregadores em diversas sociedades sejam tratados como sujeitos estranhos,
com hábitos excêntricos que se afastam da média das pessoas. Esse é o modelo, vamos ver como ele,
por comparação, ajuda a entender o pregador específico dessa sociedade, o que ele fala, para quem
fala, no que se afasta ou se aproxima do modelo. Essa é a operação sociológica. Weber sugere a
construção de um modelo teórico que, como tal, tem a função de oferecer um formato ideal que, porém,
é inexistente na prática. Pode-se compreender isso ao se pensar em um manequim de uma loja. Ele é um
modelo, aquele corpo não existe, constituindo apenas uma aproximação genérica, idealizada; o que os
clientes fazem é traçar comparações para decidirem se querem experimentar a roupa ou não. 
As ações, para Weber, partem do indivíduo e podem ser organizadas por suas motivações. Segundo Weber,
podemos dividi-las em:
Ação racional
Você observa e vê que no fim daquilo obterá ganhos. Exemplo: Vou colocar meu filho na melhor
escola que puder, pois, assim, ele terá mais possibilidades de ter boas condições financeiras no
futuro.
Ação em função de valores
Questão de ordem, de valor, orienta-se pelos valores familiares ou pelo modo como os incorporamos
à nossa hierarquia de valores. Exemplo: Vou matricular meu filho em uma escola confessional
(religiosa), assim ele fica afastado de professores que possam tentar desvirtuá-lo.
Ação tradicional
Relacionada aos atos rotineiros, entendidos como comuns em uma sociedade, praticados por
recorrência. Exemplo: Criança pergunta à mãe por que precisa usar um tênis todo preto para uniforme
da escola; na aula sobre futebol, os meninos separam os times, e, se alguma menina quiser jogar, tem
que avisar.
Ação afetiva
Relacionada a impulsos do indivíduo, lógicas construídas por ele a partir de sua observação e
sentimentos. Exemplo: Aluno invade escola e atira nos colegas, motivado por alguma vingança.
Weber entende a Educação como o meio pelo qual os indivíduos se preparam para o exercício de funções
determinadas pelas transformações provenientes da racionalização de suas vidas. Assim, o modelo de
Educação possui três finalidades básicas:
Despertar o carisma
Encontrar os dons, despertar o gosto pelo aprender e ser capaz de levar
isso à sociedade.
Preparar o aluno para a vida
É a pedagogia do cultivo, que consiste em uma forma de ensino que visa
a formação de sujeitos cultos.
Ensino de conhecimentos especializados
É a pedagogia do treinamento, em que a aprendizagem é voltada ao
preparo do indivíduo, objetivando sua função no campo do trabalho.
Status
Neste ponto, chegamos ao último conceito weberiano que abordaremos. Para Weber, status (prestígio social)
é um componente vital para os posicionamentos sociais. Desse modo, na busca por prestígio social, o que é
fomentado na Educação acaba por dar base para o posicionamento na estratificação social.
 
Na obra sociológica de Max Weber, a Educação é vista como instrumento de poder de grupos de status. Serve
como um componente desse processo e não pertence necessariamente ao domínio da competência, mas à
materialização de posições sociais. Diplomas e certificações acabam por agregar prestígio aos grupos sociais
que disputam poder.
prestígio social
Segundo o autor, as dimensões do prestígio são econômicas, sociais e a capacidade de distribuir poder. 
[...] clamor universal pela criação dos certificados educacionais em todos os campos levam à formação
de uma camada privilegiada nos escritórios e repartições. Esses certificados apoiam as pretensões de
seus portadores, de intermatrimônios com famílias notáveis (...), as pretensões de serem admitidas em
círculos que seguem “códigos de honra”, pretensões de remuneração “respeitável” ao invés da
remuneração pelo trabalho realizado, pretensões de progresso garantido e pensões na velhice e, acima
de tudo, pretensões de monopolizar cargos social e economicamente vantajosos.
WEBER, 1982.
Na sociedade do capital, existe a materialização do diploma universitário, das escolas de formação, dos
cursos que ofertam notoriedade somente por possuírem aquele documento.
Verificando o aprendizado
Questão 1
A partir do estudo das proposições de Emile Durkheim em relação à Sociologia, analise as
seguintes afirmativas:
 
I. A Educação é um componente de garantia da reprodução social.
II. O fato social é um conceito que atribui a coerção social a um anseio coletivo.
As afirmativas são:
A
Complementares, uma vez que a Educação é necessariamente um fato social.
B
Dissonantes, uma vez que esses conceitos misturam as proposições de Marx na primeira e Durkheim na
segunda.
C
A afirmativa I pode ser entendida como um ponto de convergência da teoria de Durkheim e Marx.
D
A afirmativa II é correta por adotar um conceito de Durkheim e discorda da afirmativa I.
A alternativa C está correta.
Durkheim atribui à Educação um papel fundamental na conservação social. Ela em si não é um fato social,
mas nela se manifestam e reafirmam fatos sociais. Apesar da interpretação de Durkheim e Marx serem
discordantes em relação ao papel da Educação, ambos a compreendem como um fator de reprodução
social. Para Durkheim como fundamental a conservação e, para Marx, como uma estratégia de alienação
dos grupos dominantes.
Questão 2
A relação entre a Escola e a Educação não é automática. Educação é diferente de Escola,
apesar de a Escola ser uma instituição plural e vital para reprodução da Educação. Karl Marx e
Max Weber se debruçam sobre a Escola na formação do capitalismo, mostrando como ela
passa a ter papel destacado. A afirmativa correta sobre esta questão é:
A
Para Marx, a dissonância entre capital e trabalho promovida pela burguesia é criada pela escola e passa a ser
disseminada como algo natural e necessário.
B
Para Weber, a formação do carisma, criado pela sociedade burguesa, foi fundamental para consolidação do
capitalismo.
C
Para Marx, a alienação promovida pela escola faz com que esta instituição deva ser combatida como uma das
forças legitimadoras do domínio burguês.
D
Para Weber, a valorização do status como componente de valor social assumiu condições singulares nas
sociedades por ele estudadas, gerando a intensificação da busca de diplomas e certificações.
A alternativa D está correta.
Para Weber, o crescimento das sociedades estruturais fomentou uma característica modelar: sociedades
são hierarquizadas e a busca por esse posicionamento sempre fomentou a disputa por determinados bens
e conhecimento, nesse sentido, a Educação tornou-se uma necessidade para a condição de status
contemporâneo e acabou por gerar uma movimentação em garantir a regulação e consolidação do papel
dos diplomas e certificados.
Os Filhos de Pindorama, por Theodor de Bry
2. A Escola e alguns conceitos fundamentais da Antropologia
Breve história da Antropologia
Neste módulo, você perceberá como a Antropologia pode ajudar a identificar
a Escola como um lugar muito
mais complexo do que a maior parte da sociedade vê quando olha para essa instituição.
 
Assista ao vídeo que trata do tema da Escola como um espaço singular e de como a visão da Antropologia é
fundamental ao educador.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
A Antropologia é a ciência que pensa e estuda o homem dos pontos de vista biológico, social e cultural. As
abrangências ou os campos são diversos, mas não serão nosso objeto de estudo neste momento. Queremos
destacar sua formulação como campo de saber norteado por um interesse recorrente: a relação com o outro.
 
O olhar para o outro buscando conhecer, entender ou negar a sua cultura é recorrente em diversas
sociedades. Não é acidental que o grego Heródoto fosse chamado de filobárbaro, o amante dos bárbaros, por
ter dedicado sua vida a retratar e escrever sobre os povos não gregos. Poderíamos fazer um longo passeio
pela história para perceber esse processo de relações entre a construção de culturas singulares que se
estruturam na negação de outras culturas, mas vamos a um momento singular: a construção da modernidade
e, em especial, o colonialismo e o neocolonialismo.
Heródoto 
Geógrafo e historiador grego, autor da obra Histórias, que narra a invasão persa à Grécia no século V, ao
mesmo tempo em que descreve, com grande riqueza de informações, características culturais e étnicas
dos povos com os quais os gregos tinham contato à época. 
Ao longo dos séculos XVI e XVII, a Europa
consolidou lenta e continuamente o seu
domínio no continente americano. Nesse
processo, o encontro de civilizações passou a
ser parte do ideário europeu. Aqueles homens
eram retratados ora como sujeitos angelicais,
puros, livres de pecados, ora como selvagens
perigosos que comiam carne humana
(antropofagia).
O colonialismo institucionalizou uma nova
literatura que teve grande sucesso na Europa,
uma etnografia (descrição de costumes e
tradições de um grupo humano, de outra
cultura) primitiva, contada por aventureiros que
pareciam ter voltado de uma galáxia muito
distante da nossa visão, de tão fantásticos
eram os relatos que eles organizaram. O domínio europeu não cessou, intensificou-se e transformou-se. Nos
séculos XVIII e XIX, o advento da formação do capitalismo institucionalizou novas formas de dominação.
Primeiro, a Inglaterra expandindo para todos os cantos do mundo, depois Napoleão conduzindo uma nova
fase de expansões, as unificações italiana e alemã, que geraram novos disputantes no modelo neocolonialista.
 
A Europa domina o mundo, sua cultura está presente em toda parte, como espelho ou negação. A ideia de
uma tradição correta, verdadeira, racional e civilizada é posta na mesa e torna-se o padrão.
relatos 
Relatos sobre o Novo Mundo, alguns exemplos desses relatos: Mundus Novus, de Américo Vespúcio;
Duas Viagens ao Brasil, de Hans Staden; Viagem à Terra do Brasil, de Jean de Léry e o Relato de Viagem,
de Francisco Orellana.
Mas existiam as outras culturas na visão dos europeus desse período? Outras formas de enxergar,
viver e experienciar o mundo?
Claro que sim!
Na Europa, essas outras culturas faziam parte do objeto de pesquisa de intelectuais que viviam em
seus gabinetes e escreviam sobre esse mundo. Algumas vezes esses relatos sobre o outro chegavam
à Literatura, como em Júlio Verne em A Volta ao Mundo em 80 dias, e chegavam à Arte, com as
imagens reais e inventadas feitas por naturalistas.
Mas, no fim, vemos o desenvolvimento de uma prática etnográfica – escrita ou descrição de outra cultura –,
com grupos que registravam e detalhavam outras culturas e, novamente, na maioria das vezes, analisando
relato de outros, o que foi chamado provocativamente de etnografia de gabinete. O seu sentido – que se
apresentava como racional no século XVIII – buscava primeiramente o pitoresco e o estranho em suas
observações.
A etnografia tem grande impulso no século XIX com a
partilha da África e Ásia, e as disputas neocolonialistas. Os
registros serviam para afirmar os ideais de superioridade
europeia e a ideia de hierarquização de culturas –
positivistas dividiam as sociedades entre civilizadas,
bárbaras e selvagens – como forma de legitimar a própria
dominação da cultura europeia ocidental.
O capital e as disputas, sendo fortalecidos, criaram uma 
ordem mundial. As trocas de uma sociedade mundial, ainda
que tivessem formas próprias, estavam o tempo todo em
comparação com a sociedade europeia.
 
Observe alguns exemplos desse tipo de comparação:
 
Quando você lida com uma língua europeia, você a chama de idioma. Já quando a língua é de um grupo
local, um traço não europeu, você tende a chamá-la de dialeto.
As tradições religiosas judaico-cristãs – inclusive as muçulmanas – são tradadas como religiões. Já
tradições africanas, americanas e afins costumamos reconhecer como mitologias.
• 
• 
Ordem mundial
Ordem mundial, nesse sentido, não é o termo histórico atual dado ao fim da Guerra Fria, mas, em vez
disso, designa a ideia da formação de um sistema internacional pautado nas relações capitalistas. 
Atenção
É importante ressaltar que esses termos têm finalidades próprias no campo da Antropologia, não são
compostos de forma genérica como mostramos aqui, estamos apontando para suas percepções do
senso comum e o regime de historicidades dessas ideias. 
A chegada ao século XX trouxe uma série de mudanças à etnografia de gabinete. Uma série importante de
autores passou a atuar em campo, buscando compreender a lógica da composição dessas culturas. Muitos
consideram que a efetiva dinâmica de construção da Antropologia só aqui se estrutura.
 
Novos conflitos e o reconhecimento de outras tradições pouco a pouco impactaram os campos de pesquisa
da Antropologia e houve a percepção de que a iconografia de dominação e superioridade do século anterior
poderia ser superada.
campo
Pesquisa no local dentro do grupo.
Grandes pensadores da Antropologia
Bronislaw Kasper Malinowski (1884-1942)
Antropólogo polonês, tido como um dos fundadores de uma Antropologia social, de uma etnografia
funcionalista. Mais do que o detalhamento de suas teorias, o que nos interessa é perceber sua proposição do
que é função da etnografia. Percebia-se a possibilidade de outra sociedade, outra forma de entender a
humanidade, sem a proposição de hierarquização que fundamentava o movimento anterior. Isso levou
finalmente à percepção da existência do outro.
Bronislaw Kasper Malinowski
Malinowski tem uma história pitoresca em meio aos esforços de guerra. Diante da impossibilidade de retorno à
Inglaterra em um momento de conflito, acabou intensificando sua observação de campo de forma singular,
experimentando e testando uma série de técnicas que modificariam a história da Antropologia.
Franz Boas (1858-1942)
Antropólogo americano que observou as profundas distinções entre grupos que, apesar de próximos do ponto
de vista geográfico, culturalmente, pareciam pertencer a mundos diferentes, conforme procurou demonstrar
ao comparar esquimós e índios americanos. Seu pensamento reforça e modifica a construção de Malinowski,
já que, para ele, a classificação dos povos baseada na ideia de um processo evolutivo cultural unilinear era
arbitrária e não bastaria para a caracterização dos diversos grupos etnográficos.
Franz Boas
Era necessário que a Antropologia servisse à compreensão do entendimento individual dos
grupos; notasse sua própria dinâmica evolutiva em termos de cultura e linguagem.
Os estudos antropológicos não deveriam construir uma composição linear da cultura, mas um espelho que
permitiria a composição de quadros comparativos não hierarquizados. De certa forma, estudos antropológicos
não serviriam como curiosidade no entendimento do outro, mas para que as sociedades se percebessem. A
provocação é olhar o espelho para que pudessem desnaturalizar seus processos e suas hierarquias.
 
O pós-guerra mundial e as disputas anticolonialistas (por conflitos diretos, como na Ásia e na África, ou com a
ideia de uma
descolonização do pensamento, que passou a ser debatida nas Américas) fomentam a
possibilidade do antropólogo ser um sujeito mais engajado, defensor de grupos que possuíssem e tivessem
direito a se relacionar com suas culturas.
disputas anticolonialistas
Depois dos conflitos mundiais, as guerras pela independência da África e da Ásia, que já tinham se
iniciado, ampliaram seu escopo. Revelaram atrocidades dos colonizadores e chocaram os idealistas do
mundo civilizado. Das mãos cortadas pelo rei Leopoldo no Congo à cerca de crânios na Tunísia, o olhar
para o colonizador, se em algum momento foi paternalista, passou a ser destruído e negado. Esse
exercício também modifica a antropologia. 
O objetivo é atravessar o espelho, não descrever o outro, não simplesmente perceber o outro para que possa
notar suas diferenças, mas atravessar o espelho. Finalmente, reconhecer o seu direito de ser, de denunciar, de
uma sociedade que possui outras formas.
atravessar o espelho
Conceito apresentado por Claude Lévi-Strauss para criticar a Antropologia que não via o outro, mas
queria criar uma forma da sua própria sociedade ser compreendida pela comparação. Atravessar o
espelho significa efetivamente ir ao encontro de entender o outro.
Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
O francês, famoso na música de Caetano Veloso, foi um dos importantes estudiosos das etnias indígenas,
criador da Antropologia Estrutural. Em um dos seus mais famosos artigos, Raça e História, o autor apresenta
os desafios da construção histórica do sujeito, apontando características que permitem perceber que, para
além de uma natureza humana, o homem é composto por acúmulos culturais, próprios e inerentes àquelas
comunidades. Não é um acúmulo no sentido histórico, mas uma percepção de que conseguiríamos classificar
as sociedades em pontos evolutivos diversos, em uma comparação que em qualquer sentido não teria
fundamento.
Claude Lévi-Strauss
Saiba mais
Lévi-Strauss viajou pelo Brasil entre 1935 e 1939, realizando estudos de sociedades indígenas, e foi
professor de Sociologia na USP aos 26 anos de idade. Quando, em visita ao Rio de Janeiro e depois de
um sobrevoo à Baía de Guanabara, perguntaram a Lévi-Strauss o que teria achado daquela beleza, ele
respondeu que parecia uma boca banguela. A resposta indignou alguns brasileiros e Caetano utilizou a
referência na música O Estrangeiro de 1989. 
François Hartog afirma sobre o entendimento da Antropologia estrutural proposta por Lévi-Strauss:
O mais importante é o afastamento diferencial entre as culturas. É aqui que reside sua “verdadeira
contribuição” cultural a uma história milenar, e não na “lista de suas invenções particulares”. Também,
agora que se entrou em uma civilização mundial, a diversidade deveria ser preservada, mas na condição
de entendê-la menos como conteúdo do que como forma: conta, sobretudo, o próprio “fato” da
diversidade, e menos “o conteúdo histórico que cada época lhe deu”.
HARTOG, 2006.
A existência de culturas é própria de sociedades humanas e não são comparáveis, são estruturadas e
fundamentadas em códigos, demandas, fenômenos e escolhas. A maneira mais tradicional de conduzir e
pensar a história, como um fenômeno unificador da linha temporal da humanidade e classificador, é
absolutamente sem sentido. Por isso, o que conta são os fatos, os eventos, as trocas, e não a concepção de
que evoluíram a um ponto A, B ou C.
 
A questão é como conviver em sociedades tão complexas, aproximar-se sem negar ou segregar, mas
compreendendo que elas que existem e essa existência em si já é um evento que deve ser respeitado.
 
As culturas são necessariamente diversas. Culturas ágrafas ou com graus de dificuldade de entendimento
sobre a função de seus agentes não podem servir como justificativa de negação, exclusão ou violência.
Culturas ágrafas
Culturas que não mantêm sistemas de escritas regulares, apesar de muitas delas terem simbolismo,
ícones e até caracteres que remetem a fonemas. 
Atenção
O relativismo cultural proposto por Geertz e pelos demais não significa aceitação e naturalização de
fenômenos de exploração e violência, mas o exercício de observação de como funciona aquela cultura,
ainda que o posicionamento seja de não aceitação em nossa ou em outra sociedade. 
Clifford Geertz (1926-2006)
Antropólogo norte-americano conhecido como o fundador da Antropologia interpretativa, Geertz colocou a
cultura e o debate da cultura como elemento fundamental e abordou os fenômenos culturais escritos e
conflituosos no seio de uma mesma sociedade.
Clifford Geertz
A análise cultural é (ou deveria ser) uma adivinhação dos significados, uma avaliação das conjecturas,
um traçar de conclusões explanatórias a partir das melhores conjecturas e não a descoberta do
continente dos significados e o mapeamento da sua paisagem incorpórea.
GEERTZ, 1989.
Cultura é fruto de uma concepção das teias culturais. Sociedades são complexas e constroem e reconstroem
sentidos culturais constantemente. O estudo dessas interpretações de mundo, de construções de sentido
(ainda que sejam constantemente rediscutidos e remodelados), é o processo de entendimento antropológico.
Geertz, de alguma forma, quebra o espelho. Sociedades são complexas e a todo momento se
reestruturam e se reinventam quando se encontram e realizam trocas, pois os símbolos que as
compõem são redimensionados, reinventados.
O estudo da Antropologia não é o de um conjunto constituído que vai analisar outro conjunto constituído. É
uma teia de relações enormes em que o antropólogo recorta, em sua análise, um processo de redes de trocas
infinitas.
 
Toda sociedade é múltipla em símbolos e em trocas. Por isso, não devem ser entendidas como culturas puras
ou isoladas a serem preservadas a qualquer custo. Cultura não é algo limitado a grandes conjuntos isolados.
Esses conjuntos não existem. Os grupos sociais, as diversas culturas estão sempre vivas trocando e se
reinventando.
Vamos entender melhor? 
Sabe quando uma pessoa faz uma crítica ao indígena que tem um celular de última geração dizendo
que se ele tem aquele aparelho não é um índio de verdade? É esse preconceito que Geertz explica.
Não é porque há uma identificação com uma cultura singular, com a defesa de sua existência e sua
luta, que ela estará isolada e cristalizada.
A cultura está sempre em movimento.
Claro que o contexto influencia na mudança trazida por Geertz. Se Lévi-Strauss produziu no período de
Guerra Fria e descolonização, Geertz convive com a sociedade das décadas de 1980 em diante, vivencia a
formação de sociedades em rede e a globalização. Vê a multiplicação de conceitos antropológicos, que põem
em xeque as noções clássicas de pureza.
 
Vivemos um amadurecimento dos conceitos construídos por esses autores e não são escritos em livros de
Antropologia para dificultar a compreensão dos que iniciam seus estudos. Eles estão nos livros, mas é diante
de nós que esses conceitos se materializam. Cada vez que usamos um celular ou computador; cada vez que
saímos à rua, que conversamos, esses conceitos aparecem.
A Antropologia, como campo do conhecimento, provocou, ao longo do século XX, uma mudança
de entendimento, levando-nos a debater as fórmulas e noções supremacistas – provocou o
pensar, o entender e, principalmente, o descobrir formas de convivência.
Então, agora que você absorveu o entendimento da Antropologia, buscamos mostrar como essas ideias se
materializam em conceitos importantes. Todos aqueles que pretendem pensar na docência, em qualquer
campo, precisam instrumentalizar seu olhar com conhecimentos antropológicos para ter mais possibilidades
de enfrentar esse desafio. Vamos, então, conhecer alguns desses conceitos.
Conceitos de Cultura
Não se pode definir cultura
O antropólogo sul-africano Adam Kuper conclui em seu livro Cultura, que não podemos definir o conceito de
cultura. Isso mostra como a Antropologia debateu o conceito de cultura e o associou de formas diversas ao
longo do tempo, chamando a nossa atenção para esse ponto.
 
Kuper afirma
que a cultura foi trabalhada durante muitos anos como algo material, a posse que definia um
grupo, um conjunto de práticas, hábitos, formas de explicar o mundo. E essa visão chega ao senso comum, é a
maneira mais recorrente dos homens definirem cultura: um conjunto de práticas e pensamentos que os
constituem como pertencentes a uma cultura A ou B.
 
No entanto, essa materialização foi debatida por autores diversos mostrando que seu entendimento precisava
ser repensado. Levando para o contexto da Escola, corresponde às ideias que muitas vezes norteiam as
festas de folclore ou as representações de outras etnias, como as comemorações do Dia do Índio.
Cultura como produção
Cultura seria tudo aquilo que o homem produz. Identificados com uma leitura estruturalista de mundo que
associa cultura à ação efetiva do homem na sociedade. Ainda que não fosse mais algo que pudesse ser
possuído, passava a ser algo que constituía o meio. Pensando nessa leitura no contexto da Escola, a cultura
passava a ser um exercício de consciência dos alunos sobre as condições de trabalho, as formas de
exploração, as classes sociais a que pertencem, os modelos de produção, consumo e identidade dos quais
eles fazem parte.
leitura estruturalista 
Influenciada pelas dinâmicas de trabalho, modo de produção, legitimação do funcionamento e da
estrutura social.
Cultura como identidade e múltiplas formas
É a percepção de que cultura é um direito, uma prática, uma identidade e que cada um tem necessidade de
ostentar em um mundo complexo, ou seja, o conceito de multiculturalismo, criado nos anos de 1980.
No auge da noção de Aldeia Global e de um amálgama de
culturas em um mundo mais integrado, emerge a defesa de
que as sociedades eram constituídas por culturas múltiplas.
A luta contra o apagamento acabou por reforçar
sentimentos separatistas, guerras étnicas e movimentos de
negação. Desse modo, a noção de multiculturalismo –
sociedades complexas em que diversas culturas participam
– passou a sofrer severas críticas.
Cultura como ressignificação
O historiador italiano Carlo Ginzburg oferece uma
importante contribuição ao debate sobre a noção de
cultura, exemplificando em seu célebre livro O Queijo e os
Vermes que cultura não deve ser interpretada como um campo de exclusão ou segmentação, mas que
culturas circulam, reinventam-se, recriam-se. Um grupo pode transformar sua negação em elemento
identitário.
Exemplo
Para entender, vamos falar sobre futebol! Durante anos, os chamados clubes de massa (Corinthians em
São Paulo, Flamengo no Rio de Janeiro e Bahia em Salvador, por exemplo) eram agredidos verbalmente
pelos seus adversários com a acusação de serem torcidas de marginais, maloqueiros, ladrões, favelados
etc. As torcidas desses times de massa, no entanto, passaram a utilizar essa agressão como marca de
identidade, com comemorações que exaltavam a condição de loucos, favelados e afins. Aquilo que era
negação tornou-se uma forma de diferenciação e identidade. 
São muitos os exemplos do mesmo tipo: a identificação do outro, em função da cor da pele, como “negro”, que
acaba depois se autodenominando “preto”, revelando duas formas de reconhecer o outro pela cor e não como
pessoa, como ocorria durante o período da escravidão. Diante da desnaturação, da negação e da violência, o
grupo se reinventa, afirma-se pelas características de superação, criando, redesenhando e inventando uma
nova dinâmica cultural afirmativa.
Cultura como representação
Outras formas de conceito de cultura têm sido adotadas, como as lentes pelas quais os homens veem o
mundo. Essa ideia vem de cultura como um discurso, uma representação, uma simbologia.
 
São muitos conceitos possíveis, mas todos com o propósito de tirar do sentido de cultura algo material,
palpável, e transformá-la em uma construção, torná-la parte da maneira como uma sociedade se vê, pensa a
si mesma e se relaciona. Ao mesmo tempo que define interpretações de mundo, ao ser debatida, a cultura faz
com que as lentes se transformem e se modifiquem. É uma estrutura estruturante.
Exemplo
A Escola é um excelente exemplo! Já foi considerada um espaço atípico, um espaço de elite.Tornou-se
uma exigência, com a noção de que se você deseja ser alguém na vida, você precisa da escola. Era
necessário obedecer e cumprir.Depois, deveria ser um espaço de construção, o aluno deveria ser
estimulado a ir à escola, a se integrar em seu ambiente. 
A Escola não é o espaço em que se ensina a ser alguém, mas é o espaço do aprender. Segundo a Base
Nacional Comum Curricular, a Escola é o local onde o aluno desenvolve habilidades e competências
necessárias ao seu desenvolvimento. É uma Escola que deve reproduzir menos e produzir – construir
efetivamente – mais.
 
A Escola tem um forte grau de integração social, os problemas do cotidiano são lá vivenciados e, assim, cada
professor, cada aluno, cada transformação do bairro, da cidade, do país, e do mundo influenciam no conjunto
de relações culturais. As visões comuns aproximam pessoas, as antagônicas as afastam.
Vivemos num tempo em que transformamos diferenças em campos diários de conflitos. Estudar
cultura nunca foi tão importante.
Conceito de Etnocentrismo
Um dos conceitos amplamente debatidos e transformados pela Antropologia é o de etnocentrismo. Durante o
século XIX, o principal conceito que distinguia sujeitos humanos era o de raça. A percepção de que homens
pertenciam a raças diferentes e, por causa disso, tinham diferenças marcantes era utilizada amplamente. O 
conceito de raça foi utilizado cientificamente durante o século XIX para justificar a hierarquia entre os seres
humanos.
Conceito de raça
A lógica de ciência não significa um discurso de verdade, mas a investigação. No século XIX, pesquisas
como a de Cesare Lombroso tentavam comprovar cientificamente quais raças eram predispostas ao
crime. 
Exemplo
Conhece a história da Maldição de Cam? É uma história bíblica (Gênesis 9:18 - 10:32) que ocorre depois
do episódio da arca de Noé e do dilúvio. Cam vê Noé, seu pai, embriagado e, em vez de ajudá-lo,
debocha dele. Isso teria gerado uma maldição para os descendentes de Cam, que ficaram para sempre
marcados. 
Não há referência à cor negra, mas é esta a associação construída por certa tradição religiosa, adotada pela
ciência do século XIX, que justificava que homens de cor preta eram inferiores ou amaldiçoados. Os estudos
científicos da época apontavam que qualquer mistura representava a fragilização das raças puras, como
aconteceria com animais de espécies diferentes. Então, não haveria nada pior do que um mestiço de raças
humanas diferentes.
 
Assim, havia ideias políticas que defendiam que o Brasil precisava romper com a maldição de Cam, escolher
uma raça e ir direcionando toda a população nesse sentido. Nesse contexto, políticas públicas foram então
pensadas buscando o branqueamento da sociedade brasileira. Imigrantes brancos de todo o mundo eram
estimulados a vir para o Brasil.
Saiba mais
Veja o quadro de Modesto Barroso A Redenção de Cam. O quadro
demonstrava o espírito brasileiro de branquear, de eliminar a marca do
que era chamado de mestiçagem na história brasileira.
Essa não é uma exceção; no século XX, personalidades importantes
como Rui Barbosa diziam que os traços de mistura da cultura brasileira
era um sinal de atraso, de um Brasil não civilizado.
A Antropologia do século XX começava a mudar e, em vez do conceito de raça, que ainda demoraria a ser
vencido, passava a ser pensado o conceito de etnia.
 
Etnia é um conceito antropológico que não lidava somente com a identificação biológica dos sujeitos, mas
com sua composição social, cultural, suas práticas e relações pessoais e coletivas para definir uma sociedade.
No entanto, não abandonava a noção de raça ou da composição de superioridade, agora cultural.
 
A oposição entre civilizado versus selvagem demorou a ser vencida. Entretanto, o senso comum ainda é
fortemente marcado pela composição de um etnocentrismo vital: existem hábitos e comportamentos
aceitáveis
e aqueles que devem ser corrigidos.
Uma família brasileira do século XIX sendo servida por
escravos, por Jean-Baptiste Debret
 
Etnocentrismo é uma marca de negação, um conceito que define padrões sociais e de comportamentos como
corretos e, por consequência, aqueles que devem ser negados, destruídos ou persuadidos a serem
modificados.
 
Gilberto Freyre, famoso por estudar as relações étnicas brasileiras, ainda entendidas como raciais, identificou
na afetividade entre colonizados e escravizados (índios e africanos) a construção de uma estrutura singular.
 
Freyre representou um avanço na leitura da Antropologia brasileira em relação ao rompimento com a
hierarquização racial (a valorização do branqueamento), entendendo de outro modo a composição complexa
da etnia brasileira. No entanto, seus estudos geraram entendimentos bastante equivocados, como os que
defendiam que o Brasil teria conseguido de forma única mediar os conflitos históricos entre raças diversas e
constituído uma democracia racial.
Gilberto Freyre
Gilberto Freyre (1900-1987) foi um importante sociólogo brasileiro, além de ter sido escritor, jornalista,
poeta e pintor. 
Gilberto Freyre nunca propôs esse conceito. Em
seu livro Casa Grande e Senzala, ele não reduz
a violência do colonizador, mas defende que na
condição da colonização uma relação afetiva
acabou sendo constituída.
O conceito de raça biológica foi derrubado
pelos estudos modernos de Biologia, que
acabaram ratificando que homens
contemporâneos pertencem a uma mesma
espécie, independentemente de suas variações
físicas, oriundas de processos diversos, e que
estão em constante modificação.
 
Esse conceito ganhou outra composição
sociológica, como forma de identificação
étnica. As “tribos” que compõem a diversidade social dentro de um mesmo espaço, marcam traços identitários
múltiplos, e a composição histórica de raça – como forma de negação – passou a ganhar força de identidade
do grupo. Um grande exemplo é a construção nazista de superioridade de uma raça, como os arianos e sua
origem caucasiana.
 
Com essas novas configurações, o conceito de etnocentrismo passou a ser entendido como um exercício a
ser negado, considerado uma forma de violência.
identidade do grupo
Um dos ícones dessa relação uma vez mais são os chamados movimentos negros e indígenas. Traços de
negação reconfigurados para uma identidade de luta pelos seus direitos.
Mahatma Gandhi durante a Marcha do Sal, protesto que
marcou o início do movimento de independência da
Índia
Mas, qual a relação disso com a Escola? Um professor não é etnocêntrico. Ele é cuidadoso. Será?
Nós tendemos ao binarismo da ação. Tendemos a identificar automaticamente o que é certo e errado,
como se não houvesse outra forma. Temos padrões históricos constituídos e apresentados como
corretos e dificuldade para rompê-los. Quando um professor entra em sala de aula, tenta falar o que
se programou para falar, tenta “levar” seu conhecimento aos alunos e eles não o escutam, não o
compreendem, não desejam sua voz, a reação do professor tende a ser: “Que desperdício” ou “estou
atirando pérolas aos porcos”.
Conceito de Identidade
Qual a sua identidade? Podemos imaginar a multiplicidade de respostas que essa pergunta pode causar:
brasileiro, pai de família, mulher, negro, engenheiro. Não precisaria ter dúvida, bastaria olhar sua carteira de
identidade e lá estaria escrita a resposta.
Mas, será que a determinação geográfica é capaz de determinar a identidade de um sujeito?
Identidade é outro conceito antropológico fundamental. Também foi construído e modificado ao longo
do tempo. Seus primeiros debates e formas – novamente o movimento positivista – associavam
identidade à identificação. A identidade de um sujeito era associada à sua configuração, à sua
proximidade com o ordenamento social. A maior marca identitária era a de ser civilizado, bárbaro ou
selvagem.
O século XX trouxe com força uma nova noção de identidade: a ideia de nacionalismo. Sua identidade era a
sua nação, a fidelidade à sua terra, a seus familiares e às pessoas que conviviam diretamente com você. Por
elas, você deveria viver, por elas você deveria morrer. Se durante o século XIX isso aparecera nos campos de
batalha, no século XX eram elementos do cotidiano, como rádios, festividades e governos defendendo a ideia
de civismo e luta por sua identidade.
A definição de fronteiras, as composições dos Estados-
Nação, a reafirmação de novas mídias, o fortalecimento de
discursos que defendiam o seu espaço vital, foram os
responsáveis por grandes conflitos do fim do século XIX até
a metade do século XX. As Guerras Mundiais são ícones da
força da identidade nacional da primeira metade do século
XX, mas não são únicas. As disputas pela descolonização e
a consolidação da influência do republicanismo, da
democracia representativa, acabam fortalecendo a nação,
que era a principal marca identitária.
Esse movimento aparece não só no sangue e na batalha.
Ganha contornos em feiras de ciência no mundo inteiro –
disputando por serem maiores, mais importantes, mais
avançadas – e contornos esportivos, como acontece em
eventos esportivos como o das Olimpíadas.
Saiba mais
Olimpíadas de Berlim, 1936 Adolf Hitler era o comandante da Alemanha e seu objetivo era exibir o
poderio da raça ariana, mas também mostrar ao mundo como a Alemanha era um lugar especial,
civilizado, o futuro da humanidade. Os Estados Unidos, interessados na mesma coisa, não por uma
afirmação ariana, mas pelos seus princípios de capitalismo e liberalismo, veem no envio de seus atletas
uma ameaça nacional, a possiblidade de legitimar o discurso do alemão. Mas, a participação dos atletas
seria a chance de disputar a “superioridade” e vencer. Assim, todos os atletas são enviados para
defender os princípios norte-americanos. O maior nome é Jesse Owens, do atletismo, jovem negro que
sofre, como toda sua comunidade, com o sistema de segregação racial, e, por causa disso, às vésperas
do evento decide não ir, pois não se via respeitado em sua identidade como cidadão americano,
tampouco gostaria de dar legitimidade ao regime de Hitler. No entanto, ele acaba indo, vence, mas
mantém o discurso crítico de que nunca se sentiu verdadeiramente americano. 
Exemplo
Muhammad Ali (1942-2016) Nascido Cassius Clay, é outro exemplo dessa crise de identidade – princípio
do nacionalismo e a negação étnica. O pugilista, negro, campeão olímpico, americano, uma vez
convocado para Guerra do Vietnã decide não ir. Influenciado por movimentos negros norte-americanos
importantes, Ali diz que não via sentido em matar vietnamitas por um país que os segregava, negava,
maltratava. Foi processado. Teve a licença para lutar caçada. 
Desafios docentes
As transformações da apreensão de cultura, a formação de movimentos de grupos que lutavam por direitos e
reconhecimento (movimento negro, LGBTQ+, feminista, religiosos), entre outros fatores, repensam o sentido
das identidades. A ideia de que somos socialmente múltiplos e não simplesmente oposições genéricas ou
binárias acaba por multiplicar as formas de se identificar, gerando intensos debates sobre o que isso significa
socialmente.
 
Muitos professores entram em crise ao enfrentar o cotidiano das escolas. Descobrem identidades nunca
imaginadas. Professores que têm dificuldade de lidar com diversidade de culturas, com os discursos
dissonantes, com o preconceito racial, político e religioso. Muitos acabam defendendo que a Escola não é
lugar para esse debate, que na Escola todos são iguais e que a condição diferente acaba ali. Nada mais falso!
Verificando o aprendizado
Questão 1
(ENADE 2014 – ADAPTADA) Observe a figura abaixo, adaptada do livro Cuidado, Escola!, de
Paulo Freire.
Relacionando-a às frases abaixo e com a história da Antropologia, você diria que a sua melhor
interpretação é:
A
A Educação que ocorre na Escola incorpora sempre uma perspectiva de gerar e promover a igualdade; nesse
ponto, os conceitos antropológicos ajudam a perceber o que o aluno traz da sua vida.
B
A educação sistemática e a educação assistemática são a mesma coisa que acontece, apenas, em lugares
diferentes.
C
A educação sistemática e a escola regular têm os mesmos conteúdos, mas cada uma deve preservar seus
espaços de atuação.
D
A educação sistemática, muitas vezes, desconsidera as contribuições da diversidade cultural e das demandas
sociais, gerando problemas nessa relação.
A alternativa D está correta.
Um aspecto importante de nossos estudos é diferenciar a Escola e a Educação, depois demonstrar como a
Escola é um corpo imerso na sociedade e, por causa disso, reproduz as dinâmicas sociais em seu interior.
Uma sociedade marcada pela pluralidade terá escolas marcadas pela diversidade cultural. A Antropologia
nos ensina a não sermos inocentes em imaginar que é possível uma instituição imersa em uma sociedade
sem que dialogue com suas demandas.
Questão 2
(ENADE de 2011 – ADAPTADA) Durante os encontros para a preparação do ano letivo em uma
escola, alguns tópicos foram considerados como os mais importantes. Dentre eles, destaca-
se o conhecimento da realidade dos estudantes e, por isso, no planejamento das atividades,
foi preciso levar em conta:
A
A realidade expressa nos programas escolares estabelecidos.
B
A vivência limitada das pessoas de grupos sociais minoritários.
C
O meio ambiente das classes mais favorecidas daquela região.
D
O contexto sociocultural específico da realidade dos alunos.
A alternativa D está correta.
Essa questão trata da instrumentalização ofertada aos docentes ao discutir a relação entre Antropologia e
Educação. Não basta reconhecer um grupo, perceber suas relações econômicas, tampouco imaginar que a
função da Escola é transmitir conteúdo. A Escola é uma instituição, é social, é palco de dinâmicas diversas
e se quiser ser mais eficiente no aprendizado precisará lidar com a dinâmica sociocultural da realidade dos
alunos.
3. A relação entre Educação e Ciências Sociais no cotidiano escolar
O encontro entre a Educação e a sociedade
Assista ao vídeo sobre a escola como um campo de estudo das ciências humanas.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Sociedades humanas educam. Sempre existem responsáveis por passar as regras, incutir valores, treinar e
desenvolver habilidades. Os métodos variam, historicamente, de coerção a interesses. Sem entrar em
paradigmas biológicos, essa é uma característica que reproduzimos como espécie.
 
No entanto, outra característica que herdamos é a de consolidar relações complexas entre nossos pares. Nós
não reproduzimos meramente um comando instintivo. Pensamos, relacionamo-nos, recebemos regras e nos
ligamos a elas. Defendemos, negamos, lutamos a favor ou contra elas, mas é certo que sempre há um sentido
relacional nessa construção.
 
Temos uma fantástica capacidade de acumular conhecimentos e transformá-los ao longo do tempo.
Adaptamos os conhecimentos às novas condições e saímos de um modo de vida caracterizado por grupos de
caçadores e coletores para sermos sujeitos de identidade documentada e lidarmos com sistemas simbólicos
de representações absolutamente complexos.
 
Imagine a seguinte situação: Eu tenho algo e você tem outra coisa, temos o interesse em trocar, trocamos. Em
outra situação, eu tenho algo e você entende que aquilo deveria ser seu, mas eu tenho uma força que não
permite que você tome, ou então você cria estratégias e adquire forças que podem levar o que tenho.
 
Atualmente, todos temos alguma coisa e há sistemas monetários que garantem um valor para tudo, sistemas
jurídicos que ajudam a definir quais são os direitos de quem, configurando processos bem diversos. Saímos da
condição do mundo natural e criamos complexos conjuntos sociais que podem se diversificar a cada
momento.
 
Como funciona essa formação? Como ocorre essa relação em meio à sociedade? Essas perguntas apontam
para o objeto das Ciências Sociais.
 
Onde entra a Educação? Ora, faz parte da nossa condição o acúmulo e a transformação das experiências e do
conhecimento, essa dinâmica é transmitida, repetida, ensinada e finalmente aprendida geração após geração.
A Educação é um fenômeno muito presente na análise de qualquer formulação de sociedade. A
Escola, essa instituição desenvolvida para criar um espaço próprio para formar o sujeito a fim de
reproduzir as dinâmicas da sociedade, é uma das invenções mais interessantes para notar como
acontecem esses processos.
Mas, a compreensão não ocorre de um momento para o outro. Esse é o primeiro passo de outros que podem
solidificar sua caminhada na formação de professores. Uma vez que isso está claro, passamos agora a
conhecer os principais campos das chamadas Ciências Sociais.
Importante
Aquele que almeja assumir a condição de
docente, de se relacionar com a Educação,
nunca poderá desistir de observar como se
relacionam os homens e como eles constituem
a sociedade.
Vamos pensar na relação entre Escola e Ciências Sociais
O campo das Ciências Sociais tem muitos caminhos e agora nossa conversa é sobre você! Sujeito cheio de
anseios, tradições e culturas, certamente tem hábitos e já se viu em situações em que se reconheceu com
outra cultura, estranhando-a bastante. Imagine-se na Escola, experimentando uma multiplicidade de histórias,
vivências e culturas. Você precisará de instrumentos para lidar adequadamente com essa realidade. Por isso,
precisamos refletir sobre esse ponto. Vamos lá?
 
Imagine que você é um peixe que nasceu no aquário. Para você, tudo o que existe é o aquário. Você é capaz
de elaborar teorias para o funcionamento do aquário e do mundo no entorno dele. Mas, suas verdades são
postas em xeque quando outros peixes chegam ao seu ambiente. Eles falam de rios e natureza. Sua
construção pessoal, sua forma de pensar, poderá ser influenciada pelos relatos recebidos, afinal o aquário é o
mundo que você conhece, mas, ao menos em hipótese, existem outras culturas e outras sociedades. Você
poderá falar sobre rios, comparar o que ouviu sobre eles e a natureza que outros vivenciaram, mas sua relação
diária é com seu lugar, seu espaço, suas relações pessoais. Mesmo tendo conhecido outros peixes, acreditado
no relato deles, seu olhar sempre será marcado pelas suas experiências.
As Ciências Sociais são os exercícios para que os membros do aquário pensem sobre como
funcionam o seu mundo e, em especial, percebam que o seu mundo está imerso em outro muito
mais complexo do que o das suas relações afetivas e sensoriais.
Neste ponto, a provocação de um elemento é vital, a reflexão sobre quem você é, qual a função do aquário, o
que pode ser apreendido sobre a natureza e os rios não é algo efetivo, material, indiscutível, mas sim uma
construção discursiva. Mesmo que exista verdadeiramente o aquário, os rios ou a natureza, quando pensamos
e refletimos sobre eles o que criamos são conjecturas, vitais, mas ainda assim discursos sobre uma realidade
complexa e inatingível. Um dos aquários mais importantes das sociedades urbanas ocidentais é a Escola.
 
Escola não é um prédio, é uma ideia, é um símbolo da modernidade contemporânea. É meta em todo mundo
conhecido como civilizado. É uma estrutura que, no século XXI, qualquer pessoa é capaz de reconhecer. Pode
ser ultratecnológica ou um conjunto de cadeiras voltadas para um quadro velho, mas o coletivo reconhecerá:
aquilo é uma Escola. É uma sala de aula. É um professor. Todos nós, cursando uma graduação, já passamos
por “bancos” escolares.
 
A Escola fez parte de nosso cotidiano, antes mesmo de termos uma opinião sobre ela. Todos se acham
especialista em Escola, como ela funciona bem, o que é uma Escola boa e uma Escola ruim. Poucos são os
peixes que percebem que são peixes, que estão em um aquário. Poucos refletem a Escola como um espaço
cultural, marcado por interações humanas, com convivências muitas vezes inimagináveis. Poucos reconhecem
a importância singular de sujeitos que se atrevem a conviver com a juventude e os desafios que ela enfrenta.
Caracterização: Educação e Escola
Depois de conhecermos

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