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36 EF IS - R ev isã o: A na - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 7/ 01 /2 01 7 Unidade I Essa separação em áreas é ruim para a compreensão do corpo do ser humano? Depende. Como foi discorrido até agora, percebe-se que a separação acaba por não entender o corpo como um ser único e indivisível, mesmo que, para um pensamento racional e científico, seja interessante o aprofundamento do conhecimento específico de cada área, e isso é muito válido. [...] é fundamental que os especialistas não percam de vista a totalidade do ser humano. [...] as diferentes áreas do saber são apenas perspectivas, parcialização do homem, que, embora cooperem para o seu conhecimento, não desvelam seu ser total, mascarando muitas vezes sua essência (GONÇALVES, 2012, p. 140). A Educação Física está relacionada à corporeidade e ao movimento do ser humano, ou seja, na intencionalidade do homem de um ser corpóreo e motriz, tendo como abrangências as diversas formas de atividades físicas, por exemplo, as ginásticas em geral, os jogos e as manifestações rítmicas, que incluem diversos tipos de danças, e os esportes em geral (GONÇALVES, 2012). Essas formas de atividades físicas representam a cultura ou os fenômenos culturais de determinada região ou sociedade, e isso corresponde a uma apropriação pelo sujeito ou pelo homem, integrando a sua história, ao ser uma realidade sócio-histórica pertencente ao processo de formação da história da humanidade. Por conseguinte, a Educação Física tem de tratar o conceito de corpo-objeto para o corpo-sujeito, aquele que apresenta uma intencionalidade, o que irá caracterizar a corporeidade, como apresentado na ideia de Merleau-Ponty (MOREIRA; SIMÕES, 2013). Diferentes discussões envolvem a corporeidade, em diversas perspectivas teóricas que têm o objetivo de restabelecer a relação entre o corpo e a mente, ou seja, a corporeidade se apresenta como uma proposta de superar a visão mecanicista ou a dicotomia fragmentadora de uma unidade do ser humano. Dessa forma, o movimento passa a ser o reflexo ou a intencionalidade de um corpo com dimensões indissociáveis na constituição do sujeito (JOÃO; BRITO, 2004). Mesmo por meio da ciência, na tentativa de compreensão do ser humano em suas diversas facetas, ele como um ser no mundo, que necessita ter o seu relacionamento com o meio em que se desenvolve para que lhe confira um significado, dentro da Educação Física, ainda se discute a abordagem de que o corpo é tratado com uma máquina de reprodução de movimentos preestabelecidos e determinados, muitas vezes chamados de técnicas, retratando um mecanizado. A ideia de corpo-máquina, ou corpo-objeto, foi desenvolvida por Descartes, para quem corpo é concebido com o cárcere da alma ou da mente e só se movimenta pela ação da mente, sem nenhum tipo de reflexão ou intencionalidade. Descartes relaciona o corpo-máquina a um relógio, que realiza um trabalho mecânico sem reflexão nem intencionalidade, o qual, caso apresente qualquer defeito, pode ser consertado, ou suas peças, substituídas, e voltar a funcionar corretamente (MOREIRA; SIMÕES, 2013). 37 EF IS - R ev isã o: A na - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 7/ 01 /2 01 7 CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA Figura 26 – Corpo-máquina: o corpo é tratado como um objeto, que pode ser reparado e modificado, sem considerar o contexto individual e cultural em que foi desenvolvido Essa visão de corpo-objeto pode ser encontrada em conceitos estéticos das sociedades modernas, em que se tem um padrão a ser seguido na questão corporal segundo um modelo preestabelecido, por exemplo: se estão faltando seios, implanta-se organismos não pertencentes ao corpo; falta volume nas nádegas, também se implanta, tratando o corpo como um objeto passível de manipulação em busca de uma beleza padronizada (MOREIRA; SIMÕES, 2013). O corpo-objeto participa de um mundo objetivo de trocas, e a sua realidade é determinada pelos interesses de um sistema social, uma vez que sua divisão possibilita ao corpo transformar-se em um objeto, uma mercadoria, que obedecerá a uma lógica de sistema. Logo, o corpo nunca será real, mas haverá modelos em que a realidade corporal deverá se ajustar com as suas transições e mudanças. Segundo Melani (2011), esses modelos instigam e forçam o consumo de bens do corpo real para se atingir o corpo ideal, porém são normalmente inatingíveis, gerando um fracasso e, consequentemente, uma angústia. Deste modo, o corpo-máquina ou corpo-objeto é conhecido e trabalhado em seus mínimos detalhes e “mecanismos”, manipulando suas partes, ajustando, moldando e ditando seu funcionamento. Por isso está relacionado à Educação Física com uma abordagem mais biológica, pertinente à manutenção da saúde corporal, à conquista de aptidão física, que está envolvida com o desenvolvimento de capacidades físicas, habilidades motoras e desempenho esportivo (GONÇALVES, 2012). Por exemplo, correr em volta da quadra, realizar movimentos preestabelecidos de alongamento sem saber o motivo e quais as funções desse movimento em processo repetitivo, em alguns casos até a exaustão, e, quando não se consegue obter os resultados esperados, apela-se para o uso de anabolizantes com o intuito de passar o limite imposto pelo corpo (MOREIRA; SIMÕES, 2013). É o corpo-máquina, por isso mesmo acrítico, que busca, nas academias de ginásticas – templos modernos de adoração ao corpo –, modelar a massa muscular, espelhado em “Rambos” ou em atrizes e modelos famosos (MOREIRA; SIMÕES, 2013, p. 99). 38 EF IS - R ev isã o: A na - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 7/ 01 /2 01 7 Unidade I Tem-se na concepção de corpo-máquina as ideias desenvolvidas de um corpo dócil, um objeto de poder, pois pode ser manipulado, modelado, treinado, sendo o homem passivo perante o mundo real, e o ato de se obter conhecimento é uma mera adequação à realidade vivente, ou seja, um conformismo. Assim, traz a ideia de um corpo-mercadoria, um corpo que pode ser comprado, modificado e trocado de acordo com ondas de modismos da cultura social vigente, relacionada com o capitalismo de consumo exagerado e desenfreado. Isso pode ser observado em diversas ações de marketing para padrões e expressões corporais da “atualidade” que têm resultado econômico extremamente vantajoso para quem controla as tendências vendendo ideias distorcidas (MORAIS, 2008). Essa ideia de corpo-mercadoria, que vive de conceitos e padrões preestabelecidos pela cultura social vigente, como visto anteriormente, pode afetar o corpo e a corporeidade dos indivíduos de uma maneira danosa e prejudicial. Segundo Saikali et al. (2004), as questões culturais que determinam as normas sociais de relacionamento com o corpo, ditando práticas de beleza, manipulação e mutilação, têm um significado superficial e simbólico. Em algumas sociedades, alterações no formato do corpo, no tamanho e na aparência têm papéis importantes, pois esses aspectos comunicam as informações sobre a posição/classe social a que o sujeito pertence. Ao longo do tempo, o corpo vem sofrendo alterações; por exemplo, até o início do século XX, a mulher tinha o corpo com mais concentração de gordura nos quadris, nas coxas, no abdome e no seios, pois na Era Pré-Industrial, em razão dos períodos de escassez de alimento, presumia-se que essas mulheres tivessem uma força de trabalho maior (BOSI et al., 2006). No decorrer do século XX, principalmente após 1960, o padrão vem se alterando: busca-se um corpo magro com forma definida, adotada como um padrão de beleza e boa aceitação pela sociedade, que passa a constituir um corpo-objeto de consumo, levado em consideração um mercado crescente (BOSI et al., 2006; SAIKALI et al., 2004). Tal busca pelo padrão de corpo ditado pela sociedade pode acarretar alguns problemas, como uma visão deturpada da imagem corporal, que é uma figura do próprio corpo, construída na mente, em relação ao tamanho, à imagem e às formas, haja vista que essa formação incluiprocessos que podem ser influenciados por fatores como crenças e valores inseridos pela cultura (RIBEIRO; VEIGA, 2010; SCHERER et al., 2010). De acordo com Saikali et al. (2004), o conceito de autoimagem ou imagem corporal envolve três componentes: • Perceptivo: relacionado à forma precisa da aparência física, que envolve estimativa do tamanho e do peso corporal. • Subjetivo: relacionado à satisfação da aparência, associado à preocupação e à ansiedade. • Comportamental: relacionado a situações de fuga pelo indivíduo, por ter momentos de desconforto ligados à aparência corporal. 39 EF IS - R ev isã o: A na - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 7/ 01 /2 01 7 CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA Essa construção da autoimagem e, principalmente, dos comportamentos relacionados a ela são acentuados por meio do reforço social, que é o processo de internalização de atitudes e comportamentos, mediante a aprovação dos outros, e da modelagem, em que se observa o comportamento de outras pessoas e, a partir disso, tenta-se reproduzi-lo ou imitá-lo. Buscando essa afirmação pela sociedade, acaba-se gerando uma insatisfação com o próprio corpo, “frequentemente associada a uma discrepância da percepção e do desejo relativo a um tamanho e uma forma corporal” (BOSI et al., 2006, p. 109). Com essa percepção deturpada da autoimagem, podem ocorrer os transtornos de conduta alimentares, como a anorexia nervosa e a bulimia, que têm as mulheres como principal vítima, acarretando problemas clínicos de comprometimento da saúde, levando ao afastamento de atividades profissionais e, em casos extremos, à morte (RIBEIRO; VEIGA, 2010). A anorexia ou autoinanição pode ser fatal, e os indivíduos acometidos por esse transtorno têm uma imagem corporal distorcida; embora, geralmente, estejam abaixo do peso ideal, acreditam que estejam gordos ou obesos. Figura 27 – A anorexia leva o indivíduo a ter uma imagem corporal distorcida Os primeiros sinais da anorexia estão relacionados à realização de dietas determinadas e secretas, à insatisfação após perda de peso, às metas de peso mais baixas após atingir o peso inicial desejado, ao excesso de exercício e, nas mulheres, à interrupção da menstruação (PAPALIA; FELDMAN, 2013). 40 EF IS - R ev isã o: A na - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 7/ 01 /2 01 7 Unidade I Já a bulimia está ligada ao consumo elevado de uma grande quantidade de alimento em um curto período de tempo e à eliminação desse alimento ingerido, principalmente, por indução do vômito, dietas rigorosas ou jejum, exercícios de altíssima intensidade ou laxantes e diuréticos. As pessoas com bulimia geralmente não estão acima do peso, porém têm uma preocupação com a boa forma e a sua manutenção (PAPALIA; FELDMAN, 2013). Figura 28 – Apesar de ser um transtorno alimentar, uma pessoa que tem anorexia não necessariamente terá bulimia Apesar de as mulheres serem mais suscetíveis à anorexia e à bulimia, os homens não estão isentos de apresentar algum tipo de transtorno de imagem corporal. Ocorre uma grande pressão, principalmente por parte da mídia e da sociedade, em relação ao melhoramento corporal, vinculando o corpo perfeito à prática de atividade física como uma promoção da saúde e da credibilidade social, porém o excesso de atividade física pode acarretar riscos à saúde e desenvolver o transtorno de imagem corporal, como a dismorfia muscular (LIMA; MORAES; KIRSTEN, 2010; DEZAN; MACHADO, 2011). Essa dismorfia muscular é um tipo de transtorno de imagem corporal em que o indivíduo tem a percepção de que é fraco e pequeno em relação à quantidade ou ao tamanho de sua massa muscular, mas na verdade apresenta uma musculatura desenvolvida em níveis acima da média populacional (FEITOSA FILHO, 2008). A partir desse tipo de transtorno, é apresentada a vigorexia em que os indivíduos demonstram a descrição anteriormente relatada, manifestando uma preocupação anormal com a massa muscular, que pode levar ao excesso de atividades de força (musculação), práticas de dietas hiperproteicas (quantidades elevadas de proteínas), hiperglicídicas (quantidade elevada de carboidratos), hipolipídicas 41 EF IS - R ev isã o: A na - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 7/ 01 /2 01 7 CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA (pouca quantidade de lipídios e gorduras), uso de suplementos proteicos e, em casos extremos, consumo de esteroides anabolizantes (CAMARGO et al., 2008). Em contrapartida, pessoas com vigorexia não fazem atividades com características aeróbias, pois acreditam que esse tipo de atividade acarrete perda de massa muscular, além de evitar a exposição de seus corpos, por sentirem vergonha (CAMARGO et al., 2008; DEZAN; MACHADO, 2011). Para homens, a principal faixa etária acometida pela vigorexia é entre 18 a 35 anos, porém as mulheres que realizam atividades esportivas, principalmente musculação de forma intensa e contínua, sem respeitar as características de descanso e recuperação, com a intensão de aumentar a massa muscular e ter maior definição muscular possível, não se importam com as consequências da rotina de atividade ao sacrificar a vida social, os relacionamentos e o emprego, não estão isentas de apresentarem esse quadro (DEZAN; MACHADO, 2011). Pope Junior, Phillips e Olivardia (2000) listam uma série de sinais de uma pessoa com vigorexia: • Preocupação frequente de que seu corpo não seja magro e musculoso. • Perda de oportunidades sociais, que teria usufruído em outras circunstâncias, especialmente por estar na academia. • Gastar muito dinheiro em alimentos especiais ou suplementos dietéticos para aumentar a musculatura. • Evitar a exposição do corpo, principalmente em situação em que possam vê-lo, como piscina, praia e vestiários. • Realizar atividades físicas em situações de restrição médica e/ou de lesão. • Ingerir drogas, como anabolizantes. As principais causas na alteração da percepção da imagem corporal é uma imposição, pela mídia, pela sociedade e pelo meio esportivo, de um padrão considerado ideal e de que sem ele o indivíduo não terá sucesso e felicidade, tornando o corpo prisioneiro de um sistema de poder, ditado e modificado por regras, afetando a corporeidade de um indivíduo e até de uma população. Falar de corporeidade, ou do seu conceito, é complexo e enganador, pois representa a superação da ideia ou do ideal de um corpo mutilado, que foi esquadrinhado observacional e laboratorialmente e tem o foco no ser humano integral e completo – o corpo que é vivo, complexo e existente (MORAIS, 2008; MOREIRA; SIMÕES; CARBINATTO, 2010). O corpo carrega regras sociais, por isso é importante que, durante o processo de educação, o educador/ professor conheça como o corpo do indivíduo funciona, seu organismo e seus movimentos, uma vez que o movimento humano é mais do que uma mera junção ou resultado de aspectos fisiológicos ou biomecânicos ou de um processo de aprendizagem motora (GONÇALVES, 2012). 42 EF IS - R ev isã o: A na - Di ag ra m aç ão : F ab io - 2 7/ 01 /2 01 7 Unidade I A corporeidade implica vida e existência do ser que pensa no mundo em que está inserido, pensa no outro e em si, com o intuito de perceber e entender as relações. Reaprender a todo o momento a enxergar a vida e o mundo. Buscar a existencialidade, ver os objetos tendo a perspectiva de entendê-los e, assim, aprender ou incorporar os mais variados significados, com o maior número possível de perspectivas. A concepção do homem como uma unidade que se relaciona com o mundo permite visão e entendimento mais amplos do ser humano, que podem se tornar um facilitador, trazendo um sentido teórico-prático às diversas especializações ocasionadas pela racionalidade (mutilação) junto a uma conexão entre as diversas ciências que compõem a Educação Física. Portanto, corporeidade é um conceito aberto, que requer compromisso com a existência. Conceber, perceber, viver e conhecer o corpo na Educação Física, individual e coletivamente,tendo como regra de qualificação do gênero humano. 4 O PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA E A CORPOREIDADE O profissional de Educação Física pode apresentar dificuldades em perceber a corporeidade na atuação profissional tanto pela característica do meio acadêmico (processo científico) quanto pela divisão na qual o ser humano em movimento é estudado para um aprofundamento em diversas áreas. Porém ele deve formular uma concepção diferenciada em relação ao corpo humano; não ter a ideia de uma máquina perfeita ou a ser melhorada nas questões de rendimento, mas, sim, em uma corporeidade viva, existencial, racional e sensível (MOREIRA; SIMÕES; CARBINATO, 2010). A corporeidade considera o sujeito, ao mesmo tempo, um ser biológico e um ser social, relacionado ao seu contexto social, o que muitas vezes não é entendido ou concebido por algumas áreas de conhecimento em razão das ideias de divisão do ser humano. O profissional de Educação Física deve ser capaz de compreender o homem em sua totalidade e produzir uma intervenção condizendo com essa realidade de um novo homem. Aplicar essa concepção em sua atuação irá exigir do profissional a busca de um corpo possível em uma prática de atividade e exercícios físicos sistematizados, deixando de lado a ideia de um corpo ideal ou perfeito, abandonando o modismo que acontece sazonalmente nas diversas áreas da Educação Física. A corporeidade está relacionada a uma interação do ser humano com o mundo em que vive, e isso é representado pelo movimento, ou seja, a motricidade, que é a intencionalidade, provocando a superação. O sujeito, por intermédio da prática de atividades físicas, tem de buscar essa superação e ir além das possibilidades, mas tendo como foco cada sujeito, de acordo com suas características, e não utilizando exclusivamente tabelas e referências de desempenho e aptidões físicas.