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CAPÍTULO I Bioquímica da Saliva Introdução A saliva é o líquido que umedece a cavidade bucal, sendo segregada por todas as glândulas salivares da mucosa bucal, especialmente por três pa- res de glândulas maiores que são as parótidas, submandibulares e sublin- guais. As parótidas são glândulas serosas puras e contribuem com 25% da secre- ção salivar. As submandibulares são glândulas mucosserosas e contribuem com 70% da secreção salivar, que se apresenta bastante viscosa em virtude da alta concentração de mucina. As sublinguais e demais glândulas menores da mucosa bucal são também mucosserosas e.contribuem com 5% da secreção salivar. Também, a secreção dessas glândulas apresenta-se viscosa em virtude da presença de mucina, enquanto a saliva produzida pelas parótidas é bas- tante aquosa. A secreção salivar é induzida por estímulos psíquicos, mecânicos, físicos, químicos, físico-químicos e biológicos. Entre os estímulos psíquicos são muito importantes o odor, o sabor e a cor dos alimentos e, ainda, o estado emocional do indivíduo. Às vezes basta a lembrança de um alimento apetitoso para induzir a secreção salivar. Entre os estímulos mecânicos destacamos as pressões, os movimentos mastigatórios e, principalmente, as intervenções odontológicas. Entre os estímulos químicos estão todas as substâncias de sabor pronun- ciado, como as ácidas, bases, doces, amargas, salgadas, e medicamentos. aumento da secreção salivar é chamado sialorréia e é produzido por algumas substâncias como, por exemplo, a pilocarpina; por outro lado, a diminuição da secreção salivar é chamada de sialosquiese e pode ser de- terminada, por exemplo, pela atropina. Entre os estímulos físico-químicos estão as variações do pH do meio bucal e entre os estímulos biológicos destacam-se os processos inflamatórios da mucosa bucal. 2Assim, a saliva umedece os dentes e a mucosa bucal, e cumpre as seguin- tes funções: 1. Proteção da mucosa bucal e dos dentes, com uma lubrificação perfeita, evitando o ressecamento dessas unidades biológicas. 2. Defesa através da lisozima, que exerce, até certo ponto, uma ação ger- micida, evitando a proliferação de germes estranhos no meio bucal. 3. Aglutinação das partículas alimentares para a formação do bolo ali- mentar que, perfeitamente lubrificado, desliza suavemente pelas pare- des do tubo digestivo. 4. Digestão inicial dos polissacarídeos, como o amido e o glicogênio, que são convertidos em maltose. 5. Regulação do pH do meio bucal a 6,9 através dos tampões salivares, mucina, bicarbonato e monofosfato, evitando as lesões produzidas pelo excesso de ácidos e de bases. 6. Autóclise ou autolimpeza da boca através dos movimentos mastigatórios. Propriedades Físicas e Físico-Químicas da Saliva 1. Aspecto: opalescente, às vezes, límpido e incolor. 2. Viscosidade: elevada devido à presença de mucina. 3. Volume: de 1.000 a 1.500ml/dia, o que corresponde a 0,7 ou 1,0ml/mi- nuto, havendo, contudo, quem admita volumes menores que 0,25 a 0,5ml/minuto. 4. Densidade: de 1.000 a 1.020g/ml, variação normal, mas situando-se com mais em torno de 1.012g/ml. 5. Osmolaridade: a saliva é hipotônica em relação ao plasma, isto é, a sua osmolaridade é menor que 6. pH: a variação normal está entre 5,0 e 8,0, mas a maior incidência é de 6,9. Composição Química da Saliva Obedece à seguinte tabela: Água 99,1g% Sólidos 900mg% A) Substâncias inorgânicas 500mg% B) Substâncias orgânicas 400mg% A) Substâncias inorgânicas Ânions 150mg% 1. 80mg% 2. H,PO 25mg% 3. 15mg% 4. 10mg% 5. 10mg% 6. 9mg% 7. F 0,02mg% 8. Outros ânions: 0,98mg% 3Cátions 350mg% 1. 160mg% 2. K+ 170mg% 3. Ca++ 4 a 10mg% 4. 10mg% 5. Mg++ 0,5mg% B) Substâncias orgânicas 1. Mucina (glicoproteína) 300mg% 2. Amilase (ptialina) 40mg% 3. Uréia 20mg% 4. Lisozima 10mg% 5. Anidrase carbônica (ac) 10mg% 6. Tiocianato 10mg% 7. Glicose 1mg% 8. Outras: 9mg% a) Enzimas microbianas b) Componentes sangüíneos c) Produtos de excreção d) Produtos da atividade microbiana Comentários Gerais A água entra em grande proporção como tivemos a oportunidade de ob- servar e serve, assim, para manter úmidas a mucosa bucal e as superfícies dos dentes, ao mesmo tempo em que é o solvente geral das substâncias do meio bucal. Entre os ânions, destacamos, particularmente, o bicarbonato, o monofosfato e o bifosfato, que exercem um efeito tamponante eficaz, frente aos ácidos e às bases, o que permite a constância do pH salivar em torno de 6,9. Entre os cátions, o cálcio, na taxa de 4 a 10mg%, é usado como parâmetro para se determinar a susceptibilidade dos pacientes à cárie dental no méto- do de Fosdick, que será estudado, detalhadamente, no respectivo capítulo. Entre os componentes orgânicos, a mucina (glicoproteína), graças à sua elevada viscosidade, exerce um papel protetor de grande eficiência, lubri- ficando a mucosa da boca, aglutinando as partículas alimentares e micro- organismos, ao mesmo tempo em que tem um elevado poder tamponan- te, contribuindo para a manutenção do pH a 6,9. A amilase, ou ptialina, hidrolisa o amido e glicogênio até maltose, confor- me a amido e glicogênio dextrinas maltose A uréia, resíduo do catabolismo dos aminoácidos, e que se excreta, princi- palmente, pela urina, também é eliminada na saliva na taxa de 20mg%. A lisozima exerce importante ação bactericida e a anidrase carbônica cata- lisa a reação: H+ + 4que é importante na formação do tártaro ou cálculo dental, como veremos no respectivo capítulo. A glicose entra numa taxa bastante reduzida de 1,0mg%, mas é o principal substrato que, na via glicolítica, explica a formação do ácido láctico, que está relacionado ao processo bioquímico da cárie dental. Finalmente, entre os componentes orgânicos da saliva, destacamos: 1. Enzimas microbianas A hialuronidase hidrolisa os como o ácido hialurônico, produzindo ácido glicurônico, glicosamina, glicose e ácido acético. A urease hidrolisa a uréia, responsável pelo aparecimento da amônia na saliva, que é uma substância básica que eleva o pH salivar, o que facilita a precipitação dos sais de cálcio na formação do tártaro dental e, além disso, a amônia é tóxica e cáustica, e acaba lesando o periodonto de proteção, o que permite a instalação da doença periodontal (piorréia): urease + (amônia) As fosfatases ácidas hidrolisam ésteres fosfóricos e tomam parte no pro- cesso da cárie e aftas da mucosa da boca. As fosfatases alcalinas tomam parte nas alterações do periodonto, precipi- tando os sais de cálcio para a formação do tártaro dental. As proteases hidrolisam as proteínas, produzindo aminoácidos. As lipases hidrolisam os diferentes tipos de lipídeos, produzindo ácidos graxos, glicerol, e outros. As oxidases (sacarase, lactase, maltase e amilase) hidrolisam sacarose, lac- tose, maltose, amido e glicogênio, dando frutose-galactose e glicose. 2. Componentes Destacamos os aminoácidos, o ácido úrico, as alfa, beta e gamaglobulinas; mas, a concentração desses componentes é sempre inferior àquela que se apresenta no sangue, e é pouco influenciada pelas variações das respecti- vas taxas sangüíneas. 3. Produtos de excreção Medicamentos (I e e tóxicos (Pb++, e alcalóides) podem ser encontrados na saliva; assim, é prática rotineira, nos prados de corrida, pesquisar-se a presença de drogas estimulantes ("dopping") na saliva dos cavalos ganhadores. Por outro lado, é importante ao cirurgião-dentista ter esse conhecimento, em função do diagnóstico das gengivo-estomatites 4. Produtos da atividade microbiana São variados como já tivemos a oportunidade de ver, mas em especial destacam-se os produtos de putrefação como fenóis, ácidos, aminas, amô- nia, aminoácidos, H,S, tióis, indol, escatol que são dotados de cheiro desa- gradável, determinando, pois, o mau hálito ou halitose. 5CAPÍTULO II Bioquímica do Sistema Dental (Figs. II-1 a II-5) sistema dental é constituído das seguintes unidades biológicas: I - Dente: a) Esmalte. b) Dentina. c) Cemento. d) Polpa. II - Periodonto: a) Periodonto de proteção (gengiva): ligamento circular de Koelliker, constituído pelas fibras do grupo I do periodonto: 1. Fibras gengivo-alveolares. 2. Fibras gengivo-dentais. 3. Fibras dento-dentais. 4. Fibras dento-alveolares. 5. Fibras circulares. b) Periodonto de inserção: 1. Osso alveolar (alvéolo). 2. Ligamento periodontal ou ligamento alvéolo-dentário, ou perice- mento constituído pelas fibras dos grupos II, III, IV e V do perio- donto: - Fibras do grupo II, oblíquas superficiais, inserem-se no alvéolo e terço cervical da - Fibras do grupo III, ou horizontais, inserem-se no alvéolo e no terço médio da raiz. Fibras do grupo IV, oblíquas profundas, inserem-se no alvéolo e terço apical da raiz - Fibras do grupo V, periapicais, inserem-se no alvéolo e em torno do ápice da raiz, delimitando um espaço chamado espaço peri- apical de Black, repleto de tecido conjuntivo frouxo, onde há vasos, nervos e células do conjuntivo. 927 4 5 2 25 25 8 7 13 9 17 14 15 142 15 19 20 19 20 18 26 26 10 22 12 10 12 24 11 11 alvéolo OSSO alveolar 16 Tufo ou penacho Esmalte de Bodecker Bainha de Neumann Fibrila de Tomes Canalículo dentinário 1. Coroa anatômica 16. Fibras dento-dentais ou transeptais 2. Coroa clínica 17. Fibras circulares 3. Raiz 18. Periodonto de inserção 4. Esmalte 19. Ligamento ou membrana periodontal ou 5. Dentina pericemento 6. Cemento 20. Fibras oblíquas superficiais 7. Câmara pulpar 21. Fibras horizontais 8. Polpa 22. Fibras oblíquas profundas 9. Periodonto de proteção 23. Fibras verticais ou periapicais 10. Epitélio poliestratificado pavimentoso 24. Espaço periapical de Black 11. Mucosa 25. Espaços interglobulares de Czermack da 12. Submucosa dentina 13. Fibras gengivo-dentais 26. Camada granulosa de Tomes da dentina 14. Fibras gengivo-alveolares radicular 15. Fibras alvéolo-dentais 27. Limite amelo-dentinário Figura II-1 - Estrutura do sistema dental. 10Gengiva marginal Papila interdentária Gengiva livre Depressão gengival livre Margem da gengiva Pregas Depressão gengival livre interdentárias Junção muco- Gengiva inserida gengival (granulada) Mucosa alveolar Figura II-2 - Diagrama ilustrando as características da superfície gengival. Margem da gengiva Periodonto de proteção Esmalte Dentina Gengiva livre Depressão gengival livre Polpa Gengiva inserida (granulada) Junção muco- gengival Mucosa alveolar Membrana Osso alveolar periodontal Figura II-3 - Diagrama ilustrando a diferença Figura II-4 - Diagrama do sistema dental: mo- entre gengiva e mucosa alveolar. lar inferior. 11Linhas de Schereger Linhas de Retzius Espaços interglobulares de Czermack Cemento Câmara pulpar Camada granulosa de Tomes Dentina Cemento Forâmen apical Figura II-5 - Elementos estruturais de um dente num corte histológico por desgaste. 12Estrutura Geral dente adulto, completamente desenvolvido, apresenta-se constituído, anatomicamente, por duas partes distintas: a coroa, externamente visível, e a raiz, implantada numa cavidade do osso alveolar chamada alvéolo. A raiz articula-se com o alvéolo graças ao ligamento alvéolo-dentário, ou pericemento, ou ligamento periodontal. Externamente, na região da coroa, aparece a gengiva, cujas fibras aderem ao alveolar e ao dente na região coronária cervical, formando o peri- odonto de proteção. A mucosa gengival é constituída por epitélio pavimentoso poliestratifica- do, embaixo do qual está o tecido conjuntivo denso, formando a lâmina própria, e abaixo da lâmina própria a submucosa, constituída por tecido conjuntivo frouxo, onde ocorrem tecido adiposo, glândulas, vasos e nervos. Na mucosa gengival, os corpúsculos de Meisner, de Krause e as termina- ções nervosas livres dão grande sensibilidade à gengiva. A gengiva, ao redor do colo dentário, constitui o periodonto de proteção, cujas fibras estão especialmente colocadas e direcionadas, protegendo o dente e o periodonto de inserção, ou ligamento alvéolo-dentário, ao mes- mo tempo em que dão a fixação inicial superior do dente no seu alvéolo. Estas fibras constituem o ligamento circular de Koelliker, que é composto pelas fibras do grupo I do periodonto já mencionadas anteriormente. Assim, a unidade biológica chamada periodonto é composta pelo al- veolar (alvéolo) e as fibras dos grupos I, II, III, IV e V, que fixam o dente na cavidade alveolar e amortecem todos os esforços laterais, verticais, rotató- rios a que os dentes são submetidos. Isto é muito importante porque o é um tecido muito sensível às pressões e se reabsorve com muita facilidade, especialmente quando os dentes são submetidos a esforços anormais que ultrapassam a capacidade de resistência e amortecedora do ligamento periodontal. Histologicamente, o dente apresenta-se constituído pelos tecidos: a) esmalte; b) dentina; c) cemento; d) polpa. Esmalte É o tecido que reveste a coroa do dente, sendo produzido por células de origem ectodérmica chamadas ameloblastos, ou adamantoblastos, como estudaremos no processo de formação do dente, ou odontogênese. O esmalte representa o tecido mais duro do organismo, sendo formado pelos prismas de esmalte, especialmente construídos pelos ameloblastos. Os prismas de esmalte apresentam-se formados por 96,0g% de minerais na forma de cristalitos de hidroxiapatita, (OH), e daí a ele- vada dureza do esmalte. Possuem apenas 0,5g% de substâncias orgânicas e 3,5g% de água. Este elevado percentual de sólidos faz do esmalte um 13Estrutura Geral dente adulto, completamente desenvolvido, apresenta-se constituído, anatomicamente, por duas partes distintas: a coroa, externamente visível, e a raiz, implantada numa cavidade do osso alveolar chamada alvéolo. A raiz articula-se com o alvéolo graças ao ligamento alvéolo-dentário, ou pericemento, ou ligamento periodontal. Externamente, na região da coroa, aparece a gengiva, cujas fibras aderem ao OSSO alveolar e ao dente na região coronária cervical, formando o peri- odonto de proteção. A mucosa gengival é constituída por epitélio pavimentoso do, embaixo do qual está o tecido conjuntivo denso, formando a lâmina própria, e abaixo da lâmina própria a submucosa, constituída por tecido conjuntivo frouxo, onde ocorrem tecido adiposo, glândulas, vasos e nervos. Na mucosa gengival, os corpúsculos de Meisner, de Krause e as termina- ções nervosas livres dão grande sensibilidade à gengiva. A gengiva, ao redor do colo dentário, constitui o periodonto de proteção, cujas fibras estão especialmente colocadas e direcionadas, protegendo o dente e o periodonto de inserção, ou ligamento alvéolo-dentário, ao mes- mo tempo em que dão a fixação inicial superior do dente no seu alvéolo. Estas fibras constituem o ligamento circular de Koelliker, que é composto pelas fibras do grupo I do periodonto já mencionadas anteriormente. Assim, a unidade biológica chamada periodonto é composta pelo al- veolar (alvéolo) e as fibras dos grupos I, II, III, IV e V, que fixam o dente na cavidade alveolar e amortecem todos os esforços laterais, verticais, rotató- rios a que os dentes são submetidos. Isto é muito importante porque o é um tecido muito sensível às pressões e se reabsorve com muita facilidade, especialmente quando os dentes são submetidos a esforços anormais que ultrapassam a capacidade de resistência e amortecedora do ligamento periodontal. Histologicamente, o dente apresenta-se constituído pelos tecidos: a) esmalte; b) dentina; c) cemento; d) polpa. Esmalte É o tecido que reveste a coroa do dente, sendo produzido por células de origem ectodérmica chamadas ameloblastos, ou adamantoblastos, como estudaremos no processo de formação do dente, ou odontogênese. esmalte representa o tecido mais duro do organismo, sendo formado pelos prismas de esmalte, especialmente construídos pelos ameloblastos. Os prismas de esmalte apresentam-se formados por 96,0g% de minerais na forma de cristalitos de hidroxiapatita, e daí a ele- vada dureza do esmalte. Possuem apenas 0,5g% de substâncias orgânicas e 3,5g% de água. Este elevado percentual de sólidos faz do esmalte um 13tecido muito compacto, pouco permeável e de densidade da ordem de 3,0, portanto, bastante elevada. Acredita-se que os prismas de esmalte não se encontram em contato direto, mas são cimentados entre si por uma subs- tância interprismática, que tem um índice de refração um pouco mais ele- vado do que o dos prismas. Em relação ao longo eixo do dente, os prismas de esmalte têm direção radial; no terço cervical da coroa, apresentam-se inclinados; no terço mé- dio da coroa, são horizontais; nas pontas de cúspides, são divergentes; nas cicatrículas e fissuras, são convergentes e, nas bordas incisivas, são verti- cais. Os prismas de esmalte ligam-se à membrana dentino-esmalte no li- mite amelo-dentinário. Essa membrana dentino-esmalte é produzida logo no início da formação desse tecido e, assim, o limite amelo-dentinário apresenta-se sinuoso. A espessura do esmalte é menor ao nível do colo do dente e das cicatrícu- las e fissuras, onde é praticamente nula; nas bordas incisivas e cúspides, o esmalte apresenta-se bastante espesso. A camada mais externa de cada prisma de esmalte é menos calcificada e se chama bainha do prisma. Tam- bém, pode-se observar, no esmalte dentário, as estrias de incrementárias de Retzius que demonstram o processo rítmico de crescimento e desenvol- vimento do esmalte. Convém lembrar, ainda, as linhas de Hunter Schere- ger, que aparecem, alternadamente, como regiões claras e escuras trans- versais às de Retzius. Segundo alguns autores, as linhas de Hunter Schere- ger indicam alternância de regiões mais e menos calcificadas; segundo outros autores, contudo, as linhas de Hunter Schereger aparecem devido ao sistema de iluminação lateral por reflexão. Ainda podemos notar, no esmalte, as lamelas do esmalte, que são estrutu- ras delgadas como folhas hipocalcificadas. E, finalmente, devemos assinalar o fato de o esmalte ser um tecido de for- mação isto é, forma-se de dentro para fora até que o esmalte adquira a sua espessura característica, quando, então, os ameloblastos ela- boram a membrana de Nasmith, que cobre o esmalte jovem e, em seguida, desaparecem. Isto será muito bem estudado no processo odontogênico. Dentina É tecido elaborado por células especiais, de origem mesenquimal, chama- das odontoblastos. Este tecido aparece logo abaixo do esmalte na região coronária e logo abaixo do cemento na região radicular, e limita no centro do dente a câmara pulpar, onde se encontra a polpa do dente. Na região coronária a câmara pulpar é larga e na região radicular a câmara pulpar se estreita, constituindo o conduto radicular. Os odontoblastos são células cilíndricas, colocadas em toda a periferia da polpa, e produzem dentina em direção centrípeta, durante toda a vida, até o fechamento total da câ- mara pulpar ou eburnificação do dente. Diferentemente do esmalte, a dentina é menos mineralizada que o esmal- te, contendo 65,0g% de minerais, principalmente, na forma de cristalitos de hidroxiapatita, 21,5g% de substâncias orgânicas e 13,5g% de água. A maior taxa de substâncias orgânicas e de água dá à dentina uma maior plasticidade. Por outro lado, a dentina está repleta de 14canalículos dentinários radiais que partem da câmara pulpar ao esmalte e ao cemento. Estes canalículos intercomunicam-se lateralmente e são forra- dos pela membrana de Neumann que reveste as fibrilas de Tomes que partem dos odontoblastos e chegam até o limite amelo-dentinário. Estas fibrilas de Tomes também se ligam lateralmente e podem ainda penetrar no esmalte formando os tufos e penachos de Bodecher. Acredita-se que a sensibilidade da dentina seja dada pelas fibrilas de To- mes, ou por fibrilas nervosas, que partem da polpa e penetram nos canalí- culos dentinários juntamente com as fibrilas de Tomes. Ainda vamos en- contrar na dentina, na região coronária cervical, os espaços interglobulares de Czermack, que são formações globulares não calcificadas, ou mal calci- ficadas, e, na dentina radicular logo abaixo do cemento, aparece a camada granulosa de Tomes, que representa também uma região não calcificada ou mal calcificada. Esta estrutura canalicular da dentina dá ao tecido alta permeabilidade e permite entender bem a circulação de substâncias atra- vés deles. Por outro lado, a menor taxa de minerais explica a sua densida- de menor, da ordem de 2,14. Cemento É um tecido produzido por células especiais, de origem mesenquimal, chamadas cementoblastos, que se alojam em cavidades chamadas cemen- toplastos. cemento é um tecido duro de estrutura muito parecida com a do osso, embora mais compacto e, portanto, menos permeável que o tecido ósseo. cemento possui 45,0g% de minerais, 35,0g% de substâncias orgânicas e 20,0g% de água. A sua permeabilidade é maior que a do esmalte e da dentina, porém, a sua densidade é menor, ou seja, da ordem de 2,0. cemento dentário constitui um tecido que cobre toda a raiz do dente, desde o colo do dente até o ápice. A sua espessura é maior no ápice, e no colo do dente é bastante delgado. No colo do dente, está em relação ao es- malte, e este relacionamento pode acontecer de quatro diferentes maneiras: 1. cemento em contato direto com o esmalte; 2. cemento coberto pelo esmalte; 3. cemento cobrindo o esmalte; 4. cemento e esmalte separados no colo dental. Estes quatro relacionamentos constituem o tetra de Choquet. Podemos distinguir no cemento: substância fundamental calcificada, ce- mentoblastos e fibras perfurantes ou penetrantes. Os cementoblastos alo- jados em seus cementoplastos são células estreladas, de núcleo oval e abundantes mitocôndrias. Emitem numerosos prolongamentos que che- gam, às vezes, a se anastomosar com os prolongamentos das células vizi- nhas. As fibras perfurantes ou penetrantes são feixes de fibras colágenas e que equivalem às de Sharpey do osso. Sua disposição é sempre transver- sal à espessura do cemento. Ainda podemos reconhecer três regiões no cemento que são: região exter- na, região média e região interna. A região externa é a que está em diato contato com o ligamento periodontal; não possui células (cemento acelular), tem um aspecto granuloso porque a sua calcificação está incom- pleta, e é uma região muito permeável, sendo por aí que as substâncias 15nutritivas chegam até os cementoblastos da região média. A região média é a de maior espessura e contém os cementoblastos e as fibras perfurantes. A região interna é muito delgada, está em contato com a dentina, possui poucos cementoblastos, e é bastante homogênea devido ao alto grau de calcificação. Finalmente, destacamos que a nutrição do cemento se faz por osmose, pois as substâncias que banham o cemento difundem através da região externa e chegam aos cementoblastos da região média. Assinalamos, ain- da, que no cemento não há vasos e nervos, de modo que a reação dolorosa, que acusa o cemento na região cervical do dente, deve-se à sua pouca es- pessura, o que nos faz confundir a sensibilidade recebida e transmitida pela dentina com a sensibilidade do cemento. Tanto assim é que, se remo- vermos a polpa do dente, essa sensibilidade cessa, sem no entanto tirar a vitalidade do cemento que independe da vitalidade pulpar. Polpa dental É um tecido conjuntivo frouxo, originado do mesênquima da papila den- tal, como teremos oportunidade de ver no estudo do processo odontogê- nico. Histologicamente, a polpa apresenta-se formada por quatro camadas que, de fora para dentro, são (Fig. II-6): Esmalte Dentina 1. Pré-dentina 2. Camada odontoblástica 3. Camada subodontoblástica ou zona basal de Weil Polpa 4. Camada central Figura II-6 - As quatro camadas que formam a polpa dental. 161. Pré-dentina: é a matriz orgânica protéica elaborada pelos odontoblastos e que, posteriormente, calcifica-se, constituindo a dentina. 2. Camada é formada pelos odontoblastos que são células altas, de 40 micrômetros de altura e 4 micrômetros de espessura. Estas células contêm núcleo oval e volumoso, abundantes mitocôndrias, ribos- somos e sistema de Golgi; e se dispõem por toda a periferia da polpa. 3. Camada subodontoblástica ou zona basal de Weil: está situada logo abaixo dos odontoblastos e é acelular. Esta camada contém o plexo ner- voso de Raschkow e fibrilas nervosas amielínicas. 4. Camada central: é constituída por abundante substância fundamental, fibras colágenas, fibras reticulares e elementos celulares próprios de um tecido conjuntivo frouxo, isto é, fibroblastos, plasmócitos, mastócitos, histiócitos ou macrófagos e, ainda, células da série como he- mácias, neutrófilos, eosinófilos, basófilos, monócitos e linfócitos. Final- mente, convém destacar que a polpa contém uma taxa de água da or- dem de 90,0g%, 1,0g% de minerais e 9,0g% de substâncias orgânicas. Bioquímica do Dente Tabela II-1 - Composição química do dente. Esmalte Dentina Cemento Polpa Água 3,5g% 13,5g% 20,0g% 90,0g% Sólidos 80,0g% 10,0g% a) Minerais 96,0g% 65,0g% 45,0g% 1,0g% b) Orgânicos 0,5g% 21,5g% 35,0g% 9,0g% a) Minerais 1. Ca++ 36,0g% 26,0g% 16,0g% * 2. 18,0g% 13,0g% 8,0g% * 3. 3,0g% 3,0g% 6,0g% * 4. 0,5g% 0,8g% * 5. 0,4g% 0,4g% 0,4g% * 6. K+ 0,2g% 0,2g% 0,1g% * 0,01g% 0,02g% 0,05g% * Outros elementos: Cl, Pb, Fe, Si, Ag, Cu, Zn, Al, Sn, apresentam-se em taxas muito reduzidas. b) Orgânicos 1. Proteínas 20,0g% 32,0g% ** 2. Citrato 0,1g% 1,0g% 1,5g% ** 3. Triglicerídeos 0,05g% 0,4g% 0,8g% ** 4. Colesterol 0,01g% 0,01g% 0,6g% ** 5. Fosfolipídeos 0,01g% 0,01g% 0,01g% ** 6. Glicose 0,001g% 0,001g% 0,001g% ** * Os minerais da polpa somam todos juntos 1,0g%. ** Os componentes orgânicos da polpa perfazem no total a taxa de 9,0g%. 17Analisando-se a tabela II-1 verifica-se a reduzida taxa de água do esmalte e a elevada taxa de água da polpa dentária. Por outro lado, constata-se que a taxa de água cresce do esmalte ao cemento, isto é, a dentina tem menos água que o cemento, mas tem mais água que o esmalte. É por isso que a dentina é mais elástica que o esmalte, porém menos que o cemento. Verificando-se as taxas de sólidos, constatamos que o esmalte tem a maior taxa, principalmente de minerais, o que faz, do esmalte, o tecido mais duro do organismo, tendo uma estrutura química comparável à da apatita Já a taxa de substâncias orgânicas do esmalte é muito reduzida, razão pela qual o esmalte é bastante friável e se cliva com facili- dade ("slice"). A taxa de minerais da dentina é bem menor que a do esmalte, mas maior que a do cemento; porém, a taxa de substâncias orgânicas da dentina é bem maior que a do esmalte, mas inferior à do cemento. Assim, a maior taxa de substâncias orgânicas da dentina explica a sua elevada plasticida- de e elasticidade, recebendo bem os esforços mastigatórios e permitindo uma adaptação perfeita das restaurações. cemento é um tecido, como dissemos, muito parecido com o tecido ósseo, embora mais calcificado; o seu teor de substâncias orgânicas é maior que o da dentina, mas o do ce- mento é menos mineralizado que o da dentina. Como dessas diferenças de taxas de minerais dos tecidos dentários, verifica-se que o esmalte é muito pouco permeável às substân- cias, enquanto esta permeabilidade está bem mais aumentada na dentina e mais ainda no cemento. Também, em função dessas diferenças de com- posição química, temos valores diferentes para as densidades dos tecidos dentários, ou seja: esmalte = 3,0; dentina = 2,14; cemento = 2,0. As cifras apresentadas na tabela II-1 traduzem condições médias, pois há variações fisiológicas, embora pequenas. Convém assinalar ainda que, com a idade, observa-se progressiva mineralização do dente, até o fecha- mento completo da câmara pulpar em idade bem avançada. Façamos agora um estudo mais detalhado das substâncias minerais e or- gânicas do dente. Substâncias minerais do dente - o principal composto mineral do dente é o ortofosfato de cálcio, que se acha associado a outros compo- nentes, assumindo a estrutura cristalina da apatita natural, o que foi de- monstrado pela identidade dos espectros de raios X. A fórmula molecular geral das apatitas é: na carbonato apatita OH na hidroxiapatita X = F na fluoroapatita Nas apatitas, são ainda admitidas outras permutas com a do Ca++ por Na+ ou 18Como acontece no osso, a maior parte dos minerais dentários se encontra na forma de cristalitos de hidroxiapatita, e o restante encontra-se no estado amorfo em volta dos cristalitos. A fração mineral de cristalitos de hidroxiapatita é fixa, ao passo que a fra- ção amorfa é lábil, renovando-se continuamente. Os cristalitos de hidroxiapatita têm a seguinte estrutura: O-Ca cristalitos de hidroxiapatita aaa minerais no estado amorfo matriz protéica Na tabela II-1, observa-se ainda que a taxa de fósforo é a metade da taxa de cálcio, enquanto o carbonato aparece em maior quantidade no cemento. Em relação ao magnésio notamos que ele aparece em maior taxa na denti- na, enquanto sódio e potássio aparecem em quantidades bem pequenas. Quanto ao flúor, importante profilático da cárie dental, apresenta-se na forma de fluoroapatita bem mais insolúvel que a hidroxiapatita e, além disso, o flúor tem ação inibitória da enolase no processo glicolítico, evitan- do a formação do ácido láctico. Notamos também que as taxas de flúor crescem do esmalte ao cemento, sendo de 10mg% no esmalte, de 20mg% na dentina e de 50mg% no ce- mento. Finalmente a análise espectroscópica revela a existência de outros elemen- tos em quantidades muito exíguas como: cloro, chumbo, ferro, silício, pra- ta, cobre, zinco, alumínio, estanho, etc. Substâncias orgânicas do dente entre os componentes orgânicos do dente, assume importância capital as proteínas que constituem as matri- zes dos tecidos duros dos dentes. Todo tecido duro apresenta uma matriz protéica que serve de base para a precipitação dos sais de cálcio e posterior endurecimento da estrutura. Má formação da matriz implicará estrutura malformada, da mesma forma que deficiente mineralização provocará o aparecimento de regiões hipo- calcificadas ou mesmo não calcificadas. A taxa de substâncias orgânicas do esmalte é muito pequena, sendo a taxa de proteínas da ordem de 0,3g%, e daí o esmalte não ter elasticidade algu- ma e se clivar com muita facilidade em virtude do seu alto teor de sais de cálcio, 96,0g%, que dá ao tecido extrema dureza, isto é, a dureza da apatita. A taxa de água, da ordem de 3,5g%, é ínfima. A taxa de substâncias orgâ- nicas da dentina é bem maior que a do esmalte, porém menor que a do cemento. Isto confere à dentina elevada plasticidade, recebendo os esfor- 19com muita elasticidade e permitindo uma adaptação perfeita das res- taurações dentárias. Também a matriz protéica da dentina é elevada, sen- do da ordem de 20g% e, após a mineralização com sais de cálcio, endurece, mas mantém relativa permeabilidade, menor que a do cemento, mas mui- to maior que a do esmalte, que é muito pequena, ou quase nula. Por outro lado, a matriz protéica do cemento é da ordem de 32g%, o que dá a este tecido uma maior plasticidade e permeabilidade em relação à dentina, embora me- nor que a do tecido ósseo, com o qual o cemento muito se assemelha. Em relação aos outros componentes orgânicos verificamos que as suas ta- xas são mínimas, aparecendo o ácido cítrico, na forma de complexo insolú- vel de cálcio; sua concentração é bem mais elevada na dentina e aumenta mais ainda no cemento. Os lipídeos, representados pelos triglicerídeos, colesterol e fosfolipídeos, estão em concentrações muito pequenas, sendo maior no cemento que na dentina, mas as taxas destes componentes da dentina são maiores que a do esmalte; os lipídeos do dente apresentam baixo índice do iodo e o seu índice de saponificação é, relativamente, baixo no esmalte, mas bem mais elevado na dentina e no cemento. Quanto à glicose, ela aparece em taxas mínimas nos tecidos dentários, ou seja, ela é da ordem de 1,0mg%, no esmalte, dentina e cemento. Vimos, assim, que, dos componentes orgânicos, as proteínas, por consti- tuírem as matrizes dos tecidos calcificados, são as mais importantes. Convém, pois, destacar os tipos principais de proteínas do esmalte, denti- na e cemento, bem como analisar detalhadamente a composição química da polpa. Proteínas do esmalte dentário - pertencem à classe das escleroproteínas, ou proteínas fibrosas, como a queratina, filiada ao grupo das euquerati- nas, e são muito ricas nos aminoácidos cistina e hidroxiprolina. Proteínas da dentina e do cemento são de dois tipos: 1. Colágeno: é uma escleroproteína que tem extraordinária riqueza dos aminoácidos glicina (19%), hidroxiprolina (13%) e, em menor quanti- dade, aminoácidos lisina e hidroxilisina. colágeno é o principal componente protéico das matrizes da dentina e do cemento. 2. Glicoproteínas ácidas sulfatadas - aparecem ao lado das escleropro- teínas e têm riqueza de ácidos que são ma- cromoléculas importantes das matrizes da dentina e do cemento. Composição química da polpa dental - a polpa dental é um tecido con- juntivo frouxo, que se caracteriza pela grande abundância de água na substância fundamental, cerca de 90,0g%. Os sólidos representam apenas 10,0g%, sendo 1,0g% de minerais e 9,0g% de substâncias orgânicas. Entre os minerais destacam-se, evidentemente, Na+, K+, Ca++, Mg++, que juntamente com a água man- têm os equilíbrios hídrico, eletrolítico, osmótico e acidobásico da polpa. 20