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PROCESSO DE CONFORMAÇÃO Marcelo Quadros Estampagem Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar o processo de estampagem. Definir as variáveis do processo de estampagem. Reconhecer as aplicações do processo de estampagem. Introdução O processo de estampagem compreende um conjunto de operações de corte e conformação em materiais metálicos, geralmente planos. Por meio da plasticidade dos materiais, formatos e perfis são trans- formados e conformados nos mais variados tamanhos e modelos. Não há dúvida de que a estampagem mudou drasticamente nos- sas vidas: eletrodomésticos, como micro-ondas, fogões, lavadoras e secadoras, têm parte dos seus componentes fabricados por meio da estampagem de chapas. Outros exemplos são os utensílios domésti- cos, como talheres, panelas e frigideiras, e também os carros, ônibus e metrôs, que possuem diversas peças fabricadas por estampagem. Até mesmo os computadores possuem partes estampadas, como a carcaça e os suportes internos. Portanto, conhecer o processo de estampagem nos ajuda a compreender melhor como são fabricados produtos essenciais para o nosso dia a dia. Neste capítulo, você vai estudar as variáveis e particularidades de cada processo de estampagem, como o material, a qualidade e o acabamento das chapas, as propriedades mecânicas e os seus requisitos, a dureza e a composição química, as dimensões normali- zadas, as máquinas e as ferramentas utilizadas em tais processos. Você também vai explorar as aplicações de peças estampadas em diversos segmentos. Todos esses conhecimentos são de grande relevância para o engenheiro, que vai determinar qual é o melhor processo a ser desenvolvido para a manufatura de cada produto conforme a sua aplicabilidade, viabilidade técnica-econômica e eficiência produtiva, atentando para fatores econômicos, técnicos, operacionais, dimen- sionais e tecnológicos. Processo de estampagem O processo de estampagem de chapas metálicas envolve basicamente uma chapa de metal plana, que é pressionada entre uma matriz e um punção para obter o formato desejado, utilizando principalmente esforços de dobramento e corte. Considerando-se tais esforços, pode-se dividir a estampagem nos seguintes processos (POLACK, 2004): estampagem de corte; estampagem de dobra; estampagem de repuxo. Estampagem de corte O corte é a operação mais comum realizada no processo de estampagem. Trata-se de uma operação de cisalhamento que permite a produção de peças nos mais variados formatos, determinados pelas formas do punção e da matriz. A estampagem se dá quando o punção empurra a chapa metálica pela cavidade da matriz, criando a forma desejada. O punção de corte é pressionado contra a matriz por meio da pressão exercida por uma prensa. Entre o punção e a matriz haverá uma lacuna, chamada de folga de corte, que é construída com um leve ângulo, de modo que a peça estampada e sua sobra de material não fiquem presos no interior da matriz, o que a danificaria e causaria risco à segurança dos operadores, além de desgastes excessivos entre o punção e matriz. Esse processo de corte de metal não só exige muita força, mas também produz um grande choque. Estampagem2 É de extrema importância calcular o valor preciso da folga entre o punção e a matriz, que depende da espessura da chapa a ser submetida, do tipo de material e do perímetro a ser cortado. Caso os cálculos sejam efetuados de forma errônea, todo o processo será comprometido, podendo ainda causar a quebra de máquinas e ferramentas, bem como acidentes de trabalho. Por essa razão, o corte de metal é uma das operações de estampagem mais severas. O choque excessivo faz com que os punções e as matrizes sofram trincas e quebras, que também ocorrem nas prensas e nos dispositivos auxiliares. As folgas de corte deverão ser calculadas com precisão, pois quando sub- dimensionadas provocam fissuras no material e, caso sejam muito grandes, geram rebarbas. A espessura da chapa a ser cortada deve ser igual ou menor que o diâmetro do punção, e a folga entre o punção e matriz deverá ser controlada, já que o aspecto final da peça depende desse fator, bem como da espessura, da dureza e do tipo de material da chapa. A folga de corte sugerida para o aço é de 5 a 8% da espessura da chapa; para o latão, a sugestão é que ela fique entre 4 e 8%; para o cobre, entre 6 e 10%; para o alumínio, em torno de 3%; e para o duralumínio, entre 7 e 8% da espessura da chapa a ser cortada. Essas são sugestões técnicas aproximadas, e o profissional da área deverá calcular com precisão todas elas. Para calcular a força de corte, precisamos dos seguintes dados: perímetro a ser cortado, espessura da chapa e resistência ao cisalhamento do material. A Tabela 1 apresenta os dados de resistência ao cisalhamento de alguns metais. A fórmula da força de corte é a seguinte: Fc = e.L.Ks onde: Fc = força de corte (Kgf); e = espessura da chapa (mm); L = perímetro do corte (mm); Ks = tensão de ruptura ao cisalhamento (Kgf /mm2). 3Estampagem Material Resistência ao cisalhamento (Kd) Kg/mm2 — recozido Resistência ao cisalhamento (Ks) Kg/mm2 — encruado Aço 0,10% C 24 32 Aço 0,20% C 30 40 Aço 0,30% C 36 48 Aço 0,40% C 45 56 Aço 0,60% C 55 72 Aço 0,80% C 70 90 Aço inoxidável 50 56 Alumínio 7 a 9 13 a 16 Prata e Monel 28 a 36 45 a 56 Bronze 33 a 40 40 a 60 Cobre 18 a 22 25 a 30 Estanho 03 04 Zinco 12 20 Chumbo 02 03 Tabela 1. Dados de resistência ao cisalhamentos de metais Estampagem de dobra A estampagem de dobramento é um processo de conformação em que o metal é deformado ou dobrado ao longo de um eixo, ocorrendo a deformação por fl exão. A peça, anteriormente recortada e com segmento plano, é conformada utilizando-se estampos de dobramento e matrizes montadas em uma prensa, para deixar as chapas com segmentos curvos (Figura 1). Estampagem4 Figura 1. Estampagem de dobra. Fonte: Aumm graphixphoto/Shutterstock.com. Nesse processo, uma parte da peça é forçada contra a outra, e a superfície externa fica tracionada. Há um esforço de tração — o metal se alonga e há uma redução de espessura interna, gerando o esforço de compressão e, com isso, obtendo-se o perfil desejado. Diferentes materiais e espessuras têm diferentes valores de retorno — conseguir o ângulo de curvatura correto em uma operação de dobra, às vezes, pode ser muito difícil. Muitos métodos podem ser usados para compensar o retorno. Em toda e qualquer operação de dobramento, o material sofre deformações além do seu limite elástico. Após o processo de dobramento, devido à elasticidade do material, é comum que as chapas voltem à sua forma primitiva. Nesse caso, recomenda-se a fabricação do estampo, o cálculo do ângulo de dobramento das matrizes considerando-se esse retorno, e a previsão de um dobramento em um ângulo levemente superior ao desejado. Também deve-se considerar a existência de raios de curvatura nos cantos vivos, ou raios pequenos que podem provocar a ruptura durante o dobramento. 5Estampagem A dureza e a ductilidade são propriedades que indicam a capacidade dos materiais de se deformarem e alongarem sem fraturar, à medida que a peça é submetida à tal deformação. Elas estão diretamente relacionadas à geometria da peça e determinam os raios dos materiais. Ou seja, materiais mais dúcteis, como aços de baixo carbono, latão, alumínio e cobre, terão raios menores em comparação aos de maior dureza, como aços com médio e alto teores de carbono. No projeto da peça e das matrizes, devemos levar em consideração os raios de curvatura no desenho da peça, bem como o material da chapa a ser utilizada, sua espessura e seu sentido de laminação. Até atingir o formato final, o produto pode ser dobrado com o auxílio de apenas um estampo, em uma ou mais fases, ou com mais de um estampo, realizando-se várias operações em sequência, para evitar deformação ou rompimento do material. A cunhagemé um dos processos de estampagem e consiste no método pelo qual o metal é comprimido ou espremido na forma ou no perfil desejado (veja a imagem a seguir). As moedas são um exemplo clássico de itens feitos por cunhagem. Nesse método, podemos produzir cantos nítidos e precisos, características bem definidas e um excelente acabamento superficial (POLACK, 2004). Fonte: AlexanderZam/Shutterstock.com. Estampagem6 Estampagem de repuxo ou embutimento O processo de estampagem de embutimento é um método de conformação mecânica muito utilizado para a fabricação de fundos para tanques de aço e outras peças profundas de simetria circular, em que chapas planas são con- formadas no formato de um copo. Também é conhecido como estampagem profunda. Nesse processo, as chapas recebem forças radiais de tração e forças tangenciais de compressão, sem deformar sua espessura (Figura 2). É realizado em uma ou mais fases. Como exemplo clássico desse processo temos a fabricação de panelas. Figura 2. Estampagem de embutimento. Fonte: Nowamhere/Shutterstock.com. Esse processo geralmente é realizado a frio e, dependendo da característica do produto, em uma ou mais etapas. Nele, o material é conformado progressi- vamente contra a matriz por intermédio de uma ferramenta, formando o perfil da peça a partir de uma chapa lisa. Em seguida, o excesso de material deve ser retirado do metal. Por fim, é dado o acabamento na peça. Um exemplo típico desse processo é a fabricação de latas de bebidas, método no qual o metal é comprimido e reduzido em espessura ao longo de uma parede vertical. O objetivo principal do repuxo é aumentar a profundidade de uma peça e unificar a sua espessura de parede, dando ao metal uma aparência polida. Na estampagem de repuxo, geralmente são empregadas prensas hidráulicas e matrizes de maior complexidade em relação à estampagem de corte e dobra. Nessa estampagem, a chapa já vem cortada no tamanho certo e é fixada na 7Estampagem matriz inferior, sobre a qual um punção força o material para dentro da cavi- dade de formação, mantendo sobre essa chapa cortada uma pressão constante durante o embutimento. As forças exercidas pela matriz e pelo punção criam um elevado atrito; em alguns casos, é utilizada lubrificação para diminui-lo. Algumas matrizes criam alongamentos significativos de metal junto com o fluxo de estampagem para obter a forma final da peça. No caso de grande profundidade de embutimento, quando temos a altura maior que o diâmetro da peça, são necessárias várias operações sucessivas para obtê-la, minimizando-se o contato entre o ferramental e a peça de trabalho, e resultando em requisitos reduzidos de força, maior vida útil do ferramental e melhor qualidade do produto. São produzidas diversas peças por meio desse processo, como fri- gideiras, panelas, capôs de carros, para-lamas, portas, carenagens de motos e tratores, pias, carrinhos de mão, entre inúmeras outras (POLACK, 2004). Variáveis do processo de estampagem A grande vantagem de se utilizar o processo de estampagem é a fl exibilidade de manufatura das peças, pois por meio dele é possível fabricar os mais va- riados produtos para inúmeros segmentos. Para tanto, é preciso conhecer as principais variáveis desse processo, como: o material a ser estampado; as propriedades mecânicas e os seus requisitos; as especificações das dimensões e os cálculos aplicados; as máquinas e ferramentas. Material a ser estampado A chapa metálica é um dos materiais mais resistentes e pode ser facilmente moldada e cortada (Figura 3). Além disso, depois de utilizada na produção de peças, a chapa metálica poderá ser reciclada e retornar à siderúrgica para gerar novas peças. As chapas de aço de baixo carbono são as mais utilizadas na estampagem, assim como o alumínio e as ligas de cobre. As ligas de níquel, zinco e titânio também podem ser estampadas, porém são menos comuns nesse processo em comparação aos outros materiais. Estampagem8 Figura 3. Material em chapas. Fonte: quka/Shutterstock.com. Também são utilizados os materiais não metálicos, principalmente os utilizados para corte e puncionamento, como a placa de fibra, o papel, o couro, a placa de composição de borracha, a cortiça, a madeira e vários plásticos, es- pecialmente os termofixos laminados. A espessura do material a ser estampado varia de 0,025 mm até aproximadamente 20 mm, porém a grande maioria das estampagens é realizada entre 1,0 mm a 10 mm. A escolha do melhor material para um determinado produto dependerá de vários aspectos, como custos de produção, aplicabilidade e eficiência produtiva relacionada ao projeto. Além do material, outro fator que se deve considerar nesse processo é a qualidade da chapa. A classificação, o grau de acabamento das superfícies das chapas, as propriedades mecânicas, a composição química e o dimensio- namento vão interferir diretamente na qualidade do produto final. Para conhecermos melhor a classificação e os requisitos das chapas, devemos consultar a norma NBR 5915, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). As chapas de aço produzidas em conformidade com essa norma podem ser fornecidas nos seguintes graus: EM, para estampagem moderada; EP, para estampagem profunda; EEP, para estampagem extraprofunda; EEP-PC, para estampagem extraprofunda em peças críticas; EEP-IF, para estampagem extraprofunda com aço IF (Interstital Free). 9Estampagem Propriedades mecânicas Entre as variáveis de processo mais importantes na estampagem estão as propriedades mecânicas, como módulo de elasticidade, tensões, limite de tração e compressão, dureza superfi cial e limite de resistência à fadiga. O fabricante do material a ser estampado desenvolve vários ensaios para verifi car os esforços específi cos, os limites físicos e a estabilidade que determinam as características mecânicas inerentes a cada produto. Essas características estão presentes nos catálogos dos fabricantes e são padronizadas conforme normas específi cas. Acesse o link abaixo ou o código ao lado e veja os requisitos de propriedades mecânicas conforme a norma NBR 5915, da ABNT. https://goo.gl/xPxhaJ Especificação das dimensões e cálculos aplicados Conforme visto anteriormente, o material que servirá como base para o produto fi nal passa por vários ensaios normalizados, o que acaba gerando um custo maior de matéria-prima. Dessa forma, o profi ssional da área deverá dimensionar a chapa a fi m de obter o melhor aproveitamento possível do material, quando for necessário cortar, dobrar ou repuxar a peça. Para um bom aproveitamento desse material, o profissional deverá calcular ou utilizar softwares para melhor aproveitamento da chapa, obtendo assim o melhor uso das sobras e dos retalhos dessa chapa. Estampagem10 Outra variável desse processo são os cálculos aplicados realizados pelos profissionais da área. Não basta ter o melhor material, as melhores máquinas e as melhores matrizes — cálculos como esforço de corte, folgas entre punção e matriz, ângulo de dobramento e aproveitamento de material são essenciais para a confecção adequada da peça. Se qualquer um desses cálculos estiver errado, todo o material poderá ser sucateado, e ainda poderá ocorrer a quebra de máquinas e matrizes, além de possíveis acidentes de trabalho. Máquinas No processo de estampagem de peças, temos dois tipos de máquinas: as pren- sas mecânicas e as prensas hidráulicas. Nas prensas mecânicas, a energia é geralmente armazenada em um eixo excêntrico, e a transferência dessa força se dá pelo êmbolo da prensa. Essas máquinas de ação rápida aplicam golpes de curta duração, enquanto as prensas hidráulicas são de ação mais lenta, mas possuem grandes forças na estampagem. Essas máquinas podem ser de efeito simples ou de duplo efeito. A escolha da prensa dependerá do material a ser estampado, do seu tama- nho e da sua forma, e também da quantidade de peças a serem produzidas. A prensa fornece a força para fechar as matrizesde estampagem, que cortam, dobram e moldam a chapa metálica em peças acabadas. As prensas mecânicas são mais utilizadas nas operações de corte, dobramento e estampagem rasa, e as prensas hidráulicas têm como principal utilização a estampagem de peças complexas de maior espessura de material e a estampagem profunda. Algumas prensas podem funcionar a velocidades superiores a 1.500 golpes por minuto, geralmente chamadas de prensas de alta velocidade, e sua força varia de 10 a 50.000 toneladas de força. Outras prensas podem estampar len- tamente, produzindo menos peças, mas os custos na compra dessas máquinas são menores, por elas serem mais simples. A velocidade de um ciclo de prensas é baseada em muitos fatores, incluindo o tipo de material da chapa, a forma e o tamanho da peça, o tipo de matriz que é utilizada, bem como o tipo de equipamento utilizado no processo de estampagem, que pode ser manual ou automatizado. Ferramentas Na estampagem, além das prensas, outros elementos importantíssimos são as ferramentas utilizadas, denominadas estampos, que se constituem geral- mente de um punção e uma matriz. Essas ferramentas são classifi cadas de 11Estampagem acordo com o tipo de operação a ser executada, ou seja, corte, dobramento ou repuxo (estampagem profunda). O tamanho das ferramentas de estampagem pode variar, dependendo do produto a ser fabricado, que pode ser desde as menores peças usadas em relógios de pulso até grandes painéis usados em ônibus ou aeronaves. Matrizes e punções são projetados para serem resistentes ao desgaste, ao choque e à deformação. Por terem custo elevado, sua vida útil deve compensar o investimento de sua fabricação. Para isso, o aço ferramenta (aço com ligas) utilizado na confecção desses punções e matrizes deverá ter boa usinabilidade e grande dureza, características obtidas a partir de tratamentos térmicos adequados para cada tipo de matriz. A escolha do material dessas ferramentas de prensagem dependerá da quantidade de peças a serem estampadas e do material da chapa. Também são fabricadas matrizes de múltiplas estações, organizadas de modo que uma série de operações sequenciais seja realizada a cada prensagem. Dois tipos de matrizes são usados: progressivo e por transferência. Com matrizes progressivas, o estoque da bobina é alimentado automaticamente. Estampos individuais são conectados com uma faixa de suporte à medida que passam sequencialmente pelas várias operações e são finalmente separados e, em seguida, descarregados da prensa. Nas operações de transferência de matrizes, os espaços em branco de estoques individuais são movidos mecanicamente da estação de matriz para a estação de matriz dentro de um único conjunto de matriz. Aplicações da estampagem A estampagem de metal pode ser aplicada a uma gama enorme de peças para as mais diversas aplicações, em uma variedade de segmentos. Isso se deve às qualidades únicas dos materiais utilizados nesse processo. Pode-se utilizar dois tipos de conformação de chapas na estampagem: Estampagem a frio — a estampagem a frio convencional, realizada com a chapa metálica na temperatura ambiente, apresenta grande aplicação industrial, por se adaptar facilmente à produção seriada e permitir alta produção, com baixo índice de refugos e boa precisão dimensional. A maioria das peças estampadas utiliza a conformação a frio; no caso de peças mais complexas há a necessidade da conformação à quente. Estampagem12 Estampagem a quente — a estampagem a quente tem alcançado sucesso na fabricação de peças com formatos complexos e maior resistência mecânica e corresponde a uma alternativa relativamente nova para a produção de peças a partir de chapas. Esse processo tira proveito tanto da boa conformabilidade decorrente das maiores temperaturas de deformação como das transformações que a austenita sofre durante o resfriamento da peça. Atualmente, a maioria das montadoras automotivas utiliza peças estampadas a quente nos seus projetos de veículos, a fim de aproveitar o maior nível de resistência mecânica obtido pela conformação a quente seguida de têmpera. A estampagem a quente vem sendo empregada na confecção de diversas partes estruturais, como para-choques frontais e traseiros, colunas, trilhos para tetos, componentes de trilhos laterais, túneis e barras para portas. Algumas indústrias exigem também a condutividade elétrica e/ou térmica dos materiais, como as indústrias aeroespacial, elétrica e de defesa e, prin- cipalmente, as indústrias automotiva e doméstica, que utilizam aços de alta resistência e suas variadas ligas. Veremos a seguir exemplos de aplicações do processo de estampagem de metal em alguns dos segmentos que mais a empregam: indústria automotiva; indústria de utensílios domésticos; indústria agrícola; indústria naval; indústria aeroespacial. Uma das primeiras peças estampadas em série foi utilizada na fabricação de bicicletas produzidas na década de 1880, resultando, na época, em um custo bastante reduzido em comparação ao processo manual de fabricação. 13Estampagem Aplicação na indústria automotiva A indústria automotiva é um dos setores em que a estampagem sempre obteve um excelente aproveitamento. Atualmente, a aplicação desse processo nessa área é realizada de forma totalmente automatizada, em função da produção em série (Figura 4). Todos os dias são produzidos milhares de peças estampadas no mundo inteiro para essa indústria gigantesca. Outra grande aplicação no setor automotivo é na fabricação de ônibus e caminhões e os seus derivados, que também utilizam inúmeras peças estampadas. Figura 4. Estampagem em carros. Fonte: Alex Neshitoff/Shutterstock.com. O profissional desse segmento não apenas deverá conhecer o processo de estampagem como se atualizar constantemente. Atualmente são utilizados sistemas robotizados de transporte e alimentadores especiais para a movi- mentação e colocação das chapas; dispositivos com ventosas e ferramental de vácuo manuseiam as trocas de painéis, efetuando a troca rápida sempre que uma nova peça tiver sido estampada. O metal em chapa é estampado (cortado, dobrado e repuxado) por meio de uma série de prensas e matrizes em um processo de alta velocidade. Para as grandes montadoras, essa rapi- dez é essencial. A tecnologia de estampagem em série ganha cada vez mais espaço no mercado atual competitivo, já que permite a produção em grande escala, com alto grau de flexibilidade e máximo desempenho. As Figuras 5 e 6 mostram a automação em dobras e cortes. Estampagem14 Figura 5. Automação de dobra. Fonte: Aumm graphixphoto/Shutterstock.com. Figura 6. Automação de corte. Fonte: asharkyu/Shutterstock.com. Aplicação na indústria aeroespacial No segmento aeroespacial, temos vários componentes estruturais estampados. Os aviões de voos domésticos têm entre 3 e 6 milhões de componentes, e essas peças são geralmente fabricadas em materiais resistentes, porém leves. Dentre as peças que empregam a estampagem na fabricação das aeronaves estão algumas das mais importantes, como a fuselagem — conhecida como 15Estampagem charuto — e o material externo de asas e turbinas, entre várias outras (Figura 7). Nessa estampagem são usadas ligas especiais, com resistência a temperaturas e pressões extremas. Para estampar os componentes com efi ciência, precisão e qualidade elevadas, é imprescindível o uso de máquinas e ferramentas específi cas para cada material. Figura 7. Estampagem externa da aeronave. Fonte: zatvornik/Shutterstock.com. Aplicação na indústria agrícola Centenas de implementos agrícolas, como tratores e colheitadeiras, são pro- duzidos para fazendas do mundo inteiro, todos os dias. A fabricação de um implemento agrícola é tão precisa quanto a fabricação de carros e aeronaves. Esses implementos também possuem várias partes estampadas, como a cabine, as carenagens, o sistema de proteção, o tanque de combustível, entre outras (Figura 8). As propriedades mecânicasde cada um desses materiais devem possuir um desempenho adequado quando submetidas a grandes esforços em campo. Estampagem16 Figura 8. Estampagem de tratores em série. Fonte: Oleksandr Osipov/Shutterstock.com. Indústria naval Esse setor passou por várias mudanças ao longo dos anos. O segmento da cons- trução naval se renovou, assim como seus materiais e processos de fabricação, utilizando agora a capacitação tecnológica baseada em qualidade, diversifi cação e fl exibilidade. O segmento da construção naval vem ganhando cada vez mais mercados e deve seguir fi elmente as normas nacionais e internacionais de segurança do trabalho e gestão ambiental. O processo de estampagem é aplicado em vários processos dentro dessa indústria, por ser o método mais confi ável, seguro e efi caz na produção das complexas peças navais, como as grandes hélices e as estruturas internas reforçadas (Figura 9). Figura 9. Escotilha de um navio estampada. Fonte: Sergey Slonitskyi/Shutterstock.com. 17Estampagem Indústria de utensílios domésticos Esse segmento, assim como o automotivo, é um dos principais utilizadores da estampagem, por meio da qual milhares de peças são produzidas por dia. Um estudo indica que, nos anos 1980, poderiam ser encontradas em média cerca de 100.000 peças estampadas em cada casa americana. Assim, não há dúvidas de que a estampagem nesse setor mudou drasticamente nossas vidas. Itens comuns, como micro-ondas, fogões, lavadoras e secadoras, são fabricados utilizando-se o processo de estampagem de chapa, assim como talheres, panelas e frigideiras. As grandes empresas fabricantes desses utensílios investem cada vez mais nesse processo, visando aumentar a sua produção e manter a enorme demanda desse mercado competitivo. Estampagem18 POLACK, A. V. Manual prático de estampagem. São Paulo: Hemus, 2004. Leituras recomendadas CENTRO DE INFORMAÇÃO METAL MECÂNICA. 2018. Disponível em: . Acesso em: 5 jun. 2018. CHIAVERINI, V. Tecnologia mecânica: processos de fabricação e tratamento. São Paulo: Pearson, 1995. v. 2. FERRAMENTARIA de corte, dobra e repuxo: planejamento e construção de estampos. São Paulo: SENAI-SP, 2017. HELMAN, H.; CETLIN, P. R. Fundamentos da conformação mecânica dos metais. 2. ed. São Paulo: Artliber, 2005. SMITH, W. F.; HASHEMI, J. Ciências dos materiais: fundamentos da engenharia e ciência dos materiais. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2015. Referência Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra.