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1 Neste capítulo você irá aprender: • Origens e efeitos do magnetismo e eletromagnetismo; • Indutores: características construtivas e efeitos elétricos; • Capacitores: características construtivas e efeitos elétricos. 2 Introdução O fenômeno do magnetismo foi descoberto pelos chineses há mais de 4 mil anos, através da percepção dos efeitos de um minério de ferro encontrado na natureza, a magnetita, que é considerada um ímã natural. Outro efeito magnético importante presente na natureza e cuja característica é explorada há muito tempo é o campo magnético da Terra, largamente utilizado em sistemas de navegação, através de bússolas. Campos magnéticos também podem ser produzidos através de bobinas que, ao circular uma corrente elétrica por elas, se comportam de forma semelhante a dos ímãs. Este efeito é de suma importância, pois possibilita a construção de inúmeros tipos de atuadores elétricos, tais como motores elétricos, atuadores lineares e chaves magnéticas. Outro efeito interessante é que o campo magnético, atuando em uma bobina, pode induzir nela uma tensão elétrica, dando origem ao conceito da indutância. Dessa forma, uma bobina (ou um indutor) pode armazenar energia na forma de campo magnético. Além dos indutores, outro componente que também pode armazenar energia e é bastante utilizado é o capacitor. Este porém armazena energia na forma de campo elétrico, adicionando ou removendo elétrons na superfície de um material isolante. 3 Este capítulo abordará mais a fundo os efeitos e fenômenos associados ao magnetismo e eletromagnetismo, assim como aspectos relacionados aos indutores e capacitores. Bons estudos! 4 Magnetismo Enquanto que uma carga elétrica estática produz um campo elétrico, uma carga elétrica em movimento, ou seja, uma corrente elétrica, irá resultar em um campo magnético. O campo magnético produzido por bobinas, através da circulação de corrente em condutores metálicos, é largamente empregado em dispositivos de acionamento como atuadores eletromecânicos e motores. Nos ímãs permanentes, o efeito do magnetismo também é resultante da circulação de corrente elétrica, porém em dimensões atômicas. Os elétrons estão orbitando o núcleo do átomo, percorrendo trajetórias circulares. Uma vez que o elétron possui carga elétrica, tal movimento equivale a um circuito elétrico fechado por onde circula uma corrente, tal como se fosse uma espira. Polos magnéticos Todo o corpo magnetizado sempre irá apresentar dois polos, um chamado de polo Norte e outro de polo Sul, além de uma Zona Neutra que é a região de transição entre os polos. Os polos norte e sul são inseparáveis, ou seja, mesmo que um ímã seja fragmentado em inúmeros pedaços, cada fragmento ainda irá conter os dois polos magnéticos (isso se deve à sua origem em nível atômico). 5 Fluxo magnético e Densidade de fluxo O fluxo magnético, representado pelo símbolo 𝜙, corresponde ao campo magnético total que emerge do polo norte, sendo a sua unidade o weber (Wb). Já a densidade de fluxo magnético expressa o fluxo magnético que atravessa uma determinada secção de área específica. É representado pela letra 𝐵 e a sua unidade é o tesla (T): 𝐵 = 𝜙 𝐴 Onde 𝐴 corresponde à área de secção perpendicular ao sentido do fluxo. Classificação dos materiais magnéticos Uma característica dos materiais magnéticos é a permeabilidade magnética 𝜇, que está relacionada com a sua capacidade de concentrar o fluxo magnético. É comum expressar a permeabilidade relativa 𝜇𝑟 também dos materiais, dada por: 𝜇𝑟 = 𝜇 𝜇0 Onde a constante 𝜇0 = 4 ∙ 10−7𝜋 𝐻 𝑚⁄ corresponde à permeabilidade magnética do vácuo. Dessa forma, os materiais são classificados como: 6 • Ferromagnéticos: apresentam uma permeabilidade relativa elevada (𝜇𝑟 ≫ 1); • Paramagnéticos: apresentam uma permeabilidade relativa ligeiramente maior que 1; • Diamagnéticos: apresentam uma permeabilidade relativa ligeiramente menor que 1. Eletromagnetismo Uma corrente elétrica, ao atravessar um condutor, produz um campo magnético circular ao redor deste condutor. A densidade de fluxo magnético 𝐵 a uma distância 𝑑 de um condutor retilíneo pode ser calculada por: 𝐵 = 𝜇0 ∙ 𝐼 2 ∙ 𝜋 ∙ 𝑑 [𝑇] Sendo 𝐼 a corrente que circula por esse condutor. Força magnética entre dois condutores paralelos Considerando a situação de dois condutores retilíneos e paralelos entre si, cada um conduzindo uma determinada corrente, é de se imaginar que haverá uma interação entre os campos magnéticos produzidos por eles. De fato, haverá uma força que poderá ser atração ou repulsão entre os condutores. Ela será de atração se as correntes forem no mesmo sentido e será de repulsão se forem em sentidos opostos. Considerando 𝐼1 e 𝐼2 a corrente em cada um dos condutores, distantes entre si por uma distância 𝑑 7 e paralelos ao longo de um comprimento 𝑙, o módulo da força resultante será: |𝐹| = 𝜇0 ∙ 𝐼1 ∙ 𝐼2 ∙ 𝑙 2 ∙ 𝜋 ∙ 𝑑 [𝑁] Figura: Força magnética entre condutores. Fonte: Produzido pelo autor. Embora o efeito dessa força seja imperceptível em muitas situações, principalmente para correntes pequenas, ele pode ser bastante expressivo em situações de correntes elevadas, como no caso de grandes instalações industriais. Se os condutores não forem devidamente fixados, poderá ocorrer desde vibrações até deformação dos mesmos. Torque em uma espira O princípio de funcionamento da grande maioria dos motores elétricos se baseia na rotação de uma parte móvel, devido ao torque produzido por um conjunto de espiras. 8 A figura a seguir ilustra uma única espira retangular, com lados de comprimento 𝑙 e 𝑑, por onde circula uma corrente contínua 𝐼. Considere também que a mesma está imersa em um campo magnético com densidade de fluxo uniforme 𝐵, que pode ser gerado por ímãs permanentes ou por eletroímãs: Figura: Torque em uma espira quadrada. Fonte: Produzido pelo autor. Nessas condições, a espira irá apresentar um torque que dependerá da sua posição, expresso por: 𝑇 = 𝐼 ∙ 𝐴 ∙ 𝐵 ∙ cos(𝛽) [𝑁𝑚] Onde 𝐴 = 𝑙 ∙ 𝑑 corresponde à área da espira e 𝛽 é o ângulo formado entre o plano da espira e as linhas do campo magnético 𝐵. Curva de magnetização e histerese Uma curva de magnetização 𝐵 − 𝐻 relaciona a densidade de fluxo magnético 𝐵 em um determinado material com a intensidade do campo 𝐻, conforme ilustra a figura a seguir: 9 Figura: Curva de magnetização B-H. Fonte: produzido pelo autor. Esse gráfico ilustra que, a partir de certo ponto, o aumento do campo 𝐻 resulta em um aumento mínimo da densidade de fluxo 𝐵 neste material. Tal efeito caracteriza a saturação do mesmo, indicando que os domínios magnéticos estão totalmente alinhados já. Se um material magnético for inicialmente submetido a um campo positivo (+𝐻) e depois esse campo for removido, haverá ainda uma densidade de fluxo residual neste material, 𝐵𝑟, chamada de retentividade. Para que essa densidade de fluxo seja zerada, será necessário aplicar um campo com sinal oposto (−𝐻). O campo magnético necessário para fazer 𝐵 = 0 é chamado de coercitividade (𝐻𝑐). H [A/m] B [T] Magnetização difícil Magnetização fácil Saturação 10 Figura: Curva de histerese. Fonte: Produzido pelo autor. Essas características são importantes em materiais magnéticos, pois a retentividade expressa o quanto de densidade de fluxo 𝐵 pode permanecer no material, mesmo na ausência de um campo 𝐻. Já a coercitividade expressa o quão fácil ou difícil é de anular essa densidade de fluxo residual. Indutores Os indutores são dispositivos capazes de armazenar energia na forma de campo magnético e geralmente consistem em bobinas. Indutores estão presentes em diversos equipamentos elétricos, taiscomo motores, transformadores e circuitos de sintonia de radiofrequência, entre outros. Bm Br - Bm - Br Hc Hm -Hc-Hm H [A.m ]-1 B [T] 11 Indutância É a capacidade de um condutor induzir uma tensão em si mesmo quando a corrente que circula por ele varia no tempo. A indutância é representada pela letra 𝐿 e sua unidade é o henry (H). Ela pode ser expressa em função da tensão 𝑣𝐿 que é induzida e da variação da corrente no tempo, 𝑑𝑖 𝑑𝑡⁄ : 𝐿 = 𝑣𝐿 𝑑𝑖 𝑑𝑡⁄ [𝐻] A indutância de uma bobina também pode ser calculada em função das suas características construtivas da mesma. Considerando uma bobina de 𝑁 espiras, onde o seu comprimento 𝑙 é muito maior que o diâmetro, tem-se: 𝐿 = 𝜇 ∙ 𝑁2 ∙ 𝐴 𝑙 Sendo 𝜇 = 𝜇𝑟𝜇0 a permeabilidade magnética do núcleo sobre o qual a bobina é enrolada e 𝐴 corresponde à área da secção desse núcleo. A tensão elétrica no indutor, a partir da sua própria definição, será: 𝑣𝐿 = 𝐿 𝑑𝑖𝐿 𝑑𝑡 A partir dessa última equação percebe-se que: • Se a corrente no indutor for contínua, a sua derivada será zero, e consequentemente a tensão também. Nessa condição, o indutor se comporta como um curto-circuito (𝑣𝐿 = 0); 12 • Uma variação abrupta (instantânea) da corrente resultaria em uma tensão infinita, o que não é fisicamente possível. Energia em um indutor Uma vez que o indutor armazena uma energia, a mesma pode ser calcula através da sua indutância e da corrente que por ele circula: 𝒲𝐿 = 1 2 𝐿𝐼2 [𝐽] Analisando-se a equação da energia 𝒲𝐿, percebe-se que o indutor apresenta uma inércia em corrente, ou seja, ele se opõe a variações abruptas da corrente. Associação de indutores De forma semelhante ao que acontece com os resistores, os indutores também podem ser associados para simplificar a sua análise, como será visto a seguir. • Associação série: na associação em série, a corrente que circula por todos os indutores é a mesma, e a indutância equivalente 𝐿𝑒𝑞 será igual à soma das indutâncias individuais: Figura: Indutores em série. L1 LnL2 ... 13 Fonte: Produzido pelo autor. 𝐿𝑒𝑞 = 𝐿1 + 𝐿2 + ⋯ + 𝐿𝑛 • Associação paralela: quando os indutores estiverem em paralelo, a tensão aplicada a cada um deles será a mesma, e a indutância equivalente 𝐿𝑒𝑞 para 𝑛 indutores em paralelo será: 𝐿𝑒𝑞 = 1 1 𝐿1 + 1 𝐿2 + ⋯ + 1 𝐿𝑛 Figura: Indutores em paralelo. Fonte: Produzido pelo autor. No caso específico de apenas dois indutores em paralelo, a equação pode ser simplificada: 𝐿𝑒𝑞 = 𝐿1𝐿2 𝐿1 + 𝐿2 Capacitores Capacitores são elementos que também armazenam energia, mas na forma de campo elétrico, sendo constituídos geralmente por duas placas condutoras separadas por uma camada isolante (também chamado de L1 L2 Ln ... ... 14 dielétrico). Capacitores são largamente empregados em circuitos eletrônicos, em sensores industriais e para a correção do fator de potência. Muitos sensores touch também são baseados no princípio capacitivo. Capacitância Por definição, a capacitância de um capacitor, cuja unidade é o farad (F) corresponde à relação entre a quantidade de carga 𝑄 armazenada, em coulomb, e a tensão 𝑉 aplicada entre as placas, em volt: 𝐶 = 𝑄 𝑉 Figura: Estrutura de um capacitor de placas paralelas. Fonte: Produzido pelo autor. A capacitância também pode ser obtida através das características construtivas do elemento. Para um capacitor de placas paralelas, onde cada placa possui uma área 𝐴 e estão separadas por um dielétrico com espessura 𝑑, a capacitância é dada por: 𝐶 = 𝜀𝐴 𝑑 15 Onde 𝜀 = 𝜀𝑟 ∙ 𝜀0 representa a permissividade do dielétrico. A permissividade relativa 𝜀𝑟 é característica de cada material e relaciona a permissividade do material com a permissividade do vácuo, 𝜀0 = 8,85 ∙ 10−12 𝐹 𝑚⁄ . A corrente elétrica em um capacitor pode ser expressa em função da sua capacitância e da derivada da tensão: 𝑖𝐶 = 𝐶 𝑑𝑣𝐶 𝑑𝑡 A partir dessa equação percebe-se que: • Se a tensão no capacitor for contínua, a sua derivada será zero, e consequentemente a corrente também. Nessa condição, o capacitor se comporta como um circuito aberto (𝑖𝐶 = 0); • Uma variação instantânea da tensão resultaria em uma corrente infinita, o que não é fisicamente possível. Energia em um capacitor A energia 𝒲𝐶 armazenada no capacitor, em joule (J), é calculada através da tensão entre os seus terminais e da sua própria capacitância: 𝒲𝐶 = 1 2 𝐶𝑉2 [𝐽] Aqui percebe-se que o capacitor apresenta uma inércia em tensão, ou seja, ele se opõe a variações abruptas da tensão. 16 Associação de capacitores Capacitores em série ou em paralelo também podem ser associados, seja para obter novas capacitâncias ou para simplificar a análise do circuito. É importante ressaltar aqui que, devido às suas características, as equações utilizadas para o cálculo de capacitores equivalentes são diferentes daquelas empregadas para resistores e indutores. • Associação série: na associação em série, a corrente que circula por todos os capacitores é a mesma, e a capacitância equivalente 𝐶𝑒𝑞 para 𝑛 capacitores será dada por: 𝐶𝑒𝑞 = 1 1 𝐶1 + 1 𝐶2 + ⋯ + 1 𝐶𝑛 Figura: Associação de capacitores em série. Fonte: Produzido pelo autor. No caso específico de apenas dois capacitores em série, a equação pode ser simplificada: 𝐶𝑒𝑞 = 𝐶1 ∙ 𝐶2 𝐶1 + 𝐶2 C1 CnC2 ... 17 • Associação paralela: quando os capacitores estiverem em paralelo, a tensão aplicada a cada um deles será a mesma, e a capacitância equivalente 𝐶𝑒𝑞 para 𝑛 capacitores em paralelo será: 𝐶𝑒𝑞 = 𝐶1 + 𝐶2 + ⋯ 𝐶𝑛 Figura: Associação de capacitores em paralelo. Fonte: Produzido pelo autor. C1 C2 Cn ... ... 18 Referências GUSSOW, Milton. Eletricidade Básica. Grupo A, 2009. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788577804290/. Acesso em: 25 out. 2021. KRAUS, John.; CARVER, Keith. Eletromagnetismo. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. SADIKU, Matthew.; ALEXANDER, Charles.; MUSA, Sarhan. Análise de Circuitos Elétricos com Aplicações. Grupo A, 2014. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788580553031/. Acesso em: 25 out. 2021.