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EXPLICAÇÃO NA PSICOLOGIA CIENTÍFICA DECIFRANDO O MUNDO Inércia Social Curiosidade: O Mote da Ciência FONTES DE CONHECIMENTO Estabelecimento de Crenças A NATUREZA DA EXPLICAÇÃO CIENTÍFICA O que É uma Teoria? Indução e Dedução Da Teoria à Hipótese Avaliação das Teorias Variáveis Intervenientes Raposas e Porcos-Espinhos Transitando pela Teoria Psicológica A CIÊNCIA PSICOLÓGICA A Psicologia e o Mundo Real RESUMO TERMOS-CHAVE QUESTÕES PARA DISCUSSÃO KANTOWITZ, ROEDIGER III E ELMES Capítulo 1 3Explicação na Psicologia Científica Pergunte a qualquer cientista como concebe o método científico e ele reagirá com uma expvvssño ao Inestno tennpo solene e evasiva; solene porque julga que precisa ter uma opinião; (Aasiva porque está pensando em como ocultar o fato dc que não possui opinião a respeito para emitir. Caso escarnecessem dele, provavelmente murmuraria algo corno "lndnçño" e "Estabelecimento das Leis da Natureza", mas se alguém que trabalhasse conneçar a pensar já ter pus.sado a ocasião de ele pedir uma licença. (P. B. meta da psicologia científica consiste em compreender por que as pessoas pensam e agem de determinada maneira. Em contraste aos que não são cientistas, que se apóiam em fontes de conhecimento informais e secundárias, os psicólogos usam uma variedade de técnicas bem-desenvolvidas para obter informações e elaborar explicações teó- ricas. Considere o estudo de caso do processo de pesquisa a seguir como um exemplo dessa abordagem científica da compreensão. > DECIFRANDO O MUNDO Inércia Social Uma observação usual — que você talvez tenha feito em muitas ocasiões — é que pessoas trabalhando em um grupo muitas vezes não se esforçam o suficiente. Muitas pessoas em grupos parecem dispostas a deixar que poucos façam o trabalho. Bibb Latané, um psicólogo social, observou essa tendência e decidiu estudá-la experimentalmente. Latané examinou inicialmente a literatura sobre pesquisas para obter conhecimento desse fenômeno de as pessoas trabalharem com menos dedicação em grupos, o qual denominou inércia social. Um dos primeiros estudos de inércia social foi conduzido por um engenheiro agrônomo francês (Ringelmann, 1913; Kravitz e Martin, 1986), que solicitou às pessoas que puxas- sem uma corda com toda a força que possuíssem. As pessoas puxaram sozinhas ou com mais uma, duas ou outras sete. Um medidor sensível foi usado para medir com que força elas puxavam a corda. Se as pessoas despendem o mesmo esforço em grupos ou quando estão sozinhas, então o desempenho grupal deveria ser a soma dos esforços de todos os indivíduos. Ringelmann descobriu que grupos formados por duas pessoas exerciam um esforço corres- pondente a apenas 95% de sua capacidade e que grupos de três e oito pessoas o diminuíam para 85% e 49%, respectivamente. Portanto, provavelmente não é apenas nossa imaginação quando observamos outros (e nós?) parecendo despender um menor esforço ao trabalhar em grupos: as pesquisas de Ringelmann oferecem-nos um bom exemplo de inércia social. Latané e seus colaboradores prosseguiram executando uma série sistemática de expe- rimentos relativos ao fenômeno da inércia social (Latané, 1981; Latané, Williams e Harkins, 1979). Eles mostraram, inicialmente, que o fenômeno poderia ser constatado em outras situações experimentais, além daquela de puxar uma corda. Também demonstraram que a inércia social ocorre em muitas culturas diferentes (Gabrenya, Latané e Wang, 1983) e se aplica igualmente a crianças pequenas. Portanto, a inércia social parece ser uma caracterís- tica difundida do trabalho em grupos. Latané relacionou esse trabalho a uma teoria mais geral do comportamento social humano (Latané, 1981). Os indícios dos estudos experimentais apontam para a difusão de 4 Psicologia Experimental responsabilidade como uma possível razão para a inércia social. As pessoas que trabalh sozinhas julgam ser responsáveis por terminar a tarefa; no entanto, quando trabalham em grupos, esse senso de responsabilidade difunde-se para os demais. A mesma idéia explica o comportamento em outras situações envolvendo um grupo: se um de seus professores lar uma pergunta em uma aula assistida por somente mais dois alunos, você provavelmente se sentiria responsável por tentar responder. Contudo, caso houvesse mais 200 pessoas na se, você provavelmente se sentiria muito menos responsável pela resposta. De modo similar as pessoas têm maior probabilidade de ajudar em uma emergência quando sentem o peso da responsabilidade do que quando existem diversas outras pessoas que poderiam auxiliar. Um possível benefício de uma pesquisa básica como essa a um determinado fenómeno é que os resultados podem ser aplicados posteriormente para resolver algum problema prá_ tico. Um grande problema na sociedade americana é a dificuldade em manter elevada a pro_ dutividade do trabalhador. Embora a inércia social seja, na melhor das hipóteses, somente um dos fatores envolvidos nesse tema complexo, Marriott (1949) mostrou que os operários em uma fábrica trabalhando em grupos grandes produzem menos individualmente do que os que trabalham em grupos pequenos. Portanto, a pesquisa básica que indicaria uma maneira para suplantar o problema da inércia social pode ser de grande importância prática. Na reali_ dade, Williams, Harkins e Latané (1981) identificaram condições que eliminavam o efeito da inércia social. Quando o desempenho individual (em vez de apenas o desempenho de todo o grupo) podia ser controlado no contexto da situação de grupo, as pessoas trabalhavam com o mesmo esforço que aplicavam quando trabalhavam sozinhas. Certamente precisam ser rea- lizadas mais pesquisas, porém pode ser que simplesmente medir o desempenho individual em situações de grupo possa ajudar a eliminar a inércia social e aumentar a produtividade. A solução proposta pode ser simples, mas em muitas funções somente o desempenho do grupo é medido e o desempenho individual é desprezado. Discutimos os estudos de Latané sobre inércia social como um exemplo de pesquisa em psicologia para ilustrar como um problema interessante pode ser levado a um ambiente de laboratório e estudado de modo controlado. Os experimentos, quando conduzidos com cuidado, promoverão uma melhor compreensão do fenômeno de interesse do que a simples observação de eventos e a reflexão sobre eles. Este livro é, em grande parte, a respeito da condução apropriada de tais estudos experimentais — como fazer hipóteses, proporcionar con- dições experimentais para testar as hipóteses, obter informações (dados) de um experimento e, então, analisar e interpretar os dados coletados. Em poucas palavras, tentamos cobrir neste livro os fundamentos da investigação científica conforme se aplicam à psicologia. Discutimos alguns temas gerais na parte restante deste capítulo, antes de examinar os temas específicos da pesquisa. A pesquisa sobre inércia social é usada para ilustrar diversos aspectos da ciência psicológica — suas finalidades, suas fontes e sua natureza. Curiosidade: O Mote da Ciência Um cientista tenta descobrir como e por que os fenômenos ocorrem. Tendo esse desejo, ele não é diferente de uma criança ou de qualquer outra pessoa curiosa a respeito do mundo que habitamos, O observador casual pode não se sentir terrivelmente frustrado se alguma observação (por exemplo, a da que a água sempre escoa em sentido anti-horário em um vaso sanitário* ou de que o esforço individual em um grupo é reduzido) não puder ser explicada' * NRT: Isso é válido para o hemisfério norte, mas não para o hemisfério sul da Terra. KANTOWITZ, ROEDIGER III E ELMES Capítulo 1 Explicação na Psicologia Científica 5 No entanto, o cientista profissional possui um forte desejo de levar adiante uma observação até que exista uma explicação ou que um problema seja resolvido. Isso não ocorre tanto pelo fato de os cientistas serem mais curiosos do que as demais pessoas, mas por eles estarem dispostos a fazer muito mais para satisfazer sua curiosidade do que os que não são cientistas.A relutância em tolerar questões não-resolvidas e problemas não-solucionados fez com que a ciência desenvolvesse diversas técnicas para satisfazer a curiosidade, É a aplicação cuidadosa dessas técnicas que distingue a curiosidade científica da curiosidade casual. O ceticismo é o denominador comum de muitas dessas técnicas científicas. Ceticismo é a crença filosófica de que a verdade de todo conhecimento é questionável. Portanto, toda investigação precisa ser acompanhada por um questionamento pertinente. Nenhum fato científico pode ser conhecido com 100% de certeza. Por exemplo, a engenharia de construção de pontes é uma disciplina prática originária de uma base científica em áreas como a física e a metalurgia. A maioria das pessoas, quando atravessa uma ponte em um carro, não considera efetivamente que a ponte possa mir. É um fato conhecido que as pontes com boa manu- tenção são seguras. No entanto, uma ponte (Galloping Gertie) em Tacoma, no estado de Washington, miu de modo trágico por causa da oscilação provocada pelo vento. Esse aconte- cimento gerou pesquisas adicionais sobre os efeitos de ventos fortes em pontes, o que resultou na construção de pontes mais seguras. Muitas das ferramentas discutidas neste livro, como a estatística, permitem ao cientista cético avaliar a pertinência de seu questionamento. Qual a utilidade da curiosidade científica? Qual a sua finalidade? Dissemos que os psicólogos tentam determinar por que as pessoas pensam e agem de uma certa maneira. Vamos examinar com mais detalhes o que isso significa. > FONTES DE CONHECIMENTO Estabelecimento de Crenças O método científico é uma maneira válida para adquirir conhecimento a respeito do mundo que nos rodeia. Que características do método científico o tornam uma maneira desejável para entender e chegar a conclusões sobre a natureza das coisas? Talvez a melhor maneira de responder a essa pergunta seja comparar a ciência a outras formas de estabelecer crenças, pois a ciência é somente um modo pelo qual crenças são formadas. Há mais de cem anos, o filósofo americano Charles Sanders Peirce (1877) comparou o modo científico de produzir conhecimento a três outros métodos de desenvolvimento de crenças. Ele os denominou métodos de autoridade, tenacidade e a priori. De acordo com Peirce, o modo mais simples para estabelecer uma crença consiste em acreditar na pala- vra de outra pessoa. Uma autoridade confiável lhe diz o que é verdadeiro e o que é falso. As crianças acreditam naquilo que seus pais lhes dizem simplesmente porque mamãe e papai estão sempre certos. À medida que as crianças crescem, elas podem descobrir que, infeliz- mente, a mãe e o pai não estão sempre corretos quando se trata de astrofísica, macroeco- nomia, tecnologia de computadores e outros campos especializados do conhecimento. Embora isso possa fazer com que as crianças duvidem de algumas afirmativas anteriores de seus pais, pode não resultar em rejeição total dessa forma de estabelecer crenças. Como alternativa, pode-se procurar uma outra autoridade. As crenças religiosas são formadas pelo método da autoridade. Muito tempo após as crianças católicas terem rejeitado seus pais como a fonte de todo conhecimento, especial- mente a respeito da doutrina religiosa, elas ainda podem acreditar que o papa é infalível. Acreditar nas notícias transmitidas à noite significa que uma pessoa aceita como autorida- 6 Psicologia Experimental de Dan Rather* ou algum outro apresentador de telejornal. Você pode acreditar em seus professores porque eles são autoridades, Como as pessoas não possuem os recursos para investigar tudo que aprendem, muito conhecimento e muitas crenças são estabelecidos pelo método da autoridade. Desde que não aconteça algo que levante dúvidas sobre a competêns cia da autoridade que determina as crensas, esse método oferece as excelentes vantagens de esforço mínimo e de muita segurança. E muito gratificante, em um mundo C011VUlsionado ter confiança total nos conhecimentos que nos são transmitidos. Um outro método para estabelecer crenças é aquele pelo qual a pessoa recusa_se fir_ memente a alterar o conhecimento adquirido, independentemente de provas em contrário. O método da tenacidade, conforme foi denominado por Peirce, comumente é detectado em pessoas com intolerância racial que se prendem rigidamente a um estereótipo, mesmo havendo um bom exemplo em contrário. Embora essa forma de manter uma crença possa não ser inteiramente racional, não podemos dizer que seja totalmente sem valor. O método da tena_ cidade permite às pessoas manter uma perspectiva uniforme e constante a respeito dos fatos e, portanto, pode ali\iá-las de um certo desgaste emocional e de mal-estar psicológico. O terceiro método não-científico discutido por Peirce estabelece o conhecimento a priori. Neste contexto, a expressão a priori refere-se a algo em que se acredita sem análi_ se ou exame anterior. Proposições que parecem razoáveis recebem credibilidade. É uma extensão do método da autoridade. No entanto, não existe uma autoridade específica seguida cegamente nesse método. A perspectiva cultural geral é o que parece estabelecer a crença a priori. As pessoas acreditavam antigamente que o mundo era plano e realmente parecia razoável supor que o Sol girava em torno da Terra, conforme ocorre com a Lua. De fato, o mundo parece plano, caso você não esteja em uma nave espacial. Os métodos da tenacidade e a priori são similares, pois minimizam a possibilidade de serem influenciados por opiniões conflitantes. No método da tenacidade, outros pontos de vista, embora notados, são integralmente minimizados. Desse modo, um estereótipo racial é mantido, apesar de outros indícios, como as boas qualidades de uma pessoa peitencente a uma raça diferente que mora na casa vizinha. No método a priori, outros pontos de vista não são levados em conta. Por exemplo, a visão de um navio desaparecendo no horizonte, inicial- mente a parte inferior e depois a parte superior, em vez de inteiramente ao mesmo tempo quando zarpa do porto, pode parecer irrelevante, caso você já saiba que o mundo é plano. O último dos métodos de Peirce, o científico, estabelece o conhecimento com base na experiência. A ciência baseia-se na suposição de que os acontecimentos possuem causas e de que podemos conhecê-las por meio de observações controladas. Essa crença de que causas observáveis determinam os acontecimentos é conhecida como determinismo. Se definirmos a psicologia científica (bem como a ciência em geral) como uma iniciativa que se repete, se autocorrige e procura compreender os fenômenos com base na observação empí- rica, podemos, então, notar diversas vantagens do método científico em relação aos métodos anteriores. Vamos analisar o que significa para nós empírico e autocorretivo e examinar as vantagens associadas a esses aspectos da ciência. A primeira vantagem do método científico reside em sua ênfase na observação empí- rica. Nenhum dos outros métodos se apóia em dados (observações do mundo) obtidos por observação sistemática. Em outras palavras, não há base empírica para estabelecer uma crença. A palavra empírico deriva de um antigo termo grego que significa "experiência"' Possuir uma base empírica para as crenças significa que a experiência, em vez da fé, constitlll a fonte do conhecimento. Ter as crenças estabelecidas pela autoridade não garante que ela * NE: Veterano ancora e repórter da CBS nos Estados Unidos, KANTOWITZ, ROEDIGER III E ELMES Capítulo f Explicação na Psicologia Científica 7 obteve dados antes de formar uma opinião, Por definição, o método da tenacidade recusa considerar os dados, como faz o método a priori, Os fatos considerados nessas outras manei- ras de estabelecer crenças normalmente não são obtidos por procedimentos sistemáticos. por exemplo, a observação casual foi o "método" que conduziu à idéia de que o mundo era plano e de que as rãs nasciam por geração espontânea na lama a cada primavera, conforme Aristóteles acreditava.A segunda vantagem da ciência é oferecer procedimentos para estabelecer a superio- ridade de uma crença em relação a outra. Pessoas que possuem crenças diferentes encontra- vão dificuldade para conciliar suas opiniões. A ciência suplanta esse problema. Em princípio, toda pessoa pode fazer uma observação empírica, significando que os dados científicos podem ser públicos e obtidos repetidamente. Por meio de observações públicas, novas cren- ças são comparadas a crenças antigas, e estas são desprezadas, caso não se enquadrem nos fatos empíricos. Isso não significa que todo cientista ponha imediatamente de lado conheci- mentos ultrapassados e privilegie novas opiniões. Mudar crenças científicas geralmente é um processo lento, porém, no final, as idéias incorretas são eliminadas. Observações empíricas e públicas constituem a pedra angular do método científico porque fazem da ciência uma iniciativa que se autocorrige. > A NATUREZA DA EXPLICAÇÃO CIENTÍFICA O que É uma Teoria? Uma teoria pode ser definida rudemente como um conjunto de proposições relacionadas que explica uma variedade de ocorrências, Quanto maior o número de ocorrências e menor o número de proposições, melhor a teoña. A lei da gravidade explica a queda das maçãs, o com- portamento das rodas-gigantes e a posição dos corpos celestes no sistema solar. Com um núme- ro reduzido de proposições sobre a atração mútua dos corpos celestes, ela explica um grande número de eventos. Trata-se, portanto, de uma teom sólida. (Isso não significa necessariamen- te que seja uma teom correta, pois existem certos eventos que ela não consegue explicar.) A teoria na psicologia desempenha duas funções principais. Primeiro, oferece um arcabouço para a apresentação sistemática e ordenada de dados, isto é, atua como um meio conveniente para o cientista organizar os dados. Até o mais dedicado cientista indutivo terá, eventualmente, dificuldade para se lembrar dos resultados de dezenas de experimentos. A teoria pode ser usada como um tipo de sistema de arquivamento para auxiliar os experimentadores a organizar resultados. Segundo, ela permite ao cientista gerar previsões para situações em que não foram obtidos dados. Quanto maior o grau de precisão dessas pre- visões, melhor a teoria. Com a melhor das intenções, cientistas que afirmam estar testando uma teoria, com freqüência obtêm previsões diferentes relativas a uma mesma situação. Essa circunstância infeliz é relativamente mais comum na psicologia, em que muitas teorias são formuladas em uma forma verbal imprecisa, do que na física, em que as teorias são mais for- mais e mais bem quantificadas por meio da matemática. Embora os psicólogos estejam rapi- damente se tornando preparados para formular suas teorias de modo mais preciso, por meio de mecanismos formais como a matemática e simulações por computador, a teoria psicológica típica ainda não é tão precisa como as teorias nas ciências mais antigas e consolidadas. Vamos examinar como a teom cñada por Latané para explicar a inércia social faz sen- tido em ternnos de organização e previsão. A teofia da difusão de responsabilidade organiza uma quanfidade substancial de dados a respeito da inércia social. E, mais importante, a teoria parece explicar uma enorme variedade de outras observações. Por exemplo, Latané (1981) 8 Psicologia Experimental observou que o valor de uma gorjeta deixada em uma mesa de restaurante era inversamente proporcional ao número de pessoas que estavam à mesa. De modo similar, um núm ero poporcionalmente maior de pessoas passava a acreditar em Cristo nas cmzaclas sas menorvs de Billy Graham do que nas maiores. Finalmente, os trabalhos de utané Darley (1970), posteriormente discutidos em detalhes neste livro, mostram que a disposição das pessoas em ajudar em uma crise encontra-se inversamente relacionada ao número de outras pessoas presentes. O padrão completo de resultados pode ser incluído sob a noção de difusão de responsabilidade, a qual afirma que as pessoas sentem menor por suas própfias ações quando estão em um grupo do que quando estão sozinhas e, portanto demonstram menor probabilidade de ajudar em uma emergência, de dar uma gorjeta maior e assim por diante. A teoria de Latané também realiza preüsões com uma certa precisão a respeito do impacto da presença de outras pessoas nas ações de um indivíduo. De fato, uma versão des teoria (Latané, 1981) apresenta suas pñncipais suposições em termos de equações matemáticas. As teorias são elaboradas para organizar conceitos e fatos em um padrão coerente e prever observações adicionais. Algumas vezes, as duas funções da teoria — organização e previsão — são denominadas descrição e explicação, respectivamente, Infelizmente, a for_ mulação das atribuições da teoria dessa maneira leva, muitas vezes, a um questionamento a respeito da superioridade relativa de abordagens dedutivas ou indutivas da ciência — uma discussão que a seção a seguir conclui ser infrutífera. De acordo com o cientista dedutivo, o cientista indutivo preocupa-se somente com a descrição. O cientista indutivo defende-se dessa acusação contrapondo que descñção é explicação — se um psicólogo pudesse prever e controlar corretamente todo comportamento baseando-se em conjuntos de resultados orga- nizados adequadamente, então ele também estaria explicando o comportamento. O argu- mento é fútil porque ambas as visões estão corretas. Se todos os dados necessários estivessem organizados de maneira adequada, previsões poderiam ser feitas sem o apoio de um conjunto formal de proposições teóricas. Em virtude de todos os dados ainda não estarem adequada- mente organizados, e talvez nunca estejam, as teorias são necessárias para suplantar a brecha existente entre conhecimento e ignorância. Lembre-se, contudo, de que as teorias nunca serão completas, porque todos os dados nunca estarão disponíveis. Portanto, simplesmente reformulamos a discussão entre as visões indutiva e dedutiva a respeito de qual método con- duzirá à verdade de modo mais rápido e seguro. Em última instância, descrição e explicação podem ser equivalentes. Os dois termos descrevem o caminho seguido mais do que o resul- tado teórico final. Para evitar essa armadilha, iremos nos referir às duas principais funções da teoria como organização e previsão, em vez de descrição e explicação. Indução e Dedução Certos elementos básicos são partilhados por todas as abordagens da ciência. Os mais impor- tantes são os dados (observações empíricas) e a teoria (organização de conceitos que per- mitem a previsão de dados). A ciência necessita dos dados e da teoria e os utiliza, e a nossa breve descrição das pesquisas sobre inércia social indica que ambos podem estar interligados de um modo complexo. No entanto, na história da ciência, cientistas têm divergido a respeito do que é mais importante e do que surge primeiro, Tentar decidir isso é um pouco como tentar decidir se foi a galinha ou o ovo que surgiu primeiro. A ciência tenta compreender por que os fenômenos operam do modo como o fazem e, conforme argumentaremos, a compre- ensão envolve dados e teoria. Embora Bacon reconhecesse a importância dos dados e da teoria, ele acreditava no primado das observações empíricas; os cientistas modernos também enfatizam os dados e encaram o progresso na ciência ocorrendo como a utilização de dados para obter uma teoria• KANTOWITZ, ROEDIGER III E ELMES Capítulo f Explicação na Psicologia Científica 9 TEORIA Indução Dedução DADOS > FIGURA 1.1 Uma teoria organiza e prevê dados. Por meio da dedução, observações específicas (dados) podem ser previstas. Por meio da indução, os dados indicam princípios de organização (teorias). Esse relacionamento circular indica que as teorias são esboços preliminares de como os dados são organizados. Tal método é um exemplo de indução, em que o raciocínio segue dos dados específicos para a teoria geral. O método inverso, que enfatiza a teoria que prevê os dados, é denominadodedução; nesse caso, o raciocínio segue de uma teoria geral para os dados específicos (Figura 1.1). Em virtude de muitos cientistas e filósofos da ciência terem defendido o primado de uma forma de raciocínio sobre a outra, examinaremos a indução e a dedução pormeno- rizadamente. Como as observações empíricas distinguem a ciência dos outros modos de estabelecer crenças, muitos têm argumentado que a indução deve ser a maneira pela qual a ciência deveria operar. Conforme Harré (1983) afirma, "as observações e os resultados dos experimentos são considerados 'dados' que proporcionam uma base segura e sólida para a construção do frágil edifício do pensamento científico" (p. 6). No caso da inércia social, a discussão seria em torno de os fatos da inércia social originários da experimentação deter- minarem a teoria da difusão de responsabilidade, Um problema relacionado ao método puramente indutivo tem a ver com a finalidade das observações empíricas. As observações científicas estão \inculadas às circunstâncias sob as quais são feitas, significando que as leis ou teorias induzidas a partir delas também são limitadas em escopo. Ex'perimentos subseqüentes em contextos diferentes podem sugerir uma outra teoria ou modificações em uma existente e, portanto, nossas teorias induzidas na base de observações específicas podem mudar (e geralmente mudam) quando outras obser- vações são feitas. Isso, evidentemente, torna-se um problema somente se alguém adotar uma visão autoritária das idéias e acreditar no apego persistente a uma teoria específica. Portanto, as teorias induzidas das observações são idéias preliminares, não verdades finais, e as alte- rações teóricas que ocorrem como resultado do trabalho empírico contínuo exemplificam a natureza autocorretiva da ciência, De acordo com a visão dedutiva, que enfatiza o primado da teoria, o aspecto científico importante da pesquisa sobre inércia social é a orientação empfrica proporcionada pela teo- ria formal da inércia social. Além disso, a teoria mais geral, a de difusão de responsabilidade, oferece uma compreensão da inércia social, O método dedutivo tem muita consideração por teorias bem-desenvolvidas. Observações casuais, teorias informais e dados ocupam uma posição secundária em relação às teorias abrangentes que descrevem e prevêem um grande número de observações. 10 Psicologia Experimental Do ponto de vista do método dedutivo, a compreensão científica significa, ena parte, que uma teoria preverá que certos tipos de observações empíricas deveriam ocorrer. No caso da inércia social, a teoria da difusão de responsabilidade indica que o controle do desern_ penho incli\iclual em um grupo deveria reduzir a difusão da responsabilidade, a qual, por sua vez, reduziria a quantidade de inércia social observada. Essa previsão, conforme vimos demonstra estar correta. Porém, o que revelam as previsões corretas? Se uma teoria for avaliada por resultas dos exverimentais, um cientista dedutivo poderia ter uma maior confiança na veracidade da teoria. No entanto, como as observações empíricas não são finais e podem mudar, algo além da avaliação pode ser essencial para a aceitação ou rejeição de uma teoria. Popper (1961) um filósofo da ciência, sugeriu que as boas teorias devem ser falseáveis, isto é, as Previsões empíricas precisam poder ser submetidas a testes que poderiam demonstrar a possibilidade de essas teorias serem falsas. Essa sugestão de Popper foi denominada visão de falseabilidade De acordo com essa visão, a natureza temporária da indução produz indícios negativos mais importantes do que as informações positivas. Se uma previsão for apoiada por dados, não se pode dizer que a teoria é verdadeira. No entanto, se uma teoria levar a uma previsão que não for apoiada por dados, então Popper argumentaria que a teoria deve ser falsa e deveria ser rejeitada. Assim, para ele, uma teoria nunca pode ser provada, — ela só pode ser rejeitada. A visão de Popper a respeito da dificuldade de provar uma teoria pode ser exempli- ficada considerando uma teoria específica; por exemplo, um saquinho com bolas de gude contém somente bolas pretas? Uma boa maneira para testar essa teoria seria pegar o saqui- nho e retirar uma bola. A bola é preta. O que você pode concluir a respeito da teoria de que todas as bolas são pretas? Embora o dado (uma bola preta) seja coerente com a teoria, ele não a prova. Ainda pode existir uma bola branca dentro do saquinho. Então retire uma outra bola; na verdade, retire outras dez bolas. Todas as dez são pretas. A teoria agora É fácil está provada? Não, pois ainda pode existir uma única bola branca escondida no saquinho. provar que a teoria está errada se uma bola branca for retirada. Se o saquinho for infinita- mente grande, a teoria nunca pode ser provada, porque a próxima bola que você examinar poderia ser branca. Proctor e Capaldi (2001) indicaram dois tipos de objeções ao método de Popper, Primeiro, existe um problema lógico (Salmon, 1988). Como potencialmente uma teom sempre pode ser rejeitada pelo próximo experimento, o número de experimentos realizados coerentes com a teoria torna-se irrelevante. Portanto, logicamente, uma teoria bem-elabora- da não é mais valiosa e, necessariamente, não faz melhores previsões do que uma teoria que nunca foi testada, Essa visão lógica entra em conflito com a visão prática de que os cientistas tendem a sentir-se mais seguros com teorias que passaram por diversos testes experimentaisEssa visão prática (Kuhn, 1970) é o que Proctor e Capaldi (2001) oferecem como a segundaobjeção empírica à falseabilidade: as teorias tendem a ser aceitas, ao menos inicialmente'com base em sua capacidade de explicar (organizar) os fenômenos existentes mais do quepor sua capacidade de prever novos resultados. Um problema com o método dedutivo relaciona-se às próprias teorias. A maior par-te das teorias inclui muitas suposições a respeito do mundo que são difíceis de testar eque podem estar erradas. No trabalho de Latané, uma premissa que apóia a teom geé que avaliar o comportamento de uma pessoa em um contexto experimental não muda 0comportamento em questão. Embora isso freqüentemente seja uma suposição razoável'mostraremos mais tarde que as pessoas podem reagir de modo incomum ao serem obsewa-das, indicando que essa suposição algumas vezes está errada. Se as suposições não-testabestiverem erradas, então um experimento específico que demonstre que uma teom é falsa KANTOWITZ, ROEDIGEA III E ELMES Capítulo f Explicação na Psicologia Científica II pode tê-la falseado pelos motivos errados, isto é, o teste da teoria pode não ter sido razoávelou apropriado. Poftanto, pode-se concluir que o método dedutivo em si não pode levar àcompreensão científica. Nesse ponto, você pode estar pensando se a compreensão científica é possível, umavez que a indução e a dedução não são infalíveis. Não fique desesperançado. A ciência auto-corfige-se e pode oferecer soluções aos problemas, por mais temporárias que essas soluçõespossam ser. A compreensão científica altera-se à medida que os cientistas exercem seu ofício.Temos uma melhor compreensão da inércia social agora do que tínhamos antes de Latanée seus colaboradores fazerem suas pesquisas. Por meio de uma combinação de indução ededução (ver Figura 1.1.), a ciência progride em direção a uma compreensão mais abran-gente de seus problemas. Como forma de concluir esta seção, reexaminamos a inércia social. Inicialmente, resultados experimentais positivos ampliaram nossa confiança na noção geral de inércia social. Esses resultados, por sua vez, sugeriram hipóteses a respeito da natureza da inércia so- cial. Trata-se de um fenômeno geral que influenciaria até mesmo pessoas que compõem grupos orientados? Ele ocorre no local de trabalho, assim como no laboratório? Respostas afirmativas a essas perguntas são coerentes com uma interpretação embasada na difusão de responsabilidade da inércia social. Na fase seguinte das pesquisas, Latané e seus colaboradores tentarameliminar outras explicações da inércia social falseando previsões feitas por essas teorias alternativas. Em seu trabalho original, Latané e seus colaboradores testaram o esforço de uma mesma pessoa quando estava sozinha e quando fazia parte de um grupo. Eles ponderaram em seguida que, sob essas condições, uma pessoa poderia descansar durante o teste do grupo para que um maior esforço pudesse ser dedicado à tarefa quando ela fosse testada individualmente. Para eliminar a possibilidade de que determinada alocação de esforço, em vez da difusão de responsabilidade, explicasse a inércia social, eles conduziram experimentos adicionais nos quais uma pessoa era testada sozinha ou em um grupo, porém não em ambas as situações. Contrariamente à hipótese da alocação de esforço, os resultados indicaram que a inércia social ocorreria mesmo quando uma pessoa fosse testada apenas na condição específica de estar em um grupo (Harkins, Latané e Williams, 1980). Concluiu-se, portanto, que a difusão de res- ponsabilidade explicava mais apropñadamente a inércia social do que a alocação de esforço. Observe, nesse caso, o desenrolar dos acontecimentos. Experimentos sucessivos antepuseram entre si dois resultados possíveis com a expectativa de que uma possibilidade seria eliminada, e a outra, apoiada pelo resultado da pesquisa. Evidentemente, testes subse- qüentes da teoria da difusão de responsabilidade provavelmente poderão, de alguma forma, contradizê-la ou confirmá-la. Portanto, a teoria poderia ser revisada ou, com um número suficiente de contradições, rejeitada por uma explicação alternativa, apoiada por observações empíricas. De qualquer modo, nossa posição atual é de termos elaborado uma visão razoá- vel do que a inércia social acarreta e do que parece causá-la. É a combinação das hipóteses induzidas dos dados e dos testes experimentais deduzidos da teoria que resultou na teoria de que a difusão de responsabilidade leva à inércia social. Da Teoria à Hipótese As teorias não podem ser testadas diretamente. Não existe um único experimento mágico que provará se uma teoria é correta ou incorreta. Como alternativa, os cientistas conduzem experimentos para testar hipóteses que procedem de uma teoria. Porém, o que são exata- mente hipóteses científicas e de onde se originam? 12 Psicologia Experimental Teoria Generaiização Generalização Hipótese Hipótese Hipótese Hipótese Hipótese Experiência Diária FIGURA 1.2 Conjuntos de generalizações produzem um grande número de hipóteses. É importante distinguir entre hipóteses e generalizações (Kluger e Tikochinsky, 2001). Uma hipótese é uma proposição muito específica sujeita a um teste e pode ser avaliada a partir de dados observáveis. Por exemplo, poderíamos levantar a hipótese de que motoristas com idade superior a 65 anos teriam uma maior freqüência de acidentes, envol- vendo conversões à esquerda em tráfego nos dois sentidos, quando dirigem à noite, do que motoristas mais jovens. Examinando os registros policiais contendo dados sobre acidentes, poderíamos determinar, com a ajuda da estatística (ver Apêndice B), se essa hipótese é incorreta. Uma generalização é uma proposição mais ampla que não pode ser testada dire- tamente. Por exemplo, poderíamos generalizar que motoristas mais idosos constituem risco a qualquer velocidade e deveriam estar sujeitos a restrições, como não poder dirigir à noite. Como "constituir risco a qualquer velocidade" não se encontra definido claramente, essa não é uma proposição que possa ser testada. De modo similar, a generalização não define uma faixa etária em que estafiam os denominados motoristas mais idosos. No entanto, ela pode ser usada para obter diversas hipóteses que podem ser testadas. A Figura 1.2 ilustra esse processo. Cada generalização pode produzir mais de uma hipó- tese. Somente duas estão indicadas na figura para mantê-la simples, contudo uma boa generali- zação pode produzir um grande número de hipóteses. Por exemplo, a generalização envolvendo motoristas mais idosos poderia resultar em muitas hipóteses a respeito de diferentes fipos de acidentes e de comportamentos que atingem os motoristas que ficam mais idosos: chocar-secom veículos parados, não dar sinal ao fazer conversões, difigir na calçada, chocar-se com Obje-tos, não manter-se na pista etc. Essas hipóteses poderiam ser testadas fazendo-se observações notráfego, em pistas de teste fechadas (mais seguras para o público que dirige, se a generalizaçãOfor verdadeira) ou em simuladores de direção (mais seguros para o público que dirige). Como já explicamos que as hipóteses ofiginam-se de generalizações, podemos passarà próxima pergunta: de onde procedem as generalizações? A Figura 1.2 mostra que exis-tem duas fontes para as generalizações. Elas podem originar-se da teoria ou da experiên-cia. Embora somente três generalizações sejam mostradas na Figura 1.2, uma boa teoriaproduzirá um conjunto de generalizações. Você pode julgar que a generalização relativaao motorista que se torna idoso origina-se da experiência, em vez da teoria. Você pode terexperiência em primeira mão, sendo um passageiro em um carro dirigido por um avô ou umaavó, e essa experiência pode ter feito com que você concorde com a generalização. Esse é KANTOWITZ, ROED'Gtn III E ELMES Capítulo 1 Explicação na Psicologia Científica 13 um processo indutivo (Figura 1.1) com base em dados, isto é, nas observações informais docomportamento dos cidadãos idosos ao dirigir, Hipóteses originadas de um processo indutivocorno esse são denominadas hipóteses de senso comum. Embora o teste dessas hipótesesfosse desaprovado no passado na psicologia experimental, por ser considerado inferior aoteste de hipóteses originadas da teoria, existe atualmente uma nova apreciação do valor dashipóteses de senso comum (Kluger e Tikochinsky, 2001). No entanto, a maioria dos psicólogos prefere o teste de hipóteses com base na teoria.Nesse caso, a generalização é obtida dedutivamente (Figura 1.1) a partir da teoria. A genera-lização a respeito dos efeitos da idade nos motoristas também poderia ser derivada de teoriasde atenção, percepção e tomada de decisões (Kantowitz, 2001). À medida que envelhecemos,diminui nossa habilidade para executar diversas tarefas e nossa tomada de decisões torna-se mais consewadora, exigindo, muitas vezes, mais tempo para ser efetivada. Portanto, um moto- rista idoso poderia (a) ter dificuldade para enxergar o tráfego em sentido contrário à noite, (b) ter dificuldade para observar o tráfego em sentido contrário e, ao mesmo tempo, prestar aten- ção nos dispositivos internos do veículo, como um rádio, ou em um passageiro, (c) levar muito tempo para decidir se uma conversão à esquerda, com veículos em sentido contrário, é segura, de modo que, quando ele finalmente a faz, é muito tarde e o tráfego em sentido contrário não lhe permite evitar um acidente. A vantagem de uma boa teoria é que ela resulta em muitas generalizações. As teorias de atenção não lidam somente com os motoristas que se tornam mais idosos, mas fazem generalizações a respeito de muitas outras situações práticas, como a opera- ção de aviões e usinas nucleares, sem mencionar as previsões mais abstratas a serem testadas em laboratório, Por exemplo, muitas teorias de atenção preveriam que falar ao telefone celular enquanto se está dirigindo seria perigoso. No entanto, generalizações baseadas no senso comum não são produtivas porque, mesmo se estiverem corretas, não criam novas generalizações. Portanto, as teorias são mais eficientes para fazer progredir o questionamento científico. Embora o teste de hipóteses seja a principal metodologia empregada na psicologia experimental, há outros pontos de vista. A maior parte das teorias na psicologia é verbal e qua- litativa, de modo que é difícil obter previsões matemáticas. No entanto, se um modelo formal puder ser gerado matematicamente ou por simulação por computador, então se toma possí- vel estimar parâmetros do modelo. O processo de estimar parâmetros é superior ao teste de hipóteses e aoajuste de curvas (Kantowitz e Fujita, 1990) e, à medida que a psicologia evolui como ciência, tais processos suplementarão, e talvez ao final subsütuam, o teste de hipóteses. Realmente existe um novo moxamento na filosofia da ciência, denominado naturalismo, que critica as atuais metodologias como o teste de hipóteses, e suas ramificações alcançaram as margens da ciência psicológica (Proctor e Capaldi, 2001). O naturalismo sugere que os crité- rios metodológicos não permanecem fixos eternamente com base em premissas lógicas, mas podem mudar e evoluir (de modo análogo às teorias) em bases pragmáticas. Avaliação das Teorias O cientista sofisticado não tenta determinar se uma teoria específica é verdadeira ou falsa em sentido absoluto. Não existe um método do tipo preto-e-branco, para a avaliação da teo- ria. Uma teoria pode ser considerada incorreta em alguma parte e, mesmo assim, continuar sendo adotada. Na física moderna, a luz é representada, de acordo com a teoria escolhida, por partículas discretas denominadas quanta ou por ondas contínuas. Logicamente, a luz não pode ser ambas ao mesmo tempo. Portanto, você poderia pensar que pelo menos uma des- sas duas visões teóricas precisa necessariamente ser falsa. O físico tolera essa ambigüidade (embora talvez não com satisfação) e usa a representação — quantum ou onda — que é mais apropriada. Em vez de afirmar categoricamente que uma teoria é verdadeira, o cientista 14 Psicologia Experimental mais freqiientemente afirma que ela é apoiada substancialmente por dados, deixando em aberto, portanto, a possibilidade de novos dados não apoiarem a teoria. Embora os cientistas não afirmem que uma teoria seja verdadeira, muitas vezes precisam decidir qual das teorias é a melhor. Conforme observado anteriormente, as explicações são preliminares; no entanto, o cientista ainda precisa decidir qual teoria é melhor para o presente. para fazer isso, são necessários critérios explícitos para avaliar uma teoria. Quatro desses critérios são a parcimónia, a precisão, a testabilidade e a habilidade para se ajustar aos dados. Um critério importante foi sugerido anteriormente ao afirmarmos que, quanto menor o número de proposições em uma teoria, melhor ela seria. Esse critério é denominado parcimônia ou, algumas vezes, navalha de Occam, em homenagem a William de Occam. Se uma teoria precisa de uma proposição distinta para cada resultado que deve explicar, evi_ dentemente ela não permitiu praticidade. As teorias ganham solidez quando podem explicar muitos resultados com poucos conceitos explicativos. Portanto, se duas teorias possuem o mesmo número de conceitos, a que puder explicar mais resultados é uma teoria melhor. Se duas teorias podem explicar o mesmo número de resultados, com menor número de concei_ tos explicativos é a preferida. A precisão é outro critério importante, especialmente na psicologia (na qual fre_ qüentemente está ausente). As teorias que envolvem equações matemáticas ou problemas de computação geralmente são mais precisas e, portanto, melhores do que as que uüli_ zam proposições verbais imprecisas (na igualdade das demais condições, evidentemente), A menos que uma teoria seja tão precisa que pesquisadores distintos concordem com suas previsões, ela é inútil do ponto de vista de suas intenções e finalidades. A testabilidade vai além da precisão. Uma teoria pode ser muito precisa e, no entan- to, não ser testável. Por exemplo, quando Einstein propôs a equivalência entre matéria e energia (E = mc2), a tecnologia nuclear não era capaz de testar essa relação diretamente. O cientista atribui um valor muito elevado ao critério da testabilidade porque uma teoria que não pode ser testada nunca pode ser rejeitada. Você poderia pensar inicialmente que essa seria uma boa qualidade, pois seria impossível demonstrar que tal teoria estivesse incorreta. O cientista adota a visão oposta. Por exemplo, considere a PES (percepção extra-sensorial). Algumas pessoas que acreditam na PES alegam que a presença de um cético é suficiente para evitar a ação de alguém que possua o dom da PES, porque quem não acredita emite "vibrações negativas" que destroem a PES. Isso significa que a PES não pode ser avaliada, porque somente os que acreditam nela podem estar presentes quando ela for demonstrada. O cientista tem uma visão obscura dessa lógica, e a maioria dos cientistas, especialmente os psicólogos, é cética em relação à PES. A crença em uma teoria aumenta à medida que ela sobrevive aos testes que poderiam rejeitá-la. Por ser logicamente possível que algum teste futuro possa detectar uma falha, a crença em uma teoria nunca é absoluta. Se for logicamente possível testar uma teoria, porém isso ainda não seja tecnicamente viável, como ocorreu no passado com a teoria de Einstein, então a avaliação da teoria é postergada. Finalmente, uma teoria precisa ajustar-se aos dados que explica. Embora um bomajuste dados-teoria não seja um critério suficiente para aceitar uma teoria (Roberts e Pashler,2000), não existe muita motivação em levar adiante uma que não consiga fazê-lo (Rodgerse Rowe, 2002). Variáveis Intervenientes As teorias muitas vezes usam conceitos que resumem os efeitos de diversas variáveis. Asveis serão discutidas em mais detalhes no Capítulo 3. No momento, descreveremos resumi-damente dois tipos diferentes de variáveis. Variáveis independentes são as manipuladas pelo KANTOWITZ, ROEDIGER III E ELMES Capítulo f Explicação na Psicologia Científica 15 Variável Independente Variável Interveniente Horas de privação Horas de Sede FIGURA 1.3 Um conjunto de variáveis. Variável Dependente Taxa de pressões à barra Taxa de pressões à barra experimentador. Por exemplo, não permitir que os ratos bebam água durante várias horas criaria uma variável independente denominada horas de privação. Variáveis dependentes são as observadas pelo experimentador. Por exemplo, ele poderia observar quanta água um rato bebe. A ciência tenta explicar o mundo relacionando variáveis independentes e dependen- tes. Variáveis intervenientes são conceitos abstratos que unem variáveis independentes às variáveis dependentes. A gravidade é um conceito familiar que atinge essa meta, Ela pode relacionar uma variável independente, os metros de altura de que um objeto é lançado, a uma variável dependente, a velocidade do objeto quando atinge o solo. A gravidade também resume os efeitos da altitude para todos os tipos de objetos. Ela explica as maçãs que caem, bem como as bolas que caem no jogo de beisebol. A ciência progride quando um único con- ceito, como o da gravidade, explica resultados em muitos ambientes distintos. Miller (1959) explicou como uma única variável interveniente, a sede, organiza efi- cientemente os resultados experimentais. A Figura 1.3 mostra um modo direto e indireto para relacionar uma variável independente, as horas de privação, a uma variável dependente, a taxa de pressões à barra. A variável dependente é obtida colocando-se um rato em uma pequena câmara, onde ele pode pressionar uma barra para obter água. O experimentador observa a taxa (quantas pressões ocorrem por minuto) em que o rato pressiona a barra para obter água. A relação direta usa somente uma seta para unir as horas de privação à taxa de pressões à barra. Após realizar um experimento, poderíamos criar uma fórmula matemática que relacione diretamente as horas de privação à taxa de pressões à barra. O método indire- to na Figura 1.3 usa duas setas. A primeira seta relaciona as horas de privação à sede, uma variável interveniente. A segunda seta relaciona a variável interveniente, a sede, à taxa de pressões à barra. Em virtude de o método indireto ser mais complexo, exigindo uma seta adicional, você poderia esperar que o cientista preferisse o método direto de explicação. De fato, se a única meta científica fosse relacionar horas de privação à taxa de pressões à barra, você estaria correto, porque a ciência prefere explicações simples a explicações complexas. No entanto,conforme explicaremos, a meta científica é mais geral. A Figura 1.4 relaciona duas variáveis independentes, as horas de privação e a dispo- nibilidade de alimento seco, a duas variáveis dependentes, à taxa de pressões à barra e ao volume de água ingerido. Na Figura 1.4, as explicações diretas e indiretas são igualmente complexas. Cada uma requer quatro setas distintas. A Figura 1.5 relaciona três vañáveis independentes, horas de privação, disponibilidade de alimento seco e injeção salina (dar água ao rato por meio de um tubo inserido em seu estômago), a três variáveis dependentes, taxa de pressões à barra, volume de água ingerido e quantidade de quinino necessária para que o rato deixe de beber. Novamente são mostra- das as explicações direta e indireta. Torna-se óbvio agora que o método indireto é menos complicado. Ele requer seis setas distintas, ao passo que o método direto requer nove setas. 'a Experimental 16 psicologi Variável Interveniente Variáwis Independentes Horas de privaçao Disponibilidade de alimento seco Horas de privação sede Disponibilidade de alimento seco FIGURA 1.4 Dois conjuntos de variáveis. Variável Interveniente Variáveis Independentes Horas de privação Disponibilidade de alimento seco Injeçáo salina Horas de privação Variáveis Dependentes Taxa de pressões à barra Volume de água ingerido Taxa de pressões à barra Volume de água ingerido Variáveis Dependentes Taxa de pressões à barra Volume de água ingerido Quinino para parar de beber Taxa de pressões à barra isponibilldade de alimento seco ---——>Sede -----.-.--..-...----> Volume de água ingerido Injeçáo salina FIGURA 1.5 Três conjuntos de variáveis. Quinino para parar de beber Portanto, à medida que a ciência tenta relacionar um número maior de variáveis indep dentes e dependentes, as variáveis intervenientes tornam-se mais eficientes. Existe ainda uma outra vantagem das variáveis intervenientes. A sede, indepen temente de como surge, deve exercer o mesmo efeito sobre todas as variáveis depende I KANTOWTTZ, ROEDIGEA III E ELMES Capítulo f Explicação na Psicologia Científica 17 Isso pode ser testado experimentalmente. Se não for verdadeiro, podemos rejeitar a idéiade uma única variável interveniente, Capítulos posteriores discutem isso sob o tópico deoperações convergentes. Raposas e Porcos-Espinhos Transitando pela Teoria Psicológica A pesquisa na psicologia experimental tende a ser organizada em subáreas; de fato, a ParteII deste livro apresenta capítulos para essas subáreas, como percepção, memória e influência social. Assim faz uma raposa, que conhece diversos caminhos. Esse não foi sempre o caso na história da psicologia. Houve psicólogos (por exemplo, James, 1890) que tentaram uma explicação unificada dos fenômenos psicológicos. Esse é o caminho do porco-espinho, que conhece apenas um fato importante. Ambas as abordagens defrontam-se com desafios significativos. O método domi- nante constrói barreiras sólidas entre os campos. Professores são contratados no âmbito de uma determinada especialidade e normalmente têm as suas salas de trabalho proxima- mente localizadas e por área de especialização, o melhor para resistir a avanços territoriais de outras subáreas. Os alunos dos cursos de pós-graduação são treinados em uma área, com exigências curriculares específicas, e isso perpetua a divisão. Até mesmo as comissões que avaliam as propostas de financiamento de pesquisas são organizadas por especialida- des. O recém-doutorado que assume um cargo na indústria não se encontra bem-prepa- rado para a cooperação entre as áreas, necessária para resolver qualquer problema prático importante. Recentemente tem ocorñdo uma preferência crescente por um método mais unifica- do (porcos-espinho) (Sternberg et al., 2001). Esses teóricos tentam juntar teorias concorren- tes, enfatizando que o papel de explicação da teoria é mais crucial do que o papel preditivo. A junção em uma teoria constitui uma meta válida, caso possa ser realizada. No entanto, o atual sistema dividido surgiu porque teorias integradas anteriores foram incapazes de abar- car todas as subáreas da psicologia. Os novos porcos-espinhos farão a junção melhor que os porcos-espinhos antigos? > A CIÊNCIA PSICOLÓGICA Alguns alunos encontram dificuldade para pensar na psicologia como uma ciência como a física e a química. Eles acreditam que há aspectos da experiência humana, como as artes, a literatura e a religião, que desafiam a análise científica. De que modo a beleza de uma litografia de Klee, uma sonata de Beethoven ou uma fotografia de Cartier-Bresson pode ser reduzida a equações científicas frias? Como as sensações de carinho de um primeiro romance, a emoção de dirigir um carro esporte a 150 km/h ou a angústia da derrota de um time de futebol podem ser interpretadas pelo modo objetivo e imparcial exigido pela ciência? Alguns psicólogos, conhecidos como humanistas, responderiam negativamente a essas perguntas. Esses humanistas, na maioria das vezes psicólogos clínicos e de aconselha- mento, alegam ser impossível avaliar e testar objetivamente grande parte dos sentimentos e experiências humanos. Mesmo os psicólogos experimentais muito conceituados concordam que o domínio da ciência é limitado. Não podemos confirmar ou refutar a existência de Deus por meios científicos, da mesma maneira que não poderíamos testar a gravidade por méto- dos teológicos, A ciência existe onde seus instrumentos são apropriados (ver Capítulo 14). 18 Psicologia Experimental Isso não significa que não se pode obter conhecimento nas áreas em que a ciência trilhar isto é, por não científicos, Muitos campos importantes do esforço hu ainda têm benefícios para serem adquiridos de análises científicas mais extensas moral e direito, para mencionar apenas algumas. No entanto, a maioria dos cientistas consideraria que a análise científica poderia aplicada de modo útil a muitas dessas áreas. Grande parte da psicologia contemporân considerada, em uma época, como de domínio exclusivo da filosofia. À medida foi nicas psicológicas se aperfeiçoaram, esses aspectos do conhecimento e do comportamento humanos voltaram-se para o campo da ciência. E, agora, a maioria dos psicólogos acredita que virtualmente todas as facetas da experiência humana possam ser estudadas pela ciência psicológica. Ridicularizar o progresso cienúfico na psicologia, como fez um senador d Estados Unidos que criticou a National Science Foundation por apoiar pesquisas sobre o amor romântico, não impedirá as iniciativas para ampliar o conhecimento psicológco Embora seja válida e importante a preocupação com o uso adequado e ético de tal conheci. mento, a ignorância não é solução. A Psicologia e o Mundo Real Os cientistas, em geral, e os psicólogos, em particular, possuem muitas razões para praticar sua profissão. Embora consideremos um tanto fácil provar que a pesquisa em psicologa efetivamente ajuda a humanidade, gostaríamos de ressaltar que não consideramos essa a única, ou necessariamente a principal, justificativa para uma carreira de psicólogo pesqui_ sador. Muitos cientistas investigam certos problemas simplesmente porque os consideram interessantes. Demonstramos toda a simpatia pelo colega que poderia afirmar que estuda gerbilos apenas porque esses animais provocam sua curiosidade. É verdade que certos estudos são feitos em animais por ser antiético ou impossível fazê-los em seres humanos — por exemplo, estudos longitudinais envolvendo multidões, punição, drogas e assim por diante —, mas é igualmente verdadeiro que o comportamento dos animais é interessante por si só. A pesquisa científica freqüentemente é dividida em duas categorias: básica e aplicada A pesquisa aplicada tem por finalidade resolver um problema específico — por exemplo, como curar o problema de urinar na cama —, ao passo que a pesquisa básica não possui um alvo prático imediato. A pesquisa básica estabelece um conjunto de dados, expplicações teóricas e conceitos que podem serutilizados pelo pesquisador que se dedica à ciência apli- cada. Sem essa fonte, a pesquisa aplicada logo se esgotaria e chegaria a ser interrompida, a não ser que esses pesquisadores tivessem necessidade de dedicar-se à pesquisa básica. Decorre muito tempo para que um conceito desenvolvido pela pesquisa básica encontre alguma aplicação útil na sociedade. Adams (1972) acompanhou cinco produtos socialmente importantes para descobrir o impacto, caso houvesse, da pesquisa básica. Embora a pesquisa básica representasse 70% dos eventos significativos, a pesquisa ocorreu 20 a 30 anos antes do uso final do produto. Esse grande intervalo de tempo obscurece o papel crucial da pesquisa básica, fazendo com que muitas pessoas acreditem incorretamente que ela não é muito útil para a sociedade. É muito difícil afirmar qual pesquisa básica feita atualmente terá impacto daqui a 30 anos. Porém, essa inabilidade para prever dificilmente significa que deveríamos descontinuar a pesquisa básica. Embora a maioria dos psicólogos experimentais fique satisfeita com um modelo cientista-praticante, no qual a pesquisa aplicada baseia-se nos resultados da pesquisa básica, tem ocorrido, mais recentemente, um impulso em direção a um sistema de duas KANTOWTTZ, ROEDtGER III E ELMES Capítulo 1 Explicação na Psicologia Científica 19 vias (Fishman e Neigher, 1982', Howell, 1994) quando a pesquisa básica e a aplicada divergem. Sob uma perspectiva histórica (Bevan, 1980), essas duas abordagens da ciência remontam a René Descartes e Francis Bacon. No modelo cartesiano, a ciência é um ente básico cuja finalidade consiste em compreender a natureza. O modelo de Bacon promove o objetivo da ciência como sendo o de melhorar o bem-estar humano, considerando que os resultados úteis precedem a ampliação do conhecimento. No entanto, alguns pesqui- sadores argumentam que a dicotomia pesquisa básica/aplicada tem sido simplificada em excesso ou representa uma diferença falsa (Pedhazur e Pedhazur Schmelkin, 1991). Por exemplo, as definições de pesquisa básica e aplicada diferem consideravelmente entre os pesquisadores. Além disso, toda pesquisa científica é conduzida com a meta de obter conhecimento. Nesse sentido, toda pesquisa pode ser considerada básica até certo grau. De modo análogo, a maior parte das pesquisas possui algum valor prático. Portanto, a distinção básica/aplicada pode ser mais bem considerada em termos menos discretos ou como um continuum. A redução das verbas oficiais para pesquisa, a qual teve início durante a administração do presidente Reagan (Fishman e Neigher, 1982), e o corte mais recente dos fundos para a pesquisa industrial (Yeager, 1996) sugerem que a sociedade americana voltou-se para o modelo de Bacon. Os cientistas, que evidentemente se beneficiam com as verbas para pes- quisa, têm tentado explicar as vantagens da pesquisa nos setores governamental e privado. Por uma questão de necessidade, cientistas comportamentais têm se tornado mais ativos na promoção da pesquisa oficial (National Advisory Mental Health Council Behavioral Science Task Force, 1995). Yeager (1996) argumentou que, no setor privado, embora a indústria possa calcular facilmente os custos da pesquisa a curto prazo, ainda não avaliou plenamente os benefícios a longo prazo. Deixar de realizar a pesquisa industrial pode arruinar as prin- cipais indústlias. Exemplos bem conhecidos são o declínio das indústrias automobilística e de aço dos Estados Unidos por causa da inabilidade demonstrada para concorrer com a avançada tecnologia japonesa nos anos 1980. Fatores humanos (ver Capítulo 15) são uma área aplicada que tem crescido rapi- damente. A maioria dos membros da Human Factors and Ergonomics Society formou-se em psicologia. No entanto, um ex-editor da publicação da sociedade (Human Factors), ele mesmo um psicólogo, julga que a disciplina de fatores humanos dentro de dez anos será mais uma profissão e menos uma ciência, particularmente uma ciência psico- lógica Ela continuará a produzir pesquisas, porém de uma natureza cada vez mais voltada a problemas específicos. O que continua a preocupar-me, no entanto, é como uma disciplina cada cez mais profissional irá transpor a ponte entre ciência e prática à medida que a abrangência da ciência tornar-se mais ampla e o número de cientistas verdadeiros na disciplina ficar menor. (Howell, 1994, p. 5) A escolha entre os métodos científicos de Descartes e de Bacon é de tal sorte que, ao final, não será decidida pelos cientistas, Ela será decidida pelos financiamentos nos setores público e privado, no que se refere aos critérios mais apropriados para avaliar o trabalho científico, Porém, todos nós cientistas e o público também, seremos profundamente afetados por essa escolha. Embora a divisão da pesquisa nas categorias básica e aplicada seja comum, uma distinção muito mais importante ocorre entre a boa e a má pesquisa. Os princípios e as práticas cobertos neste livro aplicam-se com a mesma intensidade à pesquisa básica e 20 Psicologia Experimental à aplicada. você pode e deve usá-los a fim de avaliar toda pesquisa em psicologia eitor jornal diário. d0 Os Experimentos Estão Muito Distantes da Vida Real? Os alunos de logia nonnalmente precisam ter um nível mais elevado de relevância em suas di de psicologia do que esperam de outras ciências. os alunos que não ficam te decepcionados pelo fato de a disciplina de Introdução à Física não tê-los a consertar seu automóvel muitas vezes ficam aborrecidos porque a disciplina Introdução àPsicologia não lhes proporcionou uma melhor compreensão de suas próprias motivações não curou suas neuroses e deixou de mostrar-lhes como obter a felicidade eterna, Se você não se deparou com tais informações em Introdução razoável, à prossiga Psicologia, a leitura. duvidamos que asencontrará neste livro, Mas se isso não lhe parece Os dados que os psicólogos reúnem podem parecer inicialmente sem importância, porque pode ser difícil estabelecer uma relação imediata entre a pesquisa em psicologa básica e problemas sociais ou pessoais urgentes. É natural, então, duvidar da importância de certos tipos de pesquisa e indagar por que o govemo, por meio de diversas agências financia pesquisas para observar ratos pressionando barras ou percorrendo labirintos, A dificuldade, no entanto, não reside na pesquisa, mas nas expectativas de como a pesquisa "útil" deveria ser conduzida. Como obsewado por Sidman (1960), as pessoas esperam que o progresso ocorra por meio do estabelecimento de situações de laboratório que sejam análogas às situações da vida real: "Para estudar a psicose em animais, teríamos de aprender como tornar os animais psicóticos". Isso é errôneo. O psicólogo tenta compre- ender os processos subjacentes, em vez das situações físicas que resultam nesses processos. As situações físicas no mundo real e no laboratório não precisam ser igualmente similares, desde que os mesmos processos estejam ocorrendo. Suponha que gostaríamos de saber por que ocorrem os acidentes com aviões ou, mais especificamente, qual a relação entre acidentes de aviões e falha de atenção da parte do piloto e/ou do controlador do tráfego aéreo. Um cientista que se dedica à pesquisa básica poderia abordar esse problema colocando alunos do segundo ano da faculdade sentados diante de diversas luzes que aparecem em sucessão rápida. O aluno tem de pres- sionar uma tecla quando cada luz acender. Isso provavelmente parece um tanto distante das colisões de aeronaves durante o vôo. Porém, embora as situações físicas sejam muito diferentes, os processos são similares. Pressionar uma tecla é um índice de atenção (ver Capítulo 8). Os psicólogos podem sobrecarregar o operador humano mediante a apre- sentação de luzes que piscam com maior rapidez do que ele pode reagir. Portanto, essa simples situação física em um laboratório permite ao psicólogo estudar a falta de atenção em um ambiente cuidadosamente controlado. Além dos benefícios óbvios de segurança advindosdo estudo da atenção sem ter de colidir aeronaves, existem muitas vantagenS científicas no ambiente de laboratório (ver Capítulo 3). Em virtude de as falhas de atenção serem responsáveis por diversos tipos de acidentes industriais (DeGreene, 1970, capítulos7 e 15), os estudos de atenção por meio de luzes e botões podem levar a melhoñas fora Pelo mesmo motivo, estabelecer situações físicas similares não garante a similali- dade de processos. Uma pessoa pode facilmente treinar um rato para apanhar moedas na boca e ocultá-las em sua gaiola. Porém, isso não significa necessariamente que 0 rato 'avarento" e o ser humano avarento que esconde moedas debaixo do colchão façam isso porque os mesmos processos psicológicos estão controlando seu comportamento KANTOWTZ, ROEDIGEA III E ELMES Capítulo I Explicação na Psicologia Cientffica 21 Devemos não só nos preocupar com os processos psicológicos que podem ser genera- lizados do laboratólio para uma situação de aplicação, mas também ter consciência de duas importantes razões para realizar pesquisas, cuja finalidade (ao menos inicialmente) pode não estar diretamente relacionada a assuntos práticos (Mook, 1983). Uma razão pela qual a pes- quisa básica ajuda a compreensão é que ela muitas vezes demonstra o que pode acontecer. Desse modo, sob condições controladas, os cientistas podem determinar se efetivamente ocorre a inércia social. Além disso, o laboratório permite uma oportunidade para determinar as características da inércia social mais claramente do que o local de trabalho, onde alguns fatores incontroláveis, como salário e segurança de emprego, poderiam mascarar ou alterar os efeitos da inércia social (ver Capítulo 3). Uma segunda razão para o valor da pesquisa básica é que as descobertas feitas em um ambiente de laboratório controlado podem ter mais peso do que descobertas similares feitas em um contexto da vida real. Mostrar que o operador humano pode estar sobrecarre- gado em uma tarefa de laboratório relativamente não-estressante sugere que os fatores da atenção são cruciais para o desempenho; sob as condições estressantes deveriam de pilotar ficar grandes ainda aviões de passageiros em espaços aéreos congestionados, as pessoas mais sobrecarregadas. Evidentemente, se um pesquisador deseja testar uma previsão teórica ou aplicar um resultado obtido no laboratório em um contexto aplicado, então os testes apropriados serão necessários. Conceber uma maneira para avaliar o desempenho indMdual, a fim de reduzir a inércia social em uma situação industrial envolvendo um grupo, sem primeiro testar sua aplicabilidade nesse ambiente, seria imprudente. A conclusão, então, é que o pesquisador precisa se preocupar com o objetivo de seus experimentos, O pesquisador ou o avaliador de uma determinada pesquisa deveria prestar muita atenção nesse objetivo. Nem a prática nem a utilização da ciência são fáceis. Os benefícios que podem ser obtidos do conhecimento e da compreensão científicos dependem de cidadãos e cientistas críticos e bem-informados. Seu envolvimento com uma carreira, com a família e com temas sociais será determinado parcialmente pelas descobeftas científicas. Você precisa estar em uma posição para avaliar precisamente essas descobertas e aceitar as que parecem mais con- fiáveis e válidas. A não ser que planeje hibernar ou afastar-se da sociedade de algum outro modo, você será afetado pela pesquisa em psicologia. Como cidadão, você será um beneficiá- rio dos resultados da pesquisa em psicologia e esperamos que os assuntos discutidos neste livro ajudem-no a torná-lo um consumidor inteligente, Esperamos que alguns de vocês se tornem cientistas. Também esperamos que alguns cientistas potenciais entre vocês focalizem o motivo pelo qual as pessoas pensam e agem de determinada maneira. Desejamos boa sorte aos futuros cientistas. Sua carreira científica será excitante e esperamos que seus empreendimentos sejam influenciados positivamente pelos princípios da pesquisa em psicologia aqui apresentados. 22 Psicologia Experimental RESUMO 1. A psicologia científica preocupa-se com os métodos e as técnicas usados para compmender por que as pessoas pensam e agem de determinada maneira. Essa curiosidade pode ser satisfeita pela pes- quisa básica ou aplicada, que usualmente operam juntas para proporcionar com- preensão. 2. Nossos conhecimentos muitas vezes são estabelecidos pelo método da autorida- de, pelo método da tenacidade ou pelo método a priori. O método científico ofe- recevantagens sobre esses outros métodos por se apoiar na obsewação sistemática e ser autocon•etivo. > TERMOS-CHAVE autocorretivo dados dedução descrição determinismo difusão de responsabilidade experimentação explicação generalização hipótese indução inércia social método a priori método científico QUESTÕES PARA DISCUSSÃO I. Faça uma lista de cinco proposições quepoderiam ser consideradas verdadeiras.Inclua algumas proposições controverti-das (por exemplo, os homens possuemum QI menor que o das mulheres), bem 3. Os cientistas usam os raciocínios indutivoe dedutivo para obter explicações do samento e da ação. pens 4. Conjuntos de generalizações produzcmum grande número de hipóteses. 5. Uma teoria organiza conjuntos de dad gem preüsões para novas situações nas ose os dados ainda não foram obtidos. Uma%uasteoria é parcimoniosa e precisa, pode testada e se ajusta aos dados que explica 6. A pesquisa em laboratório se preocupacom os processos que regem o com-portamento e com a demonstração dascondições sob as quais certos proces-sos psicológicos podem ser observados. método da autoridade método da tenacidade método empírico observação organização parcimônia pesquisa aplicada pesquisa básica precisão previsão teoria testabilidade variáveis intewenientes visão de falseabilidade como algumas que você tenha certeza de serem corretas. Contate alguns de seus amigos e pergunte-lhes se concordam com essas proposições. Pergunte, então, quais são as justificativas para as opiniões que KANTOWITZ, ROEDIGER III E ELMES Capítulo I Explicação na Psicologia Científica 23 possuem. Classifique as justificativas em um dos métodos de estabelecimento de crenças discutidos neste capítulo. 2. Compare e contraste os métodos induti- vo e dedutivo para o estudo da ciência. Detalhe suas respostas, referindo-se a, pelo menos, um ramo de ciência sem relação com a psicologia experimental. 3. Discuta as pesquisas sobre inércia social do ponto de vista da falseabilidade da teoria. 4. É necessário (ou mesmo desejável) que os psicólogos experimentais justifiquem suas pesquisas em termos dos benefícios aplicados à sociedade? 5. Leia o seguinte artigo: Skinner, B. F. A case history in scientific method. American Psychologist, n. 11, p. 221-233, 1956. Analise as opiniões de Skinner do ponto de vista dos temas discutidos neste capítulo.