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ECOS QUE VÊM DO SOCIOEDUCATIVO Belo Horizonte Editora Sarerê 2024 ECOS QUE VÊM DO SOCIOEDUCATIVO Walesson Gomes da Silva Organizador Belo Horizonte Editora Sarerê 2024 Copyright 2024 Editoração de texto: Walesson Gomes da Silva Revisão de texto e normatização: Os próprios autores Ilustrações: Maria Cecília Parreiras Moura Capa Leo Yawar Revisão de provas: Walesson Gomes da Silva Formatação e diagramação: Leo Yawar Editor: Walesson Gomes da Silva Organização: Walesson Gomes da Silva Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização do editor ou autores. Criado no Brasil Editora Sarerê www.sarere.com.br contato@sarere.com.br sitesarere.wixsite.com/editorasarere editorasarere@gmail.com 34.099.458/0001-61 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Corpo-oralidades : ecos que vêm do socioeducativo / organizador Walesson Gomes da Silva. -- Belo Horizonte, MG : Sarere Editora e Educação Tecnológica, 2024. Vários autores. Bibliografia. ISBN 978-65-84928-25-1 1. Poesia brasileira I. Silva, Walesson Gomes da. 24-212185 CDD-B869.1 Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia : Literatura brasileira B869.1 Tábata Alves da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9253 Diretos desta edição pertencem ao(as/os) autor(es) e Editora Sarerê. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em bancos de dados ou sistema similar, seja qual for o formato, sem a devida permissão da editora e/ou autor(es). Depósito Legal realizado na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo comas Lei 10.994/2004. Sobre a Editora Sarerê A Editora Sarerê surge em meados de 2019. Na ocasião, percebi que parte das relevantes produções acadêmicas ficava, em razão dos onerosos preços editoriais, restrita apenas ao ambiente acadêmico, distante da maioria da população. Tal fato fazia com que um número expressivo de estudantes e principalmente professoras (es) se desinte- ressasse em publicar seus trabalhos. Com o intuito de estimulá-las (os) a socializar conhecimentos científicos, decidi criar uma editora que publicasse, a baixíssimo custo, livros que abordassem temáticas ligadas ao campo educacional. A pri- meira experiência foi a organização de dois fotolivros, o que me despertou o desejo de ampliar o projeto. Assim, pouco depois, forma- lizei uma editora, sob o nome de Comenius Educação Tecnológica, com o propósito inicial de publicar apenas e-books. Em 2021, um professor e amigo, Cleber Dias, comentou a res- peito do desejo de publicar um livro. Nas conversas sobre o assunto, refletimos criticamente sobre o uso do nome Comenius (1592-1670), referência ao pedagogo do século XVI, nascido onde atualmente é a República Tcheca e falecido na cidade de Amsterdã, Holanda, nação onde passou maior parte de sua vida. À Comenius, atribui-se a inven- ção da didática moderna. Contudo, um ponto passou a me intrigar: como uma editora, que busca valorizar as epistemologias do sul, que toma como referên- cia a perspectiva decoloconial, pode se referenciar em um pensador europeu? Tinha em mente que Comenius, como muitos intelectuais europeus, antes e depois dele, era, certamente, um pensador gigante. Todavia, não haveria entre nós, latinos americanos, também pensado- res gigantes dignos de quaisquer homenagens? Diante desta provocação, seguimos conversando em busca de novos possíveis nomes. Procurei então na cultura popular elementos que nos referenciássemos na definição de um nome que traduzisse a concepção da editora. Pensei na figura do Saci Pererê, moleque negro de uma perna só, brincalhão e travesso, que habita as florestas e é do- tado de poderes mágicos graças à carapuça que usa sobre a cabeça. O nome é de origem tupi, em que um dos significados é “ir aos saltos”, ao mesmo tempo em que a figura encontra paralelos nas entidades pro- tetoras da floresta da cosmologia guarani. Embora tenha sido popularizado por Monteiro Lobato, pensador controverso na questão étnico racial, Saci é um elemento da cultura popular, que (re)existe aos preconceitos de cor e de capacitismo. Como já existia uma outra instituição com o nome Saci, resolvi fazer uma junção do nome Saci Pererê. Surge assim a Editora Sarerê. De pé em pé, como o Saci; de letra em letra, como eu e você; pulando para sobreviver, como a nossa gente simples. Eis a Editora Sarerê! Walesson Gomes da Silva Equipe Conselho Editorial Executivo Gestora Prof.(a). Ana Karina Ladeira Gomes Editor Prof. Dr. Walesson Gomes Silva – UEMG, Brasil Relações Institucionais Victor Arthur L. Gomes Arte Daniel Henrique L. Gomes Conselho Editorial Científico Prof. Dr. Adilson Xavier da Silva - UEMG/Escola Guignard, Brasil Prof. Dr. Alessandro Rodrigo Pedroso Tomasi, UFMG/EEFTO, Brasil Profª. Ma. Ana Karina Ladeira Gomes – IFMG, Brasil Profª. Dra. Ana Paula Pedroso - UEMG, Brasil Prof. Me. Danilo da Silva Ramos, UFMG, Brasil Prof. Dr. Edson Oaigen - Universidad Evangélica del Paraguay, Paraguai Profª. Dra. Eliane Ferreira de Sá – UEMG, Brasil Prof. Dr. Heli Sabino de Oliveira - UFMG/FaE, Brasil Profª. Dra. Luísa Teixeira Andrade Pinho - UEMG, Brasil Prof. Dr. Márcio D'Olne Campos- UNICAMP, Brasil Prof. Dr. Natalino Neves da Silva- UFMG/FaE, Brasil Prof. Dr. Rafael Frois - IFES, Brasil Prof. Dr. Rogério Othon Teixeira Alves - Unimontes, Brasil Prof. Dr. Sergio Grossi, Università di Bologna, Itália Prof. Dr. Walesson Gomes Silva – PUC Minas, Brasil Equipe de apoio / membros do grupo de estudos e pesquisa SULear que colaboraram com esta obra Adirson Teles Beatriz Menezes Madureira Penido Eduardo de Sousa Veloso Laysla Gabrielle Souza Paiva Leonarda Fabiola Oliveira Martins Luana Lousada Batalha dos Santos Maria Clara Campos Dantas Rúbia Campos Ferreira Walesson Gomes da Silva Equipe de apoio do Centro de Reeducação São Jerônimo que colaboraram com esta obra Adrielly Nádia Silva Veiga Cynthia Carla de Jesus Leziane Parré de Souza Martha Florença de Souza Coridola — Sumário — Apresentação ..................................................................................................................................................... 15 No São Jeje .......................................................................................................................................................... 21 F. M. Portela A força da união no sistema socioeducativo: uma poesia de esperança ......... 23 F. M. Portela Adolescência ..................................................................................................................................................... 25 E. Caroline Como vim parar aqui ................................................................................................................................... 26 Milaydy Essa é minha história ................................................................................................................................... 27 Autor Anônimo Tudo tem solução! ........................................................................................................................................ 28 Taís Araújo Coração quebrado ........................................................................................................................................ 29 Elis Regina Meu relato ............................................................................................................................................................ 30 Milaydy Mãe natureza ......................................................................................................................................................APRENDIZADOS DA VIDA Autor anônimo FLOR Cássia Eller IDENTIDADES NA SOCIOEDUCAÇÃO M. C. R. Neves SAÚDE, VIDA, AMOR E MUDANÇA Cássia Eller MINHA BANDEIRA Cássia Eller EU SINTO SUA FALTA, MÃE Maria Bethânia POR QUE O VERMELHO? Autor anônimo MÃE Vanuza ALEGRIA, TRISTEZA, VIDA E BORRACHA Cássia Eller UMA DECLARAÇÃO PARA GEOVANA Autor anônimo UMA MENINA DIFERENTE Luedji Luna SOFRIMENTO DIÁRIO Ludmila SOFRIMENTO EM UMA TARDE DE OUTONO M. C. C. Dantas BLOQUINHOS, RISCOS E O MAR M. C. C. Dantas AINDA ASSIM, SÃO ADOLESCENTES A. Teles SOCIOEDUCATIVO E. S. Veloso APRENDER E LIVRE SER B. M. M. Penido SONHO DE “MILAYDY” Milaydy GRITOS ESCRITOS DE UMA MÃE EM AFLITO Autor anônimo NÃO DESACREDITE DOS SEUS SONHOS Autor anônimo NO FIM, A FELICIDADE ME AGUARDA Rita Lee OCORRIDO INESPERADO Elza Soares MOMENTOS FELIZES Cora Carolina UM SONHO DE UMA FAMÍLIA UNIDA Cecília Meireles DESEJO DE UMA VIDA MELHOR Negra Li UMA BOA NOTÍCIA Elza Soares DOCE VIDA Rita Lee VIDA Cássia Eller AMOR MATERNO Vanuza ALGUÉM ESPECIAL Luedji Luna CASA Cássia Eller SAUDADE DÓI Cássia Eller MINHA AMADA IRMÃ Elza Soares AMIZADE G. V. R. Mares DONA ARANHA Alba FORÇA PARA AS INJUSTIÇAS DA VIDA Tarsila do Amaral DOLOROSA SAUDADE Cássia Eller EU, SENDO… Leziane Parré MONÓLOGO ÊXTIMO Leziane Parré A VIDA PERDIDA Maria Cecília Parreiras Moura PINTAR PESSOAS Maria Cecília Parreiras Moura AUTORES EQUIPE DE APOIO MEMBROS DO GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISA SULear EQUIPE DE APOIO DO CENTRO DE REEDUCAÇÃO SÃO JERÔNIMO QUE COLABORARAM COM ESTA OBRA31 Nise Da Silveira Essa sou eu ......................................................................................................................................................... 32 Maria Bethânia Minha infância ................................................................................................................................................... 33 Tarsila Do Amaral Fé na vida ............................................................................................................................................................. 34 Autor Anônimo Uma Mãe Leoa ................................................................................................................................................. 35 Daiara Tukano História de Janaína ........................................................................................................................................ 36 Marisa Monte Uma nova vida .................................................................................................................................................. 37 Luedji Luna Reviravolta ........................................................................................................................................................... 38 Tarsila Do Amaral É assim que eu me sinto ........................................................................................................................... 39 Rita Lee O amor .................................................................................................................................................................... 40 Cássia Eller Sentimento mais nobre do mundo ................................................................................................... 41 Cássia Eller Respeito É Bom E Todo Mundo Gosta .......................................................................................... 42 Marta Silva Apenas uma adolescente em crescimento .............................................................................. 43 Autor Anônimo Mudança de vida ............................................................................................................................................. 44 Carmen Miranda Essa fase vai passar ...................................................................................................................................... 45 Roni Um pouco sobre mim ................................................................................................................................ 46 Autor Anônimo Em busca de paz ............................................................................................................................................. 47 Cássia Eller Um final feliz ...................................................................................................................................................... 48 Autor Anônimo Aprendizados Da Vida................................................................................................................................ 49 Autor Anônimo Flor ............................................................................................................................................................................. 50 Cássia Eller Identidades na socioeducação ............................................................................................................ 51 M. C. R. Neves Saúde, vida, amor e mudança .............................................................................................................. 52 Cássia Eller Minha bandeira ................................................................................................................................................. 53 Cássia Eller Eu Sinto Sua Falta, Mãe ............................................................................................................................. 54 Maria Bethânia Por que o vermelho? .................................................................................................................................... 55 Autor Anônimo Mãe ............................................................................................................................................................................ 56 Vanuza Alegria, tristeza, vida e borracha ........................................................................................................ 57 Cássia Eller Uma declaração para geovana .......................................................................................................... 58 Autor Anônimo Uma menina diferente ............................................................................................................................... 59 Luedji Luna Sofrimento diário ............................................................................................................................................ 60 Ludmila Sofrimento em uma tarde de outono ............................................................................................. 61 M. C. C. Dantas Bloquinhos, riscos e o mar ...................................................................................................................... 62 M. C. C. Dantas Ainda assim, são adolescentes ........................................................................................................... 63 A. Teles Socioeducativo................................................................................................................................................. 65 E. S. Veloso Aprender e livre ser ...................................................................................................................................... 66 B. M. M. Penido Sonho de “Milaydy” ....................................................................................................................................... 67 Milaydy Gritos escritos de uma mãe em aflito ............................................................................................ 68 Autor Anônimo Não desacredite dos seus sonhos ................................................................................................... 69 Autor Anônimo No fim, a felicidade me aguarda ........................................................................................................ 70 Rita Lee Ocorrido inesperado ..................................................................................................................................... 71 Elza Soares Momentos felizes ........................................................................................................................................... 72 Cora Carolina Um sonho de uma família unida ........................................................................................................ 73 Cecília Meireles Desejo de uma vida melhor ................................................................................................................... 74 Negra Li Uma boa notícia .............................................................................................................................................. 75 Elza Soares Doce vida .............................................................................................................................................................. 76 Rita Lee Vida ............................................................................................................................................................................ 77 Cássia Eller Amor materno ................................................................................................................................................... 78 Vanuza Alguém Especial .............................................................................................................................................79 Luedji Luna Casa ........................................................................................................................................................................... 80 Cássia Eller Saudade dói ......................................................................................................................................................... 81 Cássia Eller Minha amada irmã .......................................................................................................................................... 82 Elza Soares Amizade ..................................................................................................................................................................83 G. V. R. Mares Dona Aranha ...................................................................................................................................................... 84 Alba Força para as injustiças da vida .......................................................................................................... 85 Tarsila Do Amaral Dolorosa saudade ......................................................................................................................................... 86 Cássia Eller Eu, sendo… ............................................................................................................................................................87 Leziane Parré Monólogo êxtimo ........................................................................................................................................... 88 Leziane Parré A vida perdida ................................................................................................................................................... 89 Maria Cecília Parreiras Moura Pintar pessoas .................................................................................................................................................. 90 Maria Cecília Parreiras Moura Autores .................................................................................................................................................................... 92 Equipe de apoio .............................................................................................................................................. 95 Membros do Grupo de Estudos e Pesquisa SULear ......................................................... 95 Equipe de apoio do Centro de Reeducação São Jerônimo que colaboraram com esta obra ................................................................................................................................................... 96 15 APRESENTAÇÃO A obra em questão é o resultado da expansão de dois projetos distintos, um de extensão e outro de pesquisa, ambos conduzidos por membros do Grupo de Estudos e Pesquisas SULear/UEMG/CNPq em colaboração com uma unidade socioeducativa de uma capital brasileira. O primeiro projeto contou com a valiosa participação do Pro- grama Ciência com Partilha, liderado pela Professora Eliane Sá, que generosamente disponibilizou duas bolsas para nossas acadêmicas, por meio do Edital N° Edital PAEx 10/2023, concedendo uma bolsa anual- mente. Este projeto teve início no primeiro semestre de 2022. Por outro lado, o projeto de pesquisa recebeu a concessão de bolsas para as acadêmicas por meio do Edital 11/2022 e foi iniciado no primeiro semestre de 2023, com o objetivo de analisar os impactos, ou a ausên- cia deles, do projeto de extensão. O contexto social das pessoas privadas de liberdade, sejam elas adultas ou adolescentes, frequentemente é caracterizado por condi- ções insalubres e pela carência de assistência de profissionais da saúde, serviços sociais e educação. Conforme indicado por Silva et al. (2021), esses fatores contribuem para a prevalência do estigma na população carcerária e agravam desigualdades e problemas de saúde, levando a sofrimento psicológico e transtornos mentais, como depressão, ansie- dade e estresse. Estudos demonstram que as pessoas em situação de privação de liberdade apresentam taxas significativamente mais altas de transtornos mentais em comparação com a população em geral (Silva et al., 2021; Santos et al., 2020). É fundamental destacar que o fato de estarem privadas de li- berdade não implica na negação de seus direitos ou na redução desses direitos. Pelo contrário, elas têm o direito de receber atendimento de saúde de acordo com as leis e políticas públicas que foram implemen- tadas para esse fim. A Lei de Execução Penal (LEP) e a Política Nacional 16 de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sis- tema Prisional (PNAISP) estabelecem a oferta de cuidados de saúde preventivos, curativos e ações de promoção, proteção e recuperação da saúde para as pessoas privadas de liberdade. Nesse contexto, o objetivo principal do projeto de extensão não era apenas promover a saúde, mas também cuidar dessas pessoas, colaborando com o processo educativo naquela unidade socioeduca- tiva por meio dos princípios da educação social. Entendemos que o cuidado pode ser proporcionado de várias maneiras, por meio de di- ferentes modelos e ações. Esses projetos se propuseram a ser uma iniciativa de pesquisa, extensão e intervenção no Centro Socioeduca- tivo, utilizando estratégias, métodos e experiências educacionais por meio de abordagens participativas, com ênfase em intervenções e mudanças na realidade. Dentro desse escopo, ao chegar ao Centro Socioeducativo, planejamos desenvolver ações que promovessem a saúde física e mental por meio de atividades de lazer, como expressões artísticas, a criação de radionovelas e oficinas de podcasts, culminando na pro- dução de programas de web rádio. A proposta era que as atividades de lazer servissem como uma ponte entre as realidades do dia a dia e a promoção da saúde. Desejávamos que o direito ao lazer, estabelecido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, se transformasse não apenas em um momento de entretenimento, mas também em uma dimensão essencial para o bem-estar humano e na promoção da educação por meio do lazer. O lazer pode ser compreendido como uma experiência cultural que oferece aos participantes, individualmente ou em grupo, um po- deroso meio de atribuir significados e propósitos à vida, que muitas vezes é limitada por normas e regras impostas pela sociedade. Essa atividade não ocorre de forma isolada, pois está sempre influenciada e moldada pelas múltiplas dimensões da identidade do indivíduo e de sua 17 comunidade. O lazer é uma experiência que envolve tensões e relaxa- mentos devido à interação entre as normas convencionais e as práticas transgressivas, tornando-se uma expressão complexa (Silva, 2018). O lazer é um conceito fluido e interdisciplinar que permite que os indivíduos se apropriem de suas vidas e de sua prática, contribuindo para o processo de emancipação e sendo benéfico para a saúde. Ao abordar a saúde, conforme amplamente explorado neste projeto, é essencial compreendê-la para além da mera ausência de do- enças e aflições, ou do pleno bem-estar físico, mental e social, como proposto pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Portanto, busca- mos a perspectiva de Canguilhem para discutir o significado de ter ou não ter saúde, considerando-a como a capacidade dos indivíduos de enfrentar as adversidades do cotidiano (Caponi, 1997). Essa abordagem nos direcionou a criar oportunidades, tanto para as adolescentes quanto para a instituição, a fim de lidar com as diversas situações que eles enfrentavam, levando em consideração suas histórias e os contex- tos individuais e coletivos nos quais estavam inseridos. Finalmente, reconhecendo a importância central do lazer na vida cotidiana e compreendendo seu papel fundamental na promoção da saúde, iniciamosnossas atividades na unidade socioeducativa com oficinas de produção de radionovelas como uma forma de descontra- ção e entretenimento. No entanto, rapidamente percebemos que essa estratégia não estava funcionando devido à constante rotatividade de adolescentes na unidade, o que nos forçava a reajustar o roteiro da radionovela repetidamente, tornando difícil alcançar um final feliz. Como resultado, modificamos nossa estratégia e passamos a criar podcasts, conseguindo ao final de 2022, produzir um total de vinte e dois, dos quais apenas dezenove puderam ser aproveitados devido à qualidade do áudio e intervenções repentinas de Agentes Socioeduca- tivos da unidade. 18 O projeto continuou durante o ano de 2023, graças à manu- tenção da segunda bolsa concedida pelo Programa Ciência com Partilha, por meio do Edital N° Edital PAEx 10/2023, novos podcasts foram produzidos. No entanto, além dos dois projetos mencionados anteriormente, de extensão e de pesquisa, o Grupo de Estudos e Pes- quisas SULear/UEMG/CNPq em consonância com as adolescentes, direção e professores do Centro Socioeducativo, sentiu a necessidade de desenvolver um terceiro projeto, intitulado "As Contribuições do Ensino de Literatura para as Adolescentes de um Centro Socioeduca- tivo em uma Capital Brasileira." Este último projeto teve como objetivo apresentar às adoles- centes, ressaltando que, em determinado momento, o Centro Socioeducativo, por meio da Vara da Infância e Juventude, promoveu a permanência de adolescentes transexuais na unidade socioeducativa, originalmente destinada a meninas. Esta iniciativa representou uma oportunidade para as jovens reconhecerem que "nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou para trás", como diz um provérbio africano/Sankfa. O projeto visou resgatar boas memórias da vida e ex- plorar as potencialidades e possibilidades de construção de uma nova identidade. Como resultado desses esforços, surgiu o livro "Polissemias do Socioeducativo," que agora tenho o prazer de apresentar. Walesson Gomes da Silva Coordenador dos Projetos Líder do Grupo de Estudos e Pesquisa SULear/CNPq Primavera de 2023. 19 Referências CAPONI, S. Georges Canguilhem y el estatuto epistemológico dei concepto de salud. História, Ciências, Sazíde-Manguinhos, 4(2):287- 307, 1996. GOMES, Christianne Luce (Org.). Dicionário crítico do lazer. Belo Hori- zonte: Autêntica, 2004. SANTOS, G. da C., SIMÔA, T. C., BISPO, T. C. F., MARTINS, R. D., SANTOS, D. S. S. dos, & ALMEIDA, A. O. L. C. de. (2020). Covid-19 nas prisões: efeitos da pandemia sobre a saúde mental de mulheres pri- vadas de liberdade. Revista Baiana de Enfermagem. https://doi.org/10.18471/rbe.v34.38235 SILVA, Walesson Gomes. Sentido e significado: a acadêmica como prática de lazer para uma juventude encarcerada. UDZIWI, Revista de Educação da Universidade Pedagógica de Maputo -Moçambique, v. 34, p. 192-207, 2020. SILVA, L. V C., MUNIZ, M P G., Caçador, B. 5, [aram, C. 5., Brito, M. J M. Práticas de cuidado em saúde mental com população privada de liberdade: revisão de escopo. Revista Saúde Coletiva (11) N.69, 2021. https://doi.org/10.18471/rbe.v34.38235 https://doi.org/10.18471/rbe.v34.38235 https://doi.org/10.18471/rbe.v34.38235 21 NO SÃO JEJE F. M. Portela Unidade Socioeducativa, uma esperança mesclada com dor... Lutamos juntos, buscando a esperança e transformação, pela vida e pelo amor... Um espaço de aprendizado e acolhimento, onde cada história busca ser reescrita, unimos forças, construímos elos, na busca de uma vida mais bonita. Alguns olhares cansados e feridos, mas sempre buscando os objetivos. Cada passo dado, há uma chance de recomeçar, superando as adversidades para que os sonhos possam voltar a brilhar. Com aulas, diálogos e oficinas, aprende-se a identidade valorizar, descobre-se novos horizontes, para as oportunidades abraçar. No compasso da transformação, a união se faz crucial, seguimos juntos lado a lado, ressignificando cada valor individual. 22 Esta unidade é um lar Que tem semente em busca de florescer. Num solo fértil de apoio e incentivo, construindo sempre um futuro positivo. Que essa poesia ecoe como um hino, de esperança e superação, pois na unidade Socioeducativa estaremos sempre unidos pela busca da transformação. 23 A FORÇA DA UNIÃO NO SISTEMA SOCIOEDUCATIVO: uma poesia de esperança F. M. Portela Quase sempre, quando estou lá em casa, e nada eu tenho pra fazer, pego logo a minha agenda de poesias eu vou escrever... Primeiro eu oro a Deus, Pedindo a ele inspiração Para que ilumine a minha mente, e que nada seja em vão. Neste dia o senhor me usou Logo eu fui escrevendo, sobre jovens e adolescentes, que no mundo estão se perdendo. Alguns abandonados pelos pais, sem nenhuma estrutura familiar. Outros quiseram uma ilusão vivenciar, alguns nem pais tiveram para ensinar... Colhendo aquilo que plantou, por causa de alguma atitude errada, todos merecem uma segunda chance e a oportunidade que um dia foi negada! Uns precisam de amor, outros precisam ser compreendidos, 24 aí entra a nossa parte, no sistema Socioeducativo. Oportunidades de emprego, oportunidades de estudar, oportunidades de fazer cursos, e da vida melhorar. Cada um fazendo a sua parte, com amor e dedicação, mostrando a eles que não estão sozinhos, e que a força está na união. Não importa a sua função no sistema Socioeducativo, todos nós somos importantes se trabalharmos todos unidos. Termino agora essa poesia, mas deixo para todos vocês este ditado: Que mais vale as lágrimas de não ter vencido, que a vergonha de não ter lutado. 25 ADOLESCÊNCIA E. Caroline Na flor da vida, a adolescência floresce, Um turbilhão de emoções que se aquece, Sonhos e desafios se entrelaçam, E na jornada da descoberta, se abraçam. Entre risos e lágrimas, o coração pulsa, Incertezas e inseguranças, a mente tumultua, Mas é nesse caminho de transformação, Que encontramos nossa própria definição. Os dias são intensos, cheios de cores, De pequenas vitórias e grandes dores, A busca por identidade e liberdade, A mágica da adolescência, em sua verdade. Através das experiências e aprendizados, Crescemos, amadurecemos, nos tornamos ousados, A adolescência, tão efêmera e fugaz, Deixa marcas na alma, que nunca se desfaz. Sejamos livres para viver cada momento, Na poesia da adolescência, com sentimento, E que essa fase tão única e singular, Seja celebrada, sempre a reluzir e encantar. 26 COMO VIM PARAR AQUI Milaydy Nasci em uma tribo chamada Luzia. Vivíamos todos em família: pais, avó, avô, primo, tio e tia. Comíamos bichos, tipo carneiro, veado e cobra. Quando eu tinha cinco anos, me mudei para a cidade. Conheci a droga com doze anos e conheci um namorado. Foi bom, até me afundar no “crack”. Cometi meu primeiro ato infracional, artigo 121 do Código Penal. Cumpro medida no Socioeducativo São Jerônimo. 27 ESSA É MINHA HISTÓRIA Autor anônimo No dia 23 de agosto fui apreendida. Nunca escutei a minha família. Agora paro e penso: por que não ouvi?! É na escuridão que encontramos o brilho e a luz. Agora sinto falta da minha pequena, minha irmã. Falar: “só não te dou uma flor porque tem, Laís, espinho, mas te dou o meu coração com todo amor e carinho”. Amor é só de mãe, eu aprendi com o tempo. Sonhar, nunca desistir, ter fé nos passos, pois fácil não é, nem vai ser. Saudades da minha família. Quero ir embora. Ter minha vida, ter minhas coisas, comprar tudo que eu sonho. É isso. 28 TUDO TEM SOLUÇÃO! Taís Araújo A menina partiu meu coração.Existem coisas que a gente fala e que nem de joelhos têm perdão. Ela falou várias fitas que partiu meu coração. Na mesma hora pensei que não tinha solução. Aí fui vendo que amor é só ilusão. Até eu encontrar a menina que roubou meu coração, Aí sim percebi que o amor tem solução. Conheci a Layane que foi construindo meu coração. Com ela eu aprendi que o amor não é ilusão. Amor é cuidar, ter carinho e compaixão, nada de ilusão. Eu só não te dou uma flor porque tem espinhos, Mas te dou meu coração com todo amor e carinho. 29 CORAÇÃO QUEBRADO Elis Regina Eu sou Elis Regina, é ruim falar uma solução. Você quebrou meu coração, mas eu gosto de você ainda. Várias fitas estão rolando e eu não sei nem falar, só sei que fui parar no isolado por causa de você, meu “amor”. Eu só não te dou o mundo porque meu mundo é você, se eu te der o mundo, como é que eu vou viver? Ficar sem viver?! Fico sem viver não, amor, Porque eu tenho família e porque amor é só de mãe. Fui parar no isolado. 30 MEU RELATO Milaydy Sou eu a Milaydy, a menina que sonha alto independente do conflito. Tenho que relatar minha vida com um papel e um lápis. Tudo que pedi para Deus, ele realizou. Menos eu vir para o sócio. Aprendi a lidar com a dor aqui, onde o filho chora e a mãe não vê. Sou usuária de drogas, crack, loló (lança-perfume), bala (ecstasy), skunk (skank) mas, profetizei nunca mais usar essas coisas e me afastar de gente que me leva para o buraco. Amo os meus monitores, não cuspo na cara dos agentes e, assim, minha medida está chegando ao fim. Você tem que ter respeito e bondade. Hoje, 05/06/23 fui no socioeducativo. Oro e vi muitas coisas lá, agente bonito, acredita que um parecia meu pai?! Oro pela vida da minha amiga Vitória que está internada com infecção nos rins. 31 MÃE NATUREZA Nise da Silveira Ah! Mãe natureza, És tão bela, charmosa Cuidastes dos nossos rios, Florestas, mares, de tudo! Pássaros cantarolando, Voando para lá e para cá No céu azulzinho… liberdade! 32 ESSA SOU EU Maria Bethânia Eu sou uma menina que tem ansiedade e depressão. Gosto bastante de ler, fumar um cigarro e de comer (miojo e coca, pequi e sua, dobradinha com batata). Tenho um namorado e ele é lindo, Minha mãe também é tão linda e eu gosto muito dela. Gosto de cuidar da minha família. Ah, estou louca para ir embora e espero que eu vá. Eu amo a minha mãe e estou morrendo de saudades dela, Queria voltar para minha casa. Essa é a minha vida. 33 MINHA INFÂNCIA Tarsila do Amaral Me chamo Tarsila do Amaral, gosto muito de música e dança. Uma vez, uma menina que viveu muitas coisas na infância, acordou em um belo dia e foi para a escola. A mãe dela tinha brigado com o marido, saiu de casa para ir buscar a filha na escola, Até que quando voltaram, o marido dela tinha colocado fogo na casa. A mãe da menina se mudou com seus irmãos para uma cidade melhor, onde eles encontraram paz e felicidade. 34 FÉ NA VIDA Autor anônimo Já passei por muita coisa na vida, mas sempre fui uma mulher guerreira. Até ser presa aqui. Para mim é o inferno, odeio aqui, não tenho alegria ou algo assim, tudo é terrível por aqui. Minha audiência é terça-feira. Quero muito ir embora, em nome do Senhor Jesus, tudo na minha vida é fé. 35 UMA MÃE LEOA Daiara Tukano Me chamo Daiara Tukano, tenho 14 anos e sou de Ribeirão das Neves. Tenho um filho chamado Rian Lucas de 3 meses que mora no abrigo no centro de Neves, Seu pai se chama Guilherme e tem 25 anos. Fugi de casa aos 10 anos e morei em BH. Uma mulher desconhecida me abrigou em sua casa, mas eu saí e voltei para a rua, onde conheci o pai do meu filho. O motivo de eu estar aqui é porque quebrei o abrigo por não deixarem ver o meu filho. Sonho em poder estudar e trabalhar para cuidar dele. 36 HISTÓRIA DE JANAÍNA Marisa Monte Certo dia, eu estava com duas amigas e fomos fazer um assalto. Depois do assalto, nós nos encontramos com um cara e fomos para a casa dele tomar cerveja e comer churrasco. A noite foi passando e o dia amanheceu, O cara foi trabalhar e disse que depois marcaria outro churrasco. Nos despedimos e ele foi. Então, eu e meus amigos pulamos na casa dele, achamos R$1.300,00 e perfumes importados que ele tinha nos mos- trado na noite anterior e dividimos o dinheiro e os perfumes. Alguns dias se passaram e encontrei o cara no bar, eu estava bebendo quando ele chegou por trás dando várias facadas, acendi um cigarro e ele continuava com as facadas. Então, corri para a casa do velho dos fundos que pegou uma foice e disse que se o cara entrasse iria matá-lo. O cara fugiu e disse que voltaria com uma arma. 37 UMA NOVA VIDA Luedji Luna Eu me chamo Luedji Luna, tenho 13 anos e estou internada no socioe- ducativo por homicídio. Sinto-me muito triste por estar longe da minha família. Arrependo-me muito, mas pretendo pagar o meu ato e após sair vou estudar, iniciar um curso e começar uma nova vida. Recompensar o que deixei para trás e ficar perto da minha família. Está sendo muito difícil lidar com tudo isso, mas pretendo ser forte para vencer e me tornar uma pessoa melhor para dar orgulho a minha família e poder cuidar dos meus irmãos. 38 REVIRAVOLTA Tarsila do Amaral Era uma vez uma menina de 17 anos cuja vida era bem difícil. Um dia, ela conheceu um rapaz que, pensou ela, faria-lhe bem. Infelizmente, ele a queria apenas para fazer mais burrada, porque ele já era um vilão e ninguém dele gostava. Ela não sabia até que ele a fez fazer burradas e os dois foram presos. A família dela ficou toda contra ela, mas ela não desistiu, cumpriu a pena, fez faculdade de Direito, teve filhos e hoje compreendeu que ele nunca fez bem para ela. 39 É ASSIM QUE EU ME SINTO Rita Lee Eu sou um fracasso em tudo o que faço, parece errado, não sei lidar com a pressão psicológica tendo que ser perfeita toda hora. Por eu ser a mais velha, querem que eu seja um exemplo, mas como posso ser um exemplo vendo tudo o que está acontecendo? Ansiedade toda hora, depressão me corrói por dentro, já não sei o que é emoção, pois perdi as minhas há tempos. 40 O AMOR Cássia Eller O amor é como uma flor Que desabrochou Precisa ser cuidado E muito bem tratado. O amor é como a água Se derramar, desperdiçou Se secou, acabou. 41 SENTIMENTO MAIS NOBRE DO MUNDO Cássia Eller “Todo mundo ama um dia Todo mundo chora Um dia a gente chega E no outro vai embora.” Amor, um dos sentimentos mais nobres deste mundo, Porque amar envolve vários outros dons. O ruim desse sentimento é que um dia ele chega na nossa vida E em algum tempo ele pode ir embora. Mesmo que a gente talvez nunca esqueça, Pois quem ama de verdade nunca esquece. Eu basicamente acho o amor tremendamente lindo. 42 RESPEITO É BOM E TODO MUNDO GOSTA Marta Silva Com minhas palavras e palavrinhas faço esse poema, poeminha. Que fala sobre limite Todos temos limites, né? Qual é o seu, coleguinha? Além de limites, vêm falar de espaço, Cada um no seu quadrado. Aaaa, e também não é só de espaço… também do corpo que deve ser respeitado! E então, é sobre palavras, espaço, corpo, limite e respeito, Porque ninguém gosta de ser desrespeitado, concordam? Meus amados! 43 APENAS UMA ADOLESCENTE EM CRESCIMENTO Autor anônimo Minha história não é nem um pouco cheia de emoções, pois sou apenas uma adolescente em crescimento ainda. Já vivimuitas coisas, conheci muitos lugares, tudo isso graças ao crime que entrei juntamente com meu irmão. Aprendi várias coisas e hoje tenho a cabeça que tenho devido às expe- riências pelas quais passei. Sou muito fechada e guardo tudo para mim. Tenho um defeito: eu me estresso muito fácil, mas aqui sou tranquila, pois ninguém mexe comigo. Meu verdadeiro sonho era ter minha própria biqueira, mas em segundo plano claro, mas tenho vontade de cursar direito ou algo relacionado. 44 MUDANÇA DE VIDA Carmen Miranda Eu, Carmen Miranda, passei por uma fase muito difícil de morte quando eu perdi a minha mãe. Eu era pequena, sofri muito. Estou no abrigo agora. Meu sonho é ser mãe, ter minha família, não deixar meu filho passar por isso que eu passei, dar educação para ele. Pretendo parar de aprontar, ter minha casa, trabalhar muito, Dar para o meu filho o que eu não pude ter e ter juízo primeiramente. 45 ESSA FASE VAI PASSAR Roni Oi, eu sou a Roni. Que jeito mais besta de começar um texto, né? Mas enfim, estou aqui para falar um pouco de mim, que ao meu ver, não tenho muito o que falar. Sou uma pessoa séria, mas amigável, estressada, mas calma ao mesmo tempo. Sou um tipo de pessoa que esquece de mim para ajudar aos outros, mas se eu perceber que a pessoa fez algo que eu não goste, eu crio um blo- queio que não me permite mais sequer conversar com ela. Enfim, eu sofro muito com surtos de raiva e eu gostaria muito de aprender a controlá-los, porque afinal, é por causa deles que vim parar no São Jerônimo. Tenho fé que vou conseguir e, daqui a um tempo, isso não vai passar de uma fase e uma vida nova: Roni já vai ter nascido. 46 UM POUCO SOBRE MIM Autor anônimo A minha história não é muito difícil de escrever. Sou uma pessoa que enfrenta dificuldades na vida em busca de sabe- doria, carinho, mas eu desisto logo de cara. Sou uma pessoa que mente quem é, Eu tento ser aquela pessoa que todo mundo espera que eu seja. Eu tinha o sonho de ser uma policial, mas desisti porque eu não quero trabalhar com corruptos. Eu tinha o sonho de ser advogada, mas também desisti porque eu sei que não vai dar certo. E eu também queria me alistar no exército, mas não vai dar certo também, e é isso né! 47 EM BUSCA DE PAZ Cássia Eller Hoje acordei pensando na vida, em como ela mudou para mim. Entrei para a vida louca, vim parar aqui no Socioeducativo e acabei entendendo o motivo dessa injustiça que acabou tirando minha liberdade. Até que olhando por outro lado foi bom pois, quando eu puder sair daqui, quero acabar com a guerra dentro de mim em relação ao meu padrasto. Quero cuidar da minha mãezinha e várias outras coisas, e não quero beber do jeito que eu bebia mais. Assim, quero viver em paz. 48 UM FINAL FELIZ Autor anônimo Era uma vez, uma menina de 14 anos que não tinha uma mãe, só tinha o pai, mas o pai não era amigo dela, não a tratava bem. Então, ela fugiu de casa e ficou morando em casas onde ela mal conhe- cia as outras pessoas e, com isso, ela sofria muito. Assim, ela foi morar em um orfanato onde havia várias pessoas que a acolheram. Tentavam de tudo para ela se dar bem na vida, mas ela não ligava nem dava importância para os conselhos. Então, um dia, ela desobedeceu e foi parar em um lugar muito longe. Longe da família, dos amigos e de tudo. Daí ela teve que repensar sobre tudo o que aconteceu na sua vida. Por isso, ela vivia angustiada. Passou um tempo e ela foi morar com a tia que ela tanto amava e que a apoiava em tudo. E elas viveram muito felizes dali para frente… 49 APRENDIZADOS DA VIDA Autor anônimo Eu era uma pessoa que usava drogas, tipo o crack. Daí eu vim aqui, para o Socioeducativo por três meses e aprendi que nem tudo eram as drogas. Fui para a rua, RDAD (Regime Diferenciado de Acompanhamento a Dis- tância), fiquei 23 dias fora, porque eu não cumpri o meu RDAD, mas foi muito bom. Eu me diverti demais. Eu vi meu namorado, a minha mãe e foi muito bom, porque eu não usei mais drogas. 50 FLOR Cássia Eller Com a companhia de seu beija-flor, Ela expande o amor. Essa é a nossa pequena flor. 51 IDENTIDADES NA SOCIOEDUCAÇÃO M. C. R. Neves Juventudes, descobertas, amor e libido. Grades, privação, dúvidas e conflitos. Conflitos de ideias, de ideais. O que é real? Será que funciona? Socieducação em mudança, criticidade em ação Por uma diversidade acolhida, por uma juventude liberta Liberta de tudo o que a aprisiona e limita Tanto no amor, quanto na vida. 52 SAÚDE, VIDA, AMOR E MUDANÇA Cássia Eller Saúde, cuide da sua saúde, não seja rude. Viver, Viver é crer Crer em um ser E nunca se esquecer De não se enlouquecer. Amor, O amor é supremo Só precisamos ter E simplesmente ter. Mudar, Mudar é se cuidar Mudar é se autoconhecer Mudar é se divertir E muita das vezes se despedir. 53 MINHA BANDEIRA Cássia Eller Hoje estou triste Estou tristezinha Porque não aceitam Minha bandeirinha que me deixa alegrinha Ser LGBT é quente Ser LGBT é ardente É ser prudente E então se cuide Não seja rude Se ame Acorde Vá brilhar Não vá se calar. 54 EU SINTO SUA FALTA, MÃE Maria Bethânia Eu estou passando por um momento muito triste Eu estou sentindo falta da minha mãe Vou falar uma coisa para a minha mãe: Mãe, eu sinto muita falta sua. Quero ser chique, Quero cuidar de você E nunca mais trazer desgosto para você. Te amo muito minha baixinha. 55 POR QUE O VERMELHO? Autor anônimo O vermelho sempre esteve lá. Onde estivesse, a cor vermelha sempre me acompanhava. Comecei a notar os tons diferentes que eu via. Quando estava com raiva, o vermelho ficava mais intenso. Quando estava triste, ele ficava carmim e Quando eu ficava feliz, ele ficava claro. Então decidi fazer uma loucura, que foi pintar meu cabelo da cor que sempre me acompanhou. Essa cor está marcada na minha história. 56 MÃE Vanuza Mãe, saudade de você, logo logo vou te encontrar. Saudade dói demais. Estou aqui acautelada, mas se eu tivesse te escutado, eu não estaria aqui. Estava com você. Te amo muito, queria estar com você agora. Beijos, E. Vanuza. 57 ALEGRIA, TRISTEZA, VIDA E BORRACHA Cássia Eller Alegria, A alegria é a felicidade Não importa a idade A alegria brota A alegria se corta. Tristeza, A tristeza dói Corrói Não gosto da tristeza viva Mas, às vezes, deixo ela viver Mas ela vai morrer. Vida, A vida continua Pode ser nua Talvez seja suja Como a rua E pura E dura Borracha, A borracha apaga A borracha paga A borracha agrada A borracha é doada 58 UMA DECLARAÇÃO PARA GEOVANA Autor anônimo Geovana, Seus cabelos, cabelos ao vento que transpirou como o amor. Sua bela cor me fascina.. como você me ensina. 59 UMA MENINA DIFERENTE Luedji Luna Nesse tempo que estou aqui no Socioeducativo, estou tendo muito aprendizado, aprendendo muita coisa. Quero sair daqui uma menina diferente, com a mente mudada, estudar e ser alguém na vida. Quero que esse sofrimento sirva de aprendizado e quero dar valor a minha liberdade. 60 SOFRIMENTO DIÁRIO Ludmila Aqui dentro do Socioeducativo não é nada bom. Várias regras, várias pessoas te monitorando… Aqui se sente um cachorro sem dono. Dentro de uma cela de 3 metros quadrados, só podemos fazer o que eles mandam. Nem um cachorro merece ficar preso em uma coleira, quem diria um ser humanoatrás de uma grade. Todos os dias são de sofrimento, cada dia que passa a saudade dos familiares aumenta. Já tentei me matar várias vezes aqui dentro para acabar com o sofri- mento. Peguei com Deus e ele me mostrou que a vida não é só isso. 61 SOFRIMENTO EM UMA TARDE DE OUTONO M. C. C. Dantas Naquela tarde de outono, fazia uma "quentura de só", encontrava-me exausta, com os olhos baixos, os ombros curvados e a mente doente, relatei o que passou. Sofri e sofro todos os dias por ter perdido minha liberdade. Sinto-me presa, enclausurada, silenciada. Ah, como sofro por me sentir só, mas tão só que o vazio se engrandece. Lamento, me culpo, me reprimo e por isso, eu sofro. Ah como lamento, ver-me en- clausurada, sendo perseguida por olhos famintos, que esperam que eu falhe, para me punir, como se eu já não me punisse o suficiente. Meus sonhos estão em frangalhos, em meio ao estrépito de impérios, que retumbam dentro de mim, e sim, me vejo perdida, presa por essas grades, que me privam de minha tão sonhada liberdade. Ah, como sofro por não permitirem em meio a tudo isso, o meu bater das asas. Em vez disso, elas estão encolhidas, feridas, atrofiadas Naquela tarde de outono, sofri por lembrar de meu sofrimento. A sau- dade me invade como um mar tempestuoso, nesse momento tão tortuoso, trazendo-me lembranças saudosas, de um tempo que não quero esquecer, ah... viver. Como seria viver? Se minha mente não me permite, impondo-me um limite. Ah... como desejo o bater das asas... imensamente, desesperadamente. Entretanto, agora, só posso me encolher, acreditar e tentar viver. 62 BLOQUINHOS, RISCOS E O MAR M. C. C. Dantas Uma saúde mental esgotada por tantos anos de sofrimento. Lamento, mas não lamento. Se lamentasse sofreria mais, mais do que já sofro, por lamentar o ocor- rido sofrido. Choro, “ôh” se choro, sinto-me perdida, enganada, traída, louca, lamentável, sozinha, destruída. Sinto-me como bloquinhos sendo empilhados para depois serem jogados ao chão por alguém que controla a minha vida e esse alguém sou eu, mas às vezes não. Sinto-me como o mar de ressaca, as ondas da minha angústia batem violentamente contra a enseada do meu peito. A morte, os riscos, a juventude me atormentam, me lamentam, me tornam algo que eu não gostaria de ser.... Eu. Como protagonizar uma história que eu não escrevi? Como protagonizar uma vida que ao menos vivi? Como transformar, sem tentar revolucionar? Nunca me encaixei, mas como me encaixar em uma educação que só visava reproduzir? Então não vivi. O conflito da ressaca, a queda dos bloquinhos, a morte, a vida, eu. Na verdade gostaria de viver, mas viver de verdade, não pelo os outros, mas por mim. 63 AINDA ASSIM, SÃO ADOLESCENTES A. Teles Passar pela rua desperta curiosidade e apreensão. O que acontece lá dentro? Como é o viver ao transpor os portões de aço, protegidos por trancas, cadeados e chaves? As indagações surgem e se atropelam, porém, ao passar pelo portão, ali mesmo na guarita, se tem uma leve noção do que encontramos no in- terior daquele estabelecimento. Os corredores conduzem a um labirinto com muitas portas, encruzilhadas e caminhos que tornam pos- sível se perder por aquele proposital emaranhado de possibilidades que não levam a nenhuma rota de fuga. Quanto mais entra, mais se perde! O caminhar insistente leva ao pátio, que também se abre para diferen- tes percursos e possibilidades. As meninas são recolhidas e acolhidas por algum ato infracional. Alguma atitude que não condiz com a regras estabelecidas pela sociedade ou o descumprimento do que é conside- rado normal leva à restrição da liberdade. Os gritos se traduzem na ansiedade por se ver livre, clamando pela liberdade. Liberdade para ser livre e ser livre para fazer o que bem deseja, o que der na telha. Contudo, fazer o que dá na telha nem sempre é compreendido como correto e muito menos aceitável. E na impossi- bilidade de se conviver com o diferente, com o transgressor, opta-se por isolar, retirar do convívio em sociedade daquelas pessoas que não aceitam as regras consideradas normais. São ainda adolescentes e ao mesmo tempo vítimas de uma construção social que impele e repele, que estimula e reprime, que dá as condições de revolta e pune. Como entender a sociedade? Como compreender 64 um sistema que incentiva a falta, a restrição, que suprime direitos e ao mesmo tempo isola, pune e priva a liberdade de quem grita por ser percebido, enxergado, visto como alguém e não como algo? O normal é aceitar? O aceitável é resignar? O adequado é abaixar a ca- beça, recolher em si e abrir mão da necessidade de ser visto e percebido como sujeito social e sociável? O educativo é fazer aceitar as regras, as rédeas, as condições, e se calar? Sim, são adolescentes. Uma vida longa pela frente! Mas, que vida? Uma existência marginalizada, violentada, infância roubada, juventude pri- vada, liberdade amputada! Sem dúvida, continuam adolescentes, e adolescentes que buscam no grito e na violência o direito de se expres- sar, a necessidade de serem vistas, a mínima possibilidade de serem consideradas participantes da sociedade e com os mesmos direitos de viver juntos aos demais. A diferença forma a sociedade e torna a sociedade diversa e diversifi- cada. São tão somente adolescentes desde sempre lhes foi negado o direito à família, à dignidade, às possibilidades. E lhes foi oferecida a violência, a agressividade, a restrição, a punição, a limitação e a corre- ção de atos cometidos, talvez sem a mínima consciência de se estar transgredindo alguma lei. Como exigir dos adolescentes a plena interpretação das leis se nem sempre os próprios envolvidos com as questões jurídicas conseguem interpretar os textos que eles mesmos escreveram? Mas elas são ape- nas adolescentes e como adolescentes viverão o que lhes resta a viver numa sociedade injusta, desigual e que somente a ela interessa os dis- sabores sofridos por quem sempre foi e será invisível. 65 SOCIOEDUCATIVO E. S. Veloso No sistema Socioeducativo, lutas invisíveis se revelam, É lá que jovens inocentes por suas histórias se rebelam, passaram por dificuldades, enfrentaram o vendaval, E, por vezes, cometeram crimes, num mundo desigual. No olhar dessas adolescentes, brilha a lembrança, mas a sociedade muitas vezes não lhes dá a esperança, No labirinto das dificuldades, sem escolha num mundo veloz, enfrentam desafios, traumas, sem muita opção, sem voz. A vida as empurrou para um caminho de problema, onde a sobrevivência se tornou o único dilema. Em busca de amor, de carinho e de acolhimento, cometeram erros, mas enfrentam o julgamento. Mas não esqueçamos que em seus corações há pureza e em suas peles delicadeza, são jovens que merecem uma segunda chance, com certeza. No sistema Socioeducativo, a esperança deve florescer, Oportunidades devem ser oferecidas para que as jovens possam renascer. É nossa responsabilidade, como sociedade, entender, que a compreensão e a empatia podem nos fazer crescer. Dar-lhes suporte, educação, amor e proteção para que possam construir um futuro de redenção. Nesse sistema, as lutas persistem, mas a mudança é possível, compreensão e compaixão tornam o caminho mais visível. Que essas adolescentes encontrem uma nova esperança, e deixam para trás o passado sem luz e de vingança. 66 APRENDER E LIVRE SER B. M. M. Penido Nos corredores do saber, a liberdade ressoa, Desperta a vontade de sonhar no sistema que se cria, Um mundo de possibilidades que em cada mente ecoa, E as barreiras se desfazem como a luz que irradia. Liberdade é o fio que tece o aprendizado fecundo, É a chama que incendeia a paixão pelo saber, É o despertarda vontade e o mudar o próprio mundo, Que nos leva a explorar, a compreender, a crescer. Nos livros da imaginação, o conhecimento se expande, Construindo pontes entre o que é e o que pode ser. Onde cada passo é um vislumbre, cada avanço se aquece. E o entendimento do mundo começa a florescer. Em um universo de possibilidades e transformação, O socioeducativo se faz ponte e guarida, Para que cada alma em plena emancipação, Construa sua jornada, sua voz, sua vida. Nessa troca de experiências e descobertas, cada página se preenche, Com a tinta da esperança e da curiosidade, E no sistema socioeducativo, enriquece; A jornada de cada ser em busca da sua identidade. Que cada mente, como pássaro em voo, Encontre no saber asas para se libertar, E que a educação, como um raio de sol no escuro, Ilumine caminhos e horizontes a desbravar. 67 SONHO DE “MILAYDY” Milaydy Meu sonho é cumprir a medida no Socioeducativo e concluir com sucesso! Sair daqui e ser internada em uma clínica de reabilitação porque minha carne é fraca. Se eu não ficar internada, vou cair no mundo das drogas de novo. Vou cuidar de mim primeiro, depois estudar e ter uma ONG. 68 GRITOS ESCRITOS DE UMA MÃE EM AFLITO Autor anônimo Saudade de você, meu filho Logo logo vou te encontrar para ficarmos juntos para sempre Fiz o seu nome em mim para nunca te esquecer Te amo, beijos Enzo. 69 NÃO DESACREDITE DOS SEUS SONHOS Autor anônimo Era uma vez uma menina que gostava muito de brincar no campo. Ela sorria para todo lado, mas um dia… ela foi parar em um lugar muito triste Mas ela nunca desacreditou dos seus sonhos. 70 NO FIM, A FELICIDADE ME AGUARDA Rita Lee Eu penso que meu futuro é duvidoso, cheio de pedras, armadilhas e buracos me aguardando. Contudo, no entorno disso, penso que, por tudo que passei, no final eu conseguirei a minha felicidade de novo. 71 OCORRIDO INESPERADO Elza Soares Era uma vez uma menina que gostava de sair todos os dias. Um belo dia, ela sofreu um acidente. Sua mãe ficou muito preocupada, mas conseguiu se recuperar, porque ela muito queria. 72 MOMENTOS FELIZES Cora Carolina Um momento feliz foi ter a minha irmã na minha vida. Esse momento sempre foi e sempre vai ser o melhor. Outro momento feliz foi quando a minha tia disse que não vai desistir de mim e vai lutar por mim até o fim! 73 UM SONHO DE UMA FAMÍLIA UNIDA Cecília Meireles Meu sonho é morar com minha mãe e irmãos. Eu quero passar meus 15 anos com toda a minha família. 74 DESEJO DE UMA VIDA MELHOR Negra Li O meu sonho é melhorar a minha vida, ser melhor. Queria ter minha vida melhor do que essa que estou vivendo, porque essa vida que estou, não é para mim não. 75 UMA BOA NOTÍCIA Elza Soares Uma menina inocente e muito alegre, muito estudou e não roubava mais. Sua mãe chegou um dia e ela recebeu uma notícia muito boa. 76 DOCE VIDA Rita Lee O lado doce da vida está nos olhos de quem vê. 77 VIDA Cássia Eller A vida é para ser vivida. Muitas das vezes sofrida Mas não morrida. 78 AMOR MATERNO Vanuza Ao meu filho Te amo Muita saudade Quando eu sair, quero te encontrar Amado Enzo. 79 ALGUÉM ESPECIAL Luedji Luna Eu gosto muito da Rafaela, Ela está me fazendo muito bem nesse momento difícil, porque ela sempre fica ao meu lado me ajudando. 80 CASA Cássia Eller Minha amada casa É sim minha morada É muito decorada E amada. 81 SAUDADE DÓI Cássia Eller De vez em quando bate Dói mais que merthiolate Ou arde. 82 MINHA AMADA IRMÃ Elza Soares Era uma vez, uma menina que gostava muito da sua irmã Eva. Gostava muito dela. 83 AMIZADE G. V. R. Mares Amizade de papel, rasga. Amizade de vidro, quebra. Amizade como a sua, não existe. 84 DONA ARANHA Alba A Dona Aranha subiu pela parede Veio a chuva forte e a derrubou. A chuva foi-se embora, e o sol já vem surgindo E a Dona Aranha continua a subir. 85 FORÇA PARA AS INJUSTIÇAS DA VIDA Tarsila do Amaral A vida, às vezes, é injusta com a gente, Mas a gente é forte para cada obstáculo da vida Às vezes, tudo está bem difícil, mas tudo na vida é aprendizado. 86 DOLOROSA SAUDADE Cássia Eller Bate, arde mais que merthiolate Dói de coração, feito indignação. 87 EU, SENDO… Leziane Parré Sou muito, sou pouco. Rasa. Transbordante. Sou o que falo, faço e omito. Me calo. Sou o que sou. Desse jeito, sem jeito. Num jeitoso desajeito. Gosto mesmo é de Ser. 88 MONÓLOGO ÊXTIMO Leziane Parré Sou da liberdade. O que faço aqui? Trabalho para que esse lugar não mais precise existir. Incoerência? Talvez a minha incoerência mais legítima! Aqui escolhi estar, ocupar. Penso que é isso que dá sentido ao meu “fazer” diário, Sonhar e fazer os outros sonharem, Se inspirar e inspirar, Idealizar projetos e fazer acontecer, Descobrir formas de manter pulsante os desejos, a vida. Por enquanto, aqui, tento manter a vivacidade e a alegria que faz pulsar os corações sonhadores, agita os corpos resilientes e desejantes. Diariamente, sou presenteada com sorrisos insistentemente lindos que alimentam a construção do saber ser. Sei que, aos poucos, contaremos outra história. E seremos história. 89 A VIDA PERDIDA Maria Cecília Parreiras Moura quando começa a vida de verdade? acho que desaprendi a viver comecei a sobreviver comecei a morrer antes, parecia ser vida os problemas até vinham, mas eu era pequena demais pra segurá-los então eles acabavam indo embora fui ficando forte com os anos... meu maior fardo até então aprendi a segurar os problemas, aprendi a segurar o que quero meu querer me abala seguro tão forte que me machuco com os pedaços do que quebrei por segurar tão forte aprender a deixar ir o que nos machuca acho que essa é a vida de verdade quando foi que deixei de saber como viver? 90 PINTAR PESSOAS Maria Cecília Parreiras Moura foi esse o desafio no proposto por minha professora de pintura antes de entrarmos no socioeducativo;1 mas o que são pessoas? o que exatamente deveria pintar? se fosse apenas sua forma, seria mais fácil; logo, me vi frente a frente com almas, histórias, sentimentos e faltas, foi mais familiar do que pensei; foi como é, como sou, como sou eu e você; tentei olhar o mais íntimo do ser, mas o ser não é visível, não posso pintá-lo, não posso tocá-lo; vejo que essa é também uma das tentativas do socioeducativo, tocá-lo, a fim de abraçá-lo; com perguntas, vou cavando respostas assim a pintura fica mais fácil, "quem é você?" 1 No dia 07 de dezembro de 2023, junto a minha classe de pintura da Escola Guig- nard - UEMG, lecionada pela professora Thereza Portes, fui ao Socioeducativo realizar uma Atividade de Extensão - AEX. Pintamos as meninas do socioeducativo utilizando um cabo extensor (pincel colado na ponta de um cabo de vassoura) em rolos e folhas de papel kraft, em tamanho real. 92 AUTORES Alba A. V. S. Conceição (Marta Silva) Adirson Teles Graduado em Pedagogia pela UEMG, especialização em Gestão Ambiental pelo SENAC e mestrando em Educação pela Facul- dade de Educação da UFMG, na linha de Educação de Jovens e Adultos. Beatriz Menezes Madureira Penido Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. C. V. M. Sales (Negra Li) C. A. Silva (Cora Carolina)C. L. S. Silva (Cássia Eller) Cleiton Magno socioeducador D. V. P. Santos (Taís Araújo) Eduardo de Sousa Veloso Graduando em Pedagogia pela UEMG, Mestrando em Educação Tecnológica pelo CEFET-MG, Graduado em Licenciatura em Matemática pela FAPE2, Especialista em Matemática, Suas Tec- nologias e o Mundo do Trabalho pela UFPI, Especialista em 93 Metodologia do Ensino de Matemática pela FAEL e Professor de Matemática da rede estadual de MG. E. B. B. Soares (Vanusa) Erika Caroline Socioeducadora Fabiana Martins Portela Coordenadora de segurança F. S. Cordeiro (Elza Soares) G. V. R. Mares (Rita Lee) H. V. M. Lima (Daiara Tukano) I . A. R. Gonçalves (Nise da Silveira) I .S.R (Elis Regina) I . C. Corrêa (Luedji Luna) J. S. S. Eugênio (Maria Bethânia) J. M. Alves (Marisa Monte) J. S. Leal (Milaydy) L A. Rodrigues (Carmen Miranda) Leziane Parré 94 Diretora Geral do CSE São Jerônimo. Psicóloga. Maria Cecília Parreiras Moura Graduanda em Artes Plásticas Bacharelado pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Maria Clara Campos Dantas Analista socioeducativo Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Maria Clara dos Reis Neves Analista Socioeducativa R. S. Rodrigues (Tarsila do Amaral) Rúbia Campos Ferreira Graduada em bacharel em Ciências Contábeis pela Faculdade Asa; Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. S. V. B. Souza (Cecília Meireles) V. M. Marques (Ludmila) Walesson Gomes da Silva Pós-Doutor em Saúde (UFMG/2019), Pós-Doutor em Estudos do Lazer (UFMG/2022); Líder do Grupo de Estudos e Pesquisa SULear/CNPq/UEMG. Professor universitário. 95 EQUIPE DE APOIO MEMBROS DO GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISA SULear Laysla Gabrielle Souza Paiva Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Leonarda Fabiola Oliveira Martins Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Luana Lousada Batalha dos Santos Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Rúbia Campos Ferreira Graduada em bacharel em Ciências Contábeis pela Faculdade Asa; Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. 96 EQUIPE DE APOIO DO CENTRO DE REEDUCAÇÃO SÃO JERÔNIMO QUE COLABORARAM COM ESTA OBRA Adrielly Nádia Silva Veiga Psicóloga graduada em Psicologia pelo Centro Universitário UNA (2017). Especializanda em Saúde do Adolescente pela Faculdade de Medicina da UFMG. Experiência como arteedu- cadora e também, nas políticas Públicas de Assistência Social e Socioeducativo. Atualmente, psicóloga na unidade Socioeduca- tiva São Jerônimo. Cynthia Carla de Jesus Graduada em História pela Faculdade de Ciências Humanas de Pedro Leopoldo; Graduada em Pedagogia pela pela Faculdade IBRA de Brasília e Pós-graduada Lato Sensu especialização em História e Cultura de Minas Gerais pela PUC-MINAS; Pós-gra- duada Lato Sensu em especialização em Psicopedagogia pela Universidade Cruzeiro do Sul. Leziane Parré de Souza Psicóloga graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Newton Paiva (2010). Especialista em Saúde Mental e Clínica pelo Programa de Pós-Graduação do Centro Universitário Newton Paiva (2012). Mestre em Educação (Psicologia, Psicaná- lise e Educação) pelo Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Experiên- cia nas Políticas Públicas de Assistência Social, Saúde, Saúde 97 Mental e Socioeducativo. Atualmente, é Diretora Geral do Cen- tro Socioeducativo São Jerônimo, único Centro Socioeducativo Plural do Estado de Minas Gerais. Maria Cecília Parreiras Moura Artista Plástica, graduanda em bacharelado no curso de Artes Plásticas, pela Universidade Estadual de Minas Gerais, campus da Escola Guignard. Autora da arte da capa do livro. Envolvida em atividades de extensão da universidade que criam conexões com a sociedade. Martha Florença de Souza Coridola Psicóloga, com pós-graduação em Clínica Psicanalítica na Atu- alidade: contribuições de Freud e Lacan (2015), pela PUC- Minas. Especializanda em Saúde do Adolescente pela Faculdade de Medicina da UFMG. Possui experiência na gestão de políti- cas públicas desde 2014, com ênfase em adolescência e privação de liberdade, prevenção social à criminalidade e alter- nativas penais. Walesson Gomes da Silva Pós-doutorado em Estudos da Ocupação (Saúde), pós-douto- rado, doutor e mestre em Estudos do Lazer (Sociais e Humanidades). Professor no Departamento de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), líder do grupo de estudos e pesquisa SULear-UEMG/CNPq. Idealizador da Revista Interdisciplinar SULear, periódico científico da edi- tora UEMG. Walesson Gomes da Silva Sobre a Editora Sarerê Equipe Conselho Editorial Executivo Conselho Editorial Científico Equipe de apoio / membros do grupo de estudos e pesquisa SULear que colaboraram com esta obra Equipe de apoio do Centro de Reeducação São Jerônimo que colaboraram com esta obra — Sumário — Apresentação 15 No São Jeje 21 A força da união no sistema socioeducativo: uma poesia de esperança 23 Adolescência 25 Como vim parar aqui 26 Essa é minha história 27 Tudo tem solução! 28 Coração quebrado 29 Meu relato 30 Mãe natureza 31 Essa sou eu 32 Minha infância 33 Fé na vida 34 Uma Mãe Leoa 35 História de Janaína 36 Uma nova vida 37 Reviravolta 38 É assim que eu me sinto 39 O amor 40 Sentimento mais nobre do mundo 41 Respeito É Bom E Todo Mundo Gosta 42 Apenas uma adolescente em crescimento 43 Mudança de vida 44 Essa fase vai passar 45 Um pouco sobre mim 46 Em busca de paz 47 Um final feliz 48 Aprendizados Da Vida 49 Flor 50 Identidades na socioeducação 51 Saúde, vida, amor e mudança 52 Minha bandeira 53 Eu Sinto Sua Falta, Mãe 54 Por que o vermelho? 55 Mãe 56 Alegria, tristeza, vida e borracha 57 Uma declaração para geovana 58 Uma menina diferente 59 Sofrimento diário 60 Sofrimento em uma tarde de outono 61 Bloquinhos, riscos e o mar 62 Ainda assim, são adolescentes 63 Socioeducativo 65 Aprender e livre ser 66 Sonho de “Milaydy” 67 Gritos escritos de uma mãe em aflito 68 Não desacredite dos seus sonhos 69 No fim, a felicidade me aguarda 70 Ocorrido inesperado 71 Momentos felizes 72 Um sonho de uma família unida 73 Desejo de uma vida melhor 74 Uma boa notícia 75 Doce vida 76 Vida 77 Amor materno 78 Alguém Especial 79 Casa 80 Saudade dói 81 Minha amada irmã 82 Amizade 83 Dona Aranha 84 Força para as injustiças da vida 85 Dolorosa saudade 86 Eu, sendo… 87 Monólogo êxtimo 88 A vida perdida 89 Pintar pessoas 90 Autores 92 Equipe de apoio 95 Membros do Grupo de Estudos e Pesquisa SULear 95 Equipe de apoio do Centro de Reeducação São Jerônimo que colaboraram com esta obra 96 APRESENTAÇÃO Referências NO SÃO JEJE F. M. Portela A FORÇA DA UNIÃO NO SISTEMA SOCIOEDUCATIVO: uma poesia de esperança F. M. Portela ADOLESCÊNCIA E. Caroline COMO VIM PARAR AQUI Milaydy ESSA É MINHA HISTÓRIA Autor anônimo TUDO TEM SOLUÇÃO! Taís Araújo CORAÇÃO QUEBRADO Elis Regina MEU RELATO Milaydy MÃE NATUREZA Nise da Silveira ESSA SOU EU Maria Bethânia MINHA INFÂNCIA Tarsila do Amaral FÉ NA VIDA Autor anônimo UMA MÃE LEOA Daiara Tukano HISTÓRIA DE JANAÍNA Marisa Monte UMA NOVA VIDA Luedji Luna REVIRAVOLTA Tarsila do Amaral É ASSIM QUE EU ME SINTO Rita Lee O AMOR Cássia Eller SENTIMENTO MAIS NOBRE DO MUNDO Cássia Eller RESPEITO É BOM E TODO MUNDO GOSTA Marta Silva APENAS UMA ADOLESCENTE EM CRESCIMENTO Autor anônimo MUDANÇA DE VIDA Carmen Miranda ESSA FASE VAI PASSAR Roni UM POUCO SOBRE MIM Autor anônimo EM BUSCA DE PAZ Cássia Eller UM FINAL FELIZ Autor anônimo