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Protocolo Insuficiencia Cardiaca | elaborado por : Manuel Tomas – Medico Internista HCN 1 Insuficiência Cardíaca Conceito É o estado fisiopatológico em que o coração se torna incapaz de manter o débito cardíaco adequado para suprir as demandas metabólicas teciduais. É uma síndrome clínica complexa, que geralmente resulta de alterações estruturais e funcionais que impedem ou dificultam a manutenção de um débito cardíaco normal. Compromete a função contrátil levando a disfunção sistólica, porém, é relativamente frequente na prática clinica a síndrome de insuficiência cardíaca com função sistólica preservada, principalmente em pacientes idosos, do gênero feminino, portadores de diabetes e hipertensão arterial. Epidemiologia Representa um grave problema de saúde pública, sendo considerada uma epidemia emergente. Nos EUA acomete aproximadamente 3 a 5 milhões de pessoas, com o surgimento de 400 mil novos casos anuais. Em Moçambique, a insuficiência cardíaca é a principal causa de internamento hospitalar por doenças do aparelho cardiovascular (gênero feminino, portadores de hipertensão arterial, cardiopatia reumática). Etiologia As principais etiologias da insuficiência cardíaca são: hipertensão arterial (miocardiopatia hipertensiva); doenças valvulares; miocardioaptia periparto; agressão miocárdica pelo álcool (miocardiopatia alcoólica) e Tóxica; doença aterosclerótica coronariana (miocardiopatia isquêmica); Nutricional Endócrina ou Neuro-hormonal agressões virais (miocardites); agressão miocárdica pelo T. cruzi (miocardiopatia Chagásica); cardiopatias congênitas. Doença reumática sistémica Idiopática Classificação A classificação funcional amplamente adotada é a da NYHA que classifica os pacientes em 4 classes de acordo com sua limitação (dispnéia) para as atividades habituais: CF I – paciente assintomático; CF II – paciente sintomático somente aos grandes esforços; CF III – paciente sintomático aos pequenos e mínimos esforços; CF IV – paciente com sintomas em repouso. O estadiamento foi proposto pela AHA (American Heart Association) em quatro estágios Protocolo Insuficiencia Cardiaca | elaborado por : Manuel Tomas – Medico Internista HCN 2 – Classificação de Hunt : Estágio A: pacientes portadores de risco elevado para eventos cardiovasculares (hipertensos, diabéticos, ateroscleróticos), porém sem doença cardíaca estrutural; Estágio B: pacientes com doença cardíaca estrutural, porém assintomáticos; Estádio C: pacientes com sintomas leves a moderados; Estádio D: pacientes em fase avançada da doença, com sintomas intensos e refratários ao tratamento clínico otimizado. Fisiopatologia Independente da etiologia, Modificações anatômicas : dilatação da cavidade e ↓desempenho sistólico, ↓ débito cardíaco, Ativação dos mecanismos de compensação Sistema Neuro-Hormonal (SNA- Simpático, SRAA-Renina Angiotensina Aldosterona, SAV-Arginina-Vasopressina) Substâncias vasoconstritoras e proliferativas, como a angiotensina II, a norepinefrina, as prostaglandinas vasoconstritoras, a aldosterona e principalmente as endotelinas, que predominam e se intensificam na evolução da doença. Substâncias Vasodilatadoras & Antiproliferativas – hormônio natriurético atrial (BNP), as prostaglandinas vasodilatadoras, a bradicinina e o óxido nítrico que promovem vasodilatação e aumento da diurese e natriurese, Down-regulation receptores beta-1 A atividade pró-inflamatória exacerbada está associada à caquexia cardíaca - miocitonecrose, apoptose, morte celular - elevação de substâncias pró- inflamatórias (citocinas), como as interleucinas (IL) e o fator de necrose tumoral (TNF-alfa) – Disfunção e remodelação endotelial Remodelação ventricular (mudança de forma do coração) e aparecimento de sintomas, ↑FC, ↑contratilidade, vasoconstricção-redistribuição do fluxo sanguíneo, ↓débito urinário e retenção de sódio e água, Morte súbita por arritmia ventricular e a insuficiência cardíaca refratária por falência ventricular progressiva. Sintomas Dispnéia – progressiva intolerância ao esforço – pela ↓DC Ortopneia e DPN – pela retenção hidrosalina e congestao pulmonar Dor ou desconforto no HCD – pela distensão da cápsula hepática, pela congestao venosa sistemica Fadiga, sonolência, tontura, oligúria, caquexia cardíaca, perda massa muscular – pela ↓DC Palpitações, tonturas – arritmias ventriculares ou SV Arritmia cardíaca, sincope, tromboembolismo sistêmico, morte súbita – pela disfunção ventricular Protocolo Insuficiencia Cardiaca | elaborado por : Manuel Tomas – Medico Internista HCN 3 Sinais palidez, pulsos finos, pressão arterial convergente, extremidades frias e redução da perfusão periférica – pela ↓DC tosse, chiado no peito e intolerância ao decúbito baixo – pela congestão pulmonar estase jugular, hepatomegalia, edema de membros inferiores e frequentemente ascite – pela congestão sistêmica Critérios maiores dispneia paroxistica nocturna distensão veias do pescoço fervores refluxo hepato-jugular galope S3 perda de 4.5kg em 5 dias, como resposta ao tratamento edema agudo do pulmão PVC > 16cmH2O Cardiomegália ao Rx Edema pulmonar, congestão visceral ou cardiomegália à autópsia 2 Majors fazem o diagnóstico (Critério de Framingham) Critérios menores Tosse nocturna Dispneia ao grande esforço Derrame pleural Taquicárdia 120bpm Edema bilateral do tornozelo 1 Major + 2 Minors fazem o diagnóstico (Critério de Framingham) Reconhecimento da IC A anamnese e o exame clínico são indispensáveis para o diagnóstico apropriado da síndrome de insuficiência cardíaca. Na anamnese são importantes os dados epidemiológicos como doença cardíaca na família, doença reumatológica na infância, origem de zona endêmica para doença de Chagas, passado de hipertensão arterial, infarto prévio, tratamento quimioterápico prévio e ingestão de álcool. Devemos procurar os sinais e sintomas decorrentes do baixo débito cardíaco, da hipertensão venocapilar pulmonar, da congestão venosa visceral e periférica. No exame clínico devemos buscar os sinais da hipoperfusão periférica, de aumento das cavidades cardíacas, de sopros e bulhas patológicas e dos fenômenos congestivos pulmonar e sistêmico Exames complementares Dosagem de eletrólitos (Na+, K+, Mg+), diminuídos pela ação dos diuréticos. Dosagens de uréia e cretinina - avaliam a repercussão renal da ICC e a insuficiência renal concomitante. A avaliação hematológica é importante para afastar anemia e infecção, que são fatores que frequentemente agravam o quadro de insuficiência cardíaca. A urina I afasta a infecção urinária e avalia proteinúria e glicosúria. A dosagem de hormônios tireiodeanos é importante, principalmente nas pacientes do sexo feminino, visto que os distúrbios da tireóide podem ser causa ou agravam o quadro de insuficiência cardíaca. Os exames de avaliação cardiológica, como eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma, irão nos dar informações importantes para diagnóstico, repercussão, tratamento e prognóstico da cardiopatia. Peptídeo Natriuretico Atrial (BNP) e-ou N-Terminal Pro-BNP Cateterismo cardiaco (na doença aterosclerótica coronariana miocardiopatia isquêmica) Protocolo Insuficiencia Cardiaca | elaborado por : Manuel Tomas – Medico Internista HCN 4 Principios Gerais do Tratamento O tratamento da insuficiência cardíaca deve ser norteado através das seguintes recomendações: Tentar determinar a etiologia e, se possível, corrigir a causa da disfunção ventricular; Afastar osfatores agravantes e/ou precipitante da insuficiência cardíaca; Orientar o paciente e familiares sobre a gravidade da doença, ressaltar a importância da dieta hipossódica, restrição hídrica, atividade física e aderência ao tratamento medicamentoso. Objectivos do Tratamento aliviar os sinais e sintomas congestivos, aumentar a tolerância ao esforço, melhorar a qualidade de vida, reduzir hospitalizações, diminuir a velocidade da dilatação ventricular (remodelação), controlar as arritmias ventriculares, supraventriculares e prolongar a vida. Tratamento Medicamentoso Diuréticos Não usar em monoterapia Furosemida 40 a 320mg/dia oral + Amilorido 5mg/dia oral + Hidroclortiazida 25-50 mg/dia oral – potencialização diurética (se edema marcado-congestão venosa sistémica) Monitorar electrólitos (K, Na, Mg) ↓Morbidade ↓Agudizações ↓Re-admissões Não ↓ a remodelação ventricular-endotelial – Não ↓mortalidade Inibidores de ECA Indicada para todos os pacientes com disfunção ventricular sintomática ou assintomática e também para os pacientes de risco para desenvolver doença cardiovascular (hipertensos e diabéticos) com o objetivo de prevenir a insuficiência cardíaca - NYHA I-IV e Hunt A Captopril: 100 a 150 mg/dia ou Enalapril: 20 a 40 mg/dia ou Lisinopril: 20 a 40 mg/dia. ↓ a remodelação ventricular-endotelial ↓hospitalização ↓mortalidade CI absoluta : Gravidez, Estenose Bilateral da Arteria Renal Hidralazina+Dinitrato isossorbida Raça negra FEVE≤35% ou FEVE