Prévia do material em texto
1. VISÃO GERAL
O capítulo anterior descreveu os tipos de estruturas secundária e terciária,
que são como os tijolos e a argamassa da arquitetura proteica. Com o ar
ranjo desses elementos estruturais básicos em diferentes combinações, é
possível construir uma grande diversidade de proteínas capazes de desem
penhar uma variedade de funções especial izadas. Este capítulo examina a
relação entre a estrutura e a função de algumas proteínas globulares clinica
mente importantes, as hemeproteínas. As proteínas estruturais fibrosas são
discutidas no Capítulo 4.
li. HEMEPROTEÍNAS GLOBULARES
Hemeproteínas são um grupo de proteínas especializadas que contêm heme
como grupo prostético f irmemente ligado. 0Jer pág. 54 para uma discussão
a respeito de grupos prostéticos.) O papel do grupo heme é determinado
pelo ambiente criado pela estrutura tridimensional da proteína. Por exemplo,
o grupo heme de um citocromo funciona como um carreador de elétrons,
sendo alternadamente oxidado e reduzido (ver pág. 75). Em contrapartida, o
grupo heme da enzima cata/ase é parte do sítio ativo da enzima, a qual cata
lisa a quebra do peróxido de hidrogênio (ver pág. 148). Na hemoglobina e na
mioglobina, as duas hemeproteínas mais abundantes em humanos, o grupo
heme serve para ligar, de forma reversível , o oxigênio (02) .
A. Estrutura do heme
O heme é um complexo de protoporfirina IX e íon ferroso (Fe2+) (Fig. 3.1 ).
O ferro está ligado no centro da molécula do heme por meio de ligações
aos quatro nit rogênios do anel porfi rínico. O Fe2
+ do heme pode formar
duas ligações adicionais, uma de cada lado do plano do anel porfirínico.
Na mioglobina e na hemoglobina, uma dessas posições estabelece uma
interação coordenada com a cadeia lateral de um resíduo de histidina da
molécula da globina, enquanto a outra posição fica disponível para ligar
o 0 2 (Fig. 3.2). 0Jer págs. 278 e 282, respectivamente, para uma discus
são acerca da síntese e da degradação do núcleo heme.)
B. Estrutura e função da mioglobina
A mioglobina, uma hemeproteína presente no coração e no músculo es
quelético, funciona tanto como um reservatório quanto como um carre
ador de oxigênio que aumenta a velocidade de transporte de oxigênio
dentro da célula muscular. (Nota: surpreendentemente, a mioglobina de
camundongo duplamente nocaute [ver pág. 502] apresenta um fenó-
O ferro (Fe) pode formar seis
ligações: quatro com os nit rogênios
porfirínicos, mais duas ligações
adicionais, uma acima e outra
abaixo do plano do anel porfirínico.
Figura 3.1
A. Hemeproteína (citocromo c).
B. Estrutura do heme.
26 Denise R. Ferrier
"- Heme
Figura 3.2
Histid ina
proximal
(FB)
Hélice F J Hélice E 1
/
Molécula de
oxigênio (OJ
Hist idina
distal
(E7)
A. Modelo da mioglobina, mostrando as hél ices a de A a H. B. Diagrama esquemático do sítio de ligação do oxigênio
na mioglobina.
t ipo aparentemente normal.) A mioglobina consiste em uma única ca
deia polipeptídica, a qual é estruturalmente simi lar a uma das cadeias
polipeptíd icas individuais que constituem as subunidades da molécula
tetramérica da hemoglobina. Essa homologia torna a mioglobina um mo
delo útil para interpretar algumas das propriedades mais complexas da
hemoglobina.
1. Conteúdo em hélice a . A mioglobina é uma molécula compacta,
com aproximadamente 80% de sua cadeia pol ipeptídica dobrada
em oito segmentos de hélice a. Essas regiões a-helicoidais, mar
cadas de A a H na Figura 3.2A, são interrompidas pela presença de
prolina, cujo anel de c inco membros não pode ser acomodado na
hél ice a (ver pág. 16), ou por curvaturas f3 e alças estabi lizadas por
ligações de hidrogênio e ligações iônicas (ver pág. 19). (Nota: liga
ções iônicas são também denominadas interações eletrostáticas ou
ligações salinas.)
2. Localização dos resíduos de aminoácidos polares e apoia
res. O interior da molécula globular de mioglobina é constituído
quase que inteiramente por aminoácidos apoiares. Eles estão com
pactados, formando uma estrutura estabi lizada por interações hi
drofóbicas entre esses resíduos agrupados (ver pág. 19). Em contra
partida, os aminoácidos com cadeia lateral polar estão local izados
quase que exclusivamente na superfície da molécula, onde podem
formar ligações de hidrogênio entre si e com a água.
3. Ligação do grupo heme. O grupo heme da mioglobina se situa
em uma fenda na molécula, a qual é revestida por aminoácidos
apoiares. Exceções notáveis são dois resíduos de histidina (ver Fig.
3.28). O primeiro, a histidina proximal (F8), liga-se d iretamente ao
Fe2
+ do grupo heme. O segundo, a histidina distal (E7), não interage
diretamente com o grupo heme, mas ajuda a estabil izar a ligação do
0 2 ao Fe2
+. Assim, a porção proteica da mioglobina, ou globina, cria
um microambiente especial para o grupo heme, permitindo a liga
ção reversível de uma molécula de oxigênio (oxigenação). A perda
simultânea de elétrons pelo Fe2+ (oxidação à forma íon férrico [Fe3+])
ocorre muito raramente.
C. Estrutura e função da hemoglobina
A hemoglobina é encontrada exclusivamente nos eritrócitos, e sua prin
cipal função é transportar oxigênio (02) dos pulmões até os capilares dos
Bioquímica Ilustrada 27
11·
·~
Figura 3.3
A. Estrutura da hemoglobina, mostrando o esqueleto polipeptídico. B. Desenho simplificado, mostrando as hél ices a.
tecidos. A hemoglobina A, a principal hemoglobina de adultos, é com
posta por quatro cadeias polipeptídicas (duas cadeias a e duas cadeias
í3) unidas por interações não covalentes (Fig. 3.3). Cada cadeia (subuni
dade) contém segmentos de estrutura em hél ice a, além de uma fenda,
ou bolso, revestida por grupos hidrofóbicos, onde se liga o grupo heme,
de forma similar ao descrito para a mioglobina. A molécula tetramérica
da hemoglobina, no entanto, é estrutural e funcionalmente mais comple
xa do que a mioglobina. Por exemplo, a hemoglobina pode transportar
prótons (H+) e dióxido de carbono (C02) dos tec idos até os pulmões e
pode carregar quatro moléculas de 0 2 dos pulmões às células dos te
cidos do corpo. Além disso, as propriedades de ligação do oxigênio na
hemoglobina são reguladas por interações com efetores alostéricos (ver
pág. 29).
Obter 0 2 da atmosfera apenas por difusão limita enormemente o ta
manho dos organismos. Sistemas circulatórios superam esse problema,
porém são necessárias moléculas de transporte como a hemoglobina,
pois o 0 2 é apenas fracamente solúvel em soluções aquosas como o
sangue.
1. Estrutura quaternária. Visualiza-se a hemoglobina tetramérica
composta por dois dímeros idênticos (aí3)1 e (aí3)2 • As duas cadeias
polipeptídicas em cada dímero são unidas firmemente, em especial
por meio de interações hidrofóbicas (Fig. 3.4). (Nota: nesse caso, os
resíduos de aminoácidos hidrofóbicos estão localizados não apenas
no interior da molécula, mas também em uma região da superfíc ie
na interface de cada subunidade. Múltiplas interações hidrofóbicas
intercadeias formam fortes associações entre as subunidades a e
as subunidades í3 nos dímeros.) Em contrapartida, os dois dímeros
são mantidos unidos principalmente por ligações polares. As inte
rações mais fracas entre os dímeros permitem que haja movimento
de um em relação ao outro. Esse movimento resulta em posições
diferentes desses dímeros um em relação ao outro na desoxiemo
globina, quando comparado à oxiemoglobina (ver Fig. 3.4).
28 Denise R. Ferrier
Fracas ligações iônicas e de
hidrogênio ocorrem entre os
pares de dímeros af3 na forma
desoxigenada.
Interações fortes,
principalmente
hidrofóbicas, entre as
cadeias a e 13 formam
dímeros af3 estáveis.
(
)
Algumas ligações iônicas
e de hidrogênio entre
dois dímeros af3 são
rompidas no estado
oxigenado.
Estrutura "T", ou tensa, da desoxiemoglobina Estrutura "R", ou relaxada, da oxiemoglobina
Figura 3.4
Diagrama esquemático mostrando mudanças estruturais resu ltantes da oxigenação e desoxigenação da hemoglobina.Hélice F da
HN _ C/ cadeia da g lobina
/ \ • Histidina proximal
e :::::.... e (His FB)
~/
N
1
Fe
2
+ }
N/ "---N Heme
Hélice F da
HN _ C/ cadeia da g lobina
/ \ --• - Histidina proximal
e e (His F8)
~
~/
N
1
N - Fe2±...._ N } Heme
1
o
\ o
Figura 3.5
Movimento do ferro (Fe) do núcleo
heme. A. Para fora do plano do
núcleo heme quando o oxigênio (02)
não está ligado. 8 . Para dentro
do plano do núcleo heme com
a ligação do 0 2 .
a. Forma T. A forma desoxi da hemoglobina é chamada de "T"
ou forma tensa. Na forma T, os dois dímeros a[3 interagem por
meio de uma rede de ligações iônicas e ligações de hidrogênio
que restringem os movimentos das cadeias polipeptídicas. A
conformação T é a forma da hemoglobina com baixa afinidade
pelo oxigênio.
b. Forma R. A ligação do 0 2 à hemoglobina causa a ruptura de
algumas das ligações polares entre os dois dímeros a[3, permi
tindo movimento desses dímeros. Especificamente, a ligação
do 0 2 ao Fe2
+ do grupo heme empurra este ferro para dentro do
p lano do grupo heme (Fig. 3.5). Uma vez que o ferro também
está ligado à hist idina proximal (F8), o movimento resultante
das cadeias de globina altera a interface entre os dímeros a[3,
levando a uma estrutura chamada "R", ou forma relaxada (ver
Fig. 3.4). A conformação R é a forma da hemoglobina de alta
afinidade pelo oxigênio.
D. A ligação do oxigênio à mioglobina e à hemoglobina
A mioglobina pode ligar somente uma molécula de oxigênio (02), porque
contém apenas um grupo heme. A hemoglobina, em contrapartida, pode
ligar quatro moléculas de 0 2 , uma a cada um de seus quatro núcleos
heme. O grau de saturação (Y) desses sítios de ligação ao oxigênio em
todas as moléculas de mioglobina ou hemoglobina pode variar de zero
(quando todos os sítios estão vazios) a 100% (quando todos os sítios
estão preenchidos), como mostrado na Figura 3.6. (Nota: a oximetria de
pulso é um método indireto e não invasivo de medir a saturação de oxi
gênio no sangue arterial que se baseia em diferenças na absorção de luz
entre a oxiemoglobina e a desoxiemoglobina.)
1. Curva de dissociação do oxigênio. Uma curva da saturação (Y)
medida em diferentes pressões parciais de oxigênio (p02) é chama
da de curva de dissociação do oxigênio. (Nota: a p02 também pode
ser representada como P02 .) As curvas para a mioglobina e para a
hemoglobina apresentam diferenças importantes (ver Fig. 3.6). Esse
gráfico ilustra que a mioglobina tem maior afinidade por oxigênio do
que a hemoglobina, em todas as p02 • A pressão parcial de oxigênio
necessária para obter metade da saturação dos sítios de ligação
(P 50) é de aproximadamente 1 mmHg para a mioglobina e 26 mmHg
para a hemoglobina. Quanto maior a afinidade por oxigênio (i.e.,
quanto mais fortemente a molécula liga-se ao 0 2), menor a P 50•
a. Mioglobina. A curva de dissociação do oxigênio para a mio
globina possui uma forma hiperból ica (ver Fig. 3.6). Isso reflete
o fato de que a mioglobina se liga reversivelmente a apenas
uma molécula de oxigênio. Assim, a mioglobina oxigenada
(Mb02) e a desoxigenada (Mb) estão em um equilíbrio simples:
Mb + 0 2 t=! Mb02
O equilíbrio é deslocado para a direita ou para a esquerda à
medida que o 0 2 é adicionado ou removido do sistema. (Nota:
a mioglobina tem a função de ligar o 0 2 liberado pela hemoglo
bina nas baixas p02 encontradas no músculo. A mioglobina,
por sua vez, libera o 0 2 dentro da célula muscular em resposta
à demanda de oxigênio.)
b. Hemoglobina. A curva de dissociação do oxigênio para a he
moglobina tem forma sigmoidal (ver Fig. 3.6), indicando que as
subunidades cooperam na ligação do 0 2 . A ligação cooperativa
do 0 2 pelas quatro subunidades da hemoglobina significa que
a ligação de uma molécula de oxigênio a uma das subunidades
aumenta a afinidade por oxigênio das subunidades restantes
na mesma molécula de hemoglobina (Fig. 3. 7). Embora seja
mais difícil para a primeira molécula de oxigênio ligar-se à he
moglobina, as ligações subsequentes de outras moléculas de
oxigênio ocorrem com alta afin idade, como demonstrado pela
curva rapidamente ascendente na região de 20 a 30 mmHg (ver
Fig. 3.6).
E. Efetores alostéricos
A capacidade da hemoglobina para ligar-se reversivelmente ao oxigê
nio é afetada pela p02, pelo pH do meio, pela pressão parcial de dió
xido de carbono (pC02) e pela disponibilidade de 2,3-bisfosfoglicerato
(2,3-BPG). Esses são coletivamente chamados de efetores alostéricos
("em outro sítio"), pois sua interação com um sítio na molécula tetramé
rica da hemoglobina causa mudanças est ruturais que afetam a ligação
do 0 2 ao ferro dos núcleos heme em outras regiões da molécula. (Nota: a
ligação do 0 2 à mioglobina monomérica não é influenciada por efetores
alostéricos.)
1. Oxigênio. A curva sigmoidal de dissociação do oxigênio reflete
mudanças estruturais específicas, as quais são inic iadas em uma
subunidade e são transmitidas às outras subunidades da estrutura
tetramérica da hemoglobina. O efeito líquido dessa cooperat ividade
é que a afinidade da hemoglobina pela últ ima molécula de oxigênio
a se ligar é aproximadamente 300 vezes maior do que a afin idade
pela primeira molécula de oxigênio ligada. O oxigênio é, portanto,
um efetor alostérico da hemoglobina. Ele estabiliza a forma R.
a. Ligando e liberando o oxigênio. A ligação cooperativa do 0 2
permite à hemoglobina liberar mais 0 2 aos tecidos em resposta
a variações relativamente pequenas na p02 . Isso pode ser ob
servado na Figura 3.6, na qual está indicada a p02 nos alvéolos
pulmonares e nos capilares dos tecidos. Por exemplo, nos pul-
Bioquímica Ilustrada 29
A curva de dissociação do oxigênio
apresentada pela hemoglobina é acentuada
em baixas concentrações de oxigênio, como
ocorre nos tecidos. Isso permite que o
oxigênio seja liberado em resposta a
pequenas variações na p02"
p02 nos p02 nos
tec idos pulmões
~ ('. Mlogloblna ~
ººt t 40 80 120
Pressão parcial de oxigênio (p02)
1 1 (mmHg)
P50 :1 P50 =26
Figura 3.6
Curvas de dissociação do oxigênio
para a mioglobina e para a
hemoglobina (Hb).
' / Hb
/ '
' / Hb
~ )!
Figura 3.7
A hemoglobina (Hb) liga sucessivas
moléculas de oxigênio (02) com
afinidade crescente.
30 Denise R. Ferrier
PULMÕES
co2 é liberado
pela hemoglobina.
C02 liga à
hemoglobina.
0 2 liga-se à
hem oglobina.
'l.
Oxiemoglobina
"'Í
0 2 é liberado
pela hem oglobina.
TECIDOS
Figura 3.8
Transporte de oxigênio e dióxido de
carbono pela hemoglobina. Fe = ferro.
A diminuição do pH resulta em decréscimo
da afin idade da hemoglobina pelo oxigênio
e, dessa form a, em um deslocamento para
a direita da curva de dissociação do oxigênio.
~ 100
pH = 7,6
"' '-- pH = 7,2 o
E
o
Em um pH mais baixo, u
o ' ' .
ICU e necessana maior
"' 50 p02 para atingir uma cu ...
determinada saturação ::::J ...
cu de oxigênio . VI
Q) ,,
':!!. o o
o 40 80 120
Pressão parcial de oxigênio (p02)
(mmHg)
Figura 3.9
Efeito do pH sobre a afinidade
da hemoglobina por oxigênio.
Prótons são efetores alostéricos
da hemoglobina.
mões, a concentração de oxigênio é alta, e a hemoglobina se
torna praticamente saturada (ou "carregada") com oxigênio.
Em contrapartida, nos tecidos periféricos, a oxiemoglobina li
bera (ou "descarrega") a maior parte de seu 0 2 para uti lização
no metabolismo oxidativo dos tecidos (Fig. 3.8).
b. Significado da curva sigmoidal de dissociação do oxigê
nio. A inclinação abrupta da curva de dissociação do oxigê
nio na faixa de concentração de oxigênio que ocorre entre os
pulmões e os tecidos permite que a hemoglobina transporte e
libere o 0 2 de forma eficiente, desde os sítios de alta p02 até os
sítios de baixa p02. Uma molécula com a curva de dissociação
de oxigênio hiperbólica, como a mioglobina, não poderia apre
sentar o mesmo grau de liberação de 0 2 nessa faixa de p02.
Pelo contrário, ela teria afinidade máxima por 0 2 em toda essa
faixa de pressãode oxigênio e, dessa forma, não o liberaria
para os tecidos.
2. Efeito Bohr. A liberação do 0 2 pela hemoglobina é aumentada
quando o pH d iminui (quando a concentração de prótons [H+] au
menta) ou q uando a hemoglobina está na presença de uma pC02
aumentada. Nos dois casos, há redução da afinidade da hemoglo
bina por oxigênio e, portanto, um deslocamento da curva de dis
sociação do oxigênio para a direita (Fig. 3.9). Então, ambos estabi
lizam o estado T (desoxi). Essa alteração na ligação do oxigênio é
denominada efeito Bohr. Por sua vez, o aumento do pH e a redução
da concentração de C02 resultam em maior afin idade por oxigênio
e em um deslocamento da curva de dissociação do oxigênio para a
esquerda, com estabilização do estado R (oxi).
a. Origem dos prótons que diminuem o pH. A concentração
de ambos, H+ e C02, nos capilares dos tecidos metabolicamen
te ativos é maior do que aquela observada nos capi lares alveo
lares dos pulmões, nos quais o C02 é liberado no ar expirado.
Nos tecidos, o C02 é convertido em ácido carbônico pela ani
drase carbônica, uma enzima contendo zinco:
b.
co2 + H20 ~ H2C03
O ácido carbônico perde espontaneamente um próton, tornan
do-se bicarbonato (o principal tampão do sangue):
H2C03 ~ Hco; + H+
O H+ produzido por esse par de reações contribui para a redu
ção do pH. Esse gradiente d iferencial de pH (os pulmões com
pH mais alto e os tecidos com pH mais baixo) favorece a libe
ração de 0 2 nos tecidos periféricos e a associação da hemo
globina ao oxigênio no pulmão. Assim, a afinidade da molécula
da hemoglobina por oxigênio responde a pequenas alterações
no pH entre os pulmões e os tecidos que consomem oxigênio,
tornando a hemoglobina um transportador de 0 2 mais eficiente.
Mecanismo do efeito Bohr. O efeito Bohr reflete o fato de
que a forma desoxi da hemoglobina possui maior afinidade por
prótons que a oxiemoglobina. Esse efeito é causado por grupos
ionizáveis, como cadeias laterais específicas de histidina, que
possuem pKª (ver pág. 6) mais altos na desoxiemoglobina do
que na oxiemoglobina. Assim, um aumento na concentração de
H+ (resultando na diminuição do pH) faz com que esses grupos
fiquem protonados (carregados) e capazes de formar ligações
iônicas (também chamadas de pontes salinas). Essas ligações
3.
estabil izam preferencialmente a forma desoxi da hemoglobina,
produzindo uma redução na afin idade por oxigênio. (Nota: a
hemoglobina, portanto, é um importante tampão sanguíneo.)
O efeito Bohr pode ser representado esquematicamente como:
Hb0
2
+ H+
Oxiemoglobina
~ HbH + 0 2
Desoxiemoglobina
em q ue um aumento de H+ (ou uma redução da p02) deslo
ca o equi líbrio para a d ireita (em favor da desoxiemoglobina),
enquanto um aumento na p02 (ou redução de H+) desloca o
equilíbrio para a esquerda.
Efeito do 2,3-BPG sobre a afinidade pelo oxigênio. O 2,3-BPG
é um regulador importante da ligação do 0 2 à hemoglobina. Ele é o
composto orgânico contendo fosfato mais abundante nos eritróci
tos, nos quais sua concentração é aproximadamente equivalente à
da hemoglobina. O 2,3-BPG é sintetizado a partir de um interme
diário da rota glicolítica (Fig. 3.1 O; ver pág. 101 para uma d iscussão
acerca da síntese do 2,3-BPG na gl icólise).
a. Ligação do 2,3-BPG à desoxiemoglobina. O 2,3-BPG di
minui a afinidade da hemoglobina por oxigênio, por ligar-se
à desoxiemoglobina, mas não à oxiemoglobina. Essa ligação
preferencial estabiliza a conformação T da desoxiemoglobina.
O efeito da ligação do 2,3-BPG pode ser representado esque
maticamente como:
Hb02 + 2,3-BPG ~
Oxiemoglobina
Hb -2,3-BPG + 0 2
Desoxiemoglobina
b. Sítio de ligação para o 2,3-BPG. Uma molécula de 2,3-BPG
liga-se a uma fenda formada pelas duas cadeias de í3-globina,
no centro do tetrâmero da desoxiemoglobina (Fig. 3.11 ). Essa
fenda contém vários aminoácidos carregados positivamente,
que formam ligações iônicas com os grupos fosfato carrega
dos negativamente do 2,3-BPG. (Nota: a substitu ição de um
desses aminoácidos pode resu ltar em variantes da hemoglo
bina com afinidade anormalmente alta pelo oxigênio, que pode
ser compensada por um aumento da produção de eritrócitos
[erit rocitose] .) A oxigenação da hemoglobina torna mais estreita
a fenda e causa a liberação do 2,3-BPG.
c. Deslocamento na curva de dissociação do oxigênio. A
hemoglobina da qual foi removido o 2,3-BPG apresenta alta
afinidade pelo oxigênio. Entretanto, conforme observado no
eritrócito, a presença de 2,3-BPG reduz s ignificativamente a
afinidade da hemoglobina por oxigênio, deslocando a curva de
dissociação do oxigênio para a d ireita (Fig. 3.12). Essa afinida
de reduzida permite que a hemoglobina libere o 0 2 de maneira
eficiente nas pressões parc iais encontradas nos tecidos.
d. Os níveis de 2,3-BPG na hipóxia ou na anemia crônicas. A
concentração de 2,3-BPG no eritrócito aumenta em resposta
à hipóxia crôn ica, como observado em doenças pulmonares
obstrutivas crônicas (p. ex., no enfisema), ou em altitudes ele
vadas, quando a hemoglobina c ircu lante pode ter dificuldade
em receber 0 2 suficiente. Os níveis intracelulares de 2,3-BPG
também estão elevados na anemia crôn ica, quando menos eri
t rócitos que o normal estão d isponíveis para suprir as necessi
dades de oxigênio do organismo. Níveis elevados de 2,3-BPG
Bioquímica Ilustrada 31
Glicólise
Glicose
1 3-,
-Bisfosfog 1 icerato
3-Fosfo
glicerato
t
Piruvato
t
Lactato
Figura 3.10
o
11
e-o-
i
H-c-o-®
1
H-c-o-®
1
H
2,3-Bisfosfo
glicerato
~--
H20
Síntese de 2,3-bisfosfoglicerato.
(Nota: ® é um grupo fosfori la,
P03
2
· .) Na literatura mais antiga,
o 2,3-bisfosfoglicerato (2,3-BPG)
pode ser encontrado com o nome
2,3-difosfoglicerato (2,3-DPG).
Uma única molécula de 2,3-BPG
liga-se a uma concavidade
positivamente carregada, formada
pelas cadeias J3 da desoxiemoglobina.
Figura 3.11
Ligação do 2,3-bisfosfogl icerato
(2,3-BPG) à desoxiemoglobina.
32 Denise R. Ferrier
2,3-BPG = O
(Hemoglobina depletada
de 2,3-BPG)
E 1oo .. o
E ,....__ 2,3-BPG = 5 mmol/L
o
u
o
llll
"" E
:::1 ..
lll
Ili
CI>
"C
-;R
o o
o
(sangue normal)
2,3-BPG = 8 mmol/L
(sangue de indivíduos
adaptados a grandes altitudes)
40 80 120
Pressão parc ial de oxigênio (p02)
(mmHg)
Figura 3.12
Efeito alostérico do
2,3-bisfosfogl icerato (2,3-BPG)
sobre a afinidade da hemoglobina
. ~ .
por ox1gen10.
20 0°/o CO-Hb - \ CI>
:::1
.. C>
O e
CI> lll
I "C CI>
o "C
~ ...1 10
,CI> E
g8
(J ...
:::i
E - o
o 40 80 120
Pressão parc ial de oxigênio (p02)
(mmHg)
Figura 3.13
Efeito do monóxido de carbono (CO)
sobre a afinidade da hemoglobina
por oxigênio. O CO compete com o
0 2 pela ligação com o ferro do núcleo
heme. CO-Hb = carboxiemoglobina
(monóxido de carbono-hemoglobina).
d iminuem a afin idade da hemoglobina por oxigênio, permitindo
descarga maior de 0 2 nos capilares dos tecidos (ver Fig. 3.12).
e. 2,3-BPG no sangue transfundido. O 2,3-BPG é essencial
para a função normal da hemoglobina de transportar oxigênio.
No entanto, o armazenamento do sangue nos meios atualmente
disponíveis resulta em uma redução no 2,3-BPG. Consequente
mente, o sangue armazenado manifesta uma afinidade por oxi
gênio anormalmente elevada e apresenta dificuldade em liberá
- lo de forma adequada para os tecidos. Assim, a hemoglobina
deficiente em 2,3-BPG atua como uma espécie de "captador"
para o oxigênio e não como seu sistema de transporte e libe
ração. Eritrócitos transfundidos são capazes de restaurar seus
suprimentos depletados de 2,3-BPG em 6 a 24 horas. Contudo,
pacientes gravemente doentes podem ter problemas se trans
fundidos com grandes quantidades de sangue depletado em
2,3-BPG. Portanto, o sangue armazenado deve ser tratado com
uma solução "rejuvenescedora", que restaura rapidamente o
2,3-BPG. (Nota: esse processo de "rejuvenescimento" também
restaura o ATP perdido durante o armazenamento.)
4. Ligaçãoao C02• A maior parte do C02 produzido no metabolismo
é hidratado e t ransportado como íon bicarbonato (ver Fig. 1.12, pág.
9). Entretanto, algum C02 é carregado como carbamato, ligado a
grupos amino N-terminais da hemoglobina (formando carbaminoe
moglobina, como mostrado na Fig. 3.8), o que pode ser representa
do esquematicamente como:
5.
Hb -NH2 +C02 ~ Hb-NH-coo- + H+
A ligação do C02 estabiliza a forma T (tensa), ou desoxi, da hemo
globina, resu ltando em um decréscimo de sua afinidade por oxi
gênio (ver pág. 28) e em um deslocamento para a direita na curva
de dissociação do oxigênio. Nos pulmões, o C02 dissocia-se da
hemoglobina e é liberado na respiração.
Ligação ao CO. O monóxido de carbono (CO) liga-se fortemente
(mas reversivelmente) ao ferro da hemoglobina, formando carboxie
moglobina. Quando o monóxido de carbono se liga a um ou mais
dos quatro grupos heme, a hemoglobina muda para a conforma
ção R, de modo que os grupos remanescentes se ligam ao 0 2 com
alta afinidade. Isso leva ao deslocamento da curva de saturação do
oxigênio para a esquerda, mudando o formato sigmoidal normal da
curva para o formato hiperbólico. Como resultado, a hemoglobina
afetada é incapaz de liberar o oxigênio para os tecidos (Fig. 3.13).
(Nota: a afinidade da hemoglobina por CO é 220 vezes maior do que
por 0 2. Consequentemente, mesmo concentrações mínimas de mo
nóxido de carbono no meio podem produzir concentrações tóxicas
de carboxiemoglobina no sangue. Por exemplo, níveis aumentados
de CO são encontrados no sangue de fumantes. A toxicidade do CO
parece resultar da combinação de hipóxia tecidual e de dano celular
d ireto mediado pelo monóxido de carbono.) O envenenamento por
monóxido de carbono é tratado com terapia de 100% de 0 2 em alta
pressão (terapia hiperbárica com oxigênio), que facilita a dissociação
do CO da hemoglobina. (Nota: o CO inibe o Complexo IV da cadeia
transportadora de elétrons [ver pág. 76].) A lém do 0 2, do C02 e do
CO, outro gás, o óxido nítrico (NO), também é carregado pela hemo
globina. O NO é um potente vasodilatador (ver pág. 151). Ele pode
ser captado pelos eritrócitos ou deles liberado, modulando, assim, a
disponibilidade de NO e influenciando o diâmetro dos vasos.
F. Hemoglobinas de menor ocorrência
É importante lembrar que a hemoglobina A humana (HbA) é apenas
um membro de uma famíl ia de proteínas func ional e estruturalmente
relacionadas, as hemoglobinas (Fig. 3.14). Cada uma dessas proteínas
t ransportadoras de oxigênio é um tetrâmero, composto por dois poli
peptídeos de u-globina (ou semelhantes à u-globina) e dois polipep
tídeos 13-globina (ou semelhantes à 13-globina). Certas hemoglobinas,
como a HbF, são sintetizadas normalmente apenas durante o desen
volvimento fetal, enquanto outras, como a HbA2 , são sintet izadas no
adulto, embora em baixos níveis quando comparadas com a HbA. A
HbA também pode ser modificada pela adição covalente de uma hexo
se (ver item 3, a seguir).
1. Hemoglobina fetal. A HbF é um tetrâmero, consistindo em duas
cadeias a idênticas àquelas encontradas na HbA mais duas cadeias
gama ()') (a.2 -y2 ; ver Fig. 3.14). As cadeias 'Y são membros da família
de genes das 13-globinas (ver pág. 34).
a. Síntese de HbF durante o desenvolvimento. No primeiro
mês após a concepção, hemoglobinas embrionárias, como a
Hb Gower 1, composta por duas cadeias zeta (,), semelhantes
às cadeias u , e duas cadeias épsilon (8), estas últ imas seme
lhantes às cadeias 13, ou seja, ' 28 2, são sintetizadas pelo saco
embrionário. Na quinta semana de gestação, o sítio de síntese
da proteína globina é deslocado, inicialmente para o fígado e
após para a medula óssea, e o principal produto é a HbF. A HbF
é a principal hemoglobina encontrada em fetos e em recém
-nascidos, perfazendo aproximadamente 60% de toda a hemo
globina nos eritrócitos durante os últimos meses de vida fetal
(Fig. 3.15). A síntese de HbA inicia na medula óssea por volta
do oitavo mês de gestação, e gradualmente a HbF vai sendo
substituída pela HbA. A Figura 3.15 mostra a produção relativa
de cada tipo de cadeia da hemoglobina durante a vida fetal e
pós-natal. (Nota: a HbF representa ,,
UI
Ili
"i ,,
Ili
u
UI
Ili ,,
E
CI>
Cl s
Cadeias
semelhantes
à Jl-g lobina
50
e 25
8
E
...
o
a.
1
o~c::::::::L:::-±:~~___J
-9 -6 -3 o 3 6 9
Meses antes e depois do nascimento
Figura 3.15
Alterações na produção de globinas
durante o desenvolvimento.
34 Denise R. Ferrier
NH2
Hemoglobina A HCO
1
HCOH
1
HOCH
1
HCOH
1
HCOH
1
CH20H
Glicose
NH
1
HCH
1
co
' ' HOCH HOCH
' ' HCOH HCOH
' 1 HCOH HCOH
' 1
CH20H CH20H
Hemoglobina A1c
Figura 3.16
Adição não enzimática de glicose
à hemoglobina. A adição não
enzimática de um açúcar a uma
proteína é denominada gl icação.
Genes da família da
o-globina (cromossomo 16) ......_ __
3. Hemoglobina A1c. Em condições fisiológicas, a HbA é vagarosa
mente glicada (condensada não enzimaticamente com uma hexase),
sendo a extensão dessa glicação dependente da concentração plas
mática da hexase. A forma mais abundante de hemoglobina glicada
é a HbA1c . Ela possui resíduos de gl icose ligados predominantemente
aos grupos NH2 das valinas N-terminais das cadeias de [3-globina (Fig.
3.1 6). Quantidades aumentadas de HbA1c são encontradas nos eritró
citos de pacientes com diabetes melito, pois a HbA desses pacientes
está em contato com concentrações mais altas de glicose durante os
120 dias de vida de seus eritrócitos. 0Jer pág. 340 para uma discussão
acerca da uti lização dos níveis de HbA1c para a avaliação dos níveis
sanguíneos médios de glicose em pacientes diabéticos.)
-Ili. ORGANIZAÇAO DOS GENES DE GLOBINAS
Para entender as doenças resultantes de modificações genét icas na estru
tura ou síntese da hemoglobina, é necessário compreender como os genes
da hemoglobina, os quais direcionam a síntese das d iferentes cadeias de
globinas, são organizados estruturalmente em famílias de genes e também
como eles são expressos.
A. A família dos genes a
Os genes q ue codificam as subunidades do tipo a-globina e do tipo
[3-globina das cadeias da hemoglobina ocorrem em dois agrupamen
tos (ou famíl ias) de genes, localizados em dois cromossomos diferentes
(Fig. 3.17). O grupo de genesa no cromossomo 16 contém dois genes
para as cadeias de a-globina. Ele também contém o gene zeta (,),que é
expresso precocemente no desenvolvimento como um componente do
tipo a-globina da hemoglobina embrionária. (Nota: as famílias de genes
das globinas também contêm genes semelhantes aos das globinas que
não são expressos [isto é, sua informação genética não é usada para
produzir cadeias de globinas] e são denominados pseudogenes.)
B. A família dos genes (l
Um único gene para a cadeia de [3-globina está local izado no cromos
somo 11 (ver Fig. 3.17). Existem ainda outros quatro genes semelhantes
aos da [3-g lobina: o gene épsi lon (s) (o q ual, de modo semelhante ao
gene ,, é expresso no início do desenvolvimento embrionário), dois ge
nes 'Y (G'Y e A"f, que são expressos na HbF) e o gene ô, que codifica a
cadeia de globina encontrada na hemoglobina que aparece minoritaria
mente em adultos, a HbA2 •
i.~Cl~
Duas cópias do gene o-globina são
designadas 0 1 e o2• Cada uma
pode fornecer cadeias de o -globina
que se combinam com cadeias
Hemoglobinas são
formadas pela
combinação de cadeias
de cada família de genes.
HbGower 1 HbF HbA2 HbA
de !l-globina.
Genes da família da
!l-globina (cromossomo 11)
Figura 3.17
G.,. A.,.
02Ô2 º2'12
t '
Organização das famílias de genes das globinas. Hb = hemoglobina.
C. Etapas da síntese das cadeias das globinas
A expressão de um gene de globina inicia no núcleo de precursores dos
eritrócitos, onde a sequência de DNA que codifica o gene é transcrita.
O RNA produzido pela transcrição é, na verdade, um precursor do RNA
mensageiro (RNAm), que é usado como um molde para a síntese de
uma cadeia de globina. Antes de o RNA estar apto a cumprir essa fun
ção, dois segmentos de RNA não codificante (íntrons) devem ser remo
vidos da sequência do RNAm precursor, e os três fragmentos restantes
(éxons) devem ser ligados novamente de forma linear. O RNAm maduro
resultante penetra no citosol, onde sua informação genética é traduzida,
produzindo uma cadeia de globina. (Um resumo desse processo é mos
trado na Fig. 3.18. Uma descrição mais detalhada da expressão gênica é
apresentada na Unidade VII, Capítulos 30-32.)
IV. HEMOGLOBINOPATIAS
As hemoglobinopatias são definidas como um grupo de doenças genéti
cas causadas pela produção de uma molécula de hemoglobina estrutural
mente anormal, pela síntese de quantidades insuficientes de hemoglobina
normal ou, raramente, por ambas. A anemia falciforme (HbS), a doença
da hemoglobina C (HbC), a doença da hemoglobina SC (HbS + HbC =
HbSC) e as talassemias são hemoglobinopatias típicas, que podem ter
consequências clínicas graves. As três primeiras condições resu ltam da
produção de hemoglobinas com sequências alteradas de aminoácidos
(hemoglobinopatias qualitativas), ao passo que as talassemias são devi
das a uma produção diminuída de hemoglobina normal (hemoglobinopa
tias quant itativas).
A. Anemia falciforme {doença da hemoglobina S)
A anemia falciforme, a mais comum das doenças falciformes dos eri
t rócitos, é uma doença genética causada pela subst ituição de um úni
co nucleotídeo (mutação pontual; ver pág. 449) no gene da cadeia da ,
f3-g lobina. E a doença hereditária do sangue mais comum nos Estados
Unidos, afetando cerca de 50.000 norte-americanos. Ela ocorre prin
cipalmente na população de afro-americanos, afetando 1 a cada 500
recém-nascidos afro-americanos. A anemia falciforme é uma doença
autossômica recessiva. Ela ocorre em pessoas que herdaram dois ge
nes mutantes (um de cada um dos genitores) que codificam a síntese
das cadeias í3 das moléculas de globina. (Nota: a cadeia da f3-globina
mutante é chamada f35
, e a hemoglobina resu ltante, a 2 f35
2, é denomi
nada HbS.) Um bebê não demonstra sintomas da doença até que uma
quantidade suficiente de HbF tenha sido subst ituída por HbS, de modo
que possa ocorrer a alteração no formato dos erit rócitos, que passam
a mostrar-se falciformes (ver pág. 36). A anemia falciforme caracteriza
-se por episódios dolorosos (crises) que ocorrem durante toda a vida,
por uma anemia hemolít ica crônica com hiperbil irrubinemia associa
da (ver pág. 284) e pelo aumento da suscetibilidade a infecções, que
começam, em geral, no início da infância. (Nota: a vida média de um
eritrócito na anemia falciforme é menor que 20 dias, comparada com
os 120 dias para eritrócitos normais; daí a anemia.) Outros sintomas in
cluem síndrome aguda do peito, acidentes vasculares cerebrais (AVC),
d isfunção esplênica e renal e alterações ósseas devido à hiperplasia da
medula óssea. Há redução da expectativa de vida. Os heterozigotos,
representando um em cada doze afro-americanos, possuem um gene
normal e um gene falciforme. Os eritrócitos desses heterozigotos con
têm tanto HbS quanto HbA, e diz-se que esses indivíduos apresentam
5 '
Bioquímica Ilustrada 35
As famílias dos genes de globinas
°' e 13 contêm t rês éxons (regiões de
codif icação) separados por dois
ínt rons (sequências intervenientes)
não codificadores.
Gene da
globina
lntron 2
Transcrição
t
3 '
Éxon 3
RNAm
precursor
Corte-junção
-.t NÚCLEO
RNAm
Tradução CITOSOL
~+-
Hemoglobina
Figura 3.18
Síntese de globinas. RNAm = ácido
ribonucleico mensageiro.
36 Denise R. Ferrier
-
Vai · His · Leu · Thr · Pro · Glu · Glu · Lys ~
1 2345 6 78
HbA
-
Vai · His · Leu · Thr · Pro · Vai · Glu · Lys ~
1 23 45 6 78
HbS
Vai · His · Leu · Thr · Pro · Lys · Glu · Lys ~
1 23 45 6 78
HbC
Figura 3.19
Subst ituições de aminoácidos
na hemoglobina S (HbS) e na
hemoglobina C (HbC).
Posições
no iníc io da
Fonte de
energia
eletroforese.,_ _____ __,
As hemoglobinas estão
carregadas negativamente
e migram em d ireção ao ânodo.
Figura 3.20
Diagrama das hemoglobinas (HbA),
(HbS) e (HbC) após eletroforese.
traço de anemia falci forme. Eles normalmente não apresentam sinto
mas clínicos (mas podem apresentar, quando sob condições de exer
cício físico intenso com desidratação) e podem ter uma expectativa de
vida normal.
1. Substituição de aminoácidos nas cadeias f3 da HbS. Uma
molécula de HbS contém duas cadeias de a-globina normais e
duas cadeias de [3-globina mutantes ([35
), nas quais o ácido glutâ
mico da posição 6 é substituído pela valina (Fig. 3.19). Assim sen
do, durante uma eletroforese em pH alcalino, a HbS migra mais
lentamente em d ireção ao ânodo (eletrodo positivo) do que a HbA
(Fig. 3.20). Essa alteração na mobilidade da HbS é o resu ltado
da ausência dos resíduos de glutamato negativamente carrega
dos nas duas cadeias [3, tornando, assim, a HbS menos negativa
que a HbA. (Nota: a eletroforese da hemoglobina obtida a partir
de eritrócitos lisados é ut ilizada rotineiramente no diagnóst ico da
doença e do traço falciforme. A anál ise do DNA também é ut iliza
da [ver pág. 493].)
2. Alterações falciformes e anóxia tecidual. A substituição de
um resíduo de glutamato carregado por uma valina apoiar forma
uma saliência na cadeia f3 a qual se associa de forma complemen
tar com a cadeia f3 de outra molécula de hemoglobina na célula
(Fig. 3.21 ). Em condições de baixa pressão de oxigênio, a deso
xiemoglobina S polimeriza dentro dos eritrócitos, formando uma
rede de polímeros fibrosos insolúveis que enrijece e distorce as
células, produzindo eritrócitos rígidos e deformados. Essas célu
las falciformes frequentemente bloqueiam o fluxo sanguíneo nos
capi lares de pequeno diâmetro. Essa interrupção no suprimen
to de oxigênio leva à anóxia (privação de oxigênio) localizada no
tecido, causando dor e, por fim, a morte isquêmica (infarto) das
células na vizinhança da área do bloqueio. A anóxia também leva
a um aumento na HbS desoxigenada. (Nota: o diâmetro médio
dos eritrócitos é 7,5 µm, enquanto o da microvasculatura é de 3 a
4 µm. Comparados aos erit róc itos normais, os eritrócitos falcifor
mes apresentam uma capacidade reduzida de se deformarem e
uma tendência aumentada de aderência àsparedes do vaso. Isso
d ificulta o movimento por meio dos vasos pequenos, causando
então oclusão microvascular.)
3. Variáveis que aumentam a indução de células falciformes. A
intensidade dessa morfologia anormal e, portanto, da gravidade da
doença é aumentada por qualquer variável que eleve a proporção
de HbS no estado desoxigenado (i.e., que reduza a af inidade da
HbS por oxigênio). Essas variáveis incluem redução na p02, aumen
to na pC02, diminuição do pH, desidratação e um aumento na con
centração de 2,3-BPG nos eritrócitos.
4. Tratamento. O tratamento envolve adequada hidratação, analgé
sicos, ant ibioticoterapia agressiva (em caso de infecção) e transfu
sões em pacientes que apresentem alto risco de oclusão fatal de
vasos. Transfusões intermitentes com concentrados de eritrócitos
reduzem o risco de acidentes vasculares, mas os benefícios devem
ser bem avaliados devido às complicações que podem ocorrer, as
quais incluem sobrecarga de ferro, que pode resultar em hemossi
derose (ver pág. 404), infecções sanguíneas e complicações imuno
lógicas. A hidroxiureia (hidroxicarbamida), um fármaco antitumoral,
é terapeuticamente úti l, pois aumenta os níveis ci rculantes de HbF,
D Uma m utação pontual
no DNA codifica a HbS,
estruturalmente alterada.
EI No estado desoxigenado,
U a 13-6-valina ent ra na
cavidade hidrofóbica de
outra cadeia 13, causando
a polimerização da HbS
em fibras longas e rígidas.
Cavidade
hidrofóbica
\
Val·His·Leu·Thr·Pro·Glu·Glu·Lys -.Al'V
t
Val·His·Leu·Thr·Pro·Yal·Glu·Lys -.Al'V I
5.
Cadeia 13
6-p-Valina
Fibras
o que diminui a indução de células falc iformes. Isso leva a uma di
minuição na frequência de crises dolorosas e reduz a mortal idade.
Transplante de células-tronco é uma possibilidade. (Nota: a mor
bidade e a mortal idade associadas à anemia falciforme levaram à
sua inclusão nos testes de triagem em recém-nascidos, para que
indivíduos afetados possam iniciar a antibioticoterapia profi lática
logo após o nascimento.)
Possível vantagem seletiva do estado heterozigoto. A elevada
frequência da mutação [35 entre africanos negros, apesar de seus
efeitos lesivos no estado homozigoto, sugere que exista uma van
tagem seletiva para indivíduos heterozigotos. Por exemplo, os hete
rozigotos para o gene da anemia falciforme são menos suscetíveis
à malária, causada pelo parasita P/asmodium falciparum. Esse mi
crorganismo desenvolve uma parte obrigatória de seu ciclo vital no
eritrócito. Uma teoria sustenta que, uma vez que em indivíduos he
terozigotos, assim como nos homozigotos para HbS, essas células
apresentam um tempo de vida menor do que o normal, o parasita
não pode completar seu estágio intracelular de desenvolvimento.
Esse fato pode oferecer uma vantagem seletiva aos heterozigotos
que vivem em reg iões onde a malária é uma das maiores causas de ,
morte. Por exemplo, na Africa, a distribuição geográfica da anemia
falciforme é similar à da malária.
B. Doença da hemoglobina C
Assim como a HbS, a HbC é uma variante de hemoglobina com uma
substituição de um único aminoácido na posição seis da cadeia de
[3-globina (ver Fig. 3.19). Nesse caso, entretanto, uma lisina substitui o
glutamato (em vez da substituição por uma val ina na HbS). (Nota: com
essa substituição, a HbC move-se mais lentamente em direção ao âno
do do que a HbA ou a HbS [ver Fig. 3.20].) Os raros pacientes homozi
gotos para a HbC geralmente apresentam anemia hemolítica crônica,
relativamente leve. Esses pacientes não sofrem crises de infarto e não
necessitam de qualquer terapia específica.
Bioquímica Ilustrada 37
1:11 Fibras intracelulares
1:1 de HbS distorcem
os eritrócitos.
Os eritrócitos rígidos
obstruem o f luxo
sanguíneo nos capi lares.
Microinfartos provocados
pela anóxia do tecido,
resultando em forte dor.
Figura 3.21
Eventos celulares e moleculares
que levam a uma crise falciforme.
HbS = hemoglobina S.
38 Denise R. Ferrier
Fármacos
Oxidantes
endógenos
Hemoglobina
(Fe21
Metemoglobina
(Fe3+)
Figura 3.22
NAD•
NADH
Formação de metemoglobina e sua
redução à hemoglobina pela
NAOH-citocromo b5 redutase.
a Cada cópia do cromossomo 11 tem apenas
um gene para as cadeias da ~-globina.
r
~ .............• --- --- . ê . - -. . . . . . . . . ..... "
--- :·····ê .. ···: :··· · ·~···· ·: - - - -. . . . . . . . . . . ..... " ............. "
Normal Jl-Talassemia Jl-Talassemia
menor maior
m a a al3 a cx õ a ªa a 13 a ô a
1313
a HbA HbAi a ...
13 13 13 ô ª 'Y ªªª
ô 'Y ª cxacfi
'Y 'Y õ HbF Precipitado
de cadeia a
Figura 3.23
A. Mutações no gene da 13-globina
nas 13-talassemias. B. Tetrâmeros
de hemoglobina (Hb) formados
nas 13-talassemias.
C. Doença da hemoglobina SC
A doença da hemoglobina SC (HbSC) é outra das doenças que indu
zem o formato de foice nos eritrócitos. Nessa doença, algumas cadeias
de 13-globina possuem a mutação falciforme, enquanto outras cadeias
13 possuem a mutação encontrada na doença da HbC. (Nota: pacientes
com a doença da HbSC são duplamente heterozigotos. São chamados
de heterozigotos compostos, pois ambos os genes para a cadeia da
13-globina são anormais, embora diferentes um do outro.) Os níveis de
hemoglobina tendem a ser mais altos na doença da HbSC do que na
anemia falciforme, podendo estar no limite inferior da faixa normal. O
curso c lín ico da doença em adultos com a anemia HbSC difere daquele
da anemia falci forme, pois os s intomas, como as crises dolorosas, são
menos frequentes e menos graves. Existe, no entanto, considerável va
riabil idade clínica.
D. Metemoglobinemias
A oxidação do átomo de ferro de Fe2+ para Fe3+ no núcleo heme da he
moglobina produz a metemoglobina, que é incapaz de ligar 0 2 . Essa
oxidação pode ser causada pela ação de certas substâncias, como os
nitratos, ou por produtos endógenos, como espécies reativas do oxigênio
(ver pág. 148). A oxidação pode também resultar de defeitos congênitos.
Por exemplo, uma deficiênc ia na NAOH-citocromo b5-redutase (também
chamada de NAOH-metemoglobina-redutase), a enzima responsável pela
conversão da metemoglobina (Fe3+) em hemoglobina (Fe2+), leva ao acú
mulo de metemoglobina (Fig. 3.22). (Nota: os eritrócitos de recém-nasci
dos apresentam aproximadamente metade da capacidade dos eritrócitos
de adultos em reduzir a metemoglobina.) A lém disso, mutações raras nas
cadeias das a- ou 13-globinas podem levar à produção de HbM, uma
hemoglobina anormal, resistente à redutase. As metemoglobinemias são
caracterizadas por "cianose chocolate" (uma coloração marrom-azulada
da pele e das membranas de mucosas) e sangue cor de chocolate, como
resultado da coloração escura da metemoglobina. Os sintomas estão re
lacionados com o grau de hipóxia tecidual, e incluem ansiedade, dor de
cabeça e dispneia. Em casos raros, podem ocorrer coma e morte. O tra
tamento usa azul de metileno, o qual se oxida ao reduzir o Fe3+.
E. Talassemias
As talassemias são doenças hemolíticas hereditárias, nas quais ocorre
um desequilíbrio na síntese das cadeias de globinas. Como um grupo,
são os distúrbios mais comuns de um único gene em humanos. Nor
malmente, a síntese das cadeias de a- e 13-globinas é coordenada de
modo que cada cadeia a tenha uma cadeia 13 correspondente. Isso leva
à formação de cx.2132 (HbA). Nas talassemias, a síntese da cadeia a ou
da 13 é defeituosa, e a concentração de hemoglobina é reduzida. Uma
talassemia pode ser causada por uma série de mutações, incluindo de
leções de todo o gene, ou ainda substituições ou deleções de um ou
vários nucleotídeos no DNA. (Nota: cada talassemia pode ser c lassifica
da como um distúrbio em que não são produzidas cadeias de globinas
[aº- ou 13°-talassemia], ou como um distúrbio em que algumas cadeias
são sintetizadas, porém em níveis reduzidos [a+- ou 13+-talassemia].).
1. jl-Talassemias. Nessas doenças, a síntese de cadeias de j3-globi
na é diminuída ou ausente, geralmente como resultado de uma muta
ção pontualque afeta a produção de um RNAm funcional. A síntese
da cadeia de a-globina, contudo, é normal. Cadeias de a-globina em
excesso não podem formar tetrâmeros estáveis e, assim, precipitam,
causando a morte prematura de células inicialmente destinadas a
2.
tornarem-se eritrócitos maduros. Também pode ocorrer aumento em
a.202 (Hb~) e em a 2-y2 (HbF). Ex istem apenas duas cópias do gene
da [3-globina em cada célula (uma em cada cromossomo 11). As
sim sendo, indivíduos com defeitos no gene da cadeia de [3-g lobina
apresentam o traço de [3-talassemia ([3-talassemia menor) se t iverem
apenas um dos genes defeituoso, ou [3-talassemia maior (anemia de
Cooley) se ambos os genes para a cadeia de [3-globina forem defei
tuosos (Fig. 3.23). Uma vez que o gene da [3-g lobina somente é ex
presso no final da gestação, as manifestações físicas das [3-talasse
mias só aparecem diversos meses após o nascimento. Os indivíduos
com [3-talassemia menor produzem algumas cadeias f3 e geralmente
não necessitam de tratamento específico. Entretanto, os bebês que
nascem com [3-talassemia maior parecem saudáveis ao nascimen
to, tornando-se gravemente anêmicos, em geral durante o primeiro
ou segundo ano de vida, devido à eritropoiese ineficiente. São tam
bém observadas alterações esqueléticas, como resultado da hema
topoiese extramedular. Esses pacientes necessitam de transfusões
regulares de sangue. (Nota: embora esse tratamento salve a vida dos
pacientes, o efeito cumulativo das transfusões é uma sobrecarga de
ferro. A utilização de terap ia com quelantes de ferro tem reduzido a
morbidade e a mortalidade.) A única opção disponível com potencial
de cura é o transplante de células-tronco hematopoiéticas.
a-Talassemias. Nessas doenças, a síntese das cadeias de a-glo
bina está d iminuída ou ausente, geralmente como resultado de muta
ções por deleção. Uma vez que o genoma de cada indivíduo contém
quatro cópias do gene de a-globina (duas em cada cromossomo 16),
existem d iversos níveis de deficiência de cadeias de a-globina (Fig.
3.24). Se um dos quatro genes é defeituoso, o indivíduo é chamado
de portador silencioso de a-talassemia, pois não apresenta qualquer
das manifestações físicas da doença. Se dois genes da a-globina
são defeituosos, o indivíduo é denominado como possuidor do traço
de a-talassemia. Se três genes de a-globina são defeituosos, o in
divíduo tem a doença da hemoglobina H ([34), uma anemia hemolítica
de gravidade variável. Se todos os quatro genes de a-glob ina são
defeituosos, isso resulta na doença da Hb de Bart (-y4), com hidropisia
fetal e morte do feto, pois as cadeias de a-globina são necessárias
para a síntese de HbF. (Nota: vantagens dos heterozigotos contra a
malária são observadas tanto na a- quanto na [3-talassemias.)
V. RESUMO DO CAPÍTULO
A hemoglobina A (HbA), a principal hemoglobina de adultos, é composta por
quatro cadeias polipeptídicas (duas cadeias a e duas 13 , a 2 j32) unidas por inte
rações não covalentes (Fig. 3.25). As subunidades ocupam posições diferentes
uma em relação à outra na desoxiemoglobina, se comparadas com a oxiemo
globina. A forma desoxi da Hb é chamada de "T" ou conformação tensa. Ela
apresenta restrições estruturais que limitam o movimento das cadeias polipep
tídicas. A forma T é a forma da hemoglobina de baixa afinidade por oxigênio.
A ligação do oxigênio (02) ao ferro do núcleo heme causa a ruptura de algumas
ligações iônicas e de hidrogênio e movimento dos dímeros. Isso leva a uma es
trutura chamada "R,'' ou conformação relaxada. A forma R é a forma da hemo
globina de alta afinidade pelo oxigênio . A curva de dissociação do oxigênio
da hemoglobina tem forma sigmoidal (ao contrário da mioglobina, que é hiper
bólica), indicando que as subunidades ligam-se ao 0 2 de forma cooperativa.
A ligação de uma molécula de oxigênio a um grupo heme aumenta a afinidade
pelo oxigênio dos demais grupos heme na mesma molécula de Hb (cooperati-
Bioquímica Ilustrada 39
Legendas
Gene normal para
cadeia de or-globina
\ ---- ~ Par de
.............. . .
••• ••••• • ••• • #
I
Gene deletado da
cadeia da or-g lobina
.,.......-Cromossomos 16
Cada cópia do cromossomo 16 possui dois
genes adjacentes para cadeias de or-glob ina.
Indivíduos
normais
............. Hl!ll-. 1 . ~ O'. • •
r o ••• • ••• • •• • •
Traço de a-talassemia
(forma heterozigota)
······· ~····· •....... .....•
-i ex 1 i--i cx2 i-•·· ········ ··• •.....••.....•
Traço de or-talassemia
(forma heterozigota)
. . . . . . . . . . . . . . . ............ . . 1 . . 2 .
~ ex r----c a !----
ro •••o •••••• o' •o•• • o•• • o•• ••
Doença da
hemoglobina H
(clinicamente grave)
............. Hl!ll-. .
-liga-se fortemente (porém reversivelmente) ao
ferro da hemoglobina, formando carboxiemoglobina. Hemoglobinopatias são
distúrbios causados basicamente por produção de moléculas de Hb estrutural
mente anormais, como na anemia falciforme, ou por síntese de quantidades
insuficientes de subunidades da Hb normal, como nas talassemias (Fig. 3.26).
Bioquímica Ilustrada 41
Hemoglobinopatias
1
t
Síntese de hemoglobinas Síntese de quantidades insuficientes
Outras estruturalmente anormais de hemoglobina normal
• ' '
1
por exemplo por exemplo por exemplo por exemplo por exemplo
t t t t t por exemplo
[ HbS l [ HbC l [ HbSC l [ o-Talassemias l [ 13-Talassemias l
' ' ' '
causada por causada por causada por causadas por causadas por
y f f .. ..
Mutações pontuais em Mutações pontuais em Mutações pontuais
Mutações por deleção Mutações pontuais
• •
ambos os genes que ambos os genes que diferentes em cada gene resultando em resultando em
codificam a cadeia 13 codificam a cadeia 13 que codifica a cadeia 13 t t
1 1 1 Síntese diminuída Síntese diminuída
consistindo de substituição consistindo de substituição consistindo de substituição
das cadeias o das cadeias 13
! ! t ' ' [ 136 Glu-Val l [ 136 Glu- Lys l 136 Glu- Val levando à levando à
t t 1 1 136 Glu- Lys leva à leva à [ Anemia l [ Anemia l t t ' leva à 1 ' levando ao levando ao
Solubilidade reduzida Anemia hemolítica t t t
na forma desoxi moderada Fenótipo mais
Acúmulo de -y4 Acúmulo de o2-y2 grave que HbC 1 (Hb de Bart) e de (HbF) e de o2õ2 (Hb~) resultando em 1
caracterizado por 134 (HbH) e precipitação e precipitação
• t de cadeias 13 da cadeia o
Formação de polímeros Solubilidade reduzida
1
na forma desoxi [ Metemoglobinemia l resultando em
t
.
resultando em caracterizada por
't t Oclusão vascular
[ Formação de polímeros J [ Fe2+ - Fe3+ l 1
resultando em ' •
resultando em resultando em
t 't t
[ Dor ("crises") l [ Oclusão vascular l [ Incapacidade de ligar 0 2 J
• •
resultando em resultando em
t t
[ Dor ("crises") l [ Cianose chocolate l
Figura 3.26
Mapa de conceitos-chaves para hemoglobinopatias. Hb = hemoglobina; Fe = ferro; 0 2 = oxigênio.
Questões para estudo
Escolha a MELHOR resposta.
3.1 Qual das afirmações a segui r sobre as hemoglobinas
está correta?
A. A HbA é a hemoglobina mais abundante em adultos
normais.
B. O sangue fetal apresenta afinidade mais baixa por
oxigênio do que o sangue de adulto, pois a HbF tem
maior afinidade pelo 2,3-bisfosfogl icerato.
C. A composição de cadeias de globina para a HbF é
C:X2Õ2.
D. A HbA1c difere da HbA por uma única substituição de
aminoácido, determinada geneticamente.
E. A Hb~ aparece precocemente na vida fetal.
Resposta correta = A. A HbA perfaz mais de 90% da hemoglobi
na em um adulto normal. Se a HbA10 for incluída, a porcentagem
aumenta para cerca de 97%. Uma vez que o 2,3-bisfosfoglicerato
(2,3-BPG) reduz a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, a inte
ração mais fraca entre o 2,3-BPG e a HbF resulta em uma afinidade
maior pelo oxigênio para a HbF, quando comparada com a HbA. A
HbF consiste em a 2-y2 • A HbA10 é uma forma glicada da HbA, pro
duzida via reações não enzimáticas nos eritrócitos. A HbA2 é um
componente menor da hemoglobina normal do adulto, aparecendo
inicialmente logo após o nascimento e aumentando até atingir os ní
veis encontrados nos adultos (cerca de 2% do total da hemoglobina)
por volta dos 6 meses de idade.
42 Denise R. Ferrier
3.2 Qual das seguintes afirmações sobre a possibilidade da
acidose em induzir uma crise na anemia falciforme está
correta?
A. A acidose diminui a solubilidade da HbS.
B. A acidose aumenta a afinidade da hemoglobina pelo
• A •
ox1gen10.
e. A acidose favorece a conversão da hemoglobina da
forma tensa para a forma relaxada.
D. A acidose desloca a curva de dissociação do oxigê
nio para a esquerda.
E. A acidose diminui a capacidade do 2,3-bisfosfoglice
rato de ligar-se à hemoglobina.
3.3 Qual das afirmações a seguir a respeito da ligação do
oxigênio à hemoglobina está correta?
A. O efeito Bohr resulta em uma menor afin idade por
oxigênio em valores mais altos de pH.
B. O dióxido de carbono aumenta a afinidade da he
moglobina por oxigênio ao ligar-se aos grupos e
-terminais das cadeias polipeptídicas.
e. A afinidade da hemoglobina por oxigênio aumenta à
medida que a porcentagem de saturação aumenta.
D. O tetrâmero de hemoglobina liga quatro moléculas
de 2,3-bisfosfoglicerato.
E. A oxiemoglobina e a desoxiemoglobina apresentam
a mesma afinidade por prótons.
3.4 A 13-lisina 82 na hemoglobina A é importante para a li
gação do 2,3-bisfosfoglicerato. Na Hb Helsinki, esse
aminoácido é substituído por uma metionina. Qual das
seguintes alternativas a respeito da Hb Helsinki deve ser
verdadeira?
A. Ela é estabilizada na forma tensa e não na forma re
laxada.
B. Ela deve apresentar aumento na afinidade por oxigê
nio e, consequentemente, redução na liberação de
oxigênio aos tecidos.
e. Sua curva de dissociação do oxigênio deve estar
deslocada para a direita em relação à HbA.
D. Sua presença resulta em anemia.
3.5 Um homem com 67 anos de idade se apresentou no se
tor de emergência com um histórico de uma semana de
ang ina e respiração curta. Ele reclamou que seu rosto e
suas extremidades apresentavam "coloração azu lada".
Sua história médica inclui angina crônica estável, tratada
com dinitrato de isossorbida e nit roglicerina. O sangue
coletado para análise apresentou coloração chocolate.
Qual dos diagnósticos a seguir seria o mais provável?
A. earboxiemoglobinemia.
B. Doença da hemoglobina Se.
e. Metemoglobinemia.
D. Anemia falciforme.
E. 13-Talassemia.
3.6 Por que a doença da hemoglobina e é uma doença não
falciforme?
3. 7 O que seria verdadeiro acerca do grau de formas falcifor
mes em eritrócitos em indivíduos com HbS e persistência
hereditária da HbF?
Resposta correta = A. A HbS é significativamente menos solúvel na
forma desoxigenada, comparada à oxiemoglobina S. Uma diminui
ção do pH (acidose) desloca a curva de dissociação do oxigênio
para a direita, indicando menor afinidade por oxigênio (com aumento
na sua liberação). Isso favorece a formação da hemoglobina na for
ma desoxi, ou tensa, podendo desencadear uma crise falciforme. A
ligação do 2,3-bisfosfoglicerato é aumentada, pois ele liga-se ape
nas à forma desoxi da hemoglobina.
Resposta correta = C. A ligação do oxigênio a um dos grupos heme
aumenta a afinidade por oxigênio dos demais grupos heme na mes
ma molécula. Um aumento no pH resulta em maior afinidade pelo
oxigênio. O dióxido de carbono reduz a afinidade pelo oxigênio, pois
diminui o pH. Além disso, a ligação do dióxido de carbono à porção
N-terminal estabiliza a forma tensa, ou desoxi. A hemoglobina liga
uma molécula de 2,3-bisfosfoglicerato. A desoxiemoglobina apre
senta maior afinidade por prótons que a oxiemoglobina.
Resposta correta = B. A substituição da lisina por uma metionina
diminui a capacidade dos grupos fosfato negativamente carregados
do 2,3-bisfosfoglicerato (2,3-BPG) ligarem-se às subunidades 13 da
hemoglobina. Uma vez que o 2,3-BPG diminui a afinidade da he
moglobina por 0 2, uma redução no 2,3-BPG deve resultar em au
mento na afinidade pelo oxigênio (02) e redução em sua liberação
para os tecidos. A forma relaxada é a forma da hemoglobina de alta
afinidade pelo oxigênio. Aumento na afinidade por 0 2 (redução na
liberação) resulta em um deslocamento para a esquerda na curva de
dissociação do oxigênio. A redução na liberação de 0 2 é compensa
da pelo aumento na produção de eritrócitos.
Resposta correta = C. A oxidação do íon ferroso (Fe2
) produzindo o
íon férrico (Fe3
• ) no grupo prostético heme da hemoglobina forma a
metemoglobina. Isso pode ser causado pela ação de certas subs
tâncias, como os nitratos. As metemoglobinemias são caracteriza
das por c ianose chocolate (coloração marrom-azulada da pele e das
membranas demucosas) e sangue de coloração chocolate, como
resultado da coloração escura da metemoglobina. Os sintomas es
tão relacionados com hipóxia tecidual e incluem ansiedade, dor de
cabeça e dispneia. Em casos raros, podem ocorrer coma e morte.
(Nota: benzocaína, uma amina aromática utilizada como anestésico
tópico, é uma causa para a metemoglobinemia adquirida.)
Na HbC, o glutamato polar é substituído pela lisina polar, em vez de
o ser pela valina não polar, como na HbS.
Diminuiria, pois a HbF reduz a concentração de HbS. Ela também
inibe a polimerização da desoxi-HbS.