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ESPAÇO HUMANA MENTE Formação continuada de Psicanálise Integrativa O LUTO PATOLÓGICO A Terapia Cognitiva e o Tratamento do Luto Patológico Adriana da Silva Lirio Soares Rio de Janeiro 2025 RESUMO O desenvolvimento humano é marcado por estressores que geram sofrimento, entre os quais destacam-se as perdas. O luto, resultante dessas experiências, apresenta- se como um processo muito diversificado do ponto de vista de sua evolução e conseqüências. Este trabalho tem como objetivo fazer uma revisão da bibliografia concernente ao tema, abordando o Luto Normal - caracterizado por evoluir espontaneamente para a resolutibilidade, em um processo no qual a pessoa enlutada alcança e restabelece seu equilíbrio cognitivo em tempo viável - , o Luto Patológico - caracterizado por uma evolução que progride para um quadro de desestruturação cognitiva e comportamental, geralmente grave – e apresentando Terapia Cognitiva (TC) como proposta terapêutica para o processo do luto patológico. Evidencia-se que, através de técnicas clássicas da TC, que auxiliam o paciente a elaborar os transtornos causados pelas perdas, pode-se auxiliá-lo em sua reabilitação e organização cognitiva e encaminhá-lo à normalidade de comportamento e de sua vida. Palavras Chave: Perdas, Luto Patológico, Cognição, Terapia Cognitiva ABSTRACT Human development is marked by stressors that cause suffering, among which stand out the losses. Mourning, results from these experiments, presented as a very diverse in terms of its evolution and consequences. This paper aims to review the literature related to the theme, addressing the Normal Grief - characterized by resolvable to evolve spontaneously in a process in which the bereaved person achieves and restore cognitive balance in a reasonable time frame - Pathological Grief - characterized by an evolution that progresses to a framework of cognitive and behavioral disruption, usually severe - and presenting Cognitive Therapy (CT) as a therapeutic proposal for the process of pathological mourning. It is evident that by classical techniques of CT, which help the patient to develop the disorders caused by loss, we can assist you in your rehabilitation and cognitive organization and send it to normal behavior and your life. Keywords: Loss, Grief Pathology, Cognition, Cognitive Therapy SUMÁRIO INTRODUÇÃO 10 O LUTO NORMAL OU SIMPLES 15 Conceito 16 Fases 16 Os Fatores Determinantes do Luto 21 Mecanismos do Processo de Resolução 24 O LUTO PATOLÓGICO 26 Definição 26 Indivíduos Susceptíveis 28 Características Psicopatológicas 30 Aspectos Diagnósticos 32 TRATAMENTO DO LUTO PATOLÓGICO – UMA VISÃO DA TERAPIA COGNITIVA 36 Aplicação da TCC no Processo de Luto Patológico 40 CAPÍTULO II - DICOTOMIA ENTRE SER MULHER E SER MÃE ............................... 43 A Diversidade das Aspirações em ser Mulher ..........................................................43 As Implicações do Conflito de Ser Mãe ...........................................................45 O Narcisismo Materno em Relação ao Bebê ....................................................45 CAPÍTULO III - AS VICISSITUDES DA MATERNIDADE E SUAS INQUIETAÇÕES O Conceito de Melancolia, de acordo com Sigmund Freud ..............................60 A Posição Esquizoparanoide e a Posição Depressiva, de acordo com Melanie Klein De Mãe para Filha, a Transmissão na Maternidade O Sintoma Baby-Blues: Depressão e Ansiedade ao Deparar-se com o Bebê ..........63 CAPÍTULO IV: O LUTO .............................................68 ELABORAÇÃO DO LUTO .....................................................70 FASES DO LUTO ...............................................................75 PROCESSOS DE LUTO .......................................................80 LUTO NÃO ELABORADO ........................................................83 ASPECTOS PSICOLÓGICO DO LUTO ..............................................84 CAPÍTULO 2: ARTERAPIA ..............................................89 HISTÓRICO DA ARTETERAPIA .......................................................90 TÉCNICA EXPRESSÃO CRIATIVA ..............................................91 CAPÍTULO 3: GRUPO DE ARTERAPIA COM CLIENTES EM PROCESSO DE LUTO ORIGEM DO GRUPO .........................................................97 CONCLUSÃO 98 REFERÊNCIA 101 1. INTRODUÇÃO O desenvolvimento emocional e cognitivo do ser humano é estruturado mediante um processo contínuo de experiências vividas. Entre elas, a vivência de perdas tais como morte, divórcios, separação de pais, distanciamento de filhos, perdas de habilidades adquiridas, etc. Dentre os aspectos relativos ao comportamento e à existência humana e no complexo campo de estudos acerca do sofrimento, as perdas certamente estão entre as mais dramáticas e inquietantes experiências vividas pelo ser humano, especialmente aquelas causadas pela morte de alguém que se ame. A palavra perda é definida pelo Dicionário de Oxford (1996): 1.privação, negação, sacrifício, confisco, desaparecimento; derrota, retrocesso, desvantagem, decepção, fracasso, queda, colapso, desarranjo, ruína; 2. Diminuição, erosão, redução, empobrecimento, encolhimento, desperdício, responsabilidade, causalidade, morte. 3. desvantagem, detrimento, dano, prejuízo, estrago (FUKUMITSU, 2004, p 889). Este trabalho não tem a pretensão de esgotar o assunto acerca do sofrimento humano. Tão somente, abordaremos uma de suas faces de forma mais objetiva, a saber: o luto, particularmente em seu aspecto atípico ou patológico, como veremos conceitualmente adiante, em suas características clínicas e terapêuticas. Existem outras perdas que também levam à vivência de luto, mas neste trabalho o foco é dado ao luto vivido diante da perda pela morte. A perda é inerente à existência de qualquer indivíduo em toda gama de suas inquietudes, uma vez que a morte é tão presente quanto a vida e a reação a ela sempre foi permeada de sofrimento em suas múltiplas manifestações, num largo espectro de intensidade. A palavra luto vem do alemão, trauer, que significa “o afeto da dor como sua manifestação externa” (VIORST, 1986). A dimensão psíquica do luto comporta várias vertentes de análise quanto ao seu conteúdo afetivo, suas causas, suas conseqüências no cotidiano, no indivíduo e no coletivo social. As reações ao luto fazem parte das interações afetivas e da formação cognitiva de cada indivíduo (FUKUMITSU, 2004). 10 Como determinantes da maneira como se vivencia o luto, alguns fatores podem ser mencionados, entre os quais: a relação com o trauma, o tipo e a causa da morte, o momento de vida da pessoa que experiência da perda, as condições de saúde, os traços de personalidade, o contexto familiar, a cultura e a idade do enlutado. A expressão de luto abrange uma ampla variedade de emoções, dependendo de normas e expectativas culturais e das circunstâncias da perda (PARKES, 2009). Assim como são diferentes os conceitos de mundo de cada um, os sonhos, as interações cognitivas, são também diferentes as possíveis reações de cada um diante do luto. [...] O que me intriga nas situações de perdas é o fato de que o impacto da perda provoca uma diversidade complexa de sentimentos. (FUKUMITSU, 2004, p. 14). Perdas importantes causam traumas emocionais e cognitivos importantes. Assim, perda, pesar e luto são sinônimos. Luto, especificamente, é o sentimento subjetivo causado pela perda de um ente querido, ou até mesmo um divórcio, perda de algo que tem valor afetivo, etc. (PARKES, 2009). Diante da perda, da dor e do sofrimento, o indivíduo enlutado busca o equilíbrio, a sobrevivência, o retorno à normalidade emocional, psíquica, estrutural, social e afetiva. Alguns estudos investigam a maneira pela qual os indivíduos que viveram perdas significativas atravessam e transpõem as dificuldades impostas por essas experiências: Em seu livro “Uma Visão Fenomenológica do Luto – Um estudo sobre as perdas no desenvolvimento humano” (FUKUMITSU, 2004 p.15). Karina Okajima Fukumitsu relata: Em sua dissertação de doutorado,de objetos homossexuais. E, na terceira, a feminilidade normal: o desejo de ter um pênis poderá ser substituído pelo desejo de ter um filho. A partir desse desejo, inicia-se o complexo de Édipo feminino, a dissolução desse complexo; ao contrário do que ocorre no masculino, quando o menino, pelo medo da castração, renuncia o amor pela mãe, fazendo emergir o superego. Já, no feminino, isso acontece tardiamente e de forma incompleta, sem um fator representativo, causando danos à formação do superego. Quanto a isso, seguindo a exposição de Burnswick e Deutsch, Destaca que tanto o menino como a menina lutam para adquirir atividade e independência diante de sua mãe. Nesta luta, o pai representa o mundo exterior, a realidade. A menina, em um dado momento de seu desenvolvimento, abandona a mãe e busca o pai, buscando o mundo exterior. Abandonar à mãe da primeira infância significa, para ambos os sexos, desenvolver atividade e certa agressividade. Estes impulsos são ligados a tendências eróticas. No menino, tornam o aspecto de desejos de penetração agressiva da mãe e se vivenciam no pênis (fase fálica), Helene Deutsch admite a possibilidade de que menina desde o princípio seja mais passiva biologicamente que o menino. Como órgão executivo de seus desejos erótico-agressivos, dispõe do clitóris, anatômica e embriologicamente parecido com o pênis rudimentar. Segundo Freud, toda a genitalidade infantil da menina se concentra neste órgão, e sua inveja do pênis provem da comparação desfavorável para o clitóris. Segundo Helene Deutsch, a inveja fálica é importante, sem ser fundamental no desenvolvimento feminino. Igualmente seria um exagero interpretar mais tarde a maioria das dificuldades neuróticas da mulher como expressões de sua inveja fálica. (apud LANGER, 1981, p. 46- 47). Freud, em seu texto “A Feminilidade”, acrescenta que: Junto ao amor intenso há uma forte inclinação agressiva, e quanto mais apaixonadamente a criança ama seu objeto, mais sensível torna-se as decepções e frustrações da parte dele. Por fim, o amor tem de sucumbir à hostilidade acumulada. (1933, p. 279). A nosso ver, pode-se pensar que sentimentos ativos de amor seguem junto a uma inclinação à agressividade, por não suportar as frustrações que são pertinentes a esse relacionamento. Para Birman (1999), a tese psicanalítica sobre a feminilidade, anunciada no final do discurso de Freud, contribuiu para a psicanálise na atualidade. Ele nos diz que a feminilidade está no centro do erotismo do sujeito, o qual tem horror a isso, justamente porque, nesse registro, o representante fálico está faltante e sem alçar. Na feminilidade, os assuntos são limitados e divididos, distantes do fingimento mundial. Por isso mesmo, a feminilidade é fonte de horror. Nela, a finitude e a insegurança do indivíduo tomam corpo, posicionando o sujeito livre a fazer, o que evidencia sua impossibilidade de encontrar conteúdos completos. Ainda, segundo Birman: A feminilidade, como registro crítico dos enunciados totalizantes, delineia a psicanálise como estilística da existência. Assim, o desamparo do sujeito é a matéria prima da psicanálise, já que aquele é resultante na subjetividade de um mundo que não se funda mais sobre ideais totalizantes e universalizantes. Ser sujeito é ter que recomeçar um percurso singular, é ter que lidar com o desamparo no mundo. A feminilidade nos marca e nos revela não, apenas nosso movimento do corpo no mundo, mas as incertezas de nossas ações, e a nossa finitude. (1999, p. 94-95). O autor, também, afirma que a busca por identificação não para na infância; a mulher continua a buscar e tenta se encontrar em diversos momentos: no casamento, na maternidade. Outra mudança na natureza da mulher, para a qual os cônjuges não estão preparados, pode surgir depois que nasce o primeiro filho. As identificações não ocorrem apenas nos filhos para com os pais; a identificação acontece também dos pais para os filhos, projetando neles suas ambições. Freud (1914, p. 37) presumiu que “o amor dos pais, tão comovente e no fundo tão infantil, não é outra coisa senão o narcisismo dos pais renascido, que na sua transformação em amor objetal revela inconfundivelmente a sua natureza de outrora“, isto é, a partir do nascimento da criança, os pais revivem seu narcisismo e suas implicações, do imaginário dos pais repleto de expectativas e planos, colocando no bebê seus anseios e desejos. Esse bebê idealizado torna-se o depositário dos desejos aos quais os pais, outrora, renunciaram, trazendo consigo a ideia de imortalidade para seus pais. Em seu artigo “A Feminilidade” (1933, p. 291), Freud diz que: Sob a impressão da própria maternidade, pode se reavivar uma identificação com a mãe, identificação que a mulher rejeitava até o casamento, e arrebatar toda a libido disponível, de modo que a compulsão à repetição reproduz um casamento infeliz dos seus pais. O fato de que o velho fator da inveja do pênis ainda não perdeu sua força mostra-se nas diferentes reações de uma mãe ao nascimento de um filho ou de uma filha. De acordo com Alonso (2011), a saída feminina que se elabora, segundo Freud, por meio da pretensão de se ter um bebê, leva os terapeutas contemporâneos a confirmarem que ele teria suprimido a mulher colada à figura materna, desenvolvendo um mito importante na época: a mulher no papel de mãe, deixando-a, dessa maneira, legitimada à fase fálica. Será que é possível propagar essa afirmação? É possível confirmar que, para Freud, a mulher está fixada à figura de ser mãe, ou que o feminino está diminuído ao materno? É com a universalização do recalque e a felicitação das equivalências que a feminilidade vai sendo aproximada, cada vez mais, da neurose. Em 1932, esses dois lugares parecem confundir-se. O feminino e seu enigma correspondem nesse momento a uma condição histérica que concerne à subjetividade da mulher. Essa sobreposição se produz por meio da essencialização e generalização de certas atribuições, como a prevalência do narcisismo no amor, a onipresença da inveja do pênis e a relevância da maternidade como meta exclusiva. (p. 329). Em “As Ambivalências da Maternidade”, Badinter (2010, p. 18) comenta que, antes dos anos 1970, a reprodução era ao mesmo tempo um instinto, um dever religioso e uma dádiva a mais para a sobrevivência da espécie. Contudo, desde que as mulheres passaram a usar os contraceptivos, o desejo de ter filhos não é nem constante, nem universal. Algumas os desejam e outras nem os querem mais; outras, ainda, nunca os quiseram. Já que existe a escolha, existe também a diversidade de opiniões; não é possível mais falar de instinto ou desejo universal. A partir do avanço tecnológico da biomedicina, as mulheres alcançaram o domínio do corpo, e da procriação, controlando a concepção, dispensando o homem a participar da fecundação. Observando os acontecimentos, Roudinesco (2003, p. 146) sustenta que “um fosso irreversível parece ter se cavado, pelo menos no Ocidente, entre o desejo de feminilidade e o desejo de maternidade, entre o desejo de gozar e o dever de procriar.”. A chance de constituir uma família, sem a obrigação do coito sexual, ou meramente não desejar a maternidade, seguida por um crescente envolvimento dos homens na formação dos filhos, chama a atenção para um compromisso de refletir a respeito do conceito casamento. Essas modificações no paradigma familiar transformaram essa organização alcançável para os homossexuais, que foram excluídos durante longos anos. Freud finaliza o texto “A Feminilidade”, afirmando que: A elaboração sobre a feminilidade não está completa, nem sempre parece amigável, e ele declara que este recorte é a respeito da função sexual e que há um ser humano em outros aspectos para além disso e, por fim, nos diz: ‘se quiserem saber mais sobre a feminilidade, interroguem suas próprias vivências, ou dirijam-se aos escritores, ou esperem até que a ciência possa lhes dar informação mais profunda e coerente.’(1933, p. 293). No capítulo seguinte, será abordada a dicotomia entre ser mulher e ser mãe,além das razões e imposições dessa escolha de ser, o que, na maioria das vezes, é uma prática concreta que constitui um verdadeiro sistema no qual as mulheres estão enredadas há muito tempo e que não é menos do que a velha dominação masculina em ação, de um modo tão evidente, ficando difícil parar para pensar que a “ideologia maternalista” seja possível. CAPÍTULO II - DICOTOMIA ENTRE SER MULHER E SER MÃE 2.1 A Diversidade das Aspirações em ser Mulher Muitas mulheres se casam esperando que o amor lhes traga felicidade. Mas a felicidade não é outorgada a ninguém em bandeja de prata, o mundo não é um mar de rosas, nem um campo de batalha, mas uma superfície onde cada uma há de construir o edifício de suas aspirações. (PRIORE, 2013, p-103). Freud interpretou, em 1910, que há quatro séculos o semblante da Monalisa, a enigmática Gioconda, exerce uma fascinação durável, quase intemporal sobre seus visitantes. Brun (1989) comenta que Freud notou que as críticas bem reconheceram a expressão da bela Florentina como sendo uma mulher deslumbrante, induzindo à vida amorosa da mulher, com ponderação e atração, delicadeza e desamparo, além da imposição da sexualidade que atormenta o homem com um sentimento estranho. No entanto, Freud resolveu limitar-se ao sorriso de Monalisa e deixá-lo sem resposta. No enigmático sorriso da mãe, na interpretação de uma mulher ideal, por princípios e sensatez postulada como irreal, a Monalisa de Leonardo da Vinci poderia ser sugestionada, desde 1910, como a expressão plástica da feminilidade. Para Badinter (2010), nos dias de hoje, as mulheres continuam sendo questionadas a respeito de qual atividade elas realizariam melhor: o profissional ou se a maternidade não seria a melhor saída para elas. Para algumas mulheres, a vida sem filhos é uma situação impensável, mas nem por isso essas mulheres estão dispostas a abandonar a vida profissional, social e financeira. Em contrapartida, a autora comenta que elas buscam formas de autonomia e oportunidade de se firmar profissionalmente e possuir uma existência matrimonial e social produtiva. Para alcançar esse ideal elas têm seus filhos mais tarde e em menor quantidade. Entretanto, no nascimento do primeiro filho, essas mulheres barganham a dupla identidade. Dessa forma, o padrão ideal de feminino está bem distante de acabar na maternidade; ao invés disso, ele a mantém afastada. Para transmitir o nome e os bens do marido, era necessário ter um filho; porém, não era o bastante para definir uma mulher digna desse nome. Assim, as mulheres desempenharam funções consideráveis na sociedade e, se elas ficassem em casa, no período de dois ou três anos recomendados após o nascimento de cada filho, é possível que a economia do país se ressentisse e provavelmente o emprego das mulheres chegaria ao fim. Ainda assim, a contingência de voltar a ficar em casa é inconcebível. Priore (2013) discorre que o corpo da mulher, com ou sem filhos, passou por uma revolução silenciosa nos últimos anos. O anticoncepcional possibilitou o sexo casual longe da questão moral, focado apenas no prazer. A mulher passou a ser mais exigente em relação ao seu companheiro, tornando sua sexualidade mais atuante e duradoura. Entre os sexos surgiram regras e hábitos igualitários. A igualdade não aboliu a divergência imensa entre homens e mulheres na atividade sexual. Kehl (2016) cita que: A associação entre o casamento por amor e a emancipação feminina, mesmo que correspondesse à argumentação dos conservadores da época, faz muito sentido. “o amor é, para o homem, distinto de sua vida e é toda a existência da mulher” diz o Don Juan doa versos de Byron. No mínimo, podemos afirmar que para a mulher casada da era vitoriana, se o amor não ocupava toda a sua existência, o casamento sim. Portanto, felicidade e amor no casamento, desejáveis para ambos os cônjuges, teriam sido muito mais fundamentais para as mulheres, e isso por várias razões. O casamento selava seu destino e todo o horizonte de sua realização pessoal como esposa, mãe, dona de casa. A felicidade individual, um bem almejado por todos os que viveram nas décadas influenciadas pelos ideais iluministas e pelo humanismo revolucionário dos séculos XVIII e XIX, só seria acessível às mulheres por meio do casamento. (p. 69). No final, as mulheres estão mais distantes das realizações e dos prazeres que a vida na sociedade podia oferecer no princípio do capitalismo, pois elas não faziam parte dos ideais e das exigências de seu tempo: relacionamentos, publicações e magazines transitavam nos espaços particulares numa dimensão sem antecedentes. Entre uma gravidez e outra, entre idas e vindas dos esposos, entre almoços e jantares, horas das tarefas e as formalidades oferecidas aos visitantes, as mulheres vitorianas achavam hora para ler, aspirar e fantasiar no seu universo particular, estimulando os seus desejos e a imaginação, por meio da leitura. Diante do exposto, Mannoni (1980) indaga às mulheres que a censuram, porque às vezes ela as reduz, em seus escritos, a um comportamento de “escrava e submissa a Lei do amo”. Mas todos estamos presos de alguma forma a certo mecanismo. O indivíduo constitui-se por suas revoltas, ilusões perdidas e aspirações desiludidas, trombando, na vida, nos mecanismos políticos, nas imposições do trabalho e nas normas jurídicas e sociais. 2.2 As Implicações do Conflito de Ser Mãe Sobre a Sexualidade Feminina [1931], Freud coloca que no âmbito da primeira ligação com a mãe, e seus conflitos, é complicado assimilar resumidamente que as mulheres pudessem se envolver em suas análises; essa ligação seria equivalente ao carinho de pai, que elas tinham abandonado após a fase pré-edípica. Ele diz, ainda, que “não consegui penetrar inteiramente em nenhum caso, por isso me limitarei a expor os resultados gerais.”. Nas particularidades próprias da feminilidade e na obediência à mãe, encontra-se o gérmen da paranoia e o medo de ser morta (devorada?) pela mãe. Esse fato correspondente à hostilidade que o filho desenvolve em relação à mãe. A forte carência da mulher em relação ao pai é próxima de uma ligação semelhante à que a menina tinha com a mãe, fase essa anterior. Freud insere novas conclusões no quadro do desenvolvimento sexual feminino, já conhecidas: “Em primeiro lugar, é indiscutível que a bissexualidade – que afirmamos ser parte da constituição humana - aparece bem mais nitidamente na mulher do que no homem. O homem tem apenas uma zona sexual diretora, um órgão sexual, enquanto a mulher tem dois: a vagina, que é propriamente feminina, e o clitóris, que é análogo ao membro masculino.” (p. 376). De acordo com Roudinesco (2003), a partir de 1965, homossexuais e lésbicas passaram a exigir seus direitos à paternidade e à maternidade e “inventaram uma cultura da família que não passava, sob muitos aspectos, da perpetuação do modelo que haviam contestado e que já se encontrava ele próprio em plena mutação.” (p. 181). De certa maneira, os homossexuais e lésbicas atravessaram a ordem moral, surgindo no curso histórico; ao contrário da forma de pensar, a família não se desfez, porém se remodelou de forma horizontal e em redes, protegendo as gerações. Segundo Badinter (2010), essa escolha pressupõe uma reflexão sobre as razões e as implicações em se colocar um filho no mundo; um compromisso em longo prazo, resultando em dar prioridade à criança, o que acaba sendo uma decisão perturbadora. O desejo de ter um filho pode entrar em conflito com outros imperativos: o sonho em fazer carreira, para as mulheres que têm uma profissão; as consequências na vida matrimonial e a perda da liberdade da vida atual. Nesse sentido, por ora, a maternidade torna-se um desafio ou mesmo uma contradição. A preocupação consigo mesma deve dar lugar ao esquecimento de si. “Ao que tudo quero” sucedeu ao “eu lhe devo tudo”. Quanto maior a liberdade de decisão, maior a responsabilidade dos deveres. Em outras palavras, para algumas mães ter um filho é revelar a capacidade altruísta delas; para outras, é um obstáculo no caminho. Amãe fantasia apenas o amor e a felicidade; ela ignora a frustração e o esgotamento. Cabe ressaltar que, para algumas mulheres, a alegria sobrepõe ao tédio; para outras, a impressão de vazio domina. A maternidade continua sendo a grande desconhecida, na qual umas conseguem encontrar a felicidade, outras conseguem conciliar as exigências contraditórias e outras, finalmente, jamais confessarão que não conseguem e que a experiência materna delas é um fracasso. Reconhecer que não nasceu para ser mãe é tornar-se um monstro irresponsável. No entanto, encontramos tantas crianças mal-amadas, malcriadas e abandonadas em todas as classes sociais. (BADINTER, 2010). Dolto (1990, p. 155), em “A família estilhaçada”, comenta que antigamente prevalecia a ideia de que, sem o homem, a mulher não seria capaz de assumir financeiramente a sua família. A autora afirma que, naquele tempo, a mulher não tinha forças para abastecer todas as necessidades da casa e ao mesmo tempo trabalhar fora. Hoje, porém, as crianças percebem muito bem que a mulher pode trabalhar fora e, ainda assim, com a ajuda dos familiares e da sociedade, consegue criar seus filhos mesmo sem o marido. “Além do mais, as crianças só ficam inseguras se os pais perdem o emprego. Acho que, com o divórcio, as mulheres de agora em diante podem decidir-se a ficar celibatárias novamente, sem que por isso fiquem diminuídas do ponto de vista de seus filhos.” Dolto (1990) ainda diz que “outra constatação foi feita durante essas jornadas: quando uma família se desfaz, diante de novos casamentos, de mudanças de parceiros, as crianças são levadas, mais do que antes, a ter meios-irmãos, o que muda as transferências de agressividade.” (p. 156). Para Priore (2013), os álbuns de família foram ajustados em um novo formato; apareceu a “família mosaico” que juntou várias partes: madrastas, padrastos, meios irmãos e filhos de produção independente. Apesar de não ter marido ou o pai dos filhos morando na mesma casa, a mulher vivenciou as transformações. As mulheres não estão em uma sociedade sem pais, mas em uma sociedade que reorganizou as funções paternas. A identidade do pai é composta por vários tipos de homens: o que está fechado dentro casamento, o biológico e o amoroso. Aceitar esse novo comportamento tornou-se um desafio. Algumas pessoas se separam porque a importância do casamento para um dos parceiros é enorme, e os casais não aceitam as exigências e as expectativas impostas pelo outro. A lei facilitou o divórcio de forma consensual, se o casal estiver de acordo com a repartição dos bens. Em razão disso, ocorreu um aumento considerável de divórcios. Apesar de eles terem aumentado, o casamento continua sendo valorizado. No entanto, Roudinesco (2003) afirma que Freud excluía a ideia de que seria possível uma separação entre o feminino e o materno, entre o ser mulher e a procriação, entre o sexo e o gênero. A autora ainda comenta que o poder do pai na família passou a ser generalizado; ele imaginava que o seu patrimônio poderia garantir o seu lugar simbólico. O filho passou a assumir uma posição central na família, deixando de ser visto como um objeto para se posicionar como um sujeito que significa uma conservação ou uma continuidade dos pais, passando a ser desejado. Para Winnicott (1957), a vida de uma mulher modifica-se, de muitas maneiras, quando ela concebe um filho. Até esse momento, ela poderia ter sido uma pessoa de vastos interesses, nos negócios, na política ou alguém sempre disposta para bailes e diversões. Poderia desdenhar das vidas de amigas que tiveram filhos e até sentir repulsa por detalhes, como trocar fraldas. Se porventura, quando jovem, a mulher se interessava por crianças, pode-se dizer que era de um modo mais sentimental que prático. Porém, mais cedo ou mais tarde, acabava por ficar grávida. Os bebês são uma carga de trabalho e um embaraço positivo, a menos que sejam desejados. Se uma mulher jovem não começou ainda querer o bebê que traz dentro de si, não pode evitar sentir-se infeliz. A partir da conceituação de Marina Ribeiro (2011), a ambivalência de amor e ódio é negada. O ódio silenciado em relação à mãe resulta em culpa e pode lançar- se em relações masoquistas com homens ou com a própria mãe. As mulheres inconscientes mentem e desejam ainda seu primeiro amor, a mãe. Nesse sentido, o ódio e o amor precisam ser elaborados, sugerindo que o amor homossexual e a agressão feminina podem ser negociados. Como consequência, as identificações com a mãe como objeto interno de amor e de reconhecimento estarão com a filha pelo resto da vida, decorrendo a fecundidade e a criatividade do deslocamento psíquico entre a vivência da mãe e a vivência do pai, isto é, entre a feminilidade e a masculinidade. Para Horney (1982), a vida em conflitos não definidos provoca um enorme desperdício de energia humana. Quando uma pessoa se considera intimamente dissociada, não pode dedicar suas energias a coisa alguma, podendo frustrar seus esforços, ocorrendo uma imagem idealizada e levando-a a iludir-se e crer que ela pode se sobressair em qualquer assunto. Uma mulher vivenciando essa condição desejará ser uma mãe ideal, perfeita dona de casa, boa esposa, vestir-se bem, desempenhar um excelente papel social e ter uma atividade pessoal produtiva. Não é preciso trazer a luz que isso não será possível: essa mulher está designada a fracassar e suas energias estarão desperdiçadas. Segundo Maldonado (1982), o quadro de ter um filho acompanha profundas alterações intra e interpessoais, com a mudança de identidade de cada membro da “família grávida”, além das transformações e alterações que compõem a mudança na transição da mãe que passa a ser avó e da filha em mãe. Cabe ressaltar a questão da dupla identificação em suas diferentes variantes: a identificação da grávida com a mãe e com o feto. Roudinesco (2003) analisa, suscitando que, apesar das frequentes modificações que ocorreram na família ao longo do tempo, ela continua a ser reivindicada por homens, mulheres e crianças, independentemente de idade, sexo e classe social. Para a autora, a família “aparece em condições de se tornar um lugar de resistência à tribalização orgânica da sociedade globalizada.” (p. 199), ressaltando ainda que a família do futuro precisa ser continuamente reinventada. Para Santi (1988), Pode provocar alguma estranheza a ideia de que a noção de privacidade não existisse em um num determinado momento. Nossa intimidade, não existência enquanto sujeitos isolados – ou, até mais, solitários – parece-nos clara, certa. “Ter um tempo para si”, sem estar trabalhando ou estudando (produzindo, de um modo geral), possui um grande valor em nossas vidas. Certamente, essa é uma das poucas coisas pelas quais lutamos hoje – é preciso garantir nossa privacidade, diante da alta exigência atual para que dediquemos toda a nossa energia e tempo às atividades consideradas “úteis”. Há até quem diga, e não são poucos, que nosso excessivo individualismo é um dos grandes problemas da convivência social atual. (p.4). 2.3 O Narcisismo Materno em Relação ao Bebê A vida sexual da mulher desdobra-se em duas fases, sendo a primeira em caráter masculino e, a segunda, exclusivamente feminina. No processo de evolução do feminino, a passagem de uma fase para outra não tem semelhança à do homem. A confusão dá-se em razão de a atividade sexual viril do clitóris não ser assimilada corretamente pela mulher. A partir de “Introdução ao Narcisismo” (1914), instituiu-se na psicanálise a problemática da constituição do Eu e suas vicissitudes. O narcisismo primário é uma herança do ideal narcísico dos pais. A criança viria ocupar o lugar daquilo que ficou perdido na vida dos pais. Cabe a ela recuperar para eles todos os privilégios a que esses foram obrigados a renunciar e a realizar os sonhos e os projetos nos quais eles fracassaram. Esse lugar, no qual os pais costumam colocar o filho, Freud chamou de “Sua Majestade, o Bebê”. Como consequência dessa relação, os primeiros objetos sexuais eleitos pela criança são derivados de suasprimeiras experiências de satisfação, em geral, vividas com as pessoas que cuidam dela, sua mãe ou substituta. Esse tipo de fonte e escolha objetal Freud denominou de analítica ou, melhor dizendo, “de apoio”. Entretanto, ele também observou casos em que houve alguma perturbação no desenvolvimento libidinal e, como resultado, ao invés de o sujeito escolher os objetos amorosos de sua vida, tomando como modelo sua mãe, ele toma a si mesmo como um objeto amoroso: trata-se da escolha objetal narcisista. Essa distinção, tomada de forma pouco cuidadosa, pode resultar na concepção de que um tipo de escolha exclui a outra. Contudo, Freud afirma que uma escolha objetal narcisista está sempre presente Teresa Pinheiro (2002) comenta sobre os escritos de Freud (ao se referir à “Sua Majestade o Bebê”): no final da segunda parte de “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914), o autor afirma que o bebê sustenta as projeções narcísicas dos pais. O bebê só não existe para compensá-los narcisicamente; além disso, ele poderá ser um objeto através dos pais e dos valores atribuídos a ele: o bebê configura-se a partir das inscrições que serão feitas nele. Portanto, é nessa linha que os sujeitos são inventados e se inventam. Existir é inseparável de tudo isso. Em sua construção teórica a respeito da feminilidade, Freud coloca a maternidade como uma possível saída edípica para a mulher; uma forma para a mulher reatar seu narcisismo, perturbado perante a falta fálica que a feminilidade ocasionou, diferentemente do menino que obstrui a falta pela identificação fálica por ter um pênis. A autora cita, ainda, que a maternidade pontua uma nova etapa na vida da mulher. Estar grávida simboliza um conflito ao idealizar um bebê, acarretando mudanças consideráveis à vida anterior e suscitando nas mulheres alterações significativas em seu comportamento. Essa transição representa um desenvolvimento normal, perante a mudança de identidade que será imposta, na qual a gestante, além de filha e mulher, passa a ser mãe. As colaborações de Winnicott (1982) acrescentaram significativos fundamentos à maternidade. Segundo ele, a mulher, durante a gestação e por algumas semanas após o nascimento do bebê, desenvolve uma condição psicológica muito especial denominada Preocupação Materna Primária. Esse estado representa a sensibilidade aumentada, qualificando a mãe a adaptar-se às necessidades iniciais de seu filho, a preocupar-se e a identificar-se com ele, excluindo temporariamente outros interesses. Essa condição da mãe é equiparada, a um momento reservado, ou dissociado, a uma espécie de perturbação profunda do tipo esquizoide. Se não fosse pela gravidez, seria uma doença. Porém, a mãe saudável é capaz de desenvolver essa doença e recuperar-se dela quando o bebê a desobriga. Para Langer (1981), no decorrer dos primeiros meses de gravidez, a mulher vivência uma ambivalência, manifestando-se por vômitos e desejos. A necessidade de comunicar a gravidez coincide com o desejo contrário de expulsar o feto ou o que esse simboliza para o seu inconsciente. Assim também Soifer (1986) refere-se aos significados psicológicos dos diversos sintomas presentes na gestação, considerando que as náuseas e vômitos correspondentes à ansiedade definida pela dúvida da existência da gravidez significam o conflito na ambiguidade. Para essa autora, todas as mudanças orgânicas presentes na gravidez contribuem de forma dominante ao psiquismo inconsciente. Desse modo, a sonolência, pode indicar que começou a regressão na mulher, manifestando-se particularidades de uma identificação fantasiada com o feto. A autora afirma, também, que, no decorrer da gravidez, há um acréscimo de sentimento de culpa infantil, por meio dos mal-estares fantasiados à própria mãe e pelos desejos de ocupar seu lugar. A experiência dessa direção significa que alguém possa arrancar o filho sonhado ou, ainda, que a gravidez tão esperada provoque a destruição da própria mãe, por realizar a fantasia infantil invejosa: ter o bebê por eliminar a mãe. Em função disso, surge um incômodo: “quando nasce uma mãe?”. Para Freud (1915), para poder investir narcisicamente em um filho, é fundamental amar o que somos, o que fomos e o que gostaríamos de ser, assim como àqueles que cuidaram de nós. Para isso, a mulher surge em mãe, mediante as alterações físicas, psíquicas e sociais. É normal durante a gravidez uma mãe imaginar como será seu filho, observando a genética do seu parceiro, pois ela estima conceber uma criança saudável. Para Soifer (1986), o período pós-parto é retratado como um estágio de definição entre o perdido – a gravidez – e o concebido – o bebê. Além do limite entre a imaginação da fantasia inconsciente e a realidade. Segundo a autora, essa complexa demarcação é realizada por um demorado e progressivo processo de elaboração, apresentando alteração depressiva (pelas ilusões não concretizadas e fantasias de perda e impotência), persecutória (mantidas nos princípios representados pela realidade) e maníaca ou de negação. Ela, ainda, esclarece que o parto tem por definição a separação entre mãe e filho os quais, até então, estavam ligados entre si. É um longo período de perda de uma condição à transição de outra, despertando na mulher momentos de ansiedade, os quais se organizam reacendendo os traumas do nascimento: castração, esvaziamento, perda, culpa pela sexualidade e de confronto com o desconhecido, o bebê. A atividade do psicólogo em obstetrícia integra inúmeras situações que se confrontam com alternâncias no pós-parto. A prematuridade é uma das variações que comprovam à imagem social da maternidade como sendo o local de nascimento e vida; nesse momento, submetem-se a circunstâncias de perda, à perda real e à perda da criança idealizada. A Psicanálise, nesse contexto, pode entrelaçar uma articulação teórica e prática, acolhendo a escuta da mãe – para que ela possa elaborar a crise revelada do desencontro com o seu bebê – e a escuta do bebê, objetivando resgatar a criança em cuidados específicos em sua condição psíquica. No próximo capítulo, serão apresentadas as vicissitudes da maternidade e suas inquietações à luz das abordagens de alguns teóricos psicanalíticos sobre a posição esquizoparanoide e a posição depressiva e as consequências do sintoma baby-blues. CAPÍTULO III - AS VICISSITUDES DA MATERNIDADE E SUAS INQUIETAÇÕES 3.1 O Conceito de Melancolia, de acordo com Sigmund Freud Em seu texto, “Luto e Melancolia (1917[1915])”, Freud faz algumas considerações a respeito da natureza da melancolia, comparando-a com o afeto normal do luto e limitando-se a discutir apenas suas manifestações de origem psicogênica. A correlação entre luto e melancolia justifica-se pela semelhança no quadro geral dessas duas manifestações. O luto é a reação a qualquer perda: pessoa, condição ou estado. O trabalho do luto é a reação esperada a qualquer uma dessas perdas. No entanto, para algumas pessoas, o processo de luto pode tornar-se melancolia, isto é, a profundidade e a permanência no luto sustentam as características de um estado depressivo. No momento em que alguém se encontra nesse estado, é impossível elaborar a perda e há uma estagnação nessa condição. O autor diz, ainda, que os traços da melancolia são os mesmos que caracterizam o luto, exceto a falta de autoestima, que se apresenta unicamente no processo depressivo e na melancolia. A intensa tristeza, a falta de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar e o desinteresse em realizar qualquer tarefa encontram-se no processo de luto e na melancolia. Porém, é importante destacar a diferença entre o estado depressivo e a melancolia. O primeiro representa um estado mais leve, no qual a tristeza prevalece sobre o ódio. A partir desse momento, inicia-se o trabalho do luto, em que se encontra a perda e a dor, sentimentos habituais para a elaboração da perda. Já a melancolia é um estado preocupante, transitando próximo à psicose e às depressões psicóticas. Nesse ponto, ao contrário do luto, o ódio triunfa; o ódio do outro volta-se parasi mesmo, resultando na depreciação, autotortura, baixa autoestima, autorrecriminação que pode levar a uma expectativa delirante de punição muito comum na melancolia. Na melancolia, a perda presente não é a perda real, a morte em si, mas sim a reação à perda de um objeto amado, ou seja, uma perda de natureza ideal. No luto, a reação é relativa não apenas à perda de alguém, mas também a reação a qualquer perda real ou simbólica. Assim, a diferença entre luto e melancolia é a questão da desvalorização da autoestima presente na melancolia. No luto, o mundo externo é visto como pobre e vazio, enquanto na melancolia o ego está empobrecido desprovido de valor, inútil e desprezível, incapaz de qualquer ato, esmagado pelo seu eu, sendo a insatisfação com o próprio ego a característica marcante na melancolia. Apesar de toda sensação e imagem ruim de si mesmo, na realidade, as acusações dizem respeito ao outro, recriminações feitas ao objeto amado por quem o paciente tem sentimentos fortes e, portanto, o que se retira disso é que foram deslocadas do objeto para o próprio ego. No luto normal, não existe falta de autoestima e não há depreciação do eu, a reação do luto à dor estabelece-se em resposta ao sentimento de profunda tristeza, podendo essas reações estender-se por um determinado período de tempo. Usualmente, preserva certos interesses e reage positivamente ao ambiente; é uma dor saudável, necessária para a elaboração e reestruturação do eu. Na melancolia para ilustrar um aspecto obscuro da perda de um objeto de amor; é à identificação do eu com esse objeto perdido, traduzindo a perda do próprio eu, o sofrimento que padece o melancólico é resultado da regressão da libido ao próprio eu que, em virtude da identificação com o objeto perdido, passa a ser julgado por uma “instância especial” como o próprio objeto perdido, estando implantado nesse momento o conflito entre o eu e o supereu, porque “a sombra do objeto caiu sobre o eu”, aflorando sentimentos ambivalentes de amor e ódio, fazendo circular a culpa e caracterizando o estado de melancolia em uma ambivalência já existente, na qual o ódio predomina sobre o amor. Por conseguinte, o ódio se manifesta com depreciação de si, autotortura, e uma fixação exacerbada pelo objeto perdido. Nos casos de catexia de pouca resistência constata-se que a escolha amorosa é feita sob uma base narcísica; dessa forma, a libido ao se deparar com os obstáculos pode retroceder ao narcisismo, concluindo-se que, mesmo em conflito com a pessoa amada, não é preciso renunciar à relação amorosa. O amor pelo objeto não pode ser renunciado, ao mesmo tempo que o próprio objeto já o está sendo, e esse amor encontra um lugar na identificação narcisista, o ódio entra como afeto substitutivo, fazendo o sofrer de forma hostil, rebaixando e torturando a autoestima. Para o melancólico é uma situação agradável, confortável, sendo uma forma de satisfação sádica do ódio. É pela autopunição que o indivíduo se vinga do objeto original e tortura o objeto amado por sua doença, evitando o contato de seu ódio com ele. Em uma gravidez, na qual uma mulher vivencia o término de um relacionamento amoroso, e se esse sentimento de perda não for elaborado, é provável ser transformado em ódio, podendo ocorrer um processo melancólico e evidenciando que o objeto de amor não existe mais, transformando-se, ainda, em ódio pela gravidez e pelo bebê, e possivelmente, mais adiante, para si mesma. Nesse sentido, refletindo no estado da perda em condição, e não na morte consumada, pode-se constatar que uma gravidez para algumas mulheres encaixa-se em perdas e ganhos. Cabe ressaltar que, para algumas mulheres, engravidar é o fim da liberdade e um período distante da sua feminilidade, vaidade e beleza; por vez, a mulher recusa- se a elaborar essas perdas, realizar o luto que o momento exige. Aceitar a perda é o luto normal e saudável; não o aceitar é o começo do estado depressivo. Diante disso, experienciar a gravidez como um processo de ambiguidade, não elaborando o luto de algumas circunstâncias e não aceitando a gravidez, pode causar uma montanha-russa de sentimentos, momento em que acontecem várias mudanças hormonais e comportamentais, entre as quais o comportamento de angústia pode surgir e, junto, a paralisação, apresentando um quadro depressivo, podendo progredir em características específicas de uma melancolia, como a falta de interesse pelo mundo externo e a perda da capacidade de amar e de se sentir capaz de realizar qualquer tarefa do cotidiano. Diante desse quadro, a gravidez torna-se um obstáculo, pois uma mãe que vivencia esse cenário dificilmente consegue estabelecer contato físico e laço emocional com o seu filho, podendo até rejeitá-lo; as dificuldades começam a se manifestar de maneira bem evidente. Segundo Freud, na melancolia é o Ego do indivíduo que se encontra empobrecido, enfraquecido, incapaz. Pensando nessa questão, como as mulheres em estado melancólico podem cuidar de seus bebês? A explicação é que de fato elas não podem cuidar, pois há uma paralisação instalada. O deprimido não tem vontade de fazer nada, entra em um processo chamado de alienação ao mundo. Como já dito algumas vezes, o deprimido perde a sua total confiança, de fazer, de agir, fica sem propósito de vida, e com uma sensação de impotência, uma angústia constante, e com desprezo por si, fica parado no meio do caminho, tomado pelo medo e a indecisão do futuro. 3.2 A Posição Esquizoparanoide e a Posição Depressiva, de acordo com Melanie Klein A posição esquizoparanoide é o momento mais arcaico e menos elaborado da vida infantil. Essa posição ocupa o lugar de preparar os primeiros meses de vida do bebê, pela qual a destrutividade predomina no corpo da mãe em forma de sadismo. A autora começa a atribuir importância aos chamados “mecanismos esquizoides” e passa a chamar a posição paranoide de “posição esquizoparanoide”, quando entende que, nessa posição, ocorrem mecanismos paranoides e esquizoides. Estados esquizoides é o nome dado aos estados de inacessibilidade e isolamento originários dos mecanismos esquizoides que afastam o ego do ambiente e que atuam a partir de divisões que levam ao fechamento em si mesmo, gerando uma impressão de autossuficiência e a decorrente negação da importância da relação de objeto e da dependência em relação aos outros. Agora, os mecanismos paranoides são os que fazem com que exista uma não diferenciação entre o ego e os objetos externos; ocorre aqui um estado de dissolução entre o eu e o outro. A “posição esquizoparanoide” diz respeito a um ego arcaico que oscila entre estados de solidão e de diferenciação (esquizoide) e entre estados de extrema fusão e indiferenciação (paranoide). Assim, na posição esquizoparanoide não é o recalque que será usado como proteção do ego contra a ansiedade e, sim, a expulsão do sadismo que terá como missão aliviar o ego e agredir os objetos persecutórios. Os processos ligados à divisão e à projeção, apontados mecanismos de defesa, fazem parte de uma definição extensa ao qual Klein designa identificação projetiva que é sua teoria principal de defesa na posição esquizoparanoide. É como se o ato de enxotar o sadismo de si para o alívio do ego fosse um pedido de ajuda desse mesmo ego, ainda precoce e arcaico, comandado ao ambiente. Esse ego deficiente encontra um caminho benéfico ao enviar partes do seu self (para Klein, self é equivalente ao também arcaico “ego-id”) conduzido ao ambiente, para que ele seja designado e referenciado ao que o bebê não consegue sustentar. O ego saudável faz uso controlado da identificação projetiva, pois, segundo Klein, certo grau desse mecanismo deve ser necessário. Porém, a autora indica dois tópicos da identificação projetiva que podem ser considerados patológicos: o uso excessivo desse mecanismo pode levar a um enfraquecimento do ego e também um estado de profundo isolamento e retraimento em relação ao ambiente, que pode ser considerado como um fechamento narcísico excessivo, um aprisionamento em si mesmo. No texto de 1946, Kleinretrata as defesas relacionadas à posição esquizoparanoide: os mecanismos de cisão de objetos e cisão de impulsos, idealização, negação da realidade interna e externa e abafamento das emoções, na qual a cisão de objetos é designada pela formação de objeto bom e mau e a cisão dos impulsos é a que separa o sentimento de amor do ódio. A idealização é intensa, mas não porque amor e ódio encontram-se cindidos, mas em razão de um objeto bom e idealizado ser constituído para superar os objetos persecutórios. Essa idealização, por outro lado, causa uma intensificação exagerada dos próprios aspectos da realidade que são gratificantes e, por isso, os desprazeres e os desconfortos tendem a ser anulados; mas essa intensificação exagerada também causa desconforto e desprazer, gerando, então, a negação da realidade interna que fará com que todos os aspectos da realidade psíquica que causam graus excessivos tanto de amor quanto de ódio sejam negados. Esse mecanismo funciona como recurso para regularização do prazer, mas se transformado em extrema negação da realidade psíquica e, assim, em uma estratégia radical de tornar-se indiferente a todos os aspectos do mundo externo, ganha o caráter psicótico do chamado abafamento das emoções. Esse mecanismo leva o indivíduo a um sentimento de completo vazio e a uma sensação de irrealidade; tudo passa a ter um aspecto de tédio e o sentimento de futilidade também existe. Por conseguinte, a posição esquizoparanoide define-se pela angústia arcaica e primitiva. O trauma do nascimento e a frustração das necessidades corporais são dois acontecimentos que podem ser classificados como fonte dessa angústia arcaica. O primeiro é a separação que ocorre com o nascimento, no qual existe uma ameaça e, portanto, a constituição de angústia. O segundo consiste em qualquer demora no atendimento à necessidade do bebê, o que vai causar um desequilíbrio na relação entre a mãe e o bebê, decorrendo disso sentimentos de angústia. Nessas situações, a sensação de frustração e de desprazer ocasiona um sentimento de raiva, acarretando a desintegração resultante da angústia. Cabe salientar que o aspecto agressivo não é o único que faz parte da posição esquizoparanoide. Os aspectos amorosos são expelidos e projetados, sendo necessário projetá-los para que o bebê possa desenvolver boas relações com o objeto e para integrar seu ego. É fundamental que exista um equilíbrio entre processos introjetivos e projetivos e que a identificação projetiva equilibrada possa incluir o amor e o ódio, a fim de que o objeto seja revelado e amado, ou seja, que o amor triunfe sobre o ódio e assim exista integração do ego. No desenvolvimento normal, os estados de desintegração são vividos como transitórios e a introjeção do objeto bom é o que auxilia na superação dos estados esquizoides. Dessa forma, os estados de desintegração transitórios fazem parte do desenvolvimento normal e saudável e os aspectos de despersonalização e dissociação futuros são consequência de um recalque a esses estados infantis de desintegração. A posição depressiva define-se por uma modificação nas relações de objeto da criança. Na posição esquizoparanoide o que existia era uma relação de objeto parcial e agora, na posição depressiva, o que permanece é uma relação de objeto total. O ego agora está instalado em uma nova posição, na qual apresenta-se a identificação com o objeto, o medo de perder o objeto bom e amado e o sentimento de culpa pela agressividade foi apontada para o objeto. Assim, a relação de objeto total é a capacidade de perceber o outro como um ser desejante e como alguém a ser conservado e não consumido e devorado, como acontece na posição esquizoparanoide. A palavra posição significa justamente que o ego deve encontrar-se agora em uma nova posição perante o objeto. A posição depressiva significa o reconhecimento do objeto como alguém que se quer preservar e que se pode perder. A autora continua dizendo que, no decorrer da relação do objeto parcial, a angústia sentida é de cunho paranoide, persecutório. Nesse processo, o bebê projetou seu sadismo contra o objeto e, por isso, passa a ter medo de sofrer por parte do próprio objeto os mesmos ataques que projetou contra ele. Quando o eu é capaz de identificar-se com o seu objeto como sendo uma pessoa, passa a sentir a angústia depressiva, incluindo o medo de ter feito mal ao objeto amado e o medo de perder tal objeto, medo que o objeto desapareça ou se acabe. Existe o medo dos danos causados no objeto de amor e, por essa razão, instala-se uma angústia de culpa. O sadismo fica equilibrado com sentimentos de amor próximo ao desejo de conservar o objeto vivo. Amor e ódio se encontram juntos, e a ambivalência começa a existir. Na posição depressiva, a culpa pela agressividade faz surgir um outro fenômeno: a reparação por amor. Nesse mecanismo de defesa, no qual a criança precisa devolver ao objeto de amor sua total integridade, é preciso reparar o objeto danificado, mencionando todo sentimento positivo em relação ao objeto. Durante toda a vida, mas principalmente nos primeiros cinco anos de desenvolvimento, ocorre um revezamento normal entre a posição paranoide e a posição depressiva. Mas, segundo Klein, a posição depressiva deve predominar a posição esquizoparanoide, significando que o objeto bom foi introjetado e é isso que vai determinar a capacidade de amar e reparar. Dessa forma, a introjeção do objeto bom são as experiências de prazer que foram inseridas no aparelho psíquico e permanecem nele como uma espécie de reserva de sentimentos de prazer, os quais dão à criança a possibilidade de suportar possíveis estados de privação ou frustração. O objeto bom introjetado traz uma experiência de satisfação que foi introjetada e transformada em sensação de segurança, significando que houve uma relação inicial positiva, um equilíbrio entre as necessidades do bebê e aquilo que o ambiente pôde permitir a ele. Esse desenvolvimento completa e proporciona as trocas com o ambiente, satisfatório e saudável. A posição depressiva é a forma favorável e a maneira de lidar com a ambiguidade, sendo capaz de proporcionar a competência de amar e reparar; a saúde psíquica, resultando na disposição a facilitar o predomínio do amor sobre o ódio. Para a autora, a infância é um momento em que a angústia arcaica de característica psicótica está presente. A elaboração dessas angústias é o ponto central da posição depressiva, tendo sido nomeada como neurose infantil. A posição depressiva será superada e atribulada pela neurose infantil, que se refere a um processo de organização e integração psíquicas. No texto de Klein “O luto e suas relações com estados maníaco-depressivos” (1940), a autora lembra o texto de Freud (Luto e Melancolia-1917), “o tempo é necessário para aceitar a perda de um indivíduo, para elaborar o processo do luto.”. Na infância, do mesmo modo, é necessário um período para elaboração da desordem interior originária da ambivalência de sentimentos; aceitar a realidade psíquica e transformar a desordem em ordem demanda tempo. A separação dos pais e a compreensão de que a fragilidade de tudo faz parte da realidade são exemplos de lutos existentes na infância, sendo necessário tempo para elaborá-los, sendo tempo e transitoriedade aspectos indispensáveis aos processos psíquicos e fazem parte da elaboração bem-sucedida da posição depressiva. Vale citar que o bebê vivência a primeira perda significativa no desmame; ele precisa elaborar o luto do seio da mãe, junto com o que foi presenteado: amor e segurança. No desmame, o bebê pode sentir-se desprotegido e inseguro, perdido e sem os sentimentos positivos que o seio lhe oferecia. A sensação de que tudo foi perdido pode permanecer ao longo de uma vida, causando uma sensação de vazio, depreciação e tomando um aspecto melancólico. Para Klein, os melancólicos não concluíram seu trabalho de luto; os objetos bons não foram introjetados na primeira infância; o melancólico não elaborou, nem superou a posição de depressiva. No entanto, a condição necessáriapara transcender com sucesso o processo do luto, que a posição depressiva implica, é organizar os objetos bons internos, que eles possam ser introjetados ao ego do bebê. Esse é o primeiro passo para que o bebê possa atravessar outros trabalhos de luto específico à vida. Esse momento é oferecido com a contribuição dos pais, sendo necessário ocorrer uma internalização agradável e tranquila dos pais. Para a autora, o bebê introduz seus pais, sente-os como seres vivos dentro dele. Portanto, se os pais internos são sentidos como equilibrados e amorosos, por consequência o caos interior sustentará aspectos pacíficos. Se o contrário ocorrer, os pais serão sentidos como hostis e desagradáveis, o caos será intenso e profundo. O bebê ao sentir prazer e proteção com outras pessoas terá confiança na gratidão dos outros e na sua própria. Vivências desconfortáveis e falta de contato com pessoas agradáveis aumentam a ambivalência e reduzem a confiança. Por essa razão, no contato com o processo de luto, o indivíduo regressa a diversos lutos vividos ao longo da vida, em especial aos lutos experienciados na primeira infância. No entanto, o primeiro luto exemplificado, com o desmame, deve ser elaborado de maneira saudável e satisfatória, para ocorrerem as condições de reintegração e melhoria no mundo interno num estado de dor e luto. O que é preciso acontecer durante um trabalho de luto é a redução dos sentimentos persecutórios e o resgate de sentimentos positivos em relação à pessoa perdida; assim a possibilidade de amar alguém que partiu dará segurança e trará um novo sentido ao mundo interno e a vida. A construção do mundo interior surge na capacidade de resgatar sentimentos de amor, e poder se interessar pela vida e por pessoas, definindo o luto bem-sucedido. Contudo, ao defrontar-se com a perda, o trabalho de luto é instalado, e o caos é o único sentimento que permanece. Depois de um período, com o trabalho de luto em andamento, os objetos internos são restaurados no mundo interno. Essa recuperação do objeto bom interno traz a sensação de renovação, bem-estar e a competência de amar novamente, de investir e de interessar-se pelo mundo. É justamente essa conquista do objeto bom interno que o deprimido e o melancólico não conseguem efetivar, ficando presos aos sentimentos de vazio, raiva e desprezo pelo mundo. Diante disso, é provável confirmar que, na teoria kleiniana, a angústia vivenciada pela menina não está relacionada à inveja do pênis, mas aos mal-estares que causou à sua mãe e aos contra-ataques recebidos. A forma com a qual a mulher se ocupa com a maternidade está ligada à sua experiência nas posições esquizoparanoide e depressiva, aproximando-se de uma constatação das angústias da primeira posição mencionada, as quais foram atravessadas e como uma forma de resolver as angústias da posição depressiva. Nesse sentido, a conexão com a maternidade pode depender do modo como ela internalizou a sua mãe, ou melhor, como um objeto que a persegue com o propósito de se vingar ou no caso de haver uma identificação com a mãe boa. Se houver identificação com a mãe boa, a menina será capaz de retornar ao pai em comportamento feminino e com vontade de ter filhos, podendo entregar-se à maternidade com mais confiança na fase adulta. Podemos deduzir que, para a mulher, a maternidade significa uma forma de libertação; a confirmação de que seu ódio não aniquilou o corpo da sua mãe e que também não destruiu o seu corpo nos contra-ataques que apareciam em suas fantasias. É uma forma de exceder sua maior angústia e de libertar-se da culpa, sendo uma fonte de integridade, saúde e reparação. A hostilidade inevitavelmente surgirá, podendo ocorrer no período da gestação ou no decorrer da vivência com o filho; porém a solução depende da potência egoica da mulher. 3.3 De Mãe para Filha, a Transmissão na Maternidade Freud (1921), em “Psicologia das massas e análise do eu”, declara que, de certa forma, sempre existirá um líder sobre quem é projetado o ideal do ego e o superego ou pode-se dizer que possa ser identificado como um pai poderoso ou uma mãe que seduza com um apelo fusional. Erich Fromm, em “O mêdo à liberdade” (1972), explica que o homem prefere fugir da liberdade a arcar com seus custos. Freud e Fromm retrataram a fuga da liberdade e a procura regressiva de pais protetores, conscientizando formas totalitárias da antiguidade. Mas essa oposição persiste nos regimes democráticos, refletindo nos conflitivos do inconsciente individual, variando entre o desejo de autonomia e independência e o desejo pela proteção paterna, mesmo que isso acarrete a servidão. Com relação à organização da massa que, segundo Freud, McDougall faz depender de certas condições, Freud (1921/s.d.) propõe uma tese: "A tarefa consiste em procurar na massa as mesmas propriedades que eram características do indivíduo e se apagaram pela formação de massa." e introduz noções centrais que a clínica lhe forneceu, tais como identificação, sugestão e libido. Na vida anímica do indivíduo, o outro conta com total regularidade, como modelo, como objeto, como auxiliar e como inimigo e, por isso, desde o próprio começo, a psicologia individual é simultaneamente psicologia social nesse sentido mais lato, mas inteiramente legítimo (FREUD, 1921/s.d.). Roudinesco (2003) desenvolve que o lugar da mulher em gradual independência já no final do século XVIII – graças à mobilização e organização do feminismo em movimento político – é desenvolvido acima de tudo no terreno da sexualidade. Na proporção em que o prazer se encontra dissociado da função de procriar, deixa de ser somente esposa e mãe e passa a se particularizar. Ao largar a condição de superioridade, os homens largavam a autoridade em relação ao corpo das mulheres, constituindo espaço para o início da sexualidade feminina e ressaltando as diferenças entre sexo e gênero. Cabe citar Kehl (2016) quando comenta que Freud, nos textos “Sobre a Sexualidade Feminina” e “A feminilidade” 1933, adianta que, na falta da força que impulsiona o conflito no complexo de Édipo – a angústia da castração -, a menina sabe da sua falta anatômica e, em nenhum momento, esquece por absoluto suas teorias infantis e seus desejos incestuosos. Quanto a isso, Ribeiro (2011) diz que a transmissão da feminilidade parece ocorrer mais intensamente ao longo da linha feminina de descendência. A identificação entre mãe e filha permanece ao longo de toda a vida e é constantemente reeditada. A cada desafio na trajetória feminina, a menina, e mais tarde a mulher, é lançada novamente a uma identificação com a mãe. O patrimônio da feminilidade percorre as gerações: avós, mães e filhas marcam e são marcadas, no corpo e no psiquismo, por suas experiências de mulher e de mãe. Essa interpretação trata das vicissitudes psíquicas, vivenciadas no curso bebê-menina-mulher, e de que modo essa relação integra o que é próprio ao feminino nas mulheres. De certa forma, estamos introduzidos na elaboração depressiva do complexo de Édipo. O amor e o ódio para compreensão das metamorfoses da feminilidade. E, seguindo essa direção – do aspecto da conexão entre mães e filhas, que muitas vezes permanece na vida adulta ocupando espaços psíquicos consideráveis, não ocupado por outros investimentos objetais, há o desafio de tornar- se mulher e na transferência da feminilidade – de mãe em filha. Nesse sentido, Maldonado (1982) relata que a relação mãe e filha, no período da gravidez, compreende basicamente a identificação da grávida com a sua mãe e a identificação com o feto. Do papel da mãe da grávida, as perguntas básicas revelam o seu próprio posicionamento ante a sua própria sexualidade e a sexualidade da filha na lógica ao envelhecimento e na sua reestruturação. Ribeiro (2011) acrescenta que os limites entre mãe e filha são desenvolvidos por um intenso trabalho psíquico. No entanto, são sempre parciais e de curta duração, feitas e reorganizadas ao longo da vida de uma mulher. Existem os momentos críticos: o adolescer de menina em mulher, a sexualidade e a maternidadepela primeira vez – situações em que as linhas se delimitam, ou não. Para Maldonado (1982), quando a mãe repara que a filha se tornou mulher, junto ocorrem os sentimentos misturados de tristeza, ameaça e contentamento. A filha ao casar-se traz à luz a questão inclusão e exclusão da mãe. Existem mães que permitem que seus filhos organizem suas vidas e há outras que não toleram a sensação de exclusão, acabando por participarem e intervirem na vida do casal. No ponto de vista da filha, ela deseja criar um modelo de vida diferente da de seus pais, longe de ser a segunda edição da mãe. Cabe salientar que Freud (1933), no texto “A feminilidade”, fala sobre as verdadeiras origens da hostilidade entre mãe e filha, pois há um pênis reclamado e invejado. Para Conrad (1988), é possível indicar qual a exata relação que o desejo do pênis mantém-se na busca da mãe. A razão pela qual a mulher gostaria de possuir um pênis para contentar a sua mãe era a primeira discussão. Eles estabelecem-se entre dois anseios; em um laço, tal qual a realização de um equivale à condição de realização do outro. Identificamos também que a inveja do pênis era um substituto da busca da mãe, e essa relação de substituição era fundamental para esclarecer a inveja do pênis, e não a relação de condição. Nessa substituição parece que o pênis sobrepõe a mãe no tempo de objeto de cobiça. Apesar de que podemos dizer que essa ótica não é exata. De acordo com Maldonado (1982), por parte da filha surge o medo de superar a mãe e o temor da inveja. Exemplifica dizendo que é comum a fantasia de possuir mais filhos que sua mãe ou, então, que tem medo de não conseguir amamentar por um período maior que o da mãe. Para algumas filhas, a única forma de minimizar a culpa, por possuir uma maternidade superior à da sua mãe, é “dar o filho para a mãe”, se desobrigando a cuidar do seu bebê, como uma espécie de compensação para a sua mãe. Segundo Ribeiro (2011), a constatação da diferença entre eu e o outro, das desigualdades dos sexos e da disparidade das gerações, é o auge de um longo percurso. Triunfando a partir de um estado psíquico de diferenciação, ela é passível de perda, não há poder na vida psíquica. A expressão freudiana “Sua majestade o bebê” é apenas uma ilusão onipotente e necessária, para posteriormente sermos lançados à nossa condição de destituídos de poder. A partir dessa posição da diferença do outro, do sexo e das gerações, serão incertas e depressivas. Homem ou mulher é de origem feminina; a menina está duplamente ligada à mãe pela identificação primária e como objeto de identificação no processo de vir a ser mulher e, também, mãe. 3.4 O Sintoma Baby-Blues: Depressão e Ansiedade ao Deparar-se com o Bebê Neste subcapítulo será apresentada a depressão materna como ameaça para o curso do afeto entre mãe e bebê, no período do pós-parto, no qual a depressão pode vir a desorganizar ou interromper o percurso, com implicações para a constituição psíquica da criança. A questão que se propõe é: como ajudar a mãe a continuar os cuidados com o seu bebê quando a depressão a impossibilita? Inicialmente, Soifer (1980) descreve que Freud coloca o primeiro encontro entre mãe e bebê como a reprodução do narcisismo primário, ou seja, como o momento da evolução da personalidade, configurando a primeira relação do filho com a mãe e definindo como o amor primário, ao passo que Klein e seus apreciadores a estudam à luz da identificação projetiva, considerando um mecanismo insubstituível para desenvolvimento futuro do psíquico. Em contrapartida, Szejer (1997) explica a clássica depressão puerperal, como baby blues. Trata-se de um fenômeno compreendido pelos obstetras como sendo normal. Aliás, esse fenômeno é tratado pelos leigos como banal, não lhe sendo oferecida a real importância, tendo como sintomas o choro intermitente, a fragilidade, a tristeza e o desespero. A autora observa, também, que esse fenômeno não tem nome, apelando-se para o nome em inglês “baby blues, por não saber exatamente do que se trata, as explicações concedidas são insuficientes. Segundo Maldonado (1976), a gravidez possui várias características de uma situação de crise que faz parte do processo normal do desenvolvimento. Envolve a necessidade de restruturação e readaptação em grandes proporções: a mulher passa a se olhar e a ser olhada de uma forma diferente; a grávida passa do papel de esposa para mãe, sendo marcada por uma mudança de identidade, porque ser mãe de um filho é diferente de dois, na qual a chegada de cada filho muda a dinâmica da família toda, com ou sem rejeição da gravidez, influenciando a nova configuração familiar, em que, na situação em que é vivida pelo pai, a mulher atua como “filha” ou “mãe” do marido, e quando espera seu próprio filho, é necessário ajustar-se à nova realidade de ser mãe daquela criança. Nesse sentido, muitas vezes, a mulher e o homem querem ser melhores do que os seus pais foram para eles, ou se sentem incapazes de competir com eles. Assim, o dever do marido em relação à esposa grávida contribui para a aceitação da gravidez e é importante ressaltar as interações de toda singularidade familiar. A depressão materna ocorre em um número elevado de mulheres puérperas e varia de intensidade, em casos complicados no momento do nascimento do bebê (momento que Szejer chama de “período do limbo: não estou mais dentro da minha mãe, mas ainda não estou totalmente entre vocês; deem-me um tempo”.) p.108 Soifer (1980) expõe, também, que as ansiedades básicas da condição organizam-se sobre uma armação que reacende a angústia do nascimento. As ansiedades são: de castração, esvaziamento, perda, culpa pela sexualidade e medo do confronto com o estranho, o filho. A angústia traumática é de caráter desagregador e trágica; a agonia de esvaziamento e a perda têm característica depressiva; o medo de ser castigada, a ansiedade de castração e o receio ao se deparar com o desconhecido está conectado a uma matriz paranoide. Essa intercessão causa um estado de confusão, com a impressão de tristeza, falta de personalidade e perda de identidade. A desordem gira em torno do equilíbrio entre partes do próprio corpo (fezes-bebê-pênis); defecar-parto: prática sexual-parto; “sujeito-objeto” (quem dá à luz e quem nasce, ou seja, vítima-vitimário). Cabe salientar que há depressões pós-parto que são resolvidas no contato descomplicado com o bebê, e casos mais difíceis do qual o contato com o bebê é conturbado e não melhora após algumas mediações. Como escreve Szejer, nesses casos mais graves é a história da mãe que está em questão, sua ligação com as gerações anteriores muito mais do que a chegada do recém-nascido. Porém, é comum que no pós-parto haja “dimensões especificamente humanas” da depressão, nas quais a mãe está se adaptando ao bebê, tentando reconhecê-lo e “torná-lo outro”, separado dela. Nesse sentido, algumas questões são apresentadas em dois fragmentos clínicos pelos quais é possível discutir algumas complicações que podem ocorrer com o par mãe-bebê no pós-parto. No primeiro caso, a distinção entre categorias clínicas importantes, depressão e melancolia, possibilita o maior entendimento clínico, permitindo identificar a seriedade e as necessidades de cada caso em específico, ampliando, assim, a reflexão para outros casos em geral. No segundo caso, a questão da angústia levou a abordar as consequências que a depressão materna pode ter para a circulação de afeto com o bebê, a partir da angústia presente sob a forma de síndrome do pânico, impedindo que a mãe conseguisse realizar os cuidados com o bebê. Porém, é comum que no pós-parto haja “dimensões especificamente humanas” da depressão, nas quais a mãe está se adaptando ao bebê, tentando reconhecê-lo e “torná-lo outro”, separado dela. Para Szejer, nessa depressão comum e humana, a maneira como a criança irá responder à depressão da mãe marcará o começo da comunicação ativa. Se essa tentativa de comunicação da criança fracassar, todo o corpo passará a ser lugar da linguagem, via seus sintomas, ou seja, em situaçõesmenos graves, é através da depressão da mãe que o bebê pode começar a se comunicar com ela e, caso não consiga, então seu corpo começará a sofrer e se manifestar através de sintomas e apelos. De acordo com Winnicott (1975), no período de dependência, é esperado que a mãe faça uma adequação às necessidades do seu bebê e que possa reduzir a dependência no momento em que ela esteja apta a sustentar. O crescimento emocional influência na organização da personalidade, na maneira de conectar-se com as pessoas, quando adulto, e na forma que coordenará a vida, estará diretamente relacionada com o princípio da vida do bebê e, para que se conceba de uma maneira duradoura e com uma personalidade positiva, sua saúde mental tem que se mostrar firme. E isso só será possível se esse o bebê for enxergado por sua mãe ao nascer como uma pessoa que precisa de cuidados fisiológicos e anatômicos e, principalmente, de cuidados emocionais. [...] Todavia, a fim de evitar qualquer mal-entendido, esclareço que este trabalho não trata das consequências psíquicas da morte real da mãe, mas sim de uma imago que se constitui na psique da criança, em figura distante, átona, quase inanimada, impregnando muito profundamente os investimentos de certos sujeitos que temos em análise e pesando sobre o destino de seu futuro libidinal, objetal e narcisista. A mãe morta é, portanto, ao contrário do que se poderia crer, uma mãe que permanece viva, mas que está, por assim dizer, morta psiquicamente aos olhos da pequena criança de quem ela cuida. (GREEN, 1988, p. 239). Soifer (1980) também descreve a situação psíquica da puérpera, em estado de depressão e suas ansiedades confusas, em que o estado de depressão agrava-se com a perda da proteção que o hospital apresentava e, também, com a perda do carinho que era oferecido a ela durante a gravidez. Em troca disso, a mulher depara- se com obrigações e responsabilidades, tornando-se indispensável o apoio familiar, pois a condição psíquica encontra-se confusa, com acessos de depressão e choro, sentindo inferioridade e mania de perseguição. “A mãe que sente ter fracassado em sua tarefa e que não consegue relacionar-se convenientemente com os filhos experimenta uma enorme dor que chega a ser intolerável.” (p. 74). CAPÍTULO 1: O LUTO A morte é a culminação da vida, a despedida, o fim de outro princípio, uma grande transição (KÜBLER-ROSS,2005, p.12). Ao observar, analisar e tratar de aprender e compreender as distintas maneiras, as milhares formas em que as pessoas de todas as idades e culturas realizam essa transição, aprecia-se um milagre tão grande como o nascimento. A maior inclusão é a compreensão da natureza humana da luta pela sobrevivência e, em última instância, de sua evolução espiritual. Isso mostra as chaves do porquê e de onde e na finalidade ultimada vida com todos seus sofrimentos e toda a sua beleza. Os indivíduos que se deparam com a morte, não a temem, passam a lutar contra ela iniciando uma aprendizagem sobre a vida. Segundo Kübler-Ross (2008), ao receber o diagnóstico de uma doença crônica e incurável, o paciente inicia um processo de negação até o de aceitação teoricamente, sendo que há clientes que não aceitam. Esse processo é chamado de morte e morrer, passando pelo processo de enlutamento. A ideia de luto não se limita apenas à morte, mas ao enfrentamento das sucessivas perdas reais e simbólicas durante o desenvolvimento humano, como derrotas e fracassos do cotidiano, as frustrações profissionais, os fracassos sentimentais, os desejos de posse, adoecimentos graves tanto físicos quanto psíquicos. O indivíduo estará lidando com perdas sentimentais e materiais. Podendo considerar que essas perdas causam dor e sentimentos, esse apego dificulta a passagem pelo luto, considerando também que “o apego é a raiz de todos os males e de todos os sofrimentos”. (D’ ASSUMPÇÃO, 2010, p.83) Deste modo, pode ser vivenciado por meio de perdas que perpassam pela dimensão física e psíquica, como os elos significativos com aspectos pessoais, profissionais, sociais e familiares do indivíduo, é um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos terão que lidar. Sentindo falta por algo que foi criado um vínculo, através dessa perda foi manifestado sentimento o qual deu um significado quando houve o rompimento desse objeto. Sentimentos se misturam e dão sentido a um recomeço, não há luto sem amor. Amor e luto, vínculo e perdas são duas faces da mesma moeda: não se pode ter uma sem a outra, O luto é o custo do amor, e a única maneira de evitar a dor do luto é evitar o amor. (...) Grande parte dos seres humanos passa pela dor do luto sem damos psicológicos duradouros, podendo mesmo amadurecer em consequência dele. No entanto, existem vários problemas nesse percurso, de modo que uma minoria viverá um sofrimento com consequências indesejáveis para saúde física e mental. (PARKES in FRANCO, 2010, p.07). O Luto é um conjunto de reações a uma perda significativa, geralmente pela morte de outro ser. uma transformação psíquica profunda, mas é através dessa perda que é experimentado a falta da presença e o sentido. Para Jung como a vida possui um sentido e isso nos aproxima de todo processo o qual se inicia após rompimento com um vínculo, em seguida vem o processo de elaboração, assistido por resistência, dificultando a entrada no processo de enlutamento. A vivência do luto é fundamental para a reorganização e reconstrução diante da quebra do vínculo. Desafiante psiquicamente, emocionalmente e cognitivamente, porém necessário para resignificação da relação com o objeto perdido. Existem várias formas de luto, além do luto pela morte de uma pessoa, também há processo de luto relacionado com perdas de relações interpessoais, de ideia, de material, tudo que o indivíduo perde, mas não consegue desvincular-se causando sofrimento. Esse sofrimento causado pela dor da quebra desse vínculo é comparado pelo mesmo sentido com o luto por morte. Para Bromberg (2000) há uma diferença entre luto, enlutamento e pesar. O luto é o conjunto de reações a uma perda significativa, enlutamento é o processo de adaptação a perda, o pesar é o significado internamente à experiência do luto. O enlutamento para Parkes (1998), é definido como um processo de quadros clínicos, que se mesclam ou substituem com o entorpecimento, saudade, ou procura, passando pela desorganização, desespero e recuperação. Tanto o luto quanto a melancolia são para Freud (1996) reações à perda do objeto amado, essa perda constitui uma condição favorável para surgir a ambivalência nas relações afetivas que são representadas por meio da culpa, quando ele retrata sobre o objeto perdido mesmo que ainda que com um cunho negativo, há de certa forma a si próprio, ou seja, uma grande devoção ao objeto perdido incorporado ao ego. “No luto, é o mundo que fica pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego” (FREUD,[1915], 1996). No luto, nada existe de inconsciente a respeito da perda, ou seja, o enlutado sabe exatamente o que perdeu. Além disso, o luto é um processo natural instalado para a elaboração da perda, que pode ser superado após algum tempo e, por mais que tenha um caráter patológico, não é considerada doença. Freud (1926) constata que as primeiras experiências traumáticas constituem o protótipo dos estados afetivos, que são incorporados na mente, e quando ocorre uma situação semelhante são revividos como símbolos mnêmicos. Ele revela no texto ”Luto e Melancolia”, que o luto é um processo doloroso, porém a justificativa para isso seria encontrada quando tivessem condições de apresentar uma caracterização da dor. Em 1926, Freud apresenta que a dor, na dimensão mental, também é a reação real à perda do objeto. O luto é uma transformação psíquica profunda, é através do processo de enlutamento que experimentamos seu sentido assim conectando com a dor da perda e ficamos diante da nossa condição finita. Na psicologia analítica iremos adquirir uma compreensão da linguagem simbólica na qual compreendemos a nossa condição finita; através dos símbolose rituais simbólicos que iremos conversar com o evento da morte e todo seu processo de luto. Para Jung a vida possui um sentido e nos aproxima para uma reflexão sobre a sua existência e o fato de sermos mortais e nos deixamos indagar por essa condição. Jung não se preocupou com as patologias, com as classificações psicodiagnósticos, sua maior preocupação sempre foi a alma, a experiência é o alimento próprio e único da alma, como o processo da morte, que é caracterizado por uma experiência da alma. A morte é assimilada como fracasso assim como as perdas, o negar a perda nos possibilita uma ação nos movendo para uma busca de sentido cada vez mais profundo, porém o sofrimento move uma ação do inconsciente, reorganizando a personalidade, a morte encontra-se na sombra, reprimida no inconsciente, buscamos uma defesa psíquica rejeitando essa dor a qual é tão forte que nos remete ao sofrimento profundo. Negamos a morte, a perda e o luto, mas culturalmente somos impelidos a integrar e vivenciar mediante universo simbólico como rituais, mitos, símbolos entre outros que remetem a essa simbologia. “Assim como uma planta produz flores, assim a psique cria os seus símbolos. ” (JUNG, [1964], 2013). A morte está sempre ligada ao fracasso, assim como as perdas, quebra de vínculos e tudo que envolve o enlutamento. Contudo esses símbolos preparam o caminho para a entrada no processo do enlutamento dando um outro significado para essa perda através dos rituais as quais essa simbologia representa. Com o luto vêm as resistências em relação a perda dos vínculos, para Jung como esses vínculos estão direcionados aos arquétipos os quais são conjuntos de imagens primordiais. O rompimento do vínculo se inicia após a sua ruptura com o objeto perdido, seguindo até o período da sua elaboração, incluindo nesse processo transformação, resignificação da relação com esse objeto. Encontramos em Marie-Louise Von Franz (FRANZ,1995, p.109), um outro sentido para o luto o qual remete a uma preparação para essa morte. “Alguns breves momentos numa terra totalmente desconhecida, da qual quase sempre estamos separados pela neblina, enquanto ainda vivemos nesse corpo; contudo, de vez em quando, vislumbramos dela paisagens surpreendentes. ” Esta autora remete ao que Jung chamou de preparação para morte contido no processo de individuação. O inconsciente não ignora a morte como o sonhador resiste à condição do fim iminente, camuflando situações que não existem para si mesmo, assim confirmando o fato de que o inconsciente respeita o processo de individuação, onde a vida deve ser expressada na sua totalidade. Segundo texto “A alma e a morte”, Jung (1934), faz uma reflexão da vida em seu contexto natural, como o percurso do sol, ele nasce no horizonte e chega ao seu apogeu ao meio dia, chegando ao seu crepúsculo ao final da tarde, quando morre. Assim a vida seguiria esse mesmo contexto no sentido de nascer e morrer, obter e perder adquirindo crescimento, expansão e amadurecimento, Jung se refere ao fato de que só permanece realmente vivo quem estiver disposto a morrer com a vida, suportar o silêncio da perda sem respostas, esse silêncio o qual Jung se refere que só conseguiu ter acesso com seus clientes através dos seus sonhos, um enfrentamento entre o mundo dos vivos e dos mortos formam um todo. A livre associação vai trazer à tona todos os meus complexos, mas dificilmente o significado de um sonho. Para entender o significado de um sonho do sonho, precisamos nos agarrar tanto quanto possível às suas imagens. (JUNG,1934, p.149). O autor Viktor E.Frankl, em seu livro “Em busca de sentido” (2014, p.137), ao tratar um cliente em depressão profunda o qual passava por um processo de luto pela perda da sua mulher que faleceu há dois anos, ao invés de lhe dizer qualquer coisa, resolveu confrontá-lo, ele percebeu que “(...) sofrimento de certo modo deixa de ser sofrimento no instante em que encontra um sentido, como o sentido de um sacrifício...” (FRANKL, 2014, p.137). Quando esse processo de luto tem um sentido, o sofrimento é inevitável nesse processo, por essa razão estamos preparados até para sofrer, mas que esse sofrimento tenha um sentido, não usar o sofrimento para buscar sentido e permanecer nele, que possa ser natural, mas que é inevitável um início, um meio e fim. 1.1 ELABORAÇÃO DO LUTO Não nascemos preparados para morrer e perder, as perdas se faz necessário para o crescimento, para qualquer fase da vida perder é doloroso e muitas das vezes traumático, a perda remete ao abandono e a desistência onde só há um lugar para compor tudo isso; a resistência, a negação dos fatos é a negociação com a dor para não entrar no processo de consciência do fato que perdeu e precisa recomeçar, esse impacto negativo no psiquismo lembra que nada é absolutamente para toda vida. O luto provoca uma reação em cadeia, a alma é afetada pela dor, o enlutado precisa estar acolhido e assistido por seus familiares, amigos e profissionais. O indivíduo está sempre preparado para valorizar os ganhos, culturalmente não estamos habituados a perder, remete ao fracasso: São perceptíveis para alguns indivíduos valorizar a partir das perdas, percebemos a falta que nos faz quando estamos diante da experiência de não ter, valorizamos algo ou alguém quando somos pegos pelo sentimento da falta e do medo de ter perdido, o fato de sentir medo nos impede de arriscar, tanto medo de perder quanto medo da morte estão interligados ao medo de vida mal vivida, como uma fuga da dor e do sofrimento gerando processos de perdas A individuação nem sempre é uma tarefa difícil ou agradável, o ego precisa ser forte o suficiente para ser virado ao avesso. (JUNG, 1973, p.442). Poder-se-ia dizer que todo o mundo, com sua confusão e miséria, está num processo de individuação. No entanto, as pessoas não o sabem, esta é a única diferença. A individuação não é de modo algum uma coisa rara ou um luxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo processo são considerados afortunados. Desde que suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal processo. Esse é um processo necessário e fundamental para preencher o vazio deixado por qualquer perda significativa não apenas de alguém, mas também de algo importante, tais como: objeto, viagem, emprego, divórcio, ideia, dificuldade de quebrar vínculos como amizades, trabalho, aposentadoria; desaparecimento de alguém ou um animal de estimação, emigração, mudança de casa, conclusão de curso, perda de um membro por amputação, adoecimentos principalmente doenças crônicas entre outros. Tudo que tenha significado com perdas e rompimento de vínculo. O nascimento do vínculo coincide com o início da constituição de ser como bem assinalou Franco (2010, p.12): Formar e romper vínculos faz parte da identidade humana, não se restringe a um único contexto, mas interage com os diferentes contextos que permitem sua expressão. O enlutado permanece no processo em que ainda deseja vivenciar a relação construída entre ele e o objeto perdido, como forma de não abandonar o vínculo e afeto. O próprio processo de elaboração pode transformar a própria falta em uma presença assimilada. Como definição das cinco fases dentro do processo do luto (ou da perspectiva da morte), este ocorre quando há um corte do vínculo com o outro, com objeto ou com alguém, remete ao enlutamento referente a morte, a maior parte dos indivíduos enlutados são capazes com o tempo, com auxílio de outros indivíduos, como familiares e amigos que contribuem na passagem desse processo, com o tempo o enlutado vai retornando ao seu cotidiano, resignificando sua vida. Para outros indivíduos lidar com essa perda é algo que precisa ser analisado com auxílio de um profissional em um processo terapêutico para trabalhar esse sofrimento que lhe causa uma dor profunda. Aceitar essa realidade da perda se faz preciso. Foi pensando nesse processo de sofrimento que Kübler-Ross (2005) ultrapassou preconceitos, destaca que sofreu críticas por falar sobre assuntos espirituais, crianças enfermas e morte, aConstans (1998) entrevistou 14 indivíduos e enfatizou a necessidade do compartilhar como um dos mecanismos do processo do luto. Compartilhando as histórias com familiares e amigos, os entrevistados puderam validar a perda e criar novos significados em suas vidas. (FUKUMITSU, 2004 p.15). Schildhaus (em 1997) investigou como sete casais conseguiram adaptar-se e crescer depois da morte de seus filhos. De acordo com o pesquisador é importante validar a idéia de que, apesar da dor, podemos nos desenvolver como seres humanos depois de uma situação de perda. Por meio de entrevista semi-estruturada, seis viúvos foram colaboradores da pesquisa de Ronin (em 2000). Um resultado significante desse estudo é a idéia de que os viúvos desenvolveram uma “(...) vontade para reconhecer e experimentar a dor de perda do(a) companheiro(a) como pré requisito para o crescimento resultante daquela perda” (p. 1652). Davis, C.G.; Wortman, C. B.; Lehman, D.R.; e Prateia, R.C. (em 2000) destacaram a procura de novos significados e sentidos de vida pelas pessoas que perderam alguém importante, levantando as seguintes suposições clínicas: 1- As pessoas que confrontam perdas súbitas e traumáticas, inevitavelmente procuram um sentido de vida. 2- Com o passar do tempo a maioria pode encontrar significado e encerrar o assunto. 3- Encontrar significado significa ajustar-se. A busca de mecanismos de superação do sofrimento diante do luto é motivada pelo fato de que a morte sempre foi temida pelo homem e, por mais que a ciência avance, o medo e a negação da morte permanecem (FRANCO, 2005, p. 37). O enfrentamento do luto é um processo solitário (FRANCO, 2005, p 80). Talvez o único companheiro nesse doloroso caminho seja o tempo. O tempo que amadurece, que transforma, que cicatriza, que restabelece. O processo de luto exige mudança de papéis, atitudes e comportamentos, além de busca de estratégias para enfrentar a nova realidade (FRANCO, 2005, p 76). Dá-se, então, início a diferentes estágios de adaptação. Não podemos compreender a morte, mas podemos aprender a aceitá-la. No que tange à aceitação da morte, lembremos da história de Édipo e da Esfinge, aquela que tem forma feminina, com asas de pássaro, corpo de animal e busto, pescoço e rosto de mulher. A Esfinge representa o destino de todo ser vivente. Ela havia provocado uma peste na terra, cuja única maneira de erradicar seria se resolvendo o enigma por ela proposto: “O que é que anda com quatro pernas, depois com duas e em seguida com três?” A resposta é: “O Homem”. A criança engatinha com quatro pernas, o adulto anda com duas e o velho usa uma bengala. O enigma da Esfinge é a imagem da própria vida ao longo do tempo: infância, maturidade, velhice e morte. Quando se enfrenta e aceita o enigma da Esfinge, sem medo, a morte não interfere mais e a maldição da Esfinge cessa. O domínio sobre o medo da morte é a recuperação da alegria de viver. Só se chega a experimentar uma afirmação incondicional da vida depois que se aceita a morte, não como algo contrário à vida, mas como um aspecto da própria vida. A vida, em sua transformação, está sempre destilando a morte, está sempre à beira da morte. “O domínio sobre o medo propicia a vida.” (FRANCO, 2005, p 55). No primeiro capítulo abordaremos, sucintamente, o conceito, as características psicopatológicas, as fases e características do processo de luto chamado de normal, ou seja, aquele no qual há resolutibilidade dos sintomas e das alterações cognitivas decorrentes do sofrimento. Assim como outros mecanismos psíquicos de elaboração e resolução, as reações ao luto, como veremos, não apresentam um contexto definido, claro e lógico, tanto do ponto de vista clínico, como entidade mórbida, quanto nos aspectos comportamentais e psíquicos da pessoa enlutada. Cada indivíduo reage ao seu modo. Veremos que trata-se de um processo fluido, com fases não definidas, principalmente no que se refere à duração e seqüência de cada uma das fases. No capítulo seguinte falaremos do processo do luto complicado. O que o define e quais são suas principais características psicopatológicas e evolutivas, apresentando uma comparação das principais diferenças entre o luto normal e o patológico. Sem a pretensão de esgotarmos o assunto, faremos uma breve consideração sobre a ampla gama de sintomas e causas que nestes casos, muito mais que no processo de luto normal, são influenciados pelas características individuais e históricas, que podem levar a uma má elaboração psíquica diante da perda pela morte. Finalizando a abordagem do tema, apontaremos no último capítulo a proposta terapêutica para o processo do luto complicado, particularizando a Terapia Cognitiva como instrumento de reestruturação cognitiva, visando conduzir o processo de recuperação do individuo para que ele reencontre seu equilíbrio emocional e pessoal, e caminhe para a resolutibilidade do processo. Inicialmente faremos uma breve distinção entre o processo patológico do luto e a depressão, uma vez que esta não possui um substrato claro como causa, diferentemente do luto, causado por uma vivência real de perda. 2. O LUTO NORMAL OU SIMPLES [...] É claro que perdas são comuns em nossa vida. E como luto é uma reação a perda, deveria ser comum também. Mas o termo luto não é usado para reação à perda de um guarda-chuva velho. Ele geralmente é reservado para a perda de uma pessoa, em especial, de uma pessoa amada. e esse tipo de perda não é um acontecimento “comum” na vida da maioria das pessoas (PARKES, 1998, p. 24). Antes de nos determos à temática principal deste trabalho - o luto patológico - consideramos necessária uma abordagem sobre o processo do luto normal para entendermos, primeiramente, algumas características das emoções, das alterações cognitivas e comportamentais evidenciadas no processo do luto normal, a fim de termos subsídios conceituais e psicopatológicos para entendermos melhor o processo e o curso do luto e suas repercussões sobre a vida e a saúde mental dos que vivenciam essa experiência. As experiências e acontecimentos psicológicos na vida de cada um somente seriam compreendidos, em sua totalidade, se houvesse a possibilidade de entendermos tudo o que os precede. Sendo assim, não podemos compreender e identificar todas as emoções e seus dimensionamentos, nem todos os aspectos vivenciados por cada um diante do luto. O processo do luto, apesar de ser um mecanismo universal e comum aos seres humanos, apresenta particularidades individuais e é determinado por fatores pessoais, culturais, históricos, regionais, raciais, religiosos, etc., que, certamente, precisam ser levados em conta ao avaliarmos os efeitos e as diferentes respostas a essa experiência. Existe, porém, a possibilidade de se compreender alguma coisa acerca dos fatores que atuam sobre a maior parte dos casos (PARKES, 1998, p.145). Neste capítulo traçaremos algumas considerações gerais sobre os conceitos, as fases e as alterações psíquicas, propriamente ditas, no luto normal. 2.1 Conceito Segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10-1993) os contatos com serviços médicos e psiquiátricos devidos a reações normais de perda, apropriadas para a cultura e não excedendo seis meses de duração, devem ser registrados pelo código Z63.4, que se refere ao desaparecimento ou morte de um membro da família. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM IV-TR, 2003) define luto como a morte de um ente querido com expressão e duração que variam em diferentes grupos culturais e não representa um transtorno mental. (PARKES, 1998). Kaplan define luto simples como sendo “... uma resposta normal, em vista da previsibilidade de seus sintomas e de seu curso”. (SADOCK, SADOCK, 2007, P. 80). Esses sintomas geralmente iniciam-se com um estado de choque diante da perda, vivenciado como um sentimento de insensibilidade ou confusão, dificuldade de se entender o que aconteceu, manifestações de sofrimento como choro, e reações de ordem física como fraqueza, diminuiçãoautora relata que foi chamada de anticristo assim tendo seu trabalho desqualificado, falar sobre essa temática não é fácil, atuamos em uma área que temos tanto medo, ela relata que é impossível ter experiências com esses pacientes e não perceber a importância. Ela ressalta, Kübler-Ross (2005, p.225). Parecia para mim, hipocrisias e falta de honradez escutar essas experiências e compartilhar muitas delas e logo não mencioná-las em minhas conferências e cursinhos. Compartilho tudo que aprendo com meus pacientes nas últimas décadas e trato de seguir fazendo. A medicina já contou com muitos pioneiros que foram igualmente perseguidos. Kübler- Ross (2005, p.225). 1.2 FASES DO LUTO Para chegar na compreensão das fases do luto, vamos abordar sobre a trajetória de Elizabeth Kubler-Ross; Psiquiatra especialista em Tanatologia. Ao nascer já experimentou a superação para provar que merecia viver, nascida em um parto de trigêmeos; nasceu na Suíça em 08 de julho de 1926, na sua adolescência foi impactada pela segunda guerra mundial, onde prometeu e cumpriu que iria trabalhar na Polônia e na Rússia, ajudando os necessitados, seu interesse pela morte e morrer surgiu, quando presenciou o holocausto nos campos de concentração, onde os vagões dos trens voltavam com sapatinhos de bebê e cabelos de crianças que serviam como enchimento para travesseiros, diante o período da ocupação nazista na Alemanha. Seu plano era trabalhar na Índia, porém conheceu um americano, casou e foi morar em Nova Iorque onde se deparou com insatisfação, infelicidade e angústia. Foi quando se identificou com a solidão enfrentada pelos seus pacientes, não entendia muito a língua inglês mas entendia a linguagem da alma dos pacientes. Em 1969 publicou On death and dying, ( Perguntas e respostas sobre a morte e o morrer), traduzido para trinta línguas, a partir dessa publicação houve uma projeção para ser especialista em lidar com a morte, um assunto tabu para uma sociedade ocidental. Em seus estudos de casos com pacientes em fase terminal também envolvia familiares e equipes de trabalho, a autora considerava que o conhecimento teórico tinha seu valor enquanto teoria, mas ele sozinho não valeria nada se por acaso não trabalhasse com o coração e a alma. Em 1974 publicou seu livro Questions and answers on death and dying, (Perguntas e respostas sobre a morte e o morrer), nele ela aborda experiências vivenciadas na clínica e o valor da interdisciplinaridade como também o valor da comunicação, com foco em envolver todos os profissionais com o único objetivo de lidar e transmitir notícias difíceis aos pacientes e seus familiares, da autonomia dos pacientes, a importância de inserir a família no contexto, construindo juntos o processo terapêutico. Em 1981 publicou o livro Living Death and Dying, (Vivendo com a morte e os moribundos), repetindo o formato do livro anterior, abordando pacientes terminais, mais inclui um novo olhar sobre o enlutamento do adulto, adolescente e criança, enfrentamentos sobre perdas inesperadas como suicídio, acidentes, assassinatos e desaparecimentos. Nesse trabalho ela fazia um referencial de como lidar com o paciente, a relação do profissional com o atendimento, onde preserva a opinião do paciente sem julgá-los, mas ajuda-los a fazerem suas escolhas. Os familiares precisavam serem assistidos e orientados para evitar adoecimento emocional ao longo de todo processo envolvendo o diagnóstico, tratamento e momentos finais. Em 1983 a autora dedica On Children and Death, (Sobre as crianças e a morte), onde ela passa a observar os trabalhos com crianças utilizando no processo terapêutico a técnica do desenho. Em 1991escreveu Life After Death, (sobre a vida depois da morte), diante de acidente vascular cerebral a autora relata suas experiências como também de pacientes que viveram experiências, chamada de experiência quase morte (EQM)” de uma suposta morte, morreram por alguns instantes e voltaram. A partir das publicações dessas experiências os críticos começaram a argüir suas argumentações como uma afronta para ciência. Em 2002 escreveu Life lessons (Lições de vida), em parceria com Davi Kessler uma especialista em morte e morrer, seu próximo livro sobre a vida e o viver, onde ela relata que estudar a morte ela aprendeu mais sobre a vida e seus mistérios. Após uma série de derrames cerebrais, Elizabeth aos 78 anos faleceu em Scottsdale no Arizonas no dia 24 de agosto de 2004. Em 2007 ela foi eleita para National Women’s Hall of Fame dos Estados Unidos. Em seu livro On Deatrh and Dying (Sobre a Morte e o Morrer) ela identificou fases nos períodos em que antecedem a morte, criou o método para médicos, enfermeiros e familiares acompanharem e ajudarem o paciente em fase final de vida. Através de uma entrevista com 500 pacientes terminais conseguiu identificar a reação psíquica de cada um deles como também de seus familiares, foram elaborados os cinco estágios durante o processo de reconciliação com a morte, os quais ela classificou e definiu cada fase: a negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. A) NEGAÇÃO: O Indivíduo recusa em aceitar a realidade que está acontecendo. Isto seria uma defesa psíquica que faz com que o indivíduo acaba negando o problema, tenta encontrar algum jeito de não entrar em contato com a realidade seja da morte de um ente querido ou da perda de emprego, de relacionamentos, emigração, amputação de um membro do corpo, perda de objeto, um adoecimento. É comum a pessoa também não querer falar sobre o assunto. A resistência em entrar em contato com esse enlutamento será amparada por outros complexos assumindo um lugar o qual não lhe pertencia antes do enlutamento ou criando expectativas de que esse luto não passa de algo não real, na certeza que em qualquer momento tudo voltará a sua normalidade, assim continua vivenciando o retorno de algo ou alguém o qual foi comprometido por esse luto. “Não, eu não, não pode ser verdade”. Esta negação inicial era palpável tanto nos pacientes que recebiam diretamente a notícia no começo da doença quanto aqueles a quem não havia sido dita a verdade, e ainda naqueles que vinham a saber por conta própria. (KÜBLER-ROSS,2008, p.43). Nessa fase a dor da perda é tão forte que umas das primeiras reações é a descrença do fato ocorrido, essa negação à morte é referida como entorpecimento, na qual se faz necessário ter o encontro com o que foi perdido. Nossa psique precisa da concretude da finitude expressa dos fatos que levaram ao luto, a assinatura do divórcio, a homologação da demissão, a declaração de conclusão de um curso, assinatura de uma escritura de venda da casa; algo concreto para dar início ao processo de enlutamento; a negação da perda gera uma oportunidade de se preparar para um recomeço, continuar vivendo sem o outro, sem o objeto ou alguém perdido. O enfrentamento nos fornece um esconderijo o qual pode se transformar em uma zona de conforto que precisamos resignificar para poder continuar a viver. Perante a sensação de torpor, que pode ser comparada com o luto normal que também será superada, segundo Kübler-Ross (2008, p.47) Quando termina a sensação inicial de torpor e ele se recompõe, é comum no homem esta reação: “Não, não pode ser comigo”. Como somos todos imortais em nosso inconsciente, é quase inconcebível reconhecermos que também temos que enfrentar a morte. B) RAIVA: As pessoas ficam frustradas e com raiva por estarem doentes e podem transferir sua raiva para o pessoal do hospital e para os médicos, a raiva nessa fase leva o indivíduo a se revoltar com o mundo, se sente injustiçado e não se conforma por estar passando por isso. Vem toda uma questão do complexo do abandono. Toda vez em que o indivíduo se depara com o sentimento de perda ele se depara com sentimento de abandono é nesse momento da raiva que vem à tona todas as lembranças e questionamentos, muita das vezes o indivíduo abandona a si mesmo entrando em outros processos de adoecimento para superar a dor do enlutamento. Para além da raiva também desencadeia uma irritabilidade com tudo quelembra o que remete a perda e o comportamento do outro diante da sua vulnerabilidade. Também acompanha a raiva a culpabilidade, em nosso inconsciente a quebra desses vínculos só poderia acontecer de forma natural, mesmo assim buscamos um culpado como um mecanismo de defesa para aliviar a dor, é natural que o indivíduo busque um sentido para esse luto, o qual faz parte desses questionamentos e busca de sentido, é nesse aspecto em que o Eros está diante de Thanatos é diante dessas incertezas que renascemos e que se transforma em um mistério o qual nos fascina e ao mesmo tempo lutamos para nos entregar à uma nova existência de ser. O psiquiatra britânico Colin M. Parkes (1998) retrata o processo de luto como traços a procura da raiva, alivio e a culpa. Kübler-Ross apresenta tal situação claramente em um trecho do seu livro. “Quando não é mais possível manter firme o primeiro estágio de negação, ele é substituído por sentimentos de raiva, de revolta, de inveja e de ressentimento. Surge, logicamente, uma pergunta: Por que eu”? (KÜBLER-ROSS, 2008, p.47). Para Freud nesses sentimentos há uma ambivalência entre o amor e o ódio. “Envolvem todas as situações de desespero, ofensa, e decepção através das quais pode penetrar em uma oposição de amor e ódio, ou pode ser reforçada uma ambivalência já existente”. (FREUD, 2011, p. 70-71). C) BARGANHA: os clientes podem tentar negociar com médicos, psicólogos, os amigos ou mesmo com Deus em troca de cura, prometem, fazem doações, prometem que amanhã iniciará a escrever um livro, plantar uma árvore e fazer trabalhos voluntários, irá tirar aquele projeto da gaveta, vão tomar os remédios, frequentam igreja. Nela, o indivíduo começa a negociar, começando com si mesmo, acaba querendo dizer que será uma pessoa melhor se sair daquela situação, faz promessas a Deus. É como o discurso “Vou ser uma pessoa melhor, serei mais gentil e simpático com as pessoas, irei ter uma vida saudável. ” D) DEPRESSÃO: Neste estágio, os clientes apresentam sintomas clínicos de depressão, retraimento, retardo mental, perturbação do sono, desesperança e possivelmente ideia de suicídio. Essa fase leva a pessoa se retirar para seu mundo interno, se isolando, torna-se melancólica e se sente impotente diante da situação. Para Parkes, (1998); essa dor que provoca muita ansiedade e uma urgência em procurar o objeto perdido expressom a memória que busca o choro como mecanismo de alívio para essa dor uma catarse. Segundo Kübler-Ross (2008, p.93), esse processo de depressão “é um instrumento na preparação iminente de todos os objetos amados”. É um momento de recolhimento, a depressão é silenciosa, não há muito diálogo, não é um momento de comunicação, é o momento de ajudar ao cliente exteriorizar suas angústias, o conforto poderá surgir através do toque, de um abraço, sentar-se ao lado. E) ACEITAÇÃO: Neste último, os clientes compreendem que a morte é inevitável e aceitam a universalidade da experiência. Seus sentimentos variam de humor neutro e eufórico, e em circunstâncias ideais, resolvem seus sentimentos para com a inevitabilidade da morte e conseguem falar sobre o enfrentamento do desconhecido. Na fase da aceitação remete a um estágio em que o indivíduo não tem desespero e consegue enxergar a realidade como realmente é, ficando pronto para um recomeço. A psicoterapia pode auxiliar o indivíduo no enfrentamento desse processo, a medida em que o cliente consegue expressar sua dor ele transforma essas fixações ou bloqueios, com vista à aceitação da perda e a um reposicionamento no mundo real. (Parkes,1998). 1.3 PROCESSOS DE LUTO Para Kübler-Ross (1998), nem todas as pessoas passam por estes estágios e algumas podem passar por eles em sequências diferentes, oscilando entre a raiva e a depressão ou podem sentir ambas ao mesmo tempo, mas é comum que as pessoas que passam por esse processo apresentem pelo menos dois desses estágios. E não necessariamente as pessoas conseguem passar por esse processo completo, algumas ficam estagnadas em uma das fases, isso dependerá de cada vivência particular de como o indivíduo lida com esse processo de luto e de como está seu psiquismo, todos os aspectos relacionados com esse indivíduo, como sua cultura, sua crença, sua filosofia de vida e sua relação com o objeto do luto. Como também não há um tempo predefinido para duração do processo do luto. A partir do pressuposto das cinco fases definidas por Elizabeth Kübler-Ross com aporte teórico da psicologia analítica de Jung, entre outros teóricos, percebemos que essas cinco fases do luto não estão apenas relacionadas ao luto por morte, mas podemos estender por vários processos de perdas na vida cotidiana do indivíduo. O processo de luto ocorre quando há um corte do vínculo como o outro, com objeto ou com algo. Remete o enlutamento referente a morte, a maior parte dos indivíduos enlutados são capazes com um tempo, com auxílio de outros indivíduos, como familiares e amigos de contribuírem na passagem desse processo, com o tempo vai retornando seu cotidiano, resignificando sua vida. Para outros indivíduos lidar com essa perda é algo que precisa ser analisado com auxílio de um profissional em um processo terapêutico para trabalhar esse sofrimento que lhe causa uma dor profunda. Aceitar essa realidade da perda se faz preciso. Por um lado, como o luto, ela é a reação à perda real do objeto de amor, mas além disso está comprometida como uma condição que falta no luto normal ou que, quando ocorre, o converte em luto patológico. (FREUD, 2011, p.64-65). 1.4 LUTO NÃO ELABORADO O luto mal elaborado torna a pensar na perda como um processo de resistência a qual elabora essa dor com base em fugas, que não permitem elaborar no processo terapêutico o enlutamento. Essa dor irá para outro lugar onde não é permitida a livre associação, podendo causar doenças psicossomáticas relevantes, ou assumir um lugar ao qual não lhe pertence, o objeto perdido, ou aquele que era desejado, mas por razão desse objeto ou indivíduo, impossibilitava que a existência e a elaboração do desejo se concretizasse em uma tentativa de negar esse processo de enlutamento. Também é uma forma de elaborar o processo de luto, amenizar essa dor, desvinculando um processo árduo que envolve todo aspecto de vida do indivíduo e não há um método certo, como, também, um tempo determinado do enfrentamento desse processo inevitável. Há dois tipos de perdas; a real quando há morte de uma pessoa ou algo concreto como perda de vínculos com pessoas ou objetos, e a perda simbólica que são perdas de natureza psicossocial, início e final de uma gravidez, passagem de mudanças de fases como final de infância, de adolescência e início da velhice. Para elaborar esse processo ocorre o estado de luto, de fato a consciência da perda. O luto é uma reação natural e saudável. O que caracteriza o luto não elaborado ou mal elaborado a sua permanência faz com que a pessoa não consiga concluir esse processo de enlutamento, os sintomas persistem como: não consegue falar sobre a perda sem referenciar sentimentos intensos; resistência em entrar em contato no que se refere a lembranças; remete a mudanças radicais de comportamento, pode apresentar tristeza ou euforia, uma identificação com o que foi perdido, datas comemorativas se transformam em uma profunda tristeza; impulsos autodestrutivos. 1.5 ASPECTOS PSICOLÓGICO DO LUTO A psicoterapia pode auxiliar o indivíduo no enfrentamento desse processo, a medida em que o cliente consegue expressar sua dor ele transforma essas fixações ou bloqueios, com vista à aceitação da perda. O luto permanece não vivenciado ao longo do tempo, interferindo no estado emocional, esse prolongamento é denominado como luto complicado, uma tristeza profunda chegando ao estágio de melancolia, precisando de intervenção terapêutica. O luto constitui-se em processos complexos, o olhar sobre o enlutado é investigatório das condições irregulares e inconstantes no quadro sintomático apresentado, o luto é importante para manutenção da saúde mental do enlutado, seu diagnósticoe tratamento é essencial para a prática clínica. Como traço característico do enlutamento são episódios agudos de dor, seguido por ansiedade e dor psíquica. Há reações às perdas significativas que desencadeiam desinteresse temporário por atividades realizadas no cotidiano, acompanhado de isolamento social, sentimentos de saudades, tristeza profunda, pensamentos intrusivos, impaciência, irritabilidade, insônia, seguida por algumas alterações e variações como no apetite, desejo sexual poderá diminuir ou aumentar, variações do peso, pessimismo, fuga, culpa, raiva, medo, alterações no sono, vontade de dormir incontrolável, aparecimento de doenças psicossomáticas, depressão, reação suicida, perturbações somáticas, choro, reações hostis entre outros. Segundo Freud (1913, p.65) “O luto tem uma tarefa física que precisa cumprir: a sua missão é deslocar os desejos e lembranças da pessoa que faleceu”. Assim como as crianças passam por fases para um desenvolvimento saudável, as etapas do luto precisam ser vivenciadas para não permear danos psíquicos. Os aspectos psicológicos do luto são uma experiência muito difícil, pois tiram o indivíduo do seu foco de uma vida cotidiana, qualquer tristeza independente do seu impacto psicológico conduz a um impacto negativo no psiquismo, ao perder alguém ou algo, revela que o que foi perdido tem um significado especial. Há também sentimentos não comuns diante da perda, como alivio correlacionado pela culpa; ao mesmo tempo em que há uma resistência em entrar no processo de enlutamento, há alivio mediante o que o objeto perdido representava, como término de relacionamento abusivo, uma conclusão de um curso, término de um contrato, há uma bivalência de sentidos correlação ao luto. CAPÍTULO 2: ARTERAPIA Podemos pensar em arte como forma de expressão do ser humano, partindo de um pressuposto que o homem das cavernas já utilizava a arte como um mecanismo da catarse, manifestando suas emoções e sentimentos, representadas em forma de dor, angústia, luto, vitórias, luta, perda, morte, tristeza, alegria, conquistas representadas nas paredes das cavernas como pintura rupestres, as quais nos remetem em projeções do inconsciente representadas por imagens e símbolos. “A arte é quase tão antiga quanto o homem”. (FISCHER, 1971, p.21). Jung em vários de seus textos percebeu que há uma ligação entre a arte e a psicologia analítica, pois, a partir dela, o inconsciente se manifesta, facilitando o autoconhecimento. Ele demonstra este fator através de um auto experimento denominado “confronto do inconsciente” que ocorreu de (1914 a 1930), neste processo Jung transcreve o que estava em inconsciente, suas emoções em imagens. (FIGURA 1) A arteterapia é uma ferramenta a mais dentro do processo terapêutico individual ou em grupo, com diferentes idades e fatores psicológicos, uma ferramenta facilitadora desde a anamnese até o tratamento psíquico. Através dela o Esta imagem representa o processo de individuação que significa, significa que cada indivíduo vivência de forma diferente os percalços da vida, os traumas, as emoções, etc. (JUNG, [1911] 1986). indivíduo consegue mudar o olhar como ele percebe o mundo e a si mesmo, além de também conseguir examinar a forma como esse olhar é direcionado seja trabalhando com pintura, argila, palavras, desenho, música, dança, o indivíduo constrói um mundo de símbolos que libera emoções e ideias que são representadas por pensamentos e sentimentos. Segundo Philippini (2000), Jung, descreveu como nas culturas mais variadas o processo de individuação era codificado em símbolos com pareceres similares e estas representações do inconsciente coletivo repetidas em mitos, contos, tradições religiosas, tratados alquímicos e ritos de passagem de locais completamente distantes. Imagens recorrentes reaparecem em sonhos, desenhos, pinturas, escrituras e nos símbolos que aparecem através da imaginação ativa e na técnica utilizada. Para Philippini (2000), a arteterapia é um encontro do inconsciente o qual favorece a expressão, onde há comunicação e criatividade se manifestam no caminho criativo, é a relação do reconhecimento do mundo interno e inconsciente. Ela tem como objetivo fornecer suportes materiais adequados para que a energia psíquica manifeste símbolos em criações de vários níveis. Como também se propõe resgatar o indivíduo em sua dimensão integral, expressando seu inconsciente. Para Valladares (2003), a arteterapia na teoria Junguiana caracteriza ferramentas de materiais expressivos diversos e adequado para elaboração de símbolos singulares conforme realidade de cada cliente. Esta concebe além do inconsciente individual, um inconsciente coletivo formados pelos instintos e pelos arquétipos; esse inconsciente coletivo remete a conteúdos universais que sempre aparecem. 2.1 HISTÓRICO DA ARTETERAPIA Ciornai (2004) afirma que: (...) os seres humanos desenhavam imagens, buscando representar, organizar e significar o mundo em que viviam. Em tempos imemoriais utilizam recursos como danças, cantos, tatuagens e pinturas em rituais de cura, de poder e de invocação às forças da natureza. O uso terapêutico das artes remonta às civilizações mais antigas. Porém, só em meados do século XX a Arteterapia se delineia com um corpo próprio de conhecimento e atuação, motivada pela crise da modernidade, em meio às mudanças que marcaram essa época. Após duas guerras mundiais, uma das principais mudanças foi a queda do mito de que a razão e a ciência seriam a resposta para tudo (CIORNAI, 2004, p.27). Entre as décadas de 1920 e 1930, Freud e Jung vieram com a base para o desenvolvimento inicial da arteterapia. Na visão psicanalítica de Freud, ao analisar algumas obras de arte como Moisés e Michelangelo, observou-se que essas obras manifestavam expressões dos inconscientes do artista, percebia uma manifestação simbólica com uma função catártica. O inconsciente se expressa por imagens como as imaginadas em um sonho, essas criações eram criadas na arte como uma via de acesso ao inconsciente, fato que não ocorria por palavras na livre associação. Freud não chegou a usar a arte como processo terapêutico. Já Jung discípulo de Freud, o qual rompeu com o mestre e criou sua própria teoria, a Psicologia Analítica, foi quem retomou o uso a ferramenta da linguagem artística à psicoterapia. Completamente diferenciado de Freud que considerava a arte como uma forma da sublimação das pulsões, Jung considerava a criatividade artística psíquica natural e estruturada, que poderia acessar o inconsciente através de imagens simbólicas. Ele usava desta técnica quando sugeria aos seus clientes que desenhasse ou pintasse livremente seus sentimentos, situações conflitivas, seus sonhos, e analisava a imagem elaborada pelo cliente como simbolização do inconsciente individual e coletivo, utilizando o desenho livre como ferramenta facilitadora da interação verbal com o cliente. Ele acreditava que a arte era a ferramenta utilizada pelo indivíduo para que ele pudesse organizava seu caos interior. Partindo do pressuposto desses dois aportes teóricos, o uso da arteterapia foi se expandido. A educadora norte-americana Margareth Naumburg, pode ser considerada a primeira a utilizar a arteterapia em 1941, seu trabalho foi desenvolvido na psicanálise. No Brasil, a história da arteterapia nasce na primeira metade do século passado com a psiquiatria influenciada pelo marco teórico da psicanálise e da psicologia analítica Junguiana, tendo como seus percursores Osório Cesar e Nise da Silveira, psiquiatras pioneiros utilizando a arte como ferramenta em clientes de instituições de saúde mental. A utilização da arte no processo terapêutico contribui para o desenvolvimento de outra abordagem frente à loucura, contrapondo métodos agressivos utilizados na época, como isolamento e eletrochoque. Segundo Silveira (2001, p.19), nesse caminho alternativo, construiu-se um tratamento mais humano, com inegáveis efeitos terapêuticos na reabilitação dos clientes. Em 1952, Nise da Silveira criou o Museu de Imagem do Inconsciente.Desde 1946 a Dra. Nise se dedicou à terapêutica Ocupacional (T.O.), ela estava em busca de um método para tratamento da esquizofrenia, visando que o T.O. não ocupasse um lugar auxiliar aos tratamentos científicos, como eletrochoque, psicocirugia ou uso indiscriminado de psicotrópicos. Seu objetivo dela era tornar a T.O. um autêntico método terapêutico, onde os agentes terapêuticos seriam a modelagem, música, pintura, desenhos entre outros. Ela percebia uma grande dificuldade, por a T.O. não ser um método não verbal, estava fora de uma realidade praticada pela comunidade cientifica, dentro do sistema cultural vigente que privilegiava a palavra. (SILVEIRA,1981, p.9). Lidando com atividades manuais e expressivas, processando-se sobretudo em nível não verbal, compreende-se que este tipo de tratamento não goze de prestígios na nossa cultura tão deslumbrada pelas elucubrações do pensamento racional e tão fascinada pelo verbo. O trabalho da Dra. Nise da Silveira, perpetuou um novo olhar sobre a arte e loucura. Conforme relatava, nesse caminho alternativo, criou-se tratamento mais humano, com inegáveis efeitos terapêuticos na reabilitação dos clientes, não com fins de distrair, mas de contribuir efetivamente para a cura dos clientes. Apesar de ser pioneira na história da arteterapia no brasil, a Drª. Nise da Silveira não aceitava essa denominação ao seu trabalho, preferiu chama-lo de terapêutica ocupacional, para ela a palavra “arte” trazia um sentido de valor, de qualidade estética, que não tinha uma vista de utilizar a atividade com seus clientes, (SILVEIRA, 2001). 2.2 TÉCNICA EXPRESSÃO CRIATIVA A técnica expressiva intensifica os fenômenos simbólicos tanto no consciente quanto no inconsciente, aumentando a elaboração de significados, para que isso ocorra se faz necessário ativar a função estruturante transcendente da imaginação, fazendo ultrapassagem a liberdade dos símbolos em suas raízes arquetípicas. Não podemos saber o significado trazido por um cliente, os significados são sempre incontáveis, o que é trazido naquele momento tem um contexto no processo de individualização, a técnica irá detectar fixações de defesas. O caráter simbólico e arquetípico das histórias da tradição oral expressa interesse na psicologia analítica, o inconsciente coletivo, constitui-se de conteúdos que o consciente não acessou, o desenho pode ser um elo de apresentação de imagens arquetípicas e míticas, sinalizando conteúdos inconscientes dando forma a sentimentos que um indivíduo em processo de luto possa estar vivenciando auxiliando esse contato com a dor. As técnicas expressivas não funcionarão sozinhas, a fala do cliente faz parte da complementação. A expressão criativa dentro do processo terapêutico é mediar a produção de símbolos do inconsciente. Para Jung, uma palavra ou uma imagem é simbólico quando remete a alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato (JUNG, 1977, p.20). Para Jung além do inconsciente individual também há um inconsciente coletivo, os quais de ordem individuais e sim de ordem universais, formados pelos instintos e arquétipos. Como também além das memórias de um “passado longínquo, novas ideias podem surgir do inconsciente. ” (SILVEIRA, 1997, p.38); remete a uma função criadora que aparece nas imagens dos sonhos, das fantasias, nos mitos e na expressão plástica. Embora Nise da Silveira trabalhasse apenas com expressão livre e espontânea dos clientes, na arteterapia o psicólogo poderá usar atividades expressivas a partir de objetos e temas, auxiliando o indivíduo em seu processo de individuação. Para Jung, ao se tratar da psicologia e arte ele ressalta, (JUNG,1971, p.54). Apesar da sua incomensurabilidade existe uma estreita conexão entre esses dois campos que pede análise direta. Essa relação baseia-se no fato de a arte, em sua manifestação, ser uma atividade de cunho psicológico; pois, sob este aspecto, ela, como toda atividade humana oriunda de causas psicológicas, é objeto da psicologia. Segundo Kübler-Ross (2005) ao trabalhar com crianças, ela percebeu que a criança lidava com uma linguagem simbólica, iniciando assim, o trabalho de análise dos desenhos, de analisar desenhos de crianças, apesar de sua formação ser psicanálise clássica, estava ampliando sua visão de mundo emocional para além das teorias da psiquiatria. No seu último livro, abordou a simetria e integração entre as equipes de trabalho e seus pacientes, na época dava ênfase no que hoje classificamos como humanização da saúde, chamamos de projetos terapêuticos e de uma clínica ampliada. CAPÍTULO 3: GRUPO DE ARTERAPIA COM CLIENTES EM PROCESSO DE LUTO 3.1 ORIGEM DO GRUPO Quando cheguei ao Centro de Reabilitação, equipamento de Saúde do Município de Rio das Ostras, em Outubro de 2016, para estágio curricular obrigatório, promovido por um convênio entre Prefeitura Municipal e a Universidade Federal Fluminense Campos Rio das Ostras (UFF-CURO). O grupo já existia sob a direção da supervisora de campo de estágio Suzete Alves, como grupo de terapia e arteterapia. A partir da demanda de conteúdo foi percebido que aquele grupo estava se tornando um grupo de clientes enlutados, com esse olhar para leitura dos trabalhos da Drª. Elizabth KÜbler-Ross, e com base teórica na psicologia Analítica de Jung. Durante as reuniões, percebi a dificuldade desses clientes falarem sobre esse enlutamento no processo terapêutico, esse luto aparecia, mas não era tocado. Então iniciei a pesquisa, junto com meu orientador de estágio Dr. Prof. Maddi Damian, e minha companheira de estágio Nathalia de Souza Jaccoud Cardoso. Discutimos quais técnicas poderiam facilitar esse processo de luto, em que o cliente pudesse falar através da livre associação. Após uma supervisão de estágio, onde foi aplicada a técnica da “garrafa” através do desenho, veio um insight, em que se os colegas e eu conseguimos nos expressar através daquela técnica, seria pertinente aplicá-la naquele grupo de clientes do centro de Reabilitação, e os resultados foram além do esperado, todas as clientes se expressaram em livre associação sobre seu processo de luto através da expressão criativa. 5. CONCLUSÃO O processo do luto, tanto o considerado normal, caracterizado pela resolutibilidade espontânea, quanto o processo patológico, que não se resolve dentro de um tempo previsto, necessitando apoio psiquiátrico e psicoterápico, configuram-se, ambos, numa gama enorme de reações psicofísicopatológicas, e apresentam-se com quadros bastante diversificados de reações e alterações cognitivas e comportamentais. Fica claro que as formas e a intensidade das reações vivenciadas em ambos os processos, são configuradas e determinadas pelas características pessoais, e são fruto, indubitavelmente, da personalidade pré mórbida, do contexto psíquico, social, cultural, etc., do enlutado. Porém, não se pode desconsiderar que, apesar das características individuais serem determinantes, a intensidade e a evolução do sofrimento são também determinados pelas circunstâncias e características de como ocorreu a morte. Uma conclusão importante é o fato de que a vivência das perdas pela morte configura-se como um dos processos mais dolorosos e desencadeadores de sofrimento humano, tornando sua evolução absolutamente imprevisível. O luto complicado é um quadro psicopatológico grave que necessita intervenção ampla e, certamente, de difícil resolução, uma vez que afeta profundamente a vida do enlutado, determinando alterações cognitivas e comportamentais profundas. A Terapia Cognitiva pode apresentar-se como um processo terapêutico importante e como instrumento de ajuda ao paciente, uma vez que pode auxiliá-lo na elaboração e reorganização cognitiva através das técnicas clássicas da TC, utilizadas para tratamento dos transtornos causados pelas perdas. Este trabalho abriu possibilidades para pensar sobre o enlutamento e os dispositivos naturais do inconsciente que atuam a favor da autorregulação do enlutamento. Foi pensando em uma ferramenta que facilitasse o processo de perdas, onde indivíduos são vulneráveisnesse processo por meses e anos por uma perda significativa, fenômeno que começa no psíquico e muitas das vezes são transformados em doenças psicossomáticas, palavras que não são verbalizadas, são transformadas em sintomas. Em alguns casos, o processo de enlutamento não é compreendido e respeitados, se impõe esse enlutamento em um prazo curto, em contrapartida o processo de longo prazo interferem nas relações, o luto não elaborado ou mal elaborado é um fator de risco para saúde mental, entretanto seu diagnóstico e tratamento são fundamentais para o indivíduo e a prática clínica. Ter a expressão criativa através do desenho, embora promissores os achados dessa pesquisa não pretendem ser conclusivos, aspectos positivos foram encontrados, como também foi percebido a necessidade de atendimento terapêutico individual para aprofundamento de conteúdos abordado durante e depois da elaboração da técnica. Foram baseados em análise de onze casos documentados, através da projeção do desenho o inconsciente individual e coletivo se manifestou. Foram onze amostras de técnica expressiva criativa através do desenho livre com um tema central com o objeto garrafa, onde seriam inseridos em um cenário, no qual a cliente abordasse uma história. Sete amostras foram analisadas com base na hipótese. No processo terapêutico a arteterapia e as expressões criativas através, do desenho é uma ferramenta facilitadora para elaboração do enlutamento? Não só mostrou fases em que as clientes vivenciaram e vivem como também revelou um aspecto em comum do grupo onde fomos surpreendidos, clientes em seu processo de interpretação do desenho associaram a garrafa com experiências pessoais, com elas ou com um membro da família relacionado ao alcoolismo, conteúdo que surgiu do inconsciente coletivo se faz necessário uma investigação mais aprofundada. A partir da conscientização e reconhecimento das fases como foi trabalhado posteriormente sobre o tema abordado com o grupo, percebeu-se que estamos no caminho correto para elaborar essas perdas sofridas, pertinente às pessoas enlutadas encontrarem um acolhimento diante das suas dores, perdas e sofrimentos. Esse encontro com a Arteterapia e com a técnica expressiva criativa através do desenho, foi facilitador para que as clientes abordassem o conteúdo do luto que estavam vivenciando. Mais uma razão pertinente para que outros pesquisadores deem continuidade à análise dos resultados descritos. Concluo este trabalho com a frase de uma cliente, estávamos no processo de desligamento no estágio do atendimento clinico em saúde mental. “ Você sabia que as bonecas falam comigo? Tenho uma boneca que além de falar comigo também dança...[ ]...acho lindo ela dançar pra mim, quando estou me apaixonando por aquela dança! Ela some, dançando, dançando e dançando... ” (M.E.). No processo do luto e suas fases todos nós somos impactados por ele, tanto cliente, quanto os profissionais envolvidos em seu processo terapêutico, nessa dança de saberes e descobertas fico na expectativa de dar continuidade à minha pesquisa em outros seguimentos acadêmicos, como mestrado e doutorado. A psicologia nos proporciona essas experiências de encontros e nos apaixonarmos cada vez mais com o seu conhecimento e abordagens. 6 REFERÊNCIA ABNORMAL Grieving. Active Forever: Madical Supplies, Safety, Equipament and Innovative Health Products. 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Apesar dos conceitos apresentados serem de entendimento aparentemente simples, julgamos necessário esclarecer que é difícil se estabelecer um conceito definitivo de luto, como doença descrita, uma vez que o mesmo se caracteriza por ser um processo e não um estado. 2.2 Fases Mais importante do que nos determos no conceito propriamente dito, é descrevermos as fases que caracterizam e definem o processo do luto normal. As pessoas em processo de luto normal atravessam fases evolutivas do ponto de vista clínico e psicopatológico. A literatura apresenta algumas variações no que diz respeito à sua duração, características e nomenclatura. Porém, nessa caracterização, nota-se um padrão claro da evolução do processo do luto normal rumo à resolutibilidade dos sintomas, o que não ocorre no luto patológico, como abordaremos no capítulo seguinte. A dor tem seu início, em geral, algumas horas ou dias após a perda, e atinge a maior intensidade após cinco a quatorze dias (PARKES, 1998, p 62). É nessa fase que emergem sentimentos de saudade profunda e choro intenso. Estes se manifestam espontaneamente e tendem a tornar-se menos frequentes com o tempo, surgindo somente quando provocadas por estímulos que trazem a perda à memória. Robertson e Bowlby denominam essa fase de “procura” e “protesto”. Essa fase da procura traz um desejo profundo e persistente pela pessoa que morreu e é nela que podem ocorrer a maior parte das manifestações autonômicas, as manifestações de pânico, suspiros profundos, hiperatividade, inquietação, diminuição da capacidade de concentração, perda de interesse pelas pessoas ou coisas, ruminação dos pensamentos sobre as causas que levaram à morte, alarme, tensão e estado de vigília, direção da atenção para aquelas partes do ambiente nas quais a pessoa perdida poderia estar e chamados por ela. [...] Como os estágios do morrer de Kubler-Ross, os estágios do luto não prescrevem um curso definido do mesmo. Em vez disso, são orientações que descrevem um processo fluido e sobreposto que varia conforme os sobreviventes. (SADOCK, SADOCK, 2007, pag 83). Quadro 1 Segundo o quadro 1, o processo de luto apresenta três fases de evolução, a saber: Fase 1 – Choque, Fase 2 – Preocupação com o Falecido e Fase 3 – Resolução, nas quais se inter-relacionam quatro aspectos: emocionais, sintomas somáticos, pensamentos e estágios motivacionais. O que fica evidente na figura é o predomínio dos sintomas somáticos e emocionais nas fases 1 e 2; normalização progressiva dos sintomas relacionados ao pensamento, que evoluem desde negação e descrença sobre a perda na Fase 1, passando por sonhos e pensamentos sobre o morto na Fase 2, chegando à Fase 3, caracterizada pelo restabelecimento da normalidade das emoções, da cognição e da motivação com reestruturação das emoções, inclusive, para elaborar novos relacionamentos. É interessante notarmos a ausência de uma delimitação temporal, cronológica, entre as três fases, o que demonstra, claramente, o aspecto individual e fenomenológico de cada uma delas. Sidney Zisook, e Nancy S. Dawns, (STAGES, 2011) apresentam a seguinte proposta para as fases do luto: Choque e Negação - com duração entre minutos, dias a semanas. Marcada pela descrença, insensibilidade e comportamento de busca: lamento, saudade, protesto. Angustia aguda - com duração de semanas a meses. Marcada por distúrbios somáticos, retraimento, raiva, culpa, identificação com o falecido e perda de padrões de conduta com agitação, inquietação e falta de objetivos e motivação. Resolução – com duração de meses a anos. Marcada pelo encerramento do trabalho de luto, retorno ao potencial de trabalho, retorno aos papéis antigos ou aquisição de novos papéis, restabelecimento do prazer e do convívio com outras pessoas. O luto normal é um processo transitório e pode ser conceitualizado segundo quatro fases; Fase de Entorpecimento- Sentimento de desvinculação da realidade com desamparo e sensação de imobilidade. Nessa fase aparece uma negação da realidade da perda que pode ser interpretada como um mecanismo de defesa ou enfrentamento diante de um evento de difícil aceitação. Fase do Anseio e Protesto- Marcada por sofrimento psicológico e agitação física. Podem ocorrer manifestações de raiva dirigidas tanto ao próprio enlutado como a pessoas próximas e significativas. Fase do Desespero- marcada por momentos de apatia e tristeza profunda cujo processo de supressão é lento. Acompanham sintomas somáticos como insônia, inapetência e alterações cognitivas. Fase da Restauração e Restituição- Nessa fase o indivíduo apresenta uma nova identidade que lhe permitirá abandonar a idéia de recuperar o que perdeu e adaptar-se a ela com retorno de sua independência e de sua iniciativa próprias. Renovam-se os laços sociais apesar de ainda permanecer a instabilidade emocional. Elizabeth Kubler-Ross (PETROFF, 2011) caracteriza o luto nas seguintes fases: Negação- Atua como mecanismo de defesa e enfrentamento diante da constatação da perda. Raiva- Emoção que aflora diante da evidência da irreversibilidade da perda. Pode ser direcionada ao falecido, à circunstância da morte, à vida, a Deus. Depressão- Alteração do humor com tristeza profunda em função da perda, por um período de tempo limitado. Aceitação- Fase da resolução das alterações emocionais e cognitivas. Esses estágios seriam vivenciados também de forma individual, sem um critério cronológico padronizado. Em seu livro “Perdas Necessárias”, Judith Viorst (VIORST, 1986 p. 244) aborda a questão afirmando que a primeira fase do processo é de “choque, apatia e uma sensação de descrença” seguidos de incredulidade e negação, podendo durar muito tempo depois do choque inicial. Após essa fase mais curta, inicia-se uma fase mais longa de intenso sofrimento psíquico, caracterizada por choros, lamentos, reações físicas, letargia, atividade exagerada, ansiedade e raiva. Em seguida ao choque e dor aguda, segue-se o “final” do luto, ainda mesclado por sentimento de tristeza, ansiedade e saudade. O processo tende à recuperação, aceitação e adaptação. Recupera-se a estabilidade, a energia, a esperança, a capacidade para ter prazer e reiniciar a vida. O luto normal, portanto, pode ser considerado um processo que evolui sempre para a resolutibilidade das alterações emocionais e cognitivas que surgiram em decorrência do trauma causado pela perda, como afirmamos anteriormente, e que, dentro de variantes individuais de reações, culmina com a dissipação dos transtornos mentais, sem que haja seqüelas. Em última instância, as reações, emoções e sentimentos envolvidos no processo de luto dependem de como sentimos ou vivenciamos a perda, depende de nossa idade e da idade da pessoa perdida, depende do quanto se está preparado para isso, depende de nossas forças interiores e do apoio externo, Sem dúvida, depende da história de cada um. Assim, ao nos depararmos com a temática do luto e seus efeitos físicos e psíquicos, precisamos considerar os muitos fatores que determinam as possíveis respostas individuais a esse complexo processo. Não temos a pretensão de abordar aqui todos os fatores possíveis envolvidos na determinação do luto, mas abordaremos aqueles que nos parecem de maior relevância e evidência e que, possivelmente, estão mais frequentemente envolvidos na gênese do luto patológico, tema central deste trabalho. 2.3 Os Fatores Determinantes do Luto Dependência - O rompimento de qualquer relação afetiva, principalmente quando causado pela morte, determina um sofrimento muito maior quando existe uma relação de dependência da pessoa enlutada em relação à pessoa perdida. Pesquisas indicam que a saudade manifestada como desejo intenso de encontrar a pessoa morta é sinal antecipatório de luto crônico, posteriormente. (PARKES,1998) Antecedentes e Características Pessoais - Os antecedentes pessoais e características de personalidade da pessoa enlutada determinam o grau de sofrimento, o tipo e a intensidade das reações do indivíduo diante daperda. Podemos citar, dentre outros fatores; o parentesco (filho, pai, cônjuge, etc.), a auto- estima, a idade, as condições sócio econômicas e culturais, o sexo, o grau de confiança, experiências na infância, transtornos mentais prévios e sinais anteriores de vulnerabilidade à perdas., etc., como alguns dos aspectos envolvidos. Pesquisas demonstram que, em nossa cultura, a perda do marido é o tipo mais freqüente de perda de relacionamento que leva a problemas psicológicos. (PARKES,1998). Os fatores relativos à personalidade são determinados tanto por condições genéticas quanto pelas experiências prévias de vida do enlutado. Essa questão apresenta-se, ainda, bastante indefinida diante da dificuldade de se estabelecer uma relação entre as características pré-morbidas da personalidade, como fatores determinantes da maior ou menor vulnerabilidade diante dos processos de perdas. No entanto, não há dúvida de que há pessoas mais vulneráveis que outras diante do luto. Baixa auto-estima - A baixa auto-estima é um dos fatores mais frequentemente encontrados em pessoas que buscam ajuda psiquiátrica e psicoterápica por problema de perda e luto não resolvido. Essencialmente, a baixa auto-estima é a manifestação da falta de confiança da pessoa em administrar seu próprio mundo; “dificuldades significativas no enfrentamento” (PARKES,1998, p181); seja esse problema prévio ou posterior à perda. Em essência, a baixa auto-estima torna o indivíduo mais vulnerável ao sofrimento crônico diante de luto, principalmente quando inesperado. Influências Sociais e Culturais - Pesquisas (Burgoine-1988) (PARKES, 1998, p. 184) demonstram que sociedades que, culturalmente, mantêm vivos e encorajam os rituais e expressões de pesar e luto tendem a ter menos problemas na vivência de perdas e do luto. Outro fator decisivo para o desenvolvimento organizado do processo de luto é a proximidade física e o apoio de parentes, vizinhos e amigos, com afinidade com o enlutado. Apresenta-se como de extrema relevância no processo normal do luto o aspecto religioso. Pesquisas indicam que aqueles que professam crença em Deus, apresentam menos depressão e desesperança no luto do que os que se dizem descrentes. Pesquisa feita por Bohannon (1991) demonstrou que: [...] mães que perderam um filho apresentaram menos pensamentos recorrentes, despersonalização e perda de controle se são freqüentadoras assíduas da igreja, do que as que não o são. (PARKES, 1998, p. 202). Tipo e Condições em Que Ocorreu a Morte - É indiscutível que a intensidade do trauma pela perda e as características do desenrolar do processo do luto estão diretamente relacionados ao tipo de morte e ao estado do morto. Assim, a morte prematura, as mortes múltiplas, as mortes violentas (suicídios, assassinatos, etc.), as mortes que geram culpa, as mortes súbitas, dentre outros fatores relacionados à circunstância da morte, são fatores que definem a evolução das emoções e das alterações psíquicas do enlutado, gerando processos de luto bastante difíceis. Em contrapartida, as mortes naturais não são, em geral, traumáticas. (PARKES, 1998). Outro importante aspecto que determina as reações pessoais no processo do luto são as imagens e lembranças relacionadas às circunstâncias da morte e a aparência do morto. “Quando essas lembranças são de acontecimentos terríveis, que a pessoa prefere esquecer, as conseqüências são muito diferentes daquelas resultantes de lembranças alegres...” (PARKES, 1998, p. 71). É necessário que se faça uma diferenciação entre pesar e reações de estresse traumático. E o que faz essa distinção é, também, o tipo de imagem sobre a pessoa perdida, que ocupa as lembranças do enlutado. Gênero - Pesquisas mostram que, em geral, as mulheres sempre saem da experiência do luto com maiores dificuldades de ajustamento psicológico e social que os homens. Em contrapartida, os homens apresentam maiores índices de mortes por ataque cardíaco após a morte do cônjuge, em conseqüência, talvez, da maior repressão dos sentimentos inerentes ao luto. (PARKES, 1998, p152) Idade - As reações ao luto são, em geral, afetadas pela previsibilidade e imprevisibilidade da morte. Dessa forma, há muita diferença entre as reações à perda de uma pessoa em idade avançada, cuja morte já é esperada, pela lei natural dos fatos, e a perda de uma pessoa jovem, no início da vida. Um aspecto interessante, revelado em pesquisas (PARKES, 1998), é o fato de idosos serem mais susceptíveis à depressão diante do processo de luto, o que talvez possa ser explicado pela maior exposição à vivência de mortes múltiplas que ocorrem ao seu redor. No outro extremo, encontram-se as crianças, também muito susceptíveis a sofrimento intenso diante do luto. Esse assunto, porém, é extremamente amplo e não será tratado aqui. Outros fatores - Doka(1989) denominou “luto não autorizado” uma categoria de luto que designa as perdas que não podem ser abertamente apresentadas ou vivenciadas, social e publicamente, não reconhecido e reprimido, dentre eles: (PARKES, 1998 p163) Relacionamentos não reconhecidos como, por exemplo, extraconjugais, homossexuais, amantes, pais biológicos de crianças adotivas, médicos e enfermeiras que se vincularam aos pacientes. Perdas não reconhecidas como: Mortes peri natais, abortos, devolução de crianças adotadas, morte de animal de estimação, perda social e psicológica sem morte como, por exemplo, parceiro em estado vegetativo pós trauma, Alzheimer, etc. Características sociais, pessoais e culturais como religiosidade, rede social em torno do enlutado, apoio e envolvimento familiar íntimo e boa situação econômica, são fatores importantes que, segundo várias pesquisas, contribuem como atenuadores de complicações psíquicas no luto. (PARKES, 1998). A propósito de introduzirmos o tema do luto patológico, suas causas, conseqüências e características, é de grande importância colocarmos mais alguns aspectos gerais sobre o estresse diante da perda e do luto. Centenas de estudos demonstram que a morte na família é o principal estressante da vida e que todo fator estressante aumenta o risco de doenças físicas e mentais. As questões fundamentais a serem indagadas, então, independentemente das características e circunstâncias que envolveram a perda, seriam: Por que nem todos os que sofrem essas perdas são susceptíveis a essas doenças? O que estabelece a diferença entre a cura e a manutenção do processo de luto? O que aumenta a vulnerabilidade? Cremos que para se iniciar o longo e inconclusivo caminho para as respostas às indagações acima e com o objetivo de se tentar estabelecer uma proposta terapêutica para o luto patológico, tema do capítulo três deste trabalho, torna-se necessária, primeiramente, uma abordagem sucinta, porém clara, dos instrumentos de intervenção psíquicos e comportamentais que são utilizados na atenuação, enfrentamento e resolução do processo do luto normal. 2.4 Mecanismos do Processo de Resolução O trabalho de luto é o processo de aprendizagem pela qual cada mudança resultante é progressivamente compreendida (tornada real) e é estabelecido um novo conjunto de concepções sobre o mundo. Ninguém absorve de uma só vez a realidade de um evento tão importante como o luto. (PARKES, 1998 p170). Para o alívio no processo do luto, são utilizados mecanismos de reestruturação emocional. Assim, consciente ou inconscientemente, são disparados mecanismos de enfrentamento visando abrandar ou superar a dor. Um comportamento comum do enlutado, objetivando a diminuição da dor, é a manutenção da sensação de que a pessoa perdida está por perto. Nesse mecanismo de defesa, os comportamentos de “procurar” e “encontrar” andam juntos; “Uma nítida memória visual; Uma sensação da presença constante do morto; Preocupação com pensamentos sobre ele”. (PARKES, 1998). Esse comportamento de “procurar e encontrar” é amenizado a medida que o tempo passa, sendo a dor substituída pelo prazer da lembrança e por uma mistura de emoções convergindo para a solução do processo. Em contra partida, outra forma de se amenizar ador do luto é evitar pensar na pessoa perdida e naquilo que traga lembranças a seu respeito, preenchendo a vida com atividades e afazeres. A resolução do processo do luto passa, obviamente, pelo apoio de amigos e familiares próximos, como já foi afirmado. Essa atitude de ajuda, entretanto, deve ser marcada por equilíbrio emocional e respeito ao momento de dor pelo qual passa o enlutado de modo que nem enfatize ou valorize excessivamente a dor e a tristeza, nem, contudo, a despreze ou tente argumentar na tentativa de abreviá-la ou desvalorizá-la. O enlutado tem uma tarefa difícil a realizar que não pode ser evitada nem apressada, (PARKES, 1998, p205). Entendemos que seria impossível abordar e definir neste trabalho todos os mecanismos que atuam e convergem para a resolutibilidade do processo do luto. Neste capítulo apresentamos uma síntese dos mecanismos básicos envolvidos nesse processo em seus aspectos psíquicos e comportamentais. São patentes e visíveis as nuances pessoais e individuais na determinação da evolução normal do restabelecimento do equilíbrio emocional e da reestruturação da vida, diante da perda e do luto. Independentemente de apoio externo, da cultura, crenças, idade ou qualquer outro fator, a resolutibilidade do processo de luto depende, em sua essência, da estrutura psíquica do indivíduo forjada através de sua historia de vida e de sua dinâmica atual. Contudo, não são raros os quadros psicopatológicos graves de persistência do luto, da tristeza e da dor, em indivíduos que não processam a perda, não resolvem, e não se reequilibram diante da morte de uma pessoa amada, permanecendo nesse estado muito além do tempo considerado viável e aceitável para a resolutibilidade desse processo:o luto patológico. Sua definição, suas características psicopatológicas e quais são os indivíduos susceptíveis, dentre outras, são questões que abordaremos no capítulo que se segue. 3. O LUTO PATOLÓGICO Após a abordagem a cerca do processo do luto normal em sua evolução psíquica, cognitiva e comportamental, abordaremos, neste capítulo o luto patológico ou atípico ou complicado, conforme as várias denominações referentes ao processo de luto que não evolui para a resolutibilidade dos sintomas do enlutado. 3.1 Definição Não se pode dizer, em uma definição universal, o que seja luto patológico. Vários aspectos dificultam a conceituação e a caracterização do processo do luto atípico. Talvez o principal deles seja o fato de que os problemas psiquiátricos inespecíficos se somam aos problemas específicos, conseqüentes à perda, e se mesclam na gênese das complicações características do processo do luto patológico. (ALMEIDA, SANTOS, 2001, p9) Muitos pesquisadores consideram que a duração e intensidade do luto são fatores determinantes, outros defendem que as circunstancias na qual o falecimento aconteceu é que determinam a ocorrência do luto patológico. (GENTILE, 2004). Luto patológico é aquele que, mesmo após o período de seis meses a dois anos, tempo considerado pela literatura como satisfatório para a resolução do processo de luto, há persistência dos problemas emocionais, cognitivos e psíquicos. Geralmente é grave e prolongado, com indicação absoluta de tratamento psiquiátrico e/ou psicoterapêutico. Segundo Worden (1998) –– a fronteira que difere o luto normal do complicado é bastante tênue e é necessária uma avaliação criteriosa e adequada para o diagnóstico. Segundo esse autor, luto complicado é aquele que não evolui de forma satisfatória, e é entendido como aquele que gera sobrecarga ao indivíduo, incorrendo em comportamento mal adaptado sem progressão à resolução do processo do luto. (ALMEIDA, SANTOS, 2001, p9). O autor considera alguns fatores como indicativos de complicação: -Incapacidade de falar sobre o falecido, mesmo depois de decorrido longo tempo da perda. -Incapacidade de falar sobre a morte sem apresentar tristeza intensa. -Desencadear reação de perda intensa, mesmo diante de eventos menores. -Considerar que não se adaptou à perda. -Excluir de suas relações amigos do falecido. -Apresentar impulsos autodestrutivos -Aversão ou fobia a algum aspecto que envolveu a morte. Esse autor coloca ainda outros indicativos de complicação do luto tais como: dificuldade de enfrentar o fato de que a pessoa se foi e nunca mais retornará, presença de sentimentos confusos e ambivalentes (amor e ódio) em relação ao falecido, sensação de insegurança e incapacidade de viver a vida por conta própria. Genericamente, os problemas psiquiátricos poderiam ser classificados em dois grandes grupos, a saber: os problemas não específicos e os específicos. Os problemas psiquiátricos não específicos seriam aqueles conseqüentes à imensa gama de sintomas decorrentes dos estressores diversos da vida que, neste caso, referimo-nos ao enlutado. Os problemas específicos seriam aqueles decorrentes do processo de perda, propriamente dito, manifestando-se, neste caso, como o luto complicado. (ALMEIDA, SANTOS, 2001, p9). Quadro 2 3.2 Indivíduos Susceptíveis Há uma série de fatores de risco relacionados ao luto patológico. Dentre eles podem ser citadas histórias de separação na infância, ansiedade, controle excessivo dos pais, morte ou abuso dos pais, estilo de vida inseguro, dependência matrimonial e falta de preparação em lidar com o tema da morte. Pessoas que apresentam essas características podem ser mais vulneráveis a apresentarem sintomas do luto patológico (ASLAN, 2009). Mas a maneira como um dado individuo reagirá a uma perda depende de vários fatores e não é de fácil dedução. A natureza do evento, a existência ou não de outros eventos que levem a um efeito cascata, além de seu contexto físico e social são relevantes. A reação de uma pessoa também dependerá de sua personalidade, uma vez que esta afetará como a experiência da perda será conduzida, a duração das fases do luto. O fato de existirem diferentes configurações antecessoras à perda e, consequentemente, diferentes reações à mesma, levou muitos pesquisadores a sugerirem a existência de diferentes tipos de luto patológico (BONANNO, 1997). Quadro 3 3.3 Características Psicopatológicas De acordo com Parkes (1998) “...o que torna a reação patológica é a intensidade com que são sentidas a raiva, as auto-acusações e a depressão”(PARKES, 1998, p135). Wordem (1998) classifica as reações do luto complicado em quatro tipos: as crônicas ou prolongadas, as retardadas, as exageradas e as mascaradas (ALMEIDA, SANTOS, 2011). Evolução Crônica: No luto crônico a duração é excessiva, sem término satisfatório. Apesar de a pessoa ter consciência de não estar conseguindo uma conclusão do processo, isso não a ajuda no processo de resolução. [...] “Sinto saudade dele o dia inteiro; Quero meu marido a cada minuto do dia mas, nem você nem ninguém, pode trazê-lo de volta”. Essas afirmações seriam totalmente normais se tivessem sido feitas semanas após a perda, mas, de fato, a primeira foi feita um ano e meio depois, e a segunda, nove anos e meio depois [...] (PARKES, 1998 p135). Luto Retardado ou Adiado ou Suprimido: quando uma determinada perda não foi elaborada de maneira adequada ou suficiente, desencadeando, em outra perda futura, uma reação desproporcional e excessiva. Outro aspecto que diferencia os portadores de psicopatologias relacionadas ao luto complicado daqueles que evoluem satisfatoriamente é o fato de que estes têm a tendência de adiar a reação ao luto. Esse adiamento parece ser o prolongamento da fase de entorpecimento ou uma “indiferença” diante do trauma. Sabe-se que esse estado de indiferença pós-trauma é um fator agravante das reações ao estresse. (Wordem apud ALMEIDA, SANTOS, 2011). Luto Exagerado: nesse tipo de reação a pessoa enlutada apresenta sinais de comportamento mal adaptado como distúrbios mentais típicos de TEPT (Transtorno de Estresse Pós Traumático), abuso de substâncias psicoativas, ataques de pânico, fobias e depressão, embora esteja ciente de que seu comportamento esteja relacionado à perda. (Wordem apud ALMEIDA, SANTOS, 2011). Luto Mascaradoou Suprimido: pesquisas mostram que pessoas enlutadas que manifestam suas emoções de forma espontânea e natural tendem a evoluir satisfatoriamente diante do luto, ao passo que reações marcadas pelo entorpecimento e indiferença apontam para um processo mais prolongado e complicado. No luto mascarado existem sintomas e comportamentos que tornam evidentes as dificuldades da pessoa em processar a perda, embora não haja consciência por parte da pessoa, de que os mesmos estejam relacionados com a perda. Na visão psicanalítica de Wordem (1998): [...] são sintomas não afetivos ou sem equivalência afetiva do luto. Pode-se entender que há ausência das reações porque o ego não se encontra suficientemente desenvolvido para suportar o esforço do trabalho de luto, sendo acionados mecanismos narcisistas de proteção do self para evitar o processo, havendo um mascaramento por sintomas físicos como dores, distúrbios psicossomáticos ou condutas aberrantes ou mal adaptadas ou por sintomas psiquiátricos não bem explicados. (ALMEIDA, SANTOS, 2011 p10). Em 1944, em seu trabalho considerado um clássico (A Sintomatologia do Luto Agudo e Como Lidar com Ele), Lindermann já descrevia várias formas complicadas de luto acompanhadas de insônia, ataques de pânico, raiva irracional e afastamento social. Bethleme (apud ALMEIDA, SANTOS, 2011), em sua pesquisa, também relata reações que incluem ataques de pânico, culpa persistente, hipocondria, nas quais o enlutado desenvolvia sintomas semelhantes àqueles da doença da pessoa que havia morrido. (ALMEIDA, SANTOS, 2011 p137). Sintomas fóbicos, insônia, sintomas hipocondríacos e depressão, podem fazer parte das formas de luto complicado. Registros na literatura indicam que as formas de luto patológico apresentadas por pacientes enlutados foram, com freqüência, associadas a ataques de pânico, de culpa persistente e intensa. Abaixo seguem alguns dos tipos mais comuns do luto complicado: Perda de um filho: a perda de um filho está entre as categorias de luto mais devastadoras e apresenta fatores de riscos mais significativos do que qualquer outro tipo de perda. Esse tipo de luto também é diferenciado pelo fato de que, muitas vezes, o indivíduo jamais supera a perda e assume o fato de que o luto fará parte de sua vida de forma permanente. Entre as graves complicações desse processo, aponta-se a ruptura familiar, o suicídio, o sentimento de culpa, sejam eles legítimos ou não. (GRIEF, 2011). A morte de um cônjuge: a perda do cônjuge, apesar de ser considerada um processo natural da vida, apresenta-se como uma perda particularmente dolorosa devido á freqüente interdependência estabelecida pelos casais, havendo a conotação de que o enlutado perdeu uma parte dele mesmo acrescida, ainda, da sobrecarga emocional em ter de lidar com as responsabilidades que eram inerentes à pessoa perdida. (BONANNO, 1997). Pode-se tornar evidente o isolamento social e a grande dificuldade de reajuste no convívio e organização social. Perda durante a infância: os sintomas psicopatológicos na infância decorrentes da morte de um dos pais são graves, sendo que esta gravidade está diretamente relacionada à idade da criança no momento da perda. A ruptura de um laço de dependência e confiança agrava o processo de perda. As reações podem ser manifestas na forma de comportamentos de raiva e regressão, uma vez que existe a intensidade do vínculo sem a maturidade necessária para a compreensão da perda. Os adolescentes podem reagir ao luto através de comportamento delinqüente na tentativa de demonstrar superação, o que, como já vimos anteriormente, se estabelece como um fator agravante do processo de luto, em geral. A perda durante a infância predispõe a criança, não apenas a conseqüências físicas, mas também a problemas emocionais que são agravados, principalmente, no período da adolescência, incluindo, em casos extremos, o risco de suicídio. (GRIEF, 2011). 3.4 Aspectos Diagnósticos A maioria dos enlutados lida de maneira saudável com o fato da perda e se adapta a ela, sendo que uma minoria das pessoas experiência um luto crônico e disfuncional. Um diagnóstico correto é essencial para que seja realizado um tratamento efetivo em uma pessoa que experimentou uma perda e entrou em um processo de luto patológico. Apresentamos a seguir os critérios diagnósticos de ASLAN ( 2009): Quadro 4 Entre os sentimentos mais comuns observados no luto complicado, como já dissemos, estão a tristeza, raiva, culpa, auto recriminação, ansiedade, fadiga, desamparo, choque, anseio pela pessoa perdida, entre outros, de forma excessivamente prolongada, sem a resolução espontânea esperada. Ocorre que, algumas dessas manifestações, são também encontradas no quadro depressivo, havendo, dessa forma, uma linha bastante tênue que separa o quadro clínico da pessoa enlutada da deprimida. Torna-se imprescindível, portanto, a diferenciação bastante cuidadosa e criteriosa entre ambos os quadros, para efeito de um correto diagnóstico e tratamento. Alguns dos aspectos que devem ser considerados são os seguintes: Um luto não vivenciado pode levar ao luto complicado e gerar transtornos e sofrimento psíquicos tão severos quanto os graves transtornos do humor no quadro da depressão maior. Entende-se por luto a vivência de uma enorme gama de sentimentos e alterações psíquicas e cognitivas conseqüentes à perda específica de um ente. Por outro lado, a depressão é, em linhas gerais, uma síndrome psiquiátrica que apresenta, como características principais, o humor deprimido, a perda do interesse e prazer, alterações fisiológicas e cognitivas com duração curta ou prolongada, não podendo ser encarada apenas como conseqüente à dor causada por uma perda. Assim, apesar de vários aspectos psicopatológicos comuns, o processo do luto complicado diferencia-se do quadro depressivo clássico por estar mais clara e objetivamente ligado a uma perda, enquanto a síndrome depressiva apresenta causas, muitas vezes, não identificáveis, sem relação causa-efeito. Essa diferenciação objetiva é fundamental para que seja realizado um diagnóstico correto, o que será determinante para a indicação correta da abordagem terapêutica, seja medicamentosa, psicoterápica, ou ambas, específicas para cada caso (AVALIAÇÃO, 2011). O luto patológico apresenta-se, portanto, como um quadro desafiador ao profissional de saúde mental, pois contém aspectos bastante antagônicos, tanto no que diz respeito à sua definição quanto ao quadro clínico. Por um lado, define-se claramente como o processo de luto que não evolui para uma resolução espontânea e natural em um período que se preconiza como satisfatório (entre seis meses a dois anos), acarretando ao enlutado, sofrimento e desajuste emocional grave e prolongado. Por outro, apresenta-se indefinido na caracterização do quadro psíquico, uma vez que, apesar de estar relacionado a uma perda específica, pode apresentar um quadro amplo com variadas manifestações e sintomas. Além disso, pode estar na dependência de fatores estressores, até mesmo prévios à perda. Trata-se, portanto, de um quadro de difícil caracterização e diagnóstico, não só pela ampla sintomatologia possível quanto pela pessoalidade e suscetibilidade individual em função de fatores e reações pessoais diversas. 4. TRATAMENTO DO LUTO PATOLÓGICO – UMA VISÃO DA TERAPIA COGNITIVA (TC) Aproximadamente 40% das pessoas enlutadas apresentam sintomas depressivos no primeiro mês de luto, 15% no primeiro ano e 7% ao final de dois anos. (Hensley.2006) Ainda assim, é necessária uma distinção clara entre os processos do luto e depressão, uma vez que a abordagem terapêutica adequada para cada um dos casos deverá ter um modelo distinto. (Ogrodnczuk, 2003 apud PAYÁ, 2011). No caso da depressão o foco deverá estar no questionamento das crenças a respeito de si mesmo, do mundo, dos outros, e na reconstrução da auto-estima, normalmente afetada pela depressão. No caso do luto patológico, a tônica do processo terapêutico deverá estar concentrada muito mais nos pensamentos disfuncionais visandoà aceitação da realidade da perda, os fatos que a envolveram, o seu significado e a questão da irreversibilidade. (Wordem, 2009 apud PAYÁ, 2011). Em última instância, a psicoterapia tem a finalidade de trabalhar a realidade da perda; ajudar o enlutado a lidar com os sentimentos próprios do processo de luto; estimular a superação dos obstáculos para que haja um reajuste após a situação da morte e auxiliar a pessoa a reinvestir em sua própria vida. De acordo com Boelen (2003 apud PAYÁ, 2011), os aspectos cognitivos relacionados com a gravidade dos sintomas no luto complicado que são geradores de sintomas de ansiedade de separação (saudade, procura, preocupação com o ente perdido, gerando incapacidade funcional) e angústia traumática (entorpecimento, amargura, falta de confiança em outrem) podem ser agrupadas como segue: . Crenças centrais negativas a respeito de si mesmo, da vida e do futuro: “não sou capaz de viver só; minha vida não terá mais sentido” . Pensamento de culpa: relacionado ao que pensa que poderia ter sido feito para evitar a morte, e não fez. . Pensamentos negativos acerca do que outras pessoas pensam a respeito da perda: “ ninguém mais se importa ou pergunta alguma coisa” . Pensamentos e atitudes negativos em relação aos próprios sentimentos no processo de luto, querendo alimentar a dor a fim de manter os laços com a pessoa falecida. Segundo o trabalho da psiquiatra Elizabeth Kluber-Ross as fases do luto, apontadas e descritas no capítulo um, apresentam características distintas quanto às reações cognitivas e comportamentais. Analisando o quadro a seguir (PETROFF, 2011), verificamos uma variedade muito grande de distorções cognitivas e pensamentos disfuncionais que podem ocorrer no processo do luto, passíveis de serem reestruturados e reajustados sob a ótica da terapia cognitiva. Quadro 5 Primeira Fase: Negação PENSAMENTOS COMPORTAMENTOS ISSO NÃO É VERDADE VAI PASSAR SEMPRE DOU UM JEITO EM TUDO,VOU RESOLVER ISSO TAMBÉM BUSCAR UMA SEGUNDA OPINIÃO OU OUTRAS EXPLICAÇÕES PARA A QUESTÃO. CONTINUAR SE COMPORTANDO COMO ANTES (IGNORANDO A SITUAÇÃO). NÃO ADERIR AO TRATAMENTO ( NO CASO DE DOENÇA) OU NÃO FALAR SOBRE O ASSUNTO (NO CASO DE MORTE, DESEMPREGO OU TRAIÇÃO). Segunda Fase: Raiva PENSAMENTOS COMPORTAMENTOS POR QUE EU? ISSO NÃO É JUSTO! POR QUE FIZERAM ISSO COMIGO? PERDE A CALMA QUANDO FALA SOBRE O ASSUNTO RECUSA-SE A OUVIR CONSELHOS EVITA FALAR SOBRE O ASSUNTO Terceira Fase: Negociação PENSAMENTOS COMPORTAMENTOS VOU ACORDAR CEDO TODOS OS DIAS, TRATAR BEM AS PESSOAS, PARAR DE BEBER, PROCURAR UM EMPREGO E TUDO FICARÁ BEM. VOU PENSAR MAIS POSITIVAMENTE E TUDO SE RESOLVERÁ. DEUS, DEIXE-ME FICAR BEM DE SAÚDE, SÓ ATÉ MEU FILHO CRESCER (PESSOA AO SABER QUE ESTÁ DOENTE) REZAR E FAZER UM ACORDO COM DEUS. BUSCAR AGRADAR ( NO CASO DE UMA TRAIÇÃO). SE ALIMENTAR COM PRODUTOS LIGHTS E DIETS PARA COMPENSAR OS OUTROS ALIMENTOS. Quarta Fase: Depressão PENSAMENTOS COMPORTAMENTOS NÃO TENHO CAPACIDADE PARA LIDAR COM ISSO. NUNCA MAIS AS COISAS FICARÃO BEM. EU ME ODEIO. CHORAR. AFASTAR-SE DAS PESSOAS. COMPORTAR-SE DE MANEIRA AUTO DESTRUTIVA. Quinta Fase: Aceitação PENSAMENTOS COMPORTAMENTOS NÃO É O FIM DO MUNDO. POSSO SUPERAR ISSO. POSSO APRENDER COM ISSO E MELHORAR. BUSCAR AJUDA PARA RESOLVER A SITUAÇÃO. CONVERSAR COM OUTROS SOBRE O ASSUNTO. PLANEJAR ESTRATÉGIAS PARA LIDAR COM A QUESTÃO. Em outros processos terapêuticos, a intervenção se baseia nas emoções. No modelo cognitivo, diferentemente das abordagens psicodinâmicas (que entendem o luto complicado e suas alterações do comportamento com base na exacerbação ou ausência de reações emocionais), o comportamento alterado é explicado por pensamentos funcionais ou disfuncionais, que se assentam em crenças nucleares e que também são responsáveis por reações fisiológicas e emocionais. Pensamentos disfuncionais podem estar ancorados em crenças nucleares de desamparo e desamor. De acordo com esse modelo, a monitorização dos pensamentos e a reestruturação cognitiva podem alterar o comportamento, inclusive na elaboração da perda. De acordo com Ellis (Malkinson, 2007) “há uma interação cíclica entre o evento, as crenças a respeito deste e as conseqüências emocionais e comportamentais”. A perda assume o papel do acontecimento externo que, decodificado a partir do sistema de crenças do indivíduo, determinará suas emoções e seu comportamento. Explicando esse mecanismo, Albert Ellis (Rongé,2007) elabora o modelo ABC conforme a figura abaixo; Quadro 5 Modelo ABC do Luto e da perda (FONTE: PAYÁ, 2011) 4.1 Aplicação da TCC no Processo de Luto Patológico “A terapia do luto patológico traduz-se em um processo multifacetado que objetiva que o paciente enlutado consiga lidar com o estresse que se segue à perda, reestruturando-se cognitivamente, de modo que a relação com o ente perdido seja o mais racional e equilibrada possível (Malkinson,2007 apud PAYÁ, 2011 pg 697). Para se alcançar esse objetivo é necessário voltar o foco para os fatores que geraram o conflito diante da separação, visando à adaptação do indivíduo diante da realidade da perda. Essa resolução exige a vivência dos pensamentos e sentimentos que têm sido evitados, conduzindo o paciente à realidade dos fatos e auxiliando-o na reestruturação de sua vida e cognição. (PAYÁ, 2011 p 698) O processo de estruturação das sessões do luto complicado na TC deve seguir as linhas gerais e os princípios básicos comuns para os demais transtornos. É fundamental a aliança terapêutica e a empatia. O terapeuta deve apresentar-se empático diante da dor e deixar claro ao paciente que sabe o quanto é difícil, para as pessoas em geral, o enfrentamento de perdas tão importantes. Nas primeiras sessões, além da coleta de dados, é necessário perceber o que a perda está significando para o paciente a fim de se determinar o rumo do processo do processo terapêutico. A exploração da história da morte em detalhes trará informações importantes. A identificação do sentido da perda e o significado que a pessoa perdida tem para o paciente é fundamental. (Malkinson, 2001 apud PAYÁ, 2011). A aplicação de escalas específicas pode ajudar na conceituação do caso. (Rubin at al. 2009). Entre as mais usadas aplicadas para esse transtorno estão (PAYÁ, 2011 pag 697): · Escala Revisada de Impacto de Eventos - auto-aplicativa, com 15 itens – (Horowitz at al., 1979 apud PAYÁ, 2011). · The Texas Revised Inventory ol Grief – Possui duas sub-escalas: a primeira com 8 itens, que focam no impacto que a perda teve sobre o comportamento do paciente e a segunda com 13 itens, contemplando os sentimentos vividos no momento, buscando avaliar as respostas emocionais indicativas do luto patológico.(Faschingbauer ET al.,1987 apud PAYÁ, 2011). · Inventário do luto patológico – (Prigerson, 1995 apud PAYÁ, 2011). O passo seguinte é esclarecer ao paciente o modelo cognitivo do luto e perda, evidenciando a relação entre os pensamentos e o comportamento. O processo terapêutico deve prosseguir com sessões estruturadas, com o terapeuta auxiliando e orientando o paciente na prática de pensamentos mais funcionais diante da perda. O objetivo final é fornecer ao paciente condições de avaliar e alterar seus pensamentos, no sentido de reconhecer o quanto sua cognição determina seu afeto e comportamento, avaliar as evidências contra e a favor de seus pensamentos automáticos, substituindo impressões tendenciosas por percepções mais realistas, alterando as crenças que distorcem suas percepções. O objetivo é alterar pensamentos do tipo “eu poderia ter impedido” para “é doloroso, mas não havia nada que eu pudesse fazer”. (PAYÁ, 2011). No decorrer do tratamento é necessário incluir temas relacionados ao luto, propriamente dito, abordando questões como: memória do falecido, aceitar a realidade da perda, lidar com a dor da perda, encontrar um sentido na perda, neutralizar objetos que trazem lembranças, cultivar novas relações, entre outras. Com o objetivo de se alcançar a reestruturação cognitiva e comportamental do paciente, o terapeutadeve lançar mão das técnicas clássicas utilizadas na TCC, entre as quais citamos as mais objetivas (PAYÁ, 2011): · Questionamento socrático- Formulação de questões que orientam a atenção do paciente para que reveja espontaneamente o significado que atribui aos fatos e sentimentos, gerando mudanças nos seus comportamentos e, conseqüentemente, nos resultados. · Técnica da cadeira – Técnica teatral onde se coloca uma cadeira vazia diante do paciente, ocupada pela pessoa imaginária e trava-se um diálogo onde o paciente apresenta suas demandas e alterna os papeis quantas vezes forem necessárias até que o paciente sinta sua demanda atendida. · Cartões de enfrentamento – Objetiva o auto-monitoramento através cartões em que o paciente faz anotações que o auxiliem a identificar seus pensamentos automáticos e respostas alternativas. · Técnicas de relaxamento – Objetiva um relaxamento corporal profundo na intenção de aliviar tensões musculares conseqüentes do estado ansioso gerado pelos pensamentos disfuncionais. · Tarefas de casa – Através de tarefas para serem desenvolvidas em casa, o paciente dá continuidade ao processo terapêutico durante a semana, com o objetivo de reforçar os significados e aprendizados das sessões. Estudos recentes têm mostrado a eficácia e a importância da TCC nos transtornos relativos à perda e ao luto patológico. Embora a terapia cognitiva comportamental não reduza o risco de aparecimentos dos sintomas do luto complicado, apresenta resultados positivos na prevenção de sintomas relativos à má adaptação diante da perda e de pensamentos distorcidos diante do luto. (De Grool 2007, apud PAYÁ, 2011). Outros trabalhos vêm apontando a maior eficácia da TCC na psicoterapia do luto em comparação com outras técnicas psicoterápicas, principalmente quando utiliza técnicas de exposição e reestruturação cognitivas. CAPÍTULO I - A COMPLEXIDADE DO FEMININO 1.1 A Feminilidade e a Moral Cultural Antes de se iniciar a abordagem sobre a feminilidade, é relevante citar a leitura de Freud no artigo A Moral sexual “cultural” e o nervosismo moderno, publicado em 1908. Nesse artigo, ele diferencia a moral sexual “natural” (normal) de moral sexual “cultural” (civilizada) para discorrer que a civilização, ou a cultura, estabelece regras para que seja possível a vida em sociedade, acarretando diversos prejuízos aos indivíduos. O principal deles é o aumento da doença nervosa moderna. A moral sexual é um fato cultural; não existe sociedade que não tenha regras. Ele destaca também que a origem das neuroses, expressão da doença nervosa moderna, é a repressão sexual; logo, os sintomas neuróticos são uma satisfação substitutiva da pulsão sexual reprimida. O autor faz, ainda, um breve relato e acrescenta que a internalização da moral civilizada dá-se ao longo do desenvolvimento do indivíduo com o progressivo recalque da pulsão sexual. A satisfação sexual por meio do autoerotismo na infância, mediante a obtenção de prazer pelo próprio corpo, é recalcada para dar lugar à satisfação genital e ao amor objetal. Nesse sentido, Freud orienta-se no que escreveu Christian von Ehrenfels4, no livro “A Ética Sexual”, no qual essa moral é definida como uma obediência moral sexual que estimula os homens à intensa e produtiva atividade cultural, ainda que ela cause sérios prejuízos ao favorecer o desenvolvimento cultural. Suas características fundamentais são: a admissão de uma moral dupla, com restrições diferentes para homens e mulheres, para as quais é proibida toda relação sexual, exceto dentro do casamento; a ocultação da verdade, falso otimismo, enganos a si próprio e aos demais, pois essa ambiguidade não pode levar muito longe o “amor à verdade, à honestidade e à humanidade”; e a glorificação da monogamia, impossibilitando a seleção pela virilidade. 4 (1859-1932). Professor de Filosofia em Praga e crítico das instituições do casamento. Freud continua sua análise afirmando que a contínua repressão sexual pelas exigências da civilização aumentará os casos de neurose, como resistência e fuga das pressões. O autor faz um breve retrato de como a sociedade, a moral e os costumes olhavam a sexualidade em 1908, voltando sua atenção para a cultura, “moral civilizada”, na qual ele acentua que há um grande mal-estar na repressão das pulsões sexuais, pois a moral fazia exigências que geravam insatisfação a todos, em especial, aos homossexuais, os “invertidos”, como eram chamados na época; e aos “perversos” que estavam longe de responder às obrigações impostas. Freud complementa sobre o modo de vida orientado pelos ideais, por meio do que chamou “moral civilizada”. Ilka Ferrari (2004), em seu artigo “O clamor dos sexos: a juventude na tela de Elia Kasan e no real psicanalítico”, a partir de Freud, acrescenta que, nessa “moral civilizada”, com seu apogeu localizado na segunda metade do século XIX, os valores morais objetivavam instituir o pai como um Outro simbólico absoluto, além de promover a inibição do gozo, para fazer existir a relação entre os sexos. Suas características marcantes são, então, a primazia do simbólico, a renúncia pulsional, a realização do gozo, via sacrifício, podendo chegar a uma vertente mortífera. Além disso, ele se contradiz na suposta atração natural, biológica, entre os sexos, homem e mulher, baseando-se na diferença sexual e no complexo de castração; ele vai evidenciar a hostilidade que é inata entre o homem e a mulher, ressaltando, por sua vez, uma prepotência do homem por ter um pênis; tendo esse homem um desprezo pela mulher por ela ser “castrada”; ela, por sua vez, sente-se vulnerável e desvalorizada pela falta do pênis. Há que se ressaltar que, naquela época, a moral não permitia práticas sexuais livres, independentemente de o casamento ser satisfatório ou não; Freud destaca e condena uma questão importante para a pauta do feminino. Em 1908, havia uma tolerância com relação à conduta sexual dos homens, além de uma rigidez no domínio da sexualidade feminina. Principalmente para as mulheres, a sexualidade deveria ocorrer somente no matrimônio; porém, os homens tinham direito a uma vida sexual paralela; para as mulheres, essa hipótese era impossível. No entanto, ocorreu uma mudança nos últimos 100 anos na “moral sexual”, o que nos deixa com várias perguntas sem respostas, levando-nos a refletir sobre a atualidade. Segundo Roudinesco (2003, p. 96-97), o casamento perdeu o seu valor de ser abençoado e, em contínuo declínio, é hoje definido pela união afetiva de marido e mulher – com filhos ou não – que, procurando abrigo nos conflitos do mundo exterior, juntam-se não mais por uma vida, mas por um período casual que, terminando em divórcio, na maioria das vezes exigido pelas mulheres que continuam, em alguns casos, sofrendo com as condições dessa ruptura. Os filhos são planejados com certa frequência fora do matrimônio, o que um dia já foi intimidador. Entretanto, hoje, aparece com espontaneidade, demonstrando que a civilização não foi devorada por “desordens”. Vale salientar que, nos dias atuais, reconhecem-se as mudanças nos costumes sociais, entre as quais a sexualidade está menos reprimida e rejeitada. Não se retiram as hipóteses de que a sexualidade será completamente satisfeita, desde que ela fora marcada pelo complexo de Édipo, por meio do impedimento e da impossibilidade de oferecer satisfação a todas as pulsões sexuais. Dentro desse contexto, pode-se dizer que aos jovens de hoje já não são reservados esses modos de vida ou que, pelo menos, já não são prioridade. Eles são convidados a se desinibir, a ultrapassar as inibições. Conforme observa Souto (apud Ferrari, 2004), a atualidade presencia um sujeito habitado por uma falta que os valores não cobrem, confrontado com os objetos suscetíveis de restaurar essa falta, ou seja, objetos produzidos pelo mercado, fazendo crer que a satisfação está ao alcance. Nesse ledo engano, o de que possuir o objeto é igual a quitar o desejo, Lacan (apud Ferrari, 2004) ensinou a observar que “tal como no modo de vida regido pelo ideal, o efeitoé o de perda de gozo, de crescente à insatisfação, levando à atitude de buscar um objeto, outro, mais outro, na tentativa de satisfação pulsional imediata.”. 1.2 A Essência do Feminino e seu Enigma De acordo com Silvia Alonso (2011, p. 297-298), falar do feminino na psicanálise é falar desse amplo leque de questões: é falar da mulher, mas também do inominável; é falar do gênero, mas também do processo de sexuação. Em se considerando essas questões, há uma variedade de posições e uma diversidade de enfoques abordados por diferentes autores sobre as mulheres: “O que elas realmente querem?” “Que mistérios elas guardam?” “Qual o objetivo de sua existência?”. Essas são questões muito discutidas por teóricos de várias áreas, mas que variam muito de acordo com os valores culturais. Nesse sentido, poderia ser citada uma diversidade de obras, pinturas, filmes, entre outros, apresentando uma gama infinita de conceitos para essas perguntas. Assim, se pode citar Freud em uma conferência de 1933, intitulada “A feminilidade” (1933/2010), quando ele aborda “O feminino como enigma” e o “tornar- se mulher”. Nesse artigo, insistindo no enigma da feminilidade, pergunta-se quem poderá decifrá-lo, descartando que seja a anatomia, pela diferenciação dos órgãos: a realidade dos sexos, para a psicanálise, não é a realidade do órgão anatômico. Ele expõe também as diferenças anatômicas sexuais entre homem e mulher, que são relevantes para a procriação da espécie: a célula reprodutora masculina recebe o nome de espermatozoide e a célula feminina é conhecida como óvulo, evidenciando que partes do aparelho sexual masculino surgem na mulher de modo atrofiado e vice-versa. Dessa forma, Freud chama a atenção para o fato de que algumas partes do aparelho sexual masculino acham-se igualmente no corpo feminino de forma atrofiada, atravessando a noção de bissexualidade, como se o indivíduo não fosse homem ou mulher, mas sempre as duas coisas; um pouco mais de um do que da outra e ao mesmo tempo em graus diferenciados. Ele ainda acrescenta que o conceito de masculino normalmente quer dizer “ativo” e, quando falam em feminino, “passivo”, é certo que existe essa relação. O autor aponta-nos que, no âmbito da vida sexual humana, é insatisfatório identificar a conduta masculina com atividade e a feminina com passividade. Em todo sentido, a mãe é ativa em relação ao filho, exemplifica o ato de amamentar, quanto mais nítido ficar esse “erro de superposição”. Freud desenvolve também o conceito de masoquismo associado ao feminino; a supressão da agressividade é imposta socialmente à mulher, desenvolvendo inclinações destrutivas voltadas para dentro, em decorrência das exigências sociais, e, no homem, a partir desse conceito, o masoquismo é, então, observado como um traço feminino. De acordo com Ferenczi (2018), a figura da mulher é curiosa. Ora ela é endeusada e glorificada, como seres superiores, mais respeitada que os homens, e por outro lado é classificada por aguentar o sofrimento. Para esse autor, o feminino é sinônimo de masoquismo, não na definição freudiana da passividade, e sim na competência de superar um trauma e de adequar-se a novos acontecimentos. A partir dessa concepção: “a construção na inexistência da certeza de si”, dois pilares atuarão, possibilitando produzir uma identificação: o sofrimento e o altruísmo. A capacidade de o sujeito suportar a dor confere uma boa dose em sabedoria. Após esse conceito, Freud começa a teorização acerca do desenvolvimento feminino. O autor sinaliza que os dois sexos parecem atravessar da mesma forma as primeiras fases de desenvolvimento da libido. As diferenças começam a acontecer na fase fálica. Existem duas causas que dificultam essas fases no que se refere ao desenvolvimento feminino em comparação ao masculino. Na primeira fase, o clitóris é o objeto de prazer sexual, e precisa ceder à vagina a função principal no aparelho sexual feminino. Em equiparação, no desenvolvimento masculino, o objeto continua sendo o pênis. E, na segunda fase, é a transferência do afeto da mãe para o pai. No que diz respeito ao desenvolvimento masculino, o objeto de afeto era a mãe, a qual continua sendo. É importante, então, evidenciar que o primeiro objeto de afeto de ambos é a mãe. 1.3 A Mulher na Busca da Identificação do Feminino Em 1931, no texto “A Sexualidade Feminina”, Freud reconhece a importância do desenvolvimento sexual feminino e salienta que algumas mudanças ocorrem na fase de ligação pré-édipica nesse período: na qual há características de histeria e neurose, por parte da filha com a mãe, sendo uma das peculiaridades da feminilidade. A partir dessa dependência da mãe, encontra-se o gérmen da paranoia posterior da mulher. Esse aparenta ser o temor identificado de ser destruída pela mãe. É possível suspeitar que o afastamento da menina, pela mãe, seja um resultado envolvido em conflitos que, a posteriori, pode se estender para a vida adulta, gerando um comportamento totalmente ambivalente hostil e carinhoso. Esses sentimentos vêm à tona após terem se transformado em ideias angustiantes, formulando desejos sexuais, em fazer um filho com a mãe e dar um filho para mãe. No período fálico, a mãe proíbe a criança de se masturbar, com duras ameaças, mesmo essa própria mãe tendo seduzido seu filho, momentos antes, por meio de carinhos. Freud, ainda, destaca que não é um ponto de distinção entre meninos e meninas; o processo transcorre de forma igual para um e outro. O ponto de partida para diferenciação da feminilidade está na elaboração do complexo de castração. A castração inicia-se na menina, a partir da confirmação de que algo lhe falta; o que a diferencia do menino no sentido de que ele teme a perda do pênis. Portanto, a constatação da falta prepara-a para o complexo de Édipo; não existe um componente que determina a superação do semelhante. Marie Langer (1981, p. 54), discordando de Freud, pontua os conceitos de Melanie Klein e sua “escola inglesa” e insiste que, contrapondo Ernest Jones, “a mulher não seria psicologicamente um homem castrado, mas que já havia nascido como fêmea”, e sustenta que a ameaça da castração não está ligada ao sofrimento em perder o pênis, mas no fato de estar desprovida de praticar o gozo sexual. No que se refere às diferenças entre os sexos, Klein destaca que a menina está mais suscetível à angústia no seu desenvolvimento precoce do que o menino, por não conseguir confirmar a completude de seus genitais e, ao deparar-se com o desejo de ser mãe, como algo muito distante. É importante pontuar que no menino a ameaça da castração faz com que ele abandone o desejo pela mãe e supere o complexo de Édipo; na menina isso não ocorre. Como consequência, as mulheres podem ficar indefinidamente no complexo de castração. Assim, a análise pode demonstrar que esse desejo permaneceu no inconsciente e manteve um considerável investimento de energia. O desejo de obter um pênis pode contribuir para a capacidade de exercer uma profissão intelectual – muitas vezes, percebe-se como modificação sublimada desse desejo reprimido. Danièle Brun (1989, p. 113) denota vários comportamentos que a subjetividade dessa afirmação acarreta. Inicialmente, apresenta a hostilidade da filha para com a mãe; hostilidade pela qual o menino se encontra privado, senão destituído; é um dos elementos motores do desdobramento para a feminilidade, simbolizando, entre outras coisas, que a feminilidade é um ganho de poder contra a mãe. Para Maria Rita Kehl (2016), a mulher é, por definição, um sujeito que blefa. Que se mascara para ocultar a falta. Que se faz toda fálica para se compensar da castração. No início do complexo de castração, há três prováveis suposições: na primeira, seria a inibição sexual ou neurose, que consiste em um recalcamento da sexualidade; em renunciar a satisfação masturbatória com o clitóris e no conflito em relação à mãe. Na segunda implicação, o complexo de masculinidade: há uma recusa da passividade, o que faz com que haja um posicionamento masculino e, em casos extremos, a escolha