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Hogrefe Publishing Group Göttingen · Berne · Vienna · Oxford · Paris Boston · Amsterdam · Prague · Florence Copenhagen · Stockholm · Helsinki · Oslo Madrid · Barcelona · Seville · Bilbao Zaragoza · São Paulo · Lisbon www.hogrefe.com ISBN 978-858543969-9 A Escala de Avaliação de Disfunções Executivas de Barkley (BDEFS) faz parte da família de escalas desenvolvidas pelo professor Russel Barkley e é um instrumento padrão ouro mundial para a avaliação de prejuízos na vida cotidiana de adultos decorrentes de problemas em funções executivas. O diferencial e a inovação da BDEFS é que ele foi o primeiro instrumento a superar o paradigma que associava síndrome e lesão cerebral, se focando em elementos atitudinais, motivacionais e de autorregulação, dentro de uma abordagem de avaliação neuropsicológica clínica e funcional. A adaptação para o Brasil foi realizada para a versã o de heterorrelato em suas duas formas: curta e longa. A forma curta contém 20 itens, e seu propósito é fornecer uma descrição breve acerca da probabilidade de um indivíduo exibir dé� cits nas funções executivas em relação as atividades da vida cotidiana. Já a forma longa é composta por 89 itens e seu propósito é propiciar o acompanhamento em caso de problemas clinicamente mais evidentes, por meio da análise aprofundada dos domínios de funções executivas. São disponibilizadas ainda duas informações adicionais, um escore total de funções executivas, tanto na forma curta quanto na forma longa, e um índice de risco do adulto ou idoso possuir TDAH, apenas na forma longa. A amostra normativa do estudo brasileiro foi composta por 1.295 indivíduos da população geral, com idades variando entre 18 e 70 anos de idade, das cinco grandes regiões brasileiras e com diferentes níveis de escolaridade. Estudos com populações clínicas foram realizados para grupos diagnosticados com TDAH, Depressão/distimia, Bipolaridade, Transtornos alimentares, dentre outros. É um instrumento que pode ser respondido de forma individual ou coletiva e ele leva entre 5 (forma curta) e 15 (forma longa) minutos para ser respondido. B ar kl ey BD E FS Manual Russell A. Barkley Escala de Avaliação de Disfunções Executivas de Barkley BDEFS Adaptação brasileira da Barkley Defi cits in Executive Functioning Scale (BDEFS) por Victor P. Godoy, Paulo Mattos e Leandro F. Malloy-Diniz Copyright © 2011 The Guilford Press A Division of Guilford Publications, Inc. Título original: Barkley Deficits in Executive Functioning Scale (BDEFS) Published by arrangement with The Guilford Press CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G535b Godoy, Victor Polignano BDEFS escala de avaliação de disfunções executivas de Barkley / Russell A. Barkley ; adaptação Victor Polignano Godoy , Leandro Fernandes Malloy-Diniz , Paulo Mattos. - 1. ed. - São Paulo : Hogrefe, 2018. : il. Tradução de: Barkley deficits in executive functioning scale Inclui índice ISBN 978-85-85439-69-9 1. Neuropsicologia 2. Cérebro. I. Barkley , Russell A. II. Malloy-Diniz, Leandro Fernandes. III. Mattos, Paulo. IV. Título. 18-49870 CDD: 616.8 CDU: 616.8 Leandra Felix da Cruz - Bibliotecária - CRB-7/6135 14/05/2018 16/05/2018 Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial. É reservada a propriedade literária desta publicação pela Editora Hogrefe. Distribuição Editora Hogrefe CETEPP Rua Comendador Norberto Jorge, 30 – Brooklin Paulista 04602-020 São Paulo SP – Brasil Fone: 11 5543-4592 E-mail: hogrefe@hogrefe.com.br www.hogrefe.com.br Tradução: TopTexto (www.toptexto.com.br) Revisão Técnica: Alexandre Luiz de Oliveira Serpa – CRP: 06/117185; Cibelle Seiberlick Caivalos Diagramação: HiDesign Capa: Tiago Marques Sangiuliano Imagem da Capa: ©Cecilie_Arcurs - iStock.com 1ª edição Copyright © 2018 por Editora Hogrefe CETEPP 1| Nota do Editor | Nota do Editor O lançamento de uma obra é sempre um momento de especial alegria para todos os que estiveram envolvidos em sua produção. A Escala de Avaliação de Disfunções Executivas de Barkley (BDEFS – Barkley Deficits in Exe- cutive Functioning Scale) faz parte da família de escalas desenvolvidas pelo professor Russel Barkley e, desde a sua publicação em 2011, rapidamente ganhou destaque e relevância tanto na literatura científica quanto na prá- tica profissional. Logo, se tornou padrão ouro no que tange a avaliação de déficits de funcionamento executivo em adultos, com especial valor no auxílio ao diagnóstico do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). No entanto, a riqueza da BDEFS não está somente na escala e nas úteis informações que ela produz para os profissionais que a utilizam. O texto em primeira pes- soa, a organização e o estilo empregados pelo professor Barkley tornam a leitura do manual extremamente agra- dável, informativa e, por que não dizer, intimista. Procu- ramos manter essas características as mais fiéis possíveis à obra original e, por isso, optamos por oferecer o texto integral traduzido na primeira parte deste manual. Você notará que algumas referências a apêndices e tabelas normativas deverão ser verificadas diretamente no ma- nual em inglês, mas acreditamos que sua manutenção auxiliará o estudo daqueles que tiverem interesse em se aprofundar no conceito de funções executivas. Na segunda parte do manual, você encontrará a pes- quisa de adaptação brasileira, conduzida com a habitual competência pelo trio de adaptadores: Victor Godoy, Paulo Mattos e Leandro Malloy-Diniz. A eles, nossos agradecimentos pela parceria e pela dedicação no de- senvolvimento desse projeto. A adaptação dos itens e procedimentos da escala seguiu padrões internacionais de qualidade estabelecidos para a área de avaliação, e as normas brasileiras foram geradas a partir de uma gran- de amostra, representando todas as cinco regiões brasi- leiras. São cuidados como esses que me permitem afir- mar que a BDEFS, mais do que um novo instrumento a disposição dos profissionais brasileiros, representará um marco na avaliação de funções executivas no Bra- sil. Fique agora com o excelente prefácio da professora Rochele Fonseca, a quem agradecemos pela grande con- tribuição e pelos comentários sobre o manual. Aproveite a leitura! Alexandre Serpa São Paulo, Junho 2018 2 | Prefácio à Edição Brasileira | Prefácio à Edição Brasileira Avaliar o complexo construto e domínio “funções execu- tivas” na prática clínica é um dos pontos mais desafiado- res do percurso de um neuropsicólogo. O funcionamento executivo é multifacetado e mutável ao longo do neurode- senvolvimento e da estimulação cognitiva diária, estando relacionado à nossa saúde física e mental, ao sucesso e ao desenvolvimento típico cognitivo, socioemocional, aca- dêmico e laboral. Para um bebê deixar de apenas ficar dei- tado e passar a engatinhar ou a caminhar, ele demandará funções executivas; para uma criança começar a escrever e a ler, recrutará mais funções executivas; para um adoles- cente apreender e se manter atendendo a regras da escola ou de casa; para um adulto realizar tarefas de sua função de trabalho no tempo pedido; para se manter com vida familiar, social e laboral sincronizadas e saudavelmente bem distribuídas, recrutará muitas funções executivas. Assim, essas funções estão presentes em todas as tarefas novas ou mais complexas para nós em nosso cotidiano, sempre que devemos ir além de nosso piloto automático, do modo como comumente agimos e pensamos. Quando elas estão negativadas, em contrapartida, o indivíduo as recruta de modo ineficiente ou insuficiente, caracterizan- do uma disfunção executiva. Russel A. Barkley, um dos pesquisadores mais renoma- dos e associados às funções executivas e à relação dessas com o quadro de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), sabiamente publicou em 2011 a versão longa e a versão curta da Escala de Avaliação de Disfunções Executivas de Barkley – BDEFS. Essa es- cala é umaOu seja, eles se correlacionam mal ou nem se comparam com classificações de FE nas ativida- des da vida diária em ambientes naturais em adultos (Alderman et al., 2003; Bogod, Mateer e MacDonald, 2003; Burgess et al., 1998; Chaytor, Schmitter-Edge- combe, & Burr, 2006; Hummer et al., 2010; Ready et al., 2001; Wood & Liossi, 2006) ou em crianças com lesões no lobo frontal, lesão cerebral traumática (LCT) ou outros distúrbios neurológicos ou de de- senvolvimento (Anderson, Anderson, Northam, Ja- cobs & Mikiewicz, 2002; Mangeot et al., 2002; Vrie- zen & Pigott, 2002). Este é também o caso tanto em adultos com TDAH quanto em crianças com TDAH acompanhadas até a idade adulta (Barkley & Fischer, 2011, Barkley & Murphy, 2010). Os resultados des- ses estudos geralmente revelam que qualquer teste de FE, tomado individualmente, compartilha apenas de 0% a 10% de sua variância com classificações de FE. As relações geralmente não são estatisticamente significativas. Mesmo a melhor combinação de testes de FE compartilha aproximadamente de 12% a 20% da variância com classificações ou observações de FE, conforme refletido nesses estudos. No entanto, esses dois tipos de medição devem medir o mesmo construto, as FE. Se o QI for estatisticamente removido dos resultados, as poucas relações significativas encontradas nesses estu- dos entre testes de FE e classificações de FE podem até tornar-se insignificantes (Mangeot et al., 2002). E é fato de que algo está muito errado se diferentes abordagens para medir o mesmo construto são comprovadamente tão pouco relacionadas umas com as outras. Evidências adicionais para a baixa validade ecológica dos testes de FE vêm de estudos em que os desempenhos de pacientes com lesões nos lobos frontais em tarefas do cotidiano foram observados diretamente e correla- cionados com a bateria de testes de FE. Esses estudos também encontram pouca ou nenhuma relação entre comprometimento em tais performances e os resultados de testes de FE (Alderman et al., 2003; Mitchell & Miller, 2008). Aqui, novamente, os testes de FE podem repre- sentar apenas 9-15% da variância ou menos nas classifi- cações de comprometimento adaptativo, principalmen- te nas atividades de trabalho (Ready et al., 2001; Stavro, Ettenhofer, & Nigg, 2007). Em contraste, observou-se, em pesquisa, relações moderadas entre as classificações de FE e as medidas do funcionamento adaptativo diário em crianças com LCT e outros distúrbios neurológicos ou de desenvolvimento (Gilotty, Kenworthy, Sirian, Bla- ck, & Wagner, 2002; Mangeot et al., 2002), bem como em adultos com TDAH (Biederman, Petty, Fried, Doyle, et al, 2008), aqueles com distúrbios de lobo frontal (Al- derman et al., 2003) e estudantes universitários (Ready et al., 2001). E as classificações de FE superam substan- cialmente os testes de FE na variância compartilhada com medidas de déficit em várias atividades importan- tes da vida, como funcionamento ocupacional, histórico educacional, condução de automóvel, gerenciamento de dinheiro e conduta criminal (Barkley & Fischer, 2011; Barkley & Murphy, 2010). A totalidade das descobertas até a presente data sobre a relação dos testes de FE com as classificações de FE e de cada uma com déficit na vida diária indica que os testes de FE, em grande parte, não revelam a amostragem dos mesmos construtos como o fazem as classificações de FE ou as avaliações diretas de FE no cotidiano (Alderman et al. 2003; Shallice & Bur- gess, 1991). Ela também fornece base para não aceitar os testes de FE como a principal ou única fonte para estabe- lecer a natureza dos déficits de FE em vários distúrbios. A evidência até o momento indica que, se avaliar o quão bem as pessoas estão na utilização das FE nas ativida- des cotidianas é importante na avaliação clínica das FE, então as escalas de classificação que avaliam FE são su- periores aos testes FE ao fazê-lo. No entanto, a grande variedade de estudos, que utilizam exclusivamente tes- tes para avaliar FE com várias amostras de pacientes e população geral, indica que esses sérios problemas com testes de FE foram amplamente desconhecidos, não apreciados ou ignorados. Essa falha significativa dos testes de FE ao não se rela- cionarem bem com as classificações de FE, atividades cotidianas ou comprometimento em áreas de vida im- portantes, poderia certamente indicar que os primeiros não estão avaliando FE. Isso parece duvidoso, dado que muitos desses testes mostraram indexar atividades em várias regiões do CPF que são, em grande medida, sub- jacentes as FE. E certamente é improvável que as esca- las de FE não estejam realmente avaliando FE. Afinal, o conteúdo da avaliação foi elaborado diretamente a partir 19| 2. Desenvolvimento da BDEFS | de definições de FE e de listas de supostos construtos de FE na literatura, bem como de observações e descrições clínicas de pacientes com lesões de CPF que se acredita que manifestem a “síndrome disexecutiva” (Burgess et al., 1998; Gioia et al., 2000; Kertesz et al., 2000). Além disso, como observado acima, essas classificações são substancialmente relacionadas a déficits em várias ativi- dades cotidianas e em vários domínios de funcionamen- to adaptativo (trabalho, educação, condução, relações sociais, autossuficiência, etc.) em que FE certamente seria operacionalizada. A solução para esse paradoxo de porquê os testes de FE e as definições de FE são tão mal relacionados está em outro lugar, muito provavelmente no fato de que as FE são mais hierarquicamente organizadas do que indicam os modelos construídos unicamente baseados nos testes de FE (Barkley, 2011a; Barkley & Fischer, 2011; Barkley & Murphy, 2010, 2011). Os testes de FE provavelmente avaliam o nível mais rudimentar, momento a momento, instrumental e cognitivo das FE. Mas eles são muito po- bres em capturar os níveis mais elevados de adaptação, tática e estratégica das FE, pois estes são implantados no funcionamento adaptativo diário, nas interações hu- manas e nas atividades cooperativas e recíprocas sociais que se estendem por muito mais tempo (dias, semanas, meses e anos) (Barkley, 2011a). É nestes níveis mais ele- vados, mais complexos e mais a longo prazo que uma escala de classificação de FE pode ser útil por causa do uso de um período de avaliação muito maior para captu- rar julgamentos sumários de comportamento ao longo do tempo e por sua capacidade de capturar sintomas de FE em contextos importantes (em grande parte sociais), através dos relatórios da pessoa avaliada e de outros que a conhecem bem. Além disso, se o objetivo da avaliação de FE é fazer algum julgamento quanto à probabilidade de um examinando sofrer déficits nos principais domínios das atividades da vida, então as escalas de FE são muito superiores aos testes de FE ao fazê-lo. Por outro lado, se o objetivo da avaliação é analisar as atividades neuropsicológicas das FE mais proximamente relacionadas à atividade cerebral momento a momento, como pode ser importante em estudos de neuroimagem funcional, então os testes de FE podem ser preferíveis. No entanto, mesmo esse pon- to é discutível, em vista de estudos recentes que ligam os resultados de neuroimagem a características avalia- das através de escalas de classificação (Buckholtz et al., 2010). Além disso, esses testes podem ser criticados por eliminar elementos sociais e temporais importantes de FE, o que pode reduzir a validade da tarefa na avaliação/ amostragem de qualquer componente particular da FE ou seus propósitos adaptativos (evolutivos). Desvantagens das escalas de classificação Em relação a equidade, as escalas de comportamento, incluindo as de FE, têm suas próprias desvantagens ine- rentes. Esses problemas com as escalas de classificação de comportamento foram discutidos com mais detalhes anteriormente (Barkley, 1987; Cairns & Green, 1979); os principais pontos estão resumidos aqui. ■ As escalas de avaliação presumem que o respondente e o examinadorcompartilham um entendimento com relação à natureza do item que está sendo avaliado e o significado dos pontos de ancoragem ou das respos- tas potenciais dadas na escala para responder a esse item. Uma fonte de dificuldade, portanto, pode ser a especificidade ou clareza do item a ser avaliado, bem como as respostas ou pontos de ancoragem a serem fornecidos para a classificação do item. Quão bem o examinador e o respondente compartilham uma compreensão dos itens e respostas potenciais? Quanto mais precisamente o item e suas respostas forem especificados, maior será a probabilidade de o respondente e o examinador compartilharem uma compreensão sobre a natureza do comporta- mento ou característica a ser avaliada e as respostas a serem dadas. ■ A generalidade ou ambiguidade do item que está sen- do avaliado e a imprecisão dos pontos de ancoragem da resposta da escala em si, independentemente de quão clara e específica seja a redação, pode levar a problemas no teste de hipóteses que requerem medi- ções muito mais precisas do que é provável que a esca- la forneça. Tal problema surge como uma consequ- ência da natureza de uma hipótese ser testada ou da finalidade da avaliação. Na medida em que é neces- sária uma grande precisão na medição para cumprir essa finalidade ou para testar essa hipótese, as esca- las de classificação podem ser uma escolha pobre de método de avaliação para o construto de interesse. Por outro lado, há muitas questões ou hipóteses em psicologia ou propósitos em avaliações clínicas que não exigem tal nível de precisão. De fato, o uso de formas de medição excessivamente precisas, como testes ou observações diretas de comportamento, geralmente é mais caro e demorado do que é neces- sário para abordar a questão, sendo que uma esca- la de classificação também servirá, gastando muito 20 | 2. Desenvolvimento da BDEFS | menos dinheiro e tempo. O problema potencial de precisão de medição com uma escala de classificação só ocorre quando julgado relativo à hipótese que está sendo testada ou à finalidade da avaliação clínica, e não algumas falhas inerentes e absolutas de escalas de avaliação completas. ■ Vários fatores podem influenciar a capacidade de um avaliador de fornecer um relatório mais preciso sobre o comportamento representado nos itens da escala. Nível de inteligência, educação, estado emocional, variedade de experiências de vida, experiência pré- via com escalas de classificação semelhantes, e uma miríade de outros fatores, têm potencial para in- fluenciar os relatórios do avaliador de maneiras que podem afetar a precisão ou a validade das classifi- cações fornecidas. Por exemplo, a ansiedade de um adulto pode resultar em um relato exagerado quanto aos sintomas de TDAH por esse adulto, em relação ao nível relatado por alguém que conhece bem a pes- soa e está usando a mesma escala; o mesmo é válido nas escalas de FE (veja o Capítulo 7; veja também Barkley, Knouse & Murphy, 2011). É concebível que isso represente um verdadeiro viés da classificação dessa pessoa, de modo que seja menos válido ou menos preciso do que a classificação fornecida pelo outro adulto. Usuários de escalas de classificação cla- ramente precisam estar sempre cientes de quaisquer descobertas sobre pesquisas relacionadas à natureza de tais efeitos de viés na escala de classificação em consideração. No entanto, também é possível que o nível de ansieda- de realmente resulte em um maior grau de sintomas de TDAH – ou, no presente caso, em classificações de dé- ficits de FE no cotidiano – e, portanto, que as classifica- ções do relatório não estejam imprecisas, mas simples- mente refletindo esse impacto real da ansiedade sobre os déficits de FE. O desempenho nos testes de FE também pode ser afetado negativamente pela presença de outras características do examinador e, assim, pode refletir tan- to um viés sobre o nível de desempenho verdadeiro do examinando, quanto um efeito adverso na performance em um teste de FE que não seja devido a nenhum tipo de viés. Obviamente, são necessárias mais pesquisas sobre a questão de saber em que medida as outras caracterís- ticas dos examinando que influenciam suas respostas em escalas de FE e se isso representa um viés ou erro na classificação ou uma verdadeira influência sobre o comportamento em questão sendo avaliado. Na medi- da em que esses vieses possam ocorrer, isso contribuirá para a medição de erros, reduzindo a confiabilidade e, especialmente, a validade da classificação. No entanto, as evidências a serem discutidas mais tarde (Capítulos 6 e 7), e algumas já apresentadas acima, indicam que, apesar desses potenciais vieses, as escalas de classifica- ção superam os testes de FE na previsão de funciona- mento adaptativo nas atividades cotidianas ou no com- prometimento causado nos principais domínios da vida. As classificações podem, portanto, ainda apresentar um valor considerável, ou, neste caso, maior validade eco- lógica, mesmo que ofereçam amostras imperfeitas dos comportamentos que estão sendo avaliados. A questão aqui, então, na seleção de uma medição, é a finalidade para a qual a medição está sendo usada. Algumas finali- dades exigem tipos de dados que podem ser fornecidos a partir da aplicação de um teste de FE ou observando diretamente o comportamento do participante em am- bientes selecionados. Outros objetivos podem ser facil- mente alcançados pelo tipo de informação a ser obtida na escala de avaliação mais econômica. ■ As escalas de avaliação são muitas vezes criticadas por usarem referências relativamente vagas para designar a frequência do comportamento, como “às vezes”, “fre- quentemente” ou “muito frequentemente”. Até certo ponto, tais críticas são bastante embasadas se a pes- soa estiver interessada em uma contagem de frequ- ência de comportamento muito precisa e refinada, como pode ser adquirida nas observações compor- tamentais diretas ou em respostas a uma tarefa de tempo de reação. Essa precisa contagem de frequên- cia pode ser necessária, de fato, para avaliar certas hi- póteses psicológicas. Mas, ao nível da prática clínica e do julgamento, e para outros fins de pesquisa, onde tal precisão é muitas vezes desnecessária e excessi- vamente custosa, as avaliações mais gerais de indi- víduos com base em suas próprias observações de si ou de outros provaram ser suficientemente precisas, convenientes, e de baixo custo – e, mais importante, confiável, válido e preditivo – de grande utilidade. De fato, as pesquisas que comparam os resultados derivados de testes clínicos, como testes contínuos de desempenho ou mesmo simuladores de condu- ção de automóvel, frequentemente concluíram que essas pontuações eram menos preditivas de seus res- pectivos construtos, quando avaliados em contextos naturais (classificações de inibição e atenção feitas pelos pais e professores, ou pelo departamento de registros de veículos ou relatórios de outros sobre a condução do avaliando, respectivamente), do que as classificações do comportamento de um indivíduo durante a aplicação de um teste completado pelo 21| 2. Desenvolvimento da BDEFS | examinador (Barkley, 1991; Barkley, Murphy, Du- Paul & Bush, 2002; Shelton et al., 1998). Para reite- rar, cada tipo de medição tem seu valor, dependendo da finalidade da avaliação. ■ Os críticos das escalas de classificação geralmente co- bram que as classificações em uma escala sejam mais subjetivas do que as respostas do indivíduo a um teste. Isso provoca um mal-entendido do termo “subjeti- vo”, acredito eu. As respostas para classificar itens de uma escala não são “subjetivas” e, portanto, não po- dem ser manchadas unicamente por essa afirmação. Os pensamentos, os estados mentais e até as opiniões pessoais são subjetivos, desde que permaneçam na cabeça/mente e não sejam conhecidos pelos outros. Eles não podem ser testados comparativamente à re- alidade por sua conformidade com isso – isto é, sua objetividade (Popper, 1979).Mas, uma vez que um pensamento é expresso publicamente sob qualquer forma (comportamento verbal, motor ou emocio- nal), esse comportamento pode ser observado por outros e registrado, como no caso de uma escala de classificação. A própria resposta, independentemen- te do pensamento que a que possa ser vinculada, é um item de informação observável que pode ser tes- tado de várias maneiras pela sua veracidade (valor de verdade) e utilidade. O grau em que a classifica- ção realmente representa a opinião pessoal do ava- liado pode nunca ser conhecido. O grau em que a classificação reflete o comportamento real que deve ser avaliado, no entanto, é uma questão diferente e está aberta à validação empírica. Assim, quando as pessoas relatam que têm dificuldade considerável para lembrar coisas que lhes foram ditas para fazer, não é de se preocupar que sua classificação seja ava- liada quanto a quão bem capturou seu estado mental privado. Mais importante é a questão de quão bem a classificação corresponde ao nível de dificuldade que essas pessoas realmente têm de se lembrarem dessas coisas. A validade da classificação como um indica- tivo do problema pode ser investigada, enquanto a validade da classificação como reflexo de um estado mental privado não pode. Mas é raro que essa última questão seja aquela em consideração no projeto de pesquisa ou na avaliação clínica de um paciente. É a primeira questão que interessa. Resumindo, qualquer acusação de imprecisão ou subje- tividade feita sobre entrevistas e escalas de classificação em um esforço para desprezá-las, sem referência a mais evidências sobre o propósito da avaliação, a questão sob investigação e as evidências para a confiabilidade, vali- dade e utilidade das entrevistas, é sem fundamento. A validade de estimativas humanas relativamente amplas, tal como a registrada em entrevistas estruturadas ou es- calas de classificação a respeito da frequência relativa de comportamento específico, é em si mesma uma forma de informação que pode ser observada, registrada e tes- tada, conforme observa-se no Capítulo 5, por sua con- fiabilidade, validade e utilidade sem diferença alguma de uma resposta a qualquer teste. Isso é o que importa e deve ser a base sobre a qual um clínico ou cientista escolhe um método de medição – e não algum desvio inerente em proteção aos testes contra as escalas de clas- sificação, independentemente do item em questão. Se o comportamento de um participante é ou não re- gistrado por ele (ou ela) circulando uma resposta a um item em uma escala de classificação, pressionando um botão em um dispositivo ou dando uma resposta ver- bal registrada em alguma folha de resposta de teste, é uma distinção que não faz diferença. Todas são formas de comportamentos observáveis e registráveis, e a prova de sua validade está na evidência disponível sobre elas. A tão propagada inclinação dos neuropsicólogos para concordarem que um teste é, de alguma forma, mais objetivo, preciso e, portanto, útil do que uma escala de classificação é uma hipótese, não é um fato consumado. A reivindicação merece ser submetida a testes na pes- quisa e não se torna um fato por mero consenso de opi- nião ou proclamação por uma autoridade isoladamente. Até agora, essa suposição do teste como um padrão ouro de medição provou-se ser questionável para conseguir avaliar certas questões ou propósitos, como a predição de funcionamento em ambientes naturais ou a determi- nação de se um transtorno particular envolve déficits em FE, como o TDAH. Os clínicos, os psicólogos organiza- cionais e até mesmo os pesquisadores não precisam se desculpar por usarem escalas de avaliação para avaliar certos domínios de comportamento e funcionamento em vez de usarem alguma forma de registro comporta- mental de observação direta ou testagem, se a evidência mostra que essas escalas têm mérito para certos propó- sitos almejados. A evidência disponível mostra que, para certos fins, as escalas de classificação são formas aceitá- veis de medições – neste caso de FE. Vantagens das escalas de classificação Tendo em mente essas ressalvas e questionamentos quanto ao uso de escalas de classificação para avaliar o comportamento humano e os traços psicológicos, con- sideremos agora uma lista das vantagens das escalas de 22 | 2. Desenvolvimento da BDEFS | classificação para fins clínicos e de pesquisa, novamente com a ressalva de que o objetivo da avaliação é o fator determinante na análise final de qual o melhor método para avaliar FE. A seu favor, as escalas de classificação têm inúmeras vantagens (ver Barkley, 1987; Cairns & Green, 1979): ■ As escalas de classificação têm a capacidade de reunir informações de informantes com muitos anos de con- vívio com os indivíduos a serem classificados, ou com eles mesmos, se forem os respondentes das escalas. ■ Essa vasta experiência ocorre devido a uma diversi- dade de contextos e circunstâncias quase impossíveis de serem reproduzidas de quaisquer outras formas, ou pelo menos de qualquer forma econômica. ■ As escalas de classificação permitem a coleta de dados sobre os comportamentos que ocorrem com pouquís- sima frequência, que provavelmente são perdidos nas observações de comportamento in vivo, a menos que tais observações sejam feitas durante períodos excepcionalmente longos. ■ As escalas de classificação podem coletar informações de forma a proteger a privacidade de um indivíduo, independentemente do assunto da escala de classi- ficação em si. Do contrário, as observações diretas ou o teste do indivíduo podem ser extremamente invasivos ao seu dia a dia, dando ao examinador a oportunidade de testemunhar situações e even- tos que nem são pertinentes ao tema ou objetivo da avaliação. ■ As escalas de classificação são muito menos custosas, menos demoradas e, portanto, mais eficientes e mais econômicas do que testes ou métodos de observação comportamental direta para muitos fins clínicos e de pesquisa. ■ As escalas de classificação podem considerar dados normativos específicos para estabelecer o desvio es- tatístico ou a posição relativa do indivíduo dentro da população com relação a um comportamento ou ca- racterística de interesse que pode não estar disponível avaliação em outros métodos. No caso das FE, coletar tais dados normativos pode ser menos custoso do que é o caso em muitos testes de FE cujas normas, quando disponíveis, geralmente não são representa- tivas de grandes amostras da população total. ■ Se desejado, as escalas de classificação podem incorpo- rar uma grande quantidade de itens que representam uma determinada dimensão, comportamento ou ca- racterística que podem ser coletados de forma muito mais rápida do que os itens equivalentes em um teste psicológico. ■ As escalas de classificação podem ser facilmente usa- das para coletar as opiniões de outra pessoa que co- nhece bem o avaliando para comparação com as autoavaliações da pessoa, como um meio de julgar as concordâncias entre ambos e a validade das auto- avaliações. Tais julgamentos são muito mais difíceis e morosos (se é que possíveis) de serem obtidos por resultados de um teste, sem que precise de um se- gundo examinador reaplicando a mesma bateria de testes para a mesma pessoa nas mesmas circunstân- cias ou em circunstâncias muito semelhantes. ■ As escalas de classificação podem ser usadas para fil- trar uma variação situacional que tem pouca ou ne- nhuma importância para o propósito da avaliação, solicitando respostas cruzadas para situações de frequência, intensidade, tempo ou outros aspectos topográficos do comportamento em estudo. Nova- mente, isso seria difícil, se não impossível, de alcan- çar através de um teste ou método de observação direta. ■ As escalas de classificação permitem que sejam feitas distinções quantitativas quanto aos aspectos quali- tativos do comportamento humano, que frequente- mente são difíceis de obter por outros meios, como testes e observações– pelo menos não a um bom custo-benefício. ■ As escalas de classificação, assim como os testes e as observações, podem ser usadas para diversos propó- sitos diferentes. Estes incluem: separar subgrupos de várias populações dentro de uma característica ou comportamento de interesse na pesquisa epide- miológica; explorar ainda mais hipóteses etiológicas sobre determinados comportamentos ou distúr- bios; determinar o prognóstico de grupos clínicos de pacientes acompanhados por longos períodos de tempo; e fazer medições de mudanças de com- portamento que podem ser secundárias tanto para intervenções quanto para alterações no status de um indivíduo, como avaliar as consequências de várias formas de lesão cerebral ou o impacto de distúrbios psiquiátricos ou adversidades psicológicas. Por essas e outras razões, as classificações de comporta- mento das FE e seus consequentes déficits nas atividades cotidianas têm um papel importante a desempenhar na pesquisa e na prática clínica em várias especialidades psicológicas. 23| 2. Desenvolvimento da BDEFS | História inicial do desenvolvimento da BDEFS O desenvolvimento da BDEFS durou mais de uma déca- da. A escala começou originalmente como uma tentati- va de avaliar FE em adultos com TDAH, dada a pesqui- sa substancial indicando que o transtorno era associado a déficits de FE em testes de FE, pelo menos no nível de análise do grupo (Frazier et al., 2004; Hervey et al., 2004). Para avaliar déficits de FE no cotidiano, meus co- legas e eu desenvolvemos nossa própria escala. Uma outra escala de classificação de FE para adul- tos existia no momento: o Dysexecutive Questionnaire (DEX; Burgess et al., 1998; Chaytor et al., 2006; Wood & Liossi, 2006). Embora tenham feito um esforço louvável na criação de uma escala de classificação para déficits de FE, várias limitações notáveis nos levaram a desenvolver a nossa própria escala FE (Barkley & Murphy, 2011). O DEX compreendeu apenas 20 itens destinados a provar a ampla gama de sintomas que se acredita serem repre- sentativos de uma síndrome disexecutiva comum (lobo frontal). Esse conjunto de itens limitados também não foi baseado teoricamente, mas sim clinicamente, du- rante sua construção, a partir de descrições clínicas de pacientes com lesões de CPF. A escala não rendeu pon- tuações em relação a dimensões específicas do problema FE, mas apenas forneceu um único resultado global re- sumido que se acredita refletir a síndrome disexecutiva. Um protótipo da escala de FE (Barkley & Murphy, 2011) foi, portanto, desenvolvido para uso em dois grandes projetos de pesquisa financiados pelo governo federal em adultos com TDAH (Barkley, Murphy & Fischer, 2008). Um desses projetos, conhecido como Estudo UMASS, examinou os adultos com acompanhamento clínico diagnosticados com TDAH em comparação com grupos de controle clínicos e comunitários. O segundo estudo, conhecido como Estudo de Milwaukee, foi um estudo que acompanhou crianças hiperativas até chega- rem à idade adulta jovem (idade média de 27 anos). (Ver Barkley et al., 2008, para detalhes de ambos os estudos.) O desenvolvimento da escala baseou-se principalmente em uma teoria anterior das FE, seus cinco construtos e seus propósitos adaptativos específicos (Barkley, 1997a, 1997b, 2001; ver Capítulo 1), bem como na ampla litera- tura sobre a natureza das FE (ver Denckla, 1996; Fuster, 1997; Lyon & Krasnegor, 1996; Stuss & Benson, 1986) e o histórico rico e longo de descrições dos sintomas de pacientes com lesões no CPF (novamente, ver Capítulo 1). O conjunto de itens original consistiu de 91 itens, que foram desenvolvidos para refletir: inibição; memória de trabalho não verbal (percepção autodirigida, especial- mente imagens visuais, sensação de tempo e gerencia- mento de tempo); memória de trabalho verbal (discurso privado autodirigido, projeção verbal do comportamen- to de alguém antes de agir, etc.); autorregulação emo- cional/motivacional (inibir emoções, motivando-se durante atividades chatas, etc.); e reconstituição (gene- ratividade, planejamento, resolução de problemas e in- ventividade orientada para objetivos). De acordo com essa teoria, os construtos são interativos e servem ao objetivo geral do comportamento auto-organizado ao longo do tempo para se preparar e atingir metas futuras. Os itens também foram gerados a partir de uma revisão de mais de 200 fichas referentes a adultos diagnostica- dos com TDAH numa clínica de TDAH para adultos de um centro médico regional, dado que o TDAH é majo- ritariamente um transtorno do funcionamento do CPF (Bush, Valera, & Seidman, 2005; Hutchinson, Mathias, & Banich, 2008; Mackie et al., 2007; Paloyelis, Mehta, Kuntsi, & Asherson, 2007; Valera, Faraone, Murray, & Seidman, 2007), tem sido interpretado como tal (Pon- tius, 1973) e é caracterizado por muitos teóricos como um transtorno envolvendo FE (Barkley, 1997b; Castella- nos et al., 2006; Nigg & Casey, 2005; Sagvolden, Johan- sen, Aase, & Russell, 2005). Os itens de escala focaram em sintomas problemáticos (medição de déficit) em vez de no funcionamento posi- tivo ou normativo das FE. A BDEFS não foi nem é des- tinada a avaliar a ampla variação de FE na população em geral, a fim de identificar a variedade de diferenças individuais no funcionamento normal que podem exis- tir nessa população. As escalas que se concentram nas FE típicas na população em geral podem ser bastante úteis ao estudar a amplitude de diferenças individuais, como em estudos de genética comportamental, desen- volvimento normal ao longo da vida ou outros propósi- tos em que a variação normal de traço psicológico é de interesse. A BDEFS, do contrário, foi e é destinada a ser utilizada para fins clínicos, para avaliar a amplitude de déficits de FE em adultos com acompanhamento clínico ou com alto risco – em outras palavras, para avaliar os sintomas de disfunção executiva. O profissional clínico enfrenta a questão de saber em que medida as queixas de um paciente clínico em relação a problemas em FE são indicativas de dificuldades significativas nas FE. A ques- tão aqui é quão atípica são as queixas do paciente, em vez de onde a pessoa se enquadra nos níveis da variação normal em FE na população em geral. 24 | 2. Desenvolvimento da BDEFS | A medição de déficits ou de sintomas é comum no de- senvolvimento de dispositivos de avaliação clínica, como aqueles usados para avaliar ansiedade, depressão, transtorno bipolar ou outros distúrbios psicológicos adultos – por exemplo, instrumentos como a Symptom Checklist 90-Revised (SCL-90-R; Derogatis, 1986) ou ou- tras escalas de classificação de FE (por exemplo, Roth, Isquith, & Gioia, 2005). A distribuição de tais pontua- ções em listas de verificação de sintomas será bastante diferente da típica curva de sino referente à distribui- ção da variação normal em uma habilidade psicológica característica, como inteligência ou realização acadê- mica. Pode se esperar que a distribuição de pontuação de uma ferramenta de medição de déficit (sintoma) seja altamente distorcida em relação ao ponto zero ou à baixa pontuação na escala, com uma queda acentuada na porcentagem da população geral que manifesta um número crescente de sintomas. A avaliação dos déficits ou sintomas calcula a probabilidade de que as queixas de um paciente sejam suficientemente graves ou nume- rosas para colocá-lo consideravelmente fora do nível de queixas comuns à população em geral. Este foi o nosso propósito na construção da BDEFS: usar itens que refle- tem sintomas ou déficits, em vez de itens que refletem a extensão das habilidades normais. Três instrumentos separados foram desenvolvidos a partir do conjunto original de 91 itens: duas escalas de classificação e uma entrevista a ser feita por um clínico. Primeiro, os 91 itens foram lançados na forma de uma escala de classificação a ser completada por cada partici- pante. Essa escala foi então recriada em um formulário na terceira pessoa paraser preenchido por alguém que conhecia bem o participante. Este deveria ser preferen- cialmente parente ou parceiro em união estável, mas se nenhuma dessas estivesse disponível, um irmão ou um amigo próximo eram aceitos em vez disso. Cada item nessas duas escalas foi respondido em uma escala Likert de 0-3 (0 = raramente ou nunca, 1 = às vezes, 2 = fre- quentemente, e 3 = muito frequentemente). O restante deste capítulo se concentra principalmente nessas duas escalas de classificação, que serviram de protótipos para as escalas publicadas no presente volume. No entanto, os participantes do Estudo UMASS também responde- ram à entrevista com um psicólogo clínico. A entrevista continha os mesmos itens que a escala de classificação. As medidas diferiam, no entanto, na medida em que os itens da entrevista perguntavam apenas se um indivíduo havia experimentado esse sintoma como ocorrendo fre- quentemente ou muito frequentemente nos últimos seis meses (ver Barkley et al., 2008), em vez de ter a escolha entre quatro avaliações possíveis, como no caso da esca- la de classificação. O termo “frequentemente” foi esco- lhido para mostrar um sintoma devido ao nosso traba- lho anterior com uma escala de classificação de TDAH em adultos, o qual sugeriu que essa resposta ocorre com pouca frequência na população geral de adultos para servir de marcador para um problema ou sintoma (Barkley & Murphy 2006; Murphy & Barkley, 1996). Três grupos de participantes (de 18 a 60 anos) foram uti- lizados no estudo UMASS inicial de adultos com TDAH (ver Barkley et al., 2008; Barkley & Murphy, 2011): (1) 146 adultos clinicamente diagnosticados com TDAH; (2) um grupo de controle clínico (97 adultos avaliados na mesma clínica, mas não diagnosticados com TDAH); e (3) um grupo de controle comunitário (109 voluntá- rios adultos da comunidade local). Os adultos dos dois primeiros grupos foram obtidos a partir de tentativas consecutivas com uma clínica de TDAH para adultos em um departamento de psiquiatria de uma escola de medi- cina regional. Os adultos da comunidade foram obtidos por meio de anúncios publicados em toda a faculdade de medicina e de anúncios periódicos no jornal regional (mais informações sobre essas três amostras podem ser encontradas em Barkley et al., 2008). Um pouco mais de dois terços (68%) daqueles em nosso grupo com TDAH eram do sexo masculino; isso diferiu de uma distribuição quase igual do sexo (51%) em nosso grupo de controle comunitário, mas não foi significativamente diferente da distribuição no grupo de controle clínico (56%). Esse achado está de acordo com muitos estudos com crianças e adultos com TDAH, que demonstram uma maior manifestação do transtorno em homens do que em mulheres (Barkley, 2006; Kessler et al., 2006). Normalmente, a relação homem/mulher em TDAH é de aproximadamente 2:1 em estudos epidemiológicos adultos – uma proporção semelhante à encontrada aqui. A grande maioria dos participantes era branca (94%) ou de ascendência americana ou europeia, e os grupos não diferiam quanto a esse respeito. Portanto, é necessá- ria cautela ao extrapolar os resultados iniciais descritos abaixo para adultos de outros grupos étnicos. Tivemos classificações feitas por outros em 129 (88%) do grupo com TDAH, 88 (90%) do grupo clínico e 92 (84%) do grupo comunitário. Essas diferenças na por- centagem de cada grupo tendo resultados colaterais em FE não foram significativas (χ2 = 19,38, gl = 12, p = NS). Uma análise do padrão de relacionamento dessas outras pessoas com os participantes não revelou diferenças sig- nificativas entre os grupos. 25| 2. Desenvolvimento da BDEFS | Identificando dimensões subjacentes de FE nas atividades cotidianas Aplicamos a análise fatorial de componentes principais aos 91 itens originais no protótipo da BDEFS (daqui em diante denominado como P-BDEFS) para explorar as dimensões subjacentes dos déficits de FE no dia a dia, usando autoavaliações de toda a amostra do UMASS de 352 participantes. Isso nos deu 3,86 participantes por item de FE na escala, o que estava abaixo dos cinco par- ticipantes por variável tradicionalmente recomendados para obter uma confiabilidade adequada da estrutura dos elementos. No entanto, como observado abaixo, a evidência da confiabilidade real dessa estrutura de ele- mentos foi obtida pelo fato de que a mesma estrutura de elementos emerge das classificações dos terceiros quanto aos déficits de FE neste estudo. Também ocorreu no estudo de Milwaukee, o estudo separado feito com crianças hiperativas acompanhadas até a idade adulta, que usou a versão da entrevista desta escala de classi- ficação (Barkley & Fischer, 2011). Finalmente, ocorreu também na versão subsequente da BDEFS com a amos- tra normativa a ser discutida no Capítulo 3 (N = 1.249). Embora 10 fatores tenham alcançado valores próprios maiores que 1, apenas cinco deles apresentaram pelo menos 10 itens com maior peso em um fator; repre- sentaram pelo menos 2% ou mais da variância antes da alternância; e, por acaso, atingiram valores próprios de 1,8 ou mais. Nós, portanto, mantivemos apenas esses cinco fatores. Descobrimos que 88 itens tinham peso de pelo menos 0,400 em qualquer um desses cinco fatores. Três itens foram descartados da escala porque eles não tiveram um peso maior a 0,400 em nenhum dos cinco fatores finais nessa análise (“Não consegue sustentar amizades ou relacionamentos próximos por tanto tem- po quanto as outras pessoas”, “Caligrafia pobre ou des- leixada” e “Menos capaz do que os outros para recordar eventos da infância”). A solução dos fatores não-rotacionados indicou que o primeiro fator representou uma quantidade substancial da variância nessas classificações (mais de 51%). Cada um dos fatores restantes representou 2-4,4% da variân- cia por fator, de modo que os cinco fatores não-rotacio- nados foram responsáveis por mais de 63% da variância. Pareceu que um grande fator representou a maioria da variância nos déficits de FE no cotidiano. Um achado se- melhante foi evidenciado nas análises fatoriais do Beha- vior Rating Inventory of Executive Functioning (BRIEF) – Versão para Adultos (Roth et al., 2005). Uma descoberta idêntica foi observada por Biederman e colegas (2008), usando o P-BDEFS com uma amostra diferente de adul- tos que tinham TDAH e adultos controle. Os itens de maior peso quanto a esse primeiro fator para o P-BDE- FS trataram de sensação de tempo, gerenciamento de tempo, planejamento, preparação para prazos e outros comportamentos dirigidos a objetivos. Nós, portanto, denominamos esse fator como Gerenciamento de Tem- po (Self-Management to Time). Tal descoberta apoia a visão de Fuster (1997) e outros (ver Capítulo 1) de que FE compreende principalmente a organização transtem- poral do comportamento em direção aos objetivos. Muitos pesquisadores podem ter parado a análise com essas descobertas, concluindo que as FE nas atividades do cotidiano compreendem principalmente essa dimen- são única. Uma constatação idêntica foi feita por Fara- one et al. (2010). No entanto, outros 12% da variância (antes da rotação) podem ser contabilizados por quatro fatores adicionais que individualmente representaram pelo menos 2% ou mais da variância não rotacionada; tiveram pelo menos 10 itens que tinham peso essencial quanto a essa dimensão; e, por acaso, tinham valores próprios de pelo menos 1,8. A questão relativa ao nú- mero de itens atribuídos a um fator é importante se uma dimensão quiser ter alguma chance de ser avaliada de forma confiável; a confiabilidade (bem como a validade) depende em parte do número de itens de um construto incluídos na escala. E, posteriormente, usamos uma ro- tação varimax para analisar ainda mais profundamente a escala, especificando uma solução de cinco fatores. (Uma rotação promax produziu os mesmos resultados, exceto pelo fato de que os pesos fatoriais dos itens foram ainda maiores do que os encontrados na rotação varimax. Isso erade se esperar, dada a finalidade de cada abordagem de rotação. A varimax procura diminuir as correlações entre os fatores, enquanto a promax permite que tais correlações entre fatores existam.) Os cinco fatores finais para a versão de autorrelato do P-BDEFS e suas variações (após a rotação varimax) foram os seguintes: ■ Fator 1 (Gerenciamento de Tempo) continha 23 itens e representava 15,7% da variância após a rotação. Conforme observado acima, os itens de maior peso tratavam de: senso de tempo; gerenciamento de tem- po; planejamento; preparação para prazos e outros comportamentos dirigidos a objetivos. ■ Fator 2 (Organização/Resolução de Problemas) con- tinha 21 itens e representava 15,2% da variância. Os itens de maior peso pertenciam a organização de pensamentos, ações e escrita; pensamento rápido ao 26 | 2. Desenvolvimento da BDEFS | se deparar com eventos inesperados; e criação de so- luções para problemas ou obstáculos encontrados no caminho para a realização de objetivos. ■ Fator 3 (Autocontrole ou Inibição) compreendia 23 itens e representava 14,1% da variância. Seus itens de maior peso tratavam de: fazer comentários im- pulsivos; ter baixa inibição das próprias reações a eventos; tomada de decisão impulsiva; fazer as coi- sas sem considerar suas consequências; e não pensar sobre o passado ou futuro relevantes antes de agir. Alguns itens também tratavam de uma falta de au- toconsciência e da incapacidade de levar em conta as perspectivas de outras pessoas sobre seu próprio comportamento ou situação. ■ Fator 4 (Motivação) consistia de 11 itens e repre- sentava 9,8% da variância, com os itens principal- mente tratando de: tomar atalhos no trabalho; não fazer todo o trabalho atribuído; ser descrito como preguiçoso por outros; não fazer muito esforço no trabalho; precisar de mais supervisão do que outros enquanto trabalha; ficar entediado com facilidade; e assim por diante. ■ Fator 5 (Autoativação/Concentração) continha 10 itens e correspondia a 8,6% da variância. Compre- endia itens que tratavam de: ser facilmente distraído com os próprios pensamentos ao fazer um trabalho chato; ficar acordado e alerta enquanto trabalha; conseguir persistir em atividades tediosas; ter con- centração contínua em leitura, trabalho com docu- mentações, reuniões ou outras atividades não inte- ressantes; estar propenso a sonhar acordado quando deveria concentrar-se; e ter que ler e reler um mate- rial escrito de assunto desinteressante para compre- endê-lo verdadeiramente. Conforme mencionado acima, uma análise fatorial com rotação varimax também foi realizada na versão heteror- relato do P-BDEFS (Barkley & Murphy, 2011). A mesma solução de cinco fatores surgiu com conteúdo de itens quase idêntico. A variação contabilizada após rotação por cada fator foi a seguinte: Gerenciamento de Tempo, 19,9%; Organização/Resolução de Problemas, 16,5%; Autocontrole, 16,7%; Motivação, 8%; e Auto-Ativação/ Concentração, 3,8%. Apenas em algumas situações, um item teve seu peso mais alto em um fator diferente do que lhe fora atribuído nas autoavaliações. Mesmo assim, ele tinha ou um peso equivalente ou um segundo peso mais alto na escala a que fora atribuído nas autoavalia- ções. É importante notar aqui que o P-BDEFS foi limi- tado pela ausência de qualquer item abordando o domí- nio da autorregulação emocional. Portanto, não houve oportunidade para que tal fator surgisse nessas análises. Essa limitação foi corrigida na versão final da BDEFS, conforme descrito na próxima seção. Nós criamos cinco subescalas a partir da versão de au- torrelato do P-BDEFS refletindo esses fatores e consis- tindo apenas nos itens com o maior peso em cada su- bescala. Para cada subescala, criamos uma pontuação total com base na soma das pontuações de itens brutos individuais. Nós fizemos o mesmo para a versão de hete- rorrelato, usando os mesmos itens, de modo que compa- rações diretas pudessem ser feitas entre as duas versões. Apesar da inclusão dessas cinco subescalas baseadas em fatores no P-BDEFS, as subescalas foram significa- tivamente correlacionadas, variando de 0,74 a 0,88 para as autoavaliações e de 0,75 a 0,88 para as avaliações de heterorrelato. As subescalas, portanto, compartilharam 56-77% de sua variância, o que, como sugerido acima e no Capítulo 1, pode indicar a possível existência de um único metaconstruto fundamental de déficits em FE (Barkley & Murphy, 2011). Para as autoavaliações, três das cinco subescalas mostra- ram uma correlação baixa, mas significativa, com a ida- de do participante: Gerenciamento de Tempo (r = -0,11, p = 0,05); Motivação (r = -0,21, pambos os grupos manifestaram substancialmente mais déficits de FE do que o grupo de controle comunitário. Usando esses fatores e seus pesos de itens, calculamos as mesmas pontuações para usar o formulário de entrevis- ta do P-BDEFS mencionado anteriormente. Novamente, esses itens foram respondidos como “sim” (o item ocor- reu frequentemente ou muito frequentemente) ou “não” (o item não ocorreu frequentemente). O formulário de entrevista, portanto, produziu o equivalente a uma conta- gem de sintomas de FE. Para o presente manual, as pon- tuações dos fatores da entrevista foram correlacionadas com as observadas acima para a escala de classificação de autorrelato P-BDEFS. Os resultados mostraram que as pontuações para cada um dos fatores estavam altamente correlacionadas entre estas duas medidas: Gerenciamen- to de Tempo (r = 0,921), Organização/Resolução de Pro- blemas (r = 0,885), Autocontrole (r = 0,873), Motivação (r = 0,867), Autoativação/Concentração (r = 0,904) e o Escore Total da Pontuação de FE (soma de todas as pon- tuações dos fatores) (r = 0,925). Todas as correlações fo- ram significativas em pao provedor de servi- ços de internet. Às pessoas que já tinham computadores e serviços de Internet foi permitido usar seus próprios equipamentos para participar. Os participantes da ferra- menta então receberam informações de login para aces- sarem pesquisas on-line e, em seguida, foram enviados e-mails ao longo de cada mês, convidando-os a partici- par da pesquisa. Os membros do painel foram pagos pela conclusão da pesquisa. Mais informações técnicas estão disponíveis no site acima mencionado (https://www.gfk. com/products-a-z/us/knowledgepanel-united-states/). A BDEFS inicial de 100 itens foi entregue à Knowledge Networks como uma escala de classificação em que os en- trevistados responderam cada item em uma escala Likert de 4 pontos (1-4): 1 = raramente ou nunca, 2 = às vezes, 3 = frequentemente, e 4 = muito frequentemente. A escala foi então carregada para um site da internet e os membros do Knowledge Panel® foram convidados a completar a es- cala. A versão da entrevista não foi usada nesse estudo. A pesquisa foi realizada em abril de 2010 e foi concluída dentro de três semanas do convite inicial. A empresa foi contratada para obter escalas completas em pelo menos 1.200 adultos divididos em seis grupos etários (18-29, 30- 39, 40-49, 50-59, 60-69 e 70+), com pelo menos 100 ho- mens e 100 mulheres em cada faixa etária. Um subconjun- to de participantes foi convidado a completar a pesquisa uma segunda vez, 2-3 semanas após a conclusão da escala inicial, para fornecer informações sobre a confiabilidade teste-reteste computacional. Um total de 62 participantes, 31 do sexo masculino e 31 do sexo feminino, fizeram isso. Eles foram selecionados aleatoriamente para garantir que pelo menos cinco homens e cinco mulheres fossem reti- rados de cada faixa etária. Como os participantes iniciais, esses participantes que fizeram o reteste foram pagos por terem dado seu tempo para completar esta segunda escala. As normas não foram coletadas para a versão longa de heterorrelato da BDEFS, pois não havia nenhum meio disponível nesse processo pelo qual tal amostra de he- terrolado de terceiros poderia ser obtida conveniente- mente. Isso exigiria que cada participante tivesse um terceiro disponível e que quisesse completar essa versão da escala. Além disso, esses terceiros teriam (1) de ser fornecidos com acesso à Internet, se necessário, (2) de estar disponíveis em números iguais nos mesmos tipos de relações com os participantes, (3) ter níveis de expe- riência semelhantes com os participantes, e (4) de es- tar em número representativo do Censo dos EUA. Em particular, pesquisas anteriores mostram que a natureza da relação entre um participante e uma pessoa adicional que fornece informações sobre ele ou ela tem efeitos sig- nificativos sobre o grau de concordância e quantidade de disparidades nas classificações (Barkley et al., 2011). Por esses e outros motivos, nenhum esforço foi feito para co- letar normas para a versão de heterorrelato. Finalmente, a questão importante na obtenção da versão de hete- rorrelato não é como seus relatórios se comparam aos de um grupo normativo de informantes adicionais que fornecem esses relatórios, mas como seus relatórios são diferentes dos pacientes/participantes. Os relatos de ter- ceiros sobre os participantes não constituem um contro- le sobre o desvio estatístico de indivíduos dentro da po- pulação, mas um controle sobre a validade dos próprios relatórios dos participantes sobre si mesmos. 30 | 3. Amostra Normativa da Versão Americana | A Knowledge Networks exige que os participantes te- nham a opção de escolher não responder uma pergun- ta. Para a maioria das perguntas, isso não ocorreu. No entanto, para algumas perguntas, um participante rara- mente se recusou a responder o questionário. Para cada uma das perguntas para as quais ocorreu recusa, ela ocorreu entre 1 e 12 vezes, com uma média de 4 repli- cações recusadas para essas questões. Isso constitui uma taxa de recusa de 0,1-0,9% para os itens em que ocorreu, com uma taxa média inferior a 0,3%. Nesses casos raros, a resposta não dada foi substituída por 1 (a classificação mais baixa), para que todos os dados restantes daquele participante pudessem ser usados no projeto. Essa prá- tica baseou-se no argumento de que isso criaria um viés conservador nas respostas a esse item. Várias diferenças entre essa abordagem para a coleta de normas para uma escala de classificação FE e a utiliza- da para o formulário para adultos do BRIEF merecem atenção aqui. O manual para adultos BRIEF (Roth et al., 2005) indica que uma amostra representativa de todos os adultos dos EUA não foi obtida; em vez disso, apenas aqueles que tiveram acesso à Internet foram convidados. Essa abordagem pode enviesar a amostra resultante para fora da população geral dos EUA, um subconjunto subs- tancial que não tem acesso rotineiro à Internet e/ou não possui equipamento computadorizado. A abordagem usada aqui usou uma amostra de adultos dos EUA in- dependentemente do acesso à Internet e o forneceu aos adultos que de outra forma não tinham esse acesso ou o equipamento computadorizado necessário. Outra dis- tinção importante é que os desenvolvedores do BRIEF excluíram qualquer pessoa (1) com um diagnóstico psi- quiátrico, (2) com uso autorrelatado de alguma droga psiquiátrica, (3) com deficiência de aprendizagem, (4) com transtorno neurológico ou (5) com alguma grave doença médica. Uma minoria substancial da população dos EUA (geralmente citada como 20-25%) se qualifica para um único transtorno psiquiátrico, e provavelmente muitos se qualificam para outros distúrbios de desen- volvimento e médicos. Uma amostra assim filtrada não é, portanto, representativa da população geral dos EUA, mas de uma população psiquiátrica e sem diagnósticos psiquiátricos e de outras condições médicas. A com- paração dos resultados de qualquer paciente com essa amostra tornaria muito mais provável que as pontuações do indivíduo pudessem se desviar dessa amostra nor- mativa do que de uma baseada na população geral dos EUA, independentemente da presença de vários distúr- bios ou da história de tratamento, como foi feito aqui. A questão da posição relativa de uma pessoa dentro da população em geral pareceria exigir uma comparação com uma amostra representativa dessa população adul- ta total, em vez de uma amostra, incluindo apenas indi- víduos físicos e psicologicamente saudáveis que não são tão representativos. Características demográficas da amostra nacional Um total de 1.249 adultos completaram a pesquisa. Os tamanhos de amostra para cada faixa etária por sexo são mostrados na Tabela 3.1, juntamente com a porcen- tagem de toda a amostra, cada uma representada. Eles indicam que os métodos de pesquisa foram bem-sucedi- dos na obtenção de uma representação igual de homens e mulheres em cada uma das seis faixas etárias solicita- das à Knowledge Networks. Tabela 3.1. O número de homens e mulheres em seis grupos de idade na amostra normativa da BDEFS Sexo e faixa etária Frequência Percentual Percentual cumulativo Masculino 18-29 104 8,3 8,3 Masculino 30-39 102 8,2 16,5 Masculino 40-49 104 8,3 24,8 Masculino 50-59 104 8,3 33,1 Masculino 60-69 104 8,3 41,5 Masculino 70+ 105 8,4 49,9 Feminino 18-29 102 8,2 58,0 Feminino 30-39 104 8,3 66,4 Feminino 40-49 105 8,4 74,8 (continua) 31| 3. Amostra Normativa da Versão Americana | Sexo e faixa etária Frequência Percentual Percentual cumulativo Feminino 50-59 106 8,5 83,3 Feminino 60-69 105 8,4 91,7 Feminino 70+ 104 8,3 100,0 Total 1.249 100,0 Um total de 623 homens entre 18-93 anos (49,9%) e 626 mulheres entre 18-96 anos completaram a amostra. No entanto, apenas 10 participantes tinham mais de 87 anos. A idade média para os homens foi de 49,7 anos (DP = 18,0), e para as mulheres foi de 49,8 anos (DP = 18,0); estes não foram significativamente diferentes (F = 0,003, p = NS). (Note que, consequentemente, a significância estatísticapara os fatores demográficos é definida em p ≤ 0,05.) O Censo de 2000 dos EUA indicou que 49,1% da população norte-americana era do sexo masculino e, portanto, a distribuição do sexo da nossa amostra se aproximava da dos Estados Unidos em geral. Números quase iguais de homens e mulheres foram colocados em quatro categorias educacionais, de modo que os sexos não diferiram em seus níveis educacionais (χ2 = 0,60, p = NS), como mostrado na Tabela 3.2. Os níveis edu- cacionais da amostra normativa também foram geral- mente comparáveis aos da população norte-americana, conforme refletido no Censo dos EUA de 2000, embora a amostra normativa contivesse uma percentagem ligei- ramente inferior daqueles com menos do que o Ensino Médio em comparação ao Censo dos EUA. A distribuição geográfica dos participantes dentro de cada sexo é mostrada na Tabela 3.3. Como esta tabela indica, homens e mulheres no estudo foram obtidos de todas as quatro regiões dos Estados Unidos em propor- ções relativamente iguais. Não houve diferença signifi- cativa nas distribuições geográficas em função do sexo dos participantes (χ2 = 3,12, p = NS). Os resultados mostram que a distribuição geográfica da amostra nor- mativa foi bastante semelhante à da população norte-a- mericana, com base no Censo de 2000 dos EUA. A diferença racial/étnica da amostra normativa por sexo é apresentada na Tabela 3.4. Conforme visto nesse qua- dro, a maioria dos participantes era branca (não hispâ- nica), como foi o caso da população no Censo de 2000 dos EUA. Não houve diferenças significativas na distri- buição étnica da amostra para cada sexo (χ2 = 2,34, p = NS). A porcentagem de participantes em cada grupo étnico se assemelhava, em grande medida, à população dos EUA, com base no Censo de 2000 dos EUA. No en- tanto, negros e hispânicos pareceram estar ligeiramente sub-representados na amostra normativa. Tabela 3.2. Níveis educacionais para cada sexo na amostra normativa, em comparação com o Censo de 2000 dos EUA Nível educacional Sexo Total Percentual do Censo EUA*Masculino Feminino Menos que Ensino Médio Quantidade 73 69 142 19,6% % por gênero 11,7% 11,0% 11,4% Ensino Médio Quantidade 178 190 368 28,6% % por gênero 28,6% 30,4% 29,5% Ensino Superior Quantidade 182 183 365 21,0% % por gênero 29,2% 29,2% 29,2% Bacharelado ou maior grau Quantidade 190 184 374 24,1% % por gênero 30,5% 29,4% 29,9% Nota. * Baseado no Censo de 2000 dos EUA (disponível em www.census.gov). 32 | 3. Amostra Normativa da Versão Americana | Tabela 3.3. Distribuição regional por sexo para a amostra normativa, em comparação com o Censo de 2000 dos EUA Região Sexo Total Percentual do Censo EUA*Masculino Feminino Nordeste Quantidade 111 126 237 19,0% % por gênero 17,8% 20,1% 19,0% Centro-Oeste Quantidade 133 150 283 22,9% % por gênero 21,3% 24,0% 22,7% Sul Quantidade 237 219 456 35,6% % por gênero 38,0% 35,0% 36,5% Oeste Quantidade 142 131 273 22,4% % por gênero 22,8% 20,9% 21,9% Nota. * Baseado no Censo de 2000 dos EUA (disponível em www.census.gov). Tabela 3.4. Frequência e porcentagem de cada grupo racial/étnico por sexo para a amostra norma- tiva, em comparação com o Censo de 2000 dos EUA Raça/Etnia Sexo Total Percentual do Censo EUA*Masculino Feminino Brancos não- Hispânicos Quantidade 478 488 966 75,1% % por gênero 76,7% 78,0% 77,3% Negros não- Hispânicos Quantidade 43 42 85 12,3% % por gênero 6,9% 6,7% 6,8% Outros não- Hispânicos Quantidade 20 27 47 6,6% % por gênero 3,2% 4,3% 3,8% Hispânicos Quantidade 61 50 111 12,5% % por gênero 9,8% 8,0% 8,9% 2+ raças, não- Hispânicas Quantidade 21 19 40 2,4% % por gênero 3,4% 3,0% 3,2% Total 623 626 1.249 Nota. * Baseado no Censo de 2000 dos EUA (disponível em www.census.gov). A distribuição da amostra normativa por categorias de renda é mostrada na Tabela 3.5. A categoria de renda média foi de 11,3, o que se traduziu em uma receita mé- dia que variou de US$ 40.000 a US$ 49.999; a categoria mediana foi de 12, equivalente a uma renda variando de US$ 50,000 a US$ 59,999. A categoria de renda modal foi de 13, refletindo uma faixa de US$ 60,000 a US$ 69,999. A receita familiar média dos EUA foi de US$ 41,994 se- gundo o Censo de 2000 dos EUA. Os resultados sugerem uma semelhança relativamente razoável da renda fami- liar da amostra normativa com a da população dos EUA. O estado civil dos participantes da amostra normativa é mostrado na Tabela 3.6. Ele sugere uma semelhança razoável entre a amostra normativa e a população dos EUA, com base no Censo de 2000 dos EUA. No entanto, uma percentagem um tanto menor da amostra norma- tiva constou nunca ter sido casada em relação ao Censo dos EUA de 2000. O Departamento de Censo dos EUA calcula o estado civil para as pessoas de 15 anos ou mais, o que, naturalmente, refletiria uma porcentagem maior nunca tendo sido casada do que a amostra normativa, que incluiu indivíduos com 18 anos de idade ou mais. 33| 3. Amostra Normativa da Versão Americana | Esperávamos que mais desse último grupo fossem casa- dos, em relação ao método do Censo dos EUA de 2000 para determinar esse valor. Isso provavelmente explica a diferença no estado civil entre os dados do Censo dos EUA de 2000 e aqueles para a nossa amostra normativa. Tabela 3.5. Distribuição das categorias de renda familiar para a amostra normativa Nível de renda Frequência Percentual Percentual cumulativo Menos que U$5.000 18 1,4 1,4 U$5.000 a U$7.499 21 1,7 3,1 U$7.500 a U$9.999 27 2,2 5,3 U$10.000 a U$12.499 36 2,9 8,2 U$12.500 a U$14.999 35 2,8 11,0 U$15.000 a U$19.999 55 4,4 15,4 U$20.000 a U$24.999 63 5,0 20,4 U$25.000 a U$29.999 70 5,6 26,0 U$30.000 a U$34.999 65 5,2 31,2 U$35.000 a U$39.999 79 6,3 37,6 U$40.000 a U$49.999 110 8,8 46,4 U$50.000 a U$59.999 116 9,3 55,6 U$60.000 a U$74.999 141 11,3 66,9 U$75.000 a U$84.999 89 7,1 74,1 U$85.000 a U$99.999 98 7,8 81,9 U$100.000 a U$124.999 99 7,9 89,8 U$125.000 a U$149.999 52 4,2 94,0 U$150.000 a U$174.999 36 2,9 96,9 U$175.000 ou mais 39 3,1 100,0 Tabela 3.6. Estado civil da amostra de normatização, em comparação com o Censo 2000 dos EUA Estado civil Frequência Percentual Percentual do Censo EUA* Casado 659 52,8 54,4 Viúvo 85 6,8 6,6 Divorciado 118 9,4 9,7 Separado 28 2,2 2,2 Solteiro 264 21,1 27,1 União Estável 95 7,6 – Nota. * Baseado no Censo de 2000 dos EUA (disponível em www.census.gov). A situação de emprego da amostra normativa é mostra- da na Tabela 3.7. Mais da metade daqueles na amostra estavam trabalhando como empregados remunerados ou em trabalhos por conta própria, e quase um quarto dos entrevistados estavam aposentados. O número do Censo dos EUA de 2000 para os empregados atualmen- te foi de 57,5% para indivíduos de 16 anos ou mais. Isso indica uma similaridade razoável da amostra norma- tiva com a população dos EUA em termos de situação de emprego. 34 | 3. Amostra Normativa da Versão Americana | Para resumir as características demográficas da amos- tra do estudo, parece que a amostra normativa recru- tada aqui aproximou-se da população adulta dos EUA, como refletido no Censo dos EUA de 2000 rem rela- ção a: distribuição regional, sexo, raça/grupo étnico, estado civil, situação de emprego, renda familiar total e educação. Essa foi a amostra normativa em que os dados da versão inicial de 100 itens da BDEFS foram coletados. Os resultados das análises fatoriais da esca- la e a construção das subescalas individuais com base nas respostas da amostra normativa são discutidos no próximo capítulo. Tabela 3.7. Situação de emprego da amostra normativa Situação de emprego Frequência Percentual Percentual cumulativo Trabalhando como empregado remunerado 573 45,9 45,9 Trabalhando como autônomo 81 6,5 52,4 Não trabalhando – em demissão temporária 20 1,6 54,0 Não trabalhando – procurando emprego 90 7,2 61,2 Não trabalhando – aposentado 282 22,6 83,7 Não trabalhando – incapacitado 99 7,9 91,7 Não trabalhando – outros motivos 104 8,3 100,0 Total1.249 100,0 35| 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens Este capítulo relata os resultados da análise fatorial re- alizada para encontrar as dimensões subjacentes de FE nas atividades do cotidiano avaliadas pela BDEFS. Em seguida, discute o uso desses resultados para construir a versão final e as subescalas da BDEFS. Finalmente, uma tabela mostrando as frequências com as quais os itens foram aprovados pela amostra normativa é apresentada e discutida. Análise fatorial A versão inicial de 100 itens da BDEFS foi submeti- da a uma análise fatorial de componentes principais (PCFA), usando toda a amostra normativa de 1.249 adultos descrita no Capítulo 3. Os resultados iniciais revelaram que 13 fatores tinham autovalores próprios maiores que 1. No entanto, cada um desses fatores re- presentou apenas 1,0-1,6% da variância e continha ape- nas alguns itens. Eles foram, portanto, considerados pouco confiáveis e de pouco interesse clínico. Outros seis fatores apresentaram autovalores superiores a 2 e representam pelo menos 2% da variância cada. No en- tanto, o último fator (Fator 6) teve apenas quatro itens que tiveram o maior peso nesse fator e pesaram pelo menos 0,400 após a rotação varimax. Este fator foi as- sociado a alguns dos itens do fator original de Auto- ativação/Concentração descoberto na pesquisa inicial no P-BDEFS, discutido no Capítulo 2. Os cinco fato- res restantes contêm pelo menos 12 itens que tiveram seus maiores pesos nesse fator, tiveram fator de peso de pelo menos 0,400 ou superior após rotação varimax (ou 0,500 após rotação promax) e representaram pelo menos 2,5% da variância cada. Os resultados foram então submetidos inicialmente a uma rotação varimax, que é projetada para maximizar, tanto quanto possível, os valores em cada coluna da ta- bela de coeficientes de peso de fatores próximos a zero. Essa abordagem geralmente é usada na tentativa de re- duzir o grau de correlação entre os itens (variáveis). Mas também submetemos o PCFA inicial a uma rotação pro- max, que é frequentemente usada quando as variáveis são conhecidas como correlacionadas (assim como os itens de FE) e permite que os itens sejam correlaciona- dos com mais de um fator. Ambas as abordagens rende- ram a mesma estrutura de fator final. Os resultados do PCFA são mostrados na Tabela 4.1. Ela relata os pesos de fatores para as rotações varimax e promax. O primeiro fator representou 37,0% da variância antes da rotação e continha 15 dos itens do fator de Organi- zação/Resolução de Problemas encontrado no P-BDE- FS inicial (veja o Capítulo 2), bem como seis itens do fator de Autoativação/Concentração. Conforme men- cionado acima, o último fator foi descartado na análise atual por causa de um conjunto de itens limitados. Isso explica o motivo provável para essa descoberta, pois parece que muitos dos itens que originalmente pesa- vam no fator de Autoativação/Concentração no P-B- DEFS, moveram-se para o fator de Organização/Solu- ção de Problemas na análise desta amostra normativa muito maior. O fator 1 continha, portanto, 24 itens e foi mais uma vez rotulado como Organização/Resolução de Problemas. Os sete itens de maior peso, em ordem decrescente, foram estes: ■ Tenho dificuldade em explicar as coisas na ordem ou sequência apropriada; ■ Parece que eu não consigo processar informações de modo tão rápido ou preciso quanto os outros; ■ Tenho dificuldade em aprender atividades novas e complexas tão bem como os outros; ■ Sou incapaz de pensar e reagir rapidamente ou de modo tão eficiente quantas outras pessoas quando ocorrem eventos inesperados; ■ Sou incapaz de apresentar ou inventar tantas solu- ções para problemas quanto os outros; ■ Eu sou mais lento do que outros para resolver pro- blemas que encontro no meu dia a dia; ■ As palavras parecem me faltar quando quero expli- car alguma coisa para os outros. 36 | 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | O fator 2 representou 5,1% da variância antes da rotação e continha 20 dos 23 itens originais do fator Gerenciamen- to de Tempo descoberto na pesquisa inicial com o P-B- DEFS. Ele também continha um item que originalmente foi apontado como de grande peso no fator Autoativação/ Concentração, mas já não o foi nessa análise subsequen- te usando a amostra normativa maior. Esse fator tinha, portanto, 21 itens e, mais uma vez, foi rotulado como Gerenciamento de Tempo. Os sete itens de maior peso, novamente em ordem decrescente, foram os seguintes: ■ Parece que eu não consigo finalizar as coisas, a me- nos que tenham um prazo final imediato; ■ Fico desmotivado para me preparar com antecedên- cia para coisas que devo fazer; ■ Procrastino ou adio fazer as coisas até o último mi- nuto; ■ Desperdiço ou administro mal o meu tempo; ■ Tenho dificuldades em fazer aquilo que eu digo a mim mesmo para fazer; ■ Tenho pouca noção de tempo; ■ Tenho dificuldade para me motivar a continuar com o meu trabalho e terminá-lo. Tabela 4.1. Pesos de Fatores Rotacionados para os itens da BDEFS baseados no PCFA com Rotação Varimax (e Promax) Fatores Nome do fator/Itens da escala* 1 2 3 4 5 1 - Organização/Resolução de Problemas 23. Parece que eu não consigo antecipar o futuro tanto ou tão bem quanto os outros 0,415 (0,602)** 24. Parece que eu não consigo me lembrar do que ouvi ou li anteriormente 0,595 (0,656) 25. Tenho dificuldades em organizar meus pensamentos 0,590 (0,739) 26. Quando me apresentam coisas complicadas de se fazer, eu não consigo manter as informações na cabeça para fazer igual ou fazer corretamente 0,659 (0,718) 27. Tenho problemas quando preciso avaliar várias opções para fazer as coisas e ponderar as suas consequências 0,631 (0,747) 28. Tenho dificuldades para dizer o que eu quero dizer 0,606 (0,670) 29. Sou incapaz de apresentar ou inventar tantas soluções para problemas quanto os outros 0,666 (0,740) 30. As palavras parecem me faltar quando quero explicar alguma coisa para os outros 0,665 (0,714) 31. Tenho dificuldade em expressar meus pensamentos por escrito tão bem ou tão rapidamente quanto os outros 0,659 (0,699) 32. Sinto que não sou tão criativo ou inventivo quanto os outros com o mesmo nível de inteligência 0,558 (0,629) 33. Quando tento cumprir metas ou compromissos, não me acho capaz de pensar em tantas maneiras de fazer as coisas como os outros 0,646 (0,729) (continua) 37| 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Fatores Nome do fator/Itens da escala* 1 2 3 4 5 34. Tenho dificuldade em aprender atividades novas e complexas tão bem como os outros 0,687 (0,741) 35. Tenho dificuldades em explicar as coisas na ordem ou sequência apropriada 0,741 (0,785) 36. Não consigo concluir minhas explicações tão rapidamente como os outros 0,634 (0,706) 37. Tenho dificuldades em fazer as coisas na ordem ou sequência apropriada 0,659 (0,756) 38. Sou incapaz de pensar e reagir rapidamente ou de modo tão eficiente quantas outras pessoas quando ocorrem eventos inesperados 0,672 (0,736) 39. Eu sou mais lento do que outros para resolver problemas que encontro no meu dia a dia 0,666 (0,777) 76. Fico facilmente distraído por pensamentos irrelevantes quando eu tenho que me concentrar em algo 0,409 (0,611) 78. Sou incapaz de entender o que leio tão bem quanto eu deveria. Tenho que reler o material para entender seu significado 0,596 (0,661) 79. Não consigo focar minha atenção em tarefas ou no trabalho tão bem quanto os outros 0,520 (0,705) 82. Fico confuso facilmente 0,642 (0,751) 83. Não consigo manter a minha concentração na leitura, em formulários, em palestras ou no trabalho 0,538 (0,684) 89. Acho difícil focar no que é importante diante do que não é importante quando estou fazendo alguma coisa 0,484 (0,705) 90. Parece que eu não consigo processar informações dedas operacionalizações mais bem sucedidas que já vi para representar a frequência de ocorrência de sintomas de disfunção executiva em nosso cotidiano, ul- trapassando as fronteiras do paradigma pioneiro e clás- sico de síndrome disexecutiva após uma lesão cerebral. Representa a avaliação neuropsicológica clínica e fun- cional com o mapeamento da ocorrência de sintomas de desorganização, de dificuldades motivacionais, de inibi- ção/autorregulação e de manejo de tempo em pessoas com diagnósticos neurológicos, mas também fortemen- te com quadros psiquiátricos ou com disfunção em seu cotidiano e queixas executivas. No Brasil, essa será a primeira escala de frequência de sintomas de disfunção executiva para adultos, com su- bescores para cinco subdomínios (gerenciamento de tempo, organização/resolução de problemas, autocon- trole, motivação e regulação emocional), escore total e índice TDAH. Assim, as funções executivas como se apresentam no cotidiano poderão ser mapeadas de for- ma rápida (versão longa, entre 15 e 20 minutos, e curta, de 4 a 5 minutos) e econômica, tanto para demandas clí- nicas, quanto de pesquisa e organizacionais. Na degustação deste manual, oferecem-se 11 capítulos, desde um percurso teórico, histórico e epistemológico de funções executivas, aos fatores de correlação e com- paração muito ligados ao cotidiano do funcionamento executivo nunca antes vistos juntos em um mesmo ins- trumento de funções executivas, até uma revisitação às inúmeras aplicabilidades clínicas da Escala BDEFS. O impacto de variáveis culturais permeia todo o manual, com grande destaque para este ponto forte subjacente à clínica neuropsicológica no Brasil. Os capítulos 9 e 10, mais especificamente, trazem estudos psicométricos e de normatização brasileiros, com amostra final de 1.295 adultos de 18 a 70 anos, com no mínimo Ensino Médio de escolarização formal. A base dessa escala é teórica e metodologicamente mui- to sólida. Ressalto dois pontos do manual, quanto aos estudos originais: (1) a BDEFS vem cobrir uma impor- tante lacuna de avaliação de funções executivas apenas por meio de testes de desempenho, em múltiplos dos seus domínios – no manual relatam-se pesquisas com baixíssima ou ausente correlação entre escores de testes de desempenho e escalas de avaliação funcional e clínica como essa; (2) desmitificação da possibilidade de um es- core pré-mórbido avaliado após um quadro neurológico ou um episódio psiquiátrico: para tanto, é necessário ter instruções com familiares referentes ao tempo pré-qua- dro de base e pós-quadro de base para fins comparativos. Ainda, com respeito ao grande rigor dos estudos con- duzidos por Leandro Malloy-Diniz, Victor Polignano e Paulo Mattos, a versão retrotraduzida foi conferida pelo próprio Barkley, contando ainda com aplicação- -piloto em amostra bilíngue, com estudo de correlação entre escores das duas versões aplicadas. Sabe-se que esses procedimentos em conjunto são raros nos pro- 3| Prefácio à Edição Brasileira | cessos de adaptação de instrumentos de avaliação neu- ropsicológica. Os estudos brasileiros apresentaram evi- dências sólidas de confiabilidade (consistência interna - intercorrelações subescalas e índice de sintomas de TDAH, análise fatorial exploratória e confirmatória) e de validade critério (discriminação entre grupos com e sem sintomas psiquiátricos), divergente (pouca ou au- sente relação entre inteligência fluida e funções execu- tivas pela BDEFS) e convergente (índices elevados de relação com medidas de escalas de impulsividade, de rastreio de sintomas psiquiátricos e de TDAH, respec- tivamente, BIS-11, SRQ-20 e ASRS-18). Os autores da adaptação brasileira conduziram ainda estudos com a teoria de resposta ao item (TRI), reforçando o grande cuidado metodológico deste processo. No que tange às normas brasileiras, os autores estuda- ram detalhadamente o impacto de diferentes fatores sociodemográficos, evidenciando papel da idade e da escolaridade (ressaltando-se que no instrumento origi- nal este último fator não foi considerado); em contra- partida, o efeito de fatores sociodemográficos, como região brasileira, sexo e nível socioeconômico foi muito pequeno. Assim, as normas foram norteadas por idade (18 a 70 anos: 18-24, 25-31, 32-38, 39-45, 46-55, 56-70) e escolaridade (ensino médio, superior e pós-graduação completos). Há, ainda, um escore com grande impor- tância clínica neuropsicológica: contagem e percentis do índice de sintomas disexecutivos por idade. Para todos os escores, são apresentados percentis 99, com, ainda, média e desvio-padrão para cálculo de esco- re Z, sob escolha do clínico ou pesquisador. A versão curta, que será muito útil para as demandas de rastreio, reavaliação e avaliação inicial em contextos de avaliação breve, como hospitais e empresas, conta com 20 itens, sendo 4 de cada um dos 5 fatores da escala lon- ga. Oferece escore total e sintomas (índice de sintomas disexecutivos). Para ambas as versões, são considerados sintomas indicativos de déficit executivo todos os itens marcados com ocorrência frequente ou muito frequente. Assim, por exemplo, no índice TDAH da escala longa, dentre seus 11 itens, “tenho tendência a pular parte do trabalho…” e “tenho problemas em completar uma ati- vidade antes de iniciar em uma nova…” correspondem a queixas muito frequentes na clínica neuropsicológica com pacientes com suspeita de TDAH ou com quadros de ansiedade e de disfunção executiva. A disfunção exe- cutiva é cada vez mais conhecida como um fator trans- diagnóstico para as várias psicopatologias. Por fim, saliento que a neuropsicologia brasileira conta- rá com um novo e pioneiro recurso de avaliação clínica complementar à anamnese e ao exame com testes de desempenho de funções executivas. Os resultados des- tes últimos muitas vezes encontram-se dentro ou acima do esperado para nossos pacientes, mesmo que estes te- nham queixas disfuncionais em seu cotidiano familiar, social mais amplo, escolar e/ou laboral, pela proteção de fatores de neuroplasticidade positiva e de reserva cogni- tiva em sua história de vida. A Escala BDEFS contribui- rá, então, de forma indubitável e valiosa para o mapea- mento de domínios executivos na funcionalidade diária de nossos pacientes. Poderá medir desfechos de psico- terapia, de intervenção medicamentosa ou combinada, de intervenção neuropsicológica e de ajustes familiares e organizacionais. Agora podemos caracterizar funções executivas clinicamente em um contínuo de tipicidade (funcionamento eficiente dentro ou acima do esperado) à disfunção executiva em seus diferentes graus de gravi- dade (funções executivas insuficientes para a demanda do caso em avaliação). Parabenizo esses importantes autores por, além das inúmeras contribuições à prática neuropsicológica brasileira com instrumentos e obras didáticas de formação, terem nos presenteado com esta ferramenta única de exame neurocognitivo de funções executivas por relato. Foi uma honra e um ponto forte de minha trajetória acadêmica e clínica poder prefaciar esta obra! Rochele Paz Fonseca Psicóloga e Fonoaudióloga. Especialista em Neuropsico- logia (CFFa). Mestre em Psicologia do Desenvolvimen- to (UFRGS). Doutora em Psicologia (Neuropsicologia), UFRGS / Université de Montréal. Pós-Doutoramento em Neurociências e Psicologia Clínica (PUC-Rio), Neuror- radiologia (UFRJ) e Ciências Biomédicas (Université de Montréal). Professora Adjunta do Curso de Psicologia, Escola de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Gra- duação em Psicologia (Cognição Humana), PUCRS. Coordenadora do Grupo Neuropsicologia Clínica e Experimental (GNCE), PUCRS. Membro do Conselho Técnico-Científico da Rede Ciência para a Educação (CpE) e da Brazilian Neuropsychology Network. Pesqui- sadora produtividade 1D do CNPq. Editora (Brasil) da Revista Neuropsicologia Latinoamericana. Coordena- dora do Comitê de Linguagem Oral e Escrita da infância e adolescência da Sociedade Brasileiramodo tão rápido ou preciso quanto os outros 0,689 (0,780) 2 - Gerenciamento de Tempo 1. Procrastino ou adio fazer as coisas até o último minuto 0,676 (0,691) 2. Tenho pouca noção de tempo 0,653 (0,691) 3. Desperdiço ou administro mal o meu tempo 0,664 (0,710) 4. Sou despreparado para trabalhos ou tarefas a mim atribuída 0,632 (0,700) (continua) 38 | 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Fatores Nome do fator/Itens da escala* 1 2 3 4 5 5. Não cumpro os prazos das tarefas 0,516 (0,637) 6. Tenho problemas para planejar com antecedência ou para me preparar para eventos futuros 0,622 (0,715) 7. Esqueço-me de fazer coisas que deveria fazer 0,562 (0,650) 8. Parece que eu não consigo cumprir as metas que estabeleço para mim mesmo 0,619 (0,718) 9. Atraso-me para o trabalho ou compromissos agendados 0,577 (0,622) 10. Parece que eu não consigo manter em mente coisas das quais preciso lembrar-me de fazer 0,523 (0,653) 11. Parece que eu não consigo finalizar as coisas, a menos que tenham um prazo final imediato 0,693 (0,762) 12. Tenho dificuldade em julgar quanto tempo irei gastar para fazer algo ou para ir a algum lugar 0,580 (0,682) 13. Tenho dificuldades em me motivar para começar o trabalho 0,622 (0,711) 14. Tenho dificuldade para me motivar a continuar com o meu trabalho e terminá-lo 0,658 (0,770) 15. Fico desmotivado para me preparar com antecedência para coisas que devo fazer 0,681 (0,781) 16. Tenho problemas em completar uma atividade antes de iniciar em uma nova 0,562 (0,660) 17. Tenho dificuldades em fazer aquilo que eu digo a mim mesmo para fazer 0,665 (0,770) 18. Tenho dificuldades em cumprir as promessas ou compromissos que eu possa ter assumido com outras pessoas 0,477 (0,630) 19. Tenho falta de autodisciplina 0,582 (0,703) 20. Tenho dificuldades em me organizar ou em fazer meu trabalho de acordo com sua prioridade ou importância; não consigo “priorizar” bem 0,597 (0,749) 80. Acho difícil começar ou continuar a fazer coisas que preciso terminar 0,455 (0,647) (continua) 39| 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Fatores Nome do fator/Itens da escala* 1 2 3 4 5 3 - Autocontrole (Inibição) 40. Acho difícil tolerar esperas; impaciente 0,452 (0,592) 41. Tomo decisões impulsivamente 0,580 (0,659) 42. Sou incapaz de inibir minhas reações ou respostas a situações ou aos outros 0,584 (0,690) 43. Tenho dificuldade em parar minhas atividades ou comportamento quando deveria 0,544 (0,696) 44. Tenho dificuldade em mudar meu comportamento quando me falam sobre os meus erros 0,522 (0,663) 45. Faço comentários impulsivos para os outros 0,625 (0,693) 46. Sou propenso a fazer coisas sem considerar as consequências 0,624 (0,740) 47. Mudo meus planos no último minuto por um capricho ou impulso de último minuto 0,482 (0,563) 48. Não levo em consideração fatos relevantes do passado ou experiências passadas antes de responder às situações (Eu ajo sem pensar) 0,587 (0,735) 49. Não tenho consciência das coisas que eu falo ou faço 0,473 (0,641) 50. Tenho dificuldade em ser objetivo com as coisas que mexem comigo 0,455 (0,609) 51. Acho difícil assumir as perspectivas de outras pessoas sobre um problema ou uma situação 0,523 (0,637) 54. Não penso nem falo as coisas comigo mesmo antes de fazer algo 0,579 (0,719) 55. Tenho dificuldade para seguir as regras em uma situação 0,539 (0,677) 56. Tenho tendência a dirigir mais rápido que outros (velocidade excessiva) 0,481 (0,513) 57. Não tolero muito bem situações frustrantes 0,500 (0,618) 58. Não consigo inibir minhas emoções tão bem quanto os outros 0,500 (0,672) (continua) 40 | 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Fatores Nome do fator/Itens da escala* 1 2 3 4 5 60. Não olho para frente e não penso sobre quais serão os resultados futuros antes de fazer alguma coisa (Não faço previsões) 0,522 (0,698) 61. Eu me envolvo em atividades de risco mais do que os outros estão propensos a fazer 0,505 (0,580) 4 - Regulação Emocional 52. Fico com raiva ou chateado rapidamente 0,516 (0,654) 53. Tenho reações emocionais exageradas 0,565 (0,707) 59. Fico empolgado com facilidade 0,458 (0,610) 91. Sou incapaz de inibir demonstrações emocionais negativas ou positivas 0,482 (0,657) 92. Tenho dificuldade em me acalmar uma vez que estou emocionalmente descontrolado 0,725 (0,825) 93. Parece que não consigo retomar o controle emocional e ficar mais racional depois que estou emocionalmente afetado 0,732 (0,828) 94. Parece que não consigo me distrair ou afastar do que está me perturbando emocionalmente, para ajudar a me acalmar. Não consigo redirecionar minha mente para coisas mais positivas 0,732 (0,847) 95. Sou incapaz de controlar as minhas emoções para atingir as minhas metas com sucesso ou me dar bem com os outros 0,642 (0,786) 96. Permaneço emotivo ou chateado por mais tempo que os outros 0,758 (0,829) 97. Acho difícil me afastar de encontros emocionalmente desgastantes com outros ou sair de situações nas quais fiquei muito afetado emocionalmente 0,711 (0,794) 98. Eu não consigo redirecionar minhas emoções para formas ou soluções mais positivas quando fico chateado 0,699 (0,826) 99. Eu não sou capaz de avaliar de forma mais objetiva uma situação emocionalmente perturbadora 0,684 (0,831) 100. Não consigo ver o lado positivo de fatos negativos quando sinto emoções fortes 0,656 (0,800) (continua) 41| 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Fatores Nome do fator/Itens da escala* 1 2 3 4 5 5 - Motivação 62. Tenho tendência a pular partes do trabalho e não faço tudo o que devo fazer 0,556 (0,632) 63. Sou propenso a abandonar um trabalho mais cedo se ele é chato ou se tenho outras coisas para fazer 0,569 (0,588) 64. Não me esforço tanto no meu trabalho como eu deveria ou tanto quanto os outros são capazes 0,642 (0,689) 65. Os outros me dizem que sou preguiçoso ou desmotivado 0,641 (0,730) 66. Tenho que depender de outros para me ajudar a terminar meu trabalho 0,608 (0,681) 67. As coisas devem ter uma recompensa imediata para mim ou não consigo terminá-las 0,555 (0,673) 68. Tenho dificuldades de resistir em fazer algo divertido ou mais interessante quando deveria estar trabalhando 0,587 (0,648) 69. O meu desempenho no trabalho não tem consistência na quantidade e na qualidade 0,658 (0,759) 70. Sou incapaz de trabalhar tão bem quanto os outros sem supervisão ou instruções frequentes 0,631 (0,742) 71. Eu não tenho a força de vontade ou determinação que os outros parecem ter 0,596 (0,723) 72. Eu não sou capaz de trabalhar em busca de recompensas em longo prazo ou postergadas assim como outros 0,612 (0,751) 73. Eu não consigo resistir em fazer coisas que levam a ganhos imediatos, mesmo quando elas não são boas para mim em longo prazo 0,535 (0,679) Nota. * O número em frente a cada item reflete a ordem em que o item apareceu na escala segundo foi dado à amostra normativa. ** O peso de fatores determinados por rotação promax estão entre parênteses. O fator 3 representou 4,2% da variância antes da rota- ção; incluiu 18 itens do fator Autocontrole (Inibição) do P-BDEFS e um outro item que foi reformulado na BDEFS para maior clareza. Assim, 19 dos eventuais 20 itens que tiveram mais peso nesse fator foram trazi- dos do P-BDEFS. Havia quatro itens que tratavam de emoções impulsivas no P-BDEFS que também pesa- vam nesse fator na análise dessa escala. Mas três desses quatro itens migraram para o novo fator de Regulação Emocional na análise da amostra normativa. O moti- vo dessa mudança no peso dos fatores é, obviamente, o resultado de ter adicionado novos itens a esta ver- são da BDEFS que tratou de inibição e autorregulação emocional, de modo que uma nova dimensão que re- presenta esse construto de FE agora teve a oportuni-dade de surgir. Os sete itens de maior peso no fator reestruturado de Autocontrole, em ordem decrescente, foram estes: ■ Faço comentários impulsivos para os outros; ■ Sou propenso a fazer coisas sem considerar as con- sequências; 42 | 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | ■ Não levo em consideração fatos relevantes do pas- sado ou experiências passadas antes de responder às situações (Eu ajo sem pensar); ■ Sou incapaz de inibir minhas reações ou respostas a situações ou aos outros; ■ Tomo decisões impulsivamente; ■ Não penso nem falo as coisas comigo mesmo antes de fazer algo; ■ Tenho dificuldade em parar minhas atividades ou comportamento quando deveria. O Fator 4, rotulado de Regulação Emocional, continha 13 itens e representava 2,9% da variância antes da rota- ção. Este fator foi o novo que surgiu como resultado da adição de itens que tratam do autocontrole emocional e que não faziam parte do P-BDEFS, conforme discuti- do no Capítulo 2. Como resultado desses novos itens e do fator que eles formaram, poucos itens que tratavam de emoção impulsiva no P-BDEFS e pesaram no fator de Autocontrole (Inibição) em nossa pesquisa inicial sofreram alterações, atingindo pesos mais altos nesse novo fator. No entanto, mesmo aqueles sintomas (“Rea- jo emocionalmente de forma exagerada”, “Fico bravo ou chateado muito facilmente”, “Me empolgo facilmente”) continuaram a ter o segundo peso mais alto no fator de Autocontrole, e estes foram apenas um pouco menores do que os seus pesos no novo fator de Regulação Emo- cional. Essas descobertas se encaixam ao modelo do au- tocontrole emocional de Gross (discutido no Capítulo 2), segundo o qual existe uma estrutura em dois está- gios: inibição de emoções fortes, seguida de esforços de autorregulação do estado emocional. Os sete itens mais importantes no fator de Regulação Emocional, em or- dem decrescente, foram os seguintes: ■ Permaneço emotivo ou chateado por mais tempo que os outros; ■ Parece que não consigo retomar o controle emocio- nal e ficar mais racional depois que eu estou emocio- nalmente afetado; ■ Parece que não consigo me distrair ou afastar do que está me perturbando emocionalmente, para ajudar a me acalmar. Não consigo redirecionar minha mente coisas mais positivas; ■ Tenho dificuldade em me acalmar uma vez que estou emocionalmente descontrolado; ■ Acho difícil me afastar de encontros emocionalmen- te desgastantes com outros ou sair de situações nas quais fiquei muito afetado emocionalmente; ■ Eu não consigo redirecionar minhas emoções para formas ou soluções mais positivas quando fico cha- teado; ■ Eu não sou capaz de avaliar de forma mais objetiva uma situação emocionalmente perturbadora. Por fim, o Fator 5 replicou o fator de Motivação encon- trado no trabalho inicial com o P-BDEFS (ver Capítulo 2). O fator continha 12 itens; 10 deles foram trazidos do P-BDEFS, e o restante migrou do fator de Autoativação/ Concentração do P-BDEFS nesta análise. Esse fator re- presentou 2,5% da variância antes da rotação. Os sete itens de maior peso, em ordem decrescente, foram estes: ■ O meu desempenho no trabalho não tem consistên- cia na quantidade e na qualidade; ■ Não me esforço tanto no meu trabalho como eu de- veria ou tanto quanto os outros são capazes; ■ Os outros me dizem que sou preguiçoso ou desmo- tivado; ■ Sou incapaz de trabalhar tão bem quanto os outros sem supervisão ou instruções frequentes; ■ Eu não sou capaz de trabalhar em busca de recom- pensas em longo prazo ou postergadas assim como os outros; ■ Tenho que depender de outros para me ajudar a ter- minar meu trabalho; ■ Eu não tenho a força de vontade ou determinação que os outros parecem ter. Após a rotação varimax (com a normatização Kaiser), as porcentagens de variância contabilizadas pelos fatores, na ordem decrescente de variância explicada, foram as seguintes: ■ Organização/Resolução de Problemas (Fator 1) = 13,6% ■ Gerenciamento de Tempo (Fator 2) = 11,1% ■ Autocontrole (Fator 3) = 9,2% ■ Regulação Emocional (Fator 4) = 8,9% ■ Motivação (Fator 5) = 8,0% 43| 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | As variâncias contabilizadas antes e depois da rotação, como mostrado aqui, são um tanto discrepantes da estrutura e variações dos fatores explicados no estudo anterior do P-BDEFS (ver Capítulo 2). Nesse estudo, o fator Gerenciamento de Tempo demonstrou a maior variação antes e depois da rotação, e identificou-se um fator mais robusto de Autoativação/Concentração. Es- sas diferenças provavelmente surgiram do fato de que o estudo anterior foi conduzido em grandes amostras de adultos com TDAH e adultos com outros distúrbios clínicos que pensavam que poderiam ter TDAH, mas não foram posteriormente diagnosticados com o trans- torno. Esses grupos representaram mais de 65% dos participantes naquele estudo e, portanto, não seriam re- presentativos da população em geral e das dificuldades que os membros dessa população podem ter em FE nas atividades cotidianas. Embora a estrutura de fatores na- quele estudo tenha sido em grande parte a mesma que a encontrada aqui para uma amostra da população em geral, a escala de fatores de Autoativação/Concentração não mostrou tanta evidência ou robustez nesta análise quanto no estudo anterior. Tudo isso sugere que os pro- blemas de Gerenciamento de Tempo e Autoativação/ Concentração podem ser muito mais proeminentes em adultos com TDAH ou mais intimamente ligados à va- riação nos sintomas de TDAH do que em uma amostra da população geral de adultos, conforme relatado aqui. Talvez o TDAH tenha um efeito muito mais prejudicial sobre estes aspectos das FE e, portanto, a variância que encontramos associada a esses fatores de FE foi maior na análise do P-BDEFS do que na presente análise. Isso certamente seria consistente com a informação que su- gere que o TDAH está mais associado ao mal desenvol- vimento e à disfunção do lobo pré-frontal direito e com déficits de autoconsciência ao longo do tempo, memó- ria de trabalho não verbal e tarefas inibitórias (todos os quais são mais propensos a serem localizados à direita da região pré-frontal). Construção da escala Os itens da Tabela 4.1 foram usados para criar as subes- calas para a BDEFS publicado aqui. A maioria dos itens foi mantida em sua sequência original na escala, exa- tamente como eles foram apresentados à amostra nor- mativa durante a pesquisa. Nós fizemos isso porque a ordem dos itens pode influenciar o endosso de sintomas pelos respondentes (Mitchell, Knouse, Nelson-Gray, & Kwapil, 2009) e, portanto, os itens precisam permane- cer tão iguais à sua sequência original no processo de normatização quanto possível, de modo a não reduzir a aplicabilidade das normas para a escala final. Mas alguns itens tiveram que ser movidos de seus locais na sequên- cia original porque os resultados do PCFA mostraram que eles deveriam ser atrelados a um tipo de fator dife- rente do que aquele que originalmente se pensava. Para facilitar a pontuação da BDEFS, os itens foram reorgani- zados em suas posições para que todos os itens perten- centes a um único fator estivessem localizados na mes- ma seção da escala. Essa sequência foi em grande parte a apresentada à amostra normativa. Como os itens de Ge- renciamento de Tempo apareceram primeiro nessa se- quência, eles foram mantidos naquela ordem, seguidos pelos itens de Organização/Resolução de Problemas, depois os itens de Autocontrole, seguidos pelos itens de Motivação, e concluindo com a seção contendo os itens para Regulação Emocional. Portanto, cinco seções de subescalas existem atualmente na BDEFS. Isso torna a tarefa de contar a pontuação da escala mais fácil, pois o examinador pode simplesmente somar as pontuações para os itens em cada seção (subescala) para calcular a pontuação de cada subescala. Essas pontuações totais de subescala podem então ser somadas paracalcular a Pontuação Total de FE (consulte o Capítulo 8 para obter instruções detalhadas sobre cálculo da pontuação). Os 89 itens finais que foram utilizados para criar a Ver- são Longa da BDEFS (Long Form – BDEFS-LF) foram então reenviados para PCFA com rotação varimax, o que culminou nos mesmos cinco fatores e nas mesmas atribuições de itens para fatores que na análise original. Os cinco fatores somaram 53,2% da variância. As per- centagens detalhadas de variação para esses fatores após a rotação foram as seguintes: ■ Organização/Resolução de Problemas (Fator 1) = 13,9% ■ Gerenciamento de Tempo (Fator 2) = 12% ■ Autocontrole (Fator 3) = 10,2% ■ Regulação Emocional (Fator 4) = 9% ■ Motivação (Fator 5) = 8,1% Criação do Índice TDAH-FE (TDAH-FE Index) Nossa pesquisa anterior usando o P-BDEFS indicou que o TDAH em adultos está associado a danos significati- vos das FE nas atividades do cotidiano na maioria dos adultos com o transtorno (Barkley & Murphy, 2011). O banco de dados desse estudo de pesquisa anterior foi, portanto, utilizado aqui para identificar esses itens do P-BDEFS que eram mais propícios a identificar os adul- 44 | 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | tos clinicamente diagnosticados com TDAH, em rela- ção ao grupo de controle comunitário. Os resultados de uma regressão logística binária mostraram que apenas cinco itens eram necessários para classificar esses dois grupos com 98,1% de precisão geral (99,1% dos casos com TDAH e 96,9% dos casos comunitários). A mesma forma de análise foi então usada para comparar o grupo com TDAH com o grupo controle clínico naquele es- tudo, consistindo em pessoas que achavam que tinham TDAH, mas posteriormente descobriram não se encai- xar nos critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, quarta edição (DSM- IV, Ameri- can Psychiatric Association, 2000). Desta vez, sete itens descriminaram melhor os grupos, com uma precisão de 82,9% para o grupo com TDAH, mas de apenas 56% para o grupo clínico e uma taxa de classificação geral de 72,3%. Isso significa que discriminar os pacientes com TDAH de outros pacientes clínicos com outros distúr- bios não é tão facilmente feito com os itens da escala de avaliação isoladamente. Um dos itens desses sete também foi encontrado na análise inicial acima, com- parando o TDAH e os grupos comunitários. Esses dois conjuntos de itens foram combinados para criar um bre- ve índice baseado nesses 11 itens mais discriminatórios para a classificação de adultos com TDAH. Esses itens foram os seguintes: ■ Procrastino ou adio fazer as coisas até o último minuto; ■ Tenho problemas para planejar com antecedência ou para me preparar para eventos futuros; ■ Tenho dificuldade para me motivar a continuar com o meu trabalho e terminá-lo; ■ Tenho problemas em completar uma atividade antes de iniciar em uma nova; ■ Tenho dificuldades em organizar meus pensamentos ■ Tenho dificuldade em parar minhas atividades ou comportamento quando deveria; ■ Tenho dificuldade em mudar meu comportamento quando me falam sobre meus erros; ■ Não tenho consciência das coisas que eu falo ou ouço; ■ Tenho tendência a dirigir mais rápido que os outros (velocidade excessiva); ■ Tenho tendência a pular partes do trabalho e não faço tudo o que devo fazer; ■ Tenho que depender de outros para me ajudar a fa- zer a meu trabalho. Esses 11 itens, portanto, constituem o Índice TDAH-FE, que pode sugerir a um examinador que aquele respon- dente pode estar em risco de ter TDAH-adulto e pode precisar ser avaliado mais profundamente. Os itens do Índice são indicados no formulário BDEFS-LF, por cai- xas sombreadas em seus números de item. Criação da Versão Curta da BDEFS (Short Form) Pode haver situações em que um examinador ou res- pondente não tenha tempo para completar a BDEFS-LF de 89 itens. Nesses casos, fazer uma triagem rápida para avaliar a possibilidade de déficits em FE no cotidiano pode ser desejável. A BDEFS – Versão Curta (Short Form – BDEFS-SF) foi criado para atender a esse propó- sito. Ele é composto pelos quatro itens de maior peso de cada uma das cinco subescalas e, portanto, fornece um criador de FE de 20 itens. Tanto o formulário de autor- relato quanto o heterorrelato sobre uma pessoa são for- necidos nas duas versões, BDEFS-LF e BDEFS-SF. Todos esses formulários podem ser encontrados no Apêndice. Uma folha de pontuação separada foi criada apenas para a BDEFS-SF, diferente daquelas usadas para preencher a BDEFS-LF. Informações sobre a confiabilidade e a vali- dade da BDEFS-LF e da BDEFS-SF são fornecidas em capítulos posteriores. Frequência de respostas dos itens É clinicamente e cientificamente informativo examinar a porcentagem de entrevistados na amostra normativa que endossou cada uma das respostas do item. Essa informa- ção pode sugerir o quão comum ou incomum podem ser os sintomas de déficits de FE nas atividades da vida coti- diana. Os neuropsicólogos, por exemplo, podem querer conhecer a proporção da população que endossa deter- minados tipos de sintomas de FE em várias estimativas de frequência relativa. A informação também pode ser- vir para determinar qual a frequência de ocorrência para cada item que pode ser usada para indicar que tal item em tal nível de frequência pode ser julgado como um sintoma de um déficit real, em vez de uma ocorrência co- mum à população. Por exemplo, se a grande maioria dos adultos responde a um item com “nunca ou raramente” ou “às vezes”, então as respostas de “frequentemente” ou “muito frequentemente” podem ser consideradas como indicativo de sintomas de um déficit de FE. Um “sintoma”, neste caso, seria definido como uma queixa comportamental ocorrendo em uma frequência 45| 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | que é relativamente pouco apontada pela população e, então, pode ser um indicativo de transtorno. Se é uma suposição verdadeira ou não, é claro, é uma questão de validade para ser testada em relação a outras formas de informação. Para se obter alguma ideia sobre a frequên- cia com que os adultos típicos endossam os itens sobre problemas de FE na vida cotidiana e em que frequência de ocorrência (nunca ou raramente, às vezes, frequente- mente, muito frequentemente), a porcentagem de adul- tos na amostra normativa que endossou cada uma das possíveis respostas a cada item foi computada. Os resul- tados aparecem na Tabela 4.2. O que esta tabela mostra claramente é que, para a grande maioria dos itens, com poucas exceções, a maior parte dessa amostra de popu- lação geral respondeu à maioria dos itens com frequên- cia de “nunca ou raramente” ou “às vezes”. As respostas de “frequentemente” e, especialmente, “muito frequen- temente” pareceram ocorrer em menos de 1-10% da po- pulação na maioria dos casos (embora claramente havia algumas exceções). Mas se alguém estivesse querendo identificar um sintoma de FE, não parece desproposi- tado usar uma resposta de “frequentemente” ou “muito frequentemente” para indicar a possibilidade de um sin- toma real. O examinador, portanto, não deve apenas se concentrar em contabilizar a BDEFS por simples soma de itens, mas deve inspecionar a escala de itens em cada subescala que foi preenchida com respostas de 3 (fre- quentemente) ou 4 (muito frequentemente). Isso pode fornecer outra perspectiva sobre quão sintomático um respondente pode se sentir em cada componente de FE avaliado por cada subescala. O próximo capítulo descreve a relação das pontuações da BDEFS com diversos fatores demográficos e outros na amostra normativa. Esses pontos referem-se à ques- tão da melhor forma de apresentar as normas fornecidas neste manual para avaliar a BDEFS-LF e a BDEFS-SF. Tabela 4.2. Porcentagem da Amostra Normativa que endossou cada resposta possível a cada item na BDEFS Raramente ou nunca Às vezes Frequentemente Muito frequentemente Itens de Gerenciamentode Tempo 1. Procrastino ou adio fazer as coisas até o último minuto 21,5 50,0 19,9 8,6 2. Tenho pouca noção de tempo 53,6 36,0 7,9 2,4 3. Desperdiço ou administro mal o meu tempo 27,1 54,9 13,5 4,6 4. Sou despreparado para trabalhos ou tarefas a mim atribuída 70,7 23,2 4,6 1,4 5. Não cumpro os prazos das tarefas 77,7 18,7 2,6 1,0 6. Tenho problemas para planejar com antecedência ou para me preparar para eventos futuros 58,6 35,9 4,2 1,3 7. Esqueço-me de fazer coisas que deveria fazer 38,4 50,4 8,6 2,7 8. Parece que eu não consigo cumprir as metas que estabeleço para mim mesmo 40,3 46,0 10,6 3,0 9. Atraso-me para o trabalho ou compromissos agendados 78,9 16,0 3,6 1,5 10. Parece que eu não consigo manter em mente coisas das quais preciso lembrar-me de fazer 44,1 43,7 9,3 2,9 (continua) 46 | 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Raramente ou nunca Às vezes Frequentemente Muito frequentemente 11. Parece que eu não consigo finalizar as coisas, a menos que tenham um prazo final imediato 46,3 38,8 11,2 3,7 12. Tenho dificuldade em julgar quanto tempo irei gastar para fazer algo ou para ir a algum lugar 55,6 35,2 7,3 1,9 13. Tenho dificuldades em me motivar para começar o trabalho 36,6 45,3 13,0 5,1 14. Tenho dificuldade para me motivar a continuar com o meu trabalho e terminá-lo 51,1 35,4 9,4 4,1 15. Fico desmotivado para me preparar com antecedência para coisas que devo fazer 51,2 38,5 7,8 2,5 16. Tenho problemas em completar uma atividade antes de iniciar em uma nova 43,0 42,8 10,2 4,1 17. Tenho dificuldades em fazer aquilo que eu digo a mim mesmo para fazer 46,8 40,9 9,9 2,3 18. Tenho dificuldades em cumprir as promessas ou compromissos que eu possa ter assumido com outras pessoas 74,2 21,5 3,2 1,0 19. Tenho falta de autodisciplina 46,9 42,1 7,7 3,3 20. Tenho dificuldades em me organizar ou em fazer meu trabalho de acordo com sua prioridade ou importância; não consigo “priorizar” bem 64,6 29,1 5,1 1,2 21. Acho difícil começar ou continuar a fazer coisas que preciso terminar 45,3 41,6 9,4 3,7 Itens de Organização/Resolução de Problemas 22. Parece que eu não consigo antecipar o futuro tanto ou tão bem quanto os outros 59,6 33,7 5,0 1,0 23. Parece que eu não consigo me lembrar do que ouvi ou li anteriormente 41,6 46,8 9,0 2,6 24. Tenho dificuldades em organizar meus pensamentos 55,4 36,7 6,4 1,4 25. Quando me apresentam coisas complicadas de se fazer, eu não consigo manter as informações na cabeça para fazer igual ou fazer corretamente 53,4 38,4 6,8 1,4 (continua) 47| 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Raramente ou nunca Às vezes Frequentemente Muito frequentemente 26. Tenho problemas quando preciso avaliar várias opções para fazer as coisas e ponderar as suas consequências 68,0 26,5 4,1 1,4 27. Tenho dificuldades para dizer o que eu quero dizer 49,6 38,2 9,8 2,4 28. Sou incapaz de apresentar ou inventar tantas soluções para problemas quanto os outros 60,3 33,2 4,9 1,6 29. As palavras parecem me faltar quando quero explicar alguma coisa para os outros 51,5 38,3 7,6 2,6 30. Tenho dificuldade em expressar meus pensamentos por escrito tão bem ou tão rapidamente quanto os outros 58,6 30,4 8,4 2,6 31. Sinto que não sou tão criativo ou inventivo quanto os outros com o mesmo nível de inteligência 52,2 37,3 7,8 2,7 32. Quando tento cumprir metas ou compromissos, não me acho capaz de pensar em tantas maneiras de fazer as coisas como os outros 58,3 34,4 5,6 1,7 33. Tenho dificuldade em aprender atividades novas e complexas tão bem como os outros 57,5 35,3 5,5 1,7 34. Tenho dificuldades em explicar as coisas na ordem ou sequência apropriada 64,3 29,1 4,8 1,8 35. Não consigo concluir minhas explicações tão rapidamente como os outros 53,8 37,3 7,0 1,8 36. Tenho dificuldades em fazer as coisas na ordem ou sequência apropriada 71,5 24,7 2,9 1,0 37. Sou incapaz de pensar e reagir rapidamente ou de modo tão eficiente quantas outras pessoas quando ocorrem eventos inesperados 60,7 30,3 6,6 2,4 38. Eu sou mais lento do que outros para resolver problemas que encontro no meu dia a dia 69,2 24,7 4,3 1,8 39. Fico facilmente distraído por pensamentos irrelevantes quando eu tenho que me concentrar em algo 48,2 41,5 8,0 2,3 (continua) 48 | 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Raramente ou nunca Às vezes Frequentemente Muito frequentemente 40. Sou incapaz de entender o que leio tão bem quanto eu deveria. Tenho que reler o material para entender seu significado 51,1 36,9 9,0 3,0 41. Não consigo focar minha atenção em tarefas ou no trabalho tão bem quanto os outros 69,3 25,3 3,8 1,6 42. Fico confuso facilmente 71,7 23,5 3,3 1,5 43. Não consigo manter a minha concentração na leitura, em formulários, em palestras ou no trabalho 60,0 30,5 7,2 2,2 44. Acho difícil focar no que é importante diante do que não é importante quando estou fazendo alguma coisa 71,8 23,7 3,0 1,5 45. Parece que eu não consigo processar informações de modo tão rápido ou preciso quanto os outros 66,5 28,0 3,4 2,0 Itens de Autocontrole 46. Acho difícil tolerar esperas; impaciente 32,5 43,7 17,5 6,3 47. Tomo decisões impulsivamente 44,4 45,6 8,2 1,8 48. Sou incapaz de inibir minhas reações ou respostas a situações ou aos outros 54,0 37,1 7,4 1,5 49. Tenho dificuldade em parar minhas atividades ou comportamento quando deveria 58,9 33,5 5,4 2,2 50. Tenho dificuldade em mudar meu comportamento quando me falam sobre os meus erros 58,1 35,6 5,0 1,2 51. Faço comentários impulsivos para os outros 50,9 39,7 7,4 2,0 52. Sou propenso a fazer coisas sem considerar as consequências 69,7 25,9 3,4 1,0 53. Mudo meus planos no último minuto por um capricho ou impulso de último minuto 57,5 36,2 4,7 1,6 54. Não levo em consideração fatos relevantes do passado ou experiências passadas antes de responder às situações (Eu ajo sem pensar) 68,0 28,4 2,4 1,2 55. Não tenho consciência das coisas que eu falo ou faço 76,0 20,6 2,4 1,0 (continua) 49| 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Raramente ou nunca Às vezes Frequentemente Muito frequentemente 56. Tenho dificuldade em ser objetivo com as coisas que mexem comigo 54,1 38,5 6,5 0,9 57. Acho difícil assumir as perspectivas de outras pessoas sobre um problema ou uma situação 56,5 37,3 5,1 1,0 58. Não penso nem falo as coisas comigo mesmo antes de fazer algo 63,3 31,3 4,5 0,9 59. Tenho dificuldade para seguir as regras em uma situação 74,9 21,5 2,9 0,6 60. Tenho tendência a dirigir mais rápido que os outros (velocidade excessiva) 70,0 22,4 5,5 2,1 61. Não tolero muito bem situações frustrantes 39,1 44,2 13,1 3,7 62. Não consigo inibir minhas emoções tão bem quanto os outros 59,6 31,8 7,0 1,6 63. Não olho para frente e não penso sobre quais serão os resultados futuros antes de fazer alguma coisa (Não faço previsões) 69,9 25,1 3,6 1,4 64. Eu me envolvo em atividades de risco mais do que os outros estão propensos a fazer 74,1 21,1 3,6 1,3 Itens de Motivação 65. Tenho tendência a pular partes do trabalho e não faço tudo o que devo fazer 70,3 25,3 3,4 1,0 66. Sou propenso a abandonar um trabalho mais cedo se ele é chato ou se tenho outras coisas para fazer 78,9 17,4 2,9 0,8 67. Não me esforço tanto no meu trabalho como eu deveria ou tanto quanto os outros são capazes 77,6 18,4 3,3 0,7 68. Os outros me dizem que sou preguiçoso ou desmotivado 86,9 9,9 2,2 1,0 69. Tenho que depender de outros para me ajudar a terminar meu trabalho 84,7 12,8 1,4 1,0 70. As coisas devem ter uma recompensa imediata para mim ou não consigo terminá-las 73,7 23,1 2,3 0,9 (continua) 50 | 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Raramente ou nunca Às vezes Frequentemente Muito frequentemente 71. Tenho dificuldadesde resistir em fazer algo divertido ou mais interessante quando deveria estar trabalhando 64,5 28,8 4,6 2,1 72. O meu desempenho no trabalho não tem consistência na quantidade e na qualidade 80,9 16,0 2,2 0,9 73. Sou incapaz de trabalhar tão bem quanto os outros sem supervisão ou instruções frequentes 89,2 7,7 2,2 0,9 74. Eu não tenho a força de vontade ou determinação que os outros parecem ter 72,8 21,5 3,8 1,9 75. Eu não sou capaz de trabalhar em busca de recompensas em longo prazo ou postergadas assim como outros 76,6 18,3 3,4 1,7 76. Eu não consigo resistir em fazer coisas que levam a ganhos imediatos, mesmo quando elas não são boas para mim em longo prazo 70,5 24,7 3,4 1,4 Itens de Regulação Emocional 77. Fico com raiva ou chateado rapidamente 48,8 38,8 9,4 3,0 78. Tenho reações emocionais exageradas 49,0 40,4 8,6 2,0 79. Fico empolgado com facilidade 53,5 37,0 7,5 2,0 80. Sou incapaz de inibir demonstrações emocionais negativas ou positivas 57,2 34,9 5,9 2,0 81. Tenho dificuldade em me acalmar uma vez que estou emocionalmente descontrolado 54,9 34,7 7,5 2,9 82. Parece que não consigo retomar o controle emocional e ficar mais racional depois que eu estou emocionalmente afetado 70,1 23,4 4,4 2,2 83. Parece que não consigo me distrair ou afastar do que está me perturbando emocionalmente, para ajudar a me acalmar. Não consigo redirecionar minha mente para coisas mais positivas 60,8 30,2 6,7 2,2 84. Sou incapaz de controlar as minhas emoções para atingir as minhas metas com sucesso ou me dar bem com os outros 77,4 17,9 3,3 1,4 (continua) 51| 4. Análise Fatorial, Construção da Escala e Frequência de Itens | Raramente ou nunca Às vezes Frequentemente Muito frequentemente 85. Permaneço emotivo ou chateado por mais tempo que os outros 66,4 25,4 6,0 2,2 86. Acho difícil me afastar de encontros emocionalmente desgastantes com outros ou sair de situações nas quais fiquei muito afetado emocionalmente 67,1 26,2 4,6 2,2 87. Eu não consigo redirecionar minhas emoções para formas ou soluções mais positivas quando fico chateado 64,1 28,9 5,1 1,8 88. Eu não sou capaz de avaliar de forma mais objetiva uma situação emocionalmente perturbadora 66,5 28,3 4,0 1,2 89. Não consigo ver o lado positivo de fatos negativos quando sinto emoções fortes 59,7 32,7 5,6 2,0 Nota. Os itens foram organizados na ordem em que eles aparecem na escala final. 52 | 5. Relação Entre as Pontuações da BDEFS e Fatores Demográficos na Amostra | 5. Relação Entre as Pontuações da BDEFS e Fatores Demográficos na Amostra Normativa Americana Este capítulo descreve a relação de vários fatores demo- gráficos com as pontuações da subescala BDEFS e do Escore Total de FE para toda a amostra de 1.249 adul- tos. (Todas as referências à BDEFS são considerando a BDEFS-LF, exceto na discussão das folhas de resultados BDEFS-LF e BDEFS-SF, no final do capítulo.) Idade A idade não se correlacionou significativamente com a subescala Organização/Resolução de Problemas (r = 0,019, p = NS). Mas observou-se que a idade se correla- cionou em uma magnitude pequena, mas significativa, com as cinco pontuações de BDEFS restantes: Gerencia- mento de Tempo (r = -0,13, pOutra explicação razoável pode ser que esse declínio re- flete a sobrevivência maior daqueles com menos déficits de FE em relação aos indivíduos com maiores déficits, que podem ter uma expectativa de vida mais curta. Pesquisas anteriores mostraram que os déficits de FE estão rela- cionados a déficits em várias atividades importantes da vida (Barkley & Fischer, 2011; Barkley & Murphy, 2010). Além disso, as FE podem estar relacionadas ao traço da personalidade conscienciosidade, de modo que os défi- 54 | 5. Relação Entre as Pontuações da BDEFS e Fatores Demográficos na Amostra | cits em FE estariam associados a níveis mais baixos dessa característica da personalidade. Pesquisas têm mostrado que os indivíduos que se enquadram no menor quartil de conscienciosidade têm uma expectativa de vida em média 7 anos mais curta do que aqueles com níveis altos dessa característica (Friedman et al., 1995). Isso também pode ser o caso para pessoas com TDAH, devido aos crescentes riscos para a saúde (por exemplo, tabagismo, alcoolismo, uso e abuso de drogas, risco de lesões acidentais e risco de doença cardíaca coronária) documentados até a presente data em relação a esse transtorno (Barkley et al., 2008). Como já observado, o TDAH está intimamente associado a déficits em FE em atividades cotidianas. Por conseguin- te, não é meramente conjectural que os indivíduos com maiores problemas de FE são mais propensos a ter uma expectativa de vida mais curta e, portanto, não é tão fácil estarem representados em pesquisas populacionais com adultos mais velhos. As comparações em pares indicaram que, onde os gru- pos etários diferiam, isso ocorria principalmente com os jovens de 18 a 29 anos diferindo do restante dos gru- pos etários. Em algumas escalas, o de 80+ anos de idade também começou a diferir significativamente dos outros grupos, já que um aumento nos problemas de FE parece estar ocorrendo nessa idade. Uma inspeção de todos os resultados para a idade, juntamente com as distribui- ções das pontuações em cada escala, indicou que quatro grandes grupos de idade poderiam ser criados a partir dos sete iniciais discutidos acima. Esses agrupamentos pareciam ser sensíveis, dadas as mudanças nas FE que podem ocorrer com a idade. No entanto, eles permiti- ram a criação de tamanhos de amostra relativamente iguais e substanciais dentro de cada grupo etário, para maximizar a representatividade das normas para cada faixa etária. Apenas 31 participantes tinham 82 anos ou mais. Dado que esse grupo etário mais velho pareceu demonstrar um aumento em alguns tipos de problemas de FE, descartamos esses participantes de uma conside- ração mais aprofundada. De qualquer forma, esse grupo era muito pequeno para fornecer normas adequadas da população dos EUA nessa faixa etária (82+). Assim, a in- formação normativa da BDEFS nas folhas de pontuação no Apêndice é apropriada para pessoas com idade entre 18 e 81 anos. Os quatro grupos de idade finais foram 18-34, 35-49, 50-64 e 65-81 anos. Estes renderam tama- nhos de amostra por faixa etária de 305, 316, 322 e 275, respectivamente, para uma amostra total de 1.218. Os resultados para as comparações entre os grupos etários são apresentados na Tabela 5.1. Tabela 5.1. Resultados da BDEFS para cada um dos grupos etários Grupos etários (1) 18-34 (2) 35-49 (3) 50-64 (4) 65-81 Pontuação Média DP Média DP Média DP Média DP F p Contrastes Organização/Res. de Problemas 36,7 12,3 34,7 12,6 36,6 12,2 36,1 9,6 1,84 NS 1 > 2 2 > 3 Gerenciamento de Tempo 36,7 11,8 33,7 11,5 34,4 10,7 32,2 8,1 9,23 2,3,4 3 > 4 Autocontrole 30,0 9,6 27,8 9,1 28,6 7,9 27,4 6,6 5,21 0,003 1 > 2,3,4 Regulação Emocional 20,5 8,0 19,7 8,0 19,0 6,3 18,2 5,2 5,84 0,001 1 > 3,4 2 > 4 Motivação 16,5 5,8 15,2 5,2 15,3 4,8 14,4 3,1 9,03 2,3,4 3 > 4 Total FE 140,4 40,0 131,1 40,3 133,9 36,0 128,3 26,3 6,04 2,3,4 Nota. Organização/Res. de Problemas = subescala de Organização/Resolução de Problemas; Total FE = Pontuação Total de FE; F = resultados para o teste F da análise de variância; p = valor de probabilidade para o teste F se ≤ 0,05; NS = não significativo. Contrastes são os resultados da comparação em pares dos quatro grupos etários. 55| 5. Relação Entre as Pontuações da BDEFS e Fatores Demográficos na Amostra | Sexo Uma comparação dos 620 homens com as 619 mulhe- res de toda a amostra original não indicou diferenças significativas na Organização/Resolução de Problemas, no Gerenciamento de Tempo e no Escore Total de FE. No entanto, os homens relataram ter pontuações de sin- tomas levemente mais elevadas do que as mulheres no Autocontrole (p = 0,055) e sintomas significativamente maiores do que as mulheres na Motivação (pde FE entre sexo e agrupamento etário, nem nenhuma análise sequer se aproximou em significância (pcom o passar da idade. O grupo de 18 a 34 anos apontou signi- ficativamente mais sintomas do que os outros três gru- pos. Os grupos de 35 a 49 anos e de 50 a 64 anos também relataram mais sintomas do que o de 65 a 81 anos de idade. Usando esses resultados, elaboramos uma folha de pontuação separada para a Contagem de Sintomas de FE, e a amostra normativa foi usada para especificar as contagens de sintomas que eram equivalentes a ≤ 50º, 51º-75º e (individualmente) ≥ 76º e percentis superiores para cada faixa etária. Novamente, as pontuações dis- crepantes do percentil específico são fornecidas apenas acima do percentil 75, dado o valor clínico limitado as- sociado a menores contagens de sintomas. Folhas de Pontuação da BDEFS-LF Observou-se que as subescalas da BDEFS-SF se correla- cionaram fortemente com suas contrapartes na BDEFS- -LF. Isso era esperado, dado que apenas os quatro itens de maior peso de cada subescala foram usados para criar a BDEFS-SF. As relações foram as seguintes: Gerencia- mento de Tempo (r = 0,92), Organização/Resolução de Problemas (0,92), Autocontrole (0,90), Motivação (0,91) e Regulação Emocional (0,94). Assim, todos os padrões de achados relativos à relação dos fatores demográficos com as subescalas da BDEFS-LF (ver acima) foram re- plicados com a BDEFS-SF e suas subescalas. Esses re- sultados não são reiterados aqui por motivo de espaço. As médias e desvios-padrão para cada sexo dentro de cada faixa etária são mostrados na Tabela 5.5, juntamente com os resultados para a análise de variância de dois fato- res (idade x sexo) que foi usada para analisar essas pontu- ações. Como pode ser visto aqui, diferenças significantes por faixa etária existiram em todas as escalas. Portanto, as pontuações para a BDEFS-SF são apresentadas no Apên- dice discriminadas por faixa etária. Diferenças significa- tivas de sexo surgiram em apenas duas das subescalas, e um terceira se aproximou da significância. No entanto, a análise detalhada das diferenças entre as médias mos- trou que elas estavam dentro do normal esperado para a apresentação das normas da BDEFS-SF. A verificação das distribuições de cada sexo dentro de cada idade mostrou que o caso foi o mesmo: os pontos de corte para os per- centis 90, 95 e 98 foram quase sempre idênticos. Portanto, a folha de pontuação para a BDEFS-SF no Apêndice for- nece apenas a discriminação por idade. Como nas folhas de pontuação para a BDEFS-LF, as gamas de pontuação bruta são apresentadas para os percentis 1º-25º, 26º-50º e 51º-75º; acima do percentil 75, são fornecidas pontuações brutas para percentis específicos. O Pontuação Total de FE é considerado o resultado mais válido da BDEFS-SF; isto é, é considerado o mais representativo da população normativa, em comparação com as pontuações para as subescalas neste formulário. 60 | 5. Relação Entre as Pontuações da BDEFS e Fatores Demográficos na Amostra | Tabela 5.4. Resultados da BDEFS-LF para cada um dos quatro grupos de idade finais usados para criar as folhas de pontuação no apêndice Grupos etários (1) 18-34 (2) 35-49 (3) 50-64 (4) 65-81 Pontuação/Sexo Média DP Média DP Média DP Média DP F p Organiz./Res. de Problemas 36,7 12,3 34,7 12,6 36,5 12,1 36,1 9,6 G = 1,83 NS Masculino 36,6 12,4 34,4 12,8 35,8 12,4 35,7 9,8 S = 1,49 NS Feminino 36,8 11,1 35,1 12,3 37,4 12,0 36,4 9,4 G x S = 0,19 NS Gerenciamento de Tempo 36,7 11,8 33,7 11,5 34,4 10,7 32,2 8,1 G = 9,22 1 > 2,3,4 3 > 4 2,3,4 0,001 Masculino 30,7 10,1 28,2 10,0 28,8 8,8 28,0 6,3 S = 4,21 M > F 0,040 Feminino 29,3 9,0 27,5 8,1 28,3 6,9 26,8 6,8 G x S = 0,18 NS Regulação Emocional 20,5 8,0 19,7 8,0 19,0 6,3 18,2 5,2 G = 5,82 0,001 Masculino 19,8 8,2 19,4 8,1 18,5 6,5 18,2 5,3 S = 3,30 NS Feminino 21,2 7,8 20,0 7,9 19,5 6,1 18,1 5,1 G x S = 0,68 NS Motivação 16,5 5,8 15,2 5,2 15,3 4,8 14,4 3,1 G = 9,19 1 > 2,3,4 3 > 4 F 2,3,4 2,3,4 2 > 4; 3 > 4 NS Nota. veja o rodapé da tabela 5.1 para explicações. Além disso, Sintomas de FE = contagem de sintomas de FE; G, efeito principal para grupo etário; S, efeito principal para sexo; G x S, interação do grupo etário x sexo. Se o resultado principal para o grupo etário foi significativo, os contrastes em pares são indicados pelo número de cada faixa etária; por exemplo, 1> 2,3,4 significa que o Grupo 1 (idades 18-34) apresentou pontuação significativamente maior do que os Grupos 2, 3 e 4, que não diferiram entre si. Se o resultado principal para o sexo for significante, o contraste de homens versus mulheres é mostrado, por exemplo, M> F. 61| 5. Relação Entre as Pontuações da BDEFS e Fatores Demográficos na Amostra | Figura 5.9. Número médio de sintomas de FE endossados por cada grupo etário. Um sintoma é contado se o item foi respondido como ocorrendo frequentemente (3) ou muito frequentemente (4) Tabela 5.5. Resultados da BDEFS-SF para cada um dos quatro grupos de idade finais usados para criar as folhas de pontuação no apêndice Grupos etários (1) 18-34 (2) 35-49 (3) 50-64 (4) 65-81 Pontuação/ Sexo Média DP Média DP Média DP Média DP F p Organiz./Res. de Problemas 5,7 2,2 5,6 2,3 6,0 2,3 6,1 1,9 G = 3,65 0,012 Masculino 5,7 2,4 5,5 2,3 5,8 2,3 6,0 1,9 S = 3,56 NS Feminino 5,7 2,0 5,7 2,3 6,3 2,4 6,2 2,0 G x S = 0,65 1 > 4 2 > 3,4 NS Gerenciamento de Tempo 7,7 2,8 7,1 2,7 7,2 2,5 6,9 2,1 G = 8,04 2,3,4 3 > 4 NS Autocontrole 6,1 2,3 5,7 2,1 6,0 2,0 5,7 1,7 G = 3,15 0,024 Masculino 6,2 2,4 5,8 2,3 5,9 2,1 5,8 1,7 S = 0,76 NS Feminino 6,0 2,2 5,6 1,9 6,1 1,9 5,5 1,7 G x S = 0,68 1 > 2,4 NS Regulação Emocional 6,3 2,9 6,1 2,7 5,7 2,2 5,5 1,9 G = 6,56 M 1 > 3,4 2 > 4 NS Motivação 5,2 1,9 4,8 1,7 4,8 1,7 4,4 0,9 G = 12,91 F 1 > 2,3,4 2 > 4; 3 > 4 NS Total de FE 31,1 9,2 29,2 9,2 29,8 8,4 28,3 6,1 G = 5,67 0,001 Masculino 31,0 9,6 29,4 9,9 29,6 8,8 28,4 6,5 S = 0,0 NS Feminino 31,2 8,9 29,0 8,5 30,0 8,0 28,2 5,7 G x S = 0,13 1 > 2,4 3 > 4 NS Sintomas de FE 2,2 3,3 1,7 3,1 1,6 2,9 0,9 1,8 G = 9,34entre as subescalas Conforme indicado pela análise fatorial relatada no Ca- pítulo 4, as escalas de classificação de FE nas atividades da vida cotidiana parecem cobrir uma grande dimensão subjacente que consiste principalmente na Organização, Resolução de Problemas e Gerenciamento de Tempo. Essa dimensão está parcialmente conectada a várias di- mensões relacionadas, ainda que separáveis, não apenas com esses construtos, mas também com Autocontrole (inibição), a Motivação e Regulação Emocional. Por- tanto, não devemos nos surpreender ao descobrir que as subescalas da BDEFS criadas a partir de todas essas dimensões também estão interrelacionadas ainda que sejam parcialmente separáveis. Isso foi avaliado ao computar as correlações produto- -momento de Pearson entre as subescalas BDEFS-LF e o Índice TDAH-FE, utilizando toda a amostra normativa de 1.249 participantes. Os resultados são mostrados na Tabela 6.1 e indicam que eles foram significativamente e moderadamente correlacionados. A relação mais forte ocorreu entre a Autocontrole e a Regulação Emocional (0,768). Isso é compreensível, uma vez que os dois pri- meiros passos para o autocontrole emocional têm sido argumentados como sendo a inibição inicial seguida de esforços subsequentes no autogerenciamento do estado emocional, conforme discutido em capítulos anteriores. A relação mais fraca ocorreu entre Gerenciamento de Tempo e Regulação Emocional. A variância compartilha- da entre as subescalas variou de 29,7% a 58,9%; isso im- plica que é provável que haja um único construto como fundamento de FE (talvez comparável a g na pesquisa em testes de inteligência), mas com alguma variância única relatada por cada subescala em diferença às outras. Tabela 6.1. Intercorrelações entre as escalas BDEFS-LF e o Índice TDAH-FE Org. e Res. de Problemas Gerenciamento de Tempo Autocontrole Regulação Emocional Autocontrole TDAH Org./Res. de Problemas 1,000 Gerenciamento de Tempo 0,696 1,000 Autocontrole 0,684 0,601 1,000 Regulação Emocional 0,625 0,545 0,768 1,000 Autocontrole 0,604 0,658 0,644 0,578 1,000 TDAH 0,764 0,875 0,797 0,673 0,775 1,000 Nota. Org. e Res. de Problemas = subescala de Organização/Resolução de Problemas; TDAH = Índice TDAH-FE. Todas as correlações são estatisticamente significantes em pções de problemas de FE. Isso criou uma oportunidade para uma maior disparidade entre suas autoavaliações e as fornecidas por outros. Os dois grupos clínicos não diferiram em suas pontuações médias de disparidade e ambos os grupos relataram mais problemas de FE entre essas quatro subescalas do que os outros grupos que as conheciam bem. Uma vez que as pontuações de disparidade individuais podem ser tanto positivas (indicando uma superesti- mação nas autoclassificações relativas às classificações feitas por heterorrelato) ou negativas (indicando uma subestimação), essas pontuações de disparidade média podem estar cancelando uma maior variedade de dis- paridades absolutas. A computação das pontuações de disparidade absoluta (independentemente da direção) indicaram que esse é o caso. As pontuações médias de disparidade absoluta foram as seguintes: Gerenciamento de Tempo (M = 5,0, DP = 6,5); Organização/Resolução de Problemas (M = 3,9, DP = 5,0); Autocontrole (M = 4,5, DP = 5,5); e Motivação (M = 1,7, DP = 2,7). Essas disparidades não foram correlacionadas com idade ou QI nos dados do projeto UMASS. Houve correlações moderadas e significativas entre a gravidade de TDAH nas autoavaliações e ansiedade e depressão, sugerindo que os indivíduos que relatam níveis mais altos dessas pontuações internalizadas tam- bém provavelmente terão maiores disparidades entre seus próprios relatos e os de terceiros que os conheciam bem. Para classificações de TDAH, essas correlações fo- ram as seguintes: Gerenciamento de Tempo (r = 0,27, pde Fonoaudiolo- gia – Departamento de Linguagem (2017-2019). Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsico- logia (SBNp 2017-2019). 4 | Ficha Síntese | Ficha Síntese Objetivo A Escala de Avaliação de Disfunções Executivas de Bar- kley (BDEFS) avalia déficits das Funções Executivas (FE) nas atividades do cotidiano em adultos. População O instrumento é destinado a adultos entre 18 e 70 anos de idade, de ambos os sexos. Material A aplicação da BDEFS requer a folha de resposta e cane- ta ou lápis para uso do(s) examinando(s). Aplicação Pode ser efetuada de forma individual ou coletiva, sendo que o processo de resposta pode variar de 15 a 20 minu- tos na versão longa e cerca de 5 minutos na versão curta, não havendo tempo limite para completar a escala. Deve ser realizada em um ambiente adequado quanto a ilumi- nação, ventilação e espaço. PARTE 1 Manual da Edição Americana da BDEFS 5 PARTE 1 Manual da Edição Americana da BDEFS 6 | Introdução | Introdução Este manual descreve o histórico de desenvolvimento, os dados normativos, as propriedades psicométricas e a pontuação e interpretação da Barkley Deficits in Execu- tive Functioning Scale (BDEFS – ou Escala de Avaliação de Disfunções Executivas de Barkley). A BDEFS é o resultado de mais de uma década de pes- quisa e desenvolvimento para identificar os pontos mais úteis para avaliar os déficits das Funções Executivas (FE) nas atividades do cotidiano em adultos. A BDEFS é uma escala de base teórica desenvolvida a partir de modelos de FE na literatura neuropsicológica – particularmente a minha própria (Barkley, 1997a, 1997b), mas também de outros autores (ver Capítulo 1). É também uma escala de desenvolvimento empírico, baseada em análises es- tatísticas que identificam suas coordenadas subjacentes confiáveis e sua ocorrência em uma amostra de adultos e idosos de 18 a 81 anos, em quantidade representativa, considerando os Estados Unidos (relativo às informações do Censo dos EUA do ano 2000). A BDEFS não apenas é um instrumento de base empírica e teórica, confiável e válido, mas também é excepcionalmente fácil de usar. Este manual começa com uma breve introdução ao conceito de FE na neuropsicologia. Em seguida, des- creve o histórico de desenvolvimento da BDEFS. Na sequência, são fornecidas informações sobre amostra normativa, análise fatorial e outros dados relacionados à confiabilidade, validade e utilidade clínica da esca- la. A informação disponível até o momento parece ser suficiente para recomendar o uso da BDEFS em uma variedade de circunstâncias, que podem incluir situa- ções de prática clínica com pacientes com os quais há preocupações sobre a existência de FE; situações de pesquisa em que a avaliação dos déficits de FE é de in- teresse; experimentos de tratamento em que é neces- sária a medição da resposta à intervenção no quesito da FE; ou situações organizacionais/empresariais, em que a identificação de adultos com possíveis déficits em FE é um requisito importante. Como autor, espero que vocês, meus leitores, considerem a BDEFS como um instrumento útil na avaliação de déficits de FE nas atividades cotidianas de um adulto. 7| 1. Funcionamento Executivo | 1. Funcionamento Executivo História inicial do conceito A história do conceito de Funções Executivas (FE) co- meça muito antes de o termo “funções executivas” se- quer aparecer na literatura científica, no início da déca- da de 1970 (Stuss & Benson, 1986; Wolf & Wasserstein, 2001). A base para o conceito se originou há mais de 150 anos, nos esforços iniciais dos cientistas visando en- tender as funções dos lobos frontais em geral e do cór- tex pré-frontal (CPF) especificamente (ver Luria, 1966). Assim, quando o termo FE apareceu, foi inerentemente combinado com as funções do lobo pré-frontal e vice- -versa (Pribram, 1973, 1976). Eventualmente, o termo FE era empregado sem considerar a sua localização no cérebro (Butterfield & Belmont, 1977), embora a supo- sição implícita fosse que o CPF estava em grande parte envolvido em sua existência. Uma atenção especial foi dada ao CPF em vez de às funções mais óbvias e não- -executivas das zonas de programação motora primária, secundária e terciária dos lobos frontais, ocorrendo ad- jacente e mais anterior à faixa das funções sensoriais- -motoras. Com o passar do tempo, essa confusão conduziu, às ve- zes, a uma circularidade de raciocínio, na medida em que as funções do CPF são denominadas de FE, enquan- to FE são então definidas como as funções do CPF. Isso também levou a um desvio no discurso sobre FE entre dois níveis distintos de análise: o nível neuropsicológi- co, envolvendo pensamento (cognição) e ação motora (comportamento); e o nível neuroanatômico, envolven- do a localização de funções do nível neuropsicológico em regiões específicas do cérebro e sua atividade fisio- lógica (Denckla, 1996). FE não são exclusivamente fun- ções do CPF, uma vez que o CPF possui várias redes de conexões para outras zonas corticais e subcorticais, bem como os gânglios basais, a amígdala e o sistema límbico, e o cerebelo (Fuster, 1997; Luria, 1966; Stuss & Benson, 1986). E o CPF pode certamente se atrelar a certas fun- ções neuropsicológicas que não seriam consideradas como subjacentes às FE, como atividades sensoriais- -motoras simples ou automáticas, fala e identificação olfativa. Para mais informações sobre a história anterior dos esforços para compreender cientificamente as fun- ções do CPF, veja os livros didáticos de Luria (1966), Fuster (1997), e Stuss e Benson (1986). Na década de 1960, Luria observou que “um dos resul- tados essenciais da destruição dos lobos frontais em animais é um “distúrbio preliminar....nas sínteses sub- jacentes à regulação de formas complexas das operações motoras e à avaliação do efeito de suas próprias ações, sem o qual o comportamento seletivo, orientado a me- tas, é impossível” (p. 224, ênfase no original; tradução nossa). Embora os esforços subsequentes para definir FE como geralmente envolvendo a manutenção da ação direcionada a objetivos (Pennington, 1997; Welsh & Pennington, 1988), Luria creditou o trabalho anterior de Bekhterev por identificar essa característica essencial do funcionamento do CPF. Em seu texto Fundamentals of Brain Function (Fundamentos da Função Cerebral; tradução nossa), de 1905-1907, Bekhterev supostamente observou que danificar os lobos frontais resulta em uma desintegração do comportamento dirigido por objeti- vos, visto como a principal função do CPF. Nos 30-80 anos seguintes, estas funções principais se- riam atribuídas ao CPF: a integração e a execução de comportamentos dirigidos a objetivos; a inibição de ações mais automáticas e reações a estímulos estranhos (distratibilidade); a produção de reações tardias; a ava- liação das ações dirigidas a objetivos em relação ao am- biente externo, especialmente em circunstâncias novas; e a intencionalidade geral ou a qualidade proposital de comportamentos. Isso facilita a compreensão de como essas funções se tornaram parte da posterior conceitua- ção das FE quando esse termo específico foi eventual- mente usado para descrever a neuropsicologia do CPF. Neuropsicólogos e neurologistas são compreensivel- mente apaixonados por citar o primeiro e mais famoso caso clínico de lesão do CPF e os insights que ele propor- cionou sobre funções dessa região do cérebro (e, mais tarde, nos déficits de FE). Esse, claro, é o caso de Phineas Gage, o capataz de uma construção ferroviária que so- freu uma ferida de cabeça penetrante que destruiu uma grande parte de seu CPF. Essa lesão levou a alterações drásticas de seu comportamento, personalidade e con- 8 | 1. Funcionamento Executivo | duta social (Harlow, 1848, 1868). Gage e outros pacien- tes com danos de CPF estudados nesses primeiros anos demonstraram: falta de iniciativa ou de condução; uma redução de sua gama de interesses; distúrbios profun- dos do comportamento dirigido a objetivos;primeira ocasião da avaliação. As correlações produto-momento de Pearson entre a primeira e a segunda avaliações foram as seguintes: Ge- renciamento de Tempo, 0,83 (paté a idade adulta. BOX 7.1. Testes neuropsicológicos de FE utilizados nos estudos UMASS e Milwaukee Vários testes neuropsicológicos de FE foram usados para avaliar suas associações com o P-BDEFS na minha pesquisa anterior com meus colegas, discutida neste capítulo. Essa pesquisa é descrita em detalhes em Barkley et al. (2008). Aqui, esses testes são descritos para leitores que não estão familiarizados com eles. Testes de FE utilizados no estudo UMASS com adultos com TDAH • Conners’ Continuous Performance Test (Conners, 1995). Esse é um CPT administrado por computador padronizado em que as letras individuais são mostradas em uma tela em três níveis diferentes: uma a cada segundo, uma a cada 2 segundos ou uma a cada 4 segundos. A tarefa dura 12 minutos. A variação no intervalo entre estímulos permite que os efeitos dessa variável sobre o desempenho do participante sejam examinados. A tarefa usa um formato de resposta que é o inverso daquele na maioria dos CPTs: o participante pressiona um botão em resposta a cada sinal mostrado, mas deve cessar ou inibir sua resposta quando o sinal de alvo aparece. As medidas dependentes empregadas aqui foram o número total de Omissões (alvos perdidos), Co-omissões totais (falhas), Tempo de Reação (TR) e Variabilidade de TR. As pontuações para Omissões e Variabilidade de TR foram escolhidas para avaliar a atenção sustentada, enquanto as pontuações para Co-omissões e TR foram escolhidas para avaliar a inibição da resposta. Nós relatamos anteriormente diferenças no teste (Barkley et al., 2008): encontramos que o grupo com TDAH pontuava pior que o grupo de controle comunitário em todas as medidas, e pior do que o grupo de acompanhamento clínico em Omissões e Variabilidade de RT. • Stroop Color-Word Test (Stroop, 1935; Trenerry, Crosson, Deboe & Lebe, 1989). Esse teste determina a capacidade de inibir respostas concorrentes na presença de informações conflitantes salientes. A versão e as normas publicadas por Trenerry et al. (1989) foram utilizadas aqui. A tarefa tem três partes. Na primeira parte, o participante lê uma lista repetitiva de nomes de cores (por exemplo, vermelho, azul, verde) impressos em tinta preta. Na segunda parte, o participante nomeia as cores de uma série repetida de x impressos em tintas dessas mesmas cores. Na última parte ou condição de Interferência, o participante deve dizer a cor da tinta em que um nome de uma cor está impressa. Para algumas palavras, a cor da tinta na qual ela está impressa é a mesma que a palavra; para outras, a cor da tinta difere daquela especificada pela palavra. Considera-se que essa parte da tarefa reflete problemas com a capacidade de inibir respostas habituais ou dominantes (ler a palavra, neste caso). Três pontuações foram derivadas desta última fase do teste (interferência): as pontuações brutas para o número de itens concluídos e o número de respostas incorretas, além da pontuação percentil. Nós anteriormente relatamos as comparações entre os grupos nesse teste (Barkley et al, 2008): encontramos que apenas o grupo com TDAH diferiu do grupo de controle comunitário. Somente a pontuação percentil foi usada aqui. • Wisconsin Card Sorting Test (WCST; Heaton, 1981). Esse teste compreende 128 cartões, cada um contendo conjuntos de desenhos geométricos que variam de acordo com a cor, a forma e o número. O sujeito recebe quatro cartas e, em seguida, pede-se para que classifique as cartas restantes usando feedback do examinador. Após dez respostas corretas em uma determinada categoria (por exemplo, cor), o examinador altera a categoria sem aviso prévio, e o sujeito agora deve descobrir a nova regra de classificação a partir de comentários fornecidos pelo examinador. Embora muitas pontuações possam ser derivadas, usamos apenas cinco: as pontuações por porcentagem de erros, porcentagem de erros persistentes, conceitos, categorias alcançadas e falhas para manter um conjunto. Nós relatamos anteriormente as comparações entre os grupos neste teste; nenhuma foi significativa (Barkley et al., 2008). (continua) 70 | 7. Validade da Versão Americana | • Five-Points Test of Design Fluency (Lee et al., 1997). Originalmente desenvolvido por Regard, Strauss e Knapp (1982) como uma tentativa de projetar uma versão não-verbal de tarefas de fluência e memória de trabalho verbal mais comumente usadas, esse teste envolve uma folha de papel com 40 matrizes de cinco pontos nela. Os participantes devem produzir o maior número possível de figuras ao conectarem os pontos dentro de cada retângulo em um limite de tempo de três minutos. Nem todos os pontos precisam ser usados e somente linhas retas entre pontos são permitidas. Nenhuma figura deve ser repetida. Se ocorrer uma violação, os participantes recebem um único aviso na primeira violação, mas as regras não são repetidas depois de outras infrações. As pontuações são o número de desenhos únicos criados, o número de desenhos repetidos (perseveração), o número de infrações de regras e a porcentagem de desenhos que são repetidos (porcentagem de perseveração). Pacientes com disfunção do lobo frontal têm uma porcentagem significativamente maior de erros perseverantes do que pacientes neurológicos sem complicação frontal ou pacientes psiquiátricos (Lee et al., 1997). Usando uma versão modificada dessa mesma tarefa, Ruff, Allen, Farrow, Nieman e Wylie (1994) também constataram que essa tarefa é sensível às lesões do lobo frontal e talvez mais sensível a complicações do lobo do lado direito do que do esquerdo. Aqui, usamos apenas a medida Desenhos Únicos (número de desenhos únicos criados na tarefa). Previsivelmente, relatamos diferenças significativas nos grupos nesta última pontuação entre os três grupos (Barkley et al., 2008). • Learning and Memory Battery (LAMB; Multi-Health Systems, 1995). Essa bateria contém nove testes separados envolvendo aprendizagem verbal, memória verbal e memória não-verbal. Resultados múltiplos dos testes são derivados desses vários testes (pelo menos três por teste), mas a maioria reflete aprendizagem e retenção de memória. Encontramos diferenças de grupo significativas para a maioria das pontuações de retenção de memória dessa bateria e relatamos as diferenças de grupo para toda a LAMB em outra obra (Barkley et al., 2008). Aqui usamos apenas o Digit Span (pontuação total para a frente e para trás) como nosso índice de memória de trabalho verbal. Cada sequência de dígitos é apresentada duas vezes, com tentativa de recordar após cada apresentação. Na primeira tarefa, os respondentes devem lembrar a sequência de dígitos conforme apresentada. Na segunda tarefa, eles devem recapitular as sequências de dígitos lidas em ordem inversa. Em nossas comparações anteriores dos grupos do UMASS quanto a este subteste específico, encontramos que o grupo com TDAH apresentava pontuações piores do que os grupos de controle Clínico e Comunitário, que não diferiram um do outro. Testes de FE utilizados no estudo de Milwaukee com crianças hiperativas acompanhadas até a idade adulta • Stroop Color-Word Test (Trenerry et al., 1989). Ver descrição acima. • Teste Digit Span da Wechsler Adult Intelligence Scale – Terceira edição (WAIS-III; Wechsler, 1997). Esse teste serviu como nossa medida de memória de trabalho verbal. Envolve dois subtestes. Em um, o examinando recebe uma série de sequência de dígitos cada vez mais longas do examinador no tempo de um dígito por segundo. O examinando deve repeti-los na mesma sequência numérica. No segundo subteste, o examinando deve repetir sequências de dígitos cada vez mais longas na ordem inversa daquela dada pelo examinador. Para ambos os testes, o participante pode fazer duas tentativas para cada nível. O teste termina quando o participante não repete ambos os testes corretamente nesses dois níveis. A pontuação marca a sequência mais longa executado corretamente em pelo menos uma das duas tentativas. As pontuações brutas de ambos os testes foram combinadas para formaruma única pontuação bruta, usada aqui. • Teste Kaufman Hand Movements (KHM) do Teste Kaufman Brief Intelligence (Kaufman & Kaufman, 1993). Nós empregamos o KHM como medida de memória de trabalho não-verbal. É um teste padronizado para crianças, baseado em uma medição tradicional da função do lobo frontal em adultos. As crianças recebem sequências progressivamente mais longas de três movimentos de mão, os quais elas devem imitar. Utilizamos as pontuações do número correto e a sequência mais longa completa. • Simon Game. Esta tarefa foi escolhida de modo a avaliar a memória de trabalho não-verbal de maneira equivalente a uma tarefa de sequência de dígitos para a frente. Já o usamos anteriormente para adultos com TDAH, com algum sucesso em diferenciar esse grupo do grupo controle (Murphy, Barkley & Bush, 2001). A tarefa é um jogo comercialmente disponível que consta de um dispositivo plástico circular que aloja quatro grandes teclas coloridas na sua superfície. Quando pressionadas, cada uma dessas teclas emite um tom diferente. Quando ativado, o jogo apresenta automaticamente uma sequência de diferentes tons e acende a tecla correspondente a cada tom emitido. O participante deve então pressionar as teclas na sua sequência correta para reproduzir a melodia. A cada teste, a sequência de combinações de tom-tecla torna-se cada vez mais longa e, portanto, mais complexa. A pontuação utilizada aqui foi a sequência mais longa reproduzida corretamente. É semelhante a tarefa auto-ordenada de apontar (ver Lezak et al., 2004). Os participantes tiveram duas tentativas em cada nível do jogo (Níveis I-IV). (continua) 71| 7. Validade da Versão Americana | ‐ Five-Points Test of Design Fluency (Lee et al., 1997). Ver descrição acima. ‐ Tower of London (TOL; Shallice & Burgess, 1991). Esse teste serviu como nossa medição de planejamento para resolução de problemas. Ele apresenta ao participante um suporte que contém três eixos verticais de diferentes alturas, juntamente com três bolas de cores diferentes (vermelho, azul, verde) que estão dispostas em dois desses eixos. O participante é então apresentado a um diagrama que ilustra o objetivo ou a posição final em que essas bolas devem ser reorganizadas. Ao proceder para reorganizar as bolas nessa posição, o participante deve fazê-lo com o menor número de movimentos possível. O TOL exige que os participantes pensem à frente para determinar a ordem adequada dos movimentos e, portanto, é considerado um teste de capacidade de planejamento. O teste foi utilizado em vários estudos neuropsicológicos com crianças e adultos com TDAH em que os déficits foram observados (Frazier et al., 2004; Hervey et al., 2004). Ambos os estudos foram tendenciosos pela maior re- presentatividade de adultos com TDAH e outros trans- tornos clínicos. Já é esperado que esses adultos tenham mais pontuações de FE desviantes do que uma amostra da população em geral. Isso resultaria em encontrar cor- relações maiores do que as habituais entre classificações de FE e testes de FE, tendo em vista a maior variedade de pontuações em ambas as formas de medição. Os re- sultados mostraram que as subescalas do P-BDEFS esta- vam relacionadas a alguns testes de FE; no entanto, eles indicaram que o P-BDEFS estava apenas fracamente re- lacionado – se é que estava relacionado – com qualquer teste individual. As subescalas do P-BDEFS comparti- lhavam menos de 10% de sua variação com esses testes, na melhor das hipóteses, e menos de 20% com qualquer combinação melhor de testes de FE (ver Barkley & Fis- cher, 2011 e Barkley & Murphy, 2011). Isso não pode ser de responsabilidade das baterias de teste relativamente pequenas ou da escolha particular de testes de FE. Nos- sos resultados são muito consistentes com vários outros estudos anteriores que usaram outros testes de FE e en- contraram os mesmos resultados (ver Capítulo 2). Outra maneira de ilustrar essa sobreposição mínima de testes de FE e classificações de FE é mostrando a por- centagem de pacientes em cada grupo que colocou o intervalo clinicamente deficiente em cada conjunto de medidas. O intervalo clinicamente deficiente aqui foi o percentil 93 (1,5 DP da média do grupo controle). Isso foi feito tanto para o estudo de Milwaukee (Barkley & Fischer, 2011), cujos resultados foram utilizados para criar o gráfico que aparece na Figura 7.1, quanto para o estudo UMASS (Barkley & Murphy, 2011), cujos resul- tados serviram como base para o gráfico na Figura 7.2. A grande maioria dos adultos com TDAH com acom- panhamento clínico e de crianças cujo TDAH persistiu na idade adulta apresentou prejuízos nas subescalas do P-BDEFS (lado esquerdo de cada diagrama). No entanto, apenas uma minoria desses indivíduos apresentou pre- juízos nos testes de FE (lado direito de cada diagrama). Tabela 7.1. Correlações entre as subescalas do P-BDEFS (autoclassificações) e testes neuropsicológi- cos de FE no estudo UMASS Testes de FE Subescalas do P-BDEFS GT ORP ACT MO ATV CPT - Omissões 0,157** 0,172** 0,185** 0,199** 0,177** CPT - Co-omissões 0,354** 0,304** 0,331** 0,405** 0,331** CPT - RT -0,129* -0,102 -0,91 -0,192** -0,136* CPT - RT - Variabilidade 0,221* 0,219** 0,264** 0,273** 0,210** WCST - Erros -0,009 -0,048 -0,057 -0,020 -0,050 WCST - Erros Perseverantes -0,018 -0,033 -0,081 -0,009 -0,050 WCST - Conceitos 0,038 0,050 0,067 0,066 0,040 WCST - Categorias Alcançadas -0,012 -0,038 -0,008 -0,021 -0,036 WCST - Falhas para Manter um Conjunto 0,087 0,110 0,108 0,127* 0,076 (continua) 72 | 7. Validade da Versão Americana | Testes de FE Subescalas do P-BDEFS GT ORP ACT MO ATV Stroop Color-Word - pontuação percentil de Interferência -0,094 -0,183 -0,106 -0,083 -0,105 LAMB - Dígitos - pontuação total -0,111 -0,193** -0,092 -0,134* -0,151** LAMB - Retenção de Parágrafo -0,122* -0,199** -0,143* -0,166** -0,176** LAMB - Aprendizado de Palavras em Pares Lembradas com Atraso -0,109 -0,109 -0,154** -0,224** -0,161** Five-Points Test - Designs Únicos -0,192** -0,272** -0,228** -0,181** -0,258** Nota. GT = subescala Gerenciamento de Tempo; ORP = subescala Organização/Resolução de Problemas; ACT = subescala Autocontrole; MO = subescala Motivação; ATV = subescala Auto Ativação; CPT = Conners Continuous Performance Test; WCST = Teste Wisconsin de Classificação de Cartas (Wisconsin Card Sorting Test); LAMB = Learning and Memory Battery. Dados de Barkley, Murphy e Fischer (2008). * pGame; TOL = Tower of London Test; KHM = subteste Kaufman Hand Movements. n = 203. Dados de Barkley, Murphy e Fischer (2008). * pAchievement Test 3 (Jastak & Wilkin- son, 1993). A leitura foi significativamente associada à Organização/Resolução de Problemas (r = -0,158, p = 0,005), assim como a aritmética (r = -0,130, p = 0,020). A ortografia foi associada apenas à subescala Autoativa- ção/Concentração (r = -0,177, p = 0,034) (N = 299-329). O Índice TDAH-FE não foi significativamente corre- lacionado com nenhum desses três testes. No entan- to, mesmo quando as relações eram significativas, elas eram fracas e indicavam que as subescalas do P-BDEFS compartilhavam menos de 3% de sua variação com as habilidades avaliadas por eles. Assim, as subescalas do P-BDEFS (e, por extensão, as da BDEFS) não são con- taminadas pela inteligência geral e pelas habilidades de realização acadêmica. Validade discriminante Conforme observado acima, as evidências para a vali- dade de uma medida podem resultar de estudos de sua capacidade de distinguir os grupos disfuncionais de grupos funcionais, particularmente quando esses gru- pos disfuncionais acreditam ter problemas com FE. Por exemplo, o TDAH está associado a numerosas dificulda- des em FE que são tipicamente avaliadas com testes FE (Frazier et al., 2004; Hervey et al., 2004; Willcutt et al., 2005). Nossa pesquisa com o P-BDEFS, tanto no estudo UMASS quanto no Milwaukee, descobriu que adultos com TDAH apresentaram classificações significativa- mente maiores em todas as subescalas do que amostras de adultos da comunidade (Barkley & Fischer, 2011; Barkley & Murphy, 2011). Eles também apresentaram pontuações mais altas no P-BDEFS (em ambos os for- mulários, de autorrelato e heterorrelato) do que os adul- tos com acompanhamento clínico (Barkley & Murphy, 2011). E os índices mais altos no P-BDEFS foram asso- ciados ao grau de persistência do TDAH na idade adulta em crianças hiperativas acompanhadas por um longo período no estudo de Milwaukee, particularmente em relação a um grupo de controle comunitário (Barkley & Fischer, 2011). Conforme observado acima, ambos os estudos anteriores (Barkley & Fischer, 2011, Barkley & Murphy, 2011) também calcularam as porcentagens dos vários grupos que pontuaram dentro da faixa clinica- mente significativa no P-BDEFS (acima do percentil 93). Esses resultados foram mostrados nas Figuras 7.1 e 7.2. No estudo UMASS sobre TDAH em adultos (Barkley & Murphy, 2011), os resultados para autoavaliações mos- traram que 89-98% dos adultos com TDAH pontuaram nessa faixa nas várias subescalas do P-BDEFS, em com- paração com 8-11% do grupo de controle comunitário. Os resultados para os relatórios de terceiros apresenta- ram 84-99% do grupo TDAH nessa faixa clinicamente significativa, em comparação com 7-14% do grupo de controle comunitário. O estudo também descobriu que 83-98% do grupo de controle clínico caiu nessa faixa em várias subescalas do P-BDEFS nas autoavaliações, e 68- 89% nas classificações por heterorrelato. Como observado nesse estudo, esses adultos do grupo controle clínico se encaminharam para a mesma clíni- ca de TDAH em adultos acreditando que eles tinham TDAH, e 45% deles preenchiam os critérios para esse transtorno com base em autoavaliações. Mas, ao serem avaliados por um médico experiente, constatou-se que não atendiam aos critérios completos do DSM-IV para o transtorno. Portanto, muitos nesse grupo de controle podem ter tido TDAH residual ou TDAH sem outra es- pecificação, o que teria resultado em terem tido também classificações altas no P-BDEFS. Além disso, eles apre- sentavam distúrbios de ansiedade, distúrbios do humor e outros problemas psiquiátricos que se esperava que afetassem negativamente as FE nas atividades da vida 76 | 7. Validade da Versão Americana | cotidiana. Assim, suas elevadas taxas de pontuação na faixa clinicamente significativa nas escalas do P-BDEFS não foram surpreendentes. Agora, vamos contrastar esses resultados com aqueles obtidos com os testes FE. O estudo UMASS descobriu que apenas 7-29% do grupo de TDAH e 3-27% do grupo de controle clínico pontuaram acima do percentil 93 em comparação com o grupo de controle comunitário, cuja extensão de comprometimento foi de 6-13%. Essa evidên- cia indica que a BDEFS provavelmente será útil para dis- criminar grupos de pacientes com distúrbios clínicos da população geral de adultos e especialmente útil na identi- ficação de adultos com TDAH. Em contraste, os testes de FE foram de pouco valor na identificação de déficits de FE nessas populações clínicas. Padrões de resultados simila- res foram evidentes no estudo de Milwaukee com crian- ças hiperativas acompanhadas até a idade jovem adulta (Barkley & Fischer, 2011) e em estudos prévios com pa- cientes com lesões no lobo frontal (Alderman et al., 2003; Burgess et al., 1998), como discutido aqui anteriormente. Quanto ao Índice TDAH-FE, os resultados do estudo UMASS (Barkley & Murphy, 2011) indicaram que 98,5% do grupo com TDAH superou o limite de comprometi- mento do percentil 93, assim como 96,6% do grupo de controle clínico, mas apenas 7,6% do grupo de controle comunitário. Assim, a grande maioria dos adultos com diagnóstico clínico de TDAH obteve uma pontuação na faixa alterada no Índice TDAH-FE, como o fizeram no P-BDEFS, classificação mais abrangente da qual este ín- dice foi formado. Certamente, há muito trabalho a ser feito quanto à vali- dade da BDEFS como uma medição de FE nas atividades da vida cotidiana. Estudos adicionais utilizando o BDE- FS com outros grupos de pacientes que se presumisse terem déficits em FE, como aqueles com distúrbios neu- rológicos óbvios anteriormente conhecidos por com- prometer as FE, seriam informativos quanto à validade discriminante da escala. A evidência descrita acima em adultos com TDAH, um transtorno muito mais sutil do funcionamento do lóbulo pré-frontal e de FE, sugere que tal pesquisa se revelou frutífera. Além disso, tem-se acumulado evidências quanto à validade discriminante de outras escalas de classificação de FE, como o BRIEF e o DEX, conforme discutido no Capítulo 2. Novamente, dada a sobreposição de conteúdo em todas essas esca- las de classificação, a evidência disponível sugere que a BDEFS é tão capaz quanto essas de discriminar vários grupos clínicos que se acredita terem FE prejudicadas. Validade de critério A validade de critério é um meio de avaliar uma me- dida por sua utilidade na avaliação de um construto. Se a medida avaliar esse construto, então ela deve estar relacionada aos resultados futuros (validade preditiva), presentes (validade concomitante) e passados (validade retrospectiva) conhecidos por estarem associados a esse construto (Bryant, 2000). Atualmente, não há nenhu- ma informação disponível sobre o valor da BDEFS na previsão de resultados futuros que se acredita estarem associados à FE, como resultados profissionais, edu- cacionais, financeiros, sociais, de saúde ou até mesmo criminais. Para determinar esse valor, precisamos de um estudo longitudinal que acompanhe os participan- tes durante um período de tempo após a aplicação da BDEFS e avalie vários resultados. Só então poderíamos examinar quão bem as pontuações da linha de base na BDEFS predisseram essas consequências posteriores. No entanto, existem evidências disponíveis sobre a va- lidação simultânea da BDEFS (ou seja, quão próximo ele foi associado a medidas de resultados relacionados a FE coletados simultaneamente com a BDEFS). E há evidências sobre sua validação retrospectiva ou pros- pectiva (ou seja, quão proximamente ele foi associado a resultados anteriores sobre os quais informações foram coletadas antes da aplicação da BDEFS). Severidade do TDAH Nos estudos UMASS e Milwaukee, foi examinada a ex- tensão em que o P-BDEFS foi associado à gravidade do TDAH (Barkley & Fischer, 2011; Barkley & Murphy, 2011). Conforme observado acima, acredita-se que o TDAH esteja associado a problemas significativos com FE, tanto na teorização atual sobre o transtorno (Barkley, 1997b, 2006; Castellanoset al., 2006; Nigg & Casey, 2005) quanto em meta-análises de pesquisa usando tes- tes de FE (Frazier et al., 2004; Hervey et al., 2004; Nigg, Willcutt, Doyle & Sonuga-Barke, 2005; Willcutt et al., 2005). No estudo UMASS, como observado acima, des- cobrimos que a grande maioria dos adultos com TDAH pontuou na faixa prejudicada nas subescalas do P-BDE- FS e no Índice TDAH-FE. Os grupos com TDAH, e de controle clínico e comunitário desse estudo (Barkley & Murphy, 2011) foram combinados e examinados aqui quanto à relação de subescalas do P-BDEFS com classi- ficações de gravidade de TDAH. As correlações com os sintomas de Desatenção foram as seguintes: Gerencia- mento de Tempo (r = 0,91), Organização/Resolução de Problemas (r = 0,80), Autocontrole (r = 0,85), Motiva- 77| 7. Validade da Versão Americana | ção (r = 0,83) e Autoativação/Concentração (r = 0,87). Para o Índice TDAH-FE, essa correlação foi tão alta quanto (r = 0,92). As correlações com os sintomas Hipe- rativos-Impulsivos foram as seguintes: Gerenciamento de Tempo (r = 0,71), Organização/Resolução de Pro- blemas (0,68), Autocontrole (0,84), Motivação (0,71), Autoativação/Concentração (0,80) e Índice TDAH-FE (0,80). Todos os p foramDP = 44,4) ficou 3 DPs acima da distribuição da amostra de controle res- tante (M = 123,1, DP = 25,1), refletindo um nível alto de déficits de FE. De fato, a pontuação média para o grupo com TDAH ficou entre os percentis 96 e 98 para a amos- tra normativa na Pontuação Total de FE. As diferenças nas pontuações das subescalas individuais da BDEFS- -LF, como mostrado na Figura 7.3, foram igualmente acentuadas. Elas refletiram claramente deficiências sig- nificativas em todas as dimensões da FE nas atividades cotidianas para o grupo com TDAH. A BDEFS-SF mos- trou uma diferença igualmente impressionante entre es- ses dois grupos, com a média do grupo com sintomas de TDAH (M = 48,7, DP = 10,5) tendo pelo menos 3 DPs acima do grupo controle (M = 27,3, DP = 5,8) (F = 733,74, pVersão Americana | Resultado/Preditores Beta R R² R²Δ F p Porcentagem de empregos em que a pessoa foi disciplinada por trabalho de baixa qualidade QI -0,103 0,069 0,005 0,005 1,21 NS Gerenciamento de Tempo 0,257 0,264 0,069 0,065 17,82 ensino médio > algum ensino supe- rior, bacharelado ou mais que isso (os dois últimos grupos não diferiram entre si). ■ Gerenciamento de Tempo: menos que ensino médio > ensino médio > algum ensino superior. ■ Autocontrole: menos que ensino médio > ensino médio > algum ensino superior > bacharelado ou mais que isso. ■ Regulação Emocional: menos que ensino médio > ensino médio > algum ensino superior > bacharela- do ou mais que isso. ■ Motivação: menos que ensino médio > ensino médio, algum ensino superior, e bacharelado ou mais que isso (os três últimos grupos não diferiram entre si). ■ Escore Total de FE da BDEFS-LF: menos que ensino médio > ensino médio > algum ensino superior > bacharelado ou mais que isso. ■ Índice TDAH-FE: menos que ensino médio > ensi- no médio > algum ensino superior > bacharelado ou mais que isso. ■ Escore Total de FE da BDEFS-SF: menos que ensino médio > ensino médio, algum ensino superior (esses dois não diferiram) > bacharelado ou mais que isso. Os resultados para a Pontuação Total de FE da BDEFS-LF são representados graficamente na Figura 7.5. O padrão geral é consistente com a hipótese de que o grau de défi- cit de FE na BDEFS está associado à obtenção de menos educação e, portanto, fornece algumas evidências para a validade de construto ou de critério da escala. O senso comum indicaria claramente que maiores problemas de FE na vida cotidiana contribuiriam para uma menor es- colaridade. Novamente, no entanto, dado que essas análi- ses são meramente associações e não causalidades, não se pode afirmar a direção da influência aqui puramente por essas descobertas. 83| 7. Validade da Versão Americana | Tabela 7.6. Previsão de Impedimentos Profissionais das Subescalas do P-BDEFS (Formato de Entrev- ista, Autoavaliações) no Estudo de Milwaukee Resultado/Preditores Beta R R² R²Δ F p Índice de trabalho Hollingshead (1975) Autocontrole -0,214 0,353 0,125 0,125 28,88F p são claramente justificadas. Mas os resultados sugerem que um menor grau de problemas de FE na vida cotidiana está associa- do ao casamento e que dificuldades maiores de FE estão associadas a menor satisfação conjugal. A totalidade dos resultados aqui relacionados com o casamento forne- ce ainda mais evidências para o critério de validade da BDEFS. Os déficits de FE no cotidiano contribuem para um casamento menos feliz ou para uma menor probabi- lidade de serem casados ou a influência ocorre na direção oposta? Esses resultados ainda não podem dar uma indi- cação clara sobre se isso ocorre de um jeito ou de outro. Figura 7.8. Relação entre a Pontuação Total de FE da BDEFS-LF e o estado civil na amostra normativa Condução de veículos Pesquisadores sugeriram que dirigir um veículo a motor envolve algum grau de FE; isso pode explicar os problemas significativamente maiores que os adultos com TDAH de- monstram em seu histórico de condução (Barkley & Cox, 2007; Barkley et al., 2002). Esse pode ser especialmente o caso de alguns domínios de FE tais como Autocontrole (inibição) e Regulação Emocional, em vista das deman- das de Autocontrole durante a condução, particularmente quando alguém é afetado por outros motoristas. A relação entre o P-BDEFS e os vários resultados de condução ad- versos autorrelatados pelos adultos no estudo UMASS foi, portanto, examinada. Novamente, o autocontrole emo- cional não foi medido no P-BDEFS a não ser por alguns itens de emoção impulsiva incluídos no fator de Autocon- trole, de modo que a total extensão do controle emocional deficiente relacionado aos problemas de condução não pode ser examinada nessa amostra. As correlações produ- to-momento de Pearson são mostradas na Tabela 7.8. To- das as subescalas, bem como o Índice TDAH-FE, foram significativamente relacionados aos riscos de condução e, em particular, à subescala de Autocontrole, como hipóte- se. Novamente, essas correlações podem ser mais altas do que seria esperado em uma amostra da população em ge- ral, dada a excessiva representação de adultos com TDAH e adultos com outros distúrbios clínicos nesse estudo, o que teria ocasionado uma maior variedade de pontuações e uma ocorrência maior de resultados adversos. Mesmo assim, os resultados fornecem evidências adicionais quan- to ao fato de a BDEFS mostrar alguma relação entre classi- ficações de déficits de FE nas atividades da vida cotidiana e o comprometimento em outro importante domínio da atividade cotidiana – dirigir. Como de costume, é preciso ter cautela aqui, pois tais descobertas não indicam a dire- ção da influência. Mas certamente é mais razoável supor que os déficits de FE estão interferindo no ato da condu- ção do que supor que uma condução falha cria problemas em FE (autorregulação ao longo do tempo). No entanto, não se pode excluir a possibilidade de que tais associações tenham sido produzidas por uma terceira variável não medida e que esteja operando aqui. 88 | 7. Validade da Versão Americana | Tabela 7.8. Correlações das subescalas do P-BDEFS (autoavaliações) com resultados de condução adversa autorrelatados do estudo UMASS Medição da condução Subescalas do P-BDEFS GT ORP ACT MO ATV Número de revogações da licença para dirigir 0,236** 0,152** 0,260** 0,216** 0,171** Número de acidentes com veículos 0,124* 0,101 0,152** 0,103 0,118* Número de multas por dirigir acima da velocidade 0,199** 0,174** 0,214** 0,153** 0,200** Número de multas por condução imprudente 0,174** 0,212** 0,270** 0,199** 0,168** Número de multas por dirigir sob a influência do álcool 0,105 0,188** 0,212** 0,164** 0,125* Número de acidentes onde a pessoa foi considerada culpada 0,204** 0,191** 0,265** 0,192** 0,186** Nota. Veja o rodapé da tabela 7.1 para as abreviações das subescalas. As análises foram correlações Pearson produto-momento. n’s = 298-328. Dados de Barkley, Murphy e Fisher (2008). * puma perda de comportamento abstrato ou categórico; e mudanças emocionais, como uma maior propensão à irritação, ins- tabilidade emocional e indiferença em relação ao meio ambiente, muitas vezes superpostas à depressão. Ações impulsivas, piadas triviais e até mesmo euforia surgiram de lesões envolvendo os aspectos mais basais do CPF. O primeiro uso real do termo “executivas” em referência às funções do CPF ocorreu na década de 1970 e foi atri- buído por outros autores (Dimond, 1980; Fuster, 1997) a Karl Pribram (1973, 1976). Pribram (1973) referiu-se ao papel executivo do córtex frontal: “... o córtex frontal está criticamente envolvido na implementação de programas executivos em que estes são necessários para manter a organização do cérebro diante da redundância insufi- ciente no processamento de insumos e nos resultados de comportamento” (p. 301; tradução nossa). Foi aí, então, mais de 100 anos após o início do interesse científico nas funções do CPF, que sua natureza “executiva” foi global- mente declarada. O CPF é o executivo do cérebro; suas funções são, portanto, as funções executivas. Não demo- raria muito para que outros empregassem o termo “FE” em relação a um conjunto de funções neuropsicológicas, independentemente de qualquer ligação ou evidência de danos ao CPF (Butterfield & Belmont, 1977). Com o tempo, a “síndrome de lobo frontal” observada por Luria (1966) evoluiria para um “transtorno executivo” (Fuster, 1997) ou uma “síndrome disexecutiva” (Badde- ley, 1986; Wilson, Alderman, Burgess, Emslie & Evans, 1996). Nos últimos 30 anos, a frequência de uso do ter- mo FE aumentou astronomicamente: tornou-se um dos termos mais comuns em revistas neuropsicológicas. A definição de FE também aumentou na diversidade, até o ponto em que os principais especialistas em neuropsico- logia associariam até 33 funções diferentes com o termo, em meados da década de 1990 (Eslinger, 1996). Definindo FE Infelizmente, como consequência dessa diversidade de opinião sobre a natureza das FE e as funções que a com- põem, não existe uma definição consensual de FE dispo- nível atualmente. Este tópico representa uma tentativa de fornecer apenas uma amostragem das numerosas de- finições que apareceram na literatura, objetivando não ser abrangente ou exaustiva. Uma visão inicial e comumente citada da FE foi a espe- cificada por Stuss e Benson (1986) em seu livro sobre os lobos frontais: As funções de controle executivo, chamadas para ação em situações não-rotineiras ou novas, fornecem direção consciente aos sistemas fun- cionais para o processamento eficiente de infor- mações... A função executiva representa muitas das atividades importantes que são quase uni- versalmente atribuídas aos lobos frontais, que se tornam ativos em situações não rotineiras, no- vas ou que exigem novas soluções. Essas carac- terísticas comportamentais foram descritas por muitos autores e incluem pelo menos o seguinte: antecipação, seleção de metas, pré-planejamento (estabelecimento de meio-fim), monitoramento e uso de feedback (declarações se-então). (p. 244; tradução nossa) Por essa definição, as FE têm quatro componentes: an- tecipação, seleção de metas, pré-planejamento e moni- toramento. No modelo de funções de CPF de Stuss e Benson (1986), esses componentes de FE estão posicio- nados acima de outros dois módulos frontais, os quais eles governam: impulso (abrangendo impulso, autocon- trole e vontade) e sequenciamento (abrangendo sequên- cia, conjunto e integração). Nesse modelo, o impulso e o sequenciamento não são componentes das FE e sim funções cerebrais governadas por ela. “Impulso” refere- -se a estados alimentares básicos que são forças energi- zantes básicas; “Motivação” é concebido como um con- trole mais mental/intelectual dos estados de impulso; e “Vontade” é indefinido, mas implica que seja um estado ainda mais elevado que rege a motivação. Mas todos são vistos como regidos pelo sistema executivo. O segundo desses módulos (sequenciamento) está en- volvido em organizar e manter dados de informação em sequências significativas, como na integração temporal e no sequenciamento do comportamento. Stuss e Benson citaram o trabalho de Fuster (1980) em apoio à existên- cia desse módulo. Fuster argumentou que três funções subordinadas são necessárias para organizar e integrar o comportamento ao longo do tempo: antecipação (fun- ção prospectiva), memória provisória (memória de tra- balho) e controle de interferência (função inibitória). Para isso, Stuss e Benson adicionaram a capacidade sin- tética para formar conjuntos de informações relaciona- das, o que permite a produção de informações novas e mais complexas a partir de sequências de dados disponí- 9| 1. Funcionamento Executivo | veis. Com isso também há a capacidade de integrar uma série de conjuntos de informação relacionados e não re- lacionados em um conhecimento inovador (ver Stuss & Benson, 1986, pp. 241-242). Os dois módulos subexecutivos (impulso e sequencia- mento) governam os sistemas funcionais posteriores/ basais não executivos, tais como atenção, vigilância, funções visuoespaciais, funcionamento emocional autô- nomo, memória, funcionamento sensorial/perceptivo, linguagem, funções motoras e cognição. Curiosamente, figurando acima do nível das FE e acima de todos esses componentes está a autoconsciência (metacognição), considerada o maior atributo dos lobos frontais (ver Stuss & Benson, 1986, Figura 17-4 e pp. 246-247). Ela é vista como separável das FE e hierarquicamente coloca- da acima delas. Nessa perspectiva, ficaria subentendido que a autoconsciência é o chefe executivo que determina as atividades das funções de nível inferior, incluindo o nível das FE. Uma das definições mais populares que aparecem na literatura sobre FE, particularmente na pesquisa em crianças e no transtorno de déficit de atenção/hipera- tividade (TDAH) em todas as idades (Hinshaw, Carte, Fan, Jassy & Owen, 2007; Martel, Nikolas & Nigg, 2007; Rhodes, Coghill & Matthews, 2005; Wilding, 2005; Wil- lcutt, Doyle, Nigg, Faraone & Pennington, 2005), é a dada por Welsh e Pennington (1988): A função executiva é definida como a capacidade de manter um conjunto adequado de resolução de problemas para a consecução de um objetivo futuro. [Inclui esses componentes:] a) a intenção de inibir uma resposta ou adiá-la para um mo- mento posterior mais apropriado; b) um plano estratégico de sequências de ação; e c) uma re- presentação mental da tarefa, incluindo as in- formações de estímulo relevantes codificadas na memória e o desejado objetivo-estado futuro. (pp. 201-202; tradução nossa) Considerando que muitos dos autores que citam essa definição a atribuíram a Welsh e Pennington (1988), es- ses últimos autores citam Luria (1966) e, ainda mais an- tigo, Bianchi (1922) como fonte da definição. Mas, como observado acima, sabemos que Luria (1966) creditou a Bekhterev essa visão já em 1905-1907. No entanto, Lu- ria, Bianchi e Bekhterev não estavam definindo FE, mas simplesmente descrevendo o que eles achavam que era uma função importante da ação direcionada ao objetivo do CPF. Aqui, novamente, vemos uma confusão de FE com funções do CPF. Na definição de Welsh e Pennington (1988), FE com- preende quatro elementos: intencionalidade (dirigida para metas), inibição, planejamento e memória de tra- balho (a capacidade de representar mentalmente a in- formação). Mais tarde, Roberts e Pennington (1996; veja também Pennington, 1997) reduziriam o modelo a ape- nas dois componentes (memória de trabalho e inibição), que interagem para resolver conflitos ou competição en- tre alternativas de ação durante atividades direcionadas para objetivos. No entanto, como muitos outros antes e desde então, eles reconheceram que a FE é um termo “guarda-chuva” que “se refere a um conjunto de habili- dades relacionadas, mas um tanto distintas, como plane- jamento, manutenção de esquemas (mentais), controle de impulso, memória demaiores em todas as subescalas do P-B- DEFS do que aqueles que nunca haviam fumado. Também coletamos informações da Skinner Health and Lifestyle Interview (Skinner, 1994), que examinou a o estilo de vida dos participantes do UMASS em 16 do- mínios da saúde e classificou cada domínio como sendo de risco, para preocupação ou sem nenhuma preocupa- ção. Esses domínios foram nutrição, alimentação, uso de cafeína, forma física, peso, sono, funcionamento social, funcionamento familiar, uso de tabaco, consumo de ál- cool, uso de drogas, uso de medicamentos, uso de veí- culos, desempenho sexual, trabalho e saúde emocional. Essas pontuações foram somadas em todos os 16 do- mínios para criar um índice de saúde geral para exame posterior nesta escala. Esse índice foi então correlacio- nado com as subescalas do P-BDEFS. As correlações re- sultantes foram todas significativas: Gerenciamento de Tempo (r = -0,466), Organização/Resolução de Proble- mas (r = -0,435), Autocontrole (r = -0,418), Motivação (r = -0,469) e Autoativação/Concentração (r = -0,429). Todas as correlações foram significativas em ppromax. Os dados em negrito indicam o fator em que cada subescala teve maiores pesos. Estresse parental Mais uma vez, as subescalas do SCL-90-R tiveram seus maiores pesos na dimensão psicopatológica, enquanto as subescalas do P-BDEFS tiveram seus pesos mais altos na dimensão de FE. No entanto, as duas dimensões estavam claramente inter-relacionadas, como discutido acima. Especialmente interessante, mais uma vez, é o peso quase igual da subescala Obsessão-Compulsiva do SCL-90-R em ambas as dimensões, sugerindo que essa forma de psicopatologia tem uma associação surpreendentemente alta com déficits em FE e vice-versa. Conforme mencio- nado anteriormente sobre tais relações, no entanto, a di- reção da influência não pode ser extraída dessas análises usando métodos correlacionais. Uma conexão clara e bastante razoável pode ser feita entre as dificuldades na autorregulação dos adultos ao longo do tempo e a capa- cidade desses adultos de educarem filhos. Criar crianças representa demandas significativas para todas as dimen- sões de FE identificadas na BDEFS. Nós incluímos uma medida de estresse parental (The Parenting Stress Index; Abidin, 1995) no estudo UMASS. Isso permitiu o exa- me aqui de sua relação com o P-BDEFS. O nível total de estresse parental resultante dessa escala amplamente utilizada correlacionou-se de forma moderada e signifi- cativa com todas as subescalas do P-BDEFS, da seguinte forma: Gerenciamento de Tempo (r = 0,628), Organiza- ção/Resolução de Problemas (r = 0,674), Autocontrole (r = 0,632), Motivação (r = 0,648) e Autoativação/Concen- tração (r = 0,604). Todas as correlações foram significa- tivas em p0,564 0,561 DBRS - Hiperatividade/Impulsividade TDAH 0,534 0,492 0,458 0,516 0,503 DBRS - TOD 0,481 0,544 0,504 0,473 0,461 DBRS - CD 0,259 0,293 0,385 0,322 0,307 BASC - Hiperatividade 0,601 0,577 0,536 0,587 0,548 BASC - Agressão 0,512 0,588 0,545 0,518 0,457 BASC - Problemas de Conduta 0,411 0,501 0,485 0,498 0,369 BASC - Ansiedade 0,579 0,416 0,586 0,488 0,555 BASC - Depressão 0,541 0,561 0,585 0,595 0,537 BASC - Queixas Somáticas 0,345 0,386 0,483 0,476 0,322 BASC - Atipicidade 0,563 0,489 0,533 0,537 0,598 BASC - Afastamento 0,314 0,379 0,408 0,407 0,431 BASC - Problemas de Atenção 0,617 0,506 0,508 0,573 0,515 BASC - Adaptabilidade -0,510 -0,641 -0,605 -0,576 -0,590 BASC - Habilidades Sociais -0,313 -0,412 -0,369 -0,445 -0,400 BASC - Liderança -0,335 -0,401 -0,399 -0,447 -0,415 Nota. Veja o rodapé da tabela 7.1 para as abreviações das subescalas. DBRS = Disruptive Behavior Rating Scale; BASC = Behavior Assessment System for Children. As análises foram correlações de Pearson. (Todas as correlações foram significantes em pavaliar FE nas ativida- des da vida cotidiana de forma rápida e barata em um contexto de prática clínica, um ambiente de pesquisa, ou uma situação empresarial/organizacional, entre outros. Destina-se a ser utilizada por profissionais treinados em especialidades clínica, de pesquisa ou empresarial/orga- nizacional que tenham suficiente experiência educacio- nal ou na avaliação do funcionamento psicológico hu- mano e sua deficiência. A interpretação das subescalas da BDEFS, de sua pontuação total e de seus perfis requer treinamento de nível de graduação em uma especiali- dade psicológica, psiquiátrica ou médica em uma facul- dade ou universidade credenciada; em particular, exige treinamento e cursos na administração e interpretação de medidas neuropsicológicas. Além de revisar cuida- dosamente e entender este manual, os examinadores que utilizam a BDEFS devem estar familiarizados com os Standards for Educational and Psychological Testing (American Educational Research Association, Ameri- can Psychological Association & National Council on Measurement in Education, 2014). Materiais da BDEFS A BDEFS-LF (89 itens) provavelmente produzirá in- formações mais confiáveis devido ao seu maior com- primento. Mas, nos casos em que economizar tempo é essencial, a BDEFS-SF de 20 itens pode ser usada como um panorama rápido quanto a probabilidade de um in- divíduo exibir déficits de FE nas atividades da vida coti- diana. Quando os problemas clinicamente significativos são evidentes, então uma avaliação de acompanhamento deve ser feita com o formulário mais longo se um exami- nador deseja obter uma leitura mais ampla dos domínios de FE específicos em tais atividades. Somente a BDE- FS-LF fornece pontuações de subescalas para todas as cinco principais dimensões dos problemas de FE iden- tificados nos Capítulos 4 e 5: Gerenciamento de Tempo, Organização/Resolução de Problemas, Autocontrole, Motivação e Regulação Emocional. Como a BDEFS-SF contém apenas 20 itens, os resultados separados para cada domínio não são fornecidos ou recomendados; apenas quatro itens são incluídos para cada domínio e isso não é considerado suficiente para tornar confiável a avaliação de cada domínio. O Escore Total de FE, com base no conteúdo da escala completa, é calculado tanto para a BDEFS-LF quanto para a BDEFS-SF. E um Índi- ce TDAH-FE de 11 itens pode ser marcado a partir da BDEFS-LF se o risco de um adulto para ter TDAH for relevante. Finalmente, o examinador pode calcular uma pontuação de Contagem de Sintomas de FE para cada versão da escala – o que pode ser especialmente infor- mativo em contextos clínicos. Um sintoma clinicamente significativo de um déficit de FE é definido aqui como qualquer item respondido como ocorrendo frequente- mente (3) ou muito frequentemente (4). Esse limiar para definir um item como um sintoma de FE é baseado nas respostas da amostra normativa, que indicou que tais respostas eram tipicamente incomuns naquela situação (ver Capítulo 4, Tabela 4.2). Na versão americana do manual, duas versões da BDE- FS-LF são fornecidas: um Formulário de Autorrelato e um Formulário de Heterorrelato. Já no manual brasi- leiro, a versão de Heterorrelato foi suprimida e apenas a forma de Autorrelato é apresentada. As normas estão disponíveis apenas para a versão de Autorrelato. A ver- são de Heterorrelato deve ser coletada e pontuada em comparação com os índices de Autorrelato, de modo a avaliar o grau de disparidade entre as auto-classificações indicadas pela pessoa avaliada e as classificações de al- guém que a conhece bem. Isso é discutido neste capí- tulo. Grandes disparidades devem servir como motivo para explorar as possíveis razões por trás delas em uma entrevista clínica de acompanhamento com a pessoa avaliada e, se disponível, com o terceiro que respondeu. Do mesmo modo que para a forma curta, no manual original duas versões da BDEFS-SF também são forne- cidas, novamente uma para o Formulário de Autorrela- to e uma segunda para o Formulário de Heterorrelato. No presente manual, apenas a versão de Autorrelato da BDEFS-SF é apresentada e, assim, como na BDEFS-LF, as normas e uma folha de pontuação estão disponíveis 98 | 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | apenas para o Formulário de Autorrelato da BDEFS-SF. Apenas uma única folha de pontuação é fornecida para a BDEFS-SF: Autorrelato nas referências. Isso ocorre porque somente os escores da Pontuação Total de FE e da Contagem de Sintomas de FE são calculados e, em seguida, comparados com cada uma das quatro faixas etárias anteriormente mencionadas. Propósitos e público-alvo apropriados para a BDEFS Os formulários BDEFS não se destinam a replicar ou substituir testes neuropsicológicos de FE. Na verdade, os dois tipos de medidas são apenas levemente relaciona- dos, se é que o são, e não podem substituir um ao outro ou servir como um meio alternativo de medir os mes- mos componentes de FE (ver Capítulo 2). Em vez disso, o fenótipo mais estendido de FE (Barkley, 2011a) é me- lhor visto como uma série hierarquicamente organizada de níveis ou como uma projeção de anéis externamen- te intersectados quanto às principais atividades da vida humana. Os testes de FE e as classificações de FE são apropriadas para avaliar níveis bastante diferentes desse fenótipo estendido. Portanto, a seleção de uma medida ou de um conjunto de medidas de FE deve basear-se em grande parte na finalidade da avaliação e no nível de FE que se deseja avaliar. Se o importante é avaliar o nível mais baixo, instrumental, momento a momento, do funcionamento cognitivo, que acreditasse represen- tar os componentes básicos de FE, então os testes de FE ou as baterias podem ser preferidos às classificações de FE na vida cotidiana. Este pode ser o caso em pesquisa de neuroimagem, genética molecular dos domínios ins- trumentais de FE ou na localização no cérebro de tipos específicos de FE. Se, no entanto, o objetivo da avaliação for identificar FE em níveis mais altos, de maior com- plexidade comportamental, em termos mais longos e em ambientes e domínios socialmente significativos de ativi- dades cotidianas e também para prever a probabilidade de comprometimento em várias dessas atividades, então a BDEFS será de maior utilidade do que os testes de FE. A BDEFS destina-se a ser utilizada para a avaliação de indivíduos entre 18 e 81 anos de idade. Normalmente, seriam indivíduos que residem nos Estados Unidos, pois esse país foi a fonte da amostra normativa. O uso da BDEFS com populações, países, culturas ou grupos étnicos fora dos Estados Unidos pode ser inadequado, na medida em que esses grupos variam de acordo com a amostra de referência normativa descrita no manual americano. Aplicação A BDEFS-LF: Autorrelato ou a BDEFS-SF: Autorrelato deve ser entregue diretamente à pessoa que está sendo convidada a completar a avaliação, juntamente com uma explicação clara da finalidade para a qual a classifi- cação está sendo obtida. O examinador deve ter certeza de que a pessoa entendeu as instruções para completar a escala de classificação (ver esses dois formulários no Apêndice), bem como dar a oportunidade de o indiví- duo expressar dúvidas ou fazer perguntas sobre a escala. Embora a BDEFS possa ser enviada aos indivíduos para ser completada antes do dia da avaliação pretendida, da qual a BDEFS é apenas uma parte, isso deve ser acom- panhado de uma carta de apresentação que forneça in- formações sobre o propósito para o qual a escala está sendo usada e as instruções para o seu preenchimento. Essa carta também deve conter um meio pelo qual o avaliando consiga entrar em contato com o examinador para tirar quaisquer dúvidas ou fazer perguntas sobre a escala ou sua finalidade pretendida. A BDEFS-LF leva uma média de 15-20 minutos ou me- nos para ser completada por um adulto comum da po- pulação em geral, enquanto a BDEFS-SF pode levar ape- nas 4-5 minutos para serconcluída. Após a conclusão do formulário, o examinador deve rever a escala checando se há itens que não foram preenchidos e, em seguida, incentivar o avaliando a completar tais itens. O ato de não completar mais do que alguns poucos itens na es- cala provavelmente invalidará as pontuações/resultado e tornará impossível o uso das tabelas normativas nas folhas de pontuação. Se a escala tiver sido devolvida por correio e não houver mais a oportunidade de preencher quaisquer itens incompletos, esses itens devem ser res- pondidos com 1 (nunca ou raramente), para criar uma tendência conservadora nas pontuações, de modo que os déficits de FE não sejam excessivamente exagerados. Mesmo assim, se mais de 5% dos itens na escala não fo- rem completados (6 ou mais itens na BDEFS-LF, e 3 ou mais itens na BDEFS-SF), isso deve ser considerado mo- tivo suficiente para invalidar a escala. Calculando a pontuação e fazendo a interpretação da BDEFS-LF BDEFS-LF: Autorrelato Siga os seguintes procedimentos para calcular a pontua- ção da BDEFS-LF: Autorrelato: 99| 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | ■ O método mais fácil para calcular é começar com a Seção 1. Adicione todas as respostas circuladas nesta seção. Se preferir, você pode adicionar todas as res- postas para as quais 1 (nunca ou raramente) estão circuladas na coluna 2 desta seção (as questões reais estão na coluna 1). Coloque essa soma na caixa va- zia abaixo dessa coluna (a caixa está na linha som- breada marcada como “Para uso do examinador”). Agora faça o mesmo para a coluna 3: some todas as respostas para as quais 2 (às vezes) estão circula- das nesta coluna e coloque essa soma na caixa vazia abaixo dessa coluna. Repita este processo para as co- lunas 4 (respostas para as quais 3 [frequentemente] estão circuladas) e coluna 5 (respostas para as quais 4 [muito frequentemente] estão circuladas). Agora some essas quatro somas individuais para obter a pontuação total para a Seção l. Escreva a resposta na linha chamada “Seção 1 Pontuação Total”, que está na linha sombreada no final desta seção. ■ Repita este procedimento para as Seções 2-5 para obter a pontuação total de cada uma dessas seções. As pontuações das seções correspondem a cada uma das cinco subescalas da BDEFS-LF: Seção 1, Geren- ciamento de Tempo; Seção 2, Organização/Resolu- ção de Problemas; Secção 3, Autocontrole; Seção 4, Motivação; e Seção 5, Regulação Emocional. ■ Quando você tiver calculado cada uma dessas pon- tuações, some-as para obter a Pontuação Total de FE, que é a pontuação total para a escala inteira. Indique a resposta na antepenúltima linha da escala, marca- da como “Pontuação Total de FE” (essa linha tam- bém está sombreada e marcada como “Para uso do examinador”). ■ Finalmente, volte toda a escala e conte o número de itens que foram respondidos com um 3 (frequen- temente) ou um 4 (muito frequentemente) para obter a Contagem de Sintomas de FE. Digite esse número na caixa com esse nome na penúltima linha da escala, novamente marcada como “Para uso do examinador”. Você já terá calculado sete pontuações para a BDEFS- -LF: as cinco pontuações brutas totais das subescalas, a Pontuação Total de FE (soma das cinco pontuações de subescalas) e a Contagem de Sintomas de FE. Pegue então a folha de pontuações da BDEFS-LF para o grupo etário e sexo daquele indivíduo. Cada coluna des- ta folha mostra uma variedade de potenciais pontuações brutas. Comece com a coluna Gerenciamento de Tem- po e circule a pontuação (ou faixa de pontuação) nes- ta coluna que reflete a pontuação do respondente para a Seção 1 da BDEFS-LF. Observe a coluna da extrema esquerda para determinar o percentil da população em geral que aquela pontuação representa. Quanto maior o percentil, mais desviante é o resultado em relação à amostra normativa (população geral). Os percentis que refletem a faixa normal de déficits são mostrados como faixas (1-25, 26-50 e 51-75), pois as pontuações nesses quartis geralmente têm pouco significado clínico além de indicar que as FE de um indivíduo em um domínio particular não é anormal. No entanto, as pontuações no quartil mais alto começam a ter alguma significância clí- nica como indicadores de deficiências clínicas e maiores riscos associados a deficiências. Por esse motivo, percen- tis individuais são fornecidos para cada pontuação bruta acima desse limite. Geralmente, as pontuações do 76º ao 84º percentil devem ser consideradas como de signifi- cância clínica mínima. Aquelas do percentil 84º ao 92º devem ser consideradas no limite ou quase deficientes. Aquelas entre os percentis 93 e 95 devem ser considera- das levemente deficientes. Aquelas entre os percentis 96 e 98 devem ser considerados moderadamente deficiente. E aquelas no percentil 99 devem ser vistas como notada- mente deficientes ou graves. Agora, faça o mesmo para a pontuação de Organização (a pontuação total bruta da Seção 2 da BDEFS-LF: Au- torrelato): ou seja, circule a pontuação que representa a contagem bruta do avaliando para a Seção 2. Repita esse procedimento para a pontuações das Seções 3-5 (Auto- controle, Motivação e Regulação Emocional). Em segui- da, siga o mesmo procedimento para obter o percentil para a Pontuação Total de FE, usando a coluna com esse nome na folha de pontuação. Em geral, quanto maior o percentil representado pela pontuação de uma pessoa, maior a probabilidade de esse indivíduo sofrer algum comprometimento nas principais atividades da vida co- tidiana como consequência de seu nível de déficit de FE. Índice TDAH-FE Se você deseja calcular o Índice TDAH-FE para avaliar a probabilidade de o entrevistado ter TDAH adulto, adi- cione as pontuações no formulário para os 11 itens que constituem esse Índice. Cada um desses 11 itens possui uma caixa sombreada em torno do número do item; os itens são 1, 6, 14, 16, 24, 49, 50, 55, 60, 65 e 69. (Eles tam- bém estão listados na última linha da escala). Coloque a soma desses itens na última linha da escala, onde você vê a pontuação do Índice TDAH-FE indicada. 100 | 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | Como regra geral, uma pontuação de 20 ou mais no Índice TDAH-FE é válida para identificar adultos com TDAH. Ela detectou corretamente 94% dos adultos com TDAH com ou acima do percentil 95 na escala de clas- sificação de TDAH adulto que usamos na amostra nor- mativa, deixando de fora apenas 6% desse grupo. E clas- sificou incorretamente apenas 13% do grupo controle de adultos como provavelmente tendo TDAH (este grupo consistiu naqueles da amostra normativa que pontua- ram ou abaixo do percentil 84 na escala de classificação de TDAH adulto). Isso se traduz em um poder preditivo positivo (PPP) de 94% e em um poder preditivo nega- tivo (NPP) de 87%. O PPP refere-se à probabilidade de uma pessoa apresentar TDAH ao fazer uma pontuação de 20 ou mais neste Índice. O NPP refere-se à probabi- lidade de a pessoa estar na faixa normal de sintomas de TDAH (ou seja, não ter TDAH), ao fazer uma pontua- ção de 19 ou menos nesse índice. Devo enfatizar que o Índice TDAH-FE não é a única base ou um substituto para uma avaliação clínica e eventual diagnóstico de TDAH em um adulto; é apenas um indicador de risco para o TDAH adulto. Qualquer pessoa com uma pontuação igual a 20 ou superior nes- te índice deve ser considerada como candidata a uma avaliação clínica mais completa, a fim de confirmar (ou descartar) um diagnóstico formal de TDAH adulto e determinar qualquer necessidade de tratamento. Para uma determinação mais precisa do nível de divergên- cia (percentil) do entrevistado da população em geral neste Índice, veja a folha de pontuação correspondente à idade e ao sexo dessa pessoa. Marque a nota da pes- soa na coluna do Índice TDAH-FE e então observe a coluna da extrema direita (última) para ver o intervalo percentil em que estaria a pessoa em relação à popu- laçãogeral (amostra normativa). Normalmente, como observado anteriormente, as pontuações iguais ou su- periores ao percentil 95 são vistas como clinicamente significativas, enquanto que aquelas entre os percentis 90 e o 94 devem ser vistas como sendo minimamente significativas e com pelo menos uma causa de investi- gação clínica. Contagem de Sintomas de FE Você também pode querer obter uma contagem do nú- mero de itens que foram respondidos com uma resposta suficientemente alta (rara) para indicar sintomas clíni- cos prováveis de um déficit de FE. Para fazer isso, pegue a folha de pontuação para a Contagem de Sintomas de FE. Essa folha contém uma única tabela para todas as faixas etárias. Não é discriminada por sexo porque não houve diferenças significativas de sexo na amostra nor- mativa para esse resultado. Escolha a coluna que corres- ponde à faixa etária da pessoa. Nessa coluna, encontre e circule a pontuação (ou o intervalo de pontuação) que corresponde à pontuação bruta que você calculou para a Contagem de Sintomas de FE. Ao olhar para a primeira coluna na extrema esquerda (ou para a última coluna na extrema direita) dessa folha, você encontrará o percentil (ou intervalo percentil) para essa pontuação em relação à amostra da população geral (normativa). BDEFS-LF: Heterorrelato2 O propósito da BDEFS-LF: Heterorrelato é permitir que clínicos ou pesquisadores obtenham o relato de um adulto que conheça o paciente ou participante o suficiente para responder a BDEFS-LF sobre essa pes- soa. O formulário é calculado da mesma forma que a BDEFS-LF: Autorrelato (veja acima). Mas as pontua- ções de normas e percentis não estão disponíveis para calcular e interpretar os resultados em comparação com uma amostra da população em geral. Um dos mo- tivos para isso é que não é claro o que essas normas significariam em uma avaliação clínica. Além disso, uma vez que diferentes relações dos informantes com a pessoa avaliada produzem diferenças significativas nos resultados, as normas deveriam ser produzidas para cada tipo diferente de relacionamento (pais, irmãos/ amigos, cônjuges/parceiros). (ver Barkley et al., 2011). Isso seria um compromisso excepcionalmente imprati- cável. Além disso, normas sobre a forma como as pes- soas classificam umas às outras em relação à popula- ção em geral provavelmente não abordariam a questão clínica mais importante, que é o grau de concordância ou discordância entre o que um indivíduo específico relata sobre ele mesmo e sobre o que outra pessoa rela- ta sobre ele. Para alcançar essa comparação, você deve examinar os resultados brutos obtidos em ambos os formulários pelo grau de disparidade ou acordo. É de se esperar uma certa disparidade. Mas, quanto maior a disparidade, mais razões você teria para investigar mais profundamente, em uma entrevista clínica, sobre os possíveis motivos de uma variação tão ampla. Ao fazê-lo, você pode, pelo menos, olhar para as folhas de pontuação para ver quais são os percentis que corres- pondem aos resultados do Relatório de Heterorrelato, 2 Nota do editor: apesar da versão de heterorrelato existir apenas na versão original, decidiu-se disponibilizar as informações sobre essa versão para fins instrucionais. 101| 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | como se eles fossem resultados do Relatório de Autor- relato. Diferenças drásticas nesses percentis seriam ou- tra razão para avaliar a base de tais disparidades entre avaliações de FE em si mesmo e por outros através de entrevistas com esses indivíduos. O que constitui uma disparidade clinicamente significativa? Veja a discus- são sobre a interpretação da pontuação abaixo para uma tabela que fornece esses limites sugeridos. A pesquisa sobre disparidades entre a avaliação de au- torrelato e de heterorrelato no campo do TDAH adulto indicou que os cônjuges/parceiros que moram junto se encontram na melhor posição para fornecer esses rela- tórios sobre a performance atual do avaliando, dada a frequência com que são capazes de observar os adultos com TDAH (Barkley et al., 2011). No entanto, a variação nos relatórios de terceiros como uma função de encon- trar diferenças entre a opinião de outros e do paciente/ participante é relativamente menor. Mais importante parece ser a idade do paciente/par- ticipante. Os indivíduos mais jovens, particularmente abaixo dos 27 anos, geralmente relatam níveis de sinto- mas substancialmente mais baixos do que terceiros que os conhecem bem. Em contraste, indivíduos de 30 anos ou mais parecem reportar níveis mais altos de sinto- mas do que terceiros que os conhecem bem. Não estou ciente de nenhuma pesquisa sobre essa questão de dis- paridades entre avaliação de autorrelato e heterorrelato nas classificações de FE, ou sobre a relação de idade com tais disparidades, além do que já foi relatado para o P-BDEFS no Capítulo 7. Mas, dado que alguns pes- quisadores consideram que os sintomas do TDAH re- almente refletem os déficits de FE, ou pelo menos estão altamente correlacionados com eles (ver Capítulo 7), a informação sobre disparidades entre avaliação de au- torrelato e heterorrelato no campo do TDAH pode ter algum impacto sobre aqueles sendo avaliados quanto a FE através de escalas de classificação. Nossa pesqui- sa sobre o P-BDEFS, bem como sobre as classificações de TDAH, também mostrou que o grau de disparidade está significativamente relacionado ao grau de TDAH tanto na população geral quanto em amostras clínicas. Em amostras clínicas, os níveis de ansiedade e depres- são na pessoa avaliada também estão relacionados ao tamanho da disparidade nas classificações do P-BDE- FS. Novamente, a presença de grandes disparidades nas classificações entre avaliação de autorrelato e hete- rorrelato na BDEFS-LF deve indicar a necessidade de avaliar se qualquer um desses distúrbios comórbidos constitui uma possível explicação para tal disparidade. Calculando a BDEFS-SF Calcular a pontuação da BDEFS-SF: Autorrelato é, ob- viamente, mais fácil do que calcular a da BDEFS-LF, uma vez que apenas 20 itens precisam ser considerados para chegar à pontuação final, em comparação com os 89 itens do formulário longo. ■ Primeiro, some o total para as respostas circuladas nos itens 1-4. Estes constituem a subescala Geren- ciamento de Tempo. ■ Coloque essa resposta na última linha (sombreada) no final da escala em “Apenas para uso do Exami- nador”, onde você vê a linha em branco para esses quatro itens. ■ Em seguida, faça o mesmo para os itens 5-8. Esses representam a subescala Organização. ■ Repita isso para os itens 9-12 (Autocontrole), 13-16 (Motivação) e 17-20 (Autorregulação da Emoção). ■ Quando tiver inserido todas essas pontuações no final da escala, some todas para obter a Pontuação Total de FE. ■ Finalmente, reveja as respostas da escala e conte o número de itens que foram respondidos com um 3 (frequentemente) ou um 4 (muito frequentemente). Esta será a Contagem de Sintomas de FE. Coloque esse número onde indicado na última linha da escala. Use a folha de pontuação da BDEFS-SF para traduzir es- sas pontuações em seus respectivos percentis com base na amostra normativa. Nesta folha de pontuação, você encontrará duas colunas para cada uma das quatro fai- xas etárias. A primeira coluna em cada faixa etária é para a Pontuação Total de FE, e a segunda coluna é para a Contagem de Sintomas de FE. Essas são as duas únicas pontuações para as quais nor- mas são fornecidas nesse formulário curto. As normas não são separadas por sexo porque não houve diferenças significativas de sexo neles na amostra normativa, como observado acima. Encontre as colunas dessa tabela que correspondem ao grupo etário do entrevistado. Em segui- da, observe abaixo a primeira dessas duas colunas para a pontuação ou o intervalo de pontuação que corresponde a Pontuação Total de FE da pessoa. Circule essa pontua- ção. Então olhe para as colunas da extrema esquerdaou da extrema direita para localizar o percentil (ou intervalo percentil) que corresponde a essa pontuação. Em seguida, insira a pontuação para a Contagem de Sintomas de FE 102 | 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | Total na coluna à direita correspondente a essa mesma faixa etária. Mais uma vez, faça isso colocando um círculo em torno da pontuação bruta que corresponde a Pontu- ação Total de FE bruta da pessoa. Mais uma vez, veja as colunas da extrema esquerda ou da extrema direita para encontrar o percentil que corresponde a essa pontuação em relação à população em geral para essa faixa etária. O formulário BDEFS-SF: Heterorrelato pode ser usado para calcular as pontuações brutas a serem inseridas na parte inferior na última linha dessa escala, conforme descrito acima para o formulário de Autorrelato. Você pode então comparar essas pontuações brutas com as do Autorrelato para avaliar o grau de diferença entre ambas as avaliações. Mais uma vez, assim como com a BDEFS-LF, disparidades consideráveis devem ser uma causa para uma avaliação posterior através de uma en- trevista clínica com a pessoa avaliada e, se desejado, com a pessoa que completou o Heterorrelato. Conforme ob- servado acima, a evidência sugere que TDAH, ansiedade e depressão graves podem contribuir para disparidades maiores do que as típicas e devem ser exploradas ain- da mais na avaliação clínica. Os limiares sugeridos para essas pontuações de diferença serão fornecidos mais adiante neste capítulo, para dar algumas orientações aproximadas sobre a partir de qual número uma dis- paridade deve ser considerada incomum ou atípica em relação à população em geral. Tal como acontece com a BDEFS-LF, você também pode olhar para a folha de pontuação da BDEFS-SF: Autorrelato para ver quais os percentis equivalentes para as várias pontuações brutas do Heterorrelato. Você pode fazer isso para ver se esses percentis diferem muito dos obtidos para o Autorrelato. Em outras palavras, você pode olhar para as pontuações de percentil do Heterorrelato como se essas pontuações brutas tivessem sido fornecidas na folha de pontuação do Autorrelato. Mais uma vez, diferenças dramáticas entre os percentis reais do Autorrelato e os percentis hipotéti- cos do Heterorrelato seriam uma boa razão para explorar possíveis motivos de disparidades tão marcantes através de entrevistas clínicas adicionais com esses indivíduos. Usando a BDEFS para avaliar a resposta ao tratamento3 A BDEFS pode ser uma ferramenta valiosa na avaliação da resposta de um indivíduo a várias formas de trata- 3 Nota do editor: para fins instrucionais, os valores normativos dos exemplos a partir deste tópico se referem aos valores constantes nas tabelas americanas originais. mento, como o treinamento cognitivo como parte das intervenções de neurorreabiIitação; tratamento cogni- tivo-comportamental do TDAH em adultos; ou trata- mentos com medicação, como o uso de medicamentos para tratar o TDAH em adultos. Embora a BDEFS-LF possa ser usada para esse propósito, a BDEFS-SF for- nece um meio menos demorado e mais econômico para fazê-lo. Que nível de mudança em uma pontuação seria necessário para interpretá-la como confiável – ou seja, como resultado provável da intervenção? Cientis- tas e clínicos empregaram vários métodos para deter- minar a quantidade de mudança que deve ser consi- derada como uma resposta positiva (ou negativa) ao tratamento, como alterações em 20%, 30% ou 40% da pontuação base. Mas várias abordagens estatísticas são melhores para esse propósito, pois, ao contrário dos limiares arbitrariamente definidos para mudanças, es- sas abordagens levam em consideração a confiabilida- de teste-reteste da medida e a variação nas mudanças de pontuações da população em geral. Dessas várias abordagens, uma utilizada bastante frequentemente é o “índice confiável de mudança” (reliable change index – RCI) desenvolvido por Jacobson et al. (Jacobson, Ro- berts, Berns & McGlinchey, 1999; Jacobson & Truax, 1991). Essa abordagem assegura que o grau de mudan- ça exceda o que pode ser apenas resultado de erro de medida ou ausência de confiabilidade. Em essência, mostra se a mudança entre as pontuações do pré e do pós-tratamento podem ser de fato, com 95% de confia- bilidade (probabilidade), provenientes de uma distri- buição diferente da que ocorre como consequência da variação e ausência de confiabilidade. Uma diferença entre pontuações de magnitude igual ou superior ao RCI (limiar) seria esperada em menos de 5% das vezes pela chance ao acaso e/ou por falta de confiabilidade da medida. A fórmula para calcular o RCI é (X2 – X1) / Sdiff, onde X2 é a pontuação pós-teste do indivíduo e X1 é a pon- tuação pré-teste. A diferença entre os dois é então di- vidida pelo erro padrão das pontuações de diferença (Sdiff). Sdiff pode ser obtido diretamente de nossos dados inserindo os desvios padrão, bem como as in- formações de confiabilidade de teste-reteste para cada escala, na fórmula fornecida por Jacobson e Truax (1991). Quando a diferença nas médias é dividida pelo Sdiff e o número resultante é igual ou maior que 1,96, a diferença é considerada confiável (isto é, ocorreria em 5% ou menos das vezes devido ao acaso). Mas para economizar tempo, os valores de RCI que seriam consi- derados como indicativo de uma mudança significati- 103| 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | va na BDEFS-LF ou BDEFS-SF foram calculados. Esses valores de RCI são mostrados na Tabela 8.1 para cada faixa etária. Para usá-los, basta pegar a pontuação pós- -teste de um paciente ou participante e subtraí-la da sua pontuação pré-teste. Em seguida, observe na Tabe- la 8.1 na linha que corresponde a qual pontuação está sendo usada para avaliar a mudança nos dados. Procu- re na coluna dessa linha a faixa etária equivalente do paciente. Se essa alteração nas pontuações do paciente for igual ou maior que o valor nessa célula da tabela, então a mudança pode ser considerada confiável, ou fora da faixa de erro de medida. Provavelmente, a me- lhor pontuação a ser usada nesses casos seria a Pontu- ação Total de FE da BDEFS-LF, mas as pontuações das subescalas da BDEFS-LF também podem ser examina- das para avaliar se a alteração é confiável, se isso for de interesse. O uso de pontuações de subescalas não é recomendado para a BDEFS-SF, dado que apenas qua- tro itens constituem cada subescala nesta versão. Se a BDEFS-SF estiver sendo usado para este propósito, en- tão somente a Pontuação Total de FE deverá ser usada. É por isso que os valores de RCI para as subescalas não são fornecidos para a BDEFS-SF na Tabela 8.1. O fato de uma mudança nas pontuações ser confiável não a torna, no entanto, clinicamente expressiva ou sig- nificativa. Um meio de estabelecer essa significância é determinar se a pontuação da pessoa após o tratamento agora se enquadra na faixa de pontuação “normal” após a intervenção. Para esse propósito, Jacobson e Truax (1991) recomendaram que a pontuação de pós-trata- mento se encaixasse dentro de 2 DP da média, ou no percentil 98, para a população normal. Esta é uma inter- pretação bastante generosa da “normalização”. Outros podem recomendar que a pontuação no pós-tratamento seja superior a 1,5 DP da média normal, ou aproxima- damente no 93º percentil, já que este é um limiar fre- quentemente usado para determinar se alguém é clini- camente sintomático ou não. Essas demarcações para a amostra da população em geral para cada faixa etária são fornecidas na Tabela 8.2. Assim, se (1) um pacien- te tiver mostrado uma alteração entre as pontuações de pré-tratamento e pós-tratamento que seja igual ou supe- rior à pontuação de RCI na Tabela 8.1, e (2) a pontuação de pós-tratamento do paciente estiver dentro de l,5 ou 2 DPs da média para a amostra normativa (dependen- do de quão indulgente for a definição de recuperação escolhida), pode-se concluirque o tratamento resultou não apenas em mudanças confiáveis, mas também em recuperação ou normalização. Tabela 8.1. O índice de mudança confiável (reliable change index – RCI) necessário para que as diferenças entre pontuações de pré e pós-tratamento sejam significativas (confiáveis) nas subescalas da BDEFS-LF e na pontuação total de FE da BDEFS-LF e da BDEFS-SF Pontuação RCI por grupo etário 18 – 34 35 – 49 50 – 64 65 – 81 Gerenciamento de Tempo 13,49 13,14 12,23 9,26 Organização/Resolução de Problemas 10,78 11,04 10,61 8,41 Autocontrole 12,48 11,83 10,27 8,58 Motivação 9,91 8,88 8,20 5,30 Regulação Emocional 10,40 10,40 8,19 6,77 Pontuação Total de FE da BDEFS-LF 44,35 44,68 39,91 29,16 Pontuação Total de FE da BDEFS-SF 11,90 11,90 10,41 7,56 Como exemplo, consideremos um paciente com TDAH adulto com 28 anos de idade e manifestando déficits sig- nificativos de FE no cotidiano, conforme apontado por uma Pontuação Total de FE da BDEFS-LF de 260. De acordo com a folha de pontuação no Apêndice da BDE- FS-LF: Autorrelato apropriada para este paciente, ele está acima do percentil 99 da população normativa na faixa etária 18-34 (tanto considerando apenas homens quan- to a amostra combinada de homens e mulheres). Após a administração do tratamento por um mês com uma me- dicação de TDAH, o indivíduo completa a BDEFS-LF no- vamente e agora tem uma Pontuação Total de FE de 180. De acordo com a mesma folha de pontuação no Apêndi- ce, o paciente agora coloca-se dentro da faixa de percentil de 75-84. Esse grau de mudança após o tratamento com medicação é confiável? Ou seja, é provável que esteja fora 104 | 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | do intervalo do erro de medida ou falta de confiabilidade? Para descobrir, vamos calcular a pontuação de mudança do paciente da seguinte forma: pontuação pré-teste (260) menos pontuação pós-teste (180) = 80 pontos. A Tabela 8.1 demonstra que, para pessoas de 18 a 34 anos, o RCI significativo para a Pontuação Total de FE precisava ser de 44,35. A pontuação de mudança do paciente de 80 está bem acima desse limite de RCI. Assim, o clínico pode sentir-se confiante em dizer que a melhora nos déficits de FE do paciente não é simplesmente devido a um erro de medida ou falta de confiabilidade, e sim que provavel- mente é uma consequência do tratamento. É confiável. Esse paciente pode ser considerado um bom responden- te ao tratamento, afirmando-se que os efeitos colaterais da medicação não são tão inoportunos que justifiquem a descontinuidade do tratamento. Tabela 8.2. Os limiares para determinar a normalização ou a recuperação segundo o teste pós-tratamento Pontuação Grupo etário 18 – 34 35 – 49 50 – 64 65 – 81 1.5 2.0 1.5 2.0 1.5 2.0 1.5 2.0 Gerenciamento de Tempo 54,4 60,3 50,9 56,7 50,4 55,8 44,3 48,4 Organização/Resolução de Problemas 55,1 61,3 53,6 59,9 54,6 60,7 50,5 55,3 Autocontrole 44,4 49,2 41,4 46,0 40,4 44,0 37,3 40,6 Motivação 25,2 28,1 23,0 25,6 22,5 24,9 19,0 20,6 Regulação Emocional 32,5 36,5 31,7 35,7 28,4 31,6 26,0 28,6 Pontuação Total de FE da BDEFS-LF 200,4 220,4 191,5 211,7 187,9 205,9 167,7 180,9 Pontuação Total de FE da BDEFS-SF 44,9 49,5 43,0 47,6 42,4 46,6 37,4 40,5 Nota. São fornecidos limiares para 1.5 e 2.0 DPs acima da média da amostra normativa para cada faixa etária para as pontuações das subescalas da BDEFS-LF e da Pontuação Total de FE da BDEFS-LF e da BDEFS-SF. Em seguida, desejamos saber se este paciente foi “nor- malizado” pelo tratamento – ou seja, se a intervenção o levou a pontuar na faixa de normalidade. A Tabela 8.2 demonstra que o limiar considerando 2 DP acima da média normal para pessoas de 18 a 34 anos é de 220,4, o que corresponde aproximadamente ao percentil 98. A pontuação pós-teste do paciente de 180 está bem abaixo desse número e, portanto, pode ser considerada como estando dentro da faixa de normalidade definida. No entanto, como observado acima, alguns clínicos e pes- quisadores acreditam que esta é uma definição de “nor- malização” generosa demais para determinar a recupe- ração. Usar o critério de 1,5 SD acima da média normal pode ser preferido. Nesse caso, a coluna apropriada da Tabela 8.2 indica que esse limiar é de 200,4. A pontu- ação pós-teste do paciente de 180 também está abaixo desse nível. E assim, mesmo por esta definição mais conservadora de “normalização”, esse paciente pode ser considerado como estando dentro da amplamente defi- nida faixa de normalidade para sua faixa etária após o tratamento. Isso pode ser considerado “recuperação”. De fato, de acordo com as médias e DPs na Tabela 5.4 (ver Capítulo 5) para a faixa etária de 18-34 anos, a pontua- ção desse paciente é de aproximadamente +1 DP acima da média normal (M = 140,4, DP = 40). De acordo com essa abordagem empírica baseada em RCI para definir “resposta ao tratamento” e “normalização”, o tratamento foi bem-sucedido. Os medicamentos para TDAH, claro, fornecem apenas alívio sintomático nesses casos e somente quando a me- dicação é administrada em níveis terapêuticos. Portanto, os termos “mudança confiável” (ou “resposta positiva”) e “normalização” referem-se apenas a um efeito tempo- rário da medicação durante o uso e não a uma alteração permanente das funções do paciente na ausência de ad- ministração de medicação. Embora a BDEFS-LF tenha sido usada neste exemplo, seria mais eficiente (menos demorado e mais econômico), neste caso, usar a BDE- FS-SF e a Pontução Total de FE dessa escala considera- velmente menor. Ao abordar essas duas questões (mudança confiável e re- cuperação), também será clinicamente informativo que 105| 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | alguém que conheça bem o paciente preencha o formu- lário de Heterorrelato para a mesma versão da BDEFS antes e depois do tratamento, como forma de verificar a validade dos relatos do paciente. Minha experiência na realização de estudos de aplicação de medicamentos de TDAH com adultos é de que terceiros que conhecem bem os pacientes podem realmente detectar mudanças nas funções dos pacientes antes, em detalhes menores e em maior extensão do que os próprios pacientes o fazem em sua autoavaliação. Por esta razão, deve tornar-se uma prática padrão comparar as autoavaliações dos pacientes com as de adultos terceiros que os conhecem bem. Isso deve ser feito tanto para estabelecer a situação no pré-tra- tamento quanto para determinar as mudanças que po- dem estar ocorrendo como consequência do tratamento. Para aumentar ainda mais a utilidade de tal avaliação da medicação de TDAH, um clínico pode querer que um paciente complete a Escala de Avaliação de Efeitos Colaterais (Barkley & Murphy, 2006) antes e depois do tratamento, para garantir que as mudanças ocorridas nesse domínio de funções do cotidiano sejam, de fato, consequências da medicação e não apenas condições pré-existentes que não foram examinadas antes do pro- cesso de medicação. Avaliando mudanças em FE devido a lesões cerebrais Uma abordagem muito semelhante pode ser tomada para avaliar se um indivíduo experienciou ou não uma deterioração significativa nas FE nas atividades cotidia- nas após algum tipo de lesão cerebral, seja devido a um evento traumático, infeccioso, cancerígeno ou vascular ou a algum outro fator causal. O clínico aqui pode estar se fazendo esta pergunta: houve um declínio confiável e significativo nas FE na vida cotidiana deste paciente? Os números do RCI na Tabela 8.1 podem ser usados para determinar se a deterioração no funcionamento é confiável (isto é, provavelmente fora da faixa de erro de medida). A paciente (suponhamos que desta vez o pa- ciente seja uma mulher) pode completar o formulário de Autorrelato da BDEFS-LF ou da BDEFS-SF sobre como ela acredita que estão suas funções agora. Ela pode então completá-lo uma segunda vez referenciando quão bem ela acredita que ela estava funcionando antes do ocor- rido,assumindo, claro, que a sua memória para o fun- cionamento pré-mórbido não tenha sido negativamente afetada pelo evento. Apenas para ter mais confiança no assunto, o clínico poderia pedir a alguém que conhe- ça bem essa paciente que preenchesse o formulário de Heterorrelato para a mesma versão da BDEFS, tanto re- ferente ao estado pré-mórbido da paciente quanto para o seu funcionamento atual. Em seguida, o clínico pode comparar a Pontuação Total de FE pré-mórbida e pós- -mórbida da paciente. Mais uma vez, para obter a pontuação de mudança, sub- trai-se a pontuação do pós-mórbido da pontuação do pré-mórbido; nesse caso, o resultado será negativo. Ago- ra, observe na Tabela 8.1 a Pontuação Total de FE para a faixa etária da paciente. Se a diferença nas pontuações da paciente for maior do que o valor RCI dado na tabela, a deterioração do funcionamento do paciente pode ser considerada confiável; ou seja, a mudança provavelmen- te está fora do domínio de erro de medida ou falta de confiabilidade (ou seja, só é provável que ocorra em 5% das vezes ou menos). Os limiares fornecidos na Tabela 8.2 para a faixa etária do paciente e as pontuações da BDEFS agora podem ser usados para determinar se essa paciente está fora da faixa de normalidade. Ambos os limites de 1,5 DP e 2 DP (aproximadamente os percentis 93 e 98) podem ser usados. Isso permitirá que o clíni- co diga se a pontuação pós-mórbida da paciente é mais provável que se encaixe em uma distribuição de indiví- duos com FE prejudicada ou desordenada nas atividades do cotidiano do que na população adulta em geral. Mais uma vez, será clinicamente útil fazer compara- ções com formulários de Heterorrelato preenchidos por alguém que conheça bem essa paciente, para ver se mudanças semelhantes estão sendo relatadas nas pontuações pré-mórbidas e pós-mórbidas da BDEFS. Os dados das Tabelas 8.1 e 8.2 baseiam-se apenas nos formulários de Autorrelato da BDEFS. Mesmo assim, pode-se usar os formulários de Heterorrelato para fornecer algumas informações sobre a validade das mudanças observadas nesses casos, dado o grau satis- fatório ou razoável grau de concordância interobser- vadores relatado para o P-BDEFS no Capítulo 6, bem como para classificações de autorrelato e heterorrelato do domínio semelhante e relacionado a sintomas de TDAH em vários estudos anteriores (ver Barkley et al., 2008, 2011). Os formulários de Heterorrelato, nes- se caso, estão sendo usados como um controle sobre a validade das auto-avaliações da paciente. As diretrizes relatadas acima para determinar se uma disparidade entre avaliação de autorrelato e heterorrelato é subs- tancial o suficiente para ser maior do que um erro de medida podem ser usadas nesta instância como dire- trizes imprecisas do quando a disparidade é grande o suficiente para ser maior que um erro de medida. 106 | 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | No presente exemplo, o clínico pode achar que a pacien- te subestimou as mudanças que ocorreram em sua FE nas atividades da vida cotidiana como consequência de sua lesão, em relação aos relatos de alguém que a conhe- ce bem. Isso pode ter ocorrido porque a autoconsciência da paciente foi tão dramaticamente comprometida pela lesão que ela não pode ser considerada como uma fonte válida de sua própria situação pós-mórbida. Dado que a autoconsciência é um dos principais componentes da FE (ver Capítulo 1), uma subnotificação da mudança nas auto-avaliações pode ser uma consequência de danos substanciais no CPF. Avaliando mudanças em FE devido a distúrbios psiquiátricos ou eventos emocionalmente traumáticos Os eventos que levam a mudanças em FE nas atividades cotidianas, mesmo aquelas que podem ser relativamente transitórias, nem sempre têm que se originar em alguma lesão no cérebro em geral ou no CPF em particular. A combinação de FE com o funcionamento do CPF e, por- tanto, de dois níveis de análise distintos (neuropsicoló- gicos e neurológicos), pode enganar os clínicos e outros fazendo-os acreditar que apenas lesões no cérebro po- dem resultar em déficits de FE nas atividades cotidianas. Mas é igualmente possível que distúrbios psiquiátricos, como o TDAH, distúrbios de aprendizagem ou autismo, que têm origem no desenvolvimento e podem surgir de um desenvolvimento maligno sutil do cérebro, genetica- mente ou até mesmo influenciado pelo meio ambiente (como nas interações gene de risco x toxina no TDAH), deem origem a tais déficits. De fato, como mostrado em capítulos anteriores, o TDAH, independentemente da sua etiologia, é altamente susceptível a estar associado a déficits de FE nas atividades do cotidiano, mesmo que os déficits sejam menos evidentes nos testes neuropsi- cológicos de FE. Conforme observado no Capítulo 2, essa disparidade nos resultados das classificações de FE versus testes de FE foi encontrada para vários distúr- bios do desenvolvimento neurológico além do TDAH. Em suma, a ausência de evidência de lesão cerebral em pacientes que manifestam déficits significativos de FE nas atividades cotidianas, conforme medido por escalas como a BDEFS, não impede de forma alguma a possibi- lidade de que tais déficits existam e sejam legítimos. A evidência de etiologia neurológica não é um pré-requi- sito para estabelecer a validade desses déficits. Também é possível, até mesmo para indivíduos com de- senvolvimento normal do cérebro, experimentar déficits de FE episódicos nas atividades do cotidiano como con- sequência de transtornos psiquiátricos que nem sempre são de origem desenvolvimental, como depressão e an- siedade. Tais distúrbios podem ser suficientemente pro- fundos para interferir na utilização adequada e efetiva das FE na vida cotidiana, mesmo que o sistema neuroló- gico subjacente às FE não esteja comprometido. Os oni- presentes circuitos e redes de feedback conhecidos por existirem no funcionamento do cérebro, e especialmen- te na relação do CPF com vários outros sistemas que não são de FE, tornam muito possível distúrbios que não se originam no sistema FE (ou no CPF, no caso) terem um efeito prejudicial na FE, no cotidiano. Assim, como nem todos os distúrbios cerebrais levam a uma interrupção do sistema de FE ou de seu uso efetivo nas atividades diárias, nem todas as interrupções nas FE em tais ati- vidades necessariamente precisam residir no cérebro ou especificamente no CPF. De fato, as classificações dos déficits de FE nas atividades da vida cotidiana po- dem ser ainda mais sensíveis aos efeitos prejudiciais dos transtornos psiquiátricos, ou mesmo aos efeitos transi- tórios de eventos traumáticos psicologicamente ou emo- cionalmente, do que os testes de FE. A existência de déficits em um dado nível de FE não ne- cessariamente leva a que os déficits sejam encontrados em níveis mais baixos da hierarquia de FE, como discu- tido em outra obra (Barkley, 2011a). Eles podem surgir em níveis mais elevados de FE através de várias influên- cias não neurológicas. Da mesma forma, a existência de déficits em um nível inferior de FE não assegura auto- maticamente sua expressão em um nível mais alto, uma vez que a expressão fenotípica nesse nível mais alto pode ser dependente da ou moderada pela existência de es- truturas externas compensatórias ou fatores ambientais nesse nível mais elevado. A perspectiva de longo prazo de nível único (cognitivo-instrumental), de origem úni- ca (o cérebro/CPF) dos déficits de FE é uma simplifica- ção excessiva. É também uma perspectiva errônea – não só em vista da acumulação de evidências para a orga- nização hierárquica da FE, mas também em vista dos efeitos fenotípicos ampliados da FE à distância, que po- dem ser expressos nas esferas em expansão do funciona- mento adaptativo diário individual, nas relações sociais interpessoais e no desempenho efetivo na maioria dos domínios das principais atividades cotidianas ao longo de semanas, meses ou anos. O nível cognitivo das FE e sua ligação subjacenteao CPF não surgiu no decurso da evolução humana para permi- tir que os humanos fizessem testes de FE simplificados 107| 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | e socialmente neutros. Provavelmente foi selecionado, tendo em vista os problemas adaptativos que surgiram nas atividades diárias envolvendo mais frequentemente outros concorrentes e cooperadores humanos autorre- guladores, como meio de abordar esses problemas adap- tativos (Barkley, 2001). As classificações de FE nas ati- vidades da vida cotidiana são mais propensas a detectar esses efeitos fenotípicos ampliados do que os testes de FE ou as baterias desses testes, dada a sua gama de ve- rificação muito maior (meses vs. minutos), a confiança em múltiplas fontes (avaliação de autorrelato e heteror- relato), a capacidade para capturar mais configurações ambientais e domínios de atividade, a maior capacidade de incorporar a natureza social das FE e a capacidade de avaliar atividades de FE mais hierarquicamente comple- xas e temporalmente estendidas do que jamais seria o caso para testes de FE. Como consequência, mais déficits de FE na vida diária provavelmente serão encontrados em mais distúrbios neurológicos e psiquiátricos, ou ain- da em mais situações de comprometimento psicológico do que até agora fora documentado usando testes de FE. Isso explica facilmente a situação que surgiu na avalia- ção clínica das FE, em que os examinadores foram mais propensos a documentar déficits de FE em vários trans- tornos neurológicos e não neurológicos com classifica- ções de FE do que com testes de FE. Essas descobertas não são motivo de frustração com as classificações de FE ou evidências contra tais classificações, como se elas ressaltassem falsamente os déficits de FE que de outra forma não existiriam. Elas são apenas facilmente vistas como evidências de que os testes cognitivos de FE são grosseiramente pouco sensíveis à expressão fenotípica prolongada de FE em atividades diárias importantes, durante longos períodos de tempo, em domínios im- portantes do funcionamento adaptativo humano. E es- sas descobertas quanto às classificações de FE também fornecem evidências de que mesmo distúrbios não neu- rológicos ou eventos psicológicos transitórios podem influenciar a expressão ou a utilização efetiva das FE nas atividades cotidianas, mesmo que o sistema neurológico subjacente, que dá origem a elas, esteja intacto. Para reiterar, FE são uma construção neuropsicológica que não depende da sua existência e utilidade em al- guma ligação obsessivamente servil a um menor nível biológico de análise (dano cerebral) ou a algum teste de laboratório ordenado por consenso, anunciado como condição sine qua non da avaliação de FE. Pode ser es- tudado por sua utilidade e contribuição para a compre- ensão do comportamento e assuntos humanos por conta própria, independentemente do campo da neurologia. Podemos fazê-lo desde que as FE sejam definidas ope- racionalmente em seu próprio nível psicológico de aná- lise e que modelos teóricos desse nível sejam testáveis e cientificamente e clinicamente úteis. Por esses critérios, as classificações de FE (e outras metodologias de obser- vação) podem desempenhar um papel mais valioso do que os testes de FE em tais conceituações, construção de modelos e testes de modelos, bem como na avalia- ção clínica e científica das FE. A evidência disponível, bem como o nível de análise e o extenso domínio fe- notípico de interesse para o examinador, deve ser o que determina o melhor meio para avaliar das FE – e não uma adesão dogmática a uma obsessão historicamente datada com testes laboratoriais como padrão-ouro para a avaliação de FE. Interpretando a BDEFS Uma interpretação profissional competente dos resulta- dos da BDEFS começa com uma compreensão completa da natureza das FE e as dimensões de seus componentes. Embora o Capítulo 1 possa servir como uma introdução a este tópico, não é um substituto para uma fundamenta- ção mais completa na literatura geral sobre FE. Por con- seguinte, é essencial que os examinadores tenham não só uma compreensão completa dos capítulos anteriores deste manual, mas também uma familiarização com a literatura neuropsicológica sobre FE, especialmente como ela se manifesta nas atividades da vida cotidiana. Em suma, a BDEFS tem como objetivo medir a capaci- dade de um indivíduo de se empenhar em autorregula- ção ao longo do tempo para a consecução de objetivos futuros, especialmente em contextos sociais. Especifica- mente, a BDEFS avalia as habilidades neuropsicológicas que servem para apoiar e contribuir com essa autorre- gulação temporal e futura: Gerenciamento de Tempo, Organização/Resolução de Problemas, Autocontrole (Inibição), Motivação e Regulação Emocional. Algu- mas informações interpretativas foram dadas acima na discussão de como calcular a pontuação da BDEFS. A interpretação adicional da escala baseia-se nas seguintes abordagens para entender o significado das pontuações. Validade aparente A abordagem de validade aparente para interpretação é auxiliada por uma completa familiaridade com os itens contidos na BDEFS e nas cinco seções (subescalas) às quais esses itens foram atribuídos. As pontuações eleva- 108 | 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | das em uma subescala (tipicamente em ou acima do per- centil 93, e especialmente em ou acima do percentil 98) podem sinalizar uma deficiência na área de FE nas ativi- dades do cotidiano. Um meio inicial de interpretar cada subescala em um relatório clínico é com base na sua va- lidade aparente. Ou seja, o examinador pode realmente interpretar o significado da pontuação de uma subescala a partir do nome dado a essa subescala (Gerenciamento de Tempo, Organização/Resolução de Problemas etc.). Essa interpretação pode ser aprimorada ao selecionar os itens individuais dessa subescala aos quais a pessoa respondeu com 3 ou 4 (estes são considerados sintomas) e citar esses itens diretamente na parte do relatório que diz respeito ao significado dessa subescala. Dado que as subescalas são moderadamente a altamente inter- correlacionadas, é muito improvável que um indivíduo produza pontuações desviantes em apenas uma ou duas subescalas da BDEFS. Embora essa não seja uma ocor- rência impossível, certamente seria motivo para uma maior exploração das razões de tal ocorrência tão inco- mum. Uma possibilidade seria uma lesão cerebral bem discreta e focalizada em uma pequena área do CPF ou do cerebelo. Outra pode ser o fingimento de uma doen- ça. Também em vista dessa interrelação das subescalas, não é incentivada a análise de diferenças interescalas, já que o significado de tais disparidades não foi explorado em nenhuma pesquisa até o momento. Isso não signifi- ca, no entanto, que as oscilações entre as subescalas não serão evidentes, apenas que a interpretação do signifi- cado de grandes disparidades entre elas não tem base empírica neste momento. Basta interpretar o significado de cada subescala separadamente e é provável que já seja o suficiente para se chegar ao significado das pontuações da BDEFS, em vez de tentar extrair informações adicio- nais de comparações subsequentes entre as subescalas para as quais nenhuma orientação pode ser dada aqui. Comparações normativas Uma interpretação adicional de cada subescala ou de outra pontuação contínua com a comparação da pon- tuação do indivíduo com a da população normativa, usando as folhas de pontuação e os percentis obtidos para elas. Isso é então relatado como a posição relativa do indivíduo em comparação com a população geral de adultos, e especificamente para o sexo e a faixa etária da pessoa e as normas usadas para obter tal resultado percentil. Quando o resultado percentil é usado, é dito que o indivíduo ficou dentro ou acima dessa porcenta- gem de indivíduos na população geral de sua faixa etária (e sexo, se as folhas de pontuaçãotrabalho e controle atencional” (Roberts & Pennington, 1996, p. 105). Eles observaram que o CPF também serve a “uma função de coordena- ção, integrando os processos cognitivos-perceptivos dos componentes ao longo do tempo e do espaço” (p. 105). Os autores declararam que esses ainda podem ser reduzidos a um conjunto menor de processos do CPF centrais, aqueles sendo “a capacidade de manter e mani- pular informações de curto prazo necessárias para gerar a próxima ação (memória de trabalho) e a capacidade de inibir ações inapropriadas” (p. 105). Pennington, Ben- netto, McAleer e Roberts (1996) acrescentaram qualifi- cações à definição de Welsh e Pennington acima, alegan- do que qualquer definição de FE “é geral e provisória” (p. 327). Eles também observaram que alguns componentes das FE podem implicar regiões fora do CPF, enquanto algumas funções do CPF não são consideradas a serem executivas por natureza. No entanto, eles não oferece- ram nenhuma orientação como qual característica es- sencial faria uma função ser executiva ou não. Uma abordagem bastante diferente para definir FE foi dada por Lezak (1995) em sua abrangente revisão da avaliação neuropsicológica. Para ela, As funções executivas consistem nas capacidades que permitem que uma pessoa se envolva com sucesso em um comportamento independente, proposital e auto-orientado. Elas diferem das funções cognitivas de várias maneiras. As ques- tões sobre funções executivas perguntam como e se uma pessoa faz algo (por exemplo, você fará isso e, em caso afirmativo, como?); as perguntas sobre funções cognitivas são geralmente formu- 10 | 1. Funcionamento Executivo | ladas em termos de o que ou quanto (por exem- plo, o quanto você sabe? O que você pode fazer?). (p. 42; tradução nossa) Reconfortante aqui é a ênfase na importância social das FE – a noção de que as FE não são apenas orientadas para objetivos ou propósitos de qualidade (como outros também enfatizaram), mas que são essenciais para um comportamento socialmente independente e que tal comportamento impulsiona interesses próprios. Lezak segue dizendo: As funções executivas podem ser conceituali- zadas como tendo quatro componentes: (1) vo- lição; (2) planejamento; (3) ação intencional; e (4) desempenho efetivo. Cada um envolve um conjunto distinto de comportamentos relaciona- dos à atividade. Todos são necessários para uma conduta adulta apropriada, socialmente respon- sável e eficaz. Além disso, é raro encontrar um paciente com capacidade prejudicada para au- to-direcionamento e autorregularão que tenha dificuldades em apenas um desses aspectos do funcionamento executivo. Em vez disso, o com- portamento executivo falho geralmente envolve um conjunto de déficits no qual uma ou duas podem ser especialmente proeminentes. (p. 650; tradução nossa) O termo “volição” aqui se refere a uma escolha conscien- te de ações que são intencionais ou de natureza propo- sital e, portanto, são guiadas por uma formulação cons- ciente de um estado tanto atual quanto futuro desejado do indivíduo, bem como o objetivo de buscar satisfazer esse desejado estado futuro. Em outras palavras, há uma intencionalidade deliberada para o comportamen- to guiado por FE; também requer a geração consciente desses estados motivacionais/emocionais, que serão ne- cessários para iniciar e sustentar a ação direcionada para o futuro. Por isso, há um forte elemento motivacional em FE, como definiu Lezak, e não apenas um elemen- to cognitivo frio. Stuss e Benson (1986) e Fuster (1997) também observaram esse aspecto motivacional essen- cial das FE. Lezak observou ainda que o desempenho efetivo exige uma capacitação para a autoconsciência e, portanto, o auto-monitoramento desse desempenho contínuo versus o objetivo a ser alcançado. Essa auto- consciência não inclui apenas a consciência do status fí- sico, mas também a do contexto ambiental e situacional em que existe, além da natureza social da maioria desses contextos (autoconsciência dos outros). É importante para os propósitos do presente manual a ênfase de Lezak (1995) de que muitas das capacidades envolvidas no planejamento, especificamente, e no fun- cionamento executivo, em geral (como volição, escolha, intencionalidade, auto-motivação e autoconsciência), são difíceis para examinar apenas por teste. Ela afirmou que as informações sobre essas capacidades são mais provavelmente derivadas da história da pessoa, das ob- servações clínicas do indivíduo ao longo do período de exame, dos relatos de outros que conhecem bem a pes- soa e dos registros de arquivo disponíveis para se fazer uma averiguação indireta de déficits. Mais recentemente, em relação à sua própria criação de uma escala de classificação para avaliar o funcionamen- to executivo em crianças (e, mais tarde, adultos), Gioia, Isquith, Guy e Kenworthy (2000) escreveram: As funções executivas são uma coleção de pro- cessos que são responsáveis por orientar, direcio- nar e gerenciar funções cognitivas, emocionais e comportamentais, particularmente durante uma situação de resolução de problemas ativa e ino- vadora. O termo função executiva representa um construto guarda-chuva que inclui uma coleção de funções inter-relacionadas que são responsá- veis por um comportamento intencional, dirigi- do para objetivos e de resolução de problemas. (p. 1; tradução nossa) A definição de FE também foi abordada a partir da pers- pectiva de processamento de informações. Um exemplo dessa perspectiva é o trabalho de Borkowski e Burke (1996) e de outros investigadores neste campo cujos tra- balhos eles resumiram. Borkowski e Burke descreveram FE como um conjunto de três componentes voltados para a resolução de problemas: análise de tarefas (essen- cialmente definindo o problema), seleção e revisão de estratégias e monitoramento de estratégia. Esses autores também citaram um modelo diferente de processamen- to de informações desenvolvido por Butterfield e Al- bertson (1995), que vê o processamento da informação como tendo três componentes: cognição, metacognição e funcionamento executivo. Cognição é todo o conhecimento e as estratégias que existem na memória de longo prazo; esse reservatório de informações é fundamental para a resolução efetiva de problemas. O nível meta- cognitivo está consciente desse nível mais basal e possui modelos dos vários processos cognitivos, 11| 1. Funcionamento Executivo | bem como a compreensão de como o conheci- mento e as estratégias se interligam. O funcio- namento executivo coordena esses dois níveis de cognição monitorando e controlando o uso do conhecimento e das estratégias em concordância com o nível metacognitivo. (Borkowski & Burke, 1996, p. 241) Uma visão semelhante da FE como processamento de informações a explica da seguinte maneira: O conceito abrangente de “controle executivo” en- globa as funções cognitivas envolvidas na seleção, no agendamento e na coordenação dos processos computacionais responsáveis pela percepção, me- mória e ação (Norman & Shallice, 1986; Shallice, 1994) ... [FE permitem] a manutenção do com- portamento dentro de um conjunto de metas e a adequação do comportamento ao contexto (Pen- nington & Ozonoff, 1996). (Ciairano, Visu-Petra, & Settanni, 2007, p. 335; tradução nossa) De acordo com Martha Denckla (1996), “FE tornou-se uma frase taquigráfica útil para um conjunto de pro- cessos de controle de domínio geral” (p. 263). Ela então notou o que esses processos são propensos a envolver, como inibição e atraso de resposta, determinação an- tecipada, prontidão para agir, liberdade de interferên- cia e a capacidade de ter uma sequência de resultados comportamentais, bem como fazer um planejamento (p. 265). Ela atribuiu “aspectos diferenciados do tempo fu- turo dos construtos de FE: ‘atenção ao futuro’, ‘memória prospectiva’ (‘lembrar-se de se lembrar’) ou ‘memória para o futuro’ são alguns dos slogans empregados” (p. 266). Denckla fez uma observação crítica de que muitasreferentes ao sexo no Apêndice forem usadas) quanto a FE em atividades da vida diária. Comparações entre avaliações de autorrelato e heterorrelato Mais uma vez, o examinador é fortemente encorajado a pedir a alguém que conheça bem o examinando que preencha um formulário de Heterorrelato, de modo a obter informações quanto a concordância interobser- vadores e uma verificação rápida sobre a provável vali- dade das classificações. A interpretação da BDEFS pode então continuar com uma discussão sobre os resultados dessa comparação. Deve-se ter cuidado para não supor automaticamente que as classificações no formulário de Heterorrelato são de alguma forma mais válidas ou devem servir como padrão da “verdade” com a qual se- riam julgadas as autoavaliações do participante. Essa é uma comparação relativa entre dois observadores, ne- nhum dos quais tem uma reivindicação exclusiva da verdade. No entanto, a comparação em si é informativa para mostrar se uma parte relata um número substan- cialmente maior ou menor de problemas de FE do que a outra. Se essas disparidades excederem os pontos de corte sugeridos abaixo, o examinador precisa usar isso como uma oportunidade para explorar possíveis ra- zões para tais disparidades. Conforme observado aci- ma, não é incomum para os indivíduos menores de 30 anos darem menos informações sobre suas dificuldades, enquanto aqueles com mais de 30 anos podem apontar informações em excesso em relação aos relatórios de terceiros próximos a eles. Além disso, lembre-se, como dito no início deste capítulo, de que comorbidades para o TDAH, como a ansiedade e a depressão, foram asso- ciadas a maiores disparidades entre as avaliações de au- torrelato e heterorrelato e devem ser exploradas ainda mais na avaliação clínica. Isso é especialmente verdade para ansiedade e depressão em populações com acom- panhamento clínico; na população em geral, o TDAH é a principal correlato de tais disparidades. Quando uma disparidade deve ser vista como clinica- mente significativa ou suspeita? Na minha opinião, a mesma fórmula estatística utilizada acima na determi- nação do RCI para as pontuações de mudanças obtidas desde as avaliações pré-tratamento até as pós-tratamen- to também pode ser usada de forma proveitosa para de- terminar quando uma disparidade entre classificações de autorrelato e heterorrelato é suficientemente grande para ser considerada uma diferença confiável. Afinal, em cada uma dessas duas instâncias, duas pontuações 109| 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | sobre um indivíduo de duas classificações distintas es- tão sendo comparadas; em uma, a comparação é entre duas classificações feitas pela mesma fonte ao longo do tempo, enquanto na outra é entre duas avaliações feitas por fontes distintas num mesmo tempo. Em ambos os casos, a correlação entre as duas avaliações é usada para determinar se a diferença é confiável. No primeiro caso (pontuação pré e pós-tratamento), a correlação é a de confiabilidade de teste-reteste e é considerado o RCI. No segundo caso (avaliação de autorrelato versus heterorre- lato), a correlação é da concordância entre avaliadores e é considerado o “índice de diferença confiável” (reliable difference index) ou RDI. A Tabela 8.3 fornece os limiares do RDI para as pon- tuações obtidas tanto para a BDEFS-LF quanto para a BDEFS-SF. Os desvios-padrão utilizados para criar es- ses limiares foram os relatados no Capítulo 5 para cada pontuação de cada faixa etária na amostra normativa, conforme aparecem na Tabela 5.4 para as pontuações da BDEFS-LF. Os desvios-padrão na Tabela 5.5, para a Pon- tuação Total de FE da BDEFS-SF foram utilizados para calcular o limiar (RDI) para esse resultado na Tabela 8.3. As correlações de confiabilidade interavaliadores usadas para criar esta tabela vêm daquelas obtidas do protótipo da BDEFS, o P-BDEFS, conforme relatado no Capítulo 6. Como não havia a subescala Regulação Emocional no P-BDEFS, a média das correlações de interavaliadores para as outras quatro subescalas (0,72) foi utilizada para estimar a correlação de interavaliadores para essa su- bescala. Como não havia nenhum formulário curto do P-BDEFS, a correlação interavaliadores utilizada para a Pontuação Total de FE da BDEFS-SF foi a mesma usada para a Pontuação Total de FE da BDEFS-LF (0,78). Para usar essa tabela, primeiro subtraia o Heterorrelato do Autorrelato. Com essa diferença de pontuação em mente, procure na Tabela 8.3 ao longo da linha apro- priada para essa pontuação e sob a coluna para a fai- xa etária da pessoa avaliada. O número nesta célula é o RDI, ou o limiar que essa diferença de pontuação precisa igualar ou exceder para ser considerada uma diferença confiável. É considerada uma diferença confiável ou sig- nificativa, quando teria ocorrido em 5% dos casos ou menos. Os clínicos devem entender que esses limiares na Tabela 8.3 são diretrizes relativamente imprecisas ou aproximadas para determinar quando uma disparidade entre Heterorrelato e Autorrelato é de tal magnitude que é improvável que seja devida ao acaso ou à falta de con- fiabilidade da escala de classificação. Tabela 8.3. O índice de diferença confiável (reliable difference index – RDI) necessário para que uma diferença de pontuações entre heterorrelato e autorrelato seja significativa (confiável) nas sub- escalas da BDEFS-LF, e na pontuação total de FE da BDEFS-LF e da BDEFS-SF Pontuação RDI por grupo etário 18 – 34 35 – 49 50 – 64 65 – 81 Gerenciamento de Tempo 15,0 14,6 13,6 10,3 Organização/Resolução de Problemas 19,9 20,4 19,6 15,5 Autocontrole 13,6 12,9 11,2 9,3 Motivação 8,9 8,0 7,4 4,8 Regulação Emocional 11,7 11,7 9,2 7,6 Pontuação Total de FE da BDEFS-LF 52,0 52,4 46,8 34,2 Pontuação Total de FE da BDEFS-SF 12,0 12,0 10,9 7,9 Conforme discutido no Capítulo 7, altas pontuações na BDEFS ou no P-BDEFS foram associadas em nossa pesquisa com várias dificuldades em vários domínios das principais atividades do cotidiano. Portanto, quan- to maiores as pontuações observadas na BDEFS, mais provável é que um participante esteja em risco de ter problemas nesses mesmos domínios. Estes riscos devem ser observados na interpretação clínica do significado maior das pontuações da BDEFS, além de simplesmente refletir as dimensões cruciais das FE na vida cotidiana para as quais as subescalas são nomeadas. Problemas com o funcionamento educacional e profissional, a sa- tisfação conjugal, a renda e a gestão financeira, os resul- tados de condução de veículos adversos, várias formas de sofrimento psicológico (ansiedade, depressão, hos- tilidade etc.), estresse parental e problemas psicológi- cos nos descendentes são todos correlatos de maiores pontuações na BDEFS, que notificam o examinador e 110 | 8. Calculando a Pontuação e Fazendo a Interpretação dos Formulários da BDEFS | provavelmente devem ser transmitidas ao avaliando quando apropriado e aplicável. Tais informações tam- bém podem ser vinculadas ao que já é conhecido sobre o participante a partir da avaliação clínica mais ampla, da qual a BDEFS deve ser simplesmente um componente. O examinador terá informações sobre a história do in- divíduo em relação a esses e outros principais domínios da atividade cotidiana e os problemas da BDEFS podem ser considerados dentro desse contexto maior. Os resul- tados da BDEFS podem talvez fornecer hipóteses adi- cionais e até explicações sobre por que eventos adversos nesses vários domínios podem ter sido consequências ou, pelo menos, associados a déficits em FE. Essa aná- lise de risco relativa a deficiências pode ser ainda mais auxiliada pelo uso da BFIS (Barkley, 2011a), na qual as normas nacionais estão disponíveis para autoclassifica- ções de comprometimento potencial em 15 áreas princi- pais de atividades cotidianas. A BFIS também possui um formulário de Heterorrelato, que pode contribuir ainda mais para a avaliação do risco de deficiência no paciente.conceituações das FE começam com a premissa inques- tionável de que elas são o que quer que sejam que os lobos frontais façam: quanto mais funções aprendemos que os lobos frontais têm, mais funções vão sendo adi- cionadas às FE e vice-versa. Ela observou com razão que a ligação dos dois níveis é uma hipótese, não um fato. Ela também trouxe ao conhecimento um artigo de Heil- man (1994), apresentado em uma reunião científica, na qual ele se referiu às FE como o “como” e “quando” da intencionalidade, fracionadas em iniciar, sustentar, ini- bir e mudar. A problemática nessas várias definições confiando na ação direcionada a objetivos como a função global da FE, é a seguinte: os autores afirmam que vários proces- sos neurocognitivos são essenciais para essa ação, no entanto (1) eles geralmente não especificam quais são esses processos; e (2) eles não indicam que base ou ló- gica qualifica estes para serem considerados processos “executivos”, enquanto outros, igualmente importantes para a ação direcionada a objetivos, não são tão con- siderados. O que faz um processo neurocognitivo ser “executivo” por natureza? Não pode ser apenas que ele contribua para a ação direcionada a objetivos. As ações sensório-motoras conscientes podem ser consideradas como contribuições, ainda que caminhar ou fazer mo- vimentos com as mãos por si só, por exemplo, não pa- reçam ser o que se entende aqui pelo termo “executivo”. Uma visão bastante diferente da FE foi proposta por Hayes, Gifford e Ruckstuhl (1996), usando um mode- lo mais analítico-comportamental e particularmente o conceito de comportamento governado por regras (ver Hayes, 1989). A análise deles quanto aos elemen- tos que muitas vezes eram creditados às FE, bem como muitos dos testes utilizados para avaliar FE, os levaram a concluir que FE trata-se de um subconjunto especial do comportamento regido por regras (regulado ver- balmente). O comportamento “governado por regras” é um comportamento que está sendo iniciado e guia- do por verbalizações, seja auto-dirigido ou conduzido por outros. Hayes e colegas (1996) argumentaram que as tarefas de FE colocam as pessoas em situações em que as fontes de regulação comportamental previamente aprendidas entram em conflito com regras estabelecidas pela tarefa e/ou pelo examinador. Essas regras de tarefas especificadas estão competindo com comportamentos que, do contrário, são automáticos e naturalmente pra- ticados. Assim, o fluxo de comportamento automático típico deve ser interrompido e atrasado tempo suficiente para que os indivíduos descubram uma nova regra ou selecionem entre as regras anteriormente aprendidas uma que possa ser aplicada em determinada situação. No entanto, interromper um comportamento natural- mente praticado, muitas vezes exige que uma regra seja selecionada e seguida, atrasando o início da resposta. E, portanto, nas tarefas de FE, os indivíduos muitas vezes precisam implementar uma regra para inibir sua natural resposta incomum, mesmo que esta seja só fazer uma pergunta sobre uma tarefa. Eles devem selecionar entre um conjunto relevante de regras previamente aprendi- das ou gerar uma nova. O último é um meio verbal pelo qual resolvemos problemas. Essa visão das FE parecia ganhar pouco apoio entre os neuropsicólogos tradicio- nais, que pareciam mais confortáveis adotando a visão cognitivo-neuropsicológica ou de processamento de in- formação das FE do que uma derivada da análise com- 12 | 1. Funcionamento Executivo | portamental. No entanto, características disso seriam incorporadas no meu próprio modelo de FE (Barkley, 1994, 1997a, 1997b) através do modelo de Vygotsky (1962) da internalização do discurso privado. Em 1994, eu esbocei os conceitos mais abrangentes de uma teoria das FE e apliquei-a especificamente ao TDAH, um transtorno de desenvolvimento relativamente crônico de falta de atenção, impulsividade e hiperatividade, co- nhecida por estar associada a vários déficits em FE (Fra- zier, Demareem & Youngstrom, 2004; Hervey, Epstein & Curry, 2004; Willcutt et al., 2005). Esta teoria “híbrida” foi posteriormente desenvolvida (Barkley, 1997b) e eventual- mente publicada em um livro (1997b; ver também Bar- kley, 2001). Uma característica própria desta teoria das FE é que ela especifica (1) que as FE são a autorregulação direcionada para o futuro; (2) que a autorregulação é um conjunto de ações auto-dirigidas (muitas vezes particu- lares, mas não necessariamente) usadas pelo indivíduo para definir seu comportamento subsequente, de modo a alterar a probabilidade de algum resultado futuro (atin- gir algum objetivo); e (3) que parece haver pelo menos cinco dessas atividades autodirigidas (executivas). Cada atividade executiva (autodirigida) surge da mesma ma- neira que o auto-direcionamento e a internalização do discurso descritos por Vygotsky (1962). Em suma, cada componente da FE é um tipo de autorregulação (ação autodirigida destinada a alterar uma consequência pos- terior, como alcançar um objetivo). Cinco dessas ações de autorregulação são elaboradas nesta teoria, cada uma das quais é uma ação consciente, voluntária e esforçada: 1. Auto-inibição. Esta representa (a) a capacidade de su- primir ou então interromper ou impedir a execução de uma resposta prepotente ou dominante a um evento (a resposta anteriormente associada ao reforço ou que seria a mais provavelmente usada em circunstâncias normais); (b) a capacidade de interromper uma se- quência natural de comportamento em direção a um objetivo se tal sequência se provar ineficaz; e (c) a ca- pacidade de proteger as ações autodirigidas que ocor- rerão subsequentemente e as ações orientadas para objetivos que elas guiam da interferência por eventos externos e internos irrelevantes para o objetivo. 2. Ação sensória-motora autodirigida. Esta é um meio alternativo de definir a memória de trabalho não- -verbal e refere-se ao uso de imagens visuais auto- dirigidas, juntamente com o ensaio privado de ações visual-motoras que isso permite. Embora consista em grande parte de imagens visuais ou do “olho da mente”, também abrange os outros sentidos, como secretamente re-ouvir, re-provar, re-cheirar e re-sen- tir (experiência sinestésico-proprioceptiva). Na tota- lidade, este componente da FE prevê a reexperiência consciente e voluntária de eventos passados – como numa encenação metafórica cartesiana da mente. No entanto, também inclui a capacidade de praticar ou reproduzir ações sensório-motoras secretamente para si mesmo, como uma forma de simulação men- tal comportamental. 3. Discurso privado autodirigido. Esta é uma explicação alternativa para o sistema de memória de trabalho verbal comparando com a oferecida pelos modelos de processamento de informações e modelos cog- nitivos tradicionais das FE, como o loop fonológico de Baddeley (1986) em seu modelo de memória de trabalho. Baseia-se, em grande parte, na teoria de Vygotsky (1962) sobre a internalização do discurso para formar a “voz da mente”. Os indivíduos con- versam consigo mesmos visando permitir o ensaio secreto de enunciados e frases, bem como instruções autodirigidas, autoquestionamentos e outros meios pelos quais a linguagem pode ser usada para autor- regulação e resolução de problemas. 4. Emoção/Automotivação autodirigida. Acredita-se que este componente da FE surja a partir da com- binação dos três primeiros, em que o indivíduo aprende a usar a inibição, as imagens privadas (e as sensações privadas em geral) e a fala privada para inicialmente inibir emoções fortes e, em seguida, regulá-las para baixo ou então moderá-las. A pes- soa então emprega esses outros componentes para substituir a emoção forte inicial por respostas al- ternativas de emoção, mais consistentes com as de- mandas sociais e as suas próprias metas e bem-estar futuro. Como as emoções são estados motivacionais, o quarto componente das FE também fornece a ca- pacidade de automotivação – os estados de impulso necessáriospara iniciar e sustentar uma ação em di- reção ao futuro. 5. Jogo1 autodirigido (reconstituição). O quinto compo- nente das FE é uma alternativa aos componentes de 1 Nota do editor: ao longo do manual existem algumas referências ao termo “play”, que na epistemologia seguida por Barkley está ligada ao sentido de brincar enquanto atividade cognitiva, que envolve a imaginação e manipulação mental (internalizada) das atividades, se vinculando à tradição em que se encontram Luria e Vygotsky, por exemplo. O leitor deve interpretar “jogo” ou “jogar” neste sentido, ao longo do presente manual. 13| 1. Funcionamento Executivo | planejamento, resolução de problemas e de fluência de inventividade ou generatividade observados em outras visões das FE. A hipótese é de ter sido fun- damentada no desenvolvimento do brincar e é vista essencialmente como uma atividade em duas etapas. A primeira é a “análise”, ou desconstruir as caracte- rísticas do ambiente e o próprio comportamento do indivíduo perante ele. Na sequência vem a “síntese”, ou o reagrupamento dos componentes do ambiente e estruturas comportamentais em novas combinações. Essas novas combinações podem então ser testadas em relação a um critério, como um problema ou obje- tivo, segundo a sua provável eficácia na superação de obstáculos e a realização dos objetivos. Embora isso comece como um jogo manual observável, progride como os outros componentes de FE para serem ativa- dos em si e internalizados como uma forma de jogo mental privado. Isso permite a manipulação tanto de informações representadas mentalmente sobre o am- biente quanto de estruturas comportamentais prede- terminadas, de modo a produzir novas combinações que podem servir como opções para resolução de problemas orientados a objetivos. É possível que esse componente possa ser subdividido em módulos não- -verbais e verbais que proporcionem fluência e gene- ratividade em cada uma dessas formas de comporta- mento. Acredita-se que fluências não verbais, verbais e de ação surjam a partir deste componente das FE. Uma característica própria desta visão das FE é que ela define operacionalmente o termo (autorregulação atra- vés do tempo com vistas ao futuro), especifica as suas cinco funções componentes (inibição, ação sensório- motora, fala privada, emoção/motivação e o brincar) e afirma por que elas são de natureza executiva (são ações autodirigidas que alteram as consequências futuras). FE são, portanto, um conjunto autodirigido de ações desti- nadas a alterar um resultado (atingir um objetivo, por exemplo) tardio (no futuro). As ações que não são au- todirigidas, incluindo qualquer uma usada para atingir o objetivo, não são consideradas de natureza executiva. Mas as ações autodirigidas que orientam essas outras atividades são executivas. Atributos comuns nas definições de FE Alguns princípios amplos envolvidos no conceito de FE podem ser encontrados em toda a história do seu desen- volvimento: ■ A grande maioria das definições enfatiza a direção por objetivos das FE. O conceito, portanto, inclui uma orientação para o futuro, qualidade intencional ou intencionalidade de ação. ■ Algumas enfatizam o elemento essencial da previsão – um sentido do futuro. “O homem é o animal que se conecta ao longo do tempo, vinculando o presen- te ao futuro”, como Fuster (1997) observou em sua ênfase na organização temporal cruzada do compor- tamento. ■ Não-citada na maioria das definições de FE, embora inerente à sua natureza dirigida por objetivos, está a consciência ou sensação de tempo, momento e pontu- alidade. É o período temporal anterior em que even- tos, ações e consequências estão sendo consciente- mente unidos e avaliados, e decisões estão sendo tomadas sobre o que é desejável (o objetivo que o indivíduo eventualmente quer alcançar). Sem dúvi- da, isso varia de acordo com cada indivíduo e contri- bui para a variação humana na importância dada ao tempo ou desconto/recompensa – a medida com que os indivíduos diminuem o valor de uma recompensa atrasada em comparação a uma recompensa imedia- ta em função do intervalo de tempo ou atraso (Gre- en, Fry & Myerson 1994; Green, Myerson, Lichtman, Rosen & Fry, 1996). É um fator crítico em algumas teorias da economia e da tomada de decisão humana no intercâmbio social (Mises, 1948, 1990). ■ Para analisar e selecionar entre vários cursos de ação que podem ser relevantes para alcançar um objeti- vo futuro, é preciso conscientemente considerar a experiência de alguém – o que se fez anteriormente em situações semelhantes, quão bem-sucedido se foi e como isso pode ser aplicável à situação atual e ao objetivo desejado. Esta é a função retrospectiva, ou retrospeção. ■ Normalmente rudimentar também na maioria des- sas definições está outra capacidade que é inerente à ação dirigida para objetivos e à previsão necessária para a sua concepção: a autoconsciência. Cada ob- jetivo representa uma vontade, um desejo, um valor ou, mais geralmente, uma mudança no estado atual das vontades e necessidades de uma pessoa (redução da insatisfação, aumento do bem-estar ou satisfa- ção). Isso representa um conflito entre o estado atual do indivíduo (o que ele ou ela sente agora) e o que o indivíduo quer que esse estado seja. O conflito é, por definição, um problema para o indivíduo. Para ser capaz de resolver tais conflitos de estado, o indivíduo deve estar ciente disso – isto é, deve ser autoconscien- te desses estados internos atuais e futuros. 14 | 1. Funcionamento Executivo | ■ Para conceber um estado futuro para si mesmo (embora seja hipotético), o que significa fazer uma previsão, o indivíduo deve deixar de responder ao presente (o agora). A atenção deve ser tirada do momento e redirecionada para si mesmo e o futuro mentalmente contemplado – o objetivo. Isso requer inibição – especialmente a inibição das respostas pre- potentes. ■ Muitos autores observaram que a ação dirigida para objetivos requer um conjunto de processos neuro- cognitivos mais frequentemente identificados da se- guinte forma: − Memória de trabalho. Reforçando a informação na mente, como objetivos e sub-objetivos, e os meios para alcançá-los – o plano. − Planejamento. Mapeando as táticas e as estra- tégias (os conjuntos de ações conhecidos ou os meios necessários para atingir o objetivo e quais- quer sub-objetivos) e, em seguida, construindo as estruturas comportamentais transtemporais e sua hierarquia, que irá superar o atraso de tempo e alcançar o objetivo final, o qual, claro, deve ser levado em consideração. − Solução de problemas. Os meios de gerar múlti- plas ações alternativas possíveis que podem ser necessárias quando as ações dirigidas a objetivos (planos iniciais) são frustradas ou malsucedidas e o plano precisa ser revisto. Pode até ser neces- sário reconstruir o plano inicial para começar, porque, como observado acima, a ação dirigida a objetivos surge quando há um conflito entre o estado atual (o que é) e o estado desejado (o que é desejado). Tal conflito, por definição, é um pro- blema. Portanto, a resolução de problemas pode precisar ser invocada logo no início da definição de uma ação dirigida a objetivos. A capacidade de resolução de problemas requer mentalmente testar ou simular as opções para o provável su- cesso (consequências) – ou seja, qual sua capa- cidade de atingir o objetivo. Isso provavelmente envolverá a capacidade de manipular o conteúdo da memória de trabalho ou o que se está tendo em mente. Este é predominantemente um pro- cesso de fluência de ação (Piatt, Fields, Paolo & Troster, 1999) em vez de fluência de nomeação de objetos. Em suma, o indivíduo pode conside- rar várias maneiras de fazer algo e então selecio- nar a que mais provavelmente alcançará o objeti- vo, dada a sua experiência. − Automonitoramento. Um processo contínuo de feedback comparativo autossupervisionado, que julga a adequação das ações sendo tomadas pelo indivíduo e suasconsequências (especialmente erros que possam sinalizar uma falha do plano) versus o plano desejado e seu objetivo. Podemos inferir que essa capacidade inclui uma outra ca- pacidade, de mudar (ou interromper e alterar) o fluxo contínuo de comportamento como con- sequência dessa atividade avaliativa, refletindo conforme a ação se torna mais sensível ao erro (ou ineficácia do plano original). − Controle de interferência. Uma capacidade inibi- tória sustentada para prevenir interferências de situações irrelevantes para o objetivo e respostas a elas (distratibilidade), tanto externas como in- ternas. Isso serve para proteger as outras ativida- des de FE de interrupção (deixando-as livre de distração). − Automotivação. O impulso, a vontade ou a moti- vação necessária para sustentar ações autodirigi- das para um objetivo futuro. Não importa o quão grande o plano ou mapa mental construído para alcançar uma meta seja, nenhum objeto automa- tizado que se locomove para uma ação pode ir a qualquer lugar sem uma fonte de combustível. ■ Todas essas funções ou capacidades necessárias para se envolver em ações dirigidas a objetivos são ini- ciadas e direcionadas para o benefício do eu e dos próprios interesses. Assim, a FE é, por definição, uma autorregulação para fins de interesses próprios. A “autorregulação” é qualquer ação direcionada por um indivíduo a si próprio que altera o seu compor- tamento subsequente, de modo a alterar a probabi- lidade de um resultado futuro (um objetivo) para si (Barkley, 1997a, 1997b; Skinner, 1953). O chefe executivo aqui é, portanto, o eu – o próprio sentido consciente de si mesmo ao longo do tempo (passado, presente e futuro) e, consequentemente, de suas ne- cessidades, vontades e desejos (interesses próprios), como se percebe ao longo do tempo. ■ Por fim, devemos reconhecer o fato de que os ob- jetivos para os quais as FE e seus componentes es- tão sendo utilizados são em grande parte objetivos sociais, que ocorrem no contexto de um grupo social. Esses objetivos sociais estão sendo almejados fre- quentemente junto com outros indivíduos, às ve- zes contra outros, e quase sempre no contexto mais abrangente de outros. Esse é o nicho relativo ao meio 15| 1. Funcionamento Executivo | em que as FE evoluíram, e foi para resolver os pro- blemas desse nicho que provavelmente elas evoluí- ram (Barkley, 2001; Diamond, 1980). Eu, portanto, defino FE como a autorregulação ao longo do tempo para alcançar os objetivos próprios (interesses próprios), muitas vezes no contexto de outros. FE são, portanto, um metaconstruto. Ou seja, tal autorregulação ao longo do tempo para atingir metas, muitas vezes em um contexto social, requer múltiplos módulos mentais interativos ou capacidades neuropsicológicas (constru- tos) que juntos contribuem para FE (o metaconstruto). Distúrbios ou dificuldades no funcionamento efetivo de qualquer módulo atrapalham as FE, mas de uma manei- ra diferente de distúrbios em outros módulos. Em outras palavras, o conceito de FE, definido como autorregula- ção, não é uma coisa única, mas envolve múltiplas ativi- dades autodirigidas. Essas atividades ou capacidades mentais incluem: au- tointerrupção (inibição) e autodefesa sustentada das FE (controle de interferência); autoconsciência ao longo do tempo, ou uma sensação consciente de tempo, passado e futuro (retrospectiva, previsão); memória de trabalho (informação representada mentalmente obtida a partir da percepção de si); planejamento próprio e resolu- ção de problemas; e auto-monitoramento (e mudança conforme necessário). Na idade adulta, muitas dessas atividades autodirigidas (por exemplo, autoconsciên- cia, imagens visuais, audição e fala privadas, regulação emocional privada e jogo mental) são inobserváveis ou muito difíceis de observar, e, portanto, são cognitivas ou mentais em sua forma. Outras podem ser mais públi- cas e exteriormente observáveis (por exemplo, o discur- so de si observável, a escrita de notas para si mesmo, o lembrete com bilhetes de sugestões ou outros estímulos em seu trabalho ou contexto de vida para aumentar a probabilidade de um comportamento posterior, medi- tando para reduzir um forte estado emocional negativo, rabiscando diversas opções para resolver um problema no papel, etc...). Todas são atividades executivas porque todas são autodirigidas e pretendem alterar uma con- sequência posterior. Uma vez que um problema pode ser definido como uma situação para a qual não há uma resposta prontamente disponível, ele é, por definição, uma situação nova. Portanto, FE e suas atividades auto- dirigidas parecerão ser mais necessárias e mais ativadas quando a novidade surgir. As funções executivas (atividades autodirigidas) não são independentes, mas interativas e, provavelmente, hierar- quicamente organizadas em termos de desenvolvimento. A capacidade de manter a informação em mente (me- mória de trabalho), como com o uso de imagens visuais, exige que o indivíduo iniba a resposta a eventos exter- nos momentâneos e resista à interferência de fontes de informações irrelevantes aos objetivos e que concorrem com eles (inibição e resistência à distração). A retenção de tais informações em mente pode ser aprimorada pelo discurso autodirigido (ou o loop fonológico, no modelo de memória de trabalho de Baddeley). Ambas as ativi- dades (fala e imagens) podem ser submetidas à manipu- lação mental (jogo autodirigido, ou funções executivas de fluência, generatividade ou reconstitutiva) para de- senvolver múltiplas opções possíveis para responder a uma situação. E a restrição emocional e a autocontrole, que podem ser necessárias para guiar o comportamento dirigido para objetivos em orientação a um objetivo pre- tendido, podem ser facilitadas ou mesmo iniciadas por imagens provocadas e discursos dirigidos a si mesmo. Essas, então, são as ideias que levaram à construção deste capítulo introdutório para a BDEFS. O desenvol- vimento da BDEFS está descrito no próximo capítulo. 16 | 2. Desenvolvimento da BDEFS | 2. Desenvolvimento da BDEFS As motivações que levaram ao desenvolvimento da BDEFS foram diversas. A primeira delas era o desejo de desenvolver um meio econômico de capturar de forma conveniente os inúmeros sintomas neuropsicológicos, comportamentais, emocionais e motivacionais frequen- temente atribuídos a déficits nas FE. A segunda surgiu da acumulação de evidências de que os testes de FE não eram os meios mais ecologicamente corretos para avaliar clinicamente as FE e estavam repletos de outros problemas que limitavam sua validade e utilidade clínica como supostas medidas de FE (Barkley & Fischer, 2011; Barkley & Murphy, 2011; Diamond, 1980; Lezak, 1995). Problemas com os testes de FE Muitos testes têm sido usados como forma de medir as FE na literatura neuropsicológica – demais inclusive para discutir detalhadamente aqui (ver as meta-análises de Frazier et al., 2004 e Hervey et al., 2004, para uma longa lista desses testes de FE utilizados apenas em estu- dos de TDAH; ver Lezak, Howieson, Loring, Hannay e Fischer, 2004, para uma revisão mais abrangente). Mas a premissa praticamente inquestionável de que os testes de FE são o padrão ouro para a medição de FE pode ser contestada por vários motivos: ■ Muitos desses testes não foram originalmente projeta- dos para medir FE (ver Lezak et al., 2004). Mesmo um exame superficial na história dos testes de FE mostra que muitos foram originalmente desenvolvi- dos para avaliar outras funções psicológicas, como atenção, memória (tanto verbal quanto visuoespa- cial), sequenciamento, raciocínio abstrato e lingua- gem. Outros destinavam-se a avaliar a inibição de resposta, o planejamento e a resolução de problemas diretamente, sem considerar que esses construtos es- tavam envolvidos nas FE. E a maioria não avalia as funções do lobo frontal (FE) de forma exclusiva ou diferencial (Dodrill, 1997). Mas, uma vez que o ter- mo guarda-chuva da FE foi definidocomo incluindo esses construtos, ou que pode ser demonstrado que os déficits apontados nesses testes foram aparente- mente associados a lesões no CPF, os testes passaram a ser usados para avaliar FE, sem considerar se eles realmente eram uma amostragem do domínio con- ceitual ou do construto de FE. ■ Não existe uma definição baseada em consenso de FE que possa servir de padrão para determinar o cons- truto ou mesmo a encarar a validade da maioria dos testes de FE. FE é um conceito bem ambiguamente definido (ver Capítulo 1); os pesquisadores discor- dam do significado preciso do termo (Castellanos, Sonuga-Barke, Milham & Tannock, 2006; Willcutt et al., 2005). Em vez disso, as revisões da pesquisa pa- recem se concentrar mais em listar os construtos que se pensa serem englobados sob o termo e os testes que se acredita avaliarem esses construtos, tais como inibição de resposta, resistência à distração, memó- ria de trabalho, planejamento e resolução de proble- mas, e mudança de posição (Boonstra, Oosterlaan, Sergeant & Buitelaar, 2005; Frazier et al., 2004; Her- vey et al., 2004; Willcutt et al., 2005). ■ Se FE envolve a organização transtemporal e a manu- tenção do comportamento direcionado para objetivos, como muitos parecem acreditar, não é automatica- mente evidente a forma como os testes tradicionais de FE, usando um tempo de averiguação tão pequeno para avaliar o comportamento na clínica (tipicamente 5-30 minutos por teste), estão demonstrando a nature- za transtemporal de FE implicada por essas definições. Ou, se eles fazem isso, é apenas por durações tem- porais excepcionalmente curtas em relação às horas, dias e semanas em que os adultos sustentam suas atividades dirigidas a objetivos. Esse tempo de averi- guação incrivelmente breve certamente deve tornar difícil, se não impossível, que os testes de FE captem as longas estruturas transtemporais da ação humana comum. Esse problema de determinação temporal extremamente limitada por meio de testes por si só garantiria que eles estão pobremente relacionados ou não relacionados a medições de FE feitas em ambientes naturais, como por observações ao longo de dias ou por classificações ao longo de semanas e meses. Em contrapartida, as classificações de FE fei- tas no dia a dia determinam o comportamento em períodos de tempo consideravelmente mais longos (semanas a meses) e, portanto, funcionam melhor 17| 2. Desenvolvimento da BDEFS | do que os testes de FE como indicadores de orga- nização comportamental transtemporal e resolução de problemas direcionados para metas em ambientes naturais. ■ Os testes de FE não avaliam algumas das caracterís- ticas mais importantes das FE. Os testes de FE sim- plesmente não avaliam muitas das capacidades que se acredita serem fundamentais para a construção de FE, como comentado por alguns autores de Luria (1966) em diante, e até mesmo nas primeiras des- crições de lesões de CPF. Conforme observado por Lezak (1995) (ver Capítulo 1), estes incluem os cons- trutos de volição e vontade humana; intencionalida- de ou propósito; autoconsciência (de si mesmo, do contexto e de outros); e até aspectos do planejamen- to (previsão, objetividade, julgamento de escolha e comparativo, estruturação hierárquica) e execução do plano (automotivação, automonitoramento, re- sistência prolongada à interferência por situações irrelevantes ao objetivo etc.). ■ Além disso, dado o mais aproximado consenso de que as FE são a autorregulação, também não fica claro como os testes de FE atuais podem avaliar a automo- dificação para o interesse próprio de longo prazo, a autossuficiência e a independência social – também mencionados por Lezak (1995) e Eslinger (1996), en- tre outros, como inerentes ao conceito de FE. ■ Se FE evoluiu nas principais funções sociais, como a reciprocidade e o intercâmbio social, a concorrên- cia, a cooperação e o mutualismo de forma mais ge- ral (novamente, ver o Capítulo 1), a ausência de tais propósitos e motivações nos testes tradicionais de FE asseguraria ainda mais a sua limitada utilidade em prever FE nas atividades da vida diária e nos princi- pais domínios do funcionamento adaptativo. ■ As tarefas de FE não são apenas complexas, mas con- taminadas; envolvem múltiplos processos cognitivos, muitos dos quais nem são considerados parte das FE. Somente alguns desses processos estão supostamente refletindo o construto de FE que se pretende que seja amostrada (Anderson, 2002; Castellanos et al., 2006). Uma preocupação relacionada é que muitos testes de FE são frequentemente tachados como sendo signi- ficativamente influenciados pela capacidade cogniti- va geral ou pelo nível de inteligência (Mahone et al., 2002; Riccio, Hall, Morgan, Hynd e Gonzalez, 1994), tornando seus resultados difíceis de serem interpre- tados como refletindo medidas não adulteradas de um determinado construto de FE. É provável que isso explique os achados de que a remoção estatística de QI de relações entre testes de FE e observações e classificações de FE em ambientes naturais geral- mente reduzem quaisquer relações significativas para não-significativas (Mahone et al., 2002; Man- geot, Armstrong, Colvin, Yeates & Taylor, 2002). E também pode explicar o fato de que algumas das re- lações mais fortes observadas até o momento foram aquelas entre testes de FE e resultados de desempe- nho acadêmico (Biederman, Petty, Fried, Black, et al., 2008; Gropper & Tannock, 2009; Thorell, 2007) ou autoavaliações do desempenho acadêmico (Ready, Stierman & Paulsen, 2001). Dado que tanto o desem- penho acadêmico quanto o desempenho acadêmico autoavaliado estão significativamente relacionados ao QI, e que existe um método compartilhado (teste) quando os testes acadêmicos são usados, esse acha- do não surpreende. Este problema de contaminação conceitual é encontrado muito menos frequente- mente nas escalas de classificação de FE cujos itens foram selecionados intencionalmente para provar diretamente os vários comportamentos especificados nos construtos de FE (Barkley & Murphy, 2011). Tais escalas ou observações diretas também têm pouca ou nenhuma relação significativa com inteligência (Al- derman, Burgess, Knight & Henman, 2003; Barkley & Murphy, 2011), e, portanto, a questão da contami- nação por habilidade cognitiva geral é muito menos problemática nas escalas de classificação do que nos testes de FE. Assim, a validade conceitual ou aparente das escalas de classificação pode ser superior à dos testes de FE, meramente como consequência de sua construção inicial. Conforme mencionado acima, muitos testes de FE não foram projetados inicial- mente para medir os construtos de FE. ■ Apenas uma minoria de pacientes com lesões no lobo frontal, ou aqueles com TDAH que já se presumia que tinham um distúrbio do lobo frontal, marcaram pontuação na faixa indicativa de déficit em testes de FE. Por outro lado, a grande maioria desses pontuou dentro dessa faixa nas classificações de FE durante atividades do cotidiano ou em observações dire- tas do desempenho das FE em ambientes naturais (Alderman et al., 2003; Barkley & Murphy, 2011; Burgess, Alderman, Evans, Emslie & Wilson, 1998; Kertesz, Nadkarni, Davidson & Thomas, 2000; Mi- tchell & Miller, 2008, Wood & Liossi, 2006). Dada a forte ligação histórica das FE ao funcionamento do CPF (ver Capítulo 1), é improvável que os pacientes com transtornos do CPF também não demonstrem comprometimento nas FE. No que diz respeito ao 18 | 2. Desenvolvimento da BDEFS | TDAH, no entanto, essa situação levou alguns a ar- gumentarem que o TDAH provavelmente não é um transtorno das FE, uma vez que a maioria dos casos não apontaram déficit em testes de FE (Boonstra et al., 2005; Jonsdottir, Bouma, Sergeant & Scherder, 2006; Willcutt et al., 2005) – uma conclusão muito mais difícil de justificar logicamente nos pacientes com dano no CPF comprovado. ■ Os testes de FE têm uma validade ecológica muito bai- xa ou nula.