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Síntese Constitucionalismo e Constituição 
 
1. Definições 
 
 Partamos da definição de constitucionalismo por Gomes Canotilho: “é a teoria 
(ou ideologia) que ergue o princípio do governo limitado indispensável à garantia de 
direitos em dimensão estruturante da organização político-social de uma comunidade. 
Neste sentido, o constitucionalismo moderno representará uma técnica específica de 
limitação do poder com fins garantísticos” (p. 51). Nesta definição, fica evidenciado que 
o constitucionalismo tem uma natureza ambivalente: é uma teoria da política, que busca 
explicar a “anatomia do processo governamental” (Loewenstein) no contexto dos Estados 
Constitucionais, isto é, a estrutura jurídica e o funcionamento das instituições 
constitucionais, mas também é uma teoria normativa (ideologia), que se ocupa de como 
deve ser a estrutura política da comunidade e não apenas a descreve. 
 É interessante falar em movimentos constitucionais, para marcar as distintas 
origens (temporais e espaciais) e processos (políticos, sociais, econômicos) que levam ao 
que hoje caracterizamos como um conjunto de ideias mais ou menos unitário (o 
constitucionalismo). Do ponto de vista temporal, Canotilho fala em ciclos longos (o 
desenvolvimento mais ou menos gradual de certas instituições) e momentos fractais (as 
rupturas que produzem transformações revolucionárias). Por isso, ele também fala de um 
sentido “histórico-descritivo” de constitucionalismo. Uma definição histórico-descritiva 
caracteriza o constitucionalismo como “movimento político, social e cultural que, 
sobretudo a partir de meados do século XVII questiona nos planos político, filosófico e 
jurídico os esquemas tradicionais de domínio político, sugerindo, ao mesmo tempo, a 
invenção de uma nova forma de ordenação e fundamentação do poder político”. 
 Podemos dizer, em síntese bem grosseira, que o constitucionalismo é a teoria do 
governo limitado, no seu funcionamento efetivo e como ideal a ser alcançado. O 
constitucionalismo, enquanto movimento social e político, pretende tornar a ideia do 
Estado de Direito ou do “governo das leis” uma realidade política e jurídica. Como teoria, 
procura explicar as técnicas, os procedimentos e instituições que levam a um exercício 
limitado do poder político. Sobre que o seriam estas limitações, Luís Roberto Barroso, 
por exemplo, fala em três ordens: 
 
a) Materiais – “há valores básicos e direitos fundamentais que hão de ser sempre 
preservados, como a dignidade da pessoa humana, a justiça, a solidariedade e os direitos 
à liberdade de religião, de expressão, de associação”. 
 
b) Orgânicas – “as funções de legislar, administrar e julgar devem ser atribuídas a órgãos 
distintos e independentes, mas que, ao mesmo tempo, se controlem reciprocamente 
(checks and balances)”; 
 
c) Processuais – “os órgãos do poder devem agir não apenas com fundamento na lei, mas 
também observando o devido processo legal, que congrega regras tanto de caráter 
procedimental (contraditório, ampla defesa, inviolabilidade do domicílio, vedação de 
provas obtidas por meios ilícitos) como de natureza substantiva (racionalidade, 
razoabilidade-proporcionalidade, inteligibilidade). Na maior parte dos Estados 
2 
 
ocidentais instituíram-se, ainda, mecanismos de controle de constitucionalidade das leis 
e dos atos do Poder Público”. 
 
2. Constitucionalismo antigo e moderno 
 
 Frequentemente, a literatura constitucional faz menção à antiguidade greco-
romana como matriz da ideologia constitucional. No entanto, essa referência merece 
crítica. A antiguidade de fato serviu aos autores modernos para discutir suas próprias 
ideias, mas até certo ponto a Bíblia foi uma referência tão importante quanto e, sobretudo 
no século XVII, até ofuscou as referências ao passado helênico ou latino1. 
Como toda recepção de ideias antigas na modernidade, o sentido atribuído à 
experiência política dos gregos e romanos não coincide com uma análise historiográfica 
rigorosa, que possa fazer remontar os movimentos constitucionais modernos às 
instituições daqueles povos. Neste sentido são equivocadas as afirmações como as de 
Barroso, quando o autor sustenta que 
 
“Atenas é historicamente identificada como primeiro grande precedente de limitação do 
poder político – governo das leis, não dos homens – e de participação dos cidadãos nos 
assuntos públicos. Embora tivesse sido uma potência territorial e militar de alguma 
expressão, seu legado perene é de natureza intelectual, como berço do ideal 
constitucionalista e democrático. Ali se conceberam e praticaram ideias e institutos que 
ainda hoje se conservam atuais, como a divisão das funções estatais, a separação entre 
poder secular e religião, a existência de um sistema judicial e, sobretudo, a supremacia 
da lei, criada por um processo formal e válida para todos”. 
 
 A principal impropriedade neste tipo de análise é que os antigos não 
desenvolveram nada parecido com a noção moderna de indivíduo e de associação 
voluntária destes indivíduos como fundamento do poder político. Com base nas análises 
do historiador político Moses Finley sobre Atenas, podemos ainda contestar que: 
 
1. A democracia ateniense era direta (desconhecia a representação) e de tradição 
oral, não havendo senão poucos funcionários públicos. A assembleia era um corpo 
deliberativo onde todos os cidadãos do sexo masculino com idade superior a 18 
anos poderiam participar e votar; 
2. A soberania da assembleia era ilimitada; 
3. Não havia separação funcional “orgânica” entre a participação da assembleia, a 
ocupação de cargos ou o julgamento em júris populares. Havia rodízio e eleição 
por sorteio. Não havia partidos; 
3. Atenas era pequena em extensão e população, onde os assuntos comuns eram 
facilmente debatidos no dia a dia pelos cidadãos. Finley fala de “familiaridade”; 
4. Havia um sentido forte de comunidade – koinonia – fortalecido pelos mitos e 
tradições que serviam como elemento de autocontrole dos cidadãos, que não se 
adequa à imagem moderna de separação entre poder secular e teológico. 
 
 Tampouco pode-se comparar o constitucionalismo moderno e o medieval-europeu 
(que Canotilho chama de antigo). Este tratava de direitos (escritos ou consuetudinários) 
 
1 Ver HILL, Cristopher. A Bíblia inglesa e as Revoluções do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização 
Brasileira, 2003. 
3 
 
estamentais perante o monarca, numa sociedade dividida em ordens eclesiásticas, 
corporações de ofício e senhorios locais, cada um dos quais reivindicando a autoridade 
da sua própria ordem jurídica parcial frente às ordens reais. O contexto medieval de 
pluralismo jurídico admite os pactos entre soberanos e súditos, mas estes devem ser 
interpretados no contexto de uma soberania fragmentada, na ausência de uma ideia de 
representação política e de limitação jurídica do poder político. O erro dessa visão é olhar 
as instituições do passado com nossas categorias de hoje, o que Canotilho, por exemplo, 
condena (pp. 53-54). 
 
 
3. “Ideias-força” do constitucionalismo moderno 
 
 Resumamos, portanto, ideais centrais do constitucionalismo moderno: 
 
a) Utilizando a técnica da distribuição de poderes, a limitação jurídica do poder 
político, ou melhor, a racionalização do exercício do poder político através das 
prescrições jurídicas; 
b) A representação política como origem da distribuição de poderes e como fonte 
da legitimidade do exercício do poder político; 
c) A garantia de direitos dos indivíduos, que estão fora da esfera de alcance das 
decisões políticas e cuja transferência parcial legitima os representantes e a 
obediência às leis que criarem; 
d) A expectativa de transformar a sociedade utilizando a constituição para 
expressar uma nova estruturação do Estadoa permitiriam melhor situar a natureza 
jurídica de cada texto constitucional. Na tabela abaixo estão resumidas as principais 
classificações das Constituições: 
 
Classificações das Constituições frequentes na Dogmática 
 
Critério 
 
Classes 
Quanto ao conteúdo materiais, formais 
Quanto à forma escrita, não-escrita 
Quanto ao modo de elaboração dogmáticas, históricas 
Quanto à origem Outorgadas, populares 
Quanto à estabilidade rígidas, semirrígidas, flexíveis 
Quanto à “força normativa”: programáticas; dirigentes 
 
 Outro instrumento dogmático importante que resulta do método comparativo é a 
identificação de certas estruturas comuns a vários textos constitucionais. De maneira 
muito geral, como expresso na definição apresentada acima, são elementos básicos das 
constituições aquelas normas que regulam a forma de governo, a forma de estado, o 
sistema de governo, o regime político e os direitos dos cidadãos. No quadro 
27 
 
contemporâneo, porém, outros elementos como a estruturação da ordem econômica, os 
direitos dos povos originários e os direitos da natureza podem ser incluídos nos textos. 
Abaixo, segue uma tabela com classificação dos “Elementos” apresentada por José 
Afonso da Silva para nossa atual Constituição: 
 
Classificação dos Elementos na CF/88 
 
Tipo de Elemento Conteúdo na CF/88 
Orgânicos Organização político-administrativa, 
organização dos poderes, tributação e 
orçamento, forças armadas e segurança 
pública 
Limitativos Direitos e garantias, controle de 
constitucionalidade 
 
Socioideológicos Direitos sociais, ordem econômica, ordem 
social 
Elementos formais de aplicabilidade 
 
Art. 5º, §2º, ADCT 
Mecanismos de resolução de crises: Intervenção federal, estado de defesa e 
estado de sítio 
 
Dispositivos Transitórios ADCTe uma nova relação entre o Estado e a 
sociedade. 
 
 O significado histórico-universal do constitucionalismo foi, e ainda é, ser a 
“esperança dos povos”: ao colocar essas ideias em suas práticas políticas, diferentes povos 
do sistema-mundo moderno buscaram se libertar de esquemas de dominação tradicionais 
e instituir novas culturas políticas, compatíveis com a ideia de que a humanidade pode 
tomar em suas próprias mãos os destinos de sua existência comum. Ainda assim, as ideias 
e instituições constitucionais surgem em contextos históricos específicos, que precisamos 
analisar. É o que faremos a partir do tópico seguinte. 
 
 
4. Constitucionalismo “Clássico” (Europeu e Norte-Americano) 
 
 Nesta seção, analisaremos alguns dos movimentos constitucionais que contribuem 
para formar o “cânone” do constitucionalismo, enquanto teoria e prática política. Quando 
dizemos isto, estamos nos referindo às experiências históricas de movimentos 
constitucionais que se tornaram “modelares” e cuja imitação foi decisiva na difusão 
mundial do constitucionalismo. 
As razões pelas quais certas ideias e instituições circularam como padrões a serem 
copiados são um tema complexo de história intelectual, não se explicando unicamente 
pela imposição colonialista dos modelos. O que podemos afirmar é que, uma vez que 
4 
 
certas instituições são implementadas com certa capacidade de resistência temporal ou 
duração, de maneira que podem ser analisados os seus efeitos e percebidas suas 
vantagens, reduz-se o custo político envolvido na “inovação total” para os movimentos 
constitucionais posteriores. 
 
A) Movimento constitucional inglês 
 
 O movimento inglês seria de ciclo longo, devendo ser compreendido pelo que 
Canotilho chama de modelo “historicista”: as suas instituições teriam se desenvolvido 
gradualmente ao longo dos séculos que vão da invasão normanda (século XII) até a 
instauração da monarquia parlamentar moderna, com sucessivas ampliações da 
representação e participação política ao longo dos séculos XIX e XX. O marco inicial 
deste ciclo longo seria a Magna Carta de 1215, um “contrato de domínio” estabelecendo 
direitos dos súditos livres em face do monarca. 
 Há controvérsias sobre este marco inicial do século XIII. Alguns historiadores 
entendem a Magna Carta como um documento feudal, por oposição aos documentos das 
revoluções inglesas do século XVII (petição de direitos, ato de habeas-corpus, carta de 
direitos). Favorece a visão gradualista o peso dos costumes constitucionais e ausência de 
um documento único que seja considerado a “Constituição da Inglaterra”, expressão 
formulada por Montesquieu no século XVIII. 
Se é verdade que o movimento constitucional inglês é de ciclo longo, as 
revoluções do século XVII e a guerra civil entre o parlamento e a coroa são um evidente 
momento de ruptura. As ideias formuladas e colocadas em prática neste período marcam 
a instauração da monarquia parlamentar moderna na Inglaterra, cujo marco é o Bill of 
Rights de 1689, que afirma a independência do parlamento. Segundo Canotilho, neste 
documento, algumas ideias importantes já presentes em outros textos se sedimentaram: 
 
a) a liberdade pessoal dos ingleses e a segurança de seus bens; 
b) a garantia de um devido processo legal; 
c) as leis são interpretadas livremente pelos juízes e, finalmente, 
d) a supremacia do parlamento e da representação política. 
 
 A independência do Parlamento significa a introdução do princípio representativo 
na constituição, mas não necessariamente a separação de poderes como conhecemos hoje 
ou regime democrático, que só se estabelece com a extensão do sufrágio e a restrição das 
atribuições da Câmara dos Lordes, no início do século XX. Isto é um argumento a mais 
para a tese do ciclo longo, que continua até hoje, se considerarmos o Human Rights Act 
de 1998 e o Constitucional Reform Act, que cria a corte constitucional, em 1998. 
 
Cronologia 
1215 – Magna Carta 
1529-1536 – Reinado de Henrique VIII. Uma série de atos do Parlamento marcam 
o rompimento da Inglaterra com Roma 
1605 - Conspiração da pólvora (“V” de vingança) 
1624 – Príncipe Carlos se casa com a Francesa Henrietta Maria, católica 
1628 – Petição de Direitos 
5 
 
1629 – Reinado de Carlos I 
1642-1653 – Primeira Guerra Civil 
1646 – Renúncia de Carlos I 
1648 – Segunda guerra civil 
1649- Execução de Carlos I. Commonwealth. 
1660 – Restauração de Carlos II. 
1679 – Habeas Corpus Act 
1685 – Reinado de Jaime II 
1688 – Revolução Gloriosa 
1689 – Bill of Rights 
1800-1900 – Ampliação sucessiva do sufrágio 
1911 – Restrição das Atribuições da Câmara dos Lordes 
1918 – Voto feminino. Sufrágio Universal 
1920 – Emergency Powers Act 
1998 – Human Rights Act 
2005 – Constitutional Reform Act 
 
 
 
 
Trechos selecionados de documentos constitucionais ingleses 
 
Magna Carta (1215) 
 
Origens do Parlamento Inglês: 
 
12 – Nenhuma “ajuda” ou “tributo de isenção militar” (2) será estabelecida em nosso 
reino sem o consentimento geral, a não ser para o resgate de nossa pessoa, para fazer 
cavaleiro nosso filho primogênito, e para casar nossa filha primogênita. Para estes 
propósitos, somente poderá ser estabelecida uma ajuda razoável. De igual maneiro se 
procederá quanto às ajudas da cidade de Londres. 
(…) 
14 – Para obter o consentimento geral acerca do levantamento de uma “ajuda” – 
exceto nos três casos especificados acima – ou de uma escudagem (2), faremos com 
que sejam intimados, individualmente e por carta, os arcebispos, bispos, abades, 
condes e os altos barões do reino; por outro lado, faremos com que sejam intimados 
coletivamente, por meio de nossos sheriffs e meirinhos, todos aqueles que possuem 
terras diretamente da Coroa, para se reunirem num dia fixado (do qual deverão ser 
notificados com antecedência mínima de quarenta dias) e num lugar determinado. Em 
todas as cartas de intimação indicaremos a causa da mesma. Quando a intimação tiver 
sido feita, proceder-se-á à reunião no dia marcado, decidindo se a matéria estabelecida 
para a mesma de acordo com a resolução de quantos estiverem presentes, embora não 
tenham comparecido todos os que foram intimados. 
 
Direitos individuais: 
 
38 – No futuro, nenhum meirinho sujeitará qualquer homem a julgamento, fundado 
apenas em sua própria declaração, sem provas e sem produzir testemunhas para 
demonstrar a verdade do delito alegado. 
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39 – Nenhum homem livre será detido ou aprisionado, ou privado de seus direitos ou 
bens, ou declarado fora da lei, ou exilado, ou despojado, de algum modo, de sua 
condição; nem procederemos com força contra ele, ou mandaremos outros fazê-lo, a 
não ser mediante o legítimo julgamento de seus iguais e de acordo com a lei da terra. 
40 – Nós não venderemos, recusaremos, ou protelaremos o direito ou a justiça para 
quem quer que seja. 
 
Petição de Direitos (1628) 
 
(...) 
Por todas estas razões, os lordes espirituais e temporais e os comuns humildemente 
imploram a Vossa Majestade que, a partir de agora, ninguém seja obrigado a 
contribuir com qualquer dádiva, empréstimo ou benevolência e a pagar qualquer taxa 
ou imposto, sem o consentimento de todos, manifestado por ato do Parlamento; e que 
ninguém seja chamado a responder ou prestar juramento, ou a executar algum serviço, 
ou encarcerado, ou, de uma forma ou de outra molestado ou inquietado, por causa 
destes tributos ou da recusa em os pagar; e que nenhum homem livre fique sob prisão 
ou detido por qualquer das formas acima indicadas; e que Vossa Majestade haja por 
bem retirar os soldados e marinheiros e que, para futuro, o vosso povo não volte a ser 
sobrecarregado; e que as comissões para aplicação da lei marcial sejam revogadas e 
anuladas e que, doravante, ninguém mais possa ser incumbido de outras comissões 
semelhantes, a fim de nenhum súdito de Vossa Majestade sofrer ou ser morto, 
contrariamente às leis e franquias do país. 
 
Tudo isto rogam os lordes espirituais e temporais e os comuns a Vossa majestade como 
seus direitose liberdades, em conformidade com as leis e provisões deste reino; assim 
como rogam a Vossa Majestade que se digne declarar que as sentenças, ações e 
processos, em detrimento do vosso povo, não terão consequências para futuro nem 
servirão de exemplo, e que ainda Vossa Majestade graciosamente haja por bem 
declarar, para alívio e segurança adicionais do vosso povo, que é vossa régia intenção 
e vontade que, a respeito das coisas aqui tratadas, todos os vossos oficiais e ministros 
servirão Vossa Majestade de acordo com as leis e a prosperidade deste reino. 
 
Bill of Rights (1689) 
 
E doravante os ditos Lordes Espirituais e Temporais e Comuns, respeitando suas 
devidas cartas e eleições, estando reunidos em uma completa e livre representação 
dessa nação, tomando em suas mais sérias considerações os melhores meios para 
atingir os meios antes mencionados, em primeiro lugar (como seus ancestrais em caso 
semelhante geralmente fizeram) para reivindicar e afirmar seus antigos direitos e 
liberdades, declaram: 
 
Que o pretendido poder de suspender as leis ou a execução das leis pela autoridade 
real sem o consentimento do parlamento é ilegal; 
(…) 
Que a eleição dos membros do Parlamento deve ser livre; 
 
Que a liberdade de expressão e os debates e procedimentos do Parlamento não devem 
ser impedidos (impeached) ou questionados em nenhuma corte ou lugar fora do 
Parlamento; 
7 
 
(...) 
 
 
B) Movimento constitucional nos Estados Unidos 
 
 
 O constitucionalismo nos EUA é bastante singular e compreende dois momentos 
fundamentais e distintos entre si: um de libertação nacional, entendido pelos 
estadunidenses como revolucionário, em que se afirma o direito de autodeterminação do 
povo e a necessidade de seu consentimento como fundamento do poder e, em 
consequência disso, a elaboração de constituições escritas nas antigas colônias. Após o 
período de guerra revolucionária, ocorre a assinatura de um tratado de confederação entre 
elas (Artigos da Confederação, 1781), que funciona como constituição e consolida a 
instância deliberativa comum que impulsionou a revolução, o Congresso Continental. 
Outro momento, de formação de um novo tipo de Estado, ocorre a partir da 
autoproclamação do Congresso Continental reunido em 1787 na Filadélfia em Convenção 
constituinte. Esta convenção vai além do seu mandato original para reformar os artigos 
da confederação e escreve um projeto de constituição de uma república “federativa”, que 
deve ser levado à ratificação dos Estados. Processo este que só termina em 1789, com a 
aprovação do texto acrescido de dez emendas que serão consideradas a “Carta de 
Direitos” (Bill of Rights) da Constituição. Durante o processo de ratificação, James 
Madison, Alexander Hamilton e John Jay escrevem artigos de jornal no Estado de Nova 
Iorque, onde defendem o projeto e explicam as concepções que estão por trás dele. Os 
artigos são muito ricos do ponto de vista da informação histórica e teórica, mas podemos 
sintetizar da seguinte maneira os seus principais pontos: 
 
1. Para realizar a tarefa constituinte, é necessária uma espécie de ciência política 
que compara experiências institucionais, reúne dados da realidade empírica e 
estabelece alguns princípios sobre as formas de governo; 
2. Os artigos são animados pela ideia de construir no novo mundo uma nação 
poderosa, capaz de rivalizar com as potências coloniais. Por isso, estudam os 
defeitos de outras experiências políticas e da própria confederação para extrair 
disso conclusões sobre como instituir um governo forte preservando a liberdade 
e propriedade, vistas como principais ideais da revolução de 1776. 
3. Esse governo forte é resultado sobreposição de um governo central aos 
governos dos Estados, com autoridade direta sobre todos os cidadãos, a única 
maneira de evitar que disputas entre os Estados levem à fragmentação e à 
competição danosas ao objetivo maior de construir uma grande potência 
mundial; 
4. Esse governo não é, contudo, um governo arbitrário; ele é pautado por uma 
constituição escrita que define exatamente as atribuições de seus órgãos e conta 
com um poder judiciário capaz de fazer valer o Rule of Law sobre os demais 
órgãos do poder que são representativos do povo e dos Estados. 
5. A autoridade executiva deve ser também independente da autoridade 
legislativa, para garantir a continuidade da administração do Estado e da 
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execução das leis independentemente dos interesses de facções que 
eventualmente se formem no congresso. Isto também garante a agilidade e 
energia na tomada de decisões que podem ser adiadas por muito tempo pela 
morosidade do debate legislativo. O que tem especial importância num quadro 
em que se está constantemente ameaçado por potências coloniais como França, 
Espanha e a própria Inglaterra. 
 
 O constitucionalismo dos Estados Unidos é conhecido por ser a experiência 
supostamente mais estável, pois o país é regido pelo mesmo texto constitucional, com 
poucas emendas, por mais de 200 anos. Bruce Ackerman sustenta, no entanto, que o 
constitucionalismo norte-americano ainda experimenta três grandes momentos 
constituintes: o pós-guerra civil ou as “emendas de reconstrução”; o New Deal dos anos 
1930; e o movimento dos direitos civis na década de 1960. De qualquer modo, é 
reconhecido que os Estados Unidos são o país onde se verificaram diversas mudanças 
interpretativas do texto da constituição, fenômeno conhecido como mutação 
constitucional. Sobre isto, dedicaremos um tópico específico do curso. 
 Em resumo, as contribuições de maior destaque do movimento constitucional dos 
Estados Unidos para o constitucionalismo são: 
 a) A sedimentação da ideia de Estado Constitucional, simultaneamente à invenção 
de uma norma forma de Estado, a federativa; 
 b) O sistema de governo presidencialista e as técnicas de distribuição de poderes; 
 c) A supremacia constitucional e a importância do Poder Judiciário para resolução 
de conflitos políticos e manutenção da autoridade da Constituição sobre os 
Poderes. 
 
Cronologia 
1770 – Massacre de Boston 
1773 – Boston Tea Party 
1776 – Declaração de Independência 
1781 – Artigos da confederação 
1787 – Maio - Convenção da Filadélfia 
1787 – Setembro - Projeto de constituição, início do processo de ratificação 
1789 – Bill of Rights (10 primeiras emendas à Constituição). Fim da Ratificação. 
1861-1865 – Guerra civil ou de secessão. 
1865-70 – Reconstrução. Emendas XIII, XIV e XV. 
 
Trechos selecionados de documentos constitucionais dos Estados Unidos 
Declaração de Independência (1776) 
 
Quando, no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário a um povo 
dissolver os laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da 
Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus 
da natureza, o respeito digno para com as opiniões dos homens exige que se declarem 
as causas que os levam a essa separação. 
 
Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens 
9 
 
são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre 
estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Que a fim de assegurar esses 
direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do 
consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne 
destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo 
governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que 
lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. 
(…) 
 
Constituição (1787) 
 
Nós, o Povo dos Estados Unidos, com o objetivo de formar uma mais perfeita União, 
estabelecer a Justiça, assegurar a Tranquilidade doméstica, prover a defesa comum, 
promover o Bem-estar geral e assegurar as Bençãos da Liberdade para nós e para a 
Posteridade, ordenamos e estabelecemos essa constituição dos Estados Unidos da 
América. 
(…) 
Artigo I, seção 10Nenhum Estado poderá participar de tratado, aliança ou confederação; conceder 
cartas de corso; cunhar moeda; emitir títulos de crédito; autorizar, para pagamento 
de dívidas, o uso de qualquer coisa que não seja ouro e prata; votar leis de 
condenação sem julgamento, ou de caráter retroativo, ou que alterem as obrigações 
de contratos; ou conferir títulos de nobreza. 
Nenhum Estado poderá, sem o consentimento do Congresso, lançar impostos ou 
direitos sobre a importação ou a exportação salvo os absolutamente necessários à 
execução de suas leis de inspeção; o produto líquido de todos os direitos ou impostos 
lançados por um Estado sobre a importação ou exportação pertencerá ao Tesouro 
dos Estados Unidos, e todas as leis dessa natureza ficarão sujeitas à revisão e controle 
do Congresso. 
(…) 
Artigo IV, seção 4 
Os Estados Unidos garantirão a todo Estado nesta União a forma Republicana de 
governo, e protegerão cada um deles contra a invasão; e a pedido da Legislatura, ou 
do Executivo, estando aquela impossibilitada de se reunir, o defenderão em casos de 
violência doméstica. 
 
Bill of Rights (Emendas I-X, 1789) 
 
V- Ninguém será detido para responder por crime capital, ou outro crime infamante, 
salvo por denúncia ou acusação perante um Grande Júri, exceto em se tratando de 
casos que, em tempo de guerra ou de perigo público, ocorram nas forças de terra ou 
mar, ou na milícia, durante serviço ativo; ninguém poderá pelo mesmo crime ser 
duas vezes ameaçado em sua vida ou saúde; nem ser obrigado em qualquer processo 
criminal a servir de testemunha contra si mesmo; nem ser privado da vida, liberdade, 
ou bens, sem o devido processo legal; nem a propriedade privada poderá ser 
expropriada para uso público, sem justa indenização. 
(...) 
X - Os poderes não delegados aos Estados Unidos pela Constituição, nem por ela 
negados aos Estados, são reservados aos Estados ou ao povo. 
 
10 
 
 
 
C) Movimento Constitucional na França 
 
 Os historiadores discutem o alcance do movimento constitucional na França, mas 
parece certo de que se trata do primeiro movimento de transformação social radical de 
impacto global, como afirma Eric Hobsbawn: 
 
“A França fornece o vocabulário e os temas da política liberal e radical 
democrática para a maior parte do mundo. A França deu o primeiro grande 
exemplo, o conceito e o vocabulário do nacionalismo. A França forneceu os 
códigos legais, o modelo de organização técnica e científica para a maioria dos 
países. A ideologia do mundo moderno atingiu as antigas civilizações que tinham 
até então resistido às ideias europeias inicialmente através da influência francesa” 
(Era das Revoluções, p. 98). 
 
 Este diagnóstico é seguido pelo criador da teoria dos sistemas-mundo, Immanuel 
Wallerstein, que vê na Revolução Francesa o movimento crucial para a criação de uma 
cultura política global (ou geocultura). Sem nos aprofundarmos nas causas políticas, 
socioeconômicas e ideológicas da revolução, o que torna este movimento singular é que, 
pela primeira vez na história, experimenta-se a mobilização total da sociedade em um 
processo de transformação radical das relações de poder vigentes. 
Tal mobilização se inicia com a autoproclamação do Terceiro Estado como 
Assembleia Nacional, episódio que deflagra a revolução. O texto do Abade Sieyès (O que 
é o terceiro estado?) revela o alcance dessa decisão: a assembleia nacional abole a divisão 
dos Estados Gerais, pois o terceiro estado representa a totalidade da nação e seu poder 
constituinte. Por isso, a constituição é a obra da própria nação dando a si mesma leis 
fundamentais. A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, afirma a 
universalidade dos direitos da cidadania independentemente de sua origem social. 
Na prática, a derrubada do antigo regime não será obra apenas da burguesia, mas 
também da massa empobrecida urbana e do campesinato. Esta mobilização massiva 
define, como diz Hobsbawn, uma “dramática dialética” em torno da extensão do conteúdo 
da revolução, que será repetida nas gerações futuras: 
 
“Repetidas vezes veremos moderados reformadores da classe média mobilizando 
as massas contra a resistência obstinada ou a contrarrevolução. Veremos as massas 
indo além dos objetivos dos moderados rumo a suas próprias revoluções sociais, 
e os moderados, por sua vez, dividindo-se em um grupo conservador, daí em 
diante fazendo causa comum com os reacionários, e um grupo de esquerda, 
determinado a perseguir o resto dos objetivos moderados, ainda não alcançados, 
com auxílio das massas, mesmo com o risco de perder o controle sobre elas” 
(Idem, p. 111). 
 
 Assim, o movimento revolucionário francês pode ser dividido em um setor 
burguês-liberal e um setor democrático-radical. E isto se espelha na relação com o 
constitucionalismo: o setor liberal é contra a monarquia absoluta, mas não é favorável a 
demandas por igualdade social e política. O que fica evidente se compararmos a 
11 
 
Declaração de 1789 e a Constituição Republicana de 93: 
 
Declaração de 1789 Constituição de 1793 
- Igualdade perante a lei, admitindo-se 
distinções sociais fundadas na utilidade 
comum; 
- Propriedade como direito fundamental; 
- Nação como fundamento da soberania; 
- Separação de Poderes e garantia de 
direitos como fundamentos de qualquer 
Constituição; 
- Assembleia representativa como órgão 
fundamental de governo e lei como 
expressão da vontade geral com a 
garantia da participação dos cidadãos (o 
que não significava eliminação da 
monarquia ou sufrágio universal). 
- Separação entre Religião e Estado 
 
- Fim da monarquia e soberania do povo 
(não da Nação); 
- Sufrágio universal; 
-Limitação do direito de propriedade por 
necessidade pública (com direito a 
indenização); 
- Direito à instrução e ao socorro público; 
- Direito à insurreição; 
- Direito de participação em todos os 
cargos públicos, políticos, administrativos 
ou judiciais; 
- Organização assemblear em nível local. 
 
 
 
 
 Durante todo século XIX, o movimento constitucional francês oscilará entre a 
forma monárquica e a forma republicana, a depender das composições entre as classes 
dominantes e da capacidade de mobilização dos setores populares. É inegável, contudo, 
que o alcance da obra jurídica da revolução francesa vai além do Direito Público: a partir 
do Código Civil de 1804 (Código de Napoleão), é o próprio direito que se transforma no 
principal instrumento da composição de conflitos sociais e da organização da cooperação 
social. 
A Revolução inaugura uma nova racionalidade jurídica, que invade todos os 
setores da vida social onde porventura predominassem tradições não modernas. Esse 
quadro só entra em crise no final do século XX, quando o direito passa a perder essa 
centralidade como principal tecnologia social de poder. O movimento constitucional 
francês, em suma, sedimenta as seguintes ideias: 
 a) a superioridade jurídica e política do poder constituinte, fundada na soberania 
da nação; 
 b) a universalidade dos direitos e a relatividade das distinções sociais; 
 c) a supremacia da lei como fonte de Direito. 
 d) a revolução política e social como método de transformação das relações entre 
Estado e sociedade e das relações sociais em geral. 
 
Cronologia 
1654-1715 – Reinado de Luís XIV. Auge do absolutismo. 
1756 – Guerra dos sete anos. 
1775 – Reinado de Luís XVI. 
1776 – Apoio à Revolução Americana. 
1787 – Crise financeira leva à convocação da Assembleia dos Notáveis. 
1789 – Convocação dos Estados Gerais (não acontecia desde 1614). 
12 
 
1789 – Maio – Terceiro Estado se autodeclara como Assembleia Nacional. 
Declaração dos direitos do homem e do Cidadão. 
1791 – Primeira Constituição Revolucionária (Monarquia Constitucional). 
1792 – Segunda Constituição. Primeira República. 
1795 – Termidor. Fim da Primeira República. Diretório e Consulado. 
1799 – Golpe do Dezoito Brumário. Início da era Napoleônica. 
1804-1815 – Fim do Consulado. Império. 
1815-1830 – Restauração dos Bourbon.1830-1848 – Monarquia Constitucional. 
1848-1851 – Segunda República 
1851-1870 – Segundo Império. 
1870-1940 – Terceira República. 
 
Trechos selecionados de documentos constitucionais da França 
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) 
 
Artigo I – Os homens nascem e permanecem iguais em direitos. As distinções 
sociais não podem ser fundadas senão na utilidade comum. 
Artigo II – O fim de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e 
imprescritíveis do homem. Estes direitos são a liberdade, a propriedade, a 
segurança e a resistência à opressão. 
Artigo III – O princípio de toda Soberania reside essencialmente na Nação. Nenhum 
corpo ou indivíduo pode exercer a autoridade que dela emana expressamente. 
(…) 
Artigo VI – A lei é expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de 
concorrer pessoalmente ou por meio de seus representantes para sua formação. Ela 
deve ser a mesma para todos, seja quando protege, seja quando pune. Todos os 
cidadãos são iguais a seus olhos, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, 
posições e empregos públicos, segundo sua capacidade, sem outra distinção que 
aquela de suas virtudes e de seus talentos. 
(…) 
Artigo XVI – Toda a sociedade onde a garantia dos direitos não seja assegurada, nem 
a separação de poderes seja determinada, não tem qualquer Constituição. 
 
Preâmbulo da Constituição de 1946 (incorporado à constituição de 1958, 
juntamente com a Declaração de 1789). 
 
(...) 
A lei garante a mulher, em todos os domínios, direitos iguais aos dos homens. 
(…) 
Cada um tem o dever trabalhar e o direito de obter um emprego. Ninguém pode ser 
lesado, em seu trabalho ou emprego, em razão de suas origens, opiniões ou crenças. 
(…) 
Todo bem, toda empresa cuja exploração tem ou adquire os caracteres de um serviço 
público nacional ou de um monopólio de fato, devem tornar-se propriedade da 
coletividade. 
(…) 
A Nação assegura ao indivíduo e família as condições necessárias ao seu 
desenvolvimento. Ela garante a todos, notadamente à criança, à mãe e aos velhos 
trabalhadores a proteção da saúde, a segurança material, o repouso e os lazeres. 
13 
 
Todo ser humano que, em razão de sua idade, de seu estado físico e mental e da 
situação econômica, se ache incapacitado para o trabalho tem o direito de obter da 
coletividade os meios de existência apropriados. 
 
 
 
D) O constitucionalismo do século XX 
 
Constitucionalismo Social e Socialista (Pré-2ª Guerra Mundial) 
 
 A primeira metade do século XX, em especial após a eclosão da Primeira Guerra, 
é marcada pelo questionamento do liberalismo político e econômico, enquanto ideologias 
que davam sustentação ao sistema capitalista e que estavam expressas nos principais 
documentos constitucionais. A Constituição mexicana de 1917 e a Constituição alemã de 
1919 (também conhecida como Constituição de Weimar) simbolizam essa ruptura em 
direção ao constitucionalismo social. As ideias que são expressas nestes texto podem ser 
sintetizadas a partir dos seguintes pontos: 
 
a) Crítica da ideia de uma regulação espontânea do mercado e defesa do 
planejamento estatal da atividade econômica; 
b) Defesa da propriedade estatal de bens e atividades estratégicas e de limites à 
propriedade privada; 
c) Garantia de direitos trabalhistas e outros direitos sociais, como educação, saúde 
e previdência; 
d) Extensão da participação política independente da classe social. 
 
 O início do século XX também é marcado por uma ruptura com o próprio sistema 
econômico capitalista a partir da Revolução Russa, que funda um Estado socialista. Os 
sistemas socialistas também adotaram constituições, que incorporam muitas das ideias do 
constitucionalismo social, mas apresentam particularidades importantes. São elas: 
 
a) Limitação da propriedade privada; 
b) Limite às liberdades de grupos e indivíduos que pudessem ameaçar o 
socialismo; 
c) Sistema de assembleias que se estende do âmbito local ao nacional (distribuição 
de poderes sem separação); 
d) A figura do “Partido-Estado”. 
 
É importante enfatizar que, guardados esses pontos comuns, cada nação socialista 
adotou um modelo mais adequado a suas particularidades. Os soviéticos adotaram uma 
forma federativa de república socialista, que abrangeu diferentes nacionalidades. Os 
norte-coreanos implementaram espécie de “monarquia socialista”, em que o chefe de 
Estado tem sido escolhido por sucessão hereditária. Cuba e China adotaram um sistema 
de governo semipresidencialista. 
 
 
Constitucionalismo Pós-1945: Economia social de mercado e Democracia 
14 
 
 
 O pós-Segunda Guerra Mundial pode ser entendido como uma reação as 
tendências socializantes do período anterior e à tragédia do fascismo e do nazismo. Ganha 
força a ideia de que a dignidade da pessoa humana, como fonte dos direitos individuais, 
e a democracia são valores universais, a serem observados por todas as constituições, o 
que fica expresso na Carta da ONU. 
 Além disso, reconhece-se a necessidade de “refundar” o capitalismo, por isso os 
direitos sociais e trabalhistas também são incorporados, não na perspectiva de uma 
socialização do sistema, mas sim na garantia do acesso do maior número possível de 
indivíduos à economia de mercado. A República Federal da Alemanha e a Lei 
Fundamental de 1949 constituem um caso exemplar, pois pretendem instituir um Estado 
federal “democrático e social”. O constitucionalismo alemão ocidental incorpora as ideias 
constitucionais da tradição, como a Supremacia da Constituição, mas consagra 
expressamente o controle de constitucionalidade das leis por uma corte constitucional 
como método para assegurá-la. 
 Um outro conjunto de fatos decisivo do período é o fim dos impérios coloniais 
europeus e a criação de novos Estados independentes na África e na Ásia. Muitos deles 
adotando modelos híbridos entre capitalismo e socialismo, e adaptando à sua maneira as 
instituições políticas do “cânone” do constitucionalismo. 
 
Cronologia 
1914 – Primeira Guerra Mundial 
1917 – Maio - Constituição mexicana 
1917 – Outubro – Revolução Soviética 
1918 – Levante comunista na Alemanha 
1919 – Constituição de Weimar 
1921 - Constituição da União Soviética 
1929 – Crise Econômica Mundial 
1933-37 – “New Deal” nos Estados Unidos 
1939-45 – Segunda Guerra Mundial 
1945 – Conferência de Potsdam. Divisão da Alemanha e Início da Guerra Fria 
1945 – Fundação das Nações Unidas 
1946 – Constituição da IV República Francesa 
1947 – Constituição Italiana 
1947 – Independência da Índia 
1948 – Declaração Universal dos Direitos Humanos (Nações Unidas) 
1949 – Lei Fundamental de Bonn (Alemanha Ocidental) 
1949 – Revolução Chinesa 
1960-70 – Revoluções de Independência no Continente Africano 
1974 – Revolução dos Cravos (Portugal) 
 
 
Trechos selecionados da lei fundamental alemã de 1949: 
Artigo 1 
[Dignidade da pessoa humana – Direitos humanos – Vinculação jurídica dos direitos 
fundamentais] 
(1) A dignidade da pessoa humana é intangível. Respeitá-la e protegê-la é obrigação 
15 
 
de todo o poder público. 
(2) O povo alemão reconhece, por isto, os direitos invioláveis e inalienáveis da pessoa 
humana como fundamento de toda comunidade humana, da paz e da justiça no 
mundo. 
(3) Os direitos fundamentais, discriminados a seguir, constituem direitos diretamente 
aplicáveis e vinculam os poderes legislativo, executivo e judiciário. 
(…) 
Artigo 20 
[Princípios constitucionais – Direito de resistência] 
(1) A República Federal da Alemanha é um Estado federal, democrático e social. 
(2) Todo o poder estatal emana do povo. É exercido pelo povo por meio de eleições e 
votações e através de órgãos especiais dos poderes legislativo, executivo e 
judiciário. 
(3) O poder legislativo está submetido à ordem constitucional; os poderes executivo 
e judiciário obedecem à lei e ao direito. 
(4) Contra qualquer um, que tente subverter esta ordem, todos os alemães têm o 
direito de resistência, quando não houver outra alternativa. 
(…) 
Artigo 25 
[Preeminênciado direito internacional] 
As regras gerais do direito internacional público são parte integrante do direito 
federal. Sobrepõem-se às leis e constituem fonte direta de direitos e obrigações para 
os habitantes do território federal. 
(…) 
Artigo 93 
[Competência do Tribunal Constitucional Federal] 
(1) O Tribunal Constitucional Federal decide: 
1. sobre a interpretação desta Lei Fundamental em controvérsias a respeito da 
extensão dos direitos e deveres de um órgão superior da Federação ou de outros 
interessados, dotados de direitos próprios pela presente Lei Fundamental ou pelo 
regulamento interno de um órgão federal superior; 
2. no caso de divergências ou dúvidas a respeito da compatibilidade formal e material 
da legislação federal ou estadual com a presente Lei Fundamental ou da 
compatibilidade da legislação estadual com outras leis federais, quando o solicitem 
o Governo Federal, o governo de um Estado ou um quarto dos membros do 
Parlamento Federal; 
 
 
 
 
6. O Estado Constitucional e Teoria da Constituição Hoje 
 
 A constituição, no século XX, pretendeu abarcar a totalidade social. Fala-se em 
Estado constitucional para representar esse momento em que a Constituição é do Estado 
e da sociedade. Trata-se de um modelo de organização sociopolítica, por contraposição 
a um modelo meramente organizativo do Estado. 
 Para Canotilho “a constituição, informada pelos princípios materiais do 
constitucionalismo – vinculação do Estado ao direito, reconhecimento e garantia de 
direitos fundamentais, não confusão de poderes e democracia – é uma estrutura política 
16 
 
conformadora do Estado”. O autor expressa a ideia de Konrad Hesse segundo a qual 
constituição não é só uma descrição da realidade sociopolítica de um país ou de suas 
instituições, mas é uma força ativa, que pretende transformar e conformar a comunidade 
política. De que modo ela pode ser tal força, é que é o problema. 
 Qual a importância histórica do qualificativo Estado constitucional hoje? Antes 
da Segunda Guerra Mundial, os modelos de Rule of Law, État légal ou Rechtstaat já se 
colocavam para o constitucionalismo americano e continental europeu a ideia de um 
“governo submetido a leis”. Contudo, não apresentou aí conexão interna com a ideia 
democrática: na história do constitucionalismo, a democracia como a conhecemos só 
começa a se tornar uma realidade, mesmo nos países centrais, na segunda metade do 
século XX. 
 É neste momento que se difunde a ideia de que o poder deve estar submetido 
simultaneamente à lei e à decisão democrática do povo (legalidade e legitimidade). Não 
há poder legibus solutus (não submetido à lei), nem lei que esteja subtraída da deliberação 
popular, salvo os próprios direitos e garantias fundamentais que funcionam como limites 
à “tirania majoritária”. Notemos que, apesar disso, muitos países viveram sob regimes 
ditatoriais, apenas nominalmente democráticos, como no caso do Brasil durante o período 
da ditadura militar. Para nós e para muitos países latino-americanos, só no final do século 
XX experimentamos regimes efetivamente democráticos. 
 Neste contexto, o Estado constitucional contemporâneo pretende associar 
juridicidade democrática e justificação do poder (Estado Democrático de Direito). 
Mas isto depende de uma constituição dirigente: uma constituição que vincula e 
subordina os órgãos de representação popular. Alguns autores, como Gilberto Bercovici, 
apontam para os riscos de despolitização nesse cenário: a política e os políticos cedendo 
lugar aos juristas e a disputa de projetos societários dando lugar à discussão técnica sobre 
o sentido da Constituição, discussão da qual a cidadania não participa plenamente. 
 Ao menos nos Estados latino-americanos, essa despolitização parece estar distante 
da realidade. Aparentemente, estamos mais próximos de uma “politização da justiça” do 
que o contrário. Todavia, a ideia de constituição dirigente ainda parece preservar sua 
validade histórica, como mecanismo de transformação da realidade social e freio a 
ímpetos autoritários de governantes. Uma constituição dirigente é necessária enquanto a 
democratização das instituições não produzir uma democratização das próprias relações 
sociais. 
 
7. Formação Constitucional do Brasil 
 
7.1 O movimento constitucional brasileiro 
 
A) Pré-Independência 
 
 O período que antecede a Independência é marcado pela agitação republicana 
(Inconfidência, Conjuração Baiana, Revolta em Pernambuco) e pelas mudanças políticas, 
econômicas e sociais decorrentes da transmigração da Corte em 1808 e da elevação do 
Brasil à Reino Unido em 1815. Lembremos que esse republicanismo na primeira metade 
do século era uma alternativa à dinastia reinante, não necessariamente à forma de governo 
17 
 
monárquica. 
 A Revolução do Porto (1821) em Portugal inicia a crise que leva ao retorno de D. 
João e à ascensão de Pedro I. A independência se dá como manutenção do poder dos 
Orleans e Bragança, frente ao republicanismo “anárquico” da américa hispânica e à 
tentativa de recolonização do Brasil por Portugal (a revolução do porto era liberal apenas 
para Portugal). 
 
B) Império 
 
 A crise aberta com a declaração de independência agudiza a necessidade de 
constitucionalizar o novo Império, já sob o influxo dos ideais revolucionários e da 
preservação da integridade nacional. Convoca-se uma constituinte eletiva, que depois é 
dissolvida pela monarca. Mesmo imposta, a constituição de 1824 funcionou tanto como 
mecanismo de construção de um novo Estado, como de institucionalização do governo. 
Os historiadores atualmente questionam a ideia de que este novo Estado foi capaz, 
de imediato, de gerar a unidade nacional, mesmo que tenha preservado a integridade do 
território. O “drama” constitucional do século XIX no Brasil pode ser lido através do 
conflito entre a Coroa e os grandes senhores de terra, agora convertidos em oligarcas 
locais, que só se resolverá com a vitória dos oligarcas e a derrubada da monarquia. 
Associado à exclusão da grande massa populacional da vida política e civil, tal conflito 
adia para o século XX a construção de uma identidade nacional propriamente brasileira. 
O constitucionalismo brasileiro é inaugurado, portanto, com a construção de um Estado 
por cima da nação. 
 
Constituição de 1824 
Origem Outorgada 
Modo de elaboração Dogmática 
Conteúdo Formal 
Estabilidade Semi-rígida: art. 178. É só Constitucional o que diz respeito aos limites, e 
attribuições respectivas dos Poderes Politicos, e aos Direitos Politicos, e 
individuaes dos Cidadãos. Tudo, o que não é Constitucional, póde ser alterado 
sem as formalidades referidas, pelas Legislaturas ordinarias. 
Forma/sistema de 
governo 
Monarquia parlamentar 
Forma de Estado Unitário 
Organização dos 
poderes 
O poder moderador: direito de dissolver a câmara, adiar ou convocar o congresso; 
nomear senadores, presidentes de províncias; nomear e suspender magistrados. 
Direitos dos cidadãos Voto Censitário. Religião estatal. Direitos individuais, mas privilégios e 
escravidão. 
 
 O conflito entre oligarquias e a Coroa, embora não tenha resultado na ruptura da 
ordem constitucional e na elaboração de uma nova constituição, produziu dois 
documentos importantes de estatura constitucional: o Ato Adicional de 1834 dissolveu o 
conselho de Estado e dava maiores poderes às províncias, criando assembleias legislativas 
provinciais. A Lei de Interpretação de 1841 retira das assembleias o poder sobre empregos 
públicos e instituições judiciárias, embora permita aos Presidentes de Províncias 
18 
 
(nomeados pelo Imperador) negarem sanção a projetos de lei que entenderem contrários 
à constituição. 
 
 
C) “República Velha” 
 
 O período pré-golpe de 1889 é caracterizado pela crise do Segundo Reinado, que 
geralmente é descrita como uma reunião de “questões”: militar, escravista e religiosa. O 
movimento republicano pós 1870 era heterogêneo nas suas aspirações. A abolição não era 
central. A unidade se dava pela oposiçãoao governo, inclusive do ponto de vista dos 
militares. 
A república significou um novo arranjo entre as oligarquias, com o florescimento 
do poder Estados na primeira década do século XX, mas não trazer o povo para arena 
política. A Constituição de 1891 é o ponto de início da institucionalização do novo regime, 
mas seu ponto de chegada, segundo os historiadores, será a “política dos governadores”: 
ela cria uma rotinização do sistema oligárquico, com hegemonia de São Paulo e Minas 
Gerais na indicação de candidatos à Presidência da República. 
Com relação ao processo constituinte, destaca-se o anteprojeto de Rui Barbosa, 
onde se nota a influência dos EUA. Não se pode reduzir, contudo, os debates na 
constituinte à questão federativa, muito embora a Federação abranja quase todos os temas 
políticos centrais. Ressalta-se, ainda, a tensão entre Governo Provisório e congresso. 
 
Constituição de 1891 
Origem “Popular” (não havia sufrágio universal) 
Modo de 
elaboração 
Dogmático, a partir de anteprojeto do governo 
Conteúdo Formal 
Estabilidade Rígida. Art 90 - A Constituição poderá ser reformada, por iniciativa do 
Congresso Nacional ou das Assembléias dos Estados. 
§ 1º - Considerar-se-á proposta a reforma, quando, sendo apresentada por uma 
quarta parte, pelo menos, dos membros de qualquer das Câmaras do Congresso 
Nacional, for aceita em três discussões, por dois terços dos votos em uma e em 
outra Câmara, ou quando for solicitada por dois terços dos Estados, no decurso 
de um ano, representado cada Estado pela maioria de votos de sua Assembléia. 
§ 2º - Essa proposta dar-se-á por aprovada, se no ano seguinte o for, mediante 
três discussões, por maioria de dois terços dos votos nas duas Câmaras do 
Congresso. 
§ 3º - A proposta aprovada publicar-se-á com as assinaturas dos Presidentes e 
Secretários das duas Câmaras, incorporar-se-á à Constituição, como parte 
integrante dela. 
§ 4º - Não poderão ser admitidos como objeto de deliberação, no Congresso, 
projetos tendentes a abolir a forma republicano-federativa, ou a igualdade da 
representação dos Estados no Senado. 
Forma/sistema de 
governo 
República e Presidencialismo 
Forma de Estado Federativa 
Organização dos 
poderes 
Tripartite. Presidente eleito por voto direito, 4 anos. Legislativo bicameral, sendo a 
Câmara eleita por eleição direta. STF e controle difuso de constitucionalidade. 
Declaração de Direitos e garantias individuais. Fim dos privilégios nobiliárquicos. Separação 
19 
 
direitos igreja e Estado. Não admitia o voto feminino, dos analfabetos e mendigos. Voto 
era aberto. 
 
 Papel dos militares, do Estado de sítio e da intervenção federal. O primeiro 
presidente, Deodoro, decretou estado de sítio e dissolveu o Congresso. Floriano Peixoto, 
que o sucedeu, não convocou eleições. 
 
De 1910 em diante, quando começou o declive do regime republicano, os estados de 
sítio e as intervenções federais se tornaram parte da rotina institucional na qualidade de 
instrumentos de governo, sendo justificados pela necessidade de preservar a ordem 
contra a demagogia e a subversão. Durante a Primeira República, o estado de sítio seria 
decretado onze vezes: vigorou na capital do País durante 17 % de todo o período. Na 
última década do regime, o percentual chegou, porém, a atingir 36 %. Entre 1889 e 
1930, por sua vez, o Governo Federal interviria oficial ou oficiosamente pelo menos 
quinze vezes nos Estados da federação. Para além da primeira vez, quando Floriano 
promoveu sublevações militares para mudar o governo de todos os Estados, exceto no 
Pará, houve – até onde nos foi possível saber – tentativas ou intervenções federais 
consumadas em Goiás (1906), Mato Grosso (1906), Sergipe (1906), Espírito Santo 
(1907), Rio de Janeiro (1910), Amazonas (1910), Pernambuco (1911), Bahia (1912), 
Ceará (1913), Paraíba (1913), Alagoas (1915), mais duas vezes na Bahia (1920 e 1924), 
mais uma vez no Rio de Janeiro (1923) e, por fim, no Rio Grande do Sul (1923)2. 
 
 Política dos governadores e coronelismo. O bloco de poder, no plano federal e 
nos Estados, é composto por forças da oligarquia agroexportadora. Essa oligarquia 
recorre à violência e à fraude para manter-se no poder localmente (coronelismo). 
Nacionalmente, a política do “café com leite” é uma maneira encontrada por essa mesma 
oligarquia para compor seus interesses e para garantir uma rotina institucional que fosse 
capaz de subordinar as tendências golpistas e revolucionárias, sobretudo dos militares. 
Partidos estaduais funcionam como mecanismo de institucionalização das oligarquias. A 
hegemonia dos cafeicultores e do Partido Republicano Paulista, produzem um Estado 
protetor da economia cafeeira, elemento decisivo da crise que leva à revolução de 30.
 Revoltas republicanas e a Reforma de 26. A primeira República é mercada por 
uma série de revoltas, que desafiaram o esquema oligárquico ou o mando militar: da 
armada, da vacina e da chibata, na capital, federalista no Rio Grande do Sul, a Guerra do 
Contestado (PR/SC) e Guerra de Canudos. Também despontam os primeiros movimentos 
organizados de trabalhadores e a politização dos militares (tenentismo). A reforma 
constitucional de 1926 é vista como resposta tardia a esse acúmulo de insatisfações, 
capitaneado pelo Rio Grande do Sul que havia sido excluído do esquema café com leite. 
Tem, no entanto, um caráter centralizador, embora estabeleça alguns limites a intervenção 
federal. 
 
 
D) Revolução de 30, Constituinte de 1934 e Estado Novo 
 
 Aliança liberal e eleições de 1930. Derrota de Vargas nas eleições presidenciais 
 
2 LYNCH, C.; NETO, C. S. P. O constitucionalismo da inefetividade. Revista Quaestio Iuris, vol.05, 
nº01. ISSN 1516-0351 p. 85-136 
20 
 
de 1930 é sucedida por uma sublevação civil e militar a partir de Rio Grande do Sul, 
Minas e Paraíba para derrubar Washington Luís. O primeiro ato jurídico do novo governo 
provisório, o Decreto 19.398 de 11 de novembro de 1930, concentrava todos os poderes 
na mão do Executivo. O balanço da revolução é o da não participação das classes 
subalternas, mas, novamente, uma recomposição do bloco de poder entre as oligarquias 
ligadas ao campo, com apoio dos militares e setores urbanos médios. 
 Para os setores oligárquicos que ficaram de fora governo provisório, a 
reconstitucionalização do país é vista como uma saída necessária de “normalização” do 
regime. Antes da assembleia constituinte de 1933-34, porém, cabe citar alguns 
antecedentes políticos importantes: 
 
* Revolução paulista de 1932 pela reconstitucionalização, que é derrotado, mas 
leva à determinação da realização de eleições para ANC; 
* Criação do Ministério do trabalho, indústria e comércio; regulação da 
sindicalização; criação da Justiça e do Código eleitoral (todas medidas que 
contemplam o programa da Aliança Liberal); 
 
 A convocação para as eleições da constituinte condiciona alguns assuntos que não 
podem ser alterados: forma republicana e federativa, direitos e garantias individuais da 
Constituição de 91 e direitos dos municípios. Estabelece o número de deputados e a 
representação classista. 
 
Constituição de 1934 
Origem Popular 
Modo de 
elaboração 
Dogmático, a partir de anteprojeto do governo 
Conteúdo Material 
Estabilidade Semi-rígida. Ao contrário do art. 90 da CR 1891, o art. 178 previa apenas duas 
discussões e maioria absoluta. 
Forma/sistema de 
governo 
República e Presidencialismo 
Forma de Estado Federativa, com limites à intervenção federal. 
Organização dos 
poderes 
Tripartite. Extinção do cargo de vice-presidente. Senado perde importância e se 
torna órgão de colaboração da Câmara. Há também os conselhos técnicos como 
órgãos auxiliares. Na Câmara, passa a haver representação dos sindicatos de patrões 
e empregados. Limites ao estado de sítio. 
Declaração de 
direitos 
Direitos e garantias individuais. Voto feminino, voto secreto. Mandado de 
segurança. Direitos sociais dos trabalhadores, direito à educação e assistência 
social.Ordem Econômica 
e social 
Tema novo. Dispõe sobre assuntos como limites a livre iniciativa, o direito a 
subsistência, a possibilidade de monopólios, o combate à seca, nacionalização do 
sistema financeiro e serviços públicos. Trata ainda da família e da cultura. 
Outros temas Segurança nacional e funcionalismo público. As forças armadas são instituições 
nacionais permanentes, e, dentro da lei, essencialmente obedientes aos seus 
superiores hierárquicos. Destinam-se a defender a Pátria e garantir os Poderes 
constitucionais, e, ordem e a lei. 
 
21 
 
 A constitucionalização não estabiliza o país. A permanência de Vargas, eleito para 
a Presidência da República depois de encerrada a Constituinte, mantém tensões com a 
oligarquia. Brasil ingressa na era da “política de massas”, com a classe trabalhadora se 
organizando em partidos e sindicatos. Do andar de cima, Vargas tenta ser um “príncipe” 
no sentido maquiaveliano, explorando as contradições da classe dominante para se manter 
no poder e levar adiante uma obra modernizadora do Estado e da economia. Sua 
proximidade com o fascismo leva à tolerância com o partido integralista, bem como à 
repressão aos comunistas. A intentona de 1935 (e o anticomunismo) serão peça-chave do 
golpe de 1937, com o qual se inicia uma nova fase ditatorial, o período do Estado Novo. 
 
Constituição de 1937 
 
Origem Outorgada 
Modo de 
elaboração 
Dogmático 
Conteúdo Material 
Estabilidade Flexível. Não menciona limites materiais ao PC reformador. Emenda não aprovada 
no parlamento pode ser submetida a plebiscito. 
Forma/sistema de 
governo 
República e Presidencialismo 
Forma de Estado Federativa. 
Organização dos 
poderes 
Tripartite. Concentração de poderes no Executivo: presidente legisla através 
decretos-lei, decide sobre intervenção federal e estado de exceção, convoca e 
suspende o parlamento. Fim dos partidos, eleição indireta e das imunidades 
parlamentares. Presidente pode desconsiderar a decisão de inconstitucionalidade e 
fica vedado ao judiciário conhecer de questões políticas. Transformação do senado 
em conselho federal. Cria-se o conselho de economia nacional. 
Declaração de 
direitos 
Limita direitos individuais: “o uso desses direitos e garantias terá por limite o 
bem público, as necessidades da defesa, do bem-estar, da paz e da ordem coletiva, 
bem como as exigências da segurança da Nação e do Estado em nome dela 
constituído e organizado nesta Constituição”. Estabelece a pena de morte e a 
censura. 
Ordem Econômica 
e social 
Livre iniciativa com possibilidade de intervenção direta do Estado. Trabalho como 
dever social. Instituição da Justiça do Trabalho. Proibição do direito de greve. 
Outros temas Militares, segurança nacional e funcionalismo público 
 
 
E) Redemocratização em 1946 
 
 A guerra de 1939-45 prolonga a ditadura, mas seu fim e o novo alinhamento com 
os EUA, sobretudo dos militares brasileiros, aumentam a pressão pela saída de Vargas. 
Edita-se, ainda sob a ditadura, a Lei Constitucional nº9 de 1945, que previa a eleição de 
um parlamento com poderes para mudar a constituição, abrindo espaço para a 
redemocratização. 
 
“O confronto com os liberais do Manifesto Mineiro e da nascente União Democrática 
Nacional desembocaria no 29 de outubro, data em que os generais, desferindo o golpe 
de Estado, derrubariam o Estado novo. Lideranças civis e militares instituíram a seguir 
22 
 
um governo provisório, cometido a José Linhares, então presidente do Supremo 
Tribunal Federal” (BONAVIDES, p. 265). 
 
 Depois do golpe que derrubou Vargas, edita-se a Lei constitucional nº 13, dando 
poderes ilimitados aos representantes eleitos para votar a Constituição. A Lei 
constitucional nº 15 definia as regras da constituinte e do governo de transição. A 
constituinte é marcada pela presença das mais diferentes correntes de opinião. Destaca-
se o debate sobre as liberdades sindical e partidária, que divide os partidos. Estava em 
jogo a concepção de democracia, no quadro já de Guerra Fria, em que os conservadores 
postulam a necessidade de manutenção da ordem (capitalista) em face das reivindicações 
por reformas estruturais. Essa polêmica é combinada com o problema do 
desenvolvimento, que passa a dominar o debate público. 
 
Constituição de 1946 
Origem Popular, sem anteprojeto prévio. 
Modo de elaboração Dogmático 
Conteúdo Material 
Estabilidade Semi-rígida. 
Forma/sistema de governo República e Presidencialismo 
Forma de Estado Federativa. Limites à intervenção federal são reinstituídos. 
Organização dos poderes Retorno à tripartição de poderes com freios e contrapesos. No legislativo, 
retorno do bicameralismo com a reinstituição do senado. Fim da 
representação classista e dos conselhos. 
Declaração de direitos Retorna o modelo de declaração de 34. 
Ordem Econômica e 
social 
Exclui o direito à subsistência, embora garanta o direito ao trabalho. Atuação 
estatal no domínio econômico limitada pelos direitos fundamentais. 
Outros temas Substitui o capítulo da segurança nacional por um capítulo para as forças 
armadas, mantendo sua atribuição de garantir os poderes constitucionais, a 
ordem e a lei. 
 
 
 A vitória de Vargas nas eleições de 1950, o segundo período presidencial 
subsequente ao fim do Estado Novo, mostra a hesitação do novo regime em se 
comprometer com os anseios populares. A primeira crise constitucional grave se dá em 
1955, cerca de um ano após o suicídio de Vargas. O adoecimento do Vice-Presidente em 
exercício Café Filho leva Carlos Luz, presidente da Câmara, à Presidência. Luz é deposto 
por um movimento militar, que se faz em nome da posse do já eleito Juscelino Kubistchek, 
pois Luz e outras figuras como Carlos Lacerda, supostamente, tramaram para impedir a 
posse de JK. 
 A segunda crise constitucional grave ocorre em 1961, após a renúncia do 
Presidente Jânio Quadros. Lembremos que nesse período, a eleição para Vice-Presidente 
não se dava por chapa. Nas eleições de 1960, João Goulart, candidato progressista de 
linha oposta à Quadros, se elegera para novamente para a Vice-Presidência. Quando a 
renúncia ocorre, Jango está em viagem oficial. Os militares ameaçam impedir seu retorno 
e o Congresso aprova emenda constitucional que muda o sistema de governo de 
23 
 
presidencialista para parlamentarista. Jango assume, mas sem a integralidade dos poderes 
presidenciais. 
 A mesma emenda prevê em 1963 a realização de plebiscito para confirmar a 
mudança, no qual o parlamentarismo sai derrotado. Os poderes presidenciais previstos 
pela Carta de 1946 são então restituídos a Jango, que se aproxima dos chamados 
movimentos pelas reformas de base. Isto é lido pelos conservadores como alinhamento 
com o comunismo e, consequentemente, passa-se a fermentar a hipótese de um novo 
golpe, que acaba ocorrendo no dia 1º de abril de 1964. Instala-se, ainda vigente a 
constituição de 46, a ditadura civil-militar que duraria por 21 anos. 
 
F) Ditadura militar (1964-85) 
 
 O golpe de Estado e a ditadura são justificados pela promessa de retornar o poder 
aos civis, tão logo a suposta “ameaça comunista” houvesse sido afastada. Por esta razão, 
os militares, inicialmente, mantêm nominalmente em vigor a Constituição de 1946, mas 
dão forma jurídica ao golpe através de uma série de “Atos Institucionais”. Nos temos do 
Ato Institucional nº 1, os atos institucionais seriam um autoproclamado exercício do 
“poder constituinte originário” em nome da Nação pelos militares golpistas, razão pela 
qual suspenderam ou revogaram dispositivos constitucionais conforme desejassem. Eis 
um panorama do conteúdo dos primeiros AI: 
 
Ato Ano Síntese do Conteúdo 
AI 1 1964 Eleição indireta para presidente. Presidente pode decretar o estado 
de sítio. Suspensão das garantias dos juízes e servidores públicos. 
Possibilidade de cassação de direitos políticos e mandatos 
legislativo 
AI 2 1965 Extinção dos partidos; Presidente pode baixar atos-
complementares e decretos-lei. Direito de decretaro recesso do 
Congresso, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. 
AI 3 1966 Estende a eleição indireta para governadores. 
 
 
Com a crescente resistência cívica ao regime, o governo, através do AI 4 de 1966, 
convoca o Congresso a reunir-se extraordinariamente para votar uma nova Constituição. 
Vale lembrar que os parlamentares estavam cerceados pelos atos institucionais e muitos 
da oposição foram cassados. Além disso, a “constituinte” trabalharia com um anteprojeto 
que, de acordo com os militares, continha trechos “não emendáveis”. 
A Constituição de 1967 aumenta o poder do Executivo sobre o Congresso através 
dos Decretos-lei e leis delegadas, institui o sistema bipartidário e reduz a autonomia 
estadual. Constitucionaliza as restrições à liberdade de pensamento e aos direitos 
fundamentais de um modo geral à finalidade de “realização da justiça social e à 
preservação e aperfeiçoamento do regime democrático”. Prevendo um possível retorno 
dos civis, ampliam-se as competências da justiça militar. 
 
24 
 
A reconstitucionalização é interrompida pela edição, um ano mais tarde, do Ato 
Institucional nº 5, que decreta o recesso do congresso nacional, a intervenção federal nos 
estados e municípios, a possibilidade de suspensão dos direitos políticos de qualquer 
cidadão e a suspensão do habeas corpus. O AI 5 é considerado como o principal sintoma 
do “endurecimento” do regime, ao mesmo tempo em que crescia a resistência cidadã. 
No ano seguinte, a ditadura outorgaria a Emenda Constitucional nº 01 de 1969, 
que altera 100 artigos da Constituição de 1967 e é considerada por alguns uma nova 
constituição. Além da imposição desta emenda, a continuidade da edição dos Atos 
Institucionais e Atos Complementares demonstra que a constitucionalização do regime 
era apenas nominal. 
 
F) Redemocratização e Constituição de 1988 
 
 Após um período de aparente estabilidade gerada por resultados econômicos 
positivos, a crise do regime ditatorial começa a se evidenciar na campanha da anistia, em 
1978-79, seguida pela vitória da oposição nos estados em 1982. Começa a campanha pela 
retomada das eleições diretas para Presidência, derrotada no Congresso em 1984. Em 
1985, forma-se a Aliança Democrática, que reuniu membros do partido da ordem e da 
oposição oficial, levando à vitória nas eleições indiretas dos civis Tancredo Neves e José 
Sarney. Tancredo vem a falecer e Sarney assume. Sendo uma das promessas da Aliança a 
reconstitucionalização do país, o novo Presidente envia ao congresso proposta de emenda 
para convocar a constituinte. 
 Em novembro é aprovada a Emenda nº 26 de 1985 que amplia e consolida a 
anistia, convoca os membros de Câmara e Senado para se reunirem em Assembleia 
Nacional Constituinte a partir de 1º de fevereiro de 1987 (487 deputados e 72 senadores), 
e prevê a aprovação do texto da constituição em dois turnos de votação por maioria 
absoluta. Eis abaixo uma cronologia do processo constituinte: 
 
Data Evento 
Setembro de 1986 Decreto 91.450/1986 - Instituição da Comissão Afonso 
Arinos (comissão provisória de estudos constitucionais). 
Fevereiro de 1987 Na instauração da Constituinte, a proposta de uma comissão 
constitucional com a tarefa de elaborar o anteprojeto foi 
rejeitada. Aprovou-se a proposta de dividir os constituintes 
em oito comissões temáticas, com três subcomissões cada 
uma, além da comissão de sistematização e começar a redação 
do zero. 
Fevereiro-Março de 
1987 
Debate sobre o regimento e início dos trabalhos. Cada 
comissão foi composta de 63 membros titulares e igual 
número de suplentes. A comissão de sistematização teria 49 
membros mais os presidentes e relatores das comissões, com 
representação de todos os partidos. Regimento deu prazo de 
30 dias para a apresentação de propostas que iam ser 
debatidas nas comissões. 
25 de maio de 1987 24 subcomissões apresentam relatórios às comissões 
25 
 
26 de junho de 1987 Apresentação do primeiro anteprojeto da comissão de 
sistematização. Abre-se o prazo para emendas, inclusive 
populares. 
18 de setembro de 
1987 
Comissão de sistematização apresenta novo projeto. Proposta 
de parlamentarismo e cinco anos para o mandato de Sarney. 
Novembro/dezembro 
de 1987 
Reforma do regimento – questionamento do trabalho da 
comissão de sistematização leva à formação do Centrão. 
Reivindica-se o direito de emenda no plenário e a votação 
prioritária de emendas, substitutivos e destaques que tivessem 
maioria de assinaturas. Esquerdas questionam o centrão como 
tentativa de “zerar o processo” e tentam obstruir a votação do 
novo regimento, sem sucesso. 
27 de janeiro/27 de 
julho de 1988 
Votação em primeiro turno do projeto de constituição 
22 de setembro de 
1988 
Segundo turno de votação 
05 de outubro de 
1988 
Promulgação da “Constituição Cidadã” 
 
 
 
8. Conceito de Constituição em uma abordagem dogmática 
 
 Até agora falamos do constitucionalismo e da constituição de um modo 
predominantemente zetético, recorrendo à história. Mas esses conceitos também têm 
operatividade no campo dogmático, já que intervêm na interpretação e aplicação da 
constituição. Por esta razão, vejamos um conceito dogmático de constituição, formulado 
por José Afonso da Silva: 
 
“sistema de normas jurídicas, escritas ou costumeiras, que regulam a forma de 
Estado, a forma de governo, o modo de exercício e aquisição do poder, o 
estabelecimento dos limites da sua ação, os direitos fundamentais do homem e 
suas respectivas garantias. Em síntese, constituição é o conjunto de normas que 
organizam os elementos constitutivos do Estado”. (SILV A, p. 38). 
 
 O mesmo autor classifica dogmaticamente os “sentidos” da constituição. Podemos 
falar de três: 
 
a) Sentido sociológico de constituição – Ferdinand Lassale, na obra “A essência da 
constituição”, apresenta uma teoria sociológica da constituição, fundada na noção 
de “fatores reais de poder”. Segundo esse autor, o texto constitucional sem levar em 
consideração esses fatores é uma mera folha de papel; 
b) Sentido político de Constituição – Carl Schmitt, o jurista do Terceiro Reich, 
diferencia entre o sentido absoluto da constituição e sentido relativo (lei 
constitucional). Para ele a constituição efetiva é a “estrutura global concreta da 
unidade política” (modo de existência concreto), certa forma da ordem político-
26 
 
social e seu devir; 
c) Sentido Jurídico – Hans Kelsen, o fundador do positivismo jurídico, fala da 
Constituição como norma jurídica mais importante de um sistema, decorrendo 
diretamente da autoridade pressuposta através da norma fundamental 
 
 De acordo com Fioravanti, desde o século XIX também buscou-se falar em 
sentido material de Constituição, por oposição ao sentido formal de constituição: “todas 
estas doutrinas são caracterizadas pela busca de um fundamento do direito na 
comunidade política, em uma dimensão mais profunda do que a ligada à simples vigência 
formal da lei do Estado”. 
É certo, portanto, que a dogmática constitucional volta sua atenção não apenas 
para os problemas de fundamentação da soberania e organização do Estado, mas também 
para os elementos econômicos, ideológicos e éticos da comunidade política. Fiquemos, 
por entanto, com José Afonso da Silva, que nos fala da constituição como um sistema 
complexo entre norma e realidade social: 
 
 “A constituição é algo que tem como forma um complexo de normas 
(escritas/costumeiras), como conteúdo a conduta humana motivada pelas relações 
sociais (econômicas, políticas, religiosas, etc.); como fim, a realização de valores 
que apontam para o existir da comunidade política; e, finalmente, como causa 
criadora e recriadora o poder que emana do povo”. 
 
 
Veremos que dessa relação complexa dependem, em grande medida, a autoridade 
e a duração das constituições. Para fazer este tipo de análise a dogmática com frequência 
se utiliza do método comparativo. Dada a diversidade constitucional no mundo, por 
exemplo, a dogmática cria classificações que

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