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1 Síntese Constitucionalismo e Constituição 1. Definições Partamos da definição de constitucionalismo por Gomes Canotilho: “é a teoria (ou ideologia) que ergue o princípio do governo limitado indispensável à garantia de direitos em dimensão estruturante da organização político-social de uma comunidade. Neste sentido, o constitucionalismo moderno representará uma técnica específica de limitação do poder com fins garantísticos” (p. 51). Nesta definição, fica evidenciado que o constitucionalismo tem uma natureza ambivalente: é uma teoria da política, que busca explicar a “anatomia do processo governamental” (Loewenstein) no contexto dos Estados Constitucionais, isto é, a estrutura jurídica e o funcionamento das instituições constitucionais, mas também é uma teoria normativa (ideologia), que se ocupa de como deve ser a estrutura política da comunidade e não apenas a descreve. É interessante falar em movimentos constitucionais, para marcar as distintas origens (temporais e espaciais) e processos (políticos, sociais, econômicos) que levam ao que hoje caracterizamos como um conjunto de ideias mais ou menos unitário (o constitucionalismo). Do ponto de vista temporal, Canotilho fala em ciclos longos (o desenvolvimento mais ou menos gradual de certas instituições) e momentos fractais (as rupturas que produzem transformações revolucionárias). Por isso, ele também fala de um sentido “histórico-descritivo” de constitucionalismo. Uma definição histórico-descritiva caracteriza o constitucionalismo como “movimento político, social e cultural que, sobretudo a partir de meados do século XVII questiona nos planos político, filosófico e jurídico os esquemas tradicionais de domínio político, sugerindo, ao mesmo tempo, a invenção de uma nova forma de ordenação e fundamentação do poder político”. Podemos dizer, em síntese bem grosseira, que o constitucionalismo é a teoria do governo limitado, no seu funcionamento efetivo e como ideal a ser alcançado. O constitucionalismo, enquanto movimento social e político, pretende tornar a ideia do Estado de Direito ou do “governo das leis” uma realidade política e jurídica. Como teoria, procura explicar as técnicas, os procedimentos e instituições que levam a um exercício limitado do poder político. Sobre que o seriam estas limitações, Luís Roberto Barroso, por exemplo, fala em três ordens: a) Materiais – “há valores básicos e direitos fundamentais que hão de ser sempre preservados, como a dignidade da pessoa humana, a justiça, a solidariedade e os direitos à liberdade de religião, de expressão, de associação”. b) Orgânicas – “as funções de legislar, administrar e julgar devem ser atribuídas a órgãos distintos e independentes, mas que, ao mesmo tempo, se controlem reciprocamente (checks and balances)”; c) Processuais – “os órgãos do poder devem agir não apenas com fundamento na lei, mas também observando o devido processo legal, que congrega regras tanto de caráter procedimental (contraditório, ampla defesa, inviolabilidade do domicílio, vedação de provas obtidas por meios ilícitos) como de natureza substantiva (racionalidade, razoabilidade-proporcionalidade, inteligibilidade). Na maior parte dos Estados 2 ocidentais instituíram-se, ainda, mecanismos de controle de constitucionalidade das leis e dos atos do Poder Público”. 2. Constitucionalismo antigo e moderno Frequentemente, a literatura constitucional faz menção à antiguidade greco- romana como matriz da ideologia constitucional. No entanto, essa referência merece crítica. A antiguidade de fato serviu aos autores modernos para discutir suas próprias ideias, mas até certo ponto a Bíblia foi uma referência tão importante quanto e, sobretudo no século XVII, até ofuscou as referências ao passado helênico ou latino1. Como toda recepção de ideias antigas na modernidade, o sentido atribuído à experiência política dos gregos e romanos não coincide com uma análise historiográfica rigorosa, que possa fazer remontar os movimentos constitucionais modernos às instituições daqueles povos. Neste sentido são equivocadas as afirmações como as de Barroso, quando o autor sustenta que “Atenas é historicamente identificada como primeiro grande precedente de limitação do poder político – governo das leis, não dos homens – e de participação dos cidadãos nos assuntos públicos. Embora tivesse sido uma potência territorial e militar de alguma expressão, seu legado perene é de natureza intelectual, como berço do ideal constitucionalista e democrático. Ali se conceberam e praticaram ideias e institutos que ainda hoje se conservam atuais, como a divisão das funções estatais, a separação entre poder secular e religião, a existência de um sistema judicial e, sobretudo, a supremacia da lei, criada por um processo formal e válida para todos”. A principal impropriedade neste tipo de análise é que os antigos não desenvolveram nada parecido com a noção moderna de indivíduo e de associação voluntária destes indivíduos como fundamento do poder político. Com base nas análises do historiador político Moses Finley sobre Atenas, podemos ainda contestar que: 1. A democracia ateniense era direta (desconhecia a representação) e de tradição oral, não havendo senão poucos funcionários públicos. A assembleia era um corpo deliberativo onde todos os cidadãos do sexo masculino com idade superior a 18 anos poderiam participar e votar; 2. A soberania da assembleia era ilimitada; 3. Não havia separação funcional “orgânica” entre a participação da assembleia, a ocupação de cargos ou o julgamento em júris populares. Havia rodízio e eleição por sorteio. Não havia partidos; 3. Atenas era pequena em extensão e população, onde os assuntos comuns eram facilmente debatidos no dia a dia pelos cidadãos. Finley fala de “familiaridade”; 4. Havia um sentido forte de comunidade – koinonia – fortalecido pelos mitos e tradições que serviam como elemento de autocontrole dos cidadãos, que não se adequa à imagem moderna de separação entre poder secular e teológico. Tampouco pode-se comparar o constitucionalismo moderno e o medieval-europeu (que Canotilho chama de antigo). Este tratava de direitos (escritos ou consuetudinários) 1 Ver HILL, Cristopher. A Bíblia inglesa e as Revoluções do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 3 estamentais perante o monarca, numa sociedade dividida em ordens eclesiásticas, corporações de ofício e senhorios locais, cada um dos quais reivindicando a autoridade da sua própria ordem jurídica parcial frente às ordens reais. O contexto medieval de pluralismo jurídico admite os pactos entre soberanos e súditos, mas estes devem ser interpretados no contexto de uma soberania fragmentada, na ausência de uma ideia de representação política e de limitação jurídica do poder político. O erro dessa visão é olhar as instituições do passado com nossas categorias de hoje, o que Canotilho, por exemplo, condena (pp. 53-54). 3. “Ideias-força” do constitucionalismo moderno Resumamos, portanto, ideais centrais do constitucionalismo moderno: a) Utilizando a técnica da distribuição de poderes, a limitação jurídica do poder político, ou melhor, a racionalização do exercício do poder político através das prescrições jurídicas; b) A representação política como origem da distribuição de poderes e como fonte da legitimidade do exercício do poder político; c) A garantia de direitos dos indivíduos, que estão fora da esfera de alcance das decisões políticas e cuja transferência parcial legitima os representantes e a obediência às leis que criarem; d) A expectativa de transformar a sociedade utilizando a constituição para expressar uma nova estruturação do Estadoa permitiriam melhor situar a natureza jurídica de cada texto constitucional. Na tabela abaixo estão resumidas as principais classificações das Constituições: Classificações das Constituições frequentes na Dogmática Critério Classes Quanto ao conteúdo materiais, formais Quanto à forma escrita, não-escrita Quanto ao modo de elaboração dogmáticas, históricas Quanto à origem Outorgadas, populares Quanto à estabilidade rígidas, semirrígidas, flexíveis Quanto à “força normativa”: programáticas; dirigentes Outro instrumento dogmático importante que resulta do método comparativo é a identificação de certas estruturas comuns a vários textos constitucionais. De maneira muito geral, como expresso na definição apresentada acima, são elementos básicos das constituições aquelas normas que regulam a forma de governo, a forma de estado, o sistema de governo, o regime político e os direitos dos cidadãos. No quadro 27 contemporâneo, porém, outros elementos como a estruturação da ordem econômica, os direitos dos povos originários e os direitos da natureza podem ser incluídos nos textos. Abaixo, segue uma tabela com classificação dos “Elementos” apresentada por José Afonso da Silva para nossa atual Constituição: Classificação dos Elementos na CF/88 Tipo de Elemento Conteúdo na CF/88 Orgânicos Organização político-administrativa, organização dos poderes, tributação e orçamento, forças armadas e segurança pública Limitativos Direitos e garantias, controle de constitucionalidade Socioideológicos Direitos sociais, ordem econômica, ordem social Elementos formais de aplicabilidade Art. 5º, §2º, ADCT Mecanismos de resolução de crises: Intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio Dispositivos Transitórios ADCTe uma nova relação entre o Estado e a sociedade. O significado histórico-universal do constitucionalismo foi, e ainda é, ser a “esperança dos povos”: ao colocar essas ideias em suas práticas políticas, diferentes povos do sistema-mundo moderno buscaram se libertar de esquemas de dominação tradicionais e instituir novas culturas políticas, compatíveis com a ideia de que a humanidade pode tomar em suas próprias mãos os destinos de sua existência comum. Ainda assim, as ideias e instituições constitucionais surgem em contextos históricos específicos, que precisamos analisar. É o que faremos a partir do tópico seguinte. 4. Constitucionalismo “Clássico” (Europeu e Norte-Americano) Nesta seção, analisaremos alguns dos movimentos constitucionais que contribuem para formar o “cânone” do constitucionalismo, enquanto teoria e prática política. Quando dizemos isto, estamos nos referindo às experiências históricas de movimentos constitucionais que se tornaram “modelares” e cuja imitação foi decisiva na difusão mundial do constitucionalismo. As razões pelas quais certas ideias e instituições circularam como padrões a serem copiados são um tema complexo de história intelectual, não se explicando unicamente pela imposição colonialista dos modelos. O que podemos afirmar é que, uma vez que 4 certas instituições são implementadas com certa capacidade de resistência temporal ou duração, de maneira que podem ser analisados os seus efeitos e percebidas suas vantagens, reduz-se o custo político envolvido na “inovação total” para os movimentos constitucionais posteriores. A) Movimento constitucional inglês O movimento inglês seria de ciclo longo, devendo ser compreendido pelo que Canotilho chama de modelo “historicista”: as suas instituições teriam se desenvolvido gradualmente ao longo dos séculos que vão da invasão normanda (século XII) até a instauração da monarquia parlamentar moderna, com sucessivas ampliações da representação e participação política ao longo dos séculos XIX e XX. O marco inicial deste ciclo longo seria a Magna Carta de 1215, um “contrato de domínio” estabelecendo direitos dos súditos livres em face do monarca. Há controvérsias sobre este marco inicial do século XIII. Alguns historiadores entendem a Magna Carta como um documento feudal, por oposição aos documentos das revoluções inglesas do século XVII (petição de direitos, ato de habeas-corpus, carta de direitos). Favorece a visão gradualista o peso dos costumes constitucionais e ausência de um documento único que seja considerado a “Constituição da Inglaterra”, expressão formulada por Montesquieu no século XVIII. Se é verdade que o movimento constitucional inglês é de ciclo longo, as revoluções do século XVII e a guerra civil entre o parlamento e a coroa são um evidente momento de ruptura. As ideias formuladas e colocadas em prática neste período marcam a instauração da monarquia parlamentar moderna na Inglaterra, cujo marco é o Bill of Rights de 1689, que afirma a independência do parlamento. Segundo Canotilho, neste documento, algumas ideias importantes já presentes em outros textos se sedimentaram: a) a liberdade pessoal dos ingleses e a segurança de seus bens; b) a garantia de um devido processo legal; c) as leis são interpretadas livremente pelos juízes e, finalmente, d) a supremacia do parlamento e da representação política. A independência do Parlamento significa a introdução do princípio representativo na constituição, mas não necessariamente a separação de poderes como conhecemos hoje ou regime democrático, que só se estabelece com a extensão do sufrágio e a restrição das atribuições da Câmara dos Lordes, no início do século XX. Isto é um argumento a mais para a tese do ciclo longo, que continua até hoje, se considerarmos o Human Rights Act de 1998 e o Constitucional Reform Act, que cria a corte constitucional, em 1998. Cronologia 1215 – Magna Carta 1529-1536 – Reinado de Henrique VIII. Uma série de atos do Parlamento marcam o rompimento da Inglaterra com Roma 1605 - Conspiração da pólvora (“V” de vingança) 1624 – Príncipe Carlos se casa com a Francesa Henrietta Maria, católica 1628 – Petição de Direitos 5 1629 – Reinado de Carlos I 1642-1653 – Primeira Guerra Civil 1646 – Renúncia de Carlos I 1648 – Segunda guerra civil 1649- Execução de Carlos I. Commonwealth. 1660 – Restauração de Carlos II. 1679 – Habeas Corpus Act 1685 – Reinado de Jaime II 1688 – Revolução Gloriosa 1689 – Bill of Rights 1800-1900 – Ampliação sucessiva do sufrágio 1911 – Restrição das Atribuições da Câmara dos Lordes 1918 – Voto feminino. Sufrágio Universal 1920 – Emergency Powers Act 1998 – Human Rights Act 2005 – Constitutional Reform Act Trechos selecionados de documentos constitucionais ingleses Magna Carta (1215) Origens do Parlamento Inglês: 12 – Nenhuma “ajuda” ou “tributo de isenção militar” (2) será estabelecida em nosso reino sem o consentimento geral, a não ser para o resgate de nossa pessoa, para fazer cavaleiro nosso filho primogênito, e para casar nossa filha primogênita. Para estes propósitos, somente poderá ser estabelecida uma ajuda razoável. De igual maneiro se procederá quanto às ajudas da cidade de Londres. (…) 14 – Para obter o consentimento geral acerca do levantamento de uma “ajuda” – exceto nos três casos especificados acima – ou de uma escudagem (2), faremos com que sejam intimados, individualmente e por carta, os arcebispos, bispos, abades, condes e os altos barões do reino; por outro lado, faremos com que sejam intimados coletivamente, por meio de nossos sheriffs e meirinhos, todos aqueles que possuem terras diretamente da Coroa, para se reunirem num dia fixado (do qual deverão ser notificados com antecedência mínima de quarenta dias) e num lugar determinado. Em todas as cartas de intimação indicaremos a causa da mesma. Quando a intimação tiver sido feita, proceder-se-á à reunião no dia marcado, decidindo se a matéria estabelecida para a mesma de acordo com a resolução de quantos estiverem presentes, embora não tenham comparecido todos os que foram intimados. Direitos individuais: 38 – No futuro, nenhum meirinho sujeitará qualquer homem a julgamento, fundado apenas em sua própria declaração, sem provas e sem produzir testemunhas para demonstrar a verdade do delito alegado. 6 39 – Nenhum homem livre será detido ou aprisionado, ou privado de seus direitos ou bens, ou declarado fora da lei, ou exilado, ou despojado, de algum modo, de sua condição; nem procederemos com força contra ele, ou mandaremos outros fazê-lo, a não ser mediante o legítimo julgamento de seus iguais e de acordo com a lei da terra. 40 – Nós não venderemos, recusaremos, ou protelaremos o direito ou a justiça para quem quer que seja. Petição de Direitos (1628) (...) Por todas estas razões, os lordes espirituais e temporais e os comuns humildemente imploram a Vossa Majestade que, a partir de agora, ninguém seja obrigado a contribuir com qualquer dádiva, empréstimo ou benevolência e a pagar qualquer taxa ou imposto, sem o consentimento de todos, manifestado por ato do Parlamento; e que ninguém seja chamado a responder ou prestar juramento, ou a executar algum serviço, ou encarcerado, ou, de uma forma ou de outra molestado ou inquietado, por causa destes tributos ou da recusa em os pagar; e que nenhum homem livre fique sob prisão ou detido por qualquer das formas acima indicadas; e que Vossa Majestade haja por bem retirar os soldados e marinheiros e que, para futuro, o vosso povo não volte a ser sobrecarregado; e que as comissões para aplicação da lei marcial sejam revogadas e anuladas e que, doravante, ninguém mais possa ser incumbido de outras comissões semelhantes, a fim de nenhum súdito de Vossa Majestade sofrer ou ser morto, contrariamente às leis e franquias do país. Tudo isto rogam os lordes espirituais e temporais e os comuns a Vossa majestade como seus direitose liberdades, em conformidade com as leis e provisões deste reino; assim como rogam a Vossa Majestade que se digne declarar que as sentenças, ações e processos, em detrimento do vosso povo, não terão consequências para futuro nem servirão de exemplo, e que ainda Vossa Majestade graciosamente haja por bem declarar, para alívio e segurança adicionais do vosso povo, que é vossa régia intenção e vontade que, a respeito das coisas aqui tratadas, todos os vossos oficiais e ministros servirão Vossa Majestade de acordo com as leis e a prosperidade deste reino. Bill of Rights (1689) E doravante os ditos Lordes Espirituais e Temporais e Comuns, respeitando suas devidas cartas e eleições, estando reunidos em uma completa e livre representação dessa nação, tomando em suas mais sérias considerações os melhores meios para atingir os meios antes mencionados, em primeiro lugar (como seus ancestrais em caso semelhante geralmente fizeram) para reivindicar e afirmar seus antigos direitos e liberdades, declaram: Que o pretendido poder de suspender as leis ou a execução das leis pela autoridade real sem o consentimento do parlamento é ilegal; (…) Que a eleição dos membros do Parlamento deve ser livre; Que a liberdade de expressão e os debates e procedimentos do Parlamento não devem ser impedidos (impeached) ou questionados em nenhuma corte ou lugar fora do Parlamento; 7 (...) B) Movimento constitucional nos Estados Unidos O constitucionalismo nos EUA é bastante singular e compreende dois momentos fundamentais e distintos entre si: um de libertação nacional, entendido pelos estadunidenses como revolucionário, em que se afirma o direito de autodeterminação do povo e a necessidade de seu consentimento como fundamento do poder e, em consequência disso, a elaboração de constituições escritas nas antigas colônias. Após o período de guerra revolucionária, ocorre a assinatura de um tratado de confederação entre elas (Artigos da Confederação, 1781), que funciona como constituição e consolida a instância deliberativa comum que impulsionou a revolução, o Congresso Continental. Outro momento, de formação de um novo tipo de Estado, ocorre a partir da autoproclamação do Congresso Continental reunido em 1787 na Filadélfia em Convenção constituinte. Esta convenção vai além do seu mandato original para reformar os artigos da confederação e escreve um projeto de constituição de uma república “federativa”, que deve ser levado à ratificação dos Estados. Processo este que só termina em 1789, com a aprovação do texto acrescido de dez emendas que serão consideradas a “Carta de Direitos” (Bill of Rights) da Constituição. Durante o processo de ratificação, James Madison, Alexander Hamilton e John Jay escrevem artigos de jornal no Estado de Nova Iorque, onde defendem o projeto e explicam as concepções que estão por trás dele. Os artigos são muito ricos do ponto de vista da informação histórica e teórica, mas podemos sintetizar da seguinte maneira os seus principais pontos: 1. Para realizar a tarefa constituinte, é necessária uma espécie de ciência política que compara experiências institucionais, reúne dados da realidade empírica e estabelece alguns princípios sobre as formas de governo; 2. Os artigos são animados pela ideia de construir no novo mundo uma nação poderosa, capaz de rivalizar com as potências coloniais. Por isso, estudam os defeitos de outras experiências políticas e da própria confederação para extrair disso conclusões sobre como instituir um governo forte preservando a liberdade e propriedade, vistas como principais ideais da revolução de 1776. 3. Esse governo forte é resultado sobreposição de um governo central aos governos dos Estados, com autoridade direta sobre todos os cidadãos, a única maneira de evitar que disputas entre os Estados levem à fragmentação e à competição danosas ao objetivo maior de construir uma grande potência mundial; 4. Esse governo não é, contudo, um governo arbitrário; ele é pautado por uma constituição escrita que define exatamente as atribuições de seus órgãos e conta com um poder judiciário capaz de fazer valer o Rule of Law sobre os demais órgãos do poder que são representativos do povo e dos Estados. 5. A autoridade executiva deve ser também independente da autoridade legislativa, para garantir a continuidade da administração do Estado e da 8 execução das leis independentemente dos interesses de facções que eventualmente se formem no congresso. Isto também garante a agilidade e energia na tomada de decisões que podem ser adiadas por muito tempo pela morosidade do debate legislativo. O que tem especial importância num quadro em que se está constantemente ameaçado por potências coloniais como França, Espanha e a própria Inglaterra. O constitucionalismo dos Estados Unidos é conhecido por ser a experiência supostamente mais estável, pois o país é regido pelo mesmo texto constitucional, com poucas emendas, por mais de 200 anos. Bruce Ackerman sustenta, no entanto, que o constitucionalismo norte-americano ainda experimenta três grandes momentos constituintes: o pós-guerra civil ou as “emendas de reconstrução”; o New Deal dos anos 1930; e o movimento dos direitos civis na década de 1960. De qualquer modo, é reconhecido que os Estados Unidos são o país onde se verificaram diversas mudanças interpretativas do texto da constituição, fenômeno conhecido como mutação constitucional. Sobre isto, dedicaremos um tópico específico do curso. Em resumo, as contribuições de maior destaque do movimento constitucional dos Estados Unidos para o constitucionalismo são: a) A sedimentação da ideia de Estado Constitucional, simultaneamente à invenção de uma norma forma de Estado, a federativa; b) O sistema de governo presidencialista e as técnicas de distribuição de poderes; c) A supremacia constitucional e a importância do Poder Judiciário para resolução de conflitos políticos e manutenção da autoridade da Constituição sobre os Poderes. Cronologia 1770 – Massacre de Boston 1773 – Boston Tea Party 1776 – Declaração de Independência 1781 – Artigos da confederação 1787 – Maio - Convenção da Filadélfia 1787 – Setembro - Projeto de constituição, início do processo de ratificação 1789 – Bill of Rights (10 primeiras emendas à Constituição). Fim da Ratificação. 1861-1865 – Guerra civil ou de secessão. 1865-70 – Reconstrução. Emendas XIII, XIV e XV. Trechos selecionados de documentos constitucionais dos Estados Unidos Declaração de Independência (1776) Quando, no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário a um povo dissolver os laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus da natureza, o respeito digno para com as opiniões dos homens exige que se declarem as causas que os levam a essa separação. Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens 9 são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. (…) Constituição (1787) Nós, o Povo dos Estados Unidos, com o objetivo de formar uma mais perfeita União, estabelecer a Justiça, assegurar a Tranquilidade doméstica, prover a defesa comum, promover o Bem-estar geral e assegurar as Bençãos da Liberdade para nós e para a Posteridade, ordenamos e estabelecemos essa constituição dos Estados Unidos da América. (…) Artigo I, seção 10Nenhum Estado poderá participar de tratado, aliança ou confederação; conceder cartas de corso; cunhar moeda; emitir títulos de crédito; autorizar, para pagamento de dívidas, o uso de qualquer coisa que não seja ouro e prata; votar leis de condenação sem julgamento, ou de caráter retroativo, ou que alterem as obrigações de contratos; ou conferir títulos de nobreza. Nenhum Estado poderá, sem o consentimento do Congresso, lançar impostos ou direitos sobre a importação ou a exportação salvo os absolutamente necessários à execução de suas leis de inspeção; o produto líquido de todos os direitos ou impostos lançados por um Estado sobre a importação ou exportação pertencerá ao Tesouro dos Estados Unidos, e todas as leis dessa natureza ficarão sujeitas à revisão e controle do Congresso. (…) Artigo IV, seção 4 Os Estados Unidos garantirão a todo Estado nesta União a forma Republicana de governo, e protegerão cada um deles contra a invasão; e a pedido da Legislatura, ou do Executivo, estando aquela impossibilitada de se reunir, o defenderão em casos de violência doméstica. Bill of Rights (Emendas I-X, 1789) V- Ninguém será detido para responder por crime capital, ou outro crime infamante, salvo por denúncia ou acusação perante um Grande Júri, exceto em se tratando de casos que, em tempo de guerra ou de perigo público, ocorram nas forças de terra ou mar, ou na milícia, durante serviço ativo; ninguém poderá pelo mesmo crime ser duas vezes ameaçado em sua vida ou saúde; nem ser obrigado em qualquer processo criminal a servir de testemunha contra si mesmo; nem ser privado da vida, liberdade, ou bens, sem o devido processo legal; nem a propriedade privada poderá ser expropriada para uso público, sem justa indenização. (...) X - Os poderes não delegados aos Estados Unidos pela Constituição, nem por ela negados aos Estados, são reservados aos Estados ou ao povo. 10 C) Movimento Constitucional na França Os historiadores discutem o alcance do movimento constitucional na França, mas parece certo de que se trata do primeiro movimento de transformação social radical de impacto global, como afirma Eric Hobsbawn: “A França fornece o vocabulário e os temas da política liberal e radical democrática para a maior parte do mundo. A França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e o vocabulário do nacionalismo. A França forneceu os códigos legais, o modelo de organização técnica e científica para a maioria dos países. A ideologia do mundo moderno atingiu as antigas civilizações que tinham até então resistido às ideias europeias inicialmente através da influência francesa” (Era das Revoluções, p. 98). Este diagnóstico é seguido pelo criador da teoria dos sistemas-mundo, Immanuel Wallerstein, que vê na Revolução Francesa o movimento crucial para a criação de uma cultura política global (ou geocultura). Sem nos aprofundarmos nas causas políticas, socioeconômicas e ideológicas da revolução, o que torna este movimento singular é que, pela primeira vez na história, experimenta-se a mobilização total da sociedade em um processo de transformação radical das relações de poder vigentes. Tal mobilização se inicia com a autoproclamação do Terceiro Estado como Assembleia Nacional, episódio que deflagra a revolução. O texto do Abade Sieyès (O que é o terceiro estado?) revela o alcance dessa decisão: a assembleia nacional abole a divisão dos Estados Gerais, pois o terceiro estado representa a totalidade da nação e seu poder constituinte. Por isso, a constituição é a obra da própria nação dando a si mesma leis fundamentais. A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, afirma a universalidade dos direitos da cidadania independentemente de sua origem social. Na prática, a derrubada do antigo regime não será obra apenas da burguesia, mas também da massa empobrecida urbana e do campesinato. Esta mobilização massiva define, como diz Hobsbawn, uma “dramática dialética” em torno da extensão do conteúdo da revolução, que será repetida nas gerações futuras: “Repetidas vezes veremos moderados reformadores da classe média mobilizando as massas contra a resistência obstinada ou a contrarrevolução. Veremos as massas indo além dos objetivos dos moderados rumo a suas próprias revoluções sociais, e os moderados, por sua vez, dividindo-se em um grupo conservador, daí em diante fazendo causa comum com os reacionários, e um grupo de esquerda, determinado a perseguir o resto dos objetivos moderados, ainda não alcançados, com auxílio das massas, mesmo com o risco de perder o controle sobre elas” (Idem, p. 111). Assim, o movimento revolucionário francês pode ser dividido em um setor burguês-liberal e um setor democrático-radical. E isto se espelha na relação com o constitucionalismo: o setor liberal é contra a monarquia absoluta, mas não é favorável a demandas por igualdade social e política. O que fica evidente se compararmos a 11 Declaração de 1789 e a Constituição Republicana de 93: Declaração de 1789 Constituição de 1793 - Igualdade perante a lei, admitindo-se distinções sociais fundadas na utilidade comum; - Propriedade como direito fundamental; - Nação como fundamento da soberania; - Separação de Poderes e garantia de direitos como fundamentos de qualquer Constituição; - Assembleia representativa como órgão fundamental de governo e lei como expressão da vontade geral com a garantia da participação dos cidadãos (o que não significava eliminação da monarquia ou sufrágio universal). - Separação entre Religião e Estado - Fim da monarquia e soberania do povo (não da Nação); - Sufrágio universal; -Limitação do direito de propriedade por necessidade pública (com direito a indenização); - Direito à instrução e ao socorro público; - Direito à insurreição; - Direito de participação em todos os cargos públicos, políticos, administrativos ou judiciais; - Organização assemblear em nível local. Durante todo século XIX, o movimento constitucional francês oscilará entre a forma monárquica e a forma republicana, a depender das composições entre as classes dominantes e da capacidade de mobilização dos setores populares. É inegável, contudo, que o alcance da obra jurídica da revolução francesa vai além do Direito Público: a partir do Código Civil de 1804 (Código de Napoleão), é o próprio direito que se transforma no principal instrumento da composição de conflitos sociais e da organização da cooperação social. A Revolução inaugura uma nova racionalidade jurídica, que invade todos os setores da vida social onde porventura predominassem tradições não modernas. Esse quadro só entra em crise no final do século XX, quando o direito passa a perder essa centralidade como principal tecnologia social de poder. O movimento constitucional francês, em suma, sedimenta as seguintes ideias: a) a superioridade jurídica e política do poder constituinte, fundada na soberania da nação; b) a universalidade dos direitos e a relatividade das distinções sociais; c) a supremacia da lei como fonte de Direito. d) a revolução política e social como método de transformação das relações entre Estado e sociedade e das relações sociais em geral. Cronologia 1654-1715 – Reinado de Luís XIV. Auge do absolutismo. 1756 – Guerra dos sete anos. 1775 – Reinado de Luís XVI. 1776 – Apoio à Revolução Americana. 1787 – Crise financeira leva à convocação da Assembleia dos Notáveis. 1789 – Convocação dos Estados Gerais (não acontecia desde 1614). 12 1789 – Maio – Terceiro Estado se autodeclara como Assembleia Nacional. Declaração dos direitos do homem e do Cidadão. 1791 – Primeira Constituição Revolucionária (Monarquia Constitucional). 1792 – Segunda Constituição. Primeira República. 1795 – Termidor. Fim da Primeira República. Diretório e Consulado. 1799 – Golpe do Dezoito Brumário. Início da era Napoleônica. 1804-1815 – Fim do Consulado. Império. 1815-1830 – Restauração dos Bourbon.1830-1848 – Monarquia Constitucional. 1848-1851 – Segunda República 1851-1870 – Segundo Império. 1870-1940 – Terceira República. Trechos selecionados de documentos constitucionais da França Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) Artigo I – Os homens nascem e permanecem iguais em direitos. As distinções sociais não podem ser fundadas senão na utilidade comum. Artigo II – O fim de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Estes direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão. Artigo III – O princípio de toda Soberania reside essencialmente na Nação. Nenhum corpo ou indivíduo pode exercer a autoridade que dela emana expressamente. (…) Artigo VI – A lei é expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer pessoalmente ou por meio de seus representantes para sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja quando protege, seja quando pune. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, posições e empregos públicos, segundo sua capacidade, sem outra distinção que aquela de suas virtudes e de seus talentos. (…) Artigo XVI – Toda a sociedade onde a garantia dos direitos não seja assegurada, nem a separação de poderes seja determinada, não tem qualquer Constituição. Preâmbulo da Constituição de 1946 (incorporado à constituição de 1958, juntamente com a Declaração de 1789). (...) A lei garante a mulher, em todos os domínios, direitos iguais aos dos homens. (…) Cada um tem o dever trabalhar e o direito de obter um emprego. Ninguém pode ser lesado, em seu trabalho ou emprego, em razão de suas origens, opiniões ou crenças. (…) Todo bem, toda empresa cuja exploração tem ou adquire os caracteres de um serviço público nacional ou de um monopólio de fato, devem tornar-se propriedade da coletividade. (…) A Nação assegura ao indivíduo e família as condições necessárias ao seu desenvolvimento. Ela garante a todos, notadamente à criança, à mãe e aos velhos trabalhadores a proteção da saúde, a segurança material, o repouso e os lazeres. 13 Todo ser humano que, em razão de sua idade, de seu estado físico e mental e da situação econômica, se ache incapacitado para o trabalho tem o direito de obter da coletividade os meios de existência apropriados. D) O constitucionalismo do século XX Constitucionalismo Social e Socialista (Pré-2ª Guerra Mundial) A primeira metade do século XX, em especial após a eclosão da Primeira Guerra, é marcada pelo questionamento do liberalismo político e econômico, enquanto ideologias que davam sustentação ao sistema capitalista e que estavam expressas nos principais documentos constitucionais. A Constituição mexicana de 1917 e a Constituição alemã de 1919 (também conhecida como Constituição de Weimar) simbolizam essa ruptura em direção ao constitucionalismo social. As ideias que são expressas nestes texto podem ser sintetizadas a partir dos seguintes pontos: a) Crítica da ideia de uma regulação espontânea do mercado e defesa do planejamento estatal da atividade econômica; b) Defesa da propriedade estatal de bens e atividades estratégicas e de limites à propriedade privada; c) Garantia de direitos trabalhistas e outros direitos sociais, como educação, saúde e previdência; d) Extensão da participação política independente da classe social. O início do século XX também é marcado por uma ruptura com o próprio sistema econômico capitalista a partir da Revolução Russa, que funda um Estado socialista. Os sistemas socialistas também adotaram constituições, que incorporam muitas das ideias do constitucionalismo social, mas apresentam particularidades importantes. São elas: a) Limitação da propriedade privada; b) Limite às liberdades de grupos e indivíduos que pudessem ameaçar o socialismo; c) Sistema de assembleias que se estende do âmbito local ao nacional (distribuição de poderes sem separação); d) A figura do “Partido-Estado”. É importante enfatizar que, guardados esses pontos comuns, cada nação socialista adotou um modelo mais adequado a suas particularidades. Os soviéticos adotaram uma forma federativa de república socialista, que abrangeu diferentes nacionalidades. Os norte-coreanos implementaram espécie de “monarquia socialista”, em que o chefe de Estado tem sido escolhido por sucessão hereditária. Cuba e China adotaram um sistema de governo semipresidencialista. Constitucionalismo Pós-1945: Economia social de mercado e Democracia 14 O pós-Segunda Guerra Mundial pode ser entendido como uma reação as tendências socializantes do período anterior e à tragédia do fascismo e do nazismo. Ganha força a ideia de que a dignidade da pessoa humana, como fonte dos direitos individuais, e a democracia são valores universais, a serem observados por todas as constituições, o que fica expresso na Carta da ONU. Além disso, reconhece-se a necessidade de “refundar” o capitalismo, por isso os direitos sociais e trabalhistas também são incorporados, não na perspectiva de uma socialização do sistema, mas sim na garantia do acesso do maior número possível de indivíduos à economia de mercado. A República Federal da Alemanha e a Lei Fundamental de 1949 constituem um caso exemplar, pois pretendem instituir um Estado federal “democrático e social”. O constitucionalismo alemão ocidental incorpora as ideias constitucionais da tradição, como a Supremacia da Constituição, mas consagra expressamente o controle de constitucionalidade das leis por uma corte constitucional como método para assegurá-la. Um outro conjunto de fatos decisivo do período é o fim dos impérios coloniais europeus e a criação de novos Estados independentes na África e na Ásia. Muitos deles adotando modelos híbridos entre capitalismo e socialismo, e adaptando à sua maneira as instituições políticas do “cânone” do constitucionalismo. Cronologia 1914 – Primeira Guerra Mundial 1917 – Maio - Constituição mexicana 1917 – Outubro – Revolução Soviética 1918 – Levante comunista na Alemanha 1919 – Constituição de Weimar 1921 - Constituição da União Soviética 1929 – Crise Econômica Mundial 1933-37 – “New Deal” nos Estados Unidos 1939-45 – Segunda Guerra Mundial 1945 – Conferência de Potsdam. Divisão da Alemanha e Início da Guerra Fria 1945 – Fundação das Nações Unidas 1946 – Constituição da IV República Francesa 1947 – Constituição Italiana 1947 – Independência da Índia 1948 – Declaração Universal dos Direitos Humanos (Nações Unidas) 1949 – Lei Fundamental de Bonn (Alemanha Ocidental) 1949 – Revolução Chinesa 1960-70 – Revoluções de Independência no Continente Africano 1974 – Revolução dos Cravos (Portugal) Trechos selecionados da lei fundamental alemã de 1949: Artigo 1 [Dignidade da pessoa humana – Direitos humanos – Vinculação jurídica dos direitos fundamentais] (1) A dignidade da pessoa humana é intangível. Respeitá-la e protegê-la é obrigação 15 de todo o poder público. (2) O povo alemão reconhece, por isto, os direitos invioláveis e inalienáveis da pessoa humana como fundamento de toda comunidade humana, da paz e da justiça no mundo. (3) Os direitos fundamentais, discriminados a seguir, constituem direitos diretamente aplicáveis e vinculam os poderes legislativo, executivo e judiciário. (…) Artigo 20 [Princípios constitucionais – Direito de resistência] (1) A República Federal da Alemanha é um Estado federal, democrático e social. (2) Todo o poder estatal emana do povo. É exercido pelo povo por meio de eleições e votações e através de órgãos especiais dos poderes legislativo, executivo e judiciário. (3) O poder legislativo está submetido à ordem constitucional; os poderes executivo e judiciário obedecem à lei e ao direito. (4) Contra qualquer um, que tente subverter esta ordem, todos os alemães têm o direito de resistência, quando não houver outra alternativa. (…) Artigo 25 [Preeminênciado direito internacional] As regras gerais do direito internacional público são parte integrante do direito federal. Sobrepõem-se às leis e constituem fonte direta de direitos e obrigações para os habitantes do território federal. (…) Artigo 93 [Competência do Tribunal Constitucional Federal] (1) O Tribunal Constitucional Federal decide: 1. sobre a interpretação desta Lei Fundamental em controvérsias a respeito da extensão dos direitos e deveres de um órgão superior da Federação ou de outros interessados, dotados de direitos próprios pela presente Lei Fundamental ou pelo regulamento interno de um órgão federal superior; 2. no caso de divergências ou dúvidas a respeito da compatibilidade formal e material da legislação federal ou estadual com a presente Lei Fundamental ou da compatibilidade da legislação estadual com outras leis federais, quando o solicitem o Governo Federal, o governo de um Estado ou um quarto dos membros do Parlamento Federal; 6. O Estado Constitucional e Teoria da Constituição Hoje A constituição, no século XX, pretendeu abarcar a totalidade social. Fala-se em Estado constitucional para representar esse momento em que a Constituição é do Estado e da sociedade. Trata-se de um modelo de organização sociopolítica, por contraposição a um modelo meramente organizativo do Estado. Para Canotilho “a constituição, informada pelos princípios materiais do constitucionalismo – vinculação do Estado ao direito, reconhecimento e garantia de direitos fundamentais, não confusão de poderes e democracia – é uma estrutura política 16 conformadora do Estado”. O autor expressa a ideia de Konrad Hesse segundo a qual constituição não é só uma descrição da realidade sociopolítica de um país ou de suas instituições, mas é uma força ativa, que pretende transformar e conformar a comunidade política. De que modo ela pode ser tal força, é que é o problema. Qual a importância histórica do qualificativo Estado constitucional hoje? Antes da Segunda Guerra Mundial, os modelos de Rule of Law, État légal ou Rechtstaat já se colocavam para o constitucionalismo americano e continental europeu a ideia de um “governo submetido a leis”. Contudo, não apresentou aí conexão interna com a ideia democrática: na história do constitucionalismo, a democracia como a conhecemos só começa a se tornar uma realidade, mesmo nos países centrais, na segunda metade do século XX. É neste momento que se difunde a ideia de que o poder deve estar submetido simultaneamente à lei e à decisão democrática do povo (legalidade e legitimidade). Não há poder legibus solutus (não submetido à lei), nem lei que esteja subtraída da deliberação popular, salvo os próprios direitos e garantias fundamentais que funcionam como limites à “tirania majoritária”. Notemos que, apesar disso, muitos países viveram sob regimes ditatoriais, apenas nominalmente democráticos, como no caso do Brasil durante o período da ditadura militar. Para nós e para muitos países latino-americanos, só no final do século XX experimentamos regimes efetivamente democráticos. Neste contexto, o Estado constitucional contemporâneo pretende associar juridicidade democrática e justificação do poder (Estado Democrático de Direito). Mas isto depende de uma constituição dirigente: uma constituição que vincula e subordina os órgãos de representação popular. Alguns autores, como Gilberto Bercovici, apontam para os riscos de despolitização nesse cenário: a política e os políticos cedendo lugar aos juristas e a disputa de projetos societários dando lugar à discussão técnica sobre o sentido da Constituição, discussão da qual a cidadania não participa plenamente. Ao menos nos Estados latino-americanos, essa despolitização parece estar distante da realidade. Aparentemente, estamos mais próximos de uma “politização da justiça” do que o contrário. Todavia, a ideia de constituição dirigente ainda parece preservar sua validade histórica, como mecanismo de transformação da realidade social e freio a ímpetos autoritários de governantes. Uma constituição dirigente é necessária enquanto a democratização das instituições não produzir uma democratização das próprias relações sociais. 7. Formação Constitucional do Brasil 7.1 O movimento constitucional brasileiro A) Pré-Independência O período que antecede a Independência é marcado pela agitação republicana (Inconfidência, Conjuração Baiana, Revolta em Pernambuco) e pelas mudanças políticas, econômicas e sociais decorrentes da transmigração da Corte em 1808 e da elevação do Brasil à Reino Unido em 1815. Lembremos que esse republicanismo na primeira metade do século era uma alternativa à dinastia reinante, não necessariamente à forma de governo 17 monárquica. A Revolução do Porto (1821) em Portugal inicia a crise que leva ao retorno de D. João e à ascensão de Pedro I. A independência se dá como manutenção do poder dos Orleans e Bragança, frente ao republicanismo “anárquico” da américa hispânica e à tentativa de recolonização do Brasil por Portugal (a revolução do porto era liberal apenas para Portugal). B) Império A crise aberta com a declaração de independência agudiza a necessidade de constitucionalizar o novo Império, já sob o influxo dos ideais revolucionários e da preservação da integridade nacional. Convoca-se uma constituinte eletiva, que depois é dissolvida pela monarca. Mesmo imposta, a constituição de 1824 funcionou tanto como mecanismo de construção de um novo Estado, como de institucionalização do governo. Os historiadores atualmente questionam a ideia de que este novo Estado foi capaz, de imediato, de gerar a unidade nacional, mesmo que tenha preservado a integridade do território. O “drama” constitucional do século XIX no Brasil pode ser lido através do conflito entre a Coroa e os grandes senhores de terra, agora convertidos em oligarcas locais, que só se resolverá com a vitória dos oligarcas e a derrubada da monarquia. Associado à exclusão da grande massa populacional da vida política e civil, tal conflito adia para o século XX a construção de uma identidade nacional propriamente brasileira. O constitucionalismo brasileiro é inaugurado, portanto, com a construção de um Estado por cima da nação. Constituição de 1824 Origem Outorgada Modo de elaboração Dogmática Conteúdo Formal Estabilidade Semi-rígida: art. 178. É só Constitucional o que diz respeito aos limites, e attribuições respectivas dos Poderes Politicos, e aos Direitos Politicos, e individuaes dos Cidadãos. Tudo, o que não é Constitucional, póde ser alterado sem as formalidades referidas, pelas Legislaturas ordinarias. Forma/sistema de governo Monarquia parlamentar Forma de Estado Unitário Organização dos poderes O poder moderador: direito de dissolver a câmara, adiar ou convocar o congresso; nomear senadores, presidentes de províncias; nomear e suspender magistrados. Direitos dos cidadãos Voto Censitário. Religião estatal. Direitos individuais, mas privilégios e escravidão. O conflito entre oligarquias e a Coroa, embora não tenha resultado na ruptura da ordem constitucional e na elaboração de uma nova constituição, produziu dois documentos importantes de estatura constitucional: o Ato Adicional de 1834 dissolveu o conselho de Estado e dava maiores poderes às províncias, criando assembleias legislativas provinciais. A Lei de Interpretação de 1841 retira das assembleias o poder sobre empregos públicos e instituições judiciárias, embora permita aos Presidentes de Províncias 18 (nomeados pelo Imperador) negarem sanção a projetos de lei que entenderem contrários à constituição. C) “República Velha” O período pré-golpe de 1889 é caracterizado pela crise do Segundo Reinado, que geralmente é descrita como uma reunião de “questões”: militar, escravista e religiosa. O movimento republicano pós 1870 era heterogêneo nas suas aspirações. A abolição não era central. A unidade se dava pela oposiçãoao governo, inclusive do ponto de vista dos militares. A república significou um novo arranjo entre as oligarquias, com o florescimento do poder Estados na primeira década do século XX, mas não trazer o povo para arena política. A Constituição de 1891 é o ponto de início da institucionalização do novo regime, mas seu ponto de chegada, segundo os historiadores, será a “política dos governadores”: ela cria uma rotinização do sistema oligárquico, com hegemonia de São Paulo e Minas Gerais na indicação de candidatos à Presidência da República. Com relação ao processo constituinte, destaca-se o anteprojeto de Rui Barbosa, onde se nota a influência dos EUA. Não se pode reduzir, contudo, os debates na constituinte à questão federativa, muito embora a Federação abranja quase todos os temas políticos centrais. Ressalta-se, ainda, a tensão entre Governo Provisório e congresso. Constituição de 1891 Origem “Popular” (não havia sufrágio universal) Modo de elaboração Dogmático, a partir de anteprojeto do governo Conteúdo Formal Estabilidade Rígida. Art 90 - A Constituição poderá ser reformada, por iniciativa do Congresso Nacional ou das Assembléias dos Estados. § 1º - Considerar-se-á proposta a reforma, quando, sendo apresentada por uma quarta parte, pelo menos, dos membros de qualquer das Câmaras do Congresso Nacional, for aceita em três discussões, por dois terços dos votos em uma e em outra Câmara, ou quando for solicitada por dois terços dos Estados, no decurso de um ano, representado cada Estado pela maioria de votos de sua Assembléia. § 2º - Essa proposta dar-se-á por aprovada, se no ano seguinte o for, mediante três discussões, por maioria de dois terços dos votos nas duas Câmaras do Congresso. § 3º - A proposta aprovada publicar-se-á com as assinaturas dos Presidentes e Secretários das duas Câmaras, incorporar-se-á à Constituição, como parte integrante dela. § 4º - Não poderão ser admitidos como objeto de deliberação, no Congresso, projetos tendentes a abolir a forma republicano-federativa, ou a igualdade da representação dos Estados no Senado. Forma/sistema de governo República e Presidencialismo Forma de Estado Federativa Organização dos poderes Tripartite. Presidente eleito por voto direito, 4 anos. Legislativo bicameral, sendo a Câmara eleita por eleição direta. STF e controle difuso de constitucionalidade. Declaração de Direitos e garantias individuais. Fim dos privilégios nobiliárquicos. Separação 19 direitos igreja e Estado. Não admitia o voto feminino, dos analfabetos e mendigos. Voto era aberto. Papel dos militares, do Estado de sítio e da intervenção federal. O primeiro presidente, Deodoro, decretou estado de sítio e dissolveu o Congresso. Floriano Peixoto, que o sucedeu, não convocou eleições. De 1910 em diante, quando começou o declive do regime republicano, os estados de sítio e as intervenções federais se tornaram parte da rotina institucional na qualidade de instrumentos de governo, sendo justificados pela necessidade de preservar a ordem contra a demagogia e a subversão. Durante a Primeira República, o estado de sítio seria decretado onze vezes: vigorou na capital do País durante 17 % de todo o período. Na última década do regime, o percentual chegou, porém, a atingir 36 %. Entre 1889 e 1930, por sua vez, o Governo Federal interviria oficial ou oficiosamente pelo menos quinze vezes nos Estados da federação. Para além da primeira vez, quando Floriano promoveu sublevações militares para mudar o governo de todos os Estados, exceto no Pará, houve – até onde nos foi possível saber – tentativas ou intervenções federais consumadas em Goiás (1906), Mato Grosso (1906), Sergipe (1906), Espírito Santo (1907), Rio de Janeiro (1910), Amazonas (1910), Pernambuco (1911), Bahia (1912), Ceará (1913), Paraíba (1913), Alagoas (1915), mais duas vezes na Bahia (1920 e 1924), mais uma vez no Rio de Janeiro (1923) e, por fim, no Rio Grande do Sul (1923)2. Política dos governadores e coronelismo. O bloco de poder, no plano federal e nos Estados, é composto por forças da oligarquia agroexportadora. Essa oligarquia recorre à violência e à fraude para manter-se no poder localmente (coronelismo). Nacionalmente, a política do “café com leite” é uma maneira encontrada por essa mesma oligarquia para compor seus interesses e para garantir uma rotina institucional que fosse capaz de subordinar as tendências golpistas e revolucionárias, sobretudo dos militares. Partidos estaduais funcionam como mecanismo de institucionalização das oligarquias. A hegemonia dos cafeicultores e do Partido Republicano Paulista, produzem um Estado protetor da economia cafeeira, elemento decisivo da crise que leva à revolução de 30. Revoltas republicanas e a Reforma de 26. A primeira República é mercada por uma série de revoltas, que desafiaram o esquema oligárquico ou o mando militar: da armada, da vacina e da chibata, na capital, federalista no Rio Grande do Sul, a Guerra do Contestado (PR/SC) e Guerra de Canudos. Também despontam os primeiros movimentos organizados de trabalhadores e a politização dos militares (tenentismo). A reforma constitucional de 1926 é vista como resposta tardia a esse acúmulo de insatisfações, capitaneado pelo Rio Grande do Sul que havia sido excluído do esquema café com leite. Tem, no entanto, um caráter centralizador, embora estabeleça alguns limites a intervenção federal. D) Revolução de 30, Constituinte de 1934 e Estado Novo Aliança liberal e eleições de 1930. Derrota de Vargas nas eleições presidenciais 2 LYNCH, C.; NETO, C. S. P. O constitucionalismo da inefetividade. Revista Quaestio Iuris, vol.05, nº01. ISSN 1516-0351 p. 85-136 20 de 1930 é sucedida por uma sublevação civil e militar a partir de Rio Grande do Sul, Minas e Paraíba para derrubar Washington Luís. O primeiro ato jurídico do novo governo provisório, o Decreto 19.398 de 11 de novembro de 1930, concentrava todos os poderes na mão do Executivo. O balanço da revolução é o da não participação das classes subalternas, mas, novamente, uma recomposição do bloco de poder entre as oligarquias ligadas ao campo, com apoio dos militares e setores urbanos médios. Para os setores oligárquicos que ficaram de fora governo provisório, a reconstitucionalização do país é vista como uma saída necessária de “normalização” do regime. Antes da assembleia constituinte de 1933-34, porém, cabe citar alguns antecedentes políticos importantes: * Revolução paulista de 1932 pela reconstitucionalização, que é derrotado, mas leva à determinação da realização de eleições para ANC; * Criação do Ministério do trabalho, indústria e comércio; regulação da sindicalização; criação da Justiça e do Código eleitoral (todas medidas que contemplam o programa da Aliança Liberal); A convocação para as eleições da constituinte condiciona alguns assuntos que não podem ser alterados: forma republicana e federativa, direitos e garantias individuais da Constituição de 91 e direitos dos municípios. Estabelece o número de deputados e a representação classista. Constituição de 1934 Origem Popular Modo de elaboração Dogmático, a partir de anteprojeto do governo Conteúdo Material Estabilidade Semi-rígida. Ao contrário do art. 90 da CR 1891, o art. 178 previa apenas duas discussões e maioria absoluta. Forma/sistema de governo República e Presidencialismo Forma de Estado Federativa, com limites à intervenção federal. Organização dos poderes Tripartite. Extinção do cargo de vice-presidente. Senado perde importância e se torna órgão de colaboração da Câmara. Há também os conselhos técnicos como órgãos auxiliares. Na Câmara, passa a haver representação dos sindicatos de patrões e empregados. Limites ao estado de sítio. Declaração de direitos Direitos e garantias individuais. Voto feminino, voto secreto. Mandado de segurança. Direitos sociais dos trabalhadores, direito à educação e assistência social.Ordem Econômica e social Tema novo. Dispõe sobre assuntos como limites a livre iniciativa, o direito a subsistência, a possibilidade de monopólios, o combate à seca, nacionalização do sistema financeiro e serviços públicos. Trata ainda da família e da cultura. Outros temas Segurança nacional e funcionalismo público. As forças armadas são instituições nacionais permanentes, e, dentro da lei, essencialmente obedientes aos seus superiores hierárquicos. Destinam-se a defender a Pátria e garantir os Poderes constitucionais, e, ordem e a lei. 21 A constitucionalização não estabiliza o país. A permanência de Vargas, eleito para a Presidência da República depois de encerrada a Constituinte, mantém tensões com a oligarquia. Brasil ingressa na era da “política de massas”, com a classe trabalhadora se organizando em partidos e sindicatos. Do andar de cima, Vargas tenta ser um “príncipe” no sentido maquiaveliano, explorando as contradições da classe dominante para se manter no poder e levar adiante uma obra modernizadora do Estado e da economia. Sua proximidade com o fascismo leva à tolerância com o partido integralista, bem como à repressão aos comunistas. A intentona de 1935 (e o anticomunismo) serão peça-chave do golpe de 1937, com o qual se inicia uma nova fase ditatorial, o período do Estado Novo. Constituição de 1937 Origem Outorgada Modo de elaboração Dogmático Conteúdo Material Estabilidade Flexível. Não menciona limites materiais ao PC reformador. Emenda não aprovada no parlamento pode ser submetida a plebiscito. Forma/sistema de governo República e Presidencialismo Forma de Estado Federativa. Organização dos poderes Tripartite. Concentração de poderes no Executivo: presidente legisla através decretos-lei, decide sobre intervenção federal e estado de exceção, convoca e suspende o parlamento. Fim dos partidos, eleição indireta e das imunidades parlamentares. Presidente pode desconsiderar a decisão de inconstitucionalidade e fica vedado ao judiciário conhecer de questões políticas. Transformação do senado em conselho federal. Cria-se o conselho de economia nacional. Declaração de direitos Limita direitos individuais: “o uso desses direitos e garantias terá por limite o bem público, as necessidades da defesa, do bem-estar, da paz e da ordem coletiva, bem como as exigências da segurança da Nação e do Estado em nome dela constituído e organizado nesta Constituição”. Estabelece a pena de morte e a censura. Ordem Econômica e social Livre iniciativa com possibilidade de intervenção direta do Estado. Trabalho como dever social. Instituição da Justiça do Trabalho. Proibição do direito de greve. Outros temas Militares, segurança nacional e funcionalismo público E) Redemocratização em 1946 A guerra de 1939-45 prolonga a ditadura, mas seu fim e o novo alinhamento com os EUA, sobretudo dos militares brasileiros, aumentam a pressão pela saída de Vargas. Edita-se, ainda sob a ditadura, a Lei Constitucional nº9 de 1945, que previa a eleição de um parlamento com poderes para mudar a constituição, abrindo espaço para a redemocratização. “O confronto com os liberais do Manifesto Mineiro e da nascente União Democrática Nacional desembocaria no 29 de outubro, data em que os generais, desferindo o golpe de Estado, derrubariam o Estado novo. Lideranças civis e militares instituíram a seguir 22 um governo provisório, cometido a José Linhares, então presidente do Supremo Tribunal Federal” (BONAVIDES, p. 265). Depois do golpe que derrubou Vargas, edita-se a Lei constitucional nº 13, dando poderes ilimitados aos representantes eleitos para votar a Constituição. A Lei constitucional nº 15 definia as regras da constituinte e do governo de transição. A constituinte é marcada pela presença das mais diferentes correntes de opinião. Destaca- se o debate sobre as liberdades sindical e partidária, que divide os partidos. Estava em jogo a concepção de democracia, no quadro já de Guerra Fria, em que os conservadores postulam a necessidade de manutenção da ordem (capitalista) em face das reivindicações por reformas estruturais. Essa polêmica é combinada com o problema do desenvolvimento, que passa a dominar o debate público. Constituição de 1946 Origem Popular, sem anteprojeto prévio. Modo de elaboração Dogmático Conteúdo Material Estabilidade Semi-rígida. Forma/sistema de governo República e Presidencialismo Forma de Estado Federativa. Limites à intervenção federal são reinstituídos. Organização dos poderes Retorno à tripartição de poderes com freios e contrapesos. No legislativo, retorno do bicameralismo com a reinstituição do senado. Fim da representação classista e dos conselhos. Declaração de direitos Retorna o modelo de declaração de 34. Ordem Econômica e social Exclui o direito à subsistência, embora garanta o direito ao trabalho. Atuação estatal no domínio econômico limitada pelos direitos fundamentais. Outros temas Substitui o capítulo da segurança nacional por um capítulo para as forças armadas, mantendo sua atribuição de garantir os poderes constitucionais, a ordem e a lei. A vitória de Vargas nas eleições de 1950, o segundo período presidencial subsequente ao fim do Estado Novo, mostra a hesitação do novo regime em se comprometer com os anseios populares. A primeira crise constitucional grave se dá em 1955, cerca de um ano após o suicídio de Vargas. O adoecimento do Vice-Presidente em exercício Café Filho leva Carlos Luz, presidente da Câmara, à Presidência. Luz é deposto por um movimento militar, que se faz em nome da posse do já eleito Juscelino Kubistchek, pois Luz e outras figuras como Carlos Lacerda, supostamente, tramaram para impedir a posse de JK. A segunda crise constitucional grave ocorre em 1961, após a renúncia do Presidente Jânio Quadros. Lembremos que nesse período, a eleição para Vice-Presidente não se dava por chapa. Nas eleições de 1960, João Goulart, candidato progressista de linha oposta à Quadros, se elegera para novamente para a Vice-Presidência. Quando a renúncia ocorre, Jango está em viagem oficial. Os militares ameaçam impedir seu retorno e o Congresso aprova emenda constitucional que muda o sistema de governo de 23 presidencialista para parlamentarista. Jango assume, mas sem a integralidade dos poderes presidenciais. A mesma emenda prevê em 1963 a realização de plebiscito para confirmar a mudança, no qual o parlamentarismo sai derrotado. Os poderes presidenciais previstos pela Carta de 1946 são então restituídos a Jango, que se aproxima dos chamados movimentos pelas reformas de base. Isto é lido pelos conservadores como alinhamento com o comunismo e, consequentemente, passa-se a fermentar a hipótese de um novo golpe, que acaba ocorrendo no dia 1º de abril de 1964. Instala-se, ainda vigente a constituição de 46, a ditadura civil-militar que duraria por 21 anos. F) Ditadura militar (1964-85) O golpe de Estado e a ditadura são justificados pela promessa de retornar o poder aos civis, tão logo a suposta “ameaça comunista” houvesse sido afastada. Por esta razão, os militares, inicialmente, mantêm nominalmente em vigor a Constituição de 1946, mas dão forma jurídica ao golpe através de uma série de “Atos Institucionais”. Nos temos do Ato Institucional nº 1, os atos institucionais seriam um autoproclamado exercício do “poder constituinte originário” em nome da Nação pelos militares golpistas, razão pela qual suspenderam ou revogaram dispositivos constitucionais conforme desejassem. Eis um panorama do conteúdo dos primeiros AI: Ato Ano Síntese do Conteúdo AI 1 1964 Eleição indireta para presidente. Presidente pode decretar o estado de sítio. Suspensão das garantias dos juízes e servidores públicos. Possibilidade de cassação de direitos políticos e mandatos legislativo AI 2 1965 Extinção dos partidos; Presidente pode baixar atos- complementares e decretos-lei. Direito de decretaro recesso do Congresso, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. AI 3 1966 Estende a eleição indireta para governadores. Com a crescente resistência cívica ao regime, o governo, através do AI 4 de 1966, convoca o Congresso a reunir-se extraordinariamente para votar uma nova Constituição. Vale lembrar que os parlamentares estavam cerceados pelos atos institucionais e muitos da oposição foram cassados. Além disso, a “constituinte” trabalharia com um anteprojeto que, de acordo com os militares, continha trechos “não emendáveis”. A Constituição de 1967 aumenta o poder do Executivo sobre o Congresso através dos Decretos-lei e leis delegadas, institui o sistema bipartidário e reduz a autonomia estadual. Constitucionaliza as restrições à liberdade de pensamento e aos direitos fundamentais de um modo geral à finalidade de “realização da justiça social e à preservação e aperfeiçoamento do regime democrático”. Prevendo um possível retorno dos civis, ampliam-se as competências da justiça militar. 24 A reconstitucionalização é interrompida pela edição, um ano mais tarde, do Ato Institucional nº 5, que decreta o recesso do congresso nacional, a intervenção federal nos estados e municípios, a possibilidade de suspensão dos direitos políticos de qualquer cidadão e a suspensão do habeas corpus. O AI 5 é considerado como o principal sintoma do “endurecimento” do regime, ao mesmo tempo em que crescia a resistência cidadã. No ano seguinte, a ditadura outorgaria a Emenda Constitucional nº 01 de 1969, que altera 100 artigos da Constituição de 1967 e é considerada por alguns uma nova constituição. Além da imposição desta emenda, a continuidade da edição dos Atos Institucionais e Atos Complementares demonstra que a constitucionalização do regime era apenas nominal. F) Redemocratização e Constituição de 1988 Após um período de aparente estabilidade gerada por resultados econômicos positivos, a crise do regime ditatorial começa a se evidenciar na campanha da anistia, em 1978-79, seguida pela vitória da oposição nos estados em 1982. Começa a campanha pela retomada das eleições diretas para Presidência, derrotada no Congresso em 1984. Em 1985, forma-se a Aliança Democrática, que reuniu membros do partido da ordem e da oposição oficial, levando à vitória nas eleições indiretas dos civis Tancredo Neves e José Sarney. Tancredo vem a falecer e Sarney assume. Sendo uma das promessas da Aliança a reconstitucionalização do país, o novo Presidente envia ao congresso proposta de emenda para convocar a constituinte. Em novembro é aprovada a Emenda nº 26 de 1985 que amplia e consolida a anistia, convoca os membros de Câmara e Senado para se reunirem em Assembleia Nacional Constituinte a partir de 1º de fevereiro de 1987 (487 deputados e 72 senadores), e prevê a aprovação do texto da constituição em dois turnos de votação por maioria absoluta. Eis abaixo uma cronologia do processo constituinte: Data Evento Setembro de 1986 Decreto 91.450/1986 - Instituição da Comissão Afonso Arinos (comissão provisória de estudos constitucionais). Fevereiro de 1987 Na instauração da Constituinte, a proposta de uma comissão constitucional com a tarefa de elaborar o anteprojeto foi rejeitada. Aprovou-se a proposta de dividir os constituintes em oito comissões temáticas, com três subcomissões cada uma, além da comissão de sistematização e começar a redação do zero. Fevereiro-Março de 1987 Debate sobre o regimento e início dos trabalhos. Cada comissão foi composta de 63 membros titulares e igual número de suplentes. A comissão de sistematização teria 49 membros mais os presidentes e relatores das comissões, com representação de todos os partidos. Regimento deu prazo de 30 dias para a apresentação de propostas que iam ser debatidas nas comissões. 25 de maio de 1987 24 subcomissões apresentam relatórios às comissões 25 26 de junho de 1987 Apresentação do primeiro anteprojeto da comissão de sistematização. Abre-se o prazo para emendas, inclusive populares. 18 de setembro de 1987 Comissão de sistematização apresenta novo projeto. Proposta de parlamentarismo e cinco anos para o mandato de Sarney. Novembro/dezembro de 1987 Reforma do regimento – questionamento do trabalho da comissão de sistematização leva à formação do Centrão. Reivindica-se o direito de emenda no plenário e a votação prioritária de emendas, substitutivos e destaques que tivessem maioria de assinaturas. Esquerdas questionam o centrão como tentativa de “zerar o processo” e tentam obstruir a votação do novo regimento, sem sucesso. 27 de janeiro/27 de julho de 1988 Votação em primeiro turno do projeto de constituição 22 de setembro de 1988 Segundo turno de votação 05 de outubro de 1988 Promulgação da “Constituição Cidadã” 8. Conceito de Constituição em uma abordagem dogmática Até agora falamos do constitucionalismo e da constituição de um modo predominantemente zetético, recorrendo à história. Mas esses conceitos também têm operatividade no campo dogmático, já que intervêm na interpretação e aplicação da constituição. Por esta razão, vejamos um conceito dogmático de constituição, formulado por José Afonso da Silva: “sistema de normas jurídicas, escritas ou costumeiras, que regulam a forma de Estado, a forma de governo, o modo de exercício e aquisição do poder, o estabelecimento dos limites da sua ação, os direitos fundamentais do homem e suas respectivas garantias. Em síntese, constituição é o conjunto de normas que organizam os elementos constitutivos do Estado”. (SILV A, p. 38). O mesmo autor classifica dogmaticamente os “sentidos” da constituição. Podemos falar de três: a) Sentido sociológico de constituição – Ferdinand Lassale, na obra “A essência da constituição”, apresenta uma teoria sociológica da constituição, fundada na noção de “fatores reais de poder”. Segundo esse autor, o texto constitucional sem levar em consideração esses fatores é uma mera folha de papel; b) Sentido político de Constituição – Carl Schmitt, o jurista do Terceiro Reich, diferencia entre o sentido absoluto da constituição e sentido relativo (lei constitucional). Para ele a constituição efetiva é a “estrutura global concreta da unidade política” (modo de existência concreto), certa forma da ordem político- 26 social e seu devir; c) Sentido Jurídico – Hans Kelsen, o fundador do positivismo jurídico, fala da Constituição como norma jurídica mais importante de um sistema, decorrendo diretamente da autoridade pressuposta através da norma fundamental De acordo com Fioravanti, desde o século XIX também buscou-se falar em sentido material de Constituição, por oposição ao sentido formal de constituição: “todas estas doutrinas são caracterizadas pela busca de um fundamento do direito na comunidade política, em uma dimensão mais profunda do que a ligada à simples vigência formal da lei do Estado”. É certo, portanto, que a dogmática constitucional volta sua atenção não apenas para os problemas de fundamentação da soberania e organização do Estado, mas também para os elementos econômicos, ideológicos e éticos da comunidade política. Fiquemos, por entanto, com José Afonso da Silva, que nos fala da constituição como um sistema complexo entre norma e realidade social: “A constituição é algo que tem como forma um complexo de normas (escritas/costumeiras), como conteúdo a conduta humana motivada pelas relações sociais (econômicas, políticas, religiosas, etc.); como fim, a realização de valores que apontam para o existir da comunidade política; e, finalmente, como causa criadora e recriadora o poder que emana do povo”. Veremos que dessa relação complexa dependem, em grande medida, a autoridade e a duração das constituições. Para fazer este tipo de análise a dogmática com frequência se utiliza do método comparativo. Dada a diversidade constitucional no mundo, por exemplo, a dogmática cria classificações que