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Excelentíssima Senhora Desembargadora Federal MARGA INGE BARTH TESSLSER DD. Relatora da Apelação Cível n. 5009831-73.2017.404.7200 O Ministério Público Federal, por seu representante infra-firmado, vem mui respeitosamente à sua presença para opor os presentes EMBARGOS DE DECLARAÇÃO em face do v. acórdão do evento 33, destes autos, haja vista as obscuridades, contradições e omissões adiante indicadas, solicitando o seu esclarecimento. 1. Breve síntese da demanda e do julgamento Em sua origem, trata-se de ação de improbidade administrativa, em que se imputava a JONNY LEMOS PACHECO a prática de atos de improbidade administrativa – que seriam tipificados pelos arts. 9º, inc. IV e 11, inc. I, da Lei 8.429/92. Isso porque teria ele, na condição de Policial Rodoviário Federal, praticado crime de roubo à mão armada, valendo-se de sistema de dados internos da Polícia Rodoviária Federal. Julgada procedente a demanda, sobreveio apelação do réu. O referido recurso foi provido por essa c. Turma, em acórdão que recebeu a seguinte ementa: ADMINISTRATIVO. AÇÃO POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. LEI 8.429/92 NA REDAÇÃO DA LEI 14.230/21. POLICIAL RODOVIÁRIO FEDERAL. CRIME DE ROUBO. UTILIZAÇÃO DE SISTEMA INTERNO DA PRF. ATIPICIDADE DA CONDUTA. PRESCRIÇÃO RECONHECIDA. 1. O caso dos autos trata de suposta conduta ímproba perpretada por Policial Rodoviário Federal, consistente em um crime de roubo à mão armada, utilizando o sistema de dados interno à PRF. 2. Tratando-se de efetiva parte do direito sancionador (salvo o exposto no art. 17, caput, na redação da Lei 14.230/21), a solução para os processos em curso enseja a retroatividade da novel legislação nas hipóteses benéficas ao réu, valendo-se do Princípio da Retroatividade Benéfica (art. 5.º, caput, XL, da Constituição Federal). 3. Considerando (a) a ausência de recurso ministerial; (b) a revogação do inciso I do art. 11 da LIA; (c) a previsão de lista taxativa das hipóteses para a constituição de ato de improbidade que atenta contra os princípios da administração pública (art. 11 da LIA); e (d) a aplicação do princípio da retroatividade benéfica, não há como prosseguir com a demanda, revelando-se atípica, sob os ditames da Lei 8.429/92, na redação dada pela Lei 14.230/21, a conduta imputada na petição inicial para o demandado. Acaso prossiga esta ação, reputa-se prescrita, consoante o art. 23 da LIA. 4. A prescrição é matéria de ordem pública que pode ser examinada e revista a qualquer tempo e em qualquer grau de jurisdição, até mesmo de ofício e ainda que não tenha sido ventilada pelas partes. 5. A atual regra referente à prescrição em ações de improbidade estabelece o prazo de 08 (oito) anos, contados a partir da ocorrência do fato ou, no caso de infrações permanentes, do dia em que cessou a permanência. O prazo prescricional aplicável é, portanto, de 08 (oito) anos, o qual se interrompe nas hipóteses elencadas no §4º do art. 23 da referida Lei, recomeçando a correr do dia da interrupção, pela metade daquele prazo, ou seja, 04 (quatro) anos. 6. É possível verificar que entre o ajuizamento da ação e a publicação da sentença condenatória houve o transcurso de mais de 04 (quatro) anos, ao que reputo implementada a prescrição da pretensão sancionatória estatal. 7. Reformada a sentença. Com o mais elevado respeito, não se pode aceitar o julgamento em apreço. Seja porque essa c. Corte entendeu por dar aplicação retroativa a lei nova, inclusive no campo processual, seja porque desconsidera a remessa necessária existente na época do envio destes autos a esse r. Tribunal, seja porque o julgamento omite-se em apreciar diversas outras questões devidamente trazidas aos autos, tem-se que o v. acórdão precisa ser explicitado. Daí a razão dos presentes embargos de declaração. 2. Preliminarmente. A omissão em apreciar o requerimento feito pelo Ministério Público no evento 14 Antes de qualquer outra questão, é importante salientar que, ao manifestar-se a respeito da aplicação retroativa da Lei 14.230/21 (evento 14), a par de apresentar diversos argumentos conforme os quais a lei nova jamais favoreceria a situação do réu, formulou expresso requerimento subsidiário. Argumentava o Parquet federal que, ainda que se cogitasse da aplicação da lei nova ao caso, seria um completo absurdo imaginar que o comportamento ilegal do réu – mais que isso, o comportamento criminoso do réu!!! – fosse convolado em um comportamento lícito e probo. Por isso, considerando que a ilicitude do comportamento ainda estaria evidente, caso se imaginasse pela aplicação retroativa da lei nova, seria de se dar vazão ao contido nos arts. 17, § 16 e 17-D, parágrafo único, da LIA em sua nova redação, permitindo seja a conversão da ação de improbidade em ação civil pública, seja a apresentação de proposta de autocomposição no caso presente. Tais requerimentos, no entanto, não foram sequer apreciados por essa c. Corte. Assim, diante do expresso requerimento que não foi apreciado, requer-se desde já seja suprida essa omissão, de sorte que o mencionado pedido seja objeto de apreciação por esse r. Tribunal. 3. A omissão do v. acórdão em apreciar adequadamente o problema da (ir)retroatividade da Lei 14.230/21 De outra banda, observa-se que o r. acórdão, de modo muito breve, conclui pela aplicação retroativa da lei nova (supostamente mais benéfica), entendendo que o caso reclama a aplicação do princípio do direito penal da retroatividade da lei nova mais favorável. Para tanto, o r. acórdão defende a conclusão por essa aplicação analógica do princípio, apoiando-se em um acórdão do Superior Tribunal de Justiça (REsp 1.129.121/GO). Diz, basicamente: “Pois bem. Enquanto aguardava o julgamento destes aclaratórios, sobreveio a Lei 14.230/2021, alterando a Lei 8.429/92, o que, integrando a responsabilização por atos de improbidade administrativa ao nominado "direito administrativo sancionador", permite, salvo melhor juízo, a aplicabilidade de princípios e garantias ínsitos do direito penal (ou às sanções decorrentes da prática de ilícitos penais). E nesse aspecto, tratando-se de efetiva parte do direito sancionador (salvo o exposto no art. 17, caput, na redação da Lei 14.230/21), a solução para os processos em curso enseja a retroatividade da novel legislação nas hipóteses benéficas ao réu, valendo-se do Princípio da Retroatividade Benéfica (art. 5.º, caput, XL, da Constituição Federal).” Cita ainda, ao lado do acórdão antes mencionado, entendimento do Supremo Tribunal Federal, proferido pela 2ª Turma daquele Pretório Excelso, mas que trata de outra questão: os efeitos para a ação de improbidade administrativa do reconhecimento da negativa de autoria no campo penal. No que diz respeito ao aspecto processual, o r. acórdão se limita a afirmar o seguinte: “Já com relação às normas de natureza processual, é certo que têm aplicação imediata da atual Lei de Improbidade Administrativa aos processos em curso.” Com a mais alta vênia, a justificativa apresentada para a retroatividade das novas regras (materiais) de improbidade administrativa é superficial e não observa a manifesta inconstitucionalidade na lei nova, a existência de entendimentos diversos, mesmo no âmbito das Cortes Superiores a respeito da irretroatividade do direito sancionador. Por isso, o r. acórdão é obscuro e omisso, merecendo ser corrigido. Com efeito, o Parquet federal apontava, na manifestação do evento 14, para a existência da Orientação 12/2021, da 5ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, que de forma profunda aponta as razões pelas quais não se pode admitir a retroatividade da Lei 14.230/21. Diz a referida orientação normativa: “01) O artigo 37 - §4º da CF, ao tutelar a probidade administrativa, impede a retroatividade automática de novasnormas mais benéficas como vedação ao retrocesso no enfrentamento de condutas ímprobas ou práticas corruptivas; portanto, ainda que a lei regule a retroatividade, é necessário juízo sobre a persistência da conduta ilícita no ordenamento jurídico como atentatória ao princípio da moralidade administrativa. 02) Quando a lei nada dispõe sobre a retroatividade – como a Lei 14.230/2021 –, a alteração de tipos gerais e especiais exige igualmente este juízo sobre a continuidade típica do ilícito, seja na própria Lei 8.429, seja à luz do artigo 37 - §4º da CF. 03) Além da expressa previsão legal e da análise da continuidade típica, a retroatividade será vedada quando as complexas modificações legislativas nos elementos do sistema de responsabilização ocasionarem a reformulação de tipos e sanções – como a Lei 14.230/2021 –, de forma que não é dado ao Poder Judiciário optar pela aplicação híbrida de regimes disciplinares apenas para beneficiar os infratores, sob pena de se usurpar atribuição do Poder Legislativo. Nesta hipótese, o Poder Judiciário deverá aplicar o sistema reconfigurado somente a partir da entrada em vigor das modificações feitas pela lei.” Também Ricardo de Barros Leonel alerta para os graves riscos da imaginada aplicação retroativa do novo regime de improbidade. Como disserta o professor da USP: “Note-se: a sentença de improcedência por atipicidade superveniente, além de se pautar (erroneamente) na aplicação retroativa da "lei penal" mais benéfica (em caso que de lei penal não trata), se traduzirá em certificação da legalidade de conduta de agente público (que na verdade era ilegal). O agente beneficiado com a improcedência, punido administrativamente com a perda do cargo em processo disciplinar (prática de falta funcional tipificada como improbidade), pleiteará e alcançará reintegração no cargo, com recebimento de "atrasados" do período em que esteve desvinculado do serviço público. Duplo benefício. Primeiro, ao não ser punido. Segundo, ao ser reintegrado e receber "pagamentos" sem ter trabalhado. Tal resultado contraria o senso comum, até mesmo num país como o nosso, em que as incongruências são tantas que, por vezes, parecem não mais enrubescer as faces daqueles que as protagonizam.” (LEONEL, Ricardo de Barros. Nova lei de improbidade: atipicidade, prescrição e direito superveniente. Disponível em https://www.conjur.com.br/2021-nov-29/leonel- lia-atipicidade-prescricao-direito-superveniente) Logo, não apenas em razão das consequências perniciosas decorrentes dessa interpretação – aspecto altamente relevante perante o direito atual (art. 21, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro) – mas também porque não há cabimento na aplicação retroativa da norma em comento, que deixa a descoberto o sistema de proteção à probidade administrativa, de assento constitucional, não há justificativa para pretender fazer retroagir o regime novo a casos antigos. Não bastassem esses argumentos, especificamente com relação ao tema da prescrição, convém ainda mencionar a Nota Técnica n. 1/2021, apresentada pela 5ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal. Como esclarece a nota, se a prescrição atinge a pretensão, e se esta já foi exercida, não há a menor razoabilidade em supor a retroatividade da lei nova, para atingir atos já praticados (o ajuizamento da ação). Com efeito, bem pondera a nota: “210. Integrando o Direito Administrativo Sancionador, as sanções por improbidade administrativa são prescritíveis. Todavia, como a prescrição no campo civil atinge a pretensão (direito de ação), não o direito material em si (conforme o art. 189, do Código Civil), e, inexistindo dispositivo legal expresso qualificando a prescrição como hipótese de extinção de punibilidade na LIA (como ocorre no art. 108, IV, do Código Penal), a prescrição da pretensão acusatório, no sistema de improbidade administrativa não extingue a punibilidade, mas tão-somente o direito de ação. Em razão disso, o novo prazo prescricional, de que trata o artigo 23, caput, alterado pela Lei no 14.230, não retroage para atingir ações regularmente propostas dentro do prazo previsto na legislação anterior. 211. A aplicação retroativa da nova prescrição abstrata de 8 (oito) anos prevista no art. 23, caput, alterado pela Lei 14.230/2021, viola os princípios da vedação da proteção deficiente do bem jurídico (artigo 37, §4o), do acesso à justiça (artigo 5o, XXXV, 37, §4o e artigo 129, inciso III, da CF), da actio nata e da boa-fé objetiva como corolários do devido processo legal (artigo 5o, inciso LIV), não podendo alcançar as ações em tramitação, que foram ajuizadas dentro dos prazos prescricionais vigentes na época.” Em conclusão, é inequívoco que a lei nova – sobretudo no que se refere ao novo regime de prescrição criado – não pode ser aplicada aos feitos pendentes. Sob outro ângulo, observe-se que pensar de forma diversa seria deduzir raciocínio manifestamente inconstitucional e desproporcional. Com efeito, os comportamentos atribuídos aos réus eram qualificados como ato de improbidade administrativa à luz da legislação original, porque evidentemente incidia ao caso o regime original da Lei 8.429/92, com seu amplo espectro de proteção. Essa ordem de proteção, ademais, não foi apenas capricho do legislador original, mas imposição decorrente de expressa determinação constitucional. Realmente, o art. 37, da Constituição exige que toda a administração pública se sujeite aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Por outro lado, embora o art. 37, § 4º, da Constituição, autorize a lei a disciplinar a forma e a gradação das sanções aplicáveis em caso de improbidade administrativa, é certo que esse dispositivo não oferece ao legislador uma permissão geral para dizer o que é ou não é comportamento ímprobo. Pior: esse preceito sem dúvida não autoriza o legislador a tornar comportamentos ímprobos em comportamentos probos, legitimando atividades que são claramente vedadas e inaceitáveis do ponto de vista da ordem jurídica brasileira. Logo, há na lei nova manifesta inconstitucionalidade diante do regime “tolerante” atualmente criado. Ao deixar de prever como ímprobos comportamentos manifestamente ilegais, imorais e abusivos – mais que isso, no caso presente, condutas que constituem crime!!! –, a lei nova afronta, de modo escancarado, os comandos inseridos no art. 37, caput e § 4º, da Constituição. Por isso, até mesmo em relação a comportamentos praticados já na sua vigência, essa lei não merece ser aplicada. Trata-se de verdadeiro desrespeito ao povo brasileiro e aplauso ao comportamento errado, malicioso, criminoso e imoral do mau servidor público. E isso não se pode admitir. Ademais, o artigo 37, § 4º, da Constituição Federal veda a retroatividade automática de novas normas mais benéficas, sob o ponto de vista do princípio da vedação do retrocesso no enfrentamento de condutas ímprobas, precipuamente considerando que a finalidade primordial das sanções previstas para os atos de improbidade administrativa é de caráter preventivo, de desestímulo à reiteração do ilícito, e como tal se diferencia das penas previstas para as infrações criminais cuja finalidade primeira é a repressão. A improbidade administrativa faz parte do denominado Direito Administrativo Sancionador, o qual se refere ao poder punitivo do Estado, incluindo também os âmbitos ambiental, de contas, administrativo, concorrencial etc., contudo não o Direito Penal, ou seja, o Direito Administrativo Sancionador mantém sua natureza administrativa, como instrumento da tutela de interesses públicos, o que é bem esclarecido por José Roberto Pimenta Oliveira e Dinorá Adelaide Musetti Grotti: Verdade que coube ao Direito Penal, na sua secular trajetória, desenvolver direitos e garantias fundamentaispara limitar o exercício do jus puniendi estatal in abstracto e in concreto, na defesa do jus libertatis. Do mesmo modo, o Direito Processual Penal igualmente consagrou a disciplina processual instrumental para realizar esse objetivo. Neste contexto, o Direito Administrativo Sancionador pode avaliar com o devido rigor científico as contribuições desses ramos do Direito Público, sem jamais abandonar a sua índole de regime jurídico- administrativo instrumental de tutela de interesses públicos. [...] Com esta compreensão, o Direito Administrativo Sancionador não está submetido ao Direito Penal. O Direito Penal pode contribuir na elaboração de um ferramental próprio para o Direito Administrativo Sancionador. Mas, aqui, a diretriz é contribuir para integrar, e não desnaturar a índole administrativista dos sistemas sancionadores administrativos. Neste contexto, atribui ao Direito Administrativo Sancionador o objetivo de institucionalizar modelos dinâmicos, especializados, sensíveis às demandas e mudanças econômicas, sociais, factuais e tecnológicas cada vez mais comuns. Modelos que promovam o atendimento aos valores de coerência, racionalidade e segurança jurídica na tutela dos objetivos de interesse público. [grifou-se] (OLIVEIRA, José Roberto Pimenta; GROTTI, Dinorá Adelaide Musetti Grotti. Direito administrativo sancionador brasileiro: breve evolução, identidade, abrangência e funcionalidades. Interesse Público – IP, Belo Horizonte, ano 22, n. 120, pp. 83-126, mar./abr. 2020. pp. 108 e 116). Nesse sentido, ainda a doutrina especializada: A regra é a irretroatividade das normas jurídicas, sendo certo que as leis são editadas para regular situações futuras. O dispositivo constitucional que estabelece a retroatividade da lei penal mais benéfica funda-se em peculiaridades únicas do direto penal, inexistentes no direito administrativo sancionador. Com efeito, a retroatividade da lei penal mais benéfica tem por fundamento razões humanitárias, relacionadas diretamente à liberdade do criminoso, bem jurídico diretamente atingido pela pena criminal. […] Por tais fundamentos, não se pode transportar para o direito administrativo sancionador a norma penal da retroatividade da lei que extingue a infração ou torna mais amena a sanção punitiva. No direito administrativo sancionador aplica-se ao infrator a lei vigente à época da adoção do comportamento ilícito, ainda que mais grave que lei posteriormente editada. Diversamente do que ocorre no direito penal, assim, não há no direito administrativo sancionador o princípio da retroatividade da lei mais benéfica ao infrator. (MELLO, Rafael Munhoz de. Princípios constitucionais de direito administrativo sancionador. São Paulo: Malheiros, 2007, pp. 154/155). Esse Egrégio Tribunal também já se manifestou acerca da matéria: Em relação à irretroatividade da lei, em que pese o art. 5º, inciso XL da Constituição Federal assegure a retroatividade da lex mitior penal, o referido dispositivo não implica a existência de princípio normativo de alcance geral no âmbito do Direito, apto a ensejar, por si só, a aplicação da retroatividade da lei mais benéfica em seus mais variados ramos. Conforme lição clássica de hermenêutica, a norma restritiva deve ser interpretada restritivamente, a fim de evitar a extensão de sua aplicação para além do âmbito ao qual o legislador, constitucional ou ordinário, expressamente as restringiu. No caso do art. 5º, inciso XL da Constituição Federal, assume- se a premissa maior de que é regra a irretroatividade da lei mais benéfica, devendo, portanto, existir expressa previsão legal a permitir excepcionar tal regra maior, o que no caso do dispositivo constitucional em questão está contido em segunda parte, a qual autoriza a retroatividade da lex mitior penal. Neste escopo, é de se considerar ainda que o objeto de sanção da lei penal atinge a esfera da liberdade do indivíduo, expressão última de sua condição humana, daí o porquê da exceção constitucional. Por outro lado, as normas punitivas oriundas do exercício do poder de polícia pela Administração Pública buscam ratificar a necessidade imperiosa de que sejam observados os regramentos vigentes à época dos fatos, uma vez que, de outra forma, estar-se-ia privilegiando o infrator, inobstante tenha de fato transgredido norma administrativa a todos imposta – e com isso logrado vantagem em face dos demais –, com a demora administrativa, refletindo em espécie de premiação dupla ao infrator, o qual não é punido contemporaneamente à vigência da norma administrativa e, posteriormente, tem sua conduta relevada em face de norma que não mais considera infração a conduta praticada. Assim sendo, a legislação ao tempo do cometimento da infração é que deve ser aplicada, em obediência ao brocardo tempus regit actum. [grifou-se] (BRASIL. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, Terceira Turma, AC 5008905-15.2019.4.04.7009, Rel. Des. Rogerio Favreto, do TRF4, j. em 26.10.2021] A par disso, a Colenda Segunda Seção desse Egrégio Tribunal, nos autos da Apelação Cível n. 5058104-24.2019.4.04.7100/RS, dirimiu a controvérsia para decidir que: “Embora o artigo 5º, inciso XL, da Constituição Federal, assegure a retroatividade da lex mitior penal, não se extrai da referida cláusula princípio aplicável a qualquer ramo do Direito” (Tribunal Regional Federal da 4ª Região, Segunda Seção, AC 5058104- 24.2019.4.04.7100, Rel. Des. Ricardo Teixeira do Valle Pereira, juntado aos autos em 1º- 6-2021). E o Egrégio Supremo Tribunal Federal tem decidido, acerca do Tema 734, que “é infraconstitucional, a ela se aplicando os efeitos da ausência de repercussão geral, a controvérsia relativa à aplicação retroativa de lei mais benéfica referente à sanção de natureza administrativa decorrente do cometimento de infração de trânsito” (BRASIL. Supremo Tribunal Federal, Plenário, RE 657.871, Rel. Min. Dias Toffoli, j. em 29.05.2014), o que demonstra que nem todas garantias constitucionais atinentes ao Direito Penal, notadamente a retroatividade da lei mais benéfica, têm incidência direta também no âmbito do Direito Administrativo Sancionador. Outro fator a ser considerado é que a Lei n. 14.230/2021 alterou a formulação de tipos e sanções, o que implica a impossibilidade de sua retroatividade, pois não se faz possível ao Poder Judiciário a aplicação híbrida de normas da lei nova e da modificada, com o fim de beneficiar o agente ímprobo, sob pena de usurpar a atribuição do Poder Legislativo. Importante ressaltar que, além de integrar o Direito Administrativo Sancionador, a improbidade administrativa insere-se no microssistema de tutela coletiva à probidade administrativa e, como tal, fundamenta-se na Constituição Federal e em tratados internacionais, motivo por que cabe atentar para a necessidade de compatibilizar a discussão sobre a retroatividade da norma mais benéfica com a proteção contra o retrocesso legislativo, consoante o artigo 65, n. 2, da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (Convenção de Mérida), integrada ao ordenamento brasileiro pelo Decreto n. 5.687, de 31 de janeiro de 2006, e também com o princípio da proporcionalidade, especialmente sob a vertente da proteção insuficiente dos direitos fundamentais, entre os quais se inclui a proteção ao direito fundamental à probidade administrativa. Considerando que o Estado Brasileiro se comprometeu a manter em vigor políticas coordenadas e eficazes contra a corrupção, rever instrumentos jurídicos a fim de determinar se são adequados a esse fim e, ainda, a adotar medidas mais estritas ou severas daquelas previstas na norma internacional, deve-se afastar a retroatividade da norma mais benéfica neste caso, por envolver condutas praticadas antes da vigência da nova lei. Com efeito, no conflito entre o direito fundamental à retroatividade da norma maisbenéfica ao réu e o direito fundamental da coletividade à probidade administrativa, este deve prevalecer, à luz do princípio da proporcionalidade, em sua faceta de proibição da proteção deficiente. Então, os novos dispositivos dos artigos 9º, 10 e 11 da Lei n. 8.429/1992, alterados pela Lei n. 14.230/2021, somente se aplicam, (se tanto!), a atos de improbidade administrativa praticados a partir do início da vigência da nova lei, em observância ao mencionado princípio da vedação do retrocesso, extraído do artigo 37, § 4º, da Constituição Federal, e ainda às Convenções Internacionais contra a Corrupção (OCDE, OEA e ONU), internalizadas como normas supralegais no Brasil. Em conclusão, também sob esse viés não merece incidência ao caso o novo regime criado pela Lei 14.230/21. Sublinhe-se que o c. Superior Tribunal de Justiça, em mais de uma oportunidade, já frisou a inviabilidade de aplicação retroativa irrefletida de lei posterior supostamente mais benéfica no campo do direito sancionador. Nessa linha, já se pronunciou a c. 2ª Turma daquela Corte: ADMINISTRATIVO. RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA. PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR. PRAZO PRESCRICIONAL. REMISSÕES GENÉRICAS. LEGISLAÇÃO SUPERVENIENTE ESPECÍFICA. PRESCRIÇÃO. IRRETROATIVIDADE 1. O ora recorrente, Oficial de Justiça à época, foi investigado por exigir custas excessivas em processo judicial. O Conselho da Magistratura demitiu-o em 1986, após o regular processo administrativo, em decisão ratificada pelo Órgão Especial. Pleiteou-se a revisão do processo, em 1994, que, rejeitada por maioria de votos, ensejou a impetração de Mandado de Segurança, o qual foi denegado. 2. A demissão a bem do serviço público do recorrente foi confirmada pelo órgão especial em 1987, e o ato demissório deu- se em 1989. O pedido de revisão ocorreu mais de cinco anos depois, porquanto admissível sua propositura, uma única vez, a qualquer tempo (art. 249 da Lei 10.098/1994). 3. In casu, quando julgado o processo administrativo (1986), não havia norma sobre prescrição no Código de Organização Judiciária (Lei Estadual 5.256/1966), que tratou da Ação Disciplinar (arts. 756 e ss.). O acórdão recorrido valeu-se de dupla remissão para aplicar a prescrição prevista na legislação penal. Essa lacuna normativa perdurou até a edição da LCE 10.098/1994, que passou a regulamentar expressamente a prescrição da Ação Disciplinar em prazo mais curto, favorável ao recorrente. 4. Caso a lacuna da legislação local tivesse sido suprida ao longo do PAD mediante edição de lei nova que regulasse a prescrição no âmbito administrativo, estar-se-ia diante de norma superveniente que seria levada em consideração no julgamento do processo administrativo e poderia resultar na sua extinção. 5. Contudo, o pedido de revisão tem prazo aberto e pode ser apresentado a qualquer momento. A valer a proposição do recorrente, passados 5, 10, 20 ou 40 anos, havendo mudança na lei a respeito dos prazos prescricionais, todos os processos administrativos que ensejassem de advertência a demissão poderiam ser rejulgados, adotando-se a legislação eventualmente mais benéfica. 6. A diferença ontológica entre a sanção administrativa e a penal permite a transpor com reservas o princípio da retroatividade. Conforme pondera Fábio Medina Osório, "se no Brasil não há dúvidas quanto à retroatividade das normas penais mais benéficas, parece-me prudente sustentar que o Direito Administrativo Sancionador, nesse ponto, não se equipara ao direito criminal, dado seu maior dinamismo". 7. No âmbito administrativo, a sedimentação de decisão proferida em PAD que condena servidor faltoso (acusado de falta grave consistente na cobrança de custas em arrolamento em valor aproximadamente mil vezes maior) não pode estar sujeita aos sabores da superveniente legislação sobre prescrição administrativa sem termo ad quem que consolide a situação jurídica. Caso contrário, cria-se hipótese de instabilidade que afronta diretamente o interesse da administração pública em manter em seus quadros apenas os servidores que respeitem as normas constitucionais e infraconstitucionais no exercício de suas funções, respeitadas as garantias do due process. 8. Precedente em situação similar indica: "quanto à alegação de prescrição administrativa, questão que em tese poderia determinar a anulação do ato que cassou a nomeação do recorrente na função de Oficial do Registro de Imóveis da Comarca de Palhoça/SC, verifica- se que as leis apresentadas (9.873/99 e 9.784/99) foram editadas após a ocorrência da nomeação do recorrente em 1992 e após o próprio ato de cassação ocorrido em 1998, não podendo retroagir para alcançar a situação do recorrente. Precedentes: RESP nº 646107/RS, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ de 14/03/2005; MS 9092/DF, Rel. Min. Paulo Gallotti, DJ 25.09.2006 e EDcl no AgRg no RESP nº 547668/PE, Rel. Min. Gilson Dipp, DJ de 02/05/2005" (AgRg no AgRg no REsp 959.006/SC, Relator Ministro Francisco Falcão, Primeira Turma, DJ 7.5.2008). 9. Recurso Ordinário não provido. (RMS 33.484/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 11/06/2013, DJe 01/08/2013) – grifei. Não há espaço, assim, para a imaginada aplicação retroativa da lei nova, ainda que se pense apenas em seus aspectos materiais, dada a manifesta diferença existente entre o direito penal e o direito administrativo sancionador. O v. acórdão, com o máximo respeito, deixou de considerar todos esses aspectos, sendo omisso, portanto, nesse ponto. Logo, sob pena de incidência em defeito de fundamentação (art. 489, § 1º, inc. II, III e IV, do CPC), impõe-se o esclarecimento do r. julgado nesse ponto. 4. A particular situação da irretroatividade das regras processuais. A contradição do v. acórdão Ainda no trato da questão da (ir)retroatividade da lei nova, há que se atentar para a especial situação das regras processuais. Tratando-se de regra de natureza processual, incide o contido no art. 14, do CPC (e nunca, obviamente, o princípio da retroatividade da lei penal mais benigna, também inaplicável sequer no campo do processo penal), que prevê que “a norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a vigência da norma revogada”. Em consequência, não se pode cogitar de aplicar efeitos retroativos aos novos comandos processuais contidos na Lei 14.230/21. Semelhante tentativa, aliás, implicaria evidente infringência aos princípios da segurança jurídica e da boa-fé processual. Afinal, inovar na tramitação processual, criando regras que não existiam no sistema processual anterior – sobretudo para extrair consequências delas a fatos já ocorridos – é alterar as regras do jogo no curso dele, em manifesta surpresa às partes. Haveria aí ofensa aos mais comezinhos princípios do direito processual civil, a exemplo da boa-fé (art. 5º, do CPC), da cooperação (art. 6º, do CPC), da razoabilidade (art. 8º, do CPC) e da segurança jurídica. Particularmente, no que se refere à “prescrição intercorrente” (norma de clara natureza processual), convém citar a nota técnica antes mencionada: “220. A prescrição intercorrente tem natureza exclusivamente processual e deve seguir o princípio do tempus regit actum (CPC, art. 14), contando-se os prazos previstos no novo artigo 23, §4o da LIA, na sua inteireza, a partir da entrada em vigor da Lei 14.230/2021.] 221. Não opera a prescrição intercorrente se a demora na solução do feito é imputável ao serviço judiciário, nos termos do art. 240, § 3o, do CPC, pelo qual “a parte não será prejudicada pela demora imputável exclusivamente ao serviço judiciário”. 222. O novo artigo 23-C, da LIA é inconstitucional por violação frontal e direta do artigo 37, §4o da Constituição Federal,que tutela o erário, e não admite qualquer exclusão de recursos públicos do campo de sua abrangência material, incluindo os recursos públicos dos partidos políticos ou de suas fundações. 223. O prazo de prescrição intercorrente, de apenas 4 (quatro) anos, previsto no novo artigo 23, §5o da LIA, inserido pela Lei no 14.230/2021, para a realização de toda a instrução processual/probatória e o exame de mérito, com condenação, nas ações por ato de improbidade administrativa, contraria drasticamente o princípio da proporcionalidade e do devido processo legal substantivo, na dimensão de proibição de proteção insuficiente dos bens jurídicos (art. 5o, inciso LIV, CF), e da duração razoável do processo, sob a perspectiva da necessidade de assegurar tempo razoável para a resposta estatal em demandas dessa natureza. (art. 5o, LXXVIII, CF), vez que o Conselho Nacional de Justiça – CNJ, através de seu Departamento de Pesquisas Judiciárias – DPJ, em 2015, na Série Justiça Pesquisa, concluiu que, em média, foi observado que o tempo entre a data do ajuizamento do processo e a data do trânsito em julgado, em ações de improbidade administrativa que constavam da base de dados até dezembro de 2013 foi de 1.855,83 dias (61,86 meses ou 5,15 anos), revelando objetivamente os vícios de inconstitucionalidade material referidos.” É certo que o v. acórdão afirma expressamente que, em relação às regras processuais, não se considera a aplicação retroativa. Afirma o v. julgado que “Já com relação às normas de natureza processual, é certo que têm aplicação imediata da atual Lei de Improbidade Administrativa aos processos em curso”. No entanto, como se verá a seguir, ao menos em duas oportunidades o r. acórdão se contradiz, fazendo justamente uso retroativo das regras processuais. E também nesse ponto o r. acórdão merece ser esclarecido. 5. A contradição do r. acórdão. A aplicação retroativa dos arts. 17, § 10-F e 17-C, § 3º, da LIA para afastar a remessa necessária e para inviabilizar a condenação dos réus De fato, logo após afirmar que, no campo processual, não há retroatividade da lei nova, afirma o r. acórdão que: “Há de se considerar, ainda, a vedação expressa da remessa necessária, na atual redação da LIA (art. 17-C, §3º), bem como a ausência de apelação por parte do Ministério Público Federal quanto à capitulação legal dos fatos no art. 11, caput e inciso I, LIA consignada na sentença (evento 177), o que delimita, por conseguinte, esta análise recursal a tal enquadramento fixado, sob pena de reformatio in pejus.” Essa premissa foi fundamental para as conclusões desenvolvidas pelo r. acórdão, tanto que se deixou de apreciar a imputação original atribuída às condutas do réu (que haviam sido enquadradas como incidentes no art. 9º, IV, da LIA, além do art. 11, inc. I), porque: “Há de se considerar, ainda, a vedação expressa da remessa necessária, na atual redação da LIA (art. 17-C, §3º), bem como a ausência de apelação por parte do Ministério Público Federal quanto à capitulação legal dos fatos no art. 11, caput e inciso I, LIA consignada na sentença (evento 177), o que delimita, por conseguinte, esta análise recursal a tal enquadramento fixado, sob pena de reformatio in pejus. É dizer que, ausente recurso ministerial em face da sentença que condenou o demandado por conduta tipificada no art. 11, caput e inciso I, da LIA (o que foi motivo de irresignação apenas por parte da defesa), não há falar em nova capitulação dos fatos, sobretudo quando essa se mostra prejudicial aos recorrentes com penas mais severas, tal qual se verifica se subsumida nos art. 9º e/ou 10, c/c as penas do art. 12, I e II, todos da LIA. Não é demais ressaltar, ainda, que o mero enquadramento em alguma das hipóteses previstas para os tipos dos art. 9º e 10, mesmo mantida a pena sob os ditames do art. 11 da LIA (art. 12, inciso III), afronta a vedação do reformatio in pejus, porquanto, ao fim e ao cabo, o(s) demandado(s) tem contra si a condenação piorada. Nesse caso, se assim entender como admissível, a defesa poderia chegar à conclusão estapafúrdia de que teria sido melhor não recorrer.” Por outras palavras, na lógica do r. acórdão, deixou-se de considerar a imputação originalmente feita pelo Ministério Público Federal na inicial desta ação de improbidade porque: a) não teria havido recurso do Ministério Público; b) poderia ocorrer reformatio in pejus; e c) não se pode, à luz do art. 17, § 10-F, condenar o réu por conduta diversa daquela indicada na petição inicial. Ora, o que se vê no estabelecimento desse raciocínio é exatamente a aplicação retroativa das novas regras inseridas pela Lei 14.230/21. Afinal, na época em que o processo subiu a essa c. Corte aplicava-se sim o instituto da remessa necessária em ações de improbidade administrativa, conforme entendimento então consolidado do Superior Tribunal de Justiça (v.g., REsp 1.600.340/PR). Ou seja, na época em que o feito chegou a esse c. Tribunal, as sentenças proferidas em ação de improbidade administrativa comportavam sim remessa necessária. Não se pode aplicar retroativamente o comando do art. 17-C, § 3º, da LIA em sua nova redação, para afastar instituto que já incidiu no caso presente e que merece ser apreciado por essa r. Corte. Dessa feita, a ausência de recurso voluntário do Ministério Público (que, obviamente, sequer teria interesse recursal para tanto) não é impeditivo para a apreciação ampla dos fatos descritos na inicial à luz da legislação adequada, sobretudo porque, em que pese a posterior modificação da lei, no momento da subida dos autos ao tribunal prevalecia a compreensão da sujeição da sentença de improbidade ao regime da remessa necessária. Por outro ângulo, também não tem nenhuma razoabilidade supor que o art. 17, § 10-F, da LIA, em sua nova redação, seja obstáculo à requalificação dos fatos descritos. De um lado, porque, novamente, aplicar essa regra ao caso presente implicaria evidentemente dar aplicação retroativa a comando processual novo, o que sequer o r. acórdão afirma tolerar. De outro, porque ainda que o comando fosse aplicável, o que ele veda é a condenação do réu por tipificação distinta daquela definida na petição inicial. Ora, a petição inicial afirma que o comportamento dos réus incide nos arts. 9º, IV e 11, inc. I, da LIA. Portanto, é à luz desses preceitos que os comportamentos mereceriam ser apreciados, o que afasta qualquer possibilidade de reconhecimento de atipicidade das condutas imputadas. Em síntese: sob qualquer ângulo que se examine a questão, o que se tem é que o r. acórdão é claramente contraditório. Afirma que não aplica retroativamente as regras processuais inseridas pela Lei 14.230/21. No entanto, o que faz é exatamente o contrário: dá aplicação retroativa a tais regras para afirmar não poder apreciar as condutas atribuídas sob outra moldura legal que não o art. 11, da LIA. Sendo assim, é imprescindível que essa c. Corte se manifeste, sanando a contradição mencionada e a omissão em apreciar as condutas imputadas ao réu à luz do art. 9º, inc. IV, da LIA. 6. A contradição e a omissão no v. acórdão. A inviabilidade do reconhecimento “retroativo” de prescrição intercorrente Ao lado de tudo o que já se pontuou, há também que se reconhecer que o r. acórdão é contraditório e omisso na análise da questão da “prescrição intercorrente”. Subsidiariamente ao argumento antes trazido – de atipicidade das condutas à luz da nova lei – esse r. Tribunal entendeu que teria ocorrido prescrição intercorrente, já que passados mais de quatro anos entre a propositura da demanda e a prolação da sentença condenatória. Novamente, porém, ao assim compreender, esse r. Tribunal dá aplicação retroativa a regra processual, infringindo a própria conclusão exposta inicialmente no julgado, no sentido de que as regras processuaisnão têm aplicação retroativa. Deveras, como já sublinhado, essa r. Corte inicia sua argumentação afirmando que toma por premissa que “Já com relação às normas de natureza processual, é certo que têm aplicação imediata da atual Lei de Improbidade Administrativa aos processos em curso.” Todavia, logo depois, conclui que: “Considerando o exposto, é possível verificar que entre a data do fato (14/02/2012) e o ajuizamento da ação (22/05/2017) não decorreu o período de 08 (oito) anos. Observo, outrossim, que entre tal data (22/05/2017) e a publicação da sentença condenatória, em 24/05/2021 (evento 177), houve o transcurso de mais de 04 (quatro) anos, ao que reputo implementada a prescrição da pretensão sancionatória estatal.” Ora, há aí clara aplicação retroativa da lei nova – denunciada até mesmo no voto da eminente Desembargadora Federal Vania Hack de Almeida, em sua ressalva de entendimento (evento 32). De fato, não há dúvida sobre a natureza processual da prescrição intercorrente. A propósito, é tranquila a orientação da jurisprudência dessa r. Corte: “TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. DECRETAÇÃO DE OFÍCIO. INTIMAÇÃO PRÉVIA. TERMO INICIAL. DESPACHO DE SUSPENSÃO. ART. 40, DA LEF. ART. 174, DO CTN. 1. É pacífica a jurisprudência no sentido da possibilidade de reconhecimento de ofício da prescrição intercorrente em execução fiscal, tendo transcorrido o lustro prescricional sem impulso útil por parte da exequente (§ 4º do art. 40 da Lei 6.830/80). Tratando-se de dispositivo de natureza processual, aplica-se de imediato aos processos em curso. 2. A finalidade da prévia oitiva prevista no art. 40, §4º, da Lei n. 6.830/80, é de possibilitar à exequente a argüição de eventuais causas de suspensão ou interrupção da prescrição do crédito tributário, que poderão ser suscitadas em apelação. Não demonstrado prejuízo, não há falar em nulidade, tampouco cerceamento de defesa, em homenagem aos princípios da celeridade processual e instrumentalidade das formas. 3. A Corte Especial deste Tribunal, no julgamento da Argüição de Inconstitucionalidade do § 4º e caput do artigo 40 da Lei nº 6.830/80, adotou interpretação de acordo com a Constituição Federal, fixando como termo inicial do prazo de prescrição intercorrente o despacho que determina a suspensão (art.40, caput). (TRF4, Arguição de Inconstitucionalidade nº 00046714620034047200, 2ª Turma, Des. Federal Luciane Amaral Corrêa Münch, D.E. 15/09/2010). 4. O art. 40 da LEF deve ser interpretado em consonância com o disposto no art. 174 do CTN, o qual limita o prazo de paralisação do processo em cinco anos, uma vez que a prescrição e a decadência tributárias são matérias reservadas à lei complementar (art.146, III, "b", da CF).” (AC - APELAÇÃO CIVEL 0011213-78.2010.4.04.9999, MARIA DE FÁTIMA FREITAS LABARRÈRE, TRF4 - PRIMEIRA TURMA, D.E. 12/01/2011.) – grifei. EXECUÇÃO FISCAL. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. LEI N.º 11.051/04. CONHECIMENTO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. ART. 40, §4º DA LEI Nº 6.830/80. INTIMAÇÃO POR AR. FAZENDA PÚBLICA. COMARCA DIVERSA. POSSIBILIDADE. JUSTIÇA ESTADUAL DO RIO GRANDE DO SUL. CUSTAS PROCESSUAIS. CABIMENTO 1. O parágrafo 4º do art. 40 da Lei nº 6.830/80, acrescentado pela Lei nº 11.051, de 30.12.2004, permite a decretação da prescrição intercorrente por iniciativa judicial, com a única condição de ser previamente ouvida a Fazenda Pública, afastando a jurisprudência anterior dos tribunais de que a prescrição intercorrente em matéria tributária não podia ser declarada de ofício. 2. Caso em que a formalidade de prévia oitiva da Fazenda Pública restou observada, viabilizando o decreto de prescrição. 3. Transcorridos mais de seis anos, sem movimentação útil do processo, mostra-se correto o reconhecimento da prescrição. 4. Tratando-se de norma de natureza processual, tem aplicação imediata, alcançando inclusive os processos em curso. 5. Há lei especial relativa ao processo de execução fiscal que determina a intimação pessoal do representante judicial da Fazenda Pública acerca dos atos processuais, sob pena de nulidade (art. 25 da Lei nº 6.830/80). Todavia, quando situada em comarca diversa do juízo no qual se processa a execução, a intimação da Fazenda Pública pode ser feita por carta registrada, de acordo com o art. 6º, § 2º, da Lei nº 9.028/95. 6. Inaplicável à hipótese o disposto no art. 39 da LEF, dada a superveniência do §1º, art. 1º da Lei 9289/96, o qual estabelece reger-se pela legislação estadual a cobrança de custas nas causas que tramitam perante a Justiça Estadual, em caso de jurisdição federal. (TRF4, AC 2006.70.99.002203-5, Segunda Turma, Relator Otávio Roberto Pamplona, DJ 16/11/2006). 7. Quando a Justiça Estadual exerce a competência federal delegada, o pagamento das custas processuais sujeita-se ao respectivo ordenamento estadual. 8. A União e suas autarquias, quando promovam execuções fiscais perante a Justiça Estadual, não estão isentas do pagamento de custas, tal como qualquer outro litigante, salvo se houver lei estadual que as isente. (AC - APELAÇÃO CIVEL 0001735-46.2010.4.04.9999, LUCIANE AMARAL CORRÊA MÜNCH, TRF4 - SEGUNDA TURMA, D.E. 22/04/2010.) – grifei. Também essa é a compreensão do c. Superior Tribunal de Justiça que entende, de forma pacífica, pela natureza processual das regras sobre prescrição intercorrente: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. ART. 40, § 4o. DA LEI 6.830/1980. NORMA DE NATUREZA PROCESSUAL. APLICAÇÃO IMEDIATA. AGRAVO INTERNO DO INMETRO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. A questão controvertida nos autos se refere à possibilidade de aplicação retroativa do art. 40, § 4o. da LEF. Dessa forma, o resultado do julgamento do Recurso Repetitivo 1.340.553/RS, no qual se discute apenas a sistemática para a contagem da prescrição intercorrente, não influirá na solução da presente lide. 2. No tocante ao art. 535 do CPC/1973, inexiste a violação apontada. O Tribunal de origem apreciou fundamentadamente a controvérsia, não padecendo o acórdão recorrido de qualquer omissão, contradição ou obscuridade. 3. O acórdão recorrido se manifestou no mesmo sentido da jurisprudência desta Corte quanto à aplicação imediata do § 4º do art. 40 da Lei n. 6.830/1980, introduzido pela Lei n. 11.051/2004, eis que se trata de norma de cunho processual. Precedentes: REsp. 1.658.316/RS, Rel. Min. HERMAN BENJAMIN, DJe 24.4.2017; e AgRg no REsp. 1.221.452/AM, Rel. Min. BENEDITO GONÇALVES, DJe 2.5.2011. 4. Agravo Interno do INMETRO a que se nega provimento. (AgInt no REsp 1464850/RJ, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 05/03/2020, DJe 11/03/2020) “TRIBUTÁRIO - RECURSO ESPECIAL - EXECUÇÃO FISCAL - PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE - ART. 40, § 4º, DA LEI 6.830/1980 - NORMA DE NATUREZA PROCESSUAL - APLICAÇÃO IMEDIATA. 1. A disposição contida no § 4º do art. 40 da Lei de Execuções Fiscais, acrescentada pela Lei n. 11.051/2004, possui natureza processual e, por isso, deve ser aplicada inclusive nos feitos em tramitação quando do advento desta última lei, podendo o juiz, de ofício, decretar a prescrição intercorrente, se da decisão que ordenar o arquivamento tiver decorrido o prazo prescricional. Precedentes. 2. Recurso especial não provido” (STJ, 2ª Turma. REsp 1.351.013. Rel. Min. Eliana Calmon. DJe 28.10.13) “PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. PRESCRIÇÃO. DECLARAÇÃO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. INÉRCIA DO EXEQUENTE. DECLARAÇÃO DIRETA DA PRESCRIÇÃO. ART. 219, § 5º, DO CPC. OITIVA PRÉVIA DA FAZENDA PÚBLICA. DESNECESSIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA 106/STJ. REEXAME DE PROVAS. INVIABILIDADE. SÚMULA 7/STJ. 1. "A norma prevista no art. 40, § 4º, da Lei 6.830/1980 - segundo a qual a prescrição intercorrente pode ser decretada ex officio pelo juiz, após ouvida a Fazenda Pública - é de naturezaprocessual. Por essa razão, tem aplicação imediata sobre as Execuções Fiscais em curso." (REsp 1.183.515/AM, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, in DJe 19/5/2010). 2. A oitiva prévia da Fazenda Pública para a declaração da prescrição, nos termos do art. 40, § 4º, da Lei n. 6.830/80, refere-se à "prescrição intercorrente", o que não é o caso dos autos, onde foi reconhecida a prescrição direta decorrente da comprovada inércia do exequente em promover a citação do executado no prazo legal. 3. Reconhecido pelo Tribunal de origem que a prescrição efetivou-se por inércia exclusiva do exequente, e não em decorrência dos mecanismos do Poder Judiciário, sendo inaplicável o disposto na Súmula 106/STJ, a modificação da referida conclusão é inviável em sede de recurso especial, sob pena de violação da Súmula 7 desta Corte. REsp 1.102.431/RJ, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Seção, julgado em 09/12/2009, DJe 01/02/2010 - submetido ao regime dos recursos repetitivos (art. 543-C do CPC). 4. Aplica-se ao caso a multa do art. 557, § 2º, do CPC, por questionamento de matéria já decidida em recurso repetitivo: inviabilidade de análise da responsabilidade pela demora na prática dos atos processuais, ante o óbice da Súmula 7/STJ. Agravo regimental improvido” (STJ, 2ª Turma. AgREsp 148.235. Rel. Min. Humberto Martins. DJe 20.08.12) Ora, tratando-se de regra de natureza processual, incide o contido no já tantas vezes mencionado art. 14, do CPC, que prevê que “a norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a vigência da norma revogada”. Em consequência, não se pode cogitar de aplicar efeitos retroativos ao novo comando que trata da prescrição intercorrente. Semelhante tentativa, aliás, implicaria evidente infringência aos princípios da segurança jurídica e da boa-fé processual. Afinal, não existia comando semelhante no direito anterior. Por isso, não se poderia esperar que o processo tivesse conclusão em algum prazo determinado. Pretender aplicar essa restrição neste momento claramente conflita com essa justa e legítima expectativa criada, sendo medida absolutamente inadequada. Não bastasse isso, seria de todo absurdo pretender aplicar o referido preceito quando não há demora atribuível ao autor da ação! Esse tipo de interpretação implicaria punir a sociedade quando, a rigor, nenhuma omissão existe por parte dos órgãos de controle. Dessa feita, há aí nova contradição e omissão, que precisa ser sanada por esse r. Tribunal, esclarecendo com que base reconhece a prescrição intercorrente “retroativa” no presente caso. 7. Conclusão À luz de todo o exposto, o Ministério Público Federal requer sejam esclarecidos os pontos acima indicados, examinando-se, preliminarmente, os requerimentos formulados no evento 14, destes autos e suprindo-se as omissões, contradições e obscuridades acima indicadas. Pede deferimento. Porto Alegre, 4 de maio de 2022. Sérgio Cruz Arenhart Procurador Regional da República 1. Breve síntese da demanda e do julgamento 2. Preliminarmente. A omissão em apreciar o requerimento feito pelo Ministério Público no evento 14 3. A omissão do v. acórdão em apreciar adequadamente o problema da (ir)retroatividade da Lei 14.230/21 4. A particular situação da irretroatividade das regras processuais. A contradição do v. acórdão 5. A contradição do r. acórdão. A aplicação retroativa dos arts. 17, § 10-F e 17-C, § 3º, da LIA para afastar a remessa necessária e para inviabilizar a condenação dos réus 6. A contradição e a omissão no v. acórdão. A inviabilidade do reconhecimento “retroativo” de prescrição intercorrente 7. Conclusão