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ACESSE AQUI ESTE MATERIAL DIGITAL! IVERSON KECH FERREIRA VITIMOLOGIA E O MODELO CONSENSUAL DE JUSTIÇA CRIMINAL Coordenador(a) de Conteúdo Gerson Faustino Rosa Projeto Gráfico e Capa Arthur Cantareli Silva Editoração Edinei Tomelin Design Educacional Lucio Carlos Ferrarese Revisão Textual Tatiane Schmitt Costa Ilustração Geison Ferreira da Silva Fotos Shutterstock e Envato Impresso por: Bibliotecária: Leila Regina do Nascimento - CRB- 9/1722. Ficha catalográfica elaborada de acordo com os dados fornecidos pelo(a) autor(a). Núcleo de Educação a Distância. FERREIRA, Iverson Kech. Vitimologia e o Modelo Consensual de Justiça Criminal / Iverson Kech Ferreira. - Florianópolis, SC: Arqué, 2024. 208 p. ISBN papel 978-65-6137-429-3 ISBN digital 978-65-6137-431-6 1. Vitimologia 2. Modelo Consensual 3. Justiça Criminal 4. EaD. I. Título. CDD - 364 EXPEDIENTE FICHA CATALOGRÁFICA N964 03506869 RECURSOS DE IMERSÃO Utilizado para temas, assuntos ou con- ceitos avançados, levando ao aprofun- damento do que está sendo trabalhado naquele momento do texto. APROFUNDANDO Uma dose extra de conhecimento é sempre bem-vinda. Aqui você terá indicações de filmes que se conectam com o tema do conteúdo. INDICAÇÃO DE FILME Uma dose extra de conhecimento é sempre bem-vinda. Aqui você terá indicações de livros que agregarão muito na sua vida profissional. INDICAÇÃO DE LIVRO Utilizado para desmistificar pontos que possam gerar confusão sobre o tema. Após o texto trazer a explicação, essa interlocução pode trazer pontos adicionais que contribuam para que o estudante não fique com dúvidas sobre o tema. ZOOM NO CONHECIMENTO Este item corresponde a uma proposta de reflexão que pode ser apresentada por meio de uma frase, um trecho breve ou uma pergunta. PENSANDO JUNTOS Utilizado para aprofundar o conhecimento em conteúdos relevantes utilizando uma lingua- gem audiovisual. EM FOCO Utilizado para agregar um con- teúdo externo. EU INDICO Professores especialistas e con- vidados, ampliando as discus- sões sobre os temas por meio de fantásticos podcasts. PLAY NO CONHECIMENTO PRODUTOS AUDIOVISUAIS Os elementos abaixo possuem recursos audiovisuais. Recursos de mídia dispo- níveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. 4 145U N I D A D E 3 A JUSTIÇA RETRIBUTIVA E A JUSTIÇA RESTAURATIVA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .146 O MODELO CONSENSUAL DE JUSTIÇA NO BRASIL: ADVENTOS DA LEI N° 9099/1995 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .168 OS CAMINHOS PARA AS ALTERNATIVAS: POLÍTICA CRIMINAL E O MINIMALISMO PENAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .188 7U N I D A D E 1 HISTÓRICO: VITIMOLOGIA E CRIMINOLOGIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 OS ESTUDOS E OBJETIVOS DA VITIMOLOGIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .34 GRAUS DE VITIMIZAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DA VITIMOLOGIA . . . . . . . . . . . . . . . .56 81U N I D A D E 2 A VITIMOLOGIA NO DIREITO BRASILEIRO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .82 A INVISIBILIDADE LATENTE: A OMISSÃO ESTATAL FRENTE DETERMINADAS VÍTIMAS DE CRIMES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .104 DIREITOS, GARANTIAS FUNDAMENTAIS E PROTEÇÃO À VÍTIMA: MECANIZANDO A TUTELA JURÍDICA E PESSOAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .122 5 SUMÁRIO UNIDADE 1 MINHAS METAS HISTÓRICO: VITIMOLOGIA E CRIMINOLOGIA Analisar os conceitos de Vitimologia na história. Entender o significado de Vitimologia no Direito Penal Nacional. Examinar os estudos da Criminologia acerca da Vitimologia. Interpretar os estudos da Vitimologia na história da Criminologia. Explorar as análises sobre crimes e vítimas. Investigar a evolução dos estudos da Vitimologia na história. Examinar a evolução do conceito de Vitimologia e suas interpretações pelo tempo. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 1 8 INICIE SUA JORNADA Estudante, estudar Criminologia exige entender as mudanças diversas e o com- plexo desenvolvimento social causado pela passagem do tempo e das novas maneiras de enxergar o movimento da sociedade, motivado pela globalização. Tecnologias recentes nos demonstram essa mudança, o novo paradigma da co- municação surge com força de transformar todo o trato social, a internet e suas possibilidades diversas de apresentar um novo mundo que se abre a frente, com suas novas oportunidades e terrenos desconhecidos. Entretanto, há também a complexidade das relações sociais, causada por diversos estímulos que se amoldam como novo padrão no compromisso entre as pessoas. Estudar o contexto em que vivemos demanda, hoje, muita informação sobre as perspectivas diversas que transformam a maneira pela qual as pessoas convivem, com as novas tecnologias e o contato com culturas diversificadas, cada vez mais presentes. Por esse motivo, o criminólogo precisa entender as mu- danças sociais, causadas por inúmeras possibilidades. Deve-se relacionar com o mundo a sua volta a partir das experiências de pessoas desconhecidas, e de suas expectativas; é preciso interpretar todo o contexto social que se transforma, pois a sociedade está sempre em movimento. Nesse sentido, é necessário se envolver com os estudos de uma forma comple- ta, alcançando um conhecimento que pode ser capaz de interferir mesmo em po- líticas públicas de qualidade, na área da segurança pública e também na educação. As pesquisas realizadas por criminólogos compenetrados qualificam qualquer programa social em nível de segurança nas cidades, uma vez conhecedoras das mazelas e adversidades presentes em suas margens. Portanto, o profissional que estuda, labora ou desenvolve projetos na área de segurança pública, precisa en- tender os enfoques, mudanças e até mesmo os pormenores das erudições trazidas pela Criminologia para melhor desenvolver seu ofício. Aqui, nós analisamos a Vitimologia. Trata-se de uma matéria de extrema im- portância, pois através dela podemos entender melhor o conceito de crimes, bem como compreender os problemas enfrentados pelas vítimas de desvios, como trau- mas, ansiedades e aflições. Imagine uma vítima de crime, abandonada à própria sorte, sendo importante para o Estado apenas para a continuação da ação penal, servindo somente como mero instrumento capaz e essencial para mecanizar a persecução contra o agente que praticou o ilícito. Aqui, essa personagem sofre dois UNIASSELVI 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 tipos de delitos, o primeiro, causado pelo criminoso, e o segundo, pelo abandono e inércia do Estado sobre sua condição física, moral e até mesmo social, após o crime. Em um segundo plano, imagine agora um crime cometido de tal forma, que sem a participação da própria vítima seria improvável que acontecesse. Isso pode ocorrer em injustas provocações, nos casos de crimes passionais, ou em vítima que incorre contra si mesmo, quando caminha a pé em lugar de risco à noite. Todos esses estudos são capazes de desenvolver caminhos para o Direito Penal, para a investigação e até mesmo para responder o porquê determinados crimes ocorrem mais em um ponto da cidade do que em outros. Convido você a ouvir o podcast que preparamos sobre o assunto tratado neste tema. Aqui, desenvolvemos como se deu a evolução da palavra vítima e dos es- tudos de Vitimologia no decorrer da história, e quais os principais expoentes para que a matéria passasse a ser analisada com responsabilidade e conhecimento. Vamos lá!? Recursos decomo sofredor do mesmo crime, através do medo. PONTO C Trata-se de uma Declaração da ONU, portanto, com reconhecimento mundial e refle- xos a todos os países signatários. UNIASSELVI 4 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 E é nesse ponto que a declaração apresenta uma das primordiais análises no aspecto da prestação de apoio: “Evitando atrasos desnecessários na resolução das causas e na execu- ção dos mandados ou decretos que concedam indenizações às vítimas” (KOSOVSKI, 1992, p. 40). “Serão utilizados, quando adequados, mecanismos oficiosos para a solução das controvérsias, incluídas a mediação, a arbitragem e as práticas de justiça consuetudinária ou autóctone, no sentido de facilitar a conciliação e a reparação em favor das vítimas” (KOSOVSKI, 1992, p. 40). Mecanismos que se tornam oficiosos na questão do direito de punição do Estado, podem ser considerados aqueles que preveem formas distintas de punição, que não vise somente a retribuição ao ilícito causado ou a simples vingança (ZAF- FARONI, 2001). A Declaração aqui versa sobre formas alternativas de pena- lização, que se tornem mais qualificadas tanto para o agente criminoso quanto para a vítima de seus crimes. A Declaração versa sobre o ressarcimento e indenização, bem como, ao acompanhamento assistencial. Indica que governos devem ser capazes de re- considerar suas normas e leis a fim de considerar o ressarcimento como uma possível sentença, quando em casos judiciais criminais. Desde 1988, para os tem- pos modernos, o Brasil vem trabalhando em leis que ditam a despenalização de atos desviantes, como a Lei n° 9099/1995, que apresenta os Juizados Especiais Criminais e Cíveis em crimes de menor potencial ofensivo. Na indenização às vítimas, a Declaração abre um fundamental aspecto; sobre as quem caberá a responsabilidade das compensações financeiras: A- “Quando a indenização procedente do delinquente ou de outras fontes não for suficiente os Estados procurarão indenizar financeiramente. B- As vítimas de delitos que tenham sofrido importantes lesões corporais ou prejuízo de sua saúde física ou mental como consequência do delito grave. C- A família, particularmente as pessoas dependentes das vítimas que tenham sido mortas ou que tenham ficado física ou mentalmente incapacitadas como consequência de ação danificadora. 4 8 Será fomentado o estabelecimento, o reforço e a ampliação de fundos nacionais para indenizar as vítimas. Quando for apropriado, outros fundos poderão tam- bém ser estabelecidos com esse propósito (KOSOVSKI, 1992). Aqui, podemos notar o chamamento para uma maior participação do Estado na vida da vítima, quando não for suficiente o autor do delito para cumprir com a indenização total. Essa participação nos remete a uma efetiva presença do Estado na esfera pública e social. Há uma primeira intenção em trazer os aspectos jurí- dicos dos danos morais e lucros cessantes, quando a vítima não conseguir mais realizar suas atividades habitualmente, por isso, a criação de um fundo nacional para amparo às vítimas de crimes se torna imprescindível para o atendimento de vítimas das mais diversas especificidades e localidades. No Brasil, foi aprovado, em 2012, o Fundo Nacional de Amparo à Mulheres Agredidas (Fnama), pelo Projeto Lei n° 109/2012, votado em dezembro daquele ano. A partir de então, 10 por cento do recolhimento anual de multas penais, além de doações da sociedade civil, contribuições de governos e organismos que ressaltem a de- fesa da mulher, fazem parte de recursos destinados a essa personagem que vem ocupando dados negativos nas estatísticas nacionais. Um dos grandes objetivos da Vitimologia é encontrar, em suas pesquisas, quem são as vítimas que mais estão determinadas a sofrerem ataques e a partir disso, encontrar um meio para solucionar seus conflitos. Em 1999, por intermé- dio da Lei Federal n° 9.807/1999, foi criado o Programa de Proteção a Víti- mas e Testemunhas Ameaçadas (PROVITA). O programa visa a proteção e a promoção dos direitos humanos das testemunhas de crimes e de seus familiares, considerando aspectos sociais e psicológicos, intentando a reinserção das vítimas nos âmbitos sociais e na satisfação de sua ampla cidadania. UNIASSELVI 4 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 Deputados do Rio de Janeiro visam criar um projeto de lei que tem por des- taque um fundo de amparo permanente às comunidades escolares atingidas por ataques violentos. Ainda no início das tratativas em setembro de 2023, o projeto prevê a proteção e amparo a um grupo que ganhou as manchetes dos jornais na- cionais; as vítimas de ataques às escolas, os estudantes, professores e funcionários dos estabelecimentos educacionais. Se um dos objetivos da Vitimologia era chamar atenção para esse assunto e tema que merece grande destaque na sociedade, pode-se dizer que está conseguindo sucesso. Se ampla cidadania significa, além da consciência dos direitos individuais e coletivos por parte das pessoas, o cumprimento dos direitos fundamentais por parte do ente estatal, então a vitimologia é capaz de colocar a vítima de crimes em uma posição de equidade, através das políticas públicas em seu benefício que somente foram capazes de ser criadas a partir de um estudo compenetrado sobre o tema (SHECAIRA, 2004). Nos últimos anos, os estudos da vitimologia se espalharam pelos mais impor- tantes temas e assuntos, na esperança de transformar a matéria; não ficando ape- nas restrita aos movimentos acadêmicos e estudantis. Medidas psicoterapeutas, análises de determinados grupos na sociedade como as mulheres e os idosos, a administração da justiça nos casos violentos tendo a vítima ou seus familiares como parte no processo, estratégias para evitar a vitimação, entre outros temas, fazem parte do universo de estudos da vitimologia. Bittencourt (1974) apresenta a vitimologia como um estudo multidiscipli- nar, apresentando diversas maneiras de interpretação da vítima e do caso em concreto, em uma gama de análises interdisciplinares, pois entende os problemas sociais a partir de sua complexidade. Além da assistência às vítimas, portanto, a vitimologia pode ser definida através de seus objetivos primordiais, ao evidenciar a relevância da vítima no processo penal, tratando-a como sujeito dotado de dignidade; expor medidas capazes de di- minuir determinados tipos de crimes e delitos contra vítimas previamente definidas; e entender a conduta da vítima, anterior ao fato criminoso (BITTENCOURT, 1974). 5 1 NOVOS DESAFIOS Estudante, vimos os objetivos e a missão da Vitimologia, sempre coordenada aos estudos da Criminologia, que detecta os conflitos sociais inerentes à complexida- de da atualidade e à vida em sociedade. Interpretar os aspectos do crime a partir da vítima, e também entender o personagem padecente do crime através da dig- nidade da pessoa humana é considerado um marco aos estudos da vitimologia. Imagine uma situação em que a vítima não encontra nenhum amparo, seja pelo Estado ou mesmo, em âmbito social. A mudança de atitude se deve ao conhecimento, e destacar o sofrimento das ví- timas de crimes e de seus familiares é capaz de estruturar a empatia social e a busca por ambientes mais seguros. Nesse ínterim, a vitimologia representa o seu objeto de estudos e análises pela condição que representa todas as áreas do estudo social: as investigações empíricas que demonstram a qualidade do estudo realizado, através do real contato com os problemas que padecemos. Assim, ao objetivar a vitimologia e conceituar as suas importâncias, entendendo-a como uma ciência estruturada por seus próprios objetos de pesquisa, conseguimos definir que o crime não é apenas uma condição humana, mas causado por diferentes valores e vontades. Entre esses valores, a escolha de vítimas mais propícias à banalização de seus direitos, através de sua vulnerabilidade. Entre esses valores, podemos criar políticas públicas de educação; e mesmo, políticas de segurança pública que intentem a diminuição da criminalidade emdeterminado setor da cidade em estudo. Perceba que os objetivos da vitimologia já nos demonstram a real importância desses estudos; elevar a pessoa ao máximo padrão da promoção humana. Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respei- to deste tema. Vamos lá? Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EM FOCO UNIASSELVI 5 1 1. Um dos fatores de maior contribuição da vitimologia é a criação de programas especiais e assistenciais para as vítimas, bem como, formas de penalização que se destacam a partir do desvio e crime cometido. A partir dos programas de acompanhamento às vítimas, analise e marque a alternativa correta: a) Os programas de intervenção a favor das vítimas de crimes diversos auxiliam também com que todos os delitos cometidos cheguem à investigação e a consequente ação penal. b) Por conta da criação dos programas assistenciais às vítimas, medidas extrajudiciais não são aceitas, sendo o processo penal e a consequente penalização medidas penais que se aplicam, em quaisquer casos. c) Casos em que envolvam situações de menor potencial ofensivo, ou que possam não chegar à persecução penal através da força punitiva do Estado, podem ser remediados já em seu início. d) A vitimologia trata apenas da vítima, por isso a nomenclatura, não se importando com a penalização do criminoso. e) O Estado Democrático enfatiza a ampla cidadania através do direito de participação no sufrágio universal. 2. A vitimologia não serve apenas para a coleta de dados a respeito das vítimas de crimes, mas se envolve também com debates políticos específicos e políticas públicas fora dos âmbitos da segurança pública, que visem atender o público analisado, de forma extrajudi- cial ou extrapenal, fora dos inquéritos e das delegacias de polícia. Sobre as contribuições da Vitimologia, analise as questões abaixo e assinale a alternativa que considerar correta: a) Um dos intuitos essenciais da Vitimologia, é a punição do criminoso através da perse- cução penal e de uma penalização pedagógica. b) Para a Vitimologia, não existe diferença entre crimes de menor potencial ofensivo e aqueles que ferem de fato o bem jurídico tutelado, devendo os dois casos serem tratados com o rigor do direito de penalização do Estado. c) Falta para a Vitimologia, a criação de programas especiais para vítimas de crimes e desvios. d) A Vitimologia faz prevalecer a importância ao criminoso, deixando a vítima esquecida no drama criminal. e) A vitimologia contempla vários níveis de atuação em diferentes contextos repousando em um tripé: estudo e pesquisa, mudança de legislação e assistência e proteção à vítima. AUTOATIVIDADE 5 1 3. O último plano escrito em 2021 com validade até o ano de 2030, define a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social. A partir dele, a disposição de uma ordenação que visa o combate contra a criminalidade prevê a importância de um plano único e centralizado, mas que ao mesmo tempo descentralize as tomadas de decisões que devem ser realizadas pelas bases e dados estatísticos de cada região. Nesse sentido, observe as questões abaixo e marque a alternativa correta: a) No Plano atual, a atuação da segurança a partir dos dados coletados e das estatísticas que definem grupos considerados vulneráveis e que precisam de um olhar mais crítico das forças de proteção do Estado. b) Infelizmente, o Plano de Segurança atual não prevê análises sobre grupos vulneráveis e personagens hipossuficientes em nossa sociedade. c) Estudos estatísticos realizados pela vitimologia e pela criminologia não fazem parte da criação de um Plano de Segurança Pública. d) Análises estatísticas não são envolvidas em políticas públicas, uma vez versarem sobre assuntos específicos como o estudo das vítimas. e) O Plano de Segurança Pública é centralizador, ou seja, Estados não podem elaborar seus respectivos planos através de sua realidade. AUTOATIVIDADE 5 1 REFERÊNCIAS BARATTA, A. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal . Introdução à Sociologia do Direito Penal. 6° ed. Rio de Janeiro: Revan, 2011. BITTENCOURT, E. de M. Vítima . São Paulo: Editora Universitária de Direito Ltda, 1974. BURKE, A. Vitimologia: manual da vítima penal. 2ª. Ed. Salvador: Editora Juspodium, 2022. DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico . São Paulo: Martins Fontes, 2007. KOSOVSKI, E. (Coord.). Vitimologia Enfoque Interdisciplinar . Rio de Janeiro: Reproarte, 1992. MAYR, E. et al. Vitimologia em debate. São Paulo: RT, 1990. PELLEGRINO, L. Vitimologia (história, teoria, prática e jurisprudência) . Rio de Janeiro: Forense, 1987. PIEDADE JÚNIOR, H. Vitimologia, evolução no tempo e no espaço . Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1997. POPPER, K. A Lógica da Pesquisa Científica. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 2013. SARLET, I. W. A eficácia dos direitos fundamentais: uma teoria geral dos direitos fundamentais na perspectiva constitucional. 11. ed. rev. atual. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2012. SHECAIRA, S. S. Criminologia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. ZAFFARONI, E. R. Em busca das penas perdidas – A perda de legitimidade do sistema penal . Trad. Vânia Romano Pedrosa e Amir Lopes da Conceição. 5. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2001. 5 4 1. Opção C. Questão A é bem o contrário; por existirem os programas de apoio às vítimas, existe tam- bém o apoio à resolução de conflitos extrajudiciais. Questão B está errada, em crimes de menor potencial ofensivos, ou naqueles em que a lei permitir, a despenalização e medidas extrajudiciais serão propostas. Questão D é incorreta, uma vez que intenta também uma penalização mais justa. Questão E é errada, uma vez que ampla cidadania significa ter seus direitos fundamentais respeitados. 2. Opção E. A questão A é errada, uma vez que a vitimologia busca outras formas de punição, entre elas, a despenalização em crimes possíveis de aplicação desse instituto. Questão B está errada, pois a Vitimologia intenta não penalizar crimes de menor potencial ofensivo, tra- tando de fazer valer algum tipo de restituição material. Questão C está incorreta, eis que a vitimologia foi responsável pela criação de alguns programas de proteção às vítimas no Brasil. Questão D está errada, pois a vítima é que se amolda como objeto de estudos da Vitimologia, não o criminoso. 3. Opção A. Questão B é incorreta, pois o plano de segurança pública em vigor estabelece cuidados com grupos hipossuficientes e pessoas em situação de vulnerabilidade. Questão C é incorreta pois as análises estatísticas formam a intenção inicial de qualquer plano. Questão D está errada, uma vez que as estatísticas enfocam os problemas mais veementes em uma sociedade de forma quantitativa e qualitativa, portanto, necessárias para a criação de qualquer estratégia. Questão E está errada, uma vez que o plano não é centralizador, mas propõe aos Estados que criem seus próprios planejamentos sempre respeitando o planejamento federal. GABARITO 5 5 MINHAS METAS GRAUS DE VITIMIZAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DA VITIMOLOGIA Entender os graus de vitimização e sua importância para a vitimologia. Interpretar quais são as classificações da vitimologia e qual a necessidade de seus estudos. Analisar os conceitos de vitimologia, para um melhor entendimento dos assuntos argu- mentados pela matéria. Explorar o significado de vitimização. Investigar o significado de cifras negras para a criminologia a partir da vitimologia. Verificar a classificação das vítimas através de alguns doutrinadores da vitimologia. Conhecer a importância das classificações para a investigação penal e a consequente aplicação da pena ao criminoso. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 3 5 1 INICIE SUA JORNADA Estudante, agora é a hora de você identificar as classificações de vítima e os graus de vitimização, criados pelos mais importantes estudiosos dessa área. Isso é importante, pois, nas mais diversas funções, seja em investigação criminalou no âmbito do po- der judiciário, definir os passos do crime desde o início juntamente com a atividade da vítima, pode ser capaz de determinar uma penalização mais adaptável ao caso concreto que é apresentado. Assim, desde a pena restritiva de liberdade, de direitos ou a indenização material do ato desviante, podem passar a ser pensadas através da dupla penal que envolve vítima e criminoso. Muitas vezes, você já deve ter notado que, após o crime e a consequente penalização, a vítima ou seus familiares ficam à deriva, tanto do processo, quanto da atenção do Estado. Isso ocorre devido à mecanização que estrutura o direito penal e sua racionalidade desde os primórdios, acentuando sua participação cerrada unicamente na esfera da penalização. Entretanto, a respon- sabilidade do Estado, e do autor dos crimes e desvios, vão mais além. O Estado deve desenvolver as mais possíveis formas de indenizar a vítima, e mais que isso, acompa- nhá-la em um dos momentos mais marcantes de sua vida. Mas, para que se tenha ao certo o quantum indenizatório ou a penalização do indivíduo, investigar a participação da vítima nos eventos delituosos passa a ser de grande importância. A partir desses estudos, a vitimodogmática, capaz de alterar leis e criar novas normas nos códigos penalizadores do direito, inicia suas tratativas de análises quanto à participação da vítima no crime, em situações que sem sua coadjuva- ção o delito não teria ocorrido. Dessa forma, as penas passam a ser desenvolvi- das através dos diagnósticos da dupla penal, podendo ser mais precisas quando aplicadas. E não se trata de despenalizar o direito, mas de uma justa pena, como imaginavam os primórdios estudos da Escola Clássica da Criminologia. No podcast apresentado, você poderá saber um pouco mais sobre o assunto aqui tra- tado. Vamos falar sobre os graus de vitimização, importantes para o reconhecimento da vítima nos crimes ocorridos, bem como a Classificação da Vitimologia. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. PLAY NO CONHECIMENTO UNIASSELVI 5 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 DESENVOLVA SEU POTENCIAL As grandes mudanças ocorridas com o passar dos tempos, entre elas a frequente globalização, ocasionaram intensas e significativas renovações nas cidades, prin- cipalmente naquelas consideradas maiores por seu número populacional. A cen- tralização de uma acentuada quantidade de pessoas em uma mesma sociedade trouxe, além do positivo multiculturalismo, situações que ensejam possibilidades diversas, entre elas o crime (BAUMAN, 2006). VAMOS RECORDAR? Para entender melhor a vitimologia, o Ministério Público de Pernambuco divulgou recentemente uma cartilha nomeada “Justiça começa pela vítima”, que tem por objetivo os membros do Ministério Público daquele Estado, para que atentem aos direitos das vítimas de crimes e desvios. A Cartilha destaca a Vitimização, ponto importante de nosso estudo neste Tema. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. Um dos mais intensos objetivos da vitimologia, é justamente entender os motivos que fazem com que determinados grupos ou pessoas sejam mais consideradas para o ato criminoso do que outras. Nas cidades aglomeradas, causas de um mun- do globalizado, crimes e desvios ocorrem com frequência, e muitos deles envol- vem preparação e estudo por parte do desviante, no tocante à sua vítima. Nesse sentido, as análises envolvem vítima e criminoso, a partir das próprias defluências do crime, do comportamento da padecente e dos imensos distúrbios sociais que ocorrem nas cidades (ELIAS, 2000). APROFUNDANDO Por esse motivo, o impacto provocado pelo encontro social com diversos atores, alguns antagônicos entre si por diferentes motivos, é capaz de mecanizar atos in- fracionais e transgressões nas normas sociais de conduta. É importante observar 5 8 a crescente desigualdade social nas cidades, situação capaz de formalizar grupos sociais oponentes e incompatíveis entre si, fator considerado pela criminologia como um dos distúrbios sociais mais capazes de enfraquecer a coletividade e exacerbar o crime (BAUMAN, 2006). Nesse intento, as ciências sociais aplicam-se a questionar não a quantida- de de crimes, mas sua qualidade e motivações frente à sociedade. A crimino- logia se destaca como grande aporte para as políticas de segurança públicas mais modernas, entretanto, a vitimologia ensina situações que podem ser refreadas através de educação e políticas públicas que ultrapassem a esfera da segurança, para efetivar a saúde de grupos considerados hipossuficientes (OLIVEIRA, 2018). O autor do livro Vitimologia e Direito Penal – Crime Precipitado ou Programado pela Vítima, Edmundo Oliveira, identificou algumas nomenclaturas que são de extrema importância, para que consigamos entender a vitimologia e as inseriu em um pequeno glossário. São elas: Vitimologia é o estudo global da vítima. Vitimizar ou vitimar é converter ou reduzir alguém à condição de vítima. Vitimizador é aquele ou aquilo que vitimiza, ocasio- nando sofrimento. Vitimizante é o que tem capacidade de vitimizar. Vitimização é o efeito de vitimizar ou vitimar. Vitimógeno é o que pode produzir vitimação. Viti- mizável é a pessoa capaz de ser vítima. Vitimal é a circunstância que caracteriza o estado ou situação de vítima. Vitimólogo é tudo que diz respeito à compreensão dos aspectos típicos ou específicos inerentes à vítima. Vitimidade representa o total de vitimizações, que surgem em específica conjuntura, levadas a efeito em determinado tempo e lugar. Vitimário, do latim victimarius, em sua acepção origi- nal, era o serviente dos antigos sacerdotes, o qual tinha a incumbência de imolar, ou seja, acender o fogo sobre a vítima pagã para sacrificá-la até a morte, no final do Império Romano. Em sentido vitimológico, vitimário é aquele que produz qualquer tipo de dano, sofrimento ou padecimento da vítima. Vitimista é o tom da inclinação para se vitimizar diante da percepção sobre o que acontece à pessoa. Vitimismo é o transtorno da pessoa que se acha punida, de uma forma ou de outra, diante da abrangência de qualquer situação. Vitimodogmática é a doutrina que realça a im- portância da análise do comportamento e da personalidade da vítima ou no acon- tecimento do crime e seus reflexos na dogmática jurídico penal (OLIVEIRA, 2018). ZOOM NO CONHECIMENTO UNIASSELVI 5 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 VITIMIZAÇÃO Todos os temas que circundam a vítima possuem relevância primordial para a proteção do bem jurídico tutelado pelo Estado, e para a busca da paz social. O movimento dos estudos vitimológicos objetivam auxiliar as vítimas atra- vés da criação de programas que servem para apoio, vindo ele em forma de compensação econômica ou na amenização do sofrimento através de acom- panhamento médico e psicológico. A vitimologia apresenta uma área de especial destaque, conhecida por viti- mação, ou mesmo, por vitimização. Aqui, há análise de como a pessoa é capaz de se tornar vítima, seja por sua própria ação ou omissão; ou pela intenção de terceiros. O mesmo processo vale para grupos de pessoas, em sua maioria já consideradas hipossuficientes, e que podem padecer de um ou mais delitos a partir de sua própria fragilidade (JORGE, 2005). É comum a vitimação se iniciar através de algumas características dos sujei- tos, que os definem em sociedade, como etnias, idade, sexo e condição social. Grupos que se abstém de um maior contato social devido à manutenção de sua própria segurança de vida e interação, ou devido à orientação sexual, são aqueles mais fadados a sofrer o processo de vitimação. Por intermédio de sua fragilidade, idosos, mulheres, crianças e adolescentes também possuem o estereótipo mais qualificado para tornarem-se vítimas, buscados por infratores de diferentes pe- riculosidades (JORGE, 2005). Entretanto, a vitimização também pode ocorrer em ambientes de trabalho, através de acidentes capazes de ocorrer, estatisticamente,a algumas classes espe- cíficas, pessoas moradoras de áreas de risco como os aglomerados subnormais, vítimas de guerras em locais determinados por conflitos armados e até mesmo, “através da própria justiça criminal” (JORGE, 2005, p. 20). Para um melhor diag- nóstico das observações, capazes de transformar até mesmo planos de segurança pública por intermédio de suas respostas, classifica-se a vitimização por três pe- ríodos ou nomenclaturas classificatórias: Vitimização Primária, Secundária e Terciária (BERISTAIN, 2000). Vamos a elas: 1 1 Vitimização Primária: decorre de um fato típico, através da agressão aos direitos da víti- ma. Danos de diversas espécies podem ser causados, pela conduta delituosa do agen- te, desde financeiros até físicos e psicológicos. Dessa forma, o indivíduo que é afligido de maneira direta pelo ato infracional é considerado a vítima primária. Normalmente entendida como aquela provocada pelo cometimento do cri- me, pela conduta violadora dos direitos da vítima. Pode causar danos variados, materiais, físicos, psicológicos, de acordo com a natureza da infração, a per- sonalidade da vítima, sua relação com o agente violador, a extensão do dano etc. Então, é aquela que corresponde aos danos à vítima decorrentes do crime (PENTEADO FILHO, 2012, p. 124). Vitimização Secundária: como o próprio nome indica, trata-se de uma segunda vitimiza- ção; que ocorre logo após o fato delituoso. Também conhecida como sobrevitimização, é consolidada pelas instâncias de controle do Estado, como o próprio inquérito criminal e a consequente ação penal. Por vitimação secundária entendem-se os sofrimentos que às vítimas, às tes- temunhas e majoritariamente aos sujeitos passivos de um delito lhes impõem as instituições mais ou menos diretamente encarregadas de fazer “justiça”: po- liciais, juízes, peritos, criminólogos, funcionários de instituições penitenciárias etc. [...]. Durante o processo, a vítima é, no mais, um convidado de pedra. Outras vezes, nem convidado (BERISTAIN, 2000, p. 105). Trata-se do esquecimento da vítima, que figura apenas como mero instrumento para a ação penal, e a exposição perante toda a burocracia processual, precisando revisitar o acontecido muitas vezes sem o devido acompanhamento psicológico, em fase de inquérito ou mesmo em tribunais penais (BERISTAIN, 2000). Vitimização Terciária: trata-se de um importante estudo feito pela Vitimologia, pois ex- plica os reais motivos de muitos crimes não chegarem ao conhecimento das instâncias formais de controle. Crimes que fustigam a honra e os costumes podem muitas vezes ser considerados estigmatizantes ao padecente. Isso é devido à rejeição social que a vítima pode sofrer depois do conhecimento de todos ao seu redor do fato ocorrido. O fato de uma acolhida social negativa, de seus amigos e mesmo de familiares, após o crime, impõe uma maior angústia podendo aumentar mais o trauma vivido pela vítima. Isso ocorre com veemência em crimes sexuais, violência doméstica e delitos contra a honra (BERISTAIN, 2000) O medo da estigmatização e de como seus conhecidos e so- ciedade irão reagir é fator preponderante de muitos crimes de estupro e violência contra mulheres jamais chegarem ao conhecimento da polícia, ocasionando a conhecida cifra negra. O receio da vítima sobre o que os outros irão pensar dela, agora que foi vitimada, é a causa preponderante das cifras negras (JORGE, 2005). UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 Assim, percebe-se que o processo de vitimização pode ter seu estopim não ape- nas em um único delito, mas em muitos outros comportamentos que envolvem poder judiciário, policiais, advogados, família e amigos, entre outros, possui ver- tentes que somente são percebidas ao certo quando se manifestam em prejuízo da vítima (JORGE, 2005). Para Jorge (2005, p. 41) “nem sempre o que causa infortúnio, agride, ofende, traumatiza, está previsto como crime; vitimizar é in- fligir um prejuízo a alguém; e este prejuízo pode ser de diversas ordens: físico, econômico, intelectual ou moral”. As três fases ou períodos da vitimização demonstram que o padecente pode sofrer, através de diferentes instâncias, hostilidade frente ao problema causado pelo crime mesmo após esse ter sido findado. As etapas dois e três por si possuem um fator de grande ressentido ao ofen- dido, uma vez que partem daqueles que mais deveriam apoiá-lo, logo após o injusto. Diz-se que do meliante realmente a vítima nada espera, mas a expectativa de apoio parte em direção aos serviços prestados pelo Estado, como a própria proteção do cidadão, e para seus familiares, conhecidos e membros da sociedade da qual faz parte (JORGE, 2005). Se esses tornam-se ofensores, motivados pela estigmatização causada pelo injusto na vítima ou mesmo, pelo esquecimento das instâncias formais do Estado, o sentimento de falta de suporte e apoio é causador de mais angústia e despertecimento da pessoa vitimada, frente àqueles que de- veriam servir de salvaguarda depois do trauma produzido pela violência social. Trata-se de um estudo de grande importância, eis que: → As análises da primeira etapa de vitimização conseguem refletir os problemas diretos do crime e da conduta dos agentes envolvidos, podendo interagir com a segurança pública em locais de maior ocorrência de crimes, e relacionar-se com técnicas de proteção para a vítima de crimes. Serve aos princípios pedagógicos e de aprendizagem, de educação e conhecimento que devem ser repassados às pessoas para que ensejem menores possibilidades ao agressor. → As análises da segunda etapa demonstram problemas gerados pelas instâncias formais de controle, ou no âmbito das investigações ou na instauração do processo penal. A banalização da vítima e o esquecimento de seus traumas passa pela falta de interesse das pessoas que levam a persecução para frente, manejando o padecente apenas como simples instrumento para a sentença final do magistrado. Nesse ponto, a carência de um efetivo acompanhamento da vítima, seja psicológico (mental), físico ou de outras serventias, alheia ainda mais a pessoa do retorno à normalidade de sua vida, mesmo em âmbito social. 1 1 → As análises da terceira etapa mostram até que ponto o crime pode causar mazelas mesmo tempos após ter sido consumado. Tratando-se de crimes que envolvam natureza sexual ou violência contra grupos hipossuficientes, como as mulheres no crescente crime de violência doméstica, há que se interpretar a influência das instâncias informais presentes na vida de cada um. O estigma que alguns fatos criminosos podem causar na vítima, e o imaginário social dos motivos e causas do crime, são capazes de afastar ainda mais o padecente das pessoas ao redor, e mesmo ainda, de não fazer chegar o ocorrido às instâncias formais de controle, por medo, vergonha e mesmo, pelo constrangimento frente ao criminoso ou a seus próprios parentes, no caso de violência doméstica. As cifras negras perfazem em uma das causas do aumento da criminalidade no país, por isso são analisadas com afinco pela criminologia. A partir da vitimologia e as etapas da vitimização podemos encontrar diversos motivos da existência das cifras negras, em nosso país. Combater esse perigoso costume é essencial para que as forças de repressão ao crime possam tratar de planos estratégicos contra atos criminosos que ocorrem usualmente contra um tipo de vítima pré-definido pelos criminosos, como as mulheres, idosos e adolescentes (SHECAÍRA, 2018). → Na terceira etapa, conhecida por vitimização terciária, há uma corrente doutrinária que entende que ela não alcança a vítima direta de crimes, mas atinge o autor. Quando o criminoso recebe uma punição maior que a devida, ou em casos de um sofrimento excessivo como a tortura ou linchamentos, ele também passa a ser vitimizado. Essa corrente não é aceita de forma ampla como as outras três relatadas (SHECAÍRA, 2018). UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 Nesse intento, promover políticas públicas de qualidadeaos problemas sofridos pelas vítimas de crimes diversos passa pelos estudos e interpretações da vitimologia. Através desses estudos, e das causas e traumas que crimes são capazes de cau- sar em suas vítimas, Mendelsohn (1973) defendia a criação de uma Vitimologia Clínica, na criação de postos médicos e hospitais que pudessem dedicar-se às questões clínicas dos pacientes que necessitassem de ajuda. Da mesma forma, defendeu a importância de Centros de Vitimologia que estariam aptos a ajudar questões que não fossem médicas, desenvolvendo o tema para assuntos econô- micos, pessoais e sociais causados pelo ato criminoso. As três fases de vitimização foram criadas por Mendelsohn em 1947, para entender a real aflição das vítimas. Entretanto, o criminólogo romeno também analisou a participação da vítima nos crimes, classificando-as com intuito de elucidar a concepção do crime e a atuação do criminoso. Vitimologia e Direito Penal Para entender melhor a vitimologia, Edmundo Oliveira observou seus estudos tratando-os através da nomenclatura de Crime Precipitado ou Programado pela vítima. Segundo o autor é pre- ciso entender a participação da vítima em crimes, tanto quanto a atuação do autor, para que exista uma correta aferição da pena. Portanto, indico o livro Vitimologia e Direito Penal – Crime Preci- pitado ou Programado pela Vítima, de Edmundo Oliveira. INDICAÇÃO DE LIVRO CLASSIFICAÇÃO DAS VÍTIMAS SEGUNDO MENDELSOHN A vitimologia interpreta que a relação ocorrida entre o criminoso e a vítima é chamada de dupla penal. Isso se deve ao fato de que não apenas o criminoso deve ser analisado, mas também as condições do crime, como participação da vítima. Para melhor exami- nar todo o contexto, Mendelsohn criou uma classificação da vítima, que com o passar do tempo foi sendo alterada pelos estudos de outros doutrinadores (JORGE, 2005). 1 4 Para Mendelsohn, existem três diferentes tipos de vítima, sendo a vítima inocente, a agressora e a provocadora. A primeira delas passa a ser considerada a vítima ideal, uma vez que não participa de forma alguma do ato criminoso, mas apenas serve de meio para um determinado fim, que seja, a exploração realizada pelo meliante. Já a vítima provocadora, é aquela cujo comportamento pode ter ocasionado o crime, e que sem sua ação, muitas vezes imprudente, o fato típico talvez não tivesse ocorrido. Por fim, a agressora possui consciência de sua participação no ato, e trabalha como coautora do próprio infortúnio. Dessa forma, Mendelsohn classificou as vítimas da seguinte forma: vítima completamente inocente, vítima menos cul- pada que o delinquente, vítima mais culpada que o delinquente e vítima como a única culpada (MOREIRA FILHO, 2006). Ao separar os tipos de vítimas, o autor continua sua classificação, vejamos: VÍTIMA COMPLETAMENTE INOCENTE Moreira Filho (2006) faz a análise da classificação do criminólogo romeno e considera esse tipo de vítima como aquela que em nenhum momento teve participação ativa no crime, sendo o criminoso o essencial motivador do delito. Pode ser considerada como vítima ideal, pois aparece em momento o qual o meliante planeja e executa seu plano contra a pessoa escolhida. Perceba que o autor do crime não escolhe aleatoriamente, mas sim aquele indivíduo que se apresenta em desatenção ao que ocorre ao seu redor, alheio aos perigos e ameaças locais presentes nas cidades. VÍTIMA MENOS CULPADA QUE O CRIMINOSO quando a vítima contribui de certa forma para que o crime ocorra, ou seja, sem sua presença ou participação não haveria o ato delituoso. Ocorre quando há a exposição da pessoa a ser vítima de forma desatenta, ostentando seus pertences de valor em locais públicos e de alta rotatividade. Outro exemplo trazido pela doutrina, é o da pes- soa que, imprudentemente, frequenta áreas de risco e locais que já são conhecidos na cidade por sua periculosidade (MOREIRA FILHO, 2006). UNIASSELVI 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 VÍTIMA TÃO CULPADA QUANTO O CRIMINOSO aqui, temos a presença da vítima provocadora, que, segundo Mendelsohn, age de forma a provocar seu próprio infortúnio, através de uma ou mais ações ativas na metodologia do crime. Exemplos desse tipo de ato criminoso podem ser encontrados no homicídio privilegiado, onde a vítima a partir de uma injusta provocação é capaz de causar o ato que termine em um crime passional (Art. 121, 1° CP). O aborto, quando a vítima tem a capacidade de consentir (Art. 124 e 126 do CP), a rixa (Art. 137 do CP) e o curandeirismo (Art. 284 do CP) são exemplos de crimes em que a vítima aparece tão culpada quanto o próprio criminoso, uma vez que sem a sua participação ativa o crime não poderia ocorrer (MOREIRA FILHO, 2006). VÍTIMA MAIS CULPADA QUE O CRIMINOSO o crime jamais teria ocorrido sem a participação da vítima, que age de forma provo- cadora e é capaz de promover o delito contra si mesma. Essa ação deve ser grave e intolerável. Lesões corporais (Art. 129 CP) e homicídios qualificados ocorrem pela injusta provocação da vítima. Acontece que aqui a promoção do crime pela vítima, que pode- mos encontrar em crimes privilegiados, como o homicídio (MOREIRA FILHO, 2006). VÍTIMA SENDO A ÚNICA CULPADA DO DELITO o próprio título já ressalta que estamos presentes às vítimas consideradas agressoras, por agirem contra elas mesmas. É o caso de algum ataque injusto desferido contra alguém, que se defende causando lesões ou até mesmo, matando a vítima. Um outro exemplo muito empregado pela doutrina, é da pessoa que se embriaga e logo após tenta atravessar uma avenida muito movimentada, sendo atropelada por um carro. Aqui, a vítima se coloca em risco diante a inúmeras situações (MOREIRA FILHO, 2006). A compreensão dos motivos que fazem com que alguém se torne vítima agora é realizada a partir dos personagens da dupla penal, em uma análise interacionista entre criminoso e vítima. A importância disso é definir o grau de culpabilidade do agressor e de responsabilidade da vítima perante ao injusto, e assim, determinar uma penalização fundada em parcimônia e justiça (MENDELSOHN, 1973). 1 1 Para Mendelsohn (1973), um fator importante para que a justiça possa ser feita em julgamentos de crimes, é a análise do papel da vítima. Entretanto, o autor não foca apenas nas vítimas da delinquência apenas, mas estende seus estudos ampliando a compreensão para fatores exógenos, ou seja, externos à vítima e ao criminoso. Dentre eles, o meio social político, no qual se encontram governos ditatoriais e genocidas e o meio motor, através do desenvolvimento tecnológico e os aparelhos e máquinas das indústrias, capazes de vitimar seus usuários, são grandes essenciais a serem consideradas. Os fatores exógenos comunicam-se também ao meio natural, seja ele modificado ou não pela presença do homem (MENDELSOHN, 1973). A pessoa pode se colocar na posição de vítima mesmo em ambientes desconhecidos, quando imprudentemente adentra alguma floresta ignorando os perigos que possam estar presentes. É nesse sentido que a vitimologia é precisa em centralizar seu enfoque para a promoção da mitigação dos perigos existentes capazes de tornar uma pessoa em vítima. A periculosidade vitimal analisada significa o comportamento inadequado e inconveniente da vítima que é capaz a facilitar a ação do ofensor, que pode ser provocado não contendo sua ação criminal, ou instigado ao crime através dos descuidos da vítima (MENDELSOHN, 1973). Nesse caso, havendo o fracasso da prevenção que é realizada através das análises dos perigos e riscos vitimais, Mendelsohn destaca a necessidade de evitar a recidiva da vítima, redu- zindo possibilidades de reincidência (KOSOVSKI, 1992). UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 CLASSIFICAÇÃO DAS VÍTIMAS SEGUNDO HANS VON HENTIG Hans Von Hentig, criminólogo alemão, em 1948, escreveu sua obra mais famosa “O criminoso e sua vítima”, apresentando sua tipologia daquilo que entende por classificação vitimal. Para muitos, é considerado um dos pais da vitimologia,e, ao lado de Mendelsohn, instruiu análises centradas nos problemas do crime (PIEDADE JÚNIOR, 1997). Hentig classifica as vítimas nos seguintes quesitos: Vítima por proximidade espacial: é aquela que, no momento em que o desvio está prestes a ocorrer, se encontra mais próxima ao agressor; Vítima familiar: um dos pontos primordiais da vitimologia, esse conceito visa estabelecer a proximidade da vítima que pertence ao mesmo núcleo familiar que o agressor; 1 8 Vítima isolada: que é aquela que vive em solidão, sem acompanhamento de outras pessoas e que em determinadas vezes pode se colocar em situações de risco devido à sua condição; Vítima com o ânimo do lucro: são aquelas que pela própria cobiça ou extrema vontade de perceber lucro podem ser ludibriadas facilmente por estelionatários e chantagistas, caindo em golpes muitas vezes. Vítima agressiva: ao sofrer agressões do autor do crime, a vítima é capaz de revidar o injusto sofrido de maneira hostil; quando a violência se torna insuportável, como o que ocorre no homicídio qualificado. Vítima ansiosa para viver: indivíduos aventureiros são capazes de se colocar em situações de risco, ao experimentar novos desafios e oportunidades de sensações, como os aventureiros. Vítima desvalorada: muitos atos praticados pela pessoa podem ser considerados atos que se contrapõe perante a sociedade; sendo considerado um desajeitado ou desviante nato pela comunidade local. Algumas atitudes então podem causar repudia da população que passa a agir contra a pessoa, tornando-a vítima. Vítima pelo estado emocional: algumas pessoas agem em decorrência de seus sentimentos mais exaltados, como a vingança ou ódio, ou mesmo, pelo medo; podendo ser vítimas de suas próprias ações contra terceiros. Vítima alcoólatra: as pessoas podem se tornar vítimas pelo uso desproporcional ou abusivo de álcool, causando crimes tipificados pelo Código Penal e recebendo contra si a justa defesa de suas vítimas, ou mesmo, causando acidentes como seu próprio atropelamento. Vítima depressiva: também existe nesse mesmo sentido a vítima suicida; colocada por Hentig no mesmo patamar, que ocorre em um alto grau de depressão e sentimentos angustiados, podendo levar o indivíduo à autodestruição. Vítima voluntária: essas não reagem à violência sofrida, não causando nenhum óbice ao criminoso. Esse é o caso de crimes sexuais que ocorrem sem violência, mas, mesmo assim, sem o consentimento da vítima, como exemplo há o estupro marital. Vítima falsa: trata-se da pessoa que se auto vítima para conseguir benefícios quaisquer. Vítima indefesa: uma das maiores causadoras das cifras negras (quando o crime não é relatado para as autoridades), não processando o autor do delito, sob a crença de que a persecução penal poderá gerar mais sofrimentos e estigmatizações. Vítima reincidente: pessoa que já passou por uma violência causada pelo crime, mas que não se torna precavida por isso, cometendo atos capazes de uma reincidência criminosa contra si. Vítima da natureza: vítimas dos fenômenos da natureza, como as enchentes ou terremotos (MOREIRA FILHO, 2006). UNIASSELVI 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 CLASSIFICAÇÃO DAS VÍTIMAS SEGUNDO LOLA ANYAR DE CASTRO A Criminologia Crítica inspirada pelo criminológico italiano Alessandro Baratta também deu sua contribuição à Vitimologia através dos estudos da penalista venezuelana Lola Anyar de Castro (1937/2015). Sua grande obra Criminologia da Libertação apresenta um pensamento criminal moderno, a partir da realidade latino-americana, em detrimento de uma criminologia fundada através da cultura, economia e tradições europeias. Em Criminologia da reação social, Anyar de Castro desenvolve estudos de vitimologia ao envolver o paradigma da reação social nas análises de desvios acontecidos nas sociedades. Nesse ponto, classifica as vítimas de crimes, a partir dos estudos feitos através da dupla penal: VÍTIMA COLETIVA são assim consideradas por fazerem parte do mesmo tipo penal, estando juntos como vítimas do mesmo ato ilícito. São exemplos desse tipo de vítimas aquelas atacadas pelo terrorismo, atiradores ou brigas generalizadas. Ao mesmo tempo, essa qualidade também se refere à categoria de vítimas naturais citadas por Hentig, em que um grande número da coletividade é capaz de sofrer através de desastres naturais como terremotos e tsunamis. VÍTIMA SINGULAR para a criminologia crítica é importante destacar o comportamento da vítima e mesmo, as ações desencadeadas pela sociedade ao redor, e como essa coletividade enxerga e define o crime. Por esse motivo, estudar a vítima simples ou singular, que é aquela escolhida pelo criminoso para seu ato passa a ser de extrema grandeza. Analisar, segundo Castro, as atitudes da vítima, é essencial também para entendermos a dinâmica do crime. 1 1 VÍTIMA DE CRIMES ALHEIOS são aquelas que Castro considera vítimas aleatórias que estavam presentes no lugar errado, ou seja, no momento da atitude dolosa do agente que escolhe sua vítima atra- vés de sua desatenção apresentada no momento da ação (CASTRO, 1983). VÍTIMA DE SI MESMA da mesma forma que Hentig e Mendelsohn, Castro evidencia as pessoas descuidadas de sua própria ação, que se transformam em vítimas ao não tomar precauções necessá- rias. Nesse sentido, também inclui pessoas depressivas ou suicidas, e doentes mentais que não conseguem distinguir a realidade subjetivamente, causando males a si mesmo. VÍTIMA QUE AGE COM CULPA CONSCIENTE, CONSCIENTE E COM DOLO primeiro, trata-se daquela pessoa que se coloca em situação de risco, embora sabendo a possibilidade de que o resultado seja seu infortúnio, acredita sinceramente ser capaz de evitá-lo, ou mesmo, de que não ocorra por motivos alheios. A vítima consciente, para Castro, é aquele agente que sabe da grande possibilidade de se tornar vítima de algum crime e mesmo assim, decide continuar com seu intento inicial. Muitos usuários de dro- gas, com intuito de amenizar seu vício, se colocam em locais de risco intenso e, na práti- ca, estão conscientes dos crimes de que estão sujeitos. Vítima com dolo significa aquela que provoca uma situação para que o delito venha a acontecer, como no caso da injusta provocação. Todos os três doutrinadores analisados apresentam sua versão da vítima que é provocadora, mas para Castro essa também pode ser vista como a vítima que causa um crime volitivo, mas acaba sendo vítima de sua própria ação, como na troca de tiros com as forças de segurança pública ou mesmo, algum acidente ocorrido em fuga empreendida com grande velocidade. Também se enquadra aquela personagem que através de um comportamento ganancioso acredita estar levando vantagem, quando na verdade é enganada pelo criminoso (CASTRO, 1983). É importante entendermos quais nomenclaturas são mais usuais e a motivação das vítimas através de um estudo mais atento sobre sua participação no ato desviante. UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 VITIMODOGMÁTICA Os estudos da vitimologia, realizados por estudiosos compenetrados, capacita- ram as análises da própria dogmática penal acerca do crime. A vitimodogmá- tica teve sua primeira aparição na Alemanha em 1990, quando a persecução penal começou a investigar o comportamento da vítima nos crimes e desvios. A discussão trouxe análises acerca da responsabilidade da vítima e de seu pade- cimento. Tudo isso enseja uma repercussão na persecução penal, mas de maior intensidade na dosimetria da pena, que considera as possibilidades diversas in- clusive, uma possível contribuição da vítima para que o crime ocorresse. Valorar o comportamento da vítima para a incidência do delito é uma das aplicações da vitimodogmática, em uma corresponsabilidade que, porventura, possua na produção do ilícito contra si. Esse autorresponsabilização é capaz de causar, em determinados crimes, a exclusão da responsabilidade do autor. Existem, segundo Silva Sànchez (2001), duas correntes na vitimodogmá- tica. A primeira delas, considerada majoritária, é fato queo comportamento da vítima precisa ser examinado apenas na sentença do juiz, ao elaborar a pena do agente causador do crime, que pode ser atenuada devido à participação da vítima. Isso está de comum acordo com o artigo 59, caput, do nosso Código Penal, que diz: Art. 59 – “O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime” (BRASIL, 2008, p. 58). A segunda vertente, minoritária, acredita que o comportamento da vítima é capaz de causar a exclusão total da responsabilidade do autor, que não receberia pena alguma em determinados casos. Entretanto, esse pensamento seria aplicado aos delitos considerados não violentos, de menor potencial ofensivo, e crimes que danifiquem no mínimo o bem jurídico tutelado. Schunemann se põe como precursor dessa corrente, que afirma que deve ser um princípio do direito penal o fato de que se deve responsabilizar a vítima e não autor do delito, quando a pessoa da vítima se afasta de todas as proteções do Estado, ou acredita que não necessita dela, e age de forma provocadora para que o crime aconteça. Para o autor, trata-se do princípio da autorresponsabilização da vítima (SCHUNEMANN, 2002). 1 1 Por outro lado, como você já sabe, a vitimologia tem outra função. Ela está centrada nas pesquisas e análises da vitimação (vitimização), na contribuição das vítimas para a ocorrência dos crimes, na reparação do dano causado e no tratamento e acompanhamento das vítimas e seus familiares. Possui o intuito de pacificar locais de risco, inflando de informações os responsáveis pelas políticas públicas, para que possam criar mecanismos de proteção e mitigação dos crimes a partir da participação, muitas vezes inocentes, das vítimas. Portanto, o objetivo da vitimodogmática é valorar o comportamento da vítima e identificar qual a sua contribuição para que o crime viesse a ocorrer, intentando a exclusão da culpabilidade ou a atenuação da pena. APROFUNDANDO Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respei- to deste tema. Vamos lá? Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EM FOCO UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 NOVOS DESAFIOS Essa é uma matéria muito envolvente, por alguns motivos bem interessantes! O primeiro deles é que se trata de um estudo considerado moderno pela crimino- logia, e que consegue atualizar todo o pensamento e conhecimento acerca dos motivos e das ocorrências de crimes e desvios, incluindo outro personagem, de grande importância: a vítima. Em segundo momento, importa interpretar o crime também pela postura e participação da vítima, muitas vezes, como vimos; provocadora e instigadora da própria desventura. O duplo penal passa a fazer parte da persecução penal, desde em sede de inquérito até o julgamento. E isso é importante para que o magis- trado da causa possa julgar com maestria, sempre em busca pelo equilíbrio, que também significa penalizar conforme os acontecimentos que geraram o ilícito. E em um terceiro plano, a criminologia agora se apresenta mais independen- te, a partir do seu movimento crítico, e consegue por intermédio da vitimologia concentrar-se em análises de qualidade acerca do movimento social causador dos desvios. Esses estudos consentem que a vítima também é parte desse mesmo movimento, tendo sua importância em todos os momentos. 1 4 1. Os temas que circundam a vítima possuem relevância primordial para a proteção do bem jurídico tutelado pelo estado, e para a busca da paz social. O movimento dos estudos vitimo- lógicos objetivam auxiliar as vítimas através da criação de programas que servem para apoio, vindo ele em forma de compensação econômica ou na amenização do sofrimento através de acompanhamento médico e psicológico. Nesse sentido, assinale a alternativa correta: a) Vitimismo é a doutrina que realça a importância da análise do comportamento e da personalidade da vítima ou no acontecimento do crime e seus reflexos na dogmática jurídico penal. b) A pessoa é capaz de se tornar vítima através de sua própria ação ou omissão apenas. c) A vitimização ocorre apenas com o fator crime. d) A vitimização não se inicia através de características dos sujeitos, mas sim pelos seus comportamentos. e) Vitimização é a análise de como a pessoa é capaz de se tornar vítima, seja por sua própria ação ou omissão; ou pela intenção de terceiros. 2. O movimento dos estudos vitimológicos objetivam auxiliar as vítimas através da criação de programas que servem para apoio, vindo ele em forma de compensação econômica ou na amenização do sofrimento através de acompanhamento médico e psicológico. Sobre a vitimização, analise as questões a seguir e assinale a alternativa correta: a) Cifra negra significa o enfoque da política criminal contra os crimes de maior potencial ofensivo, que possuem uma grande lesividade ao bem jurídico tutelado. b) Os estudos de vitimização não são capazes de refletir os problemas diretos do crime e da conduta dos agentes envolvidos. c) Por intermédio de sua fragilidade, idosos, mulheres, crianças e adolescentes também possuem o estereótipo menos qualificado para se tornarem vítimas. d) O processo de vitimização tem seu início apenas em um único delito apenas, capaz de transformar os indivíduos em vítimas. e) Vitimização é a análise de como a pessoa é capaz de se tornar vítima, seja por sua própria ação ou omissão; ou pela intenção de terceiros. AUTOATIVIDADE 1 5 3. Em toda ciência é necessário que os termos produzidos sejam de conhecimento geral dos pesquisadores e demais cientistas, portanto, precisam ser adaptados ao novo conhecimen- to, através das idiossincrasias que o objeto de pesquisa representa. Portanto, na vitimologia temos um glossário que serve para melhor entendermos seus aspectos através de termos técnicos. Quanto às nomenclaturas da vitimologia, faça a análise das alternativas a seguir e, em seguida, assinale a alternativa que reconhecer como correta: a) Vitimizável é o que pode produzir vitimação. b) Vitimal é a circunstância que caracteriza o estado ou situação de vítima. c) Vitimizador é tudo que diz respeito à compreensão dos aspectos típicos ou específicos inerentes à vítima. d) Vitimista o transtorno da pessoa que se acha punida, de uma forma ou de outra, diante da abrangência de qualquer situação. e) Vitimismo é a doutrina que realça a importância da análise do comportamento e da personalidade da vítima ou no acontecimento do crime e seus reflexos na dogmática jurídico penal. AUTOATIVIDADE 1 1 REFERÊNCIAS BAUMAN, Z . Medo Líquido . Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BERISTAIN, A . Nova Criminologia à luz do Direito Penal e da Vitimologia . Trad. Cândido Furta- do Maia Neto. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000 . BURKE, Anderson. Vitimologia: manual da vítima penal. 2ª. ed. Salvador: Editora Juspodium, 2022. BRASIL. CÓDIGO PENAL . Decreto-Lei nº 2 .848, de 7 de dezembro de 1940 . Vade mecum. São Paulo: Saraiva, 2008. CASTRO, L. A. de. Criminologia da reação social. Trad. de Ester Kosovski. Rio de Janeiro: Forense, 1983. ELIAS, N. O processo civilizador, Vol . 1. Rio de Janeiro, Zahar, 2000 . JORGE, A. P. Em busca da satisfação dos interesses da vítima penal . Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005. KOSOVSKI, E. (Coord.). Vitimologia Enfoque Interdisciplinar. Rio de Janeiro: Reproarte, 1992. MENDELSOHN, B. La victimologie et les besoins de la societe actuelle. Revue internationale de criminologie et de police technique, v. 26, n. 3, p. 267-276, jui./sep. 1973. MOREIRA FILHO, G. Criminologia & Vitimologia Aplicada . São Paulo: Editora Jurídica Brasileira, 2006. OLIVEIRA, E. Vitimologia e Direito Penal - Crime Precipitado ou Programado pela Vítima. Curi- tiba, Ed. Juruá, 2018. PENTEADO FILHO, N. S. Manual Esquemáticode Criminologia. São Paulo: Saraiva, 2012. SHECAIRA, S. S. Criminologia. 7. ed. São Paulo: RT, 2018. SCHUNEMANN, B. Sistema del derecho penal y vitimodogmática. In: RIPOLLÉS, J. L. D. (Org.) La Ciencia Del Derecho Penal Ante El Nuevo Siglo. Libro Homenaje Al Profesor Doctor Don José Cerezo Mir. Espanha: Tecnos, 2002. SILVA SÁNCHEZ, J. La consideración del comportamiento de la víctima en la teoria do delito: observaciones doctrinales y jurisprudenciales sobre la “víctimo-dogmática”. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo v. 34, p. 163-194, 2001. VIANA, E. Criminologia . 6 ed. Salvador: Juspodivm, 2018. 1 1 1. Opção E. Alternativa A é incorreta, pois vitimismo significa o transtorno da pessoa que se acha punida, de uma forma ou de outra, diante da abrangência de qualquer situação; a situação analisada pela alternativa chama-se vitimodogmática. A alternativa B é incorreta, uma vez que a pessoa pode se tornar vítima através do comportamento desviante, ou mesmo, pela intenção de terceiros. A alternativa C está errada, pois a vitimação pode ocorrer de outras formas, como em ambientes de trabalho. A alternativa D é incorreta, pois etnias, idade, sexo e condição social podem ser causa da vitimação. 2. Opão E. A está errada pois cifras negras significam crimes que ocorrem e nunca chegam ao conheci- mento das instâncias de controle por algum motivo inerente à própria vítima. B está incorreta, pois os estudos sobre a vitimização refletem as demandas sociais e os problemas diretos do crime, como a conduta do agente e da vítima. C está incorreta, porque idosos, mulheres, crianças e adolescentes fazem parte de grupos hipossuficientes, qualificados assim para tornarem-se vítimas. D está errado, pois vários são os processos de vitimização, a partir de várias possibilidades e nem sempre necessariamente precisam ser delitos, exemplo o tra- balhador que é vítima de acidente de trabalho em seu labor. 3. Opção B. A alternativa A está errada, pois o que pode produzir vitimação é considerado Vitimóge- no. Vitimizável trata-se de pessoa capaz de ser vítima. A alternativa C está errada, pois vitimizador é aquele ou aquilo que vitimiza, ocasionando sofrimento. A alternativa D está errada, pois Vitimista é o tom da inclinação para se vitimizar diante da percepção sobre o que acontece à pessoa. A alternativa E está errada, pois o vitimismo é o transtorno da pessoa que se acha punida, de uma forma ou de outra, diante da abrangência de qualquer situação. O nome da doutrina que realça a importância da análise do comportamento da vítima se chama vitimodogmática. GABARITO 1 8 MINHAS ANOTAÇÕES 1 9 UNIDADE 2 MINHAS METAS A VITIMOLOGIA NO DIREITO BRASILEIRO Entender o conceito de vítima no sistema legal nacional. Examinar a importância dos estudos da vitimologia para o direito. Interpretar a periculosidade vitimal através do Iter Victimae. Analisar as normas nacionais mais importantes que versam sobre a vítima e seus direitos. Analisar a interpretação do Código Penal sobre a vítima. Investigar a evolução dos estudos doutrinários acerca da vítima e a responsabilidade do poder judiciário frente às pessoas padecentes de crimes diversos. Analisar dispositivos que ressaltam a proteção de hipossuficientes, como a Lei Maria da Penha. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 4 8 1 INICIE SUA JORNADA Estudante, ao refletir sobre os problemas das vítimas de crimes, pensamos em como algumas delas são identificadas por seus criminosos. Podemos perceber, então, que algumas práticas abusivas contra pessoas determinadas ocorrem a partir de um sentido duplo; a presença da pessoa no lugar errado, e a vontade do autor do delito em praticá-lo. Veja, por exemplo, as vítimas de violência doméstica. O estudo da vitimologia as interpreta como mulheres, conviventes com seus maridos ou parceiros, que são capazes de sofrer amea- ças e violências, muitas vezes até extremas. Entre esse exemplo, você pode perceber que existem algumas pessoas que se colocam na situação de vítima, percebidas em locais de risco à noite ou em lugar reconhecido pela sua alta periculosidade, como no caso de usuários de drogas atrás de satisfazer seu vício. Para cada uma das vítimas analisadas há um modus operandi do autor do crime, mesmo sendo ele um delito de ocasião. A vitimologia tenta, através de suas análises, transformar as políticas públicas em prol de melhor educar o cidadão, para que sirva de auxílio pedagógico e instrucional, que minimize a possibilidade de se tornar vítima. E é por esse caminho que algumas leis foram recentemente escritas no direito brasileiro. A vitimologia consegue influenciar a criação de normas como a Lei Maria da Penha, ou mesmo a Lei dos Juizados Especiais, que busca uma célere satisfação ao dano sofrido pela vítima. Imagine se não tivéssemos estudos compenetrados nessa área, e o número de crimes contra um grupo hipossuficiente ou mesmo, escolhido pelo seu gênero como as mulheres, só aumentassem dia após dia. É obrigação de um Estado Social Democrático buscar proteger seus cidadãos mais necessitados, e cumprir com a harmonização social. Por isso, normas especiais passam a ser escritas com intuito de promover a tutela desses grupos e pessoas. O significado disso é a busca pela ampla cidadania e pela garantia da dignidade da pessoa humana. UNIASSELVI 8 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 Vamos ouvir o podcast preparado essencialmente para os estudos que faremos aqui?! Seja bem-vindo a mais um podcast, em que iremos tratar do tema da vitimo- logia, e como ela se amolda dentro das normas do Direito Penal Brasileiro. Qual a sua essência e importância? Vamos conhecer a forma qual a vítima é reconhecida pelo direito nacional, através do seu entendimento do que é vítima, e como ela pode proporcionar o acontecimento ou não do ato infracional. Isso é muito importante, pois irá desencadear lá na frente da ação penal, na dosimetria da pena realizada pelo magistrado, julgador da causa. Vamos conversar sobre tudo isso! Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. PLAY NO CONHECIMENTO VAMOS RECORDAR? A necessidade dos estudos sobre as vítimas de crimes passa a ser interpretado pela Vitimologia por intermédio da dupla penal, onde existem análises que demonstram o comportamento dos personagens envolvidos. Entretanto, um grande número de vítimas se compõe naquelas que não podem se defender da crescente violência, escolhidas muitas vezes de forma aleatória e abordadas com atos de extrema brutalidade. Para poder atender essas vítimas e ajudar a diminuir seu sofrimento através de acompanhamentos de várias especialidades, como a jurídica, física, moral e financeira, existe o Projeto Lei n° 3390/2020, que cria o Estatuto da Vítima. O projeto ainda está em trâmite na Câmara dos Deputados, tendo sido subscrito por 34 parlamentares, o que aumenta sua chance de aprovação. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. 8 4 DESENVOLVA SEU POTENCIAL Estudar a vítima é obra da doutrina da vitimologia, que é capaz de transformar o direito nacional, ao entender que essa personagem é, na maioria das vezes, es- quecida pelo poder do Estado. Somente lembrada pelo processo penal, servindo apenas para relembrar o infeliz caso sofrido, a vítima se encontrava em ostracis- mo, deixada de lado muitas vezes até mesmo pela família e amigos, dependendo do crime ocorrido. É comum, através do preconceito e da estigmatização, víti- mas de crimes contra os costumes ou crimes sexuais serem deixadas de lado por aqueles que mais deveriam ajudar (CAMPOS, 2011). E isso não pode acontecer também com o Poder Judiciário e o poder do Estado, que devem acompanhar a vítima e seus problemas através de profissionais aptos à função. Atualmente, existem duas Escolas de Vitimologia. A primeira é considerada como Vitimologia Construtivista, centradas amplamente nos estudos acerca dos direi- tos dasvítimas, e, dessa forma, nas possibilidades de encontrar um melhor cami- nho para a resolução dos problemas causados pelo crime (OLIVEIRA, 2018). A segunda escola é conhecida como Vitimologia Crítica, que visa implantar a Justiça Restaurativa, ao invés da penalização sempre quando possível. Para a Resolução n° 2002/2012, da ONU, justiça restaurativa em matéria criminal sig- nifica “qualquer processo no qual a vítima e o ofensor, e, quando apropriado, quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime, participam ativamente na resolução das questões oriundas do crime, geralmen- te com a ajuda de um facilitador” (ONU, 2002, s.p.). Consiste, portanto, na satis- fação de todos os envolvidos, ao alcançar um equilíbrio entre vítima e ofensor. ZOOM NO CONHECIMENTO ITER VICTIMAE Todo o processo capaz de converter a pessoa em vítima é conhecido como iter victimae. Significa uma trajetória analisada desde o início, até que o crime ocor- ra. Todos os passos da vítima, seus contatos realizados momentos antes do fato delitivo, por qual caminho trafegava, são parte de uma investigação que se propõe para que haja uma penalização adequada ao criminoso, e também entender a dinâmica do acontecimento, para que nunca mais ocorra (OLIVEIRA, 1999). UNIASSELVI 8 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 A partir do momento em que se percebe como possível vítima, a pessoa inicia processos de defesas, ainda que preliminares, com o intuito de que a agressão não venha a ocorrer. A trama pode tomar caminhos diferentes, consequentes da ação da vítima e do criminoso, e da verdadeira intenção do desviante (OLIVEIRA, 1999). Os resultados das avaliações do iter victimae são referência para desen- volver um completo diagnóstico do acontecimento e, assim, auxiliar o poder judiciário na composição de uma penalização em harmonia com o incidente. Por esse motivo, a Polícia Judiciária, ao instaurar o inquérito policial acerca de um crime, faz interpretações do posicionamento da vítima para melhor contribuir com o juízo julgador da futura ação penal. Como o iter victimae se trata dos caminhos percorridos pelo indivíduo até o momento em que se determina o ato vitimizante, cinco fases são construídas e estudadas para a objetivação dos fatos, e através disso, asseverar a conduta dos agentes envolvidos; são eles: FASE 1 INTUIÇÃO a intuição da vítima que se percebe em meio à reais possibilidades de atos agressivos contra si. FASE 2 ATOS PREPARATÓRIOS os atos preparatórios significam que a vítima inicia planos defensivos ou evasivos para que o crime não ocorra. 8 1 A importância dessas análises pela investigação de crimes repousa na identi- ficação do agente a ser vitimizado, bem como suas ações iniciais para evitar o crime e suas atitudes no momento que ele ocorre. Não se pode deixar excluído o ambiente externo, que faz menção ao local em que o ato se desenvolve, e todas as possibilidade de evasão do local e mesmo, de periculosidade em que se colo- cou a vítima. Portanto, para o direito brasileiro é primordial a exposição de fatos essenciais como o conhecimento (intuição) da vítima de que estaria prestes a se tornar martirizada, e qual sua compreensão da periculosidade do local onde se encontrava e da perigosidade do agente desviante (OLIVEIRA, 1999). Segundo Oliveira (2018), existem vítimas que, através de sua perigosidade vitimal, capacitam o acontecimento de delitos, como no caso de atitudes antis- sociais ou no singelo descuido do indivíduo ao desenvolver atividades (como andar) em locais reconhecidamente perigosos. FASE 3 INICIO DA EXECUÇÃO o começo da execução acontece quando o agente vitimizável exerce a mecanização de seu ato de defesa através de variáveis, como o ambiente externo onde se encontra; ou mesmo, se encontra-se em situação apoiadora ao ato criminoso, facilitando a ação e resignando-se com o ocorrido. FASE 4 EXECUTÓRIA a fase executória (execução) trata-se do comportamento vitimal no momento exato da agressão, que tanto pode ser defensivo, ao impelir o agente criminoso, ou na re- núncia de defesa propriamente dita. Aqui há o tipo penal por parte do agente delitivo sendo trazido à realidade. FASE 5 CONSUMAÇÃO a consumação ou conclusão é o ato infracional completamente consumado contra a vítima, em que se identifica os resultados que podem ser variados, dependendo da ação da vítima e criminoso (OLIVEIRA, 1999). UNIASSELVI 8 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 Isso tudo é analisado pelas investigações de crimes, para que o direito penal, através da ação penal, consiga responder de forma a encontrar um equilíbrio na satisfação da harmonia social. Periculosidade vitimal conceitua o entendimento de vítimas através de sua própria índole ou caráter. Seja provocativo, no caso de alguma injusta provocação contra o meliante, ou mesmo, pessoas que não atentam para sua segurança ao passear por locais de grande ocorrência estatística de violência. Elas passam a contribuir com o crime pela atividade desenvolvida no momento inoportuno, e que sem sua atitude o crime não teria ocorrido (OLIVEIRA, 2018). Vários usuários de drogas são acometidos pelos crimes de ocasião, que acontecem quando agentes criminosos encontram a oportunidade certa para o cometimento de algum ato criminoso, como demonstra a reportagem que você pode ler no link a seguir, onde um casal trafegava em local reconhecidamente perigoso, atrás de vendedores de drogas. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO Erin Brockovich – Uma mulher de Talento O filme Erin Brockovich – Uma mulher de Talento de 2000, com brilhante atuação da estrela Julia Roberts e direção de Steven Soderbergh, trata-se de um caso real ocorrido nos Estados Unidos. As vítimas assim se tornaram por estarem em um local onde a água passou a ser contaminada pela empresa Pacific Gas and Electric Company. Dessa maneira, a luta agora era sobre o ressarcimento do sofrimento das pessoas, que adoe- ciam e tinham seus entes familiares acometidos por doenças crônicas, causadas pela contaminação dolosa. Aqui há a ten- tativa de restaurar as mínimas condições de vida e indenizar as famílias vítimas, incluindo todo o tratamento médico dispo- nível e necessário, pagos pela empresa criminosa. Vale a pena assistir! Além da questão criminal envolvendo as vítimas, que contribuem para o entendimento daquilo que tratamos nesses estudos, é um excelente filme! INDICAÇÃO DE FILME 8 8 VÍTIMOLOGIA NO DIREITO NACIONAL Em nossos Códigos, Penais ou Processuais Penais, existem várias conotações para o significado de vítima, entretanto, nenhuma indicação real sobre o seu sentido mais latente. Desde a Parte Especial quanto a Parte Geral do Código Penal apresentam algumas nomenclaturas, como o ofendido em crimes contra a honra ou os costumes, ou o lesado em crimes contra o patrimônio, e até mesmo a própria vítima em crimes contra a pessoa. Mas é por intermédio da doutrina que temos o significado de vítima no Brasil, e que traduz a ênfase sobre qual é usada nos códigos legais do país (CARVALHO; LOBATO, 2016). Assim, não há no Código Penal ou Processual Penal qualquer definição ou conceituação do que seja vítima. Porém, percebemos sua presença em leis penais que atribuem à vítima a qualificação de um crime ou mesmo a sua exclusão, bem como a atenuação ou agravamento da pena do desviante (BITTENCOURT, 1974). Contudo, a Declaração dos Princípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas de Criminalidade da ONU, redigida e apresentada em 1985, define vítimas em um sentido mais amplo do que o formal, apresentando seu conceito que evolu- ciona o sentido dos estudos da Vitimologia e propulsiona internacionalmente seus estudos, na atenção para essa personagem se inicia nas leis promulgadas logo após a Declaração. UNIASSELVI 8 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 Nas leis brasileiras, foi com a Lei n° 9099/1995, que institucionaliza os Jui- zados Especiais no Brasil, que a noção de neutralidadeda vítima passa a ser ultrapassada, e supera-se o tempo de invisibilidade de sua infeliz participação no ato desviante (GOMES; MOLINA, 2006). No ano 2000, foi implantado, no país, o Sistema Nacional de Assistên- cia a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas, que passou a ser regulamentado pelo Decreto Lei n° 3518/2000 e a Lei n° 9807/1999, conhecida como Lei de Proteção às Testemunhas e Vítimas Ameaçadas, formavam um conjunto de normas que organizam programas de proteção à essas pessoas. Mesmo que esse acompanhamento apenas sirva àquelas pessoas ameaçadas por colaborarem com investigações, o fato é que há um início de discussões sobre a importância dos estudos sobre a vítima em nosso país (GOMES; MOLINA, 2006). O programa visa também ao combate à rede organizada de crimes, ao prote- ger testemunhas que colaboram para as investigações acerca de suas atividades. Ele está interligado de forma direta à secretária dos Estados dos Direitos Huma- nos do Ministério da Justiça, formando uma rede protecional à vítima e testemu- nha capaz de alcançar qualquer Estado da Federação (GOMES; MOLINA, 2006). Veja, por exemplo, o nosso Código de Trânsito (CTB), criado em 1997 através da Lei n° 9503. A partir dele, institui-se a multa com intuito de reparação causada ao dano patrimonial à vítima de acidentes de trânsito, um passo para a modificação do entendimento da própria norma, que agora reflete-se na busca da amenização dos problemas causados pelo ato infracional. E a instituição da previsão de multa segue preceitos constitucionais: “ Art. 5o.(...)XLVI - a lei regulará a individualização da pena e adota- rá, entre outras, as seguintes: a) privação ou restrição da liberdade; b) perda de bens; c) multa; d) prestação social alternativa; e) suspensão ou interdição de direitos (BRASIL, 2012, p. 22, grifo do autor). Em seu artigo 297, o CTB afirma que a “multa reparatória consiste no paga- mento mediante depósito judicial em favor da vítima ou de seus sucessores”, [...] entretanto, sempre que houver prejuízo material resultante do crime” (BEM, 2015, p. 121), possibilitando a indenização pelos danos causados. Mas note que se trata apenas de danos patrimoniais, sendo danos morais e consequente ato criminoso julgados em processos apartados (JORGE, 2005). 9 1 Abre-se, aqui, as oportunidades de penas alternativas e a intervenção mí- nima do direito penal, premissas básicas dos estudos da Criminologia Crítica, que entende que a pena não serve para a reinserção do condenado à sociedade, mas sim como um instrumento estigmatizador. Para Bittencourt (2012), inicia-se a possibilidade de mecanizar outros institutos dentro do direito das penas, que sejam capazes de realmente trazer harmonia a todos os lados participantes do processo, quando “a pena privativa de liberdade jamais deverá ser aplicada quan- do a pena pecuniária for suficiente à repressão” (BITTENCOURT, 2012, p. 78). O próprio Código Penal define a prestação pecuniária, dessa forma: “ Art. 45. Na aplicação da substituição prevista no artigo anterior, proceder-se-á na forma deste e dos arts. 46, 47 e 48. (Redação dada pela Lei nº 9.714, de 1998) § 1 o A prestação pecuniária consiste no pagamento em dinheiro à vítima, a seus dependentes ou a entidade pública ou privada com destinação social, de importância fixada pelo juiz, não inferior a 1 (um) salário-mínimo nem superior a 360 (trezentos e sessenta) salários-mínimos. O valor pago será deduzido do montante de eventual condenação em ação de reparação civil, se coincidentes os beneficiários (BRASIL, 2020, p. 102). Todavia, a primeira vez em que se aventou um estudo mais amplo sobre vítimas no Brasil foi com a criação da Sociedade Brasileira de Vitimologia, criada em julho de 1984 no Rio de Janeiro, por intermédio do crescente número de crimes no Estado e o interesse da Criminologia em analisar a situação das vítimas, tanto que o artigo 3º do Estatuto dessa sociedade civil organizada sem fins lucrativos determina a pesquisa e a realização de estudos para identificar os estudos da vitimologia no Brasil. I – A realização de estudos, pesquisas, seminários e congressos ligados à pesquisa vitimológica. II – Formular questões que sejam submetidas ao estudo e decisão da Assembleia Geral. III – Manter contato com outros grupos nacionais e internacionais, promovendo reuniões regionais, nacionais ou internacionais sobre aspectos relevantes da ciência penal e criminológica, no que concerne à Vitimologia (KOSOVSKI, 1990, p. 192). UNIASSELVI 9 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 A Sociedade, então, trazia, pela primeira vez, duas grandes situações: a possi- bilidade de expandir a discussão da vitimologia a partir de congressos e semi- nários e através de estudos melhorar as respostas científicas acerca do objeto de pesquisa. Isso se deve, pois, ao colocar o objeto reiteradamente em análises, também é possível que as discussões alcancem todo o rigor científico, uma vez que se apresenta em falseabilidade o tema, podendo assim manifestar um melhor conhecimento sobre todas as suas particularidades. A segunda importante situação apresentada pelo Estatuto da Sociedade Bra- sileira de Vitimologia é a manutenção de ciclos de audiências entre os estudiosos, que através de reuniões e conversações consigam apresentar “aspectos relevan- tes sobre a matéria” (KOSOVISKI, 1990, p. 192). Em 2008, a Lei n° 11.690 do mesmo ano alterou algumas disposições apre- sentadas no Código de Processo Penal, ratificando a possibilidade de ouvir a vítima de crimes e ter a sua visão dos fatos registrada no processo penal que se deslinda, dando ao artigo 201 do CPP a seguinte redação: “ Art. 201. Sempre que possível, o ofendido será qualificado e per- guntado sobre as circunstâncias da infração, quem seja ou presuma ser o seu autor, as provas que possa indicar, tomando-se por termo as suas declarações. § 2º O ofendido será comunicado dos atos processuais relativos ao ingres- so e à saída do acusado da prisão, à designação de data para audiência e à sentença e respectivos acórdãos que a mantenham ou modifiquem. § 3º As comunicações ao ofendido deverão ser feitas no endereço por ele indicado, admitindo-se, por opção do ofendido, o uso de meio eletrônico. § 4º Antes do início da audiência e durante a sua realização, será reservado espaço separado para o ofendido. § 5º Se o juiz entender necessário, poderá encaminhar o ofendi- do para atendimento multidisciplinar, especialmente nas áreas psicossocial, de assistência jurídica e de saúde, a expensas do ofensor ou do Estado. § 6º O juiz tomará as providências necessárias à preservação da in- timidade, vida privada, honra e imagem do ofendido, podendo, in- clusive, determinar o segredo de justiça em relação aos dados, depoi- mentos e outras informações constantes dos autos a seu respeito para evitar sua exposição aos meios de comunicação (BRASIL, 2022, s.p.). 9 1 Assim, o ofendido, como sujeito passivo do crime, passa a ter relevância para o processo penal ao ser ouvido sempre que possível em oitiva frente ao magis- trado. Mas perceba que a disposição presente no § 5º faz a previsão do encami- nhamento e acompanhamento da vítima em programas capazes de reabilitar e prestar assistência das mais diversas, como a judicial. Nesse sentido, é importante frisarmos o artigo 63 do Código de Processo Penal, que determina a ação reparatória em âmbito civil. Isso significa que a sentença condenatória transitada em julgada é capaz de constituir um título exe- cutivo contra o autor do delito, que em cumprimento de sentença deve adimplir com sua obrigação. Nesse caso, a execução da sentença pode se dar imediatamen- te, havendo apenas que ser determinada pelo juiz o quantum indenizatório para a satisfação da obrigação. Entretanto, é importante salientar que o direito penal toma emprestada a redação do Código Civil, em seu artigo 186, que considera que “aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano amídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. PLAY NO CONHECIMENTO VAMOS RECORDAR? Estudante, o tema que iremos desenvolver é de grande importância para os estudos dos crimes, e através da Criminologia diversos autores determinaram o significado de Vitimologia. Entretanto, em um ponto todos eles são unânimes: ao entender que quando analisamos a vítima de crimes, também nos tornamos capazes de impedir determinados atos desviantes, através da educação e de políticas públicas de qualidade. Desenvolvendo a ciência que discute e estuda as vítimas a partir de métodos empíricos, podemos entender tanto os motivos e significados de crimes diversos, quanto como preveni-los. Convido a todos a lerem o artigo a seguir, que se encontra no site do Ministério Público de São Paulo, e que serve como resumo de tudo o que iremos tratar neste estudo. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. 1 1 DESENVOLVA SEU POTENCIAL O estudo da Vitimologia interpreta-se por exemplos demonstrados na história, desde o início de um olhar mais apurado do homem aos contextos sociais mais notáveis, como o crime e o sistema penal. Através de análises desenvolvidas acerca das formações sociais e de seus problemas mais intrínsecos, referenciar po- tenciais situações de risco e que envolvam a penalização do Estado importa para uma eficaz formação de uma política pública de segurança de extrema qualidade. Por esse motivo, as análises sobre os crimes e desvios em âmbito social são realizadas pela Criminologia, e esta intenta compreender as atribulações e com- plicações que ocorrem no movimento social. Através de diagnósticos qualitativos e quantitativos, o estudo estabelece os passos mais assertivos para determinar o melhor remédio. É fato que tal solução deva vir pela vontade do Estado, quando entende as contemplações dos estudiosos da Criminologia, em forma de uma política criminal virtuosa (BARATTA, 2011). Sabe o que é Política Criminal? É o conjunto sistemático de princípios e regras através dos quais o Estado promove a luta de prevenção e repressão das infrações penais. Compreende também os meios e métodos aplicados na execução das penas e das medidas de segurança, visando o interesse social e a reinserção do infrator (DOTTI, 1999). PENSANDO JUNTOS Dessa forma, estudar Criminologia passa a se tornar, logo após o término da Se- gunda Guerra Mundial, uma vertente para os teóricos do direito, e isso vem sendo realizado até hoje. Enquanto a sociedade foi se tornando cada vez mais complexa, devidos a inúmeras situações, como o crescimento de um consumismo volátil de um lado e de outro, a grande desigualdade social; hermética também se torna a convivência dentro do turbilhão de situações que envolvem a vida nas cidades. Portanto, o estudo do que é crime e de suas vertentes comumente recebe novas nuances, como as análises mais responsáveis do que seja de fato Vitimologia. UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 Historicamente, o termo foi cunhado pela primeira vez pelo cientista romeno Benjamim Mendelsohn, em seu livro intitulado “As origens da doutrina da Viti- mologia”, em 1945, logo após ter sido vítima das violências causadas pela nefasta guerra. Perceba que os estudos passam a alterar anos de concepção criminológica, para um tema que difere das análises mais antigas e muitas delas veneradas até os dias de hoje. Os fundadores da Escola Clássica da Criminologia (Cesare Beccaria, Ludwig Feuerbach), bem como da Escola Positiva (Lombroso, Garofalo e Ferri), ocupavam seus estudos acerca do delinquente e sua periculosidade frente à socie- dade, entretanto, não situavam ou representavam o importante papel da vítima nos delitos, ocorrendo uma renovação “em termos de valoração, de pesquisas e obser- vações em torno da vítima e do fenômeno vitimal” (BITTENCOURT, 1974, p. 23). Em busca da política Falamos aqui sobre a Sociedade Complexa, uma transforma- ção advinda da globalização mundial e da expansão econô- mica, do mercado e capitalismo, que ocorreram nos últimos anos e transformou a sociedade, deixando-a mais complicada. Se você se interessou ou deseja entender mais sobre a com- plexidade da sociedade, que vive o período conhecido como Pós-Modernidade, indicamos os livros do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Como são mais de 30 obras, recomenda- mos “Em busca da política”. INDICAÇÃO DE LIVRO OS PRIMEIROS ESTUDOS DE VITIMOLOGIA Antes mesmo de Mendelsohn, é necessário interpretar os estudos acerca da Vi- timologia através da perspectiva antropológica. Esta se refere ao conceito em- preendido por toda uma coletividade para definir as suas próprias atividades. Desse modo, a própria sociedade define, através de sua cultura e interação, o que é vítima. Desde os primórdios, a vítima era escolhida a dedo. Algumas so- ciedades da antiguidade, que se desenvolveram próximas da planície de Yucatán, no México, escolhiam, dentre seus cidadãos, aqueles que deveriam ser dados em sacrifício com intuito de aplacar a ira dos deuses, ou até mesmo para que os 1 1 seres metafísicos atendessem seus pedidos (REDFIELD, 1941). Essa escolha era derivada de muitos aspectos, entre eles o local de origem e a pureza da vítima, ofertada aos deuses. Os estudos iniciais sobre o que a palavra vítima significa já indicava sua origem latina, retratando justamente a oferta que era sacrificada viva aos deuses, com intuito de obter seus favores e aplacar sua ira (ALLER, 2015). Tome como exemplo o Código de Ur-Nammu, um conjunto de normas de condutas consideradas pelos arqueólogos como um dos mais antigos já encontra- dos, datando de aproximadamente 2028 a.C. Nele, há uma inscrição em que insere a vítima em um sistema de retribuição pelo dano físico (lesão corporal) causado a outrem: “Se um homem, a outro homem, com instrumento geshpu, houve decepa- do o nariz, de dois terços de mina de prata deverá pagar” (PIEDADE, 1997, p. 24). Da mesma forma, o Código de Hamurabi, na Babilônia entre os períodos que vão de 1728 a 1686 a.C., determina, em seu artigo 209, que “se um homem livre ferir a filha de outro homem livre e, em consequência disso, lhe sobrevier um aborto, pagar-lhe-á 10 siclos de prata pelo aborto”, demonstrando a preocupação com a reparação do dano causado contra a vítima (PIEDADE, 1997, p. 27). Apocalypto Um filme bem interessante, que demonstra as vítimas escolhi- das a dedo para saciar a fome e vontade dos deuses, aplacan- do-lhes, assim, a ira e trazendo suas benesses é Apocalypto, de 2007, dirigido por Mel Gibson. Perceba que, inclusive, sol- dados derrotados eram jogados aos deuses como forma de tributos, e esses tinham um peso maior, pois tratava-se do ini- migo derrotado pela força. Depois desses, citadinos poderiam ser escolhidos, como virgens que desde o começo de suas vidas eram escolhidas para viver no templo, selecionadas a dedo pelos sacerdotes para esse fim. INDICAÇÃO DE FILME Outra perspectiva muito interessante que passa a definir a Vitimologia com o tempo, é desenvolvida ao longo da história do Direito Penal, em que determi- nadas tendências identificavam a posição da vítima pelo tempo. A primeira ten- dência é formada através do posicionamento da vítima frente ao injusto sofrido (SHECAIRA, 2004). UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 Dessa forma, seja a própria vítima ou em sua falta, seus parentes, poderiam exercer a reparação de forma privativa, contra o malfeitor. Assim, o Direito Penal dos feudos (Feudalismo do Século X a XV na Idade Média), e até mesmo o antigo Direito Romano, compunham-se em algumas semelhanças que eram caracterís- ticas dessa época da história: a autocomposição, ou a justiça com as próprias mãos. Aqui, a vítima assumiria a responsabilidade pela composição do delito, mas até a criação da Lei das Doze Tábuas pelo direito romano, a vingança particular não tinha limites. Essa época passou a ser reconhecida como a era de ouro da vítima, pelas possibilidades ilimitadasoutrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito” (BRASIL, 2002, p. 97). Isso significa que somente atos ilícitos são capazes de constituir essa obrigação ao causador do dano em sede de reparação. A ação reparatória em âmbito civil ao crime praticado é uma das grandes con- quistas das vítimas de delitos. A partir daqui, tanto vítimas quanto seus familiares podem socorrer-se do poder judiciário, com fim de alcançar uma indenização. E tudo isso é amparado pelo artigo 91 do Código Penal, que cita que: “São efeitos da condenação: I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime” (BRASIL, 2022, p. 102). UNIASSELVI 9 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 VÍTIMA E O CÓDIGO PENAL Como vimos, o Código de Processo Penal acaba por entender a participação da vítima dentro do processo, através de sua real importância, ao detalhar os aconteci- mentos e ainda, a inserção em acompanhamentos necessários para sua pronta recu- peração. Mas o Código Penal, que se refere às condutas sociais que são penalizadas através do fato típico, também versa sobre a vítima, fazendo sua presença imperiosa. Mesmo que não haja uma definição pelo Código Penal sobre a significação do que seja de fato vítima, e que isso seja feito pela doutrina, entende-se que vítima seja toda aquele agente padecedor de um ato infracional. Mas o Código Penal, escrito em 1940, passou por uma reformulação intensa em algumas situações em que necessi- tava uma maior atenção, como por exemplo, a prestação pecuniária que consta no artigo 45, realizada através de uma mudança criada pela Lei n° 9714, em 1998. O Código de Processo Penal, por sua vez, trata de situações como a oitiva e tratamento da vítima, em um acompanhamento que pode ser solicitado pelo juiz, para a recuperação do padecente, como vimos descrito no artigo 201. Entre- tanto, o Código Penal aborda o tema vítima a partir de sua participação no crime ou no ato infracional, abordando a situação na aplicação da pena. As atitudes tomadas pela vítima, no intermédio do ato danoso, passam a ser analisadas como formas de atenuação ou mesmo, de exasperação de uma sentença penal. Assim, vemos uma franca ascensão da importância da vítima dentro do direito pátrio, em uma real ressignificação de seu sentido. 9 4 Tome por exemplo o artigo 59 do CP, em seu caput: “ Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circuns- tâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime (BRASIL, 2020, p. 78). Vamos estabelecer nosso pensamento na última parte do artigo acima, na refe- rência da vítima e seu comportamento para o crime. Existem, de fato, pessoas que contribuem para que o crime aconteça, como o caso de trafegar em local ermo e amplamente sabido de sua perigosidade, de não tomar as precauções devidas e nem as atenções necessárias para evitar o crime. Há aquelas ainda capazes de instigar o ato delitivo por intermédio da provocação. Entretanto, é franco o entendimento de que a culpa concorrente da vítima para o acontecimento do crime não é capaz de eliminar a culpa do agente criminoso, que age através de uma ação volitiva, possuindo conhecimento de seus atos. Contudo, é capaz de atenuar a responsabilidade do autor do delito, sendo circunstância essencial para a aplicação da pena atenuada (BITTENCOURT, 2012). E isso está descrito no artigo 65, nas circunstâncias que sempre atenuam a pena do agente, quando sob influência de forte emoção provocada por ato injusto da vítima. Mas perceba que o legislador foi claro ao envolver uma provocação que tende a ser respondida, muito comum em crimes considerados passionais, mas em momento algum define vítimas causadoras do próprio infortúnio através de sua desatenção. A interação social entre vítima e criminoso e as possíveis causas de um crime provocado pela participação da vítima não agressiva, são obras da doutrina da vitimologia crítica, que intenta suplantar o direito penal repressivo em prol de uma justiça restaurativa, mudando a concepção de nossos operadores do direito. Entretanto, não se observa de fato a preocupação de uma definição concreta dos casos mais analisados doutrinariamente nos nossos códigos legais, o que pode ser intermediado pela concepção sociológica e antropológica nos estudos do crime, realizada pelo magistrado. E é por esse motivo que é dada grande importância aos estudos da vitimologia inserida nas interpretações do Código Penal e Processual Penal (JORGE, 2005). UNIASSELVI 9 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 A LEI MARIA DA PENHA O crescimento da violência contra a mulher em nosso país é uma triste realidade. Ela contribui estatisticamente para o aumento exponencial nos números de lesão corporal e homicídio empregados contra um único gênero. Dessa maneira, identifi- camos aqui um grupo vulnerável que nos remete às discussões sobre a desigualdade de gênero como um problema em nossa sociedade. E essa discussão vai além do direito penal e da criminologia, evocando análises multidisciplinares como a socio- logia e a antropologia, visando políticas públicas de proteção especial a esse grupo. Homenageando uma das mais importantes representantes do combate à vio- lência contra mulheres, a biofarmacêutica Maria da Penha cede seu nome para uma das mais importantes leis produzidas para pessoas consideradas hipossuficientes frente à agressão sofrida, distinguin- do-se por suas características de gênero. Por intermédio da Lei n° 11.340/2006, a Lei Maria da Pe- nha possui uma forte característica desestigmatizante de um dos crimes mais complexos no País; a violência doméstica con- tra mulheres. A proteção das vítimas é engendrada por mecanismos que visam assegurar o bem-estar da mulher em situação de risco, ao criar uma sé- rie de medidas protetivas para sua segurança. A proteção penal aqui referenciada exclusi- vamente para mulheres, definiu a violência VOCÊ SABE RESPONDER? É comum que alguns criminosos tenham o modus operandi pré-definido em determinados tipos de crimes, quando investiga a sua vítima. Dessa forma, o delito somente ocorre, pois, o criminoso encontra alguma qualidade vitimal na sua futura vítima. Nesse sentido, você consegue identificar grupos ou pessoas através dessa qualidade vitimal, ou a partir de suas características? Um exemplo: o ganancioso que muitas vezes, através de sua cobiça, torna-se vítima de algum estelionatário. 9 1 de gênero como uma das tutelas do Estado com maior previsão de penalizações contra seu autor. Anteriormente, era comum a violência doméstica estar listada como lesão corporal apenas, sem nenhum nexo à crescente estatística que já se faz presente no país há alguns anos, não reconhecendo assim a violência de gênero e a discriminação como um dos mais banais crimes (CAMPOS, 2011). Para a defesa dessa vítima em peculiar, a lei tratou de exasperar as penas aos criminosos, sendo possível a prisão preventiva do autor do delito, com abertura do consequente inquérito policial e a ação penal instaurada. Sem a lei Maria da Penha, os crimes de violência doméstica eram julgados pelos Juizados Especiais Criminais, que apesar de sua prática despenalizadora, não permitia maiores pro- teções à mulher em um crime em franca ascensão (CAMPOS, 2011). A lei também apresenta proteção à vítima como as medidas cautelares e o processo sendo julgado por órgãos especializados, os Juizados de Vio- lência Doméstica e Familiar. Os atendimentos realizados por Equipes de Atendimento Multidisciplinar, nas Delegacias das Mulheres, são prestados por profissionais especializados nas mais diversas áreas; e a própria autoridade policial deve tomar providências imediatas, quando preciso, para proteger a mulher de futuras violências. Você sabia que a Lei n° 14.188/2021, a mesma que instituiu alterações no Código Penal também criou o Programa Cooperação Sinal Vermelho?No Código Penal, essa Lei já havia alterado a redação do artigo 9, dizendo que “se a lesão for prati- cada contra a mulher, por razões da condição do sexo feminino, nos termos do § 2º-A do art. 121 deste Código, a reclusão será de de 1 (um) a 4 (quatro anos)”, sem- pre lembrando que artigo 121 também sofreu alterações agora com a imputação do feminicídio aos autores de crimes fatais contra mulheres (BRASIL, 2020, p. 172). Além disso, desenvolveu o Programa Cooperação Sinal Vermelho, que você pode analisar pela página do CNJ. O programa visa formas de proteger a mulher vítima de violência que não conse- gue oportunidades de denunciar o agressor, capacitando locais de atendimento ao público para que contem como ajuda à mulher que solicitar. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO UNIASSELVI 9 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 A LEI 9199/95 A Lei que institui os Juizados Especiais Cíveis e Criminais, Lei n° 9099/1995 é considerada uma das que mais se ocuparam da vítima, assim como a Lei Maria da Penha. Nela, a reparação do dano em prol da vítima é a busca imediata, desde o início da contenda. Aqui a vítima passa a ter toda atenção possível, e a busca pela solução do conflito de forma desburocratizada e célere, consegue trazer a pacificação social e a harmonia entre as partes também. Utilizada em conflitos de menor potencial ofensivo, a justiça consensual busca a reparação dos danos causados à vítima, da mesma forma que intenta a despenalização do autor do delito. A composição dos danos através da Lei em comento, é considerada uma evolução no direito penal, que ocorre de forma a realmente proporcionar a satisfação da vítima e de seu padecimento. 9 8 NOVOS DESAFIOS Teoria e prática se encontram nos estudos sobre as normas de direito e a vitimo- logia. Aqui apresentamos os estudos da Vitimologia, que cresce a cada dia en- quanto matéria autônoma e que apresenta suas essenciais pesquisas para o direito positivado. E ele, direito, ao se deparar com pesquisas responsáveis e diligentes, frente ao crescimento de crimes contra determinadas pessoas, deve se aprimorar. Dessa forma, nos deparamos com a infeliz estatística do desenvolvimento de algum crime que tem por escopo atingir algum grupo especificamente designado, ou mesmo, uma pessoa. Através de gênero, etnia ou mesmo, crenças, a pessoa pode ser vilipendiada por seus algozes, que já possuem um modus operandi específico para causar o prejuízo e o mal contra esses personagens. É incumbência do direito e do Estado buscar a tutela desses considerados a partir de suas idiossincrasias ou características especiais, de grupos hipossu- ficientes e pessoas em risco. Para isso a vitimologia surge com força desde o término da Segunda Grande Guerra. Através dos estudos vitimológicos as normas podem ser alteradas para um melhor alcance daqueles que delas mais necessitam. Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respei- to deste tema. Vamos lá? Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EM FOCO Dessa forma, a Lei é um grande instrumento para alcançar um modelo ideal de justiça consensual e restaurativa no país, alastrando seus conceitos para outros tipos penais em que possam ser realmente utilizados. Perceba que, atra- vés dessa norma, os estudos da Vitimologia passaram a refletir seus ideais mais significativos e ainda, mais desafiadores. UNIASSELVI 9 9 1. A Declaração dos Princípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas de Criminalidade da ONU, redigida e apresentada em 1985, que define vítimas em um sentido mais amplo do que o formal, apresentando seu conceito que evoluciona o sentido dos estudos da Vitimologia e propulsiona internacionalmente seus estudos, a atenção para essa personagem se inicia nas leis promulgadas logo após a Declaração. Dessa forma, analise o que se afirma a seguir: I - É correto afirmar que a Lei n° 9099/1995, que institucionaliza os Juizados Especiais no Brasil, que tem por âmbito tratar dos crimes de Violência Doméstica. II - O Sistema Nacional de Assistência às Vítimas e Testemunhas Ameaçadas investiga e presta assistência às vítimas de crimes violentos e passionais. III - O Código de Trânsito (CTB), criado em 1997 através da Lei n° 9503, institui a multa com intuito de reparação causada ao dano patrimonial à vítima de acidentes de trânsito. IV - O ofendido deverá ser ouvido no processo penal sempre que possível. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 2. Iter victmae se trata dos caminhos percorridos pelo indivíduo até o momento em que se determina o ato vitimizante, cinco fases são construídas e estudadas para a objetivação dos fatos e através disso, asseverar a conduta dos agentes envolvidos. Faça a análise das questões a seguir, identifique e marque a que considerar correta: a) Três são as fases constituídas para estudar o iter victimae, e entre elas encontram-se os atos preparatórios do crime. b) Iter Victimae relaciona-se em como os procedimentos de apoio e assistência à vítima serão adimplidos pelo estatal. b) Os resultados dos estudos do iter victimae servem de referência doutrinária para a in- terpretação do crime e seus deslindes, entretanto, insuficientes para o auxílio ao poder judiciário e à consequente ação penal. c) A Polícia Judiciária, ao instaurar o inquérito policial acerca de um crime, faz investigações e análises do comportamento da vítima para melhor contribuir com o juízo julgador da futura ação penal. d) O estudo do ambiente externo passa a ser realizado pela investigação policial compe- tente, não sendo atribuição dos estudos da vitimologia. AUTOATIVIDADE 1 1 1 3 O Código de Processo Penal acaba por entender a participação da vítima dentro do proces- so, através de sua real importância, ao detalhar os acontecimentos e ainda, a inserção em acompanhamentos necessários para sua pronta recuperação, mas difere do Código Penal nas análises da interpretação de vítima. Analise as alternativas a seguir e assinale a correta: a) Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar, criados pelo Código Penal, são instru- mentos importantes para a ação penal contra violência doméstica, crime em crescimento em nosso país. b) O Código Penal faz a interpretação da palavra vítima e seus significados. c) Não existem atenuantes ao crime no Código Penal, em crimes de violência contra a vida. d) O Código de Processo Penal trata de situações como a oitiva e tratamento da vítima, em um acompanhamento que pode ser solicitado pelo juiz, para a recuperação do pade- cente, descritos no artigo 201. e) O Código Penal faz seu entendimento da vítima e a analisa aplicando toda a estrutura de amparo do Estado em seu tratamento, se preciso. AUTOATIVIDADE 1 1 1 REFERÊNCIAS BEM, L. S. de. Direito Penal de Trânsito. São Paulo, Saraiva, 2015. BRASIL. Lei n° 10 .406, 10 de janeiro de 2002 . Código Civil . 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2002. BITTENCOURT. C. R. Tratado de direito penal; parte geral, 17. ed., São Paulo: Saraiva, 2012, v.1. BITTENCOURT, E. de M. Vítima . São Paulo: Editora Universitária de Direito Ltda, 1974. CAMPOS, C. H. de. Lei Maria da Penha: comentada em uma perspectiva jurídico-feminina. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011. JORGE, A. P. Em busca da satisfação dos interesses da vítima penal . Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005. GOMES L. F., MOLINA A. G. Criminologia. 5 ed., São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. 2006. ONU. CONSELHO ECONÔMICO E SOCIAL DA ONU (ECOSOC). Resolução 2002/12, de 24 de julho de 2002. Regulamenta os princípios básicos para a utilização de Programas de Justi- ça Restaurativa em Matéria Criminal. Organização das Nações Unidas: Agência da ONU para refugiados (UNCHR), E/RES/2002/12. Disponível em: http://www.unhcr.org/refworld/doci- d/46c455820.html. Acesso em: 12 out. 2023. OLIVEIRA, A.S. S. A vítima e o direito penal: uma abordagem do movimento vitimológico e de seu impacto no direito penal . São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. OLIVEIRA, E. Vitimologia e Direito Penal - Crime Precipitado ou Programado pela Vítima. Curi- tiba: Ed. Juruá, 2018. KOSOVISKI, E.; PIEDADE JUNIOR, H.; MAYR, E. Vitimologia em debate. 1. ed. Rio de Janeiro: forense, 1990. 1 1 1 1. Opção C. Não é correto o que se afirma em I, pois a Lei Maria da Penha instituiu os Juizados de Violência Doméstica e Familiar com o intuito de proteção à essa vítima em peculiar. Afirmativa II é errada, uma vez que o Sistema Nacional de Assistência às Vítimas e Testemu- nhas Ameaçadas não investiga, mas faz a proteção de vítimas e testemunhas que estejam auxiliando o poder judiciário e estão por esse motivo, sendo ameaçadas 2. Opção D. Alternativa A está errada, pois são 5 as fases de análises do iter victimae, mesmo que ainda entre elas se encontrem a fase de atos preparatórios. Alternativa B é incorreta, pois o iter victimae faz estudos sobre o acontecimento do momento do crime, ou seja, os caminhos percorridos pelos personagens até que o delito aconteça. Alternativa C é errada, pois os resultados desses estudos são capazes de melhor entender o crime, auxiliando o poder judiciário a encontrar uma melhor penalização. Alternativa E é errada, pois o iter victimae estuda os ambientes externos e as situações ao redor do acontecimento para melhor entender o fato ocorrido. 3. Opção D. Alternativa A é errada, pois os Juizados de Violência Doméstica e Familiar foram instituídos pela Lei Maria da Penha. Alternativa B está incorreta, pois o Código Penal não faz a interpretação da palavra vítima. Alternativa C é falsa, pois as atenuantes presentes no Código Penal servem para minimizar a penalização do criminoso em causa de crimes provocados pela vítima. Alternativa E é errada, pois o Código Penal não faz essa análise de forma legal, mas o magistrado da causa pode fazê-la, segundo artigo 201, § 5º do Código de Processo Penal. GABARITO 1 1 1 MINHAS METAS A INVISIBILIDADE LATENTE: A OMISSÃO ESTATAL FRENTE DETERMINADAS VÍTIMAS DE CRIMES Investigar algumas das vítimas invisíveis no Brasil. Examinar os problemas causados pela invisibilidade de alguns personagens. Instigar o estudo acerca das relações sociais no País, com tendências à desigualdade social. Analisar a desigualdade social e quais seus aspectos na causa de vítimas invisíveis. Definir a importância das análises das vítimas invisíveis para as políticas públicas vindouras. Diagnosticar os grandes problemas percebidos por algumas vítimas consideradas alheias e afastadas do poder público. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 5 1 1 4 INICIE SUA JORNADA Estudante, aqui, vamos tratar de um assunto muito interessante e que nos propor- ciona o pensar crítico em todas as situações analisadas. Passaremos a observar as vítimas invisíveis e os motivos de sua invisibilidade. Numa sociedade reconhe- cidamente desigual como o Brasil, é comum encontrarmos personagens excluí- dos ou à margem da convivência social. Muitos desses são reconhecidamente desviantes, ou outsiders. São aqueles que, invisivelmente, perambulam, muitas vezes, sem o conhecimento do poder público. Há também crimes contra essas pessoas (moradores de rua, viciados em drogas, pessoas moradoras de áreas de risco etc.), que muitas vezes, quando ocorrem, ficam no anonimato, ou seja, não há sequer uma investigação para levar à justiça o criminoso (PIOVESAN, 2009). Para uma sociedade mais segura, os crimes, principalmente contra a vida humana, devem ser esclarecidos. Uma sociedade que não pune os crimes contra o mais basilar princípio humano não consegue de fato implantar um sistema de proteção ideal ao seu cidadão (PIOVESAN, 2009). Da mesma forma, a reflexão que devemos fazer é a luta pelo adimplemento de todos os direitos fundamentais assegurados constitucionalmente para todos os brasileiros, sem exceção. As lutas travadas por nossos direitos nos deram a possibilidade de hoje termos uma Constituição que preza por seu cidadão, não devem ser deixadas esquecidas na história. Por isso, entender que pessoas podem ser vítimas da falta do Estado em suas vidas é conseguir, de forma ideal, entender as atuais preocupações da vitimologia (CASTRO,1983). Neste podcast, você irá iniciar a reflexão acerca daquelas vítimas que não fazem parte de nenhuma estatística oficial, e que, muitas vezes, permanecem esquecidas pelo poder público. Você sabia que muitos crimes no país não são solucionados, e alguns deles não chegam ao menos a ser investigados? E não se trata apenas de crimes violentos, mas também da omissão do Poder Público em garantir os direitos fundamentais do cidadão. A crescente desigualdade social é capaz de formar um exército de pessoas esquecidas, vítimas de vários crimes e, entre eles, a fome e exclusão. Vamos ao podcast!? Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. PLAY NO CONHECIMENTO UNIASSELVI 1 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 DESENVOLVA SEU POTENCIAL A Vitimologia intenta descobrir as vítimas, objetos de seus estudos e análises, onde quer que estas sejam produzidas. Seja pela exclusão social ou pelas enormes desigualdades sociais, em crescente desenvolvimento histórico em nosso país, é imprescindível identificar quem são consideradas vítimas e por qual motivo, para melhorar a tutela estatal, em todas as vias. Por esse motivo, a Vitimologia pode ser considerada uma ciência autô- noma, pois suas análises centradas em um objeto de estudos, que é falseável e posto à prova através de métodos de pesquisas sistêmicos, consegue influenciar a moldagem de projetos de políticas públicas de qualidade (CASTRO, 1983). Várias são as causas de existirem as vítimas invisíveis, mas uma das mais discutidas é a omissão do poder público frente a algumas situações vividas no âmbito social. Não se trata apenas do esquecimento, mas de uma relação que gera indiferença e alheamento de determinadas pessoas (e de seus problemas) dentro da sociedade. Nesse ínterim, para que o cidadão se torne uma vítima invisível e sendo assim considerado pela estatística, há a necessidade da omissão do Estado em suas atribuições mais primordiais (CASTRO, 1983). VAMOS RECORDAR? O estudo das vítimas invisíveis é realizado pela Vitimologia, que tenta identificar aquelas pessoas que sofreram e sofrem problemas que são consequências de crimes não resolvidos, ou causados pela omissão estatal. No vídeo do link a seguir, você pode identificar um dos maiores problemas causadores de vítimas invisíveis no Brasil, que são os crimes de homicídio que ficam sem solução. Segundo o levantamento do Instituto Sou da Paz, 70% dos casos de assassinatos não são punidos. Conheça as análises e dados de outras pesquisas referentes aos nossos estudos no site do Instituto. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. 1 1 1 Portanto, desde a desconsideração dos direitos da vítima, muitas vezes através da falta de atuação investigativa e consequente não punição ao crime, enfatizando, assim, o desrespeito ao direito da vítima, até o inadimplemento dos direitos fun- damentais, são capazes de aumentar o número de vítimas que se tornam invisíveis. Muitos crimes de homicídios não têm sua resolução em nosso país. Isso se refere, muitas vezes, à falta de interesse dos órgãos investigativos em realizar de- terminadas investigações por um lado e, por outro, as cifras negras que muitas vezes impedem o conhecimento de crimes pela autoridade policial (CASTRO, 1983). Entretanto, quando há omissão do Estado no adimplemento dos direitos sociais, considerados como direitos fundamentais no Estado Social de Direito, e se essa omissão causar a morte de alguém, então estamos conhecendo mais uma vítima invisível, que somente passa a ser assim reconhecida por estudos e análises da vitimologia. São duas as perspectivasque iremos analisar nesse ponto: a atuação estatal para a garantia dos direitos fundamentais e o seu desempenho no combate ao crime e na elucidação desses mesmos crimes. UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 VÍTIMAS INVISÍVEIS DE VIOLÊNCIA Por falta de uma investigação mais ativa e a consequente tolerância em relação à violência de gênero, no ano de 2001, o Brasil foi condenado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). A condenação se refere à omissão no caso da biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, vítima de tentativa de homicídio e de agressões capazes de causar paraplegia. A condenação pela Comissão apresentou suas considerações: “ O Estado está obrigado a investigar toda situação em que tenham sido violados os Direitos Humanos protegidos pela Convenção. Se o aparato do Estado age de maneira que tal violação fique impune e não seja resta- belecida, na medida do possível, a vítima na plenitude de seus direitos, pode-se afirmar que não cumpriu o dever de garantir às pessoas sujeitas à sua jurisdição o exercício livre e pleno de seus direitos. Isso também é válido quando se tolere que particulares ou grupos de particulares atuem livre ou impunemente em detrimento dos direitos reconhecidos na Convenção. [...] A segunda obrigação dos Estados Partes é 'garan- tir' o livre e pleno exercício dos direitos reconhecidos na Convenção a toda pessoa sujeita à sua jurisdição. Essa obrigação implica o dever dos Estados Partes de organizar todo o aparato governamental e, em geral, todas as estruturas mediante aos quais se manifesta o exercício do po- der público, de maneira que sejam capazes de assegurar juridicamente o livre e pleno exercício dos direitos humanos. Em consequência dessa obrigação, os Estados devem prevenir, investigar e punir toda violação dos direitos reconhecidos pela Convenção e, ademais, procurar o res- tabelecimento, na medida do possível, do direito conculcado e, quando for o caso, a reparação dos danos produzidos pela violação dos Direitos Humanos (PIOVESAN, 2009, p. 243). A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Ame- ricanos esclarece, assim, que países signatários e membros da OEA devem estabelecer mecanismos que viabilizem a proteção de grupos em vulnerabilidade e de pessoas em situação de risco iminente. Isso faz o país priorizar as análises sistêmicas reali- zadas pela vitimologia acerca dos dados que colaboram ao informar o crescimento dos crimes contra uma espécie de vítima muito bem definida (PIOVESAN, 2009). 1 1 8 Cinco anos após a condenação, foi criada a Lei Maria da Penha, que leva o nome de uma das vítimas desse crime atroz, levando o n° 11.340/2006. Mesmo com a ampla demora para a determinação legal, a Lei consegue engendrar pos- tos de salvaguarda para a mulher vítima de violência ou na iminência desta, na criação de delegacias especializadas para o atendimento e medidas de proteção contra o agressor, retirando-o da convivência com a vítima (CAMPOS, 2011). A vítima que se define pela condição do sexo feminino também foi enfatizada pela Lei n° 13.104/2015, que trouxe o tipo penal feminicídio, ou seja, o assassinato envolvendo violência doméstica ou menosprezo e discriminação à condição feminina. O Mapa da Violência de 2015 aponta que, no mundo todo, 33,2% dos homicídios de mulheres são cometidos pelos seus parceiros, naquilo que antes da Lei Maria da Penha era considerado crime passional gerado por problemas conjugais. Hoje, podemos perceber que as raízes desse tipo de crime são mais profundas, e se relacionam com questões ampla- mente culturais que se relacionam com o papel da mulher na sociedade, e não por problemas apenas passionais. O Mapa da Violência de 2015 apontou o Brasil na quinta posição de taxa de feminicídios no mundo, onde existiram na época 4,8 homicídios para cada 100 mil mulheres. Segundo análises, a maioria desses crimes poderiam sequer chegar ao conhecimento policial e gerar essas estatísticas, não fosse a criação de mecanismos de proteção e defesa à mulher (PIOVESAN, 2009), estaríamos diante de um número latente de vítimas invisíveis, alheias e esquecidas. O Mapa da Violência de 2015, escrito por Júlio Jacobo Waiselfisz, através da Facul- dade Latino-Americana de Ciências Sociais, demonstra, através de números esta- tísticos qualitativos, o desenvolvimento da violência de gênero, aplicando estudos complexos e que definem os maiores problemas enfrentados tantos pelas vítimas quanto pelas autoridades. Uma grande quantidade desses crimes desenvolve ví- timas invisíveis, através das cifras negras. Você pode estudar o Mapa de 2015, que foi muito bem-conceituado pelas Ciências Sociais no Brasil, aqui . Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO UNIASSELVI 1 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 Vítimas Invisíveis da Violência De Gênero Entretanto, quando falamos sobre crimes contra mulher, especificamente, podemos notar que mesmo que a Lei especializada trouxesse medidas capazes de proteger a víti- ma, a violência de gênero somente vem a crescer. Segundo o Atlas da Violência (2022), realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), todos os anos, no Brasil, estima-se que ocorram 822 mil estupros por ano e que, desse total, apenas 8,5% chegam ao conhecimento da polícia, e somente 4,2% conseguem ser identificados pelo sistema de saúde. Os dados também demonstram que mais de 80% das vítimas de estupro são mulheres, e em relação aos seus agressores são divididos em quatro grupos essenciais: parceiros e ex-parceiros, familiares e amigos conhecidos ou não. Entretanto, inexistem no país pesquisas especializadas sobre a violência sexual, pois existe um universo de vítimas que não chegam a ser determinadas, ouvidas e nem seus crimes investigados, por se tratar de vítimas invisíveis (PIOVESAN, 2009). Os números no Brasil de vítimas de estupro, em estudos realizados pelo IPEA, demonstram que são quase dois casos de estupro por minuto, onde, desse total, apenas 8,5% chegam ao conhecimento da polícia e apenas 4,2 por cento são identificados pelo sistema de saúde (IPEA, 2022, p. 6). Os dados apresentam uma taxa de atrito que indica que, em 2019, há um nú- mero de informação sobre casos de estupro que jamais chegaram ao conhecimen- to policial e nem do sistema de saúde. Significa que o crime é sabido e conhecido, e passa a ser detectado após pesquisas realizadas por instituições como o IPEA. Ao jogar esse número frente àqueles já conhecidos das polícias, no Brasil inteiro, temos um exponencial crescimento do número das cifras negras, que ocorre quando a vítima deixa de relatar um crime às autoridades. E isso pode ocorrer por diversos motivos, no caso do estupro, a vergonha e o medo são causadores de vítimas invisíveis (CAMPOS, 2011). Para o Ipea, órgão responsável pela pesquisa, é necessário investir em: “ [...] capacitação e estruturação de rotinas de notificações nos regis- tros sobre estupros no país, desde a expansão da cobertura do Sinan (mais de mil municípios não apresentam anualmente nenhuma no- tificação de violência e/ou apresentam dados divergentes de outras fontes) a processos que evitem ou minimizem erros no preenchi- mento dos dados (IPEA, 2022, p. 4). 1 1 1 “É crucial, ainda, que o Estado produza a primeira pesquisa nacional sobre violência doméstica e sexual, para balizar de forma mais efetiva as políticas públicas de enfrentamento ao problema” e, dessa forma, diminuir o número de vítimas invisíveis nesse tipo de crime no país (IPEA, 2022, p. 4). Percebe-se que os registros policiais de crimes de estupro dependem muito da bus- ca da vítima em buscar o Sistema Único de Saúde, prevalecendo, assim, a notificação do caso. Para Daniel Cerqueira, um dos pesquisadores do Atlas do Ipea, o número de casos notificados difere substancialmente da prevalência real, pois “muitas vítimas terminam por não se apresentara nenhum órgão público para registrar o crime, seja por vergonha, sentimento de culpa, ou outros fatores” (IPEA, 2022, p. 5). Vítimas Invisíveis do Estado Vamos analisar agora outros dados estatísticos que demonstram que ainda en- gatinhamos ao desvendar e a trazer para a luz alguns personagens no país que se tornam vítimas invisíveis. Algumas dessas vítimas de crimes existem pela falta de investigação em crimes que ocorrem nas cidades. Vamos começar pelos crimes de homicídio (RICARDO, 2023). ■ Homicídios no Brasil: o Instituto Sou da Paz lançou a sua quinta edição de 2022 de sua já reconhecida pesquisa “Onde mora a Impunidade”, ten- tando responder porque é importante para o país possuir um indicador nacional de esclarecimentos de homicídios. Os pesquisadores ressaltaram dados alarmantes sobre vítimas de crimes de homicídios, ressaltando que no Brasil apenas 37% dos homicídios praticados em 2019 foram resolvidos (RICARDO, 2023). Na mesma pesquisa feita em relatório anterior, o ano de 2018 apresentou 44% de crimes resolvidos, gerando, também, um alto número de vítimas invisíveis. Para a diretora executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, o sistema de segurança nacional e de justiça criminal ainda concentra seus esforços nos crimes conside- rados patrimoniais e em outros sem violência, impulsionando prisões provisórias que lotam o já saturado sistema prisional. É preciso dirigir os esforços e os investi- mentos, “sobretudo, para a investigação e esclarecimento dos crimes contra a vida, onde, de fato, mora a impunidade” (FRAGA, 2022, p. 132, grifo nosso). UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 O IPEA apresenta também que a população prisional no Brasil é de 670.714 pessoas, onde a maior parte está presa por crimes contra o patrimônio, como rou- bos e extorsão, e por crimes relacionados a drogas. Pessoas presas por homicídio representam menos de 10 por cento da população carcerária. O percentual de presos no Brasil, por tipo penal, demonstra que presos por homicídio perfazem um número de 10 por cento, presos por crimes relacionados a drogas perfazem o número de 29 por cento, e crimes contra o patrimônio perfazem o número de 40 por cento (IPEA, 2022, p. 6). Dessa forma, os estudos corroboram com muitos estudiosos e análises da Criminologia, que enfatizam que o Código Penal Brasileiro possui um viés pa- trimonialista; como bem apresentou Juarez Cirino dos Santos: “ A demonstração de que o Direito Penal protege os valores funda- mentais das sociedades contemporâneas constitui tese central da Criminologia Crítica: o Direito Penal garante a desigualdade social fundada na relação capital/trabalho assalariado das sociedades ca- pitalistas (SANTOS, 2008, p. 12). Essa construção interpretativa do peso dos crimes no Código Penal é capaz de causar vítimas invisíveis, que jamais façam parte do histórico criminal, e, dessa forma, impossível também a ação de políticas públicas e de segurança em crimes que teoricamente não existem (JORGE, 2005). 1 1 1 A pesquisa também aponta que os países das Américas Latina e Central de- têm os piores índices de investigação e esclarecimentos de crimes. Compostos por 18 países que juntos obtêm apenas 43 por cento de elucidação de homicídios, fica muito atrás dos 35 países Europeus, que possuem uma média de 92 por cento de esclarecimentos de crimes contra a vida. Esse número ainda piora em se tratando de países emergentes da África e Ásia, que detém melhor percentual nos esclarecimentos de homicídios que os países da América Latina e Central, ficando com 52 e 72 por cento de crimes esclarecidos, respectivamente. O esclarecimento de homicídios é importante por vários fatores, entre eles a prevenção de novos assassinatos, uma vez que o número de homicidas re- incidentes diminui com a prisão. Segundo a pesquisa do Instituto Sou da Paz, uma maior responsabilização dos homicidas gera também um efeito pedagógico, diminuindo as chances de um novo crime similar, além de diminuir o ímpeto dos indivíduos na sociedade através de uma possível punição. Da mesma forma, a prisão de homicidas, causada pela consequente investigação e resolução de crimes, é capaz de diminuir a vendeta e seus ciclos, muito bem definidos através da violência. Assim, o Estado cumpre com sua função de proteção ao maior bem jurídico tutelado pelo direito bem como consegue efetivar a proteção de futuras vítimas, ao esclarecer os casos fatais. ■ Vítimas invisíveis no Brasil - a desigualdade social: a grande desi- gualdade social também é causa da invisibilidade de vítimas diversas, como vítimas de doenças fatais causadas pela omissão estatal em garantir os direitos fundamentais, que acabam não fazendo parte de nenhuma estatística. Conforme o Programa Conjunto de Monitoramento da OMS e UNICEF para Saneamento e Higiene, no Brasil, 39 % das escolas não possuem infraestrutura para a lavagem das mãos. Imagine isso em tempos de pandemia do SARS-COV. O mesmo estudo aponta que 15 milhões de brasileiros que vivem em áreas urbanas não possuem acesso à água potável, aquela que é protegida de contaminações diversas. E esse número somente aumenta, quando se trata de moradores das áreas rurais, sendo 25 milhões de pessoas sem acesso à água potável (UNICEF, 2020). UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 A falta do adimplemento desse direito fundamental, contemplado em nossa Constituição, em seu artigo 6º, é causa de problemas de saúde de muitos brasi- leiros. A saúde é direito constitucional e fundamental do cidadão, que quando abandonado em suas mazelas pelo Estado, passa a ser considerado mais uma vítima, que muitas vezes, tem dragada sua energia vital por problemas de saúde causados por vários fatores, todos ligados a essa omissão. O Relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2023”, da ONU (2023), apresenta números assustadores. No mundo todo, são 735 milhões de pessoas passando fome e 2,3 milhões em situação de insegurança alimentar. Em nosso país, 21 milhões de pessoas não têm como se alimentar todos os dias e 70,3 milhões vivem em insegurança alimentar, sendo 10 milhões de pessoas desnutridas no Brasil. 1 1 4 Tomando como base os números demonstrados pelo Relatório da fome da ONU de 2023 (ONU, 2023), temos: DADO 1 Uma média aponta que, nos últimos 3 anos, que compreende o período entre 2020 e 2022, 1,5 milhões de brasileiros entraram para as estatísticas da fome, em comparação com o triênio anterior. DADO 2 No Brasil, são 10 milhões de brasileiros em desnutrição, o que se compreende por 4,7 por cento da população no país. DADO 21 milhões de pessoas, no Brasil, não se alimentam todos os dias, com frequência. Dessa forma, a possibilidade do aumento do número de vítimas invisíveis no país é grandiosa. Vítimas essas causadas pela omissão do Estado Social de Direito em adimplir com suas obrigações, e, entre elas, os direitos conquistados e positivados em nossa Constituição Cidadã, considerados fundamentais. Dessa forma, a possibilidade do aumento do número de vítimas invisíveis no país é grandiosa. Vítimas essas causadas pela omissão do Estado Social de Direito em adimplir com suas obrigações, e, entre elas, os direitos conquistados e positi- vados em nossa Constituição Cidadã, considerados fundamentais. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EM FOCO UNIASSELVI 1 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 NOVOS DESAFIOS Identificar as vítimas invisíveis é um trabalho social realizado dentro de um país que possui suas enormes mazelas, sendo que muitas delas são causadas pela enorme desigualdade social. Perceba que, na falta do Estado, ou em sua omissão em adimplir os direitos fundamentais da pessoa, a possibilidade de novas vítimas surgirem é enorme. Isso tende a acontecer e, junto com elas, o crescimento das estatísticas de mortes no país, mas que devem averiguar suas causas e identificar seus motivos, e é aí que surgem as vítimas invisíveis. Moradoresde rua, crianças famintas, residências sem acesso à água tratada, mortes violentas por conta da expansão do crime organizado, e que não são investigadas, além dos crimes que jamais chegam ao conhecimento das autoridades policiais, infligem ao Brasil um número que representa sua realidade através da violência, seja ela institucional ou criminal. Institucional, quando o Estado deixa de investigar por qualquer motivo um crime ocorrido, ou quando no adimplemento dos direitos fundamentais, como é no caso da falta de segurança pública ou do acesso ao saneamento básico. Criminal, quando, através das cifras negras, as autoridades não colhem as estatísticas reais de crimes e desvios ocorridos no país, em determinado tempo, não conseguindo realizar a proteção das pessoas, uma vez que tendem à invi- sibilidade. Isso pode ser causado, como você viu, até mesmo pela vergonha de ter sido vítima, como nos casos de estupro, ou por medo da reação alheia. Tudo isso influi em nossa realidade, e é causa dos estudos da vitimologia colorir esses pontos em branco através de sua pesquisa compenetrada. Você pode ter uma melhor noção disso, quando, após o Brasil ter sido condenado na OEA, pela falta de proteção à mulher, a Lei Maria da Penha surgiu para tutelar os direitos de quem antes vivia na invisibilidade. Por isso a importância das análises de quem são as vítimas invisíveis no país, para melhorarmos tanto as políticas públicas de inclusão e educação, quanto a política de segurança pública nacional. 1 1 1 1. Alguns dados estatísticos demonstram que ainda engatinhamos ao desvendar e a trazer para a luz alguns personagens no país que se tornam vítimas invisíveis. Algumas dessas vítimas de crimes existem pela falta de investigação em crimes que ocorrem nas cidades. Vamos começar pelos crimes de homicídio. Nesse sentido, faça a análise das alternativas a seguir e assinale a correta: a) Segundo a pesquisa do Instituto Sou da Paz, os países da América Latina saem na fren- te quanto ao quesito punição aos crimes ocorridos, possuindo os melhores índices de investigação e esclarecimentos de crimes. b) O esclarecimento de homicídios é importante por vários fatores, entre eles a prevenção de novos assassinatos, uma vez que o número de homicidas reincidentes diminui com a prisão. c) Vítimas invisíveis são aquelas que aparecem nas estatísticas da vitimologia como vítimas da cifra negra. d) A desigualdade social não é capaz de formar vítimas invisíveis, uma vez que os números das pesquisas demonstram aproximadamente a quantidade e o nível de pobreza no Brasil. e) No Brasil, a omissão do estado não é capaz de causar vítimas invisíveis, pois todas estão devidamente amparadas pelos direitos constitucionais. 2. A Vitimologia intenta descobrir as vítimas, objetos de seus estudos e análises, onde quer que estas sejam produzidas. Seja pela exclusão social ou pelas enormes desigualdades sociais, em crescente desenvolvimento histórico em nosso país, é imprescindível identificar quem são consideradas vítimas e por qual motivo, para melhorar a tutela estatal, em todas as vias. A respeito da desigualdade social e a invisibilidade, assinale a alternativa correta: a) Para que o cidadão se torne uma vítima invisível e, sendo assim, considerado pela es- tatística, há a necessidade da omissão do Estado em suas atribuições mais primordiais. b) O inadimplemento dos direitos fundamentais não se perfaz capaz de aumentar o número de vítimas invisíveis. c) A Comissão da Organização dos Estados Americanos não é capaz de influenciar países membros a melhorar sua legislação no caso de vítimas de crimes diversos. d) A omissão estatal no adimplemento das políticas públicas gera o sentido de ampla ci- dadania, e consequente, a proteção das populações mais vulneráveis. e) O mapa da violência, escrito, em 2015, pela Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais, já destacava a diminuição da violência de gênero logo após a decretação da Lei Maria da Penha. AUTOATIVIDADE 1 1 1 3. O Instituto Sou da Paz lançou a sua quinta edição de 2022 de sua já distinta pesquisa “Onde mora a Impunidade”, tentando responder porque é importante para o país possuir um indi- cador nacional de esclarecimentos de homicídios. Sobre as pesquisas empíricas realizadas no âmbito da segurança pública no país, analise as afirmativas a seguir: I - Os números demonstram que há um maior número de pessoas presas pelo cometimento dos crimes de homicídio no Brasil. II - As pesquisas apontam que os países das Américas Latina e Central detêm os piores índices de investigação e esclarecimentos de crimes. III - O crescente número de pessoas presas por homicídio no país significa que os esclare- cimentos desses crimes estão em evolução. IV - O sistema de segurança nacional e de justiça criminal ainda concentra seus esforços nos crimes considerados patrimoniais e em outros sem violência. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. AUTOATIVIDADE 1 1 8 REFERÊNCIAS CAMPOS, C. H. de. Lei Maria da Penha: comentada em uma perspectiva jurídico-feminina. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011. CASTRO, L. A. de. Criminologia da reação social. Trad. de Ester Kosovski. Rio de Janeiro: Foren- se, 1983. FRAGA, F. Apenas 37% dos homicídios no país foram esclarecidos. 2022. Disponível em: ht- tps://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2022-08/apenas-37-dos-homicidios-no-pais-fo- ram-esclarecidos Acesso em: 1 out. 2023. IPEA. Atlas da Violência, 2022. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publica- coes/242/atlas-2022-policy-brief Acesso em: 1 out. 2023. JORGE, A. P. Em busca da satisfação dos interesses da vítima penal. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005. ONU 2023. The state of food and nutrition in the world. Rome, 2023. Disponível em: https:// www.fao.org/documents/card/en/c/cc3017en Acesso em: 1 out. 2023. PIOVESAN, F. Temas de Direitos Humanos. 3 ed., São Paulo: Saraiva, 2009. RICARDO, C. Onde mora a impunidade? Porque o Brasil precisa de um Indicador Nacional de Esclarecimento de Homicídios. Instituto Sou da Paz, 2023. Disponível em: https://sou- dapaz.org/o-que-fazemos/conhecer/pesquisas/politicas-de-seguranca-publica/contro- le-de-homicidios/?show=documentos#6651-1. Acesso em: 1 out. 2023. SANTOS, J. C. dos. Direito penal: parte geral. 3. ed. Curitiba: ICPC; Lumen Juris, 2008. UNICEF. Progress on drinking water, sanitation na hygiene in schools. 2020. Disponível em: https://washdata.org/reports/highlights-progress-drinking-water-sanitation-and-hygiene- -schools-special-focus-covid-19. Acesso em: 1 out. 2023. 1 1 9 1. Opção B. A alternativa A está errada, pois os países da América Latina aparecem em um número muito baixo nos índices de investigações e esclarecimentos de crimes. A alternati- va C está errada, pois as análises da cifra negra não distinguem estatísticas de vítimas que não levam seus casos à polícia. A alternativa D está incorreta, pois a desigualdade social é uma das grandes formadoras de vítimas invisíveis no país. A alternativa E é incorreta, pois ao se omitir no adimplemento dos direitos fundamentais do cidadão, o Estado poderá estar criando vítimas invisíveis. 2. Opção A. Alternativa B é errada, pois com o inadimplemento dos direitos constitucionais há menor possibilidade de violência e de alienação da população mais carente. Alternativa C é incorreta, pois, logo após da condenação do Brasil na OEA, normas foram criadas com intuito de proteção dos mais vulneráveis. Alternativa D está errada, pois a omissão estatal causa justamente o sentido inverso, que é a condição de não cidadão nato do país, negan- do a ampla cidadania. Alternativa E é incorreta, pois o Mapa da Violência de 2015 aponta o aumento da violência de gênero. 3. Opção B. As afirmativas I e III estão erradas, pois os números demonstram um crescente números de presos provisórios por crimes patrimoniais, e a III não consideraa diminuição das análises estatísticas em evolução dos crimes de homicídios não investigados. GABARITO 1 1 1 MINHAS ANOTAÇÕES 1 1 1 MINHAS METAS DIREITOS, GARANTIAS FUNDAMENTAIS E PROTEÇÃO À VÍTIMA: MECANIZANDO A TUTELA JURÍDICA E PESSOAL Entender o significado e importância das políticas públicas para a defesa e proteção da vítima. Analisar os direitos das vítimas. Compreender como são produzidas as políticas públicas para o trato da vítima. Interpretar as mais importantes normas de direito sobre vítimas no direito nacional. Averiguar a aplicação das políticas públicas para vítimas. Estudar a legislação pertinente à vítima no direito brasileiro. Entender a real importância da legislação e das políticas públicas para a vitimologia. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 6 1 1 1 INICIE SUA JORNADA Em uma sociedade desigual, é comum a presença de personagens muitas vezes antagônicos e que, a partir da complexidade social, necessitam de maior proteção do Estado que outros. Essa convivência social deve se dar em prol da equidade e da harmonia em busca da justiça. Para que haja o empenho na real busca por essa harmonização no Estado Social de Direito, a importância do empenho de todos é crucial, mas a participação do poder público na realização de políticas públicas para esse fim é essencial e inafastável. Caso não fossem efetivadas, políticas públicas na área da saúde não haveria como adimplir com o acompanhamento das vítimas de violência doméstica, ou mesmo, vítimas ou seus parentes que precisem de uma maior atenção do ente público. E é nesse sentido que as normas e declarações internacionais passaram a ser redigidas, para instituir que normas de direitos humanos e de direitos fun- damentais sejam efetivamente cumpridas dentro dos Estados. Mas políticas públicas não podem ser feitas de qualquer forma. Elas devem respeitar alguns princípios básicos, como sua validade e eficácia, e a finalidade de sua prática social. Sem esses preceitos, considera-se a política pública vazia e sem sentido prático. Alguns pensadores do direito e da criminologia consi- deram não ser possível a proteção de grupos vulneráveis apenas através da lei incriminadora ou mesmo, de norma protetora (JORGE, 2005). Há a necessidade de um envolvimento muito maior de nossos legisladores, poder executivo e da sociedade civil que se organiza em prol da busca por direitos. Essa união é capaz de formalizar mecanismos de proteção muito mais efetivos, a partir de políticas públicas pensadas e planejadas, e consideradas pela sua real qualidade. Neste podcast, vamos conversar sobre os direitos e as garantias das vítimas de crimes, através de normas que mecanizam a assistência e o amparo. Isso é reali- zado a partir da vontade de nossos legisladores, quando tutelam direitos e passam assim a considerar o acolhimento de algum grupo ou personagem hipossuficiente em nossa sociedade. Vamos ao podcast? Recursos de mídia disponíveis no con- teúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. PLAY NO CONHECIMENTO UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 DESENVOLVA SEU POTENCIAL Algumas normas que efetivam possibilidades de defesa e acompanhamento das vítimas de crimes e desvios são instrumentos que mecanizam a resistência contra o vilipêndio dos direitos das pessoas. Tais expedientes demonstram que a socie- dade não irá tolerar o descaso para com as vítimas, da mesma forma que precisa cobrar com veemência pela realização de políticas públicas que determinem uma real e mais efetiva proteção para o direito das vítimas. DIREITO DAS VÍTIMAS Quando a Assembleia Geral, em 29 de novembro de 1985, realizada pela ONU ocorreu, ela apresentou a Resolução n° 40/34, que pela primeira vez faz a no- menclatura de vítima e eleva a importância de seus direitos. Alguns deles como o acesso à justiça, o direito à informação processual da ação que se deslinda, o direito de ter seu direito adimplido por mecanismos de mediação e conciliatórios quando possível, entre outros, instauraram uma obrigação aos países membros, pois responsabilizava seus atos no tratamento e respaldo às vítimas de crimes e desvios. Ao recolocar a vítima em posição de destaque no processo, estabelece também determinados direitos como uma conquista para a parte mais vulnerável. VAMOS RECORDAR? Para orientar nossos estudos, é sempre importante estarmos atualizados com os termos, princípios e importância dos estudos da vitimologia. Por isso, indico o vídeo a seguir, que versa sobre a Recomendação n° 101/2023 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), preconizando a inserção de temas como Direito das Vítimas e da Vitimologia como conteúdos obrigatórios dos editais de concursos públicos para o ingresso na carreira do Ministério Público. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. 1 1 4 Deve ser ressaltada a preocupação da Resolução no ressarcimento à vítima, sempre que possível. Nesse sentido, a ONU já preparava um tema que seria de grande destaque na resolução de conflitos, na intermediação extrapenal que vise o adimplemento das obrigações para com a padecente (KOSOVSKI, 1992). Assim, para a Resolução 40/34, apro- vada em Assembleia Geral (KOSOVSKI, 1992, p. 50): Para a Resolução da ONU, o conceito de vítima se torna mais amplo, a partir de suas próprias especificidades, ao entender que vítima é toda aquela que padece de violências de todos os tipos, incluindo atentado aos seus direitos fundamentais. APROFUNDANDO PONTO 1 As vítimas devem ser tratadas com compaixão e respeito pela sua dignidade. Ter direito ao acesso às instâncias judiciárias e a uma rápida reparação do prejuízo por si sofrido, de acordo com o disposto na legislação nacional. PONTO 2 Há que criar e, se necessário, reforçar mecanismos judiciários e administrativos que permitam às vítimas a obtenção de reparação através de procedimentos, oficiais ou oficiosos, que sejam rápidos, equitativos e de baixo custo e acessíveis: As vítimas de- vem ser informadas dos direitos que lhes são reconhecidos para procurar a obtenção de reparação por esses meios. UNIASSELVI 1 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 PONTO 3 A capacidade do aparelho judiciário e administrativo para responder às necessidades das vítimas deve ser melhorada: informando as vítimas da sua função e das possibili- dades de recurso abertas, das datas e da marcha dos processos e da decisão das suas causas, especialmente quando se trate de crimes graves e quando tenham pedido essas informações; permitindo que as opiniões e as preocupações das vítimas sejam apresentadas e examinadas nas fases adequadas do processo, quando os seus inte- resses pessoais estejam em causa, sem prejuízo dos direitos da defesa e no quadro do sistema de justiça penal do país; prestando às vítimas a assistência adequada ao longo de todo o processo; tomando medidas para minimizar, tanto quanto possível, as dificul- dades encontradas pelas vítimas, proteger a sua vida privada e garantir a sua segurança, bem como a da sua família e a das suas testemunhas, preservando-as de manobras de intimidação e de represálias; evitando demoras desnecessárias na resolução das causas e na execução das decisões ou sentenças que concedam indenização às vítimas. PONTO 4 Os meios extrajudiciais de solução de diferendos, incluindo a mediação, a arbitragem e as práticas de direito consuetudinário, ou as práticas autóctones de justiça, em ser utilizados, quando se revelem adequados, para facilitar a conciliação e obter a reparação em favor das vítimas (KOSOVSKI, 1992). Ainda, a obrigação de restituição ou reparação dos danos causados gerou para o direito a possibilidade de tratar casos em que o crime ou desvio se desenvolve sem grande mácula ao bem jurídico tutelado, no início de um processo de despenalização do direito, quando “os autores de crimes ou os terceiros responsáveis pelo seu comportamento, se necessário, reparar de forma equitativa o prejuízo causado às vítimas” (KOSOVSKI,1992, p. 50). Entendendo que a sanção aplicada ao autor do crime deve ser proporcional ao delito cometido, percebe-se da mesma forma, que existindo maneiras de dimi- nuir o sofrimento da vítima através da tentativa de restauração do direito, trans- forma-se em uma via muito satisfatória. A ação penal que se deslinda, deve ser justa ao acusado, mas também para a sua vítima. A recolocação da vítima no sistema da persecução penal, através do processo penal, restaura também um princípio muito importante que é o da dignidade da pessoa, tratando-a a partir de suas mazelas e respeitando sua participação não apenas no processo, mas em práticas de apoio e acompanhamento de seus problemas causados pelo crime, quando necessário (JORGE, 2005). 1 1 1 Entretanto, grande parte da doutrina entende que não há como efetivar os di- reitos e as garantias fundamentais da vítima, sem pensar na participação do Estado na formação de políticas públicas na área (JORGE, 2005). Mesmo a participação do direito penal e a tentativa de uma eventual recomposição financeira ao delito ocorrido ainda se traduz por ineficiente, quando atinge apenas um problema es- pecífico. A importância é a de colocar a vítima no lugar central, acompanhando e reprimindo a possibilidade de uma segunda vitimização (JORGE, 2005). Estando sob a égide de um Estado Democrático, que opera o Estado Social de Direito, é habitual encontrar definições que indiquem que a proteção dos direitos e garantias fundamentais do cidadão passam por uma atuação estatal a partir das políticas públicas. Entretanto, definir quais são os direitos que necessitam de um maior respaldo somente pode ser realizado por pesquisas compenetradas sobre quais políticas públicas devem ser aplicadas e em qual momento. Nesse prisma, a função política em um Estado Social é a de desenvolver o bem-estar social da coletividade, através de ações que instrumentalizem a chegada dos benefícios dos direitos sociais diversos nos locais onde devem estar presentes. Isso também significa, para o período de democracia em que vivemos, o reconhecimento da ampla cidadania da pessoa (SARLET, 2001). Em uma definição que é recorrente na área dos direitos sociais, políticas públicas perfazem-se em ações conjuntas que se somam em programas assistenciais, a partir de decisões tomadas pelos governos, visando assegurar direitos de cidada- nia para as pessoas, em especial grupos considerados vulneráveis, minorias e de população de risco (SOUZA, 2006). Possibilitar o atendimento imediato e acompa- nhamento das vítimas de quaisquer crimes, insere-se na manifestação do reco- nhecimento da ampla cidadania, pois fundamentam-se em direitos referentes à dignidade da pessoa humana (SARLET, 2012). APROFUNDANDO UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 Decisões políticas que determinam as políticas públicas também possuem sua finalidade a partir dos direitos diversos. Muitas vezes, é comum, seja por parte do orçamento do Estado, ou pela necessidade extrema e urgente de que tal direito social seja mais evidenciado que outro, acabar deixando alguns direitos das pessoas de fora. Nesse prisma, há a necessidade em questionar além da validade, a finalidade dessa ação. Quando se trata de política e assistencialismo, é importante entender o que está sendo prestigiado, e se há algum direito que está sendo vilipendiado. Aqui, há a filosofia aristotélica que determina certa influência nas decisões, pois para tomá-las, é preciso compreender a sua teleologia. Para Aristóteles, a justiça é teleológica. Significa dizer que com o intuito de definir direitos, é ne- cessário saber qual é o real objetivo desses direitos e qual a finalidade da prática social desses direitos. Mas também é preciso que se possa, através da definição de sua finalidade, compreender as virtudes e o mérito das ações tomadas (SANDEL, 2015). Assim, para que uma política social seja considerada a partir de sua utilidade e adequação, deve-se questionar primeiro sua finalidade e qual a sua virtude, através de suas ações de qualidade e quantidade. Para que seja feita escolha entre ações, por algum motivo, é preciso romper com o pensamento de que os direitos sociais, de uma forma ou outra, estão sendo resolvidos. É preciso antes entender a quem vale essas ações sociais e se realmente elas conseguem atingir os mais necessitados de sua presença e os mais carentes. Temos, assim, a finalidade e a virtude de uma boa ação política, conhecida como ação social (SANDEL, 2015). Segundo Sarlet (2012), isso não vem acontecendo. O que ocorre hodierna- mente, é a crise dos direitos fundamentais e das políticas públicas que não conseguem atender de fato as pessoas para quem elas são desenvolvidas. A opres- são socioeconômica e a moldagem de um sistema consumista em grande escala, a partir da presença dos grandes mercados e conglomerados internacionais que apenas visam ao lucro, e, com isso, ao pressionar estados a gerar possibilidades para seu intento comercial, começam a transformar também os direitos funda- mentais, tanto em países subdesenvolvidos como em países considerados desen- volvidos. Esses reflexos podem ser mais destacados na: 1 1 8 “ intensificação do processo de exclusão da cidadania, especialmente no seio das classes mais desfavorecidas, fenômeno este ligado dire- tamente ao aumento dos níveis de desemprego e subemprego, cada vez mais agudo na economia globalizada de inspiração neoliberal; b) redução e até mesmo supressão de direitos sociais prestacionais básicos (saúde, educação, previdência e assistência social), assim como o corte ou, no mínimo, a "flexibilização" dos direitos dos tra- balhadores; c) ausência ou precariedade dos instrumentos jurídicos e de instâncias oficiais ou inoficiais capazes de controlar o processo, resolvendo os litígios dele oriundos, e manter o equilíbrio social, agravando o problema da falta de efetividade dos direitos funda- mentais e da própria ordem jurídica estatal (SARLET, 2001, p. 2). A luta hodierna é buscar por direitos que, segundo Bauman (2000), acreditamos que já estão resolvidos, e, por esse motivo, os deixamos de lado. Dessa forma, tais direitos se perdem com o tempo. É nesse ponto que o direito das vítimas se encontra, se apenas o direito penal e a restituição são incapazes de tratar o assunto de forma geral, que somente pode balizado pela boa vontade de políticas públicas na área, deve-se, portanto, evidenciar os maiores problemas sofridos pelas vítimas, e que seus direitos não cessam com a restituição financeira. Políticas de educação, acompanhamento, recolocação na sociedade, após o trauma, e assistência aos familiares são tão necessárias (ou mais) quanto qualquer restituição (JORGE, 2005). O Ministério Público Federal recentemente lançou a campanha nacional Direitos da Vítima, destacando a importância de preservar vítimas de violência e educar a população para que preste auxílio sempre que possível, indicando locais ins- titucionalizados de proteção. Você pode assistir ao vídeo da campanha aqui . Da mesma forma, pode navegar pelo site e conhecer melhor as ações do MPF para as vítimas de crimes diversos. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO UNIASSELVI 1 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 DIREITO DAS VÍTIMAS NO DIREITO BRASILEIRO Com os movimentos de proteção às vítimas e a expansão dos estudos feitos por uma Vitimologia que agora é capaz de influenciar a criação de normas de amparo e identificar quais seriam as políticas públicas mais suficientes para essa causa, o direito nacional também modernizou sua forma de enxergar e tratar vítimas de crimes e desvios (JORGE, 2005). Vamos analisar as mais importantes normas nacionais que versam sobre os direitos da vítima. Algumas leis possuem determinadas especificidades quanto a tutelar alguns grupos considerados a partir de sua hipossuficiência, e outras são consideradas genéricas ao envolver qualquer categoria de vítima em seuentendimento. A importância disso se dá pelo reconhecimento do legislador e da sociedade ao redor pela proteção da vítima de crimes de desvios, tanto dis- tinguindo grupos e seus aspectos intrínsecos quanto oportunizando a concreta tutela dos direitos de todas as pessoas vítimas de violência. Como analisamos, é indispensável o reconhecimento dos direitos fundamentais da vítima, mas não apenas em sua natureza patrimonial e assistencial, mas também assegurando a garantia da sua participação em todos os âmbitos; desde judicial até as esferas administrativa e legislativa. A - O PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS (PNDH): em maio de 1996, foi criado o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), atendendo à redação do artigo 84 da Constituição de 1988, que, em seu inciso IV, ,afirma a competência do Poder Executivo em sancionar, promulgar e fazer publicar leis, expedin- do decretos para sua fiel execução. E um desses foi a criação do PNDH, considerado por muitos como uma das mais exitosas po- líticas públicas, que se desenvolveu no início da Nova República. Ela ratifica tratados internacio- nais de direitos humanos, comprometendo o Estado Brasileiro a adimplir com seus mandamentos, criando mecanismos e políticas na área. Estamos sob a égide do terceiro Plano Nacional, pois, em 1996 e em 2002, foram escritos seus antecessores, e cada qual com sua importância específica (JORGE, 2005). 1 1 1 O primeiro programa, regulamentado por Decreto n° 1.904/1996, visava à impunidade de crimes que aconteciam no país bem como a discussão acerca da penalização de criminosos no sistema carcerário, que deve sempre seguir o caráter de proporcionalidade ao ilícito cometido. Dá destaque também aos gru- pos mais vulneráveis em nossa sociedade, quando apresenta a necessidade de regulação mais intensa da proteção às crianças e adolescentes, indígenas, idosos, pessoas portadoras de deficiência e mulheres. O Decreto seguinte, sob o n° 4229, surgiu em 2002 criando o segundo Plano nacional de Direitos Humanos, e seu destaque foi a violência policial, tanto em presídios (com destaque especial ao ocorrido no Presídio do Carandiru, em 1992, com a morte de 111 detentos pela força de segurança do Estado). O plano também passou a incentivar a proteção da educação, saúde, trabalho e previ- dência social pelo Estado Social de Direito, incluindo como destaque a defesa de grupos LGBTs, como eram conhecidos na época. Os dois planos foram responsáveis pela criação do primeiro Plano de Segurança Pública Nacional, e destacavam como necessária a atuação do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Ministério Público Federal na guarda e proteção dos pontos destacados pelos Planos. Em 2009, o PNDH 3, considerado o plano atual, possuía vários eixos temáticos e, entre eles, a universalização dos direitos em contexto de desigualdade social, cres- cente no país. Em 2010, o Decreto Presidencial n° 7177/2010 atualizava o plano atual ao construir, pela primeira vez, a necessidade de tratamento multidisciplinar às vítimas de violência, em especial à violência doméstica. Versava sobre atendi- mento médico, jurídico, psicossocial, e até mesmo previdenciário para mulheres em situação de abandono, implementando um fundo especial para esse quesito. A importância da proteção do plano atual e de possíveis melhorias e atuali- zações sempre que preciso significa não apenas os direitos de vítimas de crimes e desvios, mas o direito de todas as pessoas. Todavia, essas foram as primeiras tratativas legais para a consideração do direito da vítima no Brasil, em âmbito nacional, e continua atuando. Entretanto, para que venha a se realizar de manei- ra completa e inclusiva, é preciso fazer valer o plano em toda a sua totalidade, principalmente no atendimento às vítimas e na real concretização das políticas públicas nele previstas, em carência ainda hoje em nosso país. UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 Em 2019 o Conselho Nacional do Ministério Público, instituído pelo PNDH 2, apre- sentou o Guia Prático de atuação do Ministério Público na Proteção e Amparo às Vítimas de Criminalidade. Se quiser analisar o que o guia indica para a atuação do MP em todo Brasil. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do am- biente virtual de aprendizagem. EU INDICO B - A Lei n° 9099/1990, os Juizados Especiais: os Juizados Especiais instituíram para a vítima a possibilidade de uma resolução para seus conflitos de forma mais ágil que o direito comum, seu antecessor. Agora, delitos de menor potencial ofensivo, que são considerados infrações penais, geram o direito de indeni- zação financeira e mesmo, de uma conciliação entre as partes antes mesmo do início do processo. Isso determinou a rapidez na tentativa de devolução do direito da vítima, o mais próximo possível do acontecimento ilícito, o que faz intermédio com a restituição válida e de fato eficiente. Sua desburocratização é sinônimo de ce- leridade tanto para vítima, quanto para o querelado; pois busca-se a pacificação a todo tempo processual. Um dos fatores mais importantes da Lei é justamente a possibilidade de iniciar no país, um movimento de justiça não punitiva, considerando apenas o ato criminoso ou desviante e a sua consequente penalização em forma de retribuição ao mal causado. Agora, há possibilidades sérias de conversarmos sobre justiça de restauração, na reconstrução do dano causado e na possível pacificação social por meio da renovação. Significa menos cadeias a casas de detenção lotadas, menos processos para a justiça comum precisar se debruçar e encontrar uma sentença cabível, sendo que muitos são considerados a partir de sua mínima intervenção ao bem jurídico tutelado. Um local para o julgamento dessas causas se fazia necessário, e os Jui- zados Especiais (na seara Criminal e Cível) vieram tanto para a despenalização do direito, quanto para amoldar as palavras vítima, conciliação, retribuição e pacificação social de fato. 1 1 1 C - Outras leis que garantem os direitos da vítima: a lei que interpreta a criança e adolescente como grupo em situação de vulnerabilidade e de riscos é conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n° 8069/1995), considerada outro grande marco para o direito das vítimas. Aqui, há a análise do jovem em formação intelectual e física, que não deve ser penalizado em casos de crimes ou desvios cometidos até a idade adulta. Há a aplicação de medida socioe- ducativa, mas não de uma pena privativa de liberdade. Isso representa o olhar do legislador para a condição vulnerável da criança e adolescente frente à sociedade. Também faz a análise da proteção desse grupo, que possui o direito à educação, saúde, alimentação e acompanhamento sempre que necessário, principalmente quando vítimas de algum crime. UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 Como aqui importa a proteção e a maneira qual a norma consegue adimplir e preservar os direitos das vítimas, é fundamental destacar a Lei n° 12845, de agosto de 2013, que dispõe sobre o atendimento obrigatório e integral de pessoas vítimas de violência sexual. A norma observa e comanda que hospitais tem o dever de oferecer atendimento emergencial, integral e multidisciplinar às vítimas de abuso e violência sexual. O acompanhamento deve ser o mais completo pos- sível, incluindo os serviços assistenciais aos quais a vítima poderá ser indicada, desde o amparo médico, psicológico e social de maneira imediata. Passa então a ser obrigatório essa prestação especializada pelo Sistema único de saúde (SUS), das vítimas de estupro. Há a garantia legal de todos os exames necessários para confirmar a saúde da vítima, bem como a coleta de material genético para a identificação do agressor. Assim, a norma consegue preservar os direitos funda- mentais da vítima, desde que seja cumprida à risca pelo poder público, e é aí que as políticas públicas entram, ao asseverar a condição saudável e intensa do SUS. A importante Lei n° 11340/2006, conhecidacomo Lei Maria da Penha, pas- sou a ser redigida anos após o Brasil ter sido condenado na Corte Internacional da Organização dos Estados Americanos, em 2001. Entretanto, mesmo após a condenação, a lei que reconhecia a mulher através da carência legal de proteção e acompanhamento em casos de violência, e dava-lhe possibilidades melhores de buscar acolhimento, somente veio a ser escrita em 2006. Ainda assim, a norma escrita é muito completa, trazendo inclusive delegacias especializadas para o atendimento desse público em especial. Também determina a criação dos Juiza- dos de Violência Doméstica e Familiar, que julgam os casos de violência contra a mulher, e que a partir da Lei n° 13894/2019 passa a ter competência também para as ações de divórcio, separação, anulação de casamento ou de dissolução de união estável, quando a violência estiver envolvida. 1 1 4 Leis de proteção aos povos considerados vulneráveis, como os indígenas, surgi- ram através do desenvolvimento do Estatuto do Índio, que passou a vigorar em 1973 (Lei n° 6001/1973). O estatuto determina que sejam respaldados os benefícios so- ciais e previdenciários, como a aposentadoria rural por idade e o salário maternidade, dentre outros. Grande importância revelada pela lei, é o adimplemento de norma constitucional de proteção e salvaguarda das comunidades autóctones, que possuem direitos e capacidade civil destacada pela legislação especial. O Estatuto contribui ao considerar o indígena e sua proteção como grupo hipossuficiente, que pode ser afe- tado por diversos problemas, entre eles, o garimpo ilegal de suas terras demarcadas. Outro mecanismo legal é o Estatuto do Idoso (Lei n° 10741/2003), que possui o ideal de tutelar, de maneira específica, os idosos acima de 60 anos, e es- tabelecendo direitos e medidas que sirvam de proteção. É respaldado pelo artigo 230 da Constituição de 1988, em que assevera que “a família, a sociedade e o Es- tado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida” (BRASIL, 2012, p. 186). O Ministério Público do Estado de Minas Gerais criou, no início de 2023, uma Campanha Estadual de Conscientização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa, apresentando o Estatuto da Pessoa Idosa Comentado, “Bora nos unir contra as violências?” . A Cartilha serve para auxiliar tanto na interpretação da norma quanto para divulgar seu conteúdo. Essa ação intenta a desvitimização dessa categoria de pessoas e a consequente comunicação e informação quanto aos seus direitos Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO A Cartilha do Conselho Nacional do Ministério Público possui uma atuação voltada para o enfrentamento da vitimização secundária que se instala no interior do sistema persecutório contra a vítima já padecente. Nessa linha, o sistema penal não pode desacolher a vítima de infração penal através de sua tenacidade mas deve estar pronto às construções sociais não estigmatizadoras e respeitosas: UNIASSELVI 1 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 “ A revitimização pode ser enfrentada também com base na antece- dente abordagem redutora da litigiosidade reprimida, por meio do atendimento ao público, ou melhor, da vítima e familiares de vítimas de ilícitos penais e infracionais, de modo a evitar o sentimento de desamparo e frustração de suas expectativas frente à atuação estatal inócua. O que se propõe nesse aspecto é, por meio do atendimento às vítimas, um contato direto com o membro do Ministério Público, em que oportuniza-se a possibilidade de validação de suas histórias, suas versões, desejos e anseios com relação aos órgãos incumbidos da persecução penal, sem que se perca de vista a importante missão do mapeamento dos pontos de revitimização assentados em nosso siste- ma, responsáveis imediatos pela ausência de credibilidade dos órgãos responsáveis pela persecução e crescentes taxas de subnotificação de delitos, também denominadas cifras ocultas (BRASIL, 2019, p. 35). Essa atuação visa um Ministério Público mais próximo à sociedade e cada vez mais compenetrado à realização e respaldo aos direitos fundamentais em âmbito criminal “não apenas para as garantias já insculpidas no texto constitucional direcionadas ao acusado, mas especialmente ao indivíduo que sofre em função do delito já praticado e que encontrava, até então, total desamparo dentro do sistema de persecução penal (BRASIL, 2019, p. 36)". Ainda, segundo a Cartilha do Conselho Nacional do Ministério Público, toda vítima possui o direito à informação sobre a realidade vivida pelo agente causador do crime, desde sua prisão até sua soltura, desde a conclusão do inqué- rito até a sentença penal final, entre os mais importantes citados a seguir: ■ Saber quais seus direitos após o ilícito, onde obter informações necessá- rias e que necessite depois do fato criminoso ter ocorrido, entender quais são as medidas assistenciais e quais os apoios estão disponíveis, saber quais são as etapas da investigação criminal e como se deslinda o processo penal, quais os prazos do procedimento administrativo de inquérito e onde consegue encontrar apoio jurídico necessário, como a Defensoria Pública e os núcleos jurídicos de Universidades diversas. ■ Entender o seu direito de participação em todas as fases da persecução penal e poder auxiliar no resultado final através de sua contribuição ao ser ouvida no processo, e apresentar, se considerar necessário, elementos de prova que colaborem para sua conclusão. 1 1 1 ■ Também, um de seus direitos mais importantes, é a assistência jurídica e aos es- clarecimentos técnicos sobre o direito, através do Ministério Público e de outras possibilidades assistenciais, como a Ordem dos Advogados do Brasil, Univer- sidades que prestem auxílio através de seus Núcleos de Práticas Jurídicas etc. ■ O direito ao sigilo da vítima também deve ser respeitado, para a garantia de sua segurança e a de seus familiares. É preciso, também, para evitar possíveis traumas para a vítima, que podem ocorrer mesmo no processo penal. Por isso, o artigo 201, do Código de Processo Penal, prevê que o juiz deverá tomar todas as providências que considerar necessárias para a preservação da intimidade, imagem e honra do ofendido. Ressalta-se que em uma interpretação extensiva do artigo 201 do CPP, realizada pelos operadores e doutrinadores do direito, esse posicionamento de cautela e proteção não deve ser atribuído apenas aos juízes, mas a todos aqueles que atuam na investigação e no consequente processo judicial. ■ A vítima tem o direito a um tratamento individualizado, a partir de suas mazelas e sofrimentos, com a presença de profissional que possa acom- panhá-la, na área que for necessária. Equipes multidisciplinares devem desenvolver programas e sistemas de prevenção e medidas que contri- buam para a reabilitação da vítima, assegurando o seu retorno ao âmbito social com saúde. A vítima precisa ser informada de onde poderá buscar apoio e proteção, de qualquer área especializada que necessite. ■ Possui, também, o direito a ser encaminhada à sistemas de proteção às testemunhas e seus programas institucionalizados, junto ao Programa de Proteção às Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (PROVITA), que é previsto na Lei 9807/1999. Trata-se de uma política pública de segu- rança e intervenção com intuito de assegurar os direitos fundamentais da pessoa vítima de crimes, ou testemunhas de fatos ilícitos, esse direito também deve ser prestado aos seus familiares, se preciso. Assim, vale salientar que os direitos fundamentais da pessoa, que estão constitucionalmente previstos, deram ênfase a fase de dignidades e integridades de todos os personagens sociais, incluindo os autores de crimes e desvios diversos também, pois são dotados de dignidades como todos. Não há como distinguir ou separar os direitos fundamentais, não se pode desprezá-los nemde auto compor o injusto sofrido (SHECAIRA, 2004). Entendida por Tito Lívio, o grande historiador romano (59 a.C. – Pádua, 17 d.C.), como “toda fonte do direito público e privado conhecido”, a Lei das Doze Tábuas vigorou em Roma a partir de 451 a.C., e trazia consigo uma proposta diferente para a composição do dano causado à pessoa da vítima. Aqui havia a possibilidade da substituição da auto vingança pela compensação monetária, em uma composição voluntária da lide e seus efeitos. Se antes a vítima solicitava permissão ao senhor feudal ou ao monarca para garantir seus direitos por inter- médio da violência, agora normas de direito consentiam que a ofensa tinha um valor monetário, e que deveria ser adimplida. As reações a partir desse momento pelo injusto sofrido partia da palavra do Estado romano, cumpridor das normas que ele mesmo desenvolve (SHECAIRA, 2004, p. 125). 1 4 Era o início do período Cristão que envolvia princípios vinculados pelo próprio Im- pério Romano, ao denominar a religião como sua principal fonte espiritual. Assim, os conceitos que envolviam a vítima e o autor de crimes passavam a ideia de uma responsabilidade individual pelos atos desviantes em sociedade, onde cada pessoa é responsável pelos ilícitos causados e pela deturpação do bem jurídico tutelado, e através da reparação deve indenizar o prejuízo causado. Houve, aqui, uma ruptura das áreas penal e civil, estruturando o direito ocidental hodierno. Entretanto, somente após a queda do Império Romano e o fortaleci- mento das Monarquias na Europa, frisou-se o poder do rei e a soberania dos Estados a partir do seu representante. O crime passa a ser parte do controle es- tatal, que institucionaliza as penas e a neutralização do desviante, o que ocorre mesmo em transgressões particulares; como a injúria e a calúnia, por exemplo (FOUCAULT, 2004). Toda tutela do Direito Penal tinha o monarca como man- datário, ficando a vítima num segundo plano, apenas figurando como com- provação para uma persecução penal contra o autor do delito, passando então do papel principal para o intermediário; servindo somente como elemento informador do processo instaurado pelo poder do rei. Dessa forma, por um período longo de tempo, conhecido por Idade das Trevas, o legado norteador do direito moderno apontado pelo direito romano passou a ser desconhecido, ficando na penumbra (FOUCAULT, 2004). UNIASSELVI 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 A partir daqui, cabendo toda proteção penal e penalização ao rei, eram cons- tantes as penas conhecidas por suplício, uma vez a justiça possuindo ainda suas raízes na vendeta desproporcional. A punição realizada pelo poder real seria a pior possível, e servia como instrumento pedagógico para a população, e retri- butivo para o autor do crime. Com o passar dos tempos, os protestos eram vistos pela Europa, por filósofos iluministas, políticos e magistrados contrários às penas brutais que eram aplicadas aos desvios, transformando mais uma vez na história a maneira pela qual são enxergadas as vítimas. Nesse ponto, criminosos punidos por danos causados a terceiros, passaram a ser reconhecidas como vítimas do forte e implacável poder de punição estatal. Essa sistematização de pensamentos produziu o surgimento de estudos acerca do método qual as prisões, os processos e o julgamento por parte do Estado ocor- riam. O levante contra o poder real gerou o fruto da primeira escola criminal, conhecida como Escola Clássica. Agora, o marquês milanês Cesare Beccaria (1738/1794) levantava a ban- deira da justa retribuição aos crimes, para que não transforme o criminoso em cumprimento de pena, em mais uma vítima. Entretanto, mesmo os classicistas e 1 1 os integrantes da próxima escola porvir, a Positiva (Lombroso, Ferri, Garofalo), pouco, ou quase nada, partilhavam seus estudos em referência à vítima de atos delituosos. Segundo ESER, desde sua concepção mais arcaica, o Direito Penal orienta-se pelo transgressor, “fazendo da vítima de delitos diversos também mais uma vítima da dogmática e da teoria do delito”, não participando, assim, do de- senvolvimento da finalidade da pena (ESER, 1998, p. 36). Nesse ínterim, a dogmática penal com o passar dos anos, e refletindo em legislações modernas ao redor do mundo ocidental, passou a tratar da vítima de forma prolixa, não sendo objetiva ao tratar do seu significado mais autêntico. Esses fatos levaram o estudo da Vitimologia para um segundo plano dentro das políticas criminais em Estados diversos, ficando até mesmo esquecido por tempo determinado. Analisando o histórico de Vitimologia, é importante entender qual o conceito mais aceito do que é de fato Vitimologia. É mister o entendimento de que a Viti- mologia estuda a vítima, em seus mais difusos aspectos. Para a ONU, são consi- deradas vítimas (ONU, 1985): Pessoas que individualmente ou coletivamente tenham sofrido um pre- juízo, um atentado à sua integridade física, mental ou moral, uma perda material ou um grave atentado aos seus direitos fundamentais, como consequência de atos ou de omissões de violadores das leis penais em vigor num Estado membro, incluindo as que proíbem o abuso do poder. A palavra vítima, por sua vez, é derivada do latim vincere, que significa vencido. APROFUNDANDO Para Gomes e Molina, com a transformação do Direito Penal, agora fazendo parte de matéria de ordem pública e garantido pelo Estado, é que se existe por um lado normas de conduta e penas específicas para cada tipo penal, por outro, existe o “abandono da vítima do delito”, como circunstância “incontestável manifestada em todos os âmbitos: no Direito Penal (material e processual), na Política Social e nas próprias ciências criminológicas”. Nesse sentido, “a vítima é relegada a uma posição marginal no âmbito da previsão social e do direito civil material e pro- cessual” (GOMES; MOLINA, 2010, p. 75). UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 A MANIFESTAÇÃO DOS NOVOS ESTUDOS DA VÍTIMA PELO DIREITO PENAL MODERNO Para estudarmos como a Criminologia analisa a Vitimologia, é necessário antes, entender de que forma o Direito Penal passou a reinterpretar o significado da vítima. E essa discussão teve início com o término da Segunda Guerra Mundial e a presença de alguns estudiosos que criticavam os motivos das atrocidades cau- sadas pelos homens. É de Hannah Arendt o questionamento de como o homem, envolto em uma ascensão tecnológica e de pensamentos, consegue se envolver da mesma forma, em guerras mortais (ARENDT,1998). Após essa involução, origi- nou-se um estudo mais pormenorizado da vítima e sua representação, tanto pela doutrina penal, quanto pelo próprio direito das penas (SILVA SÁNCHEZ, 2001). O movimento crítico que surgia na Europa, com a Escola dos Annales, com Marc Bloch e Lucien Febvre, capturava a centelha de uma reforma através da crítica e de métodos científicos, do conhecimento da época. Marc Bloch (1886-1944) foi um dos idealizadores da Escola dos Annales, junto de Lucien Febvre. Tratava-se de uma mudança de postura do pesquisador e cientista, que precisava enxergar os estudos sociais através de várias lentes, como por exemplo, da sociologia, da história, economia, antropologia etc. Fun- dadores da teoria crítica, causaram uma ruptura com o estudo realizado na época, que agora multifacetado por diferentes áreas do conhecimento, tinha mais substância e ao mesmo tempo, mais responsabilidades. Bloch foi morto pela Gestapo, em 1944. Ao analisar as vítimas da guerra, Benjamin Mendelsohn abria para o sistema penal o ressigni- ficado da vítima. Agora não mais interessavam as análises etimológicas somente, mas estudos sociais, psicológicos, econômicos, morais, intelectuais da víti- ma, como respaldou a Escola dos Annales. No meio de todo esse movimento, o Direito Penal do pós-guerra passa a abarcar uma concepção mais con- temporânea para o significado de vítima, avaliando-a por 1 8 dois juízos: o primeiro de natureza disciplinar, ponderando o comportamento da vítimaos alienar, negá-los ou mesmo de desistir deles (SARLET, 2012). UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 Portanto, o trabalho agora é a união de todos: sociedade, políticos, poder judiciá- rio e polícias; para melhorar mais ainda a busca por direitos e a condição sempre premente da promoção humana. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EM FOCO NOVOS DESAFIOS Podemos perceber que as legislações existem de forma a contemplar os direitos das vítimas de crimes. No entanto, a aplicação de muitas dessas normas depende da boa vontade de nossos governantes na garantia de que políticas públicas possam ser efeti- vadas para esse intuito. Como vimos, Declarações Internacionais no sentido de prote- ção e resguardo dos direitos humanos e fundamentais das vítimas foram positivadas, considerando que seus países signatários sigam aquilo que foi planejado e estipulado. Assim, há a necessidade de que nossos legisladores estejam sempre atentos aos pro- blemas sociais mais diversos, como a desigualdade social em amplo crescimento no Brasil, as vítimas escolhidas como mulheres em violência doméstica, e crianças na cooptação feita pelo tráfico de drogas em lugares de risco. Mas não menos que isso, há a necessária participação do poder executivo, no adimplemento de políticas públicas que possam acompanhar de fato os problemas advindos da violência. Através de ações afirmativas e políticas no sentido de inclusão, educação e proteção é que se pode dar ênfase aos direitos fundamentais da pessoa. Vale lembrar que o tempo em que se referia à cidadania como aspecto especial para votar e ser votado já deixou de existir, sendo esse considerado um termo mais complexo, aviltando a ampla cidadania; que significa ter os seus direitos fundamentais respeitados pelo Estado Social de Direito. Por esse motivo, entende-se que a aplicação de normas que deem sentido real e determinado para a ação de salvaguarda das vítimas, somente podem ser de fato cumpridas a partir das políticas públicas de qualidade. E a sociedade civil organizada pode e deve participar dessas ações, realizando as cobranças sempre que preciso, observando, avaliando e supervisionando a atuação de nossos polí- ticos na efetivação dos direitos de todos. 1 1 8 1. Com os movimentos de proteção às vítimas e a expansão dos estudos feitos por uma Viti- mologia, que agora é capaz de influenciar a criação de normas de amparo e identificar quais seriam as políticas públicas mais suficientes para essa causa, o direito nacional também modernizou sua forma de enxergar e tratar vítimas de crimes e desvios. Sobre o direito das vítimas em nossas bases legais, assinale a alternativa que considerar correta: a) Por não se fazer necessária a participação da vítima na realização das políticas públicas multidisciplinares, essa fica apenas condicionada a informar o que é preciso em sede de investigação policial e de ação penal. b) O Poder Executivo não possui competência para sancionar, promulgar e fazer publicar leis, por esse motivo, também é incapaz de expedir decretos que visem a execução de leis e normas de segurança e atendimento às vítimas de crimes diversos. c) Um dos grandes problemas em nosso país é a falta de comprometimento para com os tratados internacionais de direitos humanos. d) Não existem leis genéricas a respeito das vítimas, classificando-as todas em uma análise conjunta a partir de sua generalidade objetiva. e) É indispensável o reconhecimento dos direitos fundamentais da vítima, mas não ape- nas em sua natureza patrimonial e assistencial, mas também assegurando a garantia da sua participação em todos os âmbitos; desde judicial até as esferas administrativa e legislativa. 2. Em maio de 1996 foi criado o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), atendendo à redação do artigo 84 da Constituição de 1988, que em seu inciso IV afirma a competência do Poder Executivo em sancionar, promulgar e fazer publicar leis, expedindo decretos para sua fiel execução. Sobre o PNDH, assinale a alternativa que considerar correta: a) A falta de programas de direitos humanos cessou com o atual Programa Nacional de Direitos Humanos tardiamente, escrito somente em 2009. b) A criação do PNDH, considerado por muitos como uma das mais exitosas políticas pú- blicas, que se desenvolveu no início da Nova República, não foi capaz de ratificar os tratados internacionais sobre a dignidade da pessoa humana. c) Dos cinco Programas escritos até hoje, somente o terceiro se envolveu com problemas acerca da violência policial, bem como no direito a uma sanção adequada ao crime cometido. d) Os dois planos foram responsáveis pela criação do primeiro Plano de Segurança Pública Nacional, e destacavam como necessária a atuação do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Ministério Público Federal. e) Os primeiros planos não destacavam o problema da impunidade no país, podendo por esse prisma ser considerados planos indigentes. AUTOATIVIDADE 1 1 9 3. A Cartilha do Conselho Nacional do Ministério Público possui uma atuação voltada ao en- frentamento da vitimização secundária que se instala no interior do sistema persecutório contra a vítima já padecente. Sobre a Cartilha do Conselho Nacional do Ministério Público, analise as afirmativas a seguir: I - O Ministério Público, mesmo que não possua envolvimento direto com as vítimas de crimes e desvios diversos, criou uma Cartilha versando sobre os direitos das vítimas. II - Um dos pontos não destacados pela Cartilha do Ministério Público é o enfrentamento da vitimização secundária que se instala no interior do sistema persecutório contra a vítima. III - O sistema penal não pode desacolher a vítima de infração penal através de sua tenaci- dade, mas deve estar pronto às construções sociais não estigmatizadoras e respeitosas. IV - A Cartilha e sua atuação visam um Ministério Público mais próximo à sociedade e cada vez mais compenetrado à realização e respaldo aos direitos fundamentais em âmbito criminal. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. AUTOATIVIDADE 1 4 1 REFERÊNCIAS BAUMAN, Z. Em Busca da Política. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. BITTENCOURT, E. de M. Vítima. São Paulo: Editora Universitária de Direito Ltda, 1974. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Vade Mecum Saraiva. 13. ed. São Pau- lo: Saraiva, 2012. BRASIL. Conselho Nacional do Ministério Público. Guia prático de atuação do Ministério Público na proteção e amparo às vítimas de criminalidade. Brasília: CNMP, 2019. JORGE, A. P. Em busca da satisfação dos interesses da vítima penal. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005. MPEP. Cartilha dos direitos da vítima. 2021. Piauí. Disponível em: https://www.mppi.mp.br/in- ternet/wp-content/uploads/2021/08/CARTILHA-DIREITOS-DAS-VI%CC%81TIMAS.pdf Acesso em: 1 nov. 2023. SANDEL, M. Justiça . O que é fazer a coisa certa. 17. ed. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2015. SARLET, I. G. Os Direitos Fundamentais na Constituição de 1988. Revista Diálogo Jurídico, Salvador, v. n. abr. 2001. SARLET, I. W. A eficácia dos direitos fundamentais: uma teoria geral dos direitos fundamentais na perspectiva constitucional. 11. ed. rev. atual. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2012. SOUZA, C. Políticas públicas: uma revisão da literatura. Sociologia, Porto Alegre, n.16, 2006. KOSOVSKI, E. (Coord.). Vitimologia: Enfoque Interdisciplinar. Rio de Janeiro: Reproarte, 1992. 1 4 1 1. Opção E. A está incorreta, uma vez que a participação da vítima inclusive na realização e composição das políticas públicas e em todo o processo legislativo é essencial. B está erra- da, pois o artigo 84, da Constituição Federal de 1988, diz exatamente o contrário, possuindo o Poder Executivo a competência para analisar e fazer valer políticas públicas e publicar decretos para sua composição e seu andamento saudável. C está errada,pois o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH) brasileiro ratifica o comprometimento do país acerca do adimplemento dos tratados internacionais de direitos humanos. D é incorreta, porque existem tanto leis mais genéricas sobre a vitimação, quanto normas especiais tutelando apenas algum grupo específico, como o Estatuto da Criança e Adolescente, por exemplo. 2. Opção D. A está errada pois o primeiro PNDH foi escrito em 1996, sendo o ponto inicial de outros dois planos nacionais que ainda viriam. B é incorreta pois desde o primeiro plano a intenção era a ratificação dos acordos e tratados internacionais de entidades das quais o Brasil faz parte, como a ONU e a OEA. C é errada, uma vez que dos três programas realiza- dos, tanto o segundo quanto o terceiro visam a diminuição e combate da violência policial. E está incorreta pois tanto o primeiro quanto o segundo plano destacavam o problema da impunidade no país. 3. Opção C. A afirmativa I está errada, pois o Ministério público se envolve diretamente com a vítima de crimes, sendo seu representante na ação penal incondicionada. A afirmativa II está errada, pois o enfrentamento da vitimização secundária é um dos pontos de destaque da Cartilha Nacional do Ministério Público. GABARITO 1 4 1 MINHAS ANOTAÇÕES 1 4 1 UNIDADE 3 MINHAS METAS A JUSTIÇA RETRIBUTIVA E A JUSTIÇA RESTAURATIVA Analisar o surgimento dos tipos de formas de justiça. Interpretar a diferença entre as duas justiças: a retributiva e a restaurativa. Examinar a contribuição da justiça retributiva para o direito penal e sociedade. Examinar a contribuição da justiça restaurativa para o direito e para a sociedade. Diagnosticar os dois estilos de justiça e qual é a mais inclusiva para as vítimas de delitos, autor e sociedade ao redor. Definir a importância dos estudos das formas de se fazer justiça através do direito mais inclusivo. Analisar historicamente os diferentes conceitos. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 7 1 4 1 INICIE SUA JORNADA A justiça retributiva, que é a que melhor conhecemos e que caracteriza o direito penal e seu processo desde os primórdios, é assertiva ao cumprir com seu in- tento inicial, que é a penalização. Entretanto, nos tempos em que vivemos, essa penalização não contenta aos valores e princípios constitucionais mais atuantes, como a dignidade da pessoa humana e a busca pela justiça. Ela mais se parece com uma vingança ao mal cometido, e não mais que isso. Em detrimento surge a justiça restaurativa. Por certo, ela ainda engatinha dentro dos países e suas normas penais, mas existe e pode ter um conceito e uma utilização mais ampla, visando a despenalização e a restauração como pontos de equilíbrio. Imagine um delito em que há a possibilidade de reparação, através de meca- nismos que visem equilibrar a situação, como a mediação entre as partes. Muitas vezes, essa capacidade, negada pela justiça retributiva, é eficiente em responsa- bilizar de fato o infrator, que passa a entender a situação em que está envolvido e as consequências de seus atos para todos, e trazer a vítima para mais perto do processo, podendo inclusive auxiliar nas possibilidades de conversações, e mesmo, contribuir para uma melhor sentença. Tudo isso em busca da harmonia, em detrimento de causas penalizadoras, muitas vezes utilizadas em excesso em nosso sistema atual. Seja bem-vindo a mais um tema, em que envolveremos análises que distinguem a justiça retributiva e a restaurativa. Portanto, aguardamos você no podcast que preparamos para esse fim, e que apresenta alguns conceitos que iremos estudar a partir de agora. Vamos ao podcast?! Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. PLAY NO CONHECIMENTO UNIASSELVI 1 4 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 DESENVOLVA SEU POTENCIAL Mesmo a convivência em agrupamentos realizada pelas pessoas nos primór- dios das sociedades necessitava de regras de conduta e controle, que viessem a harmonizar o trato entre as pessoas conviventes. Entende-se que exista um contrato, mesmo que de forma hipotética, para a saudável vida em grupo. Com o passar dos tempos, e das formações de poder dentro dos agrupamentos, hou- ve a necessidade de equilibrar certas relações através de normas de condutas, realizadas, a princípio, evidenciando o medo e pavor do metafísico. Sacerdotes tinham a função de penalizar algumas ações que atrairiam a ira dos deuses como as tempestades, a fome, doenças e outros eventos capazes de manifestar a fúria dos soberanos (ELIAS, 2000). Com o passar do tempo, a vítima de crimes ficou evidenciada por uma nova maneira de interpretação de seu sofrimento, a partir da ação conflituosa ou cri- minosa. Nesse tempo, a justiça seria feita pela própria vítima, na tentativa de retribuição do mal a ela causado, deixando o metafísico de lado, uma vez que esse não conseguia prestar o suporte necessário para a retaliação, ou mesmo para uma possível compensação (DELUMEAU, 1989). Começam a surgir normas sociais de conduta, como a Lei de Talião, por exemplo. Essa estipulava a vingança privada muitas vezes, mas que se limitava pelo delito cometido pelo agressor, em uma pena que fosse proporcional ao crime, na alusão do conhecido jargão “olho por olho, dente por dente” (DELUMEAU, 1989). VAMOS RECORDAR? Estudante, o tema agora tem a função de explicar a diferença entre a Justiça Retributiva e a Justiça Restaurativa. Como estamos acostumados, dentro do direito penal com o enfoque da justiça retributiva, pois foi formado através dessa base. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. 1 4 8 A evolução do direito de penalizar segue as vertentes mais profundas em cada ciclo da história, como a ascensão da igreja e seus mandamentos, na inquisição no Século V a XV d. C., e a promoção do Iluminismo na Europa durante o séc. XVIII. Seja qual for o período histórico, a busca pela punição sempre foi vista como sinônimo de um castigo que deve imperar sobre o corpo do acusado. Penas cruéis e excruciantes eram comumente utilizadas no período absolutista europeu anterior à revolução Francesa, como forma de propagar a justiça do rei e assim, satisfazer o divino que era por ele representado (ELIAS, 2000). Esse tipo de penalização ficou conhecida como uma retribuição pelo mal causado, característica predominante da Justiça Retributiva. Numa quebra de paradigma do seu tempo, o marquês de Beccaria, Cesare Bonesana pode ser considerado como o precursor da Escola Clássica da Criminologia, por ter criticado as penas cruéis e sem serventia alguma para o problema que se in- tenta desvendar. A partir de ideias iluministas, o marquês de Beccaria compõe um fundamento importante para os futuros estudos da vitimologia. Ele interpretou, em seu tempo, a desigualdade, que era causa de um abismo crescente entre homens privilegiados e homens comuns, causando, assim, o aumento da miséria, e, por consequência disso, o aumento do número de vítimas, incluindo aquelas conside- radas invisíveis. Outra noção apresentada por Beccaria ressalta que a prevenção de crimes vem a ser busca ideal e sempre melhor que a punição, mas que, se essa última tiver que existir, que seja proporcional ao ato delituoso. Você pode aces- sar essa obra que se tornou um grande movimento humanitário e filosófico, que determinou conceitos que hoje são analisados pela vitimologia e dizem respeito à penalização do desviante: Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO UNIASSELVI 1 4 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 A VÍTIMA E A JUSTIÇA RETRIBUTIVA O direito penal apresenta consigo o cerne da penalização em cada tipo penal des- crito, e foi por muito tempo designado apenas para esse intuito especial. No início do movimento penalizador dos códigos das penas espalhados mundo afora, tor- turas, sanções excruciantes, penas de galés, perpétuas e de morte asseveravam a luta pela impunidade atravésdos exemplos demonstrados pelos legisladores de tais leis. Essas normas possuem, além da função retributiva (ao retribuir o mal causado no infringir de penas ao corpo e liberdade do condenado), a função pedagógica, ao se apresentar como situação provável em casos de ilícitos penais, ao dar o exemplo punindo vigorosamente. Dessa forma, uma das teorias da pena que mais importa para a Vitimologia é a Teoria Retributiva: ■ A retribuição do mal pela penalização ao mal causado pelo fato típico é algo que se desenvolveu junto com a evolução do próprio sistema penal. Em antigos Estados absolutistas (governados pelo rei), havia a confusão entre o controlador dos poderes do Estado com a Igreja, e dessa forma, a punição iniciava com o controle inquisidor que penalizava o corpo do autor de delitos de maneira a causar a purificação de sua alma pelo sacri- fício do corpo, numa alusão ao sofrimento de Jesus na cruz. Com o passar do tempo, o direito foi alterando suas formas de processar e entender as provas, através do sistema acusatório (após a Revolução Francesa, Re- nascentismo e Iluminismo), entretanto as penas continuavam a castigar tanto o físico quanto a liberdade do indivíduo. E essas sanções estavam restritas às violações de direito, entendendo-se como “mera consequên- cia da culpabilidade do autor pela prática do crime e não busca realizar qualquer finalidade social, mas sim a ideia de Justiça” (GALVÃO, 2007, p. 7). Não há, nesse tipo de punição, nenhuma ideia lógica de negação ao injusto e ao crime causado em sociedade, a pena não representa o ideal de consequência ética ou necessária contra o delito, ou mesmo, como um possível respaldo maior à vítima. Aqui, a pena simplesmente possui características mais simples e comuns: “Aplicar um castigo, representar o poder Estatal, deixar a vítima em um plano secundário ou invisível” (JESUS, 2000, p. 25). 1 5 1 Dessa forma, há a confirmação de que o direito, através da teoria retributiva, busca a punição através da penalização, mas não a justiça e a harmonia social, ou mesmo, a pacificação da vítima. Essa tendência do direito penal, desde seus primórdios facilita sua comunicação pedagógica, ao se comunicar através da pena física e seus exemplos, mas é ineficiente em produzir de fato a busca pela justiça. Mesmo sua penalização demonstra um Estado inepto para resolver os problemas de uma crescente comunidade carcerária, presídios lotados, muitos dos quais o Estado não possui mais a devida autonomia, mas sim, os grupos criminosos que imperam e controlam o local a base da ameaça e violência. Nesse sentido, têm-se, nos presídios, a profusão e criação de mais e mais vítimas, sendo que a real vítima do crime praticado permanece invisível para o direito da justiça retributiva, que se perfaz em um círculo vicioso, sempre buscando o eterno retorno (ZEHR, 2008). Punitur ut ne peccetur Do latim punir para não pecar, o punitur ut ne peccetur já ocupou grande evi- dência no direito das penas. Em muitos lugares, como no Brasil por exemplo, esse ainda é o comando inicial do direito penal. Associada aos mais intrínsecos preceitos da teoria retributiva, tem sua força e destaque desde o início e até os dias de hoje continua em pé. Punir serve para intimidar e a prisão possui a serventia de que novas práticas delituosas não sejam praticadas pelo agente, enquanto ele ainda se encontra nos intramuros das prisões (ZEHR, 2008). Alguns doutrinadores do direito criticam a teoria retributiva por não ser útil ao que deveria se propor de fato, que seria a busca pela harmonização social, mas não a negação dos direitos de cidadania e dignidade da pessoa, tanto do autor do delito quanto de sua vítima (ALBERGARIA, 1996). APROFUNDANDO UNIASSELVI 1 5 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 Entramos na área das Teorias Absolutas que legitimam o direito penal atra- vés de uma penalização que mais se conecta à retribuição moral e jurídica do mal causado, do que com a busca de uma real harmonização do direito, tanto da vítima do crime, quanto de seu autor. Para o filósofo Imannuel Kant (1724- 1804), a pena possui uma finalidade em si mesma quando é regida por princípios morais, portanto extremamente necessária para realizar a justiça. Para o filósofo, quem comete uma injustiça deve sofrer a punição por ter se indisposto com leis morais universais. Assim, seu pensamento reflete os ideais da retribuição ao mal causado, mas não demonstra nenhuma função social da pena que possa ser referência para uma política criminal de qualidade, como a possibilidade de ins- trução do preso, ressocialização ou a indenização e reparação à vítima do crime. Para impor uma tese que fosse contrária à retribuição moral de Kant, o filó- sofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831), surge com a afirmação de que deve haver uma retribuição jurídica, em detrimento ao elaborado pelo seu conter- râneo, alguns anos antes. O ideal aqui era vincular a pena à razão, mas não a moral (KOSOVSKI, 1992). A pena então é uma necessidade lógica, pois houve em primeiro plano a negação do justo, do direito e das boas práticas. Assim, se o delito nega o direito, a pena por sua vez possui a única capacidade e serventia que se restringe a negar o delito cometido, sendo assim, ela é a afirmação do direito. O direito para Hegel, por ser fruto da razão humana, deve ser protegi- do pela penalização. Ainda assim, tanto o primeiro grande pensador quanto o segundo, ao afirmarem suas hipóteses, não conciliam o problema vítima e cri- minoso, deixando a dupla penal fora das discussões, referindo-se apenas a uma justa retribuição ao mal causado. Seja qualquer uma das teses desenvolvidas acima, elas não se envolvem com os problemas sociais mais prementes, e com os transtornos da vítima também (ZEHR, 2008). Perceba que a retribuição ao injusto se faz presente, inclusive em nosso Có- digo Penal, onde em seu artigo 59 apresenta a importância do magistrado em penalizar o autor do delito “o necessário e suficiente para a reprovação do crime” (BRASIL, 2020, p. 45). Assim, o punir para não pecar pode alterar a concepção e justificativa da punição, quando o delito não é respondido à vítima de maneira satisfatória, e ainda, na produção de mais vítimas dentro do próprio sistema penal. 1 5 1 A VÍTIMA E A JUSTIÇA RESTAURATIVA A inserção da vítima em meio ao processo penal através de algumas modificações na norma, como a Lei n° 11.690/2008, que veio a alterar algumas disposições, como o artigo 201, que envolve inúmeras possibilidades de inclusão, apoio e assistência ao ofendido. Desde a instauração do procedimento administrativo pela autoridade policial, à revelação da sentença penal, a vítima se apresenta como essencial, a partir de vários aspectos e um exemplo deles é o testemunho. Através daqui, tem-se no ofendido possibilidades de elucidar os problemas e mais; de buscar uma justa composição ao dano sofrido. Como a evolução do direito penal e sua forma de penalização acompanhava as situações históricas e suas mudanças, e com o movimento do neoconstitu- cionalismo que surge depois da crise do constitucionalismo, logo após as duas grandes guerras, o mundo apresentava um novo caminho para os direitos huma- nos. As constituições modernas dos Estados Ocidentais, e portanto, seus códigos penais, precisavam acompanhar as declarações de direitos humanos e estatutos internacionais da ONU. Países signatários passaram a desenvolver sistemas de preservação e proteção das vítimas de crimes, e entre esses, a possibilidade da mediação do conflito. Há um grande movimento no mundo todo que destaca a importância e a pos- sibilidade de que com a justiça restaurativa se consiga respostas mais inclusivas para as partes, e dessa forma, mais harmônicas portanto (BIANCHINI, 2012). Ela envolve todos os personagens que participam do âmbito penal, partindo desde a polícia ostensiva e repressiva, até o mais alto degrau do direito. Esses se situam em um novo local, em que a justiça restaurativa amplia a noçãode justiça jurídica para um movimento considerado interdisciplinar (BIANCHINI, 2012). As palavras justiça restaurativas foram colocadas juntas e interpretadas pela primeira vez em um artigo de Albert Eglash, escrito em 1977, intitulado “Além da Restituição: uma restituição criativa”. O autor demonstra evidências que o direito somente pode ser perfectibilizado quando assegura respostas concretas às situações reais que não podem esperar para serem adimplidas. Para o autor, essas respostas são baseadas em três grandes formas, que conseguem responder o crime cometido: a justiça retributiva, punindo o criminoso, a justiça dis- tributiva, orientada na educação e a justiça restaurativa que tem por sentido prático a definição de reparação (VAN NESS; STRONG, 2002). UNIASSELVI 1 5 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 Os primeiros movimentos da justiça restaurativa foram dados nos Estados Unidos, na década de 70, em encontros entre vítima e autor do delito, em forma de mediação do conflito. Logo após, paí- ses como Nova Zelândia e Chile instaura- ram esse procedimento em ações penais onde eram possíveis de serem utilizados. Trata-se de um consenso entre a vítima e o infrator do delito, em um processo voluntário que envolve mediadores e fa- cilitadores no lugar do magistrado, que, ao final, irá somente homologar o acordo quando realizado pelas partes. Nessa me- diação, é possível a presença de pessoas da sociedade, que, porventura, tenham per- cebido alguma perda ou trauma causada pela ação infratora (BIANCHINI, 2012). Entretanto, como se trata de um ato for- mal considerado ainda novo para o direi- to, seus operadores e para a sociedade, é preciso desvencilhar-se do imaginário da punição como única possibilidade de resposta à infração (PINTO, 2010). Dessa forma, o olhar para o conceito crime e sua relação para com a sociedade passa a ter um enfoque totalmente dife- rente. Para a justiça restaurativa, o crime não se perfaz unicamente em apenas uma “conduta típica e antijurídica que atenta contra bens e interesses” que são garantidos e protegidos pelo Estado, “mas antes disso, é uma violação nas rela- ções entre infrator, vítima e a comunida- de” (PINTO, 2010, p. 5). Nesse sentido, 1 5 4 incumbe à justiça buscar “identificar as necessidades e obrigações oriundas dessa violação e do trauma causado e que deve ser restaurado”, encorajando e dando oportunidades para que haja um possível acordo capaz de restaurar a situação em análise (PINTO, 2010, p. 5). Dessa forma, é essencial que a justiça consiga, através de seu contato mediador, fazer valer o entendimento e a responsabilidade do au- tor do delito frente ao ato cometido, assumindo seus encargos e protagonizando a pacificação, a resposta que se deseja encontrar é que “um resultado individual e socialmente terapêutico seja alcançado” (PINTO, 2010, p. 5). Para a Resolução do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, de 2002, a justiça restaurativa é uma nova abordagem que tem o escopo de oferecer aos ofensores, a vítima e à comunidade ao redor do ilícito, um caminho alternativo de justiça. Ela é capaz de promover a participação segura das vítimas na “resolução da situação e oferece às pessoas que assumem a responsabilidade pelos danos cau- sados por suas ações uma oportunidade de se reabilitarem perante aqueles a quem prejudicaram” (ONU, 2020, p. 5). O conselho define que a principal estrutura desse tipo de justiça é o reconhecimento de que o comportamento criminoso não apenas viola a lei, mas também prejudica as vítimas e a comunidade. Você pode acessar na íntegra o Manual sobre Programas de Justiça Restaurativa da ONU, que se encontra em sua segunda edição aqui . Datado de 2020, esse é o último Manual da ONU recentemente publicado, modificando, atualizando e ratificando algumas situações da Resolução do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, realizada em 2002. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO O Manual da ONU, escrito em 2020, que ratifica e altera algumas situações da resolução de 2002, passa a ser o último grande destaque internacional que versa sobre o assunto justiça restaurativa, e que, faz com que países signatários tenham por missão criar mecanismos para esse tipo de justiça. Essa vinculação é impor- tante para o programa dentro do direito e das instituições, que através de um documento tão importante, consegue ganhar segurança jurídica na aplicação do direito e em sua despenalização. Ele apresenta alguns destaques de grande influência considerando as ações que devem ser tomadas na justiça restaurativa: UNIASSELVI 1 5 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 ■ Foco no dano causado pelo comportamento criminoso. ■ Participação voluntária das pessoas mais afetadas pelo dano, incluindo a vítima, o ofensor e, em alguns processos e práticas, seus apoiadores ou familiares, membros de uma comunidade interessada e profissionais adequados. ■ Preparação das pessoas participantes e facilitação do processo por pro- fissionais treinados. ■ Diálogo entre os participantes para chegar a um entendimento mútuo sobre o que aconteceu, as consequências do ocorrido e um acordo sobre o que deve ser feito. ■ Os resultados do processo restaurativo variam e podem incluir uma de- claração de arrependimento e reconhecimento da responsabilidade pelo ofensor, bem como o compromisso de tomar alguma medida reparadora em relação à vítima ou à comunidade. ■ Uma oferta de apoio à vítima para ajudar na sua recuperação e ao ofen- sor para ajudar na sua reintegração e desistência de futuros atos lesivos (ONU, 2020). A adesão à justiça restaurativa surge da vontade das partes aos seus valores, e da possibilidade de que o procedimento, em busca da harmonização dos direitos envolvidos, será mediado, portanto, não julgado. Nesse sentido, alguns valores são de grande ênfase para que seja aderido esse instituto em detrimento ao pe- nalizador, no direito penal dos Estado. Entre os valores que orientam a prática de justiça restaurativa, observamos (ONU, 2020): E é nesse sentido que alguns valores são desencadeados quando versamos sobre justiça de restauração, ao apresentar para as partes envolvidas algo que a justiça comum jamais será capaz de difundir, que é a celeridade na resolução dos conflitos sem a intervenção punitiva que lhe é frequente (ZEHR, 2008). Alguns objetivos da justiça restaurativa, apontados pelo Manual da ONU, são: a) apoiar as vítimas, dar-lhes voz, ouvir sua história, incentivá-las a exprimir suas necessidades e desejos, dar-lhes respostas, permitir-lhes participar no processo de resolução e oferecer-lhes assistência; b) reparar parcialmente as relações afetadas pelo crime por meio de consensos sobre a melhor forma de responder ao crime; 1 5 1 c) reafirmar os valores da comunidade e denúncia do comportamento cri- minoso; d) Incentivar a que todas as pessoas interessadas assumam suas devidas res- ponsabilidades, em especial os ofensores; e) identificar os resultados restauradores e voltados para o futuro; f) prevenir a reincidência encorajando a mudança em cada um dos ofensores e facilitando a sua reinserção na comunidade (ONU, 2020). A justiça de restauração incentiva justamente o que sua nomenclatura propõe: um restaurar dos valores sociais e a negação do ilícito, através da ponderada media- ção que reflete seus valores a todos os envolvidos, em busca da harmonização pessoal das partes, e de toda a sociedade envolvida (Zehr, 2008). APROFUNDANDO Distinção entre a restauração e a punição Entre os dois modelos da justiça criminal existem diferenças pontuais que conse- guem transformar a vida dos envolvidos, a partir de suas prontas respostas. Em seu artigo intitulado “A construção da justiça restaurativa no Brasil: o impacto no sistema de justiça criminal”, o autor Renato Sócrates Gomes Pinto apresenta as distinções entre os dois postulados do direito de da justiça criminal: UNIASSELVI 1 5 1 TEMADE APRENDIZAGEM 7 JUSTIÇA RETRIBUTIVA JUSTIÇA RESTAURATIVA Conceito estritamente jurídico de Crime – Violação da Lei Penal – ato contra a sociedade representada pelo Estado Conceito amplo de Crime – ato que afeta a vítima, o próprio autor e a comunidade causando-lhe uma variedade de danos Primado do Interesse Público (Sociedade, representada pelo Estado, o Centro) – Monopólio estatal da Justiça Criminal Primado do Interesse das Pessoas Envolvidas e Comunidade – Justiça Criminal participativa Culpabilidade Individual voltada para o passado – Estigmatização Responsabilidade, pela restauração, numa dimensão social, compartilhada coletivamente e voltada para o futuro Indiferença do Estado quanto às neces- sidades do infrator, vítima e comunidade afetados – desconexão Comprometimento com a inclusão e Justiça Social gerando conexões Mono-cultural e excludente Culturalmente flexível (respeito à dife- rença, tolerância Uso Dogmático do Direito Penal Positivo Uso Crítico e Alternativo do Direito Dissuasão Persuasão Quadro 1 - Diferença de Valores entre a Justiça Restaurativa e a Justiça Retributiva Fonte: adaptado de Pinto (2023). Outra análise comparativa que pode ser feita é com relação aos procedimentos instaurados para a conclusão dos dois tipos de justiça. Enquanto a justiça retributiva possui um ritual mais solene para seus julgamentos na justiça comum, a restaurativa mantém um rito informal e comunitário que se estende a todos os envolvidos, em sede dos Juizados Especiais. Para a retributiva os atores prin- cipais participantes do processo são resumidos em autoridades que representam o Estado, profissionais do direito como advogados e juízes. Na restaurativa, há a participação das vítimas e infratores da comunidade e associações assistencia- listas como ONGs, todos em busca de uma conciliação que seja positiva para todos os envolvidos (PINTO, 2010). 1 5 8 Deve-se frisar quanto ao resultado dos dois tipos de justiça, que possuem diferentes formas de contemplar o direito. Se a justiça retributiva interpreta o processo a partir da prevenção geral e especial, ou seja, na punição como melhor resultado, a justiça restaurativa possui uma abordagem um tanto diferente. Sua perspectiva aborda as causas e consequências do crime, pretendendo restaurar as relações entre as partes e compor dessa forma o direito. Veja outros pontos essenciais e que diferem as duas formas, no que concerne aos resultados: Quanto à penalização: a justiça retributiva possui penas privativas de li- berdade, penas restritivas de direito, multa. A pena, seja qual for, é capaz de estig- matizar o indivíduo, causando uma rotulação incessante, sendo uma das causas e motivos dos estudos da criminologia crítica (FERREIRA, 2020). A situação piora quando pensamos nas penas muitas vezes desproporcionais ao delito cometido, cumpridas em um sistema cruel e desumano, que passa a ser criminógeno e degradante do próprio ser. As penas alternativas que se apresentam são as mais convencionais, como por exemplo, a cesta básica, que não consegue produzir o sentimento de restauração e justiça para ambas as partes (PINTO, 2010). Na justiça restaurativa, há a reparação e restituição do dano sempre que possível, a prestação de serviços comunitários, a reparação do trauma moral e a tentativa de restauração dos prejuízos emocionais. Nota-se que a inclusão é um dos pontos centrais para a restauração. As obrigações se dão quanto ao acordo produzido em mediação, que tem por finalidade a razoabilidade e o cumprimen- to desse acordo (PINTO, 2010). Os efeitos para as vítimas: na justiça retributiva não há a consideração com a vítima, sendo esses um dos fatores mais atuais dos nossos códigos, com alterações que colocam a vítima dentro dos procedimentos. Como ainda é norma que vigora a pouco tempo, ainda existem as idiossincrasias do poder judiciário e autoridade policial quanto ao que sempre foi deixando muitas vezes de cumprir os novos mandamentos. Assim, a vítima ocupa na maior parte dos casos um local periférico dentro do processo, sendo alienada do início ao fim. A justiça restaurativa tem a função de quebrar esse entendimento e vícios da retributiva. A vítima ocupa o lugar central do processo, participando e possuindo voz ativa, sendo assistida quando preciso. A busca é por suprir “as necessidades individuais e coletivas da vítima e da comunidade” (PINTO, 2010, p. 20). UNIASSELVI 1 5 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 Quanto aos efeitos para o infrator: na justiça retributiva, que visa à re- tribuição do mal pelo mal causado, o infrator é considerado pelas suas falhas, sua má formação, sem participação no processo somente sendo considerado sua oitiva, em fase de audiência. Sua única comunicação no processo é seu advogado, e passa a ser desestimulado pelo sistema a dialogar com a vítima, sem saber ao certo as fases e os fatos processuais. Uma das grandes características desse sis- tema, é que o autor não é responsabilizado pelo delito, mas somente punido por ele. Por outro lado, na justiça restaurativa, o infrator é “visto no seu poten- cial de responsabilizar-se pelos danos e consequências do delito, participando ativa e diretamente do processo, interagindo com a vítima e com a comunidade, tendo oportunidade de se desculpar ao sensibilizar-se com o trauma da vítima” (PINTO, 2010, p. 21). O infrator passa a ser informado de como funciona o processo restaurativo, podendo contribuir para a decisão final, entendendo as consequências do fato desviante cometido para a vítima e para a sociedade. Essa responsabilização é uma das maiores importâncias da justiça restaurativa. O Manual da ONU, de 2020, sobre justiça restaurativa e processo penal, apre- senta determinados benefícios que os programas de justiça restaurativa podem causar, situações essas negadas pela justiça retributiva: Benefícios das Justiça Restaurativa (ONU, 2020): ■ Dar acesso mais amplo e rápido à justiça para vítimas de crimes e ofensores. ■ Dar às vítimas uma voz, uma oportunidade de serem ouvidas e uma oportunidade de entender o ofensor. ■ Dar às vítimas e à comunidade respostas, reconhecendo o seu direito de ter voz, direito à informação e direito à verdade. ■ Oferecer às vítimas uma oportunidade de reparação material e simbólica. ■ Facilitar a recuperação das vítimas e aliviar os efeitos emocionais e, por vezes, traumáticos do crime sobre elas. ■ Proporcionar uma alternativa viável aos processos criminais. ■ Reduzir a frequência e a gravidade da reincidência, em especial quando fizer parte de uma abordagem reabilitadora mais ampla. ■ Evitar que os ofensores sejam ainda mais estigmatizados e contribuir para a sua reinserção efetiva na comunidade. ■ Melhorar a participação pública e a confiança da população no sistema de justiça criminal nas comunidades onde existem. 1 1 1 ■ Aumentar o envolvimento da comunidade. ■ Levar a iniciativas locais de prevenção do crime mais eficazes. ■ Melhorar as relações polícia-comunidade. ■ Reduzir custos e atrasos em todo o sistema de justiça criminal. Por fim, há o direito dos participantes quando se trata da justiça restaurativa. Esses personagens, definidos como vítima e acusado ou outros membros da so- ciedade que tenham sido afetados pelo crime, possuem alguns preceitos básicos. Entre eles estão: ■ Direito a receber aconselhamento jurídico: a vítima e o ofensor de- vem ter o direito de receber aconselhamento jurídico sobre o processo restaurativo e, se necessário, sua tradução e/ou interpretação. ■ O direito das crianças à assistência de pais ou responsáveis: as crianças devem, além disso, ter o direito à assistência de pais ou responsáveis. ■ O direito de ser plenamente informado: antes de concordar em par- ticipar de um processo restaurativo, as pessoas devem ser integralmente informadas sobre os seus direitos, a natureza do processo e as possíveis consequências das suas decisões. ■ O direito de não participar: nem a vítima nem o agressordevem ser coagidos ou induzidos por meios desleais a participar de processos res- taurativos ou a aceitar os resultados restaurativos. O consentimento é necessário. As crianças podem precisar de aconselhamento e assistência especial antes de conseguirem chegar a um consentimento válido e in- formado (ONU, 2020). Essas são as grandes e mais influentes diferenças entre as justiças retributiva e a restaurativa. Insta salientar que a busca pelo direito e pela justiça requer a har- monia dos envolvidos e da situação causada de forma a macular o bem jurídico tutelado. No Brasil, a justiça restaurativa se inicia com a lei dos Juizados Especiais (Lei n° 9099/1995), que acomoda o sistema dentro do nosso ordenamento. A nossa Constituição de 1988 já previa no artigo 98, inciso I: “ Art. 98. A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão: UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 I -juizados especiais, providos por juízes togados, ou togados e leigos, competentes para a conciliação, o julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos, nas hipóteses previstas em lei, a transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau (BRASIL, 2012, p. 65). Essa abertura é realizada para crimes de menor potencial ofensivo (MPO), considerados infrações penais, cujas penas não ultrapassam o tempo efetivo de 02 anos de cumprimento. Entretanto, vale a amplitude da discussão e a construção de um tipo de justiça diferente da que já existe, melhorando efetivamente seus pontos negativos. Nesse sentido, discussões acadêmicas, mesas de debates e o surgimento de novas ideias para o sistema restaurativo e sua ampliação já são uma realidade no Brasil. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EM FOCO NOVOS DESAFIOS O processo de justiça no Brasil segue, como todas as leis, os preceitos básicos da Constituição de 1988. Por isso, o comando constitucional que se espalha por todo o ordenamento, é em referência à dignidade da pessoa humana. Por esse motivo, a busca por melhores e mais inclusivas formas de tratar os problemas sociais devem ser ressaltadas, e as discussões acerca de diversos problemas devem ser oferecidas. Um desses problemas é a vítima e seu padecimento frente ao processo, já desgastada com problemas causados pelo ilícito e que precisa de um amparo mais efetivo do Estado. A busca por restauração, que significa o real intento de equilíbrio dentro do sistema penal, somente pode ser feita através de um intenso movimento prático da justiça restaurativa, nos casos em que hoje ela é possível. Nesse ínterim, podem existir possibilidades de que a justiça mais inclusiva de restauração possa abranger mais áreas e se difundir de fato pelo direito criminal, através de políticas criminais positivas aos seus intentos. 1 1 1 1. Entre os dois modelos da justiça criminal, existem diferenças pontuais que conseguem transformar a vida dos envolvidos, a partir de suas prontas respostas. A justiça de restaura- ção incentiva justamente o que sua nomenclatura propõe: um restaurar dos valores sociais e a negação do ilícito. A respeito das diferenças entre as duas justiças apresentadas, faça a análise das afirmativas a seguir: I - A Justiça Restaurativa possui um conceito estritamente jurídico, importando o ato infrator como causa maior de sua aplicação. II - A Justiça Restaurativa é balizada pelo princípio do primado do Interesse das pessoas envolvidas e da comunidade. III - A Justiça Retributiva atribui o uso estrito e dogmático do direito penal, negando alter- nativas possíveis. IV - A Justiça Retributiva possui um comprometimento com a inclusão social pelo fato de ser flexível culturalmente, gerando assim conexões sociais. É correto o que se afirma em: a) I e IV, apenas. b) II e III, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) II, III e IV, apenas. 2. Há um grande movimento no mundo todo que destaca a importância e a possibilidade de que com a justiça restaurativa se consegue respostas mais inclusivas para as partes, e dessa forma, mais harmônicas portanto. Faça a análise das alternativas a seguir e assinale a correta: a) Um dos grandes empecilhos para a justiça restaurativa é a falta de um movimento interdisciplinar, tanto para vítima quanto para infrator. b) Os primeiros movimentos da justiça restaurativa foram dados nos Estados Unidos, na década de 70, em encontros entre vítima e autor do delito, em forma de mediação do conflito. c) cA justiça retributiva oferece um caminho alternativo para a resolução dos conflitos. d) Apesar de ser um procedimento voluntário entre as partes, o juízo pode obrigar que o processo seja realizado em uma mediação entre os envolvidos. e) A falta de facilitadores incumbidos de acompanhar o procedimento na justiça restaurativa é uma das críticas mais graves a esse conceito de justiça. AUTOATIVIDADE 1 1 1 3. Do latim punir para não pecar, o punitur ut ne peccetur já ocupou grande evidência no di- reito das penas. Em muitos lugares, como no Brasil por exemplo, esse ainda é o comando inicial do direito penal. Associada aos mais intrínsecos preceitos da teoria retributiva, tem sua força e destaque desde o início e até os dias de hoje continua em pé. De acordo com o punir para não pecar, analise as afirmativas a seguir: I - A retribuição do injusto através da punição, por não ser prevista em nosso Código Penal, não deve ser aplicada no direito de penalização nacional. II - A função social da pena é refletida pelos pensamentos do filósofo Immanuel Kant, sendo a indenização e reparação do crime causado os seus aspectos mais relevantes. III - As Teorias Absolutas legitimam o direito penal através de uma penalização que mais se conecta à retribuição moral e jurídica do mal causado, do que com a busca de uma real harmonização do direito. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) III, apenas. c) I e II, apenas. d) II e III, apenas. e) I, II e III. AUTOATIVIDADE 1 1 4 REFERÊNCIAS ALBERGARIA, J. Das Penas e da Execução Penal. 3. ed. Belo Horizonte: DelRey, 1996. BIANCHINI, E. H. Justiça Restaurativa: um desafio a práxis jurídica. Campinas, SP: Servanda Edi- tora, 2012. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Vade Mecum Saraiva. 13. ed. São Pau- lo: Saraiva, 2012. BRASIL. Decreto-Lei n° 2 .848, de 7 de dezembro de 1940 . São Paulo, 2020. DELUMEAU, J. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das letras, 1989. ELIAS, N. O processo civilizador, Vol . 1. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. FERREIRA, I. K. O papel do judiciário na construção do desviante: A influência da sociedade complexa. Florianópolis: Ed. Habitus, 2020. GALVÃO, F. Direito Penal: parte geral.2. ed. Belo Horizonte: DelRey, 2007. JESUS, D. E. de. Penas Alternativas. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 2000. ONU. Manual sobre Programas de Justiça Restaurativa – Segunda Edição. SÉRIE DE MANUAIS DA JUSTIÇA CRIMINAL. Viena, 2020. Disponível em: https://www.unodc.org/documents/jus- tice-and-prison-reform/Portugues_Handbook_on_Restorative_Justice_Programmes_-_Final. pdf Acesso em: 3. nov. 2023. KOSOVSKI, E. (Coord.). Vitimologia Enfoque Interdisciplinar. Rio de Janeiro: Reproarte, 1992. PINTO. R. S. A construção da Justiça restaurativa no Brasil: O impacto no sistema de justiça cri- minal. Revista Paradigma/Universidade de Ribeirão Preto – UNAERP, a. XV, n. 19, jan./jul. 2010. Disponível em: https://revistas.unaerp.br/paradigma/article/view/65. Acesso em: 2 nov. 2023. VAN NESS, D. W.; STRONG, K. H. Restoring Justice . Cincinatti. Ohio: Anderson Publishing Co. 2002 ZEHR, H. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justiça. São Paulo: Palas Athena, 2008. 1 1 5 1. Opção B. Portanto, afirmativas II e III estão corretas. A afirmativa I está errada, pois o conceito do crime é ampliado na justiça restaurativa, não ficandoapenas no conceito jurídico. A afir- mativa IV está incorreta, pois esses são consensos da justiça restaurativa e não da retributiva. 2. Opção B. Alternativa A está errada, uma vez que movimentos envolvendo outros dados estatísticos e possibilidades de cura ao conflito de forma diversa à prisão, bem com acom- panhamento à vítima são realizados pela justiça restaurativa. Alternativa C é errada, uma vez que se trata da justiça restaurativa. Alternativa D está incorreta, pois o magistrado não tem o poder de obrigar as partes a mediar o conflito, isso é realizado pelas partes com a presença de um conciliador. Alternativa E está errada, porque mediadores e facilitadores são responsáveis pelo procedimento, antes do processo penal, que somente se instaura se não houver conciliação entre as partes. 3. Opção B. O que faz com que somente a afirmativa III esteja correta. A afirmativa I está incorreta, pois o artigo 59 dispõe sobre a penalização do autor, na retribuição do injusto. A afirmativa II é errada, porque Kant explica que a pena possui uma finalidade em si mesma, somente usada para retribuir o injusto e não mais que isso. GABARITO 1 1 1 MINHAS ANOTAÇÕES 1 1 1 MINHAS METAS O MODELO CONSENSUAL DE JUSTIÇA NO BRASIL: ADVENTOS DA LEI N° 9099/1995 Analisar a Constituição Federal da república de 1988 no tocante à possibilidade da Justiça Restaurativa no Brasil. Interpretar os princípios constitucionais que versam sobre a justiça de transição ou restaurativa. Estudar os princípios da justiça restaurativa e atestar a sua constitucionalidade. Investigar a implantação da justiça restaurativa pela Lei n° 9.099/1995 e sua importância para a despenalização do direito penal. Examinar os institutos da Lei dos Juizados Especiais. Entender as mudanças trazidas pela Lei dos Juizados para o direito brasileiro. Interpretar alguns artigos despenalizadores da Lei n° 9.099/1995. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 8 1 1 8 INICIE SUA JORNADA Vários criminólogos, entre eles Alessandro Baratta, asseveraram a possibilida- de de uma diminuição da atuação do Estado penal, para o Estado das políticas públicas e das oportunidades (BARATTA, 2011). E o problema do aumento ex- ponencial da população carcerária e de presos preventivos que ainda aguardam julgamento é espelho de situações pontuais que temos na aplicação de nossa lei penal. O significado disso é que somente através da punição que o Estado conse- gue dar uma resposta que acredita ser efetiva à sociedade e às vítimas de crimes. Na verdade, o que o Estado faz é justamente o que já vem realizando há vários anos, e que já ficou evidenciado ser um erro. Por esse motivo, surge a justiça restaurativa que, através de seus princí- pios, tenta fazer com que, ao menos em infrações de menor potencial ofensivo, e nos crimes de menor potencial lesivo, ela possa respaldar um outro tipo de penalização, que parte da responsabilização do delinquente perante seus atos desenvolvidos contra a vítima e a sociedade. Ao experimentar a justiça que tenta mediar ao invés de punir apenas, os envolvidos estão próximos de realizar a pa- cificação total do problema, respondendo todos os quesitos e questionamentos sobre o crime e seus motivos, pois aqui existe a participação ativa tanto de vítima, conciliadores e infrator. Juntos tentam buscar os porquês, e ainda, quais serão as respostas dadas a partir de agora para adimplir o(s) direito(s) maculados pelo ato ilícito (PINTO, 2010). UNIASSELVI 1 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 Em um período de evolução humana, em que se busca por situações mais ponderadas e utilitárias, a justiça restaurativa pode ser um escape para muitos dos problemas na seara criminal. A Lei n° 9099/1995 abriu, no Brasil, a brecha para as discussões acerca da justiça consensual. Que essa possibilidade continue aberta para os novos pensadores da nossa época refletirem sobre modelos mais humanos e não degradantes, e que busquem não apenas por justiça, mas também pela promoção humana de todos ao redor. Estudante, vem aí mais um podcast, e aqui vamos tratar do tema da mediação e conciliação como adventos da Lei n° 9099/1995, mas já apregoados outrora em nossa Constituição Federal de 1988, que delimitou a partir de seus princípios as normas e leis dentro do nosso país a seguirem seus comandos. Vamos lá!? Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. PLAY NO CONHECIMENTO VAMOS RECORDAR? Em maio de 2016, o Conselho Nacional de Justiça promulgou a Resolução 225, onde dispôs a respeito da criação de uma Política Nacional de Justiça Restaurativa no âmbito do Poder Judiciário. O projeto se envolve com a política criminal e com a maneira de lidar com os problemas da segurança pública de forma a facilitar mecanismos para a despenalização, a estigmatização primária e secundária, e a marcação dos controles penais do Estado ao indivíduo que já fora uma vez inserido em seus históricos criminais. Você pode acessar a importante resolução na íntegra no site do Conselho Nacional de Justiça, aqui . Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. 1 1 1 DESENVOLVA SEU POTENCIAL Os países da América Latina desenvolveram suas normas, sobretudo penais, tendo a sua sombra os inúmeros postulados legais que lhes foram imputados à força pelo colonizador, e herdados por normas que viriam com o tempo. Sig- nifica dizer que, as raízes inquisitórias fincadas em códigos de leis levaram, por muito tempo, o sentido antidemocrático nas regiões colonizadas pelos europeus. Nesse ponto, desde as épocas que datam o final do séc. XIX até os anos 1930 a maior parte das leis de nossa região possuíam um elo dogmático com normas estrangeiras que nada conheciam dos problemas latino-americanos (GRINO- VER; STRUENSEE, 2000). Exemplos de uma ruptura com a ultrapassada legalização dos códigos lati- no-americanos, foi o Código da Província de Córdoba escrito em 1939, na Ar- gentina, que apresentava uma ampla reforma processual penal e uma completa ruptura aos princípios da legislação espanhola, sua colonizadora (GRINOVER; STRUENSEE, 2000). De lá para cá, com a crescente reforma democrática nos países da região, os movimentos de reformas legais foram instituídos todos considerando os prin- cípios do Estado Democrático de Direito que passavam a ser concebidos. E, no Brasil, não foi diferente e tudo começou com a Constituição Federal de 1988 e seus preceitos mais basilares (PINTO, 2010). A justiça restaurativa é aplicada nos Juizados Especiais e envolvem infrações penais de menor potencial ofensivo, entretanto, há ampla possibilidades de sua aplicação em alguns fatores que envolvem a Justiça Comum, em crimes possíveis de sua aplicação. Nos Juizados Especiais Criminais há o conciliador ou mediador dos problemas que precisa tentar resolver o caso apresentado desenvolvendo a comunicação entre as partes. Mediadores ou facilitadores são profissionais exten- sivamente treinados, o que lhes permite identificar as questões mais importantes, para atender às necessidades das partes, ajudando-os a encontrar alternativas para o alcance de um acordo. “Os mediadores são neutros: não dão conselhos, nem tomam decisões, eles facilitam um diálogo positivo, criando uma atmosfera propícia à identificação das reais necessidades de ambas as partes, bem como o interesse dos seus filhos” (GRINOVER; STRUENSEE, 2000 p. 152). APROFUNDANDO UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E A JUSTIÇA RESTAURATIVA Os princípios constitucionais significam o fundamento da própria constituição. Através deles, todo o ordenamento jurídico nacional possui uma base muito bem estruturada, e a negação dessa sustentação incide em contrariar a norma maior de nosso ordenamento, que é a Constituição Federal de 1988 (CF/1998). Por esse motivo, quando analisamos as normas de direito, notamos que existe um contrato entre elas e sua norma mãe, ad- vinda dos princípiosconstitucionais. Esse contrato significa estabelecer o que realça a norma maior como o mais importante a ser seguido (GRINOVER; STRUENSEE, 2000). Por esse motivo, a justiça consensual ou restaurativa passou a se envolver com ênfase em situações que envolviam conflitos penais, como uma mudança paradigmá- tica inserida no processo penal, uma real inovação no código das penas. Essa alteração se deu a partir da CF/1988, que promoveu a quebra do formalismo acentuado dos processos e a busca por alternativas que fossem mais razoáveis e simplificadas para atender melhores e mais positivos resultados, para as infrações de menor potencial ofensivo. O artigo 98, em seu inciso I, demonstrava o ideal do legislador ao instituir a possibilidade de um procedimento sumário que fosse mais célere e pudesse atender a vítima de crimes e seus problemas de forma mais inclusiva (ZEHR, 2008). 1 1 1 Essas reformas foram importantes para apresentar ao Brasil o modelo consensual de justiça, em uma adequação ao ambiente democrático agora vivido, e que precisava dar uma resposta aos imensos problemas sofridos principalmente no âmbito da penalização. Com o sistema carcerário e sua superlotação, processos parados, o alto número de presos temporários e preventivos (que ainda aguardam julgamentos), não havia a possibilidade de mais penalização e sim, em pensar em sua diminuição (GRINOVER; STRUENSEE, 2000). Nesse sentido, tendo os seus princípios mais importantes, como a dignidade da pessoa humana, do tratamento humano e da celeridade processual, a definição de uma resposta coube à Lei n° 9099/1995, através da inclusão dos Juizados Especiais, tanto na área criminal quanto na área do direito civil. Outras nor- mas já estipulavam a possibilidade de uma conciliação, que se dava através de um contrato firmado entre o causador do delito e sua vítima, como é o caso do Código de Trânsito Brasileiro criado em 1997 e institui a multa com o intuito de reparação ao dano patrimonial causado de forma criminosa em acidentes de trânsito. Também há no Código Penal a alteração da Lei n° 9.714/1998, que im- põe a possibilidade da prestação pecuniária à vítima, em uma importância fixada pelo juiz da causa. Essa mudança surtiu efeitos práticos no artigo 45 do Código Penal, que agora visa a mediação do conflito, ao menos dando uma primeira satisfação à vítima, a maior lesada na situação (GRINOVER; STRUENSEE, 2000). Assim, a mediação de conflitos e a justiça restaurativa já são amparadas constitucionalmente, em normas e princípios apresentados pela Carta Magna. Ela interpreta o princípio de que existem outras formas de garantir a pacificação e a harmonização do direito que não seja através da punição. Alguns doutrinadores já exacerbaram sua desarmonia com a punição, sustentando que sua forma usada para controlar a violência social realiza o efeito contrário, reproduzindo ainda mais violência, tendo que ser mitigada ao máximo possível (ZAFFARONI, 2003). Dos princípios constitucionais mais importantes, frisamos que o princípio da proporcionalidade se destaca como uma real proteção à pessoa, contra os excessos cometidos pelo Estado, ao defender uma penalização mais justa e um tratamento igual ao de todos os participantes no processo. E tudo isso é enfati- zado pela justiça restaurativa, pois defende como fundamento de sua função a efetivação de respostas mais utilitárias às partes, além da privação da liberdade UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 (PINTO, 2010). Isso tudo pelo fato de que a justiça restaurativa é aplicada àque- les delitos que não precisam de uma resposta acentuada por parte do julgador, buscando sempre ser proporcional aos fatos apresentados (ZEHR, 2008). O princípio constitucional da humanidade, que na maioria das vezes é anulado pela penalização do Estado, através do cumprimento de pena em am- bientes insalubres e controlado pela violência, é adimplido pela justiça restaura- tiva quando essa oferece uma nova oportunidade de penas, que visam assegurar os direitos da pessoa (ZEHR, 2008). Os princípios da justiça restaurativa Devemos destacar os princípios da justiça restaurativa, sempre em conexão com a Constituição de 1988, são eles: voluntariedade, consensualidade, confi- dencialidade, celeridade, urbanidade, adaptabilidade, imparcialidade (BIAN- CHINI, 2012). Tais princípios atestam a constitucionalidade da aplicação da justiça restaurativa no país, e abrem importante discussão sobre a aplicação de sua ordem no direito penal como um todo, sempre que houver possibilidade para isso. Vamos aos princípios (BIANCHINI, 2012): ■ Princípio da voluntariedade: contempla a participação dos envol- vidos no procedimento a ser instaurado, sendo esclarecidos quanto às práticas restaurativas a serem observadas. As partes não são obrigadas e nem constrangidas, mas sim, convidadas a participar. Segundo Bianchini (2012), as informações são necessárias para que as partes compreendam o funcionamento do processo: “ O encorajamento à participação deve ser realizado com o objeti- vo de restaurar as relações, e não como meio de coerção, para que as partes superem receios infundados. Sob nenhuma hipótese as partes são obrigadas a adotar abordagem de Justiça Restaurativa, para que não se realce as agressões e mazelas decorrentes do de- lito, o que iria retirar a autonomia da vítima e a possibilidade de responsabilização do infrator. Sem a participação dos envolvidos, qualquer outra abordagem seria aplicável, mas não aquela pregada pela Justiça Restaurativa (BIANCHINI, 2012, p. 119). 1 1 4 ■ Princípio da consensualidade: faz parte da justiça restaurativa a con- cordância entre as partes de participarem de tal serventia. Assim, faz-se importante o aceite espontâneo dos personagens do procedimento. De- ve-se frisar que na justiça restaurativa abre-se um contrato hipotético entre as partes de que o processo caminhará sob os ritos mais sumários possíveis, buscando a pacificação e o adimplemento das obrigações. ■ Princípio da confidencialidade: as informações e fatos analisados quando da aplicação da justiça restaurativa correm em confidenciali- dade. Situações de foro íntimo, os pormenores do caso em concreto e mesmo, a finalização através da mediação ficam em segredo, somente sendo conhecidas pelas partes. ■ Princípio da celeridade: trata-se da velocidade que o processo deve tomar em busca de uma resolução. Em partes, ele já é reconhecido como processo sumaríssimo, sendo realizado inclusive de forma oral e possuindo ritos menos burocráticos. Por outro lado, é importante ceder as partes o tempo que for preciso para que cheguem a uma solução e pacificarem a causa. ■ Princípio da urbanidade: o bom relacionamento entre as partes deve ser buscado pelos facilitadores, que devem buscar por uma evolução cívica dentro do processo, tendo por base o respeito mútuo que se dá através do diálogo. ■ Princípio da imparcialidade: ao facilitador, cabe ajudar as partes a che- garem a um acordo que seja mutuamente justo. Se para um cabe o adim- plemento de seu direito magoado, para outro cabe a responsabilidade de adimplir e auxiliar a fazer justiça. Não cabe ao mediador ou facilitador demonstrar desinteresse na causa, menos ainda, reproduzir juízos de va- lor quanto aos problemas analisados. ■ Princípio da adaptabilidade: a conciliação das partes significa o encontro de melhores soluções ao conflito. A lide não pode ficar sem respostas e para isso formas e maneiras de desenvolver melhor o proce- dimento para a busca da pacificação é uma prerrogativa do mediador. Nas palavras de Bianchini (2012, p. 131): “A elasticidade procedimental provém da gama de exigências que podem ser apresentadas no decorrer da abordagem, sendo necessário conciliar as necessidades de maneira equilibrada e harmoniosa”. UNIASSELVI 1 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 Todos os princípios essenciais apresentados pela justiça restaurativa são pre- ceitos fundamentais apregoados e trazidos pela CartaConstitucional de 1988. Essa flexibilidade que apresenta a justiça restaurativa consegue desenvolver respostas para diversos tipos de casos apresentados, e seus reflexos podem ser sentidos inclusive em estudos da justiça comum que se referem à aplicação da restauração ao invés da retribuição. Os princípios também são destacados pelas convenções internacionais que iniciam após a Segunda Guerra, como a Resolução do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas de 2002. A resolução da ONU destaca o que significa justiça restaurativa, tendo por base seus princípios aceitos internacionalmente, explicando seus conceitos mais aceitos (PINTO, 2010, p. 6): “ 1. Programa de Justiça Restaurativa: significa qualquer programa que use processos restaurativos e objetive atingir resultados res- taurativos. 2. Processo restaurativo: significa qualquer processo no qual a víti- ma e o ofensor, e, quando apropriado, quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime, participam ativamente na resolução das questões oriundas do crime, geralmen- te com a ajuda de um facilitador. Os processos restaurativos podem incluir a mediação, a conciliação, a reunião familiar ou comunitária (conferencing) e círculos decisórios (sentencing circles). 3. Resultado restaurativo: significa um acordo construído no pro- cesso restaurativo. Resultados restaurativos incluem respostas e programas tais como reparação, restituição e serviço comunitário, objetivando atender as necessidades individuais e coletivas e res- ponsabilidades das partes, bem assim promover a reintegração da vítima e do ofensor. 4. Partes: significa a vítima, o ofensor e quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime que podem estar envolvidos em um processo restaurativo. 5. Facilitador: significa uma pessoa cuja papel é facilitar, de maneira justa e imparcial, a participação das pessoas afetadas e envolvidas num processo restaurativo. 1 1 1 Sombras do passado As Comissões de Verdade de Reconciliação, movimento ocorrido na África do Sul a partir de 1992, versam sobre a justiça restaurativa naquele país. Eram anistiados aqueles que confes- savam publicamente seus crimes de guerra, na época do apar- theid. Vale a pena conferir como se deu lá o que estudamos aqui, nesse tema. O filme é dirigido por Tom Hooper, e tem as participações de Hilary Swank e Chiwetel Ejiofor, com o título Sombras do passado, lançado no ano de 2004. INDICAÇÃO DE FILME OS ADVENTOS DA LEI 9099/1995 E A JUSTIÇA CONSENSUAL NO BRASIL A justiça restaurativa se baseia em procedimentos de consenso onde vítima e infrator e mesmo, pessoas da comunidade que se sintam envolvidos na infração e por ela tenham sido afetados, fazem presença coletiva e participam na criação de soluções com intuito de restaurar o mal, harmonizar suas perdas e buscar a pacificação, de uma forma mais célere e justa. Justamente por esse motivo ela é presente em vários países do mundo todo (PINTO, 2010). No Canadá, já se faz efetiva desde 1974, onde há o Centro de Justiça Restaura- tiva Comunitária de Victoria, na província de Ontário, fundada em 1976. A Nova Zelândia, considerada um dos países pioneiros na aplicação da Justiça Restaura- tiva quando o assunto são os menores de idade, notou um acentuado decréscimo nos delitos cometidos por jovens infratores que passaram pelo procedimento restaurativo em um primeiro desvio. Dessa forma, o retorno à criminalidade não se desenvolveu, por conta de um programa de ressocialização mais inclusivo, que envolve família e comunidade ao redor (ZEHR, 2008). Nos países cujo sistema da common law impera, a justiça restaurativa já é presente a mais de quatro décadas. Isso é referente à abertura que tal sistema legal se dá em relação à discricionariedade do promotor de justiça, em processar ou não o caso apresentado, seguindo o princípio da oportunidade. Há a possibilidade de UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 programas alternativos, que sejam apresentados pelo próprio Ministério Público, muito antes da ação penal. De forma oposta, o sistema utilizado no Brasil (civil law) precisa de normas e leis que ditem esse costume, respeitando o princípio da legalidade, sendo assim mais restritivo. Há, aqui, outro princípio influente que rege a ação penal, que é o da indisponibilidade; portanto, o membro do Mi- nistério Público não pode deixar de intentar com a ação, sempre que existir as suas causas. Entretanto, mesmo com as diferenças entre os dois sistemas, se deu o aperfeiçoamento do mandamento constitucional previsto no artigo 98, em seu inciso I, com a criação da Lei n° 9.099/1995, que institucionalizou a justiça restaurativa, mesmo que ainda em fase muito inicial (PINTO, 2010). Nas infrações de ação penal de iniciativa privada, que ocorre quando o ofendido deseja ter seu direito harmonizado pela justiça, através de sua própria vontade provocando a atividade jurisdicional, “é possível para as partes optarem pelo procedimento restaurativo e construírem um outro caminho, quer não o judicial, para lidar com o conflito” (PINTO, 2010, p. 21). AÇÃO PENAL PÚBLICA: onde o titular do direito de ação é o Estado, por intermédio de seu representante o Ministério Público, que age através da denúncia promovi- da pelo Promotor de Justiça contra o réu. É aplicada aos crimes de maior potencial ofensivo. A aplicação da Justiça Restaurativa aqui ainda engatinha, mas há possi- bilidades de aumentar sua participação. AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA: precisa da representação da vítima para que venha a ser instaurada, como nos casos de violência doméstica. AÇÃO PENAL PRIVADA: é iniciada pela vontade do lesado ou ofendido, nos crimes de menor potencial ofensivo, cujas penas não ultrapassem 2 anos. Aqui há a maior parte da aplicação da Justiça Restaurativa no país. ZOOM NO CONHECIMENTO Segundo Pinto (2010, p. 22), essa “inovação da Constituição de 1988, pode-se dizer que o princípio da oportunidade passou a coexistir com o princípio da obrigatoriedade da ação penal". Tanto em fase preliminar de conciliação, que é o primeiro contato das partes envolvendo situações de infrações penais, quanto em procedimento contencioso, as partes podem promover a justiça restaurativa e obter uma conciliação que passa a ser aceita pelo poder judiciário. 1 1 8 Dessa forma: “ A lei dos juizados especiais cíveis e criminais regula o procedimen- to para a conciliação e julgamento dos crimes de menor potencial ofensivo –é nela onde está a principal janela -com a composição civil (artigo 74 e parágrafo único), a transação penal (76) e a sus- pensão condicional do processo (artigo 89) (PINTO, 2010, p. 22). Quanto à importância da apresentação de conceitos jurídicos para a normatiza- ção penal no país, a extinção da punibilidade do agente pode se dar através da composição civil nos casos de ação penal privada, e também nas ações penais pú- blicas condicionadas. Na ação penal estritamente pública, existe a possibilidade da discussão sobre a resolução da lide, onde se discute sobre penas alternativas que possam ser adequadas ao caso concreto (BIANCHINI, 2012). Aqui, há a possibilidade da conciliação e da transação penal, e os artigos 72, 73, 74 e 79 da Lei dos Juizados Especiais (9099/95) apresentam sua metodologia quanto à audiência preliminar, conciliação e composição dos danos civis: “ Art. 72. Na audiência preliminar, presente o representante do Ministério Público, o autor do fato e a vítima e, se possível, o respon- sável civil, acompanhados por seus advogados, o Juiz esclarecerá sobre a possibilidade da composição dos danos e da aceitação da proposta de aplicação imediata de pena não privativa de liberdade. Art. 73. A conciliação será conduzida pelo Juiz ou por conciliador sob sua orientação. Parágrafo único. Os conciliadores são auxiliares da Justiça, recru- tados, na forma da lei local, preferentemente entre bacharéis em Direito, excluídos os que exerçam funções na administração da JustiçaCriminal. Art. 74. A composição dos danos civis será reduzida a escrito e, homologada pelo Juiz mediante sentença irrecorrível, terá eficácia de título a ser executado no juízo civil competente. Parágrafo único. Tratando-se de ação penal de iniciativa privada ou de ação penal pública condicionada à representação, o acordo ho- mologado acarreta a renúncia ao direito de queixa ou representação. UNIASSELVI 1 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 Do Procedimento Sumaríssimo Art. 79. No dia e hora designados para a audiência de instrução e julgamento, se na fase preliminar não tiver havido possibilidade de tentativa de conciliação e de oferecimento de proposta pelo Mi- nistério Público, proceder-se-á nos termos dos arts. 72, 73, 74 e 75 desta Lei (BRASIL, 1995, on-line, grifos do autor). Assim, a busca pela conciliação e pela composição agora se perfazem legalmente e passam a ser as tratativas iniciais e comuns dentro dos Juizados Especiais. A discussão agora é a ampliação desse modelo para algumas situações penais de maior potencial ofensivo, sempre quando houver possibilidade para isso. No en- tanto, o que vale é a vontade, tanto da vítima quanto do infrator, em se submeter à justiça restaurativa entendendo seus conceitos e possibilidades (ZEHR, 2008). Há também a suspensão condicional do processo, em que tanto crimes de menor potencial ofensivo, quanto de médio potencial ofensivo podem ser agra- ciados com esse instituto, segundo artigo 89 da Lei n° 9099/1995 (BRASIL, 1995, on-line, grifos do autor): “ Art.89. Nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano, abrangidas ou não por esta Lei, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão do pro- cesso, por dois a quatro anos, desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presen- tes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. 77 do Código Penal). § 1º Aceita a proposta pelo acusado e seu defensor, na presença do Juiz, este, recebendo a denúncia, poderá suspender o processo, sub- metendo o acusado a período de prova, sob as seguintes condições: I - reparação do dano, salvo impossibilidade de fazê-lo; II - proibição de frequentar determinados lugares; III - proibição de ausentar-se da comarca onde reside, sem auto- rização do Juiz; IV - comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmen- te, para informar e justificar suas atividades. § 2º O Juiz poderá especificar outras condições a que fica subordi- nada a suspensão, desde que adequadas ao fato e à situação pessoal do acusado. 1 8 1 § 3º A suspensão será revogada se, no curso do prazo, o beneficiário vier a ser processado por outro crime ou não efetuar, sem motivo justificado, a reparação do dano. § 4º A suspensão poderá ser revogada se o acusado vier a ser processado, no curso do prazo, por contravenção, ou descumprir qualquer outra condição imposta. § 5º Expirado o prazo sem revogação, o Juiz declarará extinta a punibilidade. § 6º Não correrá a prescrição durante o prazo de suspensão do processo. § 7º Se o acusado não aceitar a proposta prevista neste artigo, o processo prosseguirá em seus ulteriores termos. Situações que são passíveis de suspensão do processo podem ser levadas à núcleos de justiça restaurativa para acompanhamento multidisciplinar com intuito de capacitar as partes sobre seus direitos e obrigações. No momento do aceite da suspensão do processo, ela ficará suspensa pelo prazo que pode ir de dois a quatro anos, dependendo da gravidade da infração. Nesse período, o infra- tor deve cumprir algumas obrigações, como o seu não envolvimento em práticas ilícitas sob pena de revogação da suspensão e retorno da instauração do processo, a reparação do dano causado, e determinadas restrições de direitos expostos na lei. A lei também apresenta o instituto despenalizador da transação penal. Para o artigo 76, da Lei n° 9099/95, “havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Mi- nistério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multas, a ser especificada na proposta" (BRASIL, 1995, on-line). Significa que, em casos de menor potencial ofensivo, o Ministério Público pode oferecer uma dessas opções citadas pelo artigo 76, sem que seja observado nenhum fato ou mérito da questão em audiência. Mas perceba que não se trata de confissão do acusado ao delito a ele imputado inicialmente, mas sim de um acordo em comum firmado entre vítima e infrator. O acordo deve ser aceito pela parte, não possuin- do a sentença efeitos de condenação ou de culpa do agente. Ocorre que com o acordo, o agente não poderá se envolver em nenhum ilícito penal pelo prazo de 5 anos, pois, se ocorrer, não poderá mais ser beneficiado pela transação penal. O instituto da transação, portanto, não produz sentença penal condenatória: UNIASSELVI 1 8 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 “ A decisão que homologa a transação penal não pode ser consi- derada como condenatória, ainda que imprópria, pois não houve acusação e a aceitação da imposição não produz consequências na esfera criminal, exceto para evitar novo benefício dentro do pra- zo de cinco anos. Não se admite culpabilidade com a aceitação da proposta. Ela não constará do registro criminal e, dessa forma, não gerará reincidência (GRINOVER, 2001, p. 156). Podemos perceber a influência da justiça restaurativa, tanto em nossas leis quanto no desenvolvimento da justiça em si, através de seus operadores. Essa mudança de paradigma reflete alterações na concepção do que seja mais útil para todos envolvidos nos problemas sociais, como o crime: se é a penalização da jus- tiça retributiva alcançando a punição ou a despenalização da justiça restaurativa em busca de resultados mais abrangentes. Nesse ponto, destaca-se que, em crimes e delitos considerados a partir de seu médio potencial ofensivo, como o porte de drogas que não seja específico para o tráfico de ilícito de entorpecentes, ou mesmo o estelionato desde que o agente não o tenha praticado e sido punido pelo mesmo fato anteriormente, são delitos passíveis da justiça de transição, conhecida como restaurativa (ZEHR, 2008). 1 8 1 Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EM FOCO NOVOS DESAFIOS É importante analisar a Lei dos Juizados Especiais como um instrumento capaz de mudar paradigmas antes aceitos como padrões previamente estipulados. Al- terar a concepção de que as leis penais servem somente para penalizar, significa deixar de lado a responsabilização do agente, e somente aplicar a punição. Nesse sentido, vários doutrinadores da criminologia e da vitimologia desenvolveram grandes possibilidades para o futuro da mediação de conflitos em crimes de menor e médio potencial ofensivo. Isso significa que a lei em comento em todo esse tema (Lei n° 9.099/1995) conseguiu trazer à baila o assunto e desenvolvê-lo em discussões e debates sobre sua real serventia. E você, estudante, verá que as situações do dia a dia, inseridas em nossa socie- dade, são tão complexas quanto a modernidade em que vivemos, e muitas vezes merecem o nosso olhar mais crítico e menos penalizador. O desafio que fica é esse: entender a justiça restaurativa como uma quebra de um padrão que não mais oferece serventia na atualidade, e que pode ser melho- rado a partir de novos estudos e aplicações da harmonização do direito. Para que isso seja possível, vale lembrar que quando um paradigma se torna impossível de ser adimplido ele entra em uma crise, sendo necessário a intervenção de novos padrões (DUSSEL, 1995). Isso ocorre com todo o sistema carcerário penal, que não serve aos intentos de ressocialização, mas unicamente de punição. Após anos de evolução humana, não se enxerga que sistemas tão degradantes possam ainda estar de pé, criando ainda mais problemas para o trato social do que de fato resol- vendo-os.perante ao ilícito, e outro de caráter pluridisciplinar, alcançando formas de proteção; seja física ou mental, das vítimas de desvios diversos (PIE- DADE, 1997). A partir daqui, caberia ao Estado o acompanhamento psicológico e médico da vítima, que não se perfaz mais em apenas instrumento para a decisão judicial final, mas dotada de dignidade. Dessa forma, são duas as formas de interpretação do significado de vítima, depois do aperfeiçoamento dos estudos de Vitimologia, com o término da Segunda Guer- ra Mundial. São eles: Natureza disciplinar, analisando o comportamento da vítima frente ao crime, e Natureza pluridisciplinar, no acompanhamento de vítimas de crimes quanto ao trauma causado, seja psicológico, moral, econômico ou social. ZOOM NO CONHECIMENTO O movimento que se inicia é o de acompanhamento da vítima, através de estudos com o objetivo de interpretar sua ressignificação no decorrer dos tempos, apresen- tando maiores possibilidades, uma vez que pela Vitimologia ela passa a ser identifi- cada como principal personagem, não apenas mero instrumento para a ação penal. UNIASSELVI 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 Nesse sentido, para Bittencourt (1971, p. 21): “ A vítima adquire relevante preponderância no estudo do delito e que se elimine o critério que a reduzia à condição de passiva recep- tora da ação delituosa. E assim, igualmente se destrói a insuficiente afirmação de que só o delinquente pode decifrar o problema do crime, sem considerar que sua existência como tal só é possível com a correlata existência da vítima e que toda ação dirigida única e exclusivamente ao delinquente fundar-se-á sobre bases falsas. Nesse contexto, diversos códigos de lei penalizadoras, inclusive o Código Penal Brasileiro, datado de 1940, passaram a identificar a vítima, mas apenas através da natureza disciplinar, ou seja, qual a efetiva participação ou desempenho da vítima nos crimes por ela sofrido (BITTENCOURT, 1971). Vamos analisar como a Criminologia começou a ter a vítima como objeto de estudos, e como hoje desenvolve suas reflexões a partir dessa discussão. OS ESTUDOS DA CRIMINOLOGIA ACERCA DA VITIMOLOGIA Como dissemos, Benjamin Mendelsohn denominou Vitimologia na Conferên- cia de Bucareste em 1947. Após a apresentação da temática, os estudos versados sobre ela não pararam. Em 1948, Hans Von Hentig, psicólogo criminal alemão, em sua obra inti- tulada “O criminoso e sua vítima”, inaugura a palavra vitimogênese quando apresenta a origem da vitimidade. A partir daqui, os estudos de Criminologia a respeito desse assunto se desenvolveram e demonstraram uma personagem anteriormente esquecida pelos seus precursores (BITTENCOURT, 1974). É fato que as primeiras escolas de Criminologia não se importaram em es- tudar a vítima de crimes, sua atuação na contenda e mesmo, sua situação após o desvio. Mesmo a Escola Clássica que passou a analisar os direitos do criminoso através de um julgamento justo, não estendeu sua temática ao comportamento da vítima (BITTENCOURT, 1971). 1 1 Sua predecessora, a Escola Positiva, fundada pelo italiano Cesare Lombroso no final do Século XX, analisava o crime a partir do criminoso. Dessa forma, os motivos para que desvios ocorressem na sociedade estavam diretamente ligados a pessoa do desviante. Entretanto, mesmo a Criminologia precursora não absorve estudos centrados na vítima, o que passou a mudar com Mendelsohn em 1947, e com o fortalecimento da Escola dos Annales, na França do pós-guerra. O movimento iniciado naquela época, que se envolvia com compenetrados estudos acerca do desenvolvimento social, passou a se preocupar com um fan- tasma que surgia com a polarização do mundo entre Estados Unidos e União Soviética: a guerra fria (HOBSBAWN, 1994). Assim, a campanha que surgia dentro das nações ocidentais era de intolerância contra o crime e o desvio, demonstrando força perante qualquer adversário, mesmo que esse esteja além-mares. Os controles de segurança dos Estados, através da força penal, desenvolviam agressivos combates contra desviantes de qualquer tipo, o que passou a ser inves- tigado pelo criminalista Alessandro Baratta através do seu conceito da Ideologia da Defesa Social, em que a penalização era uma fonte de defesa da sociedade perante o criminoso, e não mais que isso. Tal ideologia concentrou suas forças em determinar que o homem disposto a cometer crimes diversos deve ser neutrali- zado pela força do Estado, e que a penalização retributiva aplicada servia como instrumento pedagógico, demonstrando a intolerância social diante a qualquer tipo de desvio (BARATTA, 2011). Perceba que esse movimento, iniciado através da Escola Positiva de Crimi- nologia, passou a ser desenvolvido enfaticamente após alguns acontecimentos mundiais, que marcaram uma época. Desde a Segunda Guerra, como o atentado das Torres Gêmeas em Nova Ior- que de 2001, os Estados desenvolvem formas e maneiras de combater o crime, a partir da figura do criminoso. Se Cesare Lombroso utilizava de seus métodos de leitura física e corporal (atavismo), concluindo que determinadas pessoas pos- suem através de sua aparência o cerne para o crime, após o 11 de setembro esse pensamento passou a ser reutilizado no mundo ocidental, onde pessoas oriundas de países muçulmanos (ou de aparência árabe) eram detidas ao desembarcar em aeroportos nos Estado Unidos, e algumas vezes, através da violência institucio- nalizada (BAUMAN, 2006). UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 Aqui os valores da penalização do Estado passam a afrontar o medo de todos, a partir do imaginário do estrangeiro. Para alguns, surgia a criação de novas víti- mas, fato que somente havia ocorrido com tanta veemência na Segunda Grande Guerra (ANDRADE, 1997). Entretanto, surgia com força a Escola de Chicago, criada nos anos 30. Seus estudos iriam de acordo com os problemas econômicos enfrentados pelo mundo ocidental nos anos 20, o que levou a quebra da bolsa de valores em Nova Iorque de 1929. Porém, tal escola não ficou fadada apenas aos aspectos econômicos. Através dos problemas causados por uma economia em crise, que abala as estruturas de empresas tanto quanto das famílias espalhadas pelas grandes cidades, havia a necessidade de estudar os motivos do crescimento da onda de desvios e crimes naquela época. Para tal, a Escola de Chicago desenvolveu algumas ponderações e passou a reinterpretar o crime, o criminoso e até mesmo, a vítima. A Escola de Criminologia Chicago se opunha ao pensamento da sua an- tecessora, a Escola Positiva, apresentando um novo olhar em relação à crimi- nalidade. Para os estudiosos agora, o crime e todas as suas nuances terão relação direta com a reação social ao seu redor. Através desse pensamento, em 1960 a Teoria da Reação Social, ou Teoria Interacionista, tomava conta dos estudos sobre o desvio e como ele é definido pela sociedade. Para essa Teoria, pessoas que passam a ser rotuladas pelo sistema penal são marcadas previamente para possuírem determinados rótulos, que as acompanha para a vida toda, não conseguindo se desvencilhar desse estigma. A partir da reação social, advinda inclusive a partir do espetáculo midiático, determinados desviantes possuem a alcunha de criminoso irreversível, e com isso, o sistema penal é a única solução para esses desviantes. A teoria do etiquetamento, ou da reação social, ratifica o pensamento criminológico crítico, ao afirmar sua completa ruptura e desajustamento às teorias biológicas e psicológicas, descontruindo uma crença de que o desvio seja um conjunto de características essenciais a determinado conjunto de pessoas, definindo que é parte de um processo de interação entre os indivíduos. 1 1 A crítica realizada por essa teoria é baseada na interpretação das pessoas sobre o que é crime e criminoso, mudando paradigma anterior, que visava a pessoa do criminoso através de suas peculiaridades físicas e psicológicas. Agora im- porta a sociedade ao redor, os controles do Estado e a gerência do poderPor esse motivo, quem sabe a justiça restaurativa, na responsabilização, no bom senso, na pena ponderada e proporcional e na busca por uma sanção mais utilitária não seja essa mudança de paradigma da qual tanto necessitamos em nossa sociedade complexa. UNIASSELVI 1 8 1 1. A justiça restaurativa é aplicada nos Juizados Especiais e envolvem infrações penais de menor potencial ofensivo, entretanto, há ampla possibilidades de sua aplicação em alguns fatores que envolvem a Justiça Comum, em crimes possíveis de sua aplicação. Sobre os personagens da justiça restaurativa, assinale a alternativa correta: a) Para ser um facilitador nos processos de justiça restaurativa não há necessidade de treinamento específico. b) Mediadores são neutros, mas conciliadores devem aconselhar e induzir as partes para a restauração do conflito. c) A figura do conciliador não deve ser neutra no processo, mas se envolver com a parte que acredita ter o direito de reparação. d) Nos Juizados Especiais Criminais há o conciliador ou mediador dos problemas que pre- cisa tentar resolver o caso apresentado desenvolvendo a comunicação entre as partes. e) Os mediadores devem aconselhar e compelir a conciliação, que é um dos mais impor- tantes mecanismos da Justiça Restaurativa. 2. Os destacar princípios da justiça restaurativa estão sempre em conexão com a Constituição de 1988, são eles: voluntariedade, consensualidade, confidencialidade, celeridade, urbani- dade, adaptabilidade, imparcialidade. Quanto aos princípios da justiça restaurativa, assinale a alternativa correta: a) Desenvolver o melhor procedimento para a busca da pacificação, através da aplicação de uma elasticidade procedimental capaz de buscar melhores resultados faz parte do princípio da urbanidade. b) O facilitador que se apresenta parcial, apresentando suas opiniões e mostrando desin- teresse na causa está ferindo o princípio da urbanidade. c) Os princípios destacados na justiça restaurativa e que se complementam aos princípios constitucionais carecem de normas internacionais que venham a universalizar a justiça restaurativa. d) O princípio da consensualidade tem ligação com o aceite espontâneo entre as partes, em participarem da justiça restaurativa. e) O desencorajamento à participação e a falta de informações sobre a justiça restaurativa para as partes fere o princípio da celeridade. AUTOATIVIDADE 1 8 4 3. A justiça restaurativa se baseia em procedimentos de consenso onde vítima e infrator e mesmo, pessoas da comunidade que se sintam envolvidos na infração e por ela tenham sido afetados, fazem presença coletiva e participam na criação de soluções com intuito de restaurar o mal, harmonizar suas perdas e buscar a pacificação, de uma forma mais célere e justa. Justamente por esse motivo, ela é presente em vários países do mundo todo. Quanto aos mecanismos da Lei n° 9099/1995, responda a alternativa que identificar como correta: a) Ao pacificar a composição dos danos civis, e ter a sentença decretada pelo juiz confir- mando a composição, ela passa a ser irrecorrível. b) A composição dos danos civis não se perfaz em título judicial, não podendo ser execu- tada em juízo competente para isso. c) Em ação penal de iniciativa privada mesmo que o acordo que se homologa surta seus efeitos, ainda há a possibilidade da apresentação da queixa crime. d) Se na audiência preliminar não existir possibilidades de acordo, o juízo poderá interferir a realizar a composição que mais achar conveniente para o acordo entre as partes. e) A ausência de uma audiência preliminar para o esclarecimento das partes é uma grande crítica à justiça restaurativa. AUTOATIVIDADE 1 8 5 REFERÊNCIAS BARATTA, A. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal . Introdução à Sociologia do Direito Penal. 6. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2011. BIANCHINI, E. Justiça Restaurativa: um Desafio à Práxis Jurídica. Campinas/SP, Servanda Edi- tora, 2012. BRASIL. Lei nº 9 .099, de 26 de setembro de 1995. Brasília, 1995. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9099.htm. Acesso em: 1 nov. 2023. DUSSEL, E. Filosofia da Libertação: crítica à ideologia da exclusão. Trad. de George I. Maissiat. São Paulo: Paulus, 1995. GRINOVER, A. P. O processo em evolução. STRUENSEE, E.; MAIER, J. B. J. Introdução. In: MAIER, J. B. J. et al. (coord.). Las reformas procesales penales en América Latina. Buenos Aires: Ad Hoc, 2000. GRINOVER, A. P. et. al. Juizados Especiais Criminais: comentários à Lei n° 9.099, de 26.09.1995. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001. PINTO, R. S. A construção da Justiça restaurativa no Brasil: o impacto no sistema de justiça cri- minal. Revista Paradigma/Universidade de Ribeirão Preto –UNAERP, a. XV, n. 19, jan./jul. 2010. Disponível em: https://revistas.unaerp.br/paradigma/article/view/65. Acesso em: 2 nov. 2023. ZAFFARONI, E. R. Criminologia: aproximación desde un margem. Terceira reimpresión. Bogotá: Temis, 2003. ZEHR, H. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justiça. São Paulo: Palas Athena, 2008. 1 8 1 1. Opção D. A alternativa A está errada, pois há necessidade de treinamento extensivo e prá- tica para a função de conciliador. A alternativa B está errada, pois tanto mediadores quanto conciliadores tomam posição neutra no procedimento, não induzindo nenhuma das partes que devem chegar a um acordo pelas suas próprias convicções. A alternativa C está erra- da, pois o conciliador deve ser neutro. A alternativa E está errada, pois os mediadores não aconselham, muito menos obrigam para que a conciliação ocorra. 2. Opção D. A está incorreta, pois se trata aqui do princípio da adaptabilidade. B está errada, pois o facilitador nesse caso, fere o princípio da imparcialidade, devendo ser justo e parcial a todo momento, não demonstrando juízo de valor ao procedimento. C está errada, porque o Brasil é signatário de tratados e resoluções da ONU, como a Resolução do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas de 2002. E está errada, pois o desencorajamento à participação e a falta de informações sobre a justiça restaurativa para as partes fere o princípio da voluntariedade. 3. Opção A. A alternativa B está errada, pois a composição dos danos civis terá eficácia de título a ser executado no juízo civil competente, segundo o artigo 74 da Lei n° 9.099/1995. C está errada, pois o acordo homologado acarreta a renúncia ao direito de queixa ou re- presentação, segundo parágrafo único do artigo 74 da Lei n° 9.099/1995. D está incorreta, pois juízes ou mediadores não podem, sob nenhum contexto, forçar a composição entre as partes. E é errada, porque o artigo 72 da Lei n° 9.099/1995 prevê a audiência preliminar para esclarecimento sobre a metodologia do processo de justiça restaurativa. GABARITO 1 8 1 MINHAS METAS OS CAMINHOS PARA AS ALTERNATIVAS: POLÍTICA CRIMINAL E O MINIMALISMO PENAL Analisar os significados de política criminal e sua importância para a diminuição de crimes. Desenvolver o senso crítico quanto às crises nos sistemas penitenciários. Analisar a importância de uma política criminal e políticas públicas de qualidade para diminuir os crimes e sua reincidência. Estudar o abolicionismo e minimalismo penal. Interpretar o minimalismo penal como possível instrumento para o aumento da utilização da justiça consensual. Diagnosticar os problemas do direito penal e avaliar possíveis situações de cura com a justiça consensual restaurativa. Entender a importância da justiça consensual no sistema em crise. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 9 1 8 8 INICIE SUA JORNADA O problema que vivenciamos hoje é como tratar o imenso número de detentos e presos, desde provisórios até mesmo aqueles já sentenciados, que somente vem a crescer no país. A criação de mais presídios somente demonstra que o país é, através de seu sistema de penalização, um dos maiores criadores de vítimas e vítimas em potencial dentro de suas bordas. Isso evidencia ainda mais a crise do atualpadrão de encarceramento. Só a Lei de Drogas (n°11.343/2006) foi capaz de causar, em poucos anos de sua vigência, o aumento da população carcerária, que já era antes considerada infame. Agora, viciados e usuários de drogas podem ser presos como traficantes, uma vez que o princípio da taxatividade não está presente na redação da norma, o que faz com que a interpretação do que seja criminoso/usuário seja realizada de forma subjetiva por policiais e juízes. Será que há outra opção mais viável que os presídios e que a penalização, causadora de estigmas que podem se amoldar nos personagens e nunca mais os abandonarem? A justiça restaurativa consensual é uma possibilidade plausível de responder essa pergunta. Ela pode ser utilizada não apenas nos Juizados Especiais, mas se estender para todo o direito. Mas, para isso, há a necessidade de uma intensa contração no direito penal e em sua forma de punição. Por isso, precisamos fa- lar sobre o abolicionismo e o minimalismo penal como formas alternativas ao direito penal usual. Convido-lhe a mais uma vez a ouvir o nosso podcast, preparado para tratar do as- sunto desse tema. O que significa abolicionismo penal, minimalismo penal, quais são suas origens e vertentes mais exclusivas, qual o rumo para as alternativas para o direito de punição, será que essas são realmente o caminho a seguir? E qual será a ligação da política criminal em meio a isso tudo? Vamos lá!? Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. PLAY NO CONHECIMENTO UNIASSELVI 1 8 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 DESENVOLVA SEU POTENCIAL O filósofo Thomas Kuhn apresenta um influente pensamento para nossos estudos acerca do direito penal moderno. Segundo ele, “o fracasso das regras existentes é o prelúdio para uma busca de novas regras” (KUHN, 2006, p. 95). Se estamos em crise com o sistema carcerário, com a punição do direito criminal que somente cria cada vez mais violência e, com isso, pessoas mais violentas; então o despensar do usual se torna essência. Por esse prisma, para continuarmos com temas como justiça restaurativa e solução de conflitos por intermédio da mediação, precisamos conversar e entender sobre política criminal e seus reais significados para a modernidade. Se existe de fato uma crise na punição estatal, significa que sua perpetuação já pode ser considerada uma violência, criadora de mais e mais vítimas (ZEHR, 2008). VAMOS RECORDAR? Quando falamos sobre justiça restaurativa, estamos trazendo um tema que não é usual, não é comum. O direito penal sempre foi escrito de forma a penalizar os sujeitos que praticam o que está descrito como ato ilícito no Código Penal. Como forma de retribuição ao mal causado, a pena possui apenas essa serventia, que também é capaz de ser manejada de forma pedagógica. Entretanto, como estudamos, a crise no sistema penalizador é intensa, e é capaz de gerar muito mais crimes e vítimas do que realmente coibir os problemas que ela intenta sanar. Por esse motivo, movimentos minimalistas e abolicionistas penais ganham força, e tratam de assuntos também reconhecidamente anormais, como era e ainda pode ser considerada a justiça restaurativa. Assista, aqui , o vídeo que versa sobre os movimentos do minimalismo e abolicionismo penal. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. 1 9 1 POLÍTICA CRIMINAL Se estamos vivenciando uma crise do sistema penal, então devemos olhar com mais cuidado o que fazem as nossas políticas criminais. Ela é responsável por desenvolver estudos acerca do fenômeno criminal em uma sociedade e dessa forma, de distinguir como serão reali- zadas a tutela dos bens jurídicos pelo Estado, e quais serão considerados bens que devem ser protegidos. Mas para isso, há um caminho que deve ser percorrido, que se perfaz pelos valores sociais e pelo que é considerado como digno de proteção em cada sociedade. Para Zaffaroni (2011), política criminal significa a “ciência ou a arte de selecionar os bens (ou direitos), que devem ser tutelados jurídica e penalmente, e escolher os caminhos para efe- tivar tal tutela, o que iniludivelmente implica a crítica dos valores e caminhos já eleitos" (ZAFFARONI, 2011, p. 122). O filósofo Enrique Dussel apresenta ao mundo sua Filosofia da Libertação, em que destaca a crise dos sistemas. Para ele, quando um sistema entra em crise, significa que é insuportável conviver com ele, precisando dessa forma de uma quebra de paradigmas, na criação de novos padrões, portanto. A crise dos siste- mas, analisadas por Dussel, causou uma ruptura nos estudos antes balizados em traços eurocentristas, para um estudo legitimamente latino-americano, e isso envolve também a criminologia. Anos após, a criminologia venezuelana Lola An- yar de Castro escreveu Criminologia da Libertação, tendo como base os estudos libertadores de Enrique Dussel. A crise dos sistemas é possível de ser vista em nosso sistema carcerário, portanto, a criação de novos padrões pode ser a solu- ção, segundo o pensamento de Dussel (FERREIRA, 2020). APROFUNDANDO UNIASSELVI 1 9 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 Jescheck (1978) dizia ser através da política criminal que asseguramos a eficácia do direito penal em sua especial tarefa de proteção social. Segundo o autor, é importante sempre atentar para os limites do legislador penal, que precisa pre- servar o quanto possível as liberdades das pessoas (JESCHECK, 1978). A política criminal é considerada como um conjunto de recomendações ca- pazes de produzir e reformar a legislação penal, tomando como base as análises sobre o sistema penal existente e das instituições penais. Nilo Batista (2007) di- vide os estudos em três etapas bem distintas, em que “podemos falar em política de segurança pública (ênfase na instituição policial), política judiciária (ênfase na instituição judicial) e política penitenciária (ênfase na instituição prisional)” (BATISTA, 2007, p. 34). No sentido dado por Batista (2007), podemos interpretar que políticas de segurança pública, que envolvem a participação das polícias da repressão e in- vestigação dos crimes, a polícia judiciária, que tem a sua atuação unicamente calcada ao auxílio do poder judiciário, e a política penitenciária, são afetadas pelo que se define nas políticas criminais que surgem como representantes da vontade do Estado (BATISTA, 2007). Seja como for, a estrutura de uma política criminal no Estado de Direito deve seguir a supremacia constitucional, guardando seus princípios e valorando seus mandamentos mais essenciais. E os estudos da vitimologia empreendem dados concretos sobre a importância de uma política criminal centrada nas melhores e mais úteis respostas, que se transformam em políticas públicas (ZEHR, 2008). A política criminal pode ser levada ao extremo na ênfase da segurança pú- blica e política penitenciária, ou ao mínimo em todas as suas vertentes. Isso não significa retirar verbas orçamentárias da segurança pública, mas sim, em modelar um programa conjunto à outras políticas que visem diferenciados setores auxi- liares da segurança, como a educação, as oportunidades diversas, a atenuação das desigualdades sociais (ZEHR, 2008). A grande importância dos estudos de criminologia e da vitimologia se revelam na seguinte ordem: • Criminologia → Realidade Social = Política Criminal. 1 9 1 A Lei n° 9.099/1995, conhecida como Lei dos Juizados Especiais, é consi- derada uma lei criada por uma política criminal que tenta minimizar a força do direito penal, diminuindo a sua capacidade de penalização. Antes dela, a força de punição era o grande aspecto do direito penal, hoje há a contribuição do novo padrão, que passa a se amoldar em julgamentos e na própria constituição da justiça (BIANCHINI, 2012). Entretanto, infelizmente, em nosso modelo de segurança pública, a política criminal não passa de auxiliar na efetivação apenas do poder punitivo do Estado contra as “forças do mal”, que mitiga a suade problemas de saúde mental e psicológicas graves, tratamento para usuários de drogas (pois o sistema penal é ineficiente nesse ponto), o aumento de políticas públicas de qualidade, o aumento de oportunidades através de uma economia que evidencie a diminuição das desigualdade econômicas no país, o aumento de escolas profissionalizantes e sistema de apoio ao desamparado através da renda universal. Para Batista (2012), ainda é urgentemente necessário acabar com a guerra às drogas, tratando o problema como uma situação de saúde e não do direito penal. Para o abolicionismo, é preciso que o sistema penal desapareça, entretanto, deve existir a manutenção de algumas formas coercitivas de controle social, para a re- solução de conflitos, como a justiça consensual (BATISTA, 2012). APROFUNDANDO Uma outra alternativa, não tão severa a ponto de uma total ruptura com o sistema de penalização, é o minimalismo penal ou abolicionismo mínimo. Autores como o criminólogo italiano Alessandro Baratta e o argentino Eugenio Raúl Zaffaroni fazem parte desse pensamento. O minimalismo busca alternativas que sejam mais eficientes para a redução da incidência crime, entretanto, aceita UNIASSELVI 1 9 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 o direito penal em sua contração máxima. Sua meta seria a reforma total do sistema penal, tendo como bandeira principal a despenalização e a intervenção mínima de sua força, sendo chamado conforme o princípio da ultima ratio, e isso, somente se for realmente necessário. As penas alternativas são suas bandeiras levantadas, e não é antagônico ao abolicionismo pois as duas vertentes buscam pelo mesmo resultado (BATISTA, 2012). Na comparação, os dois métodos defendem a quebra do sistema inútil de penalização do Estado, entretanto, ambos sugerem a manutenção de formas sociais de controle, com uma maior atenção aos crimes mais severos. Entretanto, enquanto o aboli- cionismo se refere à abolição do sistema penal, o minimalismo (ou abolicionismo mínimo) intenta a substituição das penas por outras possibilidades, como maneiras ideais para resolver conflitos, sendo o direito penal contraído ao máximo. Essas penas podem ser aplicadas pelo direito penal, como é o exemplo da Lei n° 9.099/1995, só que a partir de seus ensinamentos, mais expandida (ZAFFARONI, 1991). ZOOM NO CONHECIMENTO A aplicação da justiça consensual, é oportunizada no minimalismo penal com veemência, mesmo sabendo existir crimes de maior potencial ofensivo, que devem ser analisados caso a caso. A Lei dos Juizados Especiais no Brasil é a única que efetiva a justiça restaurativa, mesmo o país sendo signatário de tratados da ONU que versam sobre a ampliação desse sistema. As vítimas de crimes têm uma maior participação nos procedimentos de instauração da responsabilidade do agente, inclusive auxiliando em sua penalização ou sanção, que é diferente do castigo punitivo penal (OLIVEIRA, 2018). O que é crime? Na tentativa de definir o conceito crime, há muito tempo a criminologia trouxe os seus discursos baseados na pessoa do infrator, que por alguma causa genética ou psicológica passa a ser autor de delitos (Escola Positiva do Direito Penal), o que fez com que seu discurso fosse mesmo preconceituoso, através do atavismo. A evolução desse pensamento foi acontecendo pouco a pouco (com a Teoria Crítica, a Escola dos Annales, a Escola de Frankfurt), mas infelizmente ele ainda 1 9 8 é muito influente. Com o surgimento da Escola de Chicago, mais precisamente com a obra de Howard Becker, intitulada Outsiders, houve uma total reviravolta nos estudos e análises da criminologia. Agora a criminologia passa a analisar a reação social no entorno do crime, ou seja, como as pessoas ao redor definem o que é crime e o que é criminoso. Defende também a imposição de alcunhas que rotulam aquele que não segue os anseios sociais, ou que se coloca à margem dos motivos mais inclusivos das sociedades. É estudado, nesse sentido, portanto, a Teoria da Rotulação (Etique- tamento Social) ou do Labeling Approach, que explica sobre os como os rótulos são impugnáveis e se amoldam na pessoa, que, através dele, torna-se o eterno desviante ou outsider (BECKER, 2008). De fato, é essencial para definir o que é crime, deixar de lado as teorias apre- sentadas pelos Códigos Penais e focar em situações mais sociais, capazes de envolver-se com vontades e com controles também. A definição de crime, por- tanto, serve para que se identifique, na sociedade, quem é o criminoso e, dessa forma, qual a melhor forma de tratar com seus problemas. Para a criminologia, a importância de desvendar a essencialidade da palavra crime serve para realçar melhores estudos que possam otimizar as futuras políticas criminais e políticas públicas sociais de qualidade (BARATTA, 2011). Para a vitimologia, incide mais no tratamento das vítimas, a partir do que a sociedade interpreta como crime. Para Nils Christie (2011), atribui-se ao crime o significado que se queira atribuir, pois sua exegese parte de uma natureza dedutiva e subjetiva dos sujeitos envolvidos. “O crime não existe”, mas o que há “são apenas atos aos quais frequen- temente são atribuídos diferentes significados em cenários sociais diferentes.” Portanto, os “atos e seus significados são os nossos dados. Nosso desafio é seguir o caminho dos atos pelo universo de significados” (CHRISTIE, 2011, p. 20) O autor destaca também que determinados atos etiquetados por uma maio- ria, seja culturalmente, por preconceito ou valores de algumas tradições, se arrai- gam na interpretação do crime. Contudo, entende que inúmeras outras situações podem servir de escopo em detrimento ao direito penal, utilizando-se assim de um sistema paralelo de justiça, que não seja o massacrante direito das penas e suas bastilhas (FERREIRA, 2020). Grupos desviantes, pessoas estigmatizadas e rotuladas, moradores das camadas mais carentes da sociedade servem, destarte, ao direito penal e aos órgãos de controle do Estado para validar a força coercitiva e preventiva do sistema criminal e punitivo do país (FERREIRA, 2020). UNIASSELVI 1 9 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 Por consequência, o sistema penal se funda como controlador e selecionador, “flutuando entre os grupos da sociedade e agindo contra ações que muitas vezes são irrelevantes para o direito, mesmo por não haver nenhum tipo daquilo que se define como crime” (FERREIRA, 2020, p. 61). Veja que, quanto mais crimes pré-definidos como crimes, mais vítimas. É o caso da transformação do usuário de drogas em traficante pela Lei de Drogas, e quanto maior a estigmatização, mais vítimas são criadas. Dessa forma, se o âmbito social é capaz de definir o que é crime através de atos que tem para alguns o significado de crime, e para outros nem tanto, então é preciso de algo melhor e mais influente do que o direito penal (CHRISTIE, 2011). Na definição do que é crime, repousa possibilidades para o mi- nimalismo penal, pois também se envolve com suas con- cepções dentro das sociedades. Por certo, crimes de maior potencial ofensivo merecem um destaque maior para as penalizações, entretanto, ao minimizar o direito penal, são trazidas à baila as instituições de apoio, tanto para vítima, quanto para infrator, que faz a análise do caso concreto evidenciando o melhor remédio para to- dos, mas sempre negando os presídios espalhados Brasil afora, causadores de mais violência e ainda, de mais vítimas para o estudo da Vitimologia. Indico este vídeo, em que você pode ficar por dentro do influente pensamento de Nils Christie sobre o que ele analisa como crime: O que é crime? Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO 1 1 1 Política criminal e o minimalismo penal como alternativas Assim, tem-se em uma política criminal que verse mais sobre direitos funda- mentais que possam ser adimplidos com mais força pelo Estado, por exemplo os direitos de liberdade e de oportunidades de desenvolvimento da pessoa,jun- tamente com o direito penal mínimo como alternativa essencial para que a justiça consensual tenha mais importância. As polícias de proteção, repressão e ostensivas possuem sua função diante da população, mas deve se ater ao fato de que com o minimalismo penal, suas funções passam mais a acolher problemas sociais através de bases que fundamentam a polícia comunitária. Tal polícia já é realidade em alguns países, inclusive na América Latina (Chile), e labora como um mecanismo para a resolução de problemas sociais. Para aqueles crimes vio- lentos os quais não existem possibilidades de serem tratados a priori, o minima- lismo penal junta-se à justiça restaurativa ao evidenciar a criação de instituições de apoio especializadas (BATISTA, 2012). É nesse sentido que tanto vítimas de crimes, quanto a sociedade em si, pos- suem uma maior ênfase dentro dos processos que quebram o contrato social da vida em harmonia, e que podem ter seus direitos adimplidos sem a violência estatal dos presídios país afora (BATISTA, 2012). Mas isso somente será possível a partir da quebra do atual paradigma, que se demonstra de insuportável convivência, em uma crise que empurra a socie- dade mais longe dos ideais de justiça e harmonia. As vítimas de crimes, no sistema em crise, mesmo possuindo mecanismos que passem a reverenciar seus significados, ainda estão fadadas a serem revitimizadas, por consequência da violência que se espalha em nosso sistema penal (BATISTA, 2012). Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EM FOCO UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 NOVOS DESAFIOS A política criminal é capaz de decidir as futuras ações de nossas forças de segu- rança pública, para o alcance da proteção e tutela dos bens protegidos juridi- camente. Entretanto, é capaz também de ditar o ritmo para resolver situações e os enfoques mais prementes dos problemas sociais que mais nos afetam. Em conjunto com políticas públicas de qualidade, que assegurem os direitos funda- mentais das pessoas, ela é capaz de diminuir o crime. Isso se deve à uma maior participação do Estado na vida social, estendendo possibilidades aos seus cida- dãos. Mas, ainda assim, vivenciamos uma crise no direito penal e na sua forma de penalização. Como você sabe, o crescente aumento do número de presos es- cancara um grande problema no Brasil, que é a inaptidão do Estado em controlar e administrar esse número. Isso fica, infelizmente, ao encargo do violento crime organizado que já controla alguns presídios no Brasil, e da falta de segurança que existe em cada um desses estabelecimentos. Isso faz criar mais vítimas, seja direta com o sofrimento dos detentos e de suas famílias, seja indireta, com a sociedade sofrendo a violência dos presídios que se estende para as ruas. Assim, a proposta para a diminuição de penas, que mais significam uma sentença de morte dentro dos presídios, e da aplicação da justiça consensual e restaurativa surge com o minimalismo penal. Aqui, o direito penal deve respei- tar o princípio da mínima intervenção, ou ultima ratio, vindo a aparecer somente quando for ultrajantemente necessário. Essa definição de troca de conceitos e de padrões significa menos vítimas, em ambos os lados. A justiça consensual é capaz de alcançar melhores resultados na pacificação social e na harmonização da sociedade e do direito do que a retribuição punitiva, que normalmente ainda deixa as vítimas de crimes inertes e esquecidas. 1 1 1 1. Grupos desviantes, pessoas estigmatizadas e rotuladas, moradores das camadas mais carentes da sociedade servem, destarte, ao direito penal e aos órgãos de controle do Estado para validar a força coercitiva e preventiva do sistema criminal e punitivo do país. Sobre o crime e direito penal, faça a análise do que se afirma a seguir: I - A partir da quebra do atual paradigma, que se demonstra de insuportável convivência, em uma crise que empurra a sociedade mais longe dos ideais de justiça e harmonia, a justiça restaurativa busca o aperfeiçoamento dos sistemas de penalização do Estado. II - Para crimes violentos os quais não existem possibilidades de serem tratados a priori, o minimalismo penal se junta à justiça restaurativa ao evidenciar a criação de presídios de segurança máxima especializados em crimes violentos. III - Vítimas de crimes, no sistema em crise, mesmo possuindo mecanismos que passem a reverenciar seus significados, ainda estão fadadas a serem revitimizadas, por consequên- cia da violência que se espalha em nosso sistema penal. IV - O direito penal deve respeitar o princípio da mínima intervenção, ou ultima ratio, vindo a aparecer somente quando for ultrajantemente necessário. É correto o que se afirma em: a) I e IV, apenas. b) II e III, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, III e IV, apenas. 2. A política criminal é considerada como um conjunto de recomendações capazes de pro- duzir e reformar a legislação penal, tomando como base as análises sobre o sistema penal existente e das instituições penais. Sobre política criminal, faça a análise das alternativas a seguir e assinale a correta: a) A estrutura de uma política criminal no Estado de Direito deve seguir a supremacia cons- titucional, guardando seus princípios e valorando seus mandamentos mais essenciais. b) A política criminal não deve se envolver com outras políticas públicas. c) Entende-se por política criminal a forma de tipificação de crimes e os métodos proce- dimentais para seus julgamentos. d) Política criminal envolve as forças de segurança do Estado, somente. e) A Lei n° 9.099/1995 é considerada uma lei criada por uma política criminal que tenta maximizar a força do direito penal. AUTOATIVIDADE 1 1 1 3. O minimalismo penal parte do princípio de que o encarceramento em massa não foi capaz, em nenhum momento da história, de apresentar soluções na diminuição da violência, mas ao contrário, acirra as desigualdades sociais e fomenta mais violência. Para o minimalismo penal, é correto afirmar que: a) Trata-se de um movimento conservador que propõe melhorias no sistema punitivo penal. b) Também conhecido como abolicionismo mínimo, sua vertente é o aumento de presídios que, a partir de sua estrutura, possam ressocializar o detento. c) Sua meta é a despenalização máxima e máxima contração do direito penal, até seu desuso. d) O abolicionismo mínimo intenta a substituição das penas por outras possibilidades, como maneiras ideais para resolver conflitos sendo o direito penal contraído ao máximo. e) Sugere que a despenalização seja indispensável para a aplicação da justiça e o combate à impunidade. AUTOATIVIDADE 1 1 4 REFERÊNCIAS ANDRADE. V. R. P. Horizonte de Projeção da Política Criminal e Crise do Sistema Penal: Utopia Abo- licionista e Medotologia Minimalista-Garantista. Revista do Conselho Nacional de Justiça, 2016. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp content/uploads/conteudo/arquivo/2016/02/6b- 930b2302bd997668f95a2e8a1efeed.pdf. Acesso em: 1 nov. 2023 BARATTA, A. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal . Introdução à Sociologia do Direito Penal. 6. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2011. BATISTA, N. Introdução crítica ao Direito Penal brasileiro. 11. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2007. BATISTA, V. M. Paz armada-Criminologia de cordel. Rio de Janeiro: Revan/ICC, 2012. BECKER, H. S. Outsiders . Estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. BIANCHINI, E. Justiça Restaurativa: Um Desafio à Práxis Jurídica, Campinas/SP, Servanda Edi- tora, 2012. CHRISTIE, N. O crime não existe. Rio de Janeiro: Revan 2011. FERREIRA, I. K. O papel do judiciário na construção do desviante: a influência da sociedade complexa. Florianópolis: Ed. Habitus, 2020. JESCHECK, H. Tratado de Derecho Penal: parte general. Barcelona: Bosch, 1978. KUHN, T. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva, 2006. OLIVEIRA, E. Vitimologia e Direito Penal - Crime Precipitado ou Programadopela Vítima. Curitiba: Ed. Juruá, 2018. ZAFFARONI, E. R. Manual de direito penal brasileiro. v. 1: parte geral. 9. ed. rev. e atual. São Pau- lo: Editora Revista dos Tribunais, 2011. ZAFFARONI, E. R. Em busca das penas perdidas: a perda de legitimidade do sistema penal. Tradução por Vânia Romano Pedrosa e Amir Lopez da Conceição. Rio de Janeiro: Revan, 1991. ZEHR, H. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justiça. São Paulo: Palas Athena, 2008. 1 1 5 1. Opção C. Fazendo com que as afirmativas III e IV estejam corretas. A afirmativa I está erra- da, pois a justiça restaurativa busca despenalizar sempre que possível. A afirmativa II está incorreta, pois a busca é por instituições de apoio especializadas para esses casos, sendo contrária à penalização. 2. Opção A. B está incorreta, pois política criminal e políticas públicas em conjunto teriam melhores e mais apropriadas respostas. C está errada, pois isso é trabalho do direito penal e do direito processual penal, mas não de uma política criminal. D está errada pelo fato que política criminal pode se envolver com outras políticas públicas. E é incorreta, uma vez que a Lei dos Juizados Especiais tenta minimizar a força de penalização do direito penal. 3. Opção D. A está incorreta, pois o minimalismo é um movimento revolucionário que condena o direito penal máximo. B está incorreta, pois por ser reconhecido como minimalismo míni- mo, sua luta é a favor da contração punitiva. C está errada, pois a despenalização máxima é tema do abolicionismo penal. E está errada, uma vez que sugere a despenalização ao invés do castigo punitivo. GABARITO 1 1 1 MINHAS ANOTAÇÕES 1 1 1 MINHAS ANOTAÇÕES 1 1 8nas cidades. Se é preciso interpretar a reação social frente ao que seja crime, e da mesma forma, como o rótulo é capaz de se amoldar a qualquer desvio e qualquer desviante, então é necessário estudar as consequências do crime, bem como as suas vítimas (BECKER, 2008). Surgem criminólogos como Howard Becker, Norbert Elias, Ulrich Beck, Eugenio Zaffaroni, Lola Anyar de Castro, entre outros, que vão basear seus estudos a partir da teoria interacionista, e refletindo através dela, novos co- nhecimentos da Vitimologia. Um dos expoentes para o pensamento da nova Criminologia na América Latina é Lola Anyar de Castro, criminóloga venezuelana, que publica em 1969 sua obra com título tema de nossos estudos, Vitimologia. A partir daqui se inicia a produção de material que passa a compor as análises quais se refe- renciam as políticas criminais e de segurança pública consideradas modernas (PELLEGRINO, 1987). UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 Para Pellegrino, segundo Anyar de Castro, é essencial que a Criminologia desenvolva estudos tanto comportamentais quanto preventivos sobre vítimas de crimes, destacando que a Vitimologia se interpreta pela sua importância geral, ou seja, é útil para a vítima, da mesma forma que é profícua ao acusado. E é nesse sentido que a autora descreve os motivos dos estudos criminais de Vitimolo- gia (PELLEGRINO, 1987, p. 11): ■ MOTIVO 1º: estudo da personalidade da vítima, tanto vítima de delin- quente, ou vítima de outros fatores, como consequência de suas inclina- ções subconscientes. ■ MOTIVO 2º: o descobrimento dos elementos psíquicos do complexo criminógeno existente na “dupla penal”, que determina a aproximação en- tre a vítima e o criminoso, quer dizer: o potencial de receptividade vitimal. ■ MOTIVO 3º: análise da personalidade das vítimas sem intervenção de um terceiro – estudo que tem maior alcance do que o feito pela Criminologia, pois abrange assuntos tão diferentes como o suicídio e os acidentes de trabalho. ■ MOTIVO 4º: estudo dos meios de identificação dos indivíduos com ten- dência a se tornarem vítimas; seria então possível a investigação estatística de tabelas de previsão, o que permitiria incluir os métodos psicoeduca- tivos necessários para organizar a sua própria defesa. ■ MOTIVO 5º: a importantíssima busca dos meios de tratamento curativo, a fim de prevenir a reincidência da vítima. Assim, temos alguns aspectos importantes a serem analisados: em primeiro plano, as hipóteses são validadas a partir do encontro de vítima e delinquente, tendo o primordial destaque a ênfase psicológica da vítima e suas inclinações, motivos objetivos e subjetivos que demonstrem o propósito da reunião entre esses dois personagens, muitas vezes ocorridas volitivamente. Em segundo plano, cria instrumentos de proteção e mecanismos de sal- vaguarda de vítimas de crimes, ao identificar estatisticamente o estereótipo e modelo mais causais que se repetem como personagens vitimizadores. Em terceiro aspecto, podemos perceber que as análises a respeito de pos- sibilidades entregues por determinadas vítimas de crimes para que o criminoso cometa seu desvio, também passam a ser pesquisadas. 1 4 Para a criminóloga em comento, a Vitimologia anda em um estado inicial de hipóteses e de objeto de pesquisa, todavia, carrega consigo grande possibilidade de se transformar, no futuro, em uma ciência autônoma (PELLEGRINO, 1987). Nesse sentido, o estudo da vítima começa a se constituir a partir de três elementos; o fato típico causado, o autor desviante e a vítima, em uma tríade que é capaz agora de identificar toda a composição do crime, desde o seu início (BITTENCOURT, 1971). Se na concepção usual o Direito Penal realiza suas análises somente acerca do tipo penal, da ação do sujeito e sua culpabilidade perante o injusto causado, agora fica mais nítida a importância de incluir em suas estatísticas também as análises a respeito das vítimas. Nesse caso, todo um estudo de prevenção de delitos e mesmo, de capacitar pessoas para que não sejam alvo de crimes diversos, é capaz de tornar ambientes sociais mais seguros e impassíveis. O CONCEITO CRIMINOLÓGICO DE VITIMOLOGIA Alguns estudiosos da Criminologia, que inclinaram suas análises destacando a Vitimologia, trataram de conceituar a matéria, com intuito de convertê-la em uma ciência autônoma e genuína. Para definir um objeto de pesquisa científica, mesmo no âmbito social, pois o que se estuda são as complexidades comuns entre grupos de indivíduos que convivem em uma sociedade, o motivo das análises deve estar bem evidente. Dessa forma, define-se tal objeto através de sua impor- tância, excluindo ingerências externas às pesquisas, que surgem hora ou outra sem comprovação científica (POPPER, 2013). Dessa forma, alguns criminólogos podem discordar sobre os conceitos, mas assentam suas ideias enquanto definem o objeto de pesquisa. Nesse sentido, ve- jamos os conceitos mais importantes da Criminologia para a Vitimologia: BENJAMIN MENDENSOHN Para ele, Vitimologia: “é a personalidade do indivíduo ou da coletividade na medida em que está afetada pelas consequências sociais de seu sofrimento, determinado por fatores de origem muito diversificada: físico, psíquico, econômico, político ou social, assim como do ambiente natural ou técnico” (PIEDADE JÚNIOR, 1997, p. 57). UNIASSELVI 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 Perceba que houve um avanço no reconhecimento da matéria, e, por conse- quência, o reconhecimento dos direitos de pessoas vítimas de crimes diversos, bem como, a criação de instrumentos e institutos jurídicos capazes de promover a tutela desses personagens (BURKE, 2022). PIEDADE JÚNIOR Trata-se de um: “ramo da Criminologia que se ocupa da vítima direta do crime e que compreende o conjunto de conhecimentos biológicos, sociológicos e criminológicos concernentes à vítima” (PIEDADE JÚNIOR, 1997, p. 38). LOLA ANIYAR DE CASTRO Para a criminóloga venezuelana, Vitimologia: “ainda em seu estado atual de simples hipótese de trabalho, como objeto de uma possível ciência autônoma” (MOREIRA FILHO, p. 42, 2008). GARACY MOREIRA FILHO Segundo o criminólogo paulista: “não ainda uma ciência, mas uma disciplina indepen- dente, autônoma, não mais um ramo da Criminologia, pois suas vitórias e conquistas sociais, conforme se vê em seus estudos, são marcantes e sólidas, mas uma entidade múltipla que estuda cientificamente as vítimas visando adverti-las, orientá-las, prote- gê-las e repará-las contra o crime” (MOREIRA FILHO, 2008, p. 77). EDUARDO MAYR Para o pesquisador carioca Vitimologia significa o “estudo da vítima no que se refere a sua personalidade, quer do ponto de vista biológico, psicológico e social, quer do de sua proteção social e jurídica, bem como dos meios de vitimização, sua inter-relação com o vitimizador e aspectos interdisciplinares e comparativos” (MAYR, 1990, p. 18). RAÚL GOLDSTEIN Para o estudioso argentino, o tema significa o ramo da Criminologia que estuda a vítima não como efeito consequente da realização de uma conduta delitiva, porém como uma das causas que influenciam na produção de um delito (PIEDADE JÚNIOR, 1997, p. 99). 1 1 Segundo Burke, “o paradigma atual está na mudança de cultura jurídica em pro- mover a vítima, aprimoramento nos institutos existentes e criação de novos me- canismos que confiram protagonismo aos ofendidos no cenário penal” (BURKE, 2022, p. 32, grifo nosso). Todavia, os novos desafios surgem também com o aumento das tecnolo- gias, com a globalização econômica e expansão do capital, com as possibilidades imensas que os novos padrões cibernéticos e de um modelo voltado ao virtual, seja no âmbito do trabalho ou das recentes conexões do dia a dia, trazendo opor- tunidades diversas. Entre elas, a criação de novos tipos penais que se amoldem nas novas práticas delituosas, que ocorrem em ambientes virtuais; causando mais vítimas. O estudo da Vitimologia auxilia a encontrar quem são as mais previ- síveis e possíveis vítimas desses novostipos de delitos, portanto, se apresentam essenciais no mundo moderno. Na criação de novos protagonistas, os estudos se envolvem também com a investigação de crimes, no atual cenário; levando em consideração as mudanças trazidas pela modernidade tecnológica. Por esse motivo, a Criminologia interpreta crimes, criminosos e vítimas, esten- dendo seus conceitos e análises para um melhor proveito das políticas criminais e de segurança pública, bem como, da atuação na prevenção de novos desvios. Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respei- to deste tema. Vamos lá? Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EM FOCO UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 NOVOS DESAFIOS A importância do estudo da Vitimologia se perfaz em condição humana, de tratar o outro e entender suas dores e angústias, após alguma injúria sofrida. A Criminologia, através de seus estudiosos é capaz de interpretar todo o fato social, através do objeto de pesquisa que ela mesmo define como sociedade. Analisar crimes e desvios apenas não é mais a única condição ou missão da Criminologia. Agora ela deve atentar-se aos fatores de riscos dentro do âmbito social, desde o crescimento da violência contra um personagem social, ou, o desenvolvimento de algum ato criminoso em profusão. Deve-se atentar ao desequilíbrio econômico, às desigualdades sociais, às novas tendências sociais entre outras importâncias que são capazes de desestabilizar a normalidade coletiva e social. Por esse motivo, estudos sobre as vítimas estão em crescimento, com ten- dências de transformar as futuras políticas públicas de segurança e de educação nas cidades. Policiais, escrivães, agentes de segurança pública de várias áreas, peritos criminais etc., todos são importantes para o estudo da Vitimologia, desde o acompanhamento de vítimas diversas, quanto na investigação de crimes e os seus fatores motivacionais. 1 8 1. Os controles de segurança dos Estados, através da força penal, desenvolviam agressivos combates contra desviantes de qualquer tipo, o que passou a ser investigado pelo crimi- nalista Alessandro Baratta através do seu conceito da Ideologia da Defesa Social, em que a penalização era uma fonte de defesa da sociedade perante o criminoso. Ao tratar das forças de controle dos Estados Ocidentais, assinale a alternativa correta a seguir: a) A Teoria Interacionista, criada pela Escola de Chicago, passou a interpretar a vítima es- tigmatizada por crimes sofridos. b) A Escola de Chicago, fundada em 1930, continuou os estudos de sua antecessora, a Escola Positivista, analisando o estereótipo criminoso. c) Os Estados, desde os ataques às Torres Gêmeas em setembro de 2001, passaram a estudar as vítimas de crimes com mais objetividade. A penalização servia como possi- bilidade de adimplemento do dano causado à vítima, onde o criminoso trabalha para recompor o bem maculado. d) A penalização servia como possibilidade de adimplemento do dano causado à vítima, onde o criminoso trabalha para recompor o bem maculado. e) A penalização era uma fonte de defesa da sociedade perante o criminoso, e servia ape- nas como instrumento retributivo e pedagógico, desde o período da Guerra Fria. 2. Para a criminóloga venezuelana Lola Anyar de Castro, é essencial que a Criminologia de- senvolva estudos tanto comportamentais quanto preventivos sobre vítimas de crimes, des- tacando que a Vitimologia se interpreta pela sua importância geral, ou seja, é útil para a vítima, da mesma forma que é profícua ao acusado. Tendo em vista o pensamento crítico de Lola Anyar de Castro, a nova Vitimologia pretende: I - Estudar a personalidade da vítima, tanto vítima de delinquente, ou vítima de outros fa- tores, como consequência de suas inclinações subconscientes. II - Intenta buscar meios de tratamento curativo, a fim de prevenir a reincidência da vítima III - Criar instrumentos de proteção e mecanismos de salvaguarda de vítimas de crimes, ao identificar estatisticamente o estereótipo e modelo mais causais que se repetem como personagens vitimizadores. IV - Vitimizar o criminoso através de penas severas, quando não se analisa todas as cir- cunstâncias do crime. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) Todas estão corretas. AUTOATIVIDADE 1 9 3. Desde os primórdios, a vítima era escolhida a dedo. Algumas sociedades da antiguidade, que se desenvolveram próximas da planície de Yucatán, no México, escolhiam dentre seus cidadãos aqueles que deveriam ser dados em sacrifício com intuito de aplacar a ira dos deuses, ou até mesmo, para que os seres metafísicos atendessem seus pedidos. Tendo em vista os primeiros estudos da Vitimologia, assinale a alternativa correta: a) Os antigos conjuntos de condutas e normas como o Código de Ur-Nammu e o Código de Hamurabi não explicitam a palavra vítima. b) A perspectiva antropológica refere-se ao conceito empreendido por toda uma coletivi- dade para definir as suas próprias atividades. c) A Lei das Doze Tábuas, que vigorou em Roma a partir de 451 a.C, tratou de trazer a vin- gança e o olho por olho para o direito. d) A vingança é uma compensação monetária onde há o adimplemento do dano causado, trazida pela Lei das Doze Tábuas. e) Antes de Mendelsohn, não havia ainda conceitos sobre a vítima, em nenhum grau de referência. AUTOATIVIDADE 1 1 REFERÊNCIAS ALLER, G. El Derecho Penal Y La Víctima . Madrid: Editorial B, 2015. ANDRADE, V. R. P. A. de. A ilusão de segurança jurídica: do controle da violência à violência do controle penal. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1997. ARENDT, H. Origens do totalitarismo . São Paulo. Companhia das Letras, 1998. BARATTA, A. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal . Introdução à Sociologia do Direito Penal . 6° ed. Rio de Janeiro: Revan, 2011. BAUMAN, Z. Medo Líquido . Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BECKER, H. S. Outsiders . Estudos de sociologia do desvio . Rio de Janeiro: Zahar, 200 BITTENCOURT, E. de M. Vítima: Vitimologia, a dupla penal delinquente-vítima, participação da vítima no crime, contribuição da jurisprudência brasileira para a nova doutrina. São Paulo: Uni- versitária de Direito, 1971. BITTENCOURT, E. de M. Vítima . São Paulo: Editora Universitária de Direito Ltda, 1974. BURKE, A. Vitimologia: manual da vítima penal. 2ª. Ed. Salvador: Editora Juspodium, 2022. DOTTI, R. A. A crise do sistema penal. Revista dos Tribunais, n. 768, out. 1999. ESER, A. Sobre a exaltación del biem jurídico a costa de la víctima. Bogotá: Universidad Exter- nado de Colombia 1998 FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Editora Vozes, 2004. GOMES, L. F.; MOLINA, A. G. Criminologia, Introdução a Seus Fundamentos Teóricos. São Pau- lo: Ed. Revista dos Tribunais, 2010. HOBSBAWN, E. J. A era dos extremos – O breve século XX – 1914/1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1994. MAYR, E. Atualidade vitimológica. In: KOSOVSKI, Ester; PIEDADE JÚNIOR, H.; MAYR, E. (Orgs.). Vitimologia em debate. Rio de Janeiro: Forense, 1990. MOREIRA FILHO, G. Criminologia e Vitimologia Aplicada – 2ª Ed. São Paulo: Editora Jurídica Brasileira, 2008. 1 1 REFERÊNCIAS PELLEGRINO, L. Vitimologia (história, teoria, prática e jurisprudência) . Rio de Janeiro: Forense, 1987. PIEDADE JÚNIOR, H. Vitimologia, evolução no tempo e no espaço . Rio de Janeiro: Freitas Bas- tos, 1997. POPPER, K. A Lógica da Pesquisa Científica. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 2013. REDFIELD, R . The Folk Culture of Yucatan. Chicago, University of Chicago Press, 1941. SHECAIRA, S. S. Criminologia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. SILVA SÁNCHEZ, J. La consideración del comportamiento de la víctima en la teoria do delito: observaciones doctrinales y jurisprudenciales sobre la “víctimo- dogmática”. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo v. p. 163-194, 2001. 1 1 1. Opção E. A alternativa A está errada, pois a Escola de Chicago analisavaa interação social e a con- sequente reação social; alternativa B está errada, pois a Escola de Chicago não estuda o estereótipo criminoso, mas sim a reação social em volta do crime; alternativa C está errada, uma vez que o acontecimento às Torres Gêmeas desencadeou um novo tipo de estudos atávicos, como aqueles realizados na Escola Positivista. alternativa D é errada, pois a pena- lização era apenas retributiva ao crime acusado. 2. Opção D. As questões I, II e III estão todas corretas. A questão IV é errada, pois a criminóloga se põe a analisar as vítimas de crimes, mas não o aspecto da vitimação dos criminosos após a entrada no sistema penal, quando trata do assunto Vitimologia. 3. Opções B. A perspectiva antropológica faz análises da cultura de uma sociedade, e de todas as ativi- dades que realizam em conjunto. GABARITO 1 1 MINHAS METAS OS ESTUDOS E OBJETIVOS DA VITIMOLOGIA Investigar os objetivos da vitimologia. Explorar os significados de vitimologia. Interpretar o objeto de estudo da vitimologia. Analisar a relevância das pesquisas da vitimologia e como elas agregam no mundo real. Estudar como as Declarações Internacionais entendem a vítima. Diagnosticar a importância do estudo das vítimas para os planos de segurança pública e para as políticas públicas desenvolvidas na área. Definir a importância dos estudos da vitimologia para a criminologia. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 2 1 4 INICIE SUA JORNADA Vamos desenvolver os objetivos conceituais e empíricos da vitimologia. Já po- demos interpretar que suas análises determinam a vítima e sua significação, tanto para investigações quanto para a ação penal. Entretanto, seu significado vai mais além, quando consideramos os direitos pessoais de cada indivíduo na sociedade. Isso nos remete às questões de cidadania e o que é ser cidadão. Já passou o tempo em que o sentido de cidadão vinha à tona apenas em épocas eleitorais. Vivemos sob a égide de uma Constituição Cidadã, que permite a ostentação dos direitos individuais e coletivos, que engloba uma ressignificação de direitos humanos e que se conduz através do adimplemento dos direitos fundamentais de cada cidadão. Por esse aspecto, objetivar as análises da vitimologia é incluir todos os di- reitos da pessoa, inclusive o direito de ampla cidadania, que significa ter seus direitos fundamentais respeitados. Isso porque tratamos de pessoas quando versamos sobre as vítimas. Imagine que o tratamento eficaz deva respeitar todos os direitos conquis- tados e apregoados em nossa Constituição, mas que a vítima é atendida com despreparo e mesmo, com desconsideração ou desatenção pelo poder judi- ciário. E a situação somente pioraria, se imaginarmos também a ausência do Estado, tanto no tratamento da vítima de crimes quanto na omissão de preparo de políticas públicas que atendam essa demanda, infelizmente em crescimento no país. Grupos vulneráveis são hipossuficientes frente ao agressor e devem ser protegidos, para isso, ações necessitam ser realizadas no trato educacional, psicológico e social para assegurar a sua proteção. Mas isso somente é possível através das análises feitas pela vitimologia, em definir pessoas e grupos elegí- veis pelo mundo do crime e, através disso, ajudar a criar políticas públicas, de segurança, de educação, dentre outras. UNIASSELVI 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 DESENVOLVA SEU POTENCIAL Os estudos sobre vitimologia passaram a ser desenvolvidos com maior ênfase logo após a Segunda Grande Guerra, quando especialistas começaram a investigar os motivos de algumas pessoas se tornarem vítimas de crimes. Um fator que levou a expandir as análises foi identificar o motivo que leva uma mesma pessoa ser vítima de crimes mais de uma vez, ou padecer de crimes reiterados, diversas vezes. Nesse ínterim, o significado de vítima é capaz de se envolver com os ele- mentos do crime, por isso, os estudos partem para uma laboração mais intensa do que seja crime, por conta de uma provável participação da vítima no próprio ato criminoso. Portanto, uma grande responsabilidade da vitimologia é, de fato, averiguar as vertentes sociais que podem interferir na vida das pessoas, como o fato social. Entende-se por fato social todo o conjunto de valores, normas culturais e elementos que perfazem a estrutura social e sobrepujam as pessoas VAMOS RECORDAR? A vitimologia passou a desempenhar um papel fundamental nos estudos e análises do crime, em que as outras áreas do direito penal e mesmo, a criminologia, silenciavam. Agora é possível determinar os motivos e razões para a prática dos ilícitos através da vítima, e entender o comportamento do criminoso. As reflexões envolvem agora os aspectos emocionais e psicológicos, sociais e econômicos, entre outros. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. Vamos ouvir o podcast sobre a matéria estudada e entender os objetivos e a mis- são da vitimologia!? Através da definição de missão e o que se propõe a exami- nar os estudos da vitimologia, conseguimos obter os princípios e o caminho feito pelos profissionais da área para identificar as principais demandas da vitimologia, que devem ser atendidas não apenas pela segurança pública, mas por políticas públicas de qualidade. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. PLAY NO CONHECIMENTO 1 1 e os grupos formados no âmbito social, e são capazes de exercer controle social sobre pessoas. O sociólogo Émile Durkheim interpreta o fato social como uma obrigação que as pessoas de uma sociedade têm em se adaptar a determinadas regras e normas, pois estas exercem uma força sobre suas vidas, como as leis, os costumes e a tradição (DURKHEIM, 2007). Determinadas pessoas conviventes em sociedade seguem o fato social por adaptar-se a ele, entendendo que se não o fizer, a punição social por parte daque- les que fazem parte do seu grupo de convívio será inevitável e intolerável. Outras pessoas que não se amoldam ao fato social aceito em sociedade passam a ser fa- cilmente reconhecidas como desviantes, ou seja, aqueles quem não se espera que sigam as normas estipuladas para o bom convívio social, e que devem estar em vigília constante pelos órgãos legais de ordem e punição (DURKHEIM, 2007). Para o imaginário social, pessoas que vivem à margem da sociedade são con- sideradas desviantes, passíveis portanto do cometimento de crimes na sociedade. E é por esse caminho que as bases de estudos das agências de controle oficiais, que formam, por sua vez, uma parte do fato social, analisam a pessoa do criminoso até os dias atuais, pouco levando em consideração a pessoa da vítima. Uma vez presente o personagem que deve ser vigiado, pois representa o pária na sociedade, as forças de repressão, análises e estudos oficiais partem para o autor de crimes; em detrimento de suas vítimas (BARATTA, 2011). O objetivo da vitimologia, portanto, refere-se mais com a participação da vítima nos crimes e desvios, e no acompanhamento da vítima posterior ao fato típico, do que com a ação do criminoso (BURKE, 2022). A vitimologia intenta desmistificar o conceito de criminoso que não segue o fato social, uma vez que o aumento de crimes e desvios praticados contra determinados personagens na sociedade não estarem ligados àqueles considerados párias ou desviantes. Assim como a própria criminologia pretende trabalhar com enfoques mais res- ponsáveis acerca dos crimes e suas punições, a vitimologia também labora com o desvirtuamento de ideias calcadas através do populismo, trocando-as por uma teoria crítica que possa dar respostas mais benéficas e práticas para a segurança pública (PIEDADE JÚNIOR, 1997). UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 Na carência de estudos mais modernos acerca do crime, desvios e quaisquer expressão que venha a prejudicar a ordem social vigente, é recorrente manobrar a ideia de que a contenção dos desviantes deve ser realizada de todas as formas,e entre elas, a exasperação da lei penal feita pelo endurecimento e fortalecimento das penas (MAYR, 1990). Através de análises da criminologia, é fato que o em- brutecer das penas de crimes diversos nunca inibiu que esses viessem a ocorrer. Através de estudos específicos dos motivos dos crimes, por intermédio de toda a sua produção, com um olhar sociológico, crítico e envolvendo análises acerca da vítima, a vitimologia compreende a necessidade de aprofundar essa discussão, evitando de toda forma discursos populistas (PIEDADE JÚNIOR, 1997). A partir daqui, a matéria transforma-se em ciência a ser comprovada pelo método e análises de seu objeto de pesquisa, que é discutível, falseável e pode ser argumentado. O objetivo comum de toda ciência, segundo Popper, é reconstruir o esquema tradicional do conhecer, situando-se sempre no campo da raciona- lidade (POPPER, 2013). Assim, para entendermos os objetivos da vitimologia, é necessário entender a importante participação do Estado na vida das pessoas, por intermédio de suas políticas públicas. Fundamentadas na Constituição Federal de 1988, e a partir do Estado Social, tem-se, nas políticas de educação, saúde e emprego, grandes armas que devem ser utilizadas em prol da segurança pública. Entre os objetivos da vitimologia, um dos mais essenciais temas é identificar as adversidades encontradas pelas vítimas de crimes, desde os motivos de ter se tornado vítima até a assistência de eventuais mazelas que porventura venham a acompanhá-la após o ato criminal. Nesse sentido, importa determinar estatistica- mente quais os grupos de vítimas em crescente evolução e os prováveis motivos para terem se tornado números nessas análises. Por isso, sua importância pode ser vista nas Políticas de Segurança Públicas atuais, como no Plano de Segurança Públicas e Defesa Social (2021-2030) e na Cartilha de Segurança Pública do Mi- nistério Público. Nas duas cartilhas, podemos notar, por exemplo, a identificação do número crescente dos crimes contra as mulheres nos últimos anos, o que veio a provocar a criação de um novo tipo penal, o feminicídio. APROFUNDANDO 1 8 Dessa forma, através da vitimologia, pode-se conhecer os motivos e estruturas do crime, a partir de um olhar mais geral, sendo que suas conclusões podem gerar caminhos para educar, ensinar e melhorar certos aspectos e noções que as pessoas possuem, diminuindo, assim, possibilidades de ocorrências de atos criminosos (BITTENCOURT, 1974). No Plano de Segurança Pública atual, os diagnósticos indicam problemas que devem receber suas respectivas soluções através de políticas públicas de segurança. Para isso, definir esse público-alvo passa a ser feito pelas análises qualitativas e quantitativas a respeito dos crimes ocorridos, do crescimento de um alvo em potencial e do local de risco. Esses estudos construídos pela Cri- minologia, a partir das análises da Vitimologia, são capazes de compreender, no universo vitimal, aqueles que possuem um estereótipo mais buscado por autores de crimes. Ao definir um público-alvo, a política de segurança estabelece que os impactos e resultados sejam o mais brevemente alcançados, uma vez que o problema já foi detectado e tende a ser resolvido, a priori (BURKE, 2022). UNIASSELVI 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 O PLANO NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA E DEFESA SOCIAL E OS ESTUDOS DE VITIMOLOGIA Um Plano Nacional de Segurança Pública identifica quais as melhores tomadas de decisão e o enfoque da segurança em determinado período de tempo. Ele é capaz de enfatizar a perspectiva da segurança pública e em quais assuntos ela deve debruçar sua atenção com maior veemência. Mas perceba que em uma sociedade democrática como o Brasil, a Segurança Pública deve ser vista mais como uma prestação de serviços para a sociedade, e menos como uma imposição por parte do Estado (PELLEGRINO,1987). O último plano escrito em 2021, com validade até o ano de 2030, define a Po- lítica Nacional de Segurança Pública e Defesa Social. A partir dele, a disposição de uma ordenação que visa o combate contra a criminalidade prevê a importância de um plano único e centralizado, mas que ao mesmo tempo descentralize as tomadas de decisões que devem ser realizadas pelas bases e dados estatísticos de cada região. O Plano Nacional define as estratégias a serem tomadas em nível nacional, e quais áreas devem sofrer um maior impacto pela atuação da segurança pública. Mas ele não é um plano centralizador. Desde que sigam as especificações do plano nacional, os Estados podem elaborar seus próprios planos de segurança, a partir das suas especificidades, através da Secretaria Pública Estadual. 4 1 No plano atual, podemos perceber a atuação da segurança a partir dos dados coletados e das estatísticas que definem grupos considerados vulneráveis e que precisam de um olhar mais crítico das forças de proteção do Estado. A concepção atual é compreender além das manifestações imediatas do crime e interpretar os motivos de determinadas ocorrências contra uma categoria es- pecífica: “O plano que ora se apresenta tem essa preocupação: eleger, entre suas prioridades, ações que buscam nos aspectos sociais e culturais algumas das mais importantes fontes de ocorrências criminais” (BRASIL, 2021, p. 56). O modelo lógico do Plano Nacional de Segurança Pública busca assegurar que a segurança pública seja destinada para todos, entretanto, objetiva tutelar grupos considerados necessitados da proteção do Estado, da forma mais imediata possível. O plano atual desenvolve um olhar atento a alguns grupos ou pessoas con- sideradas vulneráveis pela vitimologia, e um exemplo disso é o crime contra mulheres, em amplo crescimento no país. Em uma de suas estratégias, há a especificação desses grupos: “Qualificar o atendimento às mulheres, aos jovens e a outros grupos vulneráveis vítimas de violência, por meio da criação ou da estruturação de espaços humanizados para o atendimento e o encaminhamento adequado das vítimas” (BRASIL, 2021, p. 37). São relevantes e perceptíveis os estudos estatísticos de qualidade da Vitimologia, para o entendimento das ações e estratégias tomadas pela Segurança Pública, através do Plano Nacional. Ao desenvolver estudos sobre as ocorrências regis- tradas e especificar as vítimas mais usuais, existe a possibilidade de programas de atendimento, educação e de acompanhamento a essas pessoas. Da mesma forma, pode-se traçar a concepção de criminoso e os fatores motivantes do crime, por uma visão mais detalhada e prospecta da atuação de determinados desviantes. Se quiser aprender mais sobre o atual Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, você pode acessá-lo no site. Nele, você pode ter acesso aos últimos estudos acerca dos grupos criminosos atuantes em cada estado do país e quais os planejamentos estruturais de com- bate ao crime organizado. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO UNIASSELVI 4 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 OBJETIVOS DA VITIMOLOGIA Podemos perceber que vitimologia não serve apenas para a coleta de dados a respeito das vítimas de crimes, mas se envolve também com debates políticos específicos e políticas públicas fora dos âmbitos da segurança pública, que vi- sem atender o público analisado, de forma extrajudicial ou extrapenal, fora dos inquéritos e das delegacias de polícia. A vitimologia contempla “vários níveis de atuação em diferentes contextos” repousando em um “tripé: estudo e pesquisa, mudança de legislação e assistência e proteção à vítima” (KOSOVSKI, 1992, p. 12). A importância de se analisar cada um desses segmentos é desenvolver uma nova perspectiva para o crime e para o sistema penal também. Kosovski (1992) apresenta a necessidade da mudança de paradigma, que fez com que a vítima passasse a ser representada também nos estudos empíricos, tendo sua importância no processo tanto quanto em sua própria situação após o crime. 4 1 “ A visão, que duranteséculos prevaleceu, da importância primordial que deveria ser dada ao crime e ao criminoso, sendo a vítima a grande esquecida no drama criminal, está sendo modificada com abordagem vitimológica da relevância da vítima e da necessidade da sua inclusão no processo e assistência a quem tem direito (KO- SOVSKI, 1992, p. 28). Para a estudiosa, um dos fatores de maior contribuição da vitimologia é a criação de programas especiais e assistenciais para as vítimas, bem como formas de penalização que se destacam a partir do desvio e crime cometido. Dessa maneira, pensar em programas de intervenção de crises, ressarcimento e compensação à vítima, bem como “assistência médica, psicológica e jurídica”, prevendo uma real orientação na mediação das mazelas causadas e mesmo no “processo criminal ou cível quando instaurado” (KOSOVSKI, 1992, p. 28). Pensar assim, remete-nos também a probabilidade de que medidas extraju- diciais, em casos determinados, passem a ser avaliadas para a melhor resolução de conflitos. Casos em que envolvam situações de menor potencial ofensivo, ou que possam não chegar à persecução penal através da força punitiva do Estado, podem ser remediados já em seu início, com a participação da vítima como personagem essencial em busca de reparação (KOSOVSKI, 1992). Há um entendimento máximo de que, em um Estado Democrático, deve-se enfatizar a cidadania plena em detrimento de uma cidadania vazia, lembrada apenas em épocas eleitorais (SARLET, 2012). Ampla cidadania significa pos- suir os direitos individuais e coletivos respeitados e assegurados. Tais direitos, preconizados pela Carta Constitucional de 1988, são também garantidos por tratados de direitos humanos internacionais, sobretudo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é um dos membros signatários. Nesse sentido, entende-se, através das lentes da vitimologia, não apenas o acompanhamento da vítima, mas também possibilidades diversas para a reso- lução de conflitos e se necessário, para a penalização do criminoso; por esse motivo a matéria trata e posiciona as vítimas relacionando-se com o real sentido de ampla cidadania (BURKE, 2022). UNIASSELVI 4 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 Vitimologia e Direitos Humanos andam sincronicamente. É óbice à evolução de um País o desrespeito aos grupos hipossuficientes, aos carentes e pessoas vul- neráveis. Nos estudos das Nações Unidas, que idealizaram a Declaração dos Princípios Básicos de Justiça para as Vítimas de Delitos de Abuso de Poder, realizada em Milão no ano de 1985, vítimas seriam incapazes perante seus abu- sadores, portanto vulneráveis. Nesse sentido, a Organização das Nações Unidas reconhece que, na maioria das vezes, vítimas de delitos e abusos de poder não recebem atendimento espe- cializado e não têm seus direitos reconhecidos de forma adequada. Isso se refere aos inúmeros países, entre eles, aqueles que também são signatários da maioria dos tratados idealizados e escritos pela ONU (KOSOVSKI, 1992). A Declaração de 1985 aprovou a Resolução 40/34, texto recomendado pela Assembleia Geral da ONU, no Sétimo Congresso das Nações Unidas so- bre a Prevenção do Crime e o Tratamento do Delinquente, em Milão. Em seu preâmbulo determina: 4 4 A Declaração recomenda que devam ser tomadas medidas a nível interna- cional e regional para melhorar o acesso à justiça, ao tratamento justo, ao res- sarcimento, à indenização e à assistência social às vítimas de delitos, e, esboça as principais medidas que deverão ser tomadas para prevenir a vitimização ligada ao abuso de poder, e proporcionar os recursos às destes abusos (KOSOVSKI, 1992). Esse reconhecimento, segundo Kosovski (1992), é um dos primeiros diag- nósticos internacionais a respeito da qualidade e representação que se tem das vítimas em crimes e delitos, posicionando-a realmente como a padecedora de algum ato criminal, não mais como mero instrumento para o processo penal (KOSOVSKI, 1992). A importante Declaração de 1985 da ONU também destaca o significado de vítima, realçando seu entendimento sobre o assunto, efetivando também os estudos de vitimologia que, na época, já ganhavam força na criminologia. AS VÍTIMAS DE DELITOS, SIGNIFICADO 1 “Entende-se por ‘vítimas’ as pessoas que, individual ou coletivamente, tenham sofrido danos, inclusive lesões físicas ou mentais, sofrimento emocional, perda financeira ou diminuição substancial de seus direitos fundamentais, como consequência de ações ou omissões que violem a legislação penal vigente nos Estados-Membros, incluída a que prescreve o abuso criminal de poder” (KOSOVSKI, 1992, p. 38). AS VÍTIMAS DE DELITOS, SIGNIFICADO 2 “Uma pessoa poderá ser considerada vítima, de acordo com a presente Declaração, independentemente do modo como o vitimizador foi identificado, detido, julgado ou condenado, bem como independentemente da relação familiar entre o vitimizador e a vítima. A expressão “vítima” inclui, quando apropriado, os familiares ou pessoas dependentes que tenham relação imediata com a vítima e as pessoas que tenham so- frido danos ao intervir para dar assistência à vítima em perigo ou para prevenir a ação danificadora” (KOSOVSKI, 1992, p. 38). UNIASSELVI 4 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 AS VÍTIMAS DE DELITOS, SIGNIFICADO 3 “As disposições da presente Declaração serão aplicáveis a todas as pessoas sem distinção de raça, cor, sexo, idade, idioma, religião, nacionalidade, opinião política, crenças ou práticas culturais, situação econômica, familiar, origem étnica, social ou impedimento físico” (KOSOVSKI, 1992, p. 38). A Declaração da ONU de 1985, realizada na Assembleia Geral em Milão, é um im- portante instrumento para a identificação e hermenêutica do que seja vítima. Foi escrita em uma época conturbada, de abusos de poder de países e governantes contra seus governados, em um período que entrou para a história como Guerra Fria. A Declaração também versa sobre os delitos internos de países, que causam a vitimização e devem ser regulados, estudados e interpretados também através da vítima. Se você quiser ficar por dentro da importante Declaração dos Princí- pios Básicos de Justiça para as Vítimas de Delitos de Abuso de Poder, você pode acessá-la na íntegra na página do Ministério Público Federal. Recursos de mídia disponíveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. EU INDICO 4 1 A Declaração também contribui para os objetivos dos estudos da vitimologia, quando realça: A Declaração também destaca o acesso à justiça e tratamento justo às víti- mas de crimes, que “terão direito de acesso aos mecanismos de justiça e a uma imediata reparação do dano que tenham sofrido, de acordo com o disposto na legislação nacional” (KOSOVSKI, 1992, p. 38). Insta salientar que os mecanismos judiciais e extrajudiciais de resolu- ção de conflitos devem estar aptos ao tratamento com dignidade de vítimas, colaborando com a adequação dos processos judiciais às necessidades das ví- timas envolvidas. Ao prestar informações sobre os detalhes do processo e sua real participação (andamento processual e testemunho em juízo), ao examinar as preocupações, medos e receios, prestando “assistência apropriada durante todo o processo judicial”, tem-se uma real modificação de todo o teor do pro- cesso penal, em prol do vitimizado e em busca de uma penalização mais precisa (KOSOVSKI, 1992, p. 38). PONTO A As lesões sofridas por vítimas diversas determinam em primeiro plano a hipossuficiên- cia ou carência dessas frente ao(s) meliante(s); e, em segundo, indica que os crimes ou desvios ocorridos fazem parte da carência ou omissão do Estado em fazer valer os direitos fundamentais do cidadão, como a segurança pública; PONTO B A inclusão de familiares e dependentes das vítimas de crimes como vítimas em si, através de uma relação imediata com os danos sofridos pela pessoa padecente. Importante ressal- tar que a assistência se estende aos seus familiares, ou a quem tenha ligação direta com a vítima e entenda-se subjetivamentepela Vítima. Curitiba: Ed. Juruá, 2018. ZAFFARONI, E. R. Manual de direito penal brasileiro. v. 1: parte geral. 9. ed. rev. e atual. São Pau- lo: Editora Revista dos Tribunais, 2011. ZAFFARONI, E. R. Em busca das penas perdidas: a perda de legitimidade do sistema penal. Tradução por Vânia Romano Pedrosa e Amir Lopez da Conceição. Rio de Janeiro: Revan, 1991. ZEHR, H. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justiça. São Paulo: Palas Athena, 2008. 1 1 5 1. Opção C. Fazendo com que as afirmativas III e IV estejam corretas. A afirmativa I está erra- da, pois a justiça restaurativa busca despenalizar sempre que possível. A afirmativa II está incorreta, pois a busca é por instituições de apoio especializadas para esses casos, sendo contrária à penalização. 2. Opção A. B está incorreta, pois política criminal e políticas públicas em conjunto teriam melhores e mais apropriadas respostas. C está errada, pois isso é trabalho do direito penal e do direito processual penal, mas não de uma política criminal. D está errada pelo fato que política criminal pode se envolver com outras políticas públicas. E é incorreta, uma vez que a Lei dos Juizados Especiais tenta minimizar a força de penalização do direito penal. 3. Opção D. A está incorreta, pois o minimalismo é um movimento revolucionário que condena o direito penal máximo. B está incorreta, pois por ser reconhecido como minimalismo míni- mo, sua luta é a favor da contração punitiva. C está errada, pois a despenalização máxima é tema do abolicionismo penal. E está errada, uma vez que sugere a despenalização ao invés do castigo punitivo. GABARITO 1 1 1 MINHAS ANOTAÇÕES 1 1 1 MINHAS ANOTAÇÕES 1 1 8