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Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos para Baixas Emissões de Gases de Efeito Estufa
Introdução às mudanças climáticas
1.1. O que são mudanças climáticas? Como percebemos isso? 
Mas, afinal, o que é o clima e o que são as mudanças climáticas?
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO, 2020a), o “clima, em sentido estrito, pode ser definido como as condições climáticas médias de um local e período de tempo específicos”. Uma das formas de se descrever o clima é por meio da média e da variabilidade de seus elementos mais relevantes, como temperatura, chuva, pressão atmosférica, umidade e ventos.
O clima não se confunde com tempo ou previsão do tempo. Estes referem-se a uma fotografia das condições atmosféricas em um curto período de tempo e determinado espaço, ou um estado momentâneo da atmosfera (JACOBI et al., 2015; ALEMANHA
O sistema climático é o resultado de um balanço energético delicado entre a energia que é recebida, absorvida e refletida pela Terra. A figura 1 mostra como a radiação solar recebida no planeta se comporta: (i) parte dela não ultrapassa a atmosfera e retorna diretamente para o espaço; (ii) outra parte entra na atmosfera, reflete nas superfícies do planeta e volta para o espaço; (iii) uma terceira parte atravessa a atmosfera e permanece no planeta, seja ao ser absorvida pela superfície e pelos seres vivos, seja por meio do efeito estufa natural.
As variações no clima e na temperatura da Terra são naturais, porém, mais recentemente, elas têm acontecido em um período menor de tempo, ficando em torno de 0,2 °C mais quente a cada década, ou seja, o aquecimento tem ocorrido 50 vezes mais rápido que a variação natural do planeta (NOBRE; REID; VEIGA, 2012). Em 2019, por exemplo, a temperatura média global foi 1,1 °C mais quente que o nível pré-industrial (WMO, 2020b).
Já o conceito de mudanças climáticas foi estabelecido na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima* (UNFCCC), adotado na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, conhecida como Rio-92, como: “[...] uma mudança no clima que possa ser atribuída direta ou indiretamente à atividade humana que altere a composição da atmosfera global e que se soma àquela provocada pela variabilidade climática natural observada ao longo de períodos comparáveis” (UN, 1992).
Os dados utilizados para calcular essas variações vêm da combinação de várias fontes, incluindo estações, boias e balões meteorológicos, sensores em embarcações e aviões, radares, satélites, pluviômetros, barômetros, anemômetros, entre outros equipamentos. Estes dados são compartilhados por pesquisadores do mundo inteiro para monitorar as variações e elaborar modelos e projeções climáticas.
Alguns dos efeitos das mudanças climáticas são o aumento da temperatura média do planeta, o aumento da frequência e da duração de ondas de calor, o derretimento de geleiras, a variação dos índices de precipitação, a acidificação e o aumento da temperatura dos oceanos, o aumento do nível do mar. A figura 2 mostra a variação da temperatura média da Terra, de acordo com diferentes fontes de dados.
Esse cenário de mudanças climáticas exige que o município tenha consciência de suas vulnerabilidades e desenvolva ações que possam contribuir para o atingimento das metas nacionais de mitigação das emissões e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Alguns exemplos de impactos já podem estar ocorrendo no seu município, como a incidência de períodos de seca prolongada, o desaparecimento de corpos de água (como açudes, represas e rios), a salinização de cursos d’água, as enchentes e as tempestades tropicais, as perdas de produtividade agrícola, a redução de estoques pesqueiros, entre outros.
Outra forma de avaliar as consequências das mudanças climáticas é por meio do aumento da frequência de desastres naturais no Brasil e no mundo. A figura 3 mostra que o número de desastres naturais reportados em todo o planeta, no ano de 2019, foi, aproximadamente, quatro vezes maior do que há 40 anos.
Nos anos de 2014 e 2015, o Sudeste brasileiro vivenciou uma experiência dessa natureza: o prolongado período de seca na região atingiu os menores índices de chuvas em 85 anos (COSTA et al., 2015). A estiagem levou o Sistema Cantareira a níveis mínimos em São Paulo, conforme figura 4, comprometendo o abastecimento de água naquele estado e gerando riscos também para o estado do Rio de Janeiro.
1.1. O que são mudanças climáticas? Como percebemos isso? pág.2
Ao contrário da seca que atingiu, principalmente, os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, em 2014 e 2015, a figura 5 mostra o estado de Minas Gerais, em janeiro de 2020, após a ocorrência de chuvas intensas. Na cidade de Belo Horizonte, foi registrado o maior volume de chuva desde o início da série histórica, e, em todo o estado, 196 cidades decretaram estado de emergência, com mais de 55,7 mil pessoas atingidas.
Vale lembrar que as cidades são as principais afetadas pelos efeitos das mudanças climáticas, além de serem o local de residência da maioria da população mundial: no Brasil, por exemplo, aproximadamente 85% da população vive em áreas urbanas (ESPÍNDOLA; RIBEIRO, 2020; IBGE, 2015).
A administração pública municipal pode sofrer prejuízos financeiros causados pelos impactos das mudanças climáticas, como o aumento dos gastos em manutenção de ruas, falhas no serviço de transporte público, gastos adicionais no sistema de saúde etc.
As mudanças climáticas são mundialmente combatidas por esforços de:
1.2. Quais são os GEEs e seus impactos? pág. 1
Parte da radiação solar atravessa a atmosfera, reflete nas superfícies do planeta, mas não volta para o espaço, ficando retida, o que causa o efeito estufa natural, que é um dos responsáveis por manter a temperatura global em valores adequados à vida.
São os gases da atmosfera que atuam nessa retenção de radiação e o aumento da concentração de determinados gases que agravam esse efeito. Neste sentido, a figura 6 mostra a composição da atmosfera, com presença predominantemente de nitrogênio e oxigênio, além de outros gases em proporções muito inferiores.
São considerados GEEs aqueles com potencial de absorver e reemitir radiação infravermelha, e podem ter origem natural ou humana (UN, 1992). Os GEEs incluem dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O) e clorofluorcarbonos (CFCs).
De todos os gases causadores do efeito estufa, o dióxido de carbono (CO2) , sem dúvida, o que recebe mais atenção, servindo, inclusive, como parâmetro de comparação do potencial de aquecimento global. Na figura 7, você pode ver o aumento da concentração da CO2, na atmosfera, em partes por milhão, de 1980 até 2020.
Cada um dos GEEs possui características diferentes, em especial a quantidade de calor absorvida e o tempo de permanência na atmosfera. Por este motivo, o IPCC* adotou uma métrica para quantificá-los de forma padronizada.
Essa métrica é denominada potencial de aquecimento global (GWP, do inglês global warming potential), e estabelece uma relação de equivalência entre o potencial de aquecimento de determinado gás comparado com o CO2, utilizando a conversão em massa para CO2-equivalente (CO₂e) (STOCKER et al.; FIRMO et al., 2019). Conforme pode ser visto na tabela 1, cada tonelada de CH4 emitida na atmosfera equivale a 84 toneladas de CO₂e.
Essa padronização permite fazer comparações como a da Universidade Federal do Pará, que verificou que a emissão de CH4, ao longo da vida útil do Lixão de Aurá (figura 8), em Belém, equivalia à queima de 34 mil hectares de floresta (SILVA, 2017).
Quais são os GEEs e seus impactos? pág. 2
Para avaliar o quanto cada um dos GEEs efetivamente contribui para o estado atual do efeito estufa, é necessário levar em consideração o GWP e a concentração de cada um deles na atmosfera. Na figura 9, pode ser observado o percentual de contribuição para o efeito estufa dos cinco principais gases, considerando não só a concentração atual na atmosfera, como, também, o potencial deles no aquecimento da Terra. Ou seja, a concentração atual deCH4 na atmosfera, um dos principais gases produzidos no gerenciamento de resíduos sólidos, contribui para 17% do efeito estufa atual do planeta.
Segundo o último relatório de avaliação do IPCC, as concentrações de CO2, CH4 e N2O excederam os níveis pré-industriais em 40%, 150% e 20%, respectivamente, e excedem os níveis mais elevados dos últimos 800 mil anos, de acordo com a comparação de amostras de núcleos de gelo (STOCKER et al., 2013). De acordo com o mesmo relatório, indica-se que mais da metade dos aumentos observados da temperatura média do planeta decorram de atividades antropogênicas, incluindo o aumento da concentração dos GEEs.
Em nível municipal, as quantidades de emissões de cada um desses gases podem ser calculadas, convertidas em carbono equivalente e divulgadas por meio de inventários de emissões. Embora não sejam de elaboração obrigatória, os inventários trazem importantes informações para a tomada de decisão, visando a uma transição para uma economia de baixo carbono. Exemplo disso, em 2015, foi a Prefeitura do Recife, que lançou seu 1º Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa, demonstrando que o setor de resíduos sólidos contribuiu com 19,3% das emissões na cidade, conforme figura 10 (RECIFE, 2015). Em 2019, foi a vez de Pernambuco lançar seu inventário, demonstrando que o setor de resíduos sólidos contribuiu com 29,2% das emissões no estado (PERNAMBUCO, 2019).
O Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) indicou, em 2017, que, nas cidades, o tratamento e a disposição final de resíduos sólidos e efluentes podem atingir contribuições percentuais médias de 10% a 20% no total de emissões de GEE, sendo mais representativas que a média nacional (3% a 5%).
Observa-se que, nesses casos, o setor de resíduos tem um papel muito mais significativo nas emissões estadual e municipal, demonstrando a importância de identificarmos ações que também contribuam com a redução das emissões de GEE e, consequentemente, com a melhoria da qualidade de vida local.
Financiamento climático
Um dos grandes temas na área de mudanças do clima é a disponibilidade de financiamento para as ações de mitigação e adaptação. Existem fontes de financiamento específicas, que podem disponibilizar recursos financeiros para sua cidade, caso o projeto inclua parâmetros para a redução de emissões de GEE.
Em 2017, os fundos climáticos multilaterais aprovaram, aproximadamente, US$ 2 bilhões destinados a 152 projetos em 70 países diferentes. A região da América Latina e do Caribe recebeu 22% dos recursos desta natureza, entre 2003 e 2017, conforme figura 11.
A Prefeitura de Curitiba, por exemplo, recebeu recursos do C40 Cities Finance Facility (CFF) para o Projeto Curitiba Mais Energia, que previu painéis solares em espaços públicos da cidade, como o antigo aterro municipal (CURITIBA, 2020). Outro caso foi a implantação do sistema de captação de biogás com geração de energia elétrica para os aterros de Marambaia e Adrianópolis, ambos no estado do Rio de Janeiro, financiado pelo Banco Mundial no valor de, aproximadamente, US$ 21 milhões. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por seu turno, foi um dos cofinanciadores de dois aterros sanitários no estado do Ceará, em um projeto de mais de R$ 100 milhões.
No Brasil, existe ainda o Fundo Nacional de Mudanças Climáticas, que, entre 2011 e 2014, apoiou, aproximadamente, 200 projetos, em recursos que somam R$ 96 milhões não reembolsáveis e R$ 109 milhões reembolsáveis (CEPAL; IPEA; GIZ, 2016).
Outros fundos internos também podem ser usados para financiar projetos nesta área, como o Fundo Nacional de Meio Ambiente e o Fundo Nacional de Defesa dos Direitos Difusos. Alguns estados possuem fundos que podem apoiar a implantação de projetos de mitigação ou adaptação às mudanças climáticas. É o caso, por exemplo, do Rio de Janeiro, que possui o Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (Fecam), criado em 1986.
Além disso, uma importante ferramenta de apoio a municípios foi desenvolvida pelo projeto ProteGEEr, em 2019. Trata-se do Mapa de Financiamento para Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos, uma ferramenta on-line para busca de linhas de financiamento de ministérios, agências, bancos e outras instituições financeiras para gestão de resíduos sólidos de baixas emissões.
Outros instrumentos podem ser usados, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) e o mecanismo de Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação de Florestas (REDD), ambos previstos no Protocolo de Quioto. A partir dos projetos de MDL, são gerados os “créditos de carbono”, originando as “reduções certificadas de emissões” (RCEs).
Acordos e ações globais para o clima
A primeira vez em que a comunidade internacional reuniu-se exclusivamente para tratar do tema do meio ambiente foi em 1972, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano1, que ficou conhecida como Conferência de Estocolmo. A figura 12, em formato de vídeo, mostra a linha do tempo com algumas das principais conferências internacionais sobre mudanças climáticas.
Em 1988, o IPCC foi criado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em conjunto com a WMO. O IPCC é responsável por elaborar relatórios científicos de avaliação das mudanças climáticas, a fonte de informação mais importante sobre o tema em nível mundial.
As mudanças climáticas e a necessária redução de GEE vêm sendo tratadas mundialmente no âmbito da UNFCCC, assinada na Rio-92, no Rio de Janeiro (também chamada de Eco-92). A UNFCCC é a base para a resposta mundial ao desafio das mudanças climáticas e da limitação do aquecimento global, atualmente compreendendo 197 partes signatárias, incluindo o Brasil.
Desde 1995, o órgão supremo da Convenção reúne-se uma vez por ano na Conferência das Partes (COP), onde são avaliados os resultados obtidos até o momento, assim como discutidos compromissos adicionais. Na figura 13, estão representadas todas as COPs realizadas até 2018 (a reunião de 2019 ocorreu em Madri, na Espanha).
O reforço da Convenção-Quadro veio com a assinatura do Protocolo de Quioto, em 1997, no Japão, durante a COP3. Em síntese, o Protocolo de Quioto foi a primeira forma de operacionalização da Convenção-Quadro, estabelecendo limites de emissão de GEE e medidas de apoio para mitigação e adaptação. Um dos instrumentos econômicos de sucesso e muito utilizado no Brasil foi o MDL.
O Brasil implementou o primeiro projeto de MDL registrado no mundo, chamado de Novagerar e localizado no aterro sanitário do município de Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro. A partir daí, vários outros projetos foram registrados no país, como o do Aterro de Bandeirantes, um dos maiores da América Latina, localizado em São Paulo. As figuras 14A e 14B retratam o sistema de captação e queima de gás de um aterro em São Paulo.
Segundo o relatório Status dos Projetos MDL no Brasil, publicado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) em 2017, o país ocupava o terceiro lugar, com 339 projetos registrados. Projetos de gás de aterro representavam o quarto item, com 50 projetos aprovados, isto é, 14,8% dos projetos aprovados, porém representando 23,7% das reduções estimadas de emissão de GEE por tipo de projeto (BRASIL, 2017).
A meta de limitação do aumento da temperatura média global a até 2 °C somente foi estabelecida em 2009, no Acordo de Copenhague celebrado na COP15. Este limite superior vem sendo mantido, conforme os resultados da COP21, em 2015. Foi na COP21 que foi celebrado o Acordo de Paris, atualmente o mais relevante acordo em vigor para controle das mudanças climáticas e emissões de GEE.
O Acordo de Paris reafirmou o objetivo de conter o aumento da temperatura média global em menos de 2 °C acima dos níveis pré-industriais, além de aplicar esforços para limitar este aumento a 1,5 °C. O elemento central do Acordo de Paris são as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) de cada país, ou seja, metas de redução pós-2020 de emissões de GEE que cada uma das partes do Acordo compromete-sea alcançar. O Brasil submeteu sua primeira NDC em setembro de 2016, conforme figura 15.
Além de trazer efetivas metas de redução das emissões de carbono, a NDC do Brasil propôs ações adicionais visando ao avanço para uma economia de baixas emissões de carbono, conforme pode ser visto na figura 16.
Antes disso, em 1949, foi realizada a Conferência Científica das Nações Unidas sobre Conservação e Utilização dos Recursos Naturais, que, embora se relacione com o tema, tinha o foco no exaurimento de recursos naturais.
Emissões de GEE e formas de quantificação
Neste capítulo, veremos, de forma mais específica, como o setor de gerenciamento de resíduos sólidos relaciona-se com as mudanças climáticas, as fontes e a quantidade de emissões de GEE e suas formas de quantificação.
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