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MÁQUINAS OPERATRIZES Paulo Henrique Lixandrão Fernando U N I D A D E 2 Movimento rotatório com trabalho Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Reconhecer os meios de movimento rotatório nas máquinas-ferramentas. � Identificar a transmissão de movimento rotatório entre os compo- nentes da máquina. � Detalhar como a usinagem ocorre com o movimento rotatório. Introdução Neste capítulo, você estudará os movimentos rotatórios com trabalho em máquinas operatrizes, os quais são executados por meio da ferramenta ou da peça, juntamente a um avanço longitudinal, transversal ou vertical da máquina, para que se tenha a usinagem. Esses movimentos são muito necessários para a usinagem das partes externas das peças e podem ser combinados aos movimentos de translação para, por exemplo, usinar engrenagens. Você também verá como identifica-los e aplica-los na operação de máquinas operatrizes. Movimento rotatório nas máquinas operatrizes Em algumas operatrizes há movimentos associados à operação, que podem ser de sentidos longitudinais, transversais, oblíquos, verticais ou rotatório. No movimento rotatório há um eixo girando um cabeçote de ferramentas, ou um eixo girando a peça. Para cada máquina operatriz é possível identificar cada um dos movimentos rotatórios, conforme descrito a seguir. joliveira Rectangle joliveira Rectangle � Giro do cabeçote contendo a ferramenta de usinagem: fresadora, reti- ficadora, mandrilhadora, furadeira, serra circular. � Giro da peça por meio do eixo motriz: torno. É possível perceber que o movimento de giro do cabeçote contendo a ferramenta de usinagem é o mais empregado, devido à facilidade e ao baixo consumo de potência em rotacionar cabeçotes, geralmente, de dimensões e peso mássico menores que a peça. No torno, por exemplo, necessita-se de um conjunto de engrenagens transmitidas por ação mecânica para rotacionar a placa de três castanhas fixada à peça. Pode-se, ainda, classificar essas peças de acordo com o movimento e o tipo de ferramentas associadas (BINI; RABELLO, 2005). � Máquinas de movimento circular que trabalham com ferramentas simples: torno. � Máquinas de movimento circular que trabalham com ferramentas múl- tiplas: fresadora, mandril, serra circular. Na Figura 1, você pode ver uma placa de fixação de um torno, com o movimento de rotação girando a peça em torno do eixo motriz desta máquina operatriz. Figura 1. Placa de fixação da peça e movimento de rotação. Fonte: Pixel B/Shutterstock.com. Movimento rotatório com trabalho2 O movimento rotatório nas máquinas operatrizes é necessário para que, no contato com a ferramenta, se tenham alguns parâmetros associados, como a velocidade de corte (diretamente proporcional ao diâmetro da peça) e a rotação do eixo principal para o caso do torneamento. No caso de fresamento, está associada ao diâmetro médio entre as pastilhas fixas ao cabeçote e, também, à rotação desse eixo. O movimento circular no torneamento, em que as peças são fixas no eixo principal, ocorre para fabricar apenas componentes de perfil circular. Já no fresamento, tem-se o desbaste de peças por meio do cabeçote fixado por pas- tilhas, o que faz a usinagem ser feita somente em perfis prismáticos, nos quais há faces em vez de círculos. Porém, pode ser incorporada em uma fresadora uma broca no cabeçote principal, que, por sua vez, executa furos circulares nos perfis prismáticos; ou adiciona-se nesse cabeçote um mandril com uma fresa de topo, ferramenta com a qual se usina perfis circulares e elípticos em um prisma facetado. Veja na Figura 2 uma dessas ferramentas. A diferença da fresa em relação à broca é que a broca possui um ângulo inicial para retirada de cavaco do material para a posição contrária de avanço do furo; já a fresa de topo tra- balha em perfis em que já existe um pré-furo, e a retirada de cavaco se faz lateralmente, servindo para produzir perfis arredondados ao longo da peça. Figura 2. Ferramenta fresa de topo para usinagem de perfis circulares. Fonte: Matee Nuserm/Shutterstock.com. 3Movimento rotatório com trabalho O movimento circular da peça ou da ferramenta é necessário para a usi- nagem dos materiais e, para que ele ocorra, deve-se ter um conjunto de com- ponentes na máquina que trabalhem em sincronismo com esse movimento rotatório, a fim de disponibilizar ao operador seleções de rotações. Não se deve ter máquinas operatrizes em que há, ao mesmo tempo, o movimento circular tanto para o eixo principal fixado à peça como para o eixo de fixação do cabeçote da ferramenta de corte, pois se isso ocorresse e tivesse a mesma rotação da peça e da ferramenta, não haveria corte, já que o contato entre elas não teria velocidade instantânea associada àquele momento. Movimento rotatório dos componentes da máquina Movimento circular da peça (torno) Conforme podemos ver na Figura 1, há uma rotação da placa de fixação girando a peça em volta do eixo motriz, o qual tem a potência necessária para girar a dimensão máxima da peça que essa placa suporta. O movimento circular é provocado por meio de um conjunto de engrenagens de fixação acopladas à caixa de engrenagens, a qual se monta para que o operador tenha a possi- bilidade de selecionar velocidades de rotação do eixo motriz, que devem ser reguladas de acordo com a dimensão da peça, o material e outros parâmetros envolvendo a operação. Na Figura 3, você pode ver um exemplo da caixa de engrenagens de um torno. Movimento rotatório com trabalho4 Figura 3. Caixa de engrenagens de um torno. Fonte: Igor V. Podkopaev/Shutterstock.com. Em um torno mecânico, a caixa de engrenagens é acionada, comumente, por um motor elétrico. Essas engrenagens estão sempre submersas a um óleo mineral para a lubrificação, possibilitando que o contato entre os dentes tenha longevidade durante a operação, porém, a seleção de um conjunto de engrenagens para determinado momento da operação ocorre pela ação de um movimento mecânico de alavancas do operador. Para entender a relação de transmissão de engrenagens, você verá um exemplo de como ela pode ser executada. Considere que o eixo motriz, no qual o motor elétrico está acoplado, gira uma engrenagem de Z1 = 40 dentes (sabendo-se que Z2 = 90, Z3 = 50 e Z4 = 100), que é o eixo movido conectado à árvore principal da máquina, e que N1 = 1750 rpm, tem-se: Z2/Z1 = 90/40 = 2,25 — relação de transmissão da engrenagem 1 para a 2; N1/2,25 = 1750/2,25 = 777,78 rpm — rotação da engrenagem 2; N2 = N3 = 777,78 rpm — rotação da engrenagem 3; Z4/Z3 = 100/50 = 2 — relação de transmissão da engrenagem 3 para a 4; N4 = 777,78 / 2 = 388,88 rpm. 5Movimento rotatório com trabalho Nesse exemplo, observa-se que, em um torno, é possível ter uma redução de 1:4,25, porém outros casos podem ser selecionados, pois a sua caixa de engrenagens apresenta velocidades distintas por posições da alavanca, con- forme mostra a Figura 4. Figura 4. Relação de transmissão das engrenagens. Z1 Z3 Z2 Z4 Eixo Motriz Eixo Movido Além dos movimentos circulares do eixo movido da máquina operatriz, há fusos ao longo desta que geram outros movimentos, como o avanço ou recuo do cabeçote porta-ferramenta, etc. Na Figura 5, você pode observar esses fusos, demonstrados ao longo do torno mecânico. Movimento rotatório com trabalho6 Figura 5. Movimentos circulares do fuso. Fonte: oYOo/Shutterstock.com. Movimento circular da ferramenta (fresadora, etc.) Diferentemente do torno mecânico que tem um movimento circular da peça fixada a uma placa no eixo movido da árvore principal da máquina operatriz, a fresadora, a retificadora, a mandrilhadora, a furadeira, a serra circular, etc. apresentam o movimento circular da ferramenta. No torno, tem-se o cabeçote da ferramenta fixado a um mandril por um conjunto de pastilhas; na retificadora, um rebolo fixado ao eixo movido da árvore principal; na furadeira, a fixação de uma broca a um mandril no eixoprincipal; na serra circular, um disco fixado ao eixo principal; na mandri- lhadora, uma ferramenta fixada ao eixo da árvore principal que desbasta usinagens internas como cilindros, etc. Veja na Figura 6 um cabeçote com pastilhas fixadas ao eixo principal da máquina. 7Movimento rotatório com trabalho Figura 6. Cabeçote de uma fresadora. Fonte: Dmitry Kalinovsky/Shutterstock.com. Como os tornos mecânicos, estes equipamentos, que se caracterizam por rotacionar a ferramenta, e não a peça, funcionam por meio de caixas de en- grenagens. Essas máquinas operatrizes têm ainda transmissões por correias e polias ou hidrostática, na qual há uma bomba hidráulica e um motor hidráulico girando as ferramentas. A relação de transmissão por correias e polias é bas- tante similar a pôr engrenagens e não tem o número de dentes associados a cada engrenagem, porém possui o diâmetro primitivo das polias, que se trata do diâmetro médio em que a correia se fixa no canal da polia com ajuste e pressões adequadas. Já no conceito de transmissão hidrostática, existem outros fatores envolvidos como o tipo de circuito (aberto ou fechado), de pressão no sistema (até 20 bar, usa-se bomba fixa; acima de 20 bar, bomba variável), etc. Movimento rotatório com trabalho8 Devem ser analisadas algumas premissas para a fabricação de uma máquina operatriz com sistemas de transmissão por engrenagens, por correias e polias ou hidrostática. Uma premissa é a questão do custo de fabricação da máquina, por exemplo, visualiza- -se que, na maioria dos tornos mecânicos convencionais, apresenta-se um sistema de transmissão por engrenagens e, por isso, não valeria a pena introduzir um hidrostático. Já para máquinas de comando numérico computadorizado (CNC), em que a qualidade e a repetibilidade das peças são consideradas, há um sistema hidrostático incorporado, fazendo as diversas funções do equipamento serem controladas por válvulas. Usinagem e movimento rotatório A usinagem feita por meio de um movimento rotatório, seja ele da peça ou da ferramenta que está incorporada ao cabeçote da máquina, demonstra que há diversos fatores a serem considerados, por exemplo, se uma peça fica parada e a ferramenta rotacional em direção a peça executa a usinagem, é necessário se ocupar dos parâmetros da ferramenta em si e não os da peça. Em uma fresadora, além de ter o movimento de rotação das pastilhas fixas ao cabeçote, há um movimento de translação da mesa em que a peça está fixa, e um no qual a profundidade de corte da ferramenta em direção a peça é determinada, sendo assim, ela trabalha com vários movimentos incorporados, como o de avanço da mesa longitudinal e transversal, além do vertical e da rotação do eixo principal. Para cada caso específico, deve-se selecionar a pastilha de metal duro que será utilizado para o corte na usinagem, pois ela precisará atender à velocidade de corte da peça e será configurada para determinado avanço de corte, por isso, convém-se estudar profundamente o plano de operação de usinagem de uma peça para que se tenha, com a utilização do equipamento, as suas melhores condições. 9Movimento rotatório com trabalho Outra questão em relação à usinagem e ao movimento rotatório é que, para determinadas posições de corte, considerando o uso de ferramenta (pastilhas de metal duro, etc.), deve-se verificar como o cavaco se descolará da peça, e alguns artifícios podem ser utilizados para os parâmetros de corte, por exemplo, a lubrificação da região. Existem lubrificantes que, além de favorecer o tipo de cavaco gerado (quebradiço ou contínuo), dá uma certa estabilidade térmica à ferramenta, garantindo a sua longevidade. Na Figura 7, você pode visualizar uma máquina fresadora CNC, com o sistema de lubrificação incorporado à usinagem de um bloco prismático. Figura 7. Movimento circular do cabeçote de uma fresadora com sistema de lubrificação. Fonte: Pixel B/Shutterstock.com. Conclui-se que é muito importante ter o conhecimento dos movimentos circulares para cada tipo de máquina operatriz, bem como dos sistemas de transmissão adequados para cada uma delas. Os parâmetros de corte também devem ser analisados para que se tenha equilíbrio e boa usinabilidade entre a ferramenta e a peça. Movimento rotatório com trabalho10 1. Um tipo de movimento circular da peça com a ferramenta se deslocando apenas longitudinalmente pode ocorrer em qual máquina operatriz? a) Fresadora universal. b) Retificadora. c) Mandrilhadora. d) Furadeira. e) Torno mecânico. 2. Há máquinas que trabalham com a utilização de ferramentas simples (um corte apenas) e aquelas que utilizam ferramentas múltiplas (mais de um corte). Cite dois tipos de máquinas operatrizes que trabalham com ferramentas simples. a) Fresadora e retificadora. b) Mandril e serra circular. c) Torno e retificadora. d) Serra circular e torno. e) Fresadora e retificadora. 3. Qual tipo de ferramenta pode usinar superfícies por meio de rebaixos retangulares com canto arredondados, cilíndricos, etc., mas tem a necessidade de um pré-furo e apresenta o movimento circular da ferramenta fixa há um mandril no cabeçote principal? a) Fresa com pastilhas. b) Fresa de topo. c) Broca. d) Alargador. e) Brochadeira. 4. Quais os possíveis componentes para os sistemas de transmissão de máquinas operatrizes? a) Engrenagens, correias e polias, hidrostático. b) Mecânico, hidráulico, elétrico. c) Mecânico, correias e polias, pneumático. d) Pneumático, elétrico, engrenagens. e) Engrenagens, hidrostático, elétrico. 5. Além da placa fixada ao eixo motriz e conforme o acionamento por alavancas mecânicas, o torno mecânico transmite movimento para um outro componente, o qual, por um movimento ondulatório, faz o movimento longitudinal da mesa da ferramenta, dos acessórios, etc. De qual componente do torno mecânico se está falando? a) Luneta. b) Placa de três castanhas. c) Fuso. d) Carro móvel. e) Mandril. 11Movimento rotatório com trabalho BINI, E.; RABELLO, I. D. Manual prático de máquinas ferramenta. São Paulo: Hemus, 2005. 269 p. Leituras recomendadas AFFONSO, L. O. A. Equipamentos mecânicos: análise de falhas e solução de problemas, 2. ed. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2006. 321 p. CUNHA, L. S.; CRAVENCO, M. P. Manual prático do mecânico. São Paulo: Hemus, 2006. 584 p. FITZPATRICK, M. Introdução à usinagem com CNC. Porto Alegre: AMGH, 2013. 384 p. (Série Tekne). GROOVER, M. P. Automação industrial e sistemas de manufatura. 3. ed. São Paulo: Pearson, 2011. 592 p. NORTON, R. L. Projeto de máquinas: uma abordagem integrada. 4. ed. Porto Alegre: Bookman, 2013. 1030 p. ROSÁRIO, J. M. Princípios de mecatrônica. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2004. 368 p. SHINGO, S. Sistema de troca rápida de ferramentas: uma revolução nos sistemas pro- dutivos. Porto Alegre: Bookman, 2000. 327 p. SILVA, S. D. CNC: programação de comandos numéricos computadorizados. 8. ed. São Paulo: Érica, 2011. 308 p. (Série Formação Profissional). Referência Movimento rotatório com trabalho12 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. Conteúdo: