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<p>1</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Copyright © Rose Daise Nascimento, 2021</p><p>Todos os direitos reservados e protegidos</p><p>pela Lei 9.610 de 19/02/1998.</p><p>É proibida a reprodução deste e-book com fins</p><p>comerciais sem prévia autorização do autor.</p><p>diagramação</p><p>Resumo Editorial</p><p>https://www.resumoeditorial.com/</p><p>À Aruana,</p><p>o amor da minha vida.</p><p>4</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>“AS SETE MÁSCARAS” é um trabalho que tem</p><p>por objetivo abordar de forma profunda o processo</p><p>de formação e desenvolvimento de sete perfis de</p><p>personalidade, suas características, mecanismos</p><p>de defesa predominantes, conflitos emocionais</p><p>típicos e padrões de relacionamento. Trata-se da</p><p>descrição e compreensão dos seguintes perfis de</p><p>caráter: esquizoide, paranoide, narcisista, borderline,</p><p>histérico, obsessivo e masoquista, sob o enfoque da</p><p>teoria psicanalítica, das referências teóricas sobre</p><p>desenvolvimento da personalidade e dos manuais</p><p>de classificação em saúde mental.</p><p>Com base na experiência de mais de dez anos de</p><p>pesquisa e atendimento clínico na área de saúde</p><p>mental e desenvolvimento infantil, além da expe-</p><p>riência de docência em curso de graduação em</p><p>psicologia, organizei o presente material exclusivo</p><p>como apoio às aulas online, o qual contém uma</p><p>síntese didática dos principais pontos abordados.</p><p>5</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Como psicóloga, pesquisadora e professora, meu</p><p>estilo sempre foi associar a teoria à prática. Para</p><p>isso, procuro utilizar linguagem acessível, traduzindo</p><p>teorias complexas, articulando vários saberes que se</p><p>complementam e favorecendo uma compreensão</p><p>integral de um determinado fenômeno, no caso do</p><p>presente curso, os perfis de personalidade.</p><p>Sendo assim, minha proposta é capacitá-los a</p><p>identificar seu próprio perfil psicodinâmico de</p><p>personalidade predominante, bem como obter</p><p>informações e conhecimento necessário à com-</p><p>preensão de outras dinâmicas que são expressas</p><p>pelas pessoas que os cercam em suas relações</p><p>cotidianas.</p><p>Compreender a si e aos outros é um passo pro-</p><p>fundo em direção ao autoconhecimento, bem</p><p>como possibilita a harmonização dos nossos rela-</p><p>cionamentos.</p><p>Por Rose Daise Nascimento</p><p>SUMÁRIO</p><p>QUAL A RELEVÂNCIA DE SE ESTUDAR PERFIS DE</p><p>PERSONALIDADE? 7</p><p>CAPÍTULO 1 | CONCEITOS BÁSICOS 9</p><p>CAPÍTULO 2 | PERSONALIDADE ESQUIZOIDE 38</p><p>CAPÍTULO 3 | PERSONALIDADE PARANOIDE 51</p><p>CAPÍTULO 4 | PERSONALIDADE NARCISISTA 63</p><p>CAPÍTULO 5 | PERSONALIDADE BORDERLINE 83</p><p>CAPÍTULO 6 | PERSONALIDADE HISTÉRICA 100</p><p>CAPÍTULO 7 | PERSONALIDADE OBSESSIVA 124</p><p>CAPÍTULO 8 | PERSONALIDADE MASOQUISTA 138</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS 158</p><p>REFERÊNCIAS 162</p><p>Para ler um capítulo específico, clique no título para acessar.</p><p>7</p><p>QUAL A RELEVÂNCIA DE</p><p>SE ESTUDAR PERFIS DE</p><p>PERSONALIDADE?</p><p>A formação da personalidade depende de com-</p><p>ponentes biológicos, psicológicos e sociais. Sob o</p><p>ponto de vista psicológico, seguimos um roteiro de</p><p>desenvolvimento das emoções, da experimenta-</p><p>ção e defesa contra angústias que moldam nossas</p><p>“máscaras”, ou seja, que fortalecem e tornam rígidos</p><p>certos traços de personalidade que vão originar os</p><p>perfis psicodinâmicos. Sendo assim, ao conhecer</p><p>dados desses roteiros, podemos ter informações</p><p>sobre a dinâmica da personalidade de um indi-</p><p>víduo e isso sugere fortes indicadores de sua vida</p><p>emocional, da maneira como vê o mundo e como</p><p>tende a estabelecer padrões de relações.</p><p>Assim, conhecer a personalidade ajuda no processo</p><p>de autoconhecimento e contribui para a inteligência</p><p>emocional, que permite maior consciência e domínio</p><p>8</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>sobre suas emoções e utilização de defesas adapta-</p><p>tivas que tornam as relações mais harmônicas.</p><p>Nesse processo é importante rever fases deter-</p><p>minantes no desenvolvimento das emoções, bem</p><p>como traumas e condições que favorecem padrões</p><p>de repetição inconscientes que se reproduzem</p><p>automaticamente nos relacionamentos.</p><p>A maioria das pessoas se encontra perdida e</p><p>imersa em uma cegueira, seguindo padrões que</p><p>jamais vão se encaixar na sua maneira pessoal de</p><p>ver e encarar a vida. Cada um de nós carrega uma</p><p>máscara que sintoniza (ou entra em conflito) com</p><p>outras máscaras.</p><p>Nesse contexto, entender como você se formou,</p><p>quais são seus medos, como é sua maneira de ver</p><p>e lidar com a realidade, como você ama, como</p><p>odeia, como reprime ou se defende de angústias,</p><p>tudo isso é fundamental para a saúde mental e</p><p>harmonia de suas relações.</p><p>9</p><p>CAPÍTULO 1</p><p>CONCEITOS BÁSICOS</p><p>O QUE É PERSONALIDADE?</p><p>Personalidade é o conjunto de características psi-</p><p>cológicas que determinam os padrões de pensar,</p><p>sentir, agir, expressar e regular emoções, estabe-</p><p>lecer os padrões de relações e os valores morais</p><p>de alguém, ou seja, sua individualidade pessoal e</p><p>social (Hall, Lindzey & Campbell, 2000).</p><p>A formação da personalidade é um processo</p><p>gradual, complexo e único para cada indivíduo. De-</p><p>senvolvemos uma estrutura de personalidade, cuja</p><p>base se fortalece na primeira infância, com traços</p><p>específicos, sendo que esses traços são passíveis de</p><p>mudanças e adaptações, conforme as experiências</p><p>vividas, como a busca de transformação através de</p><p>tratamento psicológico (McWilliams, 2014).</p><p>10</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Ninguém muda voluntariamente a estrutura da</p><p>personalidade, pois é a identidade do indivíduo,</p><p>inclusive isso acontece somente nos casos pato-</p><p>lógicos de transtornos dissociativos de identidade</p><p>(múltiplas personalidades), algo raro e que sabe-</p><p>mos que, mudando a estrutura, temos pessoas</p><p>totalmente diferentes dividindo o mesmo corpo</p><p>e, dependendo da personalidade que assume o</p><p>ego do indivíduo, até a maneira de adoecer muda.</p><p>A PARTIR DE QUE MOMENTO A</p><p>PERSONALIDADE SE DESENVOLVE?</p><p>No exercício da clínica de psicologia, quando</p><p>queremos investigar sobre as origens da persona-</p><p>lidade de um indivíduo, é feito um levantamento</p><p>da história anterior ao nascimento dessa pessoa,</p><p>através da análise da dinâmica familiar, dos pais</p><p>do indivíduo, das circunstâncias em que se deu a</p><p>gravidez e do que chamamos de fatores transge-</p><p>racionais (Fraiberg, 1975).</p><p>Essas informações são necessárias porque o am-</p><p>biente determina ou reforça traços de comporta-</p><p>mento. Imagine a história de gêmeos adotados,</p><p>sendo que um vai morar com um casal budista</p><p>no Japão e o outro numa família de traficantes</p><p>na Colômbia. Esses ambientes divergentes certa-</p><p>mente demandam um tipo de conduta adaptati-</p><p>11</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>va específica, e possivelmente apresentam níveis</p><p>de estresse, modelos de relações, cultura, valores</p><p>e rotinas diferenciadas que moldam padrões de</p><p>reação e autorregulação emocional que somarão à</p><p>constituição do perfil de caráter de cada um deles.</p><p>Em saúde mental e desenvolvimento da perso-</p><p>nalidade, o fator biológico e genético é um aspecto</p><p>bastante relevante que, aliado ao ambiente, fatores</p><p>psicológicos e relacionais, contribuem de forma</p><p>significativa para a definição da estrutura de per-</p><p>sonalidade do indivíduo.</p><p>É nesse contexto que os fatores transgeracionais,</p><p>ou seja, as heranças de roteiros de vida, repetição</p><p>de traumas que passam de geração em geração,</p><p>são fundamentais. Eles entram na parcela dos</p><p>fatores psicológicos que somam à formação da</p><p>personalidade.</p><p>Vejamos como isso se dá na prática com o seguinte</p><p>caso fictício:</p><p>Ísis, uma adolescente de 15 anos engravidou</p><p>de um ‘ficante’. Revendo sua história, consta-</p><p>ta-se que a mãe de Ísis também engravidou</p><p>na adolescência e, sem condições de criá-la,</p><p>entregou-a para uma adoção clandestina.</p><p>Ísis foi abandonada pela mãe. Imagine que</p><p>agora Ísis está grávida de uma menina e a</p><p>história tende a se repetir. Essa reencenação</p><p>12</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>da história da mãe gera uma tensão interna,</p><p>inconsciente, acompanhada de ansiedade,</p><p>angústia que predispõe a jovem a repetir a</p><p>sua própria história através da filha. Ísis, es-</p><p>tando grávida, sem apoio do pai da criança,</p><p>pensa diariamente em entregar a filha à</p><p>adoção. A propósito, a adolescente se entre-</p><p>gou ao rapaz num impulso de amor e euforia</p><p>porque sofre de carência afetiva crônica,</p><p>da</p><p>realidade e dos outros, a busca de autonomia e</p><p>autossuficiência com relação aos outros, o intento</p><p>ativo de dominar e negar a alteridade. Isso tudo</p><p>acontece porque a criança vive num estado de</p><p>egocentrismo normal em que não consegue de</p><p>fato perceber a existência de um outro separado.</p><p>64</p><p>Entender que o narcisismo é um processo normal</p><p>e fundamental para a autoestima é muito impor-</p><p>tante para que não incorremos no erro de usar esse</p><p>termo sempre associado a algo bizarro ou doentio.</p><p>O ponto do continuum entre o narcisismo normal</p><p>e o narcisismo patológico não é fácil de identifi-</p><p>car, devido ao fato de que todos nós lutamos com</p><p>questões narcísicas, devemos sempre estar atentos</p><p>ao potencial hipócrita de rotular outras pessoas</p><p>como narcisistas.</p><p>Vivemos em uma cultura narcisista. Em 2013, na</p><p>Capa da Revista Time, os millenials foram caracteri-</p><p>zados como a “Geração eu, eu, eu”, pois muitos dos</p><p>jovens adultos dessa geração cresceram com um</p><p>senso de direito de que eles merecem ser famosos</p><p>ou bem-pagos sem fazer muito esforço para realizar</p><p>seus sonhos. Eles cresceram com uma audiência</p><p>de colegas em redes sociais que ofereceram gratifi-</p><p>cação instantânea e valorização da autoestima em</p><p>bases contínuas ao longo do dia e mesmo durante</p><p>altas horas da noite (McWilliams, 2014; Gabbard,</p><p>2016). Assim, o contexto social atual favorece com-</p><p>portamentos narcisistas.</p><p>Na sua versão patológica, o narcisismo não con-</p><p>siste em excesso de amor próprio, mas sim em sua</p><p>falta crônica, o que leva o indivíduo a realizar esfor-</p><p>ços insaciáveis para substituir o amor próprio pela</p><p>admiração externa. O déficit narcisista produz assim</p><p>um ego ameaçado pela desintegração e por uma</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>65</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>sensação de vazio interior. Em meio a um estado</p><p>de indiferenciação, essas pessoas apresentam uma</p><p>falha relativa ao reconhecimento de um inevitável</p><p>estado de incompletude e a aceitação de óbvias</p><p>diferenças que separam as singularidades de cada</p><p>indivíduo com quem convivem (Zimerman, 2004). É</p><p>como se o outro fosse uma extensão de si mesmo.</p><p>De posse dessa compreensão evolutiva do desen-</p><p>volvimento do narcisismo, observa-se que pessoas</p><p>com caráter narcisista têm um sentimento de au-</p><p>toimportância grandioso, consideram-se especiais e</p><p>esperam tratamento diferenciado. Seu sentimento</p><p>de merecimento é impressionante. Indivíduos narci-</p><p>sistas lidam mal com críticas, podem ficar com raiva</p><p>quando alguém ousa criticá-los, ou podem parecer</p><p>completamente indiferente a críticas. Querem que</p><p>as coisas sejam do seu jeito e com frequência têm</p><p>ambição de obter fama e fortuna. Seus relaciona-</p><p>mentos são pouco importantes e podem deixar</p><p>os outros furiosos por sua recusa em obedecer às</p><p>regras convencionais de comportamento. A explo-</p><p>ração interpessoal é frequente. Não conseguem</p><p>demonstrar empatia e fingem simpatia apenas</p><p>para atingir seus próprios objetivos egoístas.</p><p>Devido à sua frágil autoestima, são suscetíveis à</p><p>depressão. Dificuldades interpessoais, problemas</p><p>profissionais, rejeição e perda estão entre os es-</p><p>tresses que os narcisistas normalmente produzem</p><p>com seu comportamento - estresses com os quais</p><p>66</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>são as pessoas menos capazes de lidar. No âmbito</p><p>profissional, alguns indivíduos narcisistas altamente</p><p>perturbados podem ter um sucesso extraordinário</p><p>em certas profissões, como o meio executivo, as ar-</p><p>tes, a política, a indústria do entretenimento, o meio</p><p>esportivo e o evangelismo televisivo (Gabbard, 2016).</p><p>Alguns autores referem existir dois tipos de nar-</p><p>cisistas, aqueles mais exibidos e os mais introspec-</p><p>tivos (Gabbard, 2016). A caracterização clássica do</p><p>narcisista marcado por traços de arrogância, agres-</p><p>sividade, presunção, com um senso de grandiosi-</p><p>dade é classificado como NARCISISTA DISTRAÍDO.</p><p>Enquanto o narcisista tímido, apagado, inibido,</p><p>discretamente grandioso, que evita desprezos e</p><p>críticas, extremamente sensível às reações de ou-</p><p>tras pessoas, que é facilmente magoado e se sente</p><p>humilhado, cuja extrema sensibilidade ao desprezo</p><p>leva a uma fuga assídua dos holofotes, esse tipo é</p><p>chamado de NARCISISTA HIPERVIGILANTE.</p><p>Embora esses dois tipos possam ocorrer de forma</p><p>pura, muitos indivíduos apresentam uma combi-</p><p>nação de características de ambos os tipos. Entre</p><p>esses dois extremos do continuum, haverá muitos</p><p>indivíduos narcisistas que são bem mais suaves</p><p>socialmente e que possuem uma grande dose de</p><p>charme interpessoal.</p><p>Um estudo realizado em 2008 (Russ et al, 2008</p><p>apud Gabbard, 2016), no qual foram avaliados 225</p><p>67</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>indivíduos que preencheram os critérios diagnósticos</p><p>para Transtorno de Personalidade Narcisista, identifi-</p><p>cou três subtipos de narcisista: 1. Grandioso/Maligno,</p><p>2. Frágil e 3. De alto funcionamento/Exibicionista. O</p><p>tipo 1 alinhado de forma próxima com o Narcisista</p><p>Distraído, foi caracterizado por sentimento exagerado</p><p>da própria importância, falta de remorso, manipula-</p><p>ção interpessoal, raiva acumulada, busca de poder</p><p>nas relações e sentimentos de privilégio. A categoria</p><p>Frágil, muito parecida com o narcisista Hipervigilante,</p><p>repeliu sentimentos dolorosos de inadequação com</p><p>uma grandiosidade utilizada defensivamente e apre-</p><p>sentou uma poderosa subcorrente de sentimentos</p><p>inadequados, estados afetivos negativos e solidão.</p><p>Por fim, a variante de alto funcionamento tinha um</p><p>senso de importância própria exagerado, mas esses</p><p>indivíduos também eram extrovertidos, cheios de</p><p>energia e articulados; aparentemente eles utilizam</p><p>o narcisismo como uma forte motivação para serem</p><p>bem sucedidos (Gabbard, 2016).</p><p>O que as pessoas narcisistas de todos os tipos</p><p>têm em comum é um senso interno e/ou um pa-</p><p>vor da insuficiência, da vergonha, da fraqueza e da</p><p>inferioridade.</p><p>HISTÓRIA DE VIDA</p><p>Sobre as causas do narcisismo, existe carência de</p><p>pesquisas sobre a contribuição do temperamento e</p><p>das características inatas à organização de persona-</p><p>68</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>lidade narcisista na vida adulta (McWilliams, 2014).</p><p>O que temos são hipóteses geradas clinicamente</p><p>e ainda não testadas. Uma delas seria a de que as</p><p>pessoas com risco de desenvolver uma estrutura</p><p>de caráter narcisista seriam, de forma inata, mais</p><p>sensíveis a mensagens emocionais não verbaliza-</p><p>das. De maneira específica, o narcisismo tem sido</p><p>associado com o tipo de criança naturalmente</p><p>sintonizada com a percepção de afetos, atitudes e</p><p>expectativas não ditas aos outros.</p><p>Conforme aponta Zimerman (2004), na história</p><p>de vida dessas pessoas houve um precoce fracasso</p><p>ambiental em relação às necessidades de apego</p><p>enquanto criança, por mães que foram indiferentes</p><p>ou então intrusivas, com uma falha na empatia, na</p><p>continência materna e na capacidade de frustrar</p><p>adequadamente.</p><p>O sentimento de si requer um intercâmbio con-</p><p>tínuo com os outros, porém, em pacientes com</p><p>patologias narcísicas o que se observa é a não dis-</p><p>criminação entre o que é desejado e o que é real.</p><p>O narcisista, como vê o outro como uma extensão</p><p>de si, busca que essa pessoa o trate e o ame de</p><p>forma extrema, no entanto, vai encarar frustrações</p><p>nesse processo, em todas as situações em que não</p><p>é correspondido em suas idealizações extremas,</p><p>o que remete à reativação de suas experiências</p><p>traumáticas quando o outro não cumpre funções</p><p>protetoras (Zimerman, 2004).</p><p>69</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Todas essas teorias indicam que indivíduos com</p><p>fortes traços narcisistas estão aprisionados, sob o</p><p>ponto de vista do desenvolvimento, a um estágio</p><p>no qual eles necessitam de respostas específicas</p><p>das pessoas em seu ambiente de forma a mante-</p><p>rem seu senso de eu coeso. Quando essas respostas</p><p>não aparecem, esses indivíduos ficam propensos</p><p>à fragmentação do seu eu, o que gera extrema</p><p>angústia. Sendo assim, alguns autores consideram</p><p>que, na infância, esses indivíduos tiveram pais que</p><p>falharam na empatia com as necessidades de seus</p><p>filhos. Mais especificamente, os pais não responde-</p><p>ram</p><p>com validação e admiração às demonstrações</p><p>exibicionistas da criança apropriadas às fases do</p><p>desenvolvimento, não ofereceram modelos dig-</p><p>nos de idealização. Essas falhas se manifestam na</p><p>tendência a idealizar o outro, exigir que seja como</p><p>um espelho que reflete sua imagem ou que o ou-</p><p>tro tenha a obrigação de ser e agir como ele age</p><p>(Gabbard, 2016).</p><p>Assim, os conflitos inconscientes podem ter sua</p><p>origem rastreada até a patologia primitiva do re-</p><p>lacionamento mãe-bebê. A agressão oral provo-</p><p>cada, desencadeada e reforçada por mães frias e</p><p>rejeitadoras; ou mães ambivalentes: rejeitadoras e</p><p>superestimuladoras; ou por uma negligência gra-</p><p>ve e crônica; ou ainda a exploração por parte de</p><p>uma mãe narcisista, que ignora as necessidades</p><p>emocionais e a vida interna de seu bebê, mais o</p><p>70</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>reforço secundário de conflitos com o pai - ou a</p><p>ausência da disponibilidade compensadora de um</p><p>pai - podem levar a uma intensa inveja e ódio da</p><p>mãe, que pode gerar inveja do casal edípico.</p><p>Nos homens, cuja relação inicial com a mãe</p><p>continua a colorir suas relações com as mulheres</p><p>por toda a vida, o ódio patológico e a inveja das</p><p>mulheres podem tornar-se uma poderosa força</p><p>inconsciente que intensifica seus conflitos edípi-</p><p>cos. Esses homens vivenciam o desejo sexual por</p><p>uma mulher como uma repetição das provocações</p><p>primitivas por parte da mãe, o que ativa o ódio in-</p><p>consciente em relação à mulher desejada. O ódio</p><p>pode destruir a capacidade para a excitação sexual</p><p>e levar à inibição sexual.</p><p>Em casos menos graves leva a uma idealização</p><p>intensa e defensiva das mulheres, seguida por uma</p><p>rápida desvalorização delas como objetos sexuais,</p><p>que pode resultar em promiscuidade sexual.</p><p>Em síntese, podemos dizer que o narcisista possui</p><p>um self arcaico “normal” que está simplesmente</p><p>congelado sob o ponto de vista do desenvolvimen-</p><p>to - em outras palavras, o paciente é uma criança</p><p>em um corpo de adulto.</p><p>EMOÇÕES E DEFESAS</p><p>A VERGONHA e a INVEJA são recorrentemente</p><p>71</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>destacadas na literatura clínica como as principais</p><p>emoções associadas com organização de persona-</p><p>lidade narcisista. Sentimentos de vergonha ou de</p><p>medo de sentir vergonha estão incorporados na</p><p>experiência subjetiva dessas pessoas. A vergonha</p><p>é a sensação de ser visto como mau ou incorreto,</p><p>é uma crítica sentida como vinda de fora e tem</p><p>conotações de desamparo, feiúra, senso de defeito</p><p>inerente e impotência (McWilliams, 2014).</p><p>A vulnerabilidade à inveja foi bastante discutida</p><p>por Klein (1952) e consiste na convicção interna</p><p>de que algo falta em mim e de que minhas ina-</p><p>dequações estão em constante risco de exposição,</p><p>ficarei com inveja daqueles que parecem satisfeitos</p><p>ou daqueles que têm qualidades que parecem me</p><p>faltarem.</p><p>A inveja parece ser o cerne da muito citada ten-</p><p>dência ao julgamento em pessoas organizadas</p><p>narcisisticamente, julgamento tanto dos outros</p><p>quanto de si mesmas. Por exemplo, se me sen-</p><p>tir deficiente e perceber você como aquele que</p><p>“tem tudo”, posso tentar destruir o que você tem</p><p>deplorando, desprezando e ridicularizando essas</p><p>qualidades ou posses.</p><p>O sentimento de ser humilhado ou dolorosamente</p><p>exposto quando confrontado com deficiências em</p><p>suas capacidades ou o reconhecimento de necessida-</p><p>des não satisfeitas é central para a psicopatologia de</p><p>72</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>indivíduos narcisistas, sendo que muitas das defesas</p><p>que essas pessoas desenvolvem são manifestadas para</p><p>prevenir a consciência dos sentimentos associados a</p><p>essas experiências.</p><p>A questão da inveja no narcisista potencializa rea-</p><p>ções de RAIVA e AGRESSÃO em reação ao fato de</p><p>não ter suas necessidades de espelhamento e idea-</p><p>lização gratificadas. Uma manifestação da agressão</p><p>do indivíduo narcisista é a inveja crônica intensa que</p><p>faz ele querer arruinar e destruir as coisas boas de</p><p>outras pessoas. Comparam-se constantemente com</p><p>os outros, de modo que se vêem atormentados com</p><p>sentimentos de inferioridade e anseios intensos de</p><p>possuir o que as outras pessoas possuem.</p><p>A desvalorização dos outros como forma de lidar</p><p>com a inveja deles é associada a um esvaziamento</p><p>do mundo interno de representações objetais e dei-</p><p>xa o indivíduo com um senso de vazio interior. Esse</p><p>vazio pode ser compensado apenas pela admiração</p><p>e pela aclamação constantes de outras pessoas e</p><p>por meio de um controle onipotente sobre elas, de</p><p>modo que seu prazer e seu funcionamento livre e</p><p>autônomo não criem ainda mais inveja.</p><p>Kernberg (2009) enfatiza a síndrome do narcisis-</p><p>mo maligno, envolvendo patologias mais graves do</p><p>superego, um certo comportamento antissocial e</p><p>agressão egossintônica, ou seja, que a pessoa não</p><p>sente como algo estranho ou doentio.</p><p>73</p><p>Se comparado a indivíduos borderline, o ego de</p><p>pessoas narcisistas é muito mais forte e coeso e</p><p>podem usar um grande número de defesas, mas</p><p>aquelas das quais dependem de modo mais funda-</p><p>mental são a IDEALIZAÇÃO e a DESVALORIZAÇÃO</p><p>EXTREMAS, pois primeiramente tendem a IDEALI-</p><p>ZAR o objeto invejado, apropriar-se pela sedução,</p><p>tomar posse e domínio, e o medo da dependência</p><p>o impulsionam a desvalorizar e destruir essa amea-</p><p>ça. Assim, a inveja também inibe a capacidade de</p><p>sentir gratidão por aquilo que recebem do outro,</p><p>o que impede o fortalecimento da capacidade de</p><p>apreciar, amorosamente o amor recebido.</p><p>Esta raivosa e voraz apropriação do que é negado</p><p>e invejado não conduz à satisfação, porque o ódio</p><p>inconsciente “estraga” tudo o que for incorporado:</p><p>o sujeito termina sentindo-se vazio e frustrado.</p><p>Pessoas organizadas narcisisticamente também</p><p>são incapazes de mentalizar o estado do outro.</p><p>Sendo que a função mais importante de uma</p><p>relação narcisista é manter a experiência ilusória</p><p>de que não há separação entre o sujeito e o objeto</p><p>(invejado). Por isso, Indivíduos narcisistas negam</p><p>sua dependência e se comportam como se fossem</p><p>autossuficientes de forma onipotente.</p><p>Outra posição defensiva comum de pessoas mo-</p><p>tivadas pelo narcisismo é o PERFECCIONISMO. A</p><p>demanda por perfeição é expressa por meio de</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>74</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>uma crítica constante e crônica de si mesmas e dos</p><p>outros (dependendo de onde o self desvalorizado</p><p>for projetado) e de uma inabilidade em encontrar</p><p>alegria e prazer nas ambiguidades da existência</p><p>humana.</p><p>Algumas vezes indivíduos narcisistas lidam com</p><p>seu problema de autoestima considerando outra</p><p>pessoa - um amor, um mentor, um herói - como</p><p>perfeito, e assim se sentem engrandecidos pela</p><p>identificação com aquela pessoa (“Eu sou uma ex-</p><p>tensão do Fulano, aquele que nunca erra”).</p><p>RELACIONAMENTO</p><p>Pessoas com fortes traços narcisistas podem tratar</p><p>outros indivíduos como objetos a serem usados e</p><p>descartados de acordo com suas necessidades, sem</p><p>levar em consideração quaisquer sentimentos. As</p><p>pessoas não são vistas como tendo uma existência</p><p>separada ou como possuindo necessidades próprias.</p><p>Negam as características inaceitáveis da própria</p><p>autoimagem ao projetá-las sobre as outras pessoas.</p><p>Transmitem mensagens confusas para seus ami-</p><p>gos e familiares: a necessidade que têm dos outros</p><p>é profunda, mas seu amor é superficial. No entanto,</p><p>ver e ser visto são ações centrais para as pessoas</p><p>narcisistas e elas lutam com uma autoconsciência</p><p>acentuada sobre como estão se comportando em</p><p>relação aos outros, pois temem ser humilhados.</p><p>75</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>As relações podem ser preventivas para essa vul-</p><p>nerabilidade à humilhação, mas no contexto de</p><p>perda dessa proteção, uma pessoa pode se sentir</p><p>extremamente visível e exposta ao olhar dos outros</p><p>de uma maneira bastante devastadora.</p><p>O pavor da rejeição os torna extremamente sedu-</p><p>tores em busca de novas relações que contemplem</p><p>seu ideal inalcançável de perfeição. Sendo assim,</p><p>no intuito de evitar a rejeição ou humilhação, os</p><p>narcisistas irão se apresentar como a pessoa perfeita</p><p>e ideal, têm um feeling muito elevado para seduzir,</p><p>para falar o que você quer</p><p>ouvir, inclusive podem</p><p>parecer extremamente preocupados e carinhosos,</p><p>demonstrar afeto, tesão extremo. Todo esse arsenal</p><p>de comportamentos sedutores são investidos não</p><p>por amor, mas como estratégia, às vezes incons-</p><p>cientes, de evitar ser desprezado. Sendo assim, é</p><p>normal que uma pessoa se veja extremamente en-</p><p>cantada pelo indivíduo narcisista, especialmente as</p><p>pessoas que estiverem passando por um momento</p><p>de baixa autoestima e insegurança.</p><p>Esse encanto geralmente tem um futuro breve,</p><p>pois narcisistas reproduzem padrões de relação</p><p>de curta duração e insatisfatórias, que tendem ao</p><p>tédio, agressão, traições e inibição sexual. Geralmen-</p><p>te terminam uma relação depois de um período</p><p>breve, em geral quando a outra pessoa começa</p><p>a fazer exigências decorrentes de suas próprias</p><p>necessidades.</p><p>76</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Após o esplendor inicial da relação se desgastar,</p><p>a idealização do parceiro vira desvalorização ou</p><p>tédio, e eles desistem da relação e procuram novos</p><p>parceiros que podem preencher suas necessidades</p><p>de admiração, afirmação, amor incondicional, bem</p><p>como harmonização perfeita. Mantém esse padrão</p><p>de sugar e descartar as pessoas.</p><p>Nas manobras defensivas é de central importância</p><p>nos conflitos inconscientes a inveja pré-edipica-</p><p>mente determinada, isto é, uma forma específica</p><p>de raiva e ressentimento contra um objeto neces-</p><p>sário que é vivenciado como frustrante e alienado:</p><p>o que é desejado se torna, também, uma fonte de</p><p>sofrimento. Como reação a esse sofrimento, de-</p><p>senvolvem um desejo consciente ou inconsciente</p><p>de destruir, de estragar, de se apropriar pela força,</p><p>daquilo que esteja sendo sonegado. A tragédia da</p><p>personalidade narcisista é que esta raivosa e voraz</p><p>apropriação do que é negado e invejado não conduz</p><p>à satisfação, porque o ódio inconsciente daquilo</p><p>que se quer “estraga” tudo o que for incorporado.</p><p>A dependência em relação a um objeto amado</p><p>se torna angustiante e precisa ser negada; a perso-</p><p>nalidade narcisista precisa ser admirada ao invés</p><p>de amada. Narcisistas precisam ser admirados</p><p>como uma defesa ao seu medo de dependência.</p><p>Não toleram que seu parceiro dependa deles e</p><p>vivenciam a reciprocidade habitual das relações</p><p>humanas como uma exploração invasiva.</p><p>77</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>A inveja inconsciente inibe a capacidade de sentir</p><p>gratidão por aquilo que recebem do outro, cuja</p><p>própria capacidade de dar livremente eles também</p><p>invejam. A ausência de gratidão impede o fortaleci-</p><p>mento da capacidade de apreciar, amorosamente,</p><p>o amor recebido.</p><p>Devido à dificuldade de manter vínculos, geral-</p><p>mente os narcisistas se casam na faixa de 30 a 40</p><p>anos e colecionam queixas no casamento. Tendem</p><p>a procurar parceiros mais jovens, pois temem a ve-</p><p>lhice e lutam contra as limitações da vida. Uma das</p><p>queixas comuns nas relações com narcisistas é a</p><p>PROMISCUIDADE e tendência à TRAIÇÃO. São pes-</p><p>soas que podem desenvolver o DONJUANISMO, ou</p><p>seja, a necessidade de seduzir e descartar pessoas</p><p>compulsivamente. Esse comportamento acomete</p><p>homens e mulheres. Na prática, isso é observado</p><p>naquelas pessoas que flertam mesmo estando com</p><p>o parceiro ao lado, que traem de forma recorrente.</p><p>No Donjuanismo, alguns homens que parecem</p><p>ser hipersexuais, segundo manifestado por sua ne-</p><p>cessidade de ter muitos encontros ou conquistas</p><p>sexuais, usam suas atividades sexuais para mascarar</p><p>sentimentos profundos de inferioridade. Alguns têm</p><p>impulsos homossexuais inconscientes, os quais negam</p><p>por meio de contatos sexuais compulsivos com mu-</p><p>lheres. Depois de fazer sexo, a maioria dos Don Juans</p><p>não se sente mais interessada na mulher. A condição</p><p>é às vezes referida como satiríase ou adição sexual.</p><p>78</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>O que move um narcisista a buscar novos vínculos</p><p>é a inveja e não o amor. Imagine que um narcisista</p><p>tem uma namorada fixa, mas aparece uma outra</p><p>mulher super atraente pela beleza física, que se</p><p>destaca profissionalmente, ou seja, apresenta quali-</p><p>dades que ele inveja. Diante dessa “provocação”, na</p><p>mente do narcisista é como se a outra pessoa o es-</p><p>tivesse humilhando por ter tudo isso e exibir, assim</p><p>ele começa um projeto de idealização e sedução e</p><p>uma busca de incorporação dessas qualidades. Ele</p><p>seduz, domina e depois, com raiva e inveja destru-</p><p>tiva, desvaloriza essa pessoa, destrói o que inveja.</p><p>Para quem está de fora, isso pode ser interpretado</p><p>como maldade, mas na visão do narcisista ele está</p><p>se protegendo da inveja que não tolera.</p><p>Caso o narcisista se mantenha em um casamento,</p><p>é muito provável que a relação seja tomada por</p><p>traições e inibição sexual, pois essa inibição é um</p><p>reflexo da desvalorização do outro. Sendo assim,</p><p>narcisistas nunca conseguem ter uma relação está-</p><p>vel? Podem sim, mas isso não quer dizer que será</p><p>uma relação plena e feliz.</p><p>A ligação que pode favorecer o vínculo mais</p><p>duradouro com o narcisista pode estar associada</p><p>a pessoas com personalidade passivo-dependen-</p><p>tes, masoquistas, depressivas e até com pessoas</p><p>também narcisistas. O narcisismo acaba exigindo</p><p>que o outro seja como se fosse um espelho, que</p><p>reflete somente os desejos de si mesmo, por isso</p><p>79</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>a passividade do parceiro pode sustentar essa de-</p><p>manda. Além disso, o narcisista pode se dar bem</p><p>com um parceiro que pareça um “gêmeo idêntico”,</p><p>ou seja, outro narcisista, pois juntos acabam se</p><p>voltando contra terceiras pessoas. Na literatura,</p><p>essas dinâmicas são conhecidas como TRANSFE-</p><p>RÊNCIA FUSIONAL, TRANSFERÊNCIA GEMELAR e</p><p>TRANSFERÊNCIA ESPECULAR (Zimerman, 2004).</p><p>Transferência fusional: imaginar que o outro não</p><p>é mais do que uma, indiferenciada, extensão sua e,</p><p>portanto, deve estar totalmente à sua disposição,</p><p>nunca frustrá-lo, deve adivinhar seus pensamentos</p><p>e necessidades, atender suas demandas, etc.</p><p>Transferência gemelar: na qual já existe algum</p><p>grau de diferenciação, porém o indivíduo narcisista</p><p>crê que o outro tem a obrigação de ser exatamente</p><p>como ele é. Logo, sempre deve confirmar suas te-</p><p>ses, sob o risco de despertar fúria e agressividade.</p><p>Transferência especular: o indivíduo narcisista</p><p>necessita que o outro espelhe o eu grandioso que</p><p>ele exibe. É como se olhar no espelho.</p><p>As formas patológicas de narcisismo são mais</p><p>facilmente identificadas pela qualidade da relação</p><p>desses indivíduos. Uma das tragédias que afeta</p><p>essas pessoas é a incapacidade de amar. Sendo</p><p>assim, sempre atente para o padrão de relações</p><p>anteriores de uma pessoa com a qual você começa</p><p>80</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>a se envolver, para saber identificar sinais de um</p><p>possível relacionamento com alguém doente que</p><p>pode destruir sua autoestima, bem como envolver</p><p>sua vida nos riscos de uma relação abusiva. Em</p><p>síntese, atente para os seguintes sinais:</p><p>• Necessidade de admiração e de afirmação do</p><p>outro;</p><p>• Idealização do outro;</p><p>• Propensão a se sentir envergonhado e humi-</p><p>lhado pelo outro;</p><p>• Desprezo e desvalorização frequentemente</p><p>relacionado à inveja;</p><p>• Negação da autonomia do outro;</p><p>• Controle onipotente do outro;</p><p>• Insistência sobre a relação diádica exclusiva</p><p>que não permite um terceiro;</p><p>• Negação da dependência em relação ao outro;</p><p>• Incapacidade de aceitar ajuda do outro.</p><p>O narcisismo impede que a pessoa reconheça</p><p>em si os problemas de uma relação. O desafio ao</p><p>lidar com pessoas narcisistas consiste em fazê-los</p><p>81</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>pensar em como seria aceitar uma pessoa sem jul-</p><p>gá-la e sem explorá-la, amar os outros pelo que são,</p><p>sem idealizá-los, e expressar sentimentos genuínos</p><p>sem ter vergonha. O narcisista suga e descarta as</p><p>pessoas, pois o ideal que busca vorazmente ficou</p><p>preso no passado, na ausência de uma ponte para</p><p>experimentar o amor.</p><p>TRANSTORNO DE PERSONALIDADE</p><p>NARCISISTA</p><p>Nos casos graves, a dinâmica narcisista pode se</p><p>tornar mais rígida e inflexível, com maiores queixas</p><p>associadas aos padrões de relacionamento, que</p><p>causam extrema angústia tanto para o paciente</p><p>quanto para as pessoas com quem convive. Na</p><p>tabela</p><p>a seguir constam os critérios diagnósticos</p><p>do DSM-5 para o transtorno da personalidade nar-</p><p>cisista, ou seja, o narcisismo patológico:</p><p>Um padrão difuso de grandiosidade (em fantasia ou</p><p>comportamento), necessidade de admiração e falta</p><p>de empatia que surge no início da vida adulta e está</p><p>presente em vários contextos, conforme indicado</p><p>por cinco (ou mais) dos seguintes comportamentos:</p><p>1. Tem uma sensação grandiosa da própria im-</p><p>portância (p.ex. exagera conquistas e talentos,</p><p>82</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>espera ser reconhecido como superior sem</p><p>que tenha as conquistas correspondentes).</p><p>2. É preocupado com fantasias de sucesso</p><p>ilimitado, poder, brilho, beleza e amor ideal.</p><p>3. Acredita ser “especial” e único e que pode</p><p>ser somente compreendido por, ou associado</p><p>a, outras pessoas (ou instituições) especiais ou</p><p>com condição elevada.</p><p>4. Demanda admiração excessiva.</p><p>5. Apresenta sentimentos de possuir direitos</p><p>(i.e., expectativas irracionais de tratamento</p><p>especialmente favorável ou que estejam au-</p><p>tomaticamente de acordo com suas próprias</p><p>expectativas).</p><p>6. É explorador em relações interpessoais</p><p>(i.e., tira vantagens de outros para atingir os</p><p>próprios fins).</p><p>7. Carece de empatia: reluta em reconhecer</p><p>ou identificar-se com os sentimentos e as</p><p>necessidades dos outros.</p><p>8. É frequentemente invejoso em relação aos</p><p>outros ou acredita que os outros o invejam.</p><p>9. Demonstra comportamentos ou atitudes</p><p>arrogantes e insolentes.</p><p>(Reimpressa, com permissão, de Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth</p><p>Edition (Copyright © 2013). American Psychiatric Association. Todos os direitos reservados.) (Kaplan</p><p>e Sadock, 2017).</p><p>83</p><p>CAPÍTULO 5</p><p>PERSONALIDADE BORDERLINE</p><p>CARACTERÍSTICAS E TRAÇOS DE</p><p>PERSONALIDADE</p><p>Durante muito tempo, o termo borderline desig-</p><p>nava um estado de psiquismo da pessoa que, cli-</p><p>nicamente, estivesse na fronteira, no limite entre a</p><p>neurose e a psicose. Sendo assim, nesses indivíduos</p><p>vamos observar características psicóticas, como</p><p>“estranheza”, despersonalização (não se reconhecer,</p><p>não lembrar quem é), comportamentos associados</p><p>ao que chamamos de transtorno do sentimento de</p><p>identidade, pois não é sentida a integração e segu-</p><p>rança de ter seu self (eu) unido e essa sensação de</p><p>não saber, ou não estar seguro do que se é, deixa os</p><p>outros confusos. Apesar de apresentar características</p><p>psicóticas, esses indivíduos conservam o juízo crítico</p><p>e o senso da realidade.</p><p>84</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Indivíduos com fortes traços borderline quase</p><p>sempre parecem estar em crise. Mudanças de humor</p><p>são comuns. A pessoa pode estar inclinada a dis-</p><p>cussões em um momento, deprimida no momento</p><p>seguinte e, mais tarde, queixar-se de certa apatia.</p><p>A natureza dolorosa de sua vida reflete-se em</p><p>atos autodestrutivos repetidos. Essas pessoas po-</p><p>dem cortar os pulsos e executar outras formas de</p><p>automutilação para obter ajuda ou atenção dos</p><p>outros, para exprimir raiva ou para se anestesiar do</p><p>afeto que o consome. Para se prevenir de ficarem</p><p>sozinhos, pessoas com fortes traços borderline ou</p><p>aquelas que têm o Transtorno de Personalidade</p><p>Borderline, podem recorrer a cortar os pulsos ou a</p><p>outros gestos autolesivos, esperando ser resgatados</p><p>pela pessoa a quem estão apegados.</p><p>Os episódios de automutilação são apenas um</p><p>exemplo de como essas pessoas usam o corpo</p><p>como um local privilegiado para comunicar ou</p><p>expressar suas emoções, pois seus conflitos geral-</p><p>mente estão associados à dinâmica da fase oral e</p><p>anal, ou seja, período anterior à linguagem, e isso</p><p>favorece somatizações. Nesse sentido, é comum</p><p>observar pinturas marcantes no cabelo, excesso</p><p>de tatuagens, compulsão alimentar, oscilações de</p><p>peso, problemas com autoimagem, maquiagem</p><p>exagerada, etc. O corpo da pessoa com dinâmica</p><p>borderline sempre fala sobre suas emoções.</p><p>85</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>É comum a queixa de sensação crônica de va-</p><p>zio que acaba sendo preenchido de forma voraz</p><p>pelas relações e geralmente existe uma angústia</p><p>de separação perturbadora que favorece quadros</p><p>de DEPENDÊNCIA EMOCIONAL. Apresentam ins-</p><p>tabilidade afetiva, irritabilidade, raiva, ansiedade</p><p>intensa e sentimentos crônicos de vazio que são</p><p>desesperadores.</p><p>Apresentam instabilidades nas suas relações, au-</p><p>toimagem, afeto e impulsividade acentuada. Fazem</p><p>esforços para evitar o abandono real ou imaginado.</p><p>Nas relações costumam apresentar alternância</p><p>entre os extremos de idealizar (e amar) demais</p><p>uma pessoa e, diante de frustrações, transformam</p><p>o amor em ódio e desvalorizam o vínculo de forma</p><p>extrema, pois apresentam dificuldade em tolerar</p><p>a ambivalência das relações. Acreditam e buscam</p><p>algo totalmente e constantemente bom.</p><p>Essas pessoas têm dificuldade de percepção de</p><p>si mesmos e dos seus estados emocionais internos.</p><p>Projetam e buscam no outro coisas que não tole-</p><p>ram em si, como raiva. Fazem isso usando de forma</p><p>recorrente um mecanismo de defesa chamado</p><p>Identificação Projetiva. Por isso, quando estão com</p><p>raiva, por exemplo, costumam culpar alguém, se</p><p>vitimizar, e acusar o outro de ser mau e instigam a</p><p>raiva do outro, provocam, até vê-la sendo expressa</p><p>longe de seu self, fora de si. A convivência se torna</p><p>um tormento.</p><p>86</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Os comportamentos impulsivos ou autodestrutivos</p><p>são manifestos por excessos com gasto, sexo, abuso</p><p>de substâncias, direção irresponsável, compulsão</p><p>alimentar ou recorrência de gestos, ameaças ou</p><p>comportamento suicida ou automutilante.</p><p>O indivíduo borderline encontra dificuldade em</p><p>integrar visões positivas e negativas de si mesmo e</p><p>dos outros, levando a uma dissociação entre afetos</p><p>positivos e negativos. Assim, se as pessoas fazem</p><p>coisas boas, eles amam e idealizam demais; caso</p><p>sejam minimamente frustrados, desconsideram</p><p>todo amor prévio e odeiam fortemente.</p><p>Pessoas borderline vivem em um constante caos</p><p>interior que necessita de compreensão profunda e</p><p>de psicoterapia para reconhecimento e organização</p><p>constante de suas emoções.</p><p>HISTÓRIA DE VIDA</p><p>Imagine um bebê por volta dos dois anos de ida-</p><p>de, ele é rebelde, confronta, diz “não!”, sai correndo,</p><p>cai, chora e corre desesperado em busca do colo da</p><p>mãe. É uma vontade enorme de ser independente</p><p>e negar que precisa de ajuda e, logo em seguida,</p><p>um desespero por se ver sozinho e vulnerável.</p><p>Quando esse bebê está com raiva ele grita, chora,</p><p>morde, se joga no chão, bate em si mesmo, pois</p><p>a raiva é intensa e incontrolável. O amor também</p><p>ainda é imaturo e pautado em forte dependência. É</p><p>nessa fase da vida, numa luta pela independência,</p><p>87</p><p>que experimentamos o auge de instabilidade, de</p><p>vivências de amor e ódio, típicas de uma dinâmica</p><p>borderline normal.</p><p>Algumas pessoas nessa fase da vida acabam vi-</p><p>venciando traumas como abandono, negligência e</p><p>violência física e sexual que piora muito essa insta-</p><p>bilidade natural. Uma coisa é você experimentar o</p><p>abandono por um tempo tolerável, outra coisa é você</p><p>ser de fato abandonado e não ter pra quem voltar ou</p><p>como reparar essa experiência traumática. No caso de</p><p>violência sexual, a criança vive entre amar e depender</p><p>de alguém de dia e de noite odiar porque essa mes-</p><p>ma pessoa abusa dela, ou seja, é um tipo de vínculo</p><p>que favorece instabilidade, dissociações, confusão</p><p>emocional. Na fase da vida em que somos instáveis,</p><p>impulsivos e vulneráveis, se o ambiente piorar esses</p><p>estados, temos uma grande chance de fortalecer traços</p><p>borderline ao ponto de desenvolver um transtorno da</p><p>personalidade, nada acontece por acaso.</p><p>A ausência de uma relação segura na infância faz</p><p>com que seja difícil ter um senso de eu integrado.</p><p>Um ambiente violento e desprovido de amparo</p><p>adequado eleva os níveis de desconfiança e de</p><p>agressividade, como se você vivesse sempre pronto</p><p>a atacar.</p><p>Por se tratar de uma dinâmica típica de uma</p><p>fase primitiva do desenvolvimento emocional, al-</p><p>guns teóricos destacam como contribuição para o</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>88</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>fortalecimento desses comportamentos,</p><p>o envolvi-</p><p>mento excessivo de figuras maternais que estavam</p><p>em conflito em relação a permitir que a criança se</p><p>separasse, levando a ansiedades com respeito à</p><p>separação e ao abandono na criança, que crescia</p><p>com traços borderline. Outros focavam a carência de</p><p>afeto materna (Gabbard, 2016; McWilliams, 2014).</p><p>Pesquisas recentes demonstram que: 1) pessoas</p><p>com personalidade borderline em geral vêem suas</p><p>relações maternais como distantes, altamente</p><p>conflituosas ou sem envolvimento; 2) a falha do</p><p>pai em estar presente é um aspecto ainda mais</p><p>discriminador nas famílias de origem do que a</p><p>relação com a mãe; e 3) as relações perturbadas</p><p>com ambos os pais podem ser mais patogênicas,</p><p>bem como mais específicas para o Transtorno de</p><p>Personalidade Borderline, do que aquelas com</p><p>um dos pais em separado. Esses achados sugerem</p><p>que a NEGLIGÊNCIA pode ser um fator etiológico</p><p>mais significativo do que o envolvimento excessivo</p><p>(Gabbard, 2016).</p><p>Teorias psicodinâmicas enfatizando a importância</p><p>da SEPARAÇÃO e do ABANDONO receberam algu-</p><p>ma confirmação a partir de estudos que medem</p><p>a prevalência de separações e perdas precoces na</p><p>história de infância pessoas com transtorno de</p><p>personalidade borderline (Gabbard, 2016).</p><p>O ABUSO SEXUAL INFANTIL é considerado um</p><p>89</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>fator etiológico importante em cerca de 60% dos</p><p>pacientes borderline. Cerca de 25% dos pacientes</p><p>com TP Borderline apresentam uma história de</p><p>incesto genitor-filho. Além desse trauma, outras</p><p>experiências precoces, como negligência por parte</p><p>de cuidadores de ambos os gêneros e ambientes</p><p>domésticos caóticos ou inconsistente, também</p><p>parecem ser fatores de risco significativos para a</p><p>dinâmica borderline (Gabbard, 2016).</p><p>As experiências de abuso e negligência estão</p><p>conectadas com padrões de apego problemáticos.</p><p>Na ausência de apego seguro, as crianças têm difi-</p><p>culdades para discernir os próprios estados men-</p><p>tais ou os de outras pessoas, ou seja, apresentam</p><p>prejuízos na capacidade de mentalização.</p><p>EMOÇÕES E DEFESAS</p><p>A dificuldade de sentir seu eu integrado sugere</p><p>que indivíduos com caráter borderline fazem uso</p><p>excessivo da defesa de CLIVAGEM (DISSOCIAÇÃO)</p><p>dos distintos aspectos de seu psiquismo, que per-</p><p>manecem contraditórios ou em oposição entre si,</p><p>de modo que eles se organizam como pessoas am-</p><p>bíguas, instáveis e exageradamente compartimen-</p><p>tada: ora está amorosa, ora tem ataques de raiva.</p><p>Sofrem com uma ansiedade difusa e uma sensa-</p><p>ção de VAZIO CRÔNICO, que favorece somatizações,</p><p>fobias, estados de angústia extrema e actings, ou</p><p>90</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>seja, quando você não expressa um sentimento</p><p>pela fala e usa atos, ações.</p><p>Fazem uso excessivo de um mecanismo de defesa</p><p>chamado IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA, através do</p><p>qual aspectos intoleráveis do self são projetados</p><p>no outro; a outra pessoa é induzida a desempe-</p><p>nhar o papel projetado, e as duas pessoas agem</p><p>em uníssono. A identificação projetiva é um tipo</p><p>de comunicação, em que o processo não acaba na</p><p>projeção, pois a pessoa borderline provoca o outro</p><p>até este assumir os aspectos projetados. O uso des-</p><p>se mecanismo torna as relações sobrecarregadas</p><p>e conflituosas.</p><p>Como estratégia de defesa, as pessoas com dinâ-</p><p>mica borderline da personalidade costumam ver</p><p>e transformar a realidade à sua maneira, por isso:</p><p>• Trocam o pensamento conceitual pelo uso da</p><p>ONIPOTÊNCIA: “Se eu posso tudo, para que</p><p>pensar?”.</p><p>• O aprendizado com as experiências cede lugar à</p><p>ONISCIÊNCIA: “Se eu sei tudo, pra que aprender</p><p>com as experiências?”.</p><p>• O reconhecimento da parte frágil da perso-</p><p>nalidade é substituído pela PREPOTÊNCIA:</p><p>“Não é verdade que eu seja uma criança frágil</p><p>e desamparada; pelo contrário, quem é assim</p><p>91</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>são aqueles que tremem de medo de mim”.</p><p>• A capacidade de discriminação é trocada por</p><p>um estado de CONFUSÃO e AMBIGUIDADE.</p><p>• No lugar de uma curiosidade sadia fica uma</p><p>curiosidade INTRUSIVA e INVASIVA;</p><p>• A inteligência é substituída por uma ESTUPI-</p><p>DEZ; o orgulho sadio se transforma em AR-</p><p>ROGÂNCIA;</p><p>• O juízo crítico adquire uma dimensão psicótica</p><p>de um supra-ego, isto é, essa pessoa crê que</p><p>pode ditar as próprias leis, mesmo que elas</p><p>atentem contra a natureza, tendo crises de</p><p>raiva quando os demais não a seguem.</p><p>Do ponto de vista psicanalítico, Kernberg (1989)</p><p>destacou as seguintes características psicodinâmicas</p><p>da personalidade borderline: I. Manifestações ines-</p><p>pecíficas de fragilidade do ego: falta de tolerância à</p><p>ansiedade, falta de controle dos impulsos e ausência</p><p>de canais subliminares desenvolvidos; II. Mudança</p><p>em direção ou regressão ao processo de pensamen-</p><p>to primário; III. Operações defensivas específicas:</p><p>cisão, idealização primitiva, formas incipientes de</p><p>projeção, especialmente a identificação projetiva,</p><p>negação, onipotência e desvalorização; relações</p><p>objetais internalizadas patológicas (Gabbard, 2016;</p><p>Kernberg, 1989).</p><p>92</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>1. Manifestações inespecíficas de fragilidade do</p><p>ego: um aspecto do funcionamento do ego é a</p><p>capacidade de retardar a descarga de impulsos e</p><p>de modular afetos, como a ansiedade. Os pacien-</p><p>tes borderline, na visão de Kernberg (1989), são</p><p>incapazes de aglutinar forças do ego para realizar</p><p>essas funções, por causa das fragilidades inerentes</p><p>inespecíficas. De forma semelhante, eles têm difi-</p><p>culdade para sublimar impulsos poderosos e utilizar</p><p>sua consciência para orientar o comportamento.</p><p>2. Mudança em direção ou regressão ao processo</p><p>de pensamento primário: tendem a regredir para</p><p>um pensamento similar ao psicótico na ausência</p><p>de estrutura ou sob a pressão de afetos intensos.</p><p>Contudo, essas mudanças ocorrem, principalmente,</p><p>em um contexto em que o teste de realidade está</p><p>geralmente intacto.</p><p>3. Operações defensivas específicas: a primeira</p><p>dessas defesas foi a cisão, a qual Kernberg (1989)</p><p>viu como um processo ativo de separação de intro-</p><p>jeções e afetos contraditórios entre si. As operações</p><p>de cisão na pessoa com organização borderline</p><p>da personalidade manifestam-se clinicamente</p><p>conforme o seguinte: a) uma expressão alternan-</p><p>te de atitudes e comportamentos contraditórios,</p><p>com a qual a pessoa não se preocupa e nega; b)</p><p>uma compartimentalização de todas as pessoas</p><p>do ambiente em grupos de “totalmente boas” e</p><p>“totalmente más”, com oscilações frequentes de</p><p>93</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>determinado indivíduo entre os grupos; e c) visões</p><p>e imagens contraditórias de si mesmo coexistentes</p><p>(representações do self) que se alternam, em ter-</p><p>mos de predominância, de uma hora para outra e</p><p>de um dia para o outro.</p><p>4. Relações objetais internalizadas patológicas:</p><p>como resultado da cisão, a pessoa com organização</p><p>borderline da personalidade não vê os outros como</p><p>possuidores de um misto de qualidades positivas</p><p>e negativas. Ao contrário, os outros são divididos</p><p>em polos extremos e são considerados, nas pala-</p><p>vras de um indivíduo borderline, como “deuses ou</p><p>demônios”. Essas pessoas não conseguem integrar</p><p>os aspectos libidinais e agressivos dos outros, o</p><p>que inibe sua capacidade de reconhecer verda-</p><p>deiramente as experiências internas dos outros.</p><p>Essas percepções dos outros podem se alternar</p><p>diariamente entre a idealização e a desvalorização,</p><p>o que pode ser muito perturbador para qualquer</p><p>um que se relacione com uma pessoa assim. De</p><p>forma semelhante, a incapacidade deles de inte-</p><p>grar representações positivas e negativas do self</p><p>resulta em uma profunda difusão da identidade</p><p>(Kernberg, 1989).</p><p>RELACIONAMENTO</p><p>Uma vez que se sentem tanto dependentes quan-</p><p>to hostis, as pessoas com dinâmica borderline de</p><p>personalidade têm relacionamentos interpessoais</p><p>94</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>tumultuosos. Elas podem ser dependentes das</p><p>pessoas com quem têm intimidade e, quando se</p><p>frustram, expressam uma grande raiva dirigida às</p><p>pessoas mais íntimas. Não conseguem tolerar a</p><p>ideia de ficar sozinhas e preferem uma busca fre-</p><p>nética por companhia, sem importar o</p><p>quanto ela</p><p>lhe seja insatisfatória.</p><p>Para mitigar a solidão, mesmo que por breves</p><p>períodos, aceitam um estranho como amigo ou</p><p>podem se comportar de forma promíscua. Costu-</p><p>mam se queixar de sentimentos crônicos de vazio e</p><p>tédio e da falta de um senso de identidade coerente</p><p>(difusão de identidade); quando pressionadas, fre-</p><p>quentemente reclamam de como se sentem sempre</p><p>deprimidas, apesar do turbilhão de outros afetos.</p><p>Do ponto de vista funcional, as pessoas com ca-</p><p>ráter borderline distorcem seus relacionamentos</p><p>tendendo a caracterizar cada parceiro como to-</p><p>talmente bom ou totalmente mau. Eles enxergam</p><p>as pessoas ou como figuras de ligação afetuosas,</p><p>ou como figuras sádicas odiosas que os privam</p><p>de suas necessidades de segurança e ameaçam</p><p>abandoná-los sempre que se sentem dependentes.</p><p>Como resultado dessa cisão, a pessoa boa é ideali-</p><p>zada, e a pessoa má, desvalorizada. Deslocamentos</p><p>de fidelidade de uma pessoa ou um grupo para</p><p>outros são frequentes. Nesse sentido, o primeiro</p><p>contato com uma pessoa borderline pode fazer</p><p>95</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>você sentir emoções extremas de amor ou ódio,</p><p>pois se ela gostar de você tenderá a te idealizar</p><p>extremamente; porém se não houver sintonia, ela</p><p>não fará esforços para agradar.</p><p>Assim, as pessoas com dinâmica borderline de</p><p>personalidade ficam totalmente absorvidas no</p><p>estabelecimento de relações individuais exclusivas,</p><p>sem qualquer risco de abandono. Elas podem exigir</p><p>demais dessas relações como se tivessem o direito</p><p>de fazê-lo, o que sobrecarrega e aliena os parceiros.</p><p>Quando se aproximam de uma pessoa, é ativado</p><p>um conjunto de ansiedades duplas. Por um lado,</p><p>começam a se preocupar em serem engolfados pela</p><p>outra pessoa e perder a própria identidade nessa</p><p>fantasia primitiva de fusão. Por outro, experienciam</p><p>uma ansiedade que beira o pânico e que está re-</p><p>lacionada à convicção de que estão prestes a ser</p><p>rejeitados ou abandonados a qualquer momento.</p><p>As distorções cognitivas, como o pensamento</p><p>quase psicótico também podem ocorrer no contexto</p><p>das relações interpessoais. São comuns as percep-</p><p>ções de abandono por parte de pessoas amadas</p><p>que beiram um delírio, e regressões transferenciais</p><p>psicóticas podem surgir quando se apegam demais</p><p>aos parceiros. Isso também se processa no contex-</p><p>to de psicoterapia e os clínicos que testemunham</p><p>essa demonstração caleidoscópica de mudanças</p><p>de estados de ego tendem a uma série de reações</p><p>96</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>contratransferenciais, incluindo fantasias de resga-</p><p>te, sentimentos de culpa, transgressões de limites</p><p>profissionais, raiva e ódio, ansiedade e terror, bem</p><p>como sentimentos profundos de desamparo (Ga-</p><p>bbard, 2016).</p><p>Nesse contexto, a sexualidade se torna um lu-</p><p>gar de investimento na luta contra o vazio e pode</p><p>assumir características extremas, com tendências</p><p>sadomasoquistas. É como se a sexualidade com</p><p>suas conotações de fusão, penetração, submissão</p><p>ou controle não estivesse à disposição do prazer</p><p>sexual exclusivamente, mas estaria sendo usado</p><p>inconscientemente para preencher a sensação</p><p>crônica de vazio.</p><p>É incontestável o fato de que, mesmo que haja</p><p>uma florida aparência edípica nas atuações de</p><p>uma incontida sexualidade, a raiz do estado psicó-</p><p>tico borderline reside nas falhas e faltas, ocorridas</p><p>durante o desenvolvimento emocional primitivo,</p><p>com a consequente formação de vazios, verdadei-</p><p>ros “buracos negros”, que estão à espera de serem</p><p>preenchidos nas suas relações amorosas e sexuais.</p><p>Diante de tamanha instabilidade e intensidade nas</p><p>relações, cabe àqueles que convivem com pessoas</p><p>com caráter borderline compreender essa comple-</p><p>xa dinâmica e auxiliá-los das seguintes maneiras:</p><p>- Sempre destacar as partes boas e más de tudo,</p><p>97</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>isso ajuda a pessoa borderline a ter uma visão inte-</p><p>gral das pessoas, dos fatos e melhora a instabilidade</p><p>e impulsividade.</p><p>- Para lidar com a angústia de separação e o medo</p><p>de abandono, é importante estabelecer regras rí-</p><p>gidas de contato, criando uma rotina com regras</p><p>rigorosas de tempo, limites do relacionamento,</p><p>ritmo de contato via redes sociais, etc. Esses li-</p><p>mites devem ser explícitos e claros, pois se forem</p><p>seguidos com rigor aliviam o medo de se separar.</p><p>- Não supervalorizar a emoção, tanto nos casos</p><p>de amor quanto de ódio.</p><p>- Usar a razão em situações de extrema emoção,</p><p>pois isso ajuda na capacidade de racionalizar.</p><p>- Evitar sintonizar com a dinâmica da identifica-</p><p>ção projetiva.</p><p>TRANSTORNO DE PERSONALIDADE</p><p>BORDERLINE</p><p>Nos casos graves, a dinâmica borderline pode se</p><p>tornar patológica, com maior rigidez e inflexibilida-</p><p>de, somadas a expressivas queixas associadas aos</p><p>padrões de relacionamento instáveis, que causam</p><p>extrema angústia tanto para o paciente quanto para</p><p>as pessoas com quem convive. Na tabela abaixo</p><p>constam os critérios diagnósticos do DSM-5 para</p><p>98</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>o transtorno da personalidade borderline:</p><p>Um padrão difuso de instabilidade das relações</p><p>interpessoais, da autoimagem e dos afetos e de im-</p><p>pulsividade acentuada que surge no início da vida</p><p>adulta e está presente em vários contextos, con-</p><p>forme indicado por cinco (ou mais) dos seguintes:</p><p>1. Esforços desesperados para evitar abandono</p><p>real ou imaginado. (Nota: Não incluir comporta-</p><p>mento suicida ou de automutilação coberto pelo</p><p>Critério 5.)</p><p>2. Um padrão de relacionamentos interpessoais</p><p>instáveis e intensos caracterizado pela alternância</p><p>entre extremos de idealização e desvalorização.</p><p>3. Perturbação da identidade: instabilidade acen-</p><p>tuada e persistente da autoimagem ou da percep-</p><p>ção de si mesmo.</p><p>4. Impulsividade em pelo menos duas áreas poten-</p><p>cialmente autodestrutivas (p. ex., gastos, sexo, abuso</p><p>de substância, direção irresponsável, compulsão ali-</p><p>mentar). (Nota: Não incluir comportamento suicida</p><p>ou de automutilação coberto pelo Critério 5.)</p><p>5. Recorrência de comportamento, gestos ou amea-</p><p>ças suicidas ou de comportamento automutilante.</p><p>99</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>6. Instabilidade afetiva devida a uma acentuada</p><p>reatividade de humor (p. ex., disforia episódica,</p><p>irritabilidade ou ansiedade intensa com duração</p><p>geralmente de poucas horas e apenas raramente</p><p>de mais de alguns dias).</p><p>7. Sentimentos crônicos de vazio.</p><p>8. Raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em</p><p>controlá-la (p. ex., mostras frequentes de irritação,</p><p>raiva constante, brigas físicas recorrentes).</p><p>9. Ideação paranoide transitória associada a es-</p><p>tresse ou sintomas dissociativos intensos.Um padrão</p><p>difuso de emocionalidade e busca de atenção em</p><p>excesso que surge no início da vida adulta e está</p><p>presente em vários contextos, conforme indicado</p><p>por cinco (ou mais) dos seguintes:</p><p>(Reimpressa, com permissão, de Diagnostic and Statistical Manual of</p><p>Mental Disorders, Fifth Edition (Copyright © 2013). American Psychiatric</p><p>Association. Todos os direitos reservados.) (Kaplan e Sadock, 2017).</p><p>100</p><p>CAPÍTULO 6</p><p>PERSONALIDADE HISTÉRICA</p><p>CARACTERÍSTICAS E TRAÇOS DE</p><p>PERSONALIDADE</p><p>O objetivo do histérico é ser objeto de desejo de</p><p>outras pessoas. Sentem desconforto onde não são</p><p>o centro das atenções, usando comportamento</p><p>sexualmente sedutor para atrair, por isso investem</p><p>exageradamente na aparência física e têm pavor</p><p>do envelhecimento.</p><p>A interação é marcada por dramatização, teatra-</p><p>lidade e expressão exagerada das emoções, com</p><p>discurso excessivamente impressionista do tipo</p><p>que se você pergunta como está seu dia, tende a</p><p>responder: “Simplesmente ótimo!”, “Realmente in-</p><p>crível!”. Fazem tudo soar mais importante ou mais</p><p>grandioso do que realmente é. Exibem reações</p><p>de raiva, tristeza ou acusações quando não são o</p><p>centro das atenções.</p><p>101</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>No histérico, o traço prevalente e mais unanime-</p><p>mente reconhecido entre diversos investigadores</p><p>é o HISTRIONISMO. Essa palavra, que significa</p><p>teatralidade, surgiu na Roma antiga para designar</p><p>como histrião o comediante que representava pa-</p><p>péis. Portanto, o histrionismo do histérico</p><p>clássico</p><p>é representado por seu caráter afetado, exagerado,</p><p>exuberante, como se estivesse fingindo. Sua repre-</p><p>sentação sempre varia de acordo com as expecta-</p><p>tivas da platéia.</p><p>Existem diferenças entre uma pessoa histriôni-</p><p>ca e uma histérica, que tem a ver com o nível de</p><p>amadurecimento da personalidade. O continuum</p><p>que vai do histriônico ao histérico envolve uma va-</p><p>riedade de expressões de caráter com uma ordem</p><p>de forças e de fraquezas em pessoas situadas ao</p><p>longo desse continuum. Sendo assim, a pessoa</p><p>histriônica fica situada no pólo mais imaturo (psi-</p><p>cótico) do espectro, enquanto a pessoa histérica</p><p>ficaria no pólo mais maduro (neurótico).</p><p>As pessoas histriônicas tendem a exagerar seus</p><p>pensamentos e sentimentos, apresentam acessos</p><p>de mau humor, lágrimas e acusações sempre que</p><p>percebem não serem o centro das atenções ou</p><p>quando não recebem elogios e aprovações. De iní-</p><p>cio elas costumam encantar as pessoas com quem</p><p>travam conhecimento, principalmente devido ao</p><p>seu entusiasmo, à aparente franqueza e fragilidade</p><p>ou, simplesmente, devido à exímia capacidade de</p><p>102</p><p>sedução. Tais qualidades, contudo, perdem sua for-</p><p>ça à medida que esses indivíduos passam a exigir</p><p>continuamente o papel de protagonista.</p><p>Representar papéis é a especialidade mais efi-</p><p>ciente na histeria, assim, com muita propriedade</p><p>representam aquilo que mais impressiona os espec-</p><p>tadores. Vem daí a ideia de que, entre tais papéis,</p><p>essas pessoas costumam ser pseudo-hiper-sexuais,</p><p>retrato superficial de sua pseudo-hiperfeminilidade</p><p>ou pseudo-hipermasculinidade.</p><p>No histórico dessas pessoas observa-se privação</p><p>de cuidados maternos durante a fase oral e dificul-</p><p>dade de resolver a situação edípica e desenvolver a</p><p>sexualidade de forma madura. Assim, são pessoas</p><p>altamente sexualizadas e sensuais que ficam num</p><p>jogo de sedução eterno, não com o objetivo final</p><p>de atingir o ato sexual e sim para obter atenção.</p><p>Assim, o histérico é como uma criança pequena,</p><p>medrosa, carente, tentando lidar, da melhor maneira</p><p>possível, com um mundo dominado por pessoas</p><p>que julgam estranhas e poderosas.</p><p>As mulheres histéricas acabam associando poder</p><p>à figura masculina e se posicionam como “a eterna</p><p>menininha do pai”, pois nesse contexto, apesar da</p><p>sensualidade sedutora, as pessoas histéricas apre-</p><p>sentam problemas comuns com a sexualidade. Em</p><p>casos mais graves, nas mulheres é comum anor-</p><p>gasmia, inibição sexual e nos homens, impotência.</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>103</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Historicamente, a personalidade histérica tem</p><p>sido associada ao gênero feminino. Essa tendên-</p><p>cia a pensar o diagnóstico apenas em relação às</p><p>mulheres, provavelmente se relaciona mais com</p><p>estereótipos culturais acerca do papel sexual do</p><p>que à psicodinâmica. Outro contribuinte evidente</p><p>para a tendência esmagadora de ver a persona-</p><p>lidade histérica como uma questão exclusiva de</p><p>mulheres é o fato de que, a literatura sobre esse</p><p>transtorno foi escrita em sua maioria por homens</p><p>(Chodoff e Lyons, 1958; Luisada et al., 1974 apud</p><p>Gabbard, 2016).</p><p>Apesar da associação predominante entre per-</p><p>sonalidade histérica e feminilidade, essa dinâmica</p><p>foi extensamente documentada em homens. As</p><p>descrições de homens histéricos caem em dois</p><p>subtipos gerais: o hipermasculino e o passivo/</p><p>efeminado. Aqueles que se incluem no subtipo</p><p>hipermasculino são diretamente análogos à his-</p><p>térica clássica naquilo que os torna caricaturas da</p><p>masculinidade: homens fortes, másculos, “pega-</p><p>dores”, etc. Eles podem ser “Don Juans” que agem</p><p>sedutoramente em relação a todas as mulheres.</p><p>O subtipo de homens passivos/efeminados pode</p><p>incluir heterossexuais passivos e impotentes que</p><p>temem ou evitam as mulheres.</p><p>Em um estudo com 27 homens com transtorno</p><p>da personalidade histérica, Luisada e colabora-</p><p>dores (1974 apud Gabbard, 2016) constataram</p><p>104</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>que a maioria era heterossexual, mas que todos</p><p>tinham alguma forma de relacionamento sexual</p><p>perturbado.</p><p>Independente do gênero, a pessoa com fortes</p><p>traços histéricos vive envolvida numa atmosfera</p><p>dinâmica que inclui sedução, promiscuidade, ciú-</p><p>me sexual, anseio pelo amor ideal, excentricidade</p><p>e problemas relacionados à sexualidade.</p><p>HISTÓRIA DE VIDA</p><p>Na dinâmica da histeria, em ambos os gêneros,</p><p>observa-se que pessoas com esse tipo de caráter</p><p>tendem a encontrar dificuldades em duas das</p><p>clássicas fases psicossexuais de desenvolvimen-</p><p>to: elas experimentam relativa privação maternal</p><p>durante a fase oral e têm dificuldade em resolver</p><p>a situação edípica e desenvolver uma identidade</p><p>sexual definida.</p><p>A tendência à fixação nessas fases auxilia na di-</p><p>ferenciação entre o perfil histérico e o histriônico,</p><p>sendo que este último encontra maior dificuldade</p><p>nas fases mais precoces, por isso é mais imaturo</p><p>e impulsivo; enquanto o histérico neurótico está</p><p>fixado, primariamente, na fase edípica e dispõe de</p><p>defesas mais maduras.</p><p>No caso da pessoa organizada de forma mais</p><p>primitiva, a falta de cuidado maternal a leva a se</p><p>105</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>voltar para o pai, de modo a obter gratificação das</p><p>necessidades de dependência. Ela logo aprende</p><p>que a sedução e as manifestações exibicionistas e</p><p>dramáticas das emoções são necessárias para ganhar</p><p>a atenção do pai. Conforme amadurece, ela apren-</p><p>de que deve reprimir sua sexualidade genital para</p><p>permanecer a “garotinha do papai”. Muitas vezes se</p><p>engajam em um comportamento sexual promíscuo</p><p>que é, no fim, insatisfatório, pois a fantasia sexual</p><p>serve apenas como um substituto para o acolhimento</p><p>e segurança equivalente à função do seio materno,</p><p>que a pessoa inconscientemente anseia e do qual</p><p>sentiu muita falta na infância.</p><p>A pessoa com a variante mais neurótica (madura)</p><p>“negociou” a fase oral de desenvolvimento com um</p><p>grau razoável de sucesso. Ela também está desa-</p><p>pontada com a mãe, mas o desapontamento ocorre</p><p>em uma fase mais avançada do desenvolvimento:</p><p>a fase fálica, imediatamente anterior à situação</p><p>edípica integral, a criança deve chegar a um acordo</p><p>com o fato de que ela não pode possuir fisicamente</p><p>sua mãe como seu pai pode. O objetivo do indi-</p><p>víduo histérico é ser o objeto de desejo de outras</p><p>pessoas. No caso da garotinha, ela pode sentir que</p><p>perdeu para a mãe e fará qualquer coisa para se</p><p>tornar o objeto de desejo do pai. Muitas vezes, isso</p><p>pode levar a uma falsa adaptação do self, na qual</p><p>ela suspende sua verdadeira natureza para tentar</p><p>se tornar o que os outros querem (Gabbard, 2016;</p><p>106</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Kernberg, 1995; McWilliams, 2014).</p><p>O típico comportamento teatral exagerado das</p><p>pessoas histéricas muitas vezes se relaciona a uma</p><p>experiência central no início da infância que envol-</p><p>veu o fato de não serem reconhecidas. Em outras</p><p>palavras, pais que eram muito absorvidos em si</p><p>mesmos, muito deprimidos ou muito ressentidos</p><p>em relação às suas necessidades de desenvolvimen-</p><p>to infantil podem ter deixado a criança de lado e</p><p>não ter reconhecido a experiência afetiva interna</p><p>dela. A esse respeito, os cuidadores podem não ter</p><p>fornecido a função continente necessária para aju-</p><p>dar a criança a processar e a metabolizar estados</p><p>de afeto opressivos e assustadores (Gabbard, 2016;</p><p>Kernberg, 1995; McWilliams, 2014).</p><p>Muito da dinâmica de desenvolvimento que se</p><p>aplica a pessoas do sexo feminino se aplica de</p><p>forma semelhante a pessoas do sexo masculino.</p><p>Enquanto as mulheres histéricas são frequente-</p><p>mente “a menina do papai”, muitos homens histé-</p><p>ricos foram “os meninos da mamãe”. Eles podem</p><p>reagir a temas de separação-individuação em sua</p><p>infância erotizando o objeto ausente (Bollas, 2000</p><p>apud Gabbard, 2016).</p><p>Tão logo o objeto maternal esteja distante, eles</p><p>imaginam suas mães com outro homem que é</p><p>preferido em relação a eles. Por essa razão, muitos</p><p>homens histéricos do tipo “Don Juan” são atormen-</p><p>107</p><p>tados por uma combinação de medos de separação</p><p>e de exclusão (Lubbe, 2003). Isso pode levá-los a</p><p>comportamentos hipermasculinos, nos quais</p><p>eles</p><p>se sentem triunfantes sobre seus rivais sexuais ao</p><p>seduzirem mulheres sistematicamente, muitas</p><p>das quais já estão envolvidas com outros homens.</p><p>Como sua contraparte feminina, o homem histérico</p><p>deseja ser o objeto do desejo e pode ir de relação</p><p>em relação procurando a substituta perfeita para</p><p>sua mãe, descobrindo apenas que nenhuma delas</p><p>fornece a afirmação especial de que ele precisa</p><p>(Lubbe, 2003; McWilliams, 2014). É uma busca</p><p>sem fim, pois o objeto de desejo está aprisionado</p><p>no passado, na paixão e desejo infantil pela mãe,</p><p>que é proibido.</p><p>Outras adaptações também são possíveis. Alguns</p><p>homens com configuração histérica escolhem um</p><p>estilo de vida celibatário, como o sacerdócio, de</p><p>maneira a manter, inconscientemente, uma leal-</p><p>dade inabalável à mãe. Outros garotos lidam com</p><p>a percepção da sua adequação genital, ao se entre-</p><p>garem a atividades hipermasculinas solitárias, como</p><p>o fisiculturismo. Assim, eles podem se reassegurar</p><p>em relação ao fato de serem “homens reais”, não</p><p>tendo de se sentir inferiores em qualquer aspecto</p><p>(Gabbard, 2016).</p><p>Os homens histéricos homossexuais podem ter</p><p>experienciado uma situação edípica negativa, na</p><p>qual suas mães foram percebidas como rivais na</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>108</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>busca da atenção do pai; eles podem procurar</p><p>homens mais velhos para preencher seus anseios</p><p>por um pai a quem podem se sentir próximos (Ga-</p><p>bbard, 2016; Kernberg, 1995). De fato, Isay (2009)</p><p>apontou como meninos que se sentem atraídos</p><p>por outros garotos podem experienciar seus pais</p><p>se distanciando deles por não corresponderem às</p><p>suas expectativas.</p><p>Nenhuma discussão sobre histeria estaria com-</p><p>pleta sem referência ao histórico de fantasias de</p><p>INCESTO e à SEDUÇÃO INFANTIL. Freud original-</p><p>mente acreditava que muitos dos indivíduos histé-</p><p>ricos haviam sido seduzidos por seus pais, porque</p><p>ele ouvia com muita frequência relatos como esses</p><p>de seus pacientes. Mais tarde, ele se convenceu de</p><p>que muitos desses relatos eram fantasias decorren-</p><p>tes de desejos edípicos. Em meio ao furor sobre</p><p>se a visão de Freud estaria correta, muitos clínicos</p><p>adotaram uma posição “ou isso/ou aquilo”. Ou as</p><p>meninas são realmente seduzidas ou elas apenas</p><p>fantasiam a sedução. Essa dicotomia é ainda mais</p><p>complicada pelo fato de que muitas mulheres que</p><p>foram vitimizadas pelo incesto, ainda assim têm</p><p>fantasias poderosas e anseios em relação àquele</p><p>que perpetrou o incesto. Mesmo mulheres que</p><p>jamais foram violadas pelo pai podem continuar</p><p>a ter desejos sexuais poderosos conscientes ou in-</p><p>conscientes em relação a ele, à imagem idealizada</p><p>que ele representa e que inunda suas fantasias</p><p>109</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>sexuais na vida adulta. Por fim, há um meio termo</p><p>considerável em que interações erotizadas ocorrem</p><p>e que não resultam em incesto explícito, mas que</p><p>realmente encorajam fantasias (Gabbard, 2016;</p><p>Kernberg, 1995; Nasio, 2007).</p><p>Sobre a questão do incesto, uma história de in-</p><p>cesto real é muito mais provável de ser encontrada</p><p>nas pessoas com perfil histriônico. Essas pessoas</p><p>podem passar a vida adulta repetindo o trauma</p><p>original ao buscar homens que são proibidos de</p><p>uma forma ou de outra, como terapeutas, homens</p><p>casados, professores ou chefes. Elas podem tentar,</p><p>inconscientemente, dominar de forma ativa um</p><p>trauma passado experienciado de forma passiva</p><p>ao ser a pessoa que o inicia, em vez da pessoa que</p><p>se submete de forma passiva (Gabbard, 2016; Ker-</p><p>nberg, 1995).</p><p>A pessoa histérica de nível mais alto é muito</p><p>menos propensa a apresentar uma história de in-</p><p>cesto explícito, mas pode ter experienciado algo</p><p>ao qual ela percebeu como uma relação especial</p><p>com o pai. As mulheres histéricas, por exemplo,</p><p>frequentemente têm um pai que era infeliz com</p><p>sua esposa e que se voltou para a filha para obter</p><p>o preenchimento e a gratificação que não era pos-</p><p>sível no casamento. Essa pessoa pode receber uma</p><p>mensagem implícita de que ela deve permanecer</p><p>leal ao pai para sempre, de forma a resgatá-lo de um</p><p>casamento infeliz. Pais nessa situação podem dar</p><p>110</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>sinais sutis ou mesmo explícitos de desaprovação</p><p>toda vez que suas filhas demonstram interesse em</p><p>outros homens. Nesse cenário, a mulher histérica</p><p>se encontra rodeada por uma dinâmica similar ao</p><p>incesto, só que de uma forma atenuada. Pessoas</p><p>histéricas com essas dinâmicas e configurações</p><p>familiares podem se ver incapazes de abandonar</p><p>sua dependência do pai e de seguir a própria vida</p><p>(Nasio, 2007).</p><p>Como exemplo, ilustro uma vinheta clínica, ba-</p><p>seada em fatos reais adaptados, em que uma</p><p>paciente atendida com quadro de depressão</p><p>em decorrência da morte de sua mãe relatou</p><p>que, em sua história de vida, sempre foi a</p><p>“princesa do seu pai”. Sua mãe era passiva e</p><p>inexpressiva, com o humor cronicamente de-</p><p>primido. A paixão entre pai e filha era explícita</p><p>e verbalizada a todos que quisessem ouvir.</p><p>Tudo mudou quando a paciente menstruou</p><p>e sofreu as mudanças típicas da puberdade,</p><p>pois abruptamente e, sem uma explicação,</p><p>seu pai passou a tratá-la com frieza e inicia-</p><p>ram um ciclo de brigas constantes. Paralela-</p><p>mente, a paciente começou a desenvolver um</p><p>quadro de compulsão alimentar e aos poucos</p><p>tornou-se obesa. Ela alegava que, caso tivesse</p><p>interesse, ela conseguiria emagrecer, mas a</p><p>ideia de ser magra e atraente lhe causava</p><p>111</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>muita angústia. A interpretação para essa</p><p>dinâmica sugere que a “paixão entre pai e</p><p>filha” causou muita perturbação quando a</p><p>filha tornou-se uma mulher. As fantasias de</p><p>incesto poderiam vir à tona com toda força</p><p>e ambos decidiram inconscientemente se</p><p>afastar (no caso do pai); e se tornar “menos</p><p>desejável e atraente” (no caso da filha). A</p><p>paciente se envolveu como amante em vá-</p><p>rias relações, ficou anos sem falar com seu</p><p>pai e tudo piorou com a perda da mãe, que</p><p>provocou sua culpa por ter assumido seu</p><p>papel ao longo da vida. Essa paciente tinha</p><p>fortes características histéricas, exibia uma</p><p>felicidade radiante mesmo com depressão</p><p>grave, extremamente vaidosa, sedutora e</p><p>com uma necessidade extrema de agradar a</p><p>todos. Esse caso demonstra como as “paixões</p><p>infantis”, comuns na fase do Complexo de</p><p>Édipo, podem determinar muitos traços de</p><p>personalidade, bem como os padrões de re-</p><p>lações, além de envolver conflitos que podem</p><p>provocar culpas crônicas que potencializam</p><p>quadros depressivos.</p><p>EMOÇÕES E DEFESAS</p><p>O estilo cognitivo é uma característica do funcio-</p><p>namento intrapsíquico que liga os transtornos da</p><p>personalidade histérica e histriônica. Shapiro (1965)</p><p>112</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>identificou o estilo cognitivo típico de pacientes</p><p>com esses transtornos da personalidade como ge-</p><p>ralmente “global, relativamente difusos e carentes</p><p>de nitidez, sobretudo em detalhes significativos’’.</p><p>Em uma palavra, é impressionista” (p.111). Quando</p><p>um terapeuta pergunta a um paciente com esse</p><p>estilo cognitivo: “Como foi seu fim de semana?”, a</p><p>resposta provavelmente seguirá a linha: “Simples-</p><p>mente ótimo” ou “Realmente terrível”, sem qualquer</p><p>detalhe que apoie a resposta. O mesmo tipo de</p><p>resposta provavelmente se aplicará a figuras signi-</p><p>ficativas na vida do paciente. Quando foi solicitado</p><p>a uma paciente histérica para que descrevesse seu</p><p>pai, ela respondeu: “Ele é simplesmente demais!”.</p><p>Esse estilo cognitivo global e impressionista está</p><p>intimamente associado ao uso de mecanismos de</p><p>defesa por pessoas histéricas e histriônicas (Horowitz,</p><p>2001; McWilliams, 2014). Esses indivíduos inibem o</p><p>processamento de informações de modo a mitigar</p><p>emoções fortes. REPRESSÃO, NEGAÇÃO, DISSOCIA-</p><p>ÇÃO e SUPRESSÃO são estratégias defensivas que</p><p>também reduzem a excitação emocional. Essas</p><p>pessoas podem dizer “não sei” quando o que real-</p><p>mente pensam é “não devo saber” (Horowitz, 2001).</p><p>Nos primeiros textos sobre histeria, esse embota-</p><p>mento da conexão emocional era frequentemente</p><p>descrito como la belle indifférence (a bela indiferen-</p><p>ça), referindo-se</p><p>à aparente falta de preocupação</p><p>das pacientes do sexo feminino em relação aos</p><p>113</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>sintomas conversivos delas (Gabbard, 2016). O estilo</p><p>cognitivo histérico ou histriônico pode contribuir</p><p>para a falência em integrar ou reconhecer impli-</p><p>cações, consequências e detalhes da experiência.</p><p>Em contrapartida, essa inibição da excitação</p><p>emocional geralmente oscila com demonstrações</p><p>emocionais exageradas, elaboradas para suscitar</p><p>respostas de outras pessoas. Os histéricos/histriô-</p><p>nicos empregam sua atenção globalmente e de</p><p>forma difusa, mas muito de seu foco é sobre se</p><p>outras pessoas estão dando atenção a eles ou não.</p><p>Os ESTADOS DISSOCIATIVOS, como SINTOMAS</p><p>CONVERSIVOS, foram frequentemente classifica-</p><p>dos como fenômenos histéricos, embora sejam</p><p>encontrados em pacientes com uma variedade de</p><p>diagnósticos. A manifestação mais extrema de dis-</p><p>sociação é o transtorno dissociativo de identidade,</p><p>o qual envolve tanto a CISÃO – no sentido em que</p><p>diferentes representações do self são mantidas de</p><p>forma separada – quanto a REPRESSÃO – no sentido</p><p>em que a personalidade primária normalmente não</p><p>tem memória dos outros perfis de personalidade</p><p>(McWilliams, 2014)..</p><p>As reações das pessoas histriônicas a suas explo-</p><p>sões emocionais se parecem com a dissociação e o</p><p>transtorno dissociativo de identidade, ainda que de</p><p>uma forma atenuada. Esses indivíduos muitas vezes</p><p>têm poucas recordações de suas ações, as quais</p><p>114</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>dizem parecer como que de “outra pessoa”. Uma</p><p>paciente histriônica que também tinha sintomas</p><p>dissociativos descobriu cortes em seu seio esquer-</p><p>do, mas ela não conseguia explicar como isso havia</p><p>acontecido. Logo após essa descoberta, seu marido</p><p>a encontrou no banheiro às 3h da madrugada; ela</p><p>estava em um estado dissociado, cortando seu seio</p><p>esquerdo suavemente com uma lâmina de barbear.</p><p>Nesses estados repetia: “Devo sofrer como minha</p><p>mãe sofreu”. Recentemente, a mãe dela havia se</p><p>submetido a uma cirurgia decorrente de um câncer</p><p>de mama. Essa paciente também ilustra o meca-</p><p>nismo de defesa de IDENTIFICAÇÃO, outra defesa</p><p>histérica comum (Gabbard, 2016).</p><p>Um mecanismo de defesa final que pode ser</p><p>encontrado tanto em pessoas histéricas como nas</p><p>histriônicas é a própria EMOCIONALIDADE. Tornar-se</p><p>intensamente emocional, ainda que de forma rasa</p><p>e superficial, pode gerar uma defesa contra afetos</p><p>mais profundos e sinceros que a pessoa deseja</p><p>evitar (MacKinnon et al., 2006). A emocionalidade</p><p>automática, com o estilo cognitivo impressionista</p><p>e global, serve para evitar que a pessoa fique em</p><p>contato com quaisquer estados de afeto genuínos</p><p>ou atitudes em relação ao self e aos outros.</p><p>Como fora dito anteriormente, a histeria se en-</p><p>contra na faixa neurótica do desenvolvimento da</p><p>personalidade. Sendo que essa classificação deman-</p><p>da uso de defesas maduras, como a REPRESSÃO.</p><p>115</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Além disso, possuem outra característica marcante</p><p>na dinâmica neurótica que é a presença de um</p><p>superego rigoroso e crítico.</p><p>Essas pessoas buscam satisfações orais, atenção</p><p>e proximidade amorosa e erótica. Se movem mais</p><p>em direção às pessoas do que para longe delas.</p><p>As mulheres costumam ver homens como fortes</p><p>e excitantes, e vêem a si próprias como fracas e</p><p>insignificantes, uma vez que consideram o poder</p><p>um atributo inerentemente masculino, admira os</p><p>homens, mas também - em geral de modo incons-</p><p>ciente - os odeia e inveja. Essas mulheres teriam</p><p>aprendido a realizar uma equivalência entre falta</p><p>de poder - delas mesmas e de suas mães - e falta</p><p>de pênis - uma angústia comum na Fase Fálica.</p><p>No campo afetivo, são conhecidos pelos altos</p><p>níveis de ansiedade e pela vulnerabilidade tanto à</p><p>culpa quanto à vergonha. Sua autoestima é em geral</p><p>dependente da obtenção repetitiva da sensação de</p><p>que têm status e poder quanto às pessoas das quais</p><p>têm medo (aqueles do sexo oposto, ou, no caso de</p><p>indivíduos homossexuais, aqueles do próprio gênero,</p><p>que são vistos como poderosos). “Quando me sinto</p><p>forte, me sinto como um homem e não como uma</p><p>mulher forte” - essa seria a sensação vista do ponto</p><p>de vista feminino (McWilliams, 2014).</p><p>Assim, vêem como única potência na feminili-</p><p>dade a capacidade de ser sexualmente atraentes.</p><p>116</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Investem exageradamente na própria aparência</p><p>e têm pavor do envelhecimento bem acima do</p><p>comum. O comportamento de “buscar atenção”</p><p>dessas pessoas tem o significado inconsciente de</p><p>buscar uma garantia de que são aceitáveis - em</p><p>particular uma reafirmação de que o corpo de seu</p><p>próprio gênero é apreciado, ao contrário do que</p><p>aconteceu na sua infância.</p><p>RELACIONAMENTOS</p><p>Um encontro marcado por sedução extrema, um</p><p>certo nível de euforia e desejo é o que uma pessoa</p><p>com caráter histérico desperta nas pessoas com</p><p>quem se envolve. Quando esse estado de atração</p><p>culmina num encontro íntimo sexual, a frustração</p><p>é quase inevitável, pois na histeria o foco do prazer</p><p>está na sedução e não na sexualidade genital, isso</p><p>é coisa de “adulto” e quando é feito, torna-se car-</p><p>regado de culpas, inibições e outros comprometi-</p><p>mentos da sexualidade. A sensação é de que você</p><p>foi enganado, literalmente uma bela e encenada</p><p>“propaganda enganosa”.</p><p>Muitas mulheres histéricas abordam os homens</p><p>tentando se tornar o que pensam que um homem</p><p>mais desejaria que elas fossem, e os homens acabam</p><p>desapontados porque sentem que foram enganados</p><p>pela apresentação falsa que a mulher fez de si mesma.</p><p>Bollas (2000) observou que pessoas histéricas</p><p>117</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>tendem a erotizar uma narrativa de vida na qual</p><p>elas são o objeto erótico de alguém. A ocorrência</p><p>de múltiplos parceiros amorosos, típico dos trans-</p><p>tornos da personalidade histérica e histriônica, com</p><p>frequência se desvela em um padrão fixo: o parceiro</p><p>amoroso escolhido jamais será o certo e é, por isso,</p><p>dispensável. Dessa forma, as mulheres se guardam</p><p>para a figura internalizada do pai, pois enquanto</p><p>garotinhas, elas frequentemente idealizaram a</p><p>figura paterna, talvez como o único homem que</p><p>valha a pena ser possuído. Esse apego intenso levou</p><p>a sentimentos de rivalidade em relação à mãe e a</p><p>um desejo ativo de substituí-la.</p><p>Nas relações amorosas, essa rivalidade com a fi-</p><p>gura feminina ou masculina pode se tornar o foco</p><p>motivacional que impulsiona a pessoa histérica a</p><p>buscar parceiros comprometidos, pois parte do</p><p>prazer está em se sentir triunfando sobre essa figura</p><p>materna/paterna. Esse conflito também é respon-</p><p>sável pela atração por relações triangulares. Assim</p><p>reitera Gabbard (2016) que as evidências de uma</p><p>dinâmica neurótica no paciente histérico podem</p><p>advir, alternativamente, de padrões persistentes</p><p>de relação triangular, como se apaixonar por ho-</p><p>mens casados, como rivalidade intensa com outras</p><p>mulheres, etc.</p><p>No decurso da terapia ou da análise, muitas pa-</p><p>cientes histéricas recordam fantasias dessa nature-</p><p>za. Se elas percebem que se atribui a seus irmãos</p><p>um status especial em relação ao pai por serem</p><p>118</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>do gênero masculino, elas também podem desen-</p><p>volver um ressentimento profundo e tornarem-se</p><p>altamente competitivas em relação aos homens</p><p>(McWilliams, 2014; GABBARD, 2016).</p><p>Toda a sexualidade pode ser matizada com signi-</p><p>ficados incestuosos por causa do apego edípico à fi-</p><p>gura paterna. As mulheres também podem escolher</p><p>parceiros inapropriados como uma defesa adicional</p><p>contra a desistência de um anseio edípico. Essas</p><p>dinâmicas são muitas vezes encobertas, entretanto,</p><p>e com frequência apenas se tornam claras depois</p><p>de uma avaliação cuidadosa (McWilliams, 2014).</p><p>Embora algumas pacientes histéricas possam</p><p>ter apegos conscientes e explícitos em relação ao</p><p>pai, outras reprimem essa dimensão do desen-</p><p>volvimento. A experiência consciente em relação</p><p>ao pai, pode ser matizada com a raiva como uma</p><p>defesa contra seu anseio subjacente. De modo</p><p>semelhante, elas podem ser desconhecedoras de</p><p>seus sentimentos de rivalidade</p><p>em relação à mãe,</p><p>a quem conscientemente amam.</p><p>Em mulheres homossexuais, pode haver uma</p><p>situação de Édipo negativa – em outras palavras,</p><p>elas sentem apego intenso por suas mães, enquanto</p><p>desprezam seus pais como um rival que sempre</p><p>pareceu vencer a disputa pela afeição da mãe. Como</p><p>resultado, elas podem ter uma série de amantes</p><p>do sexo feminino às quais são diferentemente</p><p>119</p><p>apegadas e, por essa razão, não estão disponíveis</p><p>de fato (Gabbard, 2016).</p><p>Embora a anorgasmia tenha sido classicamen-</p><p>te associada à histeria, a sintomatologia sexual,</p><p>na realidade, é muito mais variada em pacientes</p><p>com transtorno da personalidade histriônica ou</p><p>histérica. Alguns podem ter funcionamento sexual</p><p>relativamente assintomático, mas são privados de</p><p>qualquer experiência externa autêntica de amor</p><p>ou de intimidade durante as relações sexuais. São</p><p>aquelas pessoas que alegam fazer sexo pelo outro,</p><p>que não sentem tanto interesse, ou que usam a</p><p>sexualidade com a intenção de manter a atenção</p><p>que recebem (Gabbard, 2016; McWilliams, 2014).</p><p>As partes sexuais do corpo podem ser exibidas por</p><p>meio de formas provocativas de se vestir, mesmo se</p><p>houver pouca excitação erótica associada ao com-</p><p>portamento provocativo. De fato, uma ocorrência</p><p>comum nas pessoas histriônicas e histéricas é a</p><p>surpresa quando outros respondem a elas como</p><p>se fossem sedutoras ou sexualmente provocativas.</p><p>Em outras palavras, há uma dissociação entre o</p><p>comportamento sexualizado explícito inconsciente-</p><p>mente elaborado para atrair a atenção e a sintonia</p><p>empática sobre como isso afeta os outros (Gabbard,</p><p>2016; McWilliams, 2014). Algumas motivações para</p><p>essas pessoas se exibirem de forma provocativa e</p><p>recorrente nas redes sociais pode ser justificada</p><p>por uma dinâmica histérica, por ser um ambiente</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>120</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>ideal de admiração e de obtenção de atenção com</p><p>base na sua imagem provocativa.</p><p>As pessoas histéricas normalmente apresentam</p><p>problemas que giram em torno da sexualidade genital</p><p>em si mesma ou das dificuldades com as relações</p><p>sexuais em suas vidas. Embora a mulher histérica</p><p>classicamente tenha sido descrita como “frígida” ou</p><p>não orgásmica, ela pode também ser promíscua ou</p><p>orgásmica por inteiro, mas basicamente insatisfeita</p><p>com suas relações sexuais. Ela pode ser incapaz de</p><p>ter um compromisso amoroso ou sexual com um</p><p>homem que é apropriado para ela e, em vez disso,</p><p>apaixonar-se desesperadamente por um homem</p><p>que não está disponível. Outro problema recorrente</p><p>para a pessoa histérica é que os homens muitas vezes</p><p>interpretam mal as suas ações como investidas se-</p><p>xuais, e ela é continuamente surpreendida com essa</p><p>má compreensão – um fato que reflete a natureza</p><p>inconsciente de sua sedução (McWilliams, 2014).</p><p>A sexualidade é marcada por relações triangulares,</p><p>há incidência muito grande de interesse por pes-</p><p>soas “impossíveis”, como pessoas casadas. Além de</p><p>ser comum relações e fantasias com triangulação</p><p>que remetem à situação edípica. Assim, podem ter</p><p>vários parceiros, nenhum suficientemente bom,</p><p>pois existe um «pacto» inconsciente de amor e</p><p>fidelidade à imagem do pai/mãe, mantendo-se</p><p>fixados num amor infantil e impossível, carregado</p><p>de culpa e vergonha.</p><p>121</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Em síntese, seus relacionamentos tendem a ser</p><p>superficiais, pois raramente estão cientes de seu ver-</p><p>dadeiro sentimento e não conseguem explicar suas</p><p>motivações para um relacionamento. O resultado</p><p>disso é uma eterna dúvida sobre os seus sentimentos</p><p>em relação ao parceiro(a), bem como cultivam uma</p><p>eterna insatisfação. Existe uma probabilidade gran-</p><p>de da relação evoluir para a promiscuidade, devido</p><p>às fantasias triangulares, bem como para sustentar</p><p>essa eterna busca da “pessoa perfeita”.</p><p>As pessoas interessadas em se envolver com</p><p>uma pessoa com dinâmica histérica devem ser</p><p>sensíveis à ferida narcísica inerente a essa crise do</p><p>desenvolvimento e ajudá-los a ver que eles têm</p><p>profundidade para além da aparência física e do</p><p>aspecto sexualmente desejável, valorizar outras po-</p><p>tencialidades que também podem garantir atenção</p><p>e amor, além da sexualidade.</p><p>No campo da sexualidade, conhecendo as profundas</p><p>fantasias edípicas dos histéricos, é importante usar</p><p>esse ambiente para contemplar fantasias edípicas,</p><p>sem críticas ou sentimentos de culpa.</p><p>TRANSTORNO DE PERSONALIDADE</p><p>HISTRIÔNICA</p><p>Nos casos graves e patológicos, a dinâmica his-</p><p>triônica pode se tornar mais rígida e inflexível, com</p><p>122</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>maiores queixas associadas emocionalidade e busca</p><p>de atenção em excesso, que causam extrema an-</p><p>gústia tanto para o paciente quanto para as pessoas</p><p>com quem convive. Na tabela abaixo constam os</p><p>critérios diagnósticos do DSM-5 para o transtorno</p><p>da personalidade histriônica:</p><p>Um padrão difuso de emocionalidade e busca de</p><p>atenção em excesso que surge no início da vida</p><p>adulta e está presente em vários contextos, con-</p><p>forme indicado por cinco (ou mais) dos seguintes:</p><p>1. Desconforto em situações em que não é o</p><p>centro das atenções.</p><p>2. A interação com os outros é frequentemente</p><p>caracterizada por comportamento sexualmen-</p><p>te sedutor inadequado ou provocativo.</p><p>3. Exibe mudanças rápidas e expressão super-</p><p>ficial das emoções.</p><p>4. Usa reiteradamente a aparência física para</p><p>atrair a atenção para si.</p><p>5. Tem um estilo de discurso que é excessiva-</p><p>mente impressionista e carente de detalhes.</p><p>6. Mostra autodramatização, teatralidade e</p><p>expressão exagerada das emoções.</p><p>123</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>7. É sugestionável (i.e., facilmente influenciado</p><p>pelos outros ou pelas circunstâncias).</p><p>8. Considera as relações pessoais mais íntimas</p><p>do que na realidade são.</p><p>(Reimpressa, com permissão, de Diagnostic and Statistical Manual</p><p>of Mental Disorders, Fifth Edition (Copyright © 2013). American</p><p>Psychiatric Association. Todos os direitos reservados.) (Kaplan e</p><p>Sadock, 2017).</p><p>124</p><p>CAPÍTULO 7</p><p>PERSONALIDADE</p><p>OBSESSIVA</p><p>CARACTERÍSTICAS E TRAÇOS DE</p><p>PERSONALIDADE</p><p>Pessoas obsessivas costumam isolar o afeto e</p><p>conduzir sua vida racionalmente, pois têm certa</p><p>fobia em demonstrar sentimentos. Procuram seguir</p><p>um roteiro “correto”, perseguidos por um ideal de</p><p>perfeição que os atormenta. Por mais que dêem</p><p>sempre o melhor de si, nunca estão satisfeitos.</p><p>É comum a preocupação com detalhes, regras,</p><p>listas, organização ou horários a ponto de o objetivo</p><p>principal da atividade ser perdido. O perfeccionismo</p><p>pode interferir na conclusão de tarefas, pelo apego</p><p>a detalhes ou ideia de que não fizeram o suficiente.</p><p>Se autossabotam e procrastinam para não encarar</p><p>um possível fracasso de fazer algo “imperfeito”. Na</p><p>125</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>busca pela perfeição, o obsessivo costuma seguir</p><p>roteiros idealizados e isso acaba limitando sua</p><p>criatividade.</p><p>São dedicados ao trabalho e à produtividade</p><p>em detrimento de atividades de lazer e amizade.</p><p>Relutam a delegar tarefas ou trabalhar com outras</p><p>pessoas a menos que elas se submetam à sua for-</p><p>ma exata de fazer as coisas. Isso revela uma dra-</p><p>mática necessidade de controle de tudo e todos,</p><p>nada pode dar errado, estão sempre prevendo ou</p><p>antecipando “catástrofes” e aparentemente vivem</p><p>mais num futuro ameaçador que no presente.</p><p>Assim, ansiedade, insônias e medo da morte são</p><p>dramas comuns.</p><p>Tendem a ser apegados ao dinheiro e têm dificul-</p><p>dade em descartar objetos usados e sem valor. O</p><p>apego se estende a pensamentos inflexíveis, por isso</p><p>são teimosos e têm pavor de depender de alguém.</p><p>Procuram desempenhar suas atividades sozinhos</p><p>e resistem a delegar tarefas, o que denota uma</p><p>necessidade crônica de centralização e controle</p><p>na vida profissional e íntima.</p><p>Na história dessas pessoas há relatos de cuida-</p><p>dos rígidos, extremamente moralistas, cobranças</p><p>ou cuidados precários quando eram dependentes,</p><p>especialmente na Fase Anal, em que naturalmente</p><p>ideias de ordem e controle são fortemente moldadas.</p><p>126</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Assim, o obsessivo faz tudo certinho</p><p>uma</p><p>vez que o abandono que sofreu na infância</p><p>favoreceu esse traço de personalidade. Sendo</p><p>assim, com base nessa “herança transgera-</p><p>cional”, qual vocês acham que será o futuro</p><p>da filha de Ísis? Em termos de probabilidade,</p><p>ela tem grandes chances de repetir a história</p><p>da sua mãe de abandono e carência afetiva.</p><p>Com base nessa ilustração, muito antes de você</p><p>nascer, seu caminho e sua personalidade já estão</p><p>parcialmente traçados pelas heranças e traumas</p><p>da sua família. Por esse motivo, para você entender</p><p>a dinâmica de personalidade de alguém, é funda-</p><p>mental a exploração e conhecimento dessa história</p><p>anterior ao nascimento.</p><p>Essa pesquisa é fundamental também para se</p><p>ter uma previsão de como uma pessoa provavel-</p><p>mente vai se comportar diante da paternidade</p><p>ou maternidade. Esses padrões de repetição são</p><p>inconscientes e potentes.</p><p>13</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>TRAÇOS DE PERSONALIDADE SÃO</p><p>HERDADOS?</p><p>O temperamento é considerado o componente</p><p>biológico da personalidade. Trata-se de um conjun-</p><p>to típico de reações emocionais e capacidade de</p><p>autorregulação que é geneticamente determinado.</p><p>Traços temperamentais podem ser identificados</p><p>desde cedo na criança, através de características</p><p>individuais como nível de ansiedade, extroversão,</p><p>introversão e busca de estimulação, capacidade</p><p>para se acalmar diante do estresse, tolerância aos</p><p>estímulos do ambiente, entre outras reações. Bebês</p><p>recém-nascidos na maternidade diante do baru-</p><p>lho, ou olham em busca do ruído ou buscam um</p><p>local longe do som desagradável, sendo que esse</p><p>fato ilustra diferenças individuais geneticamente</p><p>determinadas que podem influenciar nas intera-</p><p>ções iniciais.</p><p>Historicamente havia a crença de uma passividade</p><p>inata em bebês, como se eles nascessem tal qual</p><p>uma “página em branco” e as primeiras interações</p><p>estimulassem seu comportamento “do zero”, po-</p><p>rém pesquisas em desenvolvimento infantil sobre</p><p>temperamento revelam o potencial herdado das</p><p>crianças para atrair ou para se isolar do contato. Em</p><p>casos extremos, por exemplo, na interação com uma</p><p>mãe deprimida e apática, se o bebê possui uma</p><p>conduta mais ativa, se chora e busca o contato, isso</p><p>14</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>favorece as trocas necessárias nessa fase. Por sua</p><p>vez, no caso de um bebê introspectivo, que pouco</p><p>busca contato, juntamente com a falta de estímu-</p><p>los decorrente da depressão materna, haverá uma</p><p>tendência a reforçar maior introversão na criança.</p><p>Dessa forma, observamos a relevância do tempe-</p><p>ramento na formação de traços de personalidade.</p><p>QUAIS SÃO AS FASES DO</p><p>DESENVOLVIMENTO DA</p><p>PERSONALIDADE?</p><p>Sob o ponto de vista psicológico, a personalidade</p><p>passa por estágios de amadurecimento ao longo da</p><p>vida, sendo que esse processo é muito mais dinâmi-</p><p>co, intenso e determinante ao longo dos primeiros</p><p>anos da infância (McWilliams, 2014; Hall, Lindzey &</p><p>Campbell, 2000). Esses estágios serão abordados a</p><p>seguir, a partir do enfoque das teorias psicanalíticas</p><p>sobre o desenvolvimento infantil primitivo.</p><p>A transgeracionalidade e período gestacional são</p><p>situações fundamentais que estruturam um campo</p><p>de interações e ambiente de cuidados em que a</p><p>criança estabelecerá suas relações, que servirão de</p><p>base para sustentar as emoções e primeiros traços</p><p>de personalidade do indivíduo (Fraiberg, 1975).</p><p>Ao nascer a criança é retirada de um estado físico</p><p>15</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>intrauterino que transmite segurança e é lançada a</p><p>uma realidade totalmente diferente, carregada de</p><p>situações que, para um bebê imaturo, são vividas</p><p>como uma verdadeira AMEAÇA à sua vida.</p><p>O mundo é sentido como ameaçador, marcado</p><p>por estímulos desagradáveis: luz, frio, medo de cair</p><p>devido à sensação de gravidade, sensação de “estar</p><p>solto”, de não estar integrado como quando o ventre</p><p>materno dava essa sustentação. Além disso, pela</p><p>primeira vez o bebê sente medo decorrente da dor</p><p>de fome e desconforto físico. A cada exposição a</p><p>essas ameaças, o bebê sente pânico, pavor e deses-</p><p>pero, cuja reação é chorar e berrar copiosamente.</p><p>Esse estágio inicial do desenvolvimento psíquico</p><p>foi classificado pela psicanalista Melanie Klein (1952)</p><p>como POSIÇÃO ESQUIZOPARANOIDE, o qual se</p><p>estende até o quarto mês de vida do bebê.</p><p>Nesse período a criança pequena não tem cons-</p><p>ciência de que ela e o ambiente são separados,</p><p>por isso dizemos que ela possui um “EU NÃO-IN-</p><p>TEGRADO”, ela nem ao menos sabe onde começa</p><p>e termina os limites de seu próprio corpo, nem</p><p>possui consciência sobre espaço e tempo. O que</p><p>uma criança busca nesse momento é ter de volta</p><p>a paz e segurança que outrora vivera na barriga</p><p>de sua mãe, por isso quando a mãe se aproxima e</p><p>traz consigo referências da vida intrauterina como</p><p>sua voz, batimento cardíaco, essa paz novamen-</p><p>16</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>te é sentida. Aos poucos a criança associa essas</p><p>referências ao rosto materno, seu seio, alimento,</p><p>colo e, assim, mãe e filho se unem numa fase que</p><p>Margareth Mahler (1975) chama de SIMBIOSE, que</p><p>consiste em estar “grudado” como se a sensação de</p><p>unidade vivida na barriga se estendesse também</p><p>ao ambiente externo.</p><p>Nessa fase tudo é sentido no corpo, pois se o bebê</p><p>sente privação, dor e sofrimento, ele acredita que</p><p>está sendo atacado, morrendo, se despedaçando</p><p>e isso ativa um potencial agressivo gigantesco no</p><p>intuito de se proteger dessas ameaças, conheci-</p><p>das como ANGÚSTIA DE ANIQUILAMENTO. Se ele</p><p>é acalentado e alimentado, ele experimenta os</p><p>sentimentos positivos mais intensos, mágicos que</p><p>trazem de volta a sensação de “voltar à vida”, daí</p><p>vem nossas primeiras referências sobre o amor e</p><p>sentimentos positivos e sobre agressão e sentimen-</p><p>tos hostis (Klein, 1952).</p><p>E assim, o mundo é dividido entre bom e amado</p><p>- quando gratifica; e se torna mau e odiado - quan-</p><p>do ameaça. Todas as emoções são muito intensas.</p><p>O bebê não consegue integrar as partes, ou seja,</p><p>reconhecer que a mãe boa e amada que cuida é a</p><p>mesma pessoa que fica distante e que o deixa solto</p><p>às ameaças. Então, na mente primitiva do bebê ele</p><p>ao mesmo tempo ama e quer destruir seu objeto</p><p>de amor - a mãe, como se ela fosse duas pessoas</p><p>diferentes em momentos diferentes (Klein, 1952).</p><p>17</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>O contato permanente com a mãe favorece aos</p><p>poucos a INTEGRAÇÃO DO EU, ou seja, o amadu-</p><p>recimento da consciência de que o bebê é uma</p><p>pessoa e que as pessoas externas são outras, das</p><p>quais ele depende. Imagine se nessa fase a criança</p><p>por algum motivo perde esse contato? Lógico que</p><p>ela vai sentir o mundo como extremamente mau</p><p>e ameaçador e terá a tendência a se isolar no seu</p><p>mundo interno. Aqui estão as bases para o fun-</p><p>cionamento psicótico, especialmente os perfis e</p><p>dinâmicas paranoides e esquizoides (Klein, 1952).</p><p>Nessa fase inicial do desenvolvimento emocional, o</p><p>psicanalista inglês Donald Winnicott (1945) destaca</p><p>que o corpo da mãe é o ambiente do bebê, sendo</p><p>que o filho é impactado por tudo o que ela sente.</p><p>Winnicott (1945) classifica esse período como um</p><p>estado de DEPENDÊNCIA ABSOLUTA, em que o papel</p><p>do cuidador é crucial para as bases da sensação de</p><p>segurança e boa autoestima que acompanharão o</p><p>indivíduo pelo resto da sua vida.</p><p>Na classificação freudiana do desenvolvimento, essa</p><p>fase inicial é nomeada como FASE ORAL, em que,</p><p>diante do estado de imaturidade, a criança possui</p><p>poucos recursos para se expressar, centrando na</p><p>oralidade as sensações de prazer e alívio de angús-</p><p>tias (Freud, 1905). Sendo assim, na mente infantil,</p><p>se ela ama alguém, quer “engolir” o objeto de seu</p><p>amor; se ela odeia, quer “devorar, mastigar” o objeto</p><p>de seu ódio. As defesas nessa fase se dão pela orali-</p><p>18</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>dade, pela INCORPORAÇÃO e favorece um registro</p><p>das experiências positivas e negativas associadas a</p><p>condutas orais e relacionadas à alimentação.</p><p>Nesse contexto de desenvolvimento emocional, as</p><p>crianças, que passam por muito estresse e ameaças</p><p>excessivas, podem usar exageradamente as con-</p><p>dutas orais para se acalmar e isso se</p><p>para evitar</p><p>ser criticado, prioriza autopuniçäo e autocobrança</p><p>para não ser punido por alguém externo, controla o</p><p>ambiente externo para buscar um controle interno,</p><p>pois vive em vigilância para não deixar escapar ne-</p><p>nhum sentimento; reluta em pedir ajuda para não se</p><p>expor nem se tornar dependente, pois demonstrar</p><p>qualquer descontrole emocional é sinal de fraqueza.</p><p>Viver em função da perfeição é um estado cons-</p><p>tante de escravidão, pois perfeição é a ilusão pre-</p><p>ferida daqueles que não aceitam que faz parte da</p><p>natureza humana ter limitações.</p><p>HISTÓRIA DE VIDA</p><p>A história de vida de pessoas com funcionamento</p><p>psicológico obsessivo e compulsivo envolve a convi-</p><p>vência com pais que estabeleceram altos padrões</p><p>de comportamento e esperaram que os filhos se</p><p>conformassem com tais exigências. Esses cuidado-</p><p>res tendem a ser rígidos e consistentes quanto a</p><p>recompensar um comportamento e punir uma má</p><p>conduta. Quando são pais amorosos, criam crianças</p><p>em vantagem emocional, cujas defesas as levam a</p><p>uma conduta crônica de devoção e obediência aos</p><p>pais e sua moral internalizada. Em termos culturais,</p><p>esse é o estilo de criação na cultura americana, que</p><p>criam pessoas que exigem muito de si mesmas e</p><p>têm uma boa história de realização de metas (Mc-</p><p>Clelland, 1961; McWilliams, 2014).</p><p>127</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Quando os cuidadores são exageradamente exi-</p><p>gentes, demandam demais de forma precoce ou</p><p>são muito condenatórios, não só de um comporta-</p><p>mento inaceitável, mas também de fantasias, pen-</p><p>samentos e sentimentos associados, as adaptações</p><p>obsessivas e compulsivas de suas crianças podem</p><p>fortalecer traços obsessivos rígidos e determinantes</p><p>na formação da personalidade.</p><p>O que é notável em relação à história de vida de</p><p>pessoas obsessivas e compulsivas é que os assuntos</p><p>ligados ao CONTROLE são centrais em suas famílias</p><p>de origem. Nesse sentido, é provável que tenha</p><p>havido durante o período da fase anal um padrão</p><p>de educação rígido quanto a hábitos de higiene,</p><p>bem como desqualificação de seus fluidos corporais,</p><p>com uma atmosfera de nojo e reprovação que exige</p><p>extremo controle. Logicamente que essa conduta</p><p>moralista dos pais não estaria circunscrita à fase</p><p>anal, mas seria persistente, e o ambiente familiar</p><p>provavelmente manteve-se rígido e moralista em</p><p>fases anteriores e posteriores. Assim, como des-</p><p>creve McWilliams (2014) é provável, por exemplo,</p><p>que a mãe tenha sido rígida quanto aos hábitos</p><p>alimentares da criança em horários rigidamente</p><p>programados (alimento rigidamente dado a cada</p><p>03 horas, por exemplo), que tenha condenado e</p><p>proibido a masturbação ou qualquer conversa sobre</p><p>sexualidade, insistindo em falar sobre o comporta-</p><p>mento sexual-padrão e convencional, puniu a con-</p><p>128</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>versa livre, a criatividade de seu filho, entre outras</p><p>condutas. Nesse contexto, o pai seria aquela figura</p><p>rígida com o bebê e autoritário na idade escolar.</p><p>No que se refere à angústia de separação, expe-</p><p>rienciada tanto na fase oral quanto na fase anal,</p><p>observa-se que pais superprotetores atrapalham</p><p>a criança nessa etapa, porque elas necessitam</p><p>experimentar certos riscos necessários a fim de</p><p>desenvolver um senso de limite do self, de forma</p><p>que tais pais têm um papel importante no pensa-</p><p>mento mágico e onipotente observado em pessoas</p><p>obsessivas e compulsivas, já que eles não possuem</p><p>esse limite (Meares, 2001).</p><p>A cultura familiar muda a cada época e depen-</p><p>dendo de um conjunto de valores vigentes. Sendo</p><p>assim, McWilliams (2014) descreve um modelo</p><p>mais conservador de família, da época dos obses-</p><p>sivos freudianos, que criavam seus filhos dentro</p><p>de um sistema obsessivo-compulsivo, em que o</p><p>controle podia ser expresso em termos moralizan-</p><p>tes e indutores de CULPA, como no caso de “Estou</p><p>decepcionado por você não ter sido responsável o</p><p>bastante para alimentar o cachorro na hora certa”</p><p>ou “esperava um comportamento mais maduro</p><p>de uma garota da sua idade”. Nesses modelos de</p><p>criação, os pais explicam com as próprias bases do</p><p>que é certo (“Não gosto de castigar você, mas é para</p><p>o seu próprio bem”). O comportamento produtivo</p><p>é em geral associado à virtude; autocontrole e re-</p><p>129</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>cusa de gratificação são idealizados. Nos casos de</p><p>padrões onde a culpa impera, observa-se a presença</p><p>de uma figura paterna rígida que coopera para a</p><p>formação de um superego controlador e punitivo.</p><p>Por outro lado, muitas famílias contemporâneas</p><p>que igualmente enfatizam o controle, criam padrões</p><p>obsessivos e compulsivos por meio do envergonhar</p><p>mais do que pela indução de culpa. Mensagens</p><p>como: “O que as pessoas pensarão de você se estiver</p><p>fora do peso?”, “As outras crianças não vão querer</p><p>brincar se você se comportar desse jeito” ou “Você</p><p>nunca vai conseguir sucesso na sua vida se não</p><p>estudar como deve!”.</p><p>Observa-se também crianças que desenvolvem</p><p>caráter obsessivo-compulsivo em contexto familiar</p><p>com pais que não têm tempo para elas. Muitos ana-</p><p>listas chegaram à conclusão de que seus pacientes,</p><p>com superegos mais rígidos, haviam tido pais mais</p><p>descuidados. Eles concluíram que ter que modelar</p><p>a si mesmos de acordo com uma imagem parental</p><p>forjada, especialmente se a pessoa tiver um tempe-</p><p>ramento intenso e agressivo que é projetado nessa</p><p>imagem, pode colaborar para dinâmicas obsessivo-</p><p>-compulsivas. É como se a criança interagisse com a</p><p>imagem idealizada de um pai inalcançável e punitivo</p><p>e talvez vivenciasse o afastamento como abandono,</p><p>por no íntimo de sua fantasia, acreditarem que fizeram</p><p>algo errado para não ter atenção e tempo suficiente</p><p>de seus pais (McWilliams, 2014; Gabbard, 2016).</p><p>130</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>EMOÇÕES E DEFESAS</p><p>Indivíduos obsessivos-compulsivos idealizam a</p><p>cognição, a razão e os processos mentais. Tendem</p><p>a relegar a maioria dos sentimentos a uma rea-</p><p>lidade desvalorizada, associada com fragilidade,</p><p>infantilidade, perda de controle, desorganização e</p><p>sujeira e, às vezes até feminina, pois homens com</p><p>esse perfil de personalidade podem sentir pavor</p><p>que a expressão de suas emoções ternas os façam</p><p>regressar a uma identificação precoce, repudiada</p><p>e pré-masculina com a figura materna.</p><p>As defesas organizadoras predominantes nas pes-</p><p>soas obsessivas e compulsivas são o ISOLAMENTO</p><p>DO AFETO e a ANULAÇÃO (Fenichel, 1928). Pessoas</p><p>obsessivas altamente funcionais não costumam usar</p><p>o isolamento em suas formas mais extremas; em vez</p><p>disso, preferem versões mais maduras da separação</p><p>do afeto da cognição, por isso usam mecanismos</p><p>intelectualizados como a RACIONALIZAÇÃO, MO-</p><p>RALIZAÇÃO E COMPARTIMENTALIZAÇÃO. Também</p><p>utilizam com frequência a defesa conhecida como</p><p>FORMAÇÃO REATIVA, bem como é comum o uso</p><p>de DESLOCAMENTO, especialmente da raiva, em</p><p>circunstâncias nas quais, por meio do desvio da</p><p>raiva de sua fonte original para um alvo “legitima-</p><p>do”, elas podem expressar esse sentimento sem</p><p>experimentar vergonha (McWilliams, 2014).</p><p>A anulação é um mecanismo de defesa definidor</p><p>131</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>do tipo de compulsividade que caracteriza a es-</p><p>trutura de personalidade desse indivíduo. Pessoas</p><p>compulsivas anulam seus afetos por meio de AÇÕES</p><p>que têm o significado inconsciente de punição ou</p><p>proteção mágica. Por exemplo, a chefe workaholic</p><p>que anula seu cansaço com sobrecarga de trabalho.</p><p>Ações compulsivas com frequência têm o significa-</p><p>do inconsciente de “anular um crime” que a pessoa</p><p>carrega na sua fantasia. O comportamento obsessivo</p><p>também revela fantasias inconscientes de controle</p><p>onipotente, que se expressa, por exemplo, na grávida</p><p>que acredita que arrumando sistematicamente a</p><p>pequena maleta para levar ao hospital pensa, em</p><p>algum nível, que pode controlar o incontrolável</p><p>apenas se fizer a coisa certa, o que desperta uma</p><p>espécie de obediência e poder (McWilliams, 2014;</p><p>Gabbard, 2016).</p><p>Pessoas obsessivas e compulsivas temem seus</p><p>próprios sentimentos hostis e sofrem de uma au-</p><p>tocrítica desordenada em relação a agressões reais</p><p>ou puramente mentais.</p><p>Dependendo do conteúdo</p><p>das mensagens familiares que receberam, essas</p><p>pessoas podem ficar nervosas em se permitir sen-</p><p>timentos de luxúria, avareza, vaidade, preguiça ou</p><p>inveja. E em vez de aceitar tais atitudes e basear seu</p><p>autorrespeito ou sua autopunição apenas no modo</p><p>como se comportam, elas normalmente consideram</p><p>o fato de sentir tais impulsos algo condenável. Eles</p><p>valorizam o autocontrole acima de quase todas as</p><p>132</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>outras virtudes e enfatizam atributos como disci-</p><p>plina, ordem, confiabilidade, lealdade, integridade</p><p>e perseverança. Suas dificuldades em suspender</p><p>o controle diminuem suas capacidades em áreas</p><p>como sexualidade, lazer, humor e espontaneidade</p><p>(McWilliams, 2014).</p><p>A necessidade de controle é uma herança da</p><p>fase anal, o momento em que a criança deve re-</p><p>nunciar ao que é natural pelo que é socialmente</p><p>aceitável. O adulto responsável e a criança que</p><p>está sendo treinada de forma precoce, rígida, ou</p><p>em uma atmosfera de muita preocupação dos</p><p>pais, entram em uma disputa por poder na qual</p><p>a criança está condenada ao fracasso. A experiên-</p><p>cia de ser controlada, julgada e requerida a agir</p><p>de acordo com os horários determinados gera</p><p>sentimentos de RAIVA e FANTASIAS AGRESSI-</p><p>VAS, com frequência relacionada à defecação, e</p><p>que a criança pode sentir como uma parte ruim,</p><p>sádica, suja e vergonhosa do self. A necessidade</p><p>de sentir-se no controle, pontual, limpa e racional</p><p>(em vez de descontrolada, errática, bagunçada e</p><p>soterrada por emoções como raiva e vergonha)</p><p>torna-se importante para a manutenção da iden-</p><p>tidade e da autoestima. O superego rígido, do tipo</p><p>“ou tudo ou nada”, criado por tais experiências, se</p><p>manifesta por meio de uma sensibilidade ética</p><p>dura que Ferenczi (1925) ironicamente chamou</p><p>de “moralidade esfincteriana”.</p><p>133</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Assim, o conflito afetivo básico em pessoas obses-</p><p>sivas e compulsivas é RAIVA (por serem controladas)</p><p>versus MEDO (de serem condenadas ou punidas),</p><p>mas o que realmente impressiona aqueles que tra-</p><p>balham com essas pessoas é que o afeto é mal for-</p><p>mulado, metamorfoseado, suprimido, indisponível</p><p>ou racionalizado e moralizado. Em suma, pessoas</p><p>obsessivas usam palavras para conciliar sentimentos,</p><p>explicá-los e não conseguem expressá-los.</p><p>A VERGONHA é outra exceção no panorama da</p><p>falta de afetividade dos indivíduos obsessivos-</p><p>-compulsivos. É um sentimento que costuma ser</p><p>consciente, uma vez que eles têm altas expectativas</p><p>em relação a si mesmos e sentem-se desapontados</p><p>quando acreditam que não foram bons o suficiente</p><p>em uma tarefa, por exemplo.</p><p>RELACIONAMENTOS</p><p>Costumam ser eficazes em papéis públicos e</p><p>formais, mas não têm tanta profundidade em</p><p>suas relações íntimas e domésticas. São pessoas</p><p>geralmente disciplinadas, corretas, moralistas, “que</p><p>fazem tudo certinho” e que, se marcarem um en-</p><p>contro, dificilmente irão desmarcar ou se atrasar.</p><p>Inspiram confiança, porém são muito econômicas</p><p>na expressão de afetos ou fragilidades.</p><p>Apesar de serem capazes de apegos amorosos,</p><p>podem não ser capazes de expressar suas incli-</p><p>134</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>nações mais doces sem ansiedade ou vergonha;</p><p>consequentemente podem transformar interações</p><p>de tom emocional em interações cognitivas chatas</p><p>e opressoras, pois intelectualizam e racionalizam</p><p>suas emoções, como se as relações pudessem seguir</p><p>um “manual de instruções”.</p><p>No contexto relacional, pessoas obsessivas e com-</p><p>pulsivas tendem a ser controladoras, tanto no âm-</p><p>bito interacional quanto no campo da sexualidade.</p><p>Elas necessitam estar no controle para se sentirem</p><p>seguras e possuem um “radar” especializado para</p><p>qualquer crítica da parte do parceiro, sendo que</p><p>vivem isso como se fosse uma dura condenação.</p><p>Assim, no campo da intimidade deve-se ter certos</p><p>cuidados para que uma “brincadeira” não soe como</p><p>crítica e acabe inibindo mais ainda a capacidade</p><p>de uma pessoa com esse tipo de caráter conseguir</p><p>expressar suas emoções e ceder a intimidades.</p><p>Por trás de toda a aparente frieza e racionalida-</p><p>de de uma pessoa obsessiva, existe alguém que</p><p>deseja ser amado, mas que teme a dependência.</p><p>É bastante provável que o superego rígido dessas</p><p>pessoas seja enfraquecido pela potência do ato</p><p>sexual e elas demonstrem suas emoções com mais</p><p>ênfase nesse contexto íntimo.</p><p>Um problema comum nas relações de pessoas</p><p>obsessivas e compulsivas é sua extrema necessidade</p><p>de controlar o parceiro, sendo que alguns acabam</p><p>135</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>temendo situações catastróficas, como traições do</p><p>parceiro, que culminaria na perda do vínculo. Assim,</p><p>cobranças e ciúme excessivo são frequentes. Essas</p><p>pessoas tendem a ser fiéis e fazer tudo conforme</p><p>manda o “roteiro” para que não sejam surpreendi-</p><p>dos ou punidos com alguma frustração. Acreditam</p><p>que se atingirem um estado mágico de perfeição</p><p>vão experimentar o amor como prêmio e, como se</p><p>dedicam demais, acabam se tornando exigentes e</p><p>controladores (Kernberg, 1995).</p><p>Nesse contexto, pessoas com esse perfil sintoni-</p><p>zam com pessoas mais passivas, que permitem e</p><p>sentem certo prazer em ser controladas e condu-</p><p>zidas. Essa posição de domínio pode evoluir pro</p><p>campo da sexualidade e, algumas pessoas com</p><p>esse tipo de caráter podem simpatizar com práticas</p><p>sexuais sádicas.</p><p>Assumir o controle de uma relação pode induzir</p><p>certo prazer, mas também gera culpa diante de</p><p>qualquer sinal de fracasso. Sendo assim, o parceiro</p><p>de uma pessoa obsessiva pode ajudá-lo a aceitar</p><p>sua própria humanidade e as suas limitações, pois</p><p>os sentimentos devem ser tomados como parte da</p><p>condição humana.</p><p>136</p><p>TRANSTORNO DA PERSONALIDADE</p><p>OBSESSIVO-COMPULSIVA</p><p>Nos casos patológicos, a dinâmica obsessiva pode</p><p>se tornar mais rígida e inflexível, com maiores</p><p>queixas associadas preocupações com ordem e</p><p>perfeccionismo, que causam extrema angústia</p><p>tanto para o paciente quanto para as pessoas com</p><p>quem convive. Na tabela abaixo constam os crité-</p><p>rios diagnósticos do DSM-5 para o transtorno da</p><p>personalidade obsessivo-compulsiva:</p><p>Um padrão difuso de preocupação com ordem,</p><p>perfeccionismo e controle mental e interpessoal</p><p>à custa de flexibilidade, abertura e eficiência que</p><p>surge no início da vida adulta e está presente em</p><p>vários contextos, conforme indicado por quatro (ou</p><p>mais) dos seguintes:</p><p>1. É preocupado com detalhes, regras, listas,</p><p>ordem, organização ou horários a ponto de</p><p>o objetivo principal da atividade ser perdido.</p><p>2. Demonstra perfeccionismo que interfere</p><p>na conclusão de tarefas (p. ex., não consegue</p><p>completar um projeto porque seus padrões</p><p>próprios demasiadamente rígidos não são</p><p>atingidos).</p><p>3. É excessivamente dedicado ao trabalho e à</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>137</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>produtividade em detrimento de atividades</p><p>de lazer e amizades (não explicado por uma</p><p>óbvia necessidade financeira).</p><p>4. É excessivamente consciencioso, escrupuloso</p><p>e inflexível quanto a assuntos de moralidade,</p><p>ética ou valores (não explicado por identifica-</p><p>ção cultural ou religiosa).</p><p>5. É incapaz de descartar objetos usados ou</p><p>sem valor mesmo quando não tem valor sen-</p><p>timental.</p><p>6. Reluta em delegar tarefas ou trabalhar com</p><p>outras pessoas a menos que elas se submetam</p><p>à sua forma exata de fazer as coisas.</p><p>7. Adota um estilo miserável de gastos em</p><p>relação a si e a outros; o dinheiro é visto como</p><p>algo a ser acumulado para futuras catástrofes.</p><p>8. Exibe rigidez e teimosia.</p><p>(Reimpressa, com permissão, de Diagnostic and Statistical Manual</p><p>of Mental Disorders, Fifth Edition (Copyright © 2013). American</p><p>Psychiatric Association. Todos os direitos reservados.) (Kaplan e</p><p>Sadock, 2017).</p><p>138</p><p>CAPÍTULO 8</p><p>PERSONALIDADE</p><p>MASOQUISTA</p><p>CARACTERÍSTICAS E TRAÇOS DE</p><p>PERSONALIDADE</p><p>Masoquismo não é algo restrito à sexualidade.</p><p>Para distinguir um padrão geral de sofrimento do</p><p>significado estritamente sexual do masoquismo,</p><p>Freud (1924) cunhou o termo “masoquismo moral”</p><p>que está associado a características de personalida-</p><p>de marcadas por padrões</p><p>de sofrimento, queixas,</p><p>atitudes autodestrutivas e autodepreciativas e para</p><p>um desejo inconsciente de torturar os outros com</p><p>a própria dor.</p><p>O Masoquismo Moral consiste na renúncia do prazer</p><p>em favor do próprio sacrifício como uma forma de</p><p>viver, levando ao sofrimento emocional junto com</p><p>um senso de superioridade moral. Muitos psicanalis-</p><p>139</p><p>tas acreditam que as fantasias sexuais masoquistas</p><p>estão invariavelmente presentes na vida sexual das</p><p>pessoas com características masoquistas, mesmo</p><p>que parafilias masoquistas evidentes não estejam</p><p>presentes (McWilliams, 2014).</p><p>Pessoas com estrutura de personalidade masoquis-</p><p>ta moral com frequência impressionam os outros</p><p>se apresentando como grandiosas e desdenhosas,</p><p>ressaltando o próprio sofrimento e desprezando</p><p>aqueles mortais menores que não conseguem en-</p><p>frentar uma tribulação semelhante com tanta gra-</p><p>ça. Embora tal atitude faça os masoquistas morais</p><p>aparentarem estar desfrutando de seu sofrimento,</p><p>uma formulação melhor seria a de que eles teriam</p><p>encontrado uma base de compensação nisso a fim</p><p>de apoiar a própria autoestima (Mackinnon, 2008;</p><p>McWilliams, 2014).</p><p>Uma hipótese é que a dor não é induzida por sua</p><p>própria finalidade, mas sim porque todas as outras</p><p>opções são consideradas muito mais angustiantes.</p><p>A busca da dor mental ou mesmo física também</p><p>poderá ser considerada como derivada do esforço</p><p>da criança de manter uma conexão emocional</p><p>com um cuidador abusivo na sua história de vida</p><p>(Mackinnon, 2008; McWilliams, 2014).</p><p>Para ser considerada masoquista, a pessoa de-</p><p>verá ter consciência da experiência subjetiva do</p><p>desgosto ao mesmo tempo que obtém gratificação</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>140</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>no nível inconsciente. Nesse exemplo, a satisfação</p><p>inconsciente poderá originar-se da própria visão</p><p>como dedicado, sábio e vitorioso.</p><p>Pessoas masoquistas sentem-se sem valor, culpa-</p><p>das, rejeitadas e merecedoras de punição. Além disso,</p><p>pode ocorrer um senso sutil, e às vezes consciente,</p><p>de ser incompleta em vez de simplesmente aban-</p><p>donada, além de uma crença de que se é destinado</p><p>à má compreensão, não apreciação e maus-tratos.</p><p>Ao invés de considerar que essas pessoas sentem</p><p>prazer com o sofrimento, é mais viável pensar que</p><p>elas na verdade alcançam algum ganho secundário</p><p>com as soluções de “apego pelo sofrimento” apli-</p><p>cadas a seus dilemas interpessoais. Aqueles que</p><p>são inclinados ao masoquismo moral acreditam</p><p>estar lutando para não reagir, expondo seus abu-</p><p>sadores como moralmente inferiores ao falarem</p><p>sobre agressões e saboreando a vitória moral que</p><p>tal estratégia propicia (McWilliams, 2014).</p><p>Ao contrário das pessoas organizadas de forma</p><p>depressiva, que tendem a se isolar na solidão, os</p><p>indivíduos masoquistas podem lidar com a mal-</p><p>dade que sentem em si mesmos projetando-a nos</p><p>outros e se comportando de um jeito que explicite</p><p>que a maldade está fora e não dentro.</p><p>O comportamento masoquista não é necessaria-</p><p>mente patológico, apesar de ser autoabnegação.</p><p>141</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Às vezes a moral dita que soframos por algo mais</p><p>importante do que nosso conforto individual a curto</p><p>prazo. Alguns autores consideram que a maternidade</p><p>é inerentemente masoquista, já que os mamíferos</p><p>colocam o bem-estar de seus filhotes acima de sua</p><p>própria sobrevivência.</p><p>Muitas justificativas encontram-se latentes nas</p><p>práticas aparentemente insanas de autodestruição</p><p>como a propensão a acidentes e automutilação.</p><p>Indivíduos que se cortam de propósito, por exem-</p><p>plo, irão normalmente explicar que a visão de seu</p><p>próprio sangue os faz se sentirem mais vivos e</p><p>reais e que a angústia de não sentirem a própria</p><p>existência ou de se sentirem alienados de qualquer</p><p>sensação é muito pior do que o desconforto físico</p><p>temporário. Portanto, o masoquismo existe em</p><p>níveis e escalas variáveis.</p><p>Um modus operandi de triunfo moral por meio do</p><p>sofrimento autoimposto pode se tornar tão habitual</p><p>para uma pessoa que ela pode ser considerada com</p><p>legitimidade possuidora de um caráter masoquista.</p><p>É importante enfatizar que o termo “masoquismo”</p><p>do modo como é usado pelos psicanalistas, não tem</p><p>conotação de um amor pela dor e pelo sofrimento.</p><p>A pessoa que se comporta de forma masoquista</p><p>enfrenta dor e sofrimento na esperança, consciente</p><p>ou inconsciente, de alcançar algum bem maior.</p><p>142</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Embora aparente ser autodestrutivo, o maso-</p><p>quismo pode ser experimentado como algo que</p><p>restaura o senso de identidade: “a dor física é me-</p><p>lhor que a morte espiritual”. A dor é sentida como</p><p>uma conexão. Pessoas masoquistas frequente-</p><p>mente organizam sua vida de modo a satisfazer</p><p>as necessidades de seus pais. Como resultado, sua</p><p>própria experiência afetiva interna se torna remota</p><p>e indisponível, pois ela foi sacrificada para atender</p><p>aos pais (McWilliams, 2014; Gabbard, 2016).</p><p>É relativamente fácil reconhecer o indivíduo ma-</p><p>soquista. Em seu trabalho, ele tipicamente aceita</p><p>uma tarefa em que é explorado ou mal remunerado,</p><p>ou ambos, e em que não há perspectiva de ganho</p><p>futuro. Aprendizado ou estágios não lhe servem</p><p>porque o potencial futuro constitui uma gratifi-</p><p>cação. Os empregos que oferecem imenso prazer</p><p>interior também não lhe servem. A pessoa deverá</p><p>realizar o trabalho apesar de opções melhores e</p><p>de se sentir explorada. A gratificação está no nível</p><p>inconsciente (Mackinnon, 2008)..</p><p>Sua vida pessoal não é diferente; escolhe amigos</p><p>e namorados inadequados. Seus relacionamen-</p><p>tos terminam em mágoas, desapontamentos e</p><p>ressentimentos. O indivíduo responde ao sucesso</p><p>pessoal com sentimento de subserviência e culpa.</p><p>Esse sentimento poderá ser expresso na ação por</p><p>meio de algum acidente, como deixar sua pasta no</p><p>táxi. Seu auto-retrato como vítima poderá induzir</p><p>aborrecimento e desgosto nas outras pessoas, que</p><p>poderão descobrir que sua queixa não passa de</p><p>arrogância. Normalmente, seus sentimentos são</p><p>sombrios. Mesmo quando não reclama, as pessoas</p><p>sabem que ele sofre e consideram-no uma pessoa</p><p>“sem graça”. Na sua tentativa de ganhar a aceita-</p><p>ção de um amigo, o masoquista o ajudará em seus</p><p>trabalhos acadêmicos e, depois, se atrasará para</p><p>concluir os seus próprios, um fato que contará ao</p><p>amigo depois, fazendo com que ele sinta culpa.</p><p>Esse é um componente sádico do comportamento</p><p>masoquista, um aspecto de que a pessoa não tem</p><p>consciência (Mackinnon, 2008).</p><p>Algumas características são fundamentais para</p><p>classificar uma personalidade fortemente orien-</p><p>tada por traços masoquistas (Mackinnon, 2008;</p><p>McWilliams, 2014):</p><p>1. Autossacrifício, adaptação aos outros e, em se-</p><p>guida, queixa de não estar sendo apreciado. Aceita</p><p>a exploração e escolhe situações em que é explo-</p><p>rado, mas depois tenta fazer com que os outros se</p><p>sintam pesarosos por ele ou que sintam culpa, em</p><p>vez de expressar a assertividade apropriada.</p><p>2. Em resposta à evidente agressão dos outros,</p><p>tenta dar a outra face, mas geralmente fica ressen-</p><p>tido; explora o papel de parte injuriada, fazendo a</p><p>outra pessoa se sentir culpada.</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>144</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>3. Sentimento sombrio, raramente está feliz ou</p><p>exuberante – como se fosse uma pessoa sem graça</p><p>para conviver.</p><p>4. Autorretraído, recusa educadamente os au-</p><p>tênticos esforços dos outros em satisfazer as suas</p><p>necessidades: “Oh, não, obrigado. Posso resolver</p><p>sozinho”.</p><p>5. Confiável, excessivamente detalhista, com pou-</p><p>co tempo para as atividades prazerosas; assume</p><p>obrigações e responsabilidades.</p><p>6. Recusa oportunidades de promoção, mas de-</p><p>pois se sente magoado por não ter sido escolhido.</p><p>Reage a uma promoção com medo de falhar ou</p><p>com culpa em relação ao rival derrotado.</p><p>7. Suas Fantasias sexuais envolvem temas de</p><p>humilhação, rejeição, abusos, domínio e submissão.</p><p>Seu constante autossacrifício leva ao sentimento</p><p>de superioridade moral, um traço que poderá ser</p><p>evidente para os outros, mas não para ele mesmo.</p><p>Seu comportamento faz com que as pessoas ao</p><p>seu redor se sintam</p><p>culpadas. Quando percebe isso,</p><p>pede desculpas e oferece mais sacrifícios.</p><p>Segundo McWilliams (2014), a excitação sexual</p><p>dessas pessoas geralmente ocorre em resposta a</p><p>fantasias, quadros ou histórias que representam</p><p>temas de humilhação, punição, rejeição, deprecia-</p><p>145</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>ção ou coerção, em que a “vítima” poderá negar</p><p>toda a responsabilidade. Apesar do termo de Freud</p><p>“masoquismo feminino”, é comum o interesse dos</p><p>homens pelos cenários sexuais masoquistas.</p><p>Para alguns, a dor se torna um pré-requisito neces-</p><p>sário ao prazer. O superego é atenuado, e a culpa,</p><p>reparada tanto para as ofensas passadas quanto</p><p>para pagar adiantado pelo futuro prazer. Na expe-</p><p>riência infantil da pessoa masoquista, abusos, dor</p><p>ou sacrifícios foram, em geral, seguidos de amor,</p><p>exatamente como os jejuns sociais são seguidos</p><p>de festas (McWilliams, 2014).</p><p>Em síntese, o masoquista é uma pessoa depres-</p><p>siva que ainda tem esperanças de sentir prazer,</p><p>porém paga por isso com sofrimento e cobra do</p><p>outro provocando culpa. Indivíduos com caráter</p><p>masoquista são pessoas cujo pior inimigo parece</p><p>ser elas mesmas.</p><p>HISTÓRIA DE VIDA</p><p>Poucas hipóteses foram levantadas a respeito do</p><p>temperamento inato ao masoquismo, por isso a</p><p>questão sobre uma vulnerabilidade constitucional</p><p>ao masoquismo continua sem resposta.</p><p>Um tópico que tem chamado mais atenção dos</p><p>profissionais diz respeito ao gênero. Muitos pes-</p><p>quisadores acadêmicos avaliam que o trauma e</p><p>146</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>maus-tratos na infância causam efeitos diferentes</p><p>em crianças de gêneros diferentes: meninas abusa-</p><p>das tendem a desenvolver um padrão masoquista,</p><p>enquanto meninos na mesma situação tendem a se</p><p>identificar com o agressor e a se desenvolver em uma</p><p>direção mais sádica. Como todas as generalizações,</p><p>essa tem muitas exceções, pois homens masoquistas</p><p>e mulheres sádicas não são raros (McWilliams, 2014).</p><p>Normalmente, a pessoa com caráter masoquista</p><p>cresce em um lar onde um dos pais é masoquista,</p><p>deprimido ou ambos. Quando criança, o futuro</p><p>masoquista superenfatiza a passividade e a sub-</p><p>missão, esperando que isso leve à aprovação e à</p><p>afeição dos demais, bem como à proteção contra</p><p>a cólera destes. Quando sua submissão falha em</p><p>conquistar a afeição e o amor dos pais, a criança</p><p>se sente ressentida e apresenta mau humor como</p><p>uma expressão de insatisfação. Normalmente, os</p><p>pais oferecem algum conforto e afeição quando</p><p>a “pobre criança está infeliz”, reforçando, dessa</p><p>maneira, o desenvolvimento do comportamento</p><p>dependente da dor. Essa pessoa desenvolve um</p><p>modelo de sofrimento pessoal como forma de obter</p><p>atenção e afeto. Um abuso real de um dos pais ou</p><p>substituto parental é traduzido pela criança como:</p><p>“Essa é a manifestação de amor e atenção”. Isso</p><p>passa a ser o modelo para suas futuras relações. A</p><p>doença, a atenção e o cuidado que a criança traz</p><p>dos pais, distantes e sem afeição, de outro modo,</p><p>147</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>também podem reforçar o paradigma “dor é prazer”</p><p>(McWilliams, 2014; Kernberg, 1995).</p><p>Observa-se que há contexto de privações afetivas</p><p>e perdas traumáticas que não foi tão devastadora a</p><p>ponto de a criança simplesmente desistir da ideia de</p><p>ser amada. Muitos pais com um mínimo de funcio-</p><p>nalidade podem ser impelidos a agir quando suas</p><p>crianças são machucadas ou estão em perigo. Os</p><p>filhos desses pais aprendem que, embora sintam-se</p><p>abandonados e sem valor, se sofrerem o bastante</p><p>talvez consigam alguma ajuda. Para uma criança,</p><p>qualquer atenção dos pais é mais segura do que</p><p>um ato de negligência ou abandono (Mackinnon,</p><p>2008; McWilliams, 2014; Kernberg, 1995).</p><p>É comum que a história de uma pessoa masoquis-</p><p>ta se pareça com a de uma depressiva, com perdas</p><p>não lamentadas, cuidadores críticos e indutores</p><p>de culpa, reversão de papéis (quando a criança se</p><p>sente responsável pelos pais), contexto de traumas</p><p>e abuso e a convivência com pessoas depressivas.</p><p>Enquanto as pessoas depressivas sentem que não</p><p>há alguém lá fora para ajudá-las, as masoquistas</p><p>podem sentir que, a não ser que demonstrem su-</p><p>ficientemente sua necessidade de compaixão ou</p><p>cuidado, terão de enfrentar um completo abandono</p><p>emocional (McWilliams, 2014).</p><p>As origens do masoquismo podem estar em ques-</p><p>tões de dependência e de medo de ficar sozinho:</p><p>148</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>“Por favor não me deixe, vou me ferir em sua ausên-</p><p>cia”. Essa dinâmica explica porque muitas mulheres</p><p>que repetidas vezes foram gravemente espancadas</p><p>por seus parceiros, essas pessoas que se encontram</p><p>em real e grave perigo, muitas vezes relatam que</p><p>temem mais o abandono do que a dor ou mesmo</p><p>a morte (McWilliams, 2014; Kernberg, 1995).</p><p>Não é incomum que se observe na história de</p><p>vida de pessoas masoquistas que os únicos mo-</p><p>mentos em que um pai ou uma mãe investiram</p><p>neles emocionalmente ocorreram quando o objetivo</p><p>era puni-los. Uma associação entre apego e dor é</p><p>inevitável sob tais circunstâncias. A provocação,</p><p>uma combinação peculiar de afeto e crueldade,</p><p>também pode semear masoquismo. Em especial</p><p>quando a punição foi excessiva, abusiva ou sádica,</p><p>a criança aprende que o sofrimento é o preço do</p><p>relacionamento. E as crianças buscam mais pelos</p><p>relacionamentos do que segurança física. Vítimas</p><p>de abuso infantil geralmente internalizam a racio-</p><p>nalização de seus pais a respeito dos maus-tratos,</p><p>porque é melhor apanhar do que se sentir negli-</p><p>genciado (Stoller, 1991) .</p><p>Outro aspecto da história da maioria das pessoas</p><p>cuja personalidade se tornou estruturada em um</p><p>esquema masoquista é que foram bastante recom-</p><p>pensadas por terem enfrentado as adversidades com</p><p>elegância. O efeito de receber elogios excessivos</p><p>por autossacrifício pode criar uma configuração de</p><p>149</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>vida baseada no masoquismo (McWilliams, 2014;</p><p>Gabbard, 2016).</p><p>EMOÇÕES E DEFESAS</p><p>As pessoas masoquistas empregam as defe-</p><p>sas de INTROJEÇÃO, VIRAR-SE CONTRA O SELF</p><p>e IDEALIZAÇÃO. Além disso, usam bastante o</p><p>ACTING OUT, ou seja, falam por atos, no caso,</p><p>expressam suas emoções através de ações des-</p><p>trutivas. Masoquistas morais também usam a</p><p>MORALIZAÇÃO para lidar com as experiências</p><p>internas (McWilliams, 2014).</p><p>A principal marca da personalidade masoquista</p><p>é o uso do ACTING OUT defensivo de maneira a</p><p>criar ameaças nocivas. A maioria das ações auto-</p><p>defensivas impulsionadas de forma inconsciente</p><p>inclui o esforço de dominar uma esperada situação</p><p>de dor. Se alguém estiver convencido de que, por</p><p>exemplo, todas as figuras de autoridade irão cedo</p><p>ou tarde punir aqueles que dependem delas, então</p><p>provocar a punição esperada aliviará a ansiedade</p><p>e promoverá a segurança do indivíduo em relação</p><p>ao próprio poder: pelo menos o tempo e o lugar do</p><p>sofrimento puderam ser escolhidos pelo self, essa</p><p>dinâmica pode ser considerada como uma “trans-</p><p>formação do passivo em ativo” (McWilliams, 2014).</p><p>Freud (1920) ficou a princípio impressionado com</p><p>o poder do que chamava de compulsão à repeti-</p><p>150</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>ção em casos desse tipo. A vida é injusta: aqueles</p><p>que mais sofrem na infância são em geral os que</p><p>mais sofrem na vida adulta, e em cenários que de</p><p>forma estranha refletem as circunstâncias da sua</p><p>infância. De insultos a injúrias, as situações adultas</p><p>parecem, aos pesquisadores, ser provocadas pelo</p><p>próprio sofredor, embora raramente essa seja sua</p><p>experiência consciente.</p><p>Reik (1941) explorou as várias dimensões do ac-</p><p>ting out masoquista, incluindo (1) Provocação, (2)</p><p>Apaziguamento (“já estou sofrendo, por favor não</p><p>me castigue mais”), (3) exibicionismo (“Preste aten-</p><p>ção; eu estou sofrendo”) e (4) Redirecionamento da</p><p>culpa (“Veja o que você fez comigo”).</p><p>O comportamento autodestrutivo no masoquismo</p><p>relacional pode ser entendido como uma defesa con-</p><p>tra a ansiedade de separação. Ele tem uma maneira</p><p>de engajar e envolver os outros no processo maso-</p><p>quista. Nesse contexto, é como se houvesse uma voz</p><p>continuamente afirmando: “Prefiro apanhar a não</p><p>ser tocado</p><p>de jeito nenhum” (McWilliams, 2014).</p><p>Aqueles cujo o masoquismo é mais introjetivo,</p><p>a moralização pode ser uma defesa desesperada.</p><p>Com frequência, esses masoquistas estão mais in-</p><p>teressados em uma vitória moral do que em resol-</p><p>ver algum problema prático. Acabam se tornando</p><p>queixosos, lamentadores, buscando um senso de</p><p>justiça e conformismo, do tipo “eu mereci”, do que</p><p>151</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>resolver uma dor ou angústia. Parte da dinâmica</p><p>nesse contexto parece envolver um jeito especial</p><p>de lidar com a convicção depressiva introjetiva</p><p>da própria pessoa de que é má. A necessidade de</p><p>cativar ouvintes que validem que os outros é que</p><p>são culpados pode ser o bastante para subjugar os</p><p>objetivos práticos aos quais a maioria das pessoas</p><p>dá prioridade (McWilliams, 2014).</p><p>Assim, uma razão pela qual uma criança que tem</p><p>um padrasto ou madrasta - mesmo do tipo bem</p><p>intencionado - tende a se comportar de forma</p><p>masoquista (agindo de modo ressentido ou pro-</p><p>vocante, incitando reações punitivas) pode estar</p><p>na culpa inconsciente. Crianças que perderam</p><p>precocemente o pai ou a mãe têm propensão a</p><p>acreditar que sua própria maldade é que fez com</p><p>que este fosse embora.</p><p>Outra defesa frequente é a NEGAÇÃO. Pessoas</p><p>com organização masoquista da personalidade</p><p>comumente demonstram com suas palavras e</p><p>atitudes que estão sofrendo, ou que alguém está</p><p>abusando delas, de modo que possam negar que</p><p>estejam sofrendo qualquer desconforto ou protesto</p><p>particular em relação às boas intenções do abusa-</p><p>dor (McWilliams, 2014; Stoller, 1991).</p><p>152</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>RELACIONAMENTOS</p><p>As pessoas que necessitam de fantasias ou de</p><p>ações sádicas para obterem gratificação sexual</p><p>estão, com frequência, tentando inconscientemen-</p><p>te reverter cenários infantis nos quais elas foram</p><p>vítimas de abuso físico ou sexual. Ao infligir aos</p><p>outros aquilo que ocorreu com elas quando eram</p><p>crianças, essas pessoas obtêm ao mesmo tempo</p><p>vingança e um senso de domínio sobre o trauma</p><p>infantil (McWilliams, 2014; Kernberg, 1995).</p><p>Stoller (1991) descobriu que uma porcentagem</p><p>bastante grande de membros de clubes sado-</p><p>masoquistas que praticavam perfuração corporal</p><p>tinham sido hospitalizados quando eram crianças e</p><p>submetidas a procedimentos invasivos e dolorosos</p><p>de forma contínua a fim de tratar as suas doenças.</p><p>Por sua vez, as pessoas masoquistas que neces-</p><p>sitam de humilhação e mesmo de dor para obter</p><p>prazer sexual podem também estar repetindo</p><p>experiências de abuso na infância. Fenichel (1945)</p><p>acreditava que os indivíduos masoquistas estavam</p><p>fazendo um sacrifício - aceitando um “mal menor”</p><p>no lugar de uma punição maior. Eles também po-</p><p>dem estar firmemente convencidos de que mere-</p><p>cem punição por seus desejos sádicos conflitantes.</p><p>Em alguns casos, essas pessoas se defendem contra</p><p>a ansiedade de separação ao se submeterem ao</p><p>abuso. Muitas vezes, estão convencidos de que uma</p><p>153</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>relação sadomasoquista é a única forma disponível</p><p>de relação objetal: uma relação abusiva é melhor</p><p>do que nenhuma relação. O vazio e a solidão são</p><p>piores do que a dor.</p><p>O sadismo e o masoquismo são singulares por</p><p>serem as únicas perversões clássicas reconhecidas</p><p>como de ocorrência regular em ambos os sexos.</p><p>Embora o masoquismo tenha sido ligado, de forma</p><p>estereotipada, às mulheres, formas suaves de fantasias</p><p>sádicas e masoquistas são encontradas regularmente</p><p>em praticamente todas as pessoas (Gabbard, 2016)</p><p>Nos relacionamentos diários, as pessoas autodes-</p><p>trutivas tendem a se apegar a amigos do tipo “com-</p><p>panheiros de amor e sofrimento” e, se são da varie-</p><p>dade masoquista moral de sofredores, gravitam em</p><p>torno daqueles que possam validar seu sentimento</p><p>de injustiça.</p><p>Alguns apegos sadomasoquistas parecem ser</p><p>o resultado de uma pessoa autodestrutiva ter es-</p><p>colhido um parceiro com uma tendência preexis-</p><p>tente ao abuso; em outros contextos, parece que</p><p>a pessoa sofrendo maus-tratos se conectou com</p><p>um tipo adequado de parceiro, mas deu um jeito</p><p>de despertar o que havia de pior nele (McWilliams,</p><p>2014; Mackinnon, 2008).</p><p>As dinâmicas masoquistas podem permear a vida</p><p>sexual de alguém com uma personalidade autodes-</p><p>154</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>trutiva, mas muitas pessoas de caráter masoquista</p><p>não são sexualmente masoquistas.</p><p>Sobre o masoquismo no campo da sexualidade,</p><p>encontra-se suas expressões num nível consciente e</p><p>explícito, bem como no nível inconsciente. Queixas</p><p>como: “Meu namorado não sente ciúmes de mim.”,</p><p>“meu marido quer me ver com outro homem...”,</p><p>“minha parceira me pede para bater nela na hora</p><p>de transar...” estão diretamente relacionadas à di-</p><p>nâmica do masoquismo sexual.</p><p>Otto Kernberg (1995) afirma que há diferenças e</p><p>semelhanças entre as fantasias sexuais masoquistas</p><p>entre homens e mulheres. As fantasias e atividades</p><p>sexuais dos homens, expressando o desejo de ser</p><p>dominado, provocado, excitado e forçado a subme-</p><p>ter-se a uma mulher poderosa e cruel como uma</p><p>exigência para o orgasmo. Por sua vez, observa-se</p><p>no masoquismo feminino fantasias e desejo de ser</p><p>humilhada ao exibir-se para outros, e ser violentada</p><p>por um homem que julga ser poderoso, perigoso</p><p>ou desconhecido.</p><p>O masoquismo masculino normalmente envolve</p><p>uma dor maior, uma ênfase mais acentuada na</p><p>humilhação, na infidelidade do parceiro sexual,</p><p>na participação da audiência (assistir à traição, as-</p><p>sistir à parceira num ménage, etc.). Quando essas</p><p>fantasias estão conscientes é comum o parceiro</p><p>sugerir essas práticas sexuais, o que soa estranho</p><p>155</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>para a parceira, pois é comum questionar sobre a</p><p>ausência de ciúmes em expô-la a outros homens,</p><p>sendo que o foco do prazer está na humilhação.</p><p>No nível inconsciente, esse desejo de ver a parceira</p><p>com outro, por exemplo, pode ser confuso e distor-</p><p>cido a ponto do parceiro projetar esse desejo na</p><p>parceira, acusando-a de trair ou de desejar alguém</p><p>de forma recorrente sem motivos, por exemplo</p><p>(Kernberg, 1995).</p><p>O masoquismo feminino, em contraste, envolve</p><p>dor mais frequente, mas de menor intensidade,</p><p>punição no contexto de um relacionamento íntimo,</p><p>exposição sexual como humilhação e não parti-</p><p>cipação da audiência. O masoquismo masculino</p><p>normalmente culmina no orgasmo, excluindo o</p><p>intercurso sexual, ao passo que o masoquismo</p><p>feminino normalmente culmina no sexo genital,</p><p>embora menos consistentemente, no orgasmo</p><p>(kernberg, 1995).</p><p>Para Kernberg (1995) as origens dessas diferenças</p><p>se encontram nos conflitos edípicos da Fase Fáli-</p><p>ca do desenvolvimento psicossexual. No caso dos</p><p>homens, a dominação por uma mulher poderosa</p><p>reproduz as fantasias do envolvimento do garotinho</p><p>com a mãe poderosa e esmagadora, juntamente</p><p>com a reparação da culpa pela transgressão edí-</p><p>pica e a fantasia narcísica de ter certo poder de</p><p>sedução sobre a mãe. Nas mulheres, as fantasias</p><p>inconscientes de ser objeto sexual preferido de um</p><p>156</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>pai poderoso, distante e potencialmente amea-</p><p>çador, mas também sedutor, se condensa com a</p><p>reparação da culpa ao ser forçada a submeter-se,</p><p>ser sexualmente humilhada e abandonada.</p><p>No dia a dia da relação com pessoas que têm</p><p>fortes traços masoquistas observa-se às seguintes</p><p>características transferenciais:</p><p>• Costumam reencenar o drama da criança</p><p>que precisa de cuidados, mas só os recebe se</p><p>demonstra sofrimento. Nesse sentido é im-</p><p>portante atentar para uma postura que não</p><p>gratifique esse tipo de conduta que se torna</p><p>um ciclo voraz, demandando cada vez mais</p><p>sofrimento.</p><p>• Pessoas masoquistas com frequência tentam</p><p>convencer o outro de que precisam e merecem</p><p>ser salvos. Coexistindo com essas metas está o</p><p>medo de que o outro seja negligente, distraído,</p><p>egoísta, crítico ou uma autoridade abusiva que</p><p>irá expor a falta de valor da pessoa, culpar a</p><p>vítima por ser vitimizada e abandonar.</p><p>• A pessoa autodestrutiva vive em um estado</p><p>de pavor, quase sempre inconsciente, de que</p><p>um observador distingue suas deficiências e</p><p>as rejeite por seus pecados. Para combater tais</p><p>medos, tentam deixar óbvio tanto o próprio</p><p>desamparo quanto as próprias tentativas de</p><p>serem boas.</p><p>157</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>• Pessoas masoquistas podem despertar no</p><p>outro, tanto reações muito generosas, quanto</p><p>sadismo devido sua vulnerabilidade.</p><p>Nesse contexto, na interação com indivíduos ma-</p><p>soquistas deve-se tomar cuidado para potencializar</p><p>relações mais funcionais. Sendo assim, ser extre-</p><p>mamente generoso nesse contexto é contraindi-</p><p>cado, pois favorece a regressão e a pessoa aprende</p><p>que práticas de autodestruição levam a ganhos</p><p>secundários. Pessoas que valorizam o autossacri-</p><p>fício não podem ser tratadas com autossacrifício</p><p>da sua parte, pois isso os faz se sentirem culpados</p><p>e não merecedores de apoio. Essas pessoas não</p><p>precisam aprender que são toleradas quando</p><p>sorriem bravamente; elas precisam descobrir que</p><p>são aceitas mesmo quando perdem a paciência,</p><p>precisam aprender que a raiva é natural quando</p><p>não conseguimos o que desejamos e pode ser en-</p><p>tendida exatamente dessa maneira pelos outros.</p><p>Ela não precisa ser fortificada por um moralismo</p><p>autorrigoroso e por exibicionismos de sofrimento.</p><p>Em vez de usar “Coitadinho de você!” prefira usar</p><p>“Como você foi se envolver em tal situação?”. A</p><p>ênfase deve ser sempre na capacidade da pessoa</p><p>de melhorar as coisas. Por fim, jamais se deve agir</p><p>no sentido de salvar a pessoa, pois isso fortalece</p><p>a gratificação do sofrimento.</p><p>158</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Chegando ao final dessa jornada, cuja proposta</p><p>consistiu em explorar e conhecer a dinâmica de</p><p>sete perfis de personalidade, espera-se que o leitor</p><p>desperte para uma compreensão mais profunda</p><p>sobre a maneira como as pessoas aprenderam ao</p><p>longo de suas histórias de vida a se posicionar e</p><p>interagir nas suas relações, a expressar emoções e</p><p>seus conflitos centrais.</p><p>No âmbito de estudos sobre personalidade, di-</p><p>ficilmente vamos encontrar perfis prontos e rígi-</p><p>dos, mesmo em suas versões patológicas é difícil</p><p>diagnosticar com precisão. Essa questão somente</p><p>reitera a beleza e singularidade da natureza hu-</p><p>mana que é única. Costumo usar o exemplo de</p><p>gêmeos idênticos, que compartilharam a mesma</p><p>experiência intrauterina, roteiros semelhantes de</p><p>desenvolvimento e possuem carga genética idênti-</p><p>cas, e possuem perfis de personalidade totalmente</p><p>159</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>opostos na maioria das vezes. Isso acontece devido</p><p>à capacidade individual de simbolizar cada evento</p><p>experienciado, à maneira pessoal como são atribuí-</p><p>dos significados a fatos compartilhados por uma</p><p>família inteira.</p><p>Assim, o enfoque do presente estudo não se ateve</p><p>a “diagnósticos de personalidade”, mas a compreen-</p><p>der DINÂMICAS de personalidade. Apesar de todos</p><p>termos traços variados, predomina um conjunto</p><p>marcante de características que se sobressaem e</p><p>que nos dão um direcionamento para compreen-</p><p>der a dinâmica central de um indivíduo. Em outras</p><p>palavras, existe um emaranhado de traços, mas</p><p>existe um “fio central”, uma estrutura onde tudo</p><p>se apoia, podemos entender e sentir essa estrutura</p><p>nos afetando nas nossas relações.</p><p>Os conceitos de regressão e fixação fortalecem</p><p>mais ainda a ideia do dinamismo dentro da per-</p><p>sonalidade. Você pode ser um neurótico obsessivo</p><p>que abusa de racionalizações, mas diante de um</p><p>trauma, pode regredir e momentaneamente, como</p><p>uma defesa, se tornar um “bebê impulsivo” com</p><p>uma dinâmica reativa tipicamente borderline.</p><p>Essa questão reforça a relevância do ambiente na</p><p>estabilidade, ou não, de determinados traços de</p><p>personalidade. Nada está totalmente acabado,</p><p>pois podemos ajustar traços não-adaptativos, uma</p><p>vez que existem relações e contextos reparadores</p><p>que mostram que, mesmo situações clinicamente</p><p>160</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>rígidas, podem ser submetidas a mudanças sutis. A</p><p>psicoterapia é por excelência um exemplo desses</p><p>ambientes relacionais corretivos.</p><p>Nesse contexto de adaptações e mudanças, a ca-</p><p>pacidade de sublimar auxilia bastante em processos</p><p>adaptativos, afinal quem não conhece a clássica</p><p>história do assassino “psicopata” irreparável que</p><p>se tornou um pastor que lidera uma comunidade</p><p>evangélica? No ambiente da violência ele pôde sen-</p><p>tir o poder de ter a vida de alguém em suas mãos</p><p>e, em um contexto de sublimação no enquadre</p><p>da religião, ele experimenta esse mesmo poder</p><p>sobre a vida do outro, porém expresso de uma</p><p>maneira socialmente aceita. Esse é um exemplo</p><p>incontestável de ajustamento de uma dinâmica</p><p>de personalidade.</p><p>Alguns autores são pessimistas quanto a mudan-</p><p>ças de personalidades muito rígidas e inflexíveis,</p><p>mas entram em cena o conjunto de teorias e pes-</p><p>quisas sobre processos de intervenção que foram</p><p>expostos ao longo desse trabalho, mostrando que</p><p>o primeiro passo para qualquer adaptação é se tor-</p><p>nar consciente dessas dinâmicas, do perfil central</p><p>da personalidade do indivíduo, bem como daquilo</p><p>que vai funcionar ou não para essa pessoa, o que</p><p>pode ser terapêutico e o que piora a dinâmica de seu</p><p>caráter. As intervenções que favorecem mudanças</p><p>consistem, essencialmente, em posturas conscientes</p><p>e corretivas que se dão no íntimo das relações.</p><p>161</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Lembrem-se que antes de voltar seu olhar diag-</p><p>nóstico para o outro, busque voltar-se para si, para</p><p>conhecer sua história de vida, defesas, sua maneira</p><p>de fazer transferências nas relações e como expressa</p><p>suas emoções. Conhecer a si mesmo é o primeiro</p><p>passo rumo a relações mais harmônicas.</p><p>Diante de toda essa discussão, cabe a reflexão:</p><p>qual é a sua máscara?</p><p>162</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>AINSWORTH, M. Patterns of attachment: a psycho-</p><p>logical study of the Strange Situation. Hillsdale:</p><p>Erlbaum, 1978.</p><p>BOLLAS, C. Hysteria. London, Routledge, 2000.</p><p>BRAZELTON, T. B. Momentos decisivos do desen-</p><p>volvimento infantil. São Paulo: Martins Fontes, 1994.</p><p>FAIRBAIRN, W. R. D. (1952/1980). 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Teorias da</p><p>personalidade. 4 ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.</p><p>HOROWITZ, M. J. Psychotherapy for histrionic per-</p><p>sonality disorder. J Psychother Pract Res 6:93–107,</p><p>1997 Horowitz MJ: Histrionic personality disorder, in</p><p>Treatments of Psychiatric Disorders, Vol 2, 3rd Edi-</p><p>tion. Edited by Gabbard GO. Washington, DC, Ame-</p><p>rican Psychiatric Publishing, 2001, pp</p><p>2293–2307</p><p>ISAY, R: Becoming Gay: The Journey to Self-Ac-</p><p>ceptance. New York, Owl Books, 2009.</p><p>KERNBERG, Otto. et al. Psychodynamic Psicho-</p><p>therapy of Borderline Patients. New York: Basic</p><p>Books, 1989.</p><p>KERNBERG, Otto. Psicopatologia das relações</p><p>amorosas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.</p><p>KLEIN, Melanie (1952). Algumas conclusões teóri-</p><p>cas relativa à vida emocional do bebê. (1991) Inveja</p><p>e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). 4 ed. Rio</p><p>de Janeiro: Imago, 1991. p. 85-118.</p><p>LUBBE, T. 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Porto Alegre: Artmed, 2004.</p><p>ACOMPANHE A AUTORA NAS</p><p>REDES SOCIAIS</p><p>CLIQUE NOS ÍCONES PARA ACESSAR</p><p>https://www.instagram.com/psicologarosedaisenascimento/</p><p>https://www.youtube.com/channel/UCYFvtHVHPpC5CJEDj5ciwHA</p><p>https://t.me/psicologarosedaisenascimento</p><p>QUAL A RELEVÂNCIA DE SE ESTUDAR PERFIS DE PERSONALIDADE?</p><p>CAPÍTULO 1</p><p>CONCEITOS BÁSICOS</p><p>CAPÍTULO 2</p><p>PERSONALIDADE ESQUIZOIDE</p><p>CAPÍTULO 3</p><p>PERSONALIDADE PARANOIDE</p><p>CAPÍTULO 4</p><p>PERSONALIDADE NARCISISTA</p><p>CAPÍTULO 5</p><p>PERSONALIDADE BORDERLINE</p><p>CAPÍTULO 6</p><p>PERSONALIDADE HISTÉRICA</p><p>CAPÍTULO 7</p><p>PERSONALIDADE OBSESSIVA</p><p>CAPÍTULO 8</p><p>PERSONALIDADE MASOQUISTA</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>torna uma</p><p>defesa somática eficaz que pode ser reproduzida</p><p>ao longo da vida. Por isso algumas pessoas que</p><p>passam por traumas na fase oral desenvolvem pro-</p><p>blemas como transtornos alimentares, compulsão</p><p>alimentar, dependência emocional, dependência</p><p>química, tabagismo, gastrite nervosa, refluxo, entre</p><p>outras somatizações que envolvem a oralidade e a</p><p>alimentação, que chamamos de FIXAÇÃO NA FASE</p><p>ORAL (McWilliams, 2014).</p><p>Nesse período inicial, em que a criança não perce-</p><p>be com clareza a existência de um mundo separado</p><p>de si mesma, vivemos naturalmente uma fase de</p><p>NARCISISMO normal, que funciona com base nessa</p><p>sensação de ser o centro do mundo e de realmente</p><p>não conseguir enxergar os outros como separado</p><p>de si mesmo. Nessa visão tipicamente narcisista,</p><p>tudo gira em torno do EU. Se a criança sente fome,</p><p>ela acredita que o seu desejo trouxe magicamente</p><p>a comida e não sua mãe. Isso gera um senso de</p><p>poder e onipotência, bem como anula o papel e</p><p>relevância do outro. Essa visão de mundo é normal</p><p>nesse contexto imaturo de desenvolvimento dos</p><p>19</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>bebês, porém aí também está a base da dinâmica</p><p>das patologias narcisistas e antissociais, as quais</p><p>anulam a percepção do outro. Podemos inferir que</p><p>os narcisistas apresentam fixação parcial nesse</p><p>estágio ou foram muito influenciados por essa di-</p><p>nâmica. Por isso, todos temos e devemos ter traços</p><p>narcisistas, mas algumas pessoas terão esses traços</p><p>de forma mais acentuada, atingindo um nível pa-</p><p>tológico (McWilliams, 2014; Gabbard, 2016).</p><p>A partir do sexto mês de vida, o bebê passa por</p><p>significativas mudanças psíquicas, associadas a</p><p>mudanças na rotina, alimentação, desenvolvimento</p><p>motor e cognitivo. Acontece a introdução de outros</p><p>alimentos na dieta, paralelamente muitas mães</p><p>retomam a rotina de trabalho, pois finda a licença</p><p>à maternidade. A criança também começa a ter</p><p>interesse por atirar objetos e sentir prazer quando</p><p>alguém os traz de volta, esse singelo movimento</p><p>lúdico, assim como a euforia contida na brinca-</p><p>deira de “esconde-achou”, indicam que a criança</p><p>está percebendo que as coisas vêm e vão, que há</p><p>separação entre ela e o resto do mundo. Muitas</p><p>crianças acabam tendo reações de luto normal ao</p><p>desmame ou à introdução de alimentação pastosa.</p><p>Todas essas mudanças despertam aos poucos um</p><p>pavor chamado de ANGÚSTIA DE SEPARAÇÃO.</p><p>Se antes a criança vivia protegida pelo narcisismo</p><p>que lhe conferia certo poder mágico de “conseguir</p><p>tudo sozinha”, agora ela sente que não tem poder</p><p>20</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>algum, que é dependente e frágil. Neste momento,</p><p>o poder é delegado ao outro, ao cuidador, principal-</p><p>mente à figura materna. Essa fase é o que considero</p><p>“ponte para o amor”, pois a partir desse novo nível</p><p>de consciência e percepção da realidade, que rompe</p><p>o egoísmo e narcisismo normal, a criança percebe</p><p>que precisa cultivar e desejar o bem dessa pessoa</p><p>que cuida, e percebe também que não pode ficar</p><p>solta aos seus impulsos destrutivos, pois num gesto</p><p>de raiva impulsiva, é capaz de destruir quem ela</p><p>ama e, no fim, destruir a si mesma.</p><p>Nessa transição, Klein (1952) considera que a</p><p>criança passa ao processo de INTEGRAÇÃO, ou</p><p>seja, juntar as partes boas e ruins de um objeto</p><p>(pessoa) e essa consciência desperta o sentimento</p><p>de CULPA, pois “cai a ficha” de que outrora, você</p><p>não sabia, mas queria destruir a quem amava, por</p><p>desconhecimento, pela incapacidade de entender</p><p>que a mesma pessoa que frustra, também é a pes-</p><p>soa que cuida.</p><p>Daí surge também a aceitação de que TODAS</p><p>AS NOSSAS RELAÇÕES SÃO AMBIVALENTES e por</p><p>mais que nossa mãe seja boa e cuidadosa, haverá</p><p>momentos em que ela pode estar ausente e isso</p><p>gera frustração. Temos que aprender a amar e a</p><p>aceitar que o outro nos provoca também senti-</p><p>mentos hostis (raiva, ciúmes, inveja) e que é sinal</p><p>de maturidade conseguir administrar todas essas</p><p>emoções nas nossas relações.</p><p>21</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>A essa nova fase, Klein (1952) chamou de POSI-</p><p>ÇÃO DEPRESSIVA, justamente pelo despertar do</p><p>sentimento de culpa, que é uma emoção essencial</p><p>para frear nossos impulsos destrutivos e valorizar</p><p>e ter empatia pelo outro. Assim, quando apren-</p><p>demos a amar, também aprendemos a conviver</p><p>com a culpa pelos momentos que desejamos mal</p><p>àqueles que amamos. Os indivíduos com transtor-</p><p>nos de personalidade como o TP Antissocial e o</p><p>Narcisista Patológico, infelizmente não cruzaram</p><p>essa ponte para o amor, não despertaram para o</p><p>sentimento de culpa que preserva os vínculos e</p><p>contém impulsos agressivos.</p><p>É importante salientar que é o amor de uma mãe</p><p>suficientemente boa, que cuida e se dedica, que</p><p>ajuda a criança a sair do narcisismo, pois se nos é</p><p>dado algo bom, vamos naturalmente proteger e</p><p>zelar por isso. Por essa razão, na história de vida de</p><p>indivíduos que não sabem amar, observa-se rela-</p><p>tos de maus tratos nessa fase, cuidados precários,</p><p>muitas vezes marcado por violência, negligência</p><p>ou abandono.</p><p>A fase de angústia de separação acompanha a</p><p>criança até em média dois a três anos de idade. Para-</p><p>lela e gradualmente a criança abandona a condição</p><p>de dependência extrema e passividade e consegue</p><p>andar, falar algumas palavras e essa sensação de</p><p>independência, mesmo que seja limitada, desperta</p><p>um estado de rebeldia, confrontação e lutas com os</p><p>22</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>pais. Teóricos do desenvolvimento infantil chamam</p><p>esse período de “Terríveis dois anos” ou “Adolescência</p><p>do bebê” (Brazelton, 1994). Nessa fase, juntamente</p><p>com todas essas mudanças, a criança amadurece a</p><p>capacidade de controle dos esfíncteres, em termos</p><p>somáticos, não estará mais restrita à expressão de</p><p>prazeres e angústias somente pela via da oralidade.</p><p>Assim, toda essa rebeldia e sensação de poder, sen-</p><p>tida com a independência gradual, fica associada</p><p>às memórias somáticas dos esfíncteres e dinâmicas</p><p>dessa fase que Freud (1905) chamou de FASE ANAL.</p><p>Como a criança é imatura e parcialmente depen-</p><p>dente na Fase Anal, ela apresenta frágil controle</p><p>de impulsos agressivos. Sendo assim, quando é</p><p>frustrada se descontrola de tanta raiva, morde,</p><p>bate, se joga no chão, quer tudo na hora e do seu</p><p>jeito, não tolera esperar, tem um verdadeiro ataque</p><p>de birra que é incontrolável e super potente. Por</p><p>outro lado, após esses ataques de raiva surge o</p><p>choro, a culpa e necessidade de colo, pois ainda</p><p>é um bebê que precisa de cuidados. Essa insta-</p><p>bilidade entre querer ser independente e depen-</p><p>der, querer destruir e depois voltar correndo com</p><p>medo de ser abandonado é a base da dinâmica</p><p>borderline. Assim, toda vez que houver conflito</p><p>entre dependência e desejo de independência,</p><p>vontade de ir embora e necessidade de ficar, a</p><p>nossa mente vai ser tomada por impulsividade e</p><p>instabilidade emocional.</p><p>23</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Nessa fase, como a criança ainda é muito so-</p><p>matizadora, normalmente suas angústias serão</p><p>deslocadas para reações corporais. Assim, a raiva</p><p>é lançada ao corpo e o local privilegiado para as</p><p>somatizações desse período é o intestino e os es-</p><p>fíncteres. Emoções ternas como o amor e cuidado</p><p>também podem ficar simbolizados por esse com-</p><p>plexo somático dos esfíncteres e excrementos.</p><p>Na Fase Anal a criança não sente nojo do cocô, ao</p><p>contrário, se sente poderosa, pois não é mais “inútil</p><p>e passiva” como na fase oral, porque agora percebe</p><p>que seu corpo produz algo que é sentido como</p><p>“mágico” e poderoso, como se fosse uma extensão</p><p>sua. Ora, se você produz algo valioso, você não vai</p><p>entregar isso para qualquer pessoa ou em qualquer</p><p>lugar, muito menos vai querer que isso se afaste de</p><p>você. Esse apego às fezes justifica muitas fobias de</p><p>crianças ao vaso sanitário, pois “se a descarga leva</p><p>essa parte preciosa de mim, pode me levar tam-</p><p>bém!”. Assim, como o ambiente familiar passa a ser</p><p>tomado por condutas e regras de higiene, limpeza,</p><p>ordem, esses valores ficam fortemente registrados</p><p>na mente e no corpo do indivíduo.</p><p>A Fase Anal é crucial para a perpetuação de uma</p><p>dinâmica obsessiva</p><p>de necessidade de controle (“tudo</p><p>deve estar limpo e organizado”). O cuidado que os</p><p>pais dispensam e como conduzem essa situação</p><p>em casa é fundamental também para a criativida-</p><p>de, inteligência e autoestima da criança, pois o que</p><p>24</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>ele produz, o que sai de dentro da criança, deve ser</p><p>valorizado, caso contrário ela associa sua “produção”</p><p>a algo negativo, sujo, digno de crítica e desprezo.</p><p>Ou pior, imagine que toda vez que a criança quer</p><p>fazer cocô, ouve a indignação ou reação de nojo dos</p><p>pais, ou a mãe bate, pune e se descontrola, a criança</p><p>pode associar que o que ela faz causa sofrimento</p><p>aos outros. O perfeccionismo típico do obsessivo, do</p><p>TOC, tem como base essas referências emocionais.</p><p>Nesse contexto, muitas crianças quando se sen-</p><p>tem inseguras, acabam tendo reações somáticas de</p><p>prisão de ventre (“não posso soltar o meu tesouro</p><p>aqui, pois vou ser atacado ou não vai ser valoriza-</p><p>do!”). Há relatos de adultos que quando viajam não</p><p>conseguem fazer cocô, pois só se sentem seguros</p><p>no banheiro de casa. Assim, na Fase Anal usamos</p><p>a RETENÇÃO: “Guardo minha intimidade pra mim,</p><p>pra minha casa, se soltar ou vai fazer mal às pessoas,</p><p>ou vão me punir por isso”. Essa é uma das razões</p><p>porque os obsessivos costumam apresentar difi-</p><p>culdades para expressar sentimentos, são racionais</p><p>demais, retém afeto. Essa dinâmica explica também</p><p>a associação entre afeto e dinheiro, pois pessoas</p><p>obsessivas costumam ser acumuladoras (retentivas)</p><p>e avarentas, pois o dinheiro é um resultado do seu</p><p>trabalho, do que produz e, assim como as emoções,</p><p>é também retido. O descontrole emocional, a ex-</p><p>pressão espontânea de afeto pode ser associada a</p><p>descontrole dos esfíncteres e pode gerar angústia.</p><p>25</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Freud (1905) afirmava que, como nessa fase há</p><p>imaturidade nos impulsos agressivos, a criança não</p><p>possui um bom controle de sua maldade e é enfático</p><p>ao dizer que todo sadismo tem como base as fases</p><p>oral e anal. Inclusive observamos esses ecos do sa-</p><p>dismo em aspectos culturais, pois se usa expressões</p><p>com referência a elementos anais quando se preten-</p><p>de ofender alguém: “Você só faz merda!”, “Fiz uma</p><p>cagada!”, “Vai tomar no c*!”, “Caguei pra você!”, entre</p><p>outros tantos exemplos. Por que quando queremos</p><p>agredir usamos palavras e referências a fezes, ânus,</p><p>genitália? Porque aprendemos a expressar nossas</p><p>maiores expressões de raiva por essas vias corporais</p><p>nos períodos imaturos do desenvolvimento e isso</p><p>fica registrado no nosso imaginário.</p><p>Na sexualidade existem patologias em que as</p><p>pessoas se excitam somente na presença de fezes</p><p>ou xixi, comem, não sentem nojo, como se regre-</p><p>dissem à dinâmica da fase anal. Muitas pessoas não</p><p>se importam se durante o sexo anal ficarem sujos</p><p>de fezes ou urina, pois valorizam isso como algo</p><p>íntimo do outro, sem a conotação de nojo. Esses</p><p>exemplos servem para que tomemos consciência</p><p>de que as fases precoces do desenvolvimento são</p><p>fundamentais para a personalidade e para a ma-</p><p>turação de áreas corporais associadas a prazer que</p><p>irão compor a sexualidade na vida adulta.</p><p>Por volta de 04 anos, com o crescimento e ama-</p><p>durecimento das crianças, elas transitam para uma</p><p>26</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>nova fase, a qual Freud (1905) chamou de FASE</p><p>FÁLICA, que coincide com o despertar das crian-</p><p>ças para a genitalidade. Elas ficam naturalmente</p><p>curiosas e voltadas para seus genitais, se exibem,</p><p>sentem prazer nessa região e surge uma breve ten-</p><p>dência à masturbação infantil que é normal devido</p><p>à descoberta dessa nova zona de prazer corporal. É</p><p>comum os meninos perguntarem para suas mães:</p><p>“Mãe, onde está seu pintinho?”. Isso acontece porque</p><p>nem os meninos nem as meninas têm consciência</p><p>de que são diferentes, eles não têm consciência de</p><p>diferença de gênero e de sexo.</p><p>Por essa razão, surge o que Freud (1905) chama de</p><p>ANGÚSTIA DE CASTRAÇÃO, que é um medo infantil</p><p>que os meninos sentem ao descobrir que existem</p><p>pessoas “sem pinto”. Ora, “se existem pessoas sem</p><p>pênis, preciso me cuidar senão o meu vai ser corta-</p><p>do!”. Não é incomum nessa fase os meninos também</p><p>perguntarem: “Mãe, quem cortou seu pintinho?”. Isso</p><p>parece engraçado, mas pra criança é um pavor e, como</p><p>os adultos não entendem essa maneira das crianças</p><p>encararem o mundo, elas tendem a fazer sozinhas</p><p>associações do tipo: “se eu não for um bom menino,</p><p>vou ser punido (castrado)!”. As meninas, por sua vez,</p><p>sentem o que Freud (1905) chama de falta, sensação</p><p>de “inveja”, por serem privadas de um falo e buscam</p><p>meios de compensar essa falta.</p><p>Paralelamente, se dá o que Freud chama de Com-</p><p>plexo de Édipo, que é quando as crianças, movidas</p><p>27</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>por impulsos eróticos típicos dessa fase e pouca ma-</p><p>turidade e incapacidade de discernir o que é certo do</p><p>que é errado, não possuem freios para seus desejos</p><p>eróticos. Tendem a viver suas primeiras paixões com</p><p>as pessoas mais encantadoras e próximas em seu dia</p><p>a dia, geralmente o pai ou a mãe. Num determinado</p><p>momento, ao perceber que isso é proibido, errado,</p><p>ou impossível, sentem-se culpadas e com medo de</p><p>punição. As crianças necessitam se sentir amadas e</p><p>acolhidas nessa fase, mas com equilíbrio, pois sedução</p><p>demais por parte dos pais alimenta a paixão e poten-</p><p>cializa verdadeiras culpas que ecoam na sexualidade</p><p>adulta. A histeria tem suas bases nessa dinâmica.</p><p>Essa explosão de impulsos eróticos cessa por volta</p><p>dos sete anos, quando novamente muitas mudan-</p><p>ças acontecem, uma delas é um amadurecimento</p><p>cerebral, maior controle dos impulsos agressivos e</p><p>eróticos, maior interesse pela socialização fora de</p><p>casa, no ambiente escolar e melhor capacidade de</p><p>racionalizar e sublimar os afetos. Esse período foi</p><p>classificado por Freud (1905) como LATÊNCIA, que</p><p>seria um período de natural repressão e controle</p><p>das emoções e da sexualidade que viriam à tona</p><p>mais adiante, com as mudanças da puberdade, na</p><p>Fase que ele chamou de FASE GENITAL, momento</p><p>em que o corpo, enfim, estaria pronto para a sexua-</p><p>lidade propriamente dita, para o ato sexual maduro.</p><p>Todas essas fases moldam nossas emoções, rela-</p><p>ções, defesas, sexualidade e tudo isso junto forma</p><p>quem somos: nossa personalidade!</p><p>28</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Agora é possível entender porque não consegui-</p><p>mos mudanças rápidas quando se trata de proble-</p><p>mas nas relações e na personalidade, pois é um</p><p>trabalho delicado e demorado, uma construção</p><p>que vai se solidificando ao longo da vida.</p><p>O QUE SÃO MECANISMOS DE</p><p>DEFESA?</p><p>Para compreender sobre mecanismos de defe-</p><p>sa é necessário previamente entender que existe</p><p>uma estrutura dinâmica da nossa mente em que</p><p>três instâncias interagem e filtram nossas reações,</p><p>emoções, memórias, impulsos, desejos, etc. Na</p><p>psicanálise, essas estruturas são chamadas de ID,</p><p>EGO e SUPEREGO (Hall, Lindzey & Campbell, 2000).</p><p>Id - é o sistema primário da personalidade, é a</p><p>base da qual se originam o ego e o superego. Quan-</p><p>do nascemos somos muito impulsivos, instintivos,</p><p>imediatistas, totalmente dominados pelos impulsos</p><p>do Id, sem um filtro para nossos desejos, a não ser</p><p>os limites impostos pelo próprio corpo imaturo de</p><p>um bebê, que pode estar voraz de fome, mas que</p><p>não tem autonomia para buscar ou preparar sua</p><p>própria comida. O id é movido pelo princípio do</p><p>prazer e sua força busca a todo custo alívio das ten-</p><p>sões. Esse sistema opera no inconsciente e ignora</p><p>totalmente a realidade (Hall, Lindzey & Campbell,</p><p>2000). Alguns perfis de personalidade são muito</p><p>Mobile User</p><p>29</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>impulsivos e imaturos, sendo que são bastante</p><p>mobilizados pelo Id.</p><p>Ego - o ego passa a existir porque as necessidades</p><p>do organismo requerem transações apropriadas com</p><p>o mundo objetivo da realidade. A pessoa faminta</p><p>tem de buscar, encontrar e comer o alimento para</p><p>que a tensão da fome seja eliminada. Isso exige</p><p>planejamento e organização, um trabalho da cons-</p><p>ciência que faz uma diferenciação entre o que é uma</p><p>imagem mnemônica da comida</p><p>e a comida real e</p><p>palpável, ou seja, diferencia fantasia de realidade. O</p><p>ego é uma ponte para a realidade, o filtro para os</p><p>impulsos do ID. Ele organiza nossos instintos, desejos</p><p>e “deixa passar” as coisas permitidas de forma mais</p><p>racional e compreensiva, pois obedece o princípio da</p><p>realidade e, para desempenhar seu papel de forma</p><p>eficiente, o ego precisa ter controle sobre todas as</p><p>funções cognitivas e intelectuais. Seu principal papel</p><p>é ser mediador entre as exigências instintuais do</p><p>organismo e as condições do ambiente circundante</p><p>(Hall, Lindzey & Campbell, 2000; Zimerman, 2004).</p><p>Superego - o terceiro e último sistema da per-</p><p>sonalidade a se desenvolver é o superego, que é</p><p>o representante interno dos valores tradicionais e</p><p>dos ideais da sociedade. O superego é, portanto,</p><p>a força moral da personalidade. Ele representa o</p><p>ideal mais do que o real e busca a perfeição mais</p><p>do que o prazer. Sua principal preocupação é de-</p><p>cidir se alguma atitude está certa ou errada, para</p><p>30</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>poder agir de acordo com os padrões morais da</p><p>sociedade ou da cultura do sujeito. As principais</p><p>funções do superego são: inibir os impulsos do id,</p><p>especialmente aqueles de natureza sexual e agres-</p><p>siva; persuadir o ego a substituir objetivos realistas</p><p>por objetivos moralistas; buscar a perfeição (Hall,</p><p>Lindzey & Campbell, 2000; Zimerman, 2004).</p><p>Essas três instâncias psíquicas que compõem a</p><p>mente deveriam viver em equilíbrio, porém alguns</p><p>tipos de personalidade podem ter um ego fragili-</p><p>zado, em que o princípio do prazer impera, bem</p><p>como existem aqueles que são escravos dos ideais</p><p>do superego ou dos impulsos do id.</p><p>Nesse contexto, mediante situações geradoras de</p><p>angústia, como um impulso agressivo do id que</p><p>quer vir à tona, o ego desenvolve defesas para filtrar</p><p>e contemplar de forma disfarçada esses impulsos.</p><p>Os mecanismos de defesa são uma função do ego</p><p>que amadurecem ao longo do desenvolvimento.</p><p>Todos nós temos mecanismos de defesa que reve-</p><p>lam muito sobre nossa personalidade. Com frequên-</p><p>cia, elas são classificadas segundo uma hierarquia</p><p>que vai da mais imatura, ou patológica, até a mais</p><p>madura, ou saudável e um perfil dos mecanismos</p><p>de defesa de um indivíduo é um bom indicador de</p><p>sua personalidade, do seu nível de maturidade ou</p><p>imaturidade. É importante salientar que todos te-</p><p>mos a tendência a usar uma variedade de defesas,</p><p>31</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>algumas de categoria primitiva, quando estamos sob</p><p>intenso estresse (McWilliams, 2014). Os mecanismos</p><p>de defesa mais comuns estão listados abaixo, de</p><p>acordo com sua hierarquia (Gabbard, 2016).</p><p>DEFESAS PRIMITIVAS</p><p>Cisão</p><p>Compartimentalização de experiên-</p><p>cias do self e do outro, de modo que</p><p>a integração não é possível. Quando</p><p>o indivíduo é confrontado com as</p><p>contradições no comportamento, no</p><p>pensamento ou no afeto, ele encara</p><p>as diferenças com suave negação ou</p><p>indiferença. Essa defesa impede que</p><p>o conflito surja da incompatibilidade</p><p>dos dois aspectos polarizados do self</p><p>ou do outro. Um exemplo é quando</p><p>você vê uma pessoa como boa, não</p><p>tolera a frustração e não consegue</p><p>manter o amor e transforma esse sen-</p><p>timento em ódio. Esse mecanismo</p><p>justifica as polarizações das emoções.</p><p>32</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Identifi-</p><p>cação</p><p>projetiva</p><p>É considerado tanto um mecanis-</p><p>mo de defesa intrapsíquico quanto</p><p>uma comunicação interpessoal, esse</p><p>fenômeno envolve se comportar de</p><p>tal modo que uma pressão interna</p><p>sutil é colocada sobre outra pessoa</p><p>para que essa adquira caracterís-</p><p>ticas de um aspecto do self ou de</p><p>um objeto interno que é projetado</p><p>naquela pessoa. A pessoa que é o</p><p>alvo da projeção começa, então, a se</p><p>comportar, pensar e sentir de acordo</p><p>com aquilo que foi projetado nela.</p><p>Projeção</p><p>A percepção e a reação a impulsos</p><p>internos inaceitáveis e seus deriva-</p><p>dos como se eles estivessem fora do</p><p>self. Difere da identificação projetiva</p><p>pelo fato de o alvo da projeção não</p><p>ser mudado.</p><p>Negação</p><p>A evitação da consciência de aspec-</p><p>tos da realidade exterior que sejam</p><p>difíceis de encarar pela desconside-</p><p>ração de dados sensoriais.</p><p>33</p><p>Dissocia-</p><p>ção</p><p>A perturbação do sentido de conti-</p><p>nuidade do indivíduo nas áreas da</p><p>identidade, da memória, da cons-</p><p>ciência ou da percepção, como for-</p><p>ma de reter uma ilusão de controle</p><p>psicológico diante do desamparo e</p><p>da perda de controle. Apesar de se</p><p>parecer com a cisão, a dissociação</p><p>pode, em casos extremos, envolver</p><p>a alteração da memória de eventos</p><p>em decorrência da desconexão entre</p><p>o self e o evento.</p><p>Idealiza-</p><p>ção</p><p>A atribuição de qualidades perfeitas</p><p>ou quase perfeitas a outras pessoas,</p><p>como forma de evitar a ansiedade</p><p>ou os sentimentos negativos, como</p><p>desprezo, inveja ou raiva.</p><p>Atuação</p><p>A encenação impulsiva de uma fan-</p><p>tasia ou um desejo inconsciente,</p><p>como forma de evitar afeto doloroso.</p><p>Somatiza-</p><p>ção</p><p>A conversão de dor emocional ou de</p><p>outros estados afetivos em sintomas</p><p>físicos, bem como o foco da atenção</p><p>do indivíduo em preocupações so-</p><p>máticas (em vez de intrapsíquicas).</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>34</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Regres-</p><p>são</p><p>O retorno a uma fase anterior do</p><p>desenvolvimento ou do funciona-</p><p>mento para evitar conflitos e tensões</p><p>associados ao nível atual de desen-</p><p>volvimento do indivíduo.</p><p>Fantasia</p><p>esquizoide</p><p>A busca pelo refúgio no mundo in-</p><p>terno privado do indivíduo a fim de</p><p>evitar a ansiedade relacionada às</p><p>situações interpessoais.</p><p>DEFESAS NEURÓTICAS “DE NÍVEL MAIS ELEVADO”</p><p>Introjeção</p><p>A internalização de aspectos de uma</p><p>pessoa significativa, como forma de</p><p>lidar com a perda dessa pessoa. Tam-</p><p>bém pode ser introjetado um objeto</p><p>mau ou hostil, como forma de obter</p><p>a ilusão de controle sobre o objeto.</p><p>A introjeção ocorre de maneiras não</p><p>defensivas, como parte normal do</p><p>desenvolvimento.</p><p>Identifica-</p><p>ção</p><p>A internalização das qualidades de outra</p><p>pessoa, tornando-se parecida a essa.</p><p>Enquanto a introjeção leva a uma repre-</p><p>sentação internalizada que é vivenciada</p><p>como um “outro”, a identificação é vi-</p><p>venciada como parte do self. Isso tam-</p><p>bém pode desempenhar funções não</p><p>defensivas no desenvolvimento normal.</p><p>35</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Desloca-</p><p>mento</p><p>A transferência de sentimentos as-</p><p>sociados a uma ideia ou um objeto</p><p>para outro que se parece, de alguma</p><p>forma, com o original.</p><p>Intelec-</p><p>tualização</p><p>O uso de ideação excessiva e abstrata</p><p>para evitar sentimentos difíceis.</p><p>Isolamento</p><p>afetivo</p><p>A separação de uma ideia de seu</p><p>estado afetivo associado, a fim de</p><p>evitar turbulência emocional.</p><p>Racionali-</p><p>zação</p><p>A justificação de atitudes, crenças ou</p><p>comportamentos inaceitáveis para</p><p>torná-las aceitáveis para si mesmo.</p><p>Sexualiza-</p><p>ção</p><p>A concessão de significado sexual a</p><p>um objeto ou comportamento para</p><p>transformar uma experiência negati-</p><p>va em uma outra que seja excitante</p><p>e estimulante ou para debelar ansie-</p><p>dades associadas ao objeto.</p><p>Formação</p><p>reativa</p><p>A transformação de um impulso ou</p><p>desejo inaceitável em seu oposto.</p><p>Repressão</p><p>A expulsão de impulsos ou ideias ina-</p><p>ceitáveis, ou o impedimento de que</p><p>esses entrem na consciência. Esta</p><p>defesa difere da negação uma vez</p><p>que a última está associada a dados</p><p>sensoriais externos, enquanto a repres-</p><p>são está associada a estados internos.</p><p>36</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Anulação</p><p>A tentativa de negar implicações se-</p><p>xuais, agressivas ou vergonhosas de</p><p>um comentário ou comportamento</p><p>anterior elaborando, esclarecendo</p><p>ou fazendo o oposto.</p><p>DEFESAS MADURAS</p><p>Humor</p><p>A descoberta de elementos cômicos</p><p>e/ou irônicos em situações difíceis, a</p><p>fim de reduzir afetos desagradáveis</p><p>e desconforto pessoal.</p><p>Este mecanismo também permite</p><p>alguma distância e objetividade dos</p><p>eventos, de modo que um indivíduo</p><p>pode refletir sobre o que está acon-</p><p>tecendo.</p><p>Ascetismo</p><p>A tentativa de eliminar aspectos</p><p>prazerosos da experiência por cau-</p><p>sa de conflitos produzidos por esse</p><p>prazer. Este mecanismo pode estar</p><p>a serviço de metas transcendentais</p><p>ou espirituais, como no celibato.</p><p>37</p><p>A S S E T E M Á S C A</p><p>R A S</p><p>Altruísmo</p><p>O comprometimento do indivíduo</p><p>com as necessidades dos outros mais</p><p>do que com as próprias. O compor-</p><p>tamento altruísta pode ser usado a</p><p>serviço de conflitos narcisistas, mas</p><p>pode, também, ser a fonte de grandes</p><p>realizações e contribuições construti-</p><p>vas à sociedade.</p><p>Sublima-</p><p>ção</p><p>A transformação de objetivos social-</p><p>mente reprováveis ou internamente</p><p>inaceitáveis em outros socialmente</p><p>aceitáveis.</p><p>38</p><p>CAPÍTULO 2</p><p>PERSONALIDADE ESQUIZOIDE</p><p>CARACTERÍSTICAS E TRAÇOS DE</p><p>PERSONALIDADE</p><p>As pessoas esquizoides variam em uma faixa</p><p>que vai desde o tipo de paciente catatônico hos-</p><p>pitalizado até o gênio criativo. Costumam viver à</p><p>margem da sociedade, comumente taxados como</p><p>“estranhos” ou “esquisitos”. Essas pessoas são um</p><p>conjunto de contradições, pois apresentam iden-</p><p>tidade difusa: não estão certos de quem são e se</p><p>sentem invadidos por pensamentos, sentimentos,</p><p>desejos e impulsos altamente conflitantes. Essa</p><p>difusão de identidade faz da relação com outras</p><p>pessoas algo problemático.</p><p>Pessoas com dinâmica esquizoide parecem frias,</p><p>indiferentes, distantes e demonstram falta de envol-</p><p>vimento com atividades diárias e com as preocupa-</p><p>39</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>ções das pessoas à sua volta. São caladas, isoladas</p><p>e insociáveis. Podem viver suas vidas com pouca</p><p>necessidade ou vontade de formar laços afetivos.</p><p>Apresentam timidez, sensibilidade excessiva, es-</p><p>quiva de relacionamentos íntimos ou competitivos,</p><p>excentricidade, devaneios e dificuldade de expres-</p><p>sar hostilidade e agressividade. Embora pareçam</p><p>pensar apenas em si mesmas e estar perdidas em</p><p>devaneios, apresentam capacidade normal de re-</p><p>conhecer a realidade.</p><p>Eles podem investir quantidades enormes de</p><p>energia afetiva a interesses não humanos, como</p><p>matemática e astronomia, e podem ser muito liga-</p><p>dos a animais. Modismos de saúde e alimentação,</p><p>correntes filosóficas e esquemas de melhora social,</p><p>em especial os que não exigem envolvimento pes-</p><p>soal, costumam absorver sua atenção. Costumam</p><p>ter vocações para a investigação filosófica, a disci-</p><p>plina espiritual, a ciência teórica e as artes criativas.</p><p>O conceito psicanalítico da pessoa esquizoide tem</p><p>muito a ver com o conceito junguiano de introversão,</p><p>sobretudo o tipo de indivíduo rotulado como intro-</p><p>vertido, sentimental, intuitivo, que são reconhecidos</p><p>como admiráveis “místicos” ou “confidentes”.</p><p>De uma forma geral, a história de vida revela interes-</p><p>ses solitários e sucesso em empregos solitários e não</p><p>competitivos que outras pessoas acham difícil de tolerar.</p><p>40</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>HISTÓRIA DE VIDA</p><p>Bebês calmos, dóceis, “que não dão trabalho”,</p><p>que “vão com todo mundo sem estranhar”, que</p><p>dormem demais, que pouco choram ou quase não</p><p>demonstram irritabilidade podem ter um tempe-</p><p>ramento favorável à dinâmica esquizoide.</p><p>A pesquisadora Ainsworth e colaboradores (1978)</p><p>observou que crianças esquizoides apresentavam na</p><p>sua história de vida um tipo de apego esquivo, um</p><p>estilo de apego inseguro, ou seja, costumam reagir</p><p>com indiferença diante da presença ou ausência</p><p>da mãe quando pequenas. As mães dessas crian-</p><p>ças costumam rejeitar os estados de dependência</p><p>normal do bebê e seriam indiferentes à reação de</p><p>tristeza dos filhos, sendo bruscas, emocionalmente</p><p>não expressivas, avessas ao contato físico com seus</p><p>filhos, ou seja, mães frias e distantes.</p><p>Um pai ou uma mãe que é esquivo ou indiferen-</p><p>te em relação às necessidades do filho pode sem</p><p>dúvidas gerar uma sensação de autossuficiência</p><p>defensiva nessa criança. Indivíduos com histórico</p><p>de negligência e isolamento em momentos iniciais</p><p>da vida podem aprender a se fechar em seu mundo</p><p>como forma de defesa, aprendendo a não confiar ou</p><p>esperar nada do mundo externo (McWilliams, 2014).</p><p>Outro tipo de cuidado também colabora para o</p><p>fortalecimento de traços esquizoides, trata-se dos</p><p>41</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>casos de crianças que tiveram uma experiência</p><p>com pais muito invasivos, ansiosos, que superes-</p><p>timulam o filho. Imagine uma criança querendo</p><p>dormir e sentir sua mãe balançando-a de forma</p><p>frenética, falando alto e agitando a criança. Esse é</p><p>um exemplo de cuidado invasivo, geralmente com</p><p>pais eufóricos e ansiosos, sendo que os estímulos</p><p>intrusivos podem favorecer com que a criança bus-</p><p>que quietude em si mesma e interprete a realidade</p><p>externa como perturbadora.</p><p>Outro tipo de cuidado que favorece a dinâmica</p><p>esquizoide é viver num ambiente com comunica-</p><p>ções confusas e contraditórias, por exemplo, ter</p><p>um pai que pede para a criança ser pacífica, mas</p><p>a agride. Essas são mensagens de duplo vínculo e</p><p>desonestas que fazem a criança sentir o mundo</p><p>como confuso e dividido e, para se proteger, se</p><p>recolhe ao isolamento.</p><p>Todas essas informações sobre o desenvolvimento</p><p>de uma pessoa são fundamentais na identificação</p><p>de seu perfil de personalidade.</p><p>EMOÇÕES E DEFESAS</p><p>Na dinâmica esquizoide existe a constante amea-</p><p>ça de abandono, perseguição e desintegração.</p><p>Aproximar-se de alguém é um risco para o desen-</p><p>cadeamento de anseios intensos de dependência</p><p>e fusão. Por isso, pessoas esquizoides tendem a se</p><p>42</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>descrever mais como sufocadas de afeto do que</p><p>como carentes de afeto. Para eles, o abandono é</p><p>melhor que o sufocamento.</p><p>Podem se debater com questões de nível oral, que</p><p>envolvem angústias e evitar perigo de ser sufocado,</p><p>absorvido, deformado, tomado, devorado. O mun-</p><p>do externo parece cheio de ameaças distorcidas e</p><p>sufocantes contra a segurança e a individualidade.</p><p>Duas ansiedades são predominantes: se estão muito</p><p>próximos, eles podem se preocupar quanto à união</p><p>e fusão com as pessoas, mas se eles estão muito</p><p>distantes, temem a perda e o colapso. Temem “de-</p><p>vorar e serem devorados”. Ficam entre o medo de</p><p>afastar as pessoas por sua necessidade e seu medo</p><p>de que os outros irão sufocá-lo e consumi-lo. Como</p><p>resultado, as relações, na maioria das vezes, são</p><p>experienciadas como perigosas e como algo a ser</p><p>evitado (Fairbairn, 1952).</p><p>Sua dinâmica consiste em isolar-se, procurar sa-</p><p>tisfação na fantasia (na imaginação, pensamentos,</p><p>Netflix, Youtube, Podcasts, artes, etc.) e tendem a</p><p>rejeitar o mundo corpóreo. As pessoas esquizoides</p><p>tendem até mesmo a ser fisicamente magras, de</p><p>tão distantes que estão do contato emocional com</p><p>sua própria voracidade (McWilliams, 2014).</p><p>Pessoas com caráter esquizoide costumam reve-</p><p>lar limitação vitalícia de expressar diretamente a</p><p>raiva. Uma vez que atos agressivos raras vezes são</p><p>43</p><p>incluídos em seu repertório de reações habituais,</p><p>elas lidam com a maioria das ameaças, reais ou</p><p>imaginadas, por meio de fantasias de onipotência</p><p>ou resignação. Por isso, não chamam atenção por</p><p>serem altamente agressivas, apesar do conteúdo</p><p>violento de algumas de suas fantasias. A família e</p><p>os amigos em geral as descrevem como calmas e</p><p>gentis. Essas pessoas “suaves” podem ter o con-</p><p>teúdo agressivo sublimado no apego a filmes de</p><p>terror, livros sobre crimes reais e visões ou sonhos</p><p>apocalípticos de destruição do mundo. Cobrem sua</p><p>voracidade e sua agressão com um pesado manto</p><p>de defesas (fairbairn, 1952; McWilliams, 2014).</p><p>A defesa patognomônica - típica dessa dinâmica -</p><p>na organização de personalidade esquizoide é o ISO-</p><p>LACIONISMO EXTREMO. Entre as defesas maduras, a</p><p>INTELECTUALIZAÇÃO é a preferida. No isolacionismo, a</p><p>pessoa não distorce ou altera a percepção da realidade,</p><p>ela apenas se recolhe ao seu mundo interior e ignora</p><p>o mundo à sua volta. A intelectualização é uma defesa</p><p>racional bastante usada para “explicar” as emoções</p><p>e isso impede suas expressões, por exemplo, podem</p><p>explicar um estado de tristeza, mas dificilmente irão</p><p>chorar para expressar essa emoção.</p><p>Sob estresse, indivíduos esquizoides podem se</p><p>isolar de seus próprios afetos ou das estimulações</p><p>externas, dando a impressão de serem monóto-</p><p>nos ou inconvenientes, apesar de apresentarem</p><p>evidências de uma alta ligação com mensagens</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>44</p><p>afetivas provenientes de</p><p>outros. Quando se sentem</p><p>sobrecarregados, eles se escondem - tanto literal-</p><p>mente, em uma reclusão eremita, como se isolando</p><p>em sua própria imaginação. A pessoa esquizoide</p><p>é, acima de tudo, um outsider, um observador da</p><p>condição humana.</p><p>A capacidade mais excitante da pessoa esqui-</p><p>zoide é a criatividade. Assim, em sua versão mais</p><p>saudável direcionam suas habilidades para obras</p><p>de arte, descobertas científicas, inovações teóricas</p><p>ou empreendimentos espirituais; enquanto as mais</p><p>perturbadas dessa categoria vivem em um inferno</p><p>particular, no qual suas contribuições em potencial</p><p>são ofuscadas por um terror e estranhamento. A</p><p>transformação do isolamento e atividade criativa</p><p>é o principal objetivo da terapia com pacientes</p><p>esquizoides (Gabbard, 2016).</p><p>Diante de toda essa dificuldade de aproximação</p><p>e de não se sentir ameaçado, para aqueles que</p><p>desejam estabelecer uma boa comunicação com</p><p>uma pessoa com caráter esquizoide, sugiro que use</p><p>o mecanismo de defesa chamado de PROJEÇÃO,</p><p>estimulando a pessoa a falar de algo que ela goste</p><p>(um filme, um cantor, um personagem, um livro,</p><p>uma música, etc.) e observar os elementos com</p><p>o qual se identifica nesse relato, pois falando de</p><p>algo externo espontaneamente, essa pessoa acaba</p><p>também falando de si e do seu mundo. A projeção</p><p>oferece segurança, bem melhor do que investir</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>45</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>em perguntas diretas e invasivas. Um exemplo,</p><p>ao invés de perguntar: “que tipo de mulher você</p><p>gosta?” (que vai gerar ansiedade, dúvidas sobre se</p><p>será assertivo ou julgado), é melhor perguntar “qual</p><p>casal dos filmes você considera ideal?” (falando de</p><p>um personagem, pela projeção, a pessoa também</p><p>estará falando de suas preferências, mas sem tanta</p><p>ansiedade).</p><p>RELACIONAMENTOS</p><p>Pessoas esquizoides tendem a evitar encontros</p><p>mais íntimos, na verdade, quando tratadas com</p><p>consideração, respeito e no seu ritmo, passam a</p><p>cooperar e apreciar uma relação. Uma pessoa pode</p><p>enfrentar longos silêncios e certa frieza antes que a</p><p>pessoa esquizoide internalize que se sente seguro</p><p>e que pode confiar.</p><p>Essas pessoas são muito perceptivas de suas rea-</p><p>ções internas e gostam de estar em um ambiente</p><p>em que a autoexpressão honesta não cause alarme,</p><p>espanto, desdém ou escárnio.</p><p>O desafio para quem deseja se relacionar com</p><p>uma pessoa com esse tipo de personalidade é en-</p><p>contrar um modo de entrar no mundo subjetivo</p><p>desse indivíduo sem causar ansiedade excessiva</p><p>ou intrusão. Isso demanda certo nível de paciência,</p><p>tolerância e compreensão.</p><p>46</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Nas relações, as pessoas esquizoides temem</p><p>sentir o abandono e desinteresse da parte do ou-</p><p>tro, temem que o outro se isole emocionalmente</p><p>diante de sua falta de habilidades para socializar</p><p>e, pior, que o classifique como uma pessoa “es-</p><p>tranha”, “bizarra” ou um “maluco”. Eles querem</p><p>ser compreendidos por inteiro pelas pessoas com</p><p>as quais se importam, mas temem que, se forem</p><p>muito abertos com relação a suas vidas internas,</p><p>serão expostos como “esquisitões”.</p><p>Deve-se ter em mente que a indiferença do es-</p><p>quizoide é uma defesa que deve ser compreendi-</p><p>da, não uma barreira intransponível para conexão.</p><p>Não se deve fazer pressão para que a pessoa fale</p><p>ou seja obrigada a demonstrar afeto no início de</p><p>uma relação. A posição de escuta sem julgamento</p><p>é a mais aconselhável.</p><p>É importante lembrar que o indivíduo esquizoi-</p><p>de possui sentimentos e vontade de manter uma</p><p>relação, mas estes desejos ficam ofuscados pelo</p><p>medo da fusão de se sentirem invadidos. Assim,</p><p>eles precisam de um tempo e de um ritmo para</p><p>se vincularem. Como essa dinâmica é típica do</p><p>funcionamento psicótico, é fácil pensar que quan-</p><p>do, enfim, eles se sentem seguros, a fusão de fato</p><p>ocorre e o vínculo é muito forte.</p><p>Devido a essa divisão entre querer se relacionar</p><p>e ter medo, vamos observar nas relações aproxi-</p><p>47</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>mações e afastamentos, comum nos discursos: “eu</p><p>gosto de você, mas precisa ir com calma!”, “eu pre-</p><p>ciso ficar um tempo sozinho!”, “ainda é cedo para</p><p>você ir na minha casa!”, bem como ficar evitando</p><p>um contato real e se manter no contato virtual,</p><p>ou mesmo nem corresponder ao contato virtual,</p><p>eventualmente podem “sumir”. Algumas dessas</p><p>pessoas se limitam até mesmo a não usar emojis</p><p>na comunicação digital via redes sociais. Alguns,</p><p>inclusive, nem ao menos possuem redes sociais.</p><p>A vida sexual da pessoa com caráter esquizoide</p><p>tem uma forte tendência a se manter no campo da</p><p>fantasia e podem adiar indefinidamente o amadu-</p><p>recimento da sexualidade. Homens podem não se</p><p>casar porque são incapazes de atingir intimidade;</p><p>mulheres podem concordar de forma passiva a se</p><p>casar com um homem com perfil mais ativo ou</p><p>dominador que deseje o casamento.</p><p>Pessoas com personalidade esquizoide podem se</p><p>identificar com orientações sexuais como assexuali-</p><p>dade e demissexualidade, bem como a dificuldade</p><p>de manter o contato físico, por senti-lo invasivo,</p><p>pode explicar o comportamento hoje classificado</p><p>como Ghosting e Orbiting, uma vez que os rela-</p><p>cionamentos virtuais se tornam confortáveis para</p><p>esses indivíduos, já que eles podem se manter numa</p><p>segura distância física atrás das telas.</p><p>48</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Algumas pessoas esquizoides chegam a ser bas-</p><p>tante apáticas, apesar de sexualmente funcionais</p><p>e orgásticas. Quanto mais próximo está o outro,</p><p>maior a precocupação de que o sexo signifique um</p><p>enredamento. Muitas mulheres heterossexuais que</p><p>se apaixonaram por músicos passionais acabaram</p><p>aprendendo que seu amante reservava sua intensi-</p><p>dade sensual apenas para seu instrumento. De modo</p><p>semelhante, alguns indivíduos esquizoides suspiram</p><p>por objetos inatingíveis, enquanto sentem uma vaga</p><p>indiferença pelos que estão disponíveis. Amantes</p><p>de pessoas esquizoides às vezes reclamam que elas</p><p>estão distantes ou mecânicas na hora de fazer amor.</p><p>Como foi dito anteriormente, devido à fixação</p><p>parcial em fases primitivas do desenvolvimento, o</p><p>medo de fusão quando não se sente seguro, pode</p><p>dar espaço à necessidade de “viver grudado” quan-</p><p>do se sentem seguros. Por isso, alguns indivíduos</p><p>esquizoides, depois de transpor as barreiras iniciais,</p><p>podem ser bastante ativos sexualmente, bastante</p><p>flexíveis quanto às preferências sexuais, possuem</p><p>interesse com a incorporação de fluídos, com ele-</p><p>mentos que simbolizem essa fusão (se misturar</p><p>com o outro) de forma segura e prazerosa.</p><p>Como se pode perceber, devido à dificuldade de</p><p>se vincular e manter intimidade, esses indivíduos</p><p>não costumam ser promíscuos se comparados a</p><p>outros perfis de personalidade, pois cada aproxi-</p><p>mação é muito ameaçadora.</p><p>49</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Os indivíduos esquizoides tendem a atrair (e a</p><p>serem atraídos por) pessoas calorosas, expressivas e</p><p>sociáveis, como aquelas de personalidade histérica</p><p>ou borderline, pois essas pessoas compensam sua</p><p>apatia e frieza.</p><p>TRANSTORNO DE PERSONALIDADE</p><p>ESQUIZOIDE</p><p>Nos casos graves, a dinâmica esquizoide pode se</p><p>tornar mais rígida e inflexível, com maiores queixas</p><p>associadas aos padrões de relacionamento, que</p><p>causam extrema angústia tanto para o paciente</p><p>quanto para as pessoas com quem convive. Na</p><p>tabela abaixo constam os critérios diagnósticos do</p><p>DSM-5 para o transtorno da personalidade esqui-</p><p>zoide, ou seja, a versão patológica dessa dinâmica:</p><p>A. Um padrão difuso de distanciamento das rela-</p><p>ções sociais e uma faixa restrita de expressão de</p><p>emoções em contextos interpessoais que surgem</p><p>no início da vida adulta e estão presentes em vários</p><p>contextos, conforme indicado por quatro (ou mais)</p><p>dos seguintes critérios:</p><p>1. Não deseja nem desfruta de relações ínti-</p><p>mas, inclusive ser parte de uma família.</p><p>2. Quase sempre opta por atividades solitárias.</p><p>50</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>3. Manifesta pouco ou nenhum interesse em</p><p>ter experiências sexuais com outra pessoa.</p><p>4. Tem prazer em poucas atividades, por vezes</p><p>em nenhuma.</p><p>5. Não tem amigos próximos ou confidentes</p><p>que não sejam</p><p>os familiares de primeiro grau.</p><p>6. Mostra-se indiferente ao elogio ou à crítica</p><p>de outros.</p><p>7. Demonstra frieza emocional, distanciamento</p><p>ou embotamento afetivo.</p><p>B. Não ocorre exclusivamente durante o curso de</p><p>esquizofrenia, transtorno bipolar ou depressivo com</p><p>sintomas psicóticos, outro transtorno psicótico ou</p><p>transtorno do espectro autista e não é atribuível</p><p>aos efeitos psicológicos de outra condição médica.</p><p>(Reimpressa, com permissão, de Diagnostic and Statistical Manual</p><p>of Mental Disorders, Fifth Edition (Copyright © 2013). American</p><p>Psychiatric Association. Todos os direitos reservados.) (Kaplan e</p><p>Sadock, 2017).</p><p>51</p><p>CAPÍTULO 3</p><p>PERSONALIDADE</p><p>PARANOIDE</p><p>CARACTERÍSTICAS E TRAÇOS DE</p><p>PERSONALIDADE</p><p>A dinâmica da paranoia existe em uma linha</p><p>contínua de gravidade que vai do normal ao nível</p><p>patológico psicótico.</p><p>Os atributos inconfundíveis da dinâmica paranoide</p><p>são suspeita e desconfiança constantes e excessivas</p><p>em relação a outras pessoas expressas como uma</p><p>tendência a interpretar os atos dos outros como</p><p>ameaçadores, malévolos, exploradores ou enga-</p><p>nadores. Esperam ser lesados, traídos de alguma</p><p>forma e, por isso, com frequência questionam, sem</p><p>qualquer justificativa, a lealdade de alguém próxi-</p><p>mo. São pessoas que sofrem bastante com ciúmes</p><p>e desconfiança.</p><p>52</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Exteriorizam suas emoções negativas, usando o</p><p>mecanismo de defesa da PROJEÇÃO, que faz com</p><p>que atribuam aos outros os impulsos e pensamentos</p><p>que não podem aceitar em si mesmos.</p><p>Essas pessoas apresentam afeto restrito e parecem</p><p>frias, sem emoção. Orgulham-se da racionalidade</p><p>e objetividade, mas isso não corresponde à reali-</p><p>dade. Demonstram ausência de afeição e impres-</p><p>sionam-se e prestam bastante atenção a poder e</p><p>nível hierárquico.</p><p>Expressam desdém a indivíduos que percebem</p><p>como fracos, doentios, debilitados ou deficientes</p><p>de alguma forma. Por isso, tendem a ser preconcei-</p><p>tuosos e ter ideias e até delírios de grandeza. Em</p><p>situações sociais, essas pessoas podem transmitir</p><p>uma ideia de profissionalismo e eficiência, mas</p><p>costumam gerar medo e conflito em outras pessoas.</p><p>HISTÓRIA DE VIDA</p><p>Nancy McWilliams (2014) sugere que pessoas</p><p>que cresceram e se tornaram paranoides sofreram</p><p>sérios ataques ao seu senso de eficácia; elas repe-</p><p>tidamente se sentiam dominadas e humilhadas</p><p>pelos seus pais. Além disso, as crianças podem ter</p><p>observado atitudes desconfiadas e condenatórias</p><p>dos genitores.</p><p>53</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Indivíduos paranoides costumam vir de lares onde</p><p>a crítica e o sentimento de ridículo dominavam as</p><p>relações familiares, ou nos quais uma criança, que</p><p>no futuro se tornará paranoide, era o bode expia-</p><p>tório, alvo de atributos odiados e projetados (em</p><p>especial aqueles na categoria geral de “fraqueza”)</p><p>pelos membros da família.</p><p>A presença de um genitor assustador e a falta de</p><p>pessoas que poderiam ajudar a processar os sen-</p><p>timentos resultantes desse medo é um contexto</p><p>comum que favorece o desenvolvimento da para-</p><p>noia. A criança que sempre espera ser humilhada</p><p>ou apanhar, acaba agredindo antes de esperar ser</p><p>agredida. Vivendo nesse sistema, mais tarde, o in-</p><p>divíduo aprende que vive esperando um ataque a</p><p>qualquer momento.</p><p>EMOÇÕES E DEFESAS</p><p>Visto que percebem as fontes de seu sofrimento</p><p>como externas a eles, os indivíduos de nível paranoide</p><p>mais perturbado tendem a ser mais perigosos para</p><p>os outros do que para eles mesmos.</p><p>As qualidades raivosas e ameaçadoras de muitas</p><p>pessoas paranoides incentivaram especulações de</p><p>que um contribuinte do funcionamento psicoló-</p><p>gico paranoide seria o alto grau de agressividade</p><p>ou irritabilidade inata, apesar da ausência de pes-</p><p>54</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>quisas recentes sobre paranoia e temperamento</p><p>(McWilliams, 2014; Gabbard, 2016).</p><p>Indivíduos paranoides não se debatem apenas</p><p>contra a raiva, o ressentimento, a vingança e outros</p><p>sentimentos claramente hostis, também sofrem</p><p>com um medo exagerado associado à angústia</p><p>de aniquilação, isto é, um pavor de ser excluído,</p><p>destruído e desaparecer do mundo. As reações a</p><p>esse medo são as atitudes explosivas e agressivas.</p><p>A ansiedade paranoide tende a não ser reprimida</p><p>pelos medicamentos inibidores de absorção de</p><p>serotonina, mas responde ou melhora com uso</p><p>de benzodiazepínicos, álcool e outras drogas “cal-</p><p>mantes”, o que pode explicar por que os pacientes</p><p>paranoides com frequência lutam contra a adição</p><p>de agentes químicos (McWilliams, 2014).</p><p>Outro sentimento contra o qual os paranoides</p><p>usam muitas defesas é a vergonha, contra a qual</p><p>são capazes de usar a NEGAÇÃO e a PROJEÇÃO de</p><p>modo tão intenso e poderoso que nenhum resquí-</p><p>cio dessa vergonha fica associado ao seu eu. Assim,</p><p>depois que projetam sua vergonha nos outros, suas</p><p>energias e pensamentos são dedicados a lutar e frus-</p><p>trar todas as pessoas que os cercam que estariam</p><p>sempre prontas a humilhá-los e envergonhá-los.</p><p>Ressentimento e ciúmes, às vezes em proporções</p><p>delirantes, obscurecem suas vidas. Esse sentimen-</p><p>55</p><p>to pode ser projetado também, e a pessoa tem a</p><p>convicção de que “os outros querem ferrar comigo</p><p>por causa das coisas que eu tenho e eles invejam”</p><p>(quando na verdade o indivíduo paranoide é que</p><p>sente ciúme e inveja). Tudo vira projeção.</p><p>Por fim, as pessoas paranoides são profundamente</p><p>perturbadas pela culpa, um sentimento que pode</p><p>ser irreconhecível e projetado da mesma forma que</p><p>a vergonha. Temem que ao assumir a culpa sejam</p><p>severamente punidos, julgados ou humilhados.</p><p>Pessoas com caráter paranoide possuem signifi-</p><p>cativa baixa autoestima que leva esses indivíduos</p><p>a desenvolverem um senso aguçado de sintonia</p><p>com questões de posição e poder. Eles ficam in-</p><p>tensamente preocupados com a possibilidade de</p><p>que pessoas em posição de autoridade venham a</p><p>humilhá-los ou que elas esperem que eles fiquem</p><p>submissos. Eles percebem as ameaças à sua auto-</p><p>nomia como algo onipresente.</p><p>Exteriormente, os indivíduos paranoides são exi-</p><p>gentes, arrogantes, desconfiados, impulsivos, não ro-</p><p>mânticos, moralistas e aguçadamente observadores</p><p>do ambiente externo. Internamente, entretanto, eles</p><p>são assustados, tímidos, inseguros, ingênuos, sem</p><p>consideração, suscetíveis à erotomania (a convicção</p><p>delirante que um indivíduo pode desenvolver de</p><p>estar sendo amado por alguém de posição social</p><p>muito proeminente) e cognitivamente incapazes</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>56</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>de compreender a totalidade dos eventos reais.</p><p>RELACIONAMENTO</p><p>Você percebe que está envolvido com uma pessoa</p><p>de caráter paranoide quando passa a viver provando</p><p>inocência, sob tensão e cobranças infindáveis que</p><p>comumente culminam em palavras ou atitudes vio-</p><p>lentas, em decorrência de DESCONFIANÇA e CIÚME</p><p>EXCESSIVO, o que geralmente se torna um vínculo</p><p>tóxico e abusivo, que é bastante comum nesse tipo de</p><p>caráter ou em sua versão mais doentia: o Transtorno</p><p>de Personalidade Paranoide, que, por sua vez, é um</p><p>problema de saúde mental marcado pela dificuldade</p><p>de estabelecer relações saudáveis ao longo da vida.</p><p>Em síntese, nas relações amorosas são pessoas exces-</p><p>sivamente ciumentas, agressivas e mal-humoradas.</p><p>Independente do que você faça, a pessoa dificil-</p><p>mente muda e envolve a relação em sentimentos</p><p>desagradáveis, repetitivos e previsíveis, com um</p><p>padrão de suspeita constante. Pelo fato de acre-</p><p>ditar que está sempre sendo perseguido, a pessoa</p><p>paranoide, quando inicia uma nova relação, tende</p><p>a se posicionar como vítima e não poupa esforços</p><p>para falar mal de ex parceiros, amigos ou colegas</p><p>de trabalho. Sendo assim, a VITIMIZAÇÃO constan-</p><p>te é um forte traço nesse tipo de personalidade.</p><p>Indivíduos paranoides esperam ser explorados</p><p>ou lesados pelos outros de alguma forma, por isso</p><p>57</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>estão sempre atacando ou se certificando de que</p><p>não serão atacados. Essa necessidade de manter</p><p>o controle das pessoas com quem convive é outra</p><p>marca das relações com pessoas desse tipo de</p><p>personalidade. Não se trata da necessidade</p><p>de</p><p>estar perto por amor e sim por medo excessivo de</p><p>ser traído. Assim, ao iniciar um relacionamento é</p><p>comum um elevado nível de sedução, no sentido</p><p>de manter a pessoa sob controle, para se certificar</p><p>de que não será enganado. Ao invés de curtir os</p><p>momentos bons, infelizmente na mente de uma</p><p>pessoa paranoide, um momento bom é sempre</p><p>algo que vai provocar a inveja de alguém que pode</p><p>atacar e tomar isso de si. Por esse motivo, é comum</p><p>evitar exposição em redes sociais ou exigir que o</p><p>parceiro não se exponha.</p><p>Muitas pessoas acreditam que relacionamentos</p><p>abusivos são produto de relações com narcisistas</p><p>e ignoram o potencial “tóxico” de um vínculo com</p><p>uma pessoa de caráter paranoide. Esse medo de</p><p>ser traído e a necessidade de controle são somados</p><p>a uma desconfiança e ciúme que chega a níveis</p><p>patológicos e torna a relação um eterno martírio.</p><p>Como é comum o abuso álcool e drogas, caso haja</p><p>vícios envolvidos, a impulsividade e agressividade</p><p>ficam muito mais intensas. Vale lembrar que toda</p><p>essa desconfiança vem do próprio potencial para o</p><p>mal que essas pessoas carregam em si e que negam,</p><p>por isso é necessário desenvolver todo um sistema</p><p>58</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>de crenças que torne o outro um “vilão” para que</p><p>justifique a expressão da agressão e alivie a culpa.</p><p>Imagine um homem casado, a mulher é submissa</p><p>e atende todas as necessidades do marido, mas</p><p>ele precisa encontrar uma justificativa para traí-la.</p><p>Então ele diz que está sofrendo muito porque ELA</p><p>NÃO SE CUIDA, por isso ele não sente desejo por</p><p>ela, se torna uma vítima e busca uma mulher de-</p><p>sejável. O paranoide raramente se enxerga como</p><p>culpado, sempre encontra uma maneira de tornar</p><p>o outro um vilão e o depósito de tudo de ruim que</p><p>não assume em si - o depósito de suas projeções.</p><p>Se, por outro lado, o relacionamento não deu</p><p>certo, é comum o paranoide acusar os amigos que</p><p>“tiveram inveja” e até mesmo forças sobrenaturais:</p><p>“a presença de uma energia ruim”, “o efeito de ma-</p><p>gia negra”... mas não vai assumir seus erros, porque</p><p>isso gera extrema angústia.</p><p>Por sua conduta desconfiada e hostil, conviver com</p><p>uma pessoa paranoide desperta no outro sentimen-</p><p>tos de medo, de tentar provar que é fiel e confiável</p><p>o tempo todo sem ter reconhecimento, com isso</p><p>algumas pessoas se sentem numa eterna obrigação</p><p>de agradar, tornando um fardo esse tipo de relação.</p><p>Com maior frequência se sustentam na negação</p><p>e na projeção de outros afetos e impulsos, como,</p><p>por exemplo, o marido paranoide que, incons-</p><p>59</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>ciente de suas próprias FANTASIAS NORMAIS DE</p><p>INFIDELIDADE, se convence de que a mulher sente</p><p>perigosa atração por outros homens. É comum que,</p><p>nesse tipo de ciúmes, esteja envolvida uma ânsia</p><p>inconsciente por intimidade com uma pessoa do</p><p>mesmo sexo (McWilliams, 2014).</p><p>Nesse contexto, vale a reflexão sobre até que pon-</p><p>to alguém que acusa você de trair ou sente muito</p><p>ciúme sem evidências, está na verdade projetando</p><p>seus próprios impulsos de infidelidade ou de ho-</p><p>mossexualidade reprimida?</p><p>A literatura aponta que pessoas com dinâmica</p><p>paranoide carregam angustiantes IMPULSOS HO-</p><p>MOSSEXUAIS LATENTES REPRIMIDOS que causam</p><p>verdadeiro pavor, sendo abominados e negados</p><p>e podem aparecer, por exemplo, em um homem</p><p>ciumento que acusa a mulher de desejar o amigo,</p><p>quando na verdade ele o deseja e nega e projeta</p><p>esse impulso na mulher (Gabbard, 2016).</p><p>Outro medo recorrente em relação aos seus rela-</p><p>cionamentos é a possibilidade de estarem sujeitos</p><p>a um controle externo, pois temem que qualquer</p><p>pessoa que procure estar próxima a eles esteja</p><p>tentando assumir o controle. Essa preocupação</p><p>está associada inclusive ao medo de ser tomado</p><p>por impulsos homossexuais que os coloquem em</p><p>posição de passividade. Assim, eles se preocupam</p><p>com todas as entregas passivas, a todos os impulsos</p><p>e a todas as pessoas (McWilliams, 2014).</p><p>60</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>Nesse contexto, fica claro que pessoas com dinâ-</p><p>mica paranoide sintonizam melhor com pessoas</p><p>passivas, masoquistas e dependentes, com as quais</p><p>se sintam no controle e menos ameaçadas.</p><p>No início de uma relação com uma pessoa com</p><p>dinâmica paranoide, pouco vai adiantar confrontar</p><p>suas ideias distorcidas da realidade, escutar é a</p><p>melhor conduta, isso ajuda a construir uma aliança</p><p>de confiança. Aos poucos, no ritmo da pessoa, você</p><p>pode ajudar a identificar o que é possível daquilo</p><p>que é raro ou improvável de acontecer, mas evite</p><p>sempre fazer piadas ou confrontar diretamente a</p><p>ideia delirante ou projetiva da pessoa, pois além de</p><p>não adiantar, não vai provocar mudanças, bem como</p><p>favorece reações agressivas e mais desconfiança.</p><p>Evite alimentar as projeções ou levantar mais suspei-</p><p>tas, se não tem como ajudar diante de uma ideia deli-</p><p>rante, silencie, mas não alimente mais desconfianças.</p><p>Não entre em disputas por controle, não se deses-</p><p>pere, respeite a autonomia do sujeito. Se você não</p><p>tolera, saia da relação, mas não use argumentos</p><p>para que a pessoa ceda ao controle, pois não irá</p><p>funcionar. Entre nas relações de forma consciente.</p><p>Sempre encoraje a pessoa a verbalizar a raiva</p><p>em vez de chegar aos níveis de impulsividade em</p><p>que a raiva passa a ser atuada (expressa em atos:</p><p>violência, gritos, acusações). Evite discutir no calor</p><p>61</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>da raiva e busque um outro momento para tratar</p><p>essas questões.</p><p>Sempre dê um espaço para a pessoa paranoide respi-</p><p>rar, pois caso não tenham seu espaço para se recolher.</p><p>Cuide-se para que consiga entender racional-</p><p>mente o funcionamento mental de um indivíduo</p><p>paranoide e consiga lidar com o sentimento de</p><p>medo e raiva que eles despertam.</p><p>TRANSTORNO DE PERSONALIDADE</p><p>PARANOIDE</p><p>Nos casos graves, a dinâmica paranoide pode se</p><p>tornar mais rígida e inflexível, com maiores queixas</p><p>associadas aos padrões de relacionamento, que</p><p>causam extrema angústia tanto para o paciente</p><p>quanto para as pessoas com quem convive. Na</p><p>tabela abaixo constam os critérios diagnósticos do</p><p>DSM-5 para o transtorno da personalidade para-</p><p>noide, ou seja, a versão patológica dessa dinâmica:</p><p>A. Um padrão de desconfiança e suspeita difusa</p><p>dos outros, de modo que suas motivações são in-</p><p>terpretadas como malévolas, que surge no início</p><p>da vida adulta e está presente em vários contex-</p><p>tos, conforme indicado por quatro (ou mais) dos</p><p>seguintes comportamentos:</p><p>62</p><p>A S S E T E M Á S C A R A S</p><p>1. Suspeita, sem embasamento suficiente, de</p><p>estar sendo explorado, maltratado ou enga-</p><p>nado por outros.</p><p>2. Preocupa-se com dúvidas injustificadas</p><p>acerca da lealdade ou da confiabilidade de</p><p>amigos e sócios.</p><p>3. Reluta em confiar nos outros devido a medo</p><p>infundado de que as informações serão usadas</p><p>maldosamente contra si.</p><p>4. Percebe significados ocultos humilhantes</p><p>ou ameaçadores em comentários ou eventos</p><p>benignos.</p><p>5. Guarda rancores de forma persistente (i.e.,</p><p>não perdoa insultos, injúrias ou desprezo).</p><p>6. Percebe ataques a seu caráter ou reputação</p><p>que não são percebidos pelos outros e reage</p><p>com raiva ou contra-ataca rapidamente.</p><p>7. Tem suspeitas recorrentes e injustificadas acer-</p><p>ca da fidelidade do cônjuge ou parceiro sexual.</p><p>B. Não ocorre exclusivamente durante o curso de</p><p>esquizofrenia, transtorno bipolar ou depressivo com</p><p>sintomas psicóticos ou outro transtorno psicótico</p><p>e não é atribuível aos efeitos fisiológicos de outra</p><p>condição médica.</p><p>(Reimpressa, com permissão, de Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition (Copyright © 2013).</p><p>American Psychiatric Association. Todos os direitos reservados.) (Kaplan e Sadock, 2017).</p><p>63</p><p>CAPÍTULO 4</p><p>PERSONALIDADE</p><p>NARCISISTA</p><p>CARACTERÍSTICAS E TRAÇOS DE</p><p>PERSONALIDADE</p><p>Retomando o conceito das etapas do desenvolvi-</p><p>mento da personalidade, sabemos que o narcisis-</p><p>mo é uma etapa do desenvolvimento normal das</p><p>emoções, da constituição do ego e das relações</p><p>com as pessoas. É um composto que integra di-</p><p>versas tendências: a de fazer convergir sobre si as</p><p>satisfações sem levar em conta as exigências</p>