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Re al id ad e B ra si le ir a CNU Bloco 8 - Nível Intermediário Realidade Brasileira Formação do Brasil contemporâneo: Da independência à República .......................... 1 Primeira República: elite agrária e a política da economia cafeeira ............................. 3 O Estado Getulista ........................................................................................................ 12 Democracia e rupturas democráticas na segunda metade do século XX ..................... 15 A redemocratização e a busca pela estabilidade econômica ........................................ 19 História dos negros no Brasil: luta antirracista, conquistas legais e desafios atuais .... 20 História dos povos indígenas do Brasil: luta por direitos e desafios atuais ................... 26 Dinâmica social no Brasil: estratificação, desigualdade e exclusão social ................... 41 Manifestações culturais, movimentos sociais e garantia de diretos das minorias ........ 47 Desenvolvimento econômico, concentração da renda e riqueza .................................. 50 Desenvolvimento sustentável e meio ambiente. ........................................................... 78 Biomas brasileiros: uso racional, conservação e recuperação ..................................... 79 Matriz energética: fontes renováveis e não renováveis ................................................ 89 Mudança climática ......................................................................................................... 90 Transição energética ..................................................................................................... 96 População: estrutura, composição e dinâmica. ............................................................. 98 Desenvolvimento urbano brasileiro: redes urbanas; metropolização; crescimento das cidades e problemas urbanos ....................................................................................... 102 Infraestrutura urbana e segregação socioespacial ....................................................... 103 Desenvolvimento rural brasileiro: estrutura e concentração fundiária; sistemas produ- tivos e relação de trabalho no campo............................................................................ 104 A inserção do Brasil no sistema internacional. ............................................................. 109 Estado Democrático de Direito: a Constituição de 1988 e a afirmação da cidadania ... 124 Exercícios ...................................................................................................................... 126 Gabarito ......................................................................................................................... 134 Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 1 Formação do Brasil contemporâneo: Da independência à República — A Chegada da Família Real ao Brasil Em 1806, Portugal foi afetado pelo Bloqueio Continental da França contra a Inglaterra, que ocorreu graças à impossibilidade das tropas de Napoleão de anexar a Inglaterra por meios militares. Caso não aderisse ao Bloqueio, as tropas de Napoleão invadiriam o território português. Entretanto, Portugal decidiu não seguir esse caminho porque tinha fortes ligações comerciais com a Inglaterra1. Em novembro de 1807, dom João, príncipe regente de Portugal desde 1799 - a rainha dona Maria, sua mãe, sofria de distúrbios mentais -, diante da ameaça de invasão, decidiu transferir a família real e a Corte lusa para a colônia na América, deixando os súditos expostos ao ataque francês. Os ingleses garantiram a proteção da mudança da monarquia para o Brasil. Nobres da Corte e familiares do príncipe recolheram às pressas tudo o que podiam carregar - joias, obras de arte, milhares de livros, móveis, roupas, baixelas de prata, animais domésticos, alimentos, etc. - e zarparam em 29 de novembro rumo ao Rio de Janeiro. Além da família real e dos nobres, viajaram altos funcionários, magistrados, sacerdotes, militares de alta patente, etc. Estima-se que nos 36 navios viajaram entre 4,5 mil e 15 mil pessoas. Parte da esquadra, incluindo o navio ocupado por dom João, atracou em Salvador no dia 22 de janeiro de 1808, seguindo semanas depois para o Rio de Janeiro, onde já se encontrava o restante da frota, e lá chegando em 8 de março de 1808. — Sede do Governo Português Agora que boa parte da elite lusa encontrava-se em terras brasileiras, o desenvolvimento da colônia não poderia continuar cerceado. Como afirma a historiadora Maria Odila Silva Dias, pela primeira vez iria se confi- gurar “nos trópicos portugueses preocupações de uma colônia de povoamento e não apenas de exploração ou de feitoria comercial”. Assim, seis dias depois de desembarcar em Salvador, o príncipe regente dom João de- cretou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, ou seja, às nações com as quais Portugal mantinha relações diplomáticas amigáveis. O Governo de D. João no Brasil Dom João — cuja gestão é conhecida como governo joanino - adotou medidas que afetaram diretamente a vida econômica, política, administrativa e cultural do Brasil. No plano administrativo, dom João procurou repro- duzir na colônia a estrutura burocrática do reino. Foram criados órgãos públicos, como o Conselho de Estado e o Erário Régio (que depois se tornou Ministério da Fazenda), que garantiam o funcionamento burocrático do Estado e proporcionavam emprego para muitos portugueses. Ainda em 1808, foram criados o Banco do Brasil, o Real Hospital Militar e o Jardim Botânico. Dom João autorizou também o funcionamento de tipografias e a publicação de jornais. Com os livros da Biblioteca Real trazidos de Lisboa foi organizada a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Para interligar a capital com as demais regiões da colônia e povoar o interior, o governo doou sesmarias e autorizou o Banco do Brasil a oferecer créditos aos colonos para que pudessem plantar e criar gado. Essa política de povoamento estimulou a imigração. Em 1815, um grupo de 45 colonos oriundo de Macau e Cantão, na China, estabeleceu-se na cidade do Rio de Janeiro. Em 1818, cerca de dois mil suíços fundaram Nova Friburgo, na província do Rio de Janeiro (as capitanias passaram a se chamar províncias a partir de 1815). Na política externa, o governo joanino adotou uma linha de ação franca- mente expansionista, ocupando a Guiana Francesa, em 1809, e anexando a Banda Oriental (atual Uruguai), em 1816. Em 1818, dois anos após a morte da rainha dona Maria, o príncipe regente foi coroado rei com o título de dom João Vl. 1 Azevedo, Gislane. História: passado e presente / Gislane Azevedo, Reinaldo Seriacopi. 1ª ed. São Paulo. Ática. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 2 — A Promoção à Reino Unido Para gerar recursos para a administração, o governo joanino teve de aumentar a carga tributária. O dinheiro dos impostos foi utilizado para cobrir os gastos da Corte, custear as obras de urbanização do Rio de Janeiro e financiar intervenções militares. Essa situação, somada à carestia e ao aumento dos preços, gerou enorme insatisfação da população, que começou a questionar os privilégios concedidos aos portugueses, detentores dos principais cargos burocráticos e dos mais altos postos da Academia Real Militar. Começaram a ocorrer agitações de rua que culminavam em ações violentas da polícia principalmente (mas não exclusivamente) no Rio de Janeiro. A situação em Portugal também era de descontentamento popular. Com a queda de Napoleão em 1815, os portugueses passaram a exigir o retorno imediato de dom João a Por- tugal. Ele, entretanto, assinou um decreto criando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Com isso, o Brasil deixava de ser colônia e ganhava o mesmo status político de Portugal. E o Reino passava a ter dois centros políticos: Lisboa, em Portugal, e Rio de Janeiro, no Brasil, onde dom João exerciao governo. Para muitos historiadores, a elevação do Brasil a Reino Unido foi o marco inicial do processo de emancipação política e administrativa do Brasil. — Revolução Pernambucana Na província de Pernambuco, no início de 1817, o debate de ideias emancipacionistas e republicanas deu origem a um movimento conspiratório, que ficou conhecido como Insurreição Pernambucana ou Revolução de 1817. Inspirados na Revolução Francesa, os líderes redigiram o esboço de uma Constituição que garantia a igual- dade de direitos entre os indivíduos, a liberdade de imprensa e a tolerância religiosa. No entanto, o movimento enfraqueceu-se com as divergências entre os proprietários de escravos e os rebeldes abolicionistas. Em maio, tropas enviadas da Bahia e do Rio de Janeiro cercaram o Recife. Alguns líderes foram executados e muitos outros, encarcera- dos em Salvador. — Revolução do Porto Por volta de 1818, alguns monarquistas liberais da cidade do Porto defendiam a ideia de que o monarca deveria governar obedecendo a uma Constituição. Em agosto de 1820 uma guarnição do Exército do Porto se rebelou e deu início a uma revolução liberal e anti-absolutista conhecida como Revolução do Porto. Rapida- mente, o movimento se espalhou pelas demais cidades portuguesas. Em Lisboa, uma junta provisória assumiu o poder e convocou as Cortes, que não se reuniam desde 1689, para elaborar uma Constituição. A junta exigia também o retorno da família real e da Corte a Portugal e a res- tauração do monopólio comercial com o Brasil. A volta da família real a Portugal Nesse período irromperam no Pará, na Bahia e em Pernambuco várias revoltas apoiando o movimento cons- titucional de Portugal. Em fevereiro de 1821, o rei dom João VI concordou em jurar fidelidade à Constituição que estava ainda para ser elaborada e em convocar eleições para a escolha dos deputados que iriam representar o Brasil nas Cortes de Lisboa. Temendo perder o trono, dom João VI anunciou também seu retorno a Portugal. No dia 26 de abril, a família real e mais quatro mil pessoas (nobres e funcionários) zarparam rumo a Portugal. Em seu lugar, o rei deixou o filho, dom Pedro, que assumiu o poder no Brasil como príncipe regente. As Cortes de Lisboa Após o embarque de dom João VI, foram realizadas eleições para a escolha dos 71 representantes do Brasil nas Cortes de Lisboa. Embora a maior parte dos eleitos fosse a favor da independência do Brasil, apenas 56 viajaram para Lisboa, onde começaram a chegar em agosto de 1821, oito meses depois do início dos trabalhos. Eles enfrentaram uma forte oposição dos parlamentares lusos, que já tinham adotado diversas medidas des- favoráveis ao Brasil com a intenção de reduzir o Brasil à sua antiga condição de colônia. Para os parlamentares lusos, Brasil e Portugal deveriam se submeter a uma mesma autoridade: as Cortes de Lisboa. Ao final de 1821, as Cortes ordenaram que Dom Pedro, príncipe regente do Brasil, retornasse a Portugal. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 3 — A Independência do Brasil Enquanto a determinação das Cortes de Lisboa não chegava, dom Pedro era apoiado, no Brasil, por pes- soas da elite político-econômica, com experiência administrativa, como José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838). Na opinião de José Bonifácio e de outros políticos do período, o Brasil deveria manter-se unido a Portugal, mas com um governo próprio e autônomo. Havia também quem defendesse o rompimento completo com Portugal. Ambas as correntes, contudo, concordavam que dom Pedro deveria resistir às pressões das Cortes de Lis- boa e recursar-se a voltar a Portugal. No final de 1821, José Bonifácio organizou um abaixo-assinado subscrito por oito mil assinaturas, que foi entregue a Dom Pedro, no qual era pedido que o príncipe permanecesse no Brasil. Em 9 de janeiro de 1822, o príncipe anunciou sua decisão de ficar no Brasil. O episódio, conhecido como Dia do Fico, foi o primeiro de uma série de atos que levariam à ruptura definitiva entre Brasil e Portugal. Em maio de 1822, o príncipe regente determinou que todos os decretos vindos das Cortes de Lisboa deve- riam passar por sua aprovação. Em junho, dom Pedro aprovou a convocação de uma Assembleia Constituinte no Brasil. No começo de setembro, despachos vindos de Lisboa desautorizavam a convocação da Assembleia Constituinte e ordenavam o imediato retorno de dom Pedro a Portugal. José Bonifácio enviou os despachos ao príncipe, que se encontrava em São Paulo, aconselhando-o a romper com Portugal, pois já não considerava mais possível uma conciliação. No dia 7 de setembro, o mensageiro alcançou dom Pedro nas proximidades do riacho do Ipiranga. Ao rece- ber os decretos, o príncipe proclamou a independência do Brasil, declarando a ruptura dos laços com Portugal. No dia 12 de outubro, já de volta ao Rio de Janeiro, foi aclamado com grande pompa imperador constitucional com o título de dom Pedro I. Guerras de Independência Proclamada a independência, teve início a luta por sua consolidação, que envolveria conflitos e derrama- mento de sangue em diversas regiões do novo país. Em fevereiro de 1822, ainda antes da declaração de independência, houve na Bahia um longo conflito ar- mado entre as forças brasileiras que lutavam pela independência e queriam manter um brasileiro no cargo de governador - no lugar de um general português. A guerra entre as duas facções se prolongaria até 2 de julho de 1823, com destaque para a figura de Maria Quitéria de Jesus Medeiros, que se alistou ao lado das tropas brasileiras. No Maranhão, no Ceará, no Pará, na Província Cisplatina e no Piauí houve revoltas de portugueses, que viviam nessas regiões, contra a independência. Para derrotar os revoltosos, dom Pedro recrutou mercenários estrangeiros. A vitória das tropas brasileiras nessas regiões, além da obtida na Bahia, impediu a fragmentação do Brasil em diversas províncias autônomas e garantiu a unidade territorial da jovem nação. Primeira República: elite agrária e a política da economia cafeeira — Consolidação da República Em 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República. Apesar das divergên- cias que existiam sobre o tipo de república a ser construída no país, as elites que dominavam a política em São Paulo, Minas Gerais e no Rio Grande do Sul defendiam o federalismo, em oposição à centralização imperial2. Paulistas e mineiros defendiam propostas inspiradas no liberalismo e tinham, sobretudo os paulistas, o mo- delo estadunidense como referência, em relação à autonomia dos estados e às liberdades individuais. No Rio Grande do Sul, havia um importante grupo de políticos liderado por Júlio de Castilhos. Esse grupo defendia, com base nos ideais positivistas, a instauração de uma ditadura republicana que, ao garantir a ordem, levaria o país ao progresso. Já no Rio de Janeiro, a capital da República, existia um grupo de republicanos radicais, chamados de jacobinos. Eram civis e militares, alguns deles positivistas, que defendiam de maneira exaltada o regime republicano e opunham-se de maneira contundente à volta da monarquia. 2 História. Ensino Médio. Ronaldo Vainfas [et al.] 3ª edição. São Paulo. Saraiva. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 4 Havia também os monarquistas, que desejavam o retorno do antigo sistema. Entre os militares, predomina- vam os republicanos. E, mesmo entre estes, havia divergências: enquanto alguns oficiais seguiam a liderança de Deodoro, outros preferiam a de Floriano Peixoto. Mas havia também os positivistas, que tinham Benjamin Constant como líder, e alguns monarquistas, sobretudo na Marinha, que tinham fortes ligações com o Império. Nesse emaranhado de projetos políticos, no início de 1890 o Governo Provisório convocou uma Assembleia Nacional Constituinte para institucionalizar o novo regime e elaborar o conjunto de leis que o regeriam. Assim, em 24 defevereiro de 1891, foi promulgada a primeira Constituição republicana do país, a Constitui- ção dos Estados Unidos do Brasil. Inspirada no modelo vigente nos Estados Unidos, ela era liberal e federativa, concedendo aos estados prerrogativas de constituir forças militares e estabelecer impostos. Além disso, ela instaurou o presidencialismo como regime político, com a separação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e oficializou a separação entre Estado e Igreja. Os deputados constituintes também elegeram o marechal Deodoro da Fonseca para a presidência e o marechal Floriano Peixoto para a vice-pre- sidência da República. Mas o novo regime republicano enfrentaria crises muito sérias até se consolidar defini- tivamente. — República de Espadas Na área econômica, comandada por Rui Barbosa, então ministro da Fazenda, a República começou com grande euforia. Com o objetivo de estimular o crescimento econômico e a industrialização do país, o governo autorizou que os bancos concedessem crédito a qualquer cidadão que desejasse abrir uma empresa. E, para cobrir esses empréstimos, permitiu a impressão de uma imensa quantidade de papel-moeda. Como a moeda brasileira tinha como referência a libra inglesa, as emissões de dinheiro sem lastro (sem garantia em ouro) provocaram o aumento acelerado da inflação. Muitos dos empréstimos concedidos foram usados para abrir empresas que existiam apenas no papel, mas cujas ações, ainda assim, eram negociadas na Bolsa de Valores. Como resultado, muitos investidores perderam seu dinheiro e a inflação aumentou, atingindo toda a sociedade brasileira. Essa medida, que visava estimular a economia, mas resultou em desvalorização da moeda e especulação financeira, recebeu o nome de Encilhamento. Na área política, assistia-se a graves conflitos envolvendo o presidente e os militares que o apoiavam, de um lado, e políticos liberais e a imprensa, do outro. Oito meses após ser eleito, em novembro de 1891, Deodoro da Fonseca determinou o fechamento do Congresso Nacional e decretou estado de sítio no país. Os oficiais que seguiam a liderança de Floriano Peixoto não apoiaram o golpe de Estado; assim como a Marinha, que consi- derou autoritária a atitude do presidente, e diversas lideranças civis. Sem apoio político, o presidente renunciou no dia 23. Nesse mesmo dia, Floriano Peixoto, seu vice, assumiu a presidência da República. A posse do novo presidente foi muito questionada. De acordo com a Constituição, o vice assumiria somente se o presidente houvesse cumprido metade de seu mandato, ou seja, dois anos. Caso contrário, ela previa a realização de uma nova eleição. Mas Floriano estava decidido a permanecer no poder, com o apoio dos floria- nistas, que alegavam que o dispositivo constitucional só valeria para o próximo mandato presidencial. Treze generais do Exército contestaram sua posse e, por meio de um manifesto, exigiram eleições presiden- ciais. Floriano ignorou o protesto e mandou prender os generais. Receosas com a instabilidade da República, as elites políticas de São Paulo, representadas pelo Partido Republicano Paulista (PRP), apoiaram o novo pre- sidente. Floriano, por sua vez, percebeu que o suporte do PRP era fundamental. Ele também contou com o apoio de importantes setores do Exército e da população do Rio de Janeiro. Oficiais da Marinha de Guerra (Armada) tornaram-se a sua principal oposição. Em 6 de setembro de 1893, po- sicionaram os navios de guerra na baía de Guanabara, apontaram os canhões para o Rio de Janeiro e Niterói e dispararam tiros contra as duas cidades - era o início da Revolta da Armada. Em março do ano seguinte a situação tornou-se insustentável nos navios - não havia munição, alimentos, água nem o apoio da população. Parte dos revoltosos pediu asilo político a Portugal, a outra foi para o Rio Grande do Sul participar de um conflito que eclodira um ano antes: a Revolução Federalista. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 5 — Revolução Federalista A instalação da República alterou a política do Rio Grande do Sul. Com ela, o Partido Republicano Rio- -Grandense alcançara o poder. Apoiada por Floriano Peixoto e liderada por Júlio de Castilhos, a agremiação de orientação positivista tornou-se dominante no estado em que passou a governar de maneira autoritária. A principal força de oposição ao Partido Republicano era o Partido Federalista, liderado por Gaspar Silveira Martins, que defendia o parlamentarismo e a predominância da União Federativa sobre o poder estadual - en- quanto os republicanos pregavam o sistema presidencialista e a autonomia dos estados. Diante da violência e das fraudes eleitorais, os federalistas uniram-se a outras forças de oposição, dando origem a uma sangrenta guerra civil, que ficou conhecida como Revolução Federalista (1893-1895). Os confli- tos não se limitaram ao estado do Rio Grande do Sul, estendendo-se aos de Santa Catarina e do Paraná, e só terminaram em junho de 1895 com a vitória dos republicanos sobre os federalistas. A Revolução Federalista causou muito sofrimento ao sul do país. Somente no Rio Grande do Sul, que contava com cerca de 900 mil habitantes, morreram de 10 a 12 mil pessoas, muitas delas degoladas. Passados cinco anos da proclamação da República, chegava ao fim o governo de Floriano Peixoto. No dia 15 de novembro de 1894, o marechal passou a faixa presidencial ao paulista Prudente de Morais, conferindo novos ares à República. Pela primeira vez, um civil ligado às elites agrárias, em especial aos cafeicultores, assumia o poder. Com a eleição de Prudente de Morais, encerrava-se o período conhecido como República da Espada. — Modelo Político A Constituição de 1891 estabeleceu eleições diretas para todos os cargos dos poderes Legislativo e Exe- cutivo. Também determinou que, excetuando os mendigos, os analfabetos, os praças de pré, os religiosos, as mulheres e os menores de 21 anos, todos os cidadãos brasileiros eram eleitores e elegíveis. Apesar de suprimir a exigência de renda mínima constante da Constituição imperial, a primeira Constituição da República também excluía a maioria da população brasileira do direito de votar. O voto foi decretado aberto, mas, como não havia Justiça Eleitoral, na prática as eleições eram caracterizadas pela fraude. A organização da eleição dos municípios, bem como a redação da ata da seção eleitoral, ficava a cargo dos chefes políticos locais, os chamados coronéis. Isso lhes permitia registrar o que bem quisessem nas atas - daí o nome “eleições a bico de pena” - e também controlar as escolhas dos eleitores, por meio da violência ou do suborno. Era comum, por exemplo, que nas atas das seções eleitorais constassem votos de eleitores já mortos para o candidato dos coronéis. Ou então que os coronéis reunissem os eleitores em um determinado lugar para receber as cédulas eleito- rais já preenchidas. Esses locais eram chamados de “curral eleitoral”. De modo geral, os eleitores votavam no candidato do coronel por vários motivos: obediência, lealdade ou gratidão, ou em busca de algum favor, como dinheiro, serviços médicos e até mesmo proteção. Afinal, sem a garantia dos direitos civis e políticos, grande parte da população rural - vale lembrar que a imensa maioria dos brasileiros então vivia no campo - buscava a proteção de um coronel e acabava se inserindo em uma rede de favores e proteção pessoal. — O Poder dos Coronéis Também conhecida como coronelismo, a chamada “República dos coronéis” era um sistema político que resultou da Constituição de 1891 e marcou a Primeira República. Se no Império os presidentes de estado (hoje denominados governadores) eram nomeados pelo poder central, com a República eles passaram a ser eleitos pelos coronéis. Nos municípios, eram os coronéis que, por meio da violência e da fraude eleitoral, controlavam os votos que elegiam o presidente de estado, e também os deputados estaduais e federais, os senadores eaté mesmo o presidente da República. Por outro lado, eles dependiam do governante estadual para nomear parentes e protegidos a cargos públi- cos ou liberar verbas para obras nos municípios. Assim, criava-se uma ampla rede de alianças e favores, em que coronéis, presidentes de estado, parlamentares e o próprio presidente da República estavam atados por fortes laços de interesses. Esse esquema se consolidou na presidência de Campos Sanes (1898-1902), ideali- zador do que veio a ser chamado de política dos governadores Ou dos esta- dos. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 6 Nela, o governo federal apoiava as oligarquias dominantes nos estados, que em troca sustentavam politi- camente o presidente da República no Congresso Nacional, controlando a eleição de senadores e deputados federais - e evitando, dessa forma, que os candidatos da oposição se elegessem. Ainda assim, caso isso acon- tecesse, a Comissão de Verificação de Poderes da Câmara Federal, responsável por aprovar e confirmar a vitória dos candidatos eleitos, impugnava a posse, sob a alegação de fraude. Apesar das fraudes eleitorais, as eleições periódicas foram importantes para a configuração do sistema político brasileiro. Primeiro, porque exigiam o mínimo de competição no jogo eleitoral, permitindo a renovação das elites dirigentes. Segundo, porque, mesmo com o controle do voto, havia alguma mobilização do eleitora- do - com o qual as elites, mesmo dispondo de grande poder político, precisavam manter alguma interlocução. Política do Café com Leite A política dos governadores inaugurada por Campos Salles fundamentou a chamada República Oligárqui- ca. Ela reforçou os poderes das oligarquias - sobretudo as dos estados de São Paulo e Minas Gerais. Como o número de representantes por estado no Congresso era proporcional à sua população, São Paulo e Minas Gerais, que eram os estados mais populosos e ricos - da federação, elegiam as maiores bancadas na Câmara dos Deputados. Vale lembrar que, à época, os partidos políticos eram estaduais e proliferavam siglas como Partido Repu- blicano Mineiro, Partido Republicano Paulista, Partido Republicano Rio-Grandense etc. Expressão simbólica da aliança entre o Partido Republicano Paulista e o Partido Republicano Mineiro foi a chamada política do café com leite, que funcionava no momento da escolha do sucessor presidencial. As oligarquias dos dois estados escolhiam um nome comum para presidente, ora filiado ao partido paulista, ora ao mineiro. A cada sucessão presidencial, a aliança entre Minas Gerais e São Paulo precisava ser renova- da, muitas vezes com conflitos e interesses divergentes. Por serem fortes em termos políticos e econômicos, formaram-se duas oligarquias dominantes no país: a de São Paulo e a de Minas Gerais. Embora em posição inferior à aliança entre paulistas e mineiros, destacavam-se também a do Rio Grande do Sul, a da Bahia e a do estado do Rio de Janeiro. Houve eleições em que os vitoriosos não estavam comprometidos com a política do café com leite, caso de Hermes da Fonseca em 1910 e de Epitácio Pessoa em 1919. O importante é considerar que as oligarquias dos estados que se encontravam fora da política do café com leite passaram a questionar o sistema político na década de 1920. — Aspectos Econômicos Por volta de 1830, o café tornou-se o principal produto de exportação do Brasil, superando o açúcar. Com a expansão das lavouras cafeeiras para o Oeste Paulista, a partir da década de 1870, a cafeicultura estimulou a economia do país, cujo dinamismo atraiu investidores estrangeiros, sobretudo britânicos. Ela propiciou a construção e o reaparelhamento de ferrovias, estradas, portos e o surgimento de bancos, casas de câmbio e de exportação. Também foram criados estaleiros, empresas de navegação e moinhos. O café mudou o país, inclusive incentivando a sua industrialização. Surgiram, por exemplo, fábricas de tecidos, chapéus, calçados, velas, alimentos, utensílios domésticos etc. Tratava-se de um tipo de indústria, a de bens de consumo não duráveis, que não exigia grande tecnologia ou altos investimentos de capital, mas que empregava grande quantidade de mão de obra. A riqueza gerada pelas exportações de café possibilitou, ainda, o aumento das importações e a expansão das cidades, com a instalação de serviços públicos (como iluminação a gás e sistema de transporte urbano), novas práticas de diversão e até mesmo maior circulação de jornais e livros. A cidade que mais cresceu foi a de São Paulo, principalmente a partir de 1886, com a chegada de milhares de imigrantes. Crise do Café Na década de 1920, o café, que era então responsável por mais da metade das exportações brasileiras, sus- tentava a economia do país. Por consequência, a oligarquia paulista tornara-se dominante na política brasileira - dos 12 presidentes eleitos entre 1894 e 1930, seis eram filiados ao Partido Republicano Paulista. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 7 A crescente produção cafeeira, contudo, acabou provocando graves problemas. O consumo do café brasi- leiro, que nesse período atendia a 70% da demanda mundial, estabilizou-se, mas os fazendeiros continuaram expandindo suas plantações. Com uma produção maior do que a capacidade de consumo, os preços interna- cionais caíram, causando prejuízos e gerando dívidas. A primeira crise de superprodução ocorreu em 1893. Ao assumir a presidência em 1894, Prudente de Morais teve de lidar com grave crise econômica. Campos Salles, que o sucedeu na presidência em 1898, fez um acor- do com os credores internacionais conhecido como funding loan. Pelo acordo, que transformou todas as dívi- das brasileiras em uma única, cujo credor era a casa bancária britânica dos Rothschild, o Brasil recebeu como empréstimo 10 milhões de libras esterlinas. Além de oferecer as rendas da alfândega do Rio de Janeiro como garantia, o governo se comprometeu a realizar uma política económica deflacionária, retirando papel-moeda do mercado, o que gerou recessão, falências e desemprego e não resolveu os problemas da superprodução de café e da queda dos preços no mercado internacional. Para evitar maiores prejuízos, representantes das oligarquias cafeeiras dos estados de São Paulo, Minas Gerais e do Rio de Janeiro reuniram-se na cidade paulista de Taubaté e elaboraram, em 1906, um plano para a defesa do produto, que, a princípio, não contou com o apoio do governo federal. Pelo Convénio de Taubaté - como ficou conhecido esse encontro - estabeleceu-se a política de valorização do café, pela qual os governos dos estados conveniados recorreriam a empréstimos externos para comprar e estocar o excedente da produção de café, até que seu preço se estabilizasse no mercado internacional, de modo a garantir o lucro dos cafeicultores. Para o pagamento dos juros da dívida, seria cobrado um imposto sobre as exportações de café. Dois anos depois, na presidência de Afonso Pena, o governo federal deu garantias aos empréstimos. A po- lítica de valorização do café foi benéfica apenas para os cafeicultores, em especial os paulistas, em detrimento dos produtores de açúcar, algodão, charque, cacau etc. Além de acentuar as desigualdades regionais, grande parte dos custos dessa política acabou recaindo sobre a sociedade brasileira, que teve de arcar com os prejuí- zos. Economia da Borracha No começo da República, outro importante produto de exportação era a borracha da Amazônia, que alcançou seu auge entre 1890 e 1910. Em meados do século XIX, desenvolveu-se o processo de vulcanização da borracha, por meio do qual ela se tornava endurecida, porém flexível, perfeita para ser usada em instrumentos cirúrgicos e de laboratório. O sucesso do produto aconteceu mesmo ao ser empregado na fabricação de pneus tanto de bicicletas como de automóveis. Em 1852, o Brasil exportava 1 600 toneladas de borracha (2,3% das exportações nacionais).Em 1900, já ultrapassava os 24 milhões de toneladas, o que equivalia a quase 30% das exportações. Além de empregar cerca de 1 10 mil pessoas que trabalhavam nos seringais, a extração do látex na região Norte fez com que as cidades de Belém e Manaus passassem por grandes transformações: expansão urbana, instalação de serviços (iluminação pública, bondes elétricos, serviços de telefonia e de distribuição de água). A partir de 1910, contudo, a entrada da borracha de origem asiática no mercado internacional provocou um drástico declínio na produção amazónica. Extraída em colônias inglesas e holandesas, a borracha asiática tinha maior produtividade, melhor qualidade e menor preço. — Disputas por Território Os primeiros governos republicanos enfrentaram problemas de disputas territoriais com os vizinhos latino- -americanos. O primeiro deles foi sobre a região oeste dos atuais estados de Santa Catarina e Paraná. que era reclamada pelos argentinos. A questão foi resolvida pela arbitragem internacional dos EUA em 1895, confirmando a posse brasileira. Outra pendência foi com a França, sobre a demarcação das fronteiras do Brasil com a Guiana Francesa. Com arbitragem internacional do governo suíço, o Brasil venceu a disputa em 1900, impondo sua soberania sobre as terras que hoje integram o estado do Amapá. No ano seguinte, o Brasil entrou em disputa com a Grã-Bretanha sobre os limites territoriais entre a Guiana Britânica (ou Inglesa) e o norte do então estado do Amazonas - que hoje corresponde ao estado de Roraima. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 8 O rei da Itália. Vítor Emanuel II, foi convocado como árbitro internacional, e em 1904 ele decidiu a favor dos britânicos. Desse modo, o Brasil perdeu parte do território conhecido como Pirara, e a Grã-Bretanha obteve acesso à bacia Amazônica por meio de alguns de seus afluentes. Outra disputa, bem mais complexa. foi travada em torno da região onde hoje se localiza o Acre. que então pertencia à Bolívia e ao Peru. Muitos nordestinos, em particular cearenses, que sofriam com a seca. haviam se estabelecido ali para explorar o látex, gerando conflitos armados com tropas bolivianas. Os brasileiros chega- ram a declarar a independência política do Acre. Em 1903, a diplomacia brasileira conseguiu uma vitória com o Tratado de Petrópolis, que incorporava o Acre ao território brasileiro em troca de indenizações à Bolívia e ao Peru. Cabe destacar a relevante atuação de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão do Rio Branco. respon- sável pelas relações internacionais do Brasil entre 1902 e 1912. Ele não só esteve à frente das negociações que envolviam disputas territoriais do país como fez do Ministério das Relações Exteriores uma instituição pro- fissionalizada e aproximou o Brasil dos EUA. — Movimentos e Revoltas Revolta da Vacina Além de modernizar a cidade, era necessário erradicar as doenças epidêmicas da capital da República. Com base nas então recentes descobertas sobre os microrganismos e a capacidade de mosquitos, moscas e pulgas transmitirem doenças, o médico sanitarista Oswaldo Cruz, a quem coube essa tarefa, estava decidido a erradicar a febre amarela, com o combate aos mosquitos, a varíola, com a vacinação, e a peste bubónica, com a caça aos ratos, cujas pulgas transmitiam a doença. Em junho de 1904, Rodrigues Alves enviou um projeto de lei ao Congresso que propunha a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. Havia grande insatisfação popular contra as reformas urbanas do prefeito Pereira Passos. Mas a obrigatoriedade de introduzir líquidos desconhecidos no corpo, imposta de maneira autoritária pelo governo e sem esclarecimentos à população, que à época desconhecia os benefícios da vacinação, gerou forte resistência. Havia também razões morais contra a vacinação obrigatória. À época, os homens não admitiam que, em sua ausência, suas residências fossem invadidas por estranhos que tocassem no corpo de suas esposas e filhas para aplicar vacinas. Como a maioria das mulheres partilhava desses mesmos valores, quando a lei da vacina- ção obrigatória foi publicada nos jornais, estourou uma revolta no Rio de Janeiro. Inicialmente, militares tentaram depor Rodrigues Alves, mas logo foram dominados por tropas fiéis ao gover- no. A maior reação, entretanto, ficou por conta da população mais pobre. Entre os dias 10 e 13 de novembro de 1904, a cidade foi tomada por manifestantes populares: as estreitas ruas do centro foram bloqueadas por barricadas e os policiais, atacados com pedradas. A repressão policial foi violenta. Qualquer suspeito de haver participado da revolta foi jogado em porões de navios e mandado para o Acre. A vacinação obrigatória acabou sendo suspensa, e, quatro anos depois, uma epidemia de varíola matou mais de 6 mil pessoas no Rio de Janeiro. Foram necessários muitos anos para que os governantes reconhecessem que nada conseguiam com Imposições e práticas autoritárias sobre a popula- ção. Nos anos 1960, com campanhas de esclarecimento, a vacinação em massa tornou-se comum no país. Em 1971, ocorreu o último caso de varíola no Brasil. Revolta da Chibata Os marujos da Marinha de Guerra brasileira viviam sob péssimas condições de trabalho: soldos miseráveis, má alimentação, trabalhos excessivos e opressão da oficialidade. Mas os castigos físicos aos quais eram sub- metidos, principalmente com o uso da chibata, eram ainda mais graves. Em 22 de novembro de 1910, marinheiros do encouraçado Minas Gerais se revoltaram contra a punição de um colega condenado a receber 250 chibatadas. Liderados por João Cândido, eles tomaram a embarcação, prenderam e mataram alguns oficiais e apontaram os canhões para a cidade do Rio de Janeiro. Os marujos do encouraçado São Paulo e de outras seis embarcações, também ancoradas na baía de Guanabara, aderiram à revolta. Os revoltosos exigiam melhores condições de trabalho e o fim dos castigos corporais. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 9 O Congresso negociou com os revoltosos e, somente após sua rendição, concedeu-lhes anistia. Mas o am- biente na Armada continuou tenso. Em 4 de dezembro, diante de novas punições, outra revolta eclodiu na ilha das Cobras. Os oficiais reagiram de maneira dura e bombardearam a ilha. Depois, prenderam 600 marinheiros, inclusive os que participaram da primeira revolta, entre eles João Cân- dido, apelidado de “almirante negro”. Jogados em prisões solitárias por vários dias, muitos deles morreram. Os demais foram detidos em porões de navios e mandados para a Amazónia - ou executados durante a viagem. Revolta em Juazeiro do Norte Em 1889, no povoado de Juazeiro do Norte, no sul do estado do Ceará, durante uma missa celebrada pelo padre Cícero Romão Batista, uma beata teria sangrado pela boca logo após receber a hóstia. A notícia do su- posto milagre - da hóstia que teria se transformado em sangue - espalhou-se, aumentando o prestígio do padre, que passou a ser idolatrado na região. Além das funções de padre, ele desempenhava as de juiz e conselheiro, ensinava práticas de higiene, acolhia doentes e criminosos arrependidos. Seu prestígio era tamanho que a alta hierarquia da Igreja chegou a ficar incomodada e temerosa de que essa veneração estimulasse práticas religiosas fora de seu controle - o que, de fato, aconteceu. Em 1892, o padre foi impedido de pregar e ouvir em confissão. Dois anos depois, a Congregação para a Doutrina da Fé decretou a falsidade do milagre em Juazeiro do Norte, provocando a reação da população. Movimentos de solidariedade se formaram e irmandades se mobilizaram a favor do padre Cícero. Imensas romarias passaram a se dirigir à cidade. Beatas diziam ter visões que anunciavam a proximidade do fim do mundo e o retorno de Cristo. Surgia um movimento que desafiava as autoridades eclesiásticas da região. Em 1911, inserido na política oligárquica local, padre Cícerofoi eleito prefeito de Juazeiro do Norte e se tor- nou o principal articulador de um pacto entre os coronéis da região do vale do Cariri. Padre Cícero lutou em vão até o ano de sua morte, 1934, para provar que o milagre em Juazeiro do Norte havia ocorrido. Apenas em 2016, a Igreja Católica se reconciliou com o padre, suspendendo todas as punições que havia lhe imposto. Guerra de Canudos Antônio Vicente Mendes Maciel andava pelos sertões nordestinos pregando a fé católica. Tornou-se um beato conhecido como Antônio Conselheiro e passou a ser seguido por muitas pessoas. Em 1877, fixou-se com centenas delas no arraial de Canudos, um lugarejo abandonado no interior da Bahia, às margens do rio Vaza- -Barris, ao qual renomearam Belo Monte. A comunidade cresceu rapidamente. Famílias, que fugiam da explo- ração dos latifundiários da região ou abandonavam suas terras de origem devido à seca, foram para Canudos. Também foi o caso de jagunços, que serviam aos coronéis, mas haviam caído em desgraça. Estima-se que em poucos anos o arraial recebeu entre 20 e 30 mil pessoas pobres, em sua grande maioria, mas que em Ca- nudos tinham ao menos uma casa para morar e terra para plantar. Canudos tinha uma rígida organização social. No comando estava António Conselheiro, também chamado de chefe, pastor ou pai. Doze homens, denominados apóstolos, assumiram as chefias dos setores de guerra, economia, vida civil, vida religiosa etc. O arraial contava com uma guarda especial formada pelos jagunços, chamada Companhia do Bom Jesus ou Guarda Católica. Havia também comerciantes. Em 1896, um incidente alterou a paz do arraial. Comerciantes de Juazeiro não entregaram madeiras com- pradas por Conselheiro para a construção de uma nova igreja. Os jagunços se vingaram saqueando a cidade. Em resposta, o governador baiano enviou duas expedições punitivas a Canudos, ambas derrotadas pelos conselheiristas. Denúncias de que Canudos e António Conselheiro faziam parte de um amplo movimento que visava res- taurar a monarquia no país chegavam nas capitais dos estados. A imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, sobretudo, insistia na existência de um complô monarquista. Na capital da República, estudantes, militares, escritores, jornalistas, entre outros grupos sociais, responsabilizavam o presidente Prudente de Morais por não reprimir Canudos. Nesse contexto foi então organizada uma terceira expedição, chefiada pelo coronel Moreira César, veterano na luta contra os federalistas gaúchos. Formada por 1.300 homens do Exército brasileiro e seis canhões, ela foi derrotada pelos conselheiristas, que mataram o coronel. O fato tomou proporções nacionais, e Canudos passou Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 10 a ser visto como uma real ameaça à República. Formou-se, assim, uma quarta expedição, que contava com 10 mil homens. Em outubro de 1897, o arraial foi destruído e sua população, massacrada - mesmo aqueles que se renderam foram degolados. Guerra do Contestado Em 1911, um pregador itinerante de nome José Maria apareceu na região central de Santa Catarina. Ele afirmava que tinha sido enviado pelo monge João Maria, morto alguns anos antes. Na região Sul do país, mon- ge tinha o mesmo significado que beato no Nordeste. João Maria, quando vivo, fora contra a instauração da República e acreditava que somente a lei da monarquia era verdadeira. Apresentando-se como um continuador de suas ideias, José Maria organizou uma comunidade formada por milhares de homens e mulheres em Ta- quaruçu, nas proximidades do município catarinense de Curitibanos. Armados e sob a liderança de José Maria, eles criticavam a República. Muitos homens e mulheres que participavam desse movimento conhecido como Contestado, por ter ocorrido em uma área disputada entre os estados do Paraná e de Santa Catarina, eram pequenos proprietários expulsos de suas terras devido à construção de uma ferrovia, a Brazil Railway Company, que ligaria os estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. A empresa pertencia a um dos homens mais ricos do mundo, o estadunidense Percival Farquhar. Como parte do pagamento à empresa construtora, o governo estadual doou 15 quilômetros de terras de cada lado da linha, prejudicando os camponeses que ali viviam. A situação era agravada pela presença de ma- deireiras. Atacados pela polícia, em 1912, deslocaram-se para Palmas, no Paraná. O governo do estado, que considerou se tratar de uma invasão dos catarinenses, atacou a comunidade e matou José Maria, dispersando a multidão de homens e mulheres que o seguia. Um ano depois, cerca de 12 mil fiéis se reagruparam em Taquaruçu. A liderança do movimento ficou a cargo de um conselho de chefes, que difundiu a crença de que José Maria regressaria à frente de um exército encantado para vencer as forças do mal e implantar o paraíso na Terra. Em fins de 1916, forças do Exército e das polícias estaduais, com o apoio de aviões, reprimiram o movimento, matando milhares de rebeldes. — O Modernismo No Brasil, como em grande parte do mundo ocidental, a vida cultural era fortemente influenciada pelos euro- peus. No vestuário, na culinária, na literatura, na pintura, no teatro e em outras manifestações artístico-culturais, adorava-se, sobretudo, o padrão francês como modelo. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, isso começou a mudar. A guerra resultou no declínio eco- nômico e político dos países envolvidos no conflito e suscitou, ao menos nas Américas, a dúvida quanto à supe- rioridade da cultura europeia. Nos anos 1920, em diversas cidades do Brasil, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, surgiram jornais, revistas e manifestos publicados por artistas e intelectuais que, preocupados com a modernização do país, discutiam o que era ser brasileiro. Recusavam-se a copiar padrões europeus e propunham uma nova maneira de pensar e definir o Brasil, valorizando a memória nacional e a pesquisa das raízes culturais dos brasileiros. Era o movimento modernista, que se manifestou com grande impacto em São Paulo. Entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, o Teatro Municipal de São Paulo abrigou a Semana de Arte Moderna. Em três noites de apre- sentação, artistas e intelectuais exibiram suas obras: houve música, poesia, pintura, escultura, palestras e debates. Nas artes plásticas, destacaram-se Anita Malfatti, Di Cavalcanti - responsável pela arte da capa do catálogo da exposição - e Lasar Segall (pintura); Vitor Brecheret (escultura); e Oswaldo Goeldi (gravura). Oswald de Andrade apresentou as revistas Papel e Tinta e Pirralho, leu textos e poemas. Mário de Andrade, Ronald de Carvalho e Graça Aranha também leram seus trabalhos. O maestro Villa-Lobos impressionou o público quando, na orquestra que regia, incluiu instrumentos de congada, tambores e uma folha de zinco. O público vaiou. Acostumada ao padrão europeu de música, a audiência rejeitava os instrumentos musicais das culturas africanas e indígenas. Para os modernistas, era preciso mostrar às elites que essas culturas também eram formadoras da cultura nacional. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 11 — O Tenentismo Enquanto isso, setores da média oficialidade do Exército - como tenentes e capitães - atacavam o governo com armas, em um movimento conhecido como tenentismo. Alguns criticavam o liberalismo e defendiam um Estado forte e centralizado, expressando um nacionalismo não muito bem definido. Exigiam a moralização da política e das eleições e defendiam a adoção do voto secreto. Muitos se mostravam ressentidos com os políticos, pelo papel secundário do Exército na política nacional. A primeira revolta tenentista ocorreu no Rio de Janeiro, em 1922. Após os rebelados tomarem o Forte de Copacabana, canhões foram disparados contra alvos considerados estratégicos. O objetivo era impedir posse do presidente eleito Arthur Bernardes e, no limite, derrubar ogoverno. O presidente Epitácio Pessoa, com o apoio do Exército e da Marinha, ordenou o bombardeamento do for- te. Muitos desistiram da luta, mas 17 deles decidiram resistir. Com fuzis nas mãos, marcharam pela avenida Atlântica. Um civil se juntou a eles. Ao final, sobraram apenas os militares Siqueira Campos e Eduardo Gomes. A rebelião ficou conhecida como a Revolta dos 18 do Forte. Em 1924, eclodiu outra revolta tenentista, dessa vez em São Paulo. Os revoltosos tomaram o poder na ca- pital paulista. O objetivo era incentivar revoltas todo o país até a derrubada do presidente Arthur Bernardes. A reação do governo federal foi bombardear a cidade. Acuados, os revoltosos resolveram marchar para Foz do Iguaçu. A Coluna Prestes Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, o jovem capitão Luís Carlos Prestes liderava uma coluna militar que, partindo de Santo Ângelo, marchava ao encontro dos rebelados paulistas em Foz do Iguaçu. Quando se encon- traram, em abril de 1925, formaram a Coluna Prestes-Miguel Costa e partiram em direção ao interior do país, para mobilizar a população contra o governo e as oligarquias. Com cerca de 1500 homens, atravessaram 13 estados. Perseguido pelo Exército, Prestes, com táticas mi- litares inteligentes, impôs várias derrotas às tropas governistas - que nunca o derrotaram. Após marcharem 25 mil quilômetros, cansados e sem perspectivas, em 1927 os soldados da coluna entraram no território boliviano, onde conseguiram asilo político. Por sua luta e capacidade de comando, Luís Carlos Prestes passou a ser con- siderado um herói e conhecido como “Cavaleiro da Esperança “. — A Revolução de 1930 No início da década de 1920, o sistema político da Primeira República começava a apresentar sinais de es- gotamento. A realização da Semana de Arte Moderna, a fundação do Partido Comunista do Brasil e a eclosão da Revolta dos 18 do Forte eram indícios desse esgotamento. A própria sucessão presidencial, também no ano de 1922, foi marcada por uma forte disputa entre os grupos políticos estaduais. Paulistas e mineiros haviam concordado em apoiar o mineiro Arthur Bernardes. Mas as lideranças políticas do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, da Bahia e de Pernambuco optaram por lançar Nilo Peçanha como candidato. O movimento, conhecido como Reação Republicana, não propunha romper com o sistema oligár- quico, mas abrir espaço para os grupos dominantes de outros estados, desafiando o domínio de paulistas e mineiros. No entanto, os resultados das eleições eram previsíveis e Arthur Bernardes saiu vitorioso. Os líderes da Reação Republicana não aceitaram a derrota e apelaram para os militares - o que fez eclodir a revolta tenentista no Forte de Copacabana, em 5 de julho de 1922. Arthur Bernardes governou sob estado de sítio, perseguiu o movimento operário e atuou de maneira bastante impopular nas cidades. Em 1926, dissiden- tes do PRP fundaram o Partido Democrático (PD), em São Paulo. O novo partido defendia a adoção do voto secreto e obrigatório, a criação da Justiça Eleitoral e a independência dos três pode O sucessor de Arthur Bernardes, Washington Luís, suspendeu o estado de sítio e as perseguições ao movi- mento sindical. No entanto, não concedeu a anistia política aos tenentes, como exigiam as oposições. Em 1929, começaram as articulações para a nova sucessão presidencial. O presidente Washington Luís, do Partido Re- publicano Paulista, indicou para sucedê-lo o presidente do estado de São Paulo, Júlio Prestes. Inconformadas, as oligarquias mineiras se aliaram aos gaúchos e aos paraibanos, lançando o nome do gaúcho Getúlio Vargas para a presidência e do paraibano João Pessoa para a vice-presidência. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 12 O Partido Democrático, de São Paulo, apoiou a candidatura de Vargas. Os dissidentes então formaram a Aliança Liberal, cuja plataforma política defendia o voto secreto, a criação de uma Justiça Eleitoral, a mora- lização da prática política, a anistia para os militares revoltosos dos anos 1920 e o estabelecimento de leis trabalhistas. Nas eleições ocorridas em março de 1930, Júlio Prestes venceu, mas os políticos da Aliança Liberal não aceitaram a derrota, alegando fraudes eleitorais. Mineiros e gaúchos conseguiram o apoio dos tenentes na luta contra o governo. No exilio argentino, Luís Carlos Prestes tinha aderido ao comunismo e recusou-se a participar das conversações. A crise eclodiu com o assassinato de João Pessoa, em julho de 1930. Apesar de se tratar de um crime que misturava razões políticas locais e passionais, os políticos da Aliança Liberal transformaram o episódio em questão nacional e deflagraram uma revolução. Iniciada em 3 de outubro de 1930, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, ela se alastrou rapidamente pelo Nordeste. Diante da possibilidade de uma guerra civil, altos oficiais do Exército e da Marinha depuseram o presidente Washington Luís e formaram uma Junta Militar. Com a chegada das tropas rebeldes ao Rio de Janeiro, entregaram o poder a Getúlio Vargas. O movimento político-militar conhecido como Revolução de 1930 saía vitorioso. Era o início da Era Vargas. O Estado Getulista — Governo Provisório Ao assumir a chefia do governo provisório em 1930, apoiado pelos militares, Getúlio Vargas aboliu a Consti- tuição de 1891, dissolveu o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas estaduais e as Câmaras munici- pais e instituiu um regime de emergência. Com exceção do governador Olegário Maciel, de Minas Gerais, todos os demais (na época, chamados de presidentes de estado) foram substituídos por interventores, pessoas da confiança do presidente, escolhidos por ele entre os egressos do movimento tenentista3. Em São Paulo, a nomeação do tenentista pernambucano João Alberto Lins de Barros para interventor provo- cou descontentamento entre as elites, que passaram a exigir um interventor civil e paulista. Os desdobramentos do descontentamento da população em relação a Vargas levaram à deflagração da Revolução Constituciona- lista, em julho de 1932. Devido à debilidade de suas convicções ideológicas, o tenentismo perdeu muito de sua influência junto ao governo Vargas. Vários de seus representantes voltaram para os quartéis, outros se aliaram ao comunismo ou a grupos simpatizantes do fascismo. Os que continuaram no governo permaneceram subordinados ao presi- dente. — Legislação Trabalhista A obra pela qual o governo de Getúlio Vargas é mais lembrado é a legislação trabalhista, iniciada com a cria- ção do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em novembro de 1930. As leis de proteção ao trabalhador regularam o trabalho de mulheres e crianças, estabeleceram jornada máxima de oito horas diárias de trabalho, criaram o descanso semanal remunerado e garantiram o direito a férias (já concedido anteriormente, em 1923, porém nunca colocado em prática) e à aposentadoria, entre outras novidades. Esse conjunto de leis seria sistematizado em 1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ao mesmo tempo, em 1931 0 governo aprovou a Lei de Sindicalização, que estabelecia o controle do Ministério do Trabalho sobre a ação sindical. Os sindicatos passaram a ser órgãos consultivos do poder público; só podiam funcionar com autorização do Ministério do Trabalho, que, por sua vez, tinha poderes de intervenção tão impor- tantes nas atividades sindicais que podia até afastar diretores. Assim, anarquistas e comunistas foram afastados do movimento sindical pelo governo e reagiram à lei, considerada autoritária, por meio de greves e manifestações. Aos poucos, porém, diversos setores sindicais passaram a acatá-la. 3 Azevedo, Gislane. História: passado e presente / Gislane Azevedo, Reinaldo Seriacopi. 1ª ed. São Paulo. Ática. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 13 A legislação trabalhista - apresentada à população como uma “dádiva do governo” - e a aproximaçãoem relação aos sindicatos faziam parte de um tipo de política que seria caracterizado como populista, anos mais tarde. Apresentado como autor magnânimo das leis trabalhistas, Getúlio era chamado de “pai dos pobres”, uma espécie de protetor da classe trabalhadora, desconsiderando as conquistas como resultado das lutas dos trabalhadores. — A Constituição de 1934 Em 1932, Getúlio Vargas ainda governava sob um regime de exceção. Em fevereiro do mesmo ano, o go- verno aprovou um novo Código Eleitoral que trazia algumas novidades: – criava a Justiça Eleitoral, para coibir as fraudes eleitorais; – instituía o voto secreto, principalmente para minar a influência dos coronéis sobre os eleitores (releia o Capítulo 3); – reduzia de 21 anos para 18 a idade mínima do eleitor; – garantia o direito de voto às mulheres, antiga reivindicação dos grupos feministas, que tinham entre suas principais militantes a enfermeira Bertha Lutz (1894-1976). Pressionado por diversos setores da sociedade, juntamente com a divulgação do novo Código Eleitoral, o governo convocou eleições para maio de 1933, visando à formação de uma Assembleia Constituinte. Entre os 254 constituintes eleitos encontrava-se a médica Carlota Pereira de Queirós, candidata por São Paulo e primei- ra deputada do Brasil. Promulgada em julho de 1934, a nova Constituição incorporou a legislação trabalhista em vigor, acrescen- tando a ela a instituição do salário mínimo (que seria criado somente em 1940) e criou o Tribunal do Trabalho. Pela nova Carta, analfabetos e soldados continuavam proibidos de votar. Ainda em julho de 1934 os constituintes elegeram Getúlio Vargas para a Presidência da República, pondo fim ao governo provisório. De acordo com a Constituição, o mandato presidencial se estenderia até 1938, quan- do um novo presidente escolhido por voto livre e direto assumiria o cargo. — Governo Constitucional de Vargas Os anos 1930 foram marcados por uma forte polarização política, com o surgimento de dois movimentos an- tagônicos: a Ação Integralista Brasileira (AIB), de direita, e a Aliança Nacional Libertadora (ANL), de esquerda. A exemplo do que acontecia na Europa, onde a população geral estava desacreditada da democracia libe- ral - o que favorecia o surgimento de regimes totalitários em diversos países -, surgiram no Brasil grupos que reivindicavam a implantação de uma ditadura de direita, semelhante à de Mussolini na Itália. Em 1932, foi formada a Ação Integralista Brasileira, de inspiração fascista, liderada pelo escritor Plínio Sal- gado e composta de intelectuais, religiosos, alguns ex-tenentistas e setores das classes médias e da burguesia. Tendo como lema “Deus, Pátria e Família”, o integralismo era um movimento de caráter nacionalista, antiliberal, anticomunista e contrário ao capitalismo financeiro internacional. Os integralistas defendiam o controle do Estado sobre a economia e o fim de instrumentos democráticos, como a pluralidade partidária e a democracia representativa. Nas eleições municipais de 1936, os integralistas elegeram vereadores em diversos municípios brasileiros e conquistaram várias prefeituras, entre elas as de Blumenau (SC) e Presidente Prudente (SP). A Aliança Nacional Libertadora surgiu em março de 1935, e tinha como presidente de honra o líder comunista Luís Carlos Prestes. O Partido Comunista do Brasil (PC do B) tinha grande ascendência sobre a ANL, mas o movimento reunia em suas fileiras grupos de variadas tendências: socialistas, liberais, anti-integralistas, inte- lectuais independentes, estudantes e ex-tenentistas descontentes com o autoritarismo do governo Vargas. Seu programa político era nacionalista e anti-imperialista. Entre suas principais bandeiras estavam a suspensão do pagamento da dívida externa, a nacionalização de empresas estrangeiras e a reforma agrária. A ANL cresceu rapidamente, chegando a reunir entre 70 mil e 100 mil filiados, segundo estimativas do histo- riador Robert Levine. Quatro meses depois de fundada, foi declarada ilegal pelo presidente Vargas. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 14 A partir de então, seus militantes passaram a agir na clandestinidade. Em novembro de 1935, setores da ANL ligados ao PC do B lideraram, sob orientação da Internacional Comunista, insurreições mi- litares nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro, com o intuito de tomar o poder e implantar o comunismo no Brasil. Mal articu- lados, os levantes fracassaram e a Intentona Comunista, como ficou conhecido o episódio, levou o presidente a decretar estado de sítio e determinar a prisão de mais de 6 mil pessoas - entre as quais um senador e quatro deputados. Entre os detidos encontravam-se Luís Carlos Prestes (posteriormente condenado a dezesseis anos de re- clusão) e sua mulher, a judia alemã Olga Benário. Ela, grávida de sete meses, foi deportada para a Alemanha nazista em setembro de 1936, onde morreu em um campo de concentração em 1942. — Eleições Canceladas Em meio a esse clima de repressão à esquerda, teve início, em 1937, a campanha eleitoral para a escolha do sucessor de Getúlio Vargas. O presidente, contudo, articulava sua permanência no poder junto às Forças Arma das e aos governadores. No final de 1937, o capitão integralista Olímpio Mourão Filho elaborou um plano de uma conspiração comunista para a tomada do poder e o entregou à cúpula das Forças Armadas. Era o Plano Cohen, nome de seu suposto autor. O documento era falso, mas serviu de pretexto para um gol- pe de Estado. No dia 10 de novembro de 1937, o presidente ordenou o fechamento do Congresso por tropas do Exército. Pelo rádio, Vargas declarou canceladas as eleições presidenciais e anunciou a instauração do Estado Novo, que ele definiu como “um regime forte, de paz, justiça e trabalho”. A seguir, foi outorgada uma nova Constituição, que logo passaria a ser chamada de Polaca, em alusão a suas semelhanças com a Constituição polonesa, de inspiração fascista. As garantias individuais foram suspen- sas e o direito de reunião, abolido. A população ficou proibida de se organizar, reivindicar seus direitos e de manifestar livremente suas opiniões. Sem reação popular, começava uma nova fase do governo getulista: a de uma ditadura declarada, centralizada em torno da figura de Getúlio Vargas. — O Estado Novo Vargas passou a governar por meio de decretos-lei. Todos os partidos políticos foram extintos, incluindo a Ação Integralista, que apoiara o golpe. A ideologia do Estado Novo enfatizava principalmente a ideia de recons- trução da nação - pautada na ordem, na obediência à autoridade e na aceitação das desigualdades sociais - e a de tutela do Estado sobre a nacionalidade brasileira. Departamento de Imprensa e Propaganda Em 1939, foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), inspirado no serviço de comunicação da Alemanha nazista. Os agentes do DIP controlavam os meios de comunicação por meio da censura a jornais, revistas, livros, rádio e cinema. Eles também elaboravam a propaganda oficial do Estado Novo, produzindo peças publicitárias que mostravam o presidente como uma figura paternal, bondosa, severa e exigente a fim de agradar à opinião pública. O DIP elaborava também cine documentários, como o Cinejornal Brasileiro - exibido obrigatoriamente em todos os cinemas, antes do início dos filmes -, livros e cartilhas escolares enaltecendo a figura de Vargas e transmitindo noções de patriotismo e civismo. Em meio ao ambiente de controle e repressão, a Polícia Especial de Getúlio Vargas ganhou força. Coman- dada pelo ex-tenentista Filinto Müller, ela ficou conhecida por suas prisões arbitrárias e pela prática de tortura contra os presos. — O Brasil e a Segunda Guerra Mundial Em 1940, Vargas fez um discurso elogiando o sucesso das tropas nazistas na Europa. Entretanto, embora se aproximasse dos países do Eixo por suas posturas autoritárias, o governo de Getúlio Vargas manteve uma posturaambígua sobre a Segunda Guerra Mundial, pois mantinha relações econômicas com os Estados Uni- dos. Para impedir a influência europeia sobre o Brasil, o governo estadunidense pôs em prática a política de boa vizinhança, que se manifestou por meio do fim do intervencionismo político e da colaboração econômica e mi- litar. O rompimento definitivo com o bloco nazifascista ocorreu em 1942, quando navios mercantes brasileiros foram afundados por submarinos alemães. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 15 Em agosto daquele ano, após manifestações populares e estudantis exigindo que o governo entrasse no conflito ao lado das democracias, Getúlio declarou guerra aos países do Eixo. Em julho de 1944, aproximada- mente 25 mil soldados, integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcaram na Itália. — O Fim do Estado Novo Em 1942, as manifestações estudantis e populares lideradas pela União Nacional dos Estudantes (UNE), a favor da participação do Brasil na guerra contra o nazifascismo, deram início a um lento processo de distensão no clima sufocante do Estado Novo. Outras manifestações ocorreram, agora pelo fim do Estado Novo e pela volta da democracia. Em 1943, houve o Manifesto dos Mineiros, de um grupo de políticos e intelectuais de Minas Gerais durante um congresso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). No início de 1945, foi a vez dos participantes do Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores. Ainda em 1945, Getúlio pôs fim à censura da imprensa, anistiou presos políticos - entre eles, Luís Carlos Prestes - e convocou eleições para uma Assembleia Constituinte. Surgiram então diversos partidos políticos, entre os quais a União Democrática Nacional (UDN), formada por setores das classes médias e altas, o Partido Social Democrático (PSD), composto de antigos coronéis e interventores nos estados e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), constituído por líderes sindicais ligados ao Ministério do Trabalho, além do Partido Comunista do Brasil (PC do B), que voltou a ser legalizado. Durante a campanha eleitoral, líderes do PTB e de alguns sindicatos, com o apoio do Partido Comunista e com o aval do presidente, passaram a defender a permanência de Getúlio Vargas na Presidência. A expressão “Queremos Getúlio!”, repetida em coro pelos partidários desse grupo, deu nome ao movimento: queremismo. Para evitar a permanência de Vargas no poder, os generais Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra exigiram sua renúncia. Com o afastamento de Getúlio em Outubro de 1945, o Estado Novo chegava ao fim. Democracia e rupturas democráticas na segunda metade do século XX — A Experiência Democrática no Brasil Eurico Gaspar Dutra assumiu a presidência em janeiro de 1946. O início de seu governo foi marcado pela posse da Assembleia Nacional Constituinte, encarrega da de elaborar uma nova Constituição para o Brasil. Pro- mulgada ainda em 1946, a Carta restabelecia a democracia, a organização do Estado em três poderes (Exe- cutivo, Legislativo e Judiciário) e a autonomia dos estados e municípios, colocando fim ao centralismo político que caracterizou a Era Vargas4. No entanto, a nova Constituição manteve a exclusão do direito de voto aos analfabetos (mais da metade da população), inúmeras restrições ao direito de greve e a não incorporação dos trabalhadores do campo à legislação trabalhista. Na área econômica, Dutra deu uma orientação liberal ao seu governo, afastando-se da política nacionalista adotada por Getúlio Vargas. Com a abertura do mercado aos produtos importados, as reservas nacionais em moedas estrangeiras acumuladas durante a Segunda Guerra esgotaram-se. Em 1948, foi anunciado o Plano Salte, abreviatura de Saúde, Alimentação, Transporte e Energia, considera- dos setores prioritários. O plano só foi aprovado pelo Congresso em 1950, no final do governo Dutra, e aban- donado pelo governo seguinte. Assim, foi implementado apenas em parte, como a pavimentação da rodovia Rio-São Paulo (atual Via Dutra), a abertura da rodovia Rio-Bahia e o início das obras da Hidrelétrica do São Francisco. Aderindo ao clima da Guerra Fria, o governo Dutra estreitou relações com os Estados Unidos e, em 1947, rompeu relações diplomáticas com a União Soviética. Esse posicionamento acabou provocando um re- cuo na frágil e recente democracia brasileira: o governo decretou a ilegalidade do Partido Comunista Brasileiro (PCB), cassando o mandato de deputados, senadores e vereadores do partido que foram eleitos em 1945. Além disso, o governo também ordenou a intervenção estatal em mais de 400 sindicatos. 4 Vicentino, Cláudio. Olhares da História Brasil e Mundo. Cláudio Vicentino. José Bruno Vicentino. Savério Lavorato Júnior. 1ª ed. São Paulo. Scipione. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 16 — O Retorno de Getúlio Vargas Getúlio Vargas foi vitorioso nas eleições para a sucessão de Dutra em outubro de 1950. Ele candidatou-se pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PT B), com o apoio do Partido Social Democrático (PSD). Assim, o pai dos pobres, como ficou conhecido, reassumia a Presidência do Brasil em janeiro de 1951, mas, desta vez, democraticamente. Sua atuação política junto às camadas mais carentes do país, no estilo populista, foi decisiva para sua vitória. Meses depois da eleição de Getúlio, a marchinha mais cantada no Carnaval de 1951 era Retrato do velho, de Haroldo Lobo e Marino Pinto, gravada em outubro de 1950 por Francisco Alves, para comemorar o resultado das eleições. Com a volta de Getúlio Vargas, o governo passou a seguir a corrente nacionalista, com o Estado atuando de maneira intervencionista e paternalista. As importações foram restringidas e os investimentos estrangeiros foram limitados, dificultando as remessas de lucros de empresas transnacionais para seus países de origem. Para incentivar a indústria nacional, em 1952, foi criado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e, no ano seguinte, a Petrobras, empresa estatal com o monopólio da exploração e refino do petróleo no Brasil. Foi proposta também a criação da Eletrobrás, uma empresa para controlar a geração e a distribuição de energia elétrica. Vargas nomeou João Goulart (1919-1976) para ministro do Trabalho, em 1953, para enfrentar as rei- vindi- cações e a onda de greves. Sob a orientação do presidente, o novo ministro propôs, em janeiro de 1954, dobrar o valor do salário mínimo, que recuperou seu valor em relação à crescente inflação. Em fevereiro, 42 coronéis e 39 tenentes-coronéis emitiram um manifesto - o Manifesto dos Coronéis - criticando o governo, o aumento do salário mínimo e as desordens que corriam pelo país. Entre eles estava o coronel Golbery do Couto e Silva e vários outros militares que, mais tarde, foram protagonistas da ditadura iniciada em 1964. Diante do manifesto, Getúlio demitiu o ministro da Guerra, o general Espírito Santo Cardoso, e acordou com Goulart a sua demissão, acalmando os ânimos. Contudo, no feriado de 19 de maio de 1954, Vargas anunciou o aumento de 100% do salário mínimo, conquistando ainda mais apoio dos trabalhadores. A política populista de Vargas atraiu a oposição de liberais, como os membros da UDN (União Democrática Nacional, partido político de orientação liberal), oficiais das Forças Armadas e empresários, especialmente os ligados aos interesses estrangeiros. Em 5 de agosto de 1954, o jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), um dos principais oponentes de Vargas, dono do jornal Tribuna da Imprensa, sofreu um atentado no qual morreu seu segurança, o major da Aeronáutica Rubens Vaz (1922-1954). O episódio ficou conhecido como o atentado da rua Toneleros. As investigações apontaram a participação de Gregório Fortunato (1900-1962), chefe da guarda pessoal de Getúlio. Isso acirrou os ânimos dos oposicionistas, desdobrando-se numa grande campanha pela renúncia de Vargas. A campanha contou com os meiosde comunicação, que alimentavam e impulsionavam o aprofundamento da crise. Pressionado, Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954. A notícia da morte e a divulgação de sua carta-testamento estimularam manifestações populares por todo o país. Jornais de oposição foram invadidos e depredados, assim como os diretórios da UDN e a embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro. Com o suicídio de Getúlio, o vice-presidente Café Filho (1899-1970) assumiu o poder. Inconformados com o resultado das eleições, a UDN de Lacerda e setores militares tramavam um golpe, com apoio discreto de Café Filho e outros ministros, mas esbarraram no legalista ministro da Guerra, o general Henrique Teixeira Lott (1894-1984). A saída de Café Filho da presidência por problema de saúde ocasionou a transferência do cargo ao presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz (1894-1961), aliado da UDN. Este, mais favorável aos golpistas, tentou se livrar do legalista Lott, que reagiu e o depôs. O cargo foi entregue então ao presidente do Senado, Nereu Ramos (1888-1958), que governou como presi- dente da República até a posse de Juscelino Kubitschek, em janeiro de 1956. Nas eleições de outubro de 1955, Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976), ex-governador de Minas Gerais, teve uma vitória apertada, de 36%, contra 30% dos votos dados a Juarez Távora, candidato da UDN. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 17 JK, como era popularmente conhecido, foi o candidato da coligação PSD-PTB. Como na época os eleitores votavam separadamente para presidente e para vice-presidente, João Goulart, o Jango, ex-ministro do Tra- balho de Vargas, venceu a eleição para Vice-presidência, com mais votos (3 591.409) do que o próprio JK (3 077.411). — De Jk a João Goulart O governo de Juscelino Kubitschek foi marcado pelo desenvolvimentismo. Apoiando-se no Plano de Metas, divulgado sob o slogan “50 anos em 5”, Juscelino prometia desenvolver o país em tempo recorde. O programa priorizava investimentos em setores de energia, indústria, educação, transporte e alimentos. Para alcançar as metas, o governo favoreceu a entrada de capitais estrangeiros e a presença de empresas transnacionais no país. Esse modelo abandonava o nacionalismo do período Vargas e aderia ao capitalismo internacional. Como resultado dessa política, fábricas de caminhões, tratores, automóveis, produtos farmacêu- ticos e cigarros foram instaladas no Brasil. Destacam-se também a construção das usinas hidrelétricas de Furnas e Três Marias; e a pavimentação de milhares de quilômetros de estradas. Grandes mudanças ocorriam em diversos setores. No dia a dia de muitas cidades e regiões. Na música, foi a época em que surgiu a bossa Nova, um novo estilo de tocar e cantar samba com influência do jazz, juntando-se aos tangos, boleros, valsas e sambas de então. No futebol, 1958 foi o ano da conquista do primeiro campeonato mundial. Passaram a fazer parte dos hábitos dos brasileiros o consumo de produtos industriais, como eletrodomésticos (máquina de lavar roupas, rádio de pilha, etc.) No entanto, esse desenvolvimentismo era basicamente dirigido a partes do mundo urbano moderno. O enor- me fosso social, pleno de desigualdades e carências (saneamento básico, escolas, saúde), e um mundo rural que ainda reunia a maioria da população brasileira sem a proteção de uma legislação trabalhista continuavam a existir. A maior obra do governo JK, entretanto, foi a construção de Brasília, a nova capital federal, planejada pelo urbanista Lúcio Costa e pelo arquiteto Oscar Niemeyer. A cidade foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Localizada no Planalto Central, estava bem distante das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, os principais centros de pressão popular da época. A abertura da economia brasileira ao capital estrangeiro e os vários empréstimos contraídos junto às instituições estrangeiras deixaram o país numa séria crise financeira, com a inflação chegando, em 1960, ao índice de 25% ao ano. Nas eleições de 1960, a coligação PSD-PTB indicou o marechal Henrique Teixeira Lott para concorrer à Presidência e João Goulart à Vice-presidência. Na oposição, a UDN e outros partidos menores apoiaram a candidatura do ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros (1917-1992). Seu candidato à Vice-presidência era Mílton Campos, ex-governador de Minas Gerais. Jânio pregava uma limpeza na vida política nacional com o combate à corrupção. Para simbolizar a ideia, usava uma vassoura na campanha eleitoral. Como votava-se separadamente para presidente e para vice-presidente, Jânio Quadros se tornou presidente com 5,6 milhões de votos. João Goulart foi eleito vice-presidente com 4,5 milhões de votos. Era formada a dupla “Jan-Jan”. Jânio Quadros no Poder Como presidente, Jânio Quadros primou pela ambiguidade. Na economia atuava deforma mais próxima aos conservadores liberais: cortou gastos e congelou salários em meio à contínua elevação dos preços dos produtos. Por outro lado, sua política externa aproximava-se da esquerda, ao reatar relações diplomáticas com países socialistas a fim de ampliar mercados. Um episódio reforçou essa política de independência em relação ao bloco capitalista. Em 1961, o argentino Ernesto Che Guevara, então ministro da Economia em Cuba, foi condecorado por Jânio Quadros com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Essa atitude provocou reações contrárias, inclusive do próprio partido do presidente. Em agosto de 1961, após sete meses de governo, Jânio surpreendeu a todos ao renunciar ao cargo, numa manobra política fracas- sada. A renúncia fazia parte de um plano que contava com o temor de setores da sociedade diante da possibi- lidade de João Goulart assumir a Presidência para fortalecer seu poder. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 18 O vice, que se encontrava na China Popular, em missão de governo, era considerado comprometido com as causas trabalhistas - e até acusado de ser um comunista - por vários militares e políticos. Ao que parece, a ex- pectativa de Jânio era que a população se mobilizasse contra seu pedido de renúncia e o Congresso Nacional o rejeitasse, o que o levaria a exigir plenos poderes para continuar na Presidência. A renúncia, porém, foi aceita imediatamente e nenhum grupo movimentou-se para convencer Jânio Quadros a permanecer no poder. O presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli (1910-1975), assumiu a Pre- sidência da República até a posse de Jango. — A Crise Política no Governo Jango A renúncia de Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961 amplificou as divergências entre as forças políticas. Alguns ministros militares e políticos da UON, contrariando a Constituição, tentaram impedir a posse de João Goulart. O novo presidente era visto como um herdeiro de Getúlio Vargas e acusado de simpatizante da es- querda. Em defesa de Jango, Leonel Brizola (1922-2004), então governador do Rio Grande do Sul, lançou a Cam- panha da Legalidade, conquistando o apoio de boa parte da população brasileira. A posse de Jango ocorreu somente após debates e negociações que levaram à alteração da Constituição. Com uma emenda, em 2 de se- tembro de 1961, foi implantado o parlamentarismo no país. Era o acordo para se evitar uma guerra civil: Jango assumiria a presidência, mas o governo de fato ficaria a cargo do primeiro-ministro, escolhido pelo Congresso Nacional. Definiu-se também que, após algum tempo, o parlamentarismo deveria ser ratificado ou não por um plebiscito. Em janeiro de 1963, o plebiscito sobre o parlamentarismo mobilizou o país. O sistema político estava em vigência há pouco mais de um ano e era muito criticado e impopular. Com intensa campanha pelo seu fim, os brasileiros decidiram pela restauração do regime presidencialista. Enquanto o presidencialismo era restabele- cido, a situação econômica do país deteriorava-se. A inflação, que em 1962 atingira 52%, chegou aos 80% em 1963e afetou gravemente o poder aquisitivo dos trabalhadores. Para enfrentar a crise, o governo lançou o Plano Trienal, no final de 1962. Seu objetivo era conter a inflação e promover o desenvolvimento do país. No entanto, os efeitos do plano foram mínimos, princi- pal- mente quanto ao custo de vida. As pressões populares cresceram, levando Jango a defender amplas refor- mas nos setores agrário, administrativo, fiscal e bancário. Conhecidas como reformas de base, essas medidas foram vistas pelos seus opositores como uma ameaça à ordem liberal vigente. Três dessas medidas ajudam a entender os interesses que estavam ameaçados. Contra a inflação, foi cria- da a Superintendência Nacional do Abastecimento (Sunab), ligada ao governo e encarregada de controlar os preços dos produtos, interferindo, portanto, nos lucros dos produtores e comerciantes. Para oferecer melhores condições de vida a milhões de trabalhadores rurais e ampliar a oferta de alimentos, uma proposta de reforma agrária nos latifúndios improdutivos foi apresentada ao Congresso. Os latifundiários, porém, não concordavam com os mecanismos de cálculos para se chegar aos valores das indenizações a se- rem pagas pelas terras, alegando grandes perdas caso fossem efetivamente aplicados. Outra questão polémica foi a restrição da remessa de lucros das empresas estrangeiras para o exterior; a proposta teve oposição de grupos ligados ao capital internacional. Diante de tantos embates, João Goulart aproximou-se de setores populares organizados por operários, camponeses, estudantes e militantes de es- querda, como o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), a Confederação dos Trabalhadores Agrícolas (CONTAC) e as Ligas Camponesas. No lado oposto, contra Jango, os conservadores juntavam organizações sociais e políticas. Entre eles, des- tacava-se o Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (PES), que reunia diretores de empresas multinacio- nais, jornalistas, intelectuais, militares e a nata do empresariado nacional. Entre outros opositores a João Goulart estavam o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), a Confe- deração Nacional das Indústrias (CNI) e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Num comício reali- zado em 13 de marco de 1964, no Rio de Janeiro, o presidente prometeu o aprofundamento das reformas para diversas entidades de trabalhadores e estudantes. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 19 Em resposta, os conservadores organizaram uma grande passeata em São Paulo, chamada Marcha da Fa- mília com Deus pela Liberdade. Os participantes da passeata declaravam estar se posicionando contra o que era visto como ameaça da transformação do país numa república comunista, representada pelo presidente, suas propostas e seu grupo de apoio. Setores da Igreja e do empresariado participaram da manifestação. A redemocratização e a busca pela estabilidade econômica Definição “Abertura Política” é a denominação de uma sequência de atividades cuja finalidade era promover uma lenta, gradual e segura transição do regime militar que para o regime democracia nos últimos dois mandatos da ditadura. • “Lenta, gradual e segura”: o lema que definiu o início da abertura política foi criado no governo do general Ernesto Geisel indicava o modo como o líder pretendia conduzir o processo de restauração da democracia. – Lenta: devido a não haver conformidade nas Forças Armadas com relação à abertura política. Enquanto uns não concordavam com a adoção de medidas mais radicais e extremistas, outros defendiam (e empreen- diam) tentados terroristas contra instituições. – Gradual: conforme o Pacote de Abril (nome atribuído pela a um conjunto de medidas impostas por Ernesto Geisel, abril de 1977), ainda não era o momento ideal para que os militantes abrissem mão das eleições majo- ritárias indiretas. – Segura: tinha o objetivo de assegurar o controle da ascensão da esquerda ao poder, para que o processo democratização não eclodisse em uma revolução semelhante às que ocorreram na China e em Cuba. Ainda, por meio da Lei Falcão, conseguiu-se dificultar a divulgação das propostas dos candidatos oponentes. • Lei da Anistia: promulgada no Governo de João Figueiredo, essa lei isentou os militares de seus crimes co- metidos no decorrer da ditadura, além de dispensar, também, aqueles que tinham sido condenados por crimes políticos e os militares e agentes que atuaram ilegalmente durante o regime. • “Diretas Já»: o impulso que avançou o movimento também recuperou o pluripartidarismo. Mesmo que sua aprovação tenha ocorrido em função de fragmentar a esquerda, o pluripartidarismo permite representação política aos mais diversos grupos, sendo, assim, um fator essencial em um regime democrático. O retorno pelo à democracia somente seria possível por meio da eleição direta para presidente da República, assim, o movi- mento “Diretas Já”, em contrapartida à divisão provocada pelo pluripartidarismo, gerou o engajamento político desses grupos em busca de desse ideal comum. • Revogação do AI-5: outra medida indispensável na luta pela democracia, decretada no Governo de Ernes- to Geisel. • Eleição de Tancredo Neves: o marco da transição de regimes aconteceu em 1985, de forma indireta, e o candidato eleito contava com aprovação de boa parte da bancada governamental, ou seja, agradou os milita- res. E, mesmo que Neves não tenha assumido o cargo, o governo que se seguiu reafirmou o êxito dos militares, já que a esquerda só chegaria à Presidência da República quase vinte anos depois. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 20 História dos negros no Brasil: luta antirracista, conquistas legais e desafios atuais A formação da cultura afro-brasileira remonta ao período colonial, quando milhares de africanos vieram para o Brasil através do trafico negreiro. O grande número de negros vindo no período colonial acabou por formar a maior população de origem africana fora da África. A cultura afro-brasileira foi marcada pelas referências culturais europeia e indígena. É importante ressaltar que essa manifestação cultural não se deu de forma homogênea, já que os africanos que vieram ao Brasil tinham distintas origens, forçando a apropriação e a adaptação para que suas práticas culturais sobrevivessem. Os rituais e costumes africano apenas deixaram de ser proibidos em 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. Assim, com o fim da perseguição, a cultura africana começou a ser mais valorizada, até que, em 2003, é promulgada a lei nº 10.639 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), exigindo as escolas brasileiras de ensino fundamental e médio que abarquem em seus currículos o ensino da história e cultura afro-brasileira. Devido à quantidade de escravos recebidos e também pela migração interna destes, os estados de Mara- nhão, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul foram os mais influenciados. A maioria dos povos veio trazido da Angola, Congo e Moçambique, eles forma- vam os Bantos. Já os Sudaneses, vieram da África ocidental, Sudão e da Costa da Guiné. I. Aspectos da Cultura Afro-Brasileira Podemos dizer que a cultura afro-brasileira compõe os costumes, as tradições, a mitologia, o folclore, a lín- gua, a culinária, a música, a dança, a religião, enfim, o imaginário cultural brasileiro. Um exemplo de como a cultura africana esta presente na nossa sociedade estão nas festividades, como o Carnaval, a maior festa popular brasileira, a festa de São Benedito, principal festa do Congado (expressão da cultura afro-brasileira), comemorada no final de semana após a Páscoa; e a festa de Iemanjá, realizada no dia 2 de fevereiro. Na música influência afro-brasileira está patente em expressões como Samba, Jongo, Carimbo, Maxixe, Maculelê, Maracatu e utilizaminstrumentos variados, com destaque para Afoxé, Atabaque, Berimbau e Tambor. Por conseguinte, não podemos perder de vista que estas expressões musicais são também corporais, uma vez que refletem formas de dançar, como no caso do Maculelê, uma dança folclórica brasileira, e do samba de roda, uma variação musical do samba. Podemos ressaltar outras expressões de música e dança como as danças rituais, o Tambor de Crioula, e os estilos mais contemporâneos como o samba-reggae e o axé baiano. Final- mente, merecendo um destaque especial a Capoeira, uma mistura de dança, música e artes marciais proibida no Brasil durante muitos anos e declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2014. A culinária é outro elemento típico da cultura afro-brasileira. Ela introduziu as panelas de barro, o leite de coco, o feijão preto, o quiabo, dentre muitos outros. Entretanto, os alimentos mais conhecidos são aqueles da culinária baiana, preparados com azeite dendê e pimentas, como Abará, Vatapá e o Acarajé, bem como o Qui- bebe nordestino, preparado com carne-de-sol ou charque; além dos doces de pamonha e cocada. Por fim, o prato brasileiro mais conhecido de todos é a Feijoada, criada pelos escravos como uma apropriação da feijoada portuguesa e produzida a partir dos restos de carne que os senhores de engenho não consumiam. A religião afro-brasileira se caracterizou pelo sincretismo com o catolicismo, união de aspectos do cristia- nismo às suas tradições religiosas para que pudessem realizar as práticas religiosas africanas secretamente. Assim, nasceram do sincretismo o Batuque, o Xambá, a Macumba e a Umbanda, enquanto se preservaram algumas variações africanas da Quimbanda, Cabula e o Candomblé. Influência Africana no Brasil5 A influência africana no processo de formação da cultura afro-brasileira começou a ser delineada a partir do tráfico negreiro. Quando milhões africanos “deixaram” forçadamente o continente africano e despontarem no Brasil para exercer o trabalho compulsório. 5 http://www.acordacultura.org.br/artigos/29082013/a-influencia-africana-no-processo-de-formacao-da-cul- tura-afro-brasileira Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 21 O escravo africano era um elemento de suma importância no campo econômico do período colonial sendo considerado “as mãos e os pés dos senhores de engenho porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente” (ANTONIL, 1982, p.89). Contudo, a contribuição africana no período colonial foi muito além do campo econômico, uma vez que, os escravos souberem reviver suas culturas de origem e recriarem novas práticas culturais através do contato com outras culturas. É importante salientar que não houve uma homogeneidade cultural praticada pelos negros africanos, visto que imperava uma heterogeneidade favorecida pelas origens distintas dos africanos, que apesar de oriundos do continente africano, geralmente os escravos apresentava uma prática cultural diferenciada em alguns aspectos devido à região que pertencia, pois a África caracteriza-se em um continente dividido em países com línguas e culturas diversas. Além da prática cultural diferenciada ressaltada, os africanos, ainda, incorporaram algumas práticas eu- ropeias e indígenas, além de, influenciá-los culturalmente. O intercâmbio cultural entre os elementos citados contribuiu para uma formação cultural afro - brasileira híbrida e bastante peculiar. Ao longo do período colonial e monárquico brasileiro foi grande o contingente de escravos africanos no Brasil, visto que, constituía a maior mão - de - obra do período. A contribuição desses escravos foi além da participação econômica, uma vez que, foram inserindo suas práticas, seus costumes e seus rituais religiosos na sociedade Brasileira contribuindo, dessa forma para uma formação cultural peculiar no Brasil. Importante, ressaltar que as práticas desses escravos africanos eram diferenciadas, pois eles eram oriundos de pontos diferentes do continente africano. De acordo com VAINFAS (2001 p.66), durante o período colonial, quase nada se sabia sobre a origem étnica dos africanos traficados para o Brasil. Porém, ao longo do período passou-se a designá-los a partir da região ou porto de embarque, ou seja, das áreas de procedência. Apesar da origem diversa dos escravos africanos, dois grupos se destacaram no Brasil: os Bantos e os Su- daneses. Os bantos foram assim, classificados devido à relativa unidade linguística dos africanos oriundos de Angola, Congo e Moçambique. Vainfas (2001, p. 67) destaca que: Os povos bantos predominaram entre os escravos traficados para o Brasil desde o século XVII, concen- trando-se na região sudeste, mas espalhados por toda a parte, inclusive na Bahia. (...) Os Bantos oriundos do Congo eram chamados de congo, muxicongo, loango, cabina, monjolo, ao passo que os de Angola o eram de massangana, cassange, loanda, rebolo, cabundá, quissamã, embaca, benguela. Essa diversidade fez com os Bantos apresentassem uma especificidade cultural, notadamente na lingüís- tica, nos costumes e, principalmente, no campo religioso, que mesclou aspectos do cristianismo com suas tradições religiosas. De acordo com Kavinajé (2009, p. 3): Os bantos, depois de um primeiro período de autonomia religiosa, que se conhece através de documentos históricos, assistiram à transformação de seus cultos. Por um lado, esses deram lugar á macumba; por outro, amoldaram-se às regras dos condomblés nagôs, não se distinguindo deles senão por uma maior tolerância. Os cultos bantos em gradativo declínio acolheram os espíritos dos índios, o que iria levar ao surgimento de um “condomblé de cablocos”, e adotaram cantos em língua portuguesa, ao passo que os condomblés nagôs só usam cantos em língua africana. Já os sudaneses provenientes da África ocidental, Sudão e da Costa da Guiné, contribuíram culturalmente para a formação de uma identidade afro-brasileira, visto que muito de suas práticas culturais imperam atual- mente como, por exemplo, o candomblé, prática religiosa dos escravos sudaneses. No Brasil estes grupos: bantos e sudaneses misturaram-se resultando em cruzamentos biológicos, culturais e religiosos. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 22 De acordo com Paiva (2001, p.36): Misturavam-se informações, assim como etnias, tradições e práticas culturais. Novas cores eram forjadas pela sociedade colonial e por ela apropriadas para designar grupos diferentes de pessoas, para indicar hie- rarquização das relações sociais, para impor a diferença dentro de um mundo cada vez mais mestiço. Da cor da pele à dos panos que a escondia ou a valorizava até a pluralidade multicor das ruas coloniais, reflexo de conhecimentos migrantes, aplicados à matéria vegetal, mineral, animal e cultural. Nota-se que o cruzamento cultural entre estes povos africanos propiciou a construção de uma identidade cultural brasileira, ou cultura afro-brasileira. Uma vez que, eles não temeram em “inventar códigos de compor- tamentos e de recriarem práticas de sociabilidade e culturais” (Paiva 2001, p.23). Assim, este cruzamento foi resultado de um longo processo que propiciou uma riqueza cultural peculiar ao Brasil. De acordo com Paiva (2001, p.27), pode-se caracterizar este cruzamento cultural como resultante de uma aproximação entre universos geograficamente afastados, em hibridismos e em impermeabilidades, em (re) apropriações, em adaptações e em sobreposição de representações e de práticas culturais. Assim, a influência africana foi se tornando visível em vários seguimentos da sociedade colonial, tais como culinária, práticas religiosas, danças, dentre outros valores culturais que foram incorporados pela população brasileira. Sobre a influência africana Freire (2001, p. 343) destaca que: Quantas “mães-pretas”, amas de leite, negras cozinheiras e quitandeiras influenciaram criançase adultos brancos (negros e mestiços também), no campo e nas áreas urbanas, com suas histórias, com suas memórias, com suas práticas religiosas, seus hábitos e seus conhecimentos técnicos? Medos, verdades, cuidados, forma de organização social e sentimentos, senso do que é certo e do que é errado, valores culturais, escolhas gastro- nômicas, indumentárias e linguagem, tudo isso conformou-se no contato cotidiano desenvolvido entre brancos, negros, indígenas e mestiços na Colônia. Ainda de acordo com Freyre (2001, p. 346), a nossa herança cultural africana é visível no jeito de andar e no falar do brasileiro, pois: Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolegando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histó- rias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho- de- pé de uma coceira tão boa. De que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama- de- vento, a primeira sensação completa de homem. Do muleque que foi o nosso primeiro companheiro de brinquedo. (Freyre (2001, p. 348) Observa-se que de acordo com a citação acima a influência africana foi além cozinha e da mesa, chegando até a cama, pois era comum a iniciação sexual do “senhorzinho” branco ocorrer com uma escrava.Comum tam- bém era a prática de feitiços sexuais e afrodisíacos pelos escravos, pois foi na “perícia e no preparo de feitiços sexuais e afrodisíacos que deu tanto prestigio a escravos macumbeiros juntos a senhores brancos já velhos e gastos.” Freyre (2001, p. 343), A influência do escravo negro na vida sexual da família brasileira é destacada por, Freyre (2001, p. 381), assim: (...) O grosso das crenças e práticas da magia sexual que se desenvolveram no Brasil foram coloridas pelo intenso misticismo do negro; algumas trazidas por ele da África, outras africanas apenas na técnica, servin- do-se de bichos e ervas indígenas. Nenhuma mais característica que a feitiçaria do sapo para apressar a rea- lização de casamentos demorados. O sapo tornou-se também, na magia sexual afro-brasileira, o protetor da mulher infiel que, para enganar o marido, basta tomar uma agulha enfiada em retrós verde, fazer com ela uma cruz no rosto do indivíduo adormecido e coser depois os olhos do sapo. Além da influência na vida sexual destacado no clássico Casa Grande e Senzala, merecem ênfase as can- ções que foram modificadas pelas negras. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 23 Também as canções de berço portuguesas, modificou-se a boca da ama negra, alterando nelas palavras; adaptando-as às condições regionais; ligando-as às crenças dos índios e às suas. Assim a velha canção “escu- ta, escuta menino” aqui amoleceu-se em “durma, durma, meu filhinho”, passando Belém de “fonte” portuguesa, a “riacho” brasileiro. Freyre (2001, p. 380) Observa-se que as amas apropriaram-se das canções de origem portuguesa e as recriaram, dando um to- que especial, o toque africano. Isso é perceptível na “infantilização” das palavras das canções. “A linguagem infantil também aqui se amoleceu ao contato da criança com a ama negra. Algumas palavras, ainda hoje duras ou acres quando pronunciadas pelos portugueses, se amaciaram no Brasil por influência da boca africana. Da boca africana aliada ao clima - outro corruptor das línguas europeias, na fervura por que passaram na América tropical e subtropical. Freyre (2001, p. 382) Deste modo, foi se delineando a língua falada no Brasil, a língua portuguesa que foi amplamente influencia- da pelo modo de falar dos escravos africanos. A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as es- pinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste mundo. Sem rr nem ss; as sílabas finas moles; palavras que só faltam desmanchar-se na boca da gente. A linguagem infantil brasileira, e mesmo a portuguesa, tem um sabor quase africano: cacá, bumbum, tentén, nenén, tatá, papá, papapo, lili, mimi (...) Amolecimento que se deu em grande parte pela ação da ama negra junto à criança; do escravo preto junto ao filho do senhor branco. Os nomes próprios foram dos que mais se amaciaram, perdendo a solenidade, dissolvendo-se deliciosamente na boca dos escravos. Freyre (2001, p. 382) Nota-se que o intercâmbio cultural entre os negros africanos, indígenas e portugueses foram intensos, no- tadamente na língua, costumes, modos, comidas, forma de pensar e práticas religiosas. De acordo com Paiva (2001, p. 185) As trocas culturais e os contatos entre povos de origem muito diversa é algo que, então, fazia parte do dia - a – dia colonial, desde a chegada dos portugueses. Isto, porque, era ampla a vivência cultural da população negra no Brasil colonial, refletindo amplamente na sociedade do período. Deste intercâmbio cultural formou-se a cultura afro-brasileira, sendo visível à influência africana em todos os aspectos da sociedade brasileira, não sendo possível desvincular a cultura brasileira da africana, da indígena ou da europeia. Para Paiva (2001, p.39) a formação cultural não se deu de forma linear, uniforme e harmônica. Muitos foram os conflitos, as adaptações e os arranjos ao longo do período. É evidente que não estou sugerindo uma formação linear desse universo cultural, nem estou emprestando- lhe uma harmonia, que, de fato, pouco existiu. Tanto seu processo de formação quanto a convivência no interior dele se deram (e se dão) de maneira conflituosa na maioria das vezes, embora haja, também, adaptações constantes, arranjos e acordos que visam a sua preservação. Paiva (2001, p. 41) A preservação dessas práticas culturais ocorreu através de aproximações e afastamentos conforme ideia defendida por Paiva (2001, p.40): A conformação e a preservação do universo cultural dão-se, então, através das aproximações e afastamen- tos, das interseções, da intervenção de espaços individuais e coletivos, privados e comuns, que envolvem di- mensões do viver tão diversas quanto à do material, da utensilagem e das técnicas; dos costumes e tradições, das práticas e das representações culturais; da mitologia e da religião; do físico e concreto, do psicológico e imaginário; da linguagem e das escritas; da dominação, da resistência e do transito entre elas: da temporali- dade e da espacialidade; das continuidades e das descontinuidades; da memória e da história. Tudo implicado com os campos da política e do econômico, provocando mutuamente contínuas reordenações e construções sociais. Desse modo, observa-se a formação e a preservação de uma identidade cultural, bastante plural devido às influências: europeia, africana e indígena, favorecendo uma riqueza cultural bastante peculiar. Estas pecu- liaridades multiculturais manifestaram-se, principalmente, na língua, culinária, música, dança, religião, dentre outros. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 24 Resistência Onde quer que tenha existido escravidão, houve resistência escrava. No Brasil os escravizados criaram diversas maneiras de resistência ao sistema escravista durante os quase quatro séculos em que a escravidão existiu entre nós. A resistência poderia assumir diversos aspectos: fazendo “corpo mole” na realização das tarefas, sabotagens, roubos, sarcasmos, suicídios, abortos, fugas e formação de quilombos. Qualquer tipo de afronta à propriedade senhorial por parte do escravizado deve ser considerada como uma forma de resistência ao sistema escravista. Perdigão Malheiro, que foi um importante juristado século XIX, entendia a fuga como parte essencial do sis- tema escravista. Existe uma concordância geral entre os estudiosos da escravidão com a opinião de Malheiro, de que a fuga foi um aspecto típico do escravismo. Onde quer que tenha existido escravidão, foram comuns as fugas, os anúncios nos jornais buscando fugitivos e também a figura do capitão-do-mato. Após a fuga, o escra- vizado poderia tentar se esconder nas matas, onde frequentemente formavam quilombos, ou ainda tentar se misturar na densa população africana e afrodescendente que habitava os núcleos urbanos, tentando se passar por livre ou por liberto. Tendo fugido um escravizado, o seu senhor acionava toda uma rede de informantes para descobrir o seu paradeiro. Anunciava a fuga nos jornais locais, oferecendo recompensas àquele que desse notícias precisas sobre o esconderijo ou localização do fugitivo e, frequentemente, pagava um capitão-do-mato para trazer o escravizado de volta. A fuga representou um modo significativo no processo de resistência ao cativeiro e de autoafirmação da condição humana do escravizado em oposição ao sistema escravista. Em primeiro plano provocava um abalo do ponto de vista econômico, tanto de posse quanto de produção, por vários motivos: porque o escravizado deixava de trabalhar enquanto estava fugido, deixando, portanto, de gerar lucro para o seu senhor; também por não haver garantia de que o escravizado fosse ser apreendido e, caso não fosse, o senhor perdia o capi- tal nele investido; e, por último, porque pagar as diárias de um Capitão-do-Mato não era barato. Em segundo plano, a fuga não era apenas um simples ato de rebeldia, significava a tentativa de usufruir de um espaço de liberdade, ainda que, na maior parte das vezes, fosse passageira. Sendo uma afronta direta ao poder senhorial, os escravizados fugitivos, quando apreendidos, recebiam um castigo exemplar. As punições aos escravizados apreendidos após uma fuga eram extremamente severas, podendo, às vezes, o castigo exemplar recebido resultar em sua morte. As motivações que levavam um escravizado a fugir eram variadas e nem todas as fugas tinham por objetivo se livrar do domínio senhorial. Existiam as fugas reivindicatórias, como aquelas que fizeram os escravos do en- genho Santana de Ilhéus, nas quais os escravizados buscaram mudanças no exercício da escravidão dentro do engenho, ou quando o escravizado fugia após ser vendido para um outro senhor. Fazendo isto, o escravizado pressionava o seu comprador para devolvê-lo ao seu antigo senhor, pois sabia que nenhum senhor gostaria de ter entre os seus escravizados um fugitivo contumaz. De forma contrária, às vezes, o escravizado fugia à procu- ra de um outro senhor que o comprasse; caso o seu senhor não aceitasse a negociação, ele poderia continuar fugindo e, portanto, dando prejuízos e maus exemplos, até que seu senhor resolvesse vendê-lo. Existiam também as fugas temporárias. Era comum a fuga por alguns dias, quando em geral o escravizado ficava nas imediações da moradia de seu senhor, às vezes para cumprir obrigações religiosas, outras para visi- tar parentes separados pela venda, outras, ainda, para fazer algum “bico” e, com o dinheiro, completar o valor da alforria. Os Quilombos Os quilombos ou mocambos existiram desde a época colonial até os últimos anos do sistema escravista e, assim como as fugas, foram comuns em todos os lugares em que existiu escravidão. A formação de quilombos pressupõe um tipo específico de fuga, a fuga rompimento, cujo objetivo maior era a liberdade. Essa não era uma alternativa fácil a ser seguida, pois significava viver sendo perseguido não apenas como um escravo fugi- do, mas como criminoso. O quilombo mais conhecido no Brasil foi Palmares. Palmares foi um quilombo formado no século XVII, na Serra da Barriga, região entre os estados de Alagoas e Pernambuco. Localizado numa área de difícil acesso, os aquilombados conseguiram formar um Estado com estrutura política, militar, econômica e sociocultural, que tinha por modelo a organização social de antigos reinos africanos. Calcula-se que Palmares chegou a possuir uma população de 30 mil pessoas. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 25 Depois da abolição definitiva da escravidão no Brasil, em 1888, as comunidades negras deram outro sen- tido ao termo “Quilombo”, não sendo mais utilizado como forma de luta e resistência ao cativeiro, mas sim como morada e sobrevivência da família negra em pequenas comunidades, onde seus valores culturais eram preservados. Tais comunidades receberam diferentes nomeações: remanescentes de quilombos, quilombos, mocambos, terra de preto, comunidades negras rurais, ou ainda comunidades de terreiro. Religião e Cultura Religiosidade Negra As diferentes origens dos africanos trazidos para o Brasil fizeram com que aqui se de- senvolvessem diferentes tradições religiosas, que variaram de acordo com as localidades para as quais eles fo- ram levados. No Sudeste brasileiro, por exemplo, a maior parte da população escrava anterior ao fim do tráfico, em 1850, era composta de africanos oriundos da região centro-ocidental, vindos principalmente do Congo e de Angola. Daí ter se desenvolvido uma religiosidade de matriz africana que cultuava os ancestrais e os inquices (como eram chamados genericamente as entidades dos cultos congo-angolanos no Brasil). Já o Maranhão e a Bahia, receberam muitos africanos da região do reino do Daomé, chamados de jejes na Bahia e de minas no Maranhão. Estes grupos cultuavam deuses chamados de voduns. Para a Bahia vieram também grupos que falavam a língua iorubá, que cultuavam deuses denominados orixás. A fusão de elementos das tradições jejes e nagôs deu origem ao candomblé baiano. As irmandades religiosas constituíam outro aspecto da religiosidade negra do Brasil escravista. Alguns afri- canos vindos de regiões da África, onde o catolicismo já havia penetrado, como o Congo e Angola, já chegaram ao Brasil como católicos. Outros se convertiam no Brasil quando, por imposição da cultura senhorial, padres católicos eram contratados pelos senhores para iniciarem os escravizados no cristianismo. Possuidores de suas próprias crenças, os escravizados se deixavam converter de forma superficial, e quan- do adotavam o catolicismo, o faziam através de seu próprio repertório religioso e cultural. O que fez com que o catolicismo praticado pelos africanos e descendentes possuísse muitas características das religiões de matriz africana, como as músicas e danças, as oferendas, as promessas e as festas. Além do que, para a maior parte dos escravizados, adotar o catolicismo não significava abandonar as religiões africanas, praticava-se o catoli- cismo na frente do senhor e as religiões africanas pelas costas. O exercício da prática católica pelos negros foi feito através das irmandades religiosas. Estas organizavam festas em homenagem aos padroeiros, os mais comuns eram Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Além das festas e obrigações religiosas as irmandades juntavam dinheiro para compra de alforria e se constituíam em importantes espaços de fortalecimento de laços de união entre escravos e libertos. Entre as contribuições mais expressivas da cultura africana estão o samba, o carnaval, o futebol, a capoeira e o candomblé (este mais diretamente associado à cultura baiana). À exceção do futebol, todos fazem parte do repertório cultural afro-brasileiro. Porém, o marcante estilo do futebol brasileiro, com seu molejo e criatividade, também é inseparável da influência afro. Sambas, batucadas, candomblés e o exercício da capoeira foram práticas duramente reprimidas pelo Estado brasileiro em épocas anteriores à década de 1930. A partir da dé- cada de 1920, começou a ganhar corpo entre a intelectualidade brasileira a ideia da miscigenação como algo positivo. Essas ideias da intelectualidade brasileira ganhariam uma feição prática com a chegada de Getúlio Vargas ao poder eos ideais nacionalistas do Estado Novo. Ao longo dos quinze anos do governo Vargas (1930-1945), várias medidas foram tomadas no sentido de valorização de uma cultura nacional. Dentre essas medidas de- vem ser citadas a valorização do samba e a descriminalização da capoeira e do candomblé. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 26 História dos povos indígenas do Brasil: luta por direitos e desafios atuais • Indígena: em 1492, quando chegou à América, Colombo achou que tinha desembarcado nas Índias e chamou de índios os habitantes da região. O nome resultou de um erro e contém a falsa visão de que todos os habitantes da América nesse período eram iguais, com a mesma cultura. Portanto hoje se prefere empregar o termo indígena. História dos Povos Indígenas e a Formação Sociocultural Brasileira6 Segundo o censo do IBGE de 20107, o Brasil conta com uma população de 896.917 pessoas que conside- ram-se indígenas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproxima- damente a 0,47% da população total do país. A maior parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, situadas no interior de 700 Terras Indí- genas, de norte a sul do território nacional. Esses números representam os sobreviventes da colonização do território brasileiro ao longo de 500 anos de exploração. Ao ponto que estima-se que, na época da chegada dos europeus, fossem mais de 1.000 povos, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Sendo que, nos dias hoje, encontramos no território brasileiro 246 povos falantes de mais de 150 línguas diferentes. Contudo para tratar o assunto na atualidade, é necessário ter em mente seis pontos: Ocupação: populações humanas já habitavam a terra hoje denominada Brasil antes da chegada dos euro- peus, com ocupações que variam entre 40.000 e 2.000 anos antes do presente, e que ainda se mantinham por volta de 1.500. Essas populações habitavam territórios que interagiam com seu modo de vida e seus costumes. Origem: não existe um consenso sobre a origem das populações indígenas. Pesquisas apontam migrações vindas do norte da América, da Polinésia e de outras áreas do planeta. Essas populações foram chamadas de nativas ou originárias por já habitarem o lugar antes da chegada dos europeus. Permanência: muitos dos grupos que habitam o território brasileiro possuem vínculos com os primeiros po- vos aqui estabelecidos. História: o ser humano surgiu na África, aproximadamente 3 milhões de anos atrás. A partir de então vem adaptando-se ao ambiente, até resultar no Homo sapiens sapiens, que data de 40.000 anos. Durante todo esse período, chamado de pré-história, ocorreram migrações para diversas partes do mundo, até chegar à América. As fontes de informação sobre esse período são de origem arqueológica, visto que as populações que habi- tavam o Brasil eram ágrafas (não possuíam sistema de escrita). A partir de 1500 esses grupos que haviam se separado pelos fluxos migratórios entram em contato novamente, com a chegada dos portugueses. Cultura: como qualquer outro grupo humano, os povos indígenas possuem culturas resultantes da história e das relações entre os homens e o ambiente que os cerca. Essa cultura sofreu diversas transformações por conta dos contatos realizados nos últimos 500 anos, de maneira nem sempre pacífica. Limites Geográficos: os limites entre países, estados ou municípios muitas vezes são criados a partir de re- ferências que não coincidem com os limites de habitação dos povos indígenas. Em muitos casos, os povos que hoje vivem em uma região de fronteiras internacionais já ocupavam essa área antes da criação das divisões entre os países; é por isso que faz mais sentido dizer povos indígenas no Brasil do que do Brasil. Discussões Sobre os povos indígenas, pela visão dos portugueses “eles eram selvagens e muito cruéis”. Essa visão, construída com base nos valores europeus da época marcou o processo de colonização. Alguns arqueólogos afirmam que a ocupação da América ocorreu há cerca de 15.000 anos. Outros, porém, dizem que isso ocorreu antes, por volta de 50.000 anos atrás. 6 http://pib.socioambiental.org/ 7 https://indigenas.ibge.gov.br/graficos-e-tabelas-2.html Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 27 Seja como for, o fato é que boa parte do território hoje conhecido como Brasil já era ocupado por grupos humanos há 10.000 anos. A cultura e as formas de organização social desses grupos eram diferentes umas das outras. Alguns desses grupos são chamados atualmente de povos de tradição Humsitá. Eles ocupavam o que é hoje a região Sul do Brasil e eram habilidosos fabricantes de instrumentos de pedra. Haviam os sambaquis que habitavam principalmente o litoral. Viviam, sobretudo, da pesca e da coleta de moluscos, como o caranguejo. Outros grupos eram os que habitavam a atual região amazônica e produziam objetos de cerâmica. O grupo dos Itararé, que ocupavam as regiões Sul e Sudeste do Brasil atual e faziam suas habitações abaixo do solo, além de diversos outros grupos com características próprias. A relação entre os povos indígenas e os europeus sempre foi bastante agitada. Durante os primeiros anos do contato foram estabelecidas relações de comércio, principalmente do Pau-Brasil, com portugueses e fran- ceses. Percebendo a concorrência, esses países buscaram aliados nos grupos que habitavam o litoral e que já possuíam histórico de rivalidade com outras tribos. Com a decisão de Portugal de ocupar e colonizar efetivamente o Brasil, muitos índios acabaram aprisiona- dos e escravizados, utilizados como mão-de-obra principalmente nas plantações de cana-de-açúcar. Como havia a necessidade de cada vez mais terras para o cultivo da cana, os portugueses adentravam cada vez mais para o interior, o que gerava sempre novos conflitos ao tentar expulsar os índios de suas terras. A busca por ouro e pedras preciosas empreendida pelas bandeiras de exploração também resultou na captura de muitos indígenas. A situação amenizou-se com a chegada dos padres da Companhia de Jesus ao Brasil, que condenavam o trabalho forçado dos índios. Os padres construíram colégios e reduções, onde buscavam converter os índios para a fé católica. Muito mais do que um local para a conversão, os índios enxergavam nessas construções formas de fugir da exploração do trabalho forçado e de seus inimigos. Com a expansão para o interior do Brasil, principalmente durante os séculos XIX e XX, a situação indígena piorava cada vez mais. Aqueles que não eram mortos durante os conflitos por terras acabavam confinados em aldeamentos e reservas, que representavam uma pequena parte do território que habitavam e de onde tiravam seu sustento. Muitos índios acabaram também sendo expulsos dessas reservas, obrigados a migrarem para as cidades ou sendo realocados em reservas com povos totalmente diferentes, em alguns casos até mesmo povos em que existia uma relação de conflito. Os Indígenas em 1500 Por volta de 1500, quando os portugueses aqui chegaram, alguns desses povos ainda existiam; outros já tinham desaparecido havia algum tempo. Estudos atuais revelam que por essa época, viviam no atual território brasileiro mais de 1.000 povos diferentes, com crenças, hábitos, costumes e formas de organização específi- cas. Esses povos falavam cerca de 1.300 línguas distintas, agrupadas em dois troncos linguísticos: o Tupi e o Macro-Jê. Mas havia muitas outras famílias linguísticas, como a dos Aruaque e a dos Caraíba, da atual região amazônica. De modo geral, os povos do tronco linguístico Tupi viviam no litoral. Estre eles estavam povos como os Gua- rani, os Tupinambá e os Tabajara. Já os povos do tronco Macro-Jê – como os Bororó, os Carajá, os Tarairu, os Cariri – viviam, em grande parte, mais para o interior do território, ou no sertão, como os portugueses diziam na época. - Povos do tronco Jê Xavantes: autodenominados Akwén,entraram em contato com mineradores na província de Goiás, no início do século XVIII. Atualmente habitam o estado do Mato Grosso. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 28 Apinayé: entram em contato com jesuítas no Tocantins em 1633, sendo contrários à ideia de pacificação. Estiveram em conflito com portugueses e com o governo brasileiro ao longo de vários séculos. Atualmente habitam o estado de Tocantins. Kaingang: São um dos grupos indígenas mais numerosos do Brasil, com uma população estimada em apro- ximadamente 30 mil pessoas. Habitam os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Desde o século XVI possuem contato com europeus, quando eram denominados Guaianazes. Eram também conhecidos por coroados, devido ao corte de cabelo que utilizavam, semelhante a uma co- roa. Sua relação com os colonizadores e funcionários do governo sempre adquiriram caráter hostil, até que em meados do século XIX seus líderes resolveram aliar-se aos não índios, auxiliando na pacificação dos diversos grupos espalhados pelo interior dos estados que ainda habitam. Kayapó: habitantes da região da floresta amazônica. Atualmente vivem nos estados de Mato Grosso e Pará. Timbira: entram em contato com os não índios a partir do início do século XVIII, na capitania do Piauí. Atual- mente habitam os estados de Tocantins, Pará e Maranhão. Xokleng: habitantes do sul do Brasil, os primeiros registros de contatos datam do século XVIII. Vivem atual- mente no estado de Santa Catarina. - Povos do tronco Tupi Caetés: ficaram conhecidos pelo episódio em que teriam supostamente feito um banquete com a tripulação que naufragou juntamente com Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo português a chegar no Brasil. Habita- vam a região dos estados de Alagoas e Pernambuco. Potiguaras: povo que tinha no caráter guerreiro seu valor fundamental. Praticavam a antropofagia (ato de comer partes de um ser humano) ritual. Foram inimigos dos portugueses durante o processo de conquista do território, formando alianças com franceses. Viviam do litoral do atual estado da Paraíba ao estado do Ceará. Eram inimigos dos Tabajaras. Tabajaras: viviam no litoral dos estados de Alagoas e Sergipe, migrando para a Paraíba, território de domínio Potiguara, o que gerou grandes conflitos entre os povos. Os Tabajaras acabaram aliando-se aos portugueses após os primeiros contatos. Tamoios: também eram praticantes da antropofagia. Habitavam o litoral norte de São Paulo e o Vale do Pa- raíba, sendo inimigos dos portugueses. Tupinambás: habitaram porções de terra no norte da Bahia, Sergipe e também do litoral norte do Rio de Ja- neiro até São Sebastião em São Paulo. Foram inimigos dos Tupiniquim e também dos portugueses. Tupiniquins: viviam na região do atual estado da Bahia e possuíam uma grande concentração de pessoas no território do atual estado de São Paulo. Foram aliados dos portugueses. Influências na Formação da Sociedade Brasileira Muitas das práticas sociais e culturais do Brasil atual têm origem nas sociedades indígenas, a começar pela alimentação. Ao chegarem ao Brasil em 1500, os portugueses saborearam os alimentos nativos da América, conhecidos e cultivados há muito tempo pelos indígenas. Assim, iniciou-se o consumo pelos portugueses da mandioca, do milho, da batata-doce, do amendoim, da abóbora, do abacaxi, do caju, da pimenta, do mamão, entre outros. O hábito de assar os alimentos, o hábito de dormir em redes, tão difundido, sobretudo no Nordeste, o consumo de bebidas preparadas a partir de guaraná e mate também tem origem nos costumes indígenas. Técnicas como a pesca utilizando tarrafa (rede), a coivara (queimada dos campos para limpeza) e o mutirão, originado da prática tupi de realização coletiva de determinada atividade necessária para a manutenção da organização da tribo, foram também incorporadas. A medicina também utilizou-se da sabedoria indígena para auxiliar na cura dos homens. A quinina, empre- gada para a malária, ainda hoje é utilizada como medicamento básico. A copaíba, que os tupis utilizavam para curar feridas, igualmente continua a ser utilizada. Podemos citar, ainda, o curare, usado como anestésico, e a pajelança (invocação dos espíritos para efetivar a cura de doenças), praticada mediante a intermediação dos pajés. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 29 Também o folclore foi e ainda é marcado por influências indígenas. Destacamos o curupira, que protegia a caça e a natureza, garantindo um permanente equilíbrio entre as necessidades do homem e a preservação do ambiente natural; o boto-tucuxi, que, no folclore amazônico, era o responsável pela gravidez de jovens virgens e de mulheres cujos maridos costumavam ausentar-se por longos períodos. Nosso vocabulário teve uma grande contribuição de diversas etnias em sua formação. Até hoje muitos no- mes de lugares, pessoas, objetos e práticas do dia tem sua origem em palavras indígenas. Organização dos Índios Relações Familiares Os documentos produzidos pelos portugueses e outras evidências históricas revelam que boa parte dos po- vos indígenas viviam em pequenas aldeias. Cada aldeia era formada por um conjunto de quatro a sete malocas (tipo de cabana comunitária). Essas aldeias eram circulares, em forma de ferradura ou lineares, como por exemplo, duas fileiras de casas, formatos ainda hoje utilizados pelos indígenas. As malocas eram feitas de galhos de árvores e cobertas com palha. Uma característica comum às aldeias é a existência de um espaço central entre as habitações onde se orga- nizam cerimônias religiosas e festas, e onde as crianças brincam. Em tupi, esse espaço é chamado de ocara. Crenças e Costumes As crenças religiosas dos povos indígenas estavam estreitamente relacionadas com a natureza. Para eles, a chuva ou a seca, uma boa caçada ou uma pescaria bem-sucedida deviam-se à ação de várias entidades e espíritos ligados à natureza. O boitatá, por exemplo, protegia o campo dos incêndios, representado por uma serpente de fogo; o curupira, descrito como um indígena de cabelos vermelhos com os pés virados para trás, era o protetor da fauna e da flora. A figura central dos ritos religiosos era o pajé, mediador entre o mundo terreno e o espiritual. Ele entrava em contato com os espíritos da floresta para curar as doenças e era um grande conhecedor dos remédios naturais extraídos das plantas. Na época da chegada dos portugueses à América, os indígenas conheciam mais de 3 mil diferentes es- pécies de ervas, que usavam para combater os mais variados problemas de saúde. Na Europa, o número de remédios não passava de cem. Para os indígenas, a terra, a floresta, a água e os animais eram de todos, não havia propriedade privada. Para resolver situações importantes – como decidir uma guerra -, formava-se um conselho composto dos che- fes das grandes famílias e as decisões eram tomadas coletivamente. O morubixaba – líder da aldeia – era o conselheiro encarregado de ajudar as pessoas a resolver pequenos conflitos. Podemos dizer, portanto, que nas sociedades indígenas não havia privilégios nem desigualdades sociais. A educação das crianças era tarefa de toda a comunidade, e não só da família. As crianças eram muito bem tratadas e não havia castigos físicos. Da mesma forma, os idosos eram respeitados como guardiões da história e do saber de seu povo. Eram eles que transmitiam aos mais jovens os valores e as crenças do grupo. Os indígenas que viviam nas terras que hoje formam o Brasil desconheciam a escrita. Assim, o conheci- mento e os saberes acumulados pelos grupos eram transmitidos de geração em geração por meio de histórias narradas oralmente. Além da arte de contar histórias, muitos grupos desenvolveram habilidades como produtores de arte plumá- ria, que consiste na criação de enfeites e adornos de penas coloridas em combinações de grande beleza. Tam- bém na cerâmica, nos traçadose nas pinturas corporais alguns desses povos produziram obras belíssimas. As tarefas que garantiam a sobrevivência do grupo eram feitas por todos. Assim também era dividido o re- sultado do trabalho coletivo. Derrubar árvores, caçar, pescar, preparar a terra para o plantio, construir malocas, armas e canoas, em geral, era trabalho dos homens. As mulheres, além de cuidar das crianças pequenas e cozinhar, trabalhavam na coleta de frutos, na plantação de roças e na colheita. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 30 Os alimentos variavam conforme a disponibilidade dos recursos naturais e as características de cada povo indígena. Grupos que moravam próximo a rios e mares tinham na pesca sua principal fonte de alimento. Já os que viviam no interior do território, além da caça, se dedicavam muitas vezes à prática da agricultura. Planta- vam principalmente milho, mandioca, abóbora, inhame e batata-doce. Com o grande conhecimento que tinham da natureza, alguns povos indígenas aprenderam a extrair o ve- neno de certas variedades de mandiocas. Feita a extração do veneno, transformavam a raiz em farinha seca, tapioca, beiju e outros produtos. Vários alimentos que consumimos hoje no Brasil são uma herança direta das culturas indígenas. Antropofagia na Cultura Indígena A antropofagia praticada pelos povos indígenas fazia parte de sua cultura, e é sob esse prisma que precisa- mos compreender o fenômeno. Os indígenas não comiam outros seres humanos por estarem com fome ou por não terem comida. Para algumas etnias, comer o corpo de um ente querido constituía um ato de amor: mães e pais, por exem- plo, poderiam comer restos mortais de seus filhos. Outra forma de antropofagia era aquela em que grupos ou povos comiam o corpo de um guerreiro apri- sionado. Esse costume fazia parte de um ritual mais amplo: o prisioneiro poderia viver muito tempo junto ao grupo que o aprisionou, era bem alimentado e chegava mesmo a se casar com uma mulher da aldeia. No dia da execução, aldeias vizinhas eram convidadas para a festa. Por meio dessa morte e da ingestão do corpo do guerreiro, a aldeia vingava simbolicamente os parentes mortos pela aldeia inimiga. Em outros casos, julgavam adquirir a força e a coragem do inimigo ao ingerir partes do corpo do prisioneiro morto. Papel dos Jesuítas Muitos padres da Companhia de Jesus, conhecidos por Jesuítas condenavam as ações praticadas pelos colonos portugueses em relação aos escravos indígenas, já que a rotina de trabalho nos canaviais era árdua e durava longas horas diárias. Por pressão dos Jesuítas, a Coroa portuguesa estabeleceu que os escravos fossem liberados de suas atividades durante os domingos para praticar a fé cristã e frequentar a missa. Apesar da determinação real, a medida não era seguida por muitos senhores de engenhos e quando era praticada, muitos indígenas acabavam usando o dia para descansar ou praticar outras atividades que lhes rendessem uma alimentação complemen- tar, deixando de lado as obrigações religiosas. Os Jesuítas criaram aldeamentos com o objetivo de batizar os índios na fé católica. Com a ideia de que po- deriam alcançar o paraíso e praticar a fé cristã, os índios eram catequizados. Para conseguir uma aproximação e conquistar os interesses indígenas, os Jesuítas aprenderam sua linguagem e seus costumes, para pouco a pouco incorporar elementos religiosos em sua cultura e finalmente torná-los completamente cristãos. O abandono das antigas crenças e aceitação da fé cristã, mesmo quando imposta, era considerada pelos jesuítas, como a forma mais eficiente para torná-los mais pacíficos, além de facilitar a vida dos colonos pois au- xiliariam em guerras contra tribos consideradas perigosas e hostis, além dos invasores franceses e holandeses que possuíam grande interesse pelo território brasileiro. É importante notar o ponto de vista indígena, muitas vezes atraídos para os aldeamentos com o objetivo de fugir da escravidão imposta pelos colonos e das guerras praticadas por seus rivais. Aldeamentos Indígenas Os aldeamentos foram os locais de trabalho dos missionários, que buscavam catequizar as populações indígenas. Utilizados como forma de atração, os aldeamentos normalmente estavam localizados próximos às povoações coloniais, para incentivar o contato com os portugueses. Entre os vários exemplos de estudo da língua indígena para a utilização como ferramenta de conversão é possível citar os padres José de Anchieta e António Ruiz de Montoya. O primeiro dicionário conhecido da língua Tupi foi escrito pelo padre José de Anchieta e publicado em 1595, com o nome de “Arte de Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil”. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 31 Anchieta, que missionou no Brasil desde 1553, notava (como seus contemporâneos) a grande semelhança da língua falada pelos indígenas do litoral: os tupis. Em uma carta de 1584, ele observa que todos os povos do litoral “têm uma mesma língua que é de grandíssimo bem para a sua conversão”. Seriam assim povos cuja identidade estaria associada à língua geral, como os jesuítas chamavam o “tupi universal” que inventaram. Ao lado da inegável semelhança de todos os dialetos tupis, o agrupamento das diversas “castas” resolveu-se na necessidade homogeneizadora que os primeiros missionários viam para lidar com os grupos nativos. Tratava-se de entender para transformar, compreender as culturas indígenas para substituí-las pelo Evange- lho. Os jesuítas, desde cedo, determinaram que a catequese, ou a conquista das almas, seria mais facilmente realizada se usassem da língua dos naturais. Assim, a Gramática da língua mais usada na costa do Brasil surge com um instrumento da conversão do indígena. O primeiro dicionário da língua Guarani foi escrito no ano de 1639 pelo padre António Ruiz Montoya. Publi- cado em Madrid, no dicionário de 814 páginas traz cerca de 8.100 palavras. Não por acaso a publicação que traduz para o castelhano recebeu o nome “Tesouro da Língua Guarani”. Sobre a relação dos indígenas com os aldeamentos, como bem destacam Mota e Chagas8, ao tratar das re- duções jesuíticas na região do Guairá (atual Paraná), os índios guarani, por seu lado, fizeram alianças, acordos e guerras, no sentido de garantir sua liberdade. É preciso lembrar que, quando fizeram aliança com os jesuítas, eles buscaram uma forma de não ser sub- metidos, por exemplo, à servidão (encomiendas). Para entender a história da ocupação dos territórios do Guai- rá, é preciso considerar as relações entre os diversos grupos: conquistadores e seus interesses, os Guarani, os Kaingang (inimigos). Com expedições denominadas de descimentos, os missionários convenciam os índios através da retórica a descerem de suas aldeias para se juntarem a novos aldeamentos. Pela legislação, o aldeamento garantia a liberdade indígena, no entanto, nesse ambiente, os indígenas foram forçados a adaptar-se a novos elementos culturais, sofrendo interferência religiosa e moral. Eram obrigados a trabalhar e por lei deveriam receber paga- mento, uma nova realidade completamente diferente da sua tradição. Os jesuítas nunca foram contrários ao trabalho indígena e, muito menos, à sua inserção no mundo colonial. O que eles não sustentavam era a servidão natural dos mesmos e a sua escravização, salvo por motivo de “guerra justa”. Para os jesuítas, o objetivo final da catequização e conversão começava a mostrar seu sucesso a partir da destruição e da perda dos costumes dos povos indígenas. O modelo, tal como inaugurado pelos jesuítas, perdurou ao longo de todo o período colonial, embora tenha sofrido significativas alterações com a política indigenista pombalina, inaugurada com o Diretório dos Índios (1757-1758), que já apostava na secularização das aldeias, e reforçada após a expulsão dos jesuítas em 1759- 60. Diretoria-Geral e Diretorias Parciais dos Índios.9 A criação das DiretoriasGerais e Parciais dos Índios por todo o território brasileiro foi originada por meio do Regulamento das Missões de Catequese e Civilização dos Índios criado pelo Decreto n° 426 de 24 de julho de 1845. As Diretorias dos Índios tinham como responsabilidade as mediações entre os índios e os Governos Imperial e Provincial. Segundo o Regulamento, cada Província teria um Diretor Geral de Índios, nomeado pelo Imperador que de- veria interagir com o respectivo Presidente da Província para algumas questões, como por exemplo, requisitar os objetos que o Governo Imperial enviasse para os índios, a fim de distribuí-los pelos Diretores das Aldeias e pelos Missionários. 8 Chagas, Nádia Moreira; Mota, Lúcio Tadeu. O Guairá nos Séculos XVI e XVII – As Relações Intercultu- rais http://projetos.unioeste.br/projetos/cidadania/images/stories/ArquivosPDF/biblioteca/O_Guair_nos_sec._ XVI_e_XVII_.pdf 9 http://www.ambienteterra.com.br/paginas/indio/seusdireitos.html Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 32 Com relação à Assembleia Provincial, deveria propor “a criação de Escolas de primeiras Letras para os lu- gares, onde não baste o Missionário para este ensino”. As Aldeias eram controladas por um Diretor, nomeado pelo Diretor Geral. Tanto o Governo Imperial e quanto o Governo Provincial seriam juridicamente responsáveis pela Diretoria. Essa divisão de responsabilidade apenas aconteceu a partir do Ato Adicional de 12 de agosto de 1834, que alte- rou a constituição e, dentre outros, criou as Assembleias Legislativas Provinciais, delegando-lhes competências legislativas e materiais, ou seja, competência de editar leis e de colocá-las em prática, incluindo a de elaborar as leis orçamentárias e a de “promover, cumulativamente com a assembleia e o governo geral, a organização da estatística da província, a catequese, a civilização dos indígenas e o estabelecimento de colônias”. Na Província de São Paulo, o Diretor Geral dos Índios nomeado pelo Imperador foi o Brigadeiro José Joa- quim Machado de Oliveira, que, por sua vez, deveria nomear diretores leigos para cada aldeia indígena da província. Machado de Oliveira se posicionava a favor da vertente que via a catequese e civilização como saída do estado de barbárie, contrariando aqueles que não acreditavam ser possível qualquer mudança. Mesmo que o Regulamento das Missões fosse um passo a favor dessa vertente, ainda assim, era composto por ideias bas- tante diversificadas. O aldeamento de Itariri-SP chama atenção, por ser um dos poucos que Machado de Oliveira considerava ter dado certo. Ele foi criado em 21 de janeiro de 1847, no município de Iguape, porque, segundo o diretor geral, existiram famílias de indígenas Guarani Nhandeva, que deixaram as matas, em 1837 e ali se asilaram, vivendo do trabalho braçal onde era este exigido, e talvez sob a condição de escravos. Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI)10 O Serviço de Proteção aos Índios (SPI), instituição criada pelo decreto nº 8.072, de 20 de junho de 1910 com o nome de Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN). Tinha por tarefa a pacificação e proteção dos grupos indígenas, bem como o estabelecimento de núcleos de colonização com base na mão de obra sertaneja. As duas instituições foram separadas em 6 de janeiro de 1918 pelo decreto Lei nº 3.454, e a instituição pas- sou a ser denominada SPI, que foi extinta em 1967 quando da criação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). A origem do SPI estava nas redes sociais que ligavam os integrantes do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio (MAIC), Apostolado Positivista no Brasil e Museu Nacional, pois o MAIC previu desde a sua criação a instituição de uma agência de civilização dos índios. As atividades das Comissões de Linhas Telegráficas em Mato Grosso deram notoriedade a Cândido Mariano da Silva Rondon. Ele e outros militares positivistas que integravam redes de relações políticas regionais e na- cionais, vinculadas a instituições civis e aparelhos governamentais, sediados na Capital Federal, se envolveram numa polêmica pública relativa à “capacidade ou não de evolução dos povos indígenas”. A partir de 1908, Rondon propôs que fosse criada uma agência indigenista do Estado brasileiro tendo por finalidades: a) estabelecer de uma convivência pacífica com os índios; b) garantir a sobrevivência física dos povos indígenas; 10 BRASIL. Legislação indigenista. Brasília: Senado Federal/Subsecretaria de Edições Técnicas, 1993. Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1953. Relatório das atividades do Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1953. Rio de Janeiro: Serviço de Proteção aos Índios, 1953. Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1954. Relatório das atividades do Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1954. Rio de Janeiro: Serviço de Proteção aos Índios, 1954. FREIRE, Carlos Augusto da Rocha. Saudades do Brasil: Práticas e representações do campo indigenista no século XX. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – PPGAS/MN, UFRJ, Rio de Janeiro, 2005. LIMA, Antonio Carlos de Souza. Sobre indigenismo, autoritarismo e nacionalidade: considerações sobre a constituição do discurso e da prática da “proteção fraternal” no Brasil. In: OLIVEIRA, João Pacheco de (Org.). Sociedades indígenas e indigenismo no Brasil. Rio de Janeiro: Marco Zero: Ed. UFRJ, 1987. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 33 c) estimular os índios a adotarem gradualmente hábitos “civilizados”; d) influir “amistosamente” na vida indígena; e) fixar o índio à terra; f) contribuir para o povoamento do interior do Brasil; g) possibilitar o acesso e a produção de bens econômicos nas terras dos índios; h) empregar a força de trabalho indígena no aumento da produtividade agrícola; i) fortalecer as iniciativas cívicas e o sentimento indígena de pertencer à nação brasileira. As iniciativas do SPI envolviam a intervenção na vida indígena através de um ensino informal, a partir das necessidades criadas, evitando-se influenciar a organização familiar. O objetivo era impedir conflitos entre diferentes povos enquanto o SPI introduzia inovações culturais, prevendo possíveis mudanças nos locais de habitação dos índios. Foram estimuladas mudanças no trabalho indígena com a difusão de novas tecnologias agrícolas e o ensino da pecuária, além da arregimentação de índios para os trabalhos de conservação das linhas telegráficas. A experiência de Rondon no trato com povos indígenas e suas ideias positivistas sobre os índios, conver- gentes com os projetos de colonização e povoamento definidos na criação do MAIC, originaram o convite que o tornou primeiro diretor do SPI. Dessa forma, foi instaurado um novo poder estatizado que assegurava o controle legal das ações incidentes sobre os povos indígenas. Esse poder foi formalizado na malha administrativa do SPI, a partir de um código legal (regimentos, decretos, código civil, etc.). Para a administração da vida indígena foi formalizada uma definição legal de índio, através do Código Civil de 1916 e do Decreto nº 5.484, de 1928. Os indígenas tornaram-se tutelados do Estado brasileiro, um direito que implicava num aparelho administrativo único, mediando as relações índios/Estado/sociedade nacional. A terra, a representação política e o ritmo de vida foram administrados por funcionários estatais, com os índios adotando uma indianidade genérica. Os indigenistas do SPI trabalharam em diferentes tipos de postos indígenas (de atração, de criação, de nacionalização, etc.), assim como em povoações e centros agrícolas. Dependendo de recursos financeiros e políticos, o SPI adotou um quadro funcional heterogêneo, envolvendo desde militares positivistas a trabalhado- res rurais sem qualquer formação. A pedagogia nacionalista empregada por esses agentes controlava asde- mandas indígenas, mas podia resultar em situações de fome, doenças e de população, contrárias aos objetivos do Serviço. A ação do SPI foi marcada por contradições identificadas como “paradoxos indigenistas”, pois tinha por ob- jetivo respeitar as terras e a cultura indígena, mas agia transferindo índios e liberando territórios indígenas para colonização, impondo uma pedagogia que alterava todo o sistema produtivo indígena. De 1910 a 1930, o SPI fez parte do então Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio; de 1930 a 1934, esteve ligado ao Ministério do Trabalho; de 1934 a 1939, foi integrado ao Ministério da Guerra, como parte da Inspetoria de Fronteiras; em 1940 voltou ao Ministério da Agricultura e, mais tarde, passou para o Ministério do Interior. Em 1939, foi criado o Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI) com o objetivo de atuar como órgão formulador e consultor da política indigenista brasileira. A ideia seria a de que o SPI daí por diante teria somente atribuições executivas, o que não ocorreu. A atua- ção do SPI se concentrou na pacificação de grupos indígenas em áreas de colonização recente. Em São Paulo, Paraná, Espírito Santo, Mato Grosso e outras regiões foram instalados postos indígenas. Após a consolidação da pacificação eram feitas negociações com os governos estaduais para a criação de reservas de terras para a sobrevivência física dos índios. Progressivamente eram introduzidas atividades educacionais voltadas para a produção econômica e ações destinadas a atender as condições sanitárias dos índios. O SPI buscou garantir a posse de terras aos índios através da concessão de terras devolutas. Inúmeras propostas foram feitas pelo SPI de criação de terras indígenas e que foram negadas pelos governos estaduais. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 34 Nos postos indígenas eram instaladas oficinas mecânicas, engenhos de cana-de-açúcar e casas de farinha, e os índios treinados em diversos ofícios. As crianças eram enviadas as escolas dos postos, sendo que estas também recebiam filhos de colonos de empregados dos postos e crianças da população vizinha, o que permitia um processo de integração da população. O SPI enfrentou durante toda a sua existência problemas de carência de recursos e dificuldades de qualifica- ção de seu pessoal. A atuação do órgão acabou por gerar resultados opostos a sua proposta. Eram frequentes as denúncias de casos de fome, doenças, assassinatos e escravização. No início da década de 1960, sob a acusação de genocídio, corrupção e ineficiência o SPI foi investigado por uma Comissão Parlamentar de In- quérito (CPI). O processo levou à demissão ou suspensão de mais de cem funcionários de todos os escalões. Em 1967, durante o regime militar, o SPI e o CNI (Confederação Nacional da Industria) foram extintos e substituídos pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Assistência Sanitária A disseminação de doenças e a ocorrência de epidemias para as quais os povos em guerra ou dominados tinham baixa imunidade contribuiu para a conquista dos povos indígenas do Brasil na época colonial. O contá- gio da varíola, gripe, tuberculose, pneumonia, coqueluche, sarampo e outras viroses levaram à dizimação de inúmeros povos indígenas, à mortandade de milhares de índios. Nas primeiras décadas do século XX, essa realidade não foi alterada: nos grupos recém-contatados pelo SPI, aldeias inteiras foram destruídas por doenças pulmonares. Ao causar alta mortalidade, o pós-contato ini- ciava o desequilíbrio das condições de sobrevivência de um povo que já enfrentava doenças endêmicas como verminoses e malárias, passando a conviver com a desnutrição, a dificuldade de produção de alimentos e a falta de cuidados sanitários. O SPI dificilmente conseguia controlar, estabilizar e melhorar a condição sanitária de povos indígenas que enfrentavam surtos epidêmicos. Em campo, no início dos anos 50, o antropólogo Darcy Ribeiro foi testemunha da morte de dezenas de índios Urubu Kaapor dizimados por sarampo e coqueluche. Os postos indígenas pos- suíam alguns medicamentos, mas a maioria de seus encarregados eram leigos em assistência sanitária. Assistência Educacional Dos antigos aldeamentos missionários aos postos indígenas do SPI, a alfabetização de crianças e adultos indígenas visava consolidar a sedentarização de um povo. Esse processo pedagógico envolvia cultos cívicos, aprendizado de trabalhos manuais, técnicas da pecuária e novas práticas agrícolas. Pressupunha também no- vos cuidados corporais, como o uso de vestimentas e o ensino de práticas higiênicas. Os postos indígenas instalavam oficinas mecânicas, engenhos de cana e casas de farinha, treinando os ín- dios em diversos ofícios, além de investir na educação para transformar os índios em trabalhadores nacionais. Desde o século XIX, crianças indígenas eram enviadas para as escolas de artífices existentes nas capitais estaduais como ocorreu em Manaus na gestão do SPI. A política de “nacionalização” dos índios esteve presente em quase todos os postos, onde a professora das crianças indígenas era quase sempre a esposa do encarregado, orientando essas crianças para a integração à população regional à medida que aceitavam também como alunos os filhos de colonos, dos empregados do posto e de fazendas vizinhas. Essas escolas não se diferenciavam das escolas rurais, do método de ensino precário à falta de formação do professor, predominando a formação de índios como produtores rurais voltados para o mercado regional. Assimilacionismo Cultural No dicionário a palavra assimilacionismo recebe a seguinte definição: “corrente que preconiza a assimilação de culturas periféricas pelas culturas dominantes”11. Por assimilacionismo entendemos que um determinado grupo cultural minoritário num processo de “decul- turação” esquecem os traços da sua cultura de origem e, simultaneamente, adquirem os da cultura dominante. 11 https://bit.ly/2v73uqH Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 35 Tem como base uma perspectiva ideológica que considera uma cultura superior à outra e supõe um papel passivo das culturas mais fracas: muitas vezes, ao grupo mais fraco exige-se mesmo que adote os traços do grupo dominante. Neste caso, uma das culturas elimina efetivamente a outra (ajustamento por eliminação). Na prática, no entanto, verifica-se que só alguns aspectos da cultura subordinada são eliminados em favor da cultura dominante. Em termos de comunidades migrantes, culturalmente diferentes e minoritárias, portanto mais fracas, a forma de reação a esta situação parece depender de duas condições: - primeiro, que haja uma opção clara e vigorosa dos indivíduos candidatos à integração, de se inserirem na sociedade de acolhimento; - segundo, que haja uma opção coletiva suficientemente clara e explícita da sociedade de acolhimento para reconhecer a identidade cultural própria e um estatuto de igualdade aos novos integrados. Museu do Índio (anos 1950)12 O Museu do Índio foi criado, em 1953, no Serviço de Proteção aos Índios – SPI, agência do Governo encar- regada de dar assistência aos índios no Brasil. No início da década de 60, o Museu foi transferido para o Conselho Nacional de Proteção aos Índios – CNPI, órgão responsável pelo assessoramento e formulação da política indigenista oficial da época. Em 1967, o Governo militar resolveu reunir o SPI, o CNPI e o Museu em um único órgão, a Fundação Nacional do Índio - FUNAI, onde a instituição está inserida até hoje. Atualmente, o Museu do Índio é uma importante instituição de pesquisa sobre línguas e culturas indígenas. Tem sob sua guarda documentos relativos à maioria das sociedades indígenas contemporâneas, constituídos de 15.840 peças etnográficas e 15.121 publicações nacionais e estrangeiras, especializadas em etnologia e áreas afins. Seus diversos Serviços são responsáveis pelo tratamento técnico de 76.821 registrosaudiovisuais e 833.221 documentos textuais de valor histórico e contemporâneo. Sob a direção do antropólogo Darcy Ribeiro, o Museu do Índio foi inaugurado no dia 19 de abril de 1953, no Rio de Janeiro. O prédio já foi residência oficial na época do império e abrigou, entre outras figuras políticas, o marechal Rondon, pioneiro na política indigenista no País. Em 1865 o imóvel foi doado para abrigar um órgão de pesqui- sas sobre as culturas indígenas brasileiras. Em 1910, se tornou sede do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e, entre 1953 e 1978, foi sede do Museu do Índio. Em 1978, o museu foi transferido para o bairro de Botafogo, na zona sul. A abertura do Museu do Índio não representou apenas um novo espaço para divulgação da cultura indígena. Ele exibia a temática indígena conjugada a um novo estilo museográfico, caracterizado pela elaboração de um projeto prévio, onde tanto o tema quanto os equipamentos expositivos foram pensados de modo que o resulta- do agradasse ao usuário. Para tanto o prédio passou por uma reforma, assinada por um arquiteto de renome que criou um novo siste- ma de iluminação, projetou as vitrines, distribuiu os espaços inserindo nele objetos e fotografias concatenados com o tema. O Museu do Índio abre suas portas atraindo o público devido ao grande apelo visual, abrigando em sua dependência arquivo textual, audiovisual e espaços para dinâmicas educativas. Provido de uma infraestrutura que conjugava conforto e conteúdo documental, o Museu do Índio, repre- sentado por Ribeiro, se lança como um novo fórum de debates para as políticas indigenistas até centrada no Museu Nacional marcadamente pela atuação de Heloisa Alberto Torres. Ribeiro não apenas assina a Certidão de Nascimento do Museu do Índio como é também responsável pelas primeiras coleções etnográficas autorais daquela instituição. 12 LEFEBVRE, H. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2001. MOREIRA, Ruy. A Nova Divisão Territorial do Trabalho e as Tendências de Configuração do Espaço Bra- sileiro. In: LIMONAD, Ester; HAESBAERT, Rogério & MOREIRA, Ruy (org.) Brasil Século XXI, por uma nova regionalização. São Paulo: Max Limonad, 2004. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 36 O casarão que abriga, atualmente, o Museu do Índio/FUNAI foi tombado como patrimônio de preservação cultural do país em 22 de fevereiro de 1967. Vinte anos depois, a construção também passou a ser considerada patrimônio do município do Rio de Janeiro, pelo decreto 6.934, de 9 de setembro de 1987. A história e trajetória do Museu do Índio é peculiar, por ter surgido de um órgão voltado à proteção das po- pulações indígenas, que desenvolveu uma seção de estudos, que não tinha como finalidade a pesquisa aca- dêmica; e sim pesquisas para dar um respaldo ao SPI. Essas pesquisas acabaram construindo um acervo, que gerou um processo museológico. Desde sua existência o museu esteve vinculado às pesquisas, salvo alguns momentos em que mudanças na estrutura impediram essa aproximação. Parque Nacional do Xingu (anos 1960) A criação do Parque do Xingu resultou de um longo processo de luta entre instituições do Estado brasileiro e setores da sociedade civil envolvendo o controle territorial e/ou privatização de terras. Sua superfície corres- ponde a uma pequena parcela da vasta região onde se encontrava presente, já no início do século XX, uma variedade significativa de etnias indígenas localizadas na bacia do alto rio Xingu no estado brasileiro de Mato Grosso. A partir dos anos 40 foi sendo sistematizado o contato entre setores da sociedade nacional, mais precisa- mente indigenistas com os grupos indígenas. Um posto de assistência do órgão oficial encarregado da tutela aos grupos indígenas no Brasil - o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) foi criado e instalado no Alto Xingu. Em 1952 foi apresentado ao Congresso Nacional um Anteprojeto para a criação de um parque nacional na referida região. Neste projeto estava previsto um perímetro bem maior que o atual, incluindo uma zona tampão de amortecimento do contato com as frentes de expansão, de proteção às nascentes da bacia hidrográfica e da preservação do meio ambiente imediatamente circunvizinho à região ocupada pela população indígena. Em 1961 foi criado pelo governo federal no alto Xingu o Parque Nacional do Xingu. Em 1973 é, por força do Estatuto do Índio, alterado na sua condição jurídica para parque indígena. A lei 6.001 de 1973 em seu artigo 28 define: Parque Indígena é a área contida em terra para posse dos índios, cujo grau de integração permita assistên- cia econômica, educacional e sanitária dos órgãos da União, em que se preservem as reservas de flora e fauna e as belezas naturais da região. O novo status remeteu o Parque do Xingu à subordinação da FUNAI – Fundação Nacional do Índio e, por- tanto, não mais subordinado ao IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Reno- váveis, caso permanecesse como parque nacional. Segundo a legislação ambiental brasileira parques nacionais correspondem a áreas geográficas extensas e delimitadas, dotadas de atributos naturais excepcionais, objeto de preservação permanente, submetidas à condição de inalienabilidade e indisponibilidade de seu todo. Considerando-se a configuração do PIX (Parque Indígena do Xingu) em relação ao território mato-grossense constata-se que este se encontra “ilhado”. Isto porque o Parque do Xingu sofre pressões constantes sobre sua geografia e população, ao situar-se em meio à ocupação do seu entorno, por grandes fazendas do agronegó- cio, pela mobilidade dos trabalhadores rurais e pelas novas cidades. Ao longo desses últimos 60 anos, a consolidação do espaço rural e urbano do estado de Mato Grosso re- sultou na expansão espacial da economia para o interior do Brasil, resultando em impactos socioambientais, especialmente para o conjunto de etnias localizadas no Parque Indígena do Xingu. A ampliação do PIX é atualmente uma das principais reivindicações de líderes indígenas endereçadas a FUNAI - Fundação Nacional do Índio. O parque tem quase 30 mil quilômetros quadrados, embora seu território atualmente seja muito menor do que o inicialmente previsto. Nas quatro décadas seguintes a sua criação, incor- porou algumas pequenas áreas, porém não suficiente para incluir as nascentes da bacia hidrográfica e evitar a pressão do desmatamento e da progressiva influência do complexo do agronegócio. A leitura do atual mapa de uso e ocupação do Mato Grosso revela a vulnerabilidade do Parque do Xingu e de seus habitantes sobre o entorno ligado ao uso das terras pelo agronegócio. Esta pesquisa está se iniciando e apresenta uma primeira leitura da análise geográfica sobre o Parque Indígena do Xingu nos tempos atuais. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 37 Recentemente uma série de fatos e eventos circunscritos à área de localização e influência da terra indí- gena está relacionada aos equipamentos do território e à mobilidade da força de trabalho, fatos estes que se inserem no grande projeto da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IRSA). Consolidando-se como liderança regional, o Brasil passa a investir e coordenar um programa de integração da infraestrutura regional (IRSA) com apoio das instituições multilaterais: BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), BIRD (Banco Internacio- nal para Reconstrução e Desenvolvimento), CAF (Bando de Desenvolvimento da América Latina) e agências de desenvolvimento europeias, japonesas etc. Tal processo é mutuamente reforçado pelo aumento da integração econômica regional, comercial, financeira e produtiva. E o Parque do Xingu está bem no âmago e no centro destas territorialidades. O efeito mais imediato conforme dados que serão apresentados é o da urbanização do território. Assim, argumenta-se com base nos dados referentes aos impactos socioambientais presentes na atualidade do territórioindígena sobre três condições: - a geografia do território oficial do parque do Xingu; - o significado da transformação de parque nacional em parque indígena; e - os efeitos do processo de urbanização extensiva e da consolidação do agronegócio sobre as etnias e seus descendentes localizados no referido território indígena. A ideia de criação do Parque tomou forma numa mesa-redonda convocada pela Vice-Presidência da Re- pública em 1952, da qual resultou um anteprojeto de um Parque muito maior do que o que veio finalmente a se concretizar. A despeito dos poderes legislativo e executivo do Mato Grosso estarem representados nessa mesa-redonda, inclusive por seu governador, o estado começou a conceder, dentro desse perímetro, terras a companhias colonizadoras. Por isso, quando foi finalmente criado o Parque Nacional do Xingu, pelo Decreto nº 50.455, de 14/04/1961, assinado pelo presidente Jânio Quadros, sua área correspondia a apenas um quarto da superfície inicialmente proposta. O Parque foi regulamentado pelo Decreto nº 51.084, de 31/07/1961; ajustes foram feitos pelos De- cretos nº 63.082, de 6/08/1968, e nº 68.909, de 13/07/1971, tendo sido finalmente feita a demarcação de seu perímetro atual em 1978. Tendo em vista os povos que lá habitam, pode-se dividir o Parque Indígena do Xingu em três partes: - uma ao norte (conhecida como Baixo Xingu); - uma na região central (o chamado Médio Xingu); e - outra ao sul (o Alto Xingu). Na parte sul ficam os formadores do rio Xingu; a região central vai do Morená (convergência dos rios Ronuro, Batovi e Kuluene, identificada pelos povos do Alto Xingu como local de criação do mundo e início do Rio Xingu) à Ilha Grande; seguindo o curso do Rio Xingu, encontra-se a parte norte do Parque. Na década de 80, tiveram início as primeiras invasões de pescadores e caçadores no território do PIX. Ao final dos anos 90, as queimadas em fazendas pecuárias localizadas a nordeste do Parque ameaçavam atin- gi-lo e o avanço das madeireiras instaladas a oeste começou a chegar perto dos limites físicos definidos pela demarcação. Ademais, a ocupação do entorno começava a poluir as nascentes dos rios que abastecem o Parque e que ficaram fora da área demarcada. Nesse processo, fortaleceu-se entre os moradores do PIX a percepção de que está a caminho um incômodo: o Parque vem sendo cercado pelo processo de ocupação de seu entorno e já se evidencia como uma “ilha” de florestas em meio ao pasto e a monocultura na região do Xingu. A questão da fiscalização do território é presença certa na agenda dos assuntos políticos do Parque, sendo discutida tanto em encontros de lideranças e assembleias da ATIX (Associação Terra Indígena Xingu) como na interlocução com a FUNAI e os órgãos ambientais federal (IBAMA) e estadual (Fundação Estadual do Meio Ambiente - FEAM). Para tanto, foi montada uma infraestrutura dos citados onze postos de vigilância para proteger as áreas que propiciam um acesso direto ao Parque, como a intersecção dos principais rios com os limites do PIX e o ponto em que a BR-080 margeia esses limites. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 38 No entanto, o sistema de postos, por si só, não é suficiente para enfrentar as situações criadas pelo entorno e vem sendo complementado por outras ações, desenvolvidas no âmbito do Projeto Fronteiras, uma parceria da ATIX com o ISA (Instituto Socioambiental). O projeto compreende o mapeamento da dinâmica de desmatamentos, através de fotos de satélite, e da identificação in loco de novos vetores de ocupação no entorno do PIX. Também inclui um trabalho de capaci- tação dos Chefes de Postos, a restauração e manutenção dos marcos que estabelecem os limites físicos do território e um banco de dados georreferenciados de todos os fazendeiros cujas propriedades fazem fronteira com o PIX. Dessa maneira, torna-se possível que os índios acompanhem de perto o que acontece nas fronteiras do Parque e mobiliza as comunidades acerca das ameaças externas, tanto em discussões inter-aldeias, como junto aos órgãos públicos responsáveis (FUNAI, IBAMA e o Governo Estadual). O Indigenismo no Regime Militar (anos 1960 a 1980)13 Após o golpe civil-militar de 1964, um novo período econômico se iniciou no Brasil. Construções de grandes obras (hidrelétricas, estradas e desmatamento de áreas para a criação de grandes latifúndios para pecuária) se espalharam por todas as regiões do país, e no caminho desses projetos inúmeros povos com suas terras, reconhecidas ou não, passaram a ser tratados como obstáculos para o desenvolvimento. Nas regiões de fronteira agrícola, como a Amazônia e o Centro-Oeste, as terras indígenas eram invadidas por criadores de gado, madeireiros ou garimpeiros. O Estado tinha pouco controle nessas regiões, e as violên- cias contra os indígenas tinham, frequentemente, a conivência das autoridades locais. As políticas indigenistas foram integralmente subordinadas aos planos de defesa nacional, construção de estradas e hidrelétricas, expansão de fazendas e extração de minérios. Sua atuação foi mantida em plena afinidade com os aparelhos responsáveis por implementar essas políticas: Conselho de Segurança Nacional (CSN), Plano de Integração Nacional (PIN), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). A ação da FUNAI durante a ditadura foi fortemente marcada pela perspectiva assimilacionista. O Estatuto do Índio (Lei nº 6.001) aprovado em 1973, e ainda vigente, reafirmou as premissas de integração que permearam a história do SPI. Com recursos escassos e mal contabilizados, a FUNAI continuou a operar, assim como o SPI, com profis- sionais pouco qualificados. Não se concretizou a proposta de se realizar planejamentos antropologicamente orientados, conduzidos por profissionais de formação sólida, bem pagos e comprometidos com o futuro dos povos indígenas. O órgão foi permeado, em todos os níveis, por redes de relações pessoais, clientelistas e corporativas, que remetem ao paternalismo e ao voluntarismo que dominaram o velho SPI. Projetos como a construção das hidrelétricas de Itaipu e de Tucuruí, no Rio Tocantins, e a criação do maior latifúndio do mundo no norte do Mato Grosso, em terra indígena Xavante, expulsaram centenas de comunida- des e provocaram milhares de mortes nas aldeias. A abertura da rodovia Transamazônica BR- 230, planejada para cortar o Brasil transversalmente, da fronteira com o Peru até João Pessoa na Paraíba, afetou de maneira trágica 29 grupos indígenas, dentre eles, 11 etnias que viviam completamente isoladas. Documentos e relatos colhidos durante as investigações recentes da Comissão Nacional da Verdade (CNV) apontam que cerca de 8 mil indígenas foram mortos, em conflitos, crises de abastecimento ou epidemias trazi- das pelos trabalhadores, em consequência da construção de quatro rodovias: - a Transamazônica; - a BR-174, que liga Manaus a Boa Vista; - a BR-210, conhecida com Perimetral Norte; e - a BR 163, que liga Cuiabá a Santarém. 13 Adaptado de http://memoriasdaditadura.org.br/indigenas/ e http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-in- digenistas/orgao-indigenista-oficial/funai Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 39 Essas estradas faziam parte do Plano de Integração Nacional (PIN), instituído em 1970, pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. O PIN previa que 100 quilômetros em cada lado das estradas a serem construídas deveriam ser destinados à colonização. A intenção do governo era assentar cerca de 500 mil pessoas em agro- vilas que seriam fundadas nesses locais. O processo civilizatório imposto pela ditadura civil-militar incluía perseguição, criminalização, prisão e tortura de lideranças indígenas que lutavam por seus territórios ou que tivessem comportamento considerado inade- quado pela FUNAI. Durante a ditadura, as comunidades indígenas encontraramentre os antropólogos, sertanistas e missioná- rios ligados ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI) seus principais apoiadores para resistir às violências e às ameaças cometidas pelo regime, pelos donos de terras e pelos colonos e trabalhadores do garimpo. Os Índios e a Tecnologia14 A população indígena é formada por diferentes povos com hábitos, costumes e línguas distintas. Atualmen- te o rápido avanço tecnológico tem permitido a aproximação entre os índios que ainda vivem em reservas e o restante da população. O contato com os meios de comunicação, especialmente a televisão, o telefone e a internet, colabora na busca pela adoção de um novo estilo de vida e na perda de antigos valores. Há cerca de quatro anos, foi destaque na imprensa nacional e estrangeira a história de índios suruís que vivem na reserva indígena Sete de Setembro, na divisa entre os Estados de Rondônia e Acre, fazendo uso das novas tecnologias para defender a terra na qual eles vivem do desmatamento. Com a ajuda de GPS, eles passaram a monitorar a posição de madeireiros ilegais. Os dados são enviados para autoridades competentes, como Polícia Federal e Fundação Nacional do Índio (FUNAI), para que as providências cabíveis sejam tomadas. Foi quando os arcos e flechas deixaram de ser as únicas ferramentas de defesa do território, e as novas tecnologias passaram a fazer parte do dia a dia de muitas tribos indígenas. A proximidade das comunidades indígenas aos centros urbanos faz com que os índios acessem os instru- mentos disponíveis das tecnologias de informação e comunicação, trazendo esses recursos e os incluindo no seu dia a dia e nas suas relações de sociabilidade. Essas mídias são adaptadas não levando em conta o fazer dessa comunidade, ou seja, a formação do povo. Muitas crianças e jovens são expostas desde cedo à televisão e à internet, o que pode ser considerado natural para quem vive nas fronteiras culturais. O problema é que grande parte destas crianças só tem acesso às produções culturais do ocidente. O conhecimento produzido pelos povos indígenas, nestes espaços que se constituem com as novas tecnologias, fica do lado de fora. Por outro lado, essas mídias têm servido para dar visibilidade e ‘guardar’ a história e a memória da comuni- dade indígena, dentro de recursos tecnológicos que atraem o olhar do índio e também que fazem com que os mesmos sintam-se incluídos no mundo, pois a cultura deles também é difundida para a sociedade. Guardadas as devidas proporções, assim como nas outras regiões do mundo, do Brasil e da Amazônia, as tecnologias invadiram o dia a dia das pessoas, seja pela mera cópia de um CD pirata, seja pelos aparelhos sofisticados que passaram a fazer parte da vida pessoal e profissional dos indivíduos na contemporaneidade. Da mesma maneira, os índios foram atraídos pelos encantos desses aparatos tecnológicos, levado pela proxi- midade de suas aldeias, assim como sua inserção no convívio com as cidades urbanas. Esse contato com as mídias foi incorporado à cultura indígena. Hoje é comum encontrar nas comunidades Indígenas aparelhos de TV, filmadoras, DVDs, rádios, telefones celulares, câmeras e computadores. Algumas populações indígenas passaram a utilizar e consumir produtos dessa sociedade informacional. 14 CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da Modernidade.3ª. Edição. São Paulo: Edusp, 2000. COSTA, Alda Cristina. O embate entre o visível e o invisível: a construção social da violência no jornalismo e na política. 2010. Universidade Federal do Pará, Belém. http://www.videonasaldeias.org.br/2009/. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 40 Não que isso seja um crime, pelo contrário, pode representar uma oportunidade de “capturar” as informa- ções, os relatos e socializá-los de vez aos conhecimentos e a cultura indígena não somente para os índios mais jovens, mas com toda a sociedade que desconhecem a riqueza dos primeiros habitantes do Brasil. O jovem/adolescente Suruí transita por outros espaços e se constitui também em outras identidades, já que ele pode ser um eleitor, um estudante, pode receber uma bolsa assistencial do governo, ter um número de ce- lular, conviver com jovens da sociedade envolvente. Portanto, se essa tecnologia é uma realidade e adentrou a vida dos índios Suruí, é preciso conciliar sua utilização com as tradições do povo, do mesmo modo que deve ser aplicada como recurso didático na educação, levando em conta a memória e história do povo indígena. Nem sequer pode-se atribuir aos meios eletrônicos a origem da massificação das culturas populares. Esse equívoco foi apropriado pelos primeiros estudos sobre a comunicação, segundo os quais a cultura massiva substituiria o culto e o popular tradicionais. É interessante destacar que a noção de popular é reforçada nas mídias ainda levando em conta uma lógica de mercado, ou seja, a mídia tem um papel central já que as pessoas necessitam do seu discurso para que possam construir o sentido social da realidade. E não é diferente com a comunidade indígena Suruí que passa compreender como importante ter sua histó- ria e tradições serem narradas pelos diversos meios de comunicação. A mídia, neste sentido, não é apenas um suporte tecnológico, mas uma instituição responsável por criar uma lógica de mundo, muitas vezes, não muita clara, mas que exerce sentido na vida humana, pois influencia as relações sociais ou até cria novas formas de sociabilidade. Hoje, a imagem midiática começa na primeira idade das crianças e vai até o fim da sua vida, ditando as intenções daqueles que trabalham para construir esses sentidos, sejam produtores anônimos ou ocultos: no despertar pedagógico da criança, nas escolhas econômicas e profissionais do adolescente, nas escolhas tipo- lógicas (a aparência) de cada pessoa, até nos usos e costumes públicos ou privados, às vezes como “informa- ção”, às vezes velando a ideologia de uma escolha ou persuadindo os comportamentos. As crianças começam a desenvolver algumas lógicas de pensamento a partir de uma programação televisiva. Muitas crianças indígenas, mesmo vivendo com suas famílias, bem cedo são expostas à escola ocidental, à televisão e até mesmo à internet, o que é natural para quem vive nas fronteiras culturais. O problema é que grande parte destas crianças só tem acesso às produções culturais do ocidente. O conhecimento produzido pelos povos indígenas, nestes espaços que se constituem com as novas tecnologias, fica do lado de fora. Ainda que existam sociedades isoladas dentro da Amazônia, no Brasil, lembra a antrópologa Ivânia Neves, a maioria dos povos indígenas mantém relações efetivas com a sociedade envolvente. Já estabelecem, portanto, uma fronteira cultural com as instituições ocidentais (igreja, escola, televisão, rá- dio, secretarias públicas, ONGs, entre outras). Nascidas dentro deste cenário, a grande maioria das crianças indígenas vive hoje nestas fronteiras. Historicamente, o início do contato entre as sociedades indígenas e as instituições ocidentais, além de terem resultado na morte de milhares de índios, quer seja por processos de violência, quer seja por questões de saúde, representa quase sempre uma grande desestruturação política e cultural para estas sociedades. Este contato, no entanto, uma vez realizado estabelece uma nova e irreversível ordem para as sociedades indígenas. Se as gerações mais velhas não dominavam a língua portuguesa, hoje, na realidade de muitas so- ciedades, o que se observa é o fato de que as crianças falam apenas a língua portuguesa. Não podemos perder de vista que existem grupos indígenas que não falam mais uma língua tradicional. Ao se trabalhar a questão da tecnologia deve-se levar em conta que seus avanços produzem transforma- ções na experiência cotidiana, estabelecendo novas relações de sociabilidade. É interessante destacar que algumas experiências já vêm sendo realizadas com resultados positivoscom relação a inserção dos índios no mundo digital. Desde 1987 vem sendo realizado o projeto denominado Vídeo nas Aldeias, na área de produção audiovisual indígena no Brasil, com o objetivo de apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais, por meio de recursos au- diovisuais. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 41 O uso do vídeo permite que as comunidades indígenas selecionem e fortaleçam manifestações culturais que elas desejam tanto conservar para as futuras gerações quanto apresentar como parte de sua identidade. Ele é um instrumento adaptado a formas tradicionais de produção e transmissão cultural apoiado na força da palavra e na memória oral. O Vídeo nas Aldeias surgiu como proposta das atividades da ONG Centro de Trabalho Indigenista, como um experimento realizado por Vincent Carelli entre os índios Nambiquara, depois abrangendo outras aldeias bra- sileiras. Hoje o projeto criou um importante acervo com mais de 70 filmes sobre os povos indígenas no Brasil. A utilização das mídias também passa na concepção dos índios como instituições importantes de divulgação de identidades e de visibilidades. É interessante destacar que os indivíduos e as formas de relação entre eles são alimentados pela mídia porque a maior parte dos conhecimentos acerca do mundo, dos modelos de papel, dos valores e dos estilos de comportamento chega à mente humana não pela experiência direta do mundo fí- sico e das relações com os outros, mas cada vez mais pela mediação dos meios de comunicação. E diversas questões passam a habitar a mente humana, a partir da discussão por esses meios. Esses meios se tornam fundamentais como suportes de inclusão e exclusão sociais e de controle das coisas que acontecem no mundo. Com o surgimento da Internet e seus adventos, o homem se deparou com um espaço que antes era difícil de imaginar: um lugar onde pudesse exprimir suas ideias, pensamentos, opiniões, sua vida cotidiana, e ao mesmo tempo, um lugar onde tudo isso poderia ser visto. Dessa maneira, uma perspectiva onde a cultura ocidental ainda se sobrepõe sobre a indígena, é possível hoje utilizar os recursos tecnológicos em benefício da comunidade, pois eles abrem novas possibilidades, prin- cipalmente no sentido de que podem servir também para atrair e seduzir o mundo indígena, ou seja, contando a história e memória do povo nos artefatos. Não é possível excluir esses recursos, mas é possível adaptá-los para que sejam utilizados como instrumentos para comunidade, já que eles podem produzir o mundo deles e divulgá-los para sociedade como um todo. Dinâmica social no Brasil: estratificação, desigualdade e exclusão social Todos sabemos, pela própria experiência do dia-a-dia, que nossa sociedade apresenta contradições: e de- sigualdades. Nas grandes cidades por exemplo, ao lado de mansões luxuosas encontramos favelas e pessoas morando embaixo de viadutos. Vivemos, portanto, em uma sociedade profundamente desigual. Se quisermos fazer uma descrição desse tipo de sociedade, podemos trabalhar com o conceito de estratificação social. Mas se nosso objetivo for analisar historicamente os conflitos entre os diversos grupos que a compõem, devemos recorrer ao conceito de classes sociais. Seja qual for o método escolhido, é preciso levar em conta também que alguns indivíduos ou mesmo grupos de pessoas podem mudar de posição social. Para estudar esses casos utilizamos o conceito de mobilidade Social Estratificação social A expressão estratificação deriva de estrato, que quer dizer camada. Por estratificação social entende-se a distribuição de indivíduos e grupos em camadas hierarquicamente superpostas dentro de uma sociedade. Essa distribuição se dá pela posição social dos indivíduos, das atividades que eles exercem e dos papéis que desempenham na estrutura social. Na sociedade capitalista contemporânea, as posições sociais são determinadas basicamente pela situação dos indivíduos no desempenho de suas atividades produtivas (capitalistas X proletários). Contudo, nessa mesma sociedade os indivíduos podem desempenhar outros papéis e alcançar novas posi- ções sociais como na religião que praticam, o partido político em que militam, as funções sociais que desempe- nham, a profissão que exercem (médico x pedreiro). Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 42 Principais tipos de Estratificação Social 1. Estratificação política. Estabelecida pela posição de mando na sociedade (grupos que têm poder e grupos que não têm). 2. Estratificação profissional. Baseada nos diferentes graus de importância atribuídos a cada profissional pela sociedade. P.E., em nossa sociedade a profissão de médico é muito mais valorizada que a de pedreiro, motorista. 3. Estratificação econômica. É definida pela posse de bens materiais, cuja distribuição pouco equitativa faz com que haja pessoas ricas, pobres e em situação intermediária. Estratificação Econômica de uma Sociedade Capitalista Dependendo do tipo de sociedade, esses estratos podem ser organizados em: • Castas • Estamentos • Classes sociais. Tipos de Sociedades Estratificadas Castas Sociais: Existem sociedades em que os indivíduos nascem numa camada social mais baixa e podem alcançar, com o decorrer do tempo, uma posição social mais elevada. Esse fenômeno conhecido como mobilidade social. Em contrapartida, existem sociedades em que, mesmo usando toda a sua capacidade e empregando todos os esforços, o indivíduo não consegue alcançar uma posição social mais elevada. Nesses casos, a posição social lhe atribuída por ocasião do nascimento, independentemente de sua vontade. Ele carrega consigo, pelo resto da vida, a posição social herdada. A sociedade indiana é estratificada dessa maneira. Há séculos, a população da Índia está distribuída em um sistema de estratificação social rígido e fechado, que não oferece a menor possibilidade de mobilidade social. É o sistema de castas Enquanto nas sociedades ocidentais pessoas de níveis sociais diferentes podem se casar - o que não raro possibilita a ascensão social de um dos cônjuges -, na Índia o casamento só é permitido entre pessoas da mesma casta. As castas são grupos sociais fechados, cujos membros seguem rigorosamente as tradições familiares. Um indivíduo nascido em determinada casta deve permanecer nela pelo resto da vida. Sua posição social é defini- da ao nascer. Além de direitos e deveres específicos, as pessoas não podem ascender socialmente mediante qualidades pessoais, mérito ou realizações profissionais. Pode-se esquematizar a estratificação social indiana por meio da seguinte pirâmide de castas: No topo da pirâmide estão os brâmanes, que são os sacerdotes e os mestres da erudição sacra. Segundo sua crença, a eles compete preservar a ordem social, estabelecida por orientação divina. A seguir, distribuídos pela segunda casta, vem os Xátrias guerreiros que formam a aristocracia militar. A terceira grande casta – a dos vaixas - é formada pelos comerciantes, artesãos e camponeses. Os sudras, por sua vez, executam os trabalhos manuais e diversas tarefas servis. São uma casta deprecia- da, tendo o dever de servir as três castas superiores. Na base da pirâmide social ficam os parias, grupo de miseráveis, desprovidos de direitos e sem profissão definida. Totalmente desprezados pelas demais castas, vivem da caridade alheia. Os parias não podem ba- nhar-se nas águas sagradas do rio Ganges (o que é permitido as outras castas), nem ler os Vedas, que são os livros sagrados dos hindus. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 43 Embora o sistema de castas tenha sido abolido oficialmente em 1947, quando a Índia conquistou a inde- pendência sob a liderança de Mahatma Gandhi, basta percorrer o pais para constatar que, na prática, o antigo regime sobrevive.Os indianos das castas superiores não aceitam perder seus privilégios, e os membros das castas inferiores e os “sem castas” continuam sendo excluídos, rejeitados, privados de educação formal e de outras oportunidades. Cabem a eles as piores tarefas, como limpar fossas e lavar cadáveres. Na segunda metade do século XX, reformas sociais e mudanças na economia da Índia, impulsionadas pela industrialização, começaram a romper o sistema de divisão em castas. Assim, nos grandes centros urbanos do pais, como Nova Delhi, Bombaim e Calcutá, a abolição do sistema vem ocorrendo gradativamente. Entretanto, ele ainda perdura na maior parte da Índia rural. Estamentos ou Estados Um exemplo típico de sociedade estratificada em estamentos pode ser encontrado na Europa ocidental du- rante a Idade Média (476-1453), sob a vigência do modo de produção feudal. Estamento ou estado e uma camada social semelhante a casta, porém um pouco mais aberta. Na sociedade estamental, a mobilidade social é difícil mas não impossível, como na sociedade estratificada em castas. Na sociedade feudal, a ascensão era possível nos raros casos em que a Igreja recrutava seus membros entre os mais pobres; quando os servos eram emancipados por seus senhores; no caso de o rei conferir um título de nobreza a um homem do povo; ou, ainda, se a filha de um rico comerciante se casasse com um nobre, tornando-se, assim, membro da aristocracia. A pirâmide social da sociedade estamental durante o feudalismo europeu apresentava-se da seguinte ma- neira: No vértice da pirâmide encontravam-se nobreza e no alto clero. Eram os donos da terra da qual obtinham renda explorando o trabalho dos servos. Os nobres dedicavam-se à guerra à caca, cuidavam da administração do feudo e exerciam o poder judiciário em seus feudos. O alto clero (cardeais, arcebispos, bispos, abades) era uma elite eclesiástica e intelectual. Seus membros vinham da nobreza. Constituíam também a única camada letrada na primeira a fase do pe- ríodo medieval, desempenhando importantes funções administrativas. Abaixo da camada dos nobres, encontravam-se os comerciantes. Embora ricos, muitas vezes eles não ti- nham os mesmos privilégios da nobreza. Além disso, suas atividades sofriam uma série de restrições legais. Tais restrições foram desaparecendo à medida que o feudalismo entrou em declínio. Mais abaixo estavam os artesãos, os camponeses livres e o baixo clero. Os artesãos viviam nas cidades, reunidos em associações profissionais, as corporações de ofício; os camponeses livres trabalhavam a terra e vendiam seus produtos agrícolas nas vilas e cidades; o baixo clero, originário da população pobre, convivia com os pobres, com o povo, prestando-lhe assistência religiosa Abaixo de todos estavam os servos, que trabalhavam a terra para si e para seus senhores, vivendo em con- dições precárias; estavam ligados à terra, passando a ter novo se quando a terra mudava de dono. A divisão da estrutura social em estamentos - tipo intermediário entre a casta e a classe – era encontrada na Europa até fins do século XVIII. Classe Social Desenvolvido pelo pensador alemão Karl Marx, o conceito de classe social parte de premissas próprias, segue critérios específicos e sua aplicação leva a conclusões totalmente diferentes das que podem ser encon- tradas nos estudos que analisam a sociedade segundo o modelo descritivo da estratificação social. Para Marx, a história da humanidade é “a história da luta de classes”. Segundo ele, portanto, a classe social é acima de tudo uma categoria histórica. Quando Marx se refere as duas grandes classes do capitalismo - a burguesia e o proletariado -, está designando duas forças motrizes e concretas do modo de produção capitalis- ta, um sistema econ6mico historicamente determinado. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 44 O próprio Marx, no entanto, não reivindicava a descoberta das classes sociais nem da luta de classes, mas sim a “demonstração de que a existência das classes só se liga a determinadas fases históricas de desenvol- vimento da produção”. Marx atribula uma importância particular aos conflitos entre as classes. Para ele, são esses conflitos que constituem o principal fator de mudança social. Esses movimentos, portanto, imprimiriam movimento e dinamismo à sociedade. Por outro lado, as classes sociais mudam ao longo do tempo, conforme as circunstâncias econômicas, políticas e sociais. As contradições que mantêm entre si forjam e estruturam a própria sociedade. Quando os conflitos chegam a um ponto insuportável, ocorre uma revolução que transforma a sociedade, modificando o modo de produção. Foi o que aconteceu, com o feudalismo: uma nova classe (a burguesia) derrubou um velho estamento (a nobreza), gerando a sociedade capitalista. A Revolução Francesa de 1789 foi uma das expressões dessa trans- formação. Mas a nova sociedade capitalista, na concepção de Marx, já começou dividida em duas grandes classes conflitantes: a burguesia (proprietária dos meios de produção) e o proletariado, ou classe operária, que só tem de seu a torça de trabalho. Essa divisão baseada no regime de propriedade faz com que uma classe seja dominante, e a outra, domi- nada, numa relação sistemática de dominação e exploração. Assim, a teoria das classes não se limita a descrever as divisões da sociedade em camadas, como faz o modelo da estratificação social, mas procura explicar como e por que elas ocorrem historicamente. As classes sociais só existem a partir da relação que estabelecem entre si. Nesse sentido, as classes são, além de an- tagônicas, necessariamente complementares. A burguesia, por exemplo, não pode existir sem o proletariado. Complementares, porque são elas que fazem funcionar o sistema. Antagônicas, porque uma delas (a bur- guesia) se apropria do trabalho da outra (o proletariado), o que gera o conflito permanente. As classes médias Entre a burguesia e o proletariado existem outros grupos que se movem entre as duas classes fundamen- tais, oscilando de uma para a outra. Alguns desses grupos são denominados genericamente de classes me- dias, ou pequena burguesia. A pequena burguesia constitui um setor muito numeroso, que abrange desde a dona de um pequeno arma- zém até os pequenos e médios proprietários de terra, passando por todos os assalariados que trabalham em escritórios, funcionários públicos e profissionais liberais. Ao contrário da burguesia e do proletariado, que atuam diretamente na produção social entre as classes médias misturam-se múltiplos papeis. Não se trata, portanto, de uma classe política e socialmente homogênea. Segundo Karl Marx, essa heterogeneidade das classes médias explica por que, nos conflitos sociais e po- líticos, elas oscilam tanto, ora apoiando os interesses da grande burguesia, ora apoiando os interesses dos trabalhadores. Mobilidade Social Em maio de 1953, Lourenço Carvalho de Oliveira, nascido na pequena aldeia de Vigia, no norte de Portugal, desembarcou no porto de Santos, no litoral de São Paulo, depois de onze dias de viagem na terceira classe do transatlântico Vera Cruz. Em sua terra, deixara a mulher e três filhos pequenos vivendo graças à solidariedade de parentes e vizinhos. Foi morar de favor na casa de um primo e arrumou emprego como ajudante num bar. Economizou muito, mandou buscar a família e conseguiu, depois de anos de trabalho e privações, abrir uma pequena venda em sociedade com um amigo. O negócio foi crescendo: primeiro uma mercearia, depois um mercado, a seguir um supermercado. Em 1988, 35 anos depois de chegar ao Brasil, o Sr. Lourenço era dono de uma grande rede de supermercados, tendo se tornado um dos mais influentes membros da Associação Comercial de São Paulo. Seus filhos têm curso superior e um deles é professor na Universidade de São Paulo. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 45 Essa história devida mostra que os indivíduos, numa sociedade capitalista, podem chegar a ocupar diferen- tes posições sociais - ou estratos - durante a vida. É possível que alguns deles, que integram o estrato de baixa renda (camada C), passem a integrar o de renda média (camada B) ou mesmo o de renda alta (camada A). Por outro lado, alguns indivíduos da camada A podem ter sua renda diminuída, passando a integrar as ca- madas B ou C. Do ponto de vista sociológico, os dois fenômenos são caracterizados como manifestações de mobilidade social. Mobilidade social é a mudança de posição social de uma pessoa (ou grupo de pessoas) num determinado sistema de estratificação social. Tipos de Mobilidade Social Quando as mudanças de posição social ocorrem no sentido ascendente ou descendente na hierarquia so- cial, dizemos que a mobilidade social é vertical. Quando a mudança de uma posição social a outra se opera dentro da mesma camada social, diz-se que houve mobilidade social horizontal. Mobilidade Social Vertical A mobilidade social vertical pode ser: - ascendente ou de ascensão social - quando a pessoa melhora sua posição no sistema de estratificação social, passando a integrar um grupo economicamente superior a seu grupo anterior; - descendente ou de queda social- quando a pessoa piora de posição no sistema de estratificação, passando a integrar um grupo economicamente inferior. O filho de um operário que, por meio do estudo, passa a fazer parte da classe média é um exemplo de ascen- são social. A falência e o consequente empobrecimento de um comerciante, em contrapartida, é um exemplo de queda social. Assim, tanto a subida quanto a descida na hierarquia social são manifestações de mobilidade social vertical. Em uma sociedade aberta e democrática, é comum pessoas de um grupo social passarem para outro grupo, mais ou menos elevado na escala social. A esse fenômeno, que tanto pode ser ascendente como descendente, dá-se o nome de mobilidade social. No Brasil, a chegada do ex-metalurgico Luiz lnácio Lula da Silva à Presidência da República, em janeiro de 2003, é expressão dessa mobilidade. Com ele, passaram a integrar o governo diversas pessoas provenientes das camadas mais baixas da sociedade. É o caso, por exemplo, de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, que foi seringueira no Acre e só pode estudar a partir dos 17 anos. Mobilidade Social Horizontal Uma pessoa se muda do interior para a capital. No interior, ela defendia ideias políticas conservadoras; ago- ra, na capital, sob novas influências, passa a defender as ideias de um partido progressista. Seu nível de renda, porém, não se alterou substancialmente. A situação mostra uma pessoa que experimentou alguma mudança de posição social mas que, apesar disso, permaneceu no mesmo estrato social. Assim, a mudança de uma posição social dentro da mesma camada social caracteriza-se como mobilidade social horizontal. Democracia e Mobilidade Social O fenômeno da mobilidade social varia de uma sociedade para outra. Em algumas sociedades ela ocorre mais facilmente; em outras, praticamente inexiste no sentido vertical ascendente. É mais fácil ascender social- mente nos Estados Unidos, por exemplo, do que no interior da índia, ainda dominado pela estratificação social em castas. A mobilidade social ascendente é mais frequente numa sociedade democrática aberta, que enaltece a esca- lada rumo ao topo de indivíduos de origem humilde - como nos Estados Unidos -, do que numa sociedade de tradição aristocrática, como a Inglaterra. Entretanto, é bom esclarecer que, mesmo numa sociedade capitalista mais aberta, a mobilidade social verti- cal não se dá de maneira igual para todos os indivíduos. A ascensão social depende muito da origem de classe de cada indivíduo. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 46 Alguém que nasce e vive numa camada social elevada tem mais oportunidades e condições de se manter nesse nível, ascender ainda mais e se sair melhor do que os originários das classes inferiores. Isso pode ser facilmente verificado no caso dos jovens que pretendem fazer o curso superior. Aqueles que, desde o início de sua vida escolar, frequentaram boas escolas e, além disso, estudaram em cursinhos prepara- tórios de boa qualidade, têm mais possibilidades de aprovação nos vestibulares das universidades públicas e privadas do que os jovens provenientes das classes de baixa renda. Mobilidade Social no Brasil A chance de uma criança de baixa renda de ter um futuro melhor que a realidade em que nasceu está, em maior ou menor grau, relacionada à escolaridade e ao nível de renda de seus pais. Nos países ricos, o “eleva- dor social” anda mais rápido. Nos emergentes, mais devagar - no Brasil, ainda mais lentamente. O país ocupa a segunda pior posição em um estudo sobre mobilidade social feito pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com dados de 30 países15. De acordo com o estudo o elevador social está quebrado. Para promover mobilidade social, seriam neces- sárias nove gerações para que os descendentes de um brasileiro entre os 10% mais pobres atingissem o nível médio de rendimento do país. A estimativa é a mesma para a África do Sul e só perde para a Colômbia, onde o período de ascensão levaria 11 gerações. O indicador da OCDE foi construído levando em consideração a “elasticidade intergeracional de renda”. Ou seja, quanto o nível de rendimento dos filhos é determinado pelo dos pais. A instituição ressalta no estudo que a simulação tem finalidade ilustrativa - para dar dimensão da dificuldade de ascensão social - e que não deve ser interpretada como o tempo preciso para que um domicílio de baixa renda atinja a renda média. Na média entre os países membros da OCDE, a chamada “persistência” da renda intergeracional é de 40%. Isso significa que, se uma família tem rendimento duas vezes maior o que de outra, o filho terá, em média, ren- da 40% mais alta que a da criança que veio da família de menor renda. Nos países nórdicos, a persistência é de 20%. No Brasil, de 70%, conforme a pesquisa. Mais de um terço daqueles que nascem entre os 20% mais pobres no Brasil permanece na base da pirâ- mide, enquanto apenas 7% consegue chegar aos 20% mais ricos. Na média da OCDE, 31% dos filhos que crescem entre 20% mais pobres permanecem nesse grupo e 17% ascendem ao topo da pirâmide. Pai Pobre, Filho Pobre Isso é o que o estudo chama de “chão pegajoso” (sticky floor): a dificuldade das famílias de baixa renda de sair da pobreza. Filhos de pais na base da pirâmide têm dificuldade de acesso à saúde e maior probabilidade de frequentar uma escola com ensino de baixa qualidade. A educação precária, em geral, limita as opções para esses jovens no mercado de trabalho. Sobram-lhes empregos de baixa remuneração, em que a possibilidade de crescimento salarial para quem tem pouca qualifi- cação é pequena - e a chance de perpetuação do ciclo de pobreza, grande. Nesse sentido, a desigualdade social e de renda, destaca o levantamento, é definidora do acesso às opor- tunidades que podem fazer com que alguém consiga ascender socialmente. “Além do chão pegajoso, países como o Brasil têm também tetos pegajosos (sticky ceilings)”, acrescenta Stefano Scarpetta, diretor de emprego, trabalho e assuntos sociais da OCDE, referindo-se às famílias de alta renda. O nível elevado de desigualdade também se manifesta sobre a mobilidade no topo da pirâmide. Aqui, é pe- quena a probabilidade de que as crianças mais abastadas eventualmente se tornem adultos de classes sociais mais baixas que a dos pais. 15 Camila Veras Mota. Brasil é o segundo pior em mobilidade social em ranking de 30 países. Institu- to Humanitas Unisinos. http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/579960-brasil-e-o-segundo-pior-em-mobilida- de-social-em-ranking-de-30-paises. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 47 Scarpetta ponderaque, ao contrário da tendência global de aumento da desigualdade, o Brasil conseguiu reduzir suas disparidades na última década, até o início da recessão. O país fez pouco, entretanto, para corrigir os problemas estruturais que mantêm em movimento o ciclo da pobreza - a qualidade precária da educação e da saúde e a falta de treinamento para os milhões de trabalhadores de baixa qualificação. “O Brasil fez um bom trabalho tirando milhões de famílias da extrema pobreza, com o Bolsa Família, por exemplo. Falta agora fazer a ‘segunda geração’ de políticas”, disse o economista à BBC News Brasil. Classe Média Quando se analisa a mobilidade apenas do indivíduo, e não de uma geração a outra, o estudo da OCDE verifica que, de forma geral, a classe média é o estamento com maior flexibilidade - para cima e para baixo. No Brasil, a mobilidade da base da pirâmide para a classe média é maior do que em vários emergentes. Essa ascensão, contudo, é frágil. A estrutura do mercado de trabalho, com uma participação elevada do emprego informal, intensifica os efeitos negativos das crises sobre a população mais vulnerável. Como aconteceu com parte da “nova classe média” durante a última recessão, o desemprego pode ser um caminho de retorno à pobreza. Mobilidade Social e Crescimento Econômico O nível baixo de mobilidade social tem implicações negativas sobre o crescimento da economia como um todo, diz o estudo da OCDE. Talentos em potencial podem ser perdidos ou subaproveitados, com menos inicia- tivas na área de negócios e menos investimentos. “Isso debilita a produtividade e crescimento econômico potencial em nível nacional”, ressalta o texto. Um elevador social “quebrado” também se manifesta sobre o bem-estar social. A percepção de que a oportunidade de ascensão depende de fatores que estão fora do alcance - como a renda dos pais ou o acesso a educação - gera desesperança e sentimento de exclusão. Isso aumenta a proba- bilidade de conflitos sociais, diz a pesquisa. Tendência Global O problema não é exclusivo dos países emergentes. Mesmo países ricos, com desempenho expressivamen- te superiores ao do Brasil nos indicadores de educação - França, Alemanha - estão acima da média da OCDE entre as estimativas do número de gerações necessário para que os 10% mais pobres atinjam a renda média. “Por mais que esses países tenham bom desempenho no PISA (avaliação global do desempenho escolar), esses índices são uma média. Países como a França, por exemplo, são bastante heterogêneos”, ressalta Scar- petta. Manifestações culturais, movimentos sociais e garantia de diretos das minorias — Contracultura Nos Estados Unidos e nos países da Europa Ocidental, entre as décadas de 1950 e 1960, muitos jovens passaram a criticar os modos de vida tradicionais e a criar novos estilos de vida e de relações sociais. Esse conjunto de contestações da juventude daquela época ficou conhecido como contracultura16. O movimento da contracultura começou nos EUA, quando uma geração de intelectuais e poetas dos anos 1950 - a beat generation - passou a criticar os valores conservadores da sociedade estadunidense. Eles nega- vam o individualismo e o consumismo do chamado american way ofl ife. Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Kerouac são os nomes mais conhecidos desse movimento. O último escreveu um livro bastante divulgado, On the road, de 1957 - que no Brasil foi lançado como Pé na estrada. Na década de 1960, a contracultura continuou a expressar a rebeldia de jovens das classes médias contra o consumismo, a cultura de massa, a sociedade industrial e a padronização dos comportamentos. Eles também se mostravam insatisfeitos com o autoritarismo de seus pais e dos governantes. 16 História. Ensino Médio. Ronaldo Vainfas [et al.] 3ª edição. São Paulo. Saraiva. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 48 Estudantes e intelectuais passaram a incorporar reivindicações de grupos considerados minoritários, como os negros, os homossexuais e as mulheres - todos em busca de seus direitos. Grande número de jovens se engajou no movimento hippie. Usando roupas largas e coloridas e cabelos compridos e sem corte, os hippies recusavam a sociedade industrial, massificante e de consumo. Eles valorizavam o indivíduo, as ideias de paz, amor e liberdade e a vida comunitária. “Paz e amor” era o lema deles. Pacifistas, eram contra a guerra e a violência e protestavam distribuindo flores. Em geral, defen- diam o amor livre, rejeitando o casamento monogâmico tradicional. Muitos não estudavam nem tinham emprego, viviam em comunidades onde comiam o que plantavam e pro- duziam artesanato para vender. Alguns se aproximaram das religiões orientais. — 1968 O auge do movimento da contracultura foi em 1968. Protestos de jovens e trabalhadores ocorreram nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Muitos estavam entusiasmados com a Revolução Cubana (1959), a Independência da Argélia (1962) e a Revolução Cultural na China (1966). Com o desejo de mudar o mundo, jovens de vários países passaram a recusar o consumismo capitalista e o modelo de socialismo soviético. Nos EUA, milhões de jovens protestaram contra a Guerra do Vietnã. Nas universidades, os estudantes organizaram protestos; fora delas, os hippies também defendiam o fim do conflito. Na Europa, o movimento de rebeldia mais conhecido foi o que aconteceu na França e ficou conhecido como Maio de 1968. Em 22 de março, estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre para protestar contra a prisão de alguns colegas. Depois, tomaram o Quartier Latin, famoso bairro universitário em Paris, erigindo barricadas. Em 13 de maio, as centrais sindicais comunista e socialista declararam greve. Trabalhadores e estudantes uniram-se a elas, organizando um comando operário-estudantil. Em 20 de maio, 10 milhões de trabalhadores estavam em greve. Para contornar a situação, o governo Charles de Gaulle con- vocou eleições, nas quais os chamados gaullistas saíram vitoriosos. De Gaulle acionou a polícia para recuperar fábricas e universidades que haviam sido tomadas pelos revoltosos, perseguiu e prendeu líderes estudantis. A partir daí, o movimento de Maio de 1968 recuou. Os protestos estudantis e operários de 1968 também ocorreram no Brasil, no México, na Polônia, na Iugoslávia e na Tchecoslováquia. A repressão pôs fim à mobili- zação em toda parte. — Conquista dos Direitos Civis Até meados dos anos 1950, vigorou a segregação racial contra os negros nos estados do sul dos EUA. Ha- via escolas para brancos e escolas para negros, restaurantes e bares para brancos e restaurantes e bares para negros, banheiros públicos para brancos e banheiros públicos para negros. Nos ônibus e nas praças públicas, havia assentos reservados para os brancos e para os negros. Em alguns estados sulistas, os negros encontravam dificuldades para exercer seus direitos políticos. Em 1954, a Suprema Corte dos EUA reconheceu que as escolas públicas para brancos recebiam mais recursos dos governos estaduais, e ofereciam um ensino de melhor qualidade do que as escolas para negros. Os juízes, então, declararam a inconstitucionalidade da segregação racial nas escolas: todas as crianças, brancas ou negras, podiam frequentar qualquer escola. Naquele ano, o negro Martin Luther King foi nomeado pastor de uma igreja batista em Montgomery, no es- tado do Alabama. Em seu curso de pós-graduação, ele defendera uma tese sobre o movimento de resistência pacífica liderado por Mahatma Gandhi, na Índia. Ele já tinha se tornado o maior defensor dos direitos da popu- lação negra quando, em 1955, uma mulher negra, Rosa Parks, foi presa em um ônibus. Rosa estava sentada e, pelas leis segregacionistas, deveria ceder seu lugar a um passageiro branco. Ela se negou a fazê-lo e acabou detida pela polícia. Luther King, em represália, organizou um boicote da população negra aos transportes urbanos em Montgomery. Foi preso e sua casa, atacada. A Suprema Cortedeclarou, então, a inconstitucionalidade da segregação racial nos transportes públicos de todo o país. Foi um avanço na luta contra a discriminação. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 49 Em resposta à resistência da população negra, a organização racista Ku Klux Klan empregou táticas de terror. Mas o movimento contra a discriminação prosseguiu firme. Recorrendo à resistência pacífica, no início de 1963, Luther King liderou grandes protestos dos negros por seus direitos civis. Em 1964, Luther King foi vencedor do Prêmio Nobel da Paz. Em abril de 1968, ele foi assassinado a tiros. A luta dos negros estadunidenses continuou e resultou no reconhecimento de seus direitos civis e na aboli- ção da discriminação em todos os estados do país. — Malcolm X e os panteras negras Apesar de bem-sucedido na sua estratégia de luta, a liderança de King começou a ser contestada por se- tores mais radicais do movimento negro, sobretudo sua proposta de integração e convívio pacífico com os brancos. Outras lideranças surgiram, como Malcolm X. Filho de família pobre, tornou-se líder de um templo mu- çulmano em Detroit e passou a pregar a dignidade dos negros. Era contra a estratégia da resistência pacífica. Em fevereiro de 1965, foi assassinado. Na segunda metade dos anos 1960, setores do movimento negro aderiram a propostas ainda mais radicais. Entre elas estava a do Partido Pantera Negra para Autodefesa, fundado no final de 1966 em Oakland, na Cali- fórnia. Sua maneira de luta era muito diferente da liderada por Luther King ou Malcolm X. Os panteras negras não se amparavam na religião. Declaravam-se marxistas e maoistas e recorriam à vio- lência em confrontos armados com a polícia. Foram duramente reprimidos e a maioria de seus líderes, presa. O movimento desapareceu nos anos 1980. — O Movimento Feminista Nos anos 1960, não eram apenas os negros estadunidenses que lutavam por direitos civis. As mulheres tam- bém reivindicavam igualdade perante os homens. Em 1963, elas constituíam 51% da população e um terço da força de trabalho. Mas ganhavam menos, inclusive quando exerciam um trabalho igual ou ocupavam o mesmo cargo que um homem. Algumas funções pareciam impossíveis de serem ocupadas por uma mulher, em particular cargos de gerên- cia e direção. As mulheres, além disso, eram minoria nos cursos superiores de graduação e pós-graduação. Apesar das conquistas no campo político, em especial o direito de voto, obtido em 1918, o movimento feminista perdeu o ímpeto a partir da década de 1920. O renascimento ocorreu nos anos 1960. Em 1963, a ativista Betty Friedan publicou o livro The feminine mys- tique (A mística feminina), em que atacava as ideias que reservavam para a mulher apenas o papel de dona de casa e mãe. As feministas foram hostilizadas, insultadas e ridicularizadas. Muitos alegavam que a igualdade entre os sexos destruiria a instituição do casamento e da família. Mas o movimento feminista enfrentou todos os obstáculos com sucesso. Em 1964, a legislação federal proibiu qualquer discriminação no trabalho por motivo de raça e também de sexo. Nos anos seguintes, uma série de leis garantiu às mulheres direitos civis e a igualdade perante os ho- mens, a exemplo da criminalização do assédio sexual no trabalho e da abertura da carreira militar para elas. O movimento se expandiu por diversas partes do mundo, resultando em campanhas e leis específicas contra a violência doméstica e a favor da equiparação das mulheres aos homens no tocante aos direitos civis. Características • Política fundamentada na profunda centralização de poder e no autoritarismo • Controle da nação por meio dos Atos Institucionais, dispositivos contrários à Constituição Federal • Intervenção estatal na economia, com desenvolvimento econômico nos padrões capitalista e tecnoburo- crático, com dependência monetária internacional • Princípios da Escola Monetarista (Industrialização Excludente) • Modernização da infraestrutura (transporte, comunicação, energia e saneamento) • Ampliação da linha de crédito para classes média e média-alta Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 50 Movimentos sociais • Movimento Sindical: ressurgiu a partir de 1974, confrontando a ditadura de forma mais direta e caracteri- zando o fim dos anos 1970 como uma intensa onda de greves, que sofreram fortes repressões. • Vanguarda Popular Revolucionária (VPR): movimento de guerrilha formado por militares dissidentes, cria- do em 1966, contrário à postura do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e à sua inoperância diante ao Golpe de 1964. • Movimentos das comunidades eclesiais de base: articulados pela Igreja Católica, especialmente pelos adeptos à Teologia da Libertação, esses grupos denunciavam episódios de prisões políticas e torturas, reivindi- cando direitos humanos mínimos. • Associações de moradores: esses grupos se multiplicavam no período do regime militar, com o objetivo de lutar por melhores condições de vida, principalmente em relação à saúde, educação e saneamento. • Movimento sanitarista: naquele sistema, a saúde pública estava limitada a poucos e respaldada no Insti- tuto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), fundado em 1974, para dar assistência apenas aos trabalhadores das zonas urbanas e que possuíam registro em carteira, ou seja, previdenciários. • Movimento estudantil: Impulsionados pela Reforma Universitária de 1968 e pelo Decreto no 477, que suspendeu quaisquer manifestações estudantis, e, ainda pelo Ato Institucional n. 5 (AI5), os estudantes se encarregaram da principal atuação no enfrentamento à ditadura. A União dos Estudantes (UNE) teve papel fundamental nesse movimento. Desenvolvimento econômico, concentração da renda e riqueza O Estado na década de 197017 A década de 1970 foi marcada por uma intensa participação do Estado na economia em todo o mundo, espe- cialmente no Brasil. Isso se deu, em grande parte, em virtude de empresas públicas oferecerem infraestrutura para o setor privado. O Estado brasileiro durante 50 anos (1930–1970) criou e absorveu empresas do setor privado por vários motivos, como nacionalismo econômico, socorro a empresas privadas, recursos insuficientes por parte do setor privado em setores estratégicos da economia nacional e riscos elevados em investimentos de infraestrutura com grandes períodos de maturação. Martins (1985) aponta que a participação do Estado brasileiro na economia durante a década de 1970 foi caracterizada por um movimento de forças centrípetas – de concentração de recursos no governo federal – e de forças centrífugas – de disseminação de agências e empresas independentes e relativamente autônomas para a alocação dos recursos supramencionados. Conforme o autor, somente de 1971 a 1976 foram criadas 131 empresas estatais, sendo 67 pela União, 59 pelos estados e 5 pelos municípios. Havia cerca de 300 empresas estatais, somente no âmbito federal, em 1979. Essas empresas variavam des- de bancos até siderúrgicas, empresas de petróleo, hotéis e outros setores. Segundo Pêgo Filho et al. (1999), entre 1970 e 1981, a poupança bruta do setor produtivo estatal federal correspondeu a 3,68% do PIB, em mé- dia, representando 18,68% de toda a poupança bruta do setor privado. 17 ARAÚJO, Wagner Frederico Gomes de. As estatais e as parcerias públicoprivadas: o Project Finance como estratégia de garantia de investimentos em infraestrutura e seu papel na reforma do estado brasileiro. in: PRÊMIO DEST MONOGRAFIAS: EMPRESAS ESTATAIS. Embrapa Informação Tecnológica, Brasília, DF.2009 - Adaptado Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 51 Além disso, a década de 1970 caracterizou-se como um período de déficit público elevado para o equilíbrio macroeconômico e de níveis de inflação acima do que seria desejado. Ademais, o expansionismo estatal levoua grandes projetos de infraestrutura sob a responsabilidade do Estado, o que exigiu montantes de capital para sua implementação. A partir da primeira e, principalmente, da segunda crise do petróleo em 1973 e 1978, respectivamente, houve uma deterioração das contas públicas da maioria dos países, gerando graves desequilíbrios macroeconômicos. Nesse contexto, o Estado brasileiro perdeu praticamente toda sua capacidade de investimento, o que adveio do progressivo endividamento público. No âmbito microeconômico, ocorreu uma forte contração dos empréstimos e financiamentos externos a empresas nacionais, tanto estatais quanto privadas. As empresas estatais, portan- to, não possuíam mais recursos disponíveis para grandes empreendimentos de infraestrutura. Essa redução de despesas implicou uma deterioração do estoque de capital em infraestrutura e, consequentemente, gerou estrangulamentos em setores importantes para a retomada do desenvolvimento econômico. Em vários países, a reação às crises da década de 1970 foi seguida por processos de reforma do Estado, com a diminuição de seu papel como provedor de infraestrutura, gerando uma onda de privatizações e conces- sões ao setor privado. Na Grã-Bretanha, o lema tornou-se o rolling back the State durante o governo Thatcher quando, além das privatizações, foram disseminados contratos de desempenho para os prestadores de ser- viços de infraestrutura ou de utilidade pública (MACEDO; ALVES, 1997). Na Nova Zelândia, considerado um dos países com reformas mais radicais, foram implementadas grandes mudanças macroeconômicas, com um agressivo programa de privatizações, além da terceirização de várias atividades estatais (CARVALHO, 1997). A estratégia das privatizações surgiu como tentativa de ajuste nas contas públicas, por meio da venda de ativos produtivos do Estado, seja para redução do estoque da dívida pública, seja para redução da demanda de recursos fiscais para gastos em infraestrutura. Dessa forma, uma das principais justificativas para a privati- zação, no âmbito macroeconômico, foi o ajuste fiscal. Mais empresas privadas significavam, igualmente, maior arrecadação tributária para o governo, o que também poderia contribuir para a melhora das contas públicas. No plano microeconômico, as privatizações foram justificadas pelos ganhos de eficiência das empresas sob o con- trole privado e sua maior capacidade de investir. Giambiagi e Além (2000) apontam que não se pode garantir maior eficiência apenas pela transferência ao setor privado, não havendo diferenças significativas entre ambos, sendo que o principal contraste é que as empresas estatais também têm um papel importante na política eco- nômica do governo. No Brasil, pode-se identificar três fases da privatização (PINHEIRO; GIAMBIAGI,1997): a) Década de 1980 – A primeira fase se deu por um processo de reprivatizações, com o objetivo de sanear a carteira do BNDES5, o que ocorreu sem a privatização de grandes empresas estatais. Essa fase permitiu ao BNDES adquirir know-how para se tornar o principal agente de privatizações posteriormente. b) De 1990 a 1995 – Em 1990, foi lançado o Plano Nacional de Desestatização (PND). Nessa fase ocorreu a venda de empresas tradicionalmente estatais, além da privatização de setores inteiros. A privatização significa- va ainda uma peça importante na estratégia do governo de ajuste macroeconômico. Grandes empresas, como a Usiminas, escolhida para inaugurar o processo, foram privatizadas. c) A partir de 1995 – Em 1995 foi aprovada a Lei de Concessões, estabelecendo regras para a exploração de serviços públicos pelo setor privado, abrindo caminho para um processo de maciça privatização, principalmente nos setores de infraestrutura e serviços públicos, como telecomunicações e energia elétrica. Com a privatização dos serviços públicos, a partir de 1995, foi necessário um esquema de regulação das empresas privadas que atendiam aos cidadãos, pois, a despeito de ser de iniciativa privada, os serviços públi- cos têm que ser garantidos pelo Estado. O Estado simplesmente delega os serviços públicos ao setor privado sob condições e prazos acordados, tendo o setor privado a obrigação de investimentos previamente definidos (MOREIRA; CARNEIRO, 1994). As estatais remanescentes tiveram seu papel estratégico exaltado, assumindo um papel seletivo, mas im- portante na economia brasileira, como é o caso da Embraer ou da Petrobras. Ademais, sua gestão foi profissio- nalizada, uma vez que se trata instituições de direito privado. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 52 Dessa forma, a interação entre o setor público e o setor privado, inclusive as estatais, tem que ser contínua, pois a partir dessa interação será consolidada a posição do setor privado em infraestrutura. O fato de o Estado brasileiro ainda ocupar um papel fundamental na economia nacional e a melhora do cenário macroeconômico na década de 1990 criam condição para que se efetive a parceria público-privada nos setores de infraestrutura. O Plano Metas e Bases Para a Ação do Governo (1970-1973)18 O plano Metas e Bases para a Ação do Governo (MBAG), foi adotado pelo governo federal durante o período em que Médici estava na presidência, divulgado em outubro de 1970. O governo não pretendia criar um novo plano imediatamente e, assim, o MBAG complementou-se com outros dois documentos: o Orçamento Pluria- nual de Investimentos de 1971 a 1973 e o I Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (1972 a 1974). Neste plano ficaria estabelecida a sistemática segundo a qual cada governo executaria o último ano do Plano Nacional de Desenvolvimento, com as correções que julgasse necessárias. O MBAG estabeleceu como prioridades nacionais para o período de 1970 a 1973 (auge do Milagre Econô- mico) as seguintes: investimentos em educação, saúde, saneamento, agricultura e abastecimento e o avanço no desenvolvimento científico e tecnológico. O documento identificava como objetivo síntese o ingresso do Brasil no mundo desenvolvido até o final do século (Brasil, 1970). Este objetivo síntese incorporava os seguintes objetivos básicos: - crescimento econômico com elevação da taxa de crescimento do produto real para no mínimo 7 a 9% a.a., evoluindo para 10% a.a.; - expansão do emprego para a ordem de 3,3% a.a.; - controle da taxa de inflação; - expansão das receitas de exportação; - progresso social e melhoria na distribuição de renda; - correção gradual de desequilíbrios regionais e setoriais; - estabilidade política e segurança nacional. O Plano Trienal (1963-1964)19 Em 1961 o presidente Jânio Quadros criou a Comissão Nacional de Planejamento (COPLAN) que coexistiu por algum tempo com o Conselho de Desenvolvimento. Posteriormente, Celso Furtado, como Ministro Extraor- dinário para o Planejamento, preparou o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social para o período de 1963 a 1965, já durante o regime parlamentarista do governo de João Goulart. O plano foi criado com os objetivos básicos de promover um desenvolvimento econômico rápido e estabilizar o nível de preços. Foram propostas as seguintes metas: - crescimento de 7% do PNB que deveria ser repassado aos salários reais com o objetivo de distribuir melhor a renda; - promoção das Reformas de Base (principalmente a Reforma Agrária); - refinanciamento da dívida externa do país; - redução progressiva da pressão inflacionária, de modo que em 1965 a elevação do nível de preços não fosse superior a 10%; - redução das desigualdades regionais dos níveis de vida; - melhoria da qualidade do ensino. Para o governo da época, a realização destas metas só seria possível mediante o controle do processo in- flacionário, que se tornou o objetivo prioritário do plano. A origem da inflação foi associada ao período de cres- cimento econômico de 1957 a 1961 com o aumento da participação do setor público na economia e também devido aos problemas estruturais do setor externo vinculadosao processo de substituição de importações. 18 MATOS, Patrícia de Oliveira. Análise dos planos de desenvolvimento elaborados no Brasil após o II PND. Dissertação (mestrado) Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 2002. Adaptado 19 Idem Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 53 O plano continha as seguintes metas para o controle inflacionário: - redução do dispêndio público programado; - captação de recursos do setor privado no mercado de capitais; - política fiscal com aumentos progressivos da carga tributária. O Plano Trienal possuía uma maior abrangência, programa e metodologia e modificou as concepções a res- peito da política e programação econômica no Brasil. Este plano é considerado um marco histórico uma vez que foi além da concepção plurissetorial, determinando linhas de ação com projeções globais da economia e tendo como objetivo amplas modificações estruturais como: a distribuição de renda, melhoria de recursos humanos, correção das disparidades regionais, organização do setor governamental e eliminação de entraves institucio- nais. Os tipos de investimento priorizados no Plano Trienal incluíam a ampliação da base de recursos naturais economicamente utilizáveis, o aperfeiçoamento do fator humano, investimentos sociais, estes da alçada do setor público, e investimentos estruturais e infraestruturas como indicativos para o setor privado. O Plano Trienal caracterizou-se ainda pelo seu caráter globalista e pelo fato de ter se ajustado ao quadro das motivações que levam o Estado a participar diretamente do processo de formação de capital em suplemen- tação ao setor privado. Alinhou-se também às motivações decorrentes do processo de coordenação geral da economia, formulando diretrizes básicas para a orientação do crescimento econômico. Contudo, Singer (1977) considera que o Plano Trienal não era um plano de desenvolvimento econômico e social do país, mas apenas uma plataforma de ação do governo federal. Para Bresser Pereira (1998), o Plano Trienal não teve condições políticas para ser aplicado, dada a crise que o país atravessava no início dos anos 60 e que acabou culminando com o golpe militar em 1964. O Plano Trie- nal conseguiu sobreviver apenas até meados de 1963, quando todo o ministério de João Goulart foi substituído. Segundo Sandroni (2000), com relação aos planos anteriores, o Plano Trienal apresentou a vantagem de partir de uma visão global da economia, mas a sua parte setorial não obedeceu a um esquema uniforme de apresentação e muitos dos seus objetivos não foram definidos quantitativamente, sendo apresentados sob a forma de diretrizes gerais. Segundo Rossetti (1991), o Plano Trienal não descuidou da correção de desajustamentos, ao estabelecer objetivos para o controle progressivo da pressão inflacionária, para a atenuação dos custos sociais do cresci- mento econômico e para a redução das desigualdades regionais de níveis de vida. Contudo, o Plano Trienal não logrou êxito, como o Plano de Metas, devido principalmente às pressões exer- cidas por grupos populistas que impediam a implantação de medidas mais rigorosas de controle da inflação e às pressões exercidas por classes economicamente dominantes que tentavam impedir as Reformas de Base. Mesmo assim, o Plano Trienal contribuiu significativamente para o aprimoramento dos instrumentos de po- lítica econômica. O Plano de Ação Econômica do Governo (1964-1967) O Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG) teve a sua implantação a partir do início do regime militar em 1964. Ele surgiu como uma reação das classes conservadoras contra as posições reformistas contidas no Plano Trienal, porém atingiu níveis de agregação tão amplos quanto este. O plano procurava dar consistência às estratégias de reformas econômicas do primeiro governo militar, o governo do general Castelo Branco. O PAEG assumiu uma posição menos reformista, com traços predominantemente liberais e propostas de caráter ortodoxo, mas sem abandonar a interferência governamental na economia, justificando a ação estatal contida no plano a partir das deficiências do sistema de preços. As deficiências apontadas pelo plano foram as seguintes: o livre jogo das forças de mercado não garante necessariamente a formação de um volume dese- jável de poupança, o sistema de preços nem sempre incentiva investimentos em setores essenciais como por exemplo, educação, transportes; e o sistema de preços não leva necessariamente a uma distribuição de renda razoável entre pessoas e regiões. Apesar disso, segundo o PAEG, o Estado não elimina o papel da livre empresa e do mecanismo de preços, ele age apenas como regulamentador e tem um caráter meramente indicativo. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 54 O PAEG foi elaborado pelos ministros Roberto Campos e Otávio Gouvêa de Bulhões com base na ortodo- xia e no arrocho salarial, mas conseguiu realizar reformas importantes que os outros governos não puderam implantar, tais como: a reforma bancária, com a criação do Banco Central; a reforma do mercado de capitais; a criação do FGTS e do BNH e a instituição da correção monetária. O fato mais relevante a ser comentado sobre o PAEG é o de que este marca um período de transição na vida política e econômica do país. Contudo, o PAEG não teve a pretensão de apresentar-se como um plano global de desenvolvimento, mas apenas como um programa de ação coordenada do governo no campo econômico. Estes traços liberais no entanto não correspondem às medidas implementadas no período de 1964 a 1966. Nesta época, o número de empresas estatais aumentou muito (em 1966 35% das estatais existentes haviam sido criadas sob a vigência do PAEG). As principais medidas do PAEG referem-se às destinadas ao controle da inflação que vinha aumentando muito desde 1959, chegando a atingir 90% em 1963. Estas medidas englobam a reforma tributária, com ele- vação da tributação para reduzir a renda disponível, a redução das emissões monetárias, o estímulo às expor- tações e redução das importações e um severo controle dos salários e dos juros. O diagnóstico da economia brasileira como uma economia inflacionária também gerou a criação das Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN) que permitiu ao governo a captação de recursos por via não inflacionária. A inflação durante o período de vigência do PAEG foi diagnosticada como tendo componentes de demanda e de custos e, segundo Sandroni (1999), a inflação de custos foi localizada no processo de substituição de impor- tações, incentivado por barreiras alfandegárias. Para este autor, o protecionismo permitia um aumento espiral nos custos dos setores substitutivos. O PAEG atingiu seus objetivos no que se refere à redução da inflação, melhoria do saldo das contas públicas e recuperação das exportações agrícolas, não conseguiu porém, evitar a recessão e o aumento do desempre- go. Segundo Tavares (1972), durante o período de 1964 a 1967 foram modificadas em profundidade as regras do jogo institucional. Não só do setor público, como no que se refere aos mecanismos de acumulação interna das empresas e aos esquemas de seu financiamento externo. Assim, a economia brasileira pôde voltar a crescer em novas condições de financiamento, mantendo aparentemente, o mesmo padrão estrutural de crescimento, apenas mais acentuadamente desequilibrado e concentrador. A natureza do problema central da acumulação naquele período de transição consistia na necessidade de transferir excedentes dos setores atrasados ou pou- co dinâmicos para os de maior potencial de expansão. O Plano previa uma taxa anual de investimento bruto de 17% do produto, que, associada a taxas anuais de depreciação de 5%, crescimento populacional de 3,5% e a uma relação incremental capital-produto de 2:1, permitiria uma elevação da renda per capita de 2,5 % a.a. Neste período também foi realizada a Reforma Administrativa, na qual foram introduzidasmodificações de largo alcance na estrutura do planejamento do país. Um dos objetivos da Reforma foi a institucionalização do planejamento governamental, firmando a norma de que a ação do governo obedeceria a programas gerais e setoriais de duração plurianual, elaborados através dos órgãos de planejamento, sob a orientação e coordena- ção geral do presidente da república. A Reforma estabeleceu que o planejamento constituiria um dos princípios fundamentais da administração federal, compreendendo a elaboração e atualização dos seguintes instrumen- tos básicos: - plano geral do governo; - programas setoriais e regionais de duração plurianual; - orçamento programa anual; - programação financeira de desembolso. A Constituição de 24/01/67 estabeleceu a competência do Congresso Nacional para dispor sobre os “planos e programas nacionais, regionais e orçamento plurianuais” estipulando também que “as despesas de capital obedecerão ainda a orçamentos plurianuais de investimento, na forma prevista em lei complementar” e que “o orçamento consignará dotações plurianuais para a execução dos planos de valorização das regiões menos desenvolvidas do país.” Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 55 Alguns dos resultados macroeconômicos durante o período de vigência do PAEG podem ser analisados na tabela: Tabela. Brasil - variáveis macroeconômicas nos anos 60. Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) (2002) PIB*- Taxa de crescimento; Taxa de Investimento* - Formação Bruta de Capital Fixo/PIB; Inflação* - variação do IGP- DI; Déficit Público* - Gov. Federal e Banco Central (títulos). Em R$ Milhões (deflator: IGP-DI). O primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (1972-1974) Em 15 de setembro de 1971 foi encaminhada ao Congresso, juntamente com o segundo Orçamento Pluria- nual de Investimentos, a proposta do I Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND). O I PND definiu os seguin- tes objetivos nacionais: - colocar o Brasil, no espaço de uma geração, na categoria de nação desenvolvida; - duplicar, até 1980, a renda per capita do país (em comparação com 1969) - expandir o PIB de Cr$ 222,8 bilhões em 1972 para Cr$ 314,5 bilhões em 1974 (a preços de 1972); - investimentos nas áreas de siderurgia, petroquímica, transporte, construção naval, energia elétrica e mi- neração; - prioridades sociais: agricultura, programas de saúde, educação, saneamento básico e incremento à pes- quisa técnico- científica; - ampliação do mercado consumidor e da poupança interna com os recursos do PIS e do PASEP; - aumento da taxa de investimento bruto de 17% em 1970 para 19% em 1974; Para isto, pressupunha a manutenção de taxas anuais de crescimento do PIB de 8 a 10%; taxa de expansão do nível de emprego de 3,2%, redução da taxa de inflação até o nível de 10%; disseminação dos resultados do progresso econômico em termos sociais e regionais; estabilidade política e segurança interna e externa (Brasil, 1971). O I PND foi elaborado durante a gestão do ministro do planejamento Reis Velloso, ainda no governo Médici, e coincidiu com a expansão cíclica do período do Milagre Econômico. Segundo Furtado (1981), o extraordinário crescimento da produção manufatureira brasileira, no período em que se convencionou chamar de “milagre”, ocorreu sem que operassem modificações significativas na estrutura do sistema, ou sem que este alcançasse níveis altos de capacidade de autotransformação. O I PND foi baseado no binômio político ideológico de segurança e desenvolvimento e representou uma ampla formulação do “modelo brasileiro de organizar o Estado e moldar as instituições”. Os projetos de de- senvolvimento do I PND seriam completados com o PIN (Programa de Integração Nacional), cujos objetivos Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 56 eram a construção da Rodovia Transamazônica e colonização das regiões por ela cortadas; ampliar para 40 mil hectares a área irrigada do Nordeste e distribuir 70 mil títulos de propriedades rurais a posseiros e agricultores sem-terra. Segundo Sandroni (2000), ao final do triênio 72/74, confirmou-se o elevado grau de execução do I PND, sobretudo na área econômica. Contudo, alguns projetos sociais tiveram um grau de execução bem abaixo do previsto. Dos 40 mil hectares estipulados para a irrigação no Nordeste foram irrigados apenas 5674 hectares. No saneamento básico, a rede de esgoto assegurou o atendimento a 500 mil pessoas em lugar dos 5 milhões constantes do I PND. No campo industrial o maior crescimento ocorreu no setor de bens de consumo duráveis o que acabou gerando um aumento nas importações de meios de produção. A inflação prevista para 10% a.a. Atingiu os 35%. Para a avaliação dos resultados dos planos de desenvolvimento, foi implementado, em 1972, o Programa de Acompanhamento dos Planos Nacionais de Desenvolvimento que constituía a atividade permanente dos órgãos que integravam o sistema de planejamento e tinha por objetivo a avaliação da execução, revisão, com- plementação e aperfeiçoamento dos Planos Nacionais de Desenvolvimento e os respectivos instrumentos de controle e implementação. Este trabalho era realizado por meio de: - análise do desempenho total da economia e do comportamento de seus setores prioritários; - avaliação do progresso alcançado na execução dos programas e projetos; - identificação dos pontos de estrangulamento e obstáculos institucionais que dificultam a consecução das metas e a execução de programas e projetos. Segundo Holanda (1983), pretendia-se fazer com que esse programa viesse a contribuir para a efetiva ins- titucionalização de um sistema integrado de planejamento. Com base no programa, o relatório de acompanha- mento do I PND relativo ao exercício de 1972, mostrou que das 34 metas setoriais mais importantes, 19 haviam se enquadrado na faixa de execução de 90 a 99% e apenas 6 apresentavam um índice de execução de menos de 80%. O I PND, concedeu maior ênfase à indústria de bens de consumo duráveis, liderada pela indústria automobi- lística. Mas, apesar de haver um intenso crescimento econômico neste período, o plano acabou intensificando as distorções distributivas do país. Tavares (1972) considera que o desenvolvimento do período se fez com graves pressões inflacionárias e com o aumento do desequilíbrio externo e das desigualdades regionais, embora não seja menos significativo, o fato de que o Brasil foi um dos poucos países da América Latina que conseguiu manter um ritmo de cresci- mento elevado na época e em que o processo de substituição de importações avançou até níveis de integração industrial maiores. Tem-se assim, um grande avanço no processo de substituição de importações neste período. No entanto, em fins de 1973, a manutenção do ciclo expansionista dependeria cada vez mais de uma situação externa favorável. O Choque do Petróleo no final deste ano, veio tornar esta situação mais adversa e elevar a taxa de inflação interna. Diante da condição externa desfavorável e da diminuição da capacidade de financiamento do setor público, o modelo de crescimento do Milagre se esgotou e o governo se viu obrigado a optar entre uma política de ajustamento ou de financiamento. A política de ajustamento causaria a contenção da demanda interna e evitaria que o choque do setor exter- no se transformasse em inflação permanente. A política de financiamento manteria o crescimento em níveis elevados, fazendo ajustes graduais de preços relativos, enquanto houvesse financiamento externo abundante. Inicialmente o governo da época escolheu o ajustamento, mas não conseguiu atingir os efeitos desejados. O governo então optou pela continuidade do processo de desenvolvimento lançando, em fins de 1974, o II PND. O segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (1975-1979) O segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), do período de 1975 a 1979, constituiu a mais am- pla e articulada experiência de planejamentono Brasil após o Plano de Metas. Foi elaborado durante o governo Geisel, pelo ministro do planejamento Reis Velloso, permanecendo em vigor até o primeiro ano do governo Figueiredo. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 57 O II PND mudou a ênfase do desenvolvimento para a indústria de bens de capital, mas foi considerado um fracasso pois coincidiu com a fase de retração cíclica da economia. O plano buscava a preservação do modelo de desenvolvimento, admitindo que a continuidade do crescimento exigiria uma “reconstrução estrutural” com um esforço bem maior de acumulação por unidade adicional de produto. Assim, o II PND foi lançado apesar de o governo reconhecer as dificuldades para manter taxas de crescimento da ordem de 10%, face à crise externa. Mesmo assim, optava pelo crescimento acelerado como “política básica”. O plano realizou alterações nas prioridades de industrialização brasileira: do setor de bens de consumo duráveis para o setor produtor de meios de produção, principalmente a indústria siderúrgica, máquinas, equipa- mentos e fertilizantes, sendo as empresas estatais o agente central destas transformações. O plano enfatizou a abertura na política externa, o mercado interno e a empresa privada nacional, o combate à inflação, a explo- ração do potencial hidrelétrico e a continuação do processo de substituição de importações. A principal meta do II PND era a manutenção da taxa de crescimento econômico em torno de 10% ao ano, com crescimento industrial em torno de 12%. Segundo Sandroni (2000), o II PND propunha transformar o Brasil em uma “potência emergente” deslocan- do-o do Terceiro Mundo para o espaço dos países altamente industrializados. Para isto propunha substituir importações, elevar as exportações e ampliar o mercado interno consumidor. O investimento total seria de 1 trilhão e 750 bilhões de cruzeiros, para assim atingir um PIB da ordem de US$120 bilhões e uma renda per ca- pita de US$ 1000,00. O nível de crescimento industrial deveria situar-se em torno de 12% a.a., as exportações deveriam crescer a 20% a.a. e a agricultura a 7%. Quanto à ampliação do mercado consumidor, as diretrizes do II PND, não eram claras. Isto decorria da política salarial que reduzia o poder de compra dos assalariados. Assim, o crescimento do mercado interno estaria mais relacionado ao aumento populacional e à expansão do emprego. Para Furtado (1981), os objetivos estratégicos do II PND podem ser sintetizados em 2 pontos: ampliar a base do sistema industrial e aumentar o grau de inserção da economia no sistema de divisão internacional do trabalho. Estes objetivos refletiam a percepção da necessidade de reestruturação do sistema produtivo, que re- queria a elevação da taxa de investimento e, com intensidade ainda maior, da taxa de poupança. No entanto, os resultados da execução do plano ficaram bem aquém do esperado. De 1975 a 1979 a produção manufatureira cresceu a 6,8% ao ano, a produção de bens de capital a 7% e a de bens de consumo duráveis a 7,4% ao ano. O Conselho de Desenvolvimento Econômico (CDE) foi o principal órgão de implementação do plano, visan- do dar garantias de demanda e incentivos ao setor privado. Já a sustentação política do plano assentou-se no capital financeiro nacional, nas empreiteiras e nas oligarquias arcaicas. Desta forma, o governo buscava dar suporte ao plano, restando para isso equacionar a questão do financiamento. Assim, as empresas estatais foram forçadas ao endividamento externo para cobrir o hiato de divisas. Além disso, houve uma estatização da dívida externa e ampliação da mesma devido, entre outros aspectos, à facili- dade de obtenção de recursos no exterior. Esta facilidade decorria da ampla liquidez no mercado internacional. Para realizar o II PND, o Estado foi assumindo um passivo para manter o crescimento econômico e o fun- cionamento da economia (Vasconcellos et al., 1999). O endividamento do governo nesta época teve como consequência a deterioração da capacidade de financiamento do setor público na década de 80, uma vez que socializaram-se todos os custos do II PND (aumento nos gastos sem criar mecanismos adequados de financia- mento). O endividamento direto externo foi estimulado paralelamente ao aumento da dívida interna, impossibi- litando progressivamente os grandes projetos governamentais. Este fato exigiu constantes revisões nas metas do II PND. Segundo Sandroni (2000), durante a vigência do plano ocorreu uma variável não prevista: a necessidade de desaquecimento da economia. Este autor fez o seguinte balanço do plano: significativos avanços na geração de bens de capital, de energia, prospecção de petróleo e produção de álcool, mas o alcance dos objetivos estaria muito aquém do que foi traçado para o aumento do PIB, da renda per capita, das exportações e da ampliação do mercado consumidor. A crise mundial está entre as causas da desaceleração do II PND, além dos limites estruturais do próprio plano. Segundo Lessa (1981), o II PND era impossível de ser implementado, em função do seu gigantismo e da crise econômica mundial, uma vez que se tratava de um verdadeiro projeto de Nação-Potência, não apoiado pelas bases de sustentação do regime militar. Já Castro (1985), considerava que os grandes projetos do II PND, Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 58 pela sua complexidade e longo prazo de maturação teriam começado a produzir resultados visíveis somente a partir de 1983 e 1984, e as dificuldades acima mencionadas teriam apenas levado à diminuição do ritmo de investimentos a partir de 1976, mas não à sua paralisação total. Para Bresser Pereira (1998), o plano não reconheceu que o Brasil (e o mundo) entravam naquele momento em uma fase de declínio ou desaceleração cíclica que tornavam inviáveis a maioria de suas metas. No entanto, este foi importante para estimular de forma definitiva a implantação da indústria de bens de capital no Brasil. Tabela. Resultados macroeconômicos durante o II PND. Fonte: IPEA (2002) PIB* - Taxa de Crescimento; Indústria* - Taxa de Crescimento; Formação Bruta de Capital Fixo/ Produto Interno Bruto* - (Taxa de Investimento); Inflação* - Variação do IGP-DI; Dívida Externa* - US$ (Bilhões). O terceiro Plano Nacional de Desenvolvimento (1980 - 1985) e a nova realidade econômica O terceiro Plano Nacional de Desenvolvimento foi elaborado em 1979, em plena crise econômica, durante o governo do presidente Figueiredo, pelo ministro Delfim Neto que, paradoxalmente, era considerado um des- crente do planejamento econômico. O plano foi projetado para o período de 1980 a 1985, embora tenha sido interrompido já no segundo semes- tre de 1980. Neste período, já não existia o clima de “euforia desenvolvimentista” que marcou os PND’s anterio- res. Segundo Giacomoni (1996), o país começava a sofrer as consequências da crise econômica internacional e o governo federal, alegando que a instabilidade impedia qualquer programação de mais longo prazo, passou a governar com medidas de curto e curtíssimo prazo. O III PND reconheceu como setores prioritários da economia brasileira a agricultura e o desenvolvimento de novas fontes de energia. Quanto aos seus objetivos, o III PND pouco se diferenciava dos planos anteriores mantendo como objetivo síntese a construção de uma sociedade desenvolvida, livre, equilibrada e estável, em benefício de todos os brasileiros, no menor prazo possível. Segundo o documento oficial do III PND, foram considerados os seguintes objetivos prioritários: - acelerado crescimento da renda e do emprego; - melhoria da distribuição da renda, com redução dos níveis de pobreza absoluta e elevação dos padrões de bem-estar das classes de menor poder aquisitivo; - redução das disparidades regionais; - contenção da inflação; - equilíbrio do Balanço de Pagamentos e controle do endividamento externo; - desenvolvimento do setor energético; - aperfeiçoamentodas instituições políticas. No entanto, estes objetivos não foram alcançados, até porque não houve qualquer implementação do plano. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 59 Na realidade, o III PND não pode ser considerado como um plano de desenvolvimento, mas como uma simples declaração de intenções pelo governo. Segundo Lopes (1990), o plano foi preparado apenas para o cumprimento de uma determinação legal, sob a égide de um ministério cujo comandante não via qualquer uti- lidade prática no processo de planejamento e, sendo assim, o III PND viu-se logo relegado ao esquecimento. Para Bresser Pereira (1998), o III PND refletiu não apenas a crise econômica como também a própria crise do governo, incapaz de formular um plano de ação coerente. Holanda (1983), considera que o III PND foi influenciado pelo impacto do choque do petróleo e dos juros internacionais que tornaram precárias quaisquer projeções econômicas. Para este autor, o plano se caracte- rizava como um documento basicamente qualitativo, definindo diretrizes, critérios e instrumentos de ação. E, em função das incertezas e das restrições decorrentes da crise energética, da dívida externa e das pressões inflacionárias não apresentou metas quantitativas. Assim, o III PND marca o fim do processo de planejamento como efetivo instrumento de controle da política econômica do país. Foram apontados os seguintes motivos para o fim do processo: - a saída do ministro Reis Velloso da SEPLAN (Secretaria de Planejamento) e a ascensão de Delfim Neto, representando uma mudança de mentalidade, uma vez que Velloso sempre foi um grande defensor do plane- jamento, enquanto Delfim Neto não depositava o mesmo crédito no processo; - a distância entre os números previstos no II PND e os realizados, gerando uma reação contra o planeja- mento; - as dificuldades enfrentadas pelo segundo choque do petróleo e pela alta das taxas de juros internacionais limitando as funções do III PND. Segundo Lopes (1990), o III PND foi preparado, aprovado e publicado apenas devido à imposição legal e, à época em que o plano deveria estar sendo implementado, a convicção geral era de se tratar de um documento de reduzida utilidade em face dos desafios enfrentados pela economia brasileira. O primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento da Nova República (1986 - 1989) A Nova República encontrou, em 1985, apesar da grave situação de endividamento, uma posição de relati- vo ajuste após as crises de 1981 a 1983, graças aos pesados investimentos em energia e à recuperação dos superávits na balança comercial. A recuperação do crescimento, no entanto, associou-se à explosão das taxas de inflação ocasionando o Plano Cruzado em 1986. O Plano Cruzado gerou uma economia com preços congelados por tempo excessivo, provocando desabas- tecimento geral e desequilíbrio dos fatores de produção, que levaram ao abandono do plano e a um novo surto inflacionário em 1987. Segundo Lopes (1990), este conturbado cenário deflagrou a decadência do processo de planejamento que o Brasil vinha desenvolvendo há décadas. Neste sentido, o lançamento do I Plano Nacional de Desenvolvimento da Nova República (I PND-NR) acentuou a crise do planejamento para o desenvolvimento no Brasil, presente desde o III PND. Este primeiro plano de desenvolvimento do governo de José Sarney foi publicado pela SEPLAN, com metas para o período de 1986 a 1989 e elaborado sob a coordenação do ministro João Sayad. O I PND-NR se concentrou nos seguintes aspectos: - crescimento econômico; - combate à pobreza, às desigualdades e ao desemprego; - educação, alimentação, saúde, saneamento, habitação, previdência e assistência social; - justiça e segurança pública. Quanto à parte econômica o I PND-NR evitou quantificações que pudessem representar compromissos mensuráveis. Enfatizou, principalmente, a mudança no padrão de negociação da dívida externa e a necessida- de de reduzir as transferências de recursos ao exterior. Quanto ao setor público, priorizou a reestruturação do aparelho estatal por meio de medidas que iam desde a privatização seletiva de empresas estatais à reforma administrativa. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 60 Segundo Lopes (1990), o I PND-NR representou um inútil exercício, da mesma forma que seu antecessor, e não foi sequer considerado como instrumento de suporte ou indicador de tendências seja pelo governo, seja pelo setor privado. No entanto, a argumentação dos mentores do plano era a de que este se diferia dos anteriores, assim como as condições da economia brasileira nos anos 80 se diferiam das condições da década anterior. Esta diferença apresentava-se na própria concepção do plano: “Em virtude da circunstância em que vivemos no campo econômico-social e devido à nova orientação do governo sobre as funções do setor público, associada ao decisivo estímulo para que o setor privado assuma o papel de liderança no processo de crescimento, este não é um plano de investimentos públicos, nem uma proposta acabada e compulsória de direcionamento dos investimentos empresariais” (Brasil, 1985b). Segundo Giacomoni (1996), em função das dificuldades de reorientar a questão financeira no âmbito do setor público e dos problemas de administração da dívida externa e interna, o país, ao longo desse período, conviveu com inúmeras crises que se refletiram na substituição de ministros da área econômica e na adoção de medidas de curtíssimo prazo. Estes fatos dificultaram o planejamento de médio e longo prazo no país e, portanto, a implementação do I PND-NR. A dívida pública interna após 1986 e as mudanças institucionais20 As dificuldades fiscais existentes em meados da década de 1980 acarretaram a necessidade de mudanças na estrutura institucional da área fiscal. O ano de 1986 representou um marco fundamental no aspecto institu- cional da administração da dívida pública brasileira, com a adoção de medidas profundas visando a um maior controle fiscal, como a extinção da Conta Movimento – utilizada para o suprimento dos desequilíbrios de fundos do Banco do Brasil pelo Banco Central. Decidiu-se ainda pela criação da Secretaria do Tesouro Nacional, por meio do Decreto nº 92.452, de 10/08/1986, visando a centralizar o controle dos gastos públicos e, especialmen- te, a viabilizar seu controle mais efetivo. A maior preocupação com a necessidade de controle e monitoramento da dívida interna, a qual vinha apresentando elevado crescimento nos anos anteriores em virtude da precária situação fiscal, aliada à percepção de que se fazia necessária uma distinção institucional entre as políticas monetária e de dívida acarretaram a transferência da administração da dívida pública do Banco Central para o Ministério da Fazenda. O Decreto nº 94.443, de 12/06/1987 determinou a transferência das atividades relativas à colocação e ao resgate da dívida pública para o Ministério da Fazenda, onde essa função ficou a cargo da Secretaria do Te- souro Nacional. Entre as funções dessa secretaria, regulamentadas pela Portaria MF nº 430, de 22/12/1987, estava explicitamente: [...] efetuar o controle físico/financeiro da dívida emitida [...] determinar os títulos e os volumes das Ofertas Públicas, inclusive elaborando e publicando os editais, em estreito relacionamento com o Banco Central do Brasil [...] e [...] administrar o limite de colocação dos títulos [...] Nesse contexto, e visando a separar ainda mais as atribuições de autoridade monetária e fiscal, foi elabora- do o Decreto-Lei nº 2.376, de 25/11/1987, que estabelecia medidas de controle sobre a dívida pública, a qual só poderia ser elevada para cobrir déficit no Orçamento Geral da União (OGU), mediante autorização legislativa, e para atender à parcela do serviço da dívida não incluída no referido OGU. A despeito da separação de funções e da criação da Secretaria do Tesouro Nacional, este mesmo Decreto-Lei nº 2.376 estabeleceuque: “[...] se o Tesouro Nacional não fizer colocação de títulos junto ao público, em valor equivalente ao montante dos que forem resgatados, o Banco Central do Brasil poderá subscrever a parcela não colocada”. Em outras palavras, embora fosse um avanço institucional em relação à prática anterior, qualquer que fosse a necessidade de rola- gem, esta seria passível de financiamento via Banco Central, bastando para isso que o mercado se recusasse a dar o financiamento. O insucesso das políticas levadas a cabo pelo governo até então para o combate à inflação conduziu o governo a tentativas mais “heterodoxas”, que acabaram por influenciar as estratégias de administração da dí- vida nos anos seguintes. Logo no início de 1986, o país viveu a primeira experiência heterodoxa de combate à inflação. No início daquele ano, a elevação das taxas de inflação e do endividamento público eram motivo de preocupação para o governo, levando-o a adotar, em 28 de fevereiro, o Plano Cruzado, o qual congelou preços, 20 PEDRAS, Guilherme Binato Villela. História da dívida pública no Brasil: de 1964 até os dias atuais Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 61 decretou o fim da correção monetária e reduziu as taxas reais de juros. Essas medidas, aliadas à necessidade de reduzir os déficits fiscais, levaram o Banco Central, e não o mercado, a absorver as novas emissões da dí- vida, conforme permitido pela legislação em vigor, antes descrita. Tendo em vista a dificuldade na colocação de LTNs e a impossibilidade de colocação de ORTNs (agora denominadas OTNs) em mercado, dada a desindexação da economia por conta da extinção da correção mo- netária, o Banco Central optou por criar um título de sua responsabilidade. Assim, em maio de 1986, a falta de opções de instrumento levou o Conselho Monetário Nacional a autorizar a autoridade monetária a emitir títulos próprios para fins de política monetária. Foi então criada a Letra do Banco Central (LBC), a qual tinha como característica ímpar o fato de ser remunerada pela taxa Selic, com indexação diária. A ideia era limitar as emissões de LBCs ao volume de títulos de responsabilidade do Tesouro Nacional existente na carteira do Banco Central. Naturalmente, dadas as características do novo título e a conjuntura econômica da época, sua aceitação pelo mercado foi enorme. Considerando o sucesso na colocação das LBCs, aliado à referida falta de opção de instrumentos de finan- ciamento, e considerando a nova diretriz de separação das atividades fiscais e monetárias, o governo aprovei- tou a edição do já citado Decreto-Lei nº 2.376/87 e criou as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs). Tais títulos possuíam características idênticas às da LBC, sendo de responsabilidade do Tesouro Nacional e destinados especificamente para financiamento dos déficits orçamentários. É importante avaliar sob uma perspectiva histórica o impacto da iniciativa de emitir títulos atrelados à taxa de juros diária. Como será mencionado adiante, esses títulos passariam a representar parcela considerável da DPFi, funcionando como um importante instrumento do governo na manutenção de sua capacidade de finan- ciamento. Com o insucesso do Plano Cruzado, o ano de 1987 marca o início de dificuldades ainda maiores na con- dução da política econômica, com o déficit público saindo do controle, além de problemas na área externa. De fato, a moratória da dívida externa ocorrida em fevereiro daquele ano gerou maior necessidade de financiamen- to via dívida interna. Com a promulgação da Constituição em 1988, o Banco Central, que naquele momento estava proibido de emitir títulos, ficou também impedido de financiar o governo. Pela nova sistemática, o Banco Central só pode- ria adquirir títulos diretamente do Tesouro Nacional em montante equivalente ao principal vencendo em sua carteira. Tinha-se chegado assim à clássica forma de relacionamento entre autoridade monetária e autoridade fiscal. Posteriormente, em 2000, a Lei de Responsabilidade Fiscal tornou ainda mais rígida a legislação, ao es- tabelecer que as colocações para a carteira do Banco Central só poderiam ser efetuadas à taxa média do leilão realizado, no dia, em mercado, regra esta que permanece até os dias atuais. A despeito dos sucessivos choques heterodoxos introduzidos na economia desde 1986, as taxas de infla- ção permaneciam em níveis bastante elevados, assim como a incerteza em relação ao futuro próximo. Dessa maneira, em 1988 e 1989 praticamente não houve colocação de LTNs nem mesmo para a carteira do Banco Central, ilustrando o difícil momento pelo qual passava o país. Por sua vez, o financiamento público começou a ser efetuado com emissão de LFTs, sendo tal título durante esses dois anos praticamente a única forma de arrecadação de recursos, via emissão de títulos, para o governo. Nesse período, é interessante notar que esse instrumento de origem heterodoxa passava a ser fundamental para a solvência do país. Sua inexistência impli- caria a necessidade de emissão de LTNs em prazos cada vez menores, o que levaria a aumento considerável no risco de refinanciamento da dívida. A criação das LBCs, primeiramente, e a seguir das LFTs mostra que a busca por soluções não tradicionais para os problemas econômicos foi usada também na administração da dívida pública. A despeito disso, o prazo da dívida não foi alterado com a emissão desse instrumento de repactuação diária, de forma que, ao final da década, o prazo médio da dívida continuou reduzido, enquanto o percentual desta sobre o PIB representava o maior valor registrado até aquela data, indicando o crescente grau de vulnerabilidade do país ante as necessi- dades de refinanciamento. Ao se iniciar o novo governo, em 1990, a situação do endividamento público era crítica, com o estoque de títulos em mercado representando 15% do PIB, recorde histórico, sendo a dívida composta praticamente por LFTs e com prazo médio de apenas cinco meses. Além disso, a inflação encontrava-se em níveis superiores a 1.000% ao ano, e o déficit primário havia atingido 1% do PIB no ano anterior. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 62 Tendo em vista esse pano de fundo, o governo do presidente Collor iniciou-se com o objetivo explícito de dar fim ao processo inflacionário e ao descontrole fiscal vivido pelo país nos últimos anos. O desgaste da política econômica mencionado anteriormente e a crítica situação da dívida pública daí decorrente conduziram às drás- ticas medidas representadas pelo Plano Collor em 1990, o qual, entre outras, determinou o congelamento de 80% dos ativos financeiros do país, representando, para a dívida pública, impacto sem precedentes. Com esse artifício, o governo promoveu a troca compulsória da dívida em poder do mercado por outra, reti- da por 18 meses no Banco Central, rendendo BTN + 6% a.a. Ou seja, o estoque, antes remunerado pela taxa Selic, passou a ser remunerado a uma taxa muito inferior, gerando ganhos consideráveis para o governo. Além disso, a medida causou uma profunda redução na liquidez da economia, de forma que o Banco Central se viu forçado a recomprar as LFTs ainda em mercado. Esses dois fatos, aliados ao superávit primário obtido no pri- meiro ano do novo governo (mais de 4% do PIB), acabaram por conduzir a uma queda histórica no estoque da dívida em poder do público, de 82,5% em 1990. Em 1991, com a inflação ascendente e dificuldade para emissão de LTNs, dada a credibilidade perdida pelo governo por conta do congelamento de ativos representado pelo Plano Collor, o Banco Central optou por criar um instrumento com características idênticas para fins de política monetária, o Bônus do Banco Central (BBC), instituído pela Resolução nº 1.780, de 21/12/1990. Nos primeiros meses de 1991, apenas esse título era ofer- tado ao público. A partir de setembro de 1991, os valores referentes aos ativos congelados começaram a ser devolvidos,e, a partir de outubro, os recursos para pagá-los eram obtidos com novas emissões de títulos. Ao final do ano de 1991 foi criado um novo instrumento, regulamentado pelo Decreto nº 317, de 30/10/1991 e denominado Notas do Tesouro Nacional (NTNs), com diversas séries, a depender do indexador utilizado. Dentre os mais comuns destacam-se o dólar (NTN-D), o IGP-M (NTN-C) e a TR (NTN-H). Buscava-se diversificar os instrumentos para tentar ampliar a base de investidores, tentando garantir os recursos para pagamento das BTN-Es vincendas. A criação dessa diversidade de instrumentos reflete não apenas as turbulências passadas pela economia do- méstica ao longo dos anos 1980 e início dos anos 1990, mas também a heterodoxia então dominante no plano macroeconômico. Buscando dar mais um passo na direção da separação entre as atividades fiscais e monetárias iniciada na década anterior, em 1993 foram propostas algumas medidas, conhecidas como “Operação Caixa-Preta”. Tais medidas buscavam propiciar maior transparência no relacionamento entre o Tesouro Nacional e o Banco Cen- tral, efetuando, entre outras mudanças, a reestruturação da carteira de títulos de responsabilidade do Tesouro Nacional no Banco Central, dotando a autoridade monetária de instrumentos mais adequados à condução da política monetária. Outra medida foi o resgate antecipado de títulos do Tesouro Nacional na carteira do Banco Central, com recursos obtidos via emissão de títulos do Tesouro em mercado, sendo um dos fatores responsá- veis pela queda de 24% no estoque da carteira de títulos em poder do Banco Central naquele ano. Ao longo desses anos da década de 1990, o governo continuava tentando debelar a inflação, que, naquele momento, já superava a casa dos 1.000% ao ano. Enquanto isso, as taxas de crescimento da economia con- tinuavam muito baixas, com o país apresentando crescimento médio real negativo de 1,3% de 1990 a 1993. Buscando dar um fim a essa situação, em 1994 era lançado mais um plano heterodoxo, conhecido como Plano Real. Este partia do mesmo princípio dos planos anteriores, isto é, que existia um componente inercial na infla- ção brasileira, mas dessa vez buscava-se conciliar a esse aspecto alguns componentes da cartilha ortodoxa, como a manutenção de elevadas taxas reais de juros. Dessa vez a receita foi bem-sucedida e o país pôde, após muitos anos, viver momentos de inflação em níveis razoáveis e cadentes. A partir de 1995, a previsibilidade começava a voltar a fazer parte do cotidiano dos agentes econômicos. Certamente, esse aspecto iria impactar, de alguma forma, a estrutura da dívida pública interna. Entretanto, a despeito do relativo sucesso na estabilização da inflação, a partir daquele ano a dívida co- meçou a apresentar trajetória forte de elevação, o que pode ser explicado pela conjugação de alguns fatores, dentre eles: (I) a rígida política monetária da época, a qual acarretou uma taxa real de juros média no período extremamente elevada; (II) o reduzido superávit primário, que se apresentava até negativo para alguns entes de governo; e (III) a política de propiciar maior transparência às contas públicas, reconhecendo vários passivos que antes se encontravam disfarçados, como, por exemplo, o programa de saneamento das finanças estaduais e municipais e a capitalização de alguns bancos federais. De fato, nessa segunda metade da década de1990, a DPMFi em mercado cresceu em média, em termos reais, à taxa de 24,8% a.a. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 63 Na segunda metade da década de 1990, o reduzido prazo médio da dívida, aliado à política de maior trans- parência fiscal (contabilização dos “esqueletos” no estoque da dívida), fazia com que o alongamento passasse a ser parte fundamental na estratégia de endividamento. Por essa razão, em que pese o sucesso na estabi- lização econômica, as mudanças na estratégia de endividamento ao longo dos anos seguintes foram reflexo preponderantemente das turbulências por que passou a economia internacional no período. Nos primeiros anos após o Plano Real, o governo logrou melhorar substancialmente a composição da dívida. Com a estabilidade econômica, ele elevou os volumes emitidos de LTNs, assim como paulatinamente buscou aumentar seus prazos ofertados em leilão, que passaram de um mês para dois e três meses de prazo. Em 1996, apenas LTNs de seis meses de prazo passaram a ser ofertadas em mercado. Os prazos desses títulos continuaram a ser elevados até que, ao final de 1997, o Tesouro Nacional conseguiu colocar em mercado títulos prefixados com dois anos de prazo. Após a eclosão da crise da Ásia, a opção imediata foi pela redução nos prazos, quando voltaram a ser ofertadas LTNs de três meses. Até esse momento, o governo tinha resistido a recorrer às LFTs. Apenas após a crise da Rússia o Tesouro Nacional decidiu voltar a emitir esse instrumento, interrompendo, momentaneamente, a emissão de títulos prefixados. Ao longo desse período, a participação das LTNs, que se encontrava em menos de 1% ao final de 1994, passou para 27% em 1996, enquanto o estoque das LFTs chegou a desaparecer nesse mesmo ano. Entretanto, já a partir de 1997, com a eclosão da crise asiática e a despeito do sucesso na manutenção da estabilidade econômica, os avanços obtidos foram sendo revertidos, de forma que, ao final de 1998, o estoque de prefixados chegaria a apenas 2% do estoque total, enquanto as LFTs voltavam a representar quase metade desse estoque total. Um dos motivos que explicam a não recuperação dos papéis prefixados na participação da dívida é, como esta cresceu muito, o aumento da percepção de risco de refinanciamento, de forma que o prazo médio desta teve de ser aumentado para não prejudicar a percepção do mercado quanto à sustentabilidade da dívida pú- blica. Dessa forma, evitou-se colocar títulos prefixados com prazos inferiores a seis meses, privilegiando ins- trumentos pós-fixados (em especial as LFTs) mais longos. Tal processo foi ajudado com a mudança no regime cambial em 1999, que, ao reduzir a volatilidade das taxas de juros, fez com que o risco de mercado da dívida pública, sob a ótica do governo, fosse também reduzido. De fato, a partir de 1999, o prazo das LFTs ofertadas em leilão foi aumentado para dois anos, enquanto as LTNs voltaram a ser emitidas com prazos de três e seis meses. O ponto a destacar quanto a esse período é que, apesar do grande avanço representado pela estabilização da economia, seus efeitos sobre a dívida pública em termos de composição dos instrumentos não se fizeram sentir tão fortemente como seria esperado. As expressivas emissões diretas representadas pelo reconheci- mento dos passivos contingentes (fundamental para um saneamento definitivo das contas públicas), aliadas às altas taxas de juros necessárias à consolidação da estabilidade, fizeram com que o estoque da dívida pública crescesse brutalmente no período. Esse fato gerou a necessidade de que seu prazo médio fosse elevado para evitar que o risco de refinanciamento a cada período ficasse muito grande. Também a partir de 1999 o governo voltou a emitir títulos indexados a índices de preços (IGP-M). O objetivo era reforçar o processo de alongamento da dívida pública, aproveitando uma elevada demanda potencial re- presentada pelos fundos de pensão. Desde então, tem-se observado um esforço no sentido de obter contínua melhoria no perfil da dívida federal interna, seja em termos de aumento do prazo, seja de uma maior qualidade na composição desta, buscando-se a redução na participação de títulos indexados à taxa de câmbio e à taxa Selic, o que vem acontecendo com sucesso desde 2003. Consenso de Washington Em novembro de 1989, reuniram-se na capital dos Estados Unidos funcionários do governo norte-america- no e dos organismos financeiros internacionais ali sediados - FMI, Banco Mundial e BID - especializados em assuntos latino-americanos. O objetivo do encontro, convocado pelo Institute forInternational Economics, sob o título “Latin American Adjustment: How Much Has Happened?”, era proceder a uma avaliação das reformas econômicas empreendidas nos países da região. Para relatara experiência de seus países também estiveram presentes diversos economistas latino-americanos. Às conclusões dessa reunião é que se daria, subsequente- mente, a denominação informal de “Consenso de Washington”. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 64 A mensagem neoliberal que o Consenso de Washington registraria vinha sendo transmitida, vigorosamente, a partir do começo da Administração Reagan nos Estados Unidos, com muita competência e fartos recursos, humanos e financeiros, por meio de agências internacionais e do governo norte-americano. Acabaria cabalmen- te absolvida por substancial parcela das elites políticas, empresariais e intelectuais da região, como sinônimo de modernidade, passando seu receituário a fazer parte do discurso e da ação dessas elites, como se de sua iniciativa e de seu interesse fosse. Exemplo desse processo de cooptação intelectual é o documento publicado em agosto de 1990 pela Fiesp, sob o título “Livre para crescer - Proposta para um Brasil moderno”, hoje na sua 5ª edição, no qual a entidade sugere a adoção de agenda de reformas virtualmente idêntica à consolidada em Washington. A proposta da Fiesp inclui, entretanto, algo que o Consenso de Washington não explicita mas que está claro em documento do Banco Mundial de 1989, intitulado “Trade Policy in Brazil: the Case for Reform”. Aí se recomendava que a inserção internacional de nosso país fosse feita pela revalorização da agricultura de exportação. Vale dizer, o órgão máximo da indústria paulista endossa, sem ressalvas, uma sugestão de volta ao passado, de inversão do processo nacional de industrialização, como se a vocação do Brasil, às vésperas do século XXI, pudesse voltar a ser a de exportador de produtos primários, como o foi até 1950. Uma área em que os preços são cadentes - são hoje, em termos reais, 40% em média inferiores aos de 1970 - em virtude do notável volume de subsídios concedidos a seus produtores agrícolas pelos países desenvolvidos, da ordem de US$ 150 bilhões de dólares por ano, e da revolução no setor de materiais que vem reduzindo substancialmente o uso de matérias-primas naturais por unidade de produto obtido. Ao final da década de 1980, dada a precária situação fiscal do país, o governo federal possuía dívidas con- tratuais vencidas com diversos credores. O processo de saneamento das contas públicas implicava encontrar uma solução para essa situação. No início dos anos 1990, o governo deu início a um processo de reestrutura- ção dessas dívidas por meio de sua securitização. Nesse processo, débitos oriundos da assunção de dívidas de estados e de empresas estatais foram repactuados e transformados em títulos públicos emitidos para os cre- dores originais. Enquanto representou um benefício para o governo, na medida em que permitiu a adaptação dos fluxos de pagamentos à sua capacidade de pagamento, contribuiu para o resgate da credibilidade do setor público como devedor. Para o credor, representou transformar uma dívida contratual, portanto sem liquidez, em instrumento passível de negociação em mercado secundário. O Tesouro Nacional registrou os títulos emitidos para refinanciamento da dívida dos estados no Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, do Banco Cen- tral (Selic) e os referentes à assunção da dívida das empresas estatais, denominados Créditos Securitizados, na Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip), onde estão custodiados, sendo livremente negociados em mercado secundário. Ainda nos anos 1990, os Créditos Securitizados foram, em conjunto com outros títulos da dívida pública, utilizados como moeda de pagamento no programa de privatização das empre- sas estatais, sendo, portanto, parte daquele conjunto de instrumentos que ficou conhecido como “moedas de privatização”. Em 1999, e dentro do processo de padronização dos instrumentos de dívida pública, o Tesouro Nacional passou a aceitar tais títulos como meio de pagamento na segunda etapa dos leilões de NTN-C e, mais recentemente, nos leilões de NTN-B. Não obstante essa possibilidade, o estoque dos Créditos Securitizados tem aumentado, em virtude, principalmente, da emissão regular de CVS, título que tem como origem a securi- tização de dívidas decorrentes do Fundo para Compensação das Variações Salariais (FCVS). O Brasil e o Consenso de Washington21 Os princípios neoliberais consolidados no Consenso de Washington batem de frente com alguns dos pres- supostos do modelo de desenvolvimento brasileiro e da política econômica externa que lhe dava apoio. Em particular com a liberdade de ação que o Brasil desejava manter para prosseguir em seu processo de indus- trialização, mediante reserva de mercado para indústrias de capital nacional no campo da informática assim como pela exclusão do patenteamento na área químico-farmacêutica. O Brasil tampouco se dispunha a aceitar restrições ao pleno desenvolvimento tecnológico no setor nuclear e aeroespacial. Golpeado pela crise da dívida externa e pela forma como esta foi tratada, o Brasil, graças a sua base indus- trial e ao esforço feito pela Petrobrás para aumentar substancialmente a produção nacional de petróleo, con- seguiria acumular substanciais saldos de balanço comercial, criando condições para honrar o serviço daquela dívida. Em consequência, só lograria fazê-lo à custa do equilíbrio das contas públicas. Sucessivas cartas de intenção ao FMI foram assinadas sem que o país pudesse cumprir as metas acordadas em matéria fiscal e 21 Batista, Paulo Nogueira. O CONSENSO DE WASHINGTON: A visão neoliberal dos problemas latino-a- mericanos. 1994 Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 65 monetária. Para dominar a inflação resultante desse descontrole, gerado em sua maior parte pelo serviço da dívida externa e interna, sucessivos planos, heterodoxos e ortodoxos, foram tentados sem êxito, produzindo um sentimento generalizado de frustração que abalaria a confiança na ação do Estado. A despeito da vulnerabilidade resultante do endividamento externo e dos percalços na luta contra a inflação, o Brasil não parou. Teria, por isso mesmo, condições para resistir às pressões do governo americano e dos organismos multilaterais de crédito. Resistiria, inclusive, às pretensões americanas no GATT, em matéria de serviços e de propriedade intelectual, posição que só começaria a ser erodida ao final do governo Sarney. Com Collor é que se produziria a adesão do Brasil aos postulados neoliberais recém-consolidados no Con- senso de Washington. Comprometido na campanha e no discurso de posse com uma plataforma essencialmen- te neoliberal e de alinhamento aos Estados Unidos, o ex-presidente se disporia a negociar bilateralmente com aquele país uma revisão, a fundo, da legislação brasileira tanto sobre informática quanto sobre propriedade in- dustrial, enviando subsequentemente ao Congresso projeto de lei que encampava as principais reivindicações americanas. Com base em recomendações do Banco Mundial, procederia a uma profunda liberalização do regime de importações, dando execução por atos administrativos a um programa de abertura unilateral do mer- cado brasileiro. Concluiria, ainda, negociações com a Argentina a respeito de um mecanismo de salvaguardas das respectivas instalações nucleares, mediante o qual nosso país, sem aderir ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, aceitaria de fato o regime de salvaguardas abrangentes que nele se prevê. Plano Collor22 A inflação em um ano de março de 1989 a março de 1990 chegou a 4.853%, e no governo anterior teve vá- rios planos fracassados de conter a inflação. Depois de sua posse, Collor anuncia um pacote econômico no dia 15 de março de 1990, o Plano Brasil Novo. Esse plano tinha comoobjetivo por fim a crise, ajustar a economia e elevar o país do terceiro para o Primeiro Mundo. O cruzado novo é substituído pelo “cruzeiro”, bloqueia por 18 meses os saldos das contas correntes, cadernetas de poupança e demais investimentos superiores a Cr$ 50.000,00. Os preços foram tabelados e depois liberados gradualmente. Os salários foram pré-fixados e depois negociados entre patrões e empregados. Os impostos e tarifas aumentaram e foram criados outros tributos, são suspensos os incentivos fiscais não garantidos pela Constituição. É Anunciado corte nos gastos públicos, também se reduz a máquina do Estado com a demissão de funcionários e privatização de empresas estatais. O plano também prevê a abertura do mercado interno, com a redução gradativa das alíquotas de importação. As empresas foram surpreendidas com o plano econômico e sem liquidez pressionam o governo. A ministra da economia Zélia Cardoso de Mello, faz a liberação gradativa do dinheiro retido, denominado de “operação torneirinha”, para pagamento de taxas, impostos municipais e estaduais, folhas de pagamento e contribuições previdenciárias. O governo libera os investimentos dos grandes empresários, e deixa retido somente o dinheiro dos poupadores individuais. Recessão - No início do Plano Collor a inflação foi reduzida porque o plano era ousado e radical, tirava o di- nheiro de circulação, porem com a redução da inflação iniciava-se a maior recessão da história no Brasil, houve aumento de desemprego, muitas empresas fecharam as portas e a produção diminui consideravelmente, tem uma queda de 26% em abril de 1990, em relação a abril de 1989. As empresas são obrigadas a reduzirem a produção, jornada de trabalho e salários, ou demitir funcionários. Só em São Paulo nos primeiros seis meses de 1990, 170 mil postos de trabalho deixaram de existir, foi o pior resultado, desde a crise do início da década de 80. O Produto Interno Bruto diminui de US$ 453 bilhões em 1989 para US$ 433 bilhões em 1990. Collor parecia alheio a sua política econômica desastrosa, procurava passar uma imagem de super-homem, sempre apare- cendo na mídia se exibindo, pilotando uma aeronave, fazendo caminhadas, praticando esportes etc. Mostrava uma personalidade forte, vaidoso, arrojado, combativo e moderno. Privatizações - Em 16 de agosto de 1990 o Programa Nacional de Desestatização que estava previsto no Plano Collor é regulamentado e a Usiminas é a primeira estatal a ser privatizada, através de um leilão em ou- tubro de 1991. Depois mais 25 estatais foram privatizadas até o final de 1993, quando Itamar Franco já estava à frente do governo brasileiro, com grandes transferências patrimoniais do setor público para o setor privado. Sendo que o processo de privatização dos setores petroquímico e siderúrgico já está praticamente concluído. Então se inicia a negociação do setor de telecomunicações e elétrico, há uma tentativa de limitar as privatiza- ções à construção de grandes obras e à abertura do capital das estatais, mantendo o controle acionário pelo Estado. 22 LENARDUZZI, Cristiano, Et al. PLANO COLLOR. Adaptado Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 66 Plano Collor II A inflação entra em cena novamente com um índice mensal de 19,39% em dezembro de 1990 e o acumulado do ano chega a 1.198%, o governo se vê obrigado a tomar algumas medidas. É decretado o Plano Collor II em 31 de janeiro de 1991. Tinha como objetivo controlar a ciranda financeira, extingue as operações de overnight e cria o Fundo de Aplicações Financeiras (FAF) onde centraliza todas as operações de curto prazo, acaba com o Bônus do Tesouro Nacional fiscal (BTNf), o qual era usado pelo mercado para indexar preços, passa a utilizar a Taxa Referencial Diária (TRD) com juros prefixados e aumenta o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Pratica uma política de juros altos, e faz um grande esforço para desindexar a economia e tenta mais um con- gelamento de preços e salários. Um deflator é adotado para os contratos com vencimento após 1º de fevereiro. O governo acreditava que aumentando a concorrência no setor industrial conseguiria segurar a inflação, então se cria um cronograma de redução das tarifas de importação, reduzindo a inflação de 1991 para 481%. A recu- peração da economia iniciou-se no final de 1992, após um grande processo de reestruturação interna das in- dustrias. Foi fundamental a abertura do mercado brasileiro para produtos importados, a qual obrigou a indústria nacional a investir alto na modernização do processo produtivo, qualidade e lançamento de novos produtos no mercado. As empresas que queriam permanecer no mercado tiveram que rever seus métodos administrativos, bem como da organização, reduzindo os custos de gerenciamento, as atividades foram centralizadas, muitos setores terceirizados. As empresas são obrigadas a investir pesado na automação, reduz a hierarquia interna nas industrias, então cresce a produtividade. Toda essa modernidade era necessária para as empresas se tor- narem mais competitiva, tanto no mercado interno quanto no mercado externo. O aumento de produtividade foi fundamental para a sobrevivência das empresas, porem para os trabalhadores, significava perdas de postos de trabalho, quer dizer com menos funcionários se produziam mais, então aumenta o desemprego dos brasileiros, que em 1993 só na Grande São Paulo chega a um milhão e duzentos mil trabalhadores desempregados. Plano Real23 O Plano Real teve como base teórica: o Consenso de Washington, que deu as direções que deveriam ser tomadas e o Plano Cruzado e as discussões relativas à sua criação, tomados como um exemplo dos erros que não deveriam ser repetidos. Em novembro de 1989, em congresso convocado pelo Instituto de Economia Internacional, reuniram-se em Washington funcionários do governo dos EUA, FMI, BIRD, BID e economistas latino-americanos para debater o seguinte tema: “Ajustamento latino-americano, o que tem ocorrido?”. O congresso afirmou a excelência das medidas neoliberais que vinham sendo adotadas pelos países latino-americanos até então, com exceção do Brasil e do Peru. A conferência apontou a importância do combate à inflação através da dolarização da econo- mia, valorização das moedas nacionais, ajuste fiscal, aceleração das privatizações, mudanças na seguridade social, desregulamentação dos mercados e liberalização comercial e financeira. A segunda referência importante, a experiência do Plano Cruzado, forneceu um aporte teórico relacionado ao debate entre as propostas de uma “moeda indexada” e um “choque heterodoxo”. Devido à inoperância do Plano Cruzado, que foi identificado como um “choque heterodoxo”, a outra sugestão ganhou força no desenvolvimento do Plano Real. A ideia de uma “moeda indexada” ao dólar e a outra moeda nacional paralela, ganhou força durante o desenvolvimento do Plano Cruzado e influenciou fortemente o Plano Real. Brasil, Argentina e México enfrentaram vários desafios comuns no final da década de 1980 e início da dé- cada de 1990, os principais deles sendo a inflação que implicava em sérios problemas sociais, necessidade de reorganização das economias e alinhamento às mudanças internacionais nestes países que ainda estavam vinculados aos programas de desenvolvimentos fortemente estatais que, no Brasil, foram implementados pelo governo militar a partir de 1964 e ganhando força na década de 1970. O processo de desenvolvimento da uma economia liberal no México, entre 1988 e 1994, assim como no Bra- sil, teve como objetivo diminuir a participação do Estado na economia e avançar na liberalização do comércio externo, com destaque para as relações comerciais com os Estados Unidos e o Canadá que foram favorecidas com a entrada do país no Nafta (North American Free Trade Agreement). O processo de reformas no início da década de 90 contribui para o crescimento da economia baseado nas exportações e apoiado por uma política 23 IPOLITO, DaniloBueno. História do Plano Real. Universidade de São Paulo, Jornalismo. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 67 de desvalorização do Peso. No entanto, o crescimento foi quebrado por uma crise cambial motivada pela des- confiança do capital internacional, provocando uma instabilidade que se refletiu na saída maciça de capital e na queda abrupta das reservas do país. Na Argentina, durante o governo do presidente Carlos Menem, o Ministro da Economia Domingo Cavallo apresentou seu plano para combater a inflação, que se reverteu na Lei da Convertibilidade, que tinha como uma de suas bases o câmbio fixo, atrelado ao dólar, o que restringia a emissão de moeda ao aumento do Tesouro Nacional. Em um primeiro momento, a medida proporcionou uma estabilidade econômica sem inflação signifi- cativa que favoreceu o ingresso de capitais estrangeiros produzindo um forte crescimento do PIB. No entanto, uma recessão que teve início em 1998 e chegou ao seu auge em 2001, em parte relacionada às crises interna- cionais e, em parte resultado da política de câmbio fixo, terminou por provocar o fim da Lei de Convertibilidade com altas sequelas para o país, nos níveis político, social e econômico. A economia brasileira repetiria a trajetória mexicana e argentina em alguns pontos importantes, combinando sucesso inicial no combate à inflação com elevados déficits externos e forte dependência de fluxos voláteis de capital internacional. Algumas diferenças entre os três planos são claras: o Plano Real era mais flexível e cauteloso com relação ao câmbio do que a lei de conversibilidade argentina; o plano mexicano recorreu intensamente a políticas de preços e salários, que dependeu de negociações com os representantes das classes trabalhistas, diferente do que aconteceu com os planos argentino e brasileiro. No caso do Plano Real, a criação da URV (Unidade Real de Valor), que funcionou por quatro meses, foi uma medida original para evitar medidas de choque como con- fiscos e congelamentos, possibilitando a estabilização da moeda. No entanto, as diferenças não superam as convergências entre os três planos que buscavam a estabiliza- ção da economia e sua inserção nos padrões internacionais do neoliberalismo, que passava a ditar as novas normas do capitalismo mundial. Nas semelhanças entre os planos estão: o uso da taxa de câmbio como instrumento de combate à inflação, de acordo com o conceito de monetary standard approach que considera a importância da harmonização das políticas monetárias como uma forma de combate à inflação; a abertura da economia às importações, por meio da drástica redução das barreiras tarifárias e não-tarifárias; a abertura financeira externa, com o estímulo à entrada de capitais de curto prazo e medidas de desindexação da economia. Implantação do Plano Real O Plano de Fernando Henrique Cardoso, que era ministro da Fazenda do governo de Itamar Franco, consis- tia em três fases: o ajuste fiscal, o estabelecimento da URV (Unidade de Referência de Valor) e a instituição de uma nova moeda, o Real. De acordo com os autores do plano, as reformas liberais do Estado, que estavam em andamento naquele período seriam fundamentais para efetividade do plano. A primeira fase, o “ajuste fiscal” procurava criar condições fiscais adequadas para diminuir o desequilíbrio orçamentário do Estado, principalmente sua fragilidade com financiamento, que seria um dos principais proble- mas relacionados à inflação. A criação do FSE (Fundo Social de Emergência), que tinha por finalidade diminuir os custos sociais derivados da execução do plano e dos cortes de impostos, foi uma das principais iniciativas do governo. A URV, o embrião da nova moeda, que terminou quando o Real começou a funcionar em 1º de julho de 1994, era um índice de inflação formado por outros três índices: O IGP-M, da Fundação Getúlio Vargas, o IPCA do IBGE e o IPC da FIPE/USP. O objetivo do governo era amarrar o URV ao dólar, preparando o caminho para a “âncora cambial” da moeda e também evitar o caráter abrupto dos outros planos, com esta ferramenta transitó- ria. Dessa forma, ao contrário da proposta de “moeda indexada” e da criação de duas moedas, apenas separa- ram-se duas funções da mesma moeda, pois o URV servia como uma “unidade de conta”. A terceira fase do plano consistiu na implementação da nova moeda, que substituiria o Cruzeiro de acordo com a cotação da URV que, naquele momento, valia CR$ 2.750,00. O governo instituiu que este valor corres- ponderia a R$ 1,00 que, por sua vez, foi fixada pelo Banco Central em US$ 1,00, com a garantia das reservas em dólar acumuladas desde 1993. No entanto, apesar de amarrar a moeda ao dólar, o Governo não garantiu a conversibilidade das duas moe- das, como ocorreu na Argentina. Dessa forma, o Real conseguiu corresponder de uma forma mais adequada às turbulências desencadeadas pela crise do México, que começou a se intensificar no final de 1994. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 68 A política de juros altos, que promoveu a entrada de capitais de curto prazo, e a abertura do país aos produ- tos estrangeiros, com a queda do Imposto de Importação, foram fundamentais para complementar a introdução da nova moeda e para combater a inflação e elevar os níveis de emprego. Reformas do Estado Considerada uma quarta fase da reforma econômica proposta pelo Plano Real, as reformas no Estado propiciaram o habitat ideal para a moeda criada em sintonia com o conceito de neoliberalismo, ao contrário do Estado que, como visto anteriormente, ainda carregava fortes resquícios do modelo pré-crise do petróleo, caracterizado pela regulamentação do mercado, a instituição de monopólios estatais e o forte investimento em infraestrutura. Desta forma, os defensores do Plano Real insistiram na necessidade das reformas das áreas econômicas como a quebra dos monopólios estatais, tratamento igualitário entre empresas nacionais e estrangeiras e des- regulamentação das atividades e mercados considerados até então estratégicos ou de segurança nacional. Além disso, foram empreendidas reformas tributárias, administrativas e previdenciárias. A importância destas reformas para a estabilização do país e a inserção internacional brasileira era ressal- tada e abrandada nos períodos mais estáveis da economia nacional. As mudanças de ordem econômica foram aprovadas com relativa facilidade no Congresso Nacional, sendo extintos o monopólio estatal na área de pros- pecção, exploração e refino de petróleo e na distribuição, transmissão e geração de energia. As reformulações nas estruturas do Estado foram mais complicadas. A reforma fiscal só começou a ser dis- cutida no Congresso com a crise cambial em janeiro de 1999. Na reforma administrativa, aprovou-se a possibi- lidade de demissão de funcionários públicos por excesso de quadros (quando os salários ultrapassarem 60% das receitas), e por ineficiência. As privatizações, que já estavam encaminhadas desde o governo Collor, com o PND (Programa Nacional de Desestatização), foram ampliadas e aceleradas. Nesse sentido, pode-se perceber a importância do Plano Real para a implementação do projeto liberal no Brasil e como, de fato, não foi apenas um plano solitário de estabilização monetária e sim um conjunto de me- didas para impulsionar a internacionalização da economia brasileira. A Euforia do Consumo - A queda da inflação de 46,60% em junho para 3,34% em agosto e a manutenção desta abaixo desse valor nos meses seguintes provocou um aumento imediato no poder aquisitivo da popula- ção de mais baixa renda, conduzindo uma explosão dos níveis de consumo que resultou em um crescimento de 5,4% no PIB de 1994. Colaborou para isso o aumento das compras a prazo e a baixa remuneração nominal das aplicações financeiras com a realocação dos recursos para o consumo. As crises Mexicana, Asiática e Russa A partir de dezembro de 1994 eclodiu a crisecambial mexicana, e a saída de capital especulativo relaciona- da à queda da cotação do dólar nos mercados internacionais começou a colocar em xeque a estabilização da economia nacional e o Plano Real, que dependia em grande parte do capital estrangeiro. A crise mostrou que a política de contenção da inflação com a valorização das moedas nacionais frente ao dólar não poderia ser sustentável no longo prazo. Negando sempre à similaridade entre o Brasil e o México e a Argentina, o governo passou a desacelerar a atividade econômica e a frear a abertura internacional com a elevação da taxa de juros, aumento das restrições às importações e com estímulos à exportação. Com a necessidade de opor a situação econômica brasileira à mexicana, como um sinal ao capital especulativo, o governo quis mostrar que corrigiria a trajetória de sua ba- lança comercial, atingindo saldo positivo. Após retomada do crescimento entre abril de 1996 e junho de 1997, a crise dos “Tigres Asiáticos”, que come- çou com a desvalorização da moeda da Tailândia, se alastrou para Indonésia, Malásia, Filipinas e Hong Kong e acabou por atingir Nova York e os mercados financeiros mundiais. A crise obrigou o governo a elevar novamente as taxas de juros e decretar um novo ajuste fiscal. Novamente a fuga de capitais voltou a assolar a economia brasileira e o Plano Real. A consequência foi a demissão de 33 mil funcionários públicos não estáveis da União, suspensão do reajuste salarial do funcionalismo público, redução em 15% dos gastos em atividades e corte de 6% no valor dos proje- tos de investimento para 1998, o que resultou em uma diminuição de 0,12% do PIB naquele ano. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 69 A crise se intensificou em agosto com o aumento da instabilidade financeira na Rússia, com a desvalorização do rublo e a decretação da moratória por parte do governo. A resposta brasileira foi a mesma de sempre, a elevação da taxa de juros básica para até 49% e um novo pacote fiscal para o período 1999/2001. No entanto, diferentemente das outras duas crises, o governo recorreu ao FMI em dezembro de 1998, com quem obteve cerca de US$ 41,5 bilhões, comprometendo-se a manter o mesmo regime cambial, desvalorizando gradativamente o Real, acelerar as privatizações e as reformas libe- rais, realizar o pacote fiscal e assumir metas com relação ao superávit primário. O fim da âncora cambial Nos primeiros dias do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1999, a repercussão da crise cambial russa chegou ao seu limite no Brasil. As elevadas taxas de juros começavam a perder força como ferramenta de manutenção do capital externo na economia brasileira e um novo déficit recorde na conta de transações correntes obrigou o governo a mudar a banda cambial, que foi ampliada para R$ 1,32. Logo no primeiro dia, o Real atingiu o limite máximo da banda, sendo desvalorizado em 8,2%, o que in- fluenciou na queda do valor dos títulos brasileiros no exterior e das bolsas de valores do mundo todo. O Banco Central tentou defender o valor da moeda, vendendo dólares, mas a saída de capitais continuou ameaçando se aproximar do limite de 20 bilhões, que foi acordado com o FMI no ano anterior. Nesse momento, o governo não teve outra escolha senão deixar o câmbio flutuar livremente, alcançando a cotação de R$ 1,98 em 13 dias. Os Ciclos Diferenciados e o Desafio da Política Monetária Pró-Cíclica24 A crise financeira internacional de 2008 provocou uma queda consistente da inflação nas economias desen- volvidas, mas nos países emergentes foram registradas divergências acentuadas no ciclo inflacionário, que tem prevalecido nos anos recentes. O Chile e o México iniciaram um ciclo de flexibilização monetária em 2012 e 2013, respectivamente, com a desaceleração do ritmo de crescimento econômico, enquanto o Brasil elevou sua taxa básica de juros em 375 pontos base entre abril de 2013 e abril de 2014 de 7,25% para 11,0%, a despeito da redução no ritmo da expansão da atividade industrial e do consumo privado. O estabelecimento do regime de metas de inflação em 1999 marcou o início de um novo arcabouço ins- titucional da política monetária no Brasil. Com a combinação do regime de câmbio flutuante, as expectativas inflacionárias assumiram um papel relevante na convergência da inflação para a meta central, que passou ser o principal objetivo do Banco Central e a taxa de juros, o principal instrumento. Entretanto, para a boa consecução do regime de metas de inflação é crucial a convergência e a coordenação das políticas fiscal e monetária. Após registrar superávits primários consolidados na média de 1,93% do PIB entre 1999-2002 e de 2,42% entre 2003-2008, a política fiscal brasileira tem sido posta em cheque nos últimos anos quanto à sua neutralidade na inflação e a sua influência nas ações da política monetária. Os desvios con- sistentes da inflação à meta central nos últimos anos e sobretudo, o timming e a intensidade do ajuste da taxa de juros levantaram questionamentos entre os analistas em relação ao ciclo da política monetária, que estaria mais associado a um padrão pró-cíclico. As economias em desenvolvimento tradicionalmente implementaram políticas fiscais pró-cíclicas, com ex- pansão de gastos públicos em períodos de elevação das taxas de crescimento econômico e ajustes contracio- nistas nas contas públicas nos períodos recessivos ou de desaceleração, reforçando a deterioração dos ciclos de negócios. O comportamento pró-cíclico da política fiscal estaria associado às dificuldades de acesso ao financiamento do mercado internacional de capitais e também às pressões políticas por aumento de gastos em períodos do ciclo de alta do crescimento econômico. Entretanto, nos últimos anos, aumentou o número de economias emergentes que tem acionado políticas fiscais anticíclicas, ou seja, tem priorizado a recuperação da poupança fiscal em anos de bom crescimento para utilizar essa poupança de forma anticíclica nos períodos de contração ou desaceleração econômica, via ampliação dos gastos fiscais e crédito público subsidiado. Esse movimento estaria associado à qualidade insti- tucional e regulatória e ao aprofundamento das reformas econômicas estruturais, reforçando a credibilidade do cumprimento das metas de superávit primário. 24 VELHO, Eduardo. Os Ciclos Diferenciados e o Desafio da Política Monetária Pró-Cíclica. Disponível em: http://agriforum.agr.br/os-ciclos-diferenciados-e-o-desafio-da-politica-monetaria-pro-ciclica/ Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 70 No caso da economia brasileira, os números apontam características de uma política fiscal anticíclica (em alguns períodos, o governo não formalizou a política anticíclica como objetivo, sobretudo antes de 2012) após a crise financeira internacional, considerando o indicador de superávit primário consolidado do setor público estrutural acumulado em quatro trimestres como proporção do PIB. Para citar um exemplo, esse superávit recuou de 3,4% no primeiro trimestre de 2008 para 2,2% no terceiro trimestre de 2009, quando a taxa real de crescimento acumulada em quatro trimestres recuou de 6,37% para uma variação negativa de -1,4% na mes- ma comparação. Entre 2010 e 2013, também ocorreu a deterioração do superávit primário durante o ciclo de desaceleração do PIB. Entretanto, a recuperação da poupança fiscal na economia brasileira em períodos de expansão econômica tem sido puxada de forma preponderante pelo aumento das receitas tributárias e não por corte e/ou maior efi- ciência dos gastos. Nesse panorama, a política fiscal pressiona a inflação de custos e no último triênio 2011- 2013, apresentou novo impulso fiscal de demanda, o que também demandou a necessidade de retomada de um novo ciclo de aperto monetário em 2013. No passado, em diversas economias emergentes que apresentavam déficits elevados de transações corren- tesno balanço de pagamentos e pressão de desvalorização de suas moedas, como o Brasil nas décadas de 80 e 90, os governos acionavam o aumento das taxas internas de juros para atenuar esse movimento, mas que por outro lado, limitava ou mesmo impedia a adoção de política monetárias anticíclicas. Nos últimos cinquenta anos, cerca de 40% dos países em desenvolvimento sancionaram políticas monetá- rias pró-cíclicas, enquanto países industrializados praticaram políticas monetárias anticíclicas no mesmo perío- do. Ao comparar os ciclos da política monetária, através da taxa básica de juros e da taxa real de crescimento econômico medida pelo PIB (para uma amostra de 69 economias entre os anos de 1960 a 2009), constatou-se que todas as economias consideradas industrializadas adotaram taxas de juros mais elevadas em períodos de maior crescimento. Crescimento econômico25 A economia internacional registrou uma aceleração do crescimento a partir de 2002. A exemplo do que havia ocorrido entre 1982 e 2001. As regiões que mais se destacaram foram a Ásia Ocidental e Pacífico e a China. Nesse último país, a média anual do período foi de quase 10%. A economia da Rússia, que conseguiu sair da recessão pós-socialista graças ao aumento dos preços do petróleo, se expandiu a 6,4% ao ano. Os países da União Europeia e o Japão tiveram comportamento inverso. Suas economias reduziram o cres- cimento a níveis inferiores a 2%. A América Latina apresentou uma recuperação, chegando a quase 4% ao ano a despeito de o Brasil ter mantido sua trajetória anual de 2,4%. Os EUA também mantiveram seu crescimento em torno de 3%. A economia brasileira, apesar do crescimento relativamente lento, apresentou, nesse período, uma mudança em relação às duas décadas anteriores. Houve uma substancial redução da fragilidade externa da economia, graças à acumulação de elevados superávits comerciais – US$ 32 bilhões, em média, entre 2001 e 2006, dos pelo aumento das exportações. O resultado foram os sucessivos saldos positivos nas transações correntes, da ordem de 1,5% do PIB Esses elevados superávits externos se refletiram muito positivamente nos indicadores de dívida e de re- servas externas. A dívida externa líquida até setembro de 2006 havia sido reduzida para US$ 70,8 bilhões, o equivalente a 35% do valor máximo alcançado em 1999, US$ 205,1 bilhões. Já a dívida externa bruta registrou uma redução de US$ 84,8 bilhões nesse mesmo período, enquanto as reservas internacionais atingiram US$ US$ 62,7 bilhões, aumentando em praticamente US$ 30 bilhões desde o nível mínimo atingido em 2000. Como se pode ver no Anexo 1, essa melhoria no quadro externo pode ser percebida em todos os demais indicadores de solvência externa da economia brasileira. A redução da vulnerabilidade externa foi acompanhada pelo forta- lecimento financeiro das empresas brasileiras. A partir de 2002, a dívida bruta das companhias abertas, a preços de dezembro de 2005 [Nascimento (2006)], caiu de R$ 366,8 bilhões para R$ 286,5 bilhões: uma redução de aproximadamente R$ 80 bilhões. Com isso, ao final daquele último ano, a dívida total era 21,9% menor do que em 2002, ano em que atingiu seu valor máximo. 25 CRUZ, Adriana inhudes Gonçalves, Et al. A Economia Brasileira: Conquistas dos Últimos dez anos e perspectivas para o futuro. Adaptado Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 71 Do ponto de vista do endividamento líquido, a queda foi ainda maior. O saldo de R$ 253 bilhões a preços de 2005, registrado ao final de 2002, se viu reduzido, no final de 2005, a R$ 130,7 bilhões, ou seja, quase a metade. Além da redução da dívida bruta, colaborou para esse resultado o aumento das disponibilidades e aplicações líquidas dessas empresas, que passaram de R$ 132 bilhões para R$ 156 bilhões nesse período. Com relação ao equilíbrio entre receitas e obrigações em moeda estrangeira, também se observou uma redução importante na fragilidade das empresas. A participação do endividamento em moeda estrangeira no endividamento total das empresas analisadas começou a declinar ainda em 2001 quando atingiu o máximo de 46%. Desde então, a redução das dívidas em moeda estrangeira se acentuou, fazendo com que sua participa- ção declinasse para 30% em 2005. Foi uma queda de 12 pontos percentuais em apenas três anos. Esses resultados sinalizam um cenário de fortalecimento financeiro das empresas, tanto em termos de menor endividamento líquido quanto de maior equilíbrio entre suas receitas e seus pagamentos em moeda es- trangeira. Esse comportamento corresponde, no plano microeconômico, à redução da vulnerabilidade externa da economia como um todo. Crescimento do mercado interno26 No ano 2000, o Brasil voltou a apresentar uma aceleração do crescimento, o PIB cresceu 4,3%. O aqueci- mento da economia estava relacionado com a diminuição das taxas de juros, imposta rigidamente para ficar no patamar de 15% no ano anterior, o grande período em que o Real manteve-se estabilizado nos anos anteriores e com a recuperação da confiança, consequência do comprimento do acordo com FMI. O ano de 2001 foi marcado por uma desaceleração econômica, a taxa de crescimento do PIB foi de apenas 1,3%. Isso aconteceu devido à crise energética vivenciada pelo país e pela insegurança nos mercados exter- nos, provocados pela crise da Argentina e pelos atentados terroristas contra os Estados Unidos. Com isso, o mercado de câmbio passou por algumas oscilações, na qual o Real sofreu uma depreciação média de 28,3% ao ano e a taxa cambial variou de R$1,95/US$, em Janeiro para R$2,36/US$ em Dezembro. Apesar disso, o impacto da desvalorização cambial sobre os preços não foi tão acentuado, o IPCA cresceu 6,8% no ano, justificado pela diminuição da demanda do consumidor e pela paralisação do mercado de traba- lho, em relação a novas contratações e a rentabilidade real. Além disso, a crise energética também impactaria o nível de preços, e assim, o país operou com uma política monetária retrativa, através do aumento da taxa básica de juros e dos depósitos compulsórios, para permanecer dentro da meta inflacionária. O colapso energético ocorrido no Brasil neste período comprometeu o fornecimento e distribuição de energia elétrica do país. Esta crise interna, que obrigou os brasileiros a racionar energia, aconteceu por dois principais motivos: a pequena quantidade de chuva, que deixou inúmeras represas vazias, e pela carência de planeja- mento e de investimento, tanto na geração como na distribuição da energia elétrica. Em 2001, a economia da Argentina, que estava atrelada ao câmbio fixo, no qual um peso era equivalente a um dólar, tentou negociar suas dívidas, porém só aprofundou ainda mais a crise. Em dezembro, o país declarou a moratória de sua dívida, neste mês, o Presidente Fernando de La Rua renunciou, e em seguida, outros quatro presidentes assumiram o cargo e renunciaram em 12 dias. A taxa de crescimento em 2002 foi de 2,7%, ocasionada devido a vitória nas eleições presidenciais do país pelo candidato de oposição, Luiz Inácio Lula da Silva, que trouxe incerteza quanto à sustentação da política econômica, o chamado risco-Lula, nome que faz alusão ao risco-país. O risco-país tenta medir a instabilidade econômica em um país e assim o risco que você assume ao investir nele, quanto maior, menores serão as chances de atrair investidores estrangeiros. Esse fator, aliado à degradação da economia e da política da Argentina, resultou na queda do fluxo de capi- tais e aumentou risco dos países emergentes, pelo provável ataque ao Iraque pelos EUA, que provocou insta- bilidade nos preços internacionais do petróleo e afetou os preços internos de seus derivados. 26 Ribeiro, Francielle Camila Santos, Et al. A EVOLUÇÃO DO PRODUTO INTERNO BRUTO BRASILEIRO ENTRE 1993 E 2009 Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 72 Em consequência desses fatores, o aumento da taxa cambial nãosó continuou como passou a influenciar os preços internos e elevar a dívida pública, pois parte dela estava acoplada à moeda estrangeira, terminando o ano com a cotação de R$3,63/US$ e com uma depreciação de 52% do Real. Mesmo com a moeda depreciada e com o aumento da inflação, o Banco Central decidiu reduzir para 18% a taxa Selic em julho, agosto e setem- bro, porém no em outubro teve início um aumento sucessivo da taxa, concluindo o ano em 25%. Em 2002, o que aumentou o nível desta taxa foi o risco-Lula, que trouxe insegurança quanto à política eco- nômica que iria empregar. Em 2003 o governo adotou política fiscal e monetária contracionista, fazendo com que a taxa de crescimento do PIB voltasse a desacelerar e alcançasse a marca de 1,1%. A insegurança do período foi caracterizada pelo aumento do risco-país, pela depreciação da taxa de câmbio, pela saída de capitais e pela queda do crédito internacional. Com o objetivo de controlar a inflação, o governo optou por aumentar a taxa Selic para 26,5% ao ano em fe- vereiro, mantendo-a assim até junho. Esta política econômica resultou em maior confiança dos mercados e na baixa do câmbio, que passou de R$3,59/US$ em fevereiro para R$2,93/US$ ao final do ano. Com a apreciação do câmbio e com ferramentas monetárias restritivas, o governo conseguiu obter certo controle sobre a inflação e assim voltou a diminuir a taxa básica de juros. Mesmo assim, a inflação acumulada do período alcançou 9,3% (IPCA). O ano de 2004 foi marcado pela retomada do crescimento do PIB brasileiro, alcançando a taxa de 5,7%. Com um ambiente externo favorável e o contínuo aumento do saldo da balança comercial, a taxa de câmbio voltou a valorizar-se. Além disso, a queda da inflação, a partir da metade do ano de 2003, fez com que o Banco Central reduzisse a meta da taxa Selic em 10 pontos percentuais, atingindo, em janeiro de 2004, 16,5% a.a. De janeiro a abril, o Comitê de Política Monetária (COPOM) decidiu diminuir a taxa Selic em meio ponto per- centual para prorrogar o crescimento econômico e o pequeno nível da inflação. Porém, no segundo semestre, o aumento da pressão inflacionária acarretou um aumento desta taxa, que passou para 17,5% ao ano. Em 2005, o país apresentou crescimento de 3,2%, desempenho menor que o verificado em 2004, devido à desaceleração dos investimentos, da indústria de transformação e da agropecuária. Segundo Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais do IBGE, este resultado foi puxado pelo consumo das famílias, influenciado prin- cipalmente pelo aumento do crédito e dos salários reais, da ordem de 3,1%, enquanto que o gasto do governo cresceu 1,6% em relação ao ano anterior. De acordo com o IBGE, a participação dos componentes da demanda, no resultado do PIB deste ano, foi de 55,5% consumo das famílias, 20,6% investimento, 19,5% consumo do governo e exportações líquidas de 4,4%, sendo que as exportações contribuíram com 16,8%, contra 18,0% de 2004, queda justificada pela apreciação do Real frente ao dólar, enquanto as importações alcançaram 12,4%, contra 13,4% em 2004. Os investimentos registraram alta de apenas 1,6%, em relação a 2004, pois a crise de confiança, motivada pelas incertezas quanto às políticas do governo, fez com que empresários e consumidores adiassem projetos para 2006. A taxa de juros mais elevadas e o câmbio contribuíram com esse resultado. A participação setorial no valor adicionado foi da ordem de R$ 145,8 bilhões para a agropecuária, redução na participação de 1,70% em relação a 2004, totalizando 8,4% do PIB 2005. A indústria e os serviços apresenta- ram desempenhos positivos, 40% e 57%, respectivamente. O PIB per capita a preços correntes, definido como a divisão do total do PIB a preços correntes pela população residente atingiu R$ 10.520,00 em 2005. Para o ano de 2006, o crescimento registrado foi de 4,0%, pequena recuperação frente a 2005. O PIB per capita apresentou crescimento real de 1,4% e o consumo das famílias 3,8% ante 2005. Com base em dados do IBGE, o setor agropecuário cresceu 3,2% em 2006, a indústria brasileira avançou 3%, puxada pela indústria extrativa mineral (5,6%) e pela construção civil (4,5%). O ano foi marcado pelos re- flexos da crise do agronegócio iniciada em 2005, determinada pela ausência de investimentos e de incentivos por parte dos governos e, pela preocupação mundial com a gripe do frango, febre aftosa, transgenia, que com- prometeram as exportações brasileiras do setor. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 73 O resultado de 2007 mostra crescimento de 5,7%, conquistado pela recuperação do setor do agronegócio, atividade que apresentou o maior crescimento no ano com 5,3%, baseado no bom desempenho da lavoura de trigo, algodão herbáceo, milho em grão, cana e soja. O bom desempenho da economia também foi motivado pelo volume de investimentos (16,0%). A indústria cresceu 4,9%, com destaque para a indústria de transformação com participação de 5,1%, e da construção civil 5,0%, enquanto o setor de serviços apresentou alta de 4,7% em relação a 2006, desempenho determinado pelo subsetor de intermediações financeiras e seguros (13,0%), seguido por serviços de informa- ções (8,0%) e comércio (7,6%). O PIB cresceu 5,1% em 2008, enquanto o PIB per capita cresceu 4,0% em relação a 2007. A taxa de inves- timento de 2008 chegou a 18,5% - a mais alta da série iniciada em 2000. Comparando o quarto trimestre de 2008 com o terceiro, o PIB apresentou queda de 3,6%, se comparado ao mesmo período de 2007 a economia brasileira registrou expansão de 1,3% Os modestos resultados do último trimestre do ano foram motivados pela precipitação da crise mundial, ini- ciada nos Estados Unidos, que foi negligenciada pelo governo brasileiro, que se limitou a reduzir os depósitos compulsórios e preferiu não alterar a taxa Selic. A indústria foi o setor que mais padeceu, registrando queda de 7,4%, enquanto a agropecuária e serviços apresentaram resultados de – 0,5% e – 0,4%, respectivamente no período. Em 2009, a variação do PIB ficou em - 0,2%, totalizando R$ 3.143 bilhões. Os resultados setoriais também apresentaram queda, sendo o pior desempenho da indústria - 5,5%, no qual todos os subsetores apresenta- ram queda, com destaque para a indústria e transformação (- 7,0%) e construção civil (-6,3%). O agronegócio recuou – 5,2%, devido à redução da produção de trigo, milho, café e soja. O setor de serviços apresentou alta de 2,6%. Os componentes da demanda interna agregada apresentaram valores positivos para consumo das famílias (4,1%) e gastos do governo (3,7%), enquanto que a formação bruta de capital fixo recuou 9,9%. A renda per capita caiu em 1,2%, ficando em R$ 16.414,00, resultado maior que em 2008, devido à baixa taxa de crescimento da população (0,99%) e não ao desempenho da economia. A taxa de investimento recuou para 16,7%, resultado diretamente relacionado à crise de confiança, que ron- dava a economia mundial no primeiro semestre de 2009, “recessão pronunciada, acontecida no 1º semestre do ano, reflexo da penetração da crise internacional no front doméstico, que atingiu de forma profunda os ramos mais articulados ao comércio externo, pela via perversa da diminuição da demanda, dos preços e do crédito”. No segundo semestre, a economia se recuperou, em função do bom desempenho do mercado interno aque- cido pelas reduções do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para automóveis, eletrodomésticos da linha branca e materiais de construção, e da pequena melhora apresentada pelo comércio internacional. O PIB do primeiro semestre, se comparado ao mesmo período de 2008, recuou 1,9% e, no segundo período de 2009, apresentou alta de 1,5%, seguindo a mesma base comparativa. As medidas para mitigação dos efeitos da crise foram intensificadas entre 2008 até meados de 2009, pe- ríodo no qual a política monetária promoveu uma diminuição gradativa na taxa Selic de 13,75% a.a. em de- zembro/2008 para 8,75 a.a.em julho/2009. Portanto, a recuperação demonstra que as medidas adotadas pelo governo promoveram a reação econômica, fazendo com que o Produto Interno Bruto crescesse nos últimos seis meses do ano anterior. A Evolução do Salário Mínimo27 O primeiro mandato do governo Lula, marcado pelo começo de uma nova fase da inserção internacional da economia brasileira, a partir da melhora da demanda do mercado externo, determinando grande parte das condições favoráveis ao bom desempenho do crescimento do PIB, o qual foi realimentado pela subsequente ampliação do investimento e consumo - resultando, entre os anos de 2003 e 2006, numa média de variação anual do produto da ordem de 4,2% -, inaugurou um período de considerável estruturação no mercado de tra- balho brasileiro, o que também contribuiu para a criação de um contexto favorável à implementação de uma política do salário mínimo. 27 SOUEN, Jacqueline Aslan. A Política de Valorização do Salário Mínimo e seus Determinantes no Contex- to da Retomada Econômica, 2003 – 2010. Adaptado Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 74 A maior liquidez internacional no pós 2003, devido, em grande medida, à política americana de juros baixos, ampliação do gasto público e do déficit comercial, juntamente à forte demanda da economia chinesa, contribuiu para um movimento mais favorável do comércio mundial, se traduzindo em melhoras crescentes das nossas exportações – via aumento de preços e quantidades, principalmente em commodities, mas também em manu- faturados –, mais competitivas devido ao câmbio desvalorizado, significando expressivos aumentos dos saldos anuais da balança comercial e em conta corrente. O aumento das exportações, por sua vez, rebateu positiva- mente na atividade econômica e, consequentemente, na dinâmica da demanda doméstica, reforçada, poste- riormente, pelo aumento do crédito às empresas e ao consumidor pelas transferências de renda do programa Bolsa Família, e pelo movimento de recuperação do salário mínimo acima da inflação, o qual foi beneficiado pela gradual ativação da economia, bem como um contexto político mais favorável. Embora com a continuidade de um arranjo restritivo de política econômica, marcada pelos juros elevados - priorizando o controle inflacionário -, câmbio flutuante e a busca dos recorrentes superávits primários - para pagar o custo da dívida pública e reduzir a relação dívida/PIB -, com o aquecimento da economia os níveis absolutos e relativos de desemprego pararam de subir no mesmo ritmo anterior e, a partir de 2004, com o PIB crescendo em média 3,5% ao ano, entre 2004-2006, houve um gradativo aumento da elasticidade do emprego em relação ao produto, com as ocupações aumentando cerca de 2% ao ano – ver tabela 2. A informalidade e o grau de desproteção previdenciária arrefeceram, e a massa dos rendimentos do trabalho, captada pela PNAD, cresceu consideravelmente entre 2004-2006, mas, sobretudo entre 2005-2006, tanto pelo aumento das ocupa- ções formais, como devido ao crescimento da renda média do trabalho – ver tabela 4 -, a qual se encontrava em níveis bastante baixos em 2004. Sendo assim, tal cenário acabou significando melhores condições para a continuidade do processo de recuperação do valor real do salário mínimo. Com a recuperação da atividade econômica ocorreu um maior estímulo às contratações formais, sobretudo em razão do aumento de capacidade produtiva nas médias e grandes empresas - dominantes no setor exporta- dor – revertendo a tendência de pequena elasticidade emprego-renda dos anos 90. Dessa forma, inaugurou-se um período de aumento das ocupações, principalmente o emprego assalariado formal. Esse quadro de au- mento do emprego e formalização foi sendo realimentado pela continuidade do bom desempenho do produto, reforçado pelo aumento dos gastos das famílias e empresas, devido à ampliação do crédito de mais longo prazo. Outra fonte de ampliação dos empregos formais se deu a partir do setor público, devido aos avanços das políticas sociais, sobretudo em saúde, educação, previdência e assistência social, sendo que esses dois últimos setores passaram a contratar mais, como reflexo do maior dinamismo da atividade econômica. Portan- to, a dinâmica econômica e do mercado de trabalho, no pós 2003, foram fundamentais para a ampliação do emprego formal. Contudo, também é necessário sublinhar que uma fonte de estímulo da melhora do nível de formalização está relacionada ao maior empenho do governo no sentido de aumentar a fiscalização nos estabe- lecimentos e contratos de trabalho. Tal postura do poder público, através do Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Justiça do Trabalho, tinha como principal objetivo a elevação da arrecadação de impostos e contribuições sociais, para contrabalançar os crescentes gastos sociais, e as necessidades de ajuste fiscal, decorrentes da política macroeconômica conservadora, iniciada em 1999. Sendo assim, tais mudanças significativas na economia e no mercado de trabalho brasileiro, como reflexo de um ciclo virtuoso inaugurado em 2003 - com a forte demanda do mercado internacional, num ambiente de relativo controle inflacionário e redução da vulnerabilidade externa e tendência à queda nas taxas de juros -, fo- ram primordiais à trajetória ascendente do valor do salário mínimo, que acumulou crescimento real de 27,87%, entre 2002-2006. A ampliação do número de pessoas ocupadas com rendimento, aumento da formalização, crescimento da massa salarial - sobretudo entre 2005 e 2006 -, em virtude do aumento das ocupações, mas também pela ele- vação da renda média do trabalho, relacionada, por sua vez, com a recuperação do piso mínimo, foram funda- mentais para realimentar o ciclo virtuoso e, portanto, a continuidade do processo de recomposição do salário mínimo. Na medida em que o ritmo de crescimento da economia e do emprego se manteve, foram nítidos os efeitos positivos sobre as contas públicas e da previdência, realimentando o quadro favorável para a sequência de reajustes do mínimo, rebatendo nos aumentos do salário médio real que, somados aos ajustes dos pisos das categorias - como resultado das negociações coletivas -, e à ampliação dos empregos formais, implicou em substancial crescimento da massa salarial real, conforme dados da PNAD e assim sucessivamente, repro- duzindo as condições para o contexto positivo. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 75 Ampliação de credito28 Dentro do contexto econômico, pode-se dizer que o crédito oportuniza a realização de investimentos e con- quistas, sendo obtido por meio de uma relação de confiança entre duas ou mais partes, com as devidas garan- tias de operação, cujo propósito é a compra e venda de produtos ou serviços. O acesso das populações carentes ao crédito é resultado das políticas públicas contra a pobreza, impactan- do a economia local. Pode-se dizer que o crédito é a chave que abre a porta para o crescimento dos negócios em todos os setores da economia. O sistema financeiro do Brasil tem como características certo conservadorismo, apoiando-se numa visão de curto prazo e privilegiando a ideia de que capital atrai mais capital, às vezes, numa razão direta de seu tamanho e inversa com relação às suas necessidades. A oferta de crédito tem uma elevada importância no desenvolvimento econômico do país, uma vez que pos- sibilita o investimento na aquisição de produtos, máquinas, equipamentos, bem como na contratação de mão- -de-obra, impulsionando a economia nacional. Com a oferta de crédito a médio e longo prazo, tanto as pessoas físicas como empresas participam de forma mais direta da economia, participação observada pelo aumento do consumo, aplicações em maquinários e abertura de novos estabelecimentos comerciais. O crédito tem um importante papel no desenvolvimento local e este irá se refletir no desenvolvimento de uma forma mais ampla,ou seja, reflete-se na sociedade como um todo e faz com que os governos se voltem para atender as necessidades da população. O desenvolvimento do país deve envolver a participação da sociedade civil, do poder público e das instituições financeiras, enquanto organismos liberadores de crédito. Sempre que o poder público oportuniza a liberação do crédito, o reflexo é o aumento do consumo. Saliente- -se que pode haver maior inserção econômica e social, através da geração de emprego e renda. É importante ressaltar que a concessão do crédito através das instituições financeiras baseia-se na análise de fatores operacionais e financeiros da empresa, no caso de pessoa jurídica, bem como nas garantias pessoais, no caso de liberação de crédito à pessoa física, ligado principalmente ao salário. O volume de crédito é diretamente proporcional à política econômica implantada pelo poder público, isto é, numa economia equilibrada, pode-se liberar o crédito sem maiores riscos. Salientando-se que quanto maior o endividamento, maiores são os riscos de inadimplência, assim como provoca a elevação das taxas de juros. No entender de Securato (2002), toda operação de crédito se caracteriza por ser uma forma de obtenção de empréstimo, cujo custo está representado na forma de juros. Já Schrickel (2000, p. 25) apresenta uma definição de operação de crédito como sendo “[...] todo ato de vontade ou disposição de alguém destacar ou ceder tem- porariamente parte de seu patrimônio a um terceiro, com a expectativa de que esta parcela volte à sua posse integralmente após decorrer o tempo estipulado”. No momento da liberação do crédito, ocorre o que Santos (2003, p.15) determina como sendo “a troca de um valor presente por uma promessa de reembolso futuro, não necessariamente certa em razão do fator risco”. As operações de crédito têm sua classificação de acordo com a origem dos recursos, dividindo-se em: ope- rações de crédito com recursos direcionados, aquelas que apresentam taxas e recursos previamente estabele- cidos pelas normas governamentais e destinadas fundamentalmente a setores como o rural, habitacional e de infra-estrutura; assim como as operações de crédito com recursos livres, as que têm sua formalização por meio de taxas de juros definidas entre os tomadores e os estabelecimentos financeiros (ORTOLANI, 2000). Entre as principais operações de crédito com recursos livres, pode-se destacar: - Capital de giro: modalidade de empréstimo cujo objetivo é atender as necessidades de capital de giro das empresas. O empréstimo tem sua vinculação por meio de um contrato específico em que fica estabelecido o prazo, taxas, valores e as garantias necessárias. Comumente, a garantia se realiza por meio de duplicatas, e os prazos giram em torno de 180 dias. - Conta garantida: caracteriza-se por se tratar de uma conta de crédito aberta com valor limite pré-estabe- lecido e o movimento ocorre a partir dos cheques emitidos pelo cliente, se não houver saldo na conta corrente de movimentação. Havendo saldo disponível na conta movimento, há a transferência dos valores para a conta garantida, cobrindo o saldo devedor da mesma. 28 BURIN, Roberto. AS CONSEQUÊNCIAS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AMPLIAÇÃO DO CRÉDITO COMO ESTRATÉGIA PARA O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO. Adaptado Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 76 - Desconto de títulos (notas promissórias e duplicatas): o banco libera aos clientes, de forma imediata, re- cursos que serão recebidos quando do vencimento das promissórias e duplicatas entregues à instituição finan- ceira. O cliente recebe os valores, antecipa seu fluxo de caixa e transfere ao banco os documentos que seriam recebidos no futuro. - Aquisição de bens: operação que se destina a possibilitar a aquisição de bens, tanto a pessoas físicas como jurídicas, ficando o bem adquirido como garantia da operação de crédito realizada. - Financiamento imobiliário: caracteriza-se por não estar integrado ao Sistema Financeiro de Habitação e seu objetivo é o financiamento para adquirir, construir ou reformar imóveis. - Cheque especial: tipo de crédito em que há a vinculação de um determinado limite à conta bancária da pessoa física. O saldo desse limite é abatido sempre que houver saldo na conta bancária do devedor. - Crédito pessoal: tradicional operação de crédito destinada às pessoas físicas, mas ressalta-se que a con- cessão não se caracteriza pela vinculação de um bem ou de algum serviço. - Cartão de crédito: modalidade de crédito que disponibiliza, entre outros, serviços como pagamentos à vista entre consumidor e empresa, bem como permite a liberação de dinheiro de forma direta ao consumidor por meio de uma operação de saque. - Crédito consignado: representa uma modalidade de crédito muito utilizada atualmente. Trata-se de um em- préstimo em que os débitos das parcelas serão realizados diretamente no salário do tomador do empréstimo, ou seja, diretamente em seu contracheque. No entanto, essa modalidade deve obedecer aos limites de endivi- damento do trabalhador, conforme o valor de seu salário (FORTUNA, 1999; BACEN, 2007). A liberação de crédito através da utilização das políticas públicas, especificamente no período de 2002 a 2009, possibilitou o acesso ao crédito das chamadas populações de baixa renda, urbanas e rurais; bem como a elevação do consumo e a consequente geração de emprego e renda. Conforme Torres Filho (2006), a partir do ano 2000, evidencia-se um crescimento do crédito para a pessoa física em razão da consolidação do sistema financeiro no que diz respeito ao enfrentamento das constantes crises financeiras e da capacidade de manter a economia nacional num patamar de estabilidade e segurança, a partir de alguns ajustes e redirecionamentos. Conforme Slomp (2012), percebe-se, no país, a instalação da chamada cultura do endividamento, em face do aumento no número de pessoas endividadas junto às instituições financeiras, bem como pela elevação do crédito direto ao consumidor em lojas e departamentos; fazendo com que o endividamento se caracterize como um reflexo da sociedade. Assim sendo, a dívida é parte integrante do contexto econômico e está diretamente relacionada às atuações internacionais, nacionais, regionais e até familiares, em face disso, o governo e os órgãos de controle devem estar atentos para que o endividamento não se torne um problema de irreversível solução. Transferência de Renda29 No Brasil, país de grande dimensão continental, a acumulação ocorre de forma heterogênea. Em algumas áreas estão concentrados setores dinâmicos da economia, que promovem cada vez mais a expansão produ- tiva daquele espaço, enquanto em outras ocorrem fragilidades econômicas. Buscar a integração do processo produtivo entre as regiões do Brasil para promover o acúmulo de excedentes e a redução das desigualdades sociais rumo a um posterior desenvolvimento, deveria estar entre os principais objetivos das ações governa- mentais. As discussões em torno das causas do crescimento e desenvolvimento de uma nação são das mais diver- sas. Enquanto alguns economistas compartilham a ideia de que crescimento e desenvolvimento são sinônimos, outra corrente de teóricos diferenciam ambos, propondo ser o crescimento condição indispensável, mas não suficiente ao desenvolvimento. Há também uma nova proposta de desenvolvimento sustentada no princípio da justiça social, com a equalização das oportunidades, contrapondo-se ao modelo convencional de desenvolvi- mento econômico predominante. 29 SILVA. Audileia Rodrigues. PROGRAMAS DE TRANSFERÊNCIAS DE RENDA E DESENVOLVIMENTO: UMA ANÁLISE DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO MUNICÍPIO DE PLANALTO – BA, NO PERÍODO DE 2004 A 2010. Adaptado Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 77 Daí a importância de não se confundir crescimento com desenvolvimento, fazendo-se necessário a com- preensão de ambos os processos, pois em algumassituações associado ao crescimento ocorrem queda dos indicadores sociais. O crescimento estaria relacionado ao aumento da renda per capita, enquanto que, o de- senvolvimento contemplaria o aumento da produção nacional acompanhado de melhorias no nível de vida da população e de transformações sociais e econômicas ocorridas na sociedade, o que evidencia a complexidade da relação existente entre crescimento e desenvolvimento. As análises mais completas acerca das questões do desenvolvimento, além avaliarem as variações quanti- tativas do produto e as melhorias em educação, saúde, nível de bem estar, entre outros, consideram a questão ambiental, pois “Com o tempo, o crescimento econômico tende a esgotar os recursos produtivos escassos, através de sua utilização indiscriminada.” Daí a relevância do gasto social e das rendas monetárias para as pequenas economias, pois em muitos casos, eles são direcionados aqueles que não possuem renda, implicando na ampliação do consumo destes beneficiários, e em ganhos econômicos. O gasto social teria efeitos sobre o produto e a renda da economia, o que pode ser atribuído ao princípio da demanda efetiva. Outro efeito concentra-se na promoção autônoma da redistribuição da renda que o gasto pode promover aos beneficiários. No Brasil, o avanço em gasto social co- meça a ocorrer a partir da Constituição de 1988, momento de grandes demandas sociopolíticas em todo o país. O programa Bolsa Família é uma representação bastante plausível nesta proposta de desenvolvimento equi- tativo, haja vista que, além de atender parcela significativa da população brasileira em situação de pobreza e extrema pobreza, o programa conta com condicionalidades nas áreas de saúde e educação, o que acaba por contribuir com igualdade, e com a oportunidade de inclusão. As políticas sociais se definem como a intervenção do Estado nas questões sociais do país, com vista a melhorar as condições de vida de seus habitantes, e oferecer direitos, como educação, saúde e assistência so- cial. Dentre os objetivos das políticas, a redução das desigualdades, pode ser considerada como um dos mais importantes, se constituindo em uma forma de ampliar o bem estar da sociedade. A crise econômica 2008 - Abalos na economia mundial A crise que mais abalou a economia mundial desde a crise de 1929 foi a que eclodiu nos EUA a partir de uma bolha (uma situação de super demanda que estimula a especulação financeira) no setor imobiliário e se alas- trou para todos os outros setores econômicos e países do mundo. Ocorreram várias outras crises econômicas entre 29 e 2008, mas foram menos violentas. Como outras crises que ocorreram neste intervalo podemos citar as crises do petróleo, na década de 70 (1973 e 1979). A crise atingiu os setores financeiros (de créditos finan- ciamentos e negociações na bolsa de valores) e produtivos (retração na produção das indústrias, desemprego e diminuição no consumo de bens e serviços.). Se alastrou rapidamente e de forma notável atingiu com mais profundidade os países mais desenvolvidos. EUA, UE, e Japão foram os mais impactados. Uma razão para isso é que devemos nos lembrar que na Globalização todas as grandes economias do mundo são muito interligadas e interdependentes, podendo gerar um efeito dominó. Ainda nos dias de hoje, idos de 2015, alguns países europeus estão passando por uma forte crise econô- mica e a união europeia corre risco de se desmantelar e o Euro de se enfraquecer. Há várias propostas nos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda/Eire, Grécia e Espanha), os mais atingidos pela crise europeia, de abandonar a moeda e a UE. Nos mais industrializados também há convicções de abandonar a organização. Foi marcado no Reino Unido um plebiscito para decidir se ficam ou não na EU. A crise atingiu também os Emergentes. Como dependem do capital das economias centrais e exportam matérias primas para lá, foram atingidos e tiveram um crescimento econômico menor. Lembre-se que países desenvolvidos param de produzir e de comprar com- modities (matérias primas negociadas nas bolsas internacionais. Fique ligado, pois quem determina o preço é o mercado e não os produtores.) e no caso do Brasil, exportamos menos minérios e produtos agrícolas. Como tudo isso começou? A crise estourou nos EUA e é importante lembrarmos uma de suas características: Seu banco central o FED (federal reserve) tem total autonomia para mexer nas taxas de juros. E como não há intervenção estatal, quan- do um consumidor adquire um financiamento, os valores das parcelas podem oscilar de acordo com a oscilação dos juros. Em 2001 ocorre o atentado do 11/09 que estimula a política de Guerra ao Terror do então presidente George Bush de invadir o Afeganistão em 2001 e o Iraque e os gastos militares aumentam muito. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 78 Nos anos de 2001 o FED diminuiu a taxa básica de juros que ficou em torno de 1,75% a 1%. O objetivo desta medida é estimular a economia através do consumo. Os financiamentos ficam mais baratos e vendem mais mercadorias. O valor do financiamento de casas caiu e impulsionou a construção civil e o mercado imobiliário, que passa a oferecer créditos a muitas pessoas. No linguajar corporativo americano denominava-se como “Sub prime” os setores trabalhadores mais frágeis da economia (trabalhadores assalariados e pequenos empreende- dores), que por possuírem uma baixa renda, há um risco maior de calote no caso de aumento das prestações). Multiplicam-se os empréstimos imobiliários e a emissão de títulos na bolsa de valores, dando como garantia as prestações a serem pagas, ou seja, em caso de inadimplência perde o imóvel. Com a super demanda forma-se uma bolha especulativa, e aumentam os valores dos imóveis e aplicações financeiras na construção civil. Devidos aos altos gastos militares e políticas neoliberais em que o governo retirou os impostos das rendas mais altas ocorre aumento da inflação (aumento no preço dos produtos) no país. Para tentar conter a inflação o FED aumentou a taxa básica de juros e tentar incentivar a procura internacional por dólares. A principal conse- quência é o aumento do valor dos financiamentos e prestações. As taxas foram aumentadas até 5,25%, cinco vezes maior que 2001. Como as prestações multiplicaram seu valor, aquele grupo mais frágil da economia de- signado “sub prime” pelos bancos não conseguiram pagar suas dívidas e ocorreram vários calotes. Lembra-se que o próprio imóvel era dado como garantia da dívida? Então. Ocorre uma grande onda de despejos e muitas pessoas foram parar nas ruas. Com o aumento da oferta de imóveis (oferta maior que a demanda) os preços desabam. Como as dividas foram transformadas em títulos os bancos comercializaram estes títulos nas bolsas de valores. Estes títulos na bolsa (com base nos empréstimos dados como garantia) despencou causando prejuízos à bancos e a empresas imobiliárias. O resultado: Efeito dominó. Milhares de pessoas perdem a moradia, bancos quebram e o setor de construção civil entrou em paralisia. Consequências da crise - Adoção de medidas Keynesianas, ou seja, os Estados passam a intervir na economia. Os bancos no mun- do todo injetam em torno de 400 bilhões nos mercados financeiros através de empréstimos de curto prazo para os bancos manterem as transações financeiras. O dinheiro emprestado é público. O governo norte americano injetou muito dinheiro para salvar bancos e estimular fusões entre eles. Os bancos que não receberam ajuda estatal quebraram e levaram junto outros bancos e fundos de pensão. - Os investidores (por segurança param de investir em títulos imobiliários) e migram seus investimentos para as commodities o que provocou aumento na cotação internacional dos grãos. Mais de 20 nações pobres pas- saram por uma crise alimentar no primeiro semestre de 2008, causando protestos populares. - As medidas Keynesianas são adotadas pelas potências industriais para evitar uma maré de empresasquebradas. Investem trilhões de dólares nas instituições bancárias e grandes empresas. As eficácias das medidas neoliberais passam a ser questionadas. Os governos estatizam empresas e garantem os depósitos bancários de investidores - Recessão (retração da economia) - Desemprego - Diminuição do crescimento econômico mundial Desenvolvimento sustentável e meio ambiente A relação entre meio ambiente e desenvolvimento sustentável é um dos temas mais prementes da atualida- de, refletindo a necessidade urgente de reavaliar as práticas econômicas e sociais à luz dos impactos ambien- tais. O conceito de desenvolvimento sustentável surge como uma resposta à crescente consciência de que o modelo de desenvolvimento econômico vigente, muitas vezes baseado na exploração excessiva de recursos naturais, não é viável a longo prazo. Assim, busca-se um equilíbrio entre crescimento econômico, conservação ambiental e equidade social. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 79 A Crise Ambiental Global Atualmente, enfrentamos uma série de crises ambientais, incluindo as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a poluição e a degradação dos solos e dos recursos hídricos. As mudanças climáticas, impul- sionadas principalmente pelas emissões de gases de efeito estufa resultantes de atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis, representam uma ameaça significativa para ecossistemas, economias e comunidades em todo o mundo. A perda de biodiversidade, por sua vez, resulta da destruição de habitats, po- luição, práticas agrícolas insustentáveis e mudanças climáticas, comprometendo os serviços ecossistêmicos dos quais dependemos. Desenvolvimento Sustentável como Solução O desenvolvimento sustentável propõe um modelo em que o crescimento econômico é alcançado sem es- gotar os recursos naturais e prejudicar o meio ambiente. Essa abordagem enfatiza a importância de atender às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às suas próprias necessidades. Isso envolve a integração de políticas ambientais, econômicas e sociais, a promoção de tecno- logias limpas e renováveis, e a adoção de práticas de consumo e produção responsáveis. Economia Verde e Energias Renováveis Uma parte crucial do desenvolvimento sustentável é a transição para uma economia verde, caracterizada por ser inclusiva e geradora de baixas emissões de carbono. Isso inclui investimentos em energias renováveis, como solar, eólica e hidrelétrica, que são fundamentais para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Além disso, a economia verde envolve a criação de empregos “verdes” que contribuem para preservar ou res- taurar o meio ambiente, seja na agricultura, indústria, serviços ou administração pública. Sustentabilidade Social e Equidade O desenvolvimento sustentável também aborda questões de equidade social e sustentabilidade. Isso envol- ve garantir que todos tenham acesso aos recursos básicos, educação e saúde, e que as comunidades tenham voz nas decisões que afetam seus ambientes e seus meios de subsistência. A promoção da igualdade de gêne- ro, a proteção dos direitos dos povos indígenas e das comunidades locais, e a garantia de práticas comerciais justas são fundamentais para alcançar a sustentabilidade em todas as suas dimensões. Desafios e Caminhos a Seguir A implementação efetiva do desenvolvimento sustentável requer ação coletiva global, envolvendo governos, empresas e sociedade civil. Acordos internacionais, como o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, são passos importantes nessa direção. No en- tanto, ainda há desafios significativos, incluindo a necessidade de financiamento adequado, o desenvolvimento de políticas eficazes e a promoção de mudanças comportamentais em nível individual e coletivo. O caminho para o desenvolvimento sustentável não é simples nem fácil, mas é essencial para garantir um fu- turo onde o progresso econômico, a conservação ambiental e o bem-estar social caminhem lado a lado. Assim, cada ação que tomamos hoje para apoiar este objetivo é um passo em direção a um mundo mais equitativo, saudável e sustentável para todos. Desenvolvimento sustentável e meio ambiente As formações vegetais são tipos de vegetação facilmente identificáveis na paisagem e que ocupam extensas áreas. É o elemento mais evidente na classificação dos biomas. Estes, por sua vez, são sistemas em que solo, clima, relevo, fauna e demais elementos da natureza interagem entre si formando tipos semelhantes de cober- tura vegetal, como as Florestas Tropicais, as Florestas Temperadas, as Pradarias, os Desertos e as Tundras. Em escala planetária, os biomas são unidades que evidenciam grande homogeneidade nas características de seus elementos. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 80 Assim, há Florestas Tropicais na América, África, Ásia e Oceania que, embora semelhantes, possuem co- munidades ecológicas com exemplares distintos. Alguns desses exemplares são chamados de endêmicos, ou seja, não ocorrem em nenhuma outra área do mundo. Entre outros fatores, isso se explica pela separação dos continentes: o afastamento físico fez com que as espécies vivessem evoluções paralelas, apesar de distintas, processo que é chamado especiação. As plantas e os animais de um mesmo bioma não estão presentes, necessariamente, em diferentes regiões do planeta. Exemplo: o chimpanzé é encontrado na Floresta Tropical de Uganda, mas não compõe a fauna das Florestas Tropicais sul-americanas. Por outro lado, várias espécies endêmicas de nosso continente não são en- contradas nas florestas africanas, como é o caso do mico-leão-dourado, originário da Mata Atlântica brasileira. Principais Características das Formações Vegetais A formação vegetal é o elemento mais evidente na classificação dos ecossistemas e biomas, por isso, e dependendo da escala utilizada em sua representação, são feitas grandes generalizações. Os elementos climáticos, em especial a temperatura e a umidade, são determinantes para o tipo de vege- tação de uma área. Eles definem diversas características das plantas, necessárias à adaptação aos diferentes climas. Com base nessas características é possível classificar as plantas em: Perenes (do latim perene, “perpétuo, imperecível”): plantas que apresentam folhas durante o ano todo; Caducifólias, decíduas (do latim deciduus, “que cai, caduco”) ou estacionais: plantas que perdem as folhas em épocas muito frias ou secas do ano; Esclerófilas (do grego sklerós, “duro, seco, difícil”): plantas com folhas duras, que têm consistência de couro (coriáceas); Xerófilas (do grego xêrós, “seco, descarnado, magro”): plantas adaptadas à aridez; Higrófilas (do grego hygrós, “úmido, molhado”): plantas, geralmente perenes, adaptadas a muita umidade; Tropófilas (do grego tropos, “volta, giro”): plantas adaptadas a uma estação seca e outra úmida; Aciculifoliadas (do latim acicula, “alfinete, agulhinha”): possuem folhas em forma de agulhas, como os pi- nheiros. Quanto menor a superfície das folhas, menos intensa é a transpiração e maior é a retenção de água pela planta; Latifoliadas (do latim lato, “lrgo, amplo”): plantas de folhas largas, que permitem intensa transpiração; são geralmente nativas de regiões muito úmidas. Os índices termopluviométricos, associados a outros fatores de variação espacial menor e que também in- fluem no tipo de vegetação, como maior ou menor proximidade de curso de água, os diferentes tipos de solo, a topografia e as variações de altitude, determinam a existência de diferentes ecossistemas não contemplados nos mapas-múndi. Todas as formações vegetais têm grande importância para a preservação dos variados bio- mas e ecossistemas da Terra. Cobertura Vegetal Original Tundra Vegetação rasteira, de ciclo vegetativo extremamente curto. Por encontrar-se em regiõessubpolares, desen- volve-se apenas durante os três meses de verão, nos locais onde ocorre o degelo. Um exemplo disso é o rio na Groelândia que se forma nessa estação, com o derretimento da neve. As espécies típicas são os musgos, nas baixadas úmidas, e os líquens, nas porções mais elevadas do terreno, onde o solo é mais seco, aparecendo raramente pequenos arbustos. Floresta Boreal (Taiga) Formação florestal típica da Zona temperada. Ocorre nas altas latitudes do hemisfério norte, em regiões de climas temperados continentais, como Canadá, Suécia, Finlândia e Rússia. Neste último país, cobre mais da metade do território e é conhecida como Taiga. É uma formação bastante homogênea, na qual predominam coníferas do tipo pinheiro. As coníferas são espécies adaptadas à ocorrência de neve no inverno; são aciculifoliadas e com árvores em forma de cone, o que facilita o deslizamento da neve por suas copas. Essa formação florestal foi largamente explorada para ser usada como lenha e para a fabricação de papel e móveis. Atualmente, a madeira é obtida de árvores cultivadas (silvicultura). Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 81 Floresta Subtropical e Temperada Esta formação florestal caducifólia, típica dos climas temperados e subtropicais, é encontrada em latitudes mais baixas e sob maior influência da maritimidade. Estendia-se por grandes porções da Europa centro-oci- dental, mas por causa de atividades agropecuárias, atualmente subsiste na Ásia, na América do Norte e em pequenas extensões da América do Sul e da Oceania. Na Europa, restam apenas pequenas extensões, com a floresta Negra, na Alemanha, e a floresta de Sherwood, na Inglaterra. Floresta Equatorial e Tropical Nas regiões tropicais quentes e úmidas, encontramos florestas que se desenvolvem graças aos elevados índices pluviométricos. São, por isso, formações higrófilas e latifoliadas, extremamente heterogêneas, que se localizam em baixas latitudes na América, na África e na Ásia. Nessas regiões predominam climas tropicais e equatoriais e espécies vegetais de grande e médio portes, como o mogno, o jacarandá, a castanheira, o cedro, a imbuia e a peroba, além de palmáceas, arbustos, briófitas e bromélias. As Florestas Tropicais possuem a maior biodiversidade do planeta, com muitas espécies ainda desconhecidas. Mediterrânea Desenvolve-se em regiões de clima mediterrâneo, que apresentam verões quentes e secos e invernos ame- nos e chuvosos. É encontrada em pequenas porções da Califórnia (Estados Unidos, onde é conhecida como Chaparral), do Chile, da África do Sul e da Austrália. As maiores ocorrências estão no sul da Europa, onde foi largamente desmatada para o cultivo de oliveiras (espécie nativa dessa formação vegetal) e videiras (nativas da Ásia), e norte da África. Pradarias Compostas basicamente de gramíneas, são encontradas principalmente em regiões de clima temperado continental. Desenvolvem-se na Rússia e Ásia central, nas Grandes Planícies norte-americanas, nos Pampas argentinos, no Uruguai, na região Sul do Brasil e na Grande Bacia Artesiana (Austrália). Muito usada como pastagem, essa formação é importante por enriquecer o solo com matéria orgânica. Estepes Nessas formações a vegetação é herbácea, como nas Pradarias, porém mais esparsa e ressecada. As Es- tepes desenvolvem-se em uma faixa de transição entre climas tropicais e desérticos, como na região do Sahel, na África, e entre climas temperados e desérticos, como na Ásia central. Essa vegetação foi muito degradada por atividades econômicas, como o pastoreio. Deserto Bioma cujas espécies vegetais estão adaptadas à escassez de água em regiões de índice pluviométrico inferior a 250 mm anuais, como nos desertos da América, África, Ásia e Oceania. Apresenta espécies vegetais xerófilas, destacando-se as cactáceas. Algumas dessas plantas são suculentas (armazenam água no caule) e não possuem folhas ou evoluíram para espinhos, reduzindo a perda de água pela evapotranspiração. No Saa- ra, em lugares em que a água aflora à superfície, surgem os oásis. Savana Em regiões onde o índice de chuvas é elevado, porém concentrado em poucos meses do ano, podem de- senvolver-se as Savanas, formação vegetal complexa que apresenta estratos arbóreo, arbustivo e herbáceo. As Savanas são encontradas em grandes extensões da África, na América do Sul (no Brasil, corresponde ao domínio dos Cerrados) e em menores porções na Austrália e na Índia. Sua área de abrangência tem sido muito utilizada para a agricultura e a pecuária, o que acentuou sua devastação, como tem ocorrido no Brasil central. No continente africano, esse bioma abriga animais de grande porte, como leões, elefantes, girafas, zebras, antílopes e búfalos. Vegetação de Altitude Em regiões montanhosas há uma grande variação altitudinal da vegetação. À medida que aumenta a altitude e diminui a temperatura, os solos ficam mais rasos e a vegetação, mais esparsa. Nessas condições, surgem as florestas nas áreas mais baixas e, nas mais altas, os campos de altitude. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 82 A Vegetação e os Impactos do Desmatamento Impacto ambiental é um desequilíbrio provocado pela ação dos seres humanos sobre o meio ambiente ou por acidentes naturais, como a erupção de um vulcão (que pode provocar poluição atmosférica), o choque de um meteoro (destruição de espécies animais e vegetais), um raio (incêndio numa floresta), etc. Quando os ecossistemas sofrem impactos ambientais, geralmente a vegetação é o primeiro elemento a ser atingido, pois é reflexo das condições naturais de solo, relevo e clima do lugar em que ocorre. Atualmente, todas as formações vegetais, em maior ou menor grau, encontram-se modificadas. Em muitos casos, sobraram apenas alguns redutos em que a vegetação original é encontrada, nos quais, embora com pequenas alterações, ainda preserva suas características principais. Essa devastação deve-se basicamente a interesses econômicos. A primeira consequência do desmatamento é o comprometimento da biodiversidade, por causa da dimi- nuição ou, muitas vezes, da extinção de espécies vegetais e animais, muitas delas ainda nem descobertas e estudadas. Na Floresta Amazônica, há uma grande quantidade de espécies endêmicas. Parte desse patrimônio ge- nético é conhecida pelas várias etnias indígenas que ali habitam. No entanto, a maioria dessas comunidades nativas está sofrendo um processo de integração à sociedade urbano-industrial que tem levado à perda do patrimônio cultural desses povos, dificultando a preservação dos seus conhecimentos. Outro ponto importante que afeta os interesses nacionais dos países onde há florestas tropicais, incluindo o Brasil, é a biopirataria, por meio da qual muitas empresas assumem práticas ilegais para garantir o direito de explorar, futuramente, uma possível matéria-prima para a indústria farmacêutica e de cosméticos, entre outras. No Brasil, os incêndios ou queimadas de florestas, que consomem uma quantidade incalculável de biomas- sa30 todos os anos, são provocados para o desenvolvimento de atividades agropecuárias, muitas vezes em grandes projetos que recebem incentivos governamentais e, portanto, sob o amparo da lei. Podem também ser resultado de práticas criminosas ou ainda de acidentes, incluindo naturais. As consequências socioambientais das interferências humanas em regiões de florestas são várias. Uma das principais é o aumento do processo erosivo, o que leva a um empobrecimento dos solos, podendo ampliar ou formar áreas desertificadas em regiões de clima árido, semiárido e subúmido. Biomas e Formações Vegetais do Brasil Nosso país apresenta grande variedade de ecossistemas. Essa variedade relaciona-se à grande diversi- dade da fauna e da flora brasileiras, das quais muitas espécies são nativas do Brasil, como a jabuticaba, o amendoim, o abacaxi e a castanha-do-pará. No entanto, esses ecossistemas jásofreram grandes impactos negativos desde o início da colonização, com o desenvolvimento das atividades econômicas e a consequente ocupação do território, como se pode constatar ao comparar os dois mapas abaixo. 30 Biomassa é a quantidade total de matéria viva de um ecossistema, geralmente expressa em massa por unidade de área ou de volume. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 83 Brasil: vegetação nativa http://www.inf.furb.br/sisga/educacao/ensino/mapaVegetacao.php Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 84 Brasil: retratação da vegetação e da cobertura atual31 https://www.nerdprofessor.com.br/mapa-vegetacao-do-brasil/ Características das Formações Vegetais Brasileiras As principais formações vegetais no território brasileiro são: Floresta Amazônica (floresta pluvial equatorial): é a maior floresta tropical do mundo, totalizando cerca de 40% das florestas pluviais tropicais do planeta. No Brasil, ela se estende por 3,7 milhões de km² e 10% dessa área constitui unidades de conservação. Cerca de 15% da vegetação da Floresta Amazônica foi desmatada, sobretudo a partir da década de 1970 com a construção de rodovias e a instalação de atividades mineradoras, garimpeiras, agrícolas e de exploração madeireira. Em razão do predomínio das planícies e dos planaltos de baixa altitude, a topografia não provoca modificações profundas na fisionomia da floresta, que apresenta três estratos de vegetação: → Caaigapó (do tupi-guarani, “mata molhada”) ou igapó: desenvolveu-se ao longo dos rios, numa área per- manentemente alagada. Em comparação com os outros estratos da floresta é o que possui menos quantidade de espécies e é constituído por árvores de menor porte, incluindo palmeias e plantas aquáticas, destacando-se a vitória-régia; → Várzea: área sujeita a inundações periódicas, com a vegetação de médio porte raramente ultrapassando os 20 m de altura, como o pau-mulato e a seringueira. Como se situa entre a matas de igapó e de terra firme, possui características de ambas; 31 Em geografia e ecologia, a antropização é a conversão de espaços abertos, paisagens e ambientes naturais pela ação humana. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 85 → Caaetê (do tupi-guarani, “mata seca”) ou terra firme: área que nunca inunda, na qual se encontra vege- tação de grande porte, com árvores chegando aos 60 m de altura, como a castanheiro-do-pará e o cedro. O entrelaçamento das copas das árvores forma um dossel que dificulta a penetração da luz, propiciando um am- biente não exposto ao sol e úmido no interior da floresta. Mata Atlântica (floresta pluvial tropical): originalmente cobria uma área de 1 milhão de km², estendendo-se ao longo do litoral desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul e alargando-se para o interior em Mi- nas Gerais e São Paulo. É um dos biomas mais importantes para a preservação da biodiversidade brasileira e mundial, mas é também o mais ameaçado. Restam apenas 7%de sua área original e, desses remanescentes, quatro quintos estão localizados em propriedades privadas. As unidades de conservação abrangendo esse bioma constituem apenas 2%. Mata de Araucárias ou Mata dos Pinhais (floresta pluvial subtropical): nativa do Brasil, é uma floresta na qual predomina a araucária (Araucaria angustifolia), também conhecida como pinheiro-do-paraná ou pinheiro brasileiro, espécie adaptada a climas de temperaturas moderadas a baixas no inverno, solos férteis e índice pluviométrico superior a 1000 mm anuais. Nesse bioma é comum a ocorrência de erva-mate, além de grande variedade de espécies valorizadas pela indústria madeireira, como os ipês. Originariamente, essa floresta do- minava vastas extensões dos planaltos da região Sul e pontos altos da serra da Mantiqueira nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Foi desmatada, sobretudo, para a retirada de madeira utilizada na fabricação de móveis. Mata dos Cocais: esta formação vegetal se localiza no estado do Maranhão, encravada entre a Floresta Amazônica, o Cerrado e a Caatinga, caracterizando-se como mata de transição entre formações bastante distintas. É constituída por palmeiras, com grande predominância do babaçu e ocorrência esporádica de car- naúba; desde o período colonial, a região é explorada economicamente pelo extrativismo de óleo de babaçu e cera de carnaúba. Atualmente, porém, vem sendo desmatada para o cultivo de grãos destinados à exportação, com destaque para a soja. Caatinga: vegetação xerófila, adaptada ao clima semiárido do Sertão nordestino, na qual predominam ar- bustos caducifólios e espinhosos; ocorreram também cactáceas, como o xique-xique e o mandacaru. A palavra “caatinga” significa, em tupi-guarani, “mata branca”, cor predominante da vegetação durante a estação seca. No verão, em razão da ocorrência de chuvas, brotam folhas verdes e flores. Sua área original era de 740 mil km², mas já teve 50% de sua área devastada e menos de 1% faz parte de unidades de conservação. Cerrado: originalmente cobria cerca de 2 milhões de km² do território brasileiro, mas cerca de 40% de sua área foi desmatada. É constituído por vegetação caducifólia, predominantemente arbustiva, de raízes profun- das, galhos retorcidos e casca grossa (que dificulta a perda de água). Duas das espécies mais conhecidas são o pequizeiro e o buriti. A vegetação próxima ao solo é composta de gramíneas, que secam no período de estiagem. É uma formação adaptada ao clima tropical típico, com chuvas abundantes no verão e inverno seco, desenvolvendo-se, sobretudo, no Centro-Oeste brasileiro e em porções significativas do estado de Roraima. Nas regiões Sudeste e Nordeste do país aparecem em manchas isoladas, cercadas por outro tipo de vegeta- ção. Em regiões mais úmidas, essa formação se torna mais densa e com árvores maiores, caracterizando o chamado “cerradão”. Pantanal: estende-se, em território brasileiro, por 140 mil km² dos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, em planícies sujeitas a inundações. No Pantanal há vegetação rasteira, floresta tropical e até mesmo vegetação típica do Cerrado nas regiões de maior altitude. Por isso caracteriza-se não como uma formação vegetal, mas como um complexo que agrupa várias formações, com fauna muito rica. Esse bioma vem sofrendo diversos problemas ambientais, decorrentes principalmente da ocupação em regiões mais altas, onde nasce a maioria dos rios. A agricultura e a pecuária provocam erosão dos solos, assoreamento e contaminação dos rios por agrotóxicos. Campos Naturais: formações rasteiras ou herbáceas constituídas por gramíneas que atingem até 60 cm de altura. Sua origem pode estar associada a solos rasos ou temperaturas baixas em regiões de altitude elevada, áreas sujeitas à inundação periódica ou ainda solos arenosos. Os campos mais expressivos do Brasil locali- zam-se no Rio Grande do Sul, na chamada Campanha Gaúcha, apropriados inicialmente como pastagem na- tural, atualmente são amplamente cultivados tanto dessa forma quanto para a produção agrícola mecanizada. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 86 Destacam-se, ainda, os campos inundáveis da ilha de Marajó (PA) e do Pantanal (MT e MS), utilizados, respec- tivamente, para criação de gado bubalino e bovino, além de manchas isoladas na Amazônia, com destaque ao estado de Roraima, e nas regiões serranas do Sudeste. Vegetação Litorânea: a restinga e os manguezais são consideradas formações vegetais litorâneas. A restin- ga se desenvolve no cordão arenoso formado junto à costa, com predominância da vegetação rasteira, chama- da de pioneira por possibilitar a fixação do solo e permitir a ocupação posterior de arbustos e algumas árvores. Os manguezais são nichos ecológicos responsáveis pela reprodução de grande número de espécies de peixes, moluscos e crustáceos.Desenvolvem-se nos estuários, e a vegetação, arbustiva e arbórea, é halófila (adapta- da ao sal da água do mar), podendo apresentar raízes que, durante a maré baixa, ficam expostas. As principais ameaças à preservação dessas formações vegetais são o avanço da urbanização, a pesca predatória, a polui- ção dos estuários e o turismo desordenado, incentivando a instalação de aterros. Matas de Galeria (Ciliar) e Capão Podemos encontrar pequenas formações florestais em meio a outros tipos de vegetação, tai como: Mata de Galeria ou Mata Ciliar: tipo de formação vegetal que acompanha o curso de rios do Cerrado, onde é muito frequente, e da Caatinga. Nas áreas próximas às margens dos rios perenes, o solo é permanentemente úmido, criando condições para o desenvolvimento dessa mata, mais densa do que o bioma onde está encra- vada. Capão: em locais que correspondem a pequenas depressões, com baixos índices de chuvas, o nível hidros- tático (ou lençol freático) aflora ou chega muito próximo à superfície. Aí se desenvolvem os capões, formações arbóreas geralmente arredondadas em meio à vegetação mais rala ou rasteira. Domínios Morfoclimáticos Brasil: Domínios Morfoclimáticos http://educacao.globo.com/geografia/assunto/geografia-fisica/dominios-morfoclimaticos.html Em 1965, o geógrafo Aziz Ab’Sáber (1924-2012) estabeleceu uma classificação dos domínios morfoclimáti- cos brasileiros, na qual cada domínio corresponde a uma diferente associação das condições de relevo, clima e vegetação. Assim, por exemplo, o domínio equatorial amazônico é formado por terras baixas (relevo), flores- tadas (vegetação) e equatoriais (clima). Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 87 Legislação Ambiental e Unidades de Conservação A expressão “meio ambiente” envolve todas as dimensões que tornam a vida das pessoas mais saudáveis e equilibrada, como a qualidade do ar e o conforto acústico. Essa expressão, portanto, engloba tanto o meio ambiente natural quanto o cultural. A legislação brasileira relativa ao meio ambiente é ampla e bem elaborada. Os problemas ambientais que observamos com frequência, amplamente divulgados pelos meios de comunicação, não resultam da limitação da legislação, mas da ineficiência de ações educativas e de fiscalização. Histórico das Leis Ambientais Brasileiras Ao longo dos períodos colonial e imperial de nossa história, foram elaboradas algumas leis voltadas à pro- teção do meio ambiente, mas elas tinham abrangência restrita, como a proteção ao pau-brasil e a algumas espécies animais. Já no período republicano, em 1911, foi criada a primeira reserva florestal do país, onde atualmente se encontra o estado do Acre; em 1921 foi criado o Serviço Florestal do Brasil, que hoje é o Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama); e em 1934 foi aprovada a primeira versão do Código Florestal. Durante o período da ditadura militar (1964-1985), foram criados projetos de ocupação humana e econômi- ca das regiões Norte e Centro-Oeste que provocaram grandes impactos negativos ao meio ambiente. Esses projetos previam a expansão da agricultura e a criação de gado em áreas de floresta e a prática de garimpo, mineração e extração de madeira, instituída com a abertura das rodovias de integração. Como os impactos, principalmente na Floresta Amazônica, trouxeram repercussão negativa em escala mun- dial, em 1974 o governo brasileiro promoveu mudanças de estratégia, implantando ações de proteção ambien- tal: combate à erosão, criação das Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental, metas para o zonea- mento industrial e criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente. Em 1979, foi criado o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que instituiu, em 1981, a Política Na- cional do Meio Ambiente (PNMA, Lei nº 6.938). Essa lei promoveu um grande avanço ao apresentar as bases para a proteção ambiental e conceituar expressões como “meio ambiente”, “poluidor”, “poluição” e “recursos naturais”. A PNMA busca a preservação e a recuperação das áreas ambientalmente degradadas, visando ga- rantir condições de desenvolvimento social e econômico, e segurança nacional e a proteção da dignidade da vida humana. A partir de sua publicação se instituiu que o meio ambiente é um bem público a ser resguardado e protegido, em prol da coletividade. Em 1986, o Conama publicou uma resolução sobre o tema, em que se destaca a exigência de elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), de caráter técnico e detalhista, e do seu respectivo Relatório de Impacto Ambiental (Rima), menos detalhado e acessível aos que não são especialistas na área. Esses dois documentos são necessários para o licenciamento e a autorização expedidos pelo Ibama para a realização de qualquer obra ou atividade que provoque impactos ambientais. Outro grande destaque na evolução do Direito Ambiental Brasileiro foi atingido com a Constituição Federal de 1988, a primeira de nossa história a dedicar um capítulo ao esse tema e a incorporar o conceito de desen- volvimento sustentável. Ela estabelece, no artigo 225, que “Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defende-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. O parágrafo terceiro desse mesmo artigo estipula que: “As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão aos infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obriga- ção de reparar os danos causados”. A previsão de sanções penais significa a criminalização das atividades prejudiciais ao meio ambiente, o que foi regulamentado somente dez anos depois, em 1998, com a Lei nº 9.605. Conhecida como a Lei dos Crimes Ambientais, ela define os crimes contra a fauna e aflora, além dos relacionados à poluição, ao ordenamento urbano, ao patrimônio cultural e outros. Quem comete agressões ambientais como desmatamento, poluição do ar ou de águas, ou falsificação de Relatório de Impacto Ambiental, é punido com multa, proibição de exercício de certas atividades e até mesmo prisão. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 88 Código Florestal O Código Florestal foi criado em 1934 e reformulado duas vezes: em 1965 e em 2012 (Lei nº 12.561/12). Neste ano houve muitos embates entre ambientalistas, que queriam ampliar as áreas de preservação e a obri- gação de recompor o que foi desmatado irregularmente, e grandes proprietários, que queriam autorização para ampliar as áreas de agricultura e pecuária sem recompor os biomas. Esta é uma das mais importantes leis am- bientais do país e estabelece a normas de ocupação e uso do solo em todos os biomas brasileiros. Os incisos II e III do artigo 1º, parágrafo 2º, merecem destaque, pois definem as áreas de preservação e as reservas legais: Áreas de Preservação Permanente (APPs): só podem ser desmatadas com autorização do Poder Executivo Federal e em caso de uso para utilidade pública ou interesse social, como a construção de uma rodovia, por exemplo. São a margens de rios, lagos ou nascentes, várzeas, encostas íngremes, mangues e outros ambien- tes. A principal função das APPs é preservar a disponibilidade de água, a paisagem, o solo e a biodiversidade. Reservas Legais: em cada um dos sete biomas brasileiros, os proprietários de terras são obrigados a pre- servar uma parte da vegetação nativa. Na Amazônia, são obrigados a manter 80% da propriedade com floresta nativa, índice que cai para 35% no Cerrado localizado dentro da Amazônia a 20% em todas as demais regiões e biomas do país. É importante notar que o Código Florestal rege apenas as propriedades que podem ser uti- lizadas para atividades agrícolas, e não se aplica, portanto, no interior das unidades de conservação, como os parques e as reservas ecológicas. As Unidades de ConservaçãoAs unidades de conservação são doze áreas de preservação agrupadas conforme a restrição ao uso. As unidades classificadas como de restrição total são denominadas Unidades de Proteção Integral, como o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis, Rio de Janeiro, por exemplo. Aquelas cujo nível de restrição é menor e têm uso voltado ao desenvolvimento cultural, educacional e recreacional são denominadas Unidades de Uso Sustentável. Unidades de Conservação conforme a Restrição ao Uso Unidades de Proteção Integral Unidades de Uso Sustentável Estação Ecológica Área de Proteção Ambiental Reserva Biológica Área de Relevante Interesse Ecológico Parque Nacional Floresta Nacional Monumento Natural Reserva Extrativista Refúgio de Vida Silvestre Reserva de Fauna Reserva de Desenvolvimento Sustentável Reserva Particular do Patrimônio Natural Existem unidades de conservação definidas pela Ibama em todos os biomas brasileiros, inclusive nos bio- mas marinhos. Há também unidades de conservação mantidas por estados e até por municípios, criadas por leis estaduais e municipais. É importante destacar que a criação de leis, decretos e normas voltados à questão ambiental ao longo da história brasileira é consequência do aumento da importância do tema no mundo e no Brasil. Essa evolução deu-se de forma lenta, mas contínua. Esse processo foi influenciado pelas conquistas obtidas em âmbito inter- nacional nas diversas conferências mundiais voltadas ao meio ambiente, e parte da sociedade civil brasileira cumpriu um importante papel ao pressionar os governos legisladores em aprovar leis eficazes e incluir o tema na própria Constituição do país. Objetivos das Unidades de Conservação O Código Florestal, como várias outras leis que se seguiram, serviu de base para a criação do Sistema Na- cional de Unidades de Conservação da Natureza, que têm como propósitos: Contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais; Proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional; Contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais; Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 89 Promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais; Promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimen- to; Proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica; Proteger as características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e cultural; Proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos; Recuperar ou restaurar ecossistemas degradados; Proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento ambiental; Valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica; Favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental, a recreação em contato com a na- tureza e o turismo ecológico; Proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando e valori- zando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente. Matriz energética: fontes renováveis e não renováveis As fontes de energia são de grande importância para o desenvolvimento de um país. No Brasil, as principais fontes de energia são a energia hidrelétrica, petróleo, biocombustíveis e carvão mineral. • Hidrelétrica: utiliza usinas hidrelétricas para a produção de eletricidade. • Petróleo: utilizado para produzir combustíveis como a gasolina e óleo diesel e abastecer usinas termelétri- cas. • Carvão Mineral: utilizado para produzir energia termelétrica e é a matéria prima para as indústrias siderúr- gicas. • Biocombustíveis: são combustíveis alternativos originados de produtos vegetais e renováveis. — Fontes de Energia Renováveis e não renováveis As fontes de energia não renováveis são aquelas que podem se esgotar do planeta, por não terem regene- ração. As renováveis podem se regenerar e portanto, não agridem tanto o meio ambiente. • Fontes de Energia não Renováveis: petróleo, carvão mineral, energia nuclear e gás natural. • Fontes de Energia Renováveis: energia solar, energia eólica, biocombustíveis, energia hidráulica e energia geotérmica. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 90 Mudança climática Efeito Estufa Sempre ouvimos falar que o efeito estufa é o grande vilão do aquecimento global, que não deixa de ser ver- dade. Mas uma coisa precisa ficar clara: é graças a ele que existe vida em nosso planeta. O efeito estufa é um fenômeno natural que faz com que a temperatura média do globo se conserve nos limites necessários para a manutenção da vida, em torno de 14,5 graus Celsius. Ele ocorre em razão da existência de gases, como o carbono, que estão naturalmente na atmosfera e im- pedem a dissipação para o espaço de parte da radiação vinda do Sol, que é absorvida e refletida pela Terra32 O problema é que, por causa da ação do homem, esse benéfico “cobertor” atmosférico está se transforman- do num forno. O intenso uso de combustíveis fósseis, especialmente carvão e petróleo, e a utilização predatória da terra (desmatamento, queimadas, depósitos de lixo) liberam na atmosfera uma imensa quantidade de gases que retêm calor, como dióxido de carbono, metano e óxidos de nitrogênio, intensificando o efeito estufa. O IPCC defende a tese de que essas atividades teriam causado um aumento de 0,7 grau no século XX. Aumento das emissões Desde a Revolução Industrial, há mais de 200 anos, nossas atividades econômicas são baseadas na queima de combustíveis fósseis. A energia que consumimos para gerar eletricidade e aquecimento, para nos locomo- vermos em viagens de carro, avião ou navios e para mover a atividade manufatureira contribui com cerca de metade das emissões dos gases de efeito estufa. 32 http://www.mundoedu.com.br/uploads/pdf/554aaa4b0e16e.pdf Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 91 Outras atividades, como a agricultura, a derrubada de florestas e a manutenção de aterros sanitários, tam- bém despejam no ar enorme quantidade de gás carbônico, metano e óxido nitroso. Todas essas atividades são realizadas mais intensamente nos países desenvolvidos. Estados Unidos, Ja- pão e muitas nações europeias apresentam elevada produção de gases estufa per capita, principalmente por causa do uso de automóveis e da elevada industrialização. Contudo, países em desenvolvimento, como China e Brasil, vêm aumentando significativamente as emissões desses gases nos últimos anos. Os chineses já ultrapassaram os norte-americanos como os maiores poluidores do planeta, sendo respon- sáveis por um quarto das emissões mundiais. No Brasil, 61% das emissões de gases-estufa estão ligadas ao desmatamento. Em busca de uma economia verde Apesar de parecer um palavrão, a sustentabilidade está presente no cotidiano de todos nós. Separar o lixo em casa, economizar água, desligar as luzes quando desnecessário, não jogar lixo no chão, escolher eletro- domésticos que economizem energia, cuidar de plantas e animais. Essas ações nos parecem muitas vezes naturais, mas nem sempre foi assim. Faz apenas algumas décadas que os primeiros ambientalistas, cientistas e pesquisadores passaram a de- fender a preservação dos mananciais e dos biomas, a redução no consumo de energia, a deposição adequada do lixo e a reciclagem de materiais. A diferença, agora, é que essa visão ambientalista contamina a economia globalizada, levando empresas e governos a reconsiderar seu modelo econômico. Isso faz com que sejam promovidas campanhas de conscien- tização que atingem largamente a população. O meio ambiente transforma-se numa questão estratégica para a vida econômica, social e cultural, e o de- senvolvimento tem de ser sustentável, ou seja,deve incluir em seus pressupostos a manutenção de recursos naturais e o bem-estar dos cidadãos. No início dos anos 90, durante a Conferência Eco 92, realizada no Rio de Janeiro, os temas da sustenta- bilidade e da preservação ambiental ganharam mais força e o reconhecimento de diversos países. Em 2012, vários líderes mundiais voltaram a se reunir na Rio+ 20, com o objetivo de fazer um balanço do que foi feito e discutir novas formas de equilibrar as atividades econômicas com a preservação do meio ambiente. Para boa parte dos governos do mundo e dos cientistas reunidos por eles, organizados no Painel Intergo- vernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o clima da Terra está passando por um aquecimento global, que estaria sendo provocado pela ação humana, com a liberação de poluentes na atmosfera que acentuam o efeito estufa. Também estava na pauta a preservação da biodiversidade do planeta, que implica equilíbrio e estabilidade de ecossistemas e seu aproveitamento pela humanidade de forma a preservá-las. O uso descontrolado de matérias-primas, o crescimento caótico das cidades e o desmatamento são temas que integraram toda essa discussão. Mais difícil do que apontar os erros em relação à forma de tratar o meio ambiente era achar soluções possí- veis dentro de realidades tão diversas. Na hora de aplicar medidas concretas, esbarra-se em diferentes interes- ses de cada país ou grupo social, e a grande questão de quem arca com o ônus das políticas de preservação. No plano mundial, os países mais desenvolvidos alegavam que a crise econômica impedia a implementação de medidas em larga escala, pois afetariam ainda mais sua economia, já fragilizada. Por sua vez, as nações em desenvolvimento, que apresentavam crescimento, não queriam prejudicar sua economia, em expansão. Como tudo começou Há quatro décadas discutem-se as questões ambientais em âmbito global. Em 1972, na Conferência Mun- dial de Estocolmo, abordou-se pela primeira vez a produção (principalmente industrial) dos países ricos como causa importante da degradação da natureza. Essa perspectiva marcou uma nova etapa da preocupação am- biental. Depois, em 1987, o Relatório Nosso Futuro Comum, da Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desen- volvimento, retomou a questão, lançando o conceito de desenvolvimento sustentável, cuja proposta visava a compatibilizar o crescimento econômico com o equilíbrio ambiental, de maneira a garantir a satisfação das necessidades das gerações presentes e futuras. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 92 Outro marco foi a Eco 92, a conferência mundial sobre meio ambiente realizada no Rio de Janeiro, em 1992. O encontro aprovou o documento Convenção sobre a Mudança do Clima, que trata do aquecimento global, e a Convenção sobre a Diversidade Biológica, que trata da preservação dos ecossistemas e hábitats. O documento mais abrangente elaborado pelo encontro foi a Agenda 21, um plano que estabelece estraté- gias globais, nacionais e locais para promover o desenvolvimento sustentável no mundo. A Agenda 21 traduz os compromissos com o desenvolvimento sustentável em 27 princípios, calcados em três premissas: → os países desenvolvidos devem mudar seu padrão de produção e consumo e, portanto, seu modelo eco- nômico; → os países em desenvolvimento devem manter as metas de crescimento, mas adotar métodos e sistemas de produção sustentáveis; → as nações desenvolvidas devem apoiar o crescimento das mais pobres, com recursos financeiros, trans- ferência de tecnologia e reformas nas relações comerciais e financeiras internacionais. A partir de então, cada país signatário é considerado parte dessa convenção e indica representantes para as discussões, realizadas uma vez por ano, numa Conferência Geral das Partes (cuja sigla é COP). Amais importante delas, até hoje, foi a terceira conferência (a COP-3), que ocorreu em 1977, em Kyoto, no Japão. Criado no encontro, o Protocolo de Kyoto é um importante documento por ter sido o primeiro acordo oficial com metas e prazos para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. O documento estabeleceu diferenças entre os países ricos, que tinham metas percentuais de redução por ser os principais responsáveis pelos gases emitidos nos últimos dois séculos, e aqueles em desenvolvimento e industrialização recentes, entre os quais Brasil, China e Índia, que se comprometiam a adotar medidas sem metas pré-estabelecidas. O protocolo, porém, demorou para entrar em vigor, pois deveria ter a adesão de um número de países que representasse pelo menos 55% das emissões globais (relativas a 1990). Isso só aconteceu em 2005, quando superou esse patamar com a adesão da Rússia, valendo a princípio para o período de 2008 até o fim de 2012. No entanto, qualquer redução significativa continuou dependendo dos grandes emissores, e nem todos ra- tificaram o acordo. A principal ausência foi dos Estados Unidos, que se recusam a assinar o protocolo se não houver metas de redução obrigatórias para todos os países em desenvolvimento. Eles alegaram, ainda, que a economia do país seria bastante afetada. Mais tarde, com a não participação norte-americana, outras nações também abandonaram os compromis- sos firmados no protocolo. Os governos de Canadá, Japão, Austrália e Rússia passaram a fazer coro com os Estados Unidos na recla- mação contra as economias emergentes, que passaram a ter grande peso no balanço de emissões. Países como China, Índia e Brasil não são considerados ricos e, portanto, não têm metas obrigatórias. No entanto, o crescimento econômico dessas nações nos últimos anos, principalmente das superpopulosas China e Índia, aumentou muito a emissão de carbono global, sem que eles tenham que cumprir metas. Novas perspectivas Havia expectativa de que um novo acordo fosse acertado na COP-15, que aconteceu em 2009, em Cope- nhague (Dinamarca), mas ela fracassou. Na conferência seguinte, a COP-16, realizada em 2010, em Cancún (México), os participantes priorizaram a regulamentação de medidas já discutidas para enfrentar ou amenizar as consequências do aquecimento global. A principal delas foi a criação de um Fundo Verde, no qual os países ricos se comprometeram a depositar 30 bilhões de dólares, até o fim de 2012, para ajudar os países pobres a adotar medidas na área ambiental. Também foi aprovada a criação do mecanismo de Redução de Emissões e Degradação Florestal (Redd, sigla em inglês), que permitirá a países como o Brasil receber compensações financeiras para preservar suas florestas. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 93 A primeira etapa do Protocolo de Kyoto venceu em 2012 sem alcançar seus objetivos. Ainda se tentava chegar a uma nova fase do acordo, na COP-17, realizada em Durban, na África do Sul, em dezembro de 2011. Apesar da recusa das nações desenvolvidas em assinar qualquer compromisso, chegou-se a um consenso: o prazo de validade da primeira etapa do protocolo teve seu final prorrogado por mais cinco anos, até 2017. Com esse acordo, as nações assinaram um documento que devia servir de base para um futuro novo pro- tocolo. Esse documento-base, chamado Plataforma Durban, fixou uma agenda que culminou na criação, em 2015, de um novo acordo, que obriga todas as nações, e não apenas aquelas listadas no Protocolo de Kyoto, a cumprir metas de redução nas emissões a partir de 2020. Na prática, a plataforma foi só uma promessa. Mas, no mundo das políticas globais, significou um avanço na luta contra as mudanças climáticas, ainda mais levando em conta que os dois maiores poluidores do mundo, China e Estados Unidos, concordaram em integrar esse pré-acordo. Aqui no Brasil, a lei que institui a Política Nacional de Mudanças Climáticas, sancionada pelo então presi- dente da época, Lula, no início de 2010, estabeleceu a meta brasileira de redução nas emissões de CO² entre 36% e 39% até 2020, usando como parâmetro as emissões projetadaspara esse período se nada fosse feito. Como o desmatamento é responsável por cerca de 75% das emissões brasileiras, essa meta implicava di- minuir o índice do país. Ao organizar a Rio+20, a intenção das Nações Unidas era debater também como a crise econômica mundial poderia ser uma boa oportunidade para rever o modelo econômico atual. As mudanças propostas deveriam se apoiar sobre três pilares: sociedade, economia e meio ambiente. Assim, à lista de questões ambientais, a ONU acrescentou o combate à pobreza e à fome e a crise econô- mica mundial. Por isso, o documento final da conferência abordava formas de promover uma “economia verde”, que não prejudicasse o meio ambiente, promovendo a eficiência no uso dos recursos naturais e, ao mesmo tempo, promovendo a erradicação da pobreza e da fome. Há quem critique o documento por apresentar uma pauta ampla demais, que pode não resultar em avanços concretos. Segundo os críticos, seria melhor tratar apenas das questões do meio ambiente, que já são suficien- temente complexas. Para evitar que a questão se mantenha no terreno do debate teórico, seria preciso estabelecer metas espe- cíficas para cada ação, com valores claros a ser alcançados dentro de prazos determinados. Mas as propostas das conferências exigem políticas de governo para que saiam do papel e sejam postas em prática, o que não é tarefa fácil. Esse desafio é o que chamamos de Governança Global, ou seja, como os países se organizarão, em termos de metas, acordos, protocolos e instituições, para colocar a economia verde em prática. As nações desenvolvidas deixaram a desejar quanto a promover a igualdade de oportunidades. A transfe- rência de tecnologia ficou aquém do esperado. A ajuda financeira prometida às nações pobres pelos 22 países mais ricos do planeta também está longe de atingir o compromisso assumido, em parte devido à crise econô- mica global. Camada de Ozônio Diversas mudanças climáticas bruscas já ocorreram no mundo, como as ondas de calor nos anos 1980, considerada a década mais quente do século XX. Embora as ondas de calor possam estar relacionadas a pro- cessos naturais, não há dúvida de que os gases produzidos pela atividade humana e lançados na atmosfera contribuem para o aumento da temperatura média da Terra. O gás ozônio, presente naturalmente na estratosfera, desempenha uma função de extrema importância: ele filtra cerca de 70% a 90% dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol. Não fosse a presença da camada de ozônio, os raios ultravioletas atingiriam diretamente a Terra e, em consequência, teríamos uma elevação de temperatura tão violenta que destruiria qualquer forma de vida aqui existente. No entanto, é preciso lembrar que, no nível do solo, o ozônio é uma forma perigosa de poluição, exercendo ação tóxica sobre vegetais e seres humanos. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 94 Atualmente, muito se discute o problema da destruição da camada de ozônio. A diminuição desta camada ameaça a saúde humana, podendo provocar doenças, como câncer de pele, queimaduras, envelhecimento precoce, catarata ocular e imunodeficiência. Mas ela também afeta a flora e a fauna, além de influir no clima do planeta. Desde 1974, estudos associam a destruição do ozônio estratosférico ao maciço e descontrolado uso dos CFCs, um grupo de gases utilizados principalmente nos sistemas de refrigeração e na produção de aerossóis (sprays), solventes, isopor etc. Uma vez presentes na atmosfera e submetidos a reações químicas (liberação de íons de cloreto na estra- tosfera) e a reações com outros gases, os CFCs - compostos de cloro (Cl), adquirem a propriedade de destruir o ozônio. Estudos recentes comprovaram uma diminuição de 3% a 4% da camada de ozônio na Antártida, originando o chamado buraco na camada de ozônio. A quase totalidade dos CFCs presentes na atmosfera dessa região provém dos países industrializados e é transportada pela circulação atmosférica (massas de ar). Em 1987, no Protocolo de Montreal (Canadá), 24 países desenvolvidos assinaram um compromisso de redução da produção de CFC, substituindo-o por gases menos nocivos. De fato, o uso desses gases tem se reduzido e o buraco na camada de ozônio pode diminuir ou mesmo desaparecer se forem mantidas as provi- dências estabelecidas também em outras convenções mundiais (Estocolmo, na Suécia, 1972; Rio de Janeiro, 1992; Kyoto, no Japão, 1997 etc.). Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 95 O buraco na camada de ozônio é detectável por meio de imagens de satélites, como podemos observar na figura. Imagem de setembro de 2004, feita por satélite de monitoramento da NASA que mostra o buraco na camada de ozônio sobre a Antártida. Este buraco é consequência da emissão de gases ao longo de anos, em todo o planeta. Chuva Ácida Trata-se de chuva, neve ou neblina com alta concentração de ácidos em sua composição. Com a denomi- nação genérica de chuva ácida, sua origem são os óxidos de nitrogênio (NOx) e o dióxido de enxofre (SO²) liberados na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis (principalmente o carvão mineral). Esses compostos reagem com o vapor de água presente na atmosfera, formando o ácido nítrico (HNO³) e o ácido sulfúrico (H²SO4), que, mais tarde, se precipitam e alteram as características do solo e da água, prejudi- cando lavouras, florestas e a vida aquática. Também danificam edifícios e monumentos históricos. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 96 Inversão Térmica Os grandes centros urbanos, principalmente os localizados em áreas de serras ou montanhas são as re- giões comumente mais afetadas pela inversão térmica. Essa inversão acontece quando o ar frio e mais denso não consegue circular por uma camada de ar mais quente e menos densa. Sem essa circulação ocorrem alte- rações significativas na temperatura do local33. Um dos agravantes dessa situação é que com a impossibilidade de circulação, o ar mais denso (frio) fica retido nas regiões mais próximas da superfície retendo junto a ele uma grande quantidade de gases poluentes. Essa camada de ar denso é facilmente verificada ao apresentar uma cor acinzentada decorrente da alta con- centração de gases emitidos pelas indústrias e pelos automóveis, principalmente. Transição energética Você sabe o que é a “transição energética”? Essa palavra está cada vez mais em evidência com a mudança climática em todo o mundo. A necessidade de ações mais focadas na redução de emissão de gases do efeito estufa (GEE), como na utilização de geração energia com fontes renováveis, é essencial para o planeta. Desde os primórdios da civilização humana passamos por algum tipo de transição energética. Seja ela hu- mana, animal ou até mesmo aquela vinda da queima dos combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão. A evolução de uma comunidade ou região pode ser analisada com base na forma de controlar e consumir energia. 33 https://querobolsa.com.br/enem/biologia/problemas-ambientais Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 97 Atualmente, quando falamos de transição energética, estamos destacando a mudança de uma fonte de energia para outra de forma mais sustentável, ou seja, uma matriz que reduza as emissões de gases de efeito estufa. Além disso, a transição energética tem sido apontada como um dos grandes pilares para o crescimento eco- nômico e social dos países, de forma justa e inclusiva. Transição energética consiste em passar de uma matriz de fonte de energia que utiliza combustíveis fósseis, como Petróleo, gás natural e carvão, que são grandes emissores de Carbono (CO2) na atmosfera, para fontes renováveis, como sol, água, vento e biomassa, que emitem menos gases de efeito estufa. Apostila gerada especialmente para: carlos cesar César nogueira da silva e silva 978.677.991-68 98 O Ministério de