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ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS AULA 4 Profª Juliana Santos 2 CONVERSA INICIAL Em conteúdos anteriores, buscamos percorrer as trilhas de Freud e Lacan para entendermos de que modo as estruturas clínicas se constituem. Freud se indagava a respeito de por que uma pessoa “escolheria” a neurose ao invés da psicose. Através dessa indagação, ele, ao longo de sua teorização, foi encontrando alguns mecanismos que operam no início da vida psíquica e condicionada à subjetividade em sua forma de apreender a realidade. Freud, ainda que não tenha usado o termo estrutura, deixou pegadas para que Lacan pudesse fundamentar a sua tese sobre a constituição das estruturas clínicas. Isso porque foi através da interpretação do texto A negação (1925) que Lacan apreende o conceito da Bejahung, uma afirmação primordial, que opera no psiquismo a verificação de posse e de realidade das representações internalizadas, atribuindo um juízo de existência. A Bejahung é, portanto, a operação mais primordial de todas. Na sua contraposição, está o que Freud nomeou de Austossung (expulsão), que, segundo Lacan, é o campo do o real “na medida em que ele é o domínio que subsiste fora da simbolização” (Lacan, 1954, p. 384). Contudo, se a Bejahung é pura afirmação, para que ela se constitua como tal, algo tem que ser expulso, ou melhor negado. A negação é, então, a forma possível da Bejahung se constituir e se produzir no campo da consciência. Desse modo, o não viabiliza a existência de um Bejahung. É nesse sentido que Freud elabora a sua teoria da constituição da neurose e perversão, onde é sob a égide da negação, da castração propriamente, que a afirmação se institui por outras vias, isto é, pela via do recalque na neurose e por via do desmentido na perversão. Assim, para esta etapa, iremos nos deter nas ocorrências dessa afirmação primária — a Bejahung, priorizando a ocorrência do recalque da castração, em que o neurótico, para negar sua existência na consciência, perpetua essa afirmação no inconsciente. E é daí que o sujeito se divide: por um lado, pela força em que essa afirmação se institui; e por outro lado, por um não querer saber nada sobre isso. E aí está a fórmula do conflito neurótico, que se dá entre os impulsos do id e do ego. 3 Portanto, se as investigações acerca das neuroses sempre tiveram nos holofotes da clínica psicanalítica, cabe-nos agora nos aprofundar sobre essa estrutura, a fim de compreendermos o modo como o sujeito neurótico lida com a sua realidade. TEMA 1 – A NEUROSE A neurose é o resultado de um conflito psíquico no qual resulta em bloqueio das descargas necessárias, criando, desse modo, um estado recalcado. Otto Fenichel (2004, p.119) afirma que, por definição, “o conflito neurótico é um conflito que surge entre uma tendência que luta pela descarga e outra tendência que tenta impedir esta última”. Para entendermos a origem do conflito neurótico, vamos retomar o Projeto para uma psicologia científica (1985), em que Freud apresenta a perspectiva econômica do aparelho psíquico, aferindo à consciência o processo de descarga do excesso de energia psíquica. Contudo, na evocação de lembranças muito penosas, a consciência fica incapaz de reagir a essas representações, daí ela se defende pela operação do recalque. O recalque é, portanto, um mecanismo de defesa característico da neurose, cujo objetivo é, essencialmente, afastar da consciência as ideias incompatíveis. Porém, diante da queixa de seus pacientes, Freud se deu conta que a operação do recalque é ineficiente e de que tais representações insuportáveis retornam à consciência pelas formações inconscientes, a qual Freud nomeou de sintoma. Na Carta 105 (1899, p. 329), Freud destaca que “o sintoma surge ali onde o pensamento recalcado e o pensamento recalcador conseguem juntar-se na realização do desejo”. Desse modo, o sentido do sintoma é um par contraditório de realização de desejo, conclui Freud. Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, (1905), Freud nos indica que a amnésia infantil se produz por uma ação do recalque e, por isso, tais lembranças poderiam ser trazidas de volta em análise, já que elas não foram apagadas. Nesse ponto, ele afirma que os neuróticos sofrem da mesma amnésia infantil e, que, na sexualidade adulta seria um resíduo dessas experiências infantis, que resistiria à recordação em virtude da moralidade impressa. 4 Assim, a sexualidade desempenha um papel fundamental na etiologia das neuroses, pois é nesse encontro inevitavelmente traumático, que o sujeito constitui sua defesa pela escolha de uma neurose. 1.1 O recalque Freud concebeu o recalque como um mecanismo de defesa no qual as representações insuportáveis são retidas e separadas da consciência, tal operação estaria a serviço do princípio do prazer e se organiza no sistema inconsciente. Com o desenvolvimento da teoria até a segunda tópica, o aparelho psíquico é formulado em três instâncias: o eu, o id e o superego. Nessa nova organização, o eu e o superego participam de determinada parcela inconsciente. Desse modo, o recalcado é apenas parte do inconsciente, e não a parte inteira dele, como se pensava antes. A partir do conceito de pulsão de morte, o recalque passa por uma revisão. No texto Inibição, sintoma e angústia (1926), o recalque é articulado a “fora-da-lei”, visto que ele está submetido à lei do id, não a serviço do princípio de prazer. Entretanto, o eu segue impondo uma censura, mas as moções pulsionais não cessam de buscar a satisfação (Freud, 1926, p. 150). Assim, o sujeito é impelido a uma compulsão à repetição inconsciente. TEMA 2 – PULSÃO E FANTASIA Freud, após comunicar à sociedade a existência da sexualidade infantil, pôde conceber a teoria da pulsão como uma atividade primária. Nesse sentido, a pulsão é posta como uma quantidade de energia que exerce força constante em busca de satisfação, que só se encontra ao ser descarregada pelas zonas erógenas (boca e ânus). É sob esse ponto de evacuação que a pulsão cria uma fixação. Assim, o corpo é uma superfície onde se inscrevem as primeiras marcas, sede dos investimentos pulsionais. É a partir das incidências da linguagem que o corpo perde a sua relação com a natureza e se transforma em um corpo simbólico. O resultado dessa operação é a perda do objeto, isto é, a renúncia pulsional imprescindível para a entrada no campo simbólico. Contudo, as zonas 5 erógenas não deixaram de buscar esse reencontro com o objeto perdido da satisfação. É nesse sentido que Freud declara que o neurótico sofre por reminiscência. Ele se recusa a renunciar o objeto perdido, o objeto da satisfação plena. Trata-se de das Ding, a coisa freudiana inominável, que se apresenta no campo simbólico como falta. Portanto, é em torno desse vazio que o sujeito vai se constituir no campo simbólico, se utilizando dos sistemas de linguagem (metáfora e metonímia) inconscientemente para tentar tamponar sua falta. A partir daí, surgem vários objetos que vão sendo inseridos na cadeia significante e que têm por aspiração o “eu ideal” (i(a)), a imagem plena. Trata-se do investimento feito na fantasia que tenta articular o sujeito e o objeto. 2.1 A clínica da fantasia Freud se deparou com a fantasia desde o início de sua prática clínica com as histéricas. De início, chegou a acreditar nas cenas de sedução, as quais suas pacientes relatavam nas entrelinhas. Mas, com o desenvolvimento da sua teoria, pôde se dar conta que se tratava de uma realidade que não se conjectura com o real, mas de uma realidade psíquica. Alessandra Fernandes Carreira (2009) explica assim: É justamente em função de seu caráter traumático que a verossimilhança dessas cenas, narradas pelas histéricas freudianas, não pôde ser tomada como inverdade, mas como ficção que dá estruturaà verdade. Tal verdade é reiterada na enunciação que subsiste nos enunciados dessa ficção e os engendra, fixando o sujeito em um instante eterno e inenarrável: instante em que ele (não) é tomado pelo desejo do Outro. (Carreira, 2009) A fantasia passa a assumir o ponto crucial da escuta clínica, pois nela se constitui um saber inconsciente onde o sujeito busca responder à questão sobre o seu ser, tentando encobrir a falta inerente a ele. 2.2 Do Édipo à fantasia fundamental Já sabemos que a constituição psíquica do sujeito se situa na vivência edipiana, onde ocorrem os três tempos lógicos do Édipo. No primeiro tempo, a criança está identificada ao objeto desejado da mãe (o falo materno), sendo 6 assim, a relação mãe-bebê plena; o segundo tempo ocorre a partir da presença de um terceiro elemento, que faz a criança perceber que o desejo da mãe não está dirigido apenas para ela, mas a mãe deseja outra coisa, geralmente o pai. A interpretação da criança de que a mãe deseja o pai faz emergir uma rivalidade imaginária com o pai, pois, para a criança, o pai tem o falo, que falta à mãe. Assim, conforme nos ensina Lacan, é a função paterna, através do significante Nome-do-Pai, que introduz a falta na relação mãe-bebê. A criança, então, perde a identificação ao falo materno e recalca; começa o terceiro tempo lógico, onde a criança se dá conta da castração da mãe e, assim, da sua própria castração e vai em busca de ter falo. Portanto, o falo é elevado ao nível simbólico, fazendo de todos castrados, inclusive o pai. Ocorre que a criança, ao perder sua identificação ao falo, irá demandar ao Outro, tesouro do significante, que responda sobre o seu desejo. Contudo, o que surge desde aí é a pergunta: que quer você? (Lacan, 1960, p. 829). O vazio pela falta de resposta do Outro indica que o Outro também é faltoso, pois não existe nada que supra essa incompletude do Outro, portanto, declara Lacan (1960, p. 833): “não há Outro do Outro”. Desse modo, o sujeito se constitui pela falta do Outro, advindo como um falta-a-ser, pois do Outro não receberá a resposta para o seu desejo. A falta, portanto, é irremediável, sendo assim, a fantasia se forma para dar conta dela. Portanto, a fantasia pode ser considerada o produto da operação do complexo de Édipo, cujo registro é imaginário, mas que se articula ao simbólico, e sua montagem inconsciente se ergue na tentativa de sanar o vazio deixado à questão “Che Vuoi?”. Coutinho Jorge (2010) afirma que a fantasia é um elemento que se instaura para a criança como uma verdadeira contrapartida ao gozo que ela perdeu. Assim, ela se constrói, essencialmente, como uma fantasia de completude. TEMA 3 – A FANTASIA FUNDAMENTAL Freud (1919), em seu texto Bate-se numa criança, onde ele privilegia o espancamento, mas poderia ser qualquer outra coisa, afirma que a fantasia fundamental é uma fantasia origem edipiana, cuja dissolução desse complexo 7 faz emergir a fantasia como um resíduo que irá determinar a posição do sujeito em seu modo de gozo. O mecanismo principal que organiza a estrutura fantasmática, declara Nasio (1993), está sempre encoberto por uma frase organizada em torno de um verbo fácil de identificar no relato do paciente. O autor diz, ainda, que a identificação do sujeito à posição de objeto, de fato, está no verbo da frase: morder, espancar, sujar, ignorar etc. Para entendermos isso, voltemos ao texto Bate-se numa criança, onde Freud nos indica três tempos da fantasia: 1. Uma criança é espancada: é o relato de uma primeira cena emergente, onde o relator não faz parte da cena, portanto, ela não é uma cena masoquista nem sádica: bate-se. 2. Estou sendo espancada pelo meu pai: o relator da cena coincide com a criança espancada. É uma cena de masoquismo, mas, segundo Freud, trata-se de uma cena que nunca existiu, assim, diz respeito a uma construção de análise. 3. Provavelmente estou olhando: o relator surge na cena apenas no lugar de quem olha, não coincidindo com a criança espancada. Há presença de excitação sexual masturbatória cujo caráter é sádico manifesto. Freud, que de início considerou o sadismo de caráter primário, resultado da rivalidade com a figura do pai, em 1920, com o conceito de pulsão de morte, dá um passo atrás e reconhece no texto O problema econômico do masoquismo (1924), que na origem está o masoquismo e permanecerá na base da estrutura do sujeito. Portanto, com a nova leitura do masoquismo primário, podemos entender que sobre o mecanismo da fantasia há um masoquismo nuclear, assim: uma cena primária (deixa um traço de memória); depois, com a dissolução do Édipo, a criança vai se identificar ao objeto da cena (a criança espancada), ou seja, retroativamente (S1-S2), construindo a sua fantasia de base masoquista, onde se vincula o gozo; e no terceiro tempo, o que caracteriza essa fase é que a fantasia está fortemente ligada a uma excitação sexual e seu modo de gozo resquícios dessas experiências. Sobre esse texto, Coutinho Jorge declara: Os três tempos da fantasia “Uma criança é espancada” parecem, assim, caminhar precisamente na seguinte direção: do amor ao gozo. Da posição de sujeito, $, que a criança ocupa no primeiro tempo, para 8 a posição de objeto, a, que se delineia no segundo tempo e se configura rapidamente no terceiro. (Coutinho Jorge, 2010, p. 108) Portanto, a fantasia não se trata de um devaneio, ela porta o desejo. Sendo assim, é a forma como o sujeito tenta encadear o seu desejo na cadeia de significantes. Mas, em contrapartida, é justamente nessa tentativa de passagem ao significante que o recalque é gerado. Surge, então, o sintoma para encobrir a verdade do sujeito e, na clínica psicanalítica, ele recebe voz para denunciar o desejo recalcado e desvelar o modo de gozo da estrutura. Portanto, é dessa forma que o sujeito se apega ao seu sintoma. Lacan situa o sintoma numa estreita relação com o corpo, que se impõe para além das construções imaginárias e simbólicas que atravessam o sujeito, pois há algo da dimensão do real, do sem sentido que não entra no campo da linguagem do Outro. TEMA 4 – A HISTERIA Para a psicanálise, a histeria é, antes de mais nada, um dos modos como o sujeito neurótico se enlaça e tece a suas relações com os outros a partir de suas fantasias. Coutinho Jorge (2010) declara que a fantasia é uma espécie de matriz psíquica que funciona mediatizando o encontro do sujeito com o real. Desse modo, a fantasia constitui o princípio da realidade de cada sujeito. “Essa fantasia, em que o sujeito é preso, é, como tal, o suporte do que se chama expressamente, na teoria freudiana, o princípio de realidade” (Lacan citado por Coutinho Jorge, 2010, p. 77). Isso significa que o histérico, assim como qualquer sujeito neurótico, vai se posicionar na relação afetiva com o outro de acordo com lógica de sua estrutura, condicionado, sempre, por sua fantasia inconsciente sem que ele tenha poder sobre isso. A fantasia inconsciente diz respeito a algo traumático inerente à sexualidade do histérico, contudo, Coutinho Jorge e Travasso (2021) sublinham que se trata de um trauma contingencial, visto que não há como não ocorrer, pois refere-se à falta de inscrição da diferença sexual no inconsciente. Sendo assim, a própria concepção do sexo é, inevitavelmente, traumática. “Trata-se aqui do real inerente ao pulsional, do inassimilável inerente à sexualidade, com sua intensidade e excesso” (Coutinho Jorge; Travasso, 2021). 9 Freud descobre um paradoxo da sexualidade histérica, no qual aponta para uma grande necessidade sexual, no mesmo passo que demostra uma profunda aversão ao sexo. Assim, constata que o sujeito histérico erotiza o corpo e amortece o órgão sexual. Na histeria, o corpo é sexualizado, exceto o próprio sexo. Nesse sentido, os sintomas histéricos ocorrem geralmente no corpo, obedecendoao significante inconsciente. No texto Fragmento da análise de um caso de histeria, Freud (1905, p. 37) declara: “Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer pessoa em quem uma oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderantes ou exclusivamente desprazerosos, fosse ela ou não capaz de produzir sintomas somáticos”. A inibição sexual histérica, contudo, não significa um retraimento, destaca Nasio (1991), pois, na verdade, trata-se de um movimento ativo de rechaço. Diz mais em A Histeria: A impotência, a ejaculação precoce, o vaginismo ou a frigidez, todos são distúrbios característicos da vida sexual do histérico, os quais, de uma maneira ou de outra, exprimem a angústia inconsciente do homem de penetrar no corpo da mulher, e a angústia inconsciente da mulher de se deixar penetrar. O paradoxo do histérico diante da sexualidade caracteriza-se, portanto, por uma contradição: de um lado, há homens e mulheres excessivamente preocupados com a sexualidade, procurando erotizar toda e qualquer relação social, e de outro, eles sofrem — sem saber por que sofrem — por ter que passar pela experiência do encontro genital com o sexo oposto. (Nasio, 1991, p. 45) É preciso compreender, o quanto antes, que a sexualidade histérica não é uma sexualidade genital, mas um “simulacro de sexualidade”, visto que seu gozo está mais em criar sinais sexuais que raramente vão estar articulados ao ato sexual que ele enuncia. “E, no entanto, se há um desejo a que o histérico se atém é o de que esse ato (sexual enunciado por ele) fracasse; mais exatamente, ele se apega ao desejo inconsciente de não realização do ato” (Nasio, 1991, p. 18), pois para o histérico, o desejo é que o desejo continue insatisfeito. Mas, por que sustentar um desejo insatisfeito, se deveríamos ir em busca de satisfação? Nasio (1991, p. 15) responde: o histérico é fundamentalmente um ser de medo que, para atenuar sua angústia, não encontrou outro recurso senão manter incessantemente, em suas fantasias e em sua vida, o doloroso estado de insatisfação, pois, para ele, o perigo pressentido que o levaria a seu aniquilamento é “o perigo de viver o gozo máximo”. Portanto, a questão da histeria é posta por Nasio da seguinte forma: 10 Pouco importa que ele imagine esse gozo máximo como o gozo do incesto, o sofrimento da morte ou a dor da agonia; e pouco importa que imagine os riscos desse perigo sob a forma da loucura, da dissolução ou do aniquilamento de seu ser: o problema consiste em evitar a qualquer preço qualquer experiência que evoque de perto ou de longe um estado de plena e absoluta satisfação. Esse estado, de resto impossível, é pressentido pelo histérico, no entanto, como o perigo supremo de um dia ser arrebatado pelo êxtase e gozar até a derradeira morte. (Nasio, 1991, p. 16) O sujeito histérico é aquele, então, que para se defender de um gozo máximo, ele se mantém num estado fantasmático de insatisfação. O histérico se afasta da ameaça do gozo, construindo inconscientemente um cenário fantasmático, do qual tenta provar a si mesmo que há falta e, portanto, o seu gozo permanecerá insatisfeito. A realidade histérica, consequentemente, terá os moldes de sua fantasia. Desse modo, as pessoas de seu convívio também serão portadoras da falta, pelo qual o histérico desenvolve, de formas aguçadas, meios incessantes de busca, para poder apontar a falta do outro. 4.1 O caso Dora O caso Dora é o caso clínico de histeria mais paradigmático da psicanálise. Dora era uma jovem de 18 anos quando chegou para receber o tratamento psicanalítico. Segundo relato de Freud, Dora apresentava todos os sintomas que caracterizavam uma pequena histeria: enxaquecas, tosse nervosa, perda da voz, abatimento e tédio da vida. Mas o fato que levou o pai de Dora a buscar ajuda de Freud foi ter encontrado uma carta de despedida endereçada aos seus pais, pois ela “não podia mais suportar a vida”, somada a um ataque de perda de consciência. A trama que rodeia a vida de Dora é formada pela relação conturbada com a sua mãe, pois ela se recusa a ajudar nos afazeres domésticos; pela relação com o pai, que manteve uma relação de amante com a Sra. K; pelo Sr. K, que a cortejava e ela fingia não ver, pois, por causa da relação de amantes entre o seu pai e a Sra. K, Dora se colocava como objeto de troca dessa relação. Dora admite à Freud que era cúmplice dessa relação amorosa extraconjugal de seu pai, pois todas as vezes que visitavam a Sra. K, cuidava de seus dois filhos para deixá-los sozinhos. 11 Dora e a Sra. K eram amigas, confidentes e conselheiras. Nas vezes em que Dora dormia na casa da Sra. K, o Sr. K deixava o quarto para que elas dormissem na mesma cama, já que entre as duas não havia nada que não pudessem ser conversado. Dora elogiava o corpo, a pele e a aparência da Sra. K para Freud, o que lhe parecia mais um relato de amantes do que uma mulher se referindo a uma rival. Nessa relação com a família K, Dora relata a Freud que, quando tinha 14 anos, o Sr. K a convidou para encontrar-se com ele e a Sra. K, para juntos irem à procissão. Ocorre que quando Dora chega à loja do Sr. K, ele estava sozinho, e quando os dois vão sair, ele abraça Dora e lhe dá um beijo na boca. Dora conta que sente uma violenta repugnância. Nadiá P. Ferreira e Marcus A. Motta (2014) destacam essa cena e apontam para o horror histérico: Esse beijo, um segredo só revelado na análise, opera, segundo Freud, um trauma sexual que se conecta com outras experiências sexuais traumáticas da infância. Referindo-se a esse episódio, Jacques-Alain Miller comenta que o horror que Dora passa a sentir por um homem sexualmente excitado e o nojo, que provém do recalque da parte erógena dos lábios, permitem “afirmar que a interpretação que Freud realiza centra-se no mau encontro de Dora com o gozo sexual”. (Ferreira; Motta, 2014, p. 15) Um segundo episódio é relatado por Dora. Ela conta que num passeio à beira do lago com o Sr. K, ele a beija novamente e lhe faz uma declaração de amor. Dessa vez, Dora lhe bofeteia e sai correndo. Passados uns dias, Dora conta à mãe o que ocorre. Esta, por sua vez, relata ao seu marido. Contudo, o Sr. K, ao ser procurado pelo pai de Dora, nega a acusação e diz ser fruto da imaginação de Dora. O Sr. K tinha ao seu favor a denúncia de que Dora, junto com sua esposa, tinham o hábito de ler livros inapropriados para a idade dela. Freud aponta para a traição da Sra. K com a sua amiga, pois revelara o segredo das duas, mas o que surpreende Freud é que Dora, no lugar de sentir ódio de sua amiga, sente ciúmes da relação amorosa que ela tinha com o pai. Lacan (1951), em seu texto Intervenção sobre a transferência, assinala para a inversão dialética estabelecida por Freud, pois ele se dá conta de que o repentino ciúme de Dora pelo pai mascara, na verdade, uma fascinação pela Sra. K, motivo pelo qual Dora se mantém leal, mesmo depois da traição e ela própria se passando por mentirosa. 12 Numa primeira interpretação dada por Freud, ele acreditou que se tratava de um amor recalcado pelo Sr. K. Mas, com a cena do lago, esse amor, por motivos ainda desconhecidos, fez desencadear uma violenta resistência, fazendo ressurgir o amor infantil. Já na última interpretação, Freud descobre a face homossexual da neurose histérica, de modo que, a nível inconsciente, o ciúme de Dora pela Sra. K é, de fato, fruto de sua identificação com o homem. “Essas correntes afetivas masculinas, ou, melhor dizendo, ginecofílicas, devem ser consideradas típicas da vida amorosa inconsciente das jovens histéricas” (Freud citado por Ferreira; Motta, 2014, p. 16). No seminário 4, Lacan (1957) sublinha que o laço libidinal que liga Dora à Sra. K trata-se de uma identificação histérica à imagem viril. Portanto, ela, por via do Sr. K, na medida em que está identificada imaginariamenteao Sr. K, está ligada à Sra. K. Assim, conforme nos explica Ferreira e Motta, entre Dora e a Sra. K, é muito mais do que uma paixão, mas trata-se de uma questão histérica: o que é uma mulher? Muito mais que uma paixão, o que liga Dora à Sra. K. é uma questão: o que é ser mulher? É a partir dessa questão, encarnada na Sra. K., que Dora se situa em uma relação triangular. Todos, ou seja, ela, seu pai e o Sr. K., idolatram a Sra. K. Dora, de certa forma, é condescendente com o assédio do Sr. K. Mas ela o esbofeteia quando ele lhe diz que a Sra. K. não é nada para ele. (Ferreira; Motta, 2014, p. 17) Freud apreende, a partir do caso Dora, que a estrutura da fantasia histérica é atravessada pelo desejo da bissexualidade que se enuncia através da questão do impossível do sexo: sou homem ou mulher? TEMA 5 – NEUROSE OBSESSIVA Que a psicanálise foi inventada pelo encontro de Freud com as histerias, todo mundo já sabe, mas o que é menos evidenciado é que Freud “inventou” a neurose obsessiva. Pois bem, Maria Anita Carneiro (2011, p. 23), em seu livro Um certo tipo de mulher, enfatiza que Freud foi o pai da neurose obsessiva: “sua cria, surgida do rigor da pesquisa e do cuidado meticuloso com o diagnóstico diferencial”. Ao contrário da histeria que os sintomas se manifestam primordialmente no corpo, na neurose obsessiva, o sujeito sofre dos pensamentos. 13 Na neurose obsessiva, o encontro com o sexo, que é sempre traumático, é acompanhado com um excesso de gozo, que posteriormente, ao surgir na consciência, será acompanhado de culpa e autorrecriminação. Desse modo, será recalcado, e o afeto é deslocado para uma ideia substitutiva. O sujeito obsessivo passará, então, a ser atormentado por uma autorrecriminação sobre fatos aparentemente fúteis e irrelevantes. Freud diz que, na verdade, a ideia obsessiva é correta no que tange ao afeto e à categoria, mas é falsa em decorrência do deslocamento e da substituição por analogia. Ou seja: a ideia obsessiva pode ser contrária a qualquer lógica, embora sua força compulsiva seja inabalável. (Carneiro, 2011, p. 16) A formação dos sintomas da neurose obsessiva tem como efeito o deslocamento do afeto e a substituição por analogia da representação traumática. Por isso, a operação do recalque é mais frágil do que de uma histeria que converte o sintoma no corpo. A consequência dessa fragilidade do recalque pode ser observada facilmente na clínica, pois o obsessivo acaba colocando na sua fala elementos que deveriam estar recalcados. Por exemplo: com frequência, vemos relatos de sonhos eróticos, que ao final o analisante diz: “não era a minha mãe”. Assim, através da negação, Freud vai nos dizer que o sujeito se autoriza a dizer a frase proibida: “era a minha mãe”, pois, afinal, foi o próprio analisante, que colocou a mãe na conversa. Outro fenômeno presente nos sintomas obsessivos é a crença na representação recalcada, pois o obsessivo crê na autorrecriminação, crê na representação recalcada, e é porque crê, ele se permite duvidar. A dúvida, que, como destaca Carneiro (2011), Descartes elevou à dignidade de um método filosófico, não será apenas um sintoma da neurose obsessiva, mas também uma defesa contra a angústia, contra o afeto que se desloca de uma representação à outra. Desse modo, o neurótico obsessivo tende a esvaziar o seu afeto. É nesse ponto, da crença, que Freud distingue a paranoia da neurose obsessiva, pois em ambas o encontro com o sexo é vivenciado com gozo excessivo, mas enquanto na neurose há uma autorrecriminação, na paranoia o sujeito não crê na autorrecriminação, pois ele projeta a culpa para o outro. 14 5.1 Do sintoma da neurose obsessiva a sua fantasia A neurose, como bem vimos, é resposta do recalque ao trauma sexual. Através dessa descoberta, Freud conclui que não há indicação de realidade objetiva no inconsciente, portanto, a realidade é psíquica, fruto de uma fantasia inconsciente. Assim, quando tratamos do inconsciente, não há como distinguir a verdade da ficção, pois a verdade do sujeito é tecida pela sua ficção. Sendo assim, a fidedignidade dos fatos não nos interessa, visto que a verdade está no que o sujeito conta. Na neurose obsessiva, o sujeito está preso ao tema da morte, pois ela configura o tema da castração, visto que na fantasia inconsciente, o pai pode matá-lo por ter desejado e gozado da mãe. Essa ideia está na origem do sintoma, que se constitui como compromisso à representação intolerável do trauma que provocou gozo e culpa. Outra consequência dessa fantasia inconsciente, na neurose obsessiva o sujeito tenta, a todo custo, anular o seu desejo, cujas estratégias são de várias consequências clínicas, mas com o mesmo objetivo: dar um curto-circuito no desejo. Maria Anita Carneiro (2011) declara: A estratégia obsessiva divide-se em duas partes: em primeiro lugar, trata-se de fazer calar o desejo do outro reduzindo-o aos pedidos que o outro lhe faz. Assim, um obsessivo pode ser muito solícito, muito gentil, atendendo da melhor maneira a tudo que lhe pedem para não deixar espaço para o desejo, que está oculto para além do que se pede explicitamente. Ou então pode ser um sujeito “do contra”, que se opõe aos pedidos dos outros, mantendo assim a ilusão de que anula o desejo. São manobras opostas a serviço da mesma estratégia. (Carneiro, 2011, p. 25) Para se afastar do seu desejo, o sujeito obsessivo o mantém no lugar do impossível. Assim, a procrastinação faz parte de sua vida, visto que ele joga para o tempo o seu desejo. Portanto, só faz o que precisa quando não tem mais tempo e precisa fazer. Carneiro sublinha que os sintomas da neurose obsessiva estão articulados ao pai. O obsessivo crê no pai, crê no traço identificatório tomado do pai e, portanto, crê nas palavras, crê no pensamento, e é a partir dessa crença que combate o desejo. O desejo é contra a lei, incestuoso — o desejo proibido pela mãe inclui o desejo da morte do pai. O obsessivo, submisso, se identifica ao traço tomado do pai (identificação simbólica), mas também se identifica imaginariamente ao pai, cujo lugar quer ocupar. E é a partir daí que a culpa cobra seu preço. (Carneiro, 2011, p. 26) 15 5.2 O caso do homem dos ratos O caso do homem dos ratos é paradigmático na clínica da neurose obsessiva. Trata-se do relato de um jovem tenente de nome Lehrs, que buscou Freud (1909), em meio a muito sofrimento. Ele conta que em seu acampamento militar havia um certo capitão, que narrou uma crueldade que se aplicava no Oriente, onde, segundo o capitão, tomava-se um tonel com uma única abertura e nele se colocavam muitos ratos famintos. E sobre a abertura do tonel, era posta uma pessoa completamente nua para ser torturada, oferecendo-o, assim, como única saída o seu corpo. A partir dessa história, o jovem tenente passou a se sentir perturbado com uma viva impressão, que a história que deixara. Passados uns dias, os óculos que ele havia encomendado, após perder os seus, chegaram de Viena, e o tal capitão, erroneamente, cobrou-lhe, dizendo que ele deveria pagar o reembolso postal ao tenente Z, pois este havia pagado a dívida. Prontamente, jurou mentalmente fazê-lo, e completou em pensamento a frase do capitão: “senão o suplício dos ratos será aplicado à moça que eu amo e a meu pai”. O detalhe é que seu pai já havia falecido. Ocorre que quando vai pagar a sua dívida, descobre que quem pagou a sua postagem foi uma senhora que trabalhava no correio. Então, armou de pagar o tenente Z, para que ele pagasse a senhora do correio, mas o tenente Z havia sido transferido para outro regimento em outra cidade. O tenente Lehrs resolveu, então, pegar um trem e ir ao encontro do tenente Z, para convencê-lo a voltar com ele para que ele o entregasse à senhora do correio, para que assim o dinheiro fosse entregue ao verdadeiro encarregado do correio, o tenente B.Todo esse jogo logístico ocorreu para que o tormento dos ratos não fosse aplicado à sua namorada e ao seu pai, que aliás já estava morto. Freud se dá conta de um elemento central em todos os casos de neurose obsessiva — a dívida. A dívida, no caso do homem dos ratos, tem uma estreita relação com a imagem do seu pai, pois, seu pai morreu devendo uma dívida de jogo. “Diante de sua própria dívida para com a senhora do correio, agravada pelo juramento que fizera, o tenente Lehrs se vê identificado ao pai devedor” (Carneiro, 2011, p. 31). 16 No relato do homem dos ratos, Freud destaca que, em sua fala de suplício, era possível observar em seu rosto um gozo desconhecido para o próprio sujeito, pois parecia que ele se sentia fascinado e assustado pelo próprio relato. Outro ponto destacado por Freud é que, o obsessivo, traz uma fala interrompida, incompleta, mostrando dificuldade de tocar em assuntos difíceis, trata-se de “mecanismo auxiliares do recalque”, pois o obsessivo sabe que ao falar o desejo escapa. Nesse sentido, ele tenta anular a significação dos seus atos e fala, por conta disso, que é necessário ao analista auxiliá-lo, emprestando- lhe palavras. NA PRÁTICA Na clínica da neurose obsessiva, o Outro goza, como o capitão do homem dos ratos, pois o Outro é patente do pai da horda primitiva que barra o seu acesso ao gozo. Assim, para não deixar emergir o gozo do Outro, o sujeito anula o seu desejo, com a dúvida, com pensamentos trágicos, com cálculos impossíveis, pois, diante do Outro, o sujeito está sempre na posição de escravo. Por exemplo: um analisante que desde criança buscava ganhar dinheiro, pois achava que não podia ser um peso para sua família. Começou a trabalhar logo que pôde e arcou com muita dificuldade a todo custo da sua faculdade. Diz ser muito dinheirista e nunca se sentiu à vontade para pedir as coisas para a sua mãe. Nesse caso, a relação com o dinheiro se agravou quando a analisante perde o seu pai, e sua mãe fica muito “depressiva”. Essa situação a levou a assumir o papel de supridor, cuja falta da família não podia parecer que prontamente se forçava por tamponar. Entrava em relacionamentos abusivos, dos quais não conseguia sair. Quando a analisante começa o tratamento, aos poucos ela vai se dando conta de todas as contradições de sua vida, pois sempre se direcionava para caminhos que se opunha ao que deseja, visto que seu desejo era diminuído frente ao desejo do outro, uma relação de escravo. A fantasia do neurótico obsessivo é sustentada por uma dívida simbólica impagável, que o coloca sempre culpado diante do seu desejo. 17 FINALIZANDO A neurose: vimos que a neurose é resposta do recalque que opera no encontro com o sexo, que, inevitavelmente, é da ordem do trauma. A clínica da fantasia: assim, na neurose, o sujeito retira o investimento da libido no objeto da realidade e o investe no objeto da fantasia. A fantasia fundamental: na base estrutural de toda fantasia, existe o masoquismo original, pelo qual o sujeito constitui o seu modo de gozo apoiado em sua fantasia fundamental. A histeria: em sua fantasia, o sujeito histérico se questiona: sou homem ou mulher? Visto que seu corpo é entregue, mas seu gozo se mantém insatisfeito. A neurose obsessiva: em sua fantasia, o sujeito obsessivo está preso ao tema da morte, pelo qual a morte é a grande figura da castração. 18 REFERÊNCIAS CARNEIRO, M. A. A neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. CARREIRA, A. F. Algumas considerações sobre a fantasia em Freud e Lacan. Psicologia USP [online], v. 20, n. 2, p. 157-171, 2009. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0103-65642009000200002>. Acesso em: 8 maio 2022. COUTINHO JORGE, M. A.; TRAVASSO, N. P. Histeria e sexualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2021. FERREIRA, N. P.; MOTTA, M. A. A histeria: o caso Dora. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. FREUD, S. Carta 125. In: Obras completas, Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996. _____. Fragmentos da análise de um caso de histeria. Obras completas, Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996. _____. Projeto para uma psicologia científica. In: Obras completas, Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996. _____. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Obras completas, Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996. NASIO, J. D. A histeria: teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.