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Anemia Hemolítica Autoimune Introdução → As hemácias vivem em média 120 dias. → Nesse período percorre 200 km e enfrenta a turbulência da bomba cardíaca mais de 500 mil vezes. → As hemácias são células metabolicamente ativas e necessita de suprimento adequado de glicose para produção de energia. → Com o envelhecimento, a maioria das vias glicolíticas torna-se menos efetiva → diminuição intracelular do ATP e perde água → menor capacidade de se deformar, principalmente na microcirculação → Ocorre destruição das hemácias pelos macrófagos do sistema fagocítico mononuclear → baço → hemoglobina também é destruída e ferro é reaproveitado Anemia hemolítica autoimune: → É caracterizada pela destruição precoce das hemácias devido à fixação de imunoglobulinas (IgG, IgM ou IgA) ou complemento na superfície da membrana das hemácias. → Diminuição da meia-vida da hemácia e a medula óssea não consegue compensar essa destruição aumentada → É a 2ª citopenia mais comum, perdendo apenas para PTI (purpura trombocitopênica idiopática → produção de anticorpos contra a plaqueta) → Os sintomas iniciais são decorrentes da anemia causada pela hemólise, dos efeitos secundários do quadro hemolítico, ou da doença primária que está causando a AHAI, tais como as doenças linfoproliferativas. → Pode se apresentar assintomático ao diagnóstico (depende do grau da hemólise), sendo identificada apenas em exames laboratoriais rotineiros Diagnóstico História clínica: 1. Sintomas associados a anemia; 2. Associações com exposição ao frio; 3. Ingestão de drogas; 4. Doenças infecciosas; 5. Doenças autoimunes; 6. Doenças linfoproliferativas Manifestações clínicas determinadas por: • Taxa de hemólise (gravidade dos sintomas) • Habilidade do organismo processar os subprodutos da hemólise; • Medula óssea em responder com aumento de reticulócitos; • Capacidade aumentada de carrear oxigênio por mecanismos compensatórios (bomba cardíaca) Exame físico: • Icterícia • Febre • Esplenomegalia • Hepatomegalia • Acrocianose (cianose simétrica, indolor, persistente, causada por vasoespasmo de pequenos vasos) • Letargia • Obnubilação • Edema pulmonar • Insuficiência renal Achados de laboratório clínico: • Avaliação de lâmina de sangue periférico (esferócitos, esquisócitos, policromatofilia, eritroblastos) → grau de hemólise • Aumento dos reticulócitos (compensação da destruição) • Aumento dos níveis desidrogenase láctea • Aumento dos níveis de Bilirrubina indireta (saber se a icterícia é colestática ou não) • Diminuição dos níveis de haptoglobina’’ • Diminuição dos níveis de hemoglobina livre no plasma. • Hemoglobinúria. • Hemossidenúria. Classificação 1. AHAI anticorpo quente • Causadas por autoanticorpos quentes IgG - 60 a 70% 2. AHAI anticorpo frio • Causadas por autoanticorppos frios IgM - 20 a 30% 3. AHAI induzida por droga 4. Anemia hemolíticcca aloimune → Doença hemolítica perinatal. → Reação transfusional hemolítica → Importante diferenciar se primária ou secundária (tratar a causa também) → Sendo a clínica mais importantes que os exames laboratoriais, nessa diferenciação → Causada por anticorpos eritrocitários IgG que, em 98% dos casos, são da subclasse IgG1, de natureza policlonal, reagem contra antígenos do sistema Rh, e algumas vezes simulam o comportamento de aloanticorpos. → Embora frações do sistema complemento sejam frequentemente detectadas na superfície das hemácias, a hemólise mediada por complemento é incomum. → Etiologia do autoanticorpo: desconhecida → Coombs direto: anticorpos no sangue total → Coombs indireto: pega apenas o plasma para ver se tem anticorpo → como é um anticorpo contra hemácia nem sempre ele está presente no plasma (deve ter uma quantidade muito grande) Importante na anemia hemolítica perinatal, quando a mãe é RH negativo e o feto é RH positivo → O teste de aglutinina (coombs direto) vai ser positivo, e o indireto pode dar positivo (depende da quantidade de anticorpo) Teste de Coombs Direto ou Teste de Antiglobulina direta: • Não é específico para auto-anticorpos → não determina se é primária ou secundária • Causas primárias de CD positivo: Reações transfusionais hemolíticas agudas ou tardias. Transplantes Administração de várias terapêuticas, incluindo: Imunoglobulina intravenosa, Imunoglobulina Rh, globulina antilinfocíica, globulina antitimocítica. • Causas secundárias de CD positivo: Doença falciforme. Talassemia. Doença renal. Mieloma múltiplo. Doenças auto-imunes AIDS Doença com elevada globulina sérica Fisiopatologia e Quadro Clínico • Hemácia de vida normal: vive 120 dias → vai perdendo água e capacidade de produzir ATP → envelhece → enrijece → fagocitada pelo baço • Anemia hemolítica autoimune: hemácia com um sinal para se ligar ao anticorpo da classe IgG → se deforma → sofre hemólise parcial da sua membrana → formar um esferócito → hemolisado no baço → Em geral, a destruição eritrocitária é mediada por células do Sistema Macrófagos- Monócitos, particularmente pelos esplênicos que possuem receptores para o receptor Fc (FcγRII) das imunoglobulinas → A maioria das hemácias sensibilizadas sofre fagocitose parcial e volta à circulação após perder a forma discoide e tornar-se esferócito (pois no processo de fagocitose parcial perde mais superfície do que volume) → A destruição extravascular das hemácias favorece o desenvolvimento de palidez, icterícia, esplenomegalia e hepatomegalia. → Cerca de 80% dos pacientes com AHAI primária apresentam esplenomegalia, enquanto que a detecção de hepatomegalia isolada ou linfoadenomegalia sugere a possibilidade de doença linfoproliferativa Diagnostico • Diminuição do nível de hemoglobina Análise morfológica do sangue periférico: hemácias policromáticas, pontilhado basófilo, e esferocitose associados ao aumento do número absoluto de reticulócitos e hiperplasia do setoreritroblástico da medula óssea. • Elevação da bilirrubina não conjugada, Desidrogenase Láctica (DHL), e diminuição da haptoglobina (participa da catabolização da hemoglobina livre no plasma) • A imunofenotipagem de linfócitos do sangue periférico e da medula óssea pode ser necessária para afastar a presença de doença linfoproliferativa clonal. • Teste de coombs direto podem estar negativos em 5 a 10% dos casos. Tratamento • Tratamento inicial com corticosteroides (prednisona 1-2mg/kg/dia) reduz a hemólise em cerca de 60 a 70% dos pacientes e aumenta nível de hemoglobina em 1 a 2 semanas na maioria dos pacientes, quando então a dose deve ser progressivamente reduzida durante 30 a 120 dias seguintes, sendo que em alguns casos sua retirada completa pode levar 1 ano • Pacientes com hemólise fulminante podem se beneficiar da pulsoterapia com metilpredinisola por via endovenosa • Apenas 20% dos doentes mantém remissão após a retirada dos glicocorticoides. • É recomendada reposição de ácido fólico e profilaxia para osteoporose (complicação dos corticoides a longo prazo), com suplementação de cálcio e vitamina D aos pacientes considerados de alto risco • Osteoporose: tratamento com bifosfonados • Corticoide aumenta pressão intraocular e glicemia → glaucoma e controle glicêmico • Pacientes que não apresentam resposta satisfatória, ou permanecem dependentes de corticosteroides com efeitos colaterais, devem ser submetidos à esplenectomia (retirada do baço) • Os resultados da esplenectomia são variáveis, 60-75% dos pacientes apresentam remissão completa ou melhora clínica significativa, em pacientes com AHAI primária os resultados podem chegar a 82% • Alguns pacientes recaem e necessitam de corticoide de manutenção. A mortalidade do procedimentoé baixa; o maior efeito adverso é o risco aumentado de infecções, principalmente em crianças e em AHAI secundária. É recomendada vacinação para Haemophilus influezae tipo B, pneumococo e meningococo. • Indivíduos que não respondem à prednisona, pulsoterapia com metilprednisolona ou esplenectomia podem ser tratados alternativamente com: Danazol (200 a 800 mg/dia); Anticorpo monoclonal anti-CD20 (375 mg/m2/semana durante 4 semanas) tem sido utilizado em pacientes com AHAI refratária (primária ou secundária), com resultados promissores, devendo ser considerado em pacientes que são refratários ou que não podem ser submetidos à esplenectomia Imunossupressores: ciclofosfamida, azatioprina ou ciclosporina → Os anticorpos da classe IgM reagem melhor a frio. → A maior ação dos auto-anticorpos com o frio faz com que as áreas mais extremas e frias do organismo sejam mais acometidas. Fisiopatologia e Quadro Clínico → Sintomas são causados pela aglutinação das hemácias nas extremidades → redução do fluxo sanguíneo → diminuição da oferta de O2 aos tecidos nas extremidades → aparência cianótica característica nos dedos, nariz e orelhas → Diagnóstico de fenômeno de Raynaud pode ser erroneamente estabelecido → Raramente, a isquemia pode causar gangrena. → A hemólise que é primariamente intravascular pode causar palidez, fadiga, sinais e sintomas de insuficiência cardíaca, taquicardia e hipotensão sendo → A esplenomegalia ocorre em número muito menor de pacientes que nos casos de AHAI causada por anticorpos a quentes Diagnostico → Devem ser investigados quanto à presença de infecção recente (Mycoplasma pneumoniae, mononucleose infecciosa, HIV ou hepatite), doença linfoproliferativa, e paraproteinemia monoclonal. → Os testes laboratoriais revelam anemia com autoaglutinação espontânea, pequeno número de esferócitos, policromasia e reticulocitose. → Exame crioaglutinina: testa a hemácia no frio para ver se ela vai aglutinar (hemolisar) → As hemácias são removidas por células fagocitárias no fígado. Tratamento → Na grande maioria dos casos necessitam de transfusões sanguíneas → Tipagem ABO e provas pré-transfusionais são alteradas pela panreatividade dos autoanticorpos, e os hemocomponentes devem ser aquecidos antes do início das transfusões. → O aquecimento das extremidades dos pacientes pode também reduzir o risco de hemólise durante as transfusões → São candidatos potenciais ao tratamento com plasmaférese, embora exista risco de que os autoanticorpos possam aglutinar dentro do sistema de bolsas plásticas durante o procedimento. → O benefício clínico da plasmaférese é transitório e não proporciona respostas duradouras. → O tratamento inicial da doença também pode ser realizado com corticosteroides, porém, em geral, a evolução clínica da doença é pouco modificada com o uso desses medicamentos. → O tratamento através da esplenectomia ou com o uso de agentes alquilantes também não costuma oferecer bons resultados, embora possa prevenir a diminuição do nível da hemoglobina a valores clinicamente perigosos Tipos de AHAI frio: Doença da Aglutinina a frio • Doença rara, acomete pacientes com idade superior a 60 anos que apresentam quadro acentuado de acrocianose (cianose das periferias) • Presença de hepatoesplenomegalia ou adenopatia: concomitância de doença linfoproliferativa e gamopatia monoclonal IgM com aglutininas a frio, formadas por cadeias leves tipo kappa, que reagem contra o antígeno I das hemácias • Muitas vezes, a proteína monoclonal pode lembrar macroglobulinemia de Waldenström. • Tratamento consiste na proteção ao frio e uso de agentes alquilantes (clorambucil ou ciclofosfamida). • Nos casos secundários a linfomas não Hodgkin, o tratamento deve enfocar o controle da doença linfoproliferativa AHAI por anticorpos a frio pós-infecção • Pode ocorrer em adultos e crianças após infecção, particularmente mononucleose infecciosa (IgM, anti-i) ou Mycoplasma pneumoniae (IgM, anti-I). • Essa condição é diferenciada da AHAI causada por anticorpos a frio clássica, porque ocorre em crianças e adolescentes, devido à natureza policlonal do autoanticorpo IgM, e devido ao quadro clínico habitualmente transitório e benigno. • O tratamento é de suporte. • Caso a hemólise seja intensa e persistente, o tratamento com corticosteroides ou plasmaférese pode ser indicado Hemoglobinúria paroxística aguda a frio • Essa AHAI a frio mediada por IgG acomete frequentemente crianças com idade inferior a cinco anos, após infecção das vias aéreas superiores. • A doença é caracterizada por hemólise intravascular explosiva, com palidez, icterícia e hemoglobinúria (hemólise intensa), acompanhadas de dor abdominal, febre e sintomas gerais de gripe. • A análise do sangue periférico revela policromasia, esferocitose e eritrofagocitose. • O autoanticorpo policlonal da classe IgG é específico para o antígeno P e pode ser reconhecido pelo teste de Donath Landsteiner, no qual o sangue é resfriado para permitir a ligação do anticorpo e, então, aquecido para pesquisa da hemólise. • O tratamento é de suporte e, quando indicada pelo risco de choque circulatório, a transfusão deve ser realizada com sangue aquecido, mantendo-se o paciente também aquecido. • A doença é autolimitada e raramente há necessidade do uso de corticosteroide ou transfusão Anemia Hemolítica Induzida por Drogas: → Cerca de 3% dos pacientes que recebem altas doses de penicilina endovenosa desenvolvem TCD positivo, porém menos que 5% desses pacientes apresentam anemia hemolítica. → A droga, que funciona como hapteno, liga-se fortemente às proteínas da membrana eritrocitária, e o paciente forma anticorpos dirigidos contra a penicilina ligada às hemácias, porém sem ativação do complemento → Quando ocorre hemólise, é extravascular → Anticorpos reagem com a droga (quinidina, fenacetina, cefalosporinas de 3ª geração) → forma imunocomplexos que são adsorvidos por receptores específicos das hemácias. → Imunocomplexos podem ativar o sistema complemento → hemólise intravascular. → Hemácias recobertas apenas com frações do sistema complemento → destruídas por fagócitos no espaço extravascular → α-metildopa ou procainamida → forma autoanticorpos que reagem com antígenos eritrocitários (relacionados ao grupo Rh) → A droga interfere na função de linfócitos T supressores, permitindo que linfócitos B formem autoanticorpos eritrocitários. → Desenvolvimento de TCD positivo é dose- dependente → cerca de 35% dos pacientes que tomam 3g de α-metildopa → TCD+, comparados a 11% → 1g ao dia → TCD+ → Somente 0,5% a 1% dos pacientes que utilizam a droga rotineiramente desenvolvem anemia hemolítica. → Ao retirar a droga, a anemia hemolítica desaparece, porém alguns pacientes permanecem com TCD+ durante alguns dias após a interrupção do medicamento. → A cefalotina pode ligar-se à superfície das hemácias, em pH neutro ou alcalino, através de um mecanismo independente do grupo β-lactamato que então permanece livre para atrair várias proteínas plasmáticas (albumina, IgA, IgG, IgM, e frações do complemento) que são adsorvidas à superfície das hemácias → hemácia fica marcada e acaba sendo destruída → Aproximadamente 4% dos pacientes que recebem cefalosporinas de primeira ou segunda geração desenvolvem TCD positivo, embora os casos que evoluem para hemólise sejam raros