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Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 1 DISCIPLINA DIREITOS SOCIAIS CONTEÚDO Introdução aos Direitos Sociais Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 2 A Faculdade Focus se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). A instituição, nem os autores, assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). 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Também denominados direitos a prestação ou direitos prestacionais, são direitos de segunda dimensão que exigem uma atuação positiva do Poder Público, especialmente em relação à implementação da igualdade social. Conforme bem pontua Nathalia Masson (2020), “em nítido contaste com os direitos individuais – que, via de regra, exigem um ‘não fazer’, um ‘não agir’, um ‘não atuar’ por parte dos Poderes Públicos, criando esferas individuais de não ingerência estatal – os direitos sociais têm por conteúdo ‘um fazer’, ‘um ajudar’, ‘um contribuir’”. Neste sentido, não só complementam o catálogo de direitos individuais como também são responsáveis por propiciar uma releitura completa, produzindo alterações no sentido destes, redefinindo-os por meio da interferência que geram na esfera individual através da implementação de programas públicos que visam “amenizar as desigualdades sociais e garantir a todos o mínimo de condições de existência” (Fernandes, 2020). Para Alexandre de Moraes (2016), os direitos fundamentais do homem caracterizam “verdadeiras liberdades positivas, de observância obrigatória em um Estado Social de Direito, tendo por finalidade a melhoria de condições de vida aos hipossuficientes, visando à concretização da igualdade social”. O estudo dessa matéria é, portanto, de fundamental importância para visualizarmos a preocupação do legislador em proporcionar aos seres humanos condições para uma vida digna. 2 Dos Direitos Sociais Os direitos sociais estão salvaguardados de modo bastante genérico no art. 6º da Constituição Federal. São assim considerados a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. O direito social à moradia foi acrescentado ao texto constitucional pela EC n. 26/2000, e o direito social à alimentação, pela EC n. 64/2010. Além disso, vários desses direitos são desenvolvidos ao longo de toda a Constituição, por exemplo o direito à saúde está previsto no art. 196 e o direito à seguridade social, no art. 194. Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 5 Uma definição bastante pontual e amplamente difundida para o conceito de direitos sociais é a apresentada pelo renomado Professor José Afonso da Silva (2013), que os entende como sendo “prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se ligam ao direito de igualdade. Valem como pressupostos do gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real, o que, por sua vez, proporciona condições mais compatíveis com o exercício efetivo da liberdade”. Na esteira dessa definição, André Ramos Tavares (2020) classifica os direitos sociais em (I) direitos sociais dos trabalhadores; (II) direitos sociais da seguridade social; (III) direitos sociais de natureza econômica; (IV) direitos sociais da cultura; e (V) direitos sociais de segurança. Os primeiros compreendem as seguintes subclassificações: Figura 1 - Espécies de direitos sociais Fonte: Adaptado de TAVARES (2020) Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 6 2.1 Direitos sociais do trabalhadorOs direitos sociais relativos ao trabalhador estão previstos em rol exemplificativo nos arts. 7º ao 11, observam o princípio da igualdade entre os trabalhadores urbanos e rurais e podem ser classificados em: a) direitos que regem relações individuais de trabalho, os chamados direitos sociais individuais (art. 7º), e b) direitos exercidos no interesse da coletividade, os chamados direitos sociais coletivos dos trabalhadores (arts. 9º a 11). Uns constituem os direitos subjetivos do empregado, como os que dispõem sobre as relações individuais do trabalho (art. 7º), outros tratam da criação ou preservação de institutos especiais relacionados às normas de organização e procedimento, como o instituto do fundo de garantia por tempo de serviço e o seguro-desemprego em caso de desemprego involuntário (art. 7º, II e III), e outros tratam da livre associação profissional e sindical (art. 8º). Por meio desses e outros dispositivos, a Constituição Federal busca regular a estrutura das relações contratuais e do vínculo empregatício, conferindo destaque a situações especiais e aos efeitos gerados sobre cada situação concreta. 2.2 Direitos sociais relativos à seguridade social A seguridade social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade com o fim de assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social (art. 194). Na concepção de José Afonso da Silva (2013), “a seguridade social constitui instrumento mais eficiente da liberação das necessidades sociais, para garantir o bem- estar material, moral e espiritual de todos os indivíduos da população, devendo repousar nos seguintes princípios básicos, enunciados por José Manuel Almansa Pastor: (a) universalidade subjetiva (não só para trabalhadores e seus dependentes, mas para todos indistintamente; (b) universalidade objetiva (não só reparadora, mas preventiva do surgimento da necessidade; protetora em qualquer circunstância); (c) igualdade protetora (prestação idêntica em função das mesmas necessidades; não Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 7 distinta como na previdência: em função da quantidade da contribuição); (d) unidade de gestão (só é administrada e outorgada pelo Estado); (e) solidariedade financeira (os meios financeiros procedem de contribuições gerais, não de contribuições específicas dos segurados)”. 2.2.1 Direito à saúde O direito à saúde visa proteger um bem de extrema importância à vida humana, portanto foi elevando à condição de direito fundamental para ser garantido a todos, de igual forma, independentemente de situação econômica, e viabilizar o tratamento condigno para aqueles que estão em situação de hipossuficiência, conforme disciplina o art. 196 da CF: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” José Afonso Silva (2013), valendo-se das lições de Gomes Canotilho e Vital Moreira, explica que, como qualquer direito social, o direito à saúde também comporta duas vias: “uma, de natureza negativa, que consiste no direito a exigir do Estado (ou de terceiros) que se abstenha de qualquer acto que prejudique a saúde; outra, de natureza positiva, que significa o direito às medidas e prestações estaduais visando a prevenção das doenças e o tratamento delas". Como um direito disponível a todos, a proteção à saúde apresenta-se tanto como um direito individual quanto como um direito coletivo, de forma que impõe aos entes federados um dever de prestação positiva, “legitimando a atuação do Poder Judiciário nas hipóteses em que a Administração Pública descumpra o mandamento constitucional em apreço”. Nesta mesma perspectiva, sob o crivo do Relator Ministro Celso de Mello, o STF estabelece uma definição bastante objetiva deste direito e salienta que “o direito à saúde – além de qualificar-se como direito fundamental que assiste a todas as pessoas – representa consequência constitucional indissociável do direito à vida. O Poder Público, qualquer que seja a esfera institucional de sua atuação no plano da Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 8 organização federativa brasileira, não pode mostrar-se indiferente ao problema da saúde da população, sob pena de incidir, ainda que por omissão, em censurável comportamento inconstitucional. O direito público subjetivo à saúde traduz bem jurídico constitucionalmente tutelado, por cuja integridade deve velar, de maneira responsável, o Poder Público (federal, estadual ou municipal), a quem incumbe formular – e implementar – políticas sociais e econômicas que visem a garantir a plena consecução dos objetivos proclamados no art. 196 da Constituição da República” (STF – Rextr. nº 241.630-2/RS – Rel. Min. Celso de Mello – Diário da Justiça, Seção 1, 3 abr. 2001, p. 49). Conforme estabelece o texto constitucional, esse direito será garantido mediante políticas públicas e econômicas (que devem acompanhar a evolução da medicina e a adequada distribuição de recursos), bem como mediante ações preventivas, que visam a redução do risco e doenças e outros agravos, o que envolve, inclusive, medidas para o aprimoramento do saneamento básico, com melhorias nas redes de esgotos e acesso à água potável. A estruturação básica para a realização do direito à saúde foi instaurada pela Constituição Federal no art. 189, por meio do Sistema Único de Saúde – SUS. O legislador especifica que as ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com diretrizes que preveem a) a descentralização, com direção única em cada esfera de governo; b) o atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais; e c) a participação da comunidade. O SUS será financiado com recursos do orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes (art. 198, § 1º). Assim, após atualizações decorrentes das emendas constitucionais n. 29/2000 e n. 86/2015, o art. 198, § 2º e incisos determinou o seguinte: A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios aplicarão, anualmente, em ações e serviços públicos de saúde recursos mínimos derivados da aplicação de percentuais calculados sobre: (I) no caso da União, a receita corrente líquida do respectivo exercício financeiro, não podendo ser inferior a 15% (quinze por cento); (II) no caso dos Estados e do Distrito Federal, o produto da arrecadação dos impostos a que se refere o art. 155 e dos recursos de que tratam Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 9 os arts. 157 e 159, inciso I, alínea a, e inciso II, deduzidas as parcelas que forem transferidas aos respectivos Municípios; (III) no caso dos Municípios e do Distrito Federal, o produto da arrecadação dos impostos a que se refere o art. 156 e dos recursos de que tratam os arts. 158 e 159, inciso I, alínea b e § 3º. Os percentuais de que tratam os incisos II e III do § 2º, relativos à contribuição dos Estados, Distrito Federal e Municípios, bem como os critérios de rateio dos recursos da União vinculados à saúde destinados aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, e dos Estados destinados a seus respectivos Municípios, objetivando a progressiva redução das disparidades regionais e as normas de fiscalização, avaliação e controle das despesas com saúde nas esferas federal, estadual, distrital e municipal serão disciplinados em lei complementar, a qual deverá ser reavaliada pelo menos a cada cinco anos. 2.2.2 Direito à assistência social O direito à assistência social estáexpresso no art. 203 da CF, devendo ser prestado a quem dele necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social. Os objetivos da assistência social encerram: ▪ A proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; ▪ o amparo às crianças e adolescentes carentes; ▪ a promoção da integração ao mercado de trabalho; ▪ a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; ▪ a garantia de um salário-mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. O art. 204 da CF destaca como característica da seguridade social a solidariedade financeira, sob o pressuposto de que as ações governamentais nesta área serão realizadas com recursos provenientes do orçamento geral da seguridade social, além de outras fontes, que não contribuições específicas de seus destinatários. Segundo José Afonso Silva (2013), “é aí que se situa ‘a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados’ que o art. 6º destacou como um tipo de direito social, Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 10 sem guardar adequada harmonia com os arts. 194 e 203, que revelam como direito social relativo à seguridade o inteiro instituto da assistência social, que compreende vários objetos e não só aquele mencionado no art. 6º”, tendo em vista a Lei n. 8.742/93 (Lei Orgânica da Assistência Social), que a descreve como uma política de assistência social não contributiva, que prevê os mínimos necessários para garantir o atendimento às necessidades básicas. 2.2.3 Direito à previdência social Desenvolvida nos arts. 201 e 202 da Constituição Federal, a previdência social abrange um conjunto de direitos relativos à seguridade social. É organizada sob a forma do Regime Geral de Previdência Social, de caráter contributivo e de filiação obrigatória, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, devendo atender, na forma da lei, com benefícios e prestações assistenciais, sendo: a) benefícios assistenciais ▪ cobertura dos eventos de incapacidade temporária ou permanente para o trabalho e idade avançada; ▪ proteção à maternidade, especialmente à gestante; ▪ proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário; ▪ salário-família e auxílio-reclusão para os dependentes dos segurados de baixa renda; ▪ pensão por morte do segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou companheiro e dependentes, observado o disposto no § 2º. b) serviços que são prestações assistenciais ▪ médico; ▪ hospitalar; ▪ odontológico; ▪ farmacêutico; ▪ social e de reeducação ou readaptação funcional. Conforme aponta José Afonso da Silva (2013), os princípios e objetivos elencados nos arts. 201 e 202 “fundam-se no princípio do seguro social, de sorte que os benefícios e serviços se destinam a cobrir eventos de doença, invalidez, morte, velhice e reclusão, apenas do segurado e seus dependes. Isso quer dizer que a base de cobertura assenta Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 11 no fator contribuição e em favor do contribuinte e dos seus”. 2.3 Direitos sociais relativos à cultura e educação Encontram-se dispersas ao longo da Constituição Federal várias normas e disposições que têm alguma relação com os direitos sociais relativos à cultura e à educação, porém destacam-se aquelas previstas nos arts. 205 a 217 (Capítulo III da CF). Na definição de José Afonso da Silva, o termo cultura é tomado “em sentido abrangente da formação educacional do povo, expressão criadora da pessoa e das projeções do espírito humano materializadas em suportes expressivos, portadores de referências à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”. Ou seja, os direitos culturais encontram-se também regidos pelo princípio da universalidade, conforme dispõe o art. 215 da CF: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”. São apontados como direitos culturais reconhecidos na Constituição: ▪ o direito de criação cultural; ▪ o direito de acesso às fontes de cultura nacional; ▪ o direito de difusão da cultura; ▪ a liberdade de expressão cultural; ▪ a liberdade de manifestações culturais; ▪ o direito-dever estatal de formação e proteção do patrimônio cultural. Quanto a este último, o legislador preocupou-se em discorrer sobre a natureza do patrimônio cultural brasileiro, compreendido como “bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 12 paleontológico, ecológico e científico” (art. 216, CF). Além dos arts. 215 e 216, outras providências relacionadas ao direito à cultura estão dispersas ao longo do texto constitucional, a exemplo do art. 5º, IX, que prevê a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; do art. 23. III a V, que deliberam sobre a competência comum da União, Estados, Distrito Federal e Municípios quanto à proteção e o acesso à documentos e bens de valor histórico, artístico e cultural; e do art. 24, VIII ao IX, sobre a competência dos entes federados de legislar concorrentemente sobre responsabilidade por danos ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico, e sobre a educação, cultura, ensino, desporto, ciência, tecnologia, pesquisa, desenvolvimento e inovação. Quanto ao direito à educação, é de tal forma considerado essencial para a construção de um patamar mínimo de dignidade da pessoa humana que a Constituição Federal prevê, em seu art. 205, que a educação, como um direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com vistas ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Conforme destaca Gilmar Ferreira Mendes (2021), “no Brasil, em razão do histórico descaso do estado no que diz respeito ao oferecimento de uma rede educacional extensa e de qualidade, ocorreu a marginalização de amplos setores da sociedade, prejudicando, inclusive a concretização de outros direitos fundamentais”. Assim, os autores defendem a importância do papel desempenhado por uma educação de qualidade no alcance à eficácia dos direitos políticos cidadãos, em especial no que tange aos instrumentos de participação direta, “isso porque falhas na formação intelectual da população inibem sua participação no processo político e impedem o aprofundamento da democracia”. São, portanto, destacados como objetivos básicos da educação o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, devendo esta ser promovida e incentivada com a Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 13 colaboração da sociedade. Por outro lado, a concretização desses objetivos se dará mediante alguns princípios norteadores que foram estipulados para a efetivação desse direito, quais sejam: universalidade; igualdade de condições para o acesso e permanênciana escola; liberdade; pluralismo de ideias e concepções pedagógicas; gratuidade do ensino público; valorização dos profissionais da área; gestão democrática da escola e padrão de qualidade (art. 206, I ao IX). Ademais, o art. 211 descreve como os entes federados deverão atuar na área da educação, organizando em regime de colaboração seus sistemas de ensino, ficando incumbidos Estados e Distrito Federal de atuarem prioritariamente no ensino fundamental e médio (art. 211, § 3º), os Municípios de atuarem no ensino fundamental e na educação infantil (art. 211, § 2º), e a União de organizar o sistema federal de ensino e o dos Territórios, financiar as instituições de ensino públicas federais e exercer, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios (art. 211, § 1º). Além disso, ficam asseguradas: a garantia de educação básica obrigatória e gratuita dos quatro aos dezessete anos de idade, inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; a progressiva universalização do ensino médio gratuito; o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até cinco anos de idade; acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; a oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando; e o atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. 2.4 Direitos social à moradia O direito social à moradia está previsto no art. 6º da Constituição Federal, passou a integrar o rol dos direitos sociais por meio da Emenda Constitucional n. 26, de 14 de Direitos Sociais | Dos Direitos Sociais www.cenes.com.br | 14 fevereiro de 2000, com a seguinte redação: “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. Assim, institui-se como competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios a promoção de programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico (art. 23, IX). José Afonso da Silva (2013) esclarece que embora o direito à moradia não signifique, necessariamente, direito à casa própria, “quer-se que se garanta a todos um teto onde se abrigue com a família de modo permanente, segundo a própria etimologia do verbo morar, do latim "morari", que significava “demorar, ficar” envolvendo, portanto, uma habitação digna e adequada, que satisfaça o critério de necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família (art. 7º, IV). Isso implica certas dimensões que possibilitem a observância dos “princípios fundamentais da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III), assim como o direito à intimidade e à privacidade (art. 5º, X), e que a casa é um asilo inviolável (art. 5º, XI)”. Segundo Gilmar Ferreira Mendes (2021), “como direito fundamental, o direito à moradia possui tanto natureza negativa quanto positiva. Em relação à natureza negativa, ou seja, direito de defesa, o direito à moradia impede o indivíduo de ser arbitrariamente privado de possuir uma moradia digna. Merece destaque, nesse aspecto, a proibição de penhora do chamado bem de família (Lei n. 8.009/99)”. Quanto à natureza positiva deste direito, apresenta-se, por sua vez, em “prestações fáticas e normativas que se traduzem em medidas de proteção de caráter organizatório e procedimental”, além de outros estatutos que visam a proteção ao direito, como o Estatuto da Cidade (Lei n. 10.257/2001), que regulamenta os arts. 182 e 183 da CF e estabelece diretrizes gerais da política urbana e, portanto, institui instrumentos que visam a concretização do direito à moradia, além do instituto chamado “usucapião familiar”, previsto no art. 1.240-A do Código Civil. 2.5 Direito social à alimentação O direito à alimentação foi inserido no rol dos direitos sociais do art. 6º pela Emenda Direitos Sociais | Dos princípios norteadores de proteção aos direitos sociais www.cenes.com.br | 15 Constitucional n. 64/2010, após uma campanha realizada pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional que defendia que essa inclusão, além de alinhar-se a diversos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, fortaleceria o conjunto de políticas públicas de segurança alimentar. Para Gilmar Ferreira Mendes (2021), é importante, contudo, diferenciar o direito à alimentação do direito a ser alimentado. “O primeiro, previsto em nosso texto constitucional, consiste no ‘direito a alimentar-se de forma digna, id est, espera-se que os cidadãos satisfaçam suas próprias necessidades com seu próprio esforço, bem assim utilizando seus meios disponíveis’. Trata-se, portanto, de conceito distinto do direito a ser alimentado, segundo o qual compete ao Estado entregar alimentos de forma gratuita aos que deles necessitam”. Conforme prenuncia o art. 2º da Lei n. 11.346/2006 (Lei que institui o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – SISAN), “A alimentação adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal, devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população”. 3 Dos princípios norteadores de proteção aos direitos sociais Os princípios que norteiam a proteção dos direitos sociais são o do mínimo existencial e o da reserva do possível. Em síntese, esses princípios constituem duas formas distintas de conduzir as escolhas alocativas referentes aos custos econômicos, frente a escassez de recursos que custeiam a efetivação dos direitos sociais. Enquanto a primeira entende como sendo direito do cidadão o acesso ao mínimo previsto como direito social pela Constituição, a segunda compreende a existência de uma limitação de gastos, defendendo os interesses do Estado e pontuando que nem tudo aquilo que está na Constituição será concretizado para toda a população. Dentre os direitos mais discutidos em face dessas teorias estão: ▪ o acesso à saúde, muito abordado em questões relativas a medicamentos. Direitos Sociais | Dos princípios norteadores de proteção aos direitos sociais www.cenes.com.br | 16 ▪ o acesso à educação, muito abordado em questões relativas às creches. ▪ o acesso à segurança, muito abordado em questões relativas à superlotação dos presídios. Figura 2 – Mínimo Existencial vs. Reserva do Possível. Fonte: Núcleo Editorial Focus. 3.1 Mínimo Existencial Luiz Roberto Barroso (2020) explica que o conceito de mínimo existencial “expressa o conjunto de condições materiais essenciais e elementares cuja presença é pressuposto da dignidade para qualquer pessoa. Se alguém viver abaixo daquele patamar, o mandamento constitucional estará sendo desrespeitado”. Na mesma linha, Flavia Bahia (2017) adota a definição de Ana Paula de Barcellos afirmando que o mínimo existencial “corresponderia ao conjunto de situações materiais indispensáveis à existência humana digna, considerada não apenas como experiência física – sobrevivência e manutenção do corpo – mas também espiritual e intelectual, aspectos fundamentais de um Estado Democrático de Direito. Assim Direitos Sociais | Dos princípios norteadores de proteção aosdireitos sociais www.cenes.com.br | 17 sendo, a violação desse mínimo acarretaria desrespeito à própria dignidade e as condições mínimas que devem ser asseguradas à vida de todos descreveriam o mesmo fenômeno”. Dessa forma, Bernardo Gonçalves Fernandes (2020) esclarece que o princípio do mínimo existencial demandaria a implementação e garantia de um piso mínimo de direitos para que então fosse possível o usufruto dos direitos e liberdade (direitos individuais) que estão voltados para o atendimento de necessidades básicas do ser humano. Conforme explica o autor, alguns pensadores relacionam as necessidades básicas àquelas voltadas para a educação, alimentação, saúde, moradia etc., outros, ao conteúdo relativo à tese do mínimo existencial, o qual “não poderia ser definido a priori sem que fosse levado em conta uma situação concreta e específica (contextualizada)”. Seja como for, Fernandes (2017) afirma, com base no estudo de Daniel Sarmento (2010), que o exercício do direito ao mínimo existencial trabalha com duas dimensões: uma negativa, em que “o mínimo existencial opera como um limite, impedindo a prática de atos pelo Estado ou por particulares que subtraiam do indivíduo as condições materiais indispensáveis a uma vida digna”; e uma positiva, que “diz respeito a um conjunto essencial (mínimo) de direitos prestacionais a serem implementados e concretizados que possibilitam aos indivíduos uma vida digna”. 3.2 Reserva do Possível Segundo Nathalia Masson (2020), a efetivação dos direitos positivados na Constituição Federal, em especial dos direitos sociais, acarreta gastos econômicos em razão das obrigações prestacionais que trazem para o Estado, que podem ser muito custosas principalmente quando envolvem a construção de instituições públicas (sistema educacional, sistema de saúde etc.). Assim, explica que uma possível justificativa para se alegar a cláusula da reserva do possível seria “o reconhecimento da estreita e inequívoca ligação entre a realização dos direitos fundamentais sociais e a realidade financeira e econômica do Estado”. Ao aceitar a escassez dos recursos financeiros e a amplitude das necessidades sociais, é possível compreender o Estado na sua tarefa de definir prioridades e determinar suas políticas públicas de alocação Direitos Sociais | Dos princípios norteadores de proteção aos direitos sociais www.cenes.com.br | 18 das verbas existentes. Neste sentido, Gilmar Ferreira Mendes (2021) afirma que “enquanto o Estado tem que dispor de um valor determinado para arcar com o aparato capaz de garantir a liberdade dos cidadãos universalmente, no caso de um direito social como a saúde, por outro lado, deve dispor de valores variáveis em função das necessidades individuais de cada cidadão. Gastar mais recursos com uns do que com outros envolve, portanto, a adoção de critérios distributivos para esses recursos”. Neste sentido, e especialmente em períodos de recessão, o Estado poderá limitar a função de garantir os direitos sociais em razão de restrições orçamentárias. A escolha pela alocação de recursos leva diversos fatores em consideração e seguem critérios diversos, tais como o número de cidadãos atingidos pela política, a maximização de resultados, e efetividade do serviço a ser prestado, entre outros. 3.3 Reserva do possível ou mínimo existencial Para cada situação há um embate entre uma visão pautada no mínimo existencial e outra baseada na reserva do possível. No entanto não se pode dizer que a aplicação de uma ou outra estará sempre certa ou errada, o que torna o resultado relativo, uma vez que cabe ao juiz julgar em prol de uma ou outra visão. Segundo Gilmar Ferreira Mendes (2021), algumas pessoas defendem, especialmente em relação ao direito à saúde ou à educação, que por serem indispensáveis para a dignidade da pessoa humana, pelo menos o mínimo existencial desses direitos não poderia deixar de ser objeto de apreciação judicial. “Isso porque, apesar da realidade da escassez de recursos para o financiamento de políticas públicas de redução de desigualdades, seria possível estabelecer prioridades entre as diversas metas a atingir, racionalizando a sua utilização, a partir da ideia de que determinados gastos, de menor premência social, podem ser diferidos, em favor de outros, reputados indispensáveis e urgentes, quando mais não seja por força do princípio da dignidade da pessoa humana, que, sendo o valor-fonte dos demais valores, está acima de quaisquer outros, acaso positivados nos textos constitucionais”. Caberia, assim, ao Poder Judiciário decidir e especificar como as prestações seriam realizadas na garantia dos direitos fundamentais sociais. Direitos Sociais | Dos princípios norteadores de proteção aos direitos sociais www.cenes.com.br | 19 Contudo, Luís Roberto Barroso (2020) explica que “a dissociação dos direitos fundamentais em categorias diversas – individuais, políticos e sociais – tem sido crescentemente questionada. Em primeiro lugar, porque sua interdependência e relativa indivisibilidade tem se tornado crescentemente enfatizada, sendo difícil conceber, por exemplo, o exercício pleno do direito de voto, da liberdade de expressão ou mesmo de profissão sem acesso à educação e a outros elementos essenciais para a vida digna. De parte isso, também vai sendo progressivamente superada a crença de que somente os direitos sociais envolvem custos e ações positivas por parte do Estado. Na verdade, não é bem assim. No que diz respeito aos direitos políticos, a realização de eleições periódicas e a manutenção da Justiça Eleitoral, por exemplo, custam alguns bilhões anuais ao país. Da mesma forma, a proteção dos direitos individuais também demanda relevante quantidade de recursos, com a manutenção de estruturas complexas como o Poder Judiciário, a Polícia ou o Corpo de Bombeiros. Vale dizer: tudo custa dinheiro e, portanto, no fundo, tudo consiste em escolhas políticas ou ideológicas”. Na sequência estão relacionado alguns exemplos de situações hipotéticas que seriam determinadas em razão de um ou outro princípio: Exemplo 1 – Saúde: Anderson está passando pelo tratamento de um câncer, para o qual precisa tomar um comprimido a cada semana, cujo preço unitário é de R$ 800,00. Por não ter condições de pagar pelo tratamento, Anderson recorre à justiça, entrando com uma ação baseada na teoria do Mínimo Existencial, alegando que é seu direito ter acesso à saúde, e exigindo que o Estado pague o seu tratamento. Exemplo 2 – Educação: Reginaldo tornou-se um pai solteiro após o falecimento de sua esposa devido a complicações no parto. Cuidar de seu filho, o pequeno Júnior, nunca fora um problema: Reginaldo até então sempre conseguira conciliar o trabalho com as horas de cuidado para com o filho. Quando Júnior completa 4 anos, Reginaldo decide colocá-lo na creche. No entanto, sua tentativa não foi muito satisfatória: Reginaldo recebeu a notícia de que não seria possível levar seu filho à creche por falta de vagas. Amparado pela Constituição, que lhe garante o acesso à educação, e baseado na teoria do Mínimo Existencial, Reginaldo então recorre à justiça, alegando ser um direito seu o acesso à vaga na creche. Exemplo 3 – Segurança: Um dos presídios em uma cidade do interior sofria recorrentemente com problemas de superlotação. Frente a tais situações, o poder Direitos Sociais | Conclusão www.cenes.com.br | 20 Judiciário age, enviando uma solicitação ao poder Executivo, para que este tomasse as devidas providências, expandindo o presídio. Frente à solicitação, o poder Executivo decide por manter-se em silêncio, optando por não solucionar o problema. Obtendo tal reação, o poder Judiciário toma a frente e decide agir, fechando o presídio e transferindo os presos, até que as mudanças necessárias sejam feitas. 4 Conclusão Nesta unidade, falamossobre os direitos sociais dispostos no art. 6º da Constituição Federal, também denominados direitos prestacionais, considerados direitos de segunda dimensão, que exigem uma atuação positiva do Poder público e visam a melhoria das condições de vida dos indivíduos e a concretização da igualdade social. Classificamos esses direitos em direitos sociais do trabalhador, direitos sociais relativos à seguridade social, direitos sociais de natureza econômica e direitos sociais relativos à cultura e educação, subdividindo-os de acordo com as disposições constitucionais. Além disso, vimos que a efetivação desses direitos pode ser conduzida mediante dois prismas distintos, o do mínimo existencial e o da reserva do possível, e que cabe ao Poder Público decidir e especificar como as prestações serão realizadas para a garantia desses direitos. 5 Referências Bibliográficas BAHIA, Flavia. Direito Constitucional. – 3. ed. – Recife: Armador, 2017. BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. – 9. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. – 12. ed. – Salvador: Ed. JusPODIVM, 2020. MASSON, Nathalia. Manual de direito constitucional. – 8. ed. – Salvador: JusPODIVM, 2020. MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. – 16. ed. – São Paulo: Educação, 2021. Direitos Sociais | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 21 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. – 33. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 95, de 15 de dezembro de 2016. São Paulo: Atlas, 2017. SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. – 37. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 76, de 28 de novembro de 2013. São Paulo: Malheiros Editores. 2013. TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. – 18. ed. – São Paulo: Saraiva Educação. 2020. Direitos Sociais | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 22 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 1 DISCIPLINA DIREITOS SOCIAIS CONTEÚDO Direitos Sociais Individuais Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 2 A Faculdade Focus se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). A instituição, nem os autores, assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). Atualizações e erratas: este material é disponibilizado na forma como se apresenta na data de publicação. Atualizações são definidas a critério exclusivo da Faculdade Focus, sob análise da direção pedagógica e de revisão técnica, sendo as erratas disponibilizadas na área do aluno do site www.faculdadefocus.com.br. É missão desta instituição oferecer ao acadêmico uma obra sem a incidência de erros técnicos ou disparidades de conteúdo. Caso ocorra alguma incorreção, solicitamos que, atenciosamente, colabore enviando críticas e sugestões, por meio do setor de atendimento através do e-mail secretaria.ff@faculdadefocus.com.br. © 2021, by Faculdade Focus Rua Maranhão, 924 - Ed. Coliseo - Centro Cascavel - PR, 85801-050 Tel: (45) 3040-1010 www.faculdadefocus.com.br Este documento possui recursos de interatividade através da navegação por marcadores. Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. http://www.faculdadefocus.com.br/ mailto:secretaria.ff@faculdadefocus.com.br. http://www.faculdadefocus.com.br/ Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 3 Sumário Sumário ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 3 1 Introdução --------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 2 Direitos Sociais Individuais ------------------------------------------------------------------------------ 5 2.1 Educação ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 5 2.1.1 Princípios norteadores da educação ------------------------------------------------------------------------------------------- 5 2.1.2 Direito à educação estendido ao ensino superior -------------------------------------------------------------------------- 7 2.1.3 Diplomas normativos --------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 7 2.1.4 Financiamento da educação ------------------------------------------------------------------------------------------------------ 7 2.2 Saúde ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 8 2.2.1 Princípios norteadores da saúde ------------------------------------------------------------------------------------------------ 8 2.2.2 Agentes comunitários de saúde e de combate às endemias ------------------------------------------------------------ 9 2.2.3 Assistência à saúde na iniciativa privada -------------------------------------------------------------------------------------- 9 2.2.4 Financiamento da saúde ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- 9 2.3 Alimentação ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 10 2.4 Transporte --------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 11 2.5 Previdência Social ------------------------------------------------------------------------------------------------------ 12 2.5.1 Do benefício ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 14 2.5.2 Dispositivos legais ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 14 2.5.3 Proteção à maternidade e à infância ----------------------------------------------------------------------------------------- 15 2.6 Assistência aos desamparados ------------------------------------------------------------------------------------- 16 2.7 Direitos individuais dos trabalhadores --------------------------------------------------------------------------- 17 2.7.1 Direitos dos trabalhadores urbanos e rurais ------------------------------------------------------------------------------- 18 2.7.2 Direitos sociais individuais dos trabalhadores domésticos------------------------------------------------------------- 20 3 Conclusão --------------------------------------------------------------------------------------------------- 21 4 Referências Bibliográficas ------------------------------------------------------------------------------ 22 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 4 1 Introdução Os Direitos Sociais integram o Capítulo II do Título II da Constituição Federal. Também denominados direitos a prestação ou direitos prestacionais, como direitos de segunda dimensão, exigem uma atuação positiva do Poder Público, especialmente em relação à implementação da igualdade social, influenciando, também, no significado dos direitos individuais à medida em que, por seu intermédio, o Estadointerfere na esfera individual a fim de combater as desigualdades sociais e propiciar a todos o mínimo de condições existenciais. Segundo o ilustre Professor José Afonso da Silva, “os direitos sociais constituem formas de tutela pessoal”, disciplinando situações subjetivas de caráter concreto, sejam elas pessoais ou grupais. Na definição mais precisa do autor, “os direitos sociais, como dimensão dos direitos fundamentais do homem, são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais”. André Ramos Tavares (2020) engloba os direitos sociais em quatro categorias, sendo elas: direitos do trabalhador, direitos da seguridade social, direitos de natureza econômica e direitos de cultura. Já José Afonso Silva (2013) classifica-os em direitos sociais do homem produtor (art. 7º) e direitos sociais do homem consumidor (art. 6º). Os direitos do homem consumidor seriam aqueles relativos “à saúde, à segurança social (segurança material), ao desenvolvimento intelectual, ao igual acesso das crianças e adultos à instrução, à formação profissional e à cultura e garantia ao desenvolvimento da família”. Por outro lado, estariam englobados nos direitos sociais do homem produtor “a liberdade de instituição sindical (instrumento de ação coletiva), o direito de greve, o direito de o trabalhador determinar as condições de seu trabalho (contrato coletivo de trabalho), o direito de cooperar na gestão da empresa (cogestão e autogestão) e o direito de obter um emprego”. Outra classificação organiza esses direitos em direitos sociais individuais e direitos sociais coletivos, tendo em vista que grande parte dos direitos e garantias arrolados nos arts. 6º ao 11, denominados direitos e garantias sociais pela Constituição Federal, são de índole individual, pois referem-se a indivíduos determinados e podem por eles Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 5 ser invocados. Assim, a maioria dos direitos e garantias voltados ao trabalhador (previstos no art. 7º) são estudados como direitos sociais individuais, uma vez que regem as relações individuais de trabalho. Tanto o são que, defendem Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino (2017), deveriam ser considerados cláusulas pétreas, sem maiores controvérsias, apesar de não haver unanimidade doutrinária a respeito do tema. Em contrapartida, são direitos e garantias sociais considerados coletivos aqueles cuja prestação não pode ser exigida por uma dada pessoa, tais como o direito ao lazer, ao trabalho, à greve, e aqueles exercidos no interesse da coletividade, como de associação profissional ou sindical, de greve, de representação classista etc., previstos nos arts. 8º ao 11. 2 Direitos Sociais Individuais São considerados direitos sociais individuais aqueles que podem ser traduzidos em prestações específicas, passíveis de serem exigidas por dada pessoa ou referíveis a indivíduos determinados (PAULO; ALEXANDRINO, 2017). Dessa forma, enquadram-se nessa categoria, dentre outros, o direito à educação, à saúde, à alimentação, ao transporte, à previdência social, à prestação à maternidade e à infância e à assistência aos desamparados, previstos no art. 6º da CF, bem como todos os direitos sociais individuais dos trabalhadores previstos no art. 7º. 2.1 Educação O direito à educação é considerado um dos direitos sociais de maior relevância na Constituição Federal por possibilitar a plena fruição dos demais direitos. Como todo direito social, este também “obriga o Estado a oferecer o acesso a todos os interessados, especialmente àqueles que não possam custear uma educação particular. Os direitos sociais ocupam-se, prioritariamente, dentro do universo de cidadãos do Estado, daqueles mais carentes” (TAVARES, 2021). 2.1.1 Princípios norteadores da educação Com previsão nos arts. 205 ao 214 da CF, a educação é um direito concedido a todos e ao mesmo tempo um dever do Estado e da família, devendo ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento da Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 6 pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Os princípios norteadores sobre os quais se pautará são: ▪ a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; ▪ liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; ▪ o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; ▪ gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; ▪ valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas; ▪ gestão democrática do ensino público, na forma da lei; ▪ garantia de padrão de qualidade. ▪ piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal. ▪ garantia do direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida. Conforme prevê o art. 208, o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: educação básica obrigatória e gratuita dos quatro aos dezessete anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; progressiva universalização do ensino médio gratuito; atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; educação infantil, em creche e pré- escola, às crianças até cinco anos de idade; acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando; atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. No caso de descumprimento da garantia de educação básica obrigatória e gratuita dos quatro aos dezessete anos de idade, “o seu titular pode exigir judicialmente que o Estado seja obrigado, por meio de procedimento judicial, a proporcionar gozo desse direito, sob pena de caracterização de inconstitucionalidade por omissão” (FERNANDES, 2020). Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 7 2.1.2 Direito à educação estendido ao ensino superior O direito à educação alcança também o ensino superior, cuja prestação coincide, conforme aponta Fernandes (2020), à proteção constitucional à liberdade de escolha profissional prevista no art. 5º, XIII da CF. No intuito de garantir o acesso ao ensino superior de forma igualitária, implementou-se, inclusive, o instituto das cotas (Lei n. 12.711/2012), segundo o qual serão reservados no mínimo 50% das vagas em concurso seletivo para o ingresso em instituições federais de educação superior vinculadas ao Ministério da Educação, de estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. 2.1.3 Diplomas normativos Outros diplomas normativos importantes que disciplinam sobre a matéria da educação são: o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/90), a Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional (Lei n. 9.394/96) e a Lei que criou o Conselho Nacional de Educação – CNE (Lei n. 9.131/95). 2.1.4 Financiamento da educação A Constituição Federal fixou, em seu art. 212, um mínimo de recursos financeiros que devem ser aplicados à educação para fins de manutenção e desenvolvimento do ensino. A União aplicará, anualmente, nunca menos de 18%, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios,no mínimo, 25% da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências. Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino ressaltam que “a aplicação desses percentuais constitucionalmente previstos na área da educação constitui princípio sensível da ordem federativa (CF, art. 34, VII, “e”), cuja inobservância pelo estado ou Distrito Federal autoriza a intervenção federal, a partir de representação do Procurador-Geral da República perante o Supremo Tribunal Federal (CF, art. 36, III)”. Alinhado a isso, o § 5º do art. 212 da CF prevê uma fonte adicional de financiamento ao ensino por meio de contribuição social do salário-educação, cuja arrecadação é regulamentada pelo Decreto n. 6.003/2006. Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 8 2.2 Saúde De acordo com Bernardo Gonçalves Fernandes (2020), o direito à saúde está diretamente relacionado ao direito à vida e seu conceito primário se dá a partir do que consta no preâmbulo da Constituição da Organização Mundial, como o estado completo de bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doenças ou enfermidades. Para além disso, a Lei Orgânica da Saúde (Lei n. 8.08/90) relaciona a este conceito um “conjunto de ações públicas que assegurem uma vida diga e a autonomia dos sujeitos beneficiários. Por isso mesmo, fala-se em medidas de saúde preventiva e medidas de saúde curativa”. 2.2.1 Princípios norteadores da saúde O direito à saúde está previsto no art. 6 e disciplinado nos arts. 196 ao 200 da CF, trata-se de um dos pilares da seguridade social, como um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Cabe ao Poder Público dispor sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, nos termos da lei, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado. Este direito se organiza pelo princípio da integralidade e universalidade, atingindo a todas as pessoas em território brasileiro, sob um conjunto de ações e serviços que integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem o Sistema Único de Saúde, organizado de acordo com as seguintes diretrizes: I. Descentralização, com direção única em cada esfera do governo; II. Atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais; III. Participação da comunidade. Diante disso, afirmam Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino que “o Supremo Tribunal Federal já deixou assente que viola a Carta de 1988, em razão do conteúdo do seu art. 196 - especialmente da asserção de que as políticas públicas na área da saúde devem Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 9 visar "ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação" -, a possibilidade de um paciente do Sistema Único de Saúde (SUS) pagar para ter acomodações superiores ou ser atendido por médico de sua preferência - a chamada ‘diferença de classes’. Em sua decisão, prolatada na sistemática da repercussão geral, nossa Corte Suprema fixou a tese de que ‘é constitucional a regra que veda, no âmbito do Sistema Único de Saúde, a internação em acomodações superiores, bem como o atendimento diferenciado por médico do próprio Sistema Único de Saúde, ou por médico conveniado, mediante o pagamento da diferença dos valores correspondentes’” RE 581.488/RS, rel. Min. Dias Toffoli, 03.12.2015 (Informativo 810 do STF). 2.2.2 Agentes comunitários de saúde e de combate às endemias A Constituição Federal estabelece no art. 198, § 4º que os gestores locais do sistema único de saúde poderão admitir agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias por meio de processo seletivo público, de acordo com a natureza e complexidade de suas atribuições e requisitos específicos para sua atuação no intuito de aumentar a eficiência na prestação às comunidades de serviços de saúde e combate às endemias. Com isso, prevê uma exceção à exigência de concurso público para admissão de pessoal previsto no art. 37, II, CF. 2.2.3 Assistência à saúde na iniciativa privada De acordo com o art. 199 da CF, a assistência à saúde é livre à iniciativa privada, sendo permitido às instituições privadas participar de forma complementar no sistema único de saúde mediante contrato de direito público ou convênio. Neste caso, terão preferência as entidades filantrópicas e as sem fins lucrativos. Às instituições privadas com fins lucrativos fica vedada a destinação de recursos públicos para auxílios ou subvenções. Além disso, salvo nos casos previstos em lei, a participação direta ou indireta de empresas ou capitais estrangeiros na assistência à saúde no País é vedada. 2.2.4 Financiamento da saúde Com a Emenda Constitucional n. 29/2000, determinou-se que o financiamento do Sistema Único de Saúde se dará, nos termos do art. 195, com recursos do orçamento Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 10 da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes. Conforme consta no § 2º do art. 198, serão aplicados, anualmente, em ações e serviços públicos de saúde recursos mínimos derivados da aplicação de percentuais da receita da União, dos Estados, Distrito Federal e Municípios. No caso da União, incidirá um percentual não inferior a quinze por cento sobre a receita correte líquida do respectivo exercício financeiro. No caso dos Estados, Distrito Federal e Municípios os recursos a serem aplicados advirão de percentuais estabelecidos em lei complementar, incidentes sobre o produto da arrecadação de tributos e de transferências tributárias recebidas dos entes federativos de maior nível e constitucionalmente previstas. 2.3 Alimentação A Emenda Constitucional n. 64 de fevereiro de 2010 alterou o art. 6º da Constituição Federal introduzindo a alimentação ao rol de direitos sociais e integrando-a, nas palavras de Gilmar Ferreira Mendes, ao núcleo intangível da dignidade humana: o mínimo existencial. Segundo Pedro Lenza (2021), “antes mesmo da EC n. 64/2010, que introduziu o direito à alimentação como direito social, a Lei n. 11.346/2006, regulamentada pelo Dec. n. 7.272/2010, já havia criado o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional — SISAN com vistas a assegurar o direito humano à alimentação adequada”, por meio do qual o poder público, com a participação da sociedade civil organizada, haveria de formular e implementar políticas, planos, programas e ações voltadas para garantia desse direito. Na mesma esteira, Gilmar Ferreira Mendes (2021), ao retomar Ingo Sarlet, esclarece que “esse direito já estava materialmente presente em nossa Constituição antes da Emenda Constitucional n. 64/2010, como decorrente do seu regime e de seus princípios. Ademais, o direito à alimentação também estava previsto no art. 7º, IV, ao lado de educação, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social como elemento das ‘necessidades vitais básicas’ que integram o salário-mínimo”. Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 11 Conforme prevê o art. 2º da Lei n. 11.346/2006, a alimentação adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal, devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população. A segurança alimentar, por sua vez, está disciplinada no art. 4º da mesma lei e deverá abranger: I. a ampliaçãodas condições de acesso aos alimentos por meio da produção, em especial da agricultura tradicional e familiar, do processamento, da industrialização, da comercialização, incluindo-se os acordos internacionais, do abastecimento e da distribuição de alimentos, incluindo-se a água, bem como das medidas que mitiguem o risco de escassez de água potável, da geração de emprego e da redistribuição da renda; II. a conservação da biodiversidade e a utilização sustentável dos recursos; III. a promoção da saúde, da nutrição e da alimentação da população, incluindo- se grupos populacionais específicos e populações em situação de vulnerabilidade social; IV. a garantia da qualidade biológica, sanitária, nutricional e tecnológica dos alimentos, bem como seu aproveitamento, estimulando práticas alimentares e estilos de vida saudáveis que respeitem a diversidade étnica e racial e cultural da população; V. a produção de conhecimento e o acesso à informação; VI. a implementação de políticas públicas e estratégias sustentáveis e participativas de produção, comercialização e consumo de alimentos, respeitando-se as múltiplas características culturais do País; e VII. a formação de estoques reguladores e estratégicos de alimentos. 2.4 Transporte O direito ao transporte, incluído no rol de direitos sociais do art. 6º pela Emenda Constitucional 90 de 2011, estando intrinsecamente relacionados à mobilidade das pessoas, é essencial à implementação de vários outros direitos fundamentais e sociais, conforme destacado no projeto de emenda constitucional n. 90/2011: Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 12 Vetor de desenvolvimento relacionado à produtividade e à qualidade de vida da população, sobretudo do contingente urbano, o transporte destaca-se na sociedade moderna pela relação com a mobilidade das pessoas, a oferta e o acesso aos bens e serviços. Como é de amplo conhecimento, a economia de qualquer país fundamenta-se na produção e no consumo de bens e serviços, como também no deslocamento das pessoas, ações que são mediadas pelo transporte. Desse modo, o transporte, notadamente o público, cumpre função social vital, uma vez que o maior ou menor acesso aos meios de transporte pode tornar-se determinante à própria emancipação social e o bem-estar daqueles segmentos que não possuem meios próprios de locomoção. Nesta perspectiva, afirma Ingo Wolfgang Sarlet (2019) que “a inserção de um direito ao transporte guarda sintonia com o objetivo de assegurar a todos uma efetiva fruição de direitos (fundamentais ou não), mediante a garantia do acesso ao local de trabalho, bem como aos estabelecimentos de ensino (ainda mais no contexto da proteção das crianças e adolescentes e formação dos jovens), serviços de saúde e outros serviços essenciais, assim como ao lazer e mesmo ao exercício dos direitos políticos, sem falar na especial consideração das pessoas com deficiência (objeto de previsão específica no art. 227, § 2º, da CF) e dos idosos, resulta evidente e insere o transporte no rol dos direitos e deveres associados ao mínimo existencial, no sentido das condições materiais indispensáveis à fruição de uma vida com dignidade”. Agregado à liberdade de locomoção (art. 5º, XV), o direito ao transporte respalda, entre outros, o direito à gratuidade nos transportes coletivos para maiores de 65 anos (art. 230, § 2º, CF) e a proteção especial da criança e do adolescente, o que inclui o direito de acesso à escola ao trabalhador adolescente e jovem (art. 227, § 3º, CF). 2.5 Previdência Social Considerada um dos pilares da seguridade social, a previdência social visa “propiciar os meios indispensáveis à subsistência da pessoa humana – quando esta não pode obtê-los ou não é socialmente desejável que os aufira pessoalmente através do trabalho, por motivo de maternidade, nascimento, incapacidade, invalidez, desemprego, prisão, idade avançada, tempo de serviço ou morte –, mediante contribuição compulsória distinta, proveniente da sociedade e de cada um dos Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 13 participantes” (MARTINEZ apud TAVARES, 2019). Segundo o art. 201 da CF, com redação dada pela EC n. 103/2019, a previdência social será organizada sob a forma do Regime Geral de Previdência Social, de caráter contributivo e de filiação obrigatória, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, e atenderá, na forma da lei, a: ▪ cobertura dos eventos de incapacidade temporária ou permanente para o trabalho e idade avançada; ▪ proteção à maternidade, especialmente à gestante; ▪ proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário; ▪ salário-família e auxílio-reclusão para os dependentes dos segurados de baixa renda; ▪ pensão por morte do segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou companheiro e dependentes. O texto constitucional determina a vedação à adoção de requisitos ou critérios diferenciados para concessão de benefícios, ressalvada, nos termos de lei complementar, a possibilidade de previsão de idade e tempo de contribuição distintos da regra geral para concessão de aposentadoria exclusivamente em favor dos segurados: a) com deficiência, previamente submetidos a avaliação biopsicossocial realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar; b) cujas atividades sejam exercidas com efetiva exposição a agentes químicos, físicos e biológicos prejudiciais à saúde, ou associação desses agentes, vedada a caracterização por categoria profissional ou ocupação. O direito à previdência social possui caráter contributivo, portanto as prestações dependem de contraprestações, de modo que os indivíduos somente poderão auferir benefícios quando filiados e contribuintes do sistema. Mendes (2019) afirma tratar-se, portanto, “de sistema baseado no princípio da solidariedade, de modo que os ativos contribuem para financiar os benefícios pagos aos inativos, estando todos sujeitos ao pagamento das contribuições, bem como ao aumento de suas alíquotas. Por ter natureza tributária, as contribuições previdenciárias não podem criar discriminação entre os beneficiários, sob pena de violação ao princípio da isonomia”. Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 14 2.5.1 Do benefício De acordo com os §§ 2º ao 4º do art. 201, nenhum benefício que substitua o salário de contribuição ou o rendimento do trabalho do segurado terá valor mensal inferior ao salário-mínimo, garantindo-se que todos os salários de contribuição considerados para o cálculo do benefício sejam devidamente atualizados e reajustados, para preservar, em caráter permanente, o valor real. Em relação à aposentadoria, esta passou a ser condicionada a idade mínima de 65 anos de idade para homens e 62 para mulheres, desde que observado o tempo mínimo de contribuição (art. 201, § 7º, I); já para trabalhadores rurais que exerçam suas atividades em regime de economia familiar, a idade mínima foi fixada em 60 anos de idade para homens e 55 para mulheres. 2.5.2 Dispositivos legais A Lei n. 8.213 de julho de 1991 dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providencias, relacionando, logo no art. 2º, os princípios e objetivos que regem a Previdência Social, quais sejam: ▪ universalidade de participação nos planos previdenciários; ▪ uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais; ▪ seletividade e distributividade na prestação dos benefícios; ▪ cálculo dos benefícios considerando-se os salários-de-contribuição corrigidos monetariamente; ▪ irredutibilidade do valor dos benefícios de forma a preservar-lhes o poder aquisitivo; ▪ valor da renda mensal dos benefícios substitutos do salário-de-contribuição ou do rendimento do trabalho do segurado não inferior ao do salário mínimo;▪ previdência complementar facultativa, custeada por contribuição adicional; ▪ caráter democrático e descentralizado da gestão administrativa, com a participação do governo e da comunidade, em especial de trabalhadores em atividade, empregadores e aposentados. Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 15 2.5.3 Proteção à maternidade e à infância A proteção à maternidade, além de aparecer no rol de direitos sociais do art. 6º, possui natureza tanto de direito previdenciário (art. 201, II) como de direito assistencial (art. 203, I). Como direito assistencial, a proteção à maternidade, à infância, à adolescência, à velhice e à família serão prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição da seguridade social. Conforme aponta Pedro Lenza (2021), essa desoneração do empregador fora primeiramente assegurada na Lei n. 6.136/74, a qual inclui o salário-maternidade entre as prestações da Previdência Social, “caracterizando importante conquista no sentido da não discriminação entre o homem e a mulher no momento da contratação”. Verifica-se, ainda, que no plano constitucional o direito de proteção à maternidade articula-se com outros de cunho trabalhista, previstos, por exemplo, no art. 7º, XVIII ( estabelece a licença à gestante como um dos direitos dos trabalhadores, haja vista a importância do acompanhamento materno para o pleno desenvolvimento da criança, em especial nos primeiros meses de vida) e o inciso II, “b”, do art. 10 do ADCT (veda a dispensa arbitrária ou sem justa causa da empregada gestante, desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto). Ingo Wolfgang Sarlet (2019) afirma que a proteção a esse direito envolve uma compreensão adequada do conjunto de direitos aos quais se relaciona, tal como o direito à saúde e ao regime jurídico-constitucional de proteção dos direitos fundamentais da criança e do adolescente (art. 227 da CF). Para o autor “tem-se como parâmetro para a caracterização do âmbito normativo de tal direito todo o período compreendido entre a concepção , gestação (por exemplo, atendimento pré-natal), nascimento e primeiros anos de vida da criança, tanto sob a perspectiva da mulher quanto da criança, de modo a assegurar a proteção de todos os direitos fundamentais que permeiam a relação mãe-filho e o bem-estar de ambos, tudo no sentido de uma exegese compreensiva de todas as dimensões relacionadas à maternidade”. No que tange à proteção à infância, o art. 227 da CF dispõem sobre o dever de proteção do Estado à criança, ao adolescente e ao jovem, assegurando-lhes, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 16 familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. A concretização deste direito está atrelada, ainda, à observância ao Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/1990) que, segundo aponta Sarlet (2019), “dá contornos normativos mais precisos ao direito à proteção à maternidade e à infância em alguns dos seus dispositivos”. Para o autor, “a sobreposição (parcial) de tais direitos com outros, como no caso do direito à saúde e educação (veja-se o caso do acesso a creches disponibilizadas pelo Poder Público), desde que bem compreendida e dogmaticamente consistente, mais do que uma desvantagem, constitui mesmo um reforço em termos de proteção, especialmente em virtude da aplicação, aos direitos à proteção da maternidade e da infância, do regime jurídico dos direitos fundamentais, inclusive e especialmente no que diz respeito à sua eficácia e efetividade” (SARLET, 2019). 2.6 Assistência aos desamparados O regime constitucional para a seguridade social é formatado com o intuito de assegurar a todos uma vida digna e atender a padrões adequados de bem-estar social. Articula-se com o direito internacional dos direitos humanos, em especial com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (1948) e o Protocolo de “San Salvador” Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1988). Ao lado do direito à saúde e à previdência social, a assistência social (ou assistência ao desamparado) compreende um dos pilares da seguridade social, configurando-se, para além disso, como “a expressão máxima do princípio da solidariedade e mesmo do respeito à dignidade da pessoa humana, porquanto representa proteção político- jurídica especial destinada a indivíduos e grupos sociais vulneráveis ou necessitados, cuidando-se, ademais disso, de direito titularizado por nacionais e estrangeiros” (SARLET, 2019). Disciplinada no art. 203 da Constituição Federal, a assistência social será prestada a Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 17 quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos: ▪ a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; ▪ o amparo às crianças e adolescentes carentes; ▪ a promoção da integração ao mercado de trabalho; ▪ a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; ▪ a garantia de um salário-mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. O texto constitucional determina que as ações governamentais na área da assistência social sejam realizadas com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no art. 195 da CF, além de outras fontes, e organizadas com base na descentralização político-administrativa, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal, e a coordenação e a execução dos respectivos programas às esferas estadual e municipal e às entidades beneficentes e de assistência social (art. 204, I). Além disso, prevê a participação da população na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis, por meio de organizações representativas (art. 204, II). Além disso, é facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular a programa de apoio à inclusão e promoção social até cinco décimos por cento de sua receita tributária líquida, vedada a aplicação desses recursos no pagamento de despesas com pessoal e encargos sociais, serviço da dívida e qualquer outra despesa corrente não vinculada diretamente aos investimentos ou ações apoiados. Entre outros dispositivos infraconstitucionais que disciplinam sobre a assistência social, o principal é a Lei Orgânica da Assistência Social (Lei n. 8.742/1993), que dispõe sobre sua organização dá outras providências. 2.7 Direitos individuais dos trabalhadores Conforme explica Ingo Wolfgang Sarlet (2019), há uma forte conexão expressa entre o direito ao trabalho e os demais direitos fundamentais, tendo em vista que as prestações garantidas a ele buscam, grosso modo, assegurar condições mínimas para Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 18 o bem-estar do trabalhador e de sua família, a exemplo do art. 7º, IV, da CF, segundo o qual deve ser assegurado ao trabalhador um salário que seja capaz de atender suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social. Nisto resta evidente o vínculo com o direito-garantia ao mínimo existencial: “não se pode desprezar o quanto a garantia dapossibilidade de trabalhar, e com isso assegurar seu próprio sustento e dos seus dependentes, constitui dimensão relevante para um direito ao livre desenvolvimento da personalidade e da própria noção de autonomia, do ser humano construtor de seu próprio destino”. Para o autor, o direito ao trabalho é dotado de uma dimensão objetiva e outra subjetiva, assumindo, assim, como os demais direitos, uma função negativa e outra positiva. Na dimensão positiva o direito implica o dever constitucional de “promover políticas de fomento da criação de empregos (postos de trabalho), de formação profissional e qualificação do trabalhador, entre outras tantas que poderiam ser referidas e que são veiculadas por lei ou programas governamentais ou mesmo no setor privado”. 2.7.1 Direitos dos trabalhadores urbanos e rurais O caput e incisos do art. 7º da Constituição Federal contemplam um rol aberto de direitos para todos os trabalhadores urbanos e rurais. São eles: (I) relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos; (II) seguro-desemprego, em caso de desemprego involuntário; (III)fundo de garantia do tempo de serviço; (IV) salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim; (V) piso salarial proporcional à extensão e à complexidade do trabalho; (VI) irredutibilidade do salário, salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo; (VII) garantia de salário, nunca inferior ao mínimo, para os que percebem remuneração variável; (VIII) décimo terceiro salário com base na remuneração integral ou no valor da aposentadoria; (IX) remuneração Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 19 do trabalho noturno superior à do diurno; (X) proteção do salário na forma da lei, constituindo crime sua retenção dolosa; (XI) participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei; (XII) salário-família pago em razão do dependente do trabalhador de baixa renda nos termos da lei; (XIII) duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho; (XIV) jornada de seis horas para o trabalho realizado em turnos ininterruptos de revezamento, salvo negociação coletiva; (XV) repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos; (XVI) remuneração do serviço extraordinário superior, no mínimo, em cinquenta por cento à do normal; (XVII) gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal; (XVIII) licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias; (XIX) licença-paternidade, nos termos fixados em lei; (XX) proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; (XXI) aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei; (XXII) redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança; (XXIII) adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei; (XXIV) aposentadoria; (XXV) assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até cinco anos de idade em creches e pré-escolas; (XXVI) reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho; (XXVII) proteção em face da automação, na forma da lei; (XXVIII) seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa; (XXIX) ação, quanto aos créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo prescricional de cinco anos para os trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de dois anos após a extinção do contrato de trabalho; (XXX) proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil; (XXXI) proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência; (XXXII) proibição de distinção entre trabalho manual, técnico e intelectual ou entre os profissionais respectivos; (XXXIII) proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos; (XXXIV) igualdade de direitos entre o trabalhador com vínculo empregatício permanente e o trabalhador avulso. Direitos Sociais | Direitos Sociais Individuais www.cenes.com.br | 20 Além destes, expressamente enumerados, existem outros direitos dos trabalhadores previstos ao longo da Constituição Federal que visam a melhoria da sua condição social. Dos direitos expressos, alguns são de aplicação imediata, outros dependem de lei para efetivação, como, por exemplo, o valor social do trabalho reconhecido no art. 1º, IV, a valoração do trabalho como fundamento da ordem econômica, no art. 170, e o primado do trabalho como fundamento para a ordem social, no art. 193. “Tudo isso tem o sentido de reconhecer o direito social ao trabalho, como condição da efetividade da existência digna (fim da ordem econômica) e, pois, da dignidade da pessoa humana, fundamento, também, da República Federativa do Brasil (art. 1º, III)”. 2.7.2 Direitos sociais individuais dos trabalhadores domésticos O parágrafo único do art. 7º assegura à categoria dos trabalhadores domésticos os direitos previstos nos incisos IV, VI, VII, VIII, X, XIII, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XXI, XXII, XXIV, XXVI, XXX, XXXI e XXXIII e, atendidas as condições estabelecidas em lei e observada a simplificação do cumprimento das obrigações tributárias, principais e acessórias, decorrentes da relação de trabalho e suas peculiaridades, os previstos nos incisos I, II, III, IX, XII, XXV e XXVIII, bem como a sua integração à previdência social. Desta forma, dizemos que para os trabalhadores domésticos, os direitos são entregues de maneira diferenciada, conforme descrito no parágrafo único, variando em condição de direito a) direto/imediato, b) indireto/mediato ou c) não entregue. Classificados da seguinte maneira: Direitos Sociais Individuais dos Trabalhadores Domésticos DIRETOS/ IMEDIATOS 2013 INDIRETOS/ MEDIATOS 2015 NÃO ENTREGUES IV Salário-mínimo (SM) I Relação de emprego protegida V Piso salarial VI Irredutibilidade de salário VII Garantia de SM para trabalhadores que recebem remuneração variável II Seguro-desemprego XI Participação nos lucros VIII 13º salário X Proteção do salário III FGTS XIV Jornada de 6 horas Direitos Sociais | Conclusão www.cenes.com.br | 21 XIII Jornada de 8h diárias e 44h semanais para o trabalho normal para o trabalho em turno ininterrupto XV Repouso semanal remunerado IX Adicional noturno XX Proteção do trabalho da mulher XVI Adicional de hora- extra de 50% XVII Férias anuais XXIII Adicional de atividades penosas, insalubres ou perigosas XVIII Licença à gestante de 120 dias XIX Licença paternidade XII Salário-família XXVII Proteção em face da automação XXI Aviso prévio de 30 dias no mínimo XXII Redução dos riscos XXIX Prescrição da ação XXIV Aposentadoria XXVI Reconhecimento de convenções e acordos coletivos XXV Assistência gratuita aos filhos e dependentes XXXII Proibição de distinção entre trabalho manual, técnico eintelectual XXX Proibição da diferença de salários XXXI Proibição de discriminação quanto à pessoa portadora de deficiência XXVIII Seguro contra acidentes de trabalho XXXIV Igualdade entre trabalho permanente e avulso XXXIII Proibição de trabalho de acordo com a idade 3 Conclusão Nesta unidade vimos que os direitos sociais são aqueles que disciplinam sobre situações subjetivas de caráter concreto, sejam elas pessoais ou grupais. Abordamos, assim, os direitos sociais de expressão individual como aqueles que fazem referência à indivíduos determinados e podem, por eles, serem invocados, tais como o direito à educação, à saúde, à alimentação, ao transporte, à previdência social e todos os direitos individuais do trabalhador, previstos no art. 7º da CF, que regem as relações individuais de trabalho. Direitos Sociais | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 22 4 Referências Bibliográficas BAHIA, F. Direito Constitucional. – 3. ed. – Recife: Armador, 2017. BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. – 9. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. – 12. ed. – Salvador: Ed. JusPODIVM, 2020. MASSON, Nathalia. Manual de direito constitucional. – 8. ed. – Salvador: JusPODIVM, 2020. MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. – 16. ed. – São Paulo: Educação, 2021. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. – 33. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 95, de 15 de dezembro de 2016. São Paulo: Atlas, 2017. PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo. Direito Constitucional Descomplicado. – 16. ed. – São Paulo: Método, 2017. SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. – 37. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 76, de 28 de novembro de 2013. São Paulo: Malheiros Editores. 2013. SARLET, Ingo Wolfgang; MARIONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito Constitucional. – 8. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2019. TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. – 18. ed. – São Paulo: Saraiva Educação. 2020. Direitos Sociais | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 23 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 1 DISCIPLINA DIREITOS SOCIAIS CONTEÚDO Direitos Sociais Coletivos Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 2 A Faculdade Focus se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). A instituição, nem os autores, assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). Atualizações e erratas: este material é disponibilizado na forma como se apresenta na data de publicação. Atualizações são definidas a critério exclusivo da Faculdade Focus, sob análise da direção pedagógica e de revisão técnica, sendo as erratas disponibilizadas na área do aluno do site www.faculdadefocus.com.br. É missão desta instituição oferecer ao acadêmico uma obra sem a incidência de erros técnicos ou disparidades de conteúdo. Caso ocorra alguma incorreção, solicitamos que, atenciosamente, colabore enviando críticas e sugestões, por meio do setor de atendimento através do e-mail tutoria@faculdadefocus.com.br. © 2021, by Faculdade Focus Rua Maranhão, 924 - Ed. Coliseo - Centro Cascavel - PR, 85801-050 Tel: (45) 3040-1010 www.faculdadefocus.com.br Este documento possui recursos de interatividade através da navegação por marcadores. Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. http://www.faculdadefocus.com.br/ mailto:tutoria@faculdadefocus.com.br http://www.faculdadefocus.com.br/ Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 3 Sumário Sumário ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 3 1 Introdução --------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 2 Direitos Sociais Coletivos -------------------------------------------------------------------------------- 5 2.1 Direito ao Lazer ----------------------------------------------------------------------------------------------------------- 5 2.2 Direito de associação profissional ou sindical -------------------------------------------------------------------- 6 2.2.1 Direitos sindicais --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 7 2.2.2 Da liberdade sindical --------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 9 2.3 Direito de Greve -------------------------------------------------------------------------------------------------------- 10 2.3.1 Dos servidores públicos ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- 12 2.4 Direito de participação laboral ------------------------------------------------------------------------------------- 13 2.5 Direito de representação na empresa ---------------------------------------------------------------------------- 13 3 Conclusão --------------------------------------------------------------------------------------------------- 14 4 Referências ------------------------------------------------------------------------------------------------- 14 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 4 1 Introdução São direitos sociais aqueles que disciplinam situações subjetivas de caráter concreto, pessoais ou grupais, e que, como dimensão dos direitos fundamentais do homem, visam possibilitar melhores condições de vida aos hipossuficientes, buscando a igualização de situações sociais desiguais. Também chamados de direitos de segunda dimensão, culturais ou econômicos, os direitos sociais estão firmados nos arts. 6º ao 11 da Constituição Federal, nos quais estão consagrados tanto os direitos sociais básicos e de caráter mais geral como o extenso elenco de direitos dos trabalhadores. Grande parte dos direitos e garantias arrolados no capítulo dos direitos e garantias sociais são entendidos como possuidores de índole individual, uma vez que podem ser traduzidos em prestações específicas e são referíveis a indivíduos determinados. Assim, a maioria dos direitos e garantias voltados ao trabalhador (previstos no art. 7º) são estudados como direitos sociais individuais, pois regem as relações individuais de trabalho. Em contrapartida, são considerados direitos e garantias sociais coletivos aqueles cuja prestação não pode ser exigida por uma dada pessoa, tais como o direito ao lazer, ao trabalho, à greve, e aqueles exercidos no interesse da coletividade, como o de associação profissional ou sindical, de greve, de representação classista etc. Conforme aponta Ingo Wolfgang Sarlet (2019), o texto da Constituição Federal de 1988 insere os direitos sociais em um contexto mais amplo no plano constitucional, “com efeito, o Preâmbulo já evidencia o forte compromisso com a justiça social, comprometimento este reforçado pelos princípios fundamentais elencados no Título I da CF, dentre os quais se destaca a dignidade da pessoahumana (art. 1º, III), positivada como fundamento do próprio Estado Democrático de Direito”. Princípio este que atua como fio condutor com relação aos diversos direitos fundamentais, que reforça a reciprocidade e complementariedade entre os direitos civis (individuais) e os direitos sociais, “na medida em que os direitos fundamentais (ainda que não todos e não da mesma forma) expressam parcelas do conteúdo e dimensões do princípio da dignidade humana”. No mesmo viés, o autor remonta à sintonia que há entre os direitos sociais com os objetivos fundamentais da República, elencados no art. 3º da CF, “que estabelece como norte, dentre outros, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, Direitos Sociais | Direitos Sociais Coletivos www.cenes.com.br | 5 assim como a erradicação da pobreza e da marginalização, além da redução das desigualdades sociais”. 2 Direitos Sociais Coletivos São considerados direitos sociais coletivos aqueles que não podem ser traduzidos em prestações específicas passíveis de serem exigidas por dado indivíduo, mas que são referíveis a um grupo de indivíduos, ou seja, são exercidos no interesse de uma coletividade (PAULO; ALEXANDRINO, 2017). Dentre os direitos elencados no art. 6º da CF, são considerados coletivos o direito ao lazer e ao trabalho, bem como são considerados coletivos os direitos previstos nos arts. 8º ao 11 da CF, exercidos pelos trabalhadores visando o interesse da sua coletividade. Estes classificam-se em: • Direito de associação profissional ou sindical (art. 8º); • Direito de greve (art. 9º); • Direito de participação laboral (art. 10); • Direito de representação classista (art. 11). Em regra, toda pessoa pode ser titular de direitos sociais, o que não significa negar a existência de restrições em alguns casos específicos, tais como aquelas impostas em razão de condições específicas do titular, como ser parte do grupo de trabalhadores para invocar os direitos dos trabalhadores, ou à limitação de certas prestações concedidas apenas às pessoas comprovadamente carentes. De todo modo, Ingo Wolfgang Sarlet explica que “vige o princípio da universalidade, de acordo com o qual, ainda mais quando se trata de direitos com forte vínculo com a dignidade da pessoa humana e com o direito à vida, todas as pessoas são, na condição de pessoas humanas, titulares dos direitos sociais”. 2.1 Direito ao Lazer Segundo Ingo Wolfgang Sarlet (2019), diferentemente do que acontece com os outros direitos sociais, o direito ao lazer não teve seu conteúdo definido no texto constitucional, mesmo que algumas diretrizes possam ser extraídas a partir da sua articulação com outros direitos e princípios consagrados na Constituição Federal, a exemplo da garantia de repouso remunerado, da limitação de jornada de trabalho e Direitos Sociais | Direitos Sociais Coletivos www.cenes.com.br | 6 do pagamento de um terço de férias sobre o valor das férias. Para o autor, “é possível identificar, já no plano da Constituição, um corpo normativo que, em alguma medida, objetiva assegurar a toda e qualquer pessoa, um mínimo de fruição do lazer, impondo ao Poder Público o dever de assegurar as condições (por prestações materiais e normativas) que viabilizem o acesso e o exercício de atividades de lazer pela população”. Nos termos de José Afonso da Silva (2013), lazer remete à entrega à ociosidade e ao repouso, enquanto o desporto remete ao divertimento, à recreação, ao esporte, à cultura. “Ambos se destinam a refazer as forças depois da labuta diária e semanal. Ambos requerem lugares apropriados, tranquilos”. Assim, como funções urbanísticas, têm sua natureza social pautada no fato de que sua prestação interfere na qualidade de vida e na condição de trabalho dos indivíduos, estando associados também a existência de um meio ambiente sadio e equilibrado. Este direito é mencionado no art. 227 como um direito que deve ser assegurado à criança, ao adolescente e ao jovem, juntamente com outros essenciais para seu pleno desenvolvimento, bem como no § 3º do art. 217, que prevê a responsabilidade do Poder Público de incentivar o lazer como forma de promoção social. Além disso, é um direito que está fortemente ligado ao conceito de saúde como o “estado de completo bem-estar físico, mental e social” (OMS), pois é elemento fundamental ao pleno desenvolvimento da personalidade humana. Conforme Sarlet (2019), a garantia de lazer, compreendida como direito fundamental “assume dimensão essencial para a construção da personalidade humana e, na esteira do que já foi referido, integra a noção de um mínimo existencial sociocultural, ainda que seja deferida ao Estado ampla margem de discricionariedade quanto ao modo de dar concretude ao direito de lazer”. 2.2 Direito de associação profissional ou sindical O direito de associação profissional ou sindical é um dos desdobramentos do direito à proteção do trabalho e do trabalhador. Conforme prevê o art. 8º da CF, é livre a associação profissional ou sindical – que, na verdade, são ambas associações profissionais, de modo que vários dos dispositivos legais que se aplicam às Direitos Sociais | Direitos Sociais Coletivos www.cenes.com.br | 7 associações, aplicam-se também aos sindicatos. Segundo José Afonso Silva, “a diferença está em que a sindical é uma associação profissional com prerrogativas especiais, tais como: (a) defender os direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, até em questões judiciais e administrativas (art. 8, III); (b) participar de negociações coletivas de trabalho e celebrar convenções e acordos coletivos (art. 8º, VI), (c) eleger ou designar representantes da respectiva categoria (art. 8º, VII); (d) impor contribuições a todos aqueles que participam das categorias econômicas ou profissionais representadas”. Ao passo que a associação profissional não sindical está limitada ao estudo, coordenação e defesa dos interesses de seus associados. Assim, aos sindicatos impõe-se requisitos que se harmonizam aos princípios constitucionais, dentre eles a necessidade de estabelecer eleições periódicas e por escrutínio secreto para seus órgãos dirigentes, quórum de votação para assembleias gerais e controle e responsabilização de órgãos dirigentes. A Lei não exige autorização para fundar sindicato, apenas o registro em órgão competente do Poder Público (Ministério do Trabalho), em observância ao princípio da unicidade sindical, que visa fortalecer as estruturas sindicais, afirmado no art. 516 do Decreto-Lei n. 127/1967 (Consolidação das Leis do Trabalho – CLT), segundo o qual “não será reconhecido mais de um Sindicato representativo da mesma categoria econômica ou profissional, ou profissão liberal, em uma dada base territorial”. A extensão mínima dessa base territorial é da área de um município (art. 8º, II, CF). 2.2.1 Direitos sindicais Em seu curso de Direito Constitucional, Alexandre de Moraes (2016) elenca alguns direitos que estão associados e compõem os direitos sindicais (arts. 8º ao 11). Nos apropriaremos de seus ensinamentos para falar um pouco sobre esses direitos. Direitos Sociais | Direitos Sociais Coletivos www.cenes.com.br | 8 Figura 1 - Direitos sindicais Fonte: Adaptado de Moraes (2016) Os sindicatos e associações possuem o direito de auto-organização, podendo definir a forma de governo que será adotada, bem como as formas de expressão de vontade nos termos da Constituição (eleições, plebiscitos, referendos etc.). Além disso, possuem o direito ao exercício da atividade sindical na empresa e o de organização através de representantes e comissões sindicais, ficando assim obrigados a participar nas negociações coletivas do trabalho (CF, art. 8º, VI). Conforme aponta Alexandre de Moraes, outras obrigações instituídas pela CF envolvem: ▪ assegurar a participaçãodos trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto de discussão e deliberação (art. 10, CF); ▪ assegurar, nas empresas de mais de duzentos empregados, a eleição de um representante destes com a finalidade exclusiva de promover-lhes o entendimento direto com os empregadores (art. 11, CF); ▪ autorizar ao sindicato a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas (art. 8º, III), na qualidade de substituto processual. Além disso, está previsto no art. 8, VIII, CF, o direito de estabilidade sindical, que veda a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei. Segundo Alexandre de Moraes, esse direito “manifesta-se sob uma dupla ótica, pois tanto é a consagração de um direito de defesa dos representantes eleitos dos trabalhadores perante o Direitos Sociais | Direitos Sociais Coletivos www.cenes.com.br | 9 patronato, para o fiel cumprimento de suas funções (dimensão subjetiva), quanto uma imposição constitucional dirigida ao legislador ordinário, que deverá estabelecer adequadas normas protetivas aos referidos representantes (dimensão objetiva)”. 2.2.2 Da liberdade sindical O art. 8º, V, estabelece que ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato. De acordo com Fernandes (2020), “o princípio constitucional da liberdade sindical garante tanto ao trabalhador quanto ao empregador a liberdade de se associar a uma organização sindical, passando a contribuir voluntariamente com essa representação. Não há nenhum comando na Constituição Federal determinando que a contribuição sindical é compulsória”. Corroborando esse entendimento, em Julgamento apresentado no informativo 908, o STF firmou o seguinte: “[...] a reforma trabalhista busca a evolução de um sistema sindical centralizador, arcaico e paternalista para um modelo mais moderno, baseado na liberdade. O modelo de contribuição compulsória não estimulava a competitividade e a representatividade, levando a um verdadeiro negócio privado, bom apenas para sindicalistas. A sistemática anterior criou um associativismo com enorme distorção representativa. No Brasil, são quase 17 mil sindicatos, enquanto em outros países apenas algumas centenas. A contribuição compulsória vinha gerando oferta excessiva e artificial de associações sindicais, o que configura perda social em detrimento dos trabalhadores. Esse número estratosférico de sindicatos não se revertia em aumento do bem-estar de nenhuma categoria. Nesse contexto, as entidades sindicais frequentemente se engajam em atividades políticas, lançando e apoiando candidatos, conclamando protestos e mantendo estreitos laços com partidos políticos. Ocorre que o discurso político é o núcleo por excelência da liberdade de expressão. Ao exigir que indivíduos financiem atividades políticas com as quais não concordam, por meio de contribuições compulsórias a sindicatos, o regime anterior certamente vulnerava a garantia fundamental da liberdade de expressão, protegida pelo art. 5º, IV (6), da Constituição. Por sua vez, a nova sistemática leva a um novo pensar da sociedade sobre como lidar com as categorias econômicas e trabalhistas e com as formas de atuação na sociedade, sem depender necessariamente do Estado. Os sindicatos passarão a ser sustentados por contribuições voluntárias, do mesmo modo que as demais associações.” ADI 5794/DF. red. p/ o ac. Min. Luiz Fux, julg. em 29.06.2018 (Informativo 908 do STF). Direitos Sociais | Direitos Sociais Coletivos www.cenes.com.br | 10 É importante pontuar que os sindicatos têm direitos de independência e autonomia, podendo contar com fontes de renda independentes do patronato ou do Poder Público, de modo que a assembleia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei. Inclusive, os sindicatos possuem o direito de relacionamento ou filiação em organizações sindicais internacionais. Este direito vem norteado pelo princípio da solidariedade internacional dos interesses dos trabalhadores. Estas mesmas disposições aplicam-se a organização de sindicatos rurais e de colônias de pescadores, atendidas as condições estabelecidas pela lei (art. 8º, parágrafo único). 2.3 Direito de Greve Alexandre de Moraes define a greve como “um direito de autodefesa que consiste na abstenção coletiva e simultânea do trabalho, organizadamente, pelos trabalhadores de um ou vários departamentos ou estabelecimentos, com o fim de defender interesses determinados”. José Afonso da Silva afirma que a “greve é o exercício de um poder de fato dos trabalhadores com o fim de realizar uma abstenção coletiva do trabalho subordinado”. Trata-se de um direito que se desenvolve sob a “égide do poder de representação do sindicato, pois é um instrumento dos trabalhadores coletivamente organizados para a realização de melhores condições de trabalho para toda a categoria profissional”. Na Constituição Federal, o direito de greve está previsto no art. 9º, e é assegurado aos trabalhadores em geral, de modo que caberá a eles decidir sobre a oportunidade de exercer o direito de greve e sobre os interesses que venham por meio deste defender. Não obstante, a lei poderá definir os procedimentos para o seu exercício, não no sentido de limitá-la mas de proteger e garanti-la, de modo que poderão ser decretadas greves reivindicativas, visando a melhoria das condições de trabalho, ou greves de solidariedade, em apoio a outras categorias, greves políticas ou greves de protestos (SILVA, 2013). Direitos Sociais | Direitos Sociais Coletivos www.cenes.com.br | 11 Dessa forma, a lei definirá quais são as atividades e serviços considerados essenciais, bem como disporá sobre o atendimento às necessidades inadiáveis da comunidade, restringindo apenas a amplitude deste direito, de modo que quaisquer abusos que venham a ser cometidos quanto ao direito de greve sujeitarão os responsáveis às penas da lei. Assim, o exercício do direito de greve dos trabalhadores privados será regulamentado pela Lei n. 7.783/89. Figura 2 – Da greve. Fonte: Núcleo Editorial Focus. Andre Ramos Tavares (2020), pautado na lição de Gomes Canotilho e Vital Moreira, afirma que “a caracterização constitucional do direto à greve como um dos ‘direitos e garantias’ significa, entre outras coisas: (a) um direito subjetivo negativo, não podendo os trabalhadores ser proibidos ou impedidos de fazer greve, nem podendo ser compelidos a pôr-lhes termo; (b) eficácia externa imediata, em relação a entidades privadas, não constituindo o exercício do direito de greve qualquer violação do contrato de trabalho, nem podendo as mesmas entidades neutralizar ou aniquilar praticamente esse direito; (c) eficácia imediata, no sentido de direta aplicabilidade, não podendo o exercício deste direito depender da existência de qualquer lei concretizadora”. Ademais, Walber de Moura Angra (2018) saliente que a greve é um direito exercido Direitos Sociais | Direitos Sociais Coletivos www.cenes.com.br | 12 no coletivo, visando o interesse coletivo, “de forma que a titularidade desse direito pertence, na verdade, ao sindicato da categoria, dada a sua função constitucional de defender os direitos dos trabalhadores. Na falta deste, porém, o exercício do direito pertencerá ao grupo profissional, mas nunca será exercido pelo trabalhador individualmente”. 2.3.1 Dos servidores públicos Quanto ao direitode greve dos servidores públicos, dispõe o art. 37, VII, que será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica. Neste sentido, Pedro Lenza (2021) afirma que o direito de greve neste caso se materializa “em norma de eficácia limitada”, mas acrescenta que, “uma vez que não foi disciplinado o direito de greve dos servidores públicos (art. 37, VII), o STF, no julgamento conjunto dos Mis ns. 670, 708 e 712, determinou a aplicação da lei da iniciativa privada (a citada Lei n. 7.783/89) até que a matéria seja regulamentada pelo Congresso Nacional (j. 25.10.2007)”. Quanto ao exercício desse direito pelos servidores públicos, Bernardo Gonçalves Fernandes aponta para decisão deflagrada no informativo 845 do STF, segundo o qual, o “Tribunal assentou que “a) a deflagração de greve por servidor público civil corresponde à suspensão do trabalho e, ainda que a greve não seja abusiva, como regra geral, a remuneração dos dias de paralisação não deve ser paga; e b) somente não haverá desconto se a greve tiver sido provocada por atraso no pagamento aos servidores públicos civis ou se houver outras circunstâncias excepcionais que justifiquem o afastamento da premissa da suspensão da relação funcional ou de trabalho. Considera-se assim aquelas circunstâncias em que o ente da administração ou o empregador tenha contribuído, mediante conduta recriminável, para que a greve ocorresse ou em que haja negociação sobre a compensação dos dias parados ou mesmo o parcelamento dos descontos” (RE 693456/RJ Plenário do STF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 27.102016. Informativo 845 do STF). Ademais, o exercício do direito de greve por parte de servidores públicos que atuam diretamente na área de segurança pública é considerado inconstitucional. Como bem destacou Nathalia Masson (2020), “no Recurso Extraordinário (RE) 846.854, com repercussão geral, a maioria dos Ministros entendeu que não cabe, no caso, discutir Direitos Sociais | Direitos Sociais Coletivos www.cenes.com.br | 13 direito a greve, uma vez que se trata de serviço de segurança pública. Consoante a divergência que foi aberta no voto do Ministro Alexandre de Moraes (e que foi acompanhada pela maioria), não há que se falar de competência da Justiça trabalhista para se analisar a abusividade ou não da greve neste caso, dado tratar-se de área na qual o próprio STF reconheceu que não há direito à paralisação dos serviços, por ser essencial à segurança pública. O Ministro ainda observou que nos outros casos de servidores públicos com contrato celetista com a administração pública seria possível admitir a competência da Justiça trabalhista para apreciar o direito de greve; tratando- se, no entanto, de guardas municipais, estamos diante de exceção à regra.” Consoante a decisão do STF, a justiça comum, federal ou estadual, tem competência para julgar causa relacionada ao direito de greve de servidor público da administração direta, autarquias e fundações públicas, seja ele celetista ou estatutário. Contudo, a competência será da Justiça do Trabalho se a greve for de empregados públicos de empresa pública ou sociedade de economia mista. 2.4 Direito de participação laboral É assegurada, através do art. 10 da CF, a participação dos trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto de discussão e deliberação, não sendo este um direito individual aos trabalhadores (cabe também aos empregadores). Este direito corroborado ao direito de participação nos lucros da empresa, previsto no inciso XI do art. 7º, caracteriza a preocupação do legislador em assegurar aos trabalhadores o direito de participação não só em sentido amplo como também em sentido estrito. Segundo Amauri Mascaro Nascimento (2014), o “princípio revela o propósito de intervenção jurídica na ordem econômica em defesa do trabalhador e com o objetivo de reformular a estrutura social, numa tentativa de corrigir as distorções decorrentes da denominada questão social”. 2.5 Direito de representação na empresa O art. 11 da CF assegura, às empresas de mais de 200 funcionários, a eleição de um Direitos Sociais | Conclusão www.cenes.com.br | 14 representante destes empregados, cuja finalidade exclusiva é de promover-lhes o entendimento direto com os empregadores. Esta matéria foi regulamentada nos arts. 510-A a 510-D, da CLT, introduzidos pela Reforma Trabalhista (Lei n. 13.467/2017) e, conforme aponta Walber de Moura Angra (2018), trata se de uma fórmula que visa fortalecer a representatividade dos trabalhadores. Segundo Carlos Henrique Bezerra Leite (2019), este dispositivo se trata de uma norma de eficácia contida, pois depende de regulamentação por lei ordinária que poderá conferir estabilidade ao representante eleito, fixar o período de mandato, dispor sobre o processo eleitoral, e estabelecer limites de atuação. 3 Conclusão Nesta unidade falamos sobre direitos que são referíveis a um grupo de indivíduos e que não podem ser exigidos por um indivíduo em particular – os direitos sociais coletivos. Falamos em específico sobre os direitos exercidos pelos trabalhadores coletivamente e no interesse da sua coletividade, assentados nos arts. 8º ao 11 da Constituição Federal e classificados em direito de associação profissional ou sindical, direito de greve, direito de substituição processual, direito de participação e de representação classista. 4 Referências ANGRA, Walber de Moura. Curso de Direito Constitucional. – 9. ed. – Belo Horizonte: Fórum, 2018. BAHIA, Flavia. Direito Constitucional. – 3. ed. – Recife: Armador, 2017. BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. – 9. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. – 12. ed. – Salvador: Ed. JusPODIVM, 2020. Direitos Sociais | Referências www.cenes.com.br | 15 LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Curso de direito do trabalho. – 11. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2019. LENZA, Pedro. Direito Constitucional. – 25. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2021. MASSON, Nathalia. Manual de direito constitucional. – 8. ed. – Salvador: JusPODIVM, 2020. MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. – 16. ed. – São Paulo: Educação, 2021. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. – 33. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 95, de 15 de dezembro de 2016. São Paulo: Atlas, 2017. NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho. – 29. ed. – São Paulo: Saraiva, 2014. PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo. Direito Constitucional Descomplicado. – 16. ed. – São Paulo: Método, 2017. SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. – 37. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 76, de 28 de novembro de 2013. São Paulo: Malheiros Editores. 2013. TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. – 18. ed. – São Paulo: Saraiva Educação. 2020. Direitos Sociais | Referências www.cenes.com.br | 16 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 1 DISCIPLINA DIREITOS SOCIAIS CONTEÚDO Nacionalidade Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 2 A Faculdade Focus se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). A instituição, nem os autores, assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. O titular cuja obraseja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). Atualizações e erratas: este material é disponibilizado na forma como se apresenta na data de publicação. Atualizações são definidas a critério exclusivo da Faculdade Focus, sob análise da direção pedagógica e de revisão técnica, sendo as erratas disponibilizadas na área do aluno do site www.faculdadefocus.com.br. É missão desta instituição oferecer ao acadêmico uma obra sem a incidência de erros técnicos ou disparidades de conteúdo. 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Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. http://www.faculdadefocus.com.br/ mailto:tutoria@faculdadefocus.com.br. http://www.faculdadefocus.com.br/ Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 3 Sumário Sumário ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 3 1 Introdução --------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 2 Nacionalidade ---------------------------------------------------------------------------------------------- 4 2.1 Conceitos Correlatos ---------------------------------------------------------------------------------------------------- 5 2.2 Aquisição da nacionalidade ------------------------------------------------------------------------------------------- 7 2.2.1 Brasileiros natos --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 8 2.2.2 Brasileiro naturalizado ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 8 2.2.3 Português equiparado ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 9 2.3 Cargos privativos de brasileiros natos------------------------------------------------------------------------------ 9 2.4 Extradição ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 11 2.5 Perda da nacionalidade brasileira --------------------------------------------------------------------------------- 13 3 Conclusão --------------------------------------------------------------------------------------------------- 14 4 Referências Bibliográficas ------------------------------------------------------------------------------ 14 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 4 1 Introdução A primeira geração de direitos constitucionais engloba não só os direitos individuais, que buscam assegurar a proteção das pessoas contra o poder do Estado, mas também os direitos políticos e de participação política, os quais sintetizam os direitos de nacionalidade e o direito de votar e ser votado. O conceito de nacionalidade está relacionado, dessa forma, ao vínculo que advém da relação entre o povo, que é o elemento humano da noção de Estado, e o território. Assim, conforme esclarece José Afonso Da Silva (2013), os fundamentos sobre a aquisição da nacionalidade é matéria constitucional, uma vez que cada Estado é livre para dizer quem são seus nacionais. No Brasil, também os direitos de nacionalidade são considerados normas materiais e formalmente constitucionais de direito público. Falaremos sobre esses direitos nesta unidade, cuidando das diferenças quanto aos direitos e obrigações dos brasileiros natos, naturalizados e dos estrangeiros. 2 Nacionalidade A nacionalidade pode ser entendida como o vínculo jurídico-político que liga o indivíduo a um determinado Estado, tornando-o um membro integrante da comunidade que constitui aquele Estado. Nesse contexto, o indivíduo se torna “um componente do povo, o que o capacita a exigir a proteção estatal, a fruição de prerrogativas ínsitas à condição de nacional, bem como o sujeita ao cumprimento de deveres” (MASSON, 2020). Neste sentido, Bernardo Gonçalves Fernandes (2020) explica que o conceito de nacionalidade e de povo são equivalentes, pois ambos são conceitos de viés jurídico, mas são diferentes do conceito de população, que é um conceito geográfico econômico e expressa “o conjunto de habitantes de determinado Estado, sejam eles nacionais ou estrangeiros”. Cada Estado deve legislar sobre a sua própria nacionalidade, respeitando compromissos gerais e particulares aos quais tenha se obrigado. Somente o Estado pode ser outorgante da nacionalidade, sendo que só ele pode determinar quem serão Direitos Sociais | Nacionalidade www.cenes.com.br | 5 seus nacionais, quais as condições de aquisição da nacionalidade, e quais são as causas para sua perda. Observa-se, ainda, que a nacionalidade não é a mesma coisa que cidadania, pois a cidadania é um atributo que diferencia aqueles que possuem pleno gozo dos direitos políticos dos que não possuem esse direito, enquanto a nacionalidade é o que diferencia os nacionais dos estrangeiros, isto é, diferencia aqueles que possuem uma ligação pessoal com o Estado daqueles que não a possuem. Assim, o vínculo da nacionalidade pode se estabelecer tanto com o nascimento do indivíduo, classificada como nacionalidade originária, primária ou nata, ou posteriormente, pela naturalização, chamada de nacionalidade secundária, adquirida ou decorrente de naturalização. É importante ressaltar que não é apenas o nascimento do indivíduo que determina a nacionalidade, mas este agregado de outros elementos, seja pela relação que o Estado entende por suficiente à formação do laço da nacionalidade, pelo nascimento do indivíduo no território de um Estado ou pela ligação de sangue à massa dos nacionais de um Estado (PONTES DE MIRANDA apud TAVARES, 2020). 2.1 Conceitos Correlatos De acordo com Nathalia Masson (2020), o tema da nacionalidade, normatizado no art. 12 da Constituição Federal, é regulamentado pela Lei n. 13.445/2017 (Lei Nova de Migração), a qual revogou a Lei n. 6.815/1980 (Estatuto do Estrangeiro) promovendo uma mudança de paradigma na forma como o estrangeiro é visto. Segundo a autora, “agora estrangeiros são vistos como sujeitos de direitos – e a proteção e bem-estar do migrante, do apátrida e do visitante apresenta-se como o intuito primordial da legislação” (MASSON, 2020). Assim, a autora propõe a definição de alguns termos que considera pertinentes ao estudo da matéria, os quais reproduziremos nesta unidade na coluna a seguir: nação: “designa um agrupamento humano homogêneo cujos membros, localizados em território específico, são possuidores das mesmas tradições, costumes e ideais coletivos”; Direitos Sociais | Nacionalidade www.cenes.com.br | 6 nacionalidade: “vínculo de natureza jurídica (ligação de direito público) que une o indivíduo ao Estado”; povo: “representa o conjunto de nacionais que compõem o elemento humano de um Estado — o povo brasileiro, por exemplo, é o resultado do somatório de brasileiros natos e naturalizados”; população: “representa a totalidade de indivíduos que habitam determinado território, ainda que ali estejam temporariamente, independentemente da nacionalidade”. apátridas (heimatlos): “são aqueles desprovidos de pátria; não detêm com nenhum Estado o vínculo jurídico-político que os converteria em nacionais, uma vez que nãose enquadram nos critérios de aquisição de nacionalidade de Estado algum”. Vale destacar que este fenômeno é, hoje, considerado intolerável, haja vista a nacionalidade ser um direito fundamental das pessoas, assegurado no art. XV da Declaração dos Direitos do Homem. A condição de apátrida viria decorrer de um conflito negativo de nacionalidade quando nenhum Estado o declara como seu nacional. Pode ocorrer quando uma criança, filha de pais de determinada nacionalidade que adota unicamente o critério territorial para concessão de nacionalidade, nasce no domínio geográfico de outro território que reconhece apenas o sistema baseado na ascendência (jus sanguinis) como critério de concessão de nacionalidade. “Esta criança não adquirirá a nacionalidade dos pais, haja vista não ter nascido no território do Estado "B", do qual eles são nacionais, tampouco ganhará a nacionalidade do Estado "A", em cujo território nasceu, por não serem seus pais nacionais dali. Como conclusão, será apátrida”. O fenômeno pode ocorrer, ainda, quando o indivíduo que, em razão da naturalização, perde a nacionalidade de origem, e depois tem sua naturalização cancelada. polipátridas: “São aqueles que, quando do nascimento, se enquadram nos critérios concessivos de nacionalidade originária de mais de um Estado, ocasionando um conflito positivo que normalmente resulta em dupla (ou mesmo múltipla) nacionalidade”. estrangeiro: “indivíduo que possui vínculo jurídico-político com Estado Nacional diverso da República Federativa do Brasil”. cidadão: “o nacional (nato ou naturalizado) no gozo dos direitos políticos e participante da vida do Estado”. imigrante: pessoa nacional de outro país ou apátrida que trabalha ou reside e se estabelece temporária ou definitivamente no Brasil; Direitos Sociais | Nacionalidade www.cenes.com.br | 7 emigrante: brasileiro que se estabelece temporária ou definitivamente no exterior; residente fronteiriço: pessoa nacional de país limítrofe ou apátrida que conserva a sua residência habitual em município fronteiriço de país vizinho; visitante: pessoa nacional de outro país ou apátrida que vem ao Brasil para estadas de curta duração, sem pretensão de se estabelecer temporária ou definitivamente no território nacional. Quadro 1 - Conceitos relacionados à matéria Fonte: Adaptado de MASSON (2020) 2.2 Aquisição da nacionalidade Tradicionalmente, a doutrina distingue a nacionalidade em duas espécies: a) nacionalidade originária (primária ou nata), e b) nacionalidade derivada (secundária ou adquirida). A nacionalidade originária (nata) é aquela que resulta de um fato natural como o nascimento, ou seja, é uma forma involuntária de aquisição de nacionalidade atribuída ao indivíduo em razão de critérios sanguíneos (jus sanguinis), territoriais (jus soli) ou mistos. Já a nacionalidade derivada (secundária) é aquela adquirida por vontade própria após o nascimento, em regra se dá pela naturalização. Figura 1 - Hipóteses de aquisição de nacionalidade Fonte: Adaptado de MORAES (2021) Direitos Sociais | Nacionalidade www.cenes.com.br | 8 2.2.1 Brasileiros natos O art. 12, I, da Constituição Federal disciplina sobre os critérios da nacionalidade, considerando brasileiros natos: a) os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país; b) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil; c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que sejam registrados em repartição brasileira competente ou venham a residir na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira; É importante destacar que o filho de pais estrangeiros que estão um ou outro ou ambos a serviço do seu país em território brasileiro não será considerado brasileiro nato. Note que para aplicação dessa regra, é necessário o cumprimento cumulativo de duas condições: (i) ambos os pais serem estrangeiros e (ii) um deles ou ambos estarem a serviço de seu país. 2.2.2 Brasileiro naturalizado O art. 12, II, CF estabelece os critérios para a aquisição da nacionalidade secundária. De acordo com o texto constitucional serão considerados brasileiros naturalizados: a) os que, na forma da lei, adquiram a nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral (naturalização ordinária); b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade residentes na República Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira (naturalização extraordinária). A aquisição de nacionalidade derivada somente se dará por manifestação do interessado, mediante naturalização. No caso da naturalização ordinária, contudo, o mero cumprimento dos requisitos não é uma garantia da concessão da nacionalidade brasileira, pois este é um ato discricionário do Chefe do Poder Executivo, dependendo Direitos Sociais | Nacionalidade www.cenes.com.br | 9 da sua análise quanto à conveniência e a oportunidade da solicitação. Já no caso de naturalização extraordinária, o Brasil é obrigado a conceder a naturalização se cumprido todos os requisitos. 2.2.3 Português equiparado A Constituição Federal estabelece condições favoráveis para os portugueses ao determinar que estes deverão receber um tratamento igual a de um brasileiro naturalizado, com status de “quase-naturalidade”, como denominado a doutrina. Casalino (2015) comenta que a quase naturalidade se dá quando “o português residente no Brasil, desde que haja reciprocidade, goza do mesmo tratamento dispensado ao brasileiro naturalizado”. Tal direito deverá ser solicitado pelo português e reconhecido pelo Brasil. Para que esse tratamento seja concedido, alguns requisitos precisam ser preenchidos. a) os portugueses deverão ter residência permanente no Brasil; b) os brasileiros deverão receber o mesmo tratamento em Portugal, deve haver reciprocidade entre os dois países. É importante mencionar que este tratamento não se equivale a uma atribuição de nacionalidade aos portugueses que residem no Brasil nem aos brasileiros que residam em Portugal. Ambos continuam com sua nacionalidade originária, porém existe a concessão de direitos inerentes aos nacionais do Estado, não sendo necessária a naturalização de fato. Novamente nos valemos dos preceitos de Casalino (2015) ao afirmar que, “nesse caso, ao contrário do que ocorre nas hipóteses anteriores, o português continua estrangeiro. Não é naturalização. A Constituição determina apenas que a esses portugueses seja conferido o mesmo tratamento que se dá aos brasileiros naturalizados”. 2.3 Cargos privativos de brasileiros natos Segundo o art. 12, §2º, da CF, a lei não poderá fazer distinção entre brasileiros natos e naturalizados, salvo nos casos previstos no texto constitucional. Tirando esse fator, os brasileiros natos e os naturalizados devem ser tratados com isonomia. Direitos Sociais | Nacionalidade www.cenes.com.br | 10 A principal distinção que a Constituição Federal faz entre brasileiros natos e naturalizados diz respeito à ocupação de alguns cargos, que serão privativos de brasileiros natos seja por motivos de segurança nacional ou porque compõem a linha sucessória (e de substituição) presidencial. Nesta esteira, são considerados privativos de brasileiros natos os cargos: ▪ de Presidente e Vice-Presidente da República; ▪ de Presidente da Câmara dos Deputados; ▪ de Presidente do Senado Federal; ▪ de Ministro do Supremo Tribunal Federal; ▪ da carreira diplomática; ▪ de oficial das Forças Armadas; ▪ de Ministro de Estadoda Defesa. A lista do §3º do art. 12 é taxativa, logo os demais cargos que não estão nesta lista podem ser ocupados tanto por brasileiros natos quanto por naturalizados. Por sua vez, os portugueses equiparados não podem ocupar cargos privativos de brasileiros natos, pois eles recebem apenas o tratamento de brasileiros naturalizados. É importante atentar-se ao fato de que todos os Ministros do Supremo Tribunal Federal devem ser brasileiros natos, pois estes se revisam no exercício da presidência do Tribunal. Por outro lado, os Ministros dos demais Tribunais do Poder Judiciário não precisam ser detentores de nacionalidade primária, podendo ser naturalizados. O único Ministro do Estado que deve necessariamente ser brasileiro nato é o Ministro da Defesa. Nathalia Masson (2020) elenca as principais diferenças entre brasileiros natos e naturalizados, nos valemos de seus apontamentos no quadro a seguir. DIFERENÇAS ENTRE BRASILEIROS NATOS E NATURALIZADOS CARGOS (art. 12, § 3º, CF/88) São privativos de brasileiros natos os cargos: 1) de Presidente e Vice-Presidente da República; 2) de Presidente da Câmara dos Deputados; 3) de Presidente do Senado Federal; 4) de Ministro do Supremo Tribunal Federal; Direitos Sociais | Nacionalidade www.cenes.com.br | 11 5) da carreira diplomática; 6) de oficial das Forças Armadas; 7) de Ministro de Estado da Defesa. FUNÇÃO (art. 89, VII, CF/88) São brasileiros natos os seis cidadãos que participam do Conselho da República. PROPRIEDADE (art. 222, CF/88) A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos. EXTRADIÇÃO (art. 5º, LI, CF/88) Somente brasileiros naturalizados poderá ser extraditado em caso de: a) crime comum, praticado antes da naturalização; b) comprovado envolvimento, a qualquer tempo, em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins. Quadro 2 - Diferenças entre brasileiros natos e naturalizados Fonte: MASSON, 2020. 2.4 Extradição A extradição é um processo relativo ao cumprimento de pena por um crime de certa gravidade cometido fora do país. Alguns tratados especificam crimes punidos com pena superior a um ou dois anos de prisão, não se aplicando a extradição a simples contravenções penais. O art. 81 da Lei n. 13.445/2017 (Lei da Migração) estabelece que “a extradição é a medida de cooperação internacional entre o Estado brasileiro e outro Estado pela qual se concede ou solicita a entrega de pessoa sobre quem recaia condenação criminal definitiva ou para fins de instrução de processo penal em curso”, e deverá ser requerida por via diplomática ou pelas autoridades centrais designadas para esse fim. Segundo Accioly, Nascimento e Silva e Casella (2019), “Extradição é o ato mediante o qual um estado entrega a outro estado indivíduo acusado de haver cometido crime de certa gravidade ou que já se ache condenado por aquele, após haver-se certificado de que os direitos humanos do extraditando serão garantidos. A instituição da extradição tem por objetivo principal evitar, mediante a cooperação internacional, que um indivíduo deixe de pagar pelas consequências de crime cometido. Atualmente, a extradição procura garantir ao acusado um julgamento justo, de conformidade com o artigo XI da Declaração Universal dos Direitos do Homem, segundo o qual ‘Todo homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que Direitos Sociais | Nacionalidade www.cenes.com.br | 12 a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa’”. Bernardo Gonçalves Fernandes aponta para duas espécies de extradição, a ativa e a passiva. Ambras estão assentadas no Decreto n. 9.199/2017, que regulamentou a Lei n. 13.445/2017. A extradição ativa, nos arts. 278 ao 280, e a extradição passiva, nos arts. 266 ao 277. ▪ Extradição ativa: “ocorre quando o Estado brasileiro requer a Estado Estrangeiro a entrega de pessoa sobre quem recaia condenação criminal definitiva ou para fins de instrução de processo penal em curso” (art. 278). ▪ Extradição passiva: “ocorre quando o Estado estrangeiro solicita ao Estado brasileiro a entrega de pessoa que se encontre no território nacional sobre quem recaia condenação criminal definitiva ou para fins de instrução de processo penal em curso” (art. 266). A concessão da extradição normalmente ocorre mediante um tratado bi ou multilateral entre as partes. No Brasil, fundamenta-se primariamente no art. 5º, LI e LII, da Constituição Federal e é regulamentada pela Lei de Migração (Lei n. 13.445/2017) e pelo Decreto n. 9.099/2017. Porém, em não havendo um tratado, pode ser concedida mediante declaração de reciprocidade, de acordo com a qual, “ocorrendo crime análogo no país requerido, o país requerente se compromete a conceder a extradição solicitada”. A extradição nunca ocorrerá com brasileiro nato, e no caso de brasileiro naturalizado, obedecerá ao dispositivo do art. 5º, LI da CF, segundo o qual “nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei”. No caso do estrangeiro, será extraditado por qualquer crime cometido fora do país, com exceção de crime político ou crime de opinião (art. 5º, LII, CF). Direitos Sociais | Nacionalidade www.cenes.com.br | 13 2.5 Perda da nacionalidade brasileira Existe previsão constitucional da possibilidade de extinção do vínculo patrial que liga o indivíduo ao Estado. Nos termos do art. 12, § 4º, será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que: ▪ tiver cancelada sua naturalização, por sentença judicial, em virtude de atividade nociva ao interesse nacional; ▪ adquirir outra nacionalidade, salvo nos casos: a) de reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira; b) de imposição de naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em Estado estrangeiro, como condição para permanência em seu território ou para o exercício de direitos civis. O cancelamento de naturalização poderá ser determinado por sentença judicial em virtude de atividade nociva ao interesse nacional e, depois de transitado em julgado, o indivíduo somente poderá readquirir a naturalização por meio de ação rescisória. Neste sentido, comenta Flavia Bahia (2017) que “a ação de cancelamento de naturalização é ajuizada pelo Ministério Público Federal e tramita perante a Justiça Federal, na forma do art. 109, X, da CRFB/88. Após declarada a perda, o ex-brasileiro não poderá enfrentar novo processo administrativo para aquisição de nacionalidade nacional”. A hipótese de perda de nacionalidade por naturalização voluntária diante da aquisição de nova nacionalidade aplica-se tanto a brasileiros natos quanto naturalizados. Caso o indivíduo busque a requisição de nacionalidade brasileira, recuperará a condição que perdera. Ou seja, se era brasileiro nato, voltará a ser brasileiro nato; se era naturalizado, voltará a ser brasileiro naturalizado. Já os brasileiros que tenham sido obrigados a se naturalizar para o exercício dos direitos civis, como casamento ou trabalho, ou como condição de permanência no outro país, manterão intacta a nacionalidade brasileira. Por fim, é oportuno ressaltar que no momento que o brasileiro nato ou naturalizado perde a nacionalidade, ele deixa de ser brasileiro, tornando-se um estrangeiro, Direitos Sociais | Conclusão www.cenes.com.br | 14 portanto mesmo que ele tenha sido brasileiro nato, será tratado como estrangeiro. Ou seja, poderá ser extraditado em casos de crimes cometidos fora do país, como qualquer outro estrangeiro,não devendo receber nenhum tratamento diferenciado. 3 Conclusão Nesta unidade trabalhamos o conceito de nacionalidade, como o vínculo jurídico- político entre o Estado e o indivíduo que o torna membro integrante da comunidade que constitui o Estado, e outros conceitos correlatos e necessários ao estudo da matéria. Falamos, ainda, sobre a aquisição da nacionalidade e a diferença entre os direitos e obrigações dos brasileiros natos, dos naturalizados e dos estrangeiros, bem como sobre as possibilidades de perda do vínculo jurídico-político entre o indivíduo e o Estado. 4 Referências Bibliográficas ACCIOLY, H.; NASCIMENTO E SILVA, G. E.; CASELLA, P. B. Manual de direito internacional público. – 24. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2019. CASALINO, V. Concursos públicos - nível médio e superior - direito constitucional. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. BAHIA, F. Direito Constitucional. – 3. ed. – Recife: Armador, 2017. BARROSO, L. R. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. – 9. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. FERNANDES, B. G. Curso de Direito Constitucional. – 12. ed. – Salvador: Ed. JusPODIVM, 2020. MASSON, Nathalia. Manual de direito constitucional. – 8. ed. – Salvador: JusPODIVM, 2020. MENDES, G. F.; BRANCO, P. G. G. Curso de Direito Constitucional. – 16. ed. – São Paulo: Educação, 2021. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. – 33. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 95, de 15 de dezembro de 2016. São Paulo: Atlas, 2017. Direitos Sociais | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 15 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. – 18. ed. – São Paulo: Saraiva Educação. 2020. SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. – 37. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 76, de 28 de novembro de 2013. São Paulo: Malheiros Editores. 2013. Direitos Sociais | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 16 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 1 DISCIPLINA DIREITOS SOCIAIS CONTEÚDO Direitos Políticos Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 2 A Faculdade Focus se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). A instituição, nem os autores, assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). Atualizações e erratas: este material é disponibilizado na forma como se apresenta na data de publicação. Atualizações são definidas a critério exclusivo da Faculdade Focus, sob análise da direção pedagógica e de revisão técnica, sendo as erratas disponibilizadas na área do aluno do site www.faculdadefocus.com.br. 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Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. http://www.faculdadefocus.com.br/ mailto:tutoria@faculdadefocus.com.br. http://www.faculdadefocus.com.br/ Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 3 Sumário Sumário ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 3 1 Introdução --------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 2 Regimes democráticos ----------------------------------------------------------------------------------- 4 2.1 Democracia contemporânea ------------------------------------------------------------------------------------------ 5 3 Direitos Políticos ------------------------------------------------------------------------------------------- 6 3.1 Direitos Políticos Positivos -------------------------------------------------------------------------------------------- 7 3.1.1 Plebiscito, referendo e iniciativa popular ------------------------------------------------------------------------------------- 8 3.2 Direitos Políticos Negativos ----------------------------------------------------------------------------------------- 10 3.2.1 Elegibilidade ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 10 3.2.2 Inelegibilidade ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 11 3.3 Princípio da Anterioridade Eleitoral ------------------------------------------------------------------------------ 15 3.4 Perda e suspensão dos direitos políticos ------------------------------------------------------------------------ 15 3.4.1 Condenação penal transitada em julgado ---------------------------------------------------------------------------------- 17 3.4.2 Consequências dos atos de improbidade administrativa --------------------------------------------------------------- 17 4 Conclusão --------------------------------------------------------------------------------------------------- 17 5 Referências Bibliográficas ------------------------------------------------------------------------------ 17 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 4 1 Introdução Um dos pilares da democracia representativa no mundo contemporâneo se assenta na soberania popular, isto é, na vontade da maioria, no governo do povo, que se manifesta por meio do voto. Neste sentido, Barroso (2020) afirma que os “Direitos políticos expressam o direito dos cidadãos de participar do governo, elegendo seus representantes (direito de votar ou capacidade eleitoral ativa) ou candidatando-se a cargos representativos (direito de ser votado ou capacidade eleitoral passiva).” Nas palavras de Alexandre de Moraes (2017), os direitos políticos são “o conjunto de regras que disciplina as formas de atuação da soberania popular, conforme preleciona o caput do art. 14 da Constituição Federal. São direitos públicos subjetivos que investem o indivíduo no status activae civitatis, permitindo-lhe o exercício concreto da liberdade de participação nos negócios políticos do Estado, de maneira a conferir os atributos da cidadania”. Dessa forma, sua titularidade é concedida apenas àquelas que possuem nacionalidade brasileira e que satisfaçam os requisitos constitucionais arrolados nos arts. 14 e 15 da CF, os quais podem variar a depender do direito em análise. Esta unidade trabalha os direitos políticos positivos e negativos, conforme elencados no texto constitucional, a perda ou suspensão desses direitos, bem como o princípio da anterioridade eleitoral. 2 Regimes democráticos Os direitos políticos são aqueles que garantem a participação do povo no processo de condução da vida política nacional. Eles são direitos relacionados ao exercício da cidadania e constituem a base do regime democrático. Pedro Lenza (2020) descreve que “os direitos políticos nadamais são que instrumentos por meio dos quais a CF garante o exercício da soberania popular, atribuindo poderes aos cidadãos para interferirem na condução da coisa pública, seja direta, seja indiretamente”. Tendo em vista que os direitos políticos são considerados a base do regime democrático, é importante relembrar as formas pelas quais o “governo do povo” se Direitos Sociais | Regimes democráticos www.cenes.com.br | 5 manifesta. Assim, tradicionalmente, a democracia pode ser classificada em três formas: a) Democracia direta: é o regime no qual o povo exerce o poder de forma direta, sem intermediários ou representantes; b) Democracia representativa ou indireta: regime que depende da eleição de representantes, que governam o país em nome do povo; c) Democracia semidireta ou participativa: regime no qual o povo tanto exerce o poder diretamente como também o faz por meio de representantes, é um sistema híbrido, que envolve a união da democracia direta e indireta. Esse é o regime democrático adotado no Brasil. Conforme Pedro Lenza (2020), “A democracia participativa ou semidireta assimilada pela CF/88 (arts. 1.º, parágrafo único, e 14) caracteriza-se, portanto, como a base para que se possa, na atualidade, falar em participação popular no poder por intermédio de um processo, no caso, o exercício da soberania, que se instrumentaliza por meio do plebiscito, referendo, iniciativa popular, bem como pelo ajuizamento da ação popular”. 2.1 Democracia contemporânea Além das três formas consagradas de democracia, Luís Roberto Barroso (2020), ao discorrer sobre o estado da arte do direito constitucional contemporâneo, em especial sobre os papeis desempenhados pelas supremas cortes e tribunais constitucionais, lança um olhar sobre a democracia contemporânea. Segundo o jurista, “A democracia contemporânea é feita de votos, direitos e razões, o que dá a ela três dimensões: representativa, constitucional e deliberativa”. Essas dimensões se caracterizam da seguinte forma: a) Democracia representativa: seu elemento essencial é o voto popular, por meio do qual são eleitos os protagonistas institucionais (o Congresso e o Presidente). b) Democracia constitucional: seu elemento essencial é o respeito aos direitos fundamentais, os quais deverão ser garantidos mesmo quando contrários à vontade eventual das maiorias políticas. “O árbitro final das tensões entre vontade da maioria e direitos fundamentais e, portanto, protagonista institucional desta dimensão da democracia, é a Suprema Corte”. c) Democracia deliberativa: seu elemento essencial é “o oferecimento de razões, a discussão de ideias, a troca de argumentos”, não se limitando ao voto periódico, mas tornando o debate público contínuo como prática a acompanhar as decisões Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 6 políticas mais relevantes. “O protagonista da democracia deliberativa é a sociedade civil, em suas diferentes instâncias, que incluem o movimento social, imprensa, universidades, sindicatos, associações e cidadãos comuns. Embora o oferecimento de razões também possa ser associado aos Poderes Legislativo e Executivo, o fato é que eles são, essencialmente, o locus da vontade, da decisão política. No universo do oferecimento de razões, merecem destaque os órgãos do Poder Judiciário: a motivação e a argumentação constituem matéria prima da sua atuação e fatores de legitimação das decisões judiciais. Por isso, não deve causar estranheza que a Suprema Corte, por exceção e nunca como regra geral, funcione como intérprete do sentimento social. Em suma: o voto, embora imprescindível, não é a fonte exclusiva da democracia e, em certos casos, pode não ser suficiente para concretizá-la”. 3 Direitos Políticos Os direitos políticos estão dispostos no art. 14 da Constituição Federal, o qual prevê o exercício da soberania popular por meio do sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, que terá valor igual para todos e ocorrerá mediante plebiscito, referendo e iniciativa popular. Segundo Casalino (2015), “o ‘direito de sufrágio’ é a noção fundamental dos direitos políticos. Decorre diretamente do princípio de que “todo poder emana do povo”. Pode ser resumido como o direito público subjetivo, de natureza política, que tem o cidadão, de votar, ser votado e participar da organização e atividade política do poder estatal”. Além disso, são também meios de exercício da soberania popular, segundo Alexandre de Moraes (2020), o ajuizamento de ação popular e organização e participação de partidos políticos. Dessa forma, podemos relacionar os direitos políticos em: ▪ direitos de sufrágio; ▪ alistabilidade (direito de votar em eleições, plebiscitos e referendos); ▪ elegibilidade; ▪ iniciativa popular de lei; ▪ ação popular; ▪ organização e participação de partidos políticos. Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 7 Quanto à classificação dos direitos políticos, podem ser de duas espécies: a) direitos políticos positivos (ativos), que estão relacionados à participação ativa dos indivíduos na vida política do Estado, tal como o direito de votar; e b) direitos políticos negativos (passivos), que estão relacionados à limitação do exercício da cidadania, que impedem a participação dos indivíduos na vida política estatal, tal como o direito de ser votado. 3.1 Direitos Políticos Positivos Os direitos políticos positivos (ativos) referem-se ao direito de votar e ser votado, logo estão relacionados à participação ativa dos indivíduos na vida política do Estado. Relacionam-se a capacidade eleitoral ativa (alistabilidade) e passiva (elegibilidade) dos indivíduos, sendo apenas um outro modo de definir o direito de sufrágio, que é considerado o núcleo dos direitos políticos. Bernardo Gonçalves Fernandes esclarece que a capacidade eleitoral ativa, que pode ser traduzida no direito de votar, consubstancia a democracia representativa na medida em que podemos escolher os mandatários dos cargos públicos eletivos. Nos termos do art. 14 da CF, exercício do sufrágio ativo pressupõe: o alistamento eleitoral na forma da lei; a nacionalidade brasileira; a idade mínima de 16 anos; e não ser conscrito durante o serviço militar obrigatória. No Brasil, é possível adquirir a capacidade eleitoral ativa por meio de inscrição junto a Justiça Eleitoral (depende, portanto, do alistamento eleitoral) a pedido do interessado. A qualidade de eleitor imputa ao indivíduo a condição de cidadão, o que o torna apto a exercer vários outros direitos políticos, como o de ajuizar ação popular ou participar da iniciativa popular de leis. O alistamento eleitoral e o voto são obrigatórios para os maiores de dezoito anos; e facultativos para os analfabetos; os maiores de setenta anos; os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos, ficando impedidos de alistar-se como eleitores os estrangeiros e os conscritos (aqueles que estão prestando serviço militar obrigatório). Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 8 Figura 1 - Requisitos para elegibilidade Fonte: Núcleo Editorial Focus Quanto à capacidade eleitoral passiva, Pedro Lenza (2019) explica que “nada mais é que a possibilidade de eleger-se, concorrendo a um mandato eletivo. O direito de ser votado, no entanto, só se torna absoluto se o eventual candidato preencher todas as condições de elegibilidade para o cargo ao qual se candidata e, ainda, não incidir em nenhum dos impedimentos constitucionalmente previstos, quais sejam, os direitos políticos negativos”. 3.1.1 Plebiscito, referendo e iniciativa popular Tanto o plebiscito como o referendo são formas de consulta à população, contudo o plebiscito é uma consulta anterior, enquanto o referendo é uma consulta posterior. Além disso, o plebiscito será convocado pelo Congresso Nacional, já oreferendo apenas será autorizado pelo Congresso Nacional. Nos valemos da explicação de Pedro Lenza (2021) para explicar essas duas formas de consulta. Conceito Congresso nacional (competência exclusiva) Instrumento para convocar plebiscito e autorizar referendo Principal diferença – momento da consulta Plebiscito Consulta formulada ao povo, efetivando-se em relação àqueles que Art. 49, XV – convoca plebiscito Decreto legislativo Prévia – o plebiscito é convocado com Voto OBRIGATÓRIO Maiores de 18 anos Voto FACULTATIVO Maiores de 70 anos Analfabetos Maiores de 16 anos e menores de 18 anos Voto VEDADO Estrangeiros Durante o serviço militar obrigatório, conscritos Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 9 tenham capacidade eleitoral ativa, para que deliberem sobre matéria de acentuada relevância, de natureza constitucional, legislativa ou administrativa anterioridade a ato legislativo ou administrativo, cabendo ao povo, pelo voto, aprovar ou denegar o que lhe tenha sido submetido Referendo Consulta formulada ao povo, efetivando-se em relação àqueles que tenham capacidade eleitoral ativa, para que deliberarem sobre matéria de acentuada relevância, de natureza constitucional, legislativa ou administrativa. Art. 49, XV – autoriza referendo Decreto legislativo Posterior – o referendo é convocado com posterioridade a ato legislativo ou administrativo, cumprindo ao povo a respectiva ratificação ou refeição. Quadro 1 - Quadro comparativo: plebiscito versus referendo Fonte: LENZA, 2021 É importante destacar que nem todos os atos serão levados a consulta pelo plebiscito ou referendo, somente atos legislativos ou administrativos; atos judiciais nunca serão levados a consulta. Além disso, como afirma Mendes (2021), “a realização de plebiscito e referendo dependerá de autorização do Congresso Nacional (CF, art, 49), executados os casos expressamente previstos na Constituição (CF, art. 18, §§ 3º e 4º), para alteração territorial de Estados e Municípios, e no art. 2º do ADCT, sobre a forma e o sistema de governo”. O diploma que regulamenta a execução do plebiscito e do referendo é a Lei n. 9.709/98. De acordo com o art. 3º, “nas questões de relevância nacional, de competência do Poder Legislativo ou do Poder Executivo, e no caso do § 3º do art. 18 da Constituição Federal, o plebiscito e o referendo são convocados mediante decreto legislativo, por proposta de um terço, no mínimo, dos membros que compõem qualquer das Casas do Congresso Nacional, de conformidade com esta Lei”. O outro instrumento de participação popular direta é a iniciativa popular de lei, que Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 10 remete à possibilidade de os cidadãos deflagarem processo legislativo apresentando projeto de lei complementar e ordinária, desde que satisfaçam os requisitos constitucionais. O art. 61, §2º, CF estabelece que “a iniciativa popular pode ser exercida pela apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles. Além disso, A iniciativa popular nos Estados e no Distrito Federal deverá estar regulamentada por Lei Complementar e pela Constituição Estadual. No caso de iniciativa popular de projetos de lei de interesse específico do município, da cidade ou de bairros, ocorrerá através de manifestação de, pelo menos, cinco por cento dos eleitorados da cidade. O projeto de iniciativa popular terá o mesmo trâmite de um projeto de lei normal. Deverá ser iniciado na Câmara, ter comissões, plenário, podendo ou não ser aprovado. Os deputados não estão obrigados a aprovar um projeto de lei de iniciativa popular, porém estão obrigados a apreciá-lo. De acordo com Casalino (2015), “a iniciativa popular de lei permite aos cidadãos influenciarem diretamente no processo legislativo, que, a princípio, pertence exclusivamente aos deputados, senadores e ao Presidente da República”. 3.2 Direitos Políticos Negativos Os direitos políticos negativos são aqueles relacionados à elegibilidade, são normas que limitam o exercício do sufrágio, restringindo a participação do indivíduo na vida política do Estado. Os direitos políticos negativos são divididos em duas espécies: elegibilidade e inelegibilidade. Pedro Lenza (2019) explica que “ao contrário dos direitos políticos positivos, os direitos políticos negativos individualizam-se ao definirem formulações constitucionais restritivas e impeditivas das atividades político- partidárias, privando o cidadão do exercício de seus direitos políticos, bem como impedindo-o de eleger um candidato (capacidade eleitoral ativa) ou de ser eleito (capacidade eleitoral passiva)”. 3.2.1 Elegibilidade A elegibilidade se refere ao cumprimento dos requisitos necessários para adquirir a Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 11 capacidade eleitoral passiva, estando estes requisitos dispostos no art. 14, §3º, CF/88. São eles: • a nacionalidade brasileira; • o pleno exercício dos direitos políticos; • o alistamento eleitoral; • o domicílio eleitoral na circunscrição; • a filiação partidária; • a idade mínima de 35 anos para Presidente e Vice-Presidente da República e Senador; 30 anos para Governador e Vice-Governador de Estado e do Distrito Federal; 21 anos para Deputado Federal, Deputado Estadual ou Distrital, Prefeito, Vice-Prefeito e juiz de paz; 18 anos para Vereador. Figura 2 - Condições de elegibilidade Fonte: Núcleo Editorial Focus 3.2.2 Inelegibilidade A inelegibilidade diz respeito aos impedimentos para à capacidade eleitoral passiva. A Constituição Federal estabelece algumas hipóteses de inelegibilidade no art. 14, §4º ao §7º e, além disso, autoriza expressamente que outras hipóteses sejam estabelecidas CONDIÇÕES DE ELEGIBILIDADE Nacionalidade brasileira Pleno exercício dos direitos políticos Alistamento eleitoral Domicílio eleitoral na circunscrição Filiação Partidária Idade mínima Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 12 me lei complementar. A inelegibilidade por ser dividida em dois grandes grupos: ▪ Inelegibilidades absolutas: são regras que impedem completamente a candidatura e o exercício de qualquer cargo político, tem relação com características pessoais do indivíduo e estão previstas de forma taxativa na CF, não podendo ser criada inelegibilidades absolutas por lei complementar. ▪ Inelegibilidades relativas: são regras que impedem a candidatura a certos cargos políticos em virtude de situações específicas previstas na CF ou em lei complementar. Não são vinculadas a condições pessoais, por isso não é um impedimento absoluto, podendo o indivíduo se candidatar a outros cargos. São absolutamente inelegíveis, conforme dispõe o art. 14. §4º, os inalistáveis e os analfabetos. Já as inelegibilidades relativas estão descritas no art. 14, §§ 5º ao 8º da CF, além daquelas previstas em lei complementar. Podem ser sintetizadas conforme dispõe o quadro a seguir. Figura 3 - Hipóteses de inelegibilidade Fonte: Núcleo Editorial Focus Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 13 3.2.2.1 Inelegibilidade por motivos funcionais De acordo com o art. 14, § 5º, CF, os Chefes do Poder Executivo só podem se reeleger uma única vez (“O Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido ou substituído no curso dos mandatos poderão ser reeleitos para um único período subsequente”). É importante ressaltar que é completamente possível que alguém cumpra três ou mais mandatos como Chefe do Poder Executivo,desde que estes não sejam consecutivos. Além disso, caso o Presidente, o Governador ou o Prefeito queiram se candidatar a outro cargo, poderão fazê-lo desde que observado o disposto no art. 14, §6º da CF, segundo o qual, “para concorrerem a outros cargos, o Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal e os Prefeitos devem renunciar aos respectivos mandatos até seis meses antes do pleito”. Este dispositivo descreve a chamada “desincompatibilização”, com o objetivo de impedir que o Chefe do Poder Executivo se utilize da “máquina pública” para se eleger a um outro cargo. Observe- se que essa exigência só é necessária caso o Chefe do Poder Executivo queria se candidatar a outro cargo, caso queira se reeleger ao mesmo cargo, a desincompatibilização não é necessária. Vale pontuar que o Vice-Presidente, Vice- Governador e o Vice-Prefeito poderão concorrer normalmente a outros cargos, podendo continuar em seus mandatos atuais, desde que nos últimos seis meses anteriores ao pleito não tenham sucedido ou substituído o titular. 3.2.2.2 Inelegibilidade reflexa A inelegibilidade reflexa diz respeito à inelegibilidade por motivo de parentesco, casamento ou afinidade, e está prevista no art. 14, §7º da CF. É reflexa porque afeta a elegibilidade de terceiros que tenham alguma relação com a pessoa que ocupa um cargo de Chefe do Poder Executivo: “são inelegíveis, no território de jurisdição do titular, o cônjuge e os parentes consanguíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do Presidente da República, de Governador de Estado ou Território, do Distrito Federal, de Prefeito ou de quem os haja substituído dentro dos seis meses anteriores ao pleito, salvo se já titular de mandato eletivo e candidato à reeleição”. Isso significa que os cônjuges, parentes e afins, até o segundo grau, ou por adoção, Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 14 de Prefeito não poderão se candidatar a nenhum cargo dentro daquele Município (Vereador, Prefeito e Vice-Prefeito). No caso do Governador, os cônjuges, parentes e afins, até o segundo grau, ou por adoção, não poderão se candidatar a nenhum cargo dentro daquele Estado. Isso inclui os cargos de Vereador, Prefeito e Vice-Prefeito (de qualquer dos Municípios daquele estado), bem como os cargos de Deputado Federal, Deputado Estadual e Senador, por aquele estado. E os cônjuges, parentes e afins, até o segundo grau, ou por adoção, de Presidente não poderão se candidatar a nenhum cargo eletivo no País. Segundo o STF, a inelegibilidade reflexa alcança também aqueles que tenham constituído união estável com o Chefe do Poder Executivo, inclusive no caso de uniões homoafetivas. Em caso de separação, quando ocorrida durante o mandato, não afasta a inelegibilidade reflexa. É o que determina o STF na Súmula Vinculante nº 18: “A dissolução da sociedade ou do vínculo conjugal, no curso do mandato, não afasta a inelegibilidade prevista no § 7º do artigo 14 da Constituição Federal”. A inelegibilidade reflexa não se aplica, contudo, no caso de o cônjuge, parente ou afim já possuir mandato eletivo; nessa situação, será possível que estes se candidatem à reeleição, mesmo se ocuparem cargos dentro da circunscrição do Chefe do Poder Executivo. Esta é a exceção. 3.2.2.3 Inelegibilidade relativa à condição militar A constituição Federal (art. 14, § 8º) determina os militares alistáveis são elegíveis, desde que atendidas as seguintes condições: Figura 4 - Elegibilidade do militar Fonte: Núcleo Editorial Focus Menos de 10 anos de serviço Deverá ser fastado da atividade (exoneração) Mais de 10 anos de serviço Será agregado (congelado) pela autoridade superior e, se eleito, passará automaticamente, no ato da diplomação, para a inatividade (aposentadoria). Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 15 De acordo com o § 9º do art. 14, CF, “lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para o exercício do mandato, considerada a vida pregressa do candidato, e a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta”. 3.3 Princípio da Anterioridade Eleitoral O art. 16 da Constituição Federal nos traz o princípio da anterioridade eleitoral, segundo o qual “a lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência”. Na prática, isso quer dizer que a lei eleitoral tem vigência ou força de lei imediata, devendo ser aplicada imediatamente assim que publicada, porém produzirá efeitos apenas em momento futuro, isso quer dizer que não se aplica à eleição que ocorrer até um ano da data de sua vigência. Um exemplo é o caso da “Lei Ficha Limpa”, que entrou em vigor em 2010, porém não foi aplicada nas eleições realizadas em 2010. O STF considera que o princípio da anterioridade eleitoral é uma cláusula pétrea. 3.4 Perda e suspensão dos direitos políticos O art. 15 da Constituição Federal prevê hipóteses de privação dos direitos políticos, que poderá se dar de maneira definitiva (perda) ou temporária (suspensão). É importante ressaltar que a CF, em resposta à ditadura que a precedeu, não permite, em nenhuma hipótese, a cassação dos direitos políticos. A esse entendimento corrobora Casalino (2015), afirmando que as hipóteses de perda e suspensão dos direitos políticos são exemplos de direitos políticos negativos “na medida em que restringem a participação do cidadão no processo de decisão política do país”, e que enquanto os institutos da perda e suspensão são permitidos pela Constituição Federal, a cassação, por sua vez, é terminantemente proibida, pois Direitos Sociais | Direitos Políticos www.cenes.com.br | 16 “significa a retirada dos direitos políticos sem a observância dos princípios e garantias fundamentais, em especial as prerrogativas inerentes ao contraditório e à ampla defesa”. Segundo o texto constitucional, a perda ou suspensão dos direitos políticos só se dará nos casos de: ▪ cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado; ▪ incapacidade civil absoluta; ▪ condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos; ▪ recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, nos termos do art. 5º, VIII; ▪ improbidade administrativa, nos termos do art. 37, § 4º. A Constituição não exemplifica quais são os casos de perda e quais são os casos de suspensão dos direitos políticos, porém a doutrina faz a diferenciação entre esses dois institutos esclarecendo que a perda se dá por prazo indeterminado, de modo que a reaquisição dos direitos políticos não é automática após a cessação da causa; já a suspensão pode se dar tanto por prazo determinado quanto por prazo indeterminado, e a reaquisição é automática. Neste sentido, a perda está presente nos incisos I e IV do art. 15, CF, enquanto a suspensão encontra-se nos demais incisos. Figura 5 - Perda e suspensão dos direitos políticos Fonte: Núcleo Editorial Focus dos direitos políticos Cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado. Recusa de cumprimento de obrigação imposta ou prestação alternativa, nos termos do art. 5º, VIII, CF/88. dos direitos políticos Incapacidade civil absoluta. Condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos. Improbidade administrativa, nos termos do art. 37, §4º, CF/88. Direitos Sociais | Conclusão www.cenes.com.br | 17 3.4.1 Condenação penal transitada em julgado No caso de condenação criminal transitada em julgado (de qualquer tipo), a suspensão dos direitos políticos é imediata, implicando naimediata perda do mandato eletivo. Trata-se, segundo o STF, de norma autoaplicável, que independe, para sua imediata incidência, de qualquer ato de intermediação legislativa. De acordo com Bernardo Gonçalves Fernandes (2020), “com a condenação, os direitos políticos serão suspensos até a extinção da punibilidade (portanto, mesmo que exista a suspensão condicional da pena, ou seja, sursis, ele permanecerá com os direitos políticos suspensos)”. 3.4.2 Consequências dos atos de improbidade administrativa Segundo o art. 37, §4º, os atos de improbidade administrativa resultarão na perda do mandato e na suspensão dos direitos políticos. Porém a perda do mandato não se aplica a membro do Congresso Nacional, pois, por determinação do art. 55, §2º, CF, a perda do mandato será decidida pela casa a que pertencer o congressista, por maioria absoluta, mediante provocação da respectiva mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa. 4 Conclusão Nesta unidade vimos que os direitos políticos traduzem os direitos dos cidadãos de participar do governo, elegendo, por meio do voto, seus representantes ou candidatando-se a cargos representativos. Entendemos que esse direito é concedido àqueles que possuem nacionalidade brasileira e que satisfaçam os requisitos constitucionais arrolados nos arts. 14 e 15. Por fim, falamos sobre as espécies de direitos políticos, o princípio da anterioridade eleitoral e as hipóteses de perda ou suspensão dos direitos políticos. 5 Referências Bibliográficas CASALINO, V. Concursos públicos - nível médio e superior - direito constitucional. Direitos Sociais | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 18 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2015 BAHIA, F. Direito Constitucional. – 3. ed. – Recife: Armador, 2017. BARROSO, L. R. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. – 9. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. FERNANDES, B. G. Curso de Direito Constitucional. – 12. ed. – Salvador: Ed. JusPODIVM, 2020. LENZA, P. Direito Constitucional. – 25. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2021. MENDES, G. F.; BRANCO, P. G. G. Curso de Direito Constitucional. – 16. ed. – São Paulo: Educação, 2021. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. – 33. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 95, de 15 de dezembro de 2016. São Paulo: Atlas, 2017. TAVARES, A. R. Curso de direito constitucional. – 18. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. Direitos Sociais | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 19 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 1 DISCIPLINA DIREITOS SOCIAIS CONTEÚDO Partidos Políticos Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 2 A Faculdade Focus se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). A instituição, nem os autores, assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). Atualizações e erratas: este material é disponibilizado na forma como se apresenta na data de publicação. Atualizações são definidas a critério exclusivo da Faculdade Focus, sob análise da direção pedagógica e de revisão técnica, sendo as erratas disponibilizadas na área do aluno do site www.faculdadefocus.com.br. É missão desta instituição oferecer ao acadêmico uma obra sem a incidência de erros técnicos ou disparidades de conteúdo. Caso ocorra alguma incorreção, solicitamos que, atenciosamente, colabore enviando críticas e sugestões, por meio do setor de atendimento através do e-mail tutoria@faculdadefocus.com.br. © 2021, by Faculdade Focus Rua Maranhão, 924 - Ed. Coliseo - Centro Cascavel - PR, 85801-050 Tel: (45) 3040-1010 www.faculdadefocus.com.br Este documento possui recursos de interatividade através da navegação por marcadores. Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. http://www.faculdadefocus.com.br/ mailto:tutoria@faculdadefocus.com.br. http://www.faculdadefocus.com.br/ Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 3 Sumário Sumário ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 3 1 Introdução --------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 2 Origem dos partidos políticos -------------------------------------------------------------------------- 4 2.1 Sistemas partidários----------------------------------------------------------------------------------------------------- 6 3 Conceito ------------------------------------------------------------------------------------------------------ 7 3.1 Liberdade Partidária ---------------------------------------------------------------------------------------------------- 7 3.2 Criação dos partidos políticos ---------------------------------------------------------------------------------------- 9 4 Coligações -------------------------------------------------------------------------------------------------- 10 4.1 Controle de qualidade ------------------------------------------------------------------------------------------------ 11 4.2 Fidelidade partidária -------------------------------------------------------------------------------------------------- 11 5 Conclusão --------------------------------------------------------------------------------------------------- 14 6 Referências Bibliográficas ------------------------------------------------------------------------------ 14 Direitos Sociais | Introdução www.cenes.com.br | 4 1 Introdução No contexto da democracia, os partidos políticos exercem uma função essencial por meio da qual o povo delibera sobre o exercício do poder; são instrumentos de intermediação entre o povo e seus representantes, entre a sociedade e o Estado, e essenciais à produção da vontade política e o exercício da soberania popular. Nos termos de Gilmar Ferreira Mendes (2021), os partidos políticos “exercem função de mediação entre o povo e o Estado no processo de formação da vontade política, especialmente no que concerne ao processo eleitoral. Mas não somente durante essa fase ou período. O processo de formação de vontade política transcende o momento eleitoral e se projeta para além desse período. Enquanto instituições permanentes de participação política, os partidos desempenham função singular na complexa relação entre o Estado e a sociedade. Na mesma esteira, Jose Afonso da Silva afirma que o partido político “é uma forma de agremiação de um grupo social que se propõe organizar, coordenar e instrumentar a vontade popular com o fim de assumir o poder para realizar seu programa de governo”. Dada a pertinência do conteúdo, abordaremos, nesta unidade, algumas das questões mais relevantes sobre os partidos políticos em matéria de direitos sociais. 2 Origem dos partidos políticos De acordo com José Afonso Da Silva (2013), os partidos políticos, originados primariamente da criação de grupos parlamentares seguida da aparição de comitês eleitorais, firmaram-se como instituições políticas indispensáveis na estrutura do Estado contemporâneo à medida em que se deu a universalização do sufrágio. O autorexplica como, incialmente, os grupos partidários constituíam apenas facções em favor de uma situação ou força política. No Brasil, por exemplo, há menção em discurso na Assembleia Constituinte do Império de facções que se posicionavam quanto à independência: Eram partidários da Independência, separatistas e não separatistas. Os partidários da Independência distribuíram-se em quatro grupos: (a) os corcundas, queriam-na, mas não Direitos Sociais | Origem dos partidos políticos www.cenes.com.br | 5 liberdade; (b) os monárquicos-constitucionalistas, não queriam nem a democracia nem o despotismo, mas liberdade com estabilidade; (c) os republicanos, de pouca expressão; (d) os federalistas, que "não queriam ser monárquicos-constitucionalistas, nem podiam ser corcundas, mas queriam ser republicanos de várias repúblicas. Foram essas forças, que passaram a ser representadas e organizadas em grupos e facções que lutavam por suas reivindicações, que deram surgimento às formações partidárias e tornaram os partidos políticos uma realidade social e política. Gilmar Ferreira Mendes (2021) explica, ainda, que a partir de 1831 duas forças políticas se organizaram sob a Constituição do Império (1824), o Partido Liberal e o Partido Conservador (1837-1838), os quais dominaram a cena política e o Segundo Império. Na sequência, entre 1862 e 1864, constitui-se o Partido Progressista e, em 1870, o Partido Republicano. No que tange à criação de leis eleitorais nesse período, ocorreu da seguinte maneira: ▪ 1846: promulgação da primeira lei eleitoral, que vigorou até 1855. “Essa lei previa que cada Província constituiria uma circunscrição eleitoral e o candidato a deputado poderia ser votado pelo eleitor domiciliado em qualquer lugar da Província” e adotava o sistema de círculos (distritos eleitorais), no qual pelo voto da maioria dos eleitores, elegia-se um representando (MENDES); ▪ 1860: criação do distrito de três deputados; ▪ 1875: adoção da Lei dos Dois Terços (possibilidade de o eleitor votar em 2/3 dos candidatos à vaga); ▪ 1881: adoção da Lei Saraiva, que adotou a eleição direta para deputados; ▪ 1891: consagração do sufrágio universal, direto e descoberto, mediante assinatura do eleitor perante as mesas eleitorais. Para José Afonso da Silva (2013), esse sistema “impedia o desenvolvimento da liberdade do voto, sujeitava o voto das camadas dependentes à vontade dos titulares reais dos poderes locais, os coronéis, e possibilitava a fraude eleitoral e a falsificação das atas eleitorais.” Em 1930 surgia o Partido Comunista Brasileiro, bem como outros grupos que preconizaram a Aliança Integralista Brasileira, e apesar de a Constituição de 1934 prever “que a Câmara dos Deputados seria composta de representantes do povo, eleitos mediante sistema proporcional e sufrágio universal, igual e direto, e de Direitos Sociais | Origem dos partidos políticos www.cenes.com.br | 6 representantes eleitos pelas organizações profissionais”, esse modelo não foi implementado em razão do Golpe de Estado em 1937. Finda a ditadura, surgiram alguns partidos com a convocação de novas eleições parlamentares dada pelo Decreto-Lei n. 7.586/1945. São eles: a União Democrática Nacional (UDN); o Partido Social Democrático (PSD); o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB); o Partido Comunista Brasileiro (PCB); o Partido Democrata Cristão (PDC) e o Partido Libertador (PL). Contudo, a promulgação da Lei Orgânica dos Partidos Políticos (Lei n. 4.740/1965) fixou critérios mais rigorosos para a criação de novas agremiações e, em 1965, pelo Ato Inconstitucional n. 2, foram extintos os partidos políticos existentes. Mais adiante, o Ato Complementar n. 4/1965 impôs o bipartidarismo no Brasil, de modo que as forças políticas se aglutinassem em dois partidos: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), em apoio ao governo, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), como oposição. Em 1979, a Lei n. 6.767 extinguiu o modelo bipartidário dando início à reorganização dos partidos (MENDES, 2021). 2.1 Sistemas partidários Quanto à classificação dos partidos, atualmente falamos em partidos de esquerda, partidos de centro, partidos de direita e nas combinações entre eles. Este esquema toma como ponto de referência a ordem econômico-social existente, e não as posições subjetivas. As correntes partidárias que se formam em decorrência da representatividade dessas várias situações, “conforme predominância ou equilíbrio de umas e outras”, deram margem ao surgimento dos sistemas de partidos políticos que, “segundo lição de Duverger, consistem nas formas e modalidades de coexistência de diversos partidos em um país”, ou seja, nos “diferentes modos de organização partidária de um país”, que são: a) de partido único, ou unipartidário (unipartidarismo); b) de dois partidos (bipartidarismo); c) de três, quatro ou mais partidos, ou sistema pluripartidário ou multipartidário (pluripartidarismo, multipartidarismo). No Brasil, o sistema partidário adotado é o pluripartidário, conforme expressa o art. 17 da CF, “É livre a criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos, Direitos Sociais | Conceito www.cenes.com.br | 7 resguardados a soberania nacional, o regime democrático, o pluripartidarismo, os direitos fundamentais da pessoa humana [...]”. 3 Conceito Na definição de Flavia Bahia (2017), “os partidos políticos são associações de pessoas com ideologias ou interesses comuns, que mediante uma organização estável, influenciam a orientação política de um país”. Para Ingo Wolfgang Sarlet (2019), os partidos políticos constituem o “meio por excelência de exercício da democracia representativa”, pois correspondem a uma forma específica de exercício da liberdade de associação. Para José Afonso da Silva (2007), “o partido político é uma forma de agremiação de um grupo social que se propõe organizar, coordenar e instrumentar a vontade popular com o fim de assumir o poder para realizar seu programa de governo”. Os partidos políticos adquirem personalidade jurídica na forma da lei civil, portanto são pessoas de direito privado, e devem, por conseguinte, registrar seus estatutos no Tribunal Superior Eleitoral, conforme assenta o art. 17, § 2º, da CF e o art. 7º, caput, da Lei n. 9.096/1995, e têm como função, nos termos da lei, assegurar, resguardados a soberania nacional, o regime democrático e o pluripartidarismo, a autenticidade do sistema representativo e defender os direitos fundamentais da pessoa humana. Por outro lado, a doutrina entende que para além disso é função fundamental dos partidos políticos “organizar a vontade popular e exprimi-la na busca do poder, visando a aplicação de seu programa de governo. Por isso, todo partido político deveria estruturar-se à vista de uma ideologia definida e com um programa de ação destinado à satisfação dos interesses do povo” (SILVA, 2013). 3.1 Liberdade Partidária O art. 17 do texto constitucional assegura a livre a criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos, firmando, com isso, a liberdade de organização partidária. Direitos Sociais | Conceito www.cenes.com.br | 8 Assim, os partidos políticos possuem autonomia para definir suas estruturas internas e estabelecer regras sobre escolha, formação e duração de seus órgãos permanentes e provisórios e sobre sua organização e funcionamento. Possuem, ainda, autonomia para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações nas eleições majoritárias. Contudo fica vedada a sua celebração nas eleições proporcionais, sem obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional, estadual, distrital ou municipal, devendo seus estatutos estabelecer normas de disciplina e fidelidade partidária (art. 17, § 1º, CF). Essa liberdade, segundo Casalino (2015), é fundamental para que os partidos cumprambem suas funções e objetivos. No entanto, é importante enfatizar que essa autonomia não poderá ser realizada sem observância dos princípios básicos assentados na Constituição Federal vinculados ao respeito à soberania nacional, o pluripartidarismo, o regime democrático e os direitos fundamentais da pessoa humana, além da obediência aos preceitos previstos no art. 17, I ao IV da CF): a) ter caráter nacional: somente serão reconhecidos como partidos políticos aqueles que tiverem repercussão em todo território do país, cujas propostas englobarem o interesse de toda a nação. Essa exigência visa a proteção ao Estado Democrático de Direito, evitando que os partidos se concentrem em projetos regionais ou meramente locais. Conforme firmou o art. 7º, § 1º da Lei n. 9.096/1995, só é admitido o registro do estatuto de partido político que tenha caráter nacional, considerando-se como tal aquele que comprove, no período de dois anos, o apoiamento de eleitores não filiados a partido político, correspondente a, pelo menos, meio por cento dos votos dados na última eleição geral para a Câmara dos Deputados, não computados os votos em branco e os nulos, distribuídos por um terço, ou mais, dos Estados, com um mínimo de um décimo por cento do eleitorado que haja votado em cada um deles. b) não receber recursos financeiros de entidade ou governo estrangeiros ou subordinar-se a estes: para garantir a proteção à soberania nacional, os partidos ficam proibidos de receber recursos financeiros de entidades ou governos estrangeiros ou subordinar-se a estes, sob pena de cassação de registro. c) prestar contas à Justiça Eleitoral: os partidos passarão por uma espécie de fiscalização financeira, prestando contas à Justiça Eleitoral de qualquer recurso Direitos Sociais | Conceito www.cenes.com.br | 9 que venham a receber, sejam eles oriundos do fundo partidário ou do fundo de doações, afastando, assim, o abuso do poder econômico, em observância ao princípio da moralidade pública. d) ter funcionamento parlamentar de acordo com a lei: esta exigência deriva do princípio da legalidade. A lei define critérios e exigências que devem ser cumpridos para o funcionamento dos partidos políticos. e) não utilizar partidos políticos como estruturas paramilitares: o art. 6º da Lei n. 9.096/1995 dispõe que é “vedado ao partido político ministrar instrução militar ou paramilitar, utilizar-se de organização da mesma natureza e adotar uniforme para seus membros”. Conforme aponta Walber de Moura Angra (2018), “um dos fundamentos da democracia é a convivência pacífica dos vários grupos políticos existentes, e os partidos estruturados com caráter paramilitar estimulariam a violência e impediriam o livre debate de ideias”. Conforme explica Gilmar Ferreira Mendes (2021), “o recebimento de recursos financeiros de procedência estrangeira, a subordinação a entidade ou governo estrangeiro, a manutenção de organização paramilitar e a não prestação de contas, nos termos da lei, à Justiça Eleitoral poderão ocasionar o cancelamento do registro civil e do estatuto do partido mediante decisão do Tribunal Superior Eleitoral, após o trânsito em julgado da decisão (Lei n. 9.096/95, art. 28)”. 3.2 Criação dos partidos políticos Nos termos do art. 17, § 2º, CF, “os partidos políticos, após adquirirem personalidade jurídica, na forma da lei civil, registrarão seus estatutos no Tribunal Superior Eleitoral”. Neste sentido, entendemos que a criação do partido político passa por duas grandes fases: a) adquirir personalidade jurídica de direito privado, na forma da Lei Civil; b) registrar seus estatutos no Tribunal Superior Eleitoral. Destaca-se que, nos termos do art. 7º, § 1º, da Lei n. 9.096/1995, “só é admitido o registro do estatuto de partido político que tenha caráter nacional (que comprove, no período de dois anos, o apoiamento de eleitores não filiados a partido político, correspondente a, pelo menos, 0,5% dos votos dados na última eleição geral para a Câmara dos Deputados, não computados os votos em branco e os nulos, distribuídos Direitos Sociais | Coligações www.cenes.com.br | 10 por um terço, ou mais, dos Estados, com um mínimo de 0,1% do eleitorado que haja votado em cada um deles). De acordo com o art. 8º da Lei n. 9.096/1995, o requerimento do registro de partido político será dirigido ao cartório competente do Registro Civil das Pessoas Jurídicas do local de sua sede, deverá ser subscrito pelos seus fundadores, em número nunca inferior a cento e um, com domicílio eleitoral em, no mínimo, um terço dos Estados, sendo acompanhado de: a) cópia autêntica da ata da reunião de fundação do partido; b) exemplares do Diário Oficial que publicou, no seu inteiro teor, o programa e o estatuto; c) relação de todos os fundadores com o nome completo, naturalidade, número do título eleitoral com a Zona, Seção, Município e Estado, profissão e endereço da residência. Conforme estabelece o § 3º do mesmo artigo, adquirida a personalidade jurídica na forma do art. 8º, o partido promove a obtenção do apoiamento mínimo de eleitores a que se refere o § 1º do art. 7º e realiza os atos necessários para a constituição definitiva de seus órgãos e designação dos dirigentes, na forma do seu estatuto. Na sequência, os dirigentes nacionais promoverão o registro do estatuto do partido junto ao Tribunal Superior Eleitoral, através de requerimento acompanhado de: I - exemplar autenticado do inteiro teor do programa e do estatuto partidários, inscritos no Registro Civil; II - certidão do registro civil da pessoa jurídica, a que se refere o § 2º do art. 8º; III - certidões dos cartórios eleitorais que comprovem ter o partido obtido o apoiamento mínimo de eleitores a que se refere o § 1º do art. 7º. 4 Coligações As coligações partidárias podem ser entendidas como consórcios de partidos políticos para atuação conjunta e cooperativa em uma disputa eleitoral para as eleições no sistema majoritário, como eleições para Presidente, Senador, Governador e Prefeito. Conforme estabelece o § 1º do art. 17 da CF, alterado em 2017 pela Emenda Constitucional n. 97/2017, é assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna e estabelecer regras sobre escolha, formação e duração de seus Direitos Sociais | Coligações www.cenes.com.br | 11 órgãos permanentes e provisórios e sobre sua organização e funcionamento e para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações nas eleições majoritárias, sendo, contudo, vedada sua celebração nas eleições proporcionais (como nas eleições para Deputado Estadual, Deputado Federal e Vereador). Segundo Bernardo Gonçalves Fernandes (2020), a intenção dessa modificação “foi a de fortalecer os grandes partidos. Isso porque não sendo permitida a coligação em eleições proporcionais, dificilmente partidos muito pequenos irão conseguir atingir um quociente partidário que supere o quociente eleitoral. Significa dizer que, sozinhos, ou seja, sem coligações, partidos pequenos terão muita dificuldade de eleger Vereadores e Deputados (Federais, Estaduais ou Distritais)”. Ainda, conforme o § 1º do art. 3º da Lei n. 9.096/2019, fica assegurada aos candidatos, partidos políticos e coligações autonomia para definir o cronograma das atividades eleitorais de campanha e executá-lo em qualquer dia e horário, observados os limites estabelecidos em lei. 4.1 Controle de qualidade É importante que os partidos políticos se respeitem mutuamente, de modo que a autonomia de um não fira a do outro, e são, portanto, também limitados pelos direitos e garantias fundamentais dos seus membros e dos membros da sociedade. Assim, cabe à Justiça Eleitoral “observar o cumprimento do devido processo legal pelos partidos políticos, sem que esse controle venha a interferir na autonomia dos partidos noexercício de seus atos interna corporis. Portanto, mesmo devendo ser respeitada a autonomia garantida constitucionalmente, qualquer lesão a direitos subjetivos poderá sim passar pelo crivo do Poder Judiciário” (FERNANDES, 2017). 4.2 Fidelidade partidária Uma vez que a Constituição assegura aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna e funcionamento, as normas de fidelidade e disciplina partidária serão estabelecidas em seu estatuto, nos termos do art. 17, § 1º, da CF. Assim, a matéria foi disciplinada nos arts. 23 ao 26 da Lei n. 9.096/95 Direitos Sociais | Coligações www.cenes.com.br | 12 Nos termos da lei, a responsabilidade por violação dos deveres partidários deve ser apurada e punida pelo competente órgão, na conformidade do que disponha o estatuto de cada partido. Dessa forma, filiado algum poderá sofrer medida disciplinar ou punição por conduta que não esteja tipificada no estatuto do partido político, sendo assegurado ao acusado o amplo direito a defesa. Na Casa Legislativa, o integrante da bancada de partido deverá subordinar sua ação parlamentar aos princípios doutrinários e programáticos e às diretrizes estabelecidas pelos órgãos de direção partidários, na forma do estatuto do partido, o qual poderá estabelecer, além das medidas disciplinares básicas de caráter partidário, normas sobre penalidades, inclusive com desligamento temporário da bancada, suspensão do direito de voto nas reuniões internas ou perda de todas as prerrogativas, cargos e funções que exerça em decorrência da representação e da proporção partidária, na respectiva Casa Legislativa, ao parlamentar que se opuser, pela atitude ou pelo voto, às diretrizes legitimamente estabelecidas pelos órgãos partidários. Conforme aponta Nathalia Masson (2020), “o Supremo Tribunal reconheceu a existência do dever constitucional de observância do princípio da fidelidade partidária para aqueles que são eleitos pelo sistema proporcional, manifestando-se pela competência da justiça eleitoral para decretar a perda do mandato do Deputado Federal (ou estadual, distrital ou Vereador) que trocar de partido, sem justa causa”, conforme estabelece o art. 26 da Lei n. 9.096/95 (“Perde automaticamente a função ou cargo que exerça, na respectiva Casa Legislativa, em virtude da proporção partidária, o parlamentar que deixar o partido sob cuja legenda tenha sido eleito.”). Em contrapartida, a troca de partido para os eleitos pelo sistema majoritário não enseja a perda do mandato (ADI 5081-DF, julgamento em meio de 2015). A esse respeito, esclarece Gilmar Ferreira Mendes (2021) que a fidelidade partidária no contexto da democracia partidária e no sistema eleitoral proporcional tem ampla profundidade, tendo em vista que, no modelo adotado pela Constituição, o mandato é qualificado como eminentemente representativo da vontade popular (deputados) e dos entes federativos (senadores). Sendo assim, a Câmara dos Deputados é composta de representantes do povo, enquanto o Senado é composto de representantes dos Estados e Distrito Federal (arts. 45 e 46, CF). Direitos Sociais | Coligações www.cenes.com.br | 13 Ainda, neste sistema eleitoral os partidos são detentores do monopólio absoluto das candidaturas, tanto que a filiação partidária constitui uma condição de elegibilidade, como bem firma o art. 14, § 3º, V da CF. Neste sentido, o autor afirma que “Se considerarmos a exigência de filiação partidária como condição de elegibilidade e a participação do voto de legenda na eleição do candidato, tendo em vista o modelo eleitoral proporcional adotado para as eleições parlamentares, parece certo que a permanência do parlamentar na legenda pela qual foi eleito torna-se condição imprescindível para a manutenção do próprio mandato”. Dessa forma, o abandono da legenda deve dar ensejo à extinção do mandato, salvo em situações específicas que possam envolver perseguição política ou ruptura de compromissos por parte da agremiação. À luz dessas considerações “não parece fazer sentido, no atual prisma jurídico e político, que o eventual eleito possa, simplesmente, desvencilhar-se dos vínculos partidários originalmente estabelecidos, carregando o mandato obtido em um sistema no qual se destaca o voto atribuído à agremiação partidária a que estava filiado para outra legenda” (MENDES, 2021). Para o autor, considerando a realidade política atual, a mudança de legenda por parte daqueles que obtiveram o mandato no sistema proporcional constitui uma violação à vontade do eleitor: “É preciso ter em mente que a fidelidade partidária condiciona o próprio funcionamento da democracia, ao impor normas de preservação dos vínculos políticos e ideológicos entre eleitores, eleitos e partidos, tal como definidos no momento do exercício do direito fundamental do sufrágio. Trata-se, portanto, de garantia fundamental da vontade do eleitor”. Assim, consideram-se justa causa para a desfiliação partidária somente as seguintes hipóteses: • mudança substancial ou desvio reiterado do programa partidário; • grave discriminação política pessoal; e • mudança de partido efetuada durante o período de trinta dias que antecede o prazo de filiação exigido em lei para concorrer à eleição, majoritária ou proporcional, ao término do mandato vigente. Direitos Sociais | Conclusão www.cenes.com.br | 14 Ao eleito por partido que não preencher os requisitos previstos no § 3º do art. 17 – dispõe sobre o direito a recursos do fundo partidário e acesso gratuito ao rádio e à televisão, na forma da lei, garantido aos partidos políticos que, alternativamente, obtiverem, nas eleições para a Câmara dos Deputados, no mínimo, três por cento dos votos válidos, distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação, com um mínimo de dois por cento dos votos válidos em cada uma delas; ou que tiverem elegido pelo menos quinze Deputados Federais distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação – é assegurado o mandato e facultada a filiação, sem perda do mandato, a outro partido que os tenha atingido, não sendo essa filiação considerada para fins de distribuição dos recursos do fundo partidário e de acesso gratuito ao tempo de rádio e de televisão. Se o partido pelo qual o parlamentar foi eleito não conseguir uma representação significativa, ele poderá filiar-se a outro partido sem perder sua condição de parlamentar. 5 Conclusão Nesta unidade falamos sobre o conceito, a origem e a criação dos partidos políticos e os sistemas partidários, bem como sobre a liberdade partidária, o sistema de coligações e a fidelidade partidária. Vimos que os partidos políticos exercem importante função de mediação entre o povo e o Estado e, portanto, devem respeitar- se mutuamente, não ferindo um a autonomia do outro, estando, também, limitados pelos direitos e garantias fundamentais dos seus membros e dos membros da sociedade. 6 Referências Bibliográficas ANGRA, Walber de Moura. Curso de Direito Constitucional. – 9. ed. – Belo Horizonte: Fórum, 2018. CASALINO, Vinicius Gomes. Concursos públicos nível médio e superior: direito constitucional. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2015 BAHIA, Flavia. Direito Constitucional. – 3. ed. – Recife: Armador, 2017. BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. – 9. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. Direitos Sociais | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 15 FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. – 12. ed. – Salvador: Ed. JusPODIVM, 2020. LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Curso de direito do trabalho. – 11. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2019. LENZA, Pedro. Direito Constitucional. – 25. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2021. MASSON, Nathalia. Manual de direito constitucional. –8. ed. – Salvador: JusPODIVM, 2020. MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. – 16. ed. – São Paulo: Educação, 2021. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. – 33. ed. rev. e atual. até a EC nº_ 95, de 15 de dezembro de 2016. São Paulo: Atlas, 2017. NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho. – 29. ed. – São Paulo: Saraiva, 2014. 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