Prévia do material em texto
► ► Introdução O estudo do equilíbrio corporal é parte da avaliação otoneurológica, que inclui anamnese, exame otorrinolaringológico, testes audiológicos e equilibriometria. Esta avaliação deve ser abrangente para auxiliar no diagnóstico de pacientes com vertigem e outras tonturas, náuseas, vômitos, quedas, perdas auditivas, ruído no ouvido, dificuldade de entender, falha na atenção auditiva, hipersensibilidade a sons, distorção das sensações sonoras etc. Atrasos na aquisição e desenvolvimento de linguagem ou deficiências motoras em crianças também podem indicar um distúrbio da função vestibular1. Os testes audiológicos e a equilibriometria visam confirmar ou infirmar a lesão auditiva e/ou vestibular; localizar se a alteração é periférica (labirinto e VIII nervo), central (núcleos, vias e interrelações com outras estruturas do sistema nervoso central) ou mista; evidenciar o lado lesado e o tipo de lesão auditiva e/ou vestibular; mensurar a intensidade da lesão; procurar estabelecer se a doença está ativa ou inativa, se está compensada ou não e o seu prognóstico; auxiliar na identificação do agente etiológico; monitorar a evolução do paciente e da doença em tratamento; sugerir eventuais modificações do tratamento e determinar a sua finalização1. A equilibriometria avalia os sistemas motores oculares supranucleares, como os reflexos vestíbuloocular (RVO), sacádico, de perseguição, optocinético e de fixação e o reflexo vestíbuloespinal (RVE). Investiga a função vestibular e suas correlações com o sistema ocular e proprioceptivo, cerebelo, medula espinal e formação reticular2. A integração funcional das informações de estruturas sensoriais dos sistemas vestibular, visual e proprioceptivo nos núcleos vestibulares do tronco encefálico, sob a coordenação do cerebelo, desencadeia reflexos oculares e espinais. Os principais são o RVO e o RVE. O RVO gera movimentos oculares que proporcionam uma visão clara enquanto a cabeça se movimenta; o RVE origina movimentos corporais compensatórios que mantêm a estabilidade da cabeça e do corpo, evitando quedas; o sistema nervoso central monitora estes reflexos e os reajusta para manter a orientação espacial estática e dinâmica, a locomoção e o controle postural, quando necessário2,3. O nistagmo, elemento fundamental de análise do RVO, é um movimento involuntário dos olhos, formado por uma sucessão de no mínimo três batimentos oculares que têm uma componente lenta em uma determinada direção (originado no labirinto ou nos núcleos vestibulares) e uma componente rápida, movimento corretivo, na direção oposta (originado na formação reticular do tronco encefálico); pode ser fisiológico, presente em indivíduos normais em certas provas do exame vestibular; ou pode apresentar alterações nas provas vestibulares em pacientes com vestibulopatia periférica ou central1,4. Os diversos tipos de nistagmo e outros movimentos oculares direta ou indiretamente relacionados com a função vestibular podem ser observados e registrados. A introdução da tecnologia computadorizada aumentou a sensibilidade da avaliação. A gravação permite aferir o efeito da fixação visual; armazenar e quantificar parâmetros da função vestíbulo oculomotora, como a velocidade da componente lenta do nistagmo; latência, precisão e velocidade das sacadas; ganho do rastreio ocular e do nistagmo optocinético1. Eletronistagmogra�a ► ► ► A eletronistagmografia (ENG) é um método de inscrição dos movimentos oculares. Eletrodos colocados sobre a pele da região periorbitária captam a variação de potencial entre a córnea e a retina quando os olhos se movimentam e a envia ao equipamento de registro, onde é amplificada4. A qualidade do traçado depende da intensidade deste potencial, que é variável durante o teste e é sensível às condições de iluminação ambiental5. Na ENG, a resolução é ao redor de 1°, o que impede a identificação de movimentos oculares menores do que 2° a 3°, o ruído elétrico interfere no registro e podem ocorrer desvios da linha de base. A ENG não registra os movimentos torcionais dos olhos5. Os equipamentos de ENG podem ter dois ou mais canais de registro. A colocação dos eletrodos depende do que se quer avaliar e do número de canais disponíveis. Os equipamentos com dois canais registram os movimentos oculares horizontais em um dos canais, por meio de eletrodos ativos fixados na pele dos cantos periorbitários externos direito e esquerdo, e os verticais, no outro canal, por meio de eletrodos ativos fixados acima e abaixo de um dos olhos; um eletrodo neutro (terra) é colocado na linha média frontal1. Convencionalmente, os eletrodos no canal horizontal são colocados de modo que ao deslocamento do olhar para a direita corresponda uma inscrição do movimento dos olhos para cima e ao deslocamento para a esquerda, o movimento é gravado para baixo; no canal vertical, o deslocamento do olhar para cima corresponde à inscrição para cima e ao deslocamento para baixo, o registro é para baixo4. Vectoeletronistagmogra�a A vectoeletronistagmografia (VENG) é uma variante da ENG que grava os movimentos oculares em três canais de registro, captando a variação do potencial elétrico corneorretinal. Um eletrodo ativo é colocado no canto externo de cada olho e um terceiro na linha média frontal, constituindo um triângulo isósceles, formado pelos três canais de registro. O canal horizontal da VENG é semelhante ao canal horizontal da ENG. Tem a vantagem de identificar os movimentos oculares horizontais, verticais e oblíquos, medir a velocidade da componente lenta do nistagmo de acordo com a projeção vetorial, considerando a influência da direção, e permitir a avaliação do nistagmo oblíquo resultante da estimulação dos canais semicirculares verticais à prova rotatória1,68. Videonistagmogra�a A videonistagmografia (VNG) não utiliza eletrodos. Videocâmeras em lentes binoculares à prova de luz permitem a observação direta e a gravação dos movimentos oculares horizontais, verticais e torcionais com olhos abertos e no escuro. O processamento digital da imagem mensura os movimentos do centro da pupila e mede a velocidade da componente lenta do nistagmo horizontal e vertical, mas não mede a velocidade dos movimentos oculares torcionais5. A resolução dos canais horizontal e vertical é de aproximadamente 0,1°, sendo possível identificar em condições laboratoriais movimentos oculares de 0,5°; o registro não tem interferências e não há desvios da linha de base e necessita de apenas uma calibração no início da avaliação, desde que as câmeras não sejam reposicionadas5. Claustrofobia, ptose palpebral, cílios que obscurecem a pupila, cosméticos ao redor dos olhos, crianças com a face pequena, pacientes com malformações na forma da pupila e que não conseguem manter os olhos abertos podem dificultar ou impedir a realização da VNG5,9. A VNG tem a vantagem de permitir a visualização e gravação de um nistagmo de posicionamento torcional, de pequena amplitude e de curta duração à prova de DixHallpike; a caracterização da exata direção do nistagmo de posicionamento e posicional identifica o canal semicircular comprometido em pacientes com vertigem posicional paroxística benigna (VPPB), informação importante para a escolha da manobra terapêutica apropriada1,5. Avaliação da função vestíbulo-ocular | Procedimentos A avaliação da função vestíbuloocular pode ser efetuada por meio das pesquisas de nistagmo de posicionamento, posicional, espontâneo e semiespontâneo, sacadas, rastreio ocular, nistagmo optocinético, perrotatório, póscalórico e pósrotatório1. Os sinais anormais identificados devem ser analisados em conjunto, complementando a história clínica e o exame físico e auxiliando no diagnóstico e na orientação do tratamento das afecções do sistema vestibular. Os testes devem ser realizadose interpretados de acordo com os critérios de referência obtidos na avaliação de indivíduos hígidos1. Os achados podem localizar a lesão no labirinto ou no sistema nervoso central. A vestibulopatia central caracterizase por sinais indicativos de comprometimento vestibular de tronco encefálico, cerebelo e outras regiões do sistema nervoso ■ ■ ■ central; na vestibulopatia periférica, o diagnóstico é de exclusão, sendo estabelecido quando ocorre alteração do padrão de referência, sem sinais característicos de lesão vestibular central1. Pesquisa do nistagmo de posicionamento e posicional A pesquisa do nistagmo de posicionamento e posicional constitui a primeira parte da avaliação à vestibulometria. Estas pesquisas podem ser efetuadas à simples observação direta, utilizando lentes de Frenzel, ou à VNG. A pesquisa do nistagmo de posicionamento pode ser realizada por meio da prova de DixHallpike10 e/ou pela manobra de deitar de lado ou sidelying test11. Na prova de DixHallpike, com o auxílio do examinador, o paciente, sentado em uma maca, vira a cabeça 45° para o lado a ser avaliado e deitase rapidamente, mantendo a cabeça pendente e a inclinação de 45° por aproximadamente 30 segundos e depois retorna lentamente à posição sentada; a seguir, o procedimento é realizado com a cabeça inclinada 45° para o lado oposto. Esta prova pode originar um nistagmo com ou sem vertigem ou enjoo, inicialmente intenso, que diminui de intensidade e desaparece, no posicionamento para a direita e/ou para a esquerda; o nistagmo pode também aparecer na posição sentada, habitualmente com inversão de direção. A latência e a direção do fenômeno ocular, o relato de vertigem concomitante, a duração e a intensidade do movimento ocular devem ser investigados. A reprodutibilidade ou não (fatigabilidade) do fenômeno ocular é pesquisada à repetição da manobra diagnóstica. Na manobra de deitar de lado, o paciente, sentado em uma maca, vira a cabeça 45° para um dos lados e deitase rapidamente para o lado oposto, com a ajuda do examinador, que segura a sua cabeça e pescoço, por aproximadamente 30 segundos e retorna lentamente à posição sentada; em seguida, repete a manobra, inclinando a cabeça 45° na direção contrária. Se ocorrer vertigem e nistagmo de posicionamento, devese aguardar a extinção destas manifestações antes que o paciente sente lentamente e realize o procedimento para o outro lado. A pesquisa do nistagmo posicional pode ser realizada à movimentação lenta do paciente, com a ajuda do examinador. Da posição sentada, o paciente assume o decúbito dorsal, gira a cabeça para a direita e passa para o decúbito lateral direito, volta para o decúbito dorsal, gira a cabeça para a esquerda, passa para o decúbito lateral esquerdo, volta para o decúbito dorsal e retorna à posição sentada. O paciente deve permanecer 30 segundos em cada posição. Este procedimento pode desencadear nistagmo com ou sem vertigem ou enjoo em uma ou mais posições da cabeça12. As características do nistagmo de posicionamento e/ou posicional determinam o labirinto acometido e o canal semicircular afetado na VPPB: o nistagmo vertical para cima e torcional caracteriza o comprometimento do canal posterior; o nistagmo vertical para baixo e torcional caracteriza o comprometimento do canal superior; nistagmo torcional para a esquerda ou para a direita indica o comprometimento de canal vertical (posterior ou anterior), e o nistagmo horizontal geotrópico ou ageotrópico aponta o comprometimento de canal lateral. Na VPPB de canais verticais, a duração do nistagmo verticaltorcional inferior a um minuto sugere como substrato da afecção a ductolitíase e, acima de um minuto, a cupulolitíase; a direção geotrópica sugere ductolitíase e a ageotrópica, cupulolitíase, para os canais laterais11,13. Calibração dos movimentos oculares A calibração dos movimentos oculares, ao acompanhamento visual de um estímulo luminoso apresentado em uma barra, possibilita um desvio dos olhos de 10° no plano horizontal e vertical, para assegurar que os testes sejam realizados e interpretados em condições semelhantes e permitir a medida precisa da velocidade da componente lenta (VACL) do nistagmo. Nistagmo espontâneo O nistagmo espontâneo é um movimento ocular rítmico e involuntário, com componentes lentas e rápidas em direções opostas; por convenção, a direção da componente rápida indica a direção do nistagmo; suas características auxiliam no topodiagnóstico de uma lesão vestibular periférica ou central4. O nistagmo espontâneo é pesquisado no olhar de frente, com fixação do olhar (olhos abertos à ENG e VENG ou com visão à VNG) e sem fixação (olhos fechados à ENG e VENG ou sem visão, com olhos abertos no escuro, à VNG). Sua presença, direção, velocidade e concomitância ou não com vertigem são avaliadas. Pode ser horizontal ou horizonto torcional em indivíduos hígidos, observado sem fixação do olhar, com velocidade inferior a 6°/s e, na fase aguda das vestibulopatias periféricas, habitualmente a sua direção é oposta à do labirinto lesado e é reduzido à fixação visual, sendo mais intenso com os olhos fechados do que abertos. Pode ser horizontal, horizontotorcional, torcional puro, vertical para ■ ■ ■ ■ ■ cima ou para baixo, oblíquo, com ou sem fixação, pendular (com velocidade semelhante nas duas direções), dissociado (é mais intenso em um dos olhos ou tem direção diferente em cada olho), periódico alternante (muda sequencialmente de direção) em lesões de tronco encefálico ou cerebelo1,2,14. Nistagmo semiespontâneo ou direcional A presença e a direção do nistagmo semiespontâneo são pesquisadas ao desvio de 20 ou 30° do olhar frontal para a direita, para a esquerda, para cima e para baixo, com os olhos abertos. A fase rápida do nistagmo habitualmente tem a mesma direção do olhar. Pode estar presente na fase aguda das vestibulopatias periféricas, como uma intensificação e na mesma direção do nistagmo espontâneo; nas lesões de tronco encefálico ou cerebelo pode ser bidirecional, quando ocorre com direção diferente em duas posições cardinais do olhar; ou múltiplo, quando ocorre com direções diferentes em três ou quatro posições1,2,4. Movimentos oculares sacádicos O estímulo de um alvo luminoso móvel é apresentado na barra inicialmente com padrão fixo e posteriormente randomizado. Latência, precisão e velocidade dos movimentos sacádicos são avaliados ao acompanhamento visual. Alterações discretas destes parâmetros podem ocorrer na fase aguda ou crônica das vestibulopatias periféricas. Sacadas excessivamente lentas ou excessivamente rápidas, latência ou velocidade com marcante assimetria, latência muito prolongada e dismetria (hipo ou hipermetria) acentuada podem indicar distúrbio ocular, de tronco encefálico, cerebelo, gânglios basais ou córtex frontoparietal1,2. Rastreio pendular Avalia o sistema visual de perseguição, que envolve a fóvea, vias subcorticais e corticais15. O paciente deve acompanhar com os olhos, sem mover a cabeça, um movimento sinusoidal lento e contínuo de um alvo na barra luminosa nas frequências de 0,1, 0,2 e 0,4 Hz. O tipo e o ganho do rastreio pendular são investigados. Pacientes desatentos, não cooperantes e idosos podem apresentar respostas inadequadas. Na fase aguda das vestibulopatias periféricas, há sobreposição do nistagmo espontâneo sobre a curva sinusoidal. Costuma estar alterado nas lesões cerebelares, de tronco encefálico e de gânglios basais. Rastreio invertido, com sacadas na direção do movimento do alvo, ocorre nos nistagmos congênitos1,2,14. Nistagmo optocinético O nistagmo optocinético é induzido pelo movimento ocular ao acompanhamento visual de pontos luminosos móveis ou pelo movimento de um tambor raiado envolvente, com faixas brancase pretas alternadas, com direção fixa para a direita e depois para a esquerda, e velocidade de 20 ou 40 graus por segundo. São avaliadas presença, direção, velocidade e simetria do nistagmo optocinético. Nas labirintopatias agudas, há abolição ou redução da intensidade do nistagmo optocinético contralateral à lesão, por influência do nistagmo espontâneo. Nas lesões cerebelares difusas ou dos gânglios basais pode ocorrer hiporreflexia bilateral; e, nas lesões parietooccipitais, hiporreflexiaipsilateral. Nistagmo optocinético invertido pode ocorrer em pacientes com nistagmo congênito1,2. Nistagmo per-rotatório O nistagmo perrotatório é desencadeado quando as células ciliadas das cristas ampulares são estimuladas pelo movimento da endolinfa nos canais semicirculares gerado pela rotação. O nistagmo perrotatório pode ser investigado sem fixação do olhar; com fixação do olhar em um alvo que se move simultaneamente com a rotação, para avaliar a interação vestibulovisual; e, com estimulação optocinética concomitante; é horizontal à estimulação dos canais semicirculares laterais; e, oblíquo ou vertical, dependendo da posição cefálica, à estimulação dos canais semicirculares verticais. Na prova rotatória pendular decrescente (PRPD), a cadeira rotatória é deslocada 90° do centro; depois de liberada, realiza um movimento pendular periódico com amplitude decrescente. Para avaliar os canais semicirculares laterais, a cabeça é inclinada 30° para frente; e, para investigar os canais verticais, por meio da VENG, 60° para trás e 45° para a direita; e 60° para trás e 45° para a esquerda1,8. ■ ■ Esta prova pode avaliar o estado de compensação labiríntica, baseada na ocorrência e evolução da preponderância direcional do nistagmo perrotatório; identificar lesões do sistema canal semicircular posterior/nervo vestibular inferior, quando há ausência ou diminuição de resposta em uma direção da rotação à estimulação dos canais verticais à VENG; confirmar a arreflexia vestibular, quando ocorre ausência de respostas às provas calóricas convencionais e geladas com água ou com ar; e observar o efeito da fixação visual. Na fase aguda das vestibulopatias periféricas, há sobreposição do nistagmo espontâneo sobre o nistagmo perrotatório de mesma direção. Nas síndromes da fossa posterior, pode ocorrer a ausência de efeito inibidor da fixação ocular, caracterizada por aumento da intensidade do nistagmo com os olhos abertos, presença de nistagmo com os olhos fixos em alvo estacionário que se move com o paciente e sem a influência da estimulação optocinética; e a abolição do nistagmo oblíquo à estimulação dos canais verticais, com preservação do nistagmo horizontal à estimulação dos canais laterais. Nistagmo pós-calórico Nistagmo póscalórico é o movimento ocular desencadeado por uma estimulação labiríntica com água (ou ar) frio e quente. O estímulo calórico produz uma corrente endolinfática na direção da ampola do canal lateral excitado (prova quente) ou na direção oposta (prova fria), flexionando as células sensoriais da crista ampular e desencadeando o RVO que resulta em nistagmo póscalórico horizontal, oblíquo ou horizontotorcional e em vertigem14,14. A prova calórica avalia cada labirinto separadamente e permite reconhecer o lado acometido e caracterizar a intensidade da lesão vestibular14. É realizada com o paciente na posição supina, com a cabeça elevada 30°, para que os canais semicirculares laterais estejam verticalizados, com a ampola para cima. Cada orelha é estimulada separadamente. O tempo de estimulação é de 30 segundos na prova com água a 44 e 30°C; de 60 segundos, na prova com ar a 50 e 24°C16. Na prova com água é recomendável fazer um intervalo de 5 minutos entre o final das respostas em uma estimulação e o início da seguinte. Na prova com ar, o intervalo a ser observado deve ser de 3 minutos. É importante pesquisar a presença de nistagmo précalórico na posição em que a prova é realizada, pois este fenômeno pode interferir na direção e na intensidade do nistagmo póscalórico. Devese manter o nível de alerta do paciente por meio de cálculos ou conversação, evitando a inibição cortical sobre as respostas1. São analisadas a direção e a velocidade da componente lenta do nistagmo póscalórico do período de respostas mais intensas, sem e com fixação do olhar para avaliar o efeito inibidor da fixação ocular, e são calculados os valores de predomínio labiríntico e de preponderância direcional10. A prova calórica gelada pode confirmar uma arreflexia ou uma hiporreflexia severa, quando as respostas estão ausentes às temperaturas convencionais ou há dúvidas quanto à presença de respostas, devido à superposição de nistagmo espontâneo17,18. As vestibulopatias periféricas ou centrais podem evidenciar alterações do nistagmo póscalórico, como hiporreflexia, em que há redução uni ou bilateral da resposta; arreflexia, quando ocorre abolição uni ou bilateral da resposta às temperaturas convencionais e na prova gelada; preponderância direcional, quando a intensidade do nistagmo em uma das direções é maior do que na direção oposta, consideradas as quatro estimulações; e, hiperreflexia, quando o nistagmo é muito intenso em todas as estimulações16. A hiporreflexia e a arreflexia do nistagmo indicam o(s) lado(s) lesado(s). Nas vestibulopatias periféricas, as respostas com fixação do olhar (olhos abertos) devem ser pelo menos 40% menos intensas do que sem fixação (olhos fechados)1. A lesão do sistema nervoso central pode revelar alterações patognomônicas à prova calórica, como ausência do efeito inibidor da fixação ocular nas lesões da fossa posterior, que envolvem o cerebelo; perversão, quando ocorre um nistagmo vertical em vez de horizontal, indicando lesão dos núcleos vestibulares; inversão, em que o nistagmo ocorre nas direções opostas às esperadas em todas as estimulações, revelando lesão dos núcleos vestibulares; e abolição da componente rápida, na lesão de tronco encefálico1. Nistagmo pós-rotatório à prova giratória com velocidade constante e parada repentina A prova giratória com velocidade constante e parada repentina pode ser realizada com ou sem óculos de Frenzel, sem registro. Consiste em submeter o paciente com os olhos fechados a 10 rotações em 20 segundos, e, em seguida, parar subitamente a cadeira, e observar os seus olhos abertos. Avalia o nistagmo pósrotatório à estimulação dos canais semicirculares laterais, anteriores e posteriores, em casos com suspeita de arreflexia vestibular bilateral ou de comprometimento de fossa posterior1. Para avaliar os canais semicirculares laterais, a cabeça do paciente é inclinada 30° para frente, desencadeando um nistagmo horizontal para a direita ou para a esquerda, de acordo com o sentido da rotação. Para avaliar os canais ► ► ► semicirculares verticais, a cabeça do paciente é inicialmente inclinada sobre um dos ombros, resultando um nistagmo torcional horário ou antihorário, dependendo do sentido da rotação; e, depois a cabeça é deslocada para trás, desencadeando um nistagmo vertical para cima ou para baixo, dependendo do sentido da rotação. A abolição do nistagmo pósrotatório torcional e/ou vertical, com presença do nistagmo horizontal, nos dois sentidos da rotação, indica uma lesão de tronco encefálico (sinal de Aubry ou de Eagleton). Esta prova costuma causar intensa vertigem e ocasionalmente náuseas e vômitos em vestibulopatias não deficitárias. Em síndromes da fossa posterior, é frequente a dissociação nistagmovertiginosa, em que o paciente não relata vertigem embora ocorra nistagmo pósrotatório intenso1. Vídeo teste do impulso cefálico O vídeo teste do impulso cefálico (vHIT)avalia o reflexo vestíbuloocular (RVO) por meio de estímulos de altas frequências, identificando o labirinto comprometido pela ocorrência de sacadas corretivas encobertas ou evidentes, durante ou após os impulsos da cabeça; o ganho do RVO pode estar reduzido ou não. Uma câmera de vídeo acoplada a óculos registra os movimentos dos olhos e um programa computadorizado analisa os dados. O paciente deve manter o olhar fixo num ponto predeterminado à sua frente, enquanto o examinador desloca a sua cabeça com movimentos de pequena amplitude, alta velocidade e alta aceleração, inicialmente no plano horizontal e depois no plano vertical19. Indivíduos com função vestibular normal mantêm o olhar fixo no alvo durante os impulsos da cabeça e o ganho do RVO é próximo de 1; pequenas sacadas corretivas fisiológicas podem ocorrer. Quando o RVO está comprometido nas vestibulopatias periféricas unilaterais, o paciente pode gerar sacadas de refixação ou corretivas anormais em direção ao lado lesado, indicativas do comprometimento do canal semicircular lateral ipsilateral ou de sua via neural aferente; o ganho do RVO pode estar ou não reduzido. A lesão do canal posterior é caracterizada por sacadas corretivas anormais nos impulsos para cima com a cabeça virada para o lado da lesão; na lesão dos canais anteriores as sacadas corretivas anormais ocorrem nos impulsos para baixo com a cabeça virada para o lado oposto da lesão. Nas vestibulopatias periféricas bilaterais, podem ocorrer sacadas corretivas anormais com redução bilateral do ganho do RVO; a proporção de assimetria de ganho pode indicar o lado mais comprometido. Na vestibulopatia deficitária leve o vHIT pode não estar alterado, sendo necessário realizar a prova calórica para caracterizar a hiporreflexia vestibular. Visual vertical subjetiva A orientação espacial em relação à gravidade é essencial para a manutenção do equilíbrio corporal. O teste da visual vertical subjetiva avalia o sistema vestibular, mais especificamente os órgãos otolíticos, sáculo e utrículo, por meio da informação do paciente de que objetos estão na posição vertical; o sistema visual e o somatossensorial e o sistema nervoso central também exercem papel importante nesta percepção. A inclinação da visual vertical subjetiva é um sinal de desequilíbrio de tônus vestibular e pode ocorrer nas lesões vestibulares periféricas ou centrais que acometem do labirinto ao córtex vestibular. No teste da visual vertical subjetiva20, os pacientes sentados são orientados a colocar o rosto dentro da borda de um balde e a olhar para uma linha reta centralizada sobre o fundo. O balde21 é girado lentamente pelo examinador, aleatoriamente em sentido horário e antihorário, e é parado quando o paciente diz que a linha alcança a posição vertical. São realizadas 10 repetições, cinco em sentido horário e cinco em sentido antihorário, e são anotados os valores identificados em uma escala em graus, localizada do lado de fora do balde, em que o zero está alinhado com a linha reta e com a vertical verdadeira da terra. As inclinações angulares da posição vertical são definidas como positivas, para os desvios no sentido horário, e negativas, para os desvios no sentido antihorário, em relação ao paciente. Inclinações da verticalidade podem ocorrer para o lado do comprometimento na fase aguda das vestibulopatias periféricas unilaterais e para o lado do comprometimento ou não nas lesões centrais agudas de tronco encefálico22. Posturogra�a O equilíbrio corporal pode ser investigado, com o indivíduo em pé ou à marcha, de olhos abertos e fechados e às posturografias estática e dinâmica. A posturografia analisa o impacto dos estímulos visual, somatossensorial e vestibular sobre o controle postural23. As posturografias estática e dinâmica permitem a caracterização do estado funcional do sistema vestibuloespinal24. São indicadas em pacientes com tontura, desequilíbrio e quedas e são úteis para monitorar a evolução do tratamento das vestibulopatias17. A posturografia estática com realidade virtual do Balance Rehabilitation Unit (BRUTM), Medicaa25, indica a posição do centro de pressão do paciente em diferentes condições sensoriais (sobre piso firme e instável; de olhos abertos e olhos fechados; aos estímulos sacádicos, optocinéticos; e à estimulação optocinética associada a movimentos lentos e uniformes de rotação da cabeça), por meio da medida da área do limite de estabilidade, área de deslocamento do centro de pressão (área de elipse) e velocidade de oscilação. Para determinar o limite de estabilidade, o paciente deve deslocar o seu corpo, o máximo que conseguir sem perder o equilíbrio, nas direções anteroposterior e laterolateral por meio da estratégia de tornozelo, sem movimentar os pés e sem utilizar estratégias de tronco e/ou quadril. Para determinar a área de deslocamento do centro de pressão (área de elipse) e a velocidade de oscilação, o paciente permanece em posição ortostática, sem movimentar os membros superiores, calcanhares e pés, por 60 segundos em cada uma das condições sensoriais. Ainda não foi determinado um padrão de referência baseado em resultados de indivíduos normais. Indivíduos com controle postural normal apresentam ampla área de limite de estabilidade, pequena área de deslocamento do centro de pressão, contida na área de estabilidade, e baixa velocidade de oscilação. Valores aumentados da área de deslocamento do centro de pressão e da velocidade de oscilação em todas as condições indicam inabilidade para manter o controle postural, em uma ou todas as condições sensoriais: com e sem privação da visão e sob conflito visual, somatossensorial e de interação visuovestibular. A posturografia estática do Tetrax Interactive Balance System, Sunlight Medical Ltd.26, avalia o equilíbrio corporal por meio dos índices de risco de queda, estabilidade, distribuição de peso, sincronização da oscilação postural direita/esquerda e dedos/calcanhar; e das faixas de frequência de oscilação postural (F1, F2F4, F5F6, F7F8)26,27. Uma plataforma com quatro placas independentes afere as variações de pressão dos dedos e calcanhar de cada pé, dos calcanhares e dos dedos dos dois pés e de cada calcanhar e dos dedos do pé contralateral durante 32 segundos em cada uma de oito condições sensoriais, com o paciente em pé em posição ortostática, com os braços estendidos ao longo do corpo: superfície firme, com olhos abertos e fixos em um alvo à frente; superfície firme, com olhos fechados; superfície instável, com olhos abertos e fixos em um alvo à frente; superfície instável, com olhos fechados; superfície firme, com olhos fechados e a cabeça virada 45° graus para a direita; superfície firme, com olhos fechados e a cabeça 45º graus para a esquerda; superfície firme, com olhos fechados e a cabeça inclinada 30° para frente; superfície firme, com olhos fechados e a cabeça 30° para trás. O índice de risco de queda é variável entre zero e 100. É classificado como baixo (valor entre zero e 36), moderado (valor entre 37 e 58) e alto (valor entre 59 e 100); quanto maior o escore, maior o risco de ocorrerem quedas. O índice de estabilidade é determinado pela quantidade de oscilação das quatro plataformas dividida pelo peso do paciente; quanto maior o escore, maior a instabilidade. Indivíduos hígidos apresentam um valor entre 7 e 26%. O índice de distribuição do peso é aferido em cada uma das quatro plataformas. Em indivíduos hígidos, esperase que os escores de cada plataforma sejam aproximadamente de 25,0% e que o índice esteja entre 4 e 6; valores muito baixos, próximos de zero, sugerem rigidez postural e valores altos, inabilidade para manter o equilíbrio corporal. O índice de sincronização da oscilaçãopostural é o resultado da correlação entre a oscilação dos dedos e do calcanhar de cada pé, entre os dois calcanhares e os dedos dos dois pés e entre cada calcanhar e dedos contralaterais. As sincronizações avaliam a coordenação e a inervação do sistema motor dos membros inferiores. Em indivíduos hígidos, os valores são simétricos e estão próximos de ±700 (entre ±1.000); valores baixos (entre zero e 200) indicam dessincronização e sugerem comprometimento dos mecanismos de controle postural. As frequências da oscilação postural, medidas por meio da transformação de Fourier, avaliam a intensidade da oscilação postural em um espectro variável entre 0,01 e 3,0 Hz, subdividido em: F1 (0,010,10 Hz), F2 (0,100,25 Hz), F3 (0,250,35 Hz), F4 (0,350,50 Hz), F5 (0,500,75 Hz), F6 (0,751,00 Hz), F7 (1,003,00 Hz), F8 (3,00 Hz e acima) e agrupado pelo programa em quatro faixas de frequências: F1 (Baixa), F2F4 (MédiaBaixa), F5F6 (MédiaAlta) e F7F8 (Alta), representando o emprego de subsistemas posturais diferentes. Excesso de oscilações sugerem tentativas de compensação ou doença. Oscilações preponderantes e de alta intensidade em F1 indicam controle postural; em F2F4, distúrbio vestibular periférico ou estresse postural moderado; em F5F6, reações somatossensoriais mediadas pelo sistema motor dos membros inferiores, espinhal e da coluna vertebral dorsal; e, em F7F8, comprometimento do sistema nervoso central. A posturografia dinâmica, EquiTest da NeuroCom International, avalia o controle postural por meio da medida do centro de pressão (COP) e da utilização destes dados para calcular a oscilação do centro de massa, analisando as informações visuais, proprioceptivas e vestibulares, sua interação central e as respostas motoras dos membros inferiores e do corpo. O equipamento tem em seu banco de dados padrões de referência relativos à idade (3 a 79 anos), gênero e altura17 e permite realizar vários tipos de testes. No teste de organização sensorial (SOT), o paciente em pé em posição ortostática, com os braços estendidos ao longo do corpo deve manter o equilíbrio do corpo em seis condições: olhos abertos sobre plataforma fixa, olhos fechados sobre plataforma fixa, estímulos visuais sobre plataforma fixa, olhos abertos com estímulo visual fixo e plataforma em movimento, olhos fechados e plataforma em movimento e olhos abertos com estímulos visuais e movimento da plataforma. Cada condição é repetida três vezes para determinar o desempenho médio em cada condição e calcular um escore de equilíbrio, em porcentagem, que representa a oscilação (excursão máxima do centro de massa) no plano sagital em cada repetição das diferentes condições. Estas seis condições permitem avaliar a habilidade para utilizar, em conjunto ou isoladamente, as informações visuais, proprioceptivas/somatossensoriais e vestibulares de modo funcional, permitindo acompanhar a evolução do quadro clínico, o processo de compensação, o risco de queda, a estratégia preferencial utilizada na manutenção do equilíbrio e o alinhamento do centro de gravidade. Indivíduos hígidos podem apresentar 12,5 graus de oscilação anterior/posterior sobre a articulação do tornozelo, tipicamente 8 graus para frente e 4,5 graus para trás. O Quadro 23.1 apresenta os padrões anormais mais comuns do teste de organização sensorial e a dificuldade do paciente em manter o controle postural, de acordo com as condições sensoriais alteradas. Quadro 23.1 Padrões anormais mais comuns do teste de organização sensorial e di�culdade do paciente em manter o controle postural, de acordo com as condições sensoriais alteradas. Padrões anormais Condições sensoriais comprometidas Di�culdade do paciente em manter o controle postural Disfunção vestibular 5 e 6 (ou só 5) Ao usar exclusivamente a informação vestibular Disfunção vestibular e visual 4, 5 e 6 Ao usar informações visual e vestibular adequadas ou usar exclusivamente a informação vestibular Preferência visual 3 e 6 (ou só 6) Devido à dependência anormal da informação visual, mesmo quando imprecisa Disfunção vestibular e preferência visual 3, 5 e 6 Ao usar exclusivamente a informação vestibular e com dependência anormal da informação visual, mesmo quando imprecisa Disfunção somatossensorial e vestibular 2, 3, 5 e 6 Ao usar a informação da superfície de apoio dos pés com a informação vestibular ou usar exclusivamente a informação vestibular Disfunção severa 3, 4, 5 e 6 2, 3, 4, 5 e 6 1, 2, 3, 4, 5 e 6 Independentemente das informações sensoriais (vestibular, visual e/ou somatossensorial) fornecidas Inconsistente 1, 2, 3 e 4 (ou qualquer combinação) e normal em 5 e 6 Inexplicável (resultados exagerados voluntários ou involuntários) Quando o SOT está dentro dos limites normais, o teste de organização sensorial com agitação cefálica, nos três planos de movimentos da cabeça, com os olhos fechados, sobre plataforma fixa e móvel, pode sensibilizálo, avaliando, assim, a habilidade para manter o equilíbrio corporal quando são requeridas informações precisas do sistema vestibular. O teste de controle motor avalia a habilidade para recuperar prontamente o equilíbrio corporal diante de um estímulo externo inesperado, representado por translações horizontais anteriores e posteriores da plataforma em três intensidades, com o paciente de olhos abertos. Medese o tempo necessário para ativar a recuperação da posição do centro de massa sobre a base de suporte (latência); resistência em função da intensidade da perturbação; e a distribuição de peso sobre a perna direita e esquerda. Anormalidades da latência podem indicar distúrbios na via que se inicia com estímulos da região do tornozelo, projetase ao córtex motor e retorna aos músculos responsáveis pelo controle postural ou a necessidade do sistema musculoesquelético de recuperarse de oscilações induzidas inesperadamente no plano sagital. O teste de adaptação afere a habilidade para adaptarse ou desenvolver estratégias para a manutenção do equilíbrio corporal diante de superfícies irregulares ou com variações de apoio nas condições de dedos do pé para cima e para baixo. O paciente, com os olhos abertos, deve manter o controle postural diante de rotações súbitas e aleatórias da plataforma. ► ► ► 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. O teste do limite de estabilidade indica a habilidade para mover o centro de massa corporal e manter o equilíbrio sem mudar a base de suporte. O paciente, em posição ortostática, é instruído a inclinarse em oito direções ao redor de seu eixo, o máximo que for possível, sobre a articulação do tornozelo, sem dar um passo, estender a mão ou flexionar o quadril, assim que ouvir um apito ou ver um cursor no monitor à sua frente. Um ícone colorido indica a direção que deve seguir. Avaliamse tempo de reação, velocidade do movimento, alcance do alvo, excursão máxima e controle da direção do movimento. Conclusão A história clínica e a equilibriometria, que pode incluir ENG, VENG ou VNG, vHIT, teste da visual vertical subjetiva e posturografias estática e dinâmica, permitem confirmar o comprometimento funcional do sistema vestibular periférico ou central, estabelecer o prognóstico, orientar o tratamento e monitorar a evolução dos pacientes com distúrbios do equilíbrio corporal. Glossário ► Avaliação otoneurológica. Conjunto de procedimentos que podem reconhecer, localizar e quantificar alterações das funções auditiva e vestibular. ► Canais semicirculares lateral, posterior e anterior. Estruturas labirínticas tubulares sensíveis aos movimentos angulares da cabeça. ► Crista ampular. Receptor sensorial dos canais semicirculares lateral, posterior e anterior, sensível às acelerações angulares. ► Cúpula. Massa gelatinosa envolvendo os cílios das células da crista ampular. ► Ductolitíase. Restos de estatocônios provenientes do utrículoque flutuam na endolinfa dos canais semicirculares posterior, lateral ou anterior. ► Eletrodos. Dispositivos que captam o potencial corneorretinal e possibilitam a gravação dos movimentos oculares à ENG e à VENG. ► Eletronistagmografia (ENG). Procedimento que registra os movimentos oculares na avaliação da função vestíbuloocular. ► Endolinfa. Líquido encontrado no labirinto membranáceo. ► Equilíbrio estático e dinâmico. Estado do equilíbrio corporal com o indivíduo de pé e à marcha. ► Estatocônios. Cristais de carbonato de cálcio encontrados normalmente no utrículo e no sáculo e anormalmente nos ductos semicirculares do labirinto. ► Ganho. Relação entre a velocidade dos olhos e a velocidade do estímulo nas provas de rastreio pendular, optocinética e rotatória. ► Lentes de Frenzel. Lentes de 20 dioptrias que retiram a fixação visual e ampliam a imagem dos olhos, para facilitar a observação do nistagmo e outros movimentos oculares em diversas provas vestíbulooculomotoras. ► Nistagmo. Sucessão de movimentos oculares com componentes lentos e rápidos alternados. ► Reflexo vestíbuloocular. Reflexo que produz movimentos oculares. Referências bibliográ�cas Caovilla HH, Ganança MM, Munhoz MSL, Silva MLG. Equilibriometria clínica. São Paulo: Atheneu; 1999. 158p. Baloh RW, Kerber KA. Clinical neurophysiology of the vestibular system. 4th ed. New York: Oxford, 2011. 455p. Honrubia V. Contemporary vestibular function testing: accomplishments and future perspectives. Otolaryngol Head Neck Surg. 1995; 112(1): 6477. Honrubia V. Quantitative vestibular function tests and the clinical examination. In: Herdman SJ editor. Vestibular rehabilitation. 2nd ed. Philadelphia: Davis; 2000. p.10571. Barin K. Comprehensive guide to VNG/ENG administration and interpretation. São Paulo: Otometrics; 2008. 185 p. Padovan I, Pansini M. New possibilities of analysis in electronystagmography. ActaOtolaryng (Stockh). 1972; 73:1215. Pansini M, Padovan I. Three derivations in electronystagmography. Acta Otolaryng (Stockh). 1969; 67:3039. Mangabeira Albernaz PL, Ganança MM, Falsetti HDC, Ito YI, Caovilla HH. Atlas de Vectoelectronistagmografia. São Paulo: Editamed; 1984. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. Jacobson GP, Shepard NT. Balance function assessment and management. San Diego: Plural; 2008. 649p. Dix MR, Hallpike CS. Pathology, symptomatology and diagnosis of certain disorders of the vestibular system. Ann Otol Rhinol Laryngol. 1952; 61(4):9871016. Cohen HS. Sidelying an alternative to the DixHallpike test of the posterior canal. Otol Neurotol. 2004; 25(2):1304. Roberts RA, Gans RE. Background, technique, interpretation, and usefulness of positional/positioning testing. In: Jacobson GP, Shepard NT. Balance function assessment and management. San Diego; Plural: 2008. p. 17196. Herdman SJ, Tusa RJ. Physical therapy management of benign positional vertigo. In: Herdman SJ, editor. Vestibular rehabilitation. 3rd ed. Philadelphia: Davis; 2007. p. 23364. Baloh RW, Furman JM. Modern vestibular function testing. West J Med. 1989; 150(1):5967. Collewijn H, Tamminga EP. Human smooth and saccadic eye movements during voluntary pursuit of different target motions on different backgrounds. J Physiol. 1984; 351:21750. Albertino S, Bittar RSM, Bottino MA, Ganança MM, Gonçalves DU, Greters ME, Mezzalira R, Ganança FF. Valores de referência da prova calórica a ar. Braz J Otorhinolaryngol. 2012; 78(3):2. Jacobson GP, Newman CW, Kartush JM. Handbook of balance function testing. St. Louis: Mosby; 1993. 439p. Cabral FSS, Ganança CF, Ganança FF, Ganança MM, Caovilla HH. Estimulação calórica gelada com ar nas vestibulopatias periféricas crônicas com nistagmo espontâneo. Revista CEFAC. 2008; 10:3927. MacDougall HG, McGarvie LA, Halmagyi GM, Curthoys IS, Weber KP. The video Head Impulse Test (vHIT) detects vertical semicircular canal dysfunction. PLoS One. 2013 Apr 22; 8(4):e61488. Zwergal A, Rettinger N, Frenzel C, Dieterich M, Brandt T, Strupp M. A bucket of static vestibular function. Neurology. 2009; 72: 16891692. Cook J. SVV Bucket Construction. (last edited 20100505 09:14:00 by James Cook), University of Pittsburgh. Brandt T. Determination of the subjective visual vertical as a topographic diagnostic tool. Schweizer Archiv Für Neurologieund Psychiatrie. 2011; 162(2):49. Suarez H, Arocena M, Geisinger D, Suarez A, Carrera X. Analysis of the role of virtual reality technology in the assessment and rehabilitation of instability in the elderly population. In: Vincent ML, Moreau TM (eds). Accidental falls: causes, preventions and interventions. Portland, OR: Nova Science; 2008. p.10720. Norré ME, Forrez G. Posture testing (posturography) in the diagnosis of peripheral vestibular pathology. Arch Otorhinolaryngol. 1986; 243(3):1869. BRUTM. Unidade de Reabilitação do Equilíbrio. Manual do usuário. Versão 1.0. 7. Versão do Software: 1.3.5.0. Uruguai: Medicaa; 2006. 132p. Tetrax. Guida per operator e clinico. Italia: Sunlight Medical Ltd. 2004. 34p. KohenRaz R. Application of Tetraataxiametricposturography in clinical and developmental diagnosis. Perceptual and Motor Skills. 1991; 73:63556. ► ► • Introdução A solicitação de avaliação vestibular em crianças tem se tornado mais frequente devido ao maior conhecimento científico sobre a íntima relação existente entre o equilíbrio corporal, postura, coordenação motora e o desenvolvimento motor, aquisição e desenvolvimento de fala e linguagem e processos de aprendizagem na criança. Como a função do sistema vestibular, juntamente com o sistema nervoso central (SNC), é controlar a posição do corpo, os movimentos dos olhos e a percepção espacial, acreditase que este sistema possa influenciar algumas fases do desenvolvimento infantil1. Alterações funcionais do sistema vestibular na criança podem causar desordens no desenvolvimento motor e na aquisição da linguagem, afetando as habilidades de comunicação, o comportamento psicológico e o rendimento escolar. A inabilidade para realizar movimentos coordenados e uma concepção imprecisa da posição espacial justificariam as dificuldades de aprendizagem em crianças com vestibulopatias2. A ocorrência de distúrbios vestibulares na criança e suas implicações clínicas no desenvolvimento infantil tem aumentado o interesse não apenas de otorrinolaringologistas, como também de pediatras, neurologistas, psicopedagogos e fonoaudiólogos3,4. Muitas vezes a avaliação otoneurológica não é solicitada pelo médico pela dificuldade da própria criança, e também dos pais, em fornecer uma descrição precisa de seus sintomas. Outras vezes, a criança é submetida, inicialmente, a outros tipos de avaliações e tratamentos devido à interrelação que existe entre as disfunções vestibulares e dificuldades motoras, ou ainda, os distúrbios de aprendizagem e as alterações de comportamento. A indicação para a realização da avaliação vestibular ocorre sempre que houver queixas de tonturas, desequilíbrios, distúrbios neurovegetativos, zumbido, perda auditiva sensórioneural, desvios à marcha, síndromes de tronco encefálico e cerebelo, cinetose e, principalmente na criança, mau rendimento escolar e atraso no desenvolvimento motor2,5. A queixa de tontura em crianças não é tão comum como em adultos. Porém, quando esta existe a investigação deverá ser realizada minuciosamente por uma equipe multidisciplinar, pois poderá incluir avaliações de diferentes especialidades médicas e de outros profissionais da saúde, como o fonoaudiólogo, fisioterapeuta e/ou psicólogo. Todos esses profissionais, e principalmente o médico, deverão iniciar a sua investigação por uma anamnese muito detalhada, pois dependendo da idade da criança, existirá uma dificuldade em expressar os sintomas associados à crise labiríntica.A solicitação de exames laboratoriais por parte do médico também será indicada. Muitas vezes os sintomas na criança passam despercebidos, pois ela pode não ter a referência de estabilidade corporal. A queixa pode ser de malestar indefinido, vômitos, cefaleia, dificuldades visuais para copiar da lousa, desequilíbrios, dentre outros. A compensação vestibular na infância ocorre mais brevemente que no adulto, devido à neuroplasticidade vestibular. Isto poderia explicar o desaparecimento de queixas ou sintomas vestibulares com a idade. Estudos têm demonstrado que o sintoma de vertigem e/ou tontura em criança e adolescente podem cursar mais comumente com otite média serosa, cinetose, migrânea ou Vertigem Paroxística Benigna da Infância (VPBI) quando a causa for de origem periférica610. Sinais e sintomas observados na infância Formigoni9 elencou os sinais e sintomas mais comuns na infância: Sintomas até os 3 anos de idade: a criança chora menos no berço; ocorrência do fenômeno de cabeça pendente; distúrbios do sono; náuseas e vômitos intensos; medo de altura; atraso no desenvolvimento motor e de linguagem; • ► • • • • • ► dificuldade em se manter em pé, hipotonia e medo do escuro Sintomas após os 3 anos de idade: distúrbios do sono; tonturas, náuseas e vômitos; cefaleias; medo de altura; alterações do comportamento (inquietas, desconcentradas e dispersas); crises de pânico; cinetose; atraso escolar; dificuldades em realizar exercícios corporais de equilíbrio. Testes da função labiríntica em bebês9 Os testes da função vestibular em bebês podem ser divididos em inespecíficos e específicos de estimulação labiríntica. Os inespecíficos avaliam as alterações das funções relacionadas com reflexos de equilíbrio no bebê desde o nascimento, incluem: reflexo de rotação brusca de cabeça em decúbito dorsal, reflexo tônicocervical e reflexo de Moro. As respostas reflexas alteradas ou ausentes podem indicar disfunção labiríntica. Os específicos de estimulação labiríntica são: Teste de aceleração vertical: o examinador apoia a criança em seus braços, em decúbito dorsal horizontal, e fará uma rápida flexão dos joelhos, provocando um rápido deslocamento da criança no sentido vertical para baixo. É esperado que a criança tenha uma reação de abertura dos braços, seguida de pronação e supinação das mãos Teste dos olhos de boneca: o examinador segura a criança, na altura das axilas, na posição vertical. O examinador faz uma rotação de 90º e observa se ocorre movimento ocular no sentido oposto ao movimento corporal, com posterior movimento dos olhos para o sentido oposto (semelhante aos movimentos de olhos de uma boneca quando em movimento de rotação). A resposta é esperada até a segunda semana de vida em bebês nascidos a termo e até três meses no prematuro Estimulações rotatórias de 360°: Com o bebê no colo, de frente para o avaliador, dar dez voltas em 20”. Um assistente deve cronometrar a duração do nistagmo no sentido horário (H) e antihorário (AH). É esperada simetria nas respostas. Serão consideradas simetria de respostas as diferenças até 30% entre os sentidos de rotação Prova rotatória pendular decrescente (PRPD): registrar os nistagmos com eletronistagmografia (ENG). Colocamse óculos escuros no bebê para evitar a luminosidade. Observar a simetria, por meio da frequência nistágmica nos dois sentidos (H e AH) Estimulação com água a 25° C: aplicação da água no meato acústico externo do bebê por meio de uma seringa durante 30 segundos. Registrar a resposta do nistagmo, com ENG, com a criança de olhos fechados, nas duas orelhas. É esperada simetria das respostas, que poderão ser de baixa frequência e amplitude elevada. Alterações de morfologia no nistagmo poderão ser observadas. Formigoni9 e Kimoto et al.11 relataram que, após os quatro anos de idade já é possível realizar as provas vestibulares semelhantes às do adulto. A experiência de prática clínica das autoras demonstra esta possibilidade em algumas crianças a partir dos 3 anos. Para isso, é preciso ter muita paciência e criatividade, a fim de manter a atenção da criança em cada prova do exame. Observase que a preocupação dos pais com a irrigação da orelha na prova calórica, por exemplo, muitas vezes deixa a criança mais ansiosa, não permitindo o término da mesma. Procedimentos de avaliação da função vestibular na criança Fazse necessário salientar que até o século passado a vectoeletronistagmografia no Brasil era realizada por meio de equipamentos analógicos e somente no novo milênio é que foram lançados os equipamentos computadorizados e digitais. Neste capítulo daremos ênfase na vestibulometria com o uso de equipamentos digitais12. A análise de cada etapa do exame deverá seguir os valores de referência para crianças, relacionados à marca do equipamento utilizado durante a avaliação. Devido ao fato de ainda não se ter parâmetros de referência para crianças brasileiras em uma população significativa para padronização, é aconselhável seguir os resultados obtidos nos “gruposcontrole” das pesquisas científicas realizadas em nosso meio6,7. Para a realização da avaliação vestibular na criança alguns cuidados devem ser tomados, principalmente durante o registro da eletro ou vectoeletronistagmografia. Além de paciente e cuidadoso, o profissional deve ser experiente na realização do exame em crianças sem queixas vestibulares e em adultos, deve ser objetivo e perspicaz na aplicação das provas do exame e brincar com a criança. Os pais devem acompanhar a criança para esta se sentir mais segura. É aconselhável utilizar estimulação calórica a ar, e lembrar que o traçado do nistagmo induzido pela estimulação calórica tem uma amplitude maior que a do adulto, e uma latência e velocidade aumentadas devido a uma imaturidade do sistema vestibular em função da idade7,11,13. ► ■ ■ ■ Os procedimentos utilizados na avaliação vestibular da criança seguem o protocolo do adulto12,13 e são realizados conforme a capacidade de compreensão da criança em cada etapa de avaliação. Anteriormente à execução das mesmas, os pais devem ser informados quanto à dieta a ser cumprida pela criança. Esta dieta consiste em: não usar por 72 horas medicamentos para cefaleia, tontura, calmantes, relaxantes, energéticos e bebida alcoólica e, por 24 horas, chá, café, chocolate, refrigerante, fumo, para evitar possíveis interferências nos movimentos oculares e provas vestibulares, alterando os resultados do exame15. No dia do exame fazer uma refeição leve, mantendo um jejum de três horas, para evitar malestar após as estimulações. É importante que os pais e a criança fiquem tranquilos, portanto, é imprescindível dar a eles uma breve explicação sobre os procedimentos do exame. Dependendo da idade da criança é conveniente que a audiometria e imitanciometria sejam realizadas previamente ao dia do exame. Estes e demais exames realizados anteriormente pela criança devem ser solicitados pelo examinador. Na entrevista inicial, os pais das crianças são inquiridos sobre questões referentes a gestação, parto, desenvolvimento neuropsicomotor, sinais e sintomas relacionados à audição, cefaleia e equilíbrio corporal, antecedentes mórbidos e familiares e doenças atuais associadas. Como a sintomatologia vestibular infantil muitas vezes não é clara, algumas informações sobre a criança devem ser questionadas com mais detalhes, como as brincadeiras que ela gosta, os tipos de brinquedos que utiliza e que evita, se tem dificuldades para enxergar as letras na lousa, postura para escrita, se tem algum problema ortopédico e/ou visual, se já sofreu alguma queda e em qual situação, se sente malestar em veículos em movimento,entre outras. Após a coleta destas informações, o profissional responsável deverá questionar sobre a correta realização da dieta por parte da criança a ser avaliada. Procedimentos da vestibulometria A vestibulometria deve seguir as etapas descritas a seguir. Pesquisa dos nistagmos posicional e de posicionamento A pesquisa do nistagmo posicional na criança deve seguir o mesmo procedimento do adulto12,13. A criança é colocada sentada com as pernas estendidas sobre a maca e é movimentada lentamente, com o auxílio do examinador, nas posições de decúbito dorsal, decúbito lateral direito e esquerdo e sentada. Observar a presença ou ausência de nistagmo e/ou tontura e sintomas neurovegetativos, durante 30 segundos em cada posição. É interessante iniciar por esta prova, pelo fato de ter uma velocidade mais lenta, não assustando assim a criança. A utilização da lente de Frenzel poderá auxiliar em crianças maiores, geralmente acima de 7 anos, em que a circunferência cefálica é maior e fica mais fácil de fixar a mesma. A pesquisa do nistagmo de posicionamento pode ser realizada por meio da manobra de DixHallpike14 e/ou pela manobra de deitar em decúbito lateral ou sidelying test13,15,16. Observar a presença ou ausência de nistagmo, se presente verificar tipo, duração, paroxismo, vertigem, latência, fatigabilidade e observar se na posição sentada ocorre a inversão da direção do nistagmo. A presença do nistagmo nesta prova pode sugerir a presença de ducto ou cupulolitíase de canais semicirculares horizontais e/ou verticais. Suas características indicam qual o lado e a orelha comprometida. Vectoeletronistagmogra�a digital Observar se a criança possui alguma alteração ocular que possa interferir nos parâmetros de medida. Nas provas com os olhos fechados é importante manter uma conversação, perguntas ou brincadeiras verbais adequadas à faixa etária e interessantes para a criança, a fim de se propiciar a desinibição cortical e diminuir a ansiedade ou resistência que algumas crianças têm em permanecer com os olhos fechados. Calibração dos movimentos oculares A calibração dos movimentos oculares é feita para que as diferentes etapas do exame sejam realizadas em igualdade de condições, e também para propiciar a medida automática dos novos parâmetros de medida que os equipamentos digitais fornecem como latência, precisão, velocidade e ganho de outros movimentos oculares, além da velocidade da componente lenta do nistagmo. A calibração será analisada como regular ou irregular, devendose dar atenção aos parâmetros de medida fornecidos pelo software do equipamento utilizado. Algumas crianças necessitam de treinamento prévio para a execução adequada desta prova. ► ■ ► ► Nistagmo espontâneo A pesquisa do nistagmo espontâneo é realizada no olhar frontal com os olhos abertos (com fixação do olhar) e depois fechados (sem fixação). O surgimento do nistagmo deve ser analisado quanto ao tipo, direção e morfologia. A presença de nistagmo espontâneo com olhos abertos pode indicar disfunção periférica na fase aguda, ou ainda central, na fase crônica. No adulto, a presença de nistagmo com olhos fechados acima de 6º/s e maior do que com olhos abertos, indicando a presença do efeito inibidor da fixação ocular (EIFO), sugere alteração periférica. Nistagmo direcional ou semiespontâneo O nistagmo semiespontâneo é investigado no desvio do olhar para a direita, para a esquerda, para cima e para baixo, sem ultrapassar 30º de desvio da linha média. Na presença do nistagmo, a medida da velocidade da componente lenta deverá ser analisada. Assim como no adulto, as características deste nistagmo podem sugerir alterações periféricas na fase aguda da crise vertiginosa, ou central na fase crônica. Na criança é muito importante chamar a atenção para que ela fixe o olhar no estímulo visual, pois a tendência de dispersar o foco de atenção é maior que no adulto. Movimentos oculares sacádicos Os movimentos sacádicos são registrados ao acompanhamento visual de um alvo que se move com padrão fixo e randomizado. Os parâmetros de avaliação nesta prova são as medidas de latência, velocidade e precisão das sácadas. O sistema sacádico de movimentação ocular tem como objetivo posicionar a imagem de um alvo sobre a fóvea. As sácadas são movimentos de refixação dos olhos, tendo velocidades de até 500º/s. Sua velocidade é diretamente proporcional ao tamanho da sácada, porém nem sempre está sob controle voluntário. Algumas delas são automáticas ou reflexas, por exemplo, em resposta a um som ou alvo visual inesperado, e outras podem ser voluntárias, em resposta a comandos externos, como por exemplo, “olhar para a direita ou esquerda”. A produção de sácadas lentas pode indicar lesões na formação reticular do tronco encefálico, ou da musculatura ocular. A precisão alterada das sácadas (hipo ou hipermetria) sugere afecção cerebelar17. Alterações da velocidade sacádica poderiam ser atribuídas à função anormal dos neurônios de descarga na formação reticular pontina. O cerebelo parece ter uma função específica no controle da precisão da sácada. Quanto à latência, sua alteração poderia refletir anormalidade em qualquer local da via visual aferente ou da via eferente geradora do movimento ocular sacádico18,19. Com a introdução da vectoeletronistagmografia (VENG) digital na avaliação da função vestibular, novos parâmetros de medida (latência, velocidade e precisão) dos movimentos oculares sacádicos foram introduzidos na análise desse tipo de registro. Tornase assim necessária a realização de pesquisas que forneçam parâmetros de referência dessas medidas, com indivíduos em diferentes faixas etárias, por serem achados úteis na confirmação de lesões aparentes e na detecção de desordens subclínicas do SNC. Importância da avaliação dos movimentos oculares sacádicos na criança Anormalidades no controle voluntário da sácada têm sido observadas em muitas desordens do desenvolvimento, tais como a dislexia, dificuldades de aprendizagem, hiperatividade e déficit de atenção2025. O movimento ocular necessário para uma leitura exige movimentos alternados das sácadas e períodos de fixação dos olhos. Iniciase com uma sácada que percorre 8 a 10 palavras mescladas com períodos de fixação ocular e finaliza com uma longa sácada para reiniciar uma nova linha. Acompanhar a professora, em seu campo visual, na sala de aula, fazer cópias, transcrever lições escritas na lousa, ler as lições do livro, escrever e concentrarse são atividades que exigem integridade das funções oculomotoras e das interligações vestibulares2325. Os parâmetros dos movimentos oculares sacádicos foram analisados na VENG digital, em 60 crianças com desordens do processamento auditivo (DPA), com ou sem disfunção da habilidade de representar eventos sonoros no tempo e observouse que crianças com disfunção dessa habilidade diferem das crianças sem esta disfunção, quanto à precisão das sácadas. A prevalência de alterações das sácadas fixas e randomizadas à VENG digital em crianças com distúrbios do processamento auditivo justifica a inclusão sistemática da avaliação destes movimentos oculares no atendimento fonoaudiológico. Ventura et al.26 compararam os parâmetros da oculomotricidade na VENG digital, encontrados em crianças com queixas de distúrbios de aprendizagem, especificamente de leitura e escrita, com ► ► ► ► crianças sem queixas. Foi observada diferença entre os grupos nos parâmetros de velocidade dos movimentos sacádicos randomizados, o que pode sugerir uma possível ineficiência do controle do sistema nervoso central sobre os movimentos rápidos dos olhos. O estudo dos movimentos oculares é considerado multidisciplinar, pois diferentes áreas da medicina o empregam com intuito diagnóstico27. Rastreio pendular O rastreio pendular pode ser avaliado por meio do acompanhamentovisual do movimento sinusoidal de um ponto luminoso nas frequências de 0,1, 0,2 e 0,4 Hz. Nesta prova é possível avaliar o tipo e o ganho do movimento ocular. Esta prova avalia o sistema visual de perseguição, que envolve a fóvea e vias corticais e subcorticais12. A sua análise segue a classificação do adulto: tipo I, II, III e IV. Nas provas de movimentos oculares persecutórios (rastreio e optocinético) é importante se certificar de que a criança está atenta ao movimento do estímulo visual ou se está olhando em outras direções. Nistagmo optocinético O ganho e a velocidade do nistagmo optocinético são medidos durante o acompanhamento visual de um ponto luminoso em movimento, com direção fixa para um lado e depois para o outro, à velocidade de 10°/s. Devese avaliar também a direção do nistagmo e a simetria de respostas entre as duas direções. Na presença de assimetria entre os sentidos H e AH, deve ser considerada a possibilidade de crise labiríntica ou nistagmo congênito. Nistagmo per-rotatório ou prova rotatória pendular decrescente A execução do procedimento na prova rotatória pendular decrescente (PRPD) é semelhante à do adulto. Observar o posicionamento da cabeça da criança durante o registro é muito importante, pois as crianças tendem a elevar a cabeça e abrir os olhos. O mau posicionamento da cabeça pode fazer com que os canais semicirculares (CSC) verticais sejam influenciados pela resposta dos horizontais. Esta prova avalia se o sistema vestibular periférico está em compensação labiríntica, pela análise de simetria de respostas entre os diferentes canais semicirculares, por meio da frequência nistágmica ou da medida da velocidade angular da componente lenta. Realizada sem fixação ocular, avalia principalmente as respostas vestibulares, sem a concomitância da interação vestibulovisual. Como é uma prova realizada com olhos fechados, é fundamental a realização do nistagmo prérotatório antes da movimentação da cadeira em cada posição. A ausência de resposta dos CSC verticais com a presença dos horizontais pode sugerir comprometimento central, que deverá ser minuciosamente investigado. É aconselhável realizar o registro de sintomas neurovegetativos apresentados pela criança durante a estimulação. É de fundamental importância explicar para a criança que ela terá a sensação de girar por um tempo breve. É necessário manter a conversação durante e após a estimulação e podese associar a sensação provocada a alguma brincadeira compatível com sua idade, como o giragira, brinquedo que se encontra nos parques de diversão. Nistagmo pós-calórico | Prova calórica A prova calórica avalia cada labirinto separadamente, podendo fornecer em alguns resultados informações sobre a orelha acometida, o tipo de disfunção e sugerir, em alguns casos, o tipo de lesão (se periférica ou central)12,28. É fundamental que a criança se mantenha na posição ideal de estimulação, posição I de Brünnings, a fim de se estimular corretamente os CSC horizontais. A explicação da prova de forma adaptada à idade da criança antes da estimulação é fundamental para que ela aceite o estímulo calórico. As atividades mentais de conversação com a criança durante o registro pósestimulatório devem ser voltadas para a área de interesse da mesma e no contexto em que está inserida, para que se possa obter respostas sem inibição cortical. Como na PRPD, devese realizar o registro do nistagmo précalórico, para que se possa analisar posteriormente a possível influência deste no resultado do exame. ► ► 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. Esta prova pode ser realizada com água ou ar, porém a experiência clínica dos profissionais executantes demonstra que a irrigação a ar nas crianças é melhor tolerada do que a água e provoca reações neurovegetativas menos frequentes12,28. No Brasil existem alguns estudos com estimulação a ar em crianças6,7 nas temperatura de 42ºC e 18ºC, porém não foram ainda verificadas publicações com as temperaturas de 50ºC e 24ºC. A literatura recomenda um intervalo de três minutos após a estimulação em cada orelha12,27. A avaliação dos resultados obtidos deverá seguir os parâmetros referenciais de adultos. Como já foi ressaltado anteriormente, as medidas da VACL e dos cálculos de simetria de respostas devem seguir parâmetros encontrados para crianças até 12 anos. Após esta idade, esperase que as respostas aos estímulos sejam semelhantes às encontradas nos adultos. O nistagmo pósrotatório em crianças não faz parte da rotina de avaliação em crianças, somente em casos de esclarecimento de topodiagnóstico importante. Após a realização da vestibulometria, os sintomas apresentados pela criança e os resultados obtidos em cada etapa em conjunto com a avaliação audiológica da criança devem ser analisados para identificar disfunções auditivas e/ou vestibulares. Conclusão A avaliação da função vestibular na criança tem sido cada vez mais solicitada pelos profissionais da saúde, mais especificamente os otorrinolaringologistas, por colaborar no esclarecimento diagnóstico de algumas doenças da infância, bem como auxiliar as orientações aos pais e professores na compreensão do tratamento das dificuldades escolares e dos distúrbios de aprendizagem. Ela é possível de ser realizada desde a mais tenra idade, por meio da observação de respostas reflexas do bebê, e a partir dos quatro anos, por meio da vestibulometria. O examinador deve ter experiência e criatividade para adequar a avaliação a faixa etária e centro de interesse da criança. Muitos parâmetros da avaliação ainda não estão definidos para a população infantil brasileira; a análise dos resultados deve ser criteriosa e cuidadosamente referenciada de acordo com o equipamento utilizado. A avaliação vestibular infantil se apresenta como um importante instrumento para o diagnóstico de diversas alterações no desenvolvimento da criança, devido à estreita relação entre as alterações vestibulares na infância e os distúrbios de equilíbrio motor, de aprendizagem e comportamentais, alterações de fala e linguagem, dentre outros. Referências bibliográ�cas Cyr DG, Brookhouser PE, Valente M, Grossman A. Vestibular evaluation of infants and preschool children. Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 1985; 93(4):4638. Caovilla HH. O equilíbrio corporal e os distúrbios de comunicação humana. In: Ganança MM, Vieira RM, Caovilla HH. Princípios de Otoneurologia. São Paulo: Atheneu; 1999. p.12. Ganança MM, Ganança FF. Vertigem na infância e na adolescência. In: Ganança MM. Vertigem tem cura? São Paulo: Lemos; 1998.p.3747. Ganança MM, Caovilla HH. A múltipla abordagem terapêutica. In: Ganança MM. Vertigem tem cura? São Paulo: Lemos; 1998. p. 5961. Ganança MM, Caovilla HH, Munhoz MSL, Ganança FF. Tonturas na criança e no adolescente. RBMORL. 1995; 2(4):21742. Ibrahim CSMN. Da vestibulometria na cinetose infantil com ou sem sintomas fora de veículos em movimento. (Dissertação de Mestrado – UNIFESP) 68 fls. Bohlsen YA. Da disfunção vestíbulooculomotora em crianças com migrânea sem aura à vestibulometria com vectoeletronistagmografia digital. (Tese de doutorado – UNIFESP) São Paulo, 2002. 69fls. Tusa RJ, Saada AA, Niparko JK. Dizziness in childhood. Journal of Child Neurology. 1994; 9(3):26174. Formigoni LG. A avaliação vestibular na criança. In: Ganaça MM. Vertigem tem cura? São Paulo: Lemos; 1998. p. 11726. Gruber M, CohenKerem R, Kaminer M, Shupak A. Vertigo in children and adolescents: characteristics and outcome. Sci World I. 2012; 2012:109624. Kimoto Y, Almeida VS, Maia RA. Eletronistagmografia em crianças. Rev Bras Otorrinolaringol 1988; 54:807. Caovilla HH, Ganança, CF. Avaliação do equilíbrio corporal:conceituação e aplicação clínica. In: Bevilacqua, MC et al.(org.) Tratado de Audiologia. São Paulo: Santos, 2011. p. 317330 Caovilla HH, Ganança MM, Munhoz MSL, Silva MLG, Ganança FF, Ganança CF. O registro dos movimentos oculares. In: Caovilla HH, Ganança MM, Munhoz MSL, Silva MLG. Equilibriometria clínica. São Paulo: Atheneu; 1999. p.3140. Dix MR, Hallpike CS. Pathology, symptomatology and diagnosis of certain disorders of the vestibular system. Ann Otol Rhinol laryngol. 1952; 61(4): 9871016. Cohen HS. Sidelying na alternative to the DixHallpike test of the posterior canal. Otol Neurotol. 2004; 25(2): 1304 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. Roberts RA, Gans RE. Background, thecnique, interpretation, and usefulness of positional/positioning testing. In: Jacobson GP, Shepard NT. Balance function assesment and management. San Diego; Plural: 2008. p. 17196. Campos Netto AAT, Colafemina JF. Movimentos Sacádicos em indivíduos com alterações cerebelares. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology; 76(1) janeiro/fevereiro 2010. p. 5158 Baloh RW, Halmagyi GM. Disorders of the vestibular system. New York: Oxford University; 1996. 687p. Leigh RJ, Zee DS. The saccadic system. In: Leigh RJ, Zee DS, eds. The neurology of eye movement 3rd ed. New York: Oxford University Press; 1999. p.90150. Busis SN. Dizziness in children. ENG report. ICS Med 1985:12. Lennerstrand G, Ygge J, Jacobsson C. Control of binocular eye movements in problems in dyslexic and normal children. Vision Res 1994; 34:134558. Eden GF, Stein JF, Wood HM, Wood FB. Differences in eye movements and reading normals and dyslexics. Ann N Y Acad Sci 1993; 682: 23139. Santos MTM, Behlau MS, Caovilla HH. Crianças com distúrbios de leitura e escrita: movimentos oculares na leitura à nistagmografia computadorizada. Rev Bras Med Otorrinolaringol. 1995; 2(2):1007 Mathes PG, Denton CA. The prevention and identification of reading disability. Semin Pediatr Neurol. 2002; 9(3):18591. Tuma VC, Ganança CF, Ganança MM, Caovilla HH. Avaliação oculomotora em pacientes com disfunção vestibular periférica. Braz J Otorhinolaryngol. 2006; 72(3):40713. Ventura, DFP; Granato L; Mitre EI; Mor R. Parâmetros de oculomotricidade à nistagmografia digital em crianças com e sem distúrbios de aprendizagem. Braz. J. Otorhinolaryngol. (Impr.) vol. 75 no. 5 São Paulo Sept./Oct. 2009 Marchesin VC, Caovilla HH, Ganança MM. Dos movimentos oculares sacádicos em crianças com desordens do processamento auditivo. Acta ORL. 2005; 23(2): 712. Mor R., Fragoso M. Vestibulometria na prática Fonoaudiológica. São José dos Campos, SP: Pulso Editorial, 2012. 104p ► ► Introdução A avaliação do sistema vestibular é essencial para o tratamento de pacientes com disfunções do equilíbrio. Até recentemente, essa avaliação se restringia à análise, principalmente, da integridade do canal semicircular horizontal, que é uma parte desse sistema. Os recentes avanços na tecnologia têm proporcionado aos clínicos a capacidade de avaliar a função dos órgãos otolíticos através dos potenciais evocados vestibulares, os quais possibilitam maior especificidade quanto ao topodiagnóstico da lesão. O potencial miogênico evocado vestibular (VEMP) é um potencial muscular de curta latência captado por estímulos sonoros de forte intensidade, por vibração ou por estímulos elétricos1, o qual pode ser gravado em diferentes músculos do corpo. O local de captação mais utilizado clinicamente, difundido desde a década de 1990, é o músculo esternocleidomastóideo (ECM) ao longo da coluna cervical, o qual configura o que denominamos de VEMP cervical (abreviado para cVEMP)2,3. Pesquisas recentes4 têm descrito um novo método que capta esse potencial vestibular na musculatura extraocular, nomeado de VEMP ocular (abreviado para oVEMP)57, o qual é capaz de obter informações antes inacessíveis sobre o sistema vestibular e, dessa forma, é importante como procedimento complementar para um adequado diagnóstico otoneurológico. Vias neurais dos re᠀�exos vestíbulo-ocular e vestibulocervical O cVEMP avalia a via vestibular descendente por meio do reflexo vestibulossacular ipsilateral e é responsável por manter a postura ereta por informações obtidas a partir do monitoramento sacular de posições e movimentos da cabeça. Já o oVEMP capta o reflexo vestíbuloocular e, ao contrário do cVEMP, avalia vias vestibulares ascendentes. Há evidências de que a modulação da atividade dos músculos extraoculares seja a origem deste potencial7. A via do reflexo vestibulossacular iniciase a partir da estimulação da mácula sacular, em que esse potencial caminha pelo nervo vestibular inferior e atinge os núcleos vestibulares, no tronco encefálico, os quais estão localizados na ponte, no assoalho do IV ventrículo8. O núcleo vestibular lateral recebe respostas provenientes da estimulação da via ipsilateral; enquanto as informações provenientes do lado oposto (via contralateral) atingem os núcleos vestibulares superior e medial9. As fibras oriundas desses núcleos caminham pelo trato vestibuloespinal lateral e medial, através da medula, e seguem para os núcleos motores cervicais com a finalidade de atingir o XI par (nervo acessório), que é input para o músculo ECM10. Similar à esta via, o reflexo vestíbuloocular se origina no sistema vestibular e termina em núcleos motores. Em contraste, esta via se estende aos músculos oculares e também pode ser ativada por estímulos acústicos. O músculo oblíquo inferior é o local de escolha para a captação desse potencial por ser o mais superficial dos seis músculos extraoculares responsáveis pelos movimentos dos olhos e apresenta uma via contralateral de estimulação11. Estudos anteriores sugerem que o oVEMP é vestibular em origem e não é influenciado pelo funcionamento da cóclea e do nervo facial; contudo não existe um consenso quanto a origem exata e caminho neural7,11. Esse potencial não é decorrente de uma resposta do movimento ocular, mas sim miogênica em natureza e surge a partir do reflexo vestíbulo ocular6,7,12. ► A estimulação contralateral resulta em maiores amplitudes de resposta do oVEMP visto que a via vestíbuloocular é naturalmente cruzada7,13; enquanto o cVEMP apresenta em grande parte uma resposta ipsilateral. Observouse que, quando a estimulação sonora do oVEMP é por via aérea, ocorre a ativação do reflexo sáculo ocular14. Conseguese captar respostas do sáculo e do utrículo, simultaneamente, apenas quando a estimulação é por via óssea7. A via neural do oVEMP, para estímulos de via aérea, não é totalmente compreendida7, mas é provável que o potencial elétrico desencadeado no sáculo estimule o nervo vestibular inferior, atravesse o canal auditivo interno para formar o trato vestibular, o qual chega nos núcleos vestibulares no tronco encefálico. Esses núcleos enviam impulsos ascendentes aos núcleos oculomotores do olho, cerebelo, córtex e hipotálamo15. Rosengren et al.16 relatam que a via neural do oVEMP, através do reflexo vestíbuloocular, acontece por meio da ativação do nervo vestibular, núcleo vestibular até o fascículo longitudinal medial, onde em algum momento ocorre a decussação terminando nos núcleos oculomotores, nos nervos oculares e, por fim, nos músculos oculares. Nas Figuras 25.1 e 25.2, podese visualizar desenho esquemático do provável caminho neural do cVEMP e do oVEMP, respectivamente. Figura 25.1 Caminho neural do VEMP cervical. Figura 25.2 Caminho neural do VEMP ocular. Procedimentos para a realização dos exames de VEMP Os exames de VEMP podem ser realizados em equipamentos utilizados para registro dos potenciais evocados auditivos, sendo necessária a aquisiçãode um módulo adicional específico. Existem ainda equipamentos desenvolvidos, especificamente, para a captação do VEMP17. A ativação dos órgãos otolíticos (sáculo e utrículo) pode ser realizada por meio de estímulos sonoros de forte intensidade, por via aérea (VA) ou por via óssea (VO)7,18,19. Estímulos por VA são os clinicamente mais utilizados para a captação do cVEMP por serem mais específicos na estimulação de respostas saculares que os estímulos por VO ou galvânicos. Da mesma forma que o cVEMP, o oVEMP pode ser desencadeado por estimulação acústica, em que é registrada a atividade eletromiográfica dos músculos oculares. Inicialmente, Rosengren et al.6 utilizaram estímulos por VO para eliciar estas respostas, contudo, estímulos de condução aérea também têm sido eficazes na produção deste potencial7,8. A ativação por estímulos por VA para captação do oVEMP, em adultos saudáveis, apresenta alta reprodutibilidade e maior simetria que a ativação por vibração óssea. Estímulos por VA, binaurais, estimulam a mácula sacular, enquanto a vibração óssea capta respostas tanto do sáculo quanto do utrículo20. Para captação do cVEMP, podem ser utilizados dois tipos de estímulos, tone bursts18,21 ou cliques22. Estudos mostram que o cVEMP apresenta melhores respostas para estímulos de frequências baixas e, assim, estímulos tone bursts, em frequências ≤1.000 Hz, apresentam melhor definição das ondas e maior amplitude de respostas que as evocadas por cliques23, sendo a de 500 Hz a mais utilizada clinicamente24. Da mesma forma, para a captação do oVEMP, estímulos de frequência grave proporcionam respostas mais amplas e menores limiares que os cliques, sendo a frequência de 500 Hz (por VA) a mais efetiva5. Assim, para o registro do cVEMP e do oVEMP, tanto estímulos por VA quanto por VO mostram maior sensibilidade para tons graves6,7,25. Para a captação do cVEMP, devem ser utilizados estímulos de forte intensidade, iguais ou superiores a 90 dB NAn19, uma vez que os limiares médios estão em torno de 110 dBNPSpe ± 7,3 dB26. Os oVEMPs podem ser obtidos por meio de estímulos mono ou binaurais27 e foram encontrados limiares normais iguais a 80/90 dB nHL para tone bursts de 500 Hz, por VA25,27. O registro das ondas desses potenciais, com boa definição, depende ainda da quantidade de estímulos e da taxa de aplicação desses estímulos. Assim, para o cVEMP devem ser utilizados em torno de 100 estímulos, sendo promediados na taxa de 5 estímulos por segundo, 5 Hz24. Para o oVEMP, são utilizados de 100 a 250 estímulos, em taxas de estimulação que variam entre 3 e 5 Hz7,25. Após a estimulação sonora, esses potenciais elétricos são captados por meio de eletrodos de superfície, os quais podem ser ou não descartáveis18,22. Antes da colocação dos eletrodos, devese realizar limpeza da pele do paciente com auxílio de algodão embebido em álcool e, em seguida, utilizase pasta abrasiva para retirar excesso de células mortas e melhorar a limpeza e, com isso, produzir impedância menor que 5.000 Ω (5 kΩ) para cVEMP e menor que 7.000 Ω para oVEMP. Clinicamente, a captação do cVEMP é realizada com eletrodos ativos localizados na metade superior do músculo esternocleidomastóideo, ipsilateral à estimulação18,24. O eletrodo de referência deve ser colocado em posição eletricamente indiferente e distante do eletrodo ativo, como na borda superior do esterno18, na metade da borda superior da clavícula ou, até mesmo, no ombro ou no dorso da mão10; enquanto o eletrodo terra, geralmente, é posicionado na linha média frontal22. Podemos visualizar, na Figura 25.3, exemplo de posicionamento de eletrodos para a captação do cVEMP. Como a origem do oVEMP é nos órgãos otólitos, seu registro apresentase melhor nos músculos extraoculares ligeiramente abaixo do olho contralateral ao estímulo; o eletrodo referência é posicionado 1 a 2 cm abaixo do ativo, no rosto, e o eletrodo terra deve ser colocado na fronte para registro diferencial27, como pode ser visualizado na Figura 25.4. Já Nguyen et al.28 utilizaram em seus estudos a seguinte montagem de eletrodos: eletrodo não inversor colocado cerca de 3 mm abaixo do olho e centrado abaixo da pupila, eletrodo inversor centrado dois centímetros abaixo do eletrodo não inversor, e um eletrodo terra colocado no manúbrio do esterno. Figura 25.3 Posicionamento dos eletrodos para a captação do VEMP cervical. Figura 25.4 Posicionamento dos eletrodos para a captação do VEMP ocular. Os músculos extraoculares inferiores são os mais ativados quando os olhos estão em posição superomedial5,6, uma vez que esta direção proporciona que o ventre do músculo oblíquo inferior fique mais próximo da superfície da pele. Após a colocação dos eletrodos, seguese com a captação do potencial, o qual deve ser submetido a um processo de filtragem para eliminação de artefatos e interferências. Frequentemente, para o cVEMP utilizamse filtros passabanda entre 20 e 2.000 Hz, os quais devem ser configurados para incluir, relativamente, baixas frequências presentes na atividade miogênica22. Já para o oVEMP, esses filtros variam de 5 a 500 Hz5, 1 a 1000 Hz27, e 5 a 300 Hz6. ► No Quadro 25.1, podem ser observados alguns parâmetros para a realização dos exames de cVEMP e oVEMP. Quadro 25.1 Protocolos de captação dos exames de cVEMP e oVEMP. Caraterísticas de estimulação cVEMP oVEMP Tipo de estímulo Tone burst Tone burst Frequência 500 Hz 500 Hz Intensidade ≥ 90 dBNA 70 a 95 dB nHL27 Taxa 5 Hz 5 Hz Características para captação Localização dos eletrodos Ativo: metade superior do ECM Ativo: m. oblíquo inferior Referência: manúbrio do esterno Referência: 2 cm abaixo do ativo Terra: fronte Terra: fronte Impedância entre os eletrodos < 5.000 Ω (preferível) < 7.000 Ω (preferível) Filtro passa-banda 20 a 2.000 Hz 5 a 500 Hz5 1 a 1.000 Hz27 5 a 300 Hz6 Janela de captação 50 ms 50 ms Quantidade de estímulos 100 estímulos 100 a 250 estímulos Registro das respostas do VEMP O cVEMP é registrado por meio de dois picos de ondas, denominadas p13 e n23, as quais são decorrentes de uma atividade eletromiográfica inibitória resultante do reflexo vestibulocervical, o qual é utilizado para manter a estabilidade da cabeça e do pescoço2,22. Essas ondas podem ser visualizadas, esquematicamente, na Figura 25.5. Figura 25.5 Traçado das ondas P1 e N1 do VEMP cervical registradas ipso e contralateralmente. A denominação das ondas de p13 e n23 está baseada na polaridade e na latência dessas ondas e é a nomenclatura mais utilizada nas publicações3,22. Entretanto, Papathanasiou et al.3 acreditam que a melhor forma de nomear essas ondas seja ► por meio dos componentes numerados em sequência pela polaridade, por exemplo, N1, N2, N3. Assim, sugerem que o primeiro pico positivo (p13) seja denominado de P1 e o primeiro pico negativo (n23) de N1. O traçado obtido no oVEMP (Figura 25.6) consiste em uma forma de onda bifásica, em que o primeiro pico tem uma deflexão negativa (N) na latência de 10 milissegundos (N1), seguida de um pico positivo com uma latência média de 15 milissegundos, denominado de P17,11. Alguns autores29 denominam de potencial N10 o primeiro pico negativo que ocorre entre 7 e 11 ms, seguido de um pico positivo em torno de 12 e 16 ms, referido como P16. Diversos estudos confirmaram que o componente N1 é de origem vestibular, resultante especificamente, de uma resposta otolíticosacular57,27,33. Alguns autores relatam que das duas ondas do oVEMP, apenas a N10 encontrase ausente em pacientes com alteração vestibular e presente em sujeitos com perda auditiva e função vestibular normal, o que sugere que as ondas posteriores possam estar envolvidas com componentes não vestibulares29. Figura 25.6 Traçado das ondas N1 e P1 do VEMP ocular registradas ipso e contralateralmente. Análise e interpretação das respostas do cVEMP e do oVEMP Paraa análise das respostas do cVEMP, devese, inicialmente, demarcar os primeiros picos negativo e positivo, em torno de 13 e 23 ms, respectivamente e, em seguida, verificar os parâmetros de latência, amplitude e limiar das ondas p13 e n2322,26. A latência é o parâmetro clínico mais utilizado na análise das respostas do cVEMP10,26, uma vez que esse parâmetro independe da intensidade do estímulo, do nível de tensão eletromiográfica e da idade, e apresenta, ainda, alta reprodutibilidade18,26. Já o parâmetro amplitude apresenta pouca reprodutibilidade intra e intersujeitos e é dependente de fatores como idade, intensidade e frequência do estímulo e contração tônica do músculo22. Em decorrência da enorme interferência de diversos fatores e da falta de reprodutibilidade da amplitude absoluta, devemos utilizar, para análise do cVEMP, o cálculo da razão de amplitude (R%), expresso em porcentagem, calculado por meio da Equação 1. Esse índice demonstra a subtração da amplitude das respostas do músculo direito pelas do músculo esquerdo, em módulo, dividida pela soma da amplitude dessas respostas, multiplicadas por 10024. A amplitude de cada lado do músculo (direito ou esquerdo) deve ser calculada pela amplitude interpico p13n2310. Em que, A = amplitude de VEMP; e E e D em referência aos lados esquerdo e direito. Esse cálculo avalia a simetria entre as respostas dos lados direito e esquerdo do cVEMP. Com isso, pequenas diferenças interaurais na amplitude do cVEMP produzem uma pequena razão de amplitude. Em contraposição, altos valores para a razão de amplitude (R%) são decorrentes de grandes discrepâncias nas amplitudes entre os lados, o que ► pode ser resultante de alta amplitude no lado normal e amplitude reduzida no lado da disfunção vestibular. Dessa forma, menores amplitudes de cVEMP em um lado são sugestivas de anormalidade vestibular30. Nas análises do oVEMP, devese demarcar os valores de latência de N10 (N1) e P16 (P1) e utilizar o “cálculo da diferença da amplitude interaural” (AR), em que a fórmula é a mesma utilizada para a análise de R% no cVEMP. Utiliza se o cálculo de AR, visto que, de acordo com Picciotti et al.31, a amplitude é um parâmetro muito variável e dependente da tensão muscular e da intensidade do estímulo. Já para Nguyen et al.28, devese utilizar apenas o cálculo de AR baseandose nos valores de N10. Assim, ele denominou este cálculo de n10AR, para o qual se deve utilizar a Equação 2, em que a amplitude de N10 deve ser calculada como a amplitude a partir da linha de base para o pico da resposta N1032. Em que, An10 = amplitude da onda N10 do oVEMP; An10 Maior em referência ao lado com maior amplitude e An10 Menor em referência ao lado com menor amplitude. Além das análises de latência e amplitude, devese ainda realizar a captação do limiar, o qual é denominado como a menor intensidade de estímulo necessária para evocar uma resposta de VEMP33. Para uma adequada interpretação clínica do cVEMP e do oVEMP, devese levar em consideração os valores de amplitude e limiar entre as orelhas direita e esquerda, para se realizar indicação do provável lado da lesão2. Estudos anteriores29,34 demonstraram que pacientes que tiveram alteração vestibular póscirúrgica apresentaram assimetria na amplitude de N10, o que possibilitou a detecção do lado afetado. No registro do cVEMP, ausência de respostas, valores prolongados de latência, respostas com limiares anormais e grandes diferenças de amplitude interaural são consideradas respostas alteradas1. No cVEMP, como a latência pode ser afetada pelas condições de captação, Murofushi1 sugere que o valor de P1 não deva ultrapassar 17,7 ms quando considerados estímulos tone busts de 500 Hz (por VA) e intensidade de 125 dBSPL. Limiares menores que 95 dBSPL, para os mesmos parâmetros de estimulação, são considerados anormais1. Para este potencial, na interpretação do cálculo da razão de amplitude em sujeitos adultos normais, com menos de 60 anos, considerase normal uma R% ≤ 34 e uma R% > 34 está relacionada com disfunção sacular24. Já Murofushi1 considera que 41,6% é o valor limite para a normalidade de R%, enquanto Papathanasius et al.3 determinam que este valor seja de até 50%. Sujeitos com alteração condutiva em orelha média podem apresentar ausência de respostas de cVEMP (por via aérea), mesmo diante da presença de função vestibular normal. Diferenças de gaps aéreoosséo maiores que 15 dB são suficientes para proporcionar alterações no registro deste potencial1. Na interpretação do oVEMP, devese considerar valores de latência de N10 de até 13,6 ms Tone Burst (TB) de 500Hz por VA e intensidade 95 dBSPL e os limiares máximos encontrados devem ser de até 105 dBSPL. Os valores de assimetria de amplitude (AR) permitidos são de até 44,3%1. Já os valores de n10AR deve variar de 0,52 a 34,05%. Para pacientes com alteração vestibular unilateral, a média de n10AR foi significativamente maior, sendo igual a 75,03%, e desvio padrão igual a 16,32%. Alguns estudos demonstraram a confiabilidade do n10AR, por meio de testes repetidos (teste/reteste)29,35. Aplicações clínicas do exame de VEMP Dentre as principais aplicações clínicas do VEMP, temos: diagnóstico da doença de Ménière, do schwannoma vestibular e da síndrome da deiscência do canal semicircular superior1. A utilização do VEMP, no diagnóstico da doença de Ménière (DM), está relacionada com a presença de hidropsia cocleossacular, a qual ocorre mais frequentemente na cóclea, sendo o sáculo a segunda região de maior prevalência. A depender do estágio da doença de Ménière, podemos encontrar diferentes achados nos resultados do cVEMP, os quais refletem diferentes estágios patológicos do sáculo. Assim, nos estágios precoces, podem ser observadas amplitudes aumentadas, em decorrência de uma hipersensibilidade do sáculo, causada pela dilatação sacular. E nos estágios tardios, as amplitudes podem estar atenuadas, como resultado da dilatação do sáculo e atrofia do epitélio sensorial, ou ausente, na ► presença de um colapso no epitélio sensorial da membrana sacular36. Dessa forma, o VEMP pode ser útil no diagnóstico precoce e no monitoramento dos estágios da DM33,36. Estudo realizado por Winters et al.37, com 37 pacientes diagnosticados com doença de Ménière, observou oVEMPs com menores taxas de respostas, amplitudes diminuídas e limiares mais elevados que indivíduos sem essa doença. Estes achados foram encontrados em ambas as orelhas, e o lado afetado estava mais alterado que o clinicamente não afetado. O VEMP também é importante no diagnóstico da localização do schwannoma, nervo vestibular superior ou inferior. Assim, juntamente com o PEATE, que avalia a parte auditiva do VIII par (nervo vestíbulococlear), e com a prova calórica, que acessa a integridade da porção superior das fibras vestibulares, podemos identificar a localização exata do tumor em todo o nervo vestíbulococlear10. Já em indivíduos com síndrome da deiscência do canal semicircular superior (SDCSS), o cVEMP apresenta parâmetros de ondas diferentes do que é habitualmente verificado em outras alterações vestibulares. Na SDCSS são observadas ondas com limiares diminuídos (em torno de 70 dB NAn) e amplitudes aumentadas no lado afetado, apesar de morfologia normal2. Mais recentemente, o oVEMP foi utilizado no diagnóstico da SDCSS3841 e vários estudos demonstraram que estes potenciais apresentam menores limiares e maiores amplitudes que os encontrados no cVEMP, nesta população38,39. Estudo recente40 confirmou estes achados em orelhas com SDCSS, e foram observadas amplitudes duas vezes maiores de cVEMP em comparação com o grupo controle; enquanto a amplitude do oVEMP, para o mesmo tipode estímulo, mostrouse 10 vezes maior. Zuniga et al.32 observaram que as amplitudes do oVEMP são mais sensíveis e específicas que os limiares do cVEMP para o diagnóstico da SDCSS, e os resultados dos limiares do cVEMP mostraram sensibilidade e especificidade entre 80 e 100% para o diagnóstico de SCDSS; enquanto as amplitudes oVEMP apresentaram sensibilidade e especificidade maiores que 90%. Enquanto as amplitudes e limiares de VEMP são afetados, significativamente, em pacientes com SDCSS, a latência e a morfologia não são, o que indica que o sistema vestibular central não é afetado nessa desordem42. Assim, à medida que o oVEMP se torna reconhecido na avaliação da função otolítica, juntamente com o cVEMP, também está sendo difundido seu uso como exame complementar no diagnóstico de distúrbios vestibulares centrais28. Conclusão O VEMP é um potencial muscular de curta latência captado por estímulos sonoros de forte intensidade, vibração ou estímulos elétricos, o qual pode ser gravado em diferentes músculos do corpo, sendo denominado de VEMP cervical (cVEMP) quando registrado no músculo esternocleidomastóideo (ECM) ao longo da coluna cervical e VEMP ocular (oVEMP), quando captado na musculatura extraocular. Esses exames de VEMP são importantes como procedimentos complementares para um adequado diagnóstico otoneurológico por fornecer informações não observadas pelos exames vestibulares tradicionais. A captação do cVEMP é realizada por meio de eletrodos de superfície, posicionados no músculo esternocleidomastóideo, ipsilateral ao estímulo (eletrodo ativo); no manúbrio do esterno (eletrodo de referência) e na fronte (eletrodo terra). Para a realização do exame, o paciente deve permanecer sentado, com a cabeça voltada contralateralmente aos estímulos, mantendo contração tônica do músculo esternocleidomastóideo. A montagem do eletrodo para o registro do oVEMP consiste em um eletrodo não inversor colocado logo abaixo do olho, no músculo orbicular inferior contralateral ao estímulo; um eletrodo inversor centrado dois centímetros abaixo do eletrodo não inversor, e um eletrodo terra posicionado na fronte. O paciente deve manter posição superomedial do olhar. Para a estimulação do VEMP, devem ser promediados 100 estímulos tone bursts, na frequência de 500 Hz, em intensidades ≥ 90 dBNA, com taxa de 5 Hz, sendo de forma ipsilateral no cVEMP e contralateral no oVEMP. O registro do cVEMP é realizado em janelas de 50 ms, na forma de ondas no traçado (p13/n23 ou P1/N1). Já o traçado obtido no oVEMP consiste em uma forma de onda bifásica, em que o primeiro pico tem uma deflexão negativa (N) na latência de 10 milissegundos (N1), seguida de um pico positivo com uma latência média de 15 milissegundos, denominado de P1. Dentre as principais aplicações clínicas do VEMP, podemos citar: diagnóstico da doença de Ménière, acesso à função do nervo vestibular e diagnóstico da síndrome da deiscência do canal semicircular superior. ► 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. 29. 30. 31. 32. 33. Referências bibliográ�cas Murofushi, T. Vestibular evoked myogenic potential. World J Otorhinolaryngol., v.4, n.2, 2014. Colebatch, J.G.; Halmagyi, G.M.; Skuse, N.F. Myogenic potentials generated by a clickevoked vestibulocollic reflex. J Neurol Neurosurg Psychiatry., v. 57, p.1907, 1994. Papathanasiou, E.S. et al. International guidelines for the clinical application of cervical vestibular evoked myogenic potentials: an expert consensus report. Clin Neurophysiol., v.125, n.4, p.658666, 2014. Brantberg, K. Vestibular evoked myogenic potentials (VEMPs): usefulness in clinical neurotology. Semin. Neurol., v. 29, p. 541548, 2009. Chihara, Y. et al. Vestibularevoked extraocular potentials by airconducted sound: Another clinical test for vestibular dysfunction. Clin Neurophysiol, v. 118, p.27452751, 2007. Rosengren, S.M.; Todd, N.P.; Colebatch, J.G. Vestibularevoked extraocular potentials produced by stimulation with boneconducted sound. Clin Neurophysiol., v.116, n.8, p.19381948, 2005. Todd, N.P. et al. Ocular vestibular evoked myogenic potentials (oVEMPs) produced by air and boneconducted sound. Clin Neurophysiol, v.118, p.381390, 2007. Halmagyi, G.; Curtíos I. Pruebas de función otolítica. Rev Med Univ Navarra. v.47, n.4, p.2937, 2003. Murofushi, T. et al. Absent vestibular evoked myogenic potencials in vestibular neurolabyrinthitis. Arch Otolaryngol Head Neck Surg., v.122, n.8, p.845848, 1996. Burkard, R.F.; Eggermont, J.J.; Don, M. Auditory evoked potentials: Basic principles and Clinical Application. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2007. Todd, N.P.; Rosengren, S.M.; Colebatch, J.G. Ocular vestibular evoked myogenic potentials (OVEMPs) produced by impulsive transmastoid accelerations. Clin Neurophysiol., v.119, p.16381651, 2008. Chihara, Y. et al. Ocular vestibularevoked myogenic potentials (oVEMPs) require extraocular muscles but not facial or cochlear nerve activity. Clinical Neurophysiology, v.120, n.3, p.581587, 2009. Isu, N. et al. Sacculoocular reflex connectivity in cats. Experimental Brain Res., v.131, p.262268, 2000. Murofushi, T.; Curthoys, I, S. Physiological and anatomical study of clicksensitive primary vestibular afferents in the guinea pig. Acta Otolaryngol., v.117, n.1, p.6672, 1997. Furman, J, M.; Cass, S, P. Vestibular Disorders, A Casestudy Approach. 2 Ed. New York: Oxford, 2003. Rosengren, S.; Welgampola, M.; Colebatch, J. Vestibular evoked myogenic potentials: past, present and future. Clin Neurophysiol., v.121, p. 636651, 2010. Oliveira, A.C.; Colafemina, J. F.; Menezes, P.L. Potencial miogênico evocado vestibular: proposição de um novo instrumento. Arq. Int. Otorrinolaringol., v.14, n.4, p.4106, 2010. Basta, D.; Todt, I.; Ernst, A. Normative data for P1/N1 – latencies of vestibular evoked myogenic potencials induced by air or bone conducted tone bursts. Clin Neurophysiol., v.116, n.9, p. 22162219, 2005. Ito, K.; Karino, S.; Murofushi, T. Effect of head position on vestibular evoked myogenic potencials with toneburst stimuli. Acta Oto Laryngol., v.127, n.1, p. 5761, 2007. Curthoys, I.S. et al. Bone conducted vibration selectively activates irregular primary otolithic vestibular neurons in the guinea pig. Exp Brain Res., v.175, p.256267, 2006. Timmer, F.C.A. et al. Vestibular evoked myogenic potencial (VEMP) in patients with Ménière’s Disease with drop attacks. Laryngoscope, v. 116, n.5, p. 776779, 2006. Hall, J.W. New Handbook for Auditory Evoked Responses. Boston: Pearson Education; 2006. Akin, F. et al. The influence of voluntary tonic EMG level on the vestibularevoked myogenic potencial. JRRD. v.41, n. 3B, p. 473 480, 2004. Murofushi, T.; Matsuzaki, M.; WU, C. Short tone burstevoked myogenic potencials on the sternocleidomastoid muscle: are these potentials also of vestibular origin? Arch Otolaryngol Head Neck Surg., v.125, n. 6, p.660664, 1999. Park, H.J. et al. Frequencytuning characteristics of cervical and ocular vestibular evoked myogenic potentials induced by air conducted tone bursts. Clin Neurophysiol., v. 121, p. 8589, 2010. Damen, M.M.J. Vestibular evoked myogenic potencial (VEMP), Clinical aplication of the threshold. Thesis (Medical Engineering) – University of Groningen, Netherlands, 2007. Wang, S.J.; Jaw, F.S.; Young, Y.H. Ocular vestibularevoked myogenic potentials elicited from monaural versus binaural acoustic stimulations. Clin Neurophysiol., v.120, p.420423, 2009. Nguyen, K.D.; Welgampola, M.S.; Carey, J.P. Testretest reliability and agerelated characteristics of the ocular and cervical vestibular evoked myogenic potential tests. Otol Neurotol., v. 31, n.5, p.793–802, 2010. Iwasaki,S. et al. Head taps evoke a crossed vestibuloocular reflex. Neurology, v.68, p.12271229, 2007. Young, Y.; Kuo, S. Sidedifference of vestibular evoked myogenic potentials in healthy subjects. Hear Res., v.198, p.9398. 2004. Picciotti, P.M. et al. VEMPs and dynamic posturography after intratympanic gentamycin in Meniere’s disease. J Vestibular Res., v.15, n.3, p.161– 168, 2005. Zuniga, M.G. et al. Ocular versus cervical VEMPs in the diagnosis of superior semicircular canal dehiscence syndrome. Otol Neurotol., v.34, n.1, p.1216, 2013. Timmer, F.C.A. et al. Association between hearing loss and saccular dysfunction in older individuals vestibular evoked myogenic potencial (VEMP) in patients with Ménière’s disease with drop attacks. Laryngoscope, v.116, n. 5, p. 776779, 2006. 34. 35. 36. 37. 38. 39. 40. 41. 42. Iwasaki S. et al. Ocular vestibular evoked myogenic potentials to bone conducted vibration of the midline forehead at Fz in healthy subjects. Clin Neurophysiol, v.119, p.21352147, 2008. Iwasaki, S. et al. Ocular vestibular evoked myogenic potentials in response to boneconducted vibration of the midline forehead at fz: A new indicator of unilateral otolithic loss. Audiol Neurotol, v.13, n.6, p.396404, 2008. Young, Y.; Huang, T.; Cheng, P. Assessing the Stage of Menière’s Disease Using Vestibular Evoked Myogenic Potentials. Arch Otolaryngol Head Neck Surg., v.129, n.8, p.8158, 2003. Winters, S.M. et al. Ocular vestibular evoked myogenic potentials in response to airconducted sound in Ménière’s disease. Otol Neurotol., v.32, n.8, p.127380, 2011. Welgampola, M.S. et al. Vestibularevoked myogenic potential thresholds normalize on plugging superior canal dehiscence. Neurology, v.70, n.6, p.464472, 2008. Rosengren, S.M.; Halmagyi, G.M.; Colebatch, J.G. Vestibular hypersensitivity to sound in superior canal dehiscence: large evoked responses in the legs produce little postural sway. Clin Neurophysiol., v.119, n.7, p.1674–1682, 2008. Janky, K.L. et al. Airconducted oVEMPs provide the best separation between the intact and dehiscent labyrinth. Otol Neurotol., v.34, n.1, p.12734, 2013. Manzari, L. et al. Ocular and cervical vestibularevoked myogenic potentials to 500 Hz Fz boneconducted vibration in superior semicircular canal dehiscence. Ear Hear, v. 33, n.4, p.508520, 2012. Mcnerney, K.S. The use of 64channel electroencephalography and positron emission tomography to study vestibular evoked myogenic potentials. Thesis (Department of Communicative Disorders and Science) – State University of New York, New York (USA); 2007.