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DIREITO CIVIL
DIREITOS REAIS
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO – DIREITO DAS COISAS X DIREITOS REAIS 4
2. DIFERENÇA ENTRE DIREITOS REAIS E DIREITOS PESSOAIS PATRIMONIAIS 13
3. POSSE 14
3.1. CONCEITO, NATUREZA JURÍDICA E TEORIAS JUSTIFICADORAS 15
3.1.1. Conceito de posse 15
3.1.2. Natureza jurídica da posse 15
3.1.3. Teorias Justificadoras Da Posse 18
3.2. DIFERENÇAS ENTRE POSSE E DETENÇÃO 20
3.3. PRINCIPAIS CLASSIFICAÇÕES DA POSSE E SEUS OBJETOS 25
3.3.1. Quanto aos vícios objetivos 25
3.3.2. Quanto aos vícios subjetivos ou quanto à boa-fé 31
3.3.3. Quanto ao desdobramento (paralelismo ou relação pessoa - coisa) 36
3.3.4. Quanto à presença do título (causa representativa da posse, documentada ou não) 38
3.3.5. Quanto ao tempo 39
3.3.7. Composse ou compossessão (art. 1.199) 53
3.4. AQUISIÇÃO, TRANSMISSÃO E PERDA DA POSSE 56
4. PROPRIEDADE (“GRUD”) – Gozar, Reivindicar, Usar e Dispor 65
4.1. CONCEITO E ATRIBUTOS 71
4.2. PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO DIREITO DE PROPRIEDADE 75
4.3. FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE 92
4.4. A FUNÇÃO SOCIAL DA POSSE E A DESAPROPRIAÇÃO JUDICIAL EM POSSE-TRABALHO* 97
4.5. FORMAS DE AQUISIÇÃO DA PROPRIEDADE IMÓVEL 103
4.5.1. Usucapião imobiliária* 108
5. ENFITEUSE* 118
6. CONCESSÃO DE DIREITO REAL DE USO* 124
7. CONCESSÃO DE USO ESPECIAL PARA FINS DE MORADIA* 126
8. MODOS DE AQUISIÇÃO DA PROPRIEDADE MÓVEL 128
9. MODOS DE PERDA DA PROPRIEDADE 131
10. DA PROPRIEDADE RESOLÚVEL 132
11. DA PROPRIEDADE FIDUCIÁRIA 133
12. ARRENDAMENTO RURAL 139
13. ADENDO: LEI 13.465/2017 E A REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA* 139
14. PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA – PMCMV* 146
15. JURISPRUDÊNCIA EM TESES- STJ 151
16. DISPOSITIVOS PARA CICLOS DE LEGISLAÇÃO 152
17. BIBLIOGRAFIA UTILIZADA 152
ATUALIZADO EM 09/02/2023[footnoteRef:1] [1: As FUCS são constantemente atualizadas e aperfeiçoadas pela nossa equipe. Por isso, mantemos um canal aberto de diálogo (setordematerialciclos@gmail.com) com os alunos da #famíliaciclos, onde críticas, sugestões e equívocos, porventura identificados no material, são muito bem-vindos. Obs1. Solicitamos que o e-mail enviado contenha o título do material e o número da página para melhor identificação do assunto tratado. Obs2. O canal não se destina a tirar dúvidas jurídicas acerca do conteúdo abordado nos materiais, mas tão somente para que o aluno reporte à equipe quaisquer dos eventos anteriormente citados.]
DIREITO DAS COISAS
1. INTRODUÇÃO – DIREITO DAS COISAS X DIREITOS REAIS
A expressão “Direito das Coisas” significa um ramo do Direito Civil (Livro do CC/02) que tem por objeto as relações de domínio entre pessoas e coisas. Essa relação de domínio pode ser de dois tipos: domínio fático (posse) e domínio jurídico (propriedade).
Existe uma pessoa que é o sujeito ativo dessa relação de domínio (soberania privada) sobre uma coisa. O sujeito passivo, para Orlando Gomes, é universal, isto é, toda a coletividade. Esse direito, em regra, é oponível a todos (efeitos erga omnes). Todos os doutrinadores aceitam essa ideia.
OBSERVAÇÃO¹: Devemos entender coisa como um bem corpóreo, material, tangível. Para os civilistas não existe posse ou propriedade sobre bens imateriais ou incorpóreos. Portanto, os civilistas não admitem a ideia de propriedade intelectual. Por quê? Primeiro porque você coisifica a pessoa. Segundo porque o regime jurídico é bem diverso (não existe usucapião para tais direitos, por exemplo). Além disso, posse e propriedade devem ser sobre bens passíveis de serem locados.
Nesse sentido, súmula nº 228 do STJ: É inadmissível interdito proibitório para proteção de direito autoral, já que não há posse sobre direitos autorais. Há direitos autorais, mas não posse ou propriedade sobre eles. Essa ideia de propriedade intelectual pode até ser interessante para direito empresarial, mas em provas de direito civil não devemos aceitar.
OBSERVAÇÃO²: Esse esquema que vimos aqui explica a essência da teoria realista ou clássica: submissão da coisa + sujeito passivo universal. Foi superada a teoria personalista, que afirmava ser a relação de domínio uma relação entre pessoas intermediada por coisas. Apesar disso, veremos, posteriormente, uma tendência de volta dessa teoria, devido a uma aproximação entre os direitos pessoais e o direito das coisas.
a) Teoria personalista – teoria pela qual os direitos reais são relações jurídicas estabelecidas entre pessoas, mas intermediadas por coisas. Segundo Orlando Gomes, “a diferença está no sujeito passivo. Enquanto no direito pessoal, esse sujeito passivo – o devedor – é pessoa certa e determinada, no direito real seria indeterminada, havendo nesse caso uma obrigação passiva universal, a de respeitar o direito – obrigação que se concretiza toda vez que alguém o viola”. Essa teoria nega realidade metodológica aos Direitos Reais e ao Direito das Coisas, entendidas as expressões como extensões de um campo metodológico.
b) Teoria realista ou clássica – o direito real constitui um poder imediato que a pessoa exerce sobre a coisa, com eficácia contra todos (erga omnes). O direito real opõe-se ao direito pessoal, pois o último traz uma relação pessoa-pessoa, exigindo-se determinados comportamentos.
Mas, afinal, qual a diferença entre Direito das Coisas e Direitos Reais? Para responder essa pergunta devemos analisar a organização do CC/02. O livro III é “do direito das coisas”, que se subdivide em Título I (Da Posse) e Título II (Dos Direitos Reais).
Desse modo, percebemos que, pelo CC/02, posse não é direito real (art. 1.225). Mas é direito das coisas. Direito das coisas é mais amplo. Apesar disso, Maria Berenice Dias, entre outros, tratam direitos reais como sendo o gênero. E a opção do legislador foi por essa diferenciação. Então direitos reais é parte do conteúdo dos direitos das coisas.
Logo, a expressão “Direitos Reais” significa parte do conteúdo do “Direito das Coisas”. É um conjunto de institutos relacionados à propriedade, seja ela plena ou limitada. Assim, direitos reais remete ao domínio jurídico, não ao domínio fático (posse).
· Oponibilidade erga omnes, ou seja, contra todos os membros da coletividade;
· Existência de um direito de sequela, que segue a coisa;
· Previsão de um direito de preferência a favor do titular de um direito real;
· Possibilidade de abandono dos direitos reais, de renúncia a tais direitos;
· Viabilidade de incorporação da coisa por meio da posse;
· Previsão da usucapião como um dos meios de sua aquisição;
· Suposta obediência a um rol taxativo (numerus clausus) de institutos, previstos em lei, o que consagra o princípio da tipicidade dos direitos reais;
· Regência pelo princípio da publicidade dos atos, o que se dá pela entrega da coisa ou tradição (no caso de bens móveis) e pelo registro (no caso de bens imóveis).
*(Atualizado em 14/03/2021) #DEOLHONAJURIS: Caso concreto: no ano de 1982 foi pedido o registro de um loteamento de imóvel junto ao 11º Cartório de Registro de Imóveis. O imóvel objeto do loteamento foi desmembrado em 16 unidades independentes, com matrículas próprias. Por escritura de venda e compra, a empresa CAMPER (especializada em negócios imobiliários) adquiriu todos os lotes que seriam objeto do loteamento. Diante do seu desinteresse em manter o empreendimento, a CAMPER solicitou perante o 11º Cartório de Registro de Imóveis o cancelamento do procedimento de registro do loteamento, o que não foi acolhido sob o argumento de que ela não teria legitimidade. O STJ reconheceu a existência de legitimidade da requerente. A empresa incorporadora e administradora de negócios imobiliários que adquire todos os lotes do loteamento e se sub-roga nos direitos do loteador possui legitimidade para requerer o cancelamento do procedimento do registro do loteamento, vedada a pretensão nos casos de comprovado inconveniente para o desenvolvimento urbano ou quando realizado algum melhoramento na área loteada e adjacências. No caso, não tinha havido ainda o registro do loteamento, que se encontrava na fase de aprovação dos projetos perante a municipalidade. Ademais, não houve nenhum tipode obra ou melhoramento no imóvel objeto do loteamento ou nos seus arredores, tampouco ação do Poder do Público, ou seja, o terreno encontrava-se da mesma forma tal como na época do início do procedimento, razão pela qual a municipalidade não teria motivo para obstar o pedido de cancelamento. Destaca-se que cancelar o procedimento do pedido de registro de loteamento é diferente de pedir o cancelamento do registro do loteamento, hipótese em que a tradição para a Municipalidade já se operou; naquela outra não. STJ. 3ª Turma. RMS 60.343-SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 18/08/2020 (Info 678).
O art. 1225 do CC/02 traz os direitos reais. São direitos reais:
I - a propriedade;
II - a superfície;
III - as servidões;
IV - o usufruto;
V - o uso;
VI - a habitação;
VII - o direito do promitente comprador do imóvel;
VIII - o penhor;
IX - a hipoteca;
X - a anticrese.
XI - a concessão de uso especial para fins de moradia; (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007)
XII - a concessão de direito real de uso. (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007)
* XIII – a laje (incluído pela Lei 13.465 de 2017)
I - a propriedade;
- Direito real sobre coisa própria.
- Aqui é propriedade plena.
II - a superfície;
III - as servidões;
IV - o usufruto;
V - o uso;
VI - a habitação;
- Direitos reais da coisa alheia de gozo ou fruição: o terceiro terá a coisa consigo e retirará a utilidade.
*#OUSESABER: O Direito Real de habitação se trata de um direito real de fruição, em que o proprietário confere a um terceiro, denominado habitante, o direito de habitar o imóvel a seu favor e de sua família. O art. 1414, do Código Civil, deixa evidente o caráter personalíssimo do instituto, não sendo possível ceder o direito a terceiros, eis que o instituto visa à moradia específica do beneficiado. Dessa forma, não é admissível o direito real de habitação de segundo grau, ou seja, que o HABITANTE institua um benefício semelhante em favor de terceiro. Todavia, é possível o direito real de habitação simultâneo, isto é, a possibilidade de o PROPRIETÁRIO instituir o direito real de habitação em favor de mais de uma pessoa.
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA #STJ: O reconhecimento do direito real de habitação, a que se refere o art. 1.831 do Código Civil, não pressupõe a inexistência de outros bens no patrimônio do cônjuge/companheiro sobrevivente. Em outras palavras mesmo que o cônjuge ou companheiro sobrevivente possua outros bens, ele terá direito real de habitação. Isso se justifica porque o objetivo da lei é permitir que o cônjuge/companheiro sobrevivente permaneça no mesmo imóvel familiar que residia ao tempo da morte como forma, não apenas de concretizar o direito constitucional à moradia, mas também por razões de ordem humanitária e social, já que não se pode negar a existência de vínculo afetivo e psicológico estabelecido pelos cônjuges/companheiros com o imóvel em que, no transcurso de sua convivência, constituíram não somente residência, mas um lar. STJ. 3ª Turma. REsp 1582178-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 11/09/2018 (Info 633).
*#DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO #STJ Se o cônjuge sobrevivente casar novamente ou constituir uma união estável, ele perderá o direito real de habitação? Ex: João era casado com Maria. Faleceu, deixando quatro filhos e, como herança, um único apartamento, que estava em seu nome e onde morava com a esposa. Diante desse cenário, Maria passou a ter direito real de habitação sobre o imóvel. Suponhamos que 10 anos após a morte de João, Maria passou a viver em união estável com Pedro. Ela perderá o direito real de habitação sobre o imóvel? • Se a morte do autor da herança ocorreu na vigência do CC/1916: SIM. A constituição de união estável superveniente à abertura da sucessão, ocorrida na vigência do Código Civil de 1916, afasta o estado de viuvez previsto como condição resolutiva do direito real de habitação do cônjuge supérstite. • Se a morte do autor da herança ocorreu na vigência do CC/2002: NÃO (posição majoritária da doutrina). O Código Civil de 1916 previa que o direito real de habitação seria extinto caso o cônjuge sobrevivente deixasse de ser viúvo, ou seja, caso se casasse ou iniciasse uma união estável (art. 1.611, § 2º). Como o CC-2002 não repetiu essa regra, entende-se que houve um silêncio eloquente e que não mais existe causa de extinção do direito real de habitação em caso de novo casamento ou união estável. STJ. 3ª Turma. REsp 1.617.636-DF, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 27/08/2019 (Info 655).
VII - o direito do promitente comprador do imóvel;
- Compromisso de compra e venda registrado na matrícula.
- Direitos reais da coisa alheia de aquisição.
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA #STJ: É juridicamente possível o pedido de alienação judicial de bem imóvel objeto de compromisso de compra e venda. STJ. 3ª Turma. REsp 1.501.549-Rs, Rel. Min. Nancy Andrighi, Julgado Em 08/05/2018 (Info 625).
VIII - o penhor;
IX - a hipoteca;
X - a anticrese;
- Direitos reais de garantia + (alienação fiduciária)
XI - a concessão de uso especial para fins de moradia;
XII - a concessão de direito real de uso.
* XIII – A LAJE.
- A Lei nº 11.481/2007 acrescentou esses 2 novos direitos reais sobre a coisa alheia (concessão de uso especial para fins de moradia e concessão de direito real de uso).
- Também são direitos reais de gozo ou fruição.
- São dirigidos fundamentalmente ao poder público. São concessões especiais de direito reais de uso feitas pelo Estado, visando regularizar áreas favelizadas: o inciso XI está no MP 2220/01 e o XII no DL 271/1967. Interessam mais ao direito administrativo.
- Intenção é permitir que o poder público através destes dois novos direitos reais assente pessoas, regularizar situações fundiárias.
Esse rol do art. 1225 é taxativo (numerus clausus) ou exemplificativo (numerus apertus)?
A visão clássica ainda é MAJORITÁRIA, no sentido de que o rol é taxativo. Esse é o posicionamento que devemos adotar em provas de primeira fase. Caio Mário, Orlando Gomes, MHD, Carlos Roberto Gonçalves.
Contudo, há uma visão mais contemporânea que entende que o rol é exemplificativo. Podemos desenvolvê-la em provas de segunda fase ou no exame oral.
A doutrina que entende ser o rol exemplificativo se divide em duas correntes.
1ª Corrente: Para o professor Gustavo Tepedino não há taxatividade, mas tipicidade. Em outras palavras, existe possibilidade de criação de outros direitos reais por outras leis (alienação fiduciária em garantia e legitimação da posse no programa “Minha Casa Minha Vida”, por exemplo). É a visão mais segura dessa vertente, e é a preferida do professor Tartuce.
De fato, existem direitos reais previstos em lei que não estão no rol do art. 1225. Ex.: alienação fiduciária em garantia. DL nº 911/69 e Lei nº 9.514/97. Há quem diga que é propriedade resolúvel e estaria incluída no inciso I. Mas já é uma interpretação que se faz.
2ª Corrente: Já os professores Cristiano Chaves e Nelson Rosenvald entendem que a autonomia privada pode criar novos direitos reais (“direito de laje”, ou de “superfície de segundo grau”).
Segundo o princípio da taxatividade, somente são direitos reais os indicados em lei. Mas não só são direitos reais aqueles constantes no artigo 1.225 supratranscrito, mas também outros disciplinados de modo esparso no próprio Código Civil e os instituídos em diversas leis especiais, ex.: direito de retenção (art. 516), concessão de uso (Lei nº 271/67). As partes não podem criar direitos reais por uma razão simples: prevalecendo os direitos reais erga omnes, seria inadmissível que duas ou três pessoas pudessem, por acordo de vontades, criar deveres jurídicos para toda a sociedade.
*#DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO #STJ O condomínio, independentemente de previsão em regimento interno, não pode proibir, em razão de inadimplência, condômino e seus familiares de usar áreas comuns, ainda que destinadas apenas a lazer. Assim, é ilícita a disposição condominial que proíbe a utilização de áreas comuns do edifício por condômino inadimplente e seus familiares comomedida coercitiva para obrigar o adimplemento das taxas condominiais. STJ. 3ª Turma. REsp 1.564.030-MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 9/8/2016 (Info 588). STJ. 4ª Turma. REsp 1.699.022-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 28/05/2019 (Info 651).
*(Atualizado em 10/05/2020) *#DEOLHONAJURIS #STJ Os condomínios são entes despersonalizados, pois não são titulares das unidades autônomas, tampouco das partes comuns, além de não haver, entre os condôminos, a affectio societatis, tendo em vista a ausência de intenção dos condôminos de estabelecerem, entre si, uma relação jurídica, sendo o vínculo entre eles decorrente do direito exercido sobre a coisa e que é necessário à administração da propriedade comum. Caracterizado o condomínio como uma massa patrimonial, não há como reconhecer que seja ele próprio dotado de honra objetiva. Qualquer ofensa ao conceito (reputação) que possui perante a comunidade representa, em verdade, uma ofensa individualmente dirigida a cada um dos condôminos, pois quem goza de reputação são os condôminos e não o condomínio, ainda que o ato lesivo seja a este endereçado. Diferentemente do que ocorre com as pessoas jurídicas, qualquer repercussão econômica negativa será suportada, ao fim e ao cabo, pelos próprios condôminos, a quem incumbe contribuir para todas as despesas condominiais, e/ou pelos respectivos proprietários, no caso de eventual desvalorização dos imóveis no mercado imobiliário. Assim, o condomínio, por ser uma massa patrimonial, não possui honra objetiva e não pode sofrer dano moral. STJ. 3ª Turma. REsp 1.736.593-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 11/02/2020 (Info 665).
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA: É inválida a penhora da integralidade de imóvel submetido ao regime de multipropriedade (time-sharing) em decorrência de dívida de condomínio de responsabilidade do organizador do compartilhamento. A multipropriedade imobiliária, mesmo não efetivamente codificada, possui natureza jurídica de direito real, harmonizando-se com os institutos constantes do rol previsto no art. 1.225 do Código Civil. STJ. 3ª Turma. REsp 1.546.165-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. para acórdão Min. João Otávio de Noronha, julgado em 26/4/2016 (Info 589).
Vale a pena ler essa complementação citada nos comentários do Dizer o Direito: “Maria Helena Diniz afirmou sobre o instituto: "O sistema time-sharing ou multipropriedade imobiliária é uma espécie condominial relativa aos locais de lazer, pela qual há um aproveitamento econômico de bem imóvel (casa, chalé, apartamento), repartido, como ensina Gustavo Tepedino, em unidades fixas de tempo, assegurando a cada co-titular o seu uso exclusivo e perpétuo durante certo período anual. (...) Trata-se de uma multipropriedade periódica, muito útil para desenvolvimento de turismo em hotéis, clubes e em navios (...) Há um direito real de habitação periódica, como dizem os portugueses, democratizando o imóvel de férias, cujo administrador (trustee) o mantém em nome de um clube, concedendo e organizando o seu uso periódico. Todos os adquirentes são comproprietários de fração ideal, sofrendo limitações temporais e condominiais, sendo que a relação de tempo repartido fica estabelecida em regulamento." (Curso de Direito Civil Brasileiro. 22ª ed. São Paulo: Saraiva, 2007, vol. 4, p. 243.)”
*#DEOLHONAJURIS #STJ Acerca da regulamentação da criação de animais pela convenção condominial, podem surgir três situações: a)Se a convenção não regular a matéria: o condômino pode criar animais em sua unidade autônoma, desde que não viole os deveres previstos no art. 1.336, IV, do CC e no art. 19 da Lei nº 4.591/64. b) Se a convenção veda apenas a permanência de animais causadores de incômodos aos demais moradores: essa norma condominial é válida (não apresenta nenhuma ilegalidade). c) Se a convenção proíbe a criação e a guarda de quaisquer espécies de animais: essa restrição se mostra desarrazoada, considerando que determinados animais não apresentam risco à incolumidade e à tranquilidade dos demais moradores e dos frequentadores ocasionais do condomínio. O impedimento de criar animais em partes exclusivas (unidades autônomas) somente se justifica para a preservação da segurança, da higiene, da saúde e do sossego. Se tais aspectos não estão em risco, não há motivo para a proibição. Assim, é ilegítima a restrição genérica contida em convenção condominial que proíbe a criação e guarda de animais de quaisquer espécies em unidades autônomas STJ. 3ª Turma. REsp 1.783.076-DF, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 14/05/2019 (Info 649).
*#NOVIDADELEGISLATIVA: Modifica a redação do CC, no art. 1.225, passando a prever como direito real: “XIII - a laje”.
* #DICADOCOACH: Aprofunde o assunto no seguinte artigo escrito pelo doutrinador Flávio Tartuce: https://flaviotartuce.jusbrasil.com.br/artigos/478460341/direito-real-de-laje-a-luz-da-lei-n-13465-2017-nova-lei-nova-hermeneutica.
* DA LAJE (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
Art. 1.510-A. O proprietário de uma construção-base poderá ceder a superfície superior ou inferior de sua construção a fim de que o titular da laje mantenha unidade distinta daquela originalmente construída sobre o solo. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 1o O direito real de laje contempla o espaço aéreo ou o subsolo de terrenos públicos ou privados, tomados em projeção vertical, como unidade imobiliária autônoma, não contemplando as demais áreas edificadas ou não pertencentes ao proprietário da construção-base. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 2o O titular do direito real de laje responderá pelos encargos e tributos que incidirem sobre a sua unidade. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 3o Os titulares da laje, unidade imobiliária autônoma constituída em matrícula própria, poderão dela usar, gozar e dispor. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 4o A instituição do direito real de laje não implica a atribuição de fração ideal de terreno ao titular da laje ou a participação proporcional em áreas já edificadas. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 5o Os Municípios e o Distrito Federal poderão dispor sobre posturas edilícias e urbanísticas associadas ao direito real de laje. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 6o O titular da laje poderá ceder a superfície de sua construção para a instituição de um sucessivo direito real de laje, desde que haja autorização expressa dos titulares da construção-base e das demais lajes, respeitadas as posturas edilícias e urbanísticas vigentes. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
Art. 1.510-B. É expressamente vedado ao titular da laje prejudicar com obras novas ou com falta de reparação a segurança, a linha arquitetônica ou o arranjo estético do edifício, observadas as posturas previstas em legislação local. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
Art. 1.510-C. Sem prejuízo, no que couber, das normas aplicáveis aos condomínios edilícios, para fins do direito real de laje, as despesas necessárias à conservação e fruição das partes que sirvam a todo o edifício e ao pagamento de serviços de interesse comum serão partilhadas entre o proprietário da construção-base e o titular da laje, na proporção que venha a ser estipulada em contrato. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 1o São partes que servem a todo o edifício: (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
I - os alicerces, colunas, pilares, paredes-mestras e todas as partes restantes que constituam a estrutura do prédio; (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
II - o telhado ou os terraços de cobertura, ainda que destinados ao uso exclusivo do titular da laje; (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
III - as instalações gerais de água, esgoto, eletricidade, aquecimento, ar condicionado, gás, comunicações e semelhantes que sirvam a todo o edifício; e (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
IV - em geral, as coisas que sejam afetadas ao uso de todo o edifício. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 2o É assegurado, em qualquer caso, o direito de qualquer interessado em promover reparaçõesurgentes na construção na forma do parágrafo único do art. 249 deste Código. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
Art. 1.510-D. Em caso de alienação de qualquer das unidades sobrepostas, terão direito de preferência, em igualdade de condições com terceiros, os titulares da construção-base e da laje, nessa ordem, que serão cientificados por escrito para que se manifestem no prazo de trinta dias, salvo se o contrato dispuser de modo diverso. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 1o O titular da construção-base ou da laje a quem não se der conhecimento da alienação poderá, mediante depósito do respectivo preço, haver para si a parte alienada a terceiros, se o requerer no prazo decadencial de cento e oitenta dias, contado da data de alienação. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 2o Se houver mais de uma laje, terá preferência, sucessivamente, o titular das lajes ascendentes e o titular das lajes descendentes, assegurada a prioridade para a laje mais próxima à unidade sobreposta a ser alienada. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
Art. 1.510-E. A ruína da construção-base implica extinção do direito real de laje, salvo: (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
I - se este tiver sido instituído sobre o subsolo; (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
II - se a construção-base não for reconstruída no prazo de cinco anos. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
Parágrafo único. O disposto neste artigo não afasta o direito a eventual reparação civil contra o culpado pela ruína.
Os direitos reais podem ser classificados em:
a) Direitos reais sobre coisa própria e direitos reais sobre coisa alheia;
b) Direitos de gozo ou fruição ou direitos de garantia;
c) Direitos reais mobiliários e direitos reais imobiliários.
De acordo com as classificações acima, os direitos reais enumerados no Livro III do CC/02 recaem sobre coisa própria (propriedade) ou sobre coisa alheia.
Os Direitos reais na coisa alheia, que nos interessa por ora, podem ser classificados de acordo com a tabela abaixo:
DIREITO REAL DE GOZO OU FRUIÇÃO
DIREITO REAL DA COISA ALHEIA DE GARANTIA
DIREITO REAL A AQUISIÇÃO
Permitir que uma pessoa tenha consigo os poderes de utilização da coisa.
Não terá a coisa consigo. É vedada a utilização da coisa.
Credor tem o direito real.
- Busca-se através do domínio ser proprietário.
- O exercício dos poderes do domínio viabilizam a aquisição da propriedade.
Permitir que terceiro retire as utilidades da coisa.
ASSEGURAR CUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO.
UTILIDADE
6 HIPÓTESES
4 HIPÓTESES
1 HIPÓTESE (OU 2)
1. Enfiteuse (código 16)
2. Superfície
3. Servidão predial
4. Usufruto
5. Uso
6. Habitação
1. Hipoteca
2. Penhor
3. Anticrese
4. Alienação fiduciária em garantia.
1. Promessa irretratável de compra e venda
2. Direito de preferência (não unânime)
Os direitos reais de gozo ou fruição são autônomos, enquanto os de garantia são acessórios.
A Renda constituída sobre imóvel é apenas um contrato, não mais um direito real.
2. DIFERENÇA ENTRE DIREITOS REAIS E DIREITOS PESSOAIS PATRIMONIAIS
DIREITOS PESSOAIS PATRIMONIAIS
DIREITOS REAIS
Ex.: Contratos
Ex.: Propriedade.
Relações entre pessoas: sujeito ativo e sujeito passivo.
Relações entre pessoa e coisa: apenas com sujeito ativo. O sujeito passivo é toda a coletividade.
Regido principalmente pela autonomia privada (princípio regente).
O princípio regente é o da publicidade: registro e tradição.
Rol exemplificativo
Ideia de rol taxativo prevalece ainda
O patrimônio do devedor responde
A coisa responde
Caráter transitório
Caráter Permanente
Efeitos inter partes (em regra)
Efeitos erga omnes (em regra)
OBSERVAÇÃO¹: Há uma tendência de aproximação entre os direitos pessoais e reais, o que representa uma certa volta à teoria personalista. Seria uma espécie de “contratualização do Direito das Coisas” (Luciano de Camargo Penteano).
Conforme já vimos, os contratos, em alguns casos, geram efeitos perante terceiros (função social do contrato – eficácia externa dos efeitos contratuais).
Os direitos reais, por sua vez, em alguns casos, também geram efeitos inter partes. Súmula 308 do STJ (a melhor súmula do STJ, para o professor, pois revolucionou o sistema, quebrando paradigmas). A súmula, importante em provas de primeira fase, especialmente da CESPE, diz que “a hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, anterior ou posterior à celebração da promessa de compra e venda (registrada!), não tem eficácia perante os adquirentes do imóvel”.
Em tese, a hipoteca tem efeitos erga omnes e o banco (agente financeiro) teria direito ao imóvel. Contudo, a boa-fé (objetiva) dos adquirentes “vence” a hipoteca, que passa a ter efeitos inter partes.
OBSERVAÇÃO²: Existem conceitos que são híbridos, estão “no meio” desse quadro comparativo entre direitos pessoais patrimoniais e direitos reais. Como exemplo, temos a “obrigação propter rem”, também chamada de obrigação mista, híbrida, ambulatória ou reipersecutória. Possui ela parte de direito pessoal e parte de direito real. São as chamadas obrigações próprias da coisa, que seguem a coisa com quem quer que ela esteja. Ex.: dívidas de condomínio – art. 1345 do CC: “o adquirente de unidade responde pelos débitos do alienante, em relação ao condomínio, inclusive multas e juros moratórios”.
Atenção!
*#DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO #STJ: As verbas de sucumbência, decorrentes de condenação em ação de cobrança de cotas condominiais, não possuem natureza ambulatória (propter rem). O art. 1.345 do CC estabelece que o adquirente de unidade responde pelos débitos do alienante, em relação ao condomínio, inclusive multas e juros moratórios. A obrigação de pagar as verbas de sucumbência, ainda que sejam elas decorrentes de sentença proferida em ação de cobrança de cotas condominiais, não pode ser qualificada como ambulatória (propter rem), seja porque tal prestação não se enquadra dentre as hipóteses previstas no art. 1.345 do CC para o pagamento de despesas indispensáveis e inadiáveis do condomínio, seja porque os honorários constituem direito autônomo do advogado, não configurando débito do alienante em relação ao condomínio, senão débito daquele em relação ao advogado deste. STJ. 3ª Turma. REsp 1.730.651-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 09/04/2019 (Info 646).
3. POSSE
Defesa de um estado de aparência: sempre que um estado de aparência for juridicamente relevante, existirão normas ou princípios gerais de direito a resguardá-lo. A doutrina tradicional enuncia ser a posse relação de fato entre pessoa e a coisa. Venosa entende ser a posse um estado de aparência relevante. Esse estado de aparência que inicialmente pode surgir sem substrato jurídico pode servir para a aquisição da propriedade. Esse é o sentido da usucapião.
3.1. CONCEITO, NATUREZA JURÍDICA E TEORIAS JUSTIFICADORAS
3.1.1. Conceito de posse
A posse é o domínio fático que a pessoa exerce sobre uma coisa. Pelo art. 1.196 do CC, considera-se possuidor aquele que tem, pelo menos, um dos atributos da propriedade.
Vamos adiantar: são 4 os atributos da propriedade: é o chamado GRUD: Gozar (fruir), Reaver (buscar), Usar (utilizar) e Dispor (alienar). Quem tem todos os atributos tem propriedade plena. Quem tem alguns tem propriedade limitada. Quem tem um deles tem posse.
“Todo proprietário é possuidor” – CERTO
“Todo possuidor é proprietário” – ERRADO.
CONCEITO: Posse é a situação de fato, regulada pelo direito, na qual o possuidor tem o exercício, pleno ou não, de alguns dos poderes inerentes à propriedade.
3.1.2. Natureza jurídica da posse
Moreira Alves fala do dilema de saber se a posse é fato ou é direito, chegando à conclusão de que a posse é um fato e um direito de natureza especial ou sui generis, não sendo nem direito pessoal nem direito real.
É a posição que prevalece, embora doutrinadores como Clóvis Beviláqua defendam que a posse é direito real, porque intimamente relacionada ao direito de propriedade.
Podemos chegar à conclusão de Moreira Alves com base também na ideiada teoria tridimensional do direito de Miguel Reale: o Direito é fato, valor e norma. Se a posse entra no mundo dos fatos, ela é componente jurídico, do Direito, sendo também considerado um direito (subjetivo)!
Premissa 1 – A posse é um domínio fático, ou seja, um fato.
Premissa 2 – Direito é fato, valor e norma.
Conclusão – A posse é um direito.
Natureza Jurídica da Posse. Jus Possessionis e Jus Possidendi.
Houve muita discussão, até mesmo entre Ihering e Savigny, sobre a definição de qual é a natureza jurídica da posse; se ela é um FATO ou um DIREITO.
SAVIGNY: teria natureza jurídica dúplice. Considerada isoladamente, a posse seria um FATO, por independer de regras do direito. Mas, em determinadas condições, atribuem a este fato os efeitos de um DIREITO PESSOAL. É a chamada teoria eclética.
IHERING: conceituando direito subjetivo como um interesse juridicamente protegido, obtém definição que identifica a posse como um interesse legitimo. Tratar-se-ia, portanto, de um DIREITO, porque se trata de um interesse tutelado pela norma.
Para Cristiano Chaves, a posse é um DIREITO SUBJETIVO dotado de estrutura peculiar. A partir da ideia de que a posse é um direito, surge a discussão se se trata de um DIREITO REAL ou DIREITO PESSOAL. Entretanto, não pode ser enquadrada nas duas modalidades mencionadas pelas seguintes razões:
· A pretensão de classificá-la como direito pessoal esbarra na própria definição deste: relação ou vínculo jurídico que confere ao credor o direito de exigir do devedor o cumprimento de uma prestação;
· Um argumento que pode tirar da posse qualquer natureza real é o caráter absoluto desses direitos, sendo que a posse não é oponível erga omnes em pelo menos duas situações:
· (i) ainda que o possuidor possa vencer a demanda possessória contra o proprietário, este acabará reavendo a coisa por meio das vias reivindicatórias, e
· (ii) o direito de sequela do possuidor (responde a coisa onde quer que ela esteja) cede ante a boa-fé.
Assim, “em verdade, no direito moderno, a posse é um instituto jurídico sui generis e, assim sendo, não só não se encaixa nas categorias dogmáticas existentes, mas também não dá margem à criação de uma categoria própria que se adstringiria a essa figura única” (José Carlos Moreira Alves).
Essa discussão importava muito no processo civil, porque se fosse considerada como direito real importaria a participação obrigatória do cônjuge nas ações possessórias. Mas, depois da reforma de 1994, o CPC sanou essa questão ao disciplinar a obrigatoriedade de participação do cônjuge nas ações possessórias somente nas seguintes situações (art. 10):
a) Se há caso de composse ou;
b) Se se discute ato por ambos praticado.
#NOVOCPC:
Art. 73. O cônjuge necessitará do consentimento do outro para propor ação que verse sobre direito real imobiliário, salvo quando casados sob o regime de separação absoluta de bens.
§ 1º Ambos os cônjuges serão necessariamente citados para a ação:
I - que verse sobre direito real imobiliário, salvo quando casados sob o regime de separação absoluta de bens;
II - resultante de fato que diga respeito a ambos os cônjuges ou de ato praticado por eles;
III - fundada em dívida contraída por um dos cônjuges a bem da família;
IV - que tenha por objeto o reconhecimento, a constituição ou a extinção de ônus sobre imóvel de um ou de ambos os cônjuges.
§ 2º Nas ações possessórias, a participação do cônjuge do autor ou do réu somente é indispensável nas hipóteses de composse ou de ato por ambos praticado.
§ 3º Aplica-se o disposto neste artigo à união estável comprovada nos autos.
Art. 74. O consentimento previsto no art. 73 pode ser suprido judicialmente quando for negado por um dos cônjuges sem justo motivo, ou quando lhe seja impossível concedê-lo.
Parágrafo único. A falta de consentimento, quando necessário e não suprido pelo juiz, invalida o processo.
JUS POSSESSIONIS E JUS POSSIDENDI. O nosso direito protege não só a posse correspondente ao direito de propriedade e outros direitos reais, como também a posse como figura autônoma e independente da existência de um título. Assim, se alguém se instala em um imóvel e nele se mantém, mansa e pacificamente, por mais de ano e dia, cria situação possessória, que lhe proporciona direito à proteção. Tal direito é chamado jus possessionis ou posse formal, derivado de uma posse autônoma, independentemente de qualquer título. É tão somente o direito fundado no fato da posse. Já o direito à posse, conferido ao portador de título devidamente transcrito, bem como ao titular de outros direitos reais, é denominado jus possidendi ou posse causal. Neste caso, a posse não tem qualquer autonomia, constituindo-se em conteúdo do direito real.
GENERALIDADES SOBRE A POSSE: é protegida para evitar a violência e assegurar a paz social, bem como porque a situação de fato aparenta ser uma situação de direito. A posse é o fato que permite e possibilita o exercício do direito de propriedade. Quem não tem posse não pode utilizar-se da coisa, por isso prefere o ordenamento proteger sempre e com maior celeridade e eficácia o que detém o aspecto externo da propriedade.
Nas ações possessórias (interditos), trata-se exclusivamente da questão da posse. Nas chamadas ações petitórias, leva-se em consideração o direito de propriedade. É vedado examinar o domínio nas ações possessórias no bojo de ações petitórias. A decisão que dirime o conflito possessório não inibe nem prejulga o âmbito petitório (art. 1.210, §2º, CC/2002).
Nas ações petitórias, ressalta-se um caráter ofensivo por parte do titular do domínio, que deve provar ser o senhor da coisa. Já na possessória, sobreleva o caráter defensivo. No Brasil, por influência de Rui Barbosa, os interditos possessórios chegaram a ser utilizados para a defesa de direitos pessoais, incorpóreos, como o direito a determinado cargo.
Além das pessoas naturais e jurídicas, os entes despersonalizados podem ser considerados possuidores. Nesse sentido, o Enunciado n.º 236, da III Jornada de Direito Civil, prevendo que se considera possuidor, para todos os efeitos legais, também a coletividade desprovida de personalidade jurídica. Assim, podem ser possuidores o espólio, a massa falida, a sociedade de fato e o condomínio, para aqueles que entendem ainda tratar-se de um ente despersonalizado.
3.1.3. Teorias Justificadoras Da Posse
São três:
A) Teoria Subjetiva: Savigny.
P = C + AD – Posse = Corpus (domínio fático) + animus domini (intenção de ser proprietário).
Por essa teoria, o locatário, o comodatário, o depositário, entre outros, não são possuidores (seriam detentores). Por esse motivo, essa teoria não foi adotada no Brasil, nem pelo CC/16 nem pelo CC/02, que considera os sujeitos acima como possuidores.
Para essa teoria, os mesmos têm DETENÇÃO, ou seja, uma posse sem o elemento subjetivo, situação na qual está presente somente o elemento objetivo. Assim, não teriam direito a utilizar ações possessórias, nem contra o locador e outros, nem contra terceiros.
Contudo, essa teoria é importante, no Brasil, para fins de usucapião, pois aqui a intenção de ser proprietário é relevante. Veremos melhor quando estudarmos usucapião.
B) Teoria Objetiva: Ihering
P = C – Posse = Corpus (domínio fático, que inclui uma intenção de explorar a coisa economicamente).
Dentre as clássicas, foi a teoria adotada pelas codificações civis brasileiras. No CC/02, está nos arts. 1.196 e 1.197.
#ATENÇÃO: Não obstante o CC/02 adote a Teoria Objetiva, por vezes traz aspectos subjetivos. Ex.: usucapião (posse com animus domini).
Enunciado 492 da V Jornada de Direito Civil: 492: A posse constitui direito autônomo em relação à propriedade e deve expressar o aproveitamento dos bens para o alcance de interesses existenciais econômicos e sociais merecedores de tutela.
C) Teoria Sociológica ou da Função Social Da Posse
Defendida por Saleilles, Perozzi e Hernandez Gil.
P = C + FS – Posse = Corpus + Função Social.
Se não houver função social, não há posse. A sociedade aceita a situação, já que o sujeito dáuma função social à propriedade.
Essa teoria foi adotada implicitamente pelo CC/02, ao valorizar a chamada “posse-trabalho”. Ex.: art. 1238, p.ú. do CC: o prazo da usucapião extraordinária cai de 15 para 10 anos se houver posse-trabalho. Já pelo art. 1242, p.ú., o prazo da usucapião ordinária cai de 10 para 5 anos se houver posse-trabalho. Além desses, o art. 1228, §§ 4º e 5º traz um instituto que é uma verdadeira jabuticaba jurídica (porque só existe no Brasil), que é a desapropriação judicial privada por posse-trabalho. Estudaremos depois.
O importante é fixar o destino econômico da coisa. O animus está integrado ao conceito de corpus. O possuidor comporta-se como faria o proprietário. É o ordenamento jurídico que discrimina a seu arbítrio sobre as relações possessórias, criando, assim, artificialmente, a separação da chamada detenção jurídica relevante de outras situações não protegidas. Quando não houver proteção legal da relação com a coisa, o que existe é mera detenção, portanto, a detenção nada mais é do que espécie de posse cujo ordenamento jurídico não concede proteção.
Aplicada a teoria objetiva, o locatário e os outros são possuidores, porque têm a imagem do domínio, parecem ser proprietários, já que têm poderes inerentes ao mesmo. Na medida em que têm posse, têm acesso à via de proteção possessória que pode ser exercida contra terceiros ou contra o locador e outros. O conceito de DETENÇÃO, para essa teoria, consiste em uma escolha discricionária pelo legislador: a rigor, seriam situações de posse, mas que o legislador decidiu atribuir efeito de detenção. Seria posse, mas por força da lei deixou de ser, sendo conceituada como detenção.
Assim, pelo nosso sistema civil, têm posse: locatário, comodatário, depositário, etc. Podem, portanto, exercer a defesa de sua posse até mesmo contra o locador, o comodante ou depositante, como atesta o artigo 1197, já que são possuidores diretos.
A superioridade desta teoria repousa na maior facilidade de distinguir-se a POSSE da DETENÇÃO. Para Ihering a detenção seria uma posse desqualificada pelo ordenamento jurídico.
O CC/2002, nesse entrechoque de posições, se inclinou no artigo 1196, a toda evidência, pela teoria objetiva. Mas o CC/02 faz concessões à teoria subjetiva, como, por exemplo, ao tratar da usucapião, já que o CC exige posse com animus domini.
3.2. DIFERENÇAS ENTRE POSSE E DETENÇÃO
A detenção também é chamada de fâmulo da posse, ou servidor da posse.
O detentor tem a posse não em nome próprio, mas em nome daquele ao qual ele está subordinado, seguindo ordens e instruções (art. 1198).
O detentor exerce sobre o bem não uma posse própria, mas uma posse em nome de outrem. Como não tem posse, não lhe assiste o direito de invocar, em nome próprio, as ações possessórias. O art. 1.208, primeira parte, do CC acrescenta que não induzem posse os atos de mera permissão ou tolerância.
Dentro da teoria objetiva ocorre a degradação do estado de posse, ou seja, uma causa detencionis. O detentor não usufrui do sentido econômico da posse, que pertence a outrem. O art. 1.198 do novo CC, parágrafo único, ressaltou que quem inicia a posse como mero fâmulo ou detentor não pode alterar por vontade própria esta situação e tornar-se possuidor, portanto, há necessidade de um ato ou negócio jurídico que altere a situação de fato.
Art. 1.198. Considera-se detentor aquele que, achando-se em relação de dependência para com outro, CONSERVA A POSSE EM NOME DESTE e em cumprimento de ordens ou instruções suas.
Parágrafo único. Aquele que começou a comportar-se do modo como prescreve este artigo, em relação ao bem e à outra pessoa, presume-se detentor, até que prove o contrário.
Enunciado 493 da V Jornada de Direito Civil: O detentor (art. 1.198) pode, no interesse do possuidor, exercer a autodefesa do bem sob seu poder.
O detentor tem contato físico, mas não é possuidor. É o “fâmulo da posse” ou “gestor da posse”.
É aquele que apreende a coisa por força de relação subordinativa com terceiro. Ex.: caseiro, motorista particular; administradores da propriedade imóvel; os empregados em relação aos equipamentos e ferramentas; o soldado em relação às armas e à cama do quartel.
O CC menciona, em mais dois dispositivos, hipóteses em que aquele exercício de fato não constitui posse, mas mera detenção:
Art. 1.208 - Não induzem a posse os atos de mera permissão ou de mera tolerância assim como não autorizam a sua aquisição os atos violentos, ou clandestinos, senão depois de cessar a violência ou a clandestinidade.
Assim, os aludidos atos impedem o surgimento da posse, sendo aquele que os pratica considerado mero detentor, sem qualquer relação de dependência com o possuidor. O dispositivo em apreço trata da hipótese da denominada detenção independente. Todavia, uma vez cessada a violência ou a clandestinidade, os mencionados atos passam a produzir o efeito de qualificar como injusta – com os efeitos daí decorrentes – a posse que a partir de então surge. Atente-se, apenas, que a injustiça da posse fica circunscrita ao esbulhado e ao esbulhador.
Art. 1.224. Só se considera perdida a posse para quem não presenciou o esbulho, quando, tendo notícia dele, se abstém de retornar a coisa, ou, tentando recuperá-la, é violentamente repelido.
Até que o não-presente tenha notícia do esbulho e se abstenha de retomar a coisa, ou não logre êxito em retomá-la, o ocupante é mero detentor.
DETENÇÃO: como dito, a detenção, pela teoria objetiva, é uma posse desqualificada pelo ordenamento. Assim, no silêncio do ordenamento, quem apreende a coisa é possuidor.
#SELIGA! É possível que o ato de mera detenção se torne posse, quando houver o seu convalescimento. A conversão da mera detenção em posse se dará com a ruptura da relação jurídica originária. O convalescimento, também chamado de interversão, ocorrerá quando cessada a causa que lhe originou ou quando passado ano e dia.
Enunciado 301 da IV Jornada de Direito Civil: É possível a conversão da detenção em posse, desde que rompida a subordinação, na hipótese de exercício em nome próprio dos atos possessórios.
#SELIGA2! Os atos de violência/clandestinidade não caracterizam posse, senão depois de cessada a violência/clandestinidade. Têm natureza de mera detenção.
#SELIGAAINDAMAIS! Em relação a terceiros, a posse violenta ou clandestina já nasce com natureza de posse!
ATENÇÃO! A ocupação irregular de áreas públicas não induz posse, mas detenção.
· A concessão de uso de bem público não gera posse, mas detenção.
· O detentor não tem direito a usucapião, e nem a indenização por benfeitorias ou acessões.
*#SÚMULANOVA #SAINDODOFORNO: enunciado de súmula nº 619-STJ: A ocupação indevida de bem público configura mera detenção, de natureza precária, insuscetível de retenção ou indenização por acessões e benfeitorias.
#AJUDAMARCINHO:
1) particular invade imóvel público e deseja proteção possessória em face do PODER PÚBLICO: não é possível. Não terá direito à proteção possessória. Não poderá exercer interditos possessórios porque, perante o Poder Público, ele exerce mera detenção. 2) particular invade imóvel público e deseja proteção possessória em face de outro PARTICULAR: terá direito, em tese, à proteção possessória. É possível o manejo de interditos possessórios em litígio entre particulares sobre bem público dominical, pois entre ambos a disputa será relativa à posse. STJ. 4ª Turma. REsp 1296964-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 18/10/2016 (Info 594).
*#DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO: Em ação possessória entre particulares é cabível o oferecimento de oposição pelo ente público, alegando-se incidentalmente o domínio de bem imóvel como meio de demonstração da posse. STJ. Corte Especial. EREsp 1.134.446-MT, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 21/03/2018 (Info 623) #IMPORTANTE
*#NOVIDADE #DEOLHONASÚMULA: Súmula 637-STJ: O ente público detém legitimidade e interesse para intervir, incidentalmente, na ação possessória entre particulares, podendo deduzir qualquer matéria defensiva, inclusive, se for o caso, o domínio.Particulares podem ajuizar ação possessória para resguardar o livre exercício do uso de via municipal (bem público de uso comum do povo) instituída como servidão de passagem. Ex: a empresa começou a construir uma indústria e a obra está invadindo a via de acesso (rua) que liga a avenida principal à uma comunidade de moradores locais. Os moradores possuem legitimidade para ajuizar ação de reintegração de posse contra a empresa alegando que a rua que está sendo invadida representa uma servidão de passagem. STJ. 3ª Turma. REsp 1582176-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 20/9/2016 (Info 590).
APROFUNDANDO[footnoteRef:2]: [2: Fonte: https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/e2c4a40d50b47094f571e40efead3900?categoria=4&subcategoria=175&assunto=739]
Realmente, o STJ possui inúmeros julgados afirmando que a ocupação irregular de bem público dominical não caracteriza posse, mas mera detenção, hipótese que afasta o reconhecimento de direitos em favor do particular com base em alegada boa-fé.
Esse entendimento, porém, não se aplica para o caso de um particular que está defendendo seu direito de usar um bem público de uso comum do povo. Aqui a situação é diferente.
No caso de bens públicos de uso comum do povo, podemos sim falar em posse e o particular poderá defendê-la em juízo. Nesse sentido: THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil – Procedimentos Especiais – vol. III, Rio de Janeiro: Forense, 2014, p.122).
Desse modo, podemos concluir que:
· O ordenamento jurídico não permite a proteção possessória em caso de particular que ocupe bens públicos dominicais, sendo esta situação caracterizada como mera detenção;
· É possível, no entanto, que particulares exerçam proteção possessória para garantir seu direito de utilizar bens de uso comum do povo, como é o caso, por exemplo, da tutela possessória para assegurar o direito de uso de uma via pública.
*#NOVIDADE #DEOLHONASÚMULA #STJ
Súmula 637-STJ: O ente público detém legitimidade e interesse para intervir, incidentalmente, na ação possessória entre particulares, podendo deduzir qualquer matéria defensiva, inclusive, se for o caso, o domínio. STJ. Corte Especial. Aprovada em 07/11/2019.
São casos de detenção previstos expressamente no CC:
1º hipótese: FÂMULO DA POSSE (gestor da posse): artigo 1198 – É aquele que apreende a coisa por força de uma relação subordinativa para com terceiro, ou em razão de uma dependência jurídica. É aquele que apreende a coisa em nome de outrem. Ex.: CASEIRO
2º hipótese: ATOS DE MERA TOLERÂNCIA: artigo 1208 – Os atos de mera tolerância não induzem posse por conta do abuso de confiança. Evita-se com isso que a posse precária convalesça. Ex.: empréstimo.
Atenção: ato de tolerância ou permissão pode induzir posse quando rompida a relação jurídica base. Ex.: quando o comodatário não restitui a coisa no dia certo, passa a haver esbulho, rompendo a relação jurídica base, e induzido a posse do esbulhador.
3º hipótese: PERMISSÃO e CONCESSÃO DE USO DE BEM PÚBLICO. A permissão e concessão de uso de bem público não induz posse, mas mero ato de detenção.
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA #IMPORTANTE: Oficina mecânica que realiza reparos em veículo, com autorização do proprietário, não pode reter o bem por falta de pagamento do serviço. STJ. 3ª Turma. REsp 1.628.385-ES, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 22/8/2017 (Info 610). O direito de retenção é uma das raras hipóteses de autotutela permitidas no ordenamento jurídico pátrio, em que o particular pode exercer pessoalmente a tutela de seus interesses, sem a necessidade da intervenção do Estado-Juiz. Por se tratar de medida excepcionalíssima, o direito de retenção somente pode ser exercido nos estritos termos da lei. Pela simples leitura do art. 1.219, percebe-se que o direito de retenção somente pode ser exercido pelo possuidor de boa-fé. No caso concreto, a oficina mecânica em nenhum momento exerceu a posse do bem. É incontroverso que o veículo foi deixado na empresa pelo proprietário somente para a realização de reparos. Isso não conferiu posse à oficina, pois esta jamais poderia exercer poderes inerentes à propriedade do bem, relativos à sua fruição ou mesmo inerentes ao referido direito real (propriedade), nos termos do art. 1.196 do Código Civil. Dessa forma, a oficina teve somente a detenção do bem, que ficou sob sua custódia por determinação e liberalidade do proprietário, que, em princípio, teria anuído com a realização do serviço. Assim, a posse do veículo não foi transferida para a oficina, que jamais a exerceu em nome próprio, mas sim em nome de outrem, cumprindo determinações do proprietário do bem, numa espécie de vínculo de subordinação. Em suma, a oficina não poderia exercer o direito de retenção sob a alegação da realização de benfeitoria no veículo, pois, nos termos do art. 1.219 do Código Civil, tal providência é permitida ao possuidor de boa-fé, mas não ao mero detentor do bem.
#OLHAOGANCHO: Qual a ação judicial que deverá ser proposta pelo proprietário do carro? Ação de reintegração de posse. Qual a ação judicial que deverá ser proposta pela oficina? Ação de cobrança.
PERGUNTA – Tença: a pessoa tem a coisa em situação totalmente precária. Mini-detenção. Ex.: pega um peixe para tirar uma foto e depois devolve ao mar.
Por fim, a posse e a detenção não se confundem com a tença, sendo a última “uma mera situação material de apreensão física do bem, sem qualquer consequência jurídica protetiva”.
#OLHAOLINKCOMOPROCESSOCIVIL: CPC/73 Art. 62. Aquele que detiver a coisa em nome alheio, sendo-lhe demandada em nome próprio, deverá nomear à autoria o proprietário ou o possuidor.
No NCPC a nomeação à autoria deixa de existir e vira uma espécie de incidente de saneamento dentro da contestação:
Art. 338, NCPC. Alegando o réu, na contestação, ser parte ilegítima ou não ser o responsável pelo prejuízo invocado, o juiz facultará ao autor, em 15 (quinze) dias, a alteração da petição inicial para substituição do réu.
Parágrafo único. Realizada a substituição, o autor reembolsará as despesas e pagará os honorários ao procurador do réu excluído, que serão fixados entre três e cinco por cento do valor da causa ou, sendo este irrisório, nos termos do art. 85, § 8o.
Art. 339. Quando alegar sua ilegitimidade, incumbe ao réu indicar o sujeito passivo da relação jurídica discutida sempre que tiver conhecimento, sob pena de arcar com as despesas processuais e de indenizar o autor pelos prejuízos decorrentes da falta de indicação.
§ 1º O autor, ao aceitar a indicação, procederá, no prazo de 15 (quinze) dias, à alteração da petição inicial para a substituição do réu, observando-se, ainda, o parágrafo único do art. 338.
§ 2º No prazo de 15 (quinze) dias, o autor pode optar por alterar a petição inicial para incluir, como litisconsorte passivo, o sujeito indicado pelo réu.
*#DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO #STJ É inadequada a discussão acerca da tradicionalidade da ocupação indígena em ação possessória ajuizada por proprietário de fazenda antes de completado o procedimento demarcatório. Assim, não cabe produção de laudo antropológico em ação possessória ajuizada por proprietário de fazenda ocupada por grupo indígena. STJ. 2ª Turma. REsp 1.650.730-MS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 20/08/2019 (Info 655).
3.3. PRINCIPAIS CLASSIFICAÇÕES DA POSSE E SEUS OBJETOS
3.3.1. Quanto aos vícios objetivos
a) Posse justa: É aquela sem vícios objetivos (violenta, clandestina e precária). É limpa.
Art. 1.200. É justa a posse que não for violenta, clandestina ou precária.
b) Posse injusta: Apresenta-se com pelo menos um dos vícios objetivos.
b.1) Posse violenta – vis – violência física ou psicológica. Seria o roubo da posse. É a posse esbulhada. A violência é aquela cometida contra pessoas e não contra a coisa e pode ser tanto a vis compulsiva (coação moral) como a vis absoluta (coação física).
b.2) Posse clandestina – clam – “na calada da noite”. Seria o furto da posse. Para a clandestinidade da posse, é bastante que o possuidoresbulhado não o saiba, embora seja do conhecimento do resto das pessoas.
*#OUSESABER: A transferência a terceiro e veículo gravado como propriedade fiduciária à revelia do proprietário (credor), constitui ato de clandestinidade, incapaz de produzir posse. Certo ou errado?
✔CORRETO!
Questão interessante diz respeito à possibilidade de usucapião do bem dado em alienação
fiduciária. Seria possível? O entendimento prevalente caminha no sentido negativo, pois, a priori, na alienação fiduciária não há posse com animus domini. Ademais, se houver transferência ilícita do bem a um terceiro, haverá ato de clandestinidade, incapaz de ocasionar a posse, pois gera mera detenção, nos termos do art. 1.208 do CC/2002. O Superior Tribunal de Justiça (REsp 881270/RS) já manifestou entendimento no sentido de que a transferência a terceiro de veículo gravado como propriedade fiduciária, à revelia do proprietário (credor) constituía ato de clandestinidade, incapaz de induzir posse. Por essa razão, não seria possível a aquisição do bem por usucapião. De fato, em contratos de alienação fiduciária em garantia, sendo o desdobramento da posse e a possibilidade de busca e apreensão do bem inerentes ao próprio contrato, conclui-se que a transferência da posse direta a terceiros deve ser precedida de autorização, porque modifica a essência do contrato, bem como a garantia do credor fiduciário.
b.3) Posse precária – precário – abuso de confiança. Estelionato ou apropriação indébita. É o esbulho pacífico. Ex.: Quando cessa o comodato, a locação e o depósito.
Obs.: Atenção. Questões controvertidas. PROVA OBJETIVA – REDAÇÃO DO 1.208.
Art. 1.208. Não induzem posse os atos de mera permissão ou tolerância assim como não autorizam a sua aquisição os atos violentos, ou clandestinos, senão depois de cessar a violência ou a clandestinidade.
· Lembre-se da possibilidade de convalescimento do vício (interversão da posse).
Há sempre o fator da relatividade em relação ao exame da posse justa ou injusta, pois a posse somente será viciada em relação a alguém. A posse pode ser justa em relação a um sujeito e injusta em relação a outro. Assim sendo, a posse injusta pode ser protegida pelos interditos contra terceiros que a ameacem e pretendam-na para si. Enquanto perdurar a violência ou a clandestinidade, não haverá posse. Cessadas, surge a posse, porém injusta em relação a quem a perdeu. No entanto, em relação à comunidade, esse antigo detentor terá posse justa. Trata-se da dualidade de configuração da posse.
Para Cristiano Chaves a posse precária não convalesce, exceto se houver modificação da relação jurídica originária. Trata-se da quebra do Princípio da Continuidade do Caráter da Posse.
1. Pode haver posse injusta? SIM. Para alguns doutrinadores a posse injusta, não é posse, mas detenção (César Fiúza, Cristiano Chaves e Nelson Rosenvald). Porém, essa afirmação nega a classificação da posse em justa e injusta. MAJORITÁRIA – Pode-se afirmar que o possuidor injusto é possuidor, pois tem ação possessória contra terceiro. Porém, o possuidor injusto não tem ação possessória contra o possuidor justo (pela análise da melhor posse).
2. Posse precária pode ser convalidada? NÃO. Segundo entendimento MAJORITÁRIO, somente as posses violenta e clandestina podem ser curadas, sanadas ou convalidadas, passando a ser justas (interversio possessionis – alteração do caráter da posse). A precária não, pois não está na lei. Enunciado 237 do CJF: “Art. 1203: É cabível a modificação do título da posse – interversio possessionis – na hipótese em que o até então possuidor direto demonstrar ato exterior e inequívoco de oposição ao antigo possuidor indireto, tendo por efeito a caracterização do animus domini”. Em outras palavras, posse precária pode ser convalidada – MINORITÁRIO.
3. Segundo entendimento MAJORITÁRIO, a posse injusta passa a ser justa depois de um ano e dia, por interpretação do art. 924, do CPC (parâmetro para saber se cabe ação de força velha ou nova – cabe liminar). Para Marco Aurélio Bezerra de Melo o parâmetro deve ser a função social do contrato. Art. 924. Regem o procedimento de manutenção e de reintegração de posse as normas da seção seguinte, quando intentado dentro de ano e dia da turbação ou do esbulho; passado esse prazo, será ordinário, não perdendo, contudo, o caráter possessório. No Novo CPC, esse artigo corresponde ao 558. Art. 558. Regem o procedimento de manutenção e de reintegração de posse as normas da Seção II deste Capítulo quando a ação for proposta dentro de ano e dia da turbação ou do esbulho afirmado na petição inicial. Parágrafo único. Passado o prazo referido no caput, será comum o procedimento, não perdendo, contudo, o caráter possessório.
#NOVOCPC
CAPÍTULO III
DAS AÇÕES POSSESSÓRIAS
Seção I
Disposições Gerais
Art. 554. A propositura de uma ação possessória em vez de outra não obstará a que o juiz conheça do pedido e outorgue a proteção legal correspondente àquela cujos pressupostos estejam provados.
§ 1º No caso de ação possessória em que figure no polo passivo grande número de pessoas, serão feitas a citação pessoal dos ocupantes que forem encontrados no local e a citação por edital dos demais, determinando-se, ainda, a intimação do Ministério Público e, se envolver pessoas em situação de hipossuficiência econômica, da Defensoria Pública.
§ 2º Para fim da citação pessoal prevista no § 1o, o oficial de justiça procurará os ocupantes no local por uma vez, citando-se por edital os que não forem encontrados.
§ 3º O juiz deverá determinar que se dê ampla publicidade da existência da ação prevista no § 1o e dos respectivos prazos processuais, podendo, para tanto, valer-se de anúncios em jornal ou rádio locais, da publicação de cartazes na região do conflito e de outros meios.
Art. 555. É lícito ao autor cumular ao pedido possessório o de:
I - condenação em perdas e danos;
II - indenização dos frutos.
Parágrafo único. Pode o autor requerer, ainda, imposição de medida necessária e adequada para:
I - evitar nova turbação ou esbulho;
II - cumprir-se a tutela provisória ou final.
Art. 556. É lícito ao réu, na contestação, alegando que foi o ofendido em sua posse, demandar a proteção possessória e a indenização pelos prejuízos resultantes da turbação ou do esbulho cometido pelo autor.
Art. 557. Na pendência de ação possessória é vedado, tanto ao autor quanto ao réu, propor ação de reconhecimento do domínio, exceto se a pretensão for deduzida em face de terceira pessoa.
Parágrafo único. Não obsta à manutenção ou à reintegração de posse a alegação de propriedade ou de outro direito sobre a coisa.
Art. 558. Regem o procedimento de manutenção e de reintegração de posse as normas da Seção II deste Capítulo quando a ação for proposta dentro de ano e dia da turbação ou do esbulho afirmado na petição inicial.
Parágrafo único. Passado o prazo referido no caput, será comum o procedimento, não perdendo, contudo, o caráter possessório.
Art. 559. Se o réu provar, em qualquer tempo, que o autor provisoriamente mantido ou reintegrado na posse carece de idoneidade financeira para, no caso de sucumbência, responder por perdas e danos, o juiz designar-lhe-á o prazo de 5 (cinco) dias para requerer caução, real ou fidejussória, sob pena de ser depositada a coisa litigiosa, ressalvada a impossibilidade da parte economicamente hipossuficiente.
Seção II
Da Manutenção e da Reintegração de Posse
Art. 560. O possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de turbação e reintegrado em caso de esbulho.
Art. 561. Incumbe ao autor provar:
I - a sua posse;
II - a turbação ou o esbulho praticado pelo réu;
III - a data da turbação ou do esbulho;
IV - a continuação da posse, embora turbada, na ação de manutenção, ou a perda da posse, na ação de reintegração.
Art. 562. Estando a petição inicial devidamente instruída, o juiz deferirá, sem ouvir o réu, a expedição do mandado liminar de manutenção ou de reintegração, caso contrário, determinará que o autor justifique previamente o alegado, citando-se o réu para comparecer à audiênciaque for designada.
Parágrafo único. Contra as pessoas jurídicas de direito público não será deferida a manutenção ou a reintegração liminar sem prévia audiência dos respectivos representantes judiciais.
Art. 563. Considerada suficiente a justificação, o juiz fará logo expedir mandado de manutenção ou de reintegração.
Art. 564. Concedido ou não o mandado liminar de manutenção ou de reintegração, o autor promoverá, nos 5 (cinco) dias subsequentes, a citação do réu para, querendo, contestar a ação no prazo de 15 (quinze) dias.
Parágrafo único. Quando for ordenada a justificação prévia, o prazo para contestar será contado da intimação da decisão que deferir ou não a medida liminar.
Art. 565. No litígio coletivo pela posse de imóvel, quando o esbulho ou a turbação afirmado na petição inicial houver ocorrido há mais de ano e dia, o juiz, antes de apreciar o pedido de concessão da medida liminar, deverá designar audiência de mediação, a realizar-se em até 30 (trinta) dias, que observará o disposto nos §§ 2o e 4o.
§ 1º Concedida a liminar, se essa não for executada no prazo de 1 (um) ano, a contar da data de distribuição, caberá ao juiz designar audiência de mediação, nos termos dos §§ 2o a 4o deste artigo.
§ 2º O Ministério Público será intimado para comparecer à audiência, e a Defensoria Pública será intimada sempre que houver parte beneficiária de gratuidade da justiça.
§ 3º O juiz poderá comparecer à área objeto do litígio quando sua presença se fizer necessária à efetivação da tutela jurisdicional.
§ 4º Os órgãos responsáveis pela política agrária e pela política urbana da União, de Estado ou do Distrito Federal e de Município onde se situe a área objeto do litígio poderão ser intimados para a audiência, a fim de se manifestarem sobre seu interesse no processo e sobre a existência de possibilidade de solução para o conflito possessório.
§ 5º Aplica-se o disposto neste artigo ao litígio sobre propriedade de imóvel.
Art. 566. Aplica-se, quanto ao mais, o procedimento comum.
Seção III
Do Interdito Proibitório
Art. 567. O possuidor direto ou indireto que tenha justo receio de ser molestado na posse poderá requerer ao juiz que o segure da turbação ou esbulho iminente, mediante mandado proibitório em que se comine ao réu determinada pena pecuniária caso transgrida o preceito.
Art. 568. Aplica-se ao interdito proibitório o disposto na Seção II deste Capítulo.
*#OUSESABER: Reintegração de posse e a desnecessidade de notificação extrajudicial dos invasores.
Amigos, de acordo com o STJ, a notificação prévia dos ocupantes não é documento essencial à propositura da ação possessória (STJ. 4ª Turma. REsp 1.263.164-DF, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 22/11/2016 (Info 594). Em outras palavras, não se exige a prévia notificação extrajudicial dos invasores para que se proponha reintegração de posse. Os requisitos para a propositura da ação de manutenção ou de reintegração de posse estão previstos no art. 561 do CPC/2015. O inciso III exige que o autor comprove "a data da turbação ou do esbulho". Isso é importante para que o juiz possa identificar se a turbação ou o esbulho ocorreram há menos de 1 ano e 1 dia (hipótese em que a ação será de "força nova"). Em virtude dessa exigência de ter que se comprovar a data da turbação ou do esbulho, tornou-se comum, na prática forense, que os autores, antes de ajuizarem a ação, enviem notificação extrajudicial aos invasores com o objetivo de, posteriormente, juntarem este documento no processo e, assim, demonstrem que a posse dos esbulhadores é "nova" (menos de 1 ano e 1 dia), conseguindo que a demanda tramite sob o rito mais célere. Ocorre que essa notificação prévia não é expressamente exigida pela legislação, razão pela qual não pode o magistrado extinguir o feito, sem resolução do mérito, pelo simples fato de o autor não ter adotado esta providência.
*#DIZERODIREITO #AJUDAMARCINHO: POSSE. Particular que ocupa bem público dominical poderá ajuizar ações possessórias para defender a sua permanência no local? 1) particular invade imóvel público e deseja proteção possessória em face do PODER PÚBLICO: não é possível. Não terá direito à proteção possessória. Não poderá exercer interditos possessórios porque, perante o Poder Público, ele exerce mera detenção. 2) particular invade imóvel público e deseja proteção possessória em face de outro PARTICULAR: terá direito, em tese, à proteção possessória. É possível o manejo de interditos possessórios em litígio entre particulares sobre bem público dominical, pois entre ambos a disputa será relativa à posse. STJ. 4ª Turma. REsp 1.296.964-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 18/10/2016 (Info 594).
Quais as consequências da presente classificação?
· Usucapião: somente o possuidor justo (pode ter se tornado justo depois de um ano e um dia) pode obter propriedade por usucapião
· Possessórias: o possuidor justo sempre tem ação possessória. O possuidor injusto só tem contra terceiro e não contra o possuidor justo.
A justiça ou injustiça da posse é conceito de exame objetivo. Não confunde com posse de boa ou má-fé, que exigem exame subjetivo (vontade do agente). Há sempre o fator da relatividade em relação ao exame da posse justa ou injusta, pois a posse somente será viciada em relação a alguém. Como consequência desta relatividade, a posse injusta pode ser protegida pelos interditos contra terceiros que a ameacem e pretendam-na para si. A posse pode ser justa com relação a um sujeito e injusta em relação a outro. O vício não é erga omnes, a posse sim. A posse se transmite com os mesmos caracteres aos sucessores (art. 1203, 1206 e 1207 CC). Este é o princípio da continuidade do caráter da posse.
*#DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO #STJ: Não cabe intervenção de terceiros na modalidade de oposição na ação de usucapião. STJ. 3ª Turma. REsp 1.726.292-CE, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 12/02/2019 (Info 642) #IMPORTANTE
Art. 1.203. Salvo prova em contrário, entende-se manter a posse o mesmo caráter com que foi adquirida.
Enunciado 237 da Jornada de Direito Civil: É cabível a modificação do título da posse - interversio possessionis - na hipótese em que o até então possuidor direto demonstrar ato exterior e inequívoco de oposição ao antigo possuidor indireto, tendo por efeito a caracterização do animus domini.
O artigo 1.200 não esgota as hipóteses em que a posse é viciosa. Aquele que esbulhou a céu aberto, sem empregar violência, ou sem abusar da confiança, também torna viciosa a posse que adquiriu se inexistente ato de permissão ou tolerância.
No que se refere à cessação da clandestinidade, não se exige a difícil prova de que a vítima tomou conhecimento do esbulho, mas apenas de que tinha condições de tomar, porque o esbulhador não mais oculta seus atos de posse.
OBS.: Em relação aos seus efeitos, os vícios da violência, da clandestinidade ou da precariedade não influenciam na questão dos frutos, das benfeitorias e das responsabilidades. Para tais questões, leva-se em conta se a posse é de boa-fé ou má-fé.
3.3.2. Quanto aos vícios subjetivos ou quanto à boa-fé
Aqui se tem a boa-fé subjetiva ou intencional, em regra. O justo título pode estar relacionado à boa-fé objetiva do contrato, por exemplo.
Art. 1.201. É de boa-fé a posse, se o possuidor ignora o vício, ou o obstáculo que impede a aquisição da coisa.
Parágrafo único. O possuidor com justo título tem por si a presunção de boa-fé, salvo prova em contrário, ou quando a lei expressamente não admite esta presunção.
A) Posse de boa-fé[footnoteRef:3] [3: CAIU NO TJRS/2016: a boa-fé que qualifica a posse é a SUBJETIVA. ]
Quando o possuidor ignora um obstáculo para aquisição da propriedade (Boa-fé real) ou tem o justo título (boa-fé presumida). Ex.: justo título. Contratos válidos e eficazes. Locação, comodato, compromisso de compra e venda.
A transmissão derivada da posse por instrumento público ou particular gera presunção relativa de boa-fé.
Enunciado 303 – Art.1.201. Considera-se justo título para presunção relativa da boa-fé do possuidoro justo motivo que lhe autoriza a aquisição derivada da posse, esteja ou não materializado em instrumento público ou particular. Compreensão na perspectiva da função social da posse. Ex.: compromisso de compra e venda registrado ou não para aquisição da propriedade.
O último enunciado doutrinário está prevendo que a função social da posse, antes estudada, é fator fundamental para a determinação da posse de boa-fé e da caracterização do justo título. Sendo assim, a existência de instrumento, seja público ou particular, não é fator essencial. O tecnicismo e o formalismo exagerado são substituídos pela funcionalização do instituto da posse.
B) Posse de má-fé
A pessoa sabe que não pode ser proprietária e não tem o justo título.
CUIDADO! Em regra, há equivalência entre posse justa e posse de boa-fé. Posse injusta e posse de má-fé. Ou seja, quem tem posse justa geralmente está de boa-fé e vice-versa, mas não necessariamente. Ex.: comprar Iphone roubado. A posse é injusta (só passa a ser justa com um ano e um dia), mas de boa-fé, se ignora o fato do roubo. Por outro lado, terá posse justa, mas de má-fé, o locatário que pretende adquirir o bem por usucapião, na vigência do contrato.
Posse justa e injusta – critérios objetivos. Efeitos para usucapião e ações possessórias.
Posse boa e má-fé – critérios subjetivos. Efeitos: frutos, benfeitorias e responsabilidades (1.214 a 1.220).
POSSE DE BOA-FÉ
POSSE DE MÁ-FÉ
Tem direito aos frutos percebidos.
Responde por todos os frutos colhidos e percebidos, bem como pelos que, por culpa sua, deixou de perceber, desde o momento em que se constituiu de má-fé; tem direito às despesas da produção e custeio.
Os frutos pendentes ao tempo em que cessar a boa-fé devem ser restituídos, depois de deduzidas as despesas da produção e custeio; devem ser também restituídos os frutos colhidos com antecipação.
Responde por todos os frutos colhidos e percebidos, bem como pelos que, por culpa sua, deixou de perceber, desde o momento em que se constituiu de má-fé; tem direito às despesas da produção e custeio.
Não responde pela perda ou deterioração da coisa, a que não der causa.
Responde pela perda, ou deterioração da coisa, ainda que acidentais, salvo se provar que de igual modo se teriam dado, estando ela na posse do reivindicante.
Direito à indenização das benfeitorias necessárias e úteis.
Serão ressarcidas somente as benfeitorias necessárias; não lhe assiste o direito de retenção pela importância destas.
Direito de levantar a benfeitorias voluptuárias.
Não tem direito de levantar as voluptuárias.
Direito de retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e úteis.
Não lhe assiste o direito de retenção.
O reivindicante, obrigado a indenizar as benfeitorias ao possuidor de boa-fé, indenizará pelo valor atual.
O reivindicante, obrigado a indenizar as benfeitorias ao possuidor de má-fé, tem o direito de optar entre o seu valor atual e o seu custo
#ATENÇÃO:
- O STJ entende que, caso o possuidor deseje exercer o direito de retenção, deverá fazê-lo na contestação ou na petição inicial. Isso se dá para que o juiz, no cumprimento de sentença, já reconheça o direito à retenção.
- Para evitar que o possuidor de boa-fé realizasse benfeitorias úteis somente para o fim de retenção, a jurisprudência estabeleceu que as benfeitorias úteis realizadas após a notificação para restituição da coisa não geram direito de retenção, mas apenas de indenização.
#DESAPROPRIAÇÃO: No caso das benfeitorias úteis realizadas após o decreto expropriatório, só serão indenizadas caso haja prévia autorização do poder expropriante. As benfeitorias necessárias serão sempre indenizadas.
Decreto-Lei 3.365/41
Art. 26. No valor da indenização, que será contemporâneo da avaliação, não se incluirão os direitos de terceiros contra o expropriado
§ 1º Serão atendidas as benfeitorias necessárias feitas após a desapropriação; as úteis, quando feitas com autorização do expropriante.
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA:
- INFO. 564, STJ – 2015: No contrato de parceria agrícola, é possível a previsão de uma cláusula por meio da qual o outorgado (que irá trabalhar a terra) renuncia ao direito às benfeitorias que realizar? NÃO. Nos contratos agrários, é NULA a cláusula de renúncia à indenização pelas benfeitorias necessárias e úteis. Os contratos de direito agrário são regidos tanto por elementos de direito privado, como por normas de caráter público e social, de observância obrigatória e, por isso, irrenunciáveis, tendo como finalidade principal a proteção daqueles que, pelo seu trabalho, tornam a terra produtiva e dela extraem riquezas, conferindo efetividade à função social da propriedade. Apesar de sua natureza privada e de ser regulado pelos princípios gerais que regem o direito comum, o contrato agrário sofre repercussões de direito público em razão de sua importância para o Estado, do protecionismo que se quer emprestar ao homem do campo, à função social da propriedade e ao meio ambiente, fazendo com que a máxima do "pacta sunt servanda" não se opere em absoluto nestes casos. A legislação dos contratos de parceria agrícola preconiza o direito à indenização pelas benfeitorias como sendo uma cláusula obrigatória. Logo, não pode o contrato de parceria agrícola prever a renúncia à indenização pelas benfeitorias necessárias e úteis, sendo nula qualquer disposição nesse sentido. STJ. 4ª Turma. REsp 1.182.967-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 9/6/2015 (Info 564). Tanto o Estatuto da Terra (Lei nº 4.504/1964) como a Lei º 4.947/1966 e o Decreto º 59.566/1966 (que os regulamenta) preveem, como uma de suas diretrizes, o princípio fundamental da irrenunciabilidade de cláusulas obrigatórias nos contratos agrários, consagrando, assim, um dirigismo contratual destinado a proteger e dar segurança às relações ruralistas.
- INFO. 585, STF: O ex-mutuário de imóvel dado em garantia hipotecária em financiamento do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) não tem direito à retenção pelas benfeitorias realizadas no bem antes da adjudicação. Quanto às benfeitorias realizadas após a adjudicação, deve-se analisar se há boa-fé ou má-fé na posse. Havendo má-fé do ex-mutuário possuidor (o que é a regra), ele não tem direito de retenção pelas benfeitorias realizadas no imóvel após a adjudicação, mas poderá ser indenizado pelas benfeitorias necessárias (art. 1.220 do CC). STJ. 3ª Turma. REsp 1.399.143-MS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 7/6/2016 (Info 585).
Indenização dos prejuízos. Responsabilidade pela perda ou deterioração da coisa (arts. 1217 e 1218, do NCC/2002)
Boa-fé: somente se tiver dado causa (Silvio Rodrigues entende que só se tiver agido com dolo ou culpa grave na perda ou deterioração);
Má-fé: responde em todos os casos, mesmo em razão de força maior ou caso fortuito. Somente pode eximir-se caso comprove que a perda ou deterioração dar-se-ia da mesma maneira se estivesse nas mãos do retomante.
Para ilustrar, na situação do comodatário (possuidor de boa-fé), este somente responderá pela perda da coisa havendo dolo ou culpa. Não pode responder, por exemplo, pelo assalto do veículo à mão armada, levando o criminoso o bem consigo. Já o criminoso que leva a coisa (possuidor de má-fé) responde por ela, se for atingida por um objeto em local onde não estaria o proprietário ou possuidor.
OBS.1: Possuidor de boa-fé tem direito também aos produtos? Entendimento MAJORITÁRIO é que não, pois o regime é diferente (Orlando Gomes e Francisco Loureiro). Os produtos diminuem a coisa principal.
Repise-se que os frutos não se confundem com os produtos, pois enquanto os frutos não geram a diminuição do principal, isso não ocorre com os produtos.
Surge questão controvertida relativa à aplicação desses efeitos para os produtos. Orlando Gomes responde negativamente, pois quanto aos produtos há um dever de restituição mesmo quanto ao possuidor de boa-fé. Ademais, se a restituição tornou-se impossível, o possuidor deverá indenizar a outra parte por perdas e danos.
OBS.2: Na locação admite-se a renúncia àsbenfeitorias por força do contrato (art. 35, Lei nº 8.245/91). Súmula 335 STJ. Contudo, se a locação for contrato de adesão, a renúncia é nula (Enunciado nº 433, IV Jornada de Direito Civil)
Art. 424. Nos contratos de adesão, são nulas as cláusulas que estipulem a renúncia antecipada do aderente a direito resultante da natureza do negócio.
Cumpre destacar que, no tocante à locação de imóvel urbano, há regras específicas relativas às benfeitorias previstas nos arts. 35 e 36 da Lei n.º 8.245/1991. De início, dispõe o art. 35 da Lei de Locação que, salvo expressa disposição contratual em contrário, as benfeitorias necessárias introduzidas pelo locatário, ainda que não autorizadas, são indenizáveis, podendo ser levantadas pelo locatário, finda a locação, desde que a sua retirada não afete a estrutura e a substância do imóvel (art. 36 da Lei n.º 8.245/1991).
OBS.3: O tratamento dado às benfeitorias inclui as acessões – incorporações introduzidas no imóvel sem a ação do proprietário, possuidor ou detentor (construções e plantações)? Sim, de acordo com o Enunciado nº 81, I Jornada de Direito Civil (TJSSP, APC, 531.9974/00).
Cessa a boa-fé no momento em que as circunstâncias façam presumir que o possuidor não ignora que possui indevidamente.
O conceito de justo título é empregado não como documento ou instrumento, mas como fato gerador do qual a posse deriva. Configura estado de aparência que permite concluir estar o sujeito gozando de boa posse. Justo título é o que seria hábil para transmitir o domínio e a posse se não contivesse nenhum vício. Ex.: Escritura de compra e venda devidamente registrada é um título hábil para transmissão de imóvel, embora possa ser anulada se o vendedor não era o verdadeiro dono.
O art. 1212 do CC preceitua que “O possuidor pode intentar a ação de esbulho, ou a de indenização, contra o terceiro que recebeu a coisa esbulhada, sabendo que o era”. Do referido dispositivo pode-se extrair a seguinte conclusão, exposta no Enunciado 80 do CJF: “Art. 1212: É inadmissível o direcionamento de demanda possessória ou ressarcitória contra terceiro possuidor de boa-fé, por ser parte passiva ilegítima, diante do disposto no art. 1212 do NCC. Contra o terceiro de boa-fé cabe tão-somente a propositura de demanda de natureza real” – ou seja, quando se discute a propriedade, que é erga omnes.
Um possuidor de boa-fé pode ter posse injusta, se adquiriu a coisa de quem, por sua vez, a obteve com violência, clandestinidade e precariedade. Embora esteja de boa-fé o adquirente, essa posse é injusta porque apresenta um dos vícios originários. Também é possível que alguém possua de má-fé, sem que tenha obtido a posse de forma violenta, clandestina.
Nos termos do artigo 1.202 do Código Civil, não apenas a citação pode fazer cessar a boa-fé, mas também opera o mesmo efeito qualquer circunstância anterior ao processo que faça presumir a consciência da ilicitude por parte do sujeito, como notificação judicial ou extrajudicial.
Com a citação de uma ação proposta, o possuidor de má-fé responde pela entrega da coisa e pelos frutos em decorrência de princípios processuais e obrigacionais, produzindo a sentença efeitos desde aquele ato de conhecimento (citação).
3.3.3. Quanto ao desdobramento (paralelismo ou relação pessoa - coisa)
a) Posse direta: É aquele em que há um contato imediato e corpóreo entre a pessoa e a coisa. Locatário, depositário, usufrutuário, comodatário.
b) Posse indireta: Contato mediato com a coisa.
Art. 1.197. A posse direta, de pessoa que tem a coisa em seu poder, temporariamente, em virtude de direito pessoal, ou real, não anula (OU AFASTA) a indireta, de quem aquela foi havida, podendo o possuidor direto defender a sua posse contra o indireto. E vice-versa.
O possuidor direto e o indireto podem invocar a proteção possessória, inclusive podendo o possuidor direto valer-se deste instrumento contra o possuidor indireto. Enunciado 76 do CJF: “Art. 1.197: O possuidor direto tem direito de defender sua posse contra o indireto, e este contra aquele”. Ambos estão legitimados às ações de defesa da posse contra terceiros.
Ex.: vigente uma locação, o locatário viaja e, quando retorna, o imóvel foi invadido pelo locador. O locatário então ingressa com ação de reintegração de posse contra o locador. O locador, em matéria de defesa, somente alega que é proprietário do bem (exceptio proprietatis – defesa de alegação de propriedade). Como o juiz decide: a ação de reintegração de posse deve ser julgada procedente. Com o CC/02 a posse pode vencer a propriedade. A exceptio proprietatis foi abolida pelo CC/02, que estabeleceu a separação entre os juízos possessório e petitório (que discute propriedade).
Pode haver um sucessivo desdobramento da posse, como ocorre, por exemplo, na hipótese de usufruto. O nu-proprietário tem a posse indireta e o usufrutuário é possuidor direto. Este pode dar a coisa em locação, originando a posse direta do locatário. O primitivo possuidor direto passa a ser também possuidor indireto.
Venosa traz o conceito de desdobramento vertical da posse para denominar situações onde há um plano vertical para a pluralidade de sujeitos; portanto, um plano hierárquico ligado à natureza do fato jurígeno. Ex.: posse mediata e posse imediata. Por outro lado, pode-se dizer que há desdobramento horizontal da posse quando os sujeitos exercem o poder de fato sobre a coisa de forma horizontal, de acordo com o mesmo título e com as mesmas peculiaridades como, por exemplo, na composse.
Se não ocorrerem os fatos jurígenos que dão origem ao desdobramento da posse, não há que se falar em posse direta ou indireta (mediata ou imediata), mas simplesmente posse (plena). A posse direta é, de maneira geral, uma posse derivada, como alguns a denominam, sendo limitada no tempo.
Obs.: Imagine que, em um contrato de locação de imóvel urbano, o locatário não vem pagando regularmente os aluguéis. Diante dessa situação, o locador o procura e ambos fazem um acordo para desocupação voluntária do imóvel em seis meses. Fundo esse prazo, o locatário ainda continua no imóvel. Pode parecer que, nesse caso, a ação cabível ao locador é a de reintegração de posse. A conclusão está errada, pois a ação cabível é a de despejo, nos termos do art. 5º, da Lei 8.245/1991.
Art. 1.210. O possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de turbação, restituído no de esbulho, e segurado de violência iminente, se tiver justo receio de ser molestado.
§ 1o O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção, ou restituição da posse.
§ 2o Não obsta à manutenção ou reintegração na posse a alegação de propriedade, ou de outro direito sobre a coisa.
EFEITOS DA POSSE
· Usucapião;
· Proteção possessória;
A legítima defesa e desforço imediato correspondem a duas modalidades de defesa da posse, mas exigem imediatismo e proporcionalidade. Na legítima defesa, a posse é ameaçada (ameaça ou turbação), já no desforço, a posse é perdida (esbulho). A autotutela engloba tanto os bens móveis quanto imóveis.
- Autotutela – possibilidade, desde que as medidas sejam proporcionais/razoáveis/imediatas (in continenti). É possível o uso de prepostos. Detentor pode fazer uso da autotutela?
Enunciado 493: o detentor (art. 1.198 do Código Civil) pode, no interesse do possuidor, exercer a autodefesa do bem sob seu poder. Ex.: caseiro defendendo a propriedade.
SOBRE AS AÇÕES POSSESSÓRIAS
· É possível a cumulação de pedido;
· Fungibilidade;
· Natureza dúplice das ações possessórias;
· Proibição da exceção de domínio.
Enunciado n. 78 da I Jornada de Direito Civil: Tendo em vista a não recepção pelo novo Código Civil, da ‘exceptio proprietatis’ – (art. 1210, § 2º) em caso de ausência de prova suficiente para embasar decisão liminar ou sentença final ancorada exclusivamente no ‘ius possessionis’, deverá o pedido ser indeferido e julgado improcedente, não obstante eventual alegação e demonstraçãode direito real sobre o bem litigioso.
Enunciado n. 79 da I JDC: “A ‘exceptio proprietatis’, como defesa oponível às ações possessórias típicas, foi abolida pelo Código Civil de 2002, que estabeleceu a absoluta separação entre os juízos possessório (em que se discute a posse) e petitório” (em que se discute propriedade).
A jurisprudência somente admite a "exceptio proprietatis” quando:
· Duvidosa a posse de ambos os litigantes, ou;
· As partes disputam a posse a título de proprietárias.
3.3.4. Quanto à presença do título (causa representativa da posse, documentada ou não)
A) Posse causal ou posse ius possidendi: é a posse fundada em contrato;
B) Posse sem título ou posse material (ius possessionis): é a situação em que não há uma causa representativa, pelo menos aparente, da transmissão do domínio fático. Exemplo: achado de um tesouro sem querer (art. 1,264, CC). Nesse caso, a posse é qualificada como um ato-fato jurídico, pois não há uma vontade juridicamente relevante para que exista um ato jurídico.
Art. 1.264. O depósito antigo de coisas preciosas, oculto e de cujo dono não haja memória, será dividido por igual entre o proprietário do prédio e o que achar o tesouro casualmente.
Art. 1.265. O tesouro pertencerá por inteiro ao proprietário do prédio, se for achado por ele, ou em pesquisa que ordenou, ou por terceiro não autorizado.
Art. 1.266. Achando-se em terreno aforado, o tesouro será dividido por igual entre o descobridor e o enfiteuta, ou será deste por inteiro quando ele mesmo seja o descobridor.
3.3.5. Quanto ao tempo
a) Posse nova: menos de um ano e um dia.
b) Posse velha: pelo menos um ano e um dia.
Repercussão processual (art. 558, NCPC) – se a ameaça, turbação ou esbulho forem novos, a ação segue rito especial e cabe liminar; se forem velhos, a ação é de força velha, o rito é ordinário, não cabe liminar, mas cabe tutela antecipada (Enunciado nº 238, III Jornada de Direito Civil).
Posse velha é a de ano e dia ou mais. Neste caso, o possuidor será mantido sumariamente, até ser convencido pelos meios ordinários.
3.3.6. Quanto aos efeitos
a) Posse ad interdicta
Posse “ad interdicta” e posse “ad usucapionem”: Pode-se analisar a posse para efeito de interditos ou de usucapião. Toda posse passível de ser defendida pelas ações possessórias é denominada “ad interdicta”, isto é, a que possibilita a utilização dos interditos para repelir ameaça, mantê-la ou recuperá-la, bastando que seja justa. Ainda que a posse contenha vícios, o possuidor está garantido em relação a terceiros que não tenham sido vítimas da violência, da clandestinidade, ou da precariedade. Esses vícios só não o garantem em relação ao proprietário, necessitando que seja justa. Em relação àqueles, qualquer posse dá direito aos interditos.
- Possibilita o manejo das ações possessórias (regra). Interditos possessórios (ações possessórias diretas). Há uma fungibilidade total entre essas ações;
- Ameaça: interdito proibitório;
- Turbação (atentado temporário. Não é que é parcial. Entra e sai, entra e sai): ação de manutenção da posse;
- Esbulho (atentado definitivo): reintegração da posse (ação de força espoliativa)[footnoteRef:4]. [4: A seguinte alternativa foi considerada correta (TJPR – 2017): Para fins de proteção possessória, deve ser demonstrado algum vício objetivo da posse, não sendo imprescindível a constatação de má-fé do esbulhador.]
Obs.: Não importa se a área é parcial ou total.
*Do ponto de vista prático, esclareça-se que, no caso de invasão parcial de um terreno, a ação cabível não é a de manutenção de posse, mas a de reintegração, conforme o correto entendimento jurisprudencial.
Obs.: sobre o §1º, conforme já mencionado, além das medidas judiciais, a lei assegura medidas extrajudiciais de autotutela da posse.
Art. 1.210. O possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de turbação, restituído no de esbulho, e segurado de violência iminente, se tiver justo receio de ser molestado.
§ 1o O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção, ou restituição da posse.
§ 2o Não obsta à manutenção ou reintegração na posse a alegação de propriedade, ou de outro direito sobre a coisa.
Questões especiais sobre a posse:
- Patrimônio de afetação: é questão que toca ao tema da alienação fiduciária. Segundo o prof. Hercules Aghiarian, esse “sistema de direito real de garantia” vincula um conjunto de bens ao empreendimento realizado pelo incorporador, visando a garantir maior segurança jurídica de possuidores e proprietários no mercado imobiliário (a lei que disciplinou o patrimônio de afetação no Brasil foi a Lei nº 10.931/04).
b) Posse ad usucapionem – Usucapível
Por posse “ad usucapionem” entende-se aquela capaz de dar ao seu titular a usucapião da coisa, se preenchidos os requisitos legais exigidos pelo artigo 1.238 e 1.242, ambos do Código Civil, ou seja, o ânimo de dono, que seja mansa e pacífica (sem oposição), contínua (sem interrupção), que haja decurso do tempo, seja de boa-fé e que haja justo título. Esses dois últimos interessam apenas ao usucapião ordinário. Um dos principais efeitos da posse é a possibilidade de, com ela, alcançar-se a propriedade pelo decurso de certo tempo. É, em suma, aquela capaz de gerar o direito de propriedade.
Requisitos:
· Mansa e pacífica;
· Animus domini (segundo Savigny);
· Determinado tempo – varia de 2 a 15 anos;
· Ininterrupta.
OBS.: Proteção possessória
As bases, os fundamentos e as modalidades de proteção possessória devem vir descritos pela lei material, já as minúcias do procedimento devem vir regradas pela lei processual.
Legítima defesa da posse. Desforço imediato.
Duas são as hipóteses de autotutela: legítima defesa e desforço imediato. Ambas com fundamento material no art. 1210, § 1º, do CC: “O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contando que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção ou restituição da posse”.
Enunciado 239 do CJF: “Art. 1210: Na falta de demonstração inequívoca de posse que atenda à função social, deve-se utilizar a noção de melhor posse, com base nos critérios previsto no parágrafo único do art. 507 do CC/1916”.
OBS.: “O enunciado doutrinário começa muito bem e termina muito mal. Começa muito bem, pois aponta que para a caracterização do que seja melhor posse, em sede de ação possessória, deve-se levar em conta a sua função social. Justamente por isso já é forte a corrente doutrinária que aponta para a falta de legitimidade para a referida ação no caso de alguém que não vem atendendo a essa função social. A tese que relaciona a função social da posse e da propriedade como pressupostos para o ingresso de ação possessória e mesmo petitória já foi adotada pela jurisprudência do STJ no notório caso da Favela Pullman (REsp 75.659/SP, j. 21.06.2005)”.
CC/16: “Art. 507. Na posse de menos de ano e dia, nenhum possuidor será manutenido, ou reintegrado judicialmente, senão contra os que não tiverem melhor posse.
Parágrafo único. Entende-se melhor a posse que se fundar em justo título; na falta de título, ou sendo os títulos iguais, a mais antiga; se da mesma data, a posse atual. Mas, se todas forem duvidosas, será seqüestrada a coisa, enquanto se não apurar a quem toque”.
A legítima defesa ocorre quando a posse é ameaçada, já o desforço imediato quando a posse é perdida.
Ocorre esbulho quando o possuidor é retirado total ou parcialmente de sua posse. Existe turbação quando se agride a posse sem chegar ao esbulho.
Onde é possível a ação possessória também é possível a autotutela. Engloba tanto os móveis quanto imóveis. Para que o possuidor valha-se da defesa de mão própria, faz-se necessária a turbação ou o esbulho e uma reação imediata: contanto que faça logo. Requisito da imediatidade na repulsa. Passadas a oportunidade e conveniência da autodefesa, cabe ao sujeitorecorrer às vias judiciais, sob pena de praticar o ilícito penal tipificado no art. 345 do CP (exercício arbitrário das próprias razões).
Além disso, os atos de defesa e de desforço dependem do requisito da moderação, isto é, os atos não podem ir além do indispensável à manutenção ou restituição da posse. O possuidor pode se valer do auxílio de terceiros, assim mesmo configurando a utilização dos seus próprios meios. Para a análise desses dois requisitos, imediatidade e moderação, o julgador utilizar-se-á da proporcionalidade a ser sopesada no caso concreto. Esse direito de autodefesa compete tanto ao possuidor direto como ao indireto.
· Interditos Possessórios. Ações possessórias no CPC.
Art. 555. É lícito ao autor cumular ao pedido possessório o de:
I - Condenação em perdas e danos;
II - Indenização dos frutos.
Parágrafo único. Pode o autor requerer, ainda, imposição de medida necessária e adequada para:
I - Evitar nova turbação ou esbulho;
II - Cumprir-se a tutela provisória ou final.
Art. 556. É lícito ao réu, na contestação, alegando que foi o ofendido em sua posse, demandar a proteção possessória e a indenização pelos prejuízos resultantes da turbação ou do esbulho cometido pelo autor.
Art. 557. Na pendência de ação possessória é vedado, tanto ao autor quanto ao réu, propor ação de reconhecimento do domínio, exceto se a pretensão for deduzida em face de terceira pessoa.
Parágrafo único. Não obsta à manutenção ou à reintegração de posse a alegação de propriedade ou de outro direito sobre a coisa.
a) Regras gerais
Legitimação ativa: não basta ser proprietário ou titular de direito real; se não tiver posse terá que se valer da via petitória. Mas o herdeiro está em situação privilegiada, pois a lei presume que ele continua a posse do antecessor. Pontes de Miranda defende a tese de que o nascituro pode ser possuidor. Possuidores diretos e indiretos têm ação contra terceiros e uns contra os outros.
Art. 1.211. Quando mais de uma pessoa se disser possuidora, manter-se-á provisoriamente a que tiver a coisa, se não estiver manifesto que a obteve de alguma das outras por modo vicioso.
O dispositivo trata do possuidor aparente, que manterá a coisa enquanto se discute em sede de ação possessória ou petitória quem é o possuidor ou proprietário de direito. Porém, pelo próprio dispositivo, se for demonstrado que o possuidor aparente tem a coisa com um vício, seja objetivo ou subjetivo, poderá esta lhe ser retirada.
Legitimação passiva: é do autor da ameaça, turbação ou esbulho. Contra o terceiro que recebeu a coisa de boa-fé não cabe reintegração de posse, mas apenas ação petitória (Enunciado 80 do CJF: “Art. 1212: É inadmissível o direcionamento de demanda possessória ou ressarcitória contra terceiro possuidor de boa-fé, por ser parte passiva ilegítima, diante do disposto no art. 1212 do NCC. Contra o terceiro de boa-fé cabe tão somente a propositura de demanda de natureza real”). Tratando-se de menor púbere, que é equiparado aos maiores quanto aos atos ilícitos, será citado conjuntamente com seus responsáveis que o assistem. Em relação às pessoas sem discernimento, o legitimado passivo será o encarregado de sua vigilância. A ação poderá ser proposta contra quem ordenou a ofensa ou contra ambos; se o demandado for detentor, deverá alegar preliminar de ilegitimidade da parte (art. 338 CPC); se for possuidor direto, deverá denunciar a lide. O herdeiro a título universal também é legitimado passivo. Pessoas jurídicas têm legitimidade passiva. Em relação às de direito público, pode até ser deferida liminar, desde que previamente ouvidos os seus representantes. Neste caso, a jurisprudência, ao fundamento de que a obra pública não pode ser demolida, vem convertendo muitos interditos em ação de desapropriação indireta (alguns exigem que, para que tal aconteça, tenha o autor formulado pedido alternativo).
“Assim sendo, não se pode atribuir culpa a quem esteja de boa-fé, não caberão as medidas previstas no dispositivo, mas tão somente ação petitória, para reivindicação da propriedade”.
Cumulação de pedidos na ação possessória.
*(Atualizado em 11.06.2020)
O art. 327 do CPC permite a cumulação de pedidos nos processos em geral, desde que sejam compatíveis entre si, que o juízo tenha competência para julgar todos e que os procedimentos sejam os mesmos. Os pedidos que podem ser cumulados são:
a) Reparação de danos;
b) Indenização dos frutos: Se o réu tiver mantido a posse com boa-fé, ele tornará seus os frutos colhidos. Mas, se for possuidor de má-fé, terá que os restituís todos (se não for possível a restituição, deve-se pagar o equivalente em dinheiro) e indenizar aqueles frutos que, por sua culpa, se perderam.
c) Imposição de medida para evitar novas agressões à posse ou para compelir ao cumprimento da tutela provisória ou final: é instrumento de prevenção. O autor pede ao juiz que fixe uma multa suficientemente elevada para atemorizar o réu de, no futuro, tentar novas agressões à posse. Ex: multa cominatória.
#NOVOCPC:
Art. 555. É lícito ao autor cumular ao pedido possessório o de:
I - condenação em perdas e danos;
II - indenização dos frutos.
Parágrafo único. Pode o autor requerer, ainda, imposição de medida necessária e adequada para:
I - evitar nova turbação ou esbulho;
II - cumprir-se a tutela provisória ou final.
Fungibilidade. Em relação aos interditos, vige o princípio da fungibilidade, mas apenas entre as três ações possessórias em sentido estrito (ação de reintegração, manutenção e interdito proibitório). Justifica-se este princípio em face da possibilidade de rápida mutabilidade do estado de fato ou da dificuldade de precisar-se, no caso concreto, qual a espécie de agressão que a vítima efetivamente sofreu.
Natureza dúplice da ação possessória. As possessórias são ações dúplices, conforme dispõe o art. 922 do CPC. Tal dispositivo tem natureza de reconvenção, não se admitindo, portanto, a reconvenção propriamente dita quanto aos pedidos formulados na ação; no entanto, o STJ tem entendido que é possível a reconvenção pela conexão com os fundamentos da defesa (RESP 119.775/SP – 3a T – Re. Min. Carlos Alberto Menezes – 22.6.98). Venosa entende que é possível formular-se reconvenção, com a forma e procedimentos que lhe são próprios para formular pedidos de conteúdo possessório, se referentes, por exemplo, a outro bem, ou a outra parte do mesmo bem.
#NOVOCPC:
Art. 556. É lícito ao réu, na contestação, alegando que foi o ofendido em sua posse, demandar a proteção possessória e a indenização pelos prejuízos resultantes da turbação ou do esbulho cometido pelo autor.
Ação real ou ação pessoal. A natureza jurídica da posse é um dos temas mais controvertidos em direito. Assim, gera consequências ao examinar-se a natureza da ação possessória, se real ou pessoal. Se entender que é de natureza real, haveria necessidade de também citar o cônjuge. Venosa entende ser de natureza pessoal, posto que conceitua a posse como estado de fato, exteriorizador da propriedade, protegido pelo ordenamento. Quanto à necessidade ou não de citação do cônjuge, a JURISPRUDÊNCIA JÁ É PACÍFICA no seguinte entendimento: “PROCESSUAL CIVIL. REINTEGRAÇÃO NA POSSE. PRESCINDIBILIDADE DE CONVOCAÇÃO DE AMBOS OS CÔNJUGES. CPC, ART. 10. LEI 8.952/1994. DISCUSSÃO SUPERADA. EXCLUSÃO DA MULHER DO PROCESSO. RECURSO PROVIDO. I - A citação de ambos os cônjuges nas ações possessórias somente se faz imprescindível quando se trata de composse ou ato por ambos praticados. II – A discussão viu-se superada, no caso, em razão da modificação do art. 10 do CPC pela Lei 8.952/1994, que normatizou a posição majoritariamente construída por doutrina e jurisprudência. (RESP 76721/PR, Rel. Ministro SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA, 4a T, julgado em 19.02.1998, DJ 30.03.1998 p. 67)”.
Exceção de domínio. A jurisprudência somente vem admitindo quando (a) é duvidosa a posse de ambos os litigantes, isto é, quando o exame da prova não tenha sido capaz de dissipar a dúvida no que diz respeito ao verdadeiro possuidor ou (b) as partes disputam aposse a título de proprietárias. Enquanto estiver tramitando a ação possessória, em que ambas as partes a discutem com base no domínio, nem o réu nem o autor podem ajuizar ação petitória. No entanto, se o pleito não tiver esse conteúdo, não fica impedida a propositura de ação petitória. Súmula 487 do STF: “Será deferida a posse a quem, evidentemente, tiver o domínio, se com base neste for ela disputada”. Ainda que a decisão judicial na possessória seja no sentido da súmula 487 do STF, não fará coisa julgada acerca do domínio. Entretanto, o entendimento acima exposto diverge do constante nos Enunciados 78 e 79 do CJF: “Art. 1210: Tendo em vista a não-recepção, pelo NCC, da exceptio proprietatis (art. 1210, §2º) em caso de ausência de prova suficiente para embasar decisão liminar ou sentença final ancorada exclusivamente no jus possessionis, deverá o pedido ser indeferido e julgado improcedente, não obstante eventual alegação e demonstração do direito real sobre o bem litigioso” e “A exceptio proprietatis, como defesa oponível às ações possessórias típicas, foi abolida pelo Código Civil de 2002, que estabeleceu a absoluta separação entre os juízos possessório e petitório”.
“Prevê o art. 923 do CPC/73 que ‘na pendência do processo possessório é defeso, assim ao autor como ao réu, intentar a ação de reconhecimento do domínio’. Entretanto, não obsta à manutenção ou à reintegração na posse a alegação de domínio ou de outro direito sobre a coisa. O dispositivo processual, portanto, já previa que a alegação de exceção de domínio (exceptio proprietatis) não bastava para a improcedência da ação possessória. A premissa foi repetida pelo §2º do art. 1.210 do CC, pelo qual ‘não obsta à manutenção ou reintegração na posse a alegação de propriedade, ou de outro direito sobre a coisa’. O que se entende, portanto, é que o CC/2002 consolidou a inviabilidade da alegação de domínio, ou de propriedade, em sede de ação possessória, ou seja, trouxe uma divisão entre os juízos possessório (em que se discute a posse) e petitório (em que se discute a propriedade). Em outras palavras, a ação possessória é a via adequada para a discussão da posse; enquanto que a ação petitória é a via adequada para a discussão da propriedade e do domínio, não sendo possível embaralhar as duas vias. Pode-se afirmar, em conclusão, que está prejudicada, pelo menos em parte, a redação da Súmula 487 do STF. Não é possível discutir a posse em ação de discussão de domínio”.
Ações de força nova e força velha. A propositura da ação com menos de um ano e um dia da turbação ou do esbulho permite o deferimento da liminar nos termos do art. 928 do CPC (562 do NOVO CPC) e, se ultrapassado o prazo de um ano e um dia, a ação continuará a ser possessória, mas pelo rito ordinário (são executivas, portanto).
#NOVOCPC
Art. 562. Estando a petição inicial devidamente instruída, o juiz deferirá, sem ouvir o réu, a expedição do mandado liminar de manutenção ou de reintegração, caso contrário, determinará que o autor justifique previamente o alegado, citando-se o réu para comparecer à audiência que for designada.
Parágrafo único. Contra as pessoas jurídicas de direito público não será deferida a manutenção ou a reintegração liminar sem prévia audiência dos respectivos representantes judiciais.
A medida liminar na possessória e a tutela antecipada genérica[footnoteRef:5]. A nova redação do art. 273 do CPC permite que o juiz, sob determinadas condições, antecipe total ou parcialmente a tutela pretendida no pedido. Desse modo, passa a ser concebível que, mesmo no procedimento ordinário, se possa obter tutela provisória da posse, sob a nova modalidade criada pelo legislador. Embora a tutela antecipada genérica do art. 273 possa atingir a mesma finalidade da liminar possessória típica, seus requisitos são mais específicos e estritos (prova inequívoca e verossimilhança da alegação; fundado receio de dano irreparável ou que fique caracterizado o abuso de direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório do réu), além de poder ser revogada ou modificada a qualquer tempo e de não poder ser concedida ser houver perigo de irreversibilidade do provimento antecipado. Assim, entende-se que a liminar na possessória, por ter requisitos mais abrangentes, continua a ter sentido a sua existência[footnoteRef:6]. [5: A resposta dada pelos juristas participantes da III Jornada de Direito Civil, em 2004, foi positiva, conforme o Enunciado n. 238 do CJF/STJ, cuja redação é a seguinte, com menções ao CPC/1973: “ainda que a ação possessória seja intentada além de ‘ano e dia’ da turbação ou esbulho, e, em razão disso, tenha seu trâmite regido pelo procedimento ordinário (CPC, art. 924), nada impede que o juiz conceda a tutela possessória liminarmente, mediante antecipação de tutela, desde que presentes os requisitos autorizadores do art. 273, I ou II, bem como aqueles previstos no art. 461-A e parágrafos, todos do Código de Processo Civil”. O enunciado doutrinário acaba traduzindo o que entendia a jurisprudência, pois o próprio Superior Tribunal de Justiça já se pronunciou no sentido de ser possível a tutela antecipada em ação de reintegração de posse, desde que preenchidos os requisitos do art. 273 do CPC/1973 (STJ, REsp 555.027/MG, 3.ª Turma, Rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, j. 27.04.2004, DJ 07.06.2004, p. 223). Arestos mais recentes do Tribunal da Cidadania seguem a mesma linha (ver: STJ, AgRg no REsp 1.139.629/RJ, 4.ª Turma, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, j. 06.09.2012, DJe 17.09.2012; e REsp 1.194.649/RJ, 4.ª Turma, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, j. 12.06.2012, DJe 21.06.2012). Acredita-se que esse entendimento deve ser mantido com a emergência do Novo Código de Processo Civil, cabendo a tutela provisória em sentido amplo tratada no Estatuto Processual emergente (arts. 294 a 311). Assim, sendo preenchidos os requisitos da lei, serão cabíveis a tutela de urgência e a de evidência, o que demanda análise caso a caso. (TARTUCE, Flávio. Direito Civil. Direito das Coisas, 2017).] [6: Pergunta da prova oral do XII concurso do TRF4: Há diferenças entre a liminar na possessória e a tutela antecipada genérica? Pode se afirmar que a liminar na possessória deixou de ter sentido com a criação da tutela antecipada?]
O juiz não poderá conceder liminar sem antes ouvir o representante judicial da pessoa jurídica de direito público se essa for a ré. Lembre-se que as empresas públicas e sociedades de economia mista não são de direito público.
#NOVOCPC:
Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo.
§ 1 o Para a concessão da tutela de urgência, o juiz pode, conforme o caso, exigir caução real ou fidejussória idônea para ressarcir os danos que a outra parte possa vir a sofrer, podendo a caução ser dispensada se a parte economicamente hipossuficiente não puder oferecê-la.
§ 2º A tutela de urgência pode ser concedida liminarmente ou após justificação prévia.
§ 3º A tutela de urgência de natureza antecipada não será concedida quando houver perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão.
Art. 301. A tutela de urgência de natureza cautelar pode ser efetivada mediante arresto, sequestro, arrolamento de bens, registro de protesto contra alienação de bem e qualquer outra medida idônea para asseguração do direito.
Art. 302. Independentemente da reparação por dano processual, a parte responde pelo prejuízo que a efetivação da tutela de urgência causar à parte adversa, se:
I - a sentença lhe for desfavorável;
II - obtida liminarmente a tutela em caráter antecedente, não fornecer os meios necessários para a citação do requerido no prazo de 5 (cinco) dias;
III - ocorrer a cessação da eficácia da medida em qualquer hipótese legal;
IV - o juiz acolher a alegação de decadência ou prescrição da pretensão do autor.
Parágrafo único. A indenização será liquidada nos autos em que a medida tiver sido concedida, sempre que possível.
Art. 303. Nos casos em que a urgênciafor contemporânea à propositura da ação, a petição inicial pode limitar-se ao requerimento da tutela antecipada e à indicação do pedido de tutela final, com a exposição da lide, do direito que se busca realizar e do perigo de dano ou do risco ao resultado útil do processo.
§ 1º Concedida a tutela antecipada a que se refere o caput deste artigo:
I - o autor deverá aditar a petição inicial, com a complementação de sua argumentação, a juntada de novos documentos e a confirmação do pedido de tutela final, em 15 (quinze) dias ou em outro prazo maior que o juiz fixar;
II - o réu será citado e intimado para a audiência de conciliação ou de mediação na forma do art. 334 ;
III - não havendo autocomposição, o prazo para contestação será contado na forma do art. 335 .
§ 2º Não realizado o aditamento a que se refere o inciso I do § 1º deste artigo, o processo será extinto sem resolução do mérito.
§ 3º O aditamento a que se refere o inciso I do § 1º deste artigo dar-se-á nos mesmos autos, sem incidência de novas custas processuais.
§ 4º Na petição inicial a que se refere o caput deste artigo, o autor terá de indicar o valor da causa, que deve levar em consideração o pedido de tutela final.
§ 5º O autor indicará na petição inicial, ainda, que pretende valer-se do benefício previsto no caput deste artigo.
§ 6º Caso entenda que não há elementos para a concessão de tutela antecipada, o órgão jurisdicional determinará a emenda da petição inicial em até 5 (cinco) dias, sob pena de ser indeferida e de o processo ser extinto sem resolução de mérito.
Art. 304. A tutela antecipada, concedida nos termos do art. 303 , torna-se estável se da decisão que a conceder não for interposto o respectivo recurso.
§ 1º No caso previsto no caput , o processo será extinto.
§ 2º Qualquer das partes poderá demandar a outra com o intuito de rever, reformar ou invalidar a tutela antecipada estabilizada nos termos do caput .
§ 3º A tutela antecipada conservará seus efeitos enquanto não revista, reformada ou invalidada por decisão de mérito proferida na ação de que trata o § 2º.
§ 4º Qualquer das partes poderá requerer o desarquivamento dos autos em que foi concedida a medida, para instruir a petição inicial da ação a que se refere o § 2º, prevento o juízo em que a tutela antecipada foi concedida.
§ 5º O direito de rever, reformar ou invalidar a tutela antecipada, previsto no § 2º deste artigo, extingue-se após 2 (dois) anos, contados da ciência da decisão que extinguiu o processo, nos termos do § 1º.
§ 6º A decisão que concede a tutela não fará coisa julgada, mas a estabilidade dos respectivos efeitos só será afastada por decisão que a revir, reformar ou invalidar, proferida em ação ajuizada por uma das partes, nos termos do § 2º deste artigo.
b) Interdito proibitório
Caráter preventivo. Busca-se evitar ofensa à posse.
Conferido ao possuidor com justo receio de ser molestado (turbado) ou esbulhado de sua posse. Busca proteção contra violência iminente. Pede para ser cominada pena pecuniária no caso de transgressão ao preceito.
Requisitos: posse do autor; ameaça de turbação ou esbulho; e justo receio. Se após proposta a ação e antes da sentença houver turbação ou esbulho, expede-se mandado de reintegração ou manutenção. Caso se verifique tal incidente após a sentença que cominou a pena, o réu responde por ela sem prejuízo de outras medidas possessórias cabíveis.
Não se admite o interdito proibitório com a finalidade de impedir que o réu ajuíze alguma ação.
c) Manutenção de posse
Requisitos: (a) turbação (molestamento sem privação da posse) atual; e (b) data do início da turbação e a continuação na posse. Pode haver concessão de medida liminar, ordenando que cesse a turbação. Após a citação e caso não tenha sido concedida medida liminar nem tenha sido convencido o juízo com justificação judicial, toma o feito o rito ordinário. É ação dúplice, podendo o demandado requerer sua reintegração, caso tenha sido esbulhado por posse violenta e não convalidada por ano e dia.
d) Reintegração de posse
É conferida ao possuidor que foi esbulhado, ou seja, privado de sua posse de forma injusta. Requisitos: que tenha havido esbulho e que o mesmo date de menos de um ano e um dia. Com prova pré-constituída ou extraída de justificação, pode o juiz conceder medida liminar de reintegração. Caso contrário, ordenada a citação e contestado o feito, toma-se o rito ordinário.
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA: Tema polêmico! É cabível o ajuizamento de ações possessórias por parte de invasor de terra pública contra outros particulares. A ocupação de área pública, sem autorização expressa e legítima do titular do domínio, não pode ser confundida com a mera detenção. Aquele que invade terras e nela constrói sua moradia jamais exercerá a posse em nome alheio. Não há entre ele e o proprietário uma relação de dependência ou subordinação. Ainda que a posse não possa ser oposta ao ente público, senhor da propriedade do bem, ela pode ser oposta contra outros particulares, tornando admissíveis as ações possessórias entre invasores. STJ. 3ª Turma. REsp 1.484.304-DF, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 10/3/2016 (Info 579).
- Realmente, existem acórdãos do STJ no sentido de que a ocupação de área pública sem autorização expressa e legítima do titular do domínio constitui mera detenção (STJ. 3ª Turma. REsp 998.409-DF, DJe 3/11/2009). Contudo, neste julgado, a 3ª Turma do STJ, mesmo reconhecendo a existência desses precedentes, decidiu chegar a uma posição diferente e entender que há sim posse.
- Art. 1.198. Considera-se detentor aquele que, achando-se em relação de dependência para com outro, conserva a posse em nome deste e em cumprimento de ordens ou instruções suas. Ao ler esse artigo, percebe-se que o invasor de uma terra pública não pode ser enquadrado neste conceito, ou seja, não pode ser considerado detentor. O art. 1.198 fala em "relação de dependência", de forma que a posse deve ser exercida em nome de outrem que ostenta o jus possidendi ou o jus possessionis. É o caso, por exemplo, de um "caseiro" que mora no sítio. Este, sim, é considerado "detentor" porque possui uma relação de dependência com o possuidor e conserva a posse em nome deste e em cumprimento de suas ordens.
- Por outro lado, em sentido contrário, não se pode dizer que a pessoa que invade terra pública e nela constrói sua moradia esteja exercendo a posse em nome do Poder Público. Não está. Além disso, não há entre ele e o ente público uma relação de dependência ou de subordinação. Logo, não há que se falar que o invasor tenha mera detenção.
- O invasor possui animus domini, ou seja, age como se fosse o dono. Sabe-se que as terras públicas não estão sujeitas à usucapião, no entanto, mesmo assim o invasor age como se fosse o dono. Isso é indiscutível. Na prática, o invasor, na maioria das vezes, nem sabe quem é o proprietário da terra e também desconhece que não poderá adquiri-la. Ele simplesmente age como se fosse o dono, de forma que isso caracteriza a posse. Diante desse contexto, é perfeitamente possível que o invasor de terras públicas proponha interditos possessórios caso um outro particular tente ou efetivamente consiga tomar-lhe a posse.
- Vale ressaltar que o tema é polêmico e, como se trata apenas de uma decisão da 3ª Turma, não se pode afirmar, com convicção, que tenha havido uma mudança de entendimento do STJ sobre o assunto.
*(Atualizado em 11/12/2022) #DEOLHONAJURIS -Em face do arrefecimento dos efeitos da pandemia da Covid-19, cabe adotar um regime de transição para a retomada das reintegrações de posse suspensas em decorrência da doença, por meio do qual os tribunais deverão instalar comissões para mediar eventuais despejos antes de qualquer decisão judicial, a fim de reduzir os impactos habitacionais e humanitários em casos de desocupação coletiva. No contexto da alteração do cenário epidemiológico no Brasil, a retomada das reintegrações de posse suspensas em razão da pandemia deve se dar de forma responsável, cautelosa e com respeito aos direitos fundamentais em jogo. A execuçãosimultânea de milhares de ordens de desocupação, que envolvem milhares de famílias vulneráveis, geraria o risco de convulsão social. Por isso, é preciso estabelecer um regime de transição para a progressiva retomada das reintegrações de posse. Com base nesse entendimento, o Plenário, por maioria, referendou a tutela provisória incidental parcialmente deferida, para determinar a adoção de um regime de transição para a retomada da execução de decisões suspensas na presente ação, nos seguintes termos: (a) Os Tribunais de Justiça e os Tribunais Regionais Federais deverão instalar, imediatamente, comissões de conflitos fundiários que possam servir de apoio operacional aos juízes e, principalmente nesse primeiro momento, elaborar a estratégia de retomada da execução de decisões suspensas pela presente ação, de maneira gradual e escalonada; (b) Devem ser realizadas inspeções judiciais e audiências de mediação pelas comissões de conflitos fundiários, como etapa prévia e necessária às ordens de desocupação coletiva, inclusive em relação àquelas cujos mandados já tenham sido expedidos. As audiências devem contar com a participação do Ministério Público e da Defensoria Pública nos locais em que esta estiver estruturada, bem como, quando for o caso, dos órgãos responsáveis pela política agrária e urbana da União, estados, Distrito Federal em municípios onde se situe a área do litígio, nos termos do art. 565 do CPC e do art. 2º, § 4º, da Lei 14.216/2021 ; (c) As medidas administrativas que possam resultar em remoções coletivas de pessoas vulneráveis devem: (i) ser realizadas mediante a ciência prévia e oitiva dos representantes das comunidades afetadas; (ii) ser antecedidas de prazo mínimo razoável para a desocupação pela população envolvida; (iii) garantir o encaminhamento das pessoas em situação de vulnerabilidade social para abrigos públicos (ou local com condições dignas) ou adotar outra medida eficaz para resguardar o direito à moradia, vedando-se, em qualquer caso, a separação de membros de uma mesma família. Por fim, o Tribunal referendou, ainda, a medida concedida, a fim de que possa haver a imediata retomada do regime legal para desocupação de imóvel urbano em ações de despejo (Lei 8.245/1991, art. 59, § 1º, I, II, V, VII, VIII e IX).” STF, ADPF 828 TPI-quarta-Ref/DF, relator Min. Roberto Barroso, julgamento virtual finalizado em 2.11.2022 (Info. 1076).
· Embargos de terceiro
Podem ser utilizados por terceiro, senhor ou possuidor, para defesa da sua posse e podem ser opostos em caráter preventivo. Pressuposto é o ato de apreensão judicial (esbulho processual), fato que o distingue das demais possessórias.
A qualidade de terceiro é estabelecida por exclusão: quem não é parte no feito, ainda que possa vir a ser. É também terceiro o cônjuge atuando em defesa de sua meação, bens próprios, reservados ou dotais. É irrelevante que ele tenha sido intimado da penhora, mas jamais poderá ele pretender discutir o débito, porque isso é matéria a ser deduzida em embargos do devedor. Obs.: (i) responde pelas dívidas do casal o patrimônio da mulher quando elas resultarem de atos praticados em proveito da família; (ii) a meação da mulher deve ser considerada em cada bem do casal e não na totalidade do patrimônio.
Figurará como réu aquele que deu causa à apreensão judicial.
Cabem os embargos para o credor com garantia real obstar alienação judicial do objeto da garantia. Note-se que ele tem, ainda, direito de preferência legal, devendo, para esse fim, ser intimado da praça. A contestação será limitada aos seguintes argumentos: (a) devedor comum é insolvente; (b) título da garantia é nulo ou não obriga terceiro; (c) outra é a coisa dada em garantia. O bem hipotecado não é impenhorável, mas ao credor hipotecário está assegurado o direito de impedir a alienação, pelos embargos de terceiro, desde que demonstre a solvência do devedor.
Súmula 195 do STJ: em embargos de terceiro não se anula ato jurídico por fraude contra os credores (deve-se ajuizar a ação pauliana).
Os embargos de terceiros podem ser ajuizados a qualquer tempo, antes da sentença final, ou na execução, até 5 dias após a arrematação, adjudicação ou remição, mas sempre antes da assinatura da carta respectiva (art. 1040 CPC). Cabem os embargos ainda que o processo se encontre no tribunal para apreciação de recurso. Se o prazo de embargar for perdido, ainda restará a possibilidade de se postular a anulação do ato judicial. É o juízo deprecante quem deve apreciar os embargos se o bem apreendido foi por ele indicado.
#NOVOCPC:
CAPÍTULO VII
DOS EMBARGOS DE TERCEIRO
Art. 674. Quem, não sendo parte no processo, sofrer constrição ou ameaça de constrição sobre bens que possua ou sobre os quais tenha direito incompatível com o ato constritivo, poderá requerer seu desfazimento ou sua inibição por meio de embargos de terceiro.
§ 1º Os embargos podem ser de terceiro proprietário, inclusive fiduciário, ou possuidor.
§ 2º Considera-se terceiro, para ajuizamento dos embargos:
I - o cônjuge ou companheiro, quando defende a posse de bens próprios ou de sua meação, ressalvado o disposto no art. 843;
II - o adquirente de bens cuja constrição decorreu de decisão que declara a ineficácia da alienação realizada em fraude à execução;
III - quem sofre constrição judicial de seus bens por força de desconsideração da personalidade jurídica, de cujo incidente não fez parte;
IV - o credor com garantia real para obstar expropriação judicial do objeto de direito real de garantia, caso não tenha sido intimado, nos termos legais dos atos expropriatórios respectivos.
Art. 675. Os embargos podem ser opostos a qualquer tempo no processo de conhecimento enquanto não transitada em julgado a sentença e, no cumprimento de sentença ou no processo de execução, até 5 (cinco) dias depois da adjudicação, da alienação por iniciativa particular ou da arrematação, mas sempre antes da assinatura da respectiva carta.
Parágrafo único. Caso identifique a existência de terceiro titular de interesse em embargar o ato, o juiz mandará intimá-lo pessoalmente.
Art. 676. Os embargos serão distribuídos por dependência ao juízo que ordenou a constrição e autuados em apartado.
Parágrafo único. Nos casos de ato de constrição realizado por carta, os embargos serão oferecidos no juízo deprecado, salvo se indicado pelo juízo deprecante o bem constrito ou se já devolvida a carta.
Art. 677. Na petição inicial, o embargante fará a prova sumária de sua posse ou de seu domínio e da qualidade de terceiro, oferecendo documentos e rol de testemunhas.
§ 1º É facultada a prova da posse em audiência preliminar designada pelo juiz.
§ 2º O possuidor direto pode alegar, além da sua posse, o domínio alheio.
§ 3º A citação será pessoal, se o embargado não tiver procurador constituído nos autos da ação principal.
§ 4º Será legitimado passivo o sujeito a quem o ato de constrição aproveita, assim como o será seu adversário no processo principal quando for sua a indicação do bem para a constrição judicial.
Art. 678. A decisão que reconhecer suficientemente provado o domínio ou a posse determinará a suspensão das medidas constritivas sobre os bens litigiosos objeto dos embargos, bem como a manutenção ou a reintegração provisória da posse, se o embargante a houver requerido.
Parágrafo único. O juiz poderá condicionar a ordem de manutenção ou de reintegração provisória de posse à prestação de caução pelo requerente, ressalvada a impossibilidade da parte economicamente hipossuficiente.
Art. 679. Os embargos poderão ser contestados no prazo de 15 (quinze) dias, findo o qual se seguirá o procedimento comum.
Art. 680. Contra os embargos do credor com garantia real, o embargado somente poderá alegar que:
I - o devedor comum é insolvente;
II - o título é nulo ou não obriga a terceiro;
III - outra é a coisa dada em garantia.
Art. 681. Acolhido o pedido inicial, o ato de constrição judicial indevida será cancelado, com o reconhecimento do domínio, da manutenção da posse ou da reintegração definitiva do bem ou do direito ao embargante.· Ação de nunciação de obra nova
Tem caráter possessório. Cuida-se de ofensa à posse por obra vizinha. Objetivo da ação é impedir a continuação de obra que prejudique prédio vizinho ou esteja em desacordo com os regulamentos administrativos. Situa-se na proteção dos direitos de vizinhança.
O proprietário de imóvel tem direito de construir aqueduto no terreno do seu vizinho, independentemente do consentimento deste, para receber águas provenientes de outro imóvel, desde que não existam outros meios de passagem de águas para a sua propriedade e haja o pagamento de prévia indenização ao vizinho prejudicado. Trata-se de direito de vizinhança assegurado pelo art. 1.293 do Código Civil. STJ. 3ª Turma. REsp 1.616.038-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 27/9/2016 (Info 591).
É pressuposto essencial que a obra seja “nova”. Se já estiver em fase de conclusão, o vizinho poderá propor ação de reparação de danos ou demolitória, mas não mais embargá-la.
Os prédios devem ser vizinhos, mas não precisam ser contíguos. Nos casos de invasão mínima, tem-se convertido, pretorianamente, a nunciação ou a demolitória em indenização da área invadida. Inadmissível a ação se a obra nova é executada não no prédio do nunciado, mas em logradouro público.
Prevalece na doutrina o entendimento de que a ação tem natureza pessoal, de modo que se dispensa o consentimento do outro cônjuge, embora o STJ tenha assinalado sua natureza real. Vejamos:
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA: INFO. 565, STJ - 2015
Na hipótese de ser proposta ação real imobiliária, o CPC determina que haja a citação não apenas do réu, mas também de seu cônjuge. Confira: CPC-1973: Art. 10. (...) § 1º Ambos os cônjuges serão necessariamente citados para as ações: I - que versem sobre direitos reais imobiliários; CPC 2015: Art. 73 (...) § 1º Ambos os cônjuges serão necessariamente citados para a ação: I - que verse sobre direito real imobiliário, salvo quando casados sob o regime de separação absoluta de bens. Como a ação de nunciação de obra nova e de ação demolitória, são ações reais imobiliárias, o réu que for casado deverá ser citado, salvo se, nos termos do novo CPC, o regime de bens for da separação absoluta (art. 73, § 1º, I, do CPC 2015). Assim, nos casos de ação de nunciação de obra nova e a ação demolitória haverá litisconsórcio passivo necessário entre o proprietário do imóvel e seu cônjuge, salvo se eles forem casados sob o regime de separação absoluta de bens, situação na qual somente será réu o proprietário do bem. STJ. 2ª Turma. REsp 1.374.593-SC, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 5/3/2015 (Info 565).
O nunciante requererá embargo para que fique suspensa a obra, bem como a cominação de multa para o caso de descumprimento de perdas e danos. Descumprimento do embargo configura atentado.
O prazo para contestar é de apenas 5 dias. Desde que preste caução e demonstre prejuízo, o nunciado poderá requerer o prosseguimento da obra (menos se a ação for fundada em contravenção às posturas administrativas).
“A diversidade de requisitos entre a ação de nunciação de obra nova e a ação demolitória não impede possa ser feita a conversão de uma em outra, quando erroneamente ajuizada” (REsp 851.013/RS, Rel. Min. Hélio Quaglia Barbosa, Quarta Turma, julgado em 05/12/2006).
· Ação de dano infecto
Quem tiver justo receio de sofrer dano em seu imóvel em decorrência de ruína em prédio ou obras vizinhas pode pedir que o proprietário ou responsável preste caução, para garantir eventual indenização, se ocorrer dano. Nesse caso, protege-se o bem possuído de dano potencial, ainda não ocorrido. O proprietário ou possuidor previne-se exigindo caução.
· Ação de imissão na posse
Dela podem se valer: (a) os adquirentes de bens para haverem a respectiva posse; (b) administradores e demais representantes das pessoas jurídicas para haverem de seus antecessores a entrega dos bens; (c) mandatários para haverem os bens dos mandantes das mãos de seus antecessores. A ação tem sido utilizada, também, pelos arrematantes dos imóveis para haverem a sua posse das mãos dos devedores.
Trata-se de ação dominial, portanto, não é possessória. Difere da reivindicatória, pois esta busca obter a posse que se perdeu por ato injusto de outrem e na imissão é reservada a quem nunca tivera a posse.
No estatuto processual vigente não foi incluída a ação como procedimento especial.
· Usucapião
A posse é requisito fundamental, embora não o único, para a usucapião. Desse modo, a aquisição de propriedade pela usucapião é um dos principais efeitos da posse. Usucapir é adquirir a propriedade pela posse continuada durante certo lapso de tempo.
3.3.7. Composse ou compossessão (art. 1.199)
Condomínio da posse. Duas ou mais pessoas exercem a posse.
É a situação pela qual duas ou mais pessoas exercem, simultaneamente, poderes possessórios sobre a mesma coisa. Assim como existe o condomínio, existe a composse. Esta pode existir tanto na posse imediata como na mediata. Ex.: dois ou mais locadores.
Requisitos:
· Indivisibilidade da coisa;
· Sujeitos plurais.
Na composse todos exercem a posse sobre o todo, mesmo que as quotas sejam distintas. Logo, cada compossuidor pode defender a coisa como um todo, inclusive contra o compossuidor (e, claro, contra terceiros).
#CÓDIGOCIVIL
Art. 1.199. Se duas ou mais pessoas possuírem coisa indivisa, poderá cada uma exercer sobre ela atos possessórios, contanto que não excluam os dos outros compossuidores.
É manifesto que o compossuidor bem pode usar interditos possessórios, seja em relação a ataques à posse comum decorrentes da atuação de terceiros, assim como quanto a negativas à sua posse emergentes da atuação de outro compossuidor, que passe a desrespeitar a comunhão possessória. (REsp 537.363/RS).
#É possível falar em usucapião na composse?
Ordinariamente NÃO! Pois cada compossuidor exerce o poder sobre o todo. Mas o STJ já abriu uma exceção, no caso de posse estabelecida, por um possuidor, com exclusividade sobre a coisa, afastando os demais.
O condômino tem legitimidade para usucapir em nome próprio, desde que exerça a posse por si mesmo, ou seja, desde que comprovados os requisitos legais atinentes à usucapião, bem como tenha sido exercida posse exclusiva com efetivo animus domini pelo prazo determinado em lei, sem qualquer oposição dos demais proprietários. (REsp 668131 PR).
#NOVOCPC
Art. 73. O cônjuge necessitará do consentimento do outro para propor ação que verse sobre direito real imobiliário, salvo quando casados sob o regime de separação absoluta de bens.
§ 2º Nas ações possessórias, a participação do cônjuge do autor ou do réu somente é indispensável nas hipóteses de composse ou de ato por ambos praticado.
Venosa entende que se os compossuidores acordam em delimitar o terreno objeto de sua posse, ou a extensão fática do objeto da posse, passa cada um a exercer posse exclusiva sobre o torrão escolhido, desaparecendo nesse caso a composse. É posse pro diviso. Composse localizada é mera aparência de posse em comum. É posse exclusiva (posse delimitada sobre a coisa, exercitada sobre parte certa). A posse pro indiviso é posse em comum sem fixação clara de limites, indeterminada. É composse.
· Pro diviso: fração real (sabe qual a parte de cada um). A área da posse é definida.
· Pro indiviso: fração ideal. NÃO é definida.
Não se deve confundir composse com concorrência ou sobreposição de posses (desdobramento vertical da posse em direta e indireta). Na concorrência de posses, com o desdobramento destas em direta e indireta, dá-se o fenômeno da existência de posses de natureza diversa sobre a mesma coisa, tendo cada possuidor o exercício limitado ao âmbito específico da sua.
Também não se pode confundir acessio possessionis com sucessão de posse. “Acessio possessionis” é a soma de posses anteriores para, por exemplo, configurar o lapso temporal para a usucapião. Sucessão possessória é a transmissão de posse que era do falecido para os seus sucessores.
*#SELIGANOCONCEITO #OUSESABER: A acessio possessionis é instrumento importantepara a compreensão da usucapião. Como se sabe, a usucapião é uma forma de aquisição originária da propriedade em razão do decurso do tempo de posse sobre um bem móvel ou imóvel. Pois bem, a acessio possessionis é a possibilidade de somarem-se posses para fins de usucapião. Imagine-se um imóvel ocupado por uma pessoa sem registro há dez anos, que é vendido para um terceiro, que leva esses dez anos consigo para fins da usucapião. Ou alguém que recebe o imóvel na mesma condição, mas em razão de herança (alguns autores chamam neste caso de sucessio possessionis). A previsão geral dessa adesão de posse está no art. 1.207 do CC: "Art. 1.207. O sucessor universal continua de direito a posse do seu antecessor; e ao sucessor singular é facultado unir sua posse à do antecessor, para os efeitos legais." Já a previsão específica de sua aplicação ao usucapião está no art. 1.247 do CC: "Art. 1.243. O possuidor pode, para o fim de contar o tempo exigido pelos artigos antecedentes, acrescentar à sua posse a dos seus antecessores (art. 1.207), contanto que todas sejam contínuas, pacíficas e, nos casos do art. 1.242, com justo título e de boa-fé.".
*#SELIGANAEXCEÇÃO: No entanto, segundo o Enunciado 317 das Jornadas de Direito Civil, a acessio NÃO SE APLICA: 1) À USUCAPIÃO ESPECIAL INDIVIDUAL URBANO; 2) À USUCAPIÃO ESPECIAL INDIVIDUAL RURAL. Nesses casos, não seria cabível dada sua normatividade especial constitucional.
*#SELIGANAREGRA: Seria cabível, todavia, nas demais espécies de usucapião, INCLUSIVE NA ESPECIAL COLETIVA URBANA!
Posse natural e civil
POSSE NATURAL: é aquela que já nasce do contato físico com a coisa possuída.
POSSE CIVIL: é aquela decorrente de uma relação contratual, tal como o CONSTITUTO POSSESSÓRIO.
3.4. AQUISIÇÃO, TRANSMISSÃO E PERDA DA POSSE
a) Aquisição
A aquisição pode ser originária (contato direto – sem intermediários entre a pessoa e coisa. Cuida-se da ocupação da coisa, apropriação de seu uso e gozo. ex.: res derelictae e res nullius) e derivada (intermediação pessoal – a posse quando decorre de transmissão da posse de um sujeito a outro. Há um ato ou negócio jurídico bilateral. Ex.: compra e venda, comodato, depósito, etc. É o caso de morte, pelo princípio da saisine. A aquisição derivada decorre da lei. ex.: TRADIÇÃO). Art. 1.204, CC – modelo aberto: adquire-se a posse quando se torna possível o exercício de um dos poderes da propriedade.
Quando a aquisição é originária, não havendo vínculo com possuidor anterior, a posse apresenta-se despida de vícios para o novo possuidor. Se o possuidor recebeu a posse de outrem, derivada, portanto, as mesmas características lhe são transferidas.
Art. 493, CC de 1916 elencava hipóteses: apreensão da coisa, disposição (tradição) da coisa e qualquer outra aquisição do direito. Essas hipóteses ainda são exemplos de aquisição da posse.
Art. 1.204. Adquire-se a posse desde o momento em que se torna possível o exercício, em nome próprio, de qualquer dos poderes inerentes à propriedade.
· Tradição
1. Classificação da Tradição:
Washington de Barros Monteiro – USAR ESSA
Orlando Gomes
Real: traditio real – entrega efetiva; Ex.: entrega do veículo pela concessionária
Real: traditio real – entrega efetiva;
Simbólica: ato representativo – traditio longa manu (a coisa é disponibilizada); entregar as chaves.
Ficta/Presumida: ato representativo – traditio longa manu (a coisa é disponibilizada);
Ficta/Presumida: decorre de presunção – traditio brevi manu e constituto possessório.
Consensual: traditio breve manu e constituto possessório
- Traditio brevi manu: possuía em nome alheio, agora possui em nome próprio (exemplo: locatário que compra o bem).
- Constituto possessório (cláusula constituti): possuía em nome próprio, agora possui em nome alheio, com posse direta (exemplo: vendeu o imóvel e locou).
2. Modalidades de tradição: tradição é modo derivado de apossamento da coisa. A tradição efetiva ocorre quando materialmente a coisa é deslocada para a posse de outrem, tem conteúdo real. Tradição significa entrega. Distinguem-se tradição efetiva, simbólica e consensual.
É efetiva a tradição referida pelas fontes como “traditio longa manu”, segundo a qual o transmitente da posse leva o adquirente ao local do imóvel que está entregando, mostrando-lhe e apontando-lhe a área e seus limites.
Na tradição simbólica, ou ficta traditio, a entrega da coisa é traduzida por gestos, atitudes, conduta indicativa da intenção de transferir. A entrega das chaves do imóvel é exemplo.
A consensual, que consiste em duas modalidades clássicas de tradição, é aquela em que não ocorre a transferência real da posse. Trata-se da “traditio brevi manu” e do constituto possessório.
O constituto possessório é ao mesmo tempo modo de aquisição e de perda da posse. Na verdade, ocorre o desdobramento da posse, já que o alienante transmite somente a posse indireta ao adquirente, conservando a posse direta do bem, pois mantém a coisa consigo. O adquirente, por sua vez, adquire apenas a posse indireta. Entretanto, deve-se destacar que havendo cláusula constituti, pode o alienante permanecer com o bem tanto a título de possuidor direto, quanto a título de detentor, como na situação em que o adquirente concede ao alienante prazo de 30 dias para desocupação do imóvel (atos de mera permissão ou tolerância – art. 1.208 do NCCB e art. 497 do Código Civil de 1916). Porém, se o alienante mantiver a coisa em seu poder em decorrência de contrato de locação ou comodato, por exemplo, a relação fática que ele tem com a coisa é a de possuidor direto.
A posse pode ser adquirida pelo próprio titular do direito ou representante (exemplo: mandatário) ou por terceiro, sem mandato, dependendo de ratificação (exemplo: gestor de negócios).
Não é cabível a intervenção de terceiros em procedimento de dúvida registral suscitada por Oficial de Registro de Imóveis (arts. 198 a 207 da Lei nº 6.015/73). STJ. 4ª Turma. RMS 39.236-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 26/4/2016 (Info 582).
Art. 1.205. A posse pode ser adquirida:
I - pela própria pessoa que a pretende ou por seu representante;
II - por terceiro sem mandato, dependendo de ratificação.
3. Quem pode adquirir a posse
Pode-se adquirir por meio de procurador ou mandatário (I). Até mesmo pelo gestor de negócios (II). Nada impede que o menor adquira a posse por ato seu, pois o fato da posse independe da capacidade.
Enunciado 236 do CJF: “Arts. 1196, 1205 e 1212: Considera-se possuidor, para todos os efeitos legais, também a coletividade desprovida de personalidade jurídica”.
Pode ser passível de posse não só a coisa como também a exteriorização do exercício de um direito. Tudo que pode ser utilizado pode ser objeto de posse.
A posse pode ser adquirida por: (a) apreensão da coisa ou exercício do direito; (b) disposição da coisa ou do direito; (c) modos de aquisição em geral.
4. Apreensão da coisa ou exercício do direito: A apreensão consciente da coisa importa em posse. Consiste na apropriação unilateral de coisa “sem dono”. A coisa é dita “sem dono” quando for abandonada (res derelicta) ou quando não for de ninguém (res nullius). Dá-se ainda a apreensão quando a coisa é retirada de alguém sem sua permissão. Adquirir-se-á também por exercício do direito. Exemplo clássico: servidão.
5. Disposição da coisa ou do direito: Após o início do poder fático sobre a coisa, continua-se, permanece-se no mesmo estado, utilizando-se da coisa. Utilizar-se da coisa caracteriza conduta normal de titular de posse ou domínio.
6. Modos de aquisição da posse em geral: Entende-se que a posse pode ser obtida por qualquer forma lícita. Ex: abertura de herança, contrato, etc.[footnoteRef:7] [7: A banca CESPE considerou correta a seguinte alternativa, na prova do TJDFT/2016, “A posse pode ser adquirida por terceiro, sem mandato do pretendente, caso em que a aquisição depende de ratificação.”]
Enunciado 77 do CJF: “Art. 1205: A posse de coisas móveis e imóveis também pode ser transmitida pelo constituto possessório”.
7. Enunciados aprovados naIII Jornada do Conselho da Justiça Federal
DIREITO DAS COISAS
236 – Arts. 1.196, 1.205 e 1.212: Considera-se possuidor, para todos os efeitos legais, também a coletividade desprovida de personalidade jurídica.
237 – Art. 1.203: É cabível a modificação do título da posse – interversio possessionis – na hipótese em que o até então possuidor direto demonstrar ato exterior e inequívoco de oposição ao antigo possuidor indireto, tendo por efeito a caracterização do animus domini.
238 – Art. 1.210: Ainda que a ação possessória seja intentada além de “ano e dia” da turbação ou esbulho, e, em razão disso, tenha seu trâmite regido pelo procedimento ordinário (CPC, art. 924), nada impede que o juiz conceda a tutela possessória liminarmente, mediante antecipação de tutela, desde que presentes os requisitos autorizadores do art. 273, I ou II, bem como aqueles previstos no art. 461-A e §§, todos do CPC.
#NOVOCPC
O art. 924 do CPC/1973 corresponde ao art. 558 do NCPC.
Art. 558. Regem o procedimento de manutenção e de reintegração de posse as normas da Seção II deste Capítulo quando a ação for proposta dentro de ano e dia da turbação ou do esbulho afirmado na petição inicial.
Parágrafo único. Passado o prazo referido no caput, será comum o procedimento, não perdendo, contudo, o caráter possessório.
O art. 273, I, do CPC/1973 corresponde ao art. 300 do NCPC (tutela de urgência).
Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo.
§ 1º Para a concessão da tutela de urgência, o juiz pode, conforme o caso, exigir caução real ou fidejussória idônea para ressarcir os danos que a outra parte possa vir a sofrer, podendo a caução ser dispensada se a parte economicamente hipossuficiente não puder oferecê-la.
§ 2º A tutela de urgência pode ser concedida liminarmente ou após justificação prévia.
§ 3º A tutela de urgência de natureza antecipada não será concedida quando houver perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão.
O art. 273, II, do CPC/1973 corresponde ao art. 311 do NCPC (tutela de evidência).
Art. 311. A tutela da evidência será concedida, independentemente da demonstração de perigo de dano ou de risco ao resultado útil do processo, quando:
I - ficar caracterizado o abuso do direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório da parte;
II - as alegações de fato puderem ser comprovadas apenas documentalmente e houver tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante;
III - se tratar de pedido reipersecutório fundado em prova documental adequada do contrato de depósito, caso em que será decretada a ordem de entrega do objeto custodiado, sob cominação de multa;
IV - a petição inicial for instruída com prova documental suficiente dos fatos constitutivos do direito do autor, a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida razoável.
Parágrafo único. Nas hipóteses dos incisos II e III, o juiz poderá decidir liminarmente.
O art. 461-A do CPC/1973 corresponde ao art. 498 do NCPC.
Art. 498. Na ação que tenha por objeto a entrega de coisa, o juiz, ao conceder a tutela específica, fixará o prazo para o cumprimento da obrigação.
Parágrafo único. Tratando-se de entrega de coisa determinada pelo gênero e pela quantidade, o autor individualizá-la-á na petição inicial, se lhe couber a escolha, ou, se a escolha couber ao réu, este a entregará individualizada, no prazo fixado pelo juiz.
239 – Art. 1.210: Na falta de demonstração inequívoca de posse que atenda à função social, deve-se utilizar a noção de “melhor posse”, com base nos critérios previstos no parágrafo único do art. 507 do CC/1916.
8. Julgados do TRF5 sobre possessórias
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA:
EDILSON NOBRE: QUARTA TURMA MARCELO NAVARRO: TERCEIRA TURMA ACÓRDÃO - AC539494/SE (24/05/2012) Origem: Tribunal Regional Federal - 5ª Região Classe: Apelação Civel - AC539494/SE Número do Processo: 00025736020114058500 Código do Documento: 296529 Data do Julgamento: 22/05/2012 orgão Julgador: Quarta Turma Relator: Desembargador Federal Edílson Nobre DECISÃO UNÂNIME EMENTA CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. REINTEGRAÇÃO DE POSSE. ARRENDAMENTO RESIDENCIAL. LEI Nº 10.188/2001. INADIMPLÊNCIA DO ARRENDATÁRIO. POSSUIDOR INDIRETO. LEGITIMIDADE. VIA ADEQUADA. APELAÇÃO IMPROVIDA. I- No caso em comento, verificada a inadimplência no pagamento das parcelas de arrendamento, foi a parte ré notificada em 30/04/2011(fl.22), a quitar seus débitos, e posteriormente comunicada acerca da rescisão contratual em 12/05/2011 (fl.23), estando preenchidos os requisitos do art.9º da Lei nº 10.188/2001 para propositura da ação de reintegração de posse. II- Não merece prosperar a tese do apelante de que a autora não tem a posse do imóvel, já que deve ser considerado que o arrendador-proprietário, no caso a CEF, tem a condição de possuidor indireto, podendo invocar a proteção possessória.
ACÓRDÃO - EDAG120521/02/AL (19/04/2012) Relator: Desembargador Federal Edílson Nobre PUBLICAÇÕES Diário da Justiça Eletrônico TRF5 (DJE) - 19/04/2012 - Página 730 DECISÃO UNÂNIME EMENTA EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CONTRADIÇÃO E OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. FINALIDADE DE REDISCUSSÃO. IMPROVIMENTO. I - Não houve contradição alguma no acórdão embargado, pois é certo que, em se tratando de ação de reintegração possessória, é suficiente para a tutela jurídica da posse a comprovação da posse mansa e pacífica (in casu, o agravado ostenta a posse mansa e pacífica por mais de trinta anos), sem qualquer vinculação à propriedade, mantendo-se, por conseguinte, a preservação da paz social e a coibição da justiça privada. Ocorre que, ao fazer alusão ao direito de propriedade, o objetivo foi de apenas esclarecer que, também sob esse aspecto, o agravado trouxe elemento probatório mais contundente em prol do seu direito, ainda que essa matéria não seja afeta à demanda possessória (jus possidendi). II - O tema essencial do recurso foi devidamente analisado pelo acórdão, não estando o Tribunal obrigado a julgar a questão posta a seu exame nos termos pleiteados pelas partes, mas sim de acordo com o seu livre convencimento, consoante dispõe o art. 131 do CPC. Em seu recurso, o agravante pretende rediscutir o mérito da demanda, levantando matérias de fato, questionado a apreciação de documentos colacionados aos autos, o que, como cediço, não cabe em sede de embargos de declaração. Eventual inconformismo quanto à conclusão a que chegou o órgão julgador deve ser articulado pela via do recurso próprio, uma vez ser comezinho que os embargos de declaração não são adequados para, pura e simplesmente, provocar novo julgamento do recurso. III - É interessante advertir ao embargante que, caso novos embargos de declaração venham a ser opostos, com propósito semelhante, ter-se-á a configuração de elemento procrastinatório, a ensejar a incidência da multa prevista no parágrafo único do art. 538 do CPC. IV - Embargos de declaração a que se nega provimento.
ACÓRDÃO – AC471898/PE (24/04/2012) Relator: Desembargador Federal Frederico Dantas (Convocado) DECISÃO UNÂNIMEEMENTA ADMINISTRATIVO. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. TERRENO PERTENCENTE AO ESTADO DE PERNAMBUCO, CEDIDO À UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO - UFRPE PARA A CONSTRUÇÃO DE UNIDADE ACADÊMICA. BEM PÚBLICO. OCUPAÇÃO IRREGULAR POR PARTICULAR. IMPOSSIBILIDADE. ESBULHO CARACTERIZADO. APELAÇÃO IMPROVIDA. 1. Apelação desafiada em face da sentença que julgou "procedentes os pedidos deduzidos pela autora (Código de Processo Civil, art. 269, I c/c 926 e seguintes), para determinar a sua reintegração na posse do imóvel da área rural de 71,13 (setenta e um vírgula treze hectares), onde está localizada a antiga sede da fazenda de criação do Estado, situada no Bairro Mundaú, Garanhus/PE". 2. Pedidos formulados pelo Apelante, em petição apartada, de juntada de documentos supervenientes ao recurso, bem como de suspensão do julgamento do presente Apelo, até final análise do recurso de Agravo pelo STJ, interposto no AGTR 95346/PE, que se rejeitam, tendoem vista que o recurso de Agravo ostenta efeito meramente devolutivo, não tendo, por isso, o condão de suspender o julgamento do Apelo. 3. Preliminar de inépcia da petição inicial que se afasta, porquanto a alegação de falta de comprovação da delimitação do terreno constitui inovação em sede recursal, o que não é permitido nesta quadra processual, a teor do disposto no art. 303 do CPC. O que a parte ré, ora Apelante, alegou, na Primeira Instância, foi a inépcia da inicial, por ausência dos requisitos constantes do art. 282, III e IV, do CPC, e não por falta de descrição da área ocupada. Ademais, a análise da questão, trazida à lide só agora na apelação, constituiria supressão de Instância, a impactar o princípio do duplo grau de jurisdição. 4. Em relação à preliminar de ilegitimidade ativa da UFRPE, não merece melhor sorte, vez que as condições da ação devem ser aferidas conforme as asserções feitas na petição inicial ("in status assertionis"), de modo que, o fato de a parte autora alegar que é possuidora do imóvel objeto da ação de reintegração de posse, é suficiente para posicioná-la no polo ativo da demanda, ficando a confirmação ou não da tese autoral para ser analisada quando do oportuno exame do mérito. 5. Sendo a UFRPE legítima possuidora do terreno objeto da reintegração de posse, decorrente do contrato de cessão de uso conferido pela Lei Estadual nº 12.814, de 19-5-2005, não poderia a parte ré ter exercido posse sobre ele, mas mera detenção, notadamente porque possuidor é aquele que se comporta como proprietário, não se podendo reconhecer posse a quem, indubitavelmente, não pode ser proprietário. Impossibilidade de aquisição de imóveis públicos por usucapião, a teor do disposto no § 3º, do art. 183, da Carta Republicana. 6. A ação de reintegração de posse é uma das ações possessórias típicas, que tem cabimento quando ocorre agressão à posse, mais especificamente por ocasião do esbulho, que se consubstancia no despojamento do possuidor do poder de fato sobre a coisa. 7. No caso concreto, havendo o réu ocupado irregularmente área pública, e com destinação social (já que será utilizado para a instalação definitiva de uma unidade acadêmica), e estando configurado o esbulho, eis que, notificado para desocupar a área em 30 (trinta) dias, dele não se retirou, permanecendo sem a devida autorização, deve ser mantida a sentença que julgou procedente o pedido da UFRPE de reintegração de posse. 8. Quadra destacar que a qualidade de proprietário do Estado de Pernambuco possibilita a transferência do bem seja por cessão, seja por comodato, a outro ente público, no caso a UFRPE, de sorte a possibilitar a proteção possessória daquele a quem o bem foi transferido. Apelação improvida.
ACÓRDÃO – AC176554/CE (24/04/2012) DECISÃO UNÂNIME EMENTA ADMINISTRATIVO. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. CASAS DE VERANEIO CONSTRUÍDAS EM ÁREA QUE A UNIÃO CONSIDERA PRESUMIVELMENTE TERRENO DE MARINHA. AUSÊNCIA DE DEMARCAÇÃO. DECRETO-LEI Nº 9.760/46. NÃO COMPROVAÇÃO DA PROPRIEDADE DOS IMÓVEIS. IMPROCEDÊNCIA. APELAÇÃO IMPROVIDA. 1. Pretensão da União de obter reintegração de posse de terrenos situados na Praia da Baleia, Município de Itapipoca/CE, bem como que sejam os particulares compelidos a desfazerem as construções neles realizadas, com o pagamento das perdas e danos. 2. Do conjunto probatório colacionado aos autos, verifica-se que não houve a demarcação dos terrenos referidos nos autos; a União apenas presume que os mesmos são terrenos de marinha, porquanto estariam situados na faixa de 100 (cem) metros da maior maré avançando para o continente. 3. Ressalte-se, contudo, que o Decreto-Lei nº 9.760/46 prevê todo um procedimento para a demarcação dos terrenos de marinha, consoante se observa dos seus artigos 9º e seguintes, o que não foi observado pela União. 4. Caberia à União, por intermédio da Secretaria do Patrimônio da União, no âmbito de sua atuação administrativa, identificar, demarcar, cadastrar em seus registros patrimoniais, registrar em cartório, resolver as questões relativas as ocupações, regularizando o que for passível de regularização para, somente após todo esse processo, adotar eventual medida judicial possessória, tal como lhe impõe a Lei nº 9.636/98. 5. Assim, em face da ausência de demarcação que permita verificar se os réus estão ocupando efetivamente terreno de marinha, não há como ser deferida a reintegração de posse pleiteada. Sem Remessa Necessária, em face do disposto no art. 475, parágrafo 2º, do CPC. Apelação improvida.
ACÓRDÃO - AG129315/PE (04/06/2013). Data do Julgamento: 28/05/2013. Órgão Julgador: Terceira Turma. Relator: Desembargador Federal Geraldo Apoliano. Diário da Justiça Eletrônico TRF5 (DJE) - 04/06/2013 - Página 115 DECISÃO UNÂNIME PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. REINTEGRAÇÃO DE POSSE DA ÁREA ESBULHADA. POSSIBILIDADE. 1. Agravo de Instrumento manejado em face da decisão que deferiu pedido formulado pela Agravada, determinando a expedição de mandado liminar de reintegração de posse da área esbulhada. 2. No caso dos autos, o alegado esbulho consiste na permanência da ré na área ora reclamada mesmo após ter sido notificada, através de CF nº 4055/CMNE(CMNE-3)/2012 (fl. 66), da rescisão do TC nº 02.2002.014.0028, a partir de 13/07/2012. Desta feita, a ação foi intentada dentro de ano e dia do suposto esbulho, razão por que o procedimento de reintegração de posse deve obedecer ao disposto nos artigos 926 a 931 do Código de Processo Civil, "ex vi" do art. 924, do mesmo diploma legal. 3. Preenchidos os requisitos elencados no art. 927 do Código de Processo Civil, a saber, a comprovação, por parte da Requerente: a) da posse; b) do esbulho praticado pela parte demandada; e c) da perda da posse e do momento em que esta se deu. Embargos de Declaração prejudicados. Agravo de Instrumento improvido.
b) Transmissão da Posse
O art. 1.203, CC, estabelece o princípio da continuidade do caráter da posse. Salvo prova em contrário, entende-se manter a posse o mesmo caráter com que foi adquirida. É uma presunção relativa. Tem exceção, que é a alteração da posse injusta para a justa por meio da interversio possessionis (art. 1.208, CC) – um ano e dia.
Art. 1.203. Salvo prova em contrário, entende-se manter a posse o mesmo caráter com que foi adquirida.
Art. 1.208. Não induzem posse os atos de mera permissão ou tolerância assim como não autorizam a sua aquisição os atos violentos, ou clandestinos, senão depois de cessar a violência ou a clandestinidade.
Art. 1.206. A posse transmite-se aos herdeiros ou legatários do possuidor com os mesmos caracteres (Princípio da continuidade da posse)
Art. 1.207. O sucessor universal (exemplo: herdeiro legítimo ou testamentário) continua de direito a posse do seu antecessor; e ao sucessor singular (exemplo: legatário, compra e venda) é facultado unir sua posse à do antecessor, para os efeitos legais.
OBS.: “A lei diferencia dois tipos de sucessão: a universal (nos casos de herança legítima) e a singular (nos casos de compra e venda, doação ou legado). No primeiro caso, a lei prevê a continuidade; no segundo, a união de posses (acessão). Como esclarece Orlando Gomes, ‘o que distingue a sucessão da união é o modo de transmissão da posse, sendo a título universal, há sucessão; sendo a título singular, há união. Não importa que a sucessão seja inter vivos ou mortis causa. Na sucessão mortis causa a título singular, a acessão se objetiva pela forma da união. A sucessão de posses é imperativa; a união, facultativa, enquanto na singular é facultado unir sua posse à precedente. Sendo nesta última hipótese, uma faculdade, o possuidor atual só usará se lhe convier, limitando-se à sua posse quando do seu interesse’. Sintetizando, quanto à defesa possessória, tanto o sucessor universal quanto o singular poderão defendê-la, em continuidade ou acessão à posse anterior.
Art. 1.209. A posse do imóvel faz presumir, até prova contrária, a das coisas móveis que nele estiverem (Princípio da gravitação jurídica – o acessório segue o principal).
Continuidade da posse xunião da posse.
Na sucessão universal (causa mortis ou não) temos a continuidade da posse, obrigatoriamente (mantém o mesmo caráter anterior). Contudo, no caso de sucessão singular (causa mortis ou não) temos união da posse, facultativamente.
Atenção para o Enunciado nº 494, V Jornada de Direito Civil – a faculdade conferida ao sucessor singular de somar ou não o tempo da posse de seu antecessor não significa que, ao optar por nova contagem, estará livre do vício objetivo que maculava a posse anterior. Essa regra objetiva afastar a má-fé do sucessor singular.
Sobre o tema é relevante destacar o instituto da UNIÃO DAS POSSES, previstas no artigo 1207 do CC, traduzido na continuação da posse pela soma do tempo do atual possuidor com o de seus antecessores. O gênero união de posses subdivide-se em 2 espécies:
- Sucessio Possessionis (bem singularizado) – trata-se de modo derivado de titularização da posse, diante do princípio da saisine.
- Accecio possessionis (bem singularizado) – que se verifica sempre inter vivos e por meio de uma relação jurídica (e.g compra e venda).
Transmissão da posse
Pode ocorrer a título universal ou a título singular. Na primeira pode ser causa mortis, os herdeiros sucedem o autor da herança e, inter vivos, quando se transfere uma universalidade como, por exemplo, um estabelecimento comercial. Na segunda, a título singular, ocorre quando se transfere um bem ou bens determinados e individualizados, ou ainda, causa mortis, quando no testamento institui-se um legatário.
c) Perda da Posse
Perde-se a posse quando cessa, embora contra a vontade do possuidor, os atributos relativos à propriedade (art. 1.223, CC). O Código adota um modelo aberto.
Art. 1.223. Perde-se a posse quando cessa, embora contra a vontade do possuidor, o poder sobre o bem, ao qual se refere o art. 1.196.
Art. 1.224. Só se considera perdida a posse para quem não presenciou o esbulho, quando, tendo notícia dele, se abstém de retornar a coisa, ou, tentando recuperá-la, é violentamente repelido.
OBS.: “A norma mantém relação com a boa-fé objetiva, particularmente com a perda de um direito ou de posição jurídica pelo seu não exercício no tempo (supressio). Isso porque o possuidor que não toma as medidas cabíveis ao ter conhecimento do esbulho não pode, após isso, insurgir-se contra o ato de terceiro. A lei acaba por presumir que a sua posse está perdida, admitindo-se, obviamente, prova em contrário”.
O art. 520, CC/16, elencava hipóteses que ainda servem como exemplos para entender a perda da posse: abandono/derrelição da coisa (res derelictae); tradição; perda ou destruição do bem; posse de outrem; constituto possessório (cláusula constituti).
Conserva-se na posse aquele que mantém o comportamento de exteriorização do domínio, que se dá por conduta do próprio agente ou de seus prepostos e representantes.
O novo CC em seu art. 1223 dispõe que “perde-se a posse quando cessa, embora contra a vontade do possuidor, o poder sobre o bem, ao qual ser refere o art. 1196”, isto é, quando desaparecem os poderes inerentes à propriedade com relação à coisa que eram exercidos pelo possuidor. Causas da perda da posse: (a) abandono: é a renúncia; (b) tradição; (c) destruição: perecimento do objeto; (d) colocação da coisa fora do comércio: tornou-se inalienável, ex.: terras públicas; (e) posse de outrem; (f) constituto possessório.
4. PROPRIEDADE (“GRUD”) – Gozar, Reivindicar, Usar e Dispor
- Direito de usar, gozar, dispor e reivindicar a coisa. Essas faculdades não prescrevem pelo uso.
DIREITO COMPLEXO (4 poderes)
PROPRIEDADE = 4 PODERES SOBRE A COISA + TÍTULO.
- E se não houver título? Aí teremos o domínio. É o caso do usucapiente que já tem o prazo mínimo, já interpôs a ação, mas ainda não tem o título. (A sentença de usucapião é declaratória de domínio e constitutiva do título).
Em relação ao tema da propriedade, é importante colocar em destaque, desde o início, o verbete n. 496 da súmula do STJ, que dispõe: “Os registros de propriedade particular de imóveis situados em terrenos de marinha não são oponíveis à União”. Ou seja, o fato de o terreno de marinha estar registrado no Registro de Imóveis como sendo de um particular não o torna um bem particular. Vale ressaltar que a própria CR/88 conferiu a titularidade à União (Art. 20, VII).
GONÇALVES: trata-se do mais completo dos direitos subjetivos, a matriz dos direitos reais e o núcleo do direito das coisas. Propriedade é direito complexo, que consiste em um feixe de atributos consubstanciados nas faculdades de USAR, GOZAR, DISPOR e REIVINDICAR a coisa de que lhe serve de objeto (art. 1.228, CC).
O objeto da propriedade no novo Código Civil é bem certo, determinado e tangível, já que a matéria relativa a bens incorpóreos é regulamentada em diplomas esparsos, como a Lei nº 9.279/96 (Marcas e Patentes), Lei nº 9.609/98 (Programas de Computador) e Lei nº 9.610/98 (Direitos Autorais). Já a CRFB conceitua o termo propriedade de forma ampla, servindo a qualquer espécie de bem aferível patrimonialmente.
A partir do art. 1. 228 do Código Civil, pode-se apresentar o seguinte esquema para os elementos que compõem o Direito de propriedade:
a) Elementos internos ou econômicos: (1) Usar, (2) Gozar e (3) Dispor.
b) Elemento externo ou jurídico: Reivindicar.
c) Elemento Funcional: Função social.
Formam o “quadrado clássico” de faculdades inerentes à propriedade: usar, gozar, dispor e reivindicar.
A estrutura do Direito de Propriedade
O direito subjetivo de propriedade concerne à RELAÇÃO JURÍDICA COMPLEXA que se forma entre aquele que detém a titularidade formal do bem e a coletividade de pessoas. O objeto da relação jurídica descrita é o DEVER GERAL DE ABSTENÇÃO.
Já o DOMÍNIO repousa na RELAÇÃO MATERIAL de SUBMISSÃO DIRETA e IMEDIATA da COISA ao PODER do seu titular, mediante o senhorio, pelo exercício das faculdades de uso, gozo, e disposição.
O DOMÍNIO, como vínculo real entre o titular e a coisa, é ABSOLUTO (oposição erga omnes). A PROPRIEDADE É RELATIVA (deve ser ponderada com outros direitos), uma vez que intersubjetiva e orientada à funcionalização do bem pela imposição de deveres positivos e negativos de seu titular perante a coletividade.
A extensão vertical da propriedade
(Art. 1.229, CC) abrange o ESPAÇO AÉREO e o SUBSOLO correspondente, em altura e profundidade ÚTEIS (critério da utilidade) ao seu exercício, sendo que o seu titular não poderá opor-se injustificadamente à atuação de terceiros sobre o imóvel (passagem de postes de eletricidade e cabeamento). O art. 1.230, em consonância com o art. 20, IX e X, da CF, determina que a propriedade do solo não abrangerá os recursos minerais do subsolo, potenciais energéticos, sítios arqueológicos e demais bens referidos em leis especiais. Portanto, tratando-se de bens dominicais de propriedade da União e distinta da do solo, as jazidas e demais recursos minerais apenas poderão ser explorados pelo proprietário na qualidade de concessionário, com acesso ao produto da lavra. Excepcionalmente, será viável a exploração direta de recursos minerais pelo proprietário, quando imediatamente utilizados na construção civil sem qualquer transformação industrial.
Art. 1.229, CC. A propriedade do solo abrange a do espaço aéreo e subsolo correspondentes, em altura e profundidade úteis ao seu exercício, não podendo o proprietário opor-se a atividades que sejam realizadas, por terceiros, a uma altura ou profundidade tais, que não tenha ele interesse legítimo em impedi-las.
Art. 1.230. A propriedade do solo não abrange as jazidas, minas e demais recursos minerais, os potenciais de energia hidráulica, os monumentos arqueológicos e outros bens referidos por leis especiais.
Parágrafo único. O proprietário do solo tem o direito de explorar os recursos minerais de emprego imediato na construção civil, desde que não submetidos a transformação industrial, obedecido o disposto em lei especial.
CF/88 Art. 176. As jazidas, em lavra ou não, e demais recursos minerais e os potenciais de energia hidráulica constituem propriedadedistinta da do solo, para efeito de exploração ou aproveitamento, e pertencem à União, garantida ao concessionário a propriedade do produto da lavra.
§ 1º A pesquisa e a lavra de recursos minerais e o aproveitamento dos potenciais a que se refere o "caput" deste artigo somente poderão ser efetuados mediante autorização ou concessão da União, no interesse nacional, por brasileiros ou empresa constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no País, na forma da lei, que estabelecerá as condições específicas quando essas atividades se desenvolverem em faixa de fronteira ou terras indígenas. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 6, de 1995)
§ 2º - É assegurada participação ao proprietário do solo nos resultados da lavra, na forma e no valor que dispuser a lei.
§ 3º A autorização de pesquisa será sempre por prazo determinado, e as autorizações e concessões previstas neste artigo não poderão ser cedidas ou transferidas, total ou parcialmente, sem prévia anuência do poder concedente.
§ 4º Não dependerá de autorização ou concessão o aproveitamento do potencial de energia renovável de capacidade reduzida.
“O direito de propriedade do solo abrange o subsolo, porém o seu alcance é limitado a uma profundidade útil ao seu aproveitamento, o que impede o proprietário de se opor a atividades realizadas por terceiros em espaço sobre o qual ele não tenha interesse legítimo.” (Notícias do STJ de 07/02/2012).
STJ. REsp 1233852/RS. 1. O art. 1.229 do CC/02 estabelece que a propriedade do solo abrange a do subsolo correspondente. A segunda parte do dispositivo legal, porém, limita o alcance desse subsolo a uma profundidade útil ao seu aproveitamento, impedindo o proprietário de se opor a atividades que sejam realizadas por terceiros a uma fundura tal que não tenha ele interesse legítimo em impedi-la. 2. O legislador adotou o critério da utilidade como parâmetro definidor da propriedade do subsolo, limitando-a ao proveito normal e atual que pode proporcionar, conforme as possibilidades técnicas então existentes. 3. O direito de construir previsto no art. 1.299 do CC/02 abrange inclusive o subsolo, respeitado o critério de utilidade delineado no art. 1.229 do mesmo Diploma Legal. 4. Recurso especial não provido. (Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 15/12/2011, DJe 01/02/2012).
Sobre o tema, temos um julgado interessante:
#VAIQUEÉTUAMARCINHO:
Determinada mineradora obteve da União outorga para realizar pesquisas de viabilidade de lavra de minérios em determinado sítio. Ocorre que um terceiro retirou do local, sem autorização da mineradora, grande quantidade de minérios. Ao descobrir esse fato, a mineradora ajuizou ação de indenização por danos materiais contra esse terceiro pedindo que ele fosse condenado a pagar o valor dos minérios extraídos.
Em sua defesa, o terceiro alegou que a mineradora não teria direito à indenização, considerando que os recursos minerais presentes no subsolo são de propriedade da União (arts. 20, IX e 176 da CF/88). Logo, se alguém sofreu prejuízo, não foi a mineradora, mas sim a União. Esse raciocínio está correto?
NÃO. O STJ entendeu que o terceiro que explorou clandestinamente área objeto de outorga para pesquisa de viabilidade de lavra de minérios deve sim indenizar o particular que possuía o direito de pesquisa e de lavra. Ainda que a União seja a proprietária exclusiva das reservas minerais existentes no solo e subsolo, ao concessionário particular (mineradora) é garantida a propriedade do produto de sua exploração, fazendo emergir da nossa ordem constitucional o princípio do livre acesso aos recursos minerais. A fim de ordenar o livre acesso aos recursos minerais, o Código de Mineração utiliza-se do direito de prioridade, e, por consequência, assegura ao pesquisador, de forma exclusiva, a futura exploração da reserva pesquisada, bem como a possibilidade de eventual negociação desse direito. Terceiro que explora, clandestina e ilicitamente, a reserva pesquisada, atenta contra o direito de prioridade e causa dano direto ao legítimo pesquisador, devendo, pois, ressarcir-lhe integralmente o prejuízo. STJ. 3ª Turma. REsp 1471571-RO, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 10/2/2015 (Info 556).
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*#IMPORTANTE #DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO #STJ O registro do título translativo no Cartório de Registro de Imóveis como condição imprescindível à transferência de propriedade de bem imóvel entre vivos propugnada pela lei civil não se confunde, tampouco pode ser substituído para esse efeito, pelo registro do contrato social na Junta Comercial. O contrato social que estabelece que a integralização do capital social será feita por meio da transferência de um imóvel pelo sócio, depois de ser devidamente inscrito no Registro Público de Empresas Mercantis (da Junta Comercial), torna-se um título translativo, ou seja, um título que serve para transferir a propriedade imóvel, mas desde que seja levado a registro no cartório de Registro de Imóveis, conforme determina o caput do art. 1.245 do CC. Enquanto não for feito o registro do título translativo (contrato social) no Cartório de Registro de Imóveis, o bem com o qual se deseja fazer a integralização não compõe ainda o patrimônio da sociedade empresarial. Ex: o contrato social previu que um dos sócios integralizaria o capital social transferindo imóvel de sua propriedade para a sociedade empresária; mesmo após esse contrato social ser registrado na Junta Comercial, o bem ainda não foi transferido; exige-se ainda o registro desse contrato social no Cartório de Registro de Imóveis. STJ. 3ª Turma. REsp 1.743.088-PR, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 12/03/2019 (Info 645).
Ação reivindicatória
A ação reivindicatória tem caráter essencialmente dominial e por isso só pode ser utilizada pelo proprietário, por quem tenha jus in re. Nessa ação, o autor deve provar seu domínio, oferecendo prova sólida da propriedade, com o respectivo registro, e descrevendo o imóvel com suas confrontações, bem como demonstrar que a coisa reivindicada se encontra na posse do réu. São três, portanto, os pressupostos de admissibilidade de tal ação:
a) A titularidade do domínio pelo autor;
b) A individuação da coisa, e
c) Posse OU detenção injusta do réu.
GONÇALVES: “É ação do proprietário que tem título, mas não tem posse, contra quem tem posse, mas não tem título”.
A ação reivindicatória é ação real que compete ao SENHOR da coisa. Essa é, pois, a sua natureza jurídica. Carece da ação o titular do domínio se a posse do terceiro for justa, como, por exemplo, a fundada em contrato não rescindido.
A reivindicatória é imprescritível, embora se trate de ação real. Versa sobre o domínio, que é perpétuo e somente se extingue nos casos expressos em lei, não se extinguindo pelo não uso.
Legitimidade da reivindicatória: Compete a reivindicatória ao SENHOR da coisa, ao TITULAR do domínio. Em se tratando de ação real imobiliária, é indispensável a outorga uxória para o seu ajuizamento bem como a citação de ambos os cônjuges, se o réu for casado (art. 10, CPC).
#NOVOCPC:
Art. 73. O cônjuge necessitará do consentimento do outro para propor ação que verse sobre direito real imobiliário, salvo quando casados sob o regime de separação absoluta de bens.
§ 1º Ambos os cônjuges serão necessariamente citados para a ação:
I - que verse sobre direito real imobiliário, salvo quando casados sob o regime de separação absoluta de bens;
II - resultante de fato que diga respeito a ambos os cônjuges ou de ato praticado por eles;
III - fundada em dívida contraída por um dos cônjuges a bem da família;
IV - que tenha por objeto o reconhecimento, a constituição ou a extinção de ônus sobre imóvel de um ou de ambos os cônjuges.
§ 2º Nas ações possessórias, a participação do cônjuge do autor ou do réu somente é indispensável nas hipóteses de composse ou de ato por ambos praticado.
§ 3º Aplica-se o disposto neste artigo à união estável comprovada nos autos.
Art. 74. O consentimento previsto no art. 73 pode ser suprido judicialmente quandofor negado por um dos cônjuges sem justo motivo, ou quando lhe seja impossível concedê-lo.
Parágrafo único. A falta de consentimento, quando necessário e não suprido pelo juiz, invalida o processo.
Como o direito hereditário é modo de aquisição da propriedade imóvel (art. 1784, CC), e o domínio e a posse da herança transmitem-se aos herdeiros desde a abertura da sucessão, podem estes reivindicar os bens que a integram mesmo sem a existência de formal de partilha, esteja este registrado ou não. Indispensável, no entanto, que o IMÓVEL ESTEJA REGISTRADO em nome do de cujus.
Cada condômino pode, individualmente, reivindicar de terceiro a totalidade do imóvel, nos termos do art. 1314, CC.
Ainda quanto à legitimidade ativa, o compromissário comprador, que pagou todas as prestações, possui todos os direitos elementares do proprietário e dispõe, assim, de título para embasar ação reivindicatória.
Quanto à legitimidade passiva, a ação deve ser endereçada contra quem está na posse ou detém a coisa, sem título ou suporte jurídico. Obs.: a boa-fé não impede a caracterização da injustiça da posse, para fins de ação reivindicatória.
Outros meios de defesa da propriedade: AÇÃO NEGATÓRIA e DE DANO INFECTO
A negatória é cabível quando o domínio do autor, por um ato injusto, esteja sofrendo alguma restrição por alguém que se julgue com um direito de servidão sobre o imóvel. Já a ação de dano infecto tem caráter preventivo e cominatório, como o interdito proibitório, e pode ser oposta quando haja fundado receio de perigo iminente, em razão de ruína do prédio vizinho ou vício na sua construção (art. 1280, CC). Precavendo-se, o autor obtém que a sentença comine ao réu a prestação de caução que o assegure contra o dano futuro. Pode ser proposta também nos casos de mau uso da propriedade vizinha, que prejudique o sossego, a segurança e a saúde do proprietário ou inquilino de um prédio.
Teorias que fundamentam o Direito de Propriedade
a) Teoria da ocupação: mais antiga. A propriedade se dá na ocupação das coisas, quando não pertenciam a ninguém (res nullius).
b) Teoria da especificação: apoia-se no trabalho. Transformação da natureza e da matéria bruta. Esta teoria apenas responde quem é o proprietário.
c) Teoria da lei: Montesquieu (“De l´esprit des lois”): prega que a propriedade é instituição de direito positivo; existe porque a lei a criou e a garante.
d) Teoria da natureza humana: (maior número de adeptos): a propriedade é inerente à natureza humana, sendo dádiva de Deus aos homens.
4.1. CONCEITO E ATRIBUTOS
a) Conceito
A propriedade é o direito real por excelência. Trata-se de domínio jurídico que uma pessoa exerce sobre uma coisa, relacionada com os atributos previstos no art. 1228 CC. Gozar, reaver, usar e dispor. Atributos da propriedade – em regra são faculdades jurídicas. O único que é direito é reaver. No CC/16 eram todos direitos. Qual o motivo dessa mudança? 1. Abrandamento da propriedade. 2. Karl Lareng – a propriedade é um grande direito subjetivo, do qual se destacam as faculdades.
Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha.
A propriedade é um direito fundamental condicionado a sua função social. Função social não é apenas o limite do exercício da propriedade, e sim a própria razão da propriedade.
b) Estudo dos atributos da propriedade
O proprietário tem as faculdades de usar, gozar e dispor de seus bens e reavê-los de quem quer que injustamente os possua.
1) Gozar ou fruir = antigo ius fruendi. Retirar os frutos do principal. Acessórios que saem do principal sem diminuir sua quantidade.
Consiste na exploração econômica da coisa, mediante a extração de frutos (há renovação constante à medida que são retirados) e produtos (vão se exaurindo quando extraídos da natureza, sem possibilidade de renovação). Também inserido no ius fruendi está o direito dos proprietários às pertenças (não constituem parte integrante da coisa, mas se destinam de modo duradouro ao uso, serviço ou aformoseamento de outro bem). As pertenças distinguem-se das benfeitorias, pois, apesar de incluídos na classe de bens acessórios, mantêm a sua autonomia, sem qualquer incorporação material ao bem principal.
· Naturais = ex.: frutos.
· Industriais = atividade humana. Ex.: cimento da fábrica.
· Civis = rendimentos. Ex.: aluguel, juros dividendos.
2) Reaver ou buscar = a coisa de quem injustamente a possui ou detenha. Continua sendo direito. Ius vindicandi.
Exercido por ações petitórias, sendo a principal a ação reivindicatória.
É o elemento externo da propriedade.
3) Usar ou utilizar = dar destinação como bem entender. Hoje é faculdade. Esse atributo hoje encontra fortes limitações: CF (função social), legislação administrativa, CC/02.
É a faculdade de o proprietário servir-se da coisa de acordo com a sua destinação econômica. As faculdades não prescrevem pelo não uso (HOJE É MITIGADO). Apenas a posse prolongada de terceiro pelos prazos legais provocará a mutação subjetiva do domínio; caso ninguém exercite poder de fato sobre a coisa, intocado restará o direito subjetivo, malgrado a desídia quanto a uma de suas faculdades. A falta de utilização da coisa apenas priva alguém do domínio quando se mostrar antissocial (desapropriação por interesse social).
Ex.: Direito de vizinhança – regra dos três “s” – segurança, saúde, sossego. Art. 1.277. O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos que o habitam, provocadas pela utilização de propriedade vizinha. Parágrafo único. Proíbem-se as interferências considerando-se a natureza da utilização, a localização do prédio, atendidas as normas que distribuem as edificações em zonas, e os limites ordinários de tolerância dos moradores da vizinhança. Trata do uso anormal da propriedade nas relações entre os vizinhos, com a consagração da regra dos três “s” – segurança, sossego e saúde.
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA: A proibição prevista no art. 1.301, caput, do Código Civil – de não construir janelas a menos de 1,5m do terreno vizinho – possui caráter objetivo e traduz verdadeira presunção de devassamento ("invasão"). Logo, esta vedação não tem por objetivo limitar apenas a visão do imóvel sobre seu vizinho. Ela também protege o vizinho de outras espécies de invasão, como a auditiva, olfativa e, principalmente, física (ex: busca impedir que objetos caiam ou sejam arremessados de uma propriedade a outra). Desse modo, a proibição é objetiva, bastando, para a sua configuração, a presença do elemento objetivo estabelecido pela lei (construção da janela a menos de 1,5m do terreno vizinho), não importando a aferição de aspectos subjetivos relativos à eventual atenuação do devassamento visual. STJ. 3ª Turma. REsp 1.531.094-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 18/10/2016 (Info 592).
4) Dispor ou alienar = antigo ius disponendi. Hoje é faculdade. Possibilidade de transmissão gratuita ou onerosa. Ex.: vender, doar, hipotecar, empenhar, testar. Alienação em sentido amplo; engloba tudo isso.
Faculdade que tem o proprietário de alterar a própria substância da coisa. A disposição pode ser material ou jurídica.
Porém esses tributos podem ser distribuídos para outras pessoas. Ex.: direito real de gozo e fruição e direito real de garantia.
· Propriedade Plena ou Alodial – o proprietário tem consigo atributos de gozar, usar, reaver e dispor da coisa. Todos esses caracteres estão em suas mães de forma unitária, sem que terceiros tenham qualquer direito sobre a coisa.
· Propriedade Limitada ou Restrita – recai sobre a propriedade algum ônus, caso da hipoteca, da servidão ou usufruto; ou quando a propriedade for resolúvel, dependente de condição ou termo (art. 1.359 do CC). Alguns dos atributos da propriedade passam a ser de outrem, constituindo-se em direito real sobre coisa alheia. No último caso, havendo a divisão entre os referidos atributos, o direito de propriedadeé composto de duas partes destacáveis:
a) Nua-propriedade – corresponde à titularidade do domínio, ao fato de ser proprietário e de ter o bem em seu nome. Costuma-se dizer que a nua-propriedade é aquela despida dos atributos do uso e da fruição (atributos diretos ou imediatos);
b) Domínio útil – corresponde aos atributos de usar, gozar e dispor da coisa. Dependendo dos atributos que possui, a pessoa que o detém recebe uma denominação diferente: superficiário, usufrutuário, usuário, habitante, promitente comprador, etc.
Usufruto: há uma divisão igualitária dos atributos da propriedade.
· Usufrutuário: G e U – Gozar e Usar.
· Nu-proprietário: despido do domínio útil – R e D – reaver e dispor.
Observações:
1. O nu-proprietário pode locar o bem em usufruto? NÃO. Somente o usufrutuário pode, por ter o atributo de gozar.
2. O usufrutuário pode vender o bem? NÃO. Somente o nu-proprietário pode, por ter o atributo de dispor.
3. O nu-proprietário pode residir no imóvel? NÃO. Somente o usufrutuário, por ter o atributo de usar, salvo se este alugar o bem para o nu-proprietário.
4. Quem pode ingressar com ação reivindicatória do bem?
* #DIZERODIREITO #INFORMATIVO:
Usufruto é o direito real e temporário de usar e fruir (retirar frutos e utilidades) coisa alheia (bem móvel ou imóvel), de forma gratuita, sem alterar-lhe a substância ou destinação econômica. O usufrutuário detém a posse direta do bem. Além disso, como se trata de direito real, ele também possui o poder de sequela, podendo perseguir a coisa aonde quer que ela vá. Como o usufrutuário detém a posse direta do bem, é óbvio que ele pode se valer das ações possessórias caso esteja sendo ameaçado em sua posse. No entanto, como o usufruto é um direito real e como o usufrutuário detém poder de sequela, a doutrina e a jurisprudência também admitem que ele ajuíze ação reivindicatória — de caráter petitório — com o objetivo de fazer prevalecer o seu direito sobre o bem, seja contra o nu-proprietário, seja contra terceiros. STJ. 3ª Turma. REsp 1202843-PR, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 21/10/2014 (Info 550).
5. Quem pode ingressar com ação possessória? Ambos, pois basta um dos atributos.
4.2. PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO DIREITO DE PROPRIEDADE
A) Direito absoluto – sentido de eficácia erga omnes. A propriedade não é absoluta no sentido de prevalência em relação a qualquer outro direito. Ela deve ser ponderada com outros direitos fundamentais.
B) Direito exclusivo – salvo os casos de condomínio.
Art. 1.231. A propriedade presume-se plena e exclusiva, até prova em contrário – Essa presunção é relativa. No condomínio, por exemplo, duas ou mais pessoas têm todos os atributos.
A mesma coisa não pode pertencer com exclusividade e simultaneidade a duas ou mais pessoas, em idêntico lapso temporal, portanto, o proprietário pode excluir terceiros da atuação sobre a coisa mediante a reivindicatória. A exclusividade é um atributo que se refere ao DOMÍNIO, pois não pode haver mais de um domínio sobre o mesmo bem, na medida em que o domínio é uno e indivisível. No condomínio tradicional, não há elisão ao princípio da exclusividade, eis que, pelo estado de indivisão do bem, cada um dos proprietários detém fração ideal do todo. Mesmo quando atue isoladamente, o condômino exercitará o domínio na integralidade e não apenas na proporção de sua fração.
#FALAMARCINHO #DIZERODIREITO: É inválida a penhora da integralidade de imóvel submetido ao regime de multipropriedade (time-sharing) em decorrência de dívida de condomínio de responsabilidade do organizador do compartilhamento. A multipropriedade imobiliária, mesmo não efetivamente codificada, possui natureza jurídica de DIREITO REAL, harmonizando-se com os institutos constantes do rol previsto no art. 1.225 do Código Civil. STJ. 3ª Turma. REsp 1.546.165-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. para acórdão Min. João Otávio de Noronha, julgado em 26/4/2016 (Info 589).
*#NOVIDADELEGISLATIVA #MULTIPROPRIEDADE #FALAMARCINHO[footnoteRef:8]: foi publicada a Lei nº 13.777/2018. Esta Lei altera o Código Civil e a Lei de Registros Públicos para dispor sobre o regime jurídico da multipropriedade e seu registro. [8: Comentários retirados do site: https://www.dizerodireito.com.br/2018/12/breves-comentarios-lei-137772018.html, realizadas pelo professor e juiz federal Márcio Cavalcante.]
A Lei nº 13.777/2018 cria um novo capítulo no Código Civil chamado de “CONDOMÍNIO EM MULTIPROPRIEDADE”. Foram inseridos 19 novos artigos (arts. 1.358-B a 1.358-U).
Além disso, também foram alterados os arts. 176 e 178 da Lei nº 6.015/73.
CONDOMÍNIMO EM MULTIPROPRIEDADE
1) DISPOSIÇÕES GERAIS
Conceito
A multipropriedade ocorre quando...
um bem é dividido entre vários proprietários
sendo que cada um deles utilizará a coisa,
com exclusividade,
durante certo(s) período(s) de tempo por ano,
em um sistema de rodízio.
O legislador assim conceituou o instituto:
Art. 1.358-C. Multipropriedade é o regime de condomínio em que cada um dos proprietários de um mesmo imóvel é titular de uma fração de tempo, à qual corresponde a faculdade de uso e gozo, com exclusividade, da totalidade do imóvel, a ser exercida pelos proprietários de forma alternada.
Gustavo Tepedino, com a sua inegável genialidade, afirmou que se trata de “relação jurídica que traduz o aproveitamento econômico de uma coisa móvel ou imóvel, em unidades fixas de tempo, visando à utilização exclusiva de seu titular, cada qual a seu turno, ao longo das frações temporais que se sucedem” (Multipropriedade imobiliária. São Paulo: Saraiva, 1993, p. 1).
Exemplo
A multipropriedade ocorre com frequência em imóveis destinados ao lazer.
É o caso, por exemplo, de uma casa de praia.
Em litorais mais caros do país, como na região dos Lagos (RJ) ou em Santa Catarina, é comum que sejam lançados empreendimentos em sistema de time-sharing. Normalmente, o imóvel é dividido em 52 cotas (número de semanas do ano). Daí, o indivíduo que compra uma cota, torna-se proprietário de 1/52 do imóvel e poderá utilizá-lo durante uma semana por ano.
Nomenclatura
A multipropriedade é também chamada de time-sharing, regime de aproveitamento por turno ou direito real de habitação periódica.
Finalidade
Este modelo é adotado normalmente por indivíduos que querem usufruir de um imóvel apenas durante parte do ano e, por isso, não valeria a pena serem proprietários únicos do bem.
Assim, com o sistema do time-sharing não precisam desembolsar o preço total do imóvel na aquisição e também não terão que arcar sozinhos com os custos da manutenção.
Origem
O fenômeno da multipropriedade surgiu na França, por volta de 1967.
No Brasil, as primeiras operações de multipropriedade começaram na década de 1980.
Vale ressaltar que o maior teórico no Brasil sobre o instituto é o Professor da UERJ Gustavo Tepedino que, já em 1993, lançou a obra que é referência no assunto (Multipropriedade imobiliária. São Paulo: Saraiva, 1993).
A maior parte dos estudos lançados no país tratando sobre multipropriedade, inclusive este singelo resumo, tem como base as pesquisas do Professor Tepedino.
Como o livro “Multipropriedade imobiliária” é difícil de ser encontrado, recomendo, aos que quiserem ter uma noção preliminar sobre o tema, a leitura de um artigo do Professor disponível em sua página na internet: http://www.tepedino.adv.br/wpp/wp-content/uploads/2017/07/Aspectos_Atuais_Multipropriedade_imobiliaria_fls_512-522.pdf
Regulamentação
Não havia uma previsão legal expressa no Brasil sobre a multipropriedade.
Apesar disso, o STJ reconhecia a sua validade, conforme veremos mais a frente.
Agora, contudo, essa lacuna foi preenchida, com razão, pelo legislador.
Desse modo, atualmente, o time-sharing é regido pelos arts. 1.358-B a 1.358-U.
Além disso, aplicam-se ao instituto, de forma supletiva e subsidiária:
• os demais artigos do Código Civil;
• a Lei nº 4.591/64 (Lei dos Condomínios em Edificações e das Incorporações Imobiliárias); e
• o Código de Defesa do Consumidor.
Qual é a natureza jurídica da multipropriedade? Trata-sede direito real ou pessoal (obrigacional)?
Existe grande divergência na doutrina acerca do tema.
1ª corrente: direito pessoal
Uma primeira corrente defende que se trata de direito PESSOAL (obrigacional), pois afirma que os direitos reais são em número limitado (numerus clausus) e estão previstos taxativamente no art. 1.225 do CC.
A time-sharing não se enquadra em nenhum deles. O integrante da time-sharing não pode ser considerado proprietário, considerando que este modelo possui inúmeras diferenças em relação ao direito de propriedade, podendo ser apontadas as seguintes:
1) no time-sharing, o direito de uso e gozo ocorre apenas em um período do ano, enquanto no direito de propriedade não existe esta limitação;
2) não há liberdade quanto ao modo de uso, só podendo utilizar o bem para a finalidade com a qual ele foi criado (ex: se é um imóvel para lazer, não pode ser utilizado para fins comerciais);
3) a pessoa integrante do time-sharing não pode efetuar modificações no imóvel, o que não ocorreria se ela fosse proprietária.
2ª corrente: direito real
O STJ, no entanto, seguindo o entendimento majoritário na doutrina, decidiu que se trata de direito real:
A multipropriedade imobiliária, mesmo não efetivamente codificada, possui natureza jurídica de direito real, harmonizando-se com os institutos constantes do rol previsto no art. 1.225 do Código Civil.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.546.165-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. para acórdão Min. João Otávio de Noronha, julgado em 26/4/2016 (Info 589).
Segundo o STJ, o time-sharing, também chamada de multipropriedade imobiliária, possui forte liame com o instituto da propriedade, sendo até mesmo considerada por alguns como uma expressão do direito de propriedade.
Ao contrário do que afirma a primeira corrente, é possível que sejam admitidos como direitos reais não apenas aqueles que estão enumerados na lei, mas também outros que possam ser criados a partir da liberdade negocial.
O Código Civil não traz nenhuma proibição de que sejam criados novos direitos reais a partir da convenção de vontades. Além disso, a time-sharing se harmoniza com os atributos dos direitos reais, considerando que o participante detém as faculdades de uso, gozo e disposição sobre fração ideal do bem, ainda que objeto de compartilhamento pelos multiproprietários de espaço e turnos fixos de tempo.
Veja o que Maria Helena Diniz afirmou sobre o instituto:
"O sistema time-sharing ou multipropriedade imobiliária é uma espécie condominial relativa aos locais de lazer, pela qual há um aproveitamento econômico de bem imóvel (casa, chalé, apartamento), repartido, como ensina Gustavo Tepedino, em unidades fixas de tempo, assegurando a cada co-titular o seu uso exclusivo e perpétuo durante certo período anual. (...) Trata-se de uma multipropriedade periódica, muito útil para desenvolvimento de turismo em hotéis, clubes e em navios (...) Há um direito real de habitação periódica, como dizem os portugueses, democratizando o imóvel de férias, cujo administrador (trustee) o mantém em nome de um clube, concedendo e organizando o seu uso periódico. Todos os adquirentes são comproprietários de fração ideal, sofrendo limitações temporais e condominiais, sendo que a relação de tempo repartido fica estabelecida em regulamento." (Curso de Direito Civil Brasileiro. 22ª ed. São Paulo: Saraiva, 2007, vol. 4, p. 243.)
Características do imóvel objeto da multipropriedade
O imóvel objeto da multipropriedade:
I - é indivisível, não se sujeitando a ação de divisão ou de extinção de condomínio;
II - inclui as instalações, os equipamentos e o mobiliário destinados a seu uso e gozo.
Tempo mínimo de cada “fração de tempo”
Como vimos acima, na multipropriedade, cada proprietário é titular de uma “fração de tempo”.
Nessa fração de tempo, ele pode usar e gozar da totalidade do imóvel, com exclusividade.
O § 1º do art. 1.358-E afirma que cada “fração de tempo” será de, no mínimo, 7 dias, seguidos ou intercalados, e poderá ser:
I - fixo e determinado, no mesmo período de cada ano;
II - flutuante, caso em que a determinação do período será realizada de forma periódica, mediante procedimento objetivo que respeite, em relação a todos os multiproprietários, o princípio da isonomia, devendo ser previamente divulgado; ou
III - misto, combinando os sistemas fixo e flutuante.
Obs: cada fração de tempo é indivisível.
Direito à mesma quantidade mínima de dias por ano
Todos os multiproprietários terão direito a uma mesma quantidade mínima de dias seguidos durante o ano. Ex: no imóvel X, ficou estabelecido que a fração de tempo será de 10 dias. Isso significa que todo multiproprietário pode ter direito a 10 dias de uso e gozo por ano.
Vale ressaltar, no entanto, que cada multiproprietário poderá adquirir frações maiores que a mínima, com o correspondente direito ao uso por períodos também maiores.
Obs: a multipropriedade não se extinguirá automaticamente se todas as frações de tempo forem do mesmo multiproprietário.
Poderá ser fixado um limite máximo de fração de tempo por titular
O instrumento de instituição da multipropriedade ou a convenção de condomínio em multipropriedade poderá estabelecer o limite máximo de frações de tempo no mesmo imóvel que poderão ser detidas pela mesma pessoa natural ou jurídica.
Em caso de instituição da multipropriedade para posterior venda das frações de tempo a terceiros, o atendimento a eventual limite de frações de tempo por titular estabelecido no instrumento de instituição será obrigatório somente após a venda das frações.
Espécies de condomínio
Com a criação do condomínio em multipropriedade, temos agora cinco espécies de condomínio:
a) Condomínio tradicional (que pode ser voluntário ou necessário);
b) Condomínio edilício;
c) Condomínio em lotes;
d) Condomínio urbano simples;
e) Condomínio em multipropriedade.
2) INSTITUIÇÃO DA MULTIPROPRIEDADE
Formas de instituição da multipropriedade:
a) por ato entre vivos;
b) testamento
Registro
É necessário que o ato de instituição da multipropriedade seja registrado no competente cartório de Registro de Imóveis.
Duração da fração de tempo
O ato de instituição deverá prever a duração dos períodos correspondentes a cada fração de tempo.
Conteúdo da convenção de condomínio em multipropriedade
Além das cláusulas que os multiproprietários decidirem estipular, a convenção de condomínio em multipropriedade determinará:
I - os poderes e deveres dos multiproprietários.
Exs: as instalações que podem ser feitas; os equipamentos e mobiliários que podem haver no imóvel; a manutenção ordinária e extraordinária; as regras de conservação e limpeza; o valor que deverá ser pago a título de contribuição condominial.
II - o número máximo de pessoas que podem ocupar simultaneamente o imóvel no período correspondente a cada fração de tempo.
III - as regras de acesso do administrador condominial ao imóvel para cumprimento do dever de manutenção, conservação e limpeza;
IV - a criação de fundo de reserva para reposição e manutenção dos equipamentos, instalações e mobiliário;
V - o regime aplicável em caso de perda ou destruição parcial ou total do imóvel, inclusive para efeitos de participação no risco ou no valor do seguro, da indenização ou da parte restante;
VI - as multas aplicáveis ao multiproprietário nas hipóteses de descumprimento de deveres.
3) DIREITOS E OBRIGAÇÕES DO MULTIPROPRIETÁRIO
Direitos
São direitos do multiproprietário, além daqueles previstos no instrumento de instituição e na convenção de condomínio em multipropriedade:
I - usar e gozar, durante o período correspondente à sua fração de tempo, do imóvel e de suas instalações, equipamentos e mobiliário;
II - ceder a fração de tempo em locação ou comodato;
III - alienar a fração de tempo, por ato entre vivos ou por causa de morte, a título oneroso ou gratuito, ou onerá-la, devendo a alienação e a qualificação do sucessor, ou a oneração, ser informadas ao administrador;
IV - participar e votar, pessoalmente ou por intermédio de representante ou procurador, desde que esteja quite com as obrigaçõescondominiais, em:
a) assembleia geral do condomínio em multipropriedade, e o voto do multiproprietário corresponderá à quota de sua fração de tempo no imóvel;
b) assembleia geral do condomínio edilício, quando for o caso, e o voto do multiproprietário corresponderá à quota de sua fração de tempo em relação à quota de poder político atribuído à unidade autônoma na respectiva convenção de condomínio edilício.
Obrigações
São obrigações do multiproprietário, além daquelas previstas no instrumento de instituição e na convenção de condomínio em multipropriedade:
I - pagar a contribuição condominial do condomínio em multipropriedade e, quando for o caso, do condomínio edilício, ainda que renuncie ao uso e gozo, total ou parcial, do imóvel, das áreas comuns ou das respectivas instalações, equipamentos e mobiliário;
II - responder por danos causados ao imóvel, às instalações, aos equipamentos e ao mobiliário por si, por qualquer de seus acompanhantes, convidados ou prepostos ou por pessoas por ele autorizadas;
III - comunicar imediatamente ao administrador os defeitos, avarias e vícios no imóvel dos quais tiver ciência durante a utilização;
IV - não modificar, alterar ou substituir o mobiliário, os equipamentos e as instalações do imóvel;
V - manter o imóvel em estado de conservação e limpeza condizente com os fins a que se destina e com a natureza da respectiva construção;
VI - usar o imóvel, bem como suas instalações, equipamentos e mobiliário, conforme seu destino e natureza;
VII - usar o imóvel exclusivamente durante o período correspondente à sua fração de tempo;
VIII - desocupar o imóvel, impreterivelmente, até o dia e hora fixados no instrumento de instituição ou na convenção de condomínio em multipropriedade, sob pena de multa diária, conforme convencionado no instrumento pertinente;
IX - permitir a realização de obras ou reparos urgentes.
Sanções
Conforme previsão que deverá constar da respectiva convenção de condomínio em multipropriedade, o multiproprietário estará sujeito a:
I - multa, no caso de descumprimento de qualquer de seus deveres;
II - multa progressiva e perda temporária do direito de utilização do imóvel no período correspondente à sua fração de tempo, no caso de descumprimento reiterado de deveres.
Responsabilidade pelos custos com reparos
A responsabilidade pelas despesas referentes a reparos no imóvel, bem como suas instalações, equipamentos e mobiliário, será:
I - de todos os multiproprietários, quando decorrentes do uso normal e do desgaste natural do imóvel;
II - exclusivamente do multiproprietário responsável pelo uso anormal, sem prejuízo de multa, quando decorrentes de uso anormal do imóvel.
Promitentes compradores e cessionários
Os promitentes compradores e os cessionários de direitos relativos a cada fração de tempo são equiparados aos multiproprietários para fins de direitos e obrigações.
4) TRANSFERÊNCIA DA MULTIPROPRIEDADE
Não é necessária comunicação ou concordância dos demais
A transferência do direito de multipropriedade e a sua produção de efeitos perante terceiros não dependerão da anuência ou cientificação dos demais multiproprietários.
Existe direito de preferência?
Regra: não há direito de preferência na alienação de fração de tempo.
Exceção: é possível que o instrumento de instituição ou a convenção do condomínio estipule o direito de preferência em favor dos demais multiproprietários ou do instituidor do condomínio em multipropriedade.
Responsabilidade solidária pelas obrigações
Quando o indivíduo for adquirir a fração de tempo, ele deverá exigir do alienante uma declaração de que não há débitos.
Caso não obtenha essa declaração, o adquirente será considerado solidariamente responsável com o alienante pelas obrigações do multiproprietário (§ 5º do art. 1.358-J).
5) ADMINISTRAÇÃO DA MULTIPROPRIEDADE
A quem compete a administração do imóvel?
A administração do imóvel e de suas instalações, equipamentos e mobiliário será de responsabilidade da pessoa que for indicada no instrumento de instituição ou na convenção de condomínio em multipropriedade.
Se não houver essa indicação, a responsabilidade será da pessoa escolhida em assembleia geral dos condôminos.
Atribuições do administrador
O administrador exercerá, além daquelas previstas no instrumento de instituição e na convenção de condomínio em multipropriedade, as seguintes atribuições:
I - coordenação da utilização do imóvel pelos multiproprietários durante o período correspondente a suas respectivas frações de tempo;
II - determinação, no caso dos sistemas flutuante ou misto, dos períodos concretos de uso e gozo exclusivos de cada multiproprietário em cada ano;
III - manutenção, conservação e limpeza do imóvel;
IV - troca ou substituição de instalações, equipamentos ou mobiliário, inclusive:
a) determinar a necessidade da troca ou substituição;
b) providenciar os orçamentos necessários para a troca ou substituição;
c) submeter os orçamentos à aprovação pela maioria simples dos condôminos em assembleia;
V - elaboração do orçamento anual, com previsão das receitas e despesas;
VI - cobrança das quotas de custeio de responsabilidade dos multiproprietários;
VII - pagamento, por conta do condomínio edilício ou voluntário, com os fundos comuns arrecadados, de todas as despesas comuns.
A convenção de condomínio em multipropriedade poderá regrar de forma diversa a atribuição prevista no inciso IV acima.
Fração de tempo para reparos
O instrumento de instituição poderá prever fração de tempo destinada à realização, no imóvel e em suas instalações, em seus equipamentos e em seu mobiliário, de reparos indispensáveis ao exercício normal do direito de multipropriedade.
Ex: a primeira semana dos meses de abril e outubro será destinada a reparos no imóvel, não podendo ser utilizada pelos multiproprietários.
A fração de tempo para reparaos poderá ser atribuída:
I - ao instituidor da multipropriedade; ou
II - aos multiproprietários, proporcionalmente às respectivas frações.
Reparos emergenciais
Em caso de emergência, os reparos poderão ser feitos durante o período correspondente à fração de tempo de um dos multiproprietários.
6) DISPOSIÇÕES ESPECÍFICAS RELATIVAS ÀS UNIDADES AUTÔNOMAS DE CONDOMÍNIOS EDILÍCIOS
Condomínio edilício
Ocorre o condomínio edilício quando se tem a propriedade exclusiva de uma unidade autônoma combinada com a copropriedade de outras áreas de um imóvel.
Ex1: prédio residencial com seis andares de apartamentos e dois apartamentos por andar. Tem-se um condomínio edilício, considerando que cada dono do apartamento possui a propriedade exclusiva da sua unidade autônoma (apartamento), e as áreas comuns do edifício (piscina, churrasqueira, quadra de esportes etc.) pertencem a todos os condôminos.
Ex2: prédio comercial com várias salas. Se determinado advogado compra uma das salas para servir como seu escritório, ele terá a propriedade individual sobre a sala (unidade autônoma) e a copropriedade sobre as partes comuns (corredores, recepção etc.).
O condomínio edilício é tratado nos arts. 1.331 a 1.358 do Código Civil.
O condomínio edilício poderá adotar o regime de multipropriedade?
SIM. O condomínio edilício poderá adotar o regime de multipropriedade em parte ou na totalidade de suas unidades autônomas, mediante:
I - previsão no instrumento de instituição; ou
II - deliberação da maioria absoluta dos condôminos.
Conteúdo da convenção de condomínio edilício
Se o condomínio edilício adotar o regime de multipropriedade, a convenção de condomínio edilício deverá prever, além das matérias elencadas nos arts. 1.332, 1.334 e 1.358-G:
I - a identificação das unidades sujeitas ao regime da multipropriedade, no caso de empreendimentos mistos (ex: indicação dos apartamentos que são multipropriedade, caso não sejam todos);
II - a indicação da duração das frações de tempo de cada unidade autônoma;
III - a forma de rateio das contribuições condominiais;
IV - a especificação das despesas ordinárias;
V - os órgãos de administração da multipropriedade;
VI - a indicação, se for o caso, de que o empreendimento contacom sistema de administração de intercâmbio (§ 2º do art. 23 da Lei nº 11.771/2008), seja do período de fruição da fração de tempo, seja do local de fruição, caso em que a responsabilidade e as obrigações da companhia de intercâmbio limitam-se ao contido na documentação de sua contratação;
VII - a competência para a imposição de sanções e o respectivo procedimento, especialmente nos casos de mora no cumprimento das obrigações de custeio e nos casos de descumprimento da obrigação de desocupar o imóvel até o dia e hora previstos;
VIII - o quórum exigido para a deliberação de adjudicação da fração de tempo na hipótese de inadimplemento do respectivo multiproprietário;
IX - o quórum exigido para a deliberação de alienação, pelo condomínio edilício, da fração de tempo adjudicada em virtude do inadimplemento do respectivo multiproprietário.
Conteúdo do regimento interno
Se o condomínio edilício adotar o regime de multipropriedade, o regimento interno do condomínio edilício deve prever:
I - os direitos dos multiproprietários sobre as partes comuns do condomínio edilício;
II - os direitos e obrigações do administrador, inclusive quanto ao acesso ao imóvel para cumprimento do dever de manutenção, conservação e limpeza;
III - as condições e regras para uso das áreas comuns;
IV - os procedimentos a serem observados para uso e gozo dos imóveis e das instalações, equipamentos e mobiliário destinados ao regime da multipropriedade;
V - o número máximo de pessoas que podem ocupar simultaneamente o imóvel no período correspondente a cada fração de tempo;
VI - as regras de convivência entre os multiproprietários e os ocupantes de unidades autônomas não sujeitas ao regime da multipropriedade, quando se tratar de empreendimentos mistos;
VII - a forma de contribuição, destinação e gestão do fundo de reserva específico para cada imóvel, para reposição e manutenção dos equipamentos, instalações e mobiliário, sem prejuízo do fundo de reserva do condomínio edilício;
VIII - a possibilidade de realização de assembleias não presenciais, inclusive por meio eletrônico;
IX - os mecanismos de participação e representação dos titulares;
X - o funcionamento do sistema de reserva, os meios de confirmação e os requisitos a serem cumpridos pelo multiproprietário quando não exercer diretamente sua faculdade de uso;
XI - a descrição dos serviços adicionais, se existentes, e as regras para seu uso e custeio.
Obs.: o regimento interno poderá ser instituído por escritura pública ou por instrumento particular.
Administrador profissional
O condomínio edilício em que tenha sido instituído o regime de multipropriedade terá necessariamente um administrador profissional.
Algumas informações sobre esse administrador:
• O prazo de duração do contrato de administração será livremente convencionado.
• O administrador do condomínio será também o administrador de todos os condomínios em multipropriedade de suas unidades autônomas.
• O administrador será mandatário legal de todos os multiproprietários, exclusivamente para a realização dos atos de gestão ordinária da multipropriedade, incluindo manutenção, conservação e limpeza do imóvel e de suas instalações, equipamentos e mobiliário.
• O administrador poderá modificar o regimento interno quanto aos aspectos estritamente operacionais da gestão da multipropriedade no condomínio edilício.
• O administrador pode ser ou não um prestador de serviços de hospedagem.
Inadimplemento e adjudicação da fração de tempo
Na hipótese de inadimplemento, por parte do multiproprietário, da obrigação de custeio das despesas ordinárias ou extraordinárias, é cabível, na forma prevista no CPC, a adjudicação ao condomínio edilício da fração de tempo correspondente.
Outras sanções que podem ser impostas em caso de inadimplemento
Na hipótese de o imóvel objeto da multipropriedade ser parte integrante de empreendimento em que haja sistema de locação das frações de tempo no qual os titulares possam ou sejam obrigados a locar suas frações de tempo exclusivamente por meio de uma administração única, repartindo entre si as receitas das locações independentemente da efetiva ocupação de cada unidade autônoma, poderá a convenção do condomínio edilício regrar que em caso de inadimplência:
I - o inadimplente fique proibido de utilizar o imóvel até a integral quitação da dívida;
II - a fração de tempo do inadimplente passe a integrar o pool da administradora;
III - a administradora do sistema de locação fique automaticamente munida de poderes e obrigada a, por conta e ordem do inadimplente, utilizar a integralidade dos valores líquidos a que o inadimplente tiver direito para amortizar suas dívidas condominiais, seja do condomínio edilício, seja do condomínio em multipropriedade, até sua integral quitação, devendo eventual saldo ser imediatamente repassado ao multiproprietário.
Renúncia ao direito de multipropriedade
O multiproprietário somente poderá renunciar de forma translativa a seu direito de multipropriedade em favor do condomínio edilício.
A renúncia só é admitida se o multiproprietário estiver em dia com as contribuições condominiais, com os tributos imobiliários e, se houver, com o foro ou a taxa de ocupação.
Vedação à instituição da multipropriedade
A instituição da multipropriedade nos imóveis poderá ser proibida ou limitada:
• pelas convenções dos condomínios edilícios;
• pelos memoriais de loteamentos; e
• pelos instrumentos de venda dos lotes em loteamentos urbanos
Essa vedação poderá ser alterada posteriormente. No entanto, para isso, exige-se, no mínimo, o voto da maioria absoluta dos condôminos.
7) ALTERAÇÕES NA LEI DE REGISTROS PÚBLICOS
A Lei nº 13.777/2018 altera a Lei nº 6.015/83.
A primeira mudança foi acrescentar um novo requisito do Livro nº 2:
Art. 176 (...)
§ 1º A escrituração do Livro nº 2 obedecerá às seguintes normas:
(...)
II - são requisitos da matrícula:
(...)
6) tratando-se de imóvel em regime de multipropriedade, a indicação da existência de matrículas, nos termos do § 10 deste artigo;
No mesmo art. 176 foram inseridos três novos parágrafos também tratando sobre a multipropriedade:
Art. 176 (...)
§ 10. Quando o imóvel se destinar ao regime da multipropriedade, além da matrícula do imóvel, haverá uma matrícula para cada fração de tempo, na qual se registrarão e averbarão os atos referentes à respectiva fração de tempo, ressalvado o disposto no § 11 deste artigo.
§ 11. Na hipótese prevista no § 10 deste artigo, cada fração de tempo poderá, em função de legislação tributária municipal, ser objeto de inscrição imobiliária individualizada.
§ 12. Na hipótese prevista no inciso II do § 1º do art. 1.358-N da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), a fração de tempo adicional, destinada à realização de reparos, constará da matrícula referente à fração de tempo principal de cada multiproprietário e não será objeto de matrícula específica.
Por fim, o foi modificada a redação do inciso III do art. 178 para dizer que as convenções de condomínio em multipropriedade deverão ser também registradas no Livro nº 3 - Registro Auxiliar:
Art. 178 - Registrar-se-ão no Livro nº 3 - Registro Auxiliar:
(...)
III - as convenções de condomínio edilício, condomínio geral voluntário e condomínio em multipropriedade;
Vigência
O art. 3º previa que a Lei nº 13.777/2018 deveria entrar em vigor na data de sua publicação.
Ocorre que esse dispositivo foi vetado pelo Presidente da República sob o correto argumento de que a Lei nº 13.777/2018 representa “relevante modificação no ordenamento jurídico nacional, notadamente no direito de propriedade”, de sorte que seria recomendável um prazo maior de vacatio legis”
Com o veto do art. 3º, a Lei ficou sem previsão expressa sobre o início de sua vigência.
Quando uma lei não traz a previsão do início de sua vigência, em qual data ela entrará em vigor?
45 dias após a sua publicação.
É o que prevê o art. 1º da LINDB:
Art. 1º Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias depois de oficialmente publicada.
Logo, como a Lei nº 13.777/2018não tem disposição expressa acerca de sua vigência, ela entrará em vigor 45 dias após a sua publicação, ou seja, em 04/02/2019.
*(Atualizado em 28/02/2021) #DEOLHONAJURIS É inconstitucional a cobrança por parte de associação de taxa de manutenção e conservação de loteamento imobiliário urbano antes da Lei Federal nº 13.465/2017 ou antes de Lei municipal que disciplinasse o tema. A partir de lei municipal ou da Lei Federal nº 13.465/2017, tornou-se possível cobrança de cotas dos moradores dos loteamentos de acesso controlado, desde que: i) este morador já possuísse lote quando entrou em vigor a lei e ele aderiu expressamente ao ato constitutivo da associação; ou ii) sendo novo adquirente de lotes, ele estará vinculado se o ato constitutivo da obrigação estiver registrado no cartório de Registro de Imóveis. #ATENÇÃO: A Lei nº 13.465/2017 trouxe duas importantes equiparações: a) equiparou a associação (de proprietários de imóveis, titulares de direitos sobre os lotes ou moradores de loteamento) ou qualquer entidade civil organizada com os mesmos fins à administradora de imóveis; e b) equiparou os loteamentos de acesso controlado (loteamentos regulares, portanto) a condomínios edilícios.
*(Atualizado em 21/06/2020) #NOVIDADELEGISLATIVA
LEI Nº 14.010, DE 10 DE JUNHO DE 2020 - Dispõe sobre o Regime Jurídico Emergencial e Transitório das relações jurídicas de Direito Privado (RJET) no período da pandemia do coronavírus (Covid-19).
DOS CONDOMÍNIOS EDILÍCIOS
Art. 11. (VETADO).
Art. 12. A assembleia condominial, inclusive para os fins dos arts. 1.349 e 1.350 do Código Civil, e a respectiva votação poderão ocorrer, em caráter emergencial, até 30 de outubro de 2020, por meios virtuais, caso em que a manifestação de vontade de cada condômino será equiparada, para todos os efeitos jurídicos, à sua assinatura presencial.
Parágrafo único. Não sendo possível a realização de assembleia condominial na forma prevista no caput, os mandatos de síndico vencidos a partir de 20 de março de 2020 ficam prorrogados até 30 de outubro de 2020.
Art. 13. É obrigatória, sob pena de destituição do síndico, a prestação de contas regular de seus atos de administração.
*(Atualizado em 21/03/2022) O promitente comprador tem direito de votar na assembleia, desde que já esteja na posse direta do imóvel e o condomínio tenha sido comunicado da promessa de compra e venda
Os promissários compradores têm legitimidade para participar das assembleias, ordinária ou extraordinária, desde que tenha havido a imissão na posse da unidade imobiliária e a cientificação do condomínio acerca da transação. STJ. 3ª Turma. REsp 1.918.949-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 07/12/2021 (Info 722).
*(Atualizado em 14/03/2022): #NOVIDADELEGISLATIVA
A Lei 14.309/22 realizou algumas alterações a respeito das assembleias condominiais no bojo do Código Civil.
#DIZERODIREITO #AJUDAMARCINHO
Convocação, realização e aprovação da assembleia
A Lei nº 14.309/2022 acrescenta o art. 1.354-A ao Código Civil afirmando que é possível se convocar, realizar e votar nas assembleias do condomínio de forma eletrônica, ou seja, por e-mail, whatsapp, zoom etc.
Confira o dispositivo inserido:
Art. 1.354-A. A convocação, a realização e a deliberação de quaisquer modalidades de assembleia poderão dar-se de forma eletrônica, desde que:
I - tal possibilidade não seja vedada na convenção de condomínio;
II - sejam preservados aos condôminos os direitos de voz, de debate e de voto.
§ 1º Do instrumento de convocação deverá constar que a assembleia será realizada por meio eletrônico, bem como as instruções sobre acesso, manifestação e forma de coleta de votos dos condôminos.
§ 2º A administração do condomínio não poderá ser responsabilizada por problemas decorrentes dos equipamentos de informática ou da conexão à internet dos condôminos ou de seus representantes nem por quaisquer outras situações que não estejam sob o seu controle.
§ 3º Somente após a somatória de todos os votos e a sua divulgação será lavrada a respectiva ata, também eletrônica, e encerrada a assembleia geral.
§ 4º A assembleia eletrônica deverá obedecer aos preceitos de instalação, de funcionamento e de encerramento previstos no edital de convocação e poderá ser realizada de forma híbrida, com a presença física e virtual de condôminos concomitantemente no mesmo ato.
§ 5º Normas complementares relativas às assembleias eletrônicas poderão ser previstas no regimento interno do condomínio e definidas mediante aprovação da maioria simples dos presentes em assembleia convocada para essa finalidade.
§ 6º Os documentos pertinentes à ordem do dia poderão ser disponibilizados de forma física ou eletrônica aos participantes.
Qual é o quórum necessário para que os temas sejam aprovados na assembleia?
O art. 1.334, III, do CC afirma que a convenção do condomínio definirá o quórum exigido para as deliberações da assembleia.
Existem, contudo, alguns quóruns que já são definidos pelo Código Civil e que não podem ser modificados nem mesmo pela convenção. Ex: a realização de obras voluptuárias no condomínio depende de voto de 2/3 dos condôminos (art. 1.341, I, do CC).
Primeira e segunda convocações
Normalmente, quando uma assembleia de condomínio é convocada, o síndico estipula dois horários. Ex: a primeira convocação será às 19:00; a segunda convocação será às 19:30.
Isso ocorre porque o Código Civil diz que, na primeira votação, as decisões da assembleia, para serem aprovadas, precisam de maioria dos votos dos condôminos presentes, desde que eles representem pelo menos metade das frações ideias. É o que prevê o art. 1.352 do Código Civil:
Art. 1.352. Salvo quando exigido quórum especial, as deliberações da assembleia serão tomadas, em primeira convocação, por maioria de votos dos condôminos presentes que representem pelo menos metade das frações ideais.
Parágrafo único. Os votos serão proporcionais às frações ideais no solo e nas outras partes comuns pertencentes a cada condômino, salvo disposição diversa da convenção de constituição do condomínio.
O problema é que muitos condôminos, mesmo sendo convocados, não comparecem à assembleia.
Pensando nisso, o Código Civil autoriza que seja feita uma segunda chamada (segunda convocação), oportunidade na qual o quórum será reduzido para a maioria dos presentes, salvo se for um quórum especial previsto na Lei, hipótese na qual ele deverá ser mantido:
Art. 1.353. Em segunda convocação, a assembleia poderá deliberar por maioria dos votos dos presentes, salvo quando exigido quórum especial.
1ª convocação: maioria de votos dos condôminos presentes que representem pelo menos metade das frações ideais;
2ª convocação: maioria dos votos dos presentes (não importando se representem pelo menos metade das frações ideais).
Tanto na primeira como na segunda convocação, os quóruns especiais devem ser respeitados.
Conseguir cumprir o quórum especial algumas vezes era muito difícil
Alguns quóruns especiais são muito altos. Ex: depende da aprovação de 2/3 dos votos dos condôminos a alteração da convenção (art. 1.351).
Como muitos condôminos não comparecem à reunião, ficava muito difícil o atingimento desse quórum e a consequente aprovação.
Sessão permanente
Pensando nisso, a Lei nº 14.309/2022 criou a possibilidade de se converter a reunião da assembleia em uma sessão “permanente” para que os condôminos possam ir votando até que se atinja o quórum especial. Veja o § 1º que foi inserido no art. 1.353 do CC:
Art. 1.353 (...)
§ 1º Quando a deliberação exigir quórum especial previsto em lei ou em convenção e ele não for atingido, a assembleia poderá, por decisão da maioria dos presentes, autorizar o presidente a converter a reunião em sessão permanente, desde que cumulativamente:
I - sejam indicadas a data e a hora da sessão em seguimento, que não poderá ultrapassar 60 (sessenta) dias, e identificadas as deliberações pretendidas, em razão do quórum especial não atingido;
II - fiquem expressamente convocados os presentes e sejam obrigatoriamente convocadas as unidades ausentes,na forma prevista em convenção;
III - seja lavrada ata parcial, relativa ao segmento presencial da reunião da assembleia, da qual deverão constar as transcrições circunstanciadas de todos os argumentos até então apresentados relativos à ordem do dia, que deverá ser remetida aos condôminos ausentes;
IV - seja dada continuidade às deliberações no dia e na hora designados, e seja a ata correspondente lavrada em seguimento à que estava parcialmente redigida, com a consolidação de todas as deliberações.
Votos já consignados na assembleia permanecem válidos, salvo se o condômino quiser mudar
Art. 1.353 (...)
§ 2º Os votos consignados na primeira sessão ficarão registrados, sem que haja necessidade de comparecimento dos condôminos para sua confirmação, os quais poderão, se estiverem presentes no encontro seguinte, requerer a alteração do seu voto até o desfecho da deliberação pretendida.
Prorrogação da sessão permanente e tempo máximo de duração
Art. 1.353 (...)
§ 3º A sessão permanente poderá ser prorrogada tantas vezes quantas necessárias, desde que a assembleia seja concluída no prazo total de 90 (noventa) dias, contado da data de sua abertura inicial.
ALTERAÇÃO NA LEI 13.019/2014
A Lei 13.019/2014 institui normas gerais para regular as parcerias voluntárias firmadas pela administração pública com organizações da sociedade civil.
É esta Lei que define como deverá ser a relação jurídica do governo com as popularmente conhecidas ONGs (organizações não-governamentais), especialmente em casos envolvendo transferências de recursos para a execução de projetos de interesse público. Vale ressaltar que a Lei não utiliza a nomenclatura ONG, preferindo falar em “organização da sociedade civil” (OSC).
A Lei nº 14.309/2022 inclui um artigo na Lei nº 13.019/2014 autorizando que as reuniões, deliberações e votações das organizações da sociedade civil sejam feitas virtualmente:
Art. 4º-A. Todas as reuniões, deliberações e votações das organizações da sociedade civil poderão ser feitas virtualmente, e o sistema de deliberação remota deverá garantir os direitos de voz e de voto a quem os teria em reunião ou assembleia presencial.
Vigência
A Lei nº 14.309/2022 entrou em vigor na data de sua publicação (09/03/2022).
JURISPRUDÊNCIA SOBRE CONDOMÍNIO:
*(Atualizado em 23/03/2022) Não cabe o arbitramento de aluguel em desfavor da coproprietária vítima de violência doméstica, que, em razão de medida protetiva de urgência decretada judicialmente, detém o uso e gozo exclusivo do imóvel de cotitularidade do agressor
Em regra, a utilização ou a fruição da coisa comum indivisa com exclusividade por um dos coproprietários, impedindo o exercício de quaisquer dos atributos da propriedade pelos demais consortes, enseja o pagamento de indenização àqueles que foram privados do regular domínio sobre o bem, tal como o percebimento de aluguéis. É o que prevê o art. 1.319 do Código Civil. Contudo, impor à vítima de violência doméstica e familiar obrigação pecuniária consistente em locativo pelo uso exclusivo e integral do bem comum constituiria proteção insuficiente aos direitos constitucionais da dignidade humana e da igualdade, além de ir contra um dos objetivos fundamentais do Estado brasileiro de promoção do bem de todos sem preconceito de sexo, sobretudo porque serviria de desestímulo a que a mulher buscasse o amparo do Estado para rechaçar a violência contra ela praticada, como assegura a Constituição Federal em seu art. 226, § 8º, a revelar a desproporcionalidade da pretensão indenizatória em tais casos. A imposição judicial de uma medida protetiva de urgência - que procure cessar a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher e implique o afastamento do agressor do seu lar - constitui motivo legítimo a que se limite o domínio deste sobre o imóvel utilizado como moradia conjuntamente com a vítima, não se evidenciando, assim, eventual enriquecimento sem causa, que legitime o arbitramento de aluguel como forma de indenização pela privação do direito de propriedade do agressor. STJ. 3ª Turma. REsp 1.966.556-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 08/02/2022 (Info 724).
*(Atualizado em 23/03/2022): #AIRBNB O condomínio que possui destinação exclusivamente residencial pode proibir a locação de unidade autônoma por curto período de tempo.
A exploração econômica de unidades autônomas mediante locação por curto ou curtíssimo prazo, caracterizada pela eventualidade e pela transitoriedade, não se compatibiliza com a destinação exclusivamente residencial atribuída ao condomínio.
A afetação do sossego, da salubridade e da segurança, causada pela alta rotatividade de pessoas estranhas e sem compromisso duradouro com a comunidade na qual estão temporariamente inseridas, é o que confere razoabilidade a eventuais restrições impostas com fundamento na destinação prevista na convenção condominial.
O direito de propriedade, assegurado constitucionalmente, não é só de quem explora economicamente o seu imóvel, mas sobretudo daquele que faz dele a sua moradia e que nele almeja encontrar, além de um lugar seguro para a sua família, a paz e o sossego necessários para recompor as energias gastas ao longo do dia. STJ. 3ª Turma. REsp 1884483-PR, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 23/11/2021 (Info 720).
#INFO 554, STJ – 2015: CONDOMÍNIO EDILÍCIO. Alteração de cláusula irrevogável e irretratável da convenção de condomínio. Os condôminos, pelo voto de 2/3, poderão alterar cláusula da convenção original de condomínio, mesmo sendo ela prevista como irrevogável e irretratável. No caso concreto, a convenção original determinou que a divisão das despesas do condomínio seria feita em partes iguais. Pelo voto de 2/3, alterou-se a forma de rateio para que as expensas sejam suportadas na proporção das frações ideais. STJ. 3ª Turma. REsp 1.447.223-RS, Rel. originário Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Rel. para acórdão Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 16/12/2014 (Info 554).
#IMPORTANTE!!! Se o condômino descumpre reiteradamente o dever de contribuir para as despesas do condomínio (inciso I do art. 1.336 do CC), o condomínio poderá aplicar contra ele, além da multa moratória (§ 1º do art. 1.336 do CC), multa sancionatória em razão de comportamento "antissocial" ou "nocivo" (art. 1.337 do CC). Assim, o condômino que deixar de adimplir reiteradamente a importância devida a título de cotas condominiais poderá, desde que aprovada a sanção em assembleia por deliberação de 3/4 (três quartos) dos condôminos, ser obrigado a pagar multa em até o quíntuplo do valor atribuído à contribuição para as despesas condominiais, conforme a gravidade da falta e a sua reiteração. STJ. 4ª Turma. REsp 1.247.020-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 15/10/2015 (Info 573).
INFO 570, STJ – 2015: O Código Civil prevê que, se o condômino apresentar reiterado comportamento antissocial, poderá ser punido com multa (art. 1.337, parágrafo único). Essa sanção para o comportamento antissocial reiterado de condômino só poderá ser aplicada se antes foram conferidas ao condômino as garantias da ampla defesa e do contraditório. Enunciado 92-CJF: “Art. 1.337: As sanções do art. 1.337 do novo Código Civil não podem ser aplicadas sem que se garanta direito de defesa ao condômino nocivo.” STJ. 4ª Turma. REsp 1.365.279-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 25/8/2015 (Info 570).
- Atualmente, o Código Civil deve ser lido a partir de uma visão civil-constitucional, de forma que se deve reconhecer a aplicação imediata dos princípios e garantias constitucionais também nas relações entre particulares. Isso é chamado de "eficácia horizontal dos direitos fundamentais".
- Não há previsão de um procedimento na lei para a garantia desse direito.
- Vale ressaltar que não se exige formalidades muito rigorosas semelhantes a de um processo judicial ou administrativo. Basta que seja assegurado o mínimo de oportunidade para que o condômino possa se defender e contraditar a imputação que lhe é feita.
- Se a multa prevista no art. 1.337, parágrafo único,do CC não se mostrar efetiva, o condomínio poderá tomar medidas mais drásticas contra o condômino antissocial? SIM. Caso seja aplicada a multa e mesmo assim o infrator continue apresentando reiteradamente o comportamento ofensivo, a doutrina sustenta que será possível que o condomínio ajuíze ação para expulsar o condômino antissocial. Foi a conclusão da V Jornada de Direito Civil do CJF: “Enunciado 508-CJF: Verificando-se que a sanção pecuniária mostrou-se ineficaz, a garantia fundamental da função social da propriedade (arts. 5º, XXIII, da CRFB e 1.228, § 1º, do CC) e a vedação ao abuso do direito (arts. 187 e 1.228, § 2º, do CC) justificam a exclusão do condômino antissocial, desde que a ulterior assembleia prevista na parte final do parágrafo único do art. 1.337 do Código Civil delibere a propositura de ação judicial com esse fim, asseguradas todas as garantias inerentes ao devido processo legal.
#MAISJURIS #CONDOMÍNIO
(*) ATUALIZADO EM 14/10/2021 #DEOLHONAJURIS: DIREITOS REAIS (CONDOMÍNIO COMUM). No exercício do direito de preferência legal, é possível que o condômino contraia um empréstimo para o cumprimento do requisito de depósito do preço do bem.
O art. 504 do CC enumera taxativamente os requisitos necessários para o exercício do direito de preferência: a) a indivisibilidade da coisa; b) a ausência de prévia ciência, pelo condômino preterido, acerca da venda realizada a estranho; c) o depósito do preço, que deve ser idêntico àquele que fora pago pelo estranho na aquisição; e d) a observância do prazo decadencial de 180 dias.
O fato de o condômino tomar um empréstimo para cumprir o requisito de depósito do preço do bem, por si só, não é suficiente para a configuração de abuso de direito.
A origem do dinheiro utilizado para o depósito do preço do bem não tem qualquer relevância para o exercício do direito de preferência. É possível, portanto, que o montante necessário seja obtido pelo condômino através de empréstimo.
A declaração de nulidade do negócio jurídico por simulação não pode se fundamentar apenas em deduções ou suspeitas. No empréstimo, a comprovação de renda ou a prestação de garantia são faculdades do mutuário. A não exigência de garantias não é suficiente para a constatação da existência de simulação do negócio jurídico.
Assim, tais fundamentos baseados na origem do depósito, no abuso de direito ou na simulação, não são hábeis a tolher o exercício do direito de preferência do condômino. STJ. 3ª Turma. REsp 1.875.223-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 25/05/2021 (Info 698).
#INFO 568, STJ – 2015: O condômino não pode, sem a anuência de todos os condôminos, alterar a cor das esquadrias externas de seu apartamento para padrão distinto do empregado no restante da fachada do edifício, ainda que a modificação esteja posicionada em recuo, não acarrete prejuízo direto ao valor dos demais imóveis e não possa ser vista do térreo, mas apenas de andares correspondentes de prédios vizinhos. STJ. 3ª Turma. REsp 1.483.733-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 25/8/2015 (Info 568).
#INFO 564, STJ – 2015: Importante!!! O condômino que desejar alienar a fração ideal de bem imóvel divisível em estado de indivisão deverá dar preferência na aquisição ao comunheiro. STJ. 4ª Turma. REsp 1.207.129-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 16/6/2015 (Info 564). Veja: Art. 504. Não pode um condômino em coisa indivisível vender a sua parte a estranhos, se outro consorte a quiser, tanto por tanto. (...) No entanto, quando o dispositivo menciona coisa indivisível, o que ele quer dizer é que o bem deve estar em "estado de indivisão". Assim, pouco importa se o bem é naturalmente divisível (ex: uma fazenda) ou indivisível (ex: um boi vivo). O que interessa é se esse bem encontra-se em "estado de indivisão". Desse modo, não se deve interpretar o art. 504 do CC de forma literal (gramatical). É necessária uma interpretação teleológica. Ao conceder o direito de preferência aos demais condôminos, o legislador pretendeu conciliar os objetivos particulares do vendedor com os interesses dos demais coproprietários, já que é sempre um inconveniente fazer com que um estranho passe a ser também proprietário do bem. O melhor caminho é que a propriedade se consolide nas mãos de uma só ou de poucas pessoas.
#INFO 588, STJ – 2016: O condomínio, independentemente de previsão em regimento interno, não pode proibir, em razão de inadimplência, condômino e seus familiares de usar áreas comuns, ainda que destinadas apenas a lazer. STJ. 3ª Turma. REsp 1.564.030-MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 9/8/2016 (Info 588).
#INFO 567, STJ – 2015: Em caso de compromisso de compra e venda, a legitimidade passiva para ação de cobrança de cotas condominiais será do promitente-comprador ou do promitente vendedor? Quem deverá responder pelo pagamento? A 2ª Seção do STJ apreciou o tema e forneceu três conclusões expostas em forma de teses: a) O que define a responsabilidade pelo pagamento das obrigações condominiais não é o registro do compromisso de compra e venda, mas a relação jurídica material com o imóvel, representada pela imissão na posse pelo promissário comprador e pela ciência inequívoca do condomínio acerca da transação. b) Havendo compromisso de compra e venda não levado a registro, a responsabilidade pelas despesas de condomínio pode recair tanto sobre o promitente vendedor quanto sobre o promissário comprador, dependendo das circunstâncias de cada caso concreto. c) Se ficar comprovado: (i) que o promissário comprador se imitira na posse; e (ii) o condomínio teve ciência inequívoca da transação, afasta-se a legitimidade passiva do promitente vendedor para responder por despesas condominiais relativas a período em que a posse foi exercida pelo promissário comprador. STJ. 2ª Seção. REsp 1.345.331-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 8/4/2015 9 (recurso repetitivo) (Info 560).
- Pelo que foi exposto na tese "c", a responsabilidade será só do PROMITENTE COMPRADOR se ficar comprovado que: i) o promissário comprador se imitiu na posse (ele já está na posse direta do bem); e ii) o condomínio teve ciência inequívoca da transação (o condomínio soube que houve a “venda”). Nesta hipótese, o condomínio não poderia ajuizar ação contra o promitente vendedor pelas cotas condominiais relativas ao período em que a posse foi exercida pelo promissário comprador.
- Ocorre que mesmo após o julgamento desse recurso especial repetitivo (REsp 1.345.331-RS), a 3ª Turma do STJ julgou em sentido contrário à tese exposta na letra "c". Segundo decidiu a 3ª Turma do STJ, o promitente comprador e o promitente vendedor de imóvel têm legitimidade passiva concorrente em ação de cobrança de débitos condominiais posteriores à imissão daquele na posse do bem, admitindo-se a penhora do imóvel, como garantia da dívida, quando o titular do direito de propriedade (promitente vendedor) figurar no polo passivo da demanda. STJ. 3ª Turma. REsp 1.442.840-PR, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 6/8/2015 (Info 567).
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA #STJ: A ação de cobrança de débitos condominiais pode ser proposta contra o arrendatário do imóvel. STJ. 3ª Turma. REsp 1.704.498-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 17/04/2018 (Info 624).
- As despesas condominiais constituem-se em obrigações “propter rem” e são de responsabilidade não apenas daquele que detém a qualidade de proprietário da unidade imobiliária. As cotas condominiais podem ser de responsabilidade da pessoa que, mesmo sem ser proprietária, é titular de um dos aspectos da propriedade, tais como a posse, o gozo ou a fruição, desde que esta tenha estabelecido relação jurídica direta com o condomínio. É o caso, por exemplo, do promitente comprador que já está morando no imóvel e que já fez todos os cadastros no condomínio como sendo o novo morador da unidade. Observe-se, inicialmente, que o promitente comprador não é titular do direito real de propriedade, tendo apenas direito real de aquisição caso registrado o contrato de promessa de compra e venda. Dessemodo, o condomínio ficaria impossibilitado de penhorar o imóvel. Restaria, então, penhorar bens do patrimônio pessoal do promitente comprador. Porém, não é rara a hipótese em que o comprador esteja adquirindo seu primeiro imóvel e não possua outros bens penhoráveis, o que conduziria a uma execução frustrada. Esse resultado não se coaduna com a natureza, tampouco com finalidade da obrigação propter rem. Quanto à natureza, é da essência dessa obrigação que ela nasça automaticamente com a titularidade do direito real e somente se extinga com a extinção do direito ou a transferência da titularidade, ressalvadas as prestações vencidas. Como se verifica, não há possibilidade de a obrigação se extinguir por ato de vontade do titular do direito real, pois a fonte da obrigação propter rem é a situação jurídica de direito real, não a manifestação de vontade. Logo, a simples pactuação de uma promessa de compra e venda não é suficiente para extinguir a responsabilidade do proprietário pelo pagamento das despesas de condomínio. De outra parte, quanto à finalidade, a obrigação propter rem destina-se a manter a conservação da coisa. Nessa esteira, ao se desconstituir a penhora sobre o imóvel, o atendimento da finalidade de conservação acaba sendo comprometido, pois o condomínio passa a depender da incerta possibilidade de encontrar bens penhoráveis no patrimônio do promitente comprador.
*(Atualizado em 09.04.2020): #DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO #STJ: Caso concreto: a convenção de condomínio previu que a construtora – proprietária das unidades imobiliárias ainda não comercializadas – precisaria pagar apenas 30% do valor da taxa condominial por unidade. Assim, enquanto os demais condôminos pagariam 100% da quota condominial, a construtora teria que pagar apenas 30% por unidade. O STJ considerou que essa cláusula é nula. A convenção outorgada pela construtora/incorporadora não pode estabelecer benefício de caráter subjetivo a seu favor com a finalidade de reduzir ou isentar do pagamento da taxa condominial. A taxa condominial é fixada de acordo com a previsão orçamentária de receitas e de despesas, bem como para constituir o fundo de reserva com a finalidade de cobrir eventuais gastos de emergência. A redução ou isenção da quota condominial a favor de um ou vários condôminos implica oneração aos demais, com evidente violação da regra da proporcionalidade prevista no inciso I do art. 1.334 do CC/2002. STJ. 3ª Turma. REsp 1.816.039-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 04/02/2020 (Info 664).
*#OUSESABER: É possível haver alteração de cláusula de convenção original de condomínio prevista como irrevogável e irretratável? Sim, desde que pelo voto de 2/3 dos condôminos é possível que haja esta alteração. Isso foi decidido pelo STJ no REsp 1447223-RS, vejamos:
RECURSO ESPECIAL. CONDOMÍNIO. AÇÃO ANULATÓRIA DE ASSEMBLEIA. ALTERAÇÃO DA CONVENÇÃO CONDOMINIAL. RESPEITO AO QUORUM LEGAL. RATEIO POR FRAÇÃO IDEAL. 1. É legítima a escolha por 2/3 dos condôminos reunidos em assembleia da forma de rateio de despesas condominiais na proporção da fração ideal, conforme assegurado pelo art. 1.336, I, do Código Civil. 2. Tendo em vista a natureza estatutária da convenção de condomínio, não há falar em violação do direito adquirido ou do ato jurídico perfeito (REsp n. 1.447.223/RS). 3. Recurso especial conhecido em parte e desprovido. "[...] não há ilegalidade alguma em os condôminos resolverem adotar rateio de taxas condominiais de forma diversa da aventada pelo incorporador".
*#OUSESABER: O direito de preferência se encontra previsto no art. 504 do Código Civil, nos seguintes termos: “Art. 504. Não pode um condômino em coisa indivisível vender a sua parte a ESTRANHOS, se outro consorte a quiser, tanto por tanto. O condômino, a quem não se der conhecimento da venda, poderá, depositando o preço, haver para si a parte vendida a estranhos, se o requerer no prazo de cento e oitenta dias, sob pena de decadência”. Segundo interpretação dada pelo STJ (REsp 1.137.176-PR), esse direito de preferência apenas se aplica às hipóteses de compra e venda de quota parte celebrada entre condômino e TERCEIRO, NÃO abrangendo os casos de venda realizada entre os próprios condôminos. Fundamentos utilizados pelo STJ: 1) O objetivo precípuo da norma em questão é IMPEDIR O INGRESSO DE TERCEIROS ESTRANHOS à comunhão, evitando potenciais conflitos, não se justificando sua aplicação em casos de alienações que não alterem os proprietários originários da coisa. 2) Por se tratar de norma que restringe a liberdade de contratar, deve ser dada interpretação RESTRITIVA ao direito de preferência.
c) Direito elástico (Orlando Gomes) – é estendida e distendida de acordo com os atributos.
Propriedade plena – usufruto – uso – habitação – vai distendendo. Elasticidade e consolidação: o direito de propriedade abrange um complexo de faculdades que não sofrerá cisão se uma delas for temporariamente desmembrada do conjunto, prevalecendo a unidade do direito subjetivo, com a preservação do significado jurídico da propriedade. Em regra, ela é plena, distendida, amplamente elástica: alodial, com a concentração de todos os atributos com o proprietário. Eventualmente, pode sofrer contrações, daí nasce a propriedade limitada. O princípio da consolidação ou da força de atração indica que todas as contrações da propriedade serão sempre transitórias e anormais. Após certo tempo, as compressões à propriedade cessam e, reunificados os direitos desmembrados, reassume o titular o domínio em sua plenitude.
d) Direito perpétuo – a propriedade é contínua até que surja um fato modificativo ou extintivo.
Perpetuidade: a propriedade tem duração ilimitada, subsistindo independentemente do exercício de seu titular, sendo transmitida por direito hereditário aos sucessores. Entretanto, as recentes alterações constitucionais que qualificam a propriedade como função social acabam por derrogar a clássica observação de que o direito de propriedade exerce-se até mesmo quando do não uso, em face da perpetuidade. Ex.: o poder público pode exigir o adequado aproveitamento do imóvel rural ou urbano, sob pena de sub-rogação compulsória do direito de propriedade em títulos da dívida pública, mediante desapropriação. Também o art. 1.276, §2º, CC que possibilita o imóvel urbano ou rural de serem arrecadados quando, cessados os atos de posse, o proprietário deixar de satisfazer os ônus fiscais.
e) Direito complexo – estrutura. 4 atributos
f) Direito fundamental
4.3. FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE
A partir do final do século XIX, surgiu na França as primeiras restrições ao absolutismo do direito de propriedade, por intermédio da teoria do abuso de direito.
A refundação do direito de propriedade prende-se a três princípios: o bem comum, a participação e a solidariedade.
Art. 5º, XXIII CF. Art.186 CF, 170 CF e art.1228, §1º CC.
Conceito: Orlando Gomes – função social é a finalidade coletiva.
Leon Duguit: a propriedade é função social, pois traz deveres ao proprietário. A primeira Constituição que adotou essa ideia foi a Alemã de Weimar.
A função social da propriedade tem dupla função (José de Oliveira Ascensão):
a) Função limitadora: impõe um não fazer. Ex.: a propriedade não pode ser exercida em abuso de direito. Art. 1228, §2º, do CC – vedação dos atos emulativos ou chicaneiros.
§ 2o São defesos os atos que não trazem ao proprietário qualquer comodidade, ou utilidade, e sejam animados pela intenção de prejudicar outrem.
b) Função impulsionadora: impõe condutas. A coisa cumpre a sua função social quando é utilizada em um sentido positivo (#CITAQUEDÁAUDIÊNCIA). “Usa o bem para o bem” (Lucas Abreu Barroso).
O artigo 186/CF traz parâmetro da função social da propriedade agrária. Esses parâmetros são simultâneos. Esses parâmetros também servem para a propriedade urbana.
1. Aproveitamento racional e adequado = desenvolvimento sustentável
2. Proteção do meio ambiente = Inciso II e art. 225 CF.
3. Tutela dos trabalhadores = Inciso III e art. 7º CF.
4. Bem estar geral = Inciso IV.
Art.186. A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:
I - aproveitamento racional e adequado;
II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;
III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho;
IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores
Obs.: uma propriedade produtiva necessariamente atende à função social? NÃO, pois devem ser observados todos os requisitos do art. 186. Ex.: usina de cana de açúcar que mantém trabalho escravo.
O principal julgado brasileiro sobre a função social da propriedade é o caso da Favela Pullman. TJ/SP – STJ REsp nº 75659/SP: loteamento. A área foi ocupada por cem famílias. O proprietário entrou com uma reivindicatória. O juiz de primeiro grau acolheu. O TJ/SP reformou a decisão afirmando que não há legitimidade dos ditos “proprietários”, pois, em nunca tendo dado função social à propriedade, não podem ser considerados proprietários. Há uma clara evolução do conceito de propriedade, que agora “É” função social. Conclusão: quem não atende à função social, em sua eficácia limitadora e impulsionadora, não tem propriedade, não havendo sequer legitimidade para a ação reivindicatória. Propriedade é função social!
Função socioambiental: Art. 1228, §1º + CF (art. 186 e 225) – engloba a sua função socioambiental. Ex.: STJ. O novo proprietário do imóvel é obrigado a fazer uma recuperação ambiental, mesmo não sendo o causador do dano. Argumentos: a responsabilidade civil é objetiva (risco integral), função socioambiental, obrigação propter rem. Isso foi incluído no Código Florestal (Lei nº 12.651/12, art. 2º, §2º). É a função impulsionadora – obriga a fazer a recuperação ambiental.
Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha.
§ 1o O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas.
A função social da propriedade faz com que a propriedade envolva a situação jurídica de mão dupla, ou seja, o proprietário tem direitos e deveres em relação ao não proprietário, que da mesma forma os tem em relação ao proprietário. Não há definição apriorística da função social da propriedade, ou seja, trata-se de um conceito indeterminado. A CF/88 sinalizou o que seja a função social nos artigos 182 e 186, quando, respectivamente, afirma que atendem à função social:
FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE URBANA
FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE RURAL
A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor.
A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:
I - aproveitamento racional e adequado;
II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;
III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho;
IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.
As desapropriações de imóveis urbanos serão feitas com prévia e justa indenização em dinheiro.
Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão.
É facultado ao Poder Público municipal, exigir, do proprietário do solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado, que promova seu adequado aproveitamento, sob pena, sucessivamente, de:
I - parcelamento ou edificação compulsórios;
II - imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no tempo;
III - desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida pública de emissão previamente aprovada pelo Senado Federal, com prazo de resgate de até dez anos, em parcelas anuais, iguais e sucessivas, assegurados o valor real da indenização e os juros legais.
São insuscetíveis de desapropriação para fins de reforma agrária:
I - a pequena e média propriedade rural, assim definida em lei, desde que seu proprietário não possua outra;
II - a propriedade produtiva. (independentemente do seu tamanho).
CC/02, art. 1.228, § 2º São defesos os atos que não trazem ao proprietário qualquer comodidade, ou utilidade, e sejam animados pela intenção de prejudicar outrem.
- Esse parágrafo consagra o que a doutrina tem chamado de limitação de ordem privada. Aqui temos a aplicação da Teoria do Abuso do Direito ou Teoria dos Atos Emulativos.
“Deve-se entender que também pode estar configurado o ato emulativo se proprietário tiver vantagens com o prejuízo alheio, mesmo que haja mera satisfação pessoal. Para exemplificar, o proprietário de um apartamento, todas as noites, faz festas em sua unidade, o que causa excesso de barulho, prejudicando os vizinhos. Não interessa se esse proprietário cobra ou não pelas festas, pois o ato emulativo pode sim estar configurado em ambos os casos”.
CC/02, art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
- Lembre-se que o abuso de direito gera:
· A obrigação de reparar todos os danos por ele causados (extrapatrimoniais ou patrimoniais), e;
· A responsabilidade objetiva para seu autor.
Responsabilidade objetiva? Sim, apesar de falar em dolo, pois o abuso de direito dispensa dolo.
“Sanando essa contradição, na I Jornada de Direito Civil, aprovou-se o Enunciado doutrinário n. 49, pelo qual “a regra do art. 1.228, § 2°, do novo Código Civil interpreta-se restritivamente, cm harmonia com o princípio da função social da propriedade e com o disposto no art. 187”. Portanto, deve prevalecer a regra do art. 187 do CC que serve como leme orientador para os efeitos jurídicos do ato emulativo, sendo a responsabilidade decorrente de natureza objetiva”.
É possível encontrarmos um exercício regular dos direitos de propriedade, obediente à função social, porém, animado pela intenção de prejudicar outrem. É claro que o ônus da demonstração do animus lesandi restará a cargo da outra parte (proprietário do imóvel), mas torna-se perfeitamente viável, dada a ausência, já mencionada, de comodidade e/ou utilidade.
CC/02, art. 1.228, §3º. O proprietário pode ser privado da coisa, nos casos de desapropriação, por necessidade ou utilidade pública ou interesse social, bem como no de requisição, em caso de perigo público iminente.
- O art. 1.228, §3º traz limitações de ordem administrativa, quais sejam, a desapropriação por necessidade, utilidade pública ou interesse social; e a requisição, no caso de perigo público iminente. (Temas melhor estudados em Direito Administrativo).
- Como último exemplo, temos o caso de flagrante violação da função social da propriedade, que conduz à expropriação!
CF/88, Art. 243. As propriedades rurais e urbanas de qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que couber, o disposto no art. 5º. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 81, de 2014)
Parágrafo único. Todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e da exploraçãode trabalho escravo será confiscado e reverterá a fundo especial com destinação específica, na forma da lei.
- LEMBRE-SE: a expropriação decorrente do cultivo ilícito de plantas psicoativas a que se refere o art. 243 da Constituição deve abranger toda a propriedade, e não apenas a área efetivamente cultivada.
É de se indagar, entretanto, quais seriam as consequências do descumprimento da proibição de realização desses atos? Como estamos diante do abuso do direito convertido em tipo de descumprimento da função social da propriedade, a interpretação do §2º do art. 1.228 deve ser conciliada com disciplina geral do novo Código acerca do abuso de direito (art. 187). É dizer, no estudo da incidência do §2º do art. 1.228, está o hermeneuta autorizado a considerar ilícitos os atos que manifestamente excedam os limites impostos pela finalidade econômica ou social da propriedade, pela boa-fé (objetiva) ou pelos bons costumes, fazendo com que atuem, in casu, os princípios pertinentes à responsabilidade civil.
A função humana da propriedade surge, assim, como fator diferenciado da função social. Essa, mais ampla, atinge um maior número de pessoas. Aquela, mais restrita, surge de relações individualizadas (contratos, relações de vizinhança etc.).
*4.4. A FUNÇÃO SOCIAL DA POSSE E A DESAPROPRIAÇÃO JUDICIAL EM POSSE-TRABALHO[footnoteRef:9] [9: Houve cobrança dessa temática na prova da DPE-BA, em 2016, sendo correta pela FCC: “a posse-trabalho pode gerar ao proprietário a privação da coisa reivindicada, se for exercida em extensa área por prazo ininterrupto de cinco anos, mas o proprietário tem direito à fixação de justa indenização.]
A função social da posse está prevista de forma implícita no ordenamento brasileiro e é sucedâneo da função social da propriedade:
CF, art. 5º
XXII - é garantido o direito de propriedade;
XXIII - a propriedade atenderá a sua função social;
Art. 1.228, CC/02: O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha.
§ 1º O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas.
Exemplos de função social da posse:
Art. 1.238. Aquele que, por quinze anos, sem interrupção, nem oposição, possuir como seu um imóvel, adquire-lhe a propriedade, independentemente de título e boa-fé; podendo requerer ao juiz que assim o declare por sentença, a qual servirá de título para o registro no Cartório de Registro de Imóveis.
Parágrafo único. O prazo estabelecido neste artigo reduzir-se-á a dez anos se o possuidor houver estabelecido no imóvel a sua moradia habitual, ou nele realizado obras ou serviços de caráter produtivo.
Art. 1.242. Adquire também a propriedade do imóvel aquele que, contínua e incontestadamente, com justo título e boa-fé, o possuir por dez anos.
Parágrafo único. Será de cinco anos o prazo previsto neste artigo se o imóvel houver sido adquirido, onerosamente, com base no registro constante do respectivo cartório, cancelada posteriormente, desde que os possuidores nele tiverem estabelecido a sua moradia, ou realizado investimentos de interesse social e econômico.
Art. 1.210. O possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de turbação, restituído no de esbulho, e segurado de violência iminente, se tiver justo receio de ser molestado.
§ 2º Não obsta à manutenção ou reintegração na posse a alegação de propriedade, ou de outro direito sobre a coisa.
Súmula 487 STF: Será deferida a posse a quem, evidentemente, tiver o domínio, se com base neste for ela disputada. (Doutrina considera que essa súmula está prejudicada).
Súmula 239 STJ: O direito à adjudicação compulsória não se condiciona ao registro do compromisso de compra e venda no cartório de imóveis.[footnoteRef:10] [10: *(Atualizado em 09/03/2022): #JÁCAIU! Prova do MPGO/2022, banca FGV:
A moradia constitui direito fundamental como corolário do princípio da dignidade da pessoa humana. Lamentavelmente, por falta de recursos ou por desconhecimento, são celebrados negócios que transferem a posse física do imóvel sem observar a dimensão registral ou urbanística do ato. A necessidade de disciplinar a ocupação do solo, por outro lado, emerge como dever derivado da proteção ambiental, da garantia de salubridade, da segurança urbana e da obrigatoriedade de publicização do direito real. No conflito entre os valores, o Poder Judiciário vem tentando uniformizar os entendimentos a respeito da matéria.
Em relação ao tema, é correto afirmar que:
A) o reconhecimento da usucapião extraordinária pressupõe o atendimento do requisito de exercício de posse mansa, pacífica e sem oposição, pelo prazo determinado em lei, conforme a hipótese e a observância do módulo estabelecido por lei municipal de acordo com as normas de parcelamento do solo urbano;
B) a impossibilidade de publicidade do direito de propriedade com o registro imobiliário, por meio da abertura de matrícula, impede o reconhecimento da declaração do direito de propriedade em sentença de usucapião;
C) a pretensão de adjudicação compulsória não se sujeita a prazo prescricional, mas se extingue por meio de usucapião exercida por terceiro; (CORRETO)
D) o direito à adjudicação compulsória não se condiciona ao registro do compromisso de compra e venda no cartório de registro de imóveis, mesmo quando não exercido em face do promitente vendedor;
E) inexistência de prova de quitação do preço, por requisito essencial à pretensão de adjudicação compulsória, importa na improcedência do pedido de adjudicação, sendo irrelevante o decurso do tempo suficiente para fundamentar a prescrição de eventual débito ou a aquisição do domínio pelo instituto da usucapião.
]
Súmula 84 STJ: É admissível a oposição de embargos de terceiro fundados em alegação de posse advinda do compromisso de compra e venda de imóvel, ainda que desprovido do registro.
#ATENÇÃO:
Art. 1.228, § 4º, CC/02: O proprietário também pode ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área, na posse ininterrupta e de boa-fé, por mais de cinco anos, de considerável número de pessoas, e estas nela houverem realizado, em conjunto ou separadamente, obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante.
§ 5º No caso do parágrafo antecedente, o juiz fixará a justa indenização devida ao proprietário; pago o preço, valerá a sentença como título para o registro do imóvel em nome dos possuidores.
#SELIGAAQUI:
· Trata-se da chamada Desapropriação Judicial Indireta ou desapropriação judicial em posse-trabalho;
· Não precisa ser população de baixa renda. Ex.: favela.
· Pode ser alegada em Ação Autônoma ou em Contestação.
· Não é usucapião (há divergências), pois tem indenização.
Enunciado 308 da Jornada de Direito Civil: A justa indenização devida ao proprietário em caso de desapropriação judicial (art. 1.228, § 5º) somente deverá ser suportada pela Administração Pública no contexto das políticas públicas de reforma urbana ou agrária, em se tratando de possuidores de baixa renda e desde que tenha havido intervenção daquela nos termos da lei processual. Não sendo os possuidores de baixa renda, aplica-se a orientação do Enunciado 84 da I Jornada de Direito Civil.
Enunciado 311 da Jornada de Direito Civil: Caso não seja pago o preço fixado para a desapropriação judicial, e ultrapassado o prazo prescricional para se exigir o crédito correspondente, estará autorizada a expedição de mandado para registro da propriedade em favor dos possuidores.
Enunciado 305 da Jornada de Direito Civil: Tendo em vista as disposições dos §§ 3º e 4º do art. 1.228 do Código Civil, o Ministério Público tem o poder-dever de atuar nas hipóteses de desapropriação, inclusive a indireta, que encerrem relevante interesse público, determinado pela naturezados bens jurídicos envolvidos.
Enunciado 240, do CJF: A justa indenização a que alude o § 5º do art. 1.228 não tem como critério valorativo, necessariamente, a avaliação técnica lastreada no mercado imobiliário, sendo indevidos os juros compensatórios.
Enunciado 241, do CJF: O registro da sentença em ação reivindicatória, que opera a transferência da propriedade para o nome dos possuidores, com fundamento no interesse social (art. 1.228, § 5º), é condicionada ao pagamento da respectiva indenização, cujo prazo será fixado pelo juiz.
Enunciado 84, do CJF: A defesa fundada no direito de aquisição com base no interesse social (art. 1.228, §§ 4º e 5º, do novo Código Civil) deve ser arguida pelos réus da ação reivindicatória, eles próprios responsáveis pelo pagamento da indenização.
Art. 1.228, §4º e 5º do CC/02 – DESAPROPRIAÇÃO JUDICAL INDIRETA
Art. 10-12 do Estatuto da Cidade (antes da alteração promovida pela Lei 13.465/2017) – USUCAPIÃO ESPECIAL URBANO COLETIVO
Art. 10-12 do Estatuto da Cidade (alterado pela Lei 13.465/2017) – USUCAPIÃO ESPECIAL URBANO COLETIVO
Não precisa ser população de baixa renda
População de baixa renda, em composse
Não precisa ser população de baixa renda.
Pode ser alegada em Ação Autônoma ou em Defesa
Pode ser alegada em Ação Autônoma ou em Defesa
Pode ser alegada em Ação Autônoma ou em Defesa
Não é usucapião, pois tem indenização (há divergências)
Não tem indenização
Não tem indenização
Quem paga a indenização? Os possuidores.
-
-
Extensa área rural ou urbana
Imóvel urbano superior a 250m²
Núcleos urbanos informais cuja área total dividida pelo número de possuidores seja inferior a duzentos e cinquenta metros quadrados por possuidor.
Prazo de mais de 5 anos
Prazo de 5 anos
Prazo de mais de 5 anos
Considerável número de pessoas
População de baixa renda, em composse
Núcleos urbanos informais
Posse de boa-fé
Não exige boa-fé
Não exige boa-fé
Realização de obras e serviços relevantes (moradia ou não)
Finalidade de moradia
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Pode incidir sobre bens públicos (dominicais), porque aqui não se trata de usucapião (que não incide sobre bens públicos). Enunciado 304 da Jornada: São aplicáveis as disposições dos §§ 4º e 5º do art. 1.228 do Código Civil às ações reivindicatórias relativas a bens públicos dominicais, mantido, parcialmente, o Enunciado 83 da I Jornada de Direito Civil, no que concerne às demais classificações dos bens públicos.
Enunciado 83 CJF: Nas ações reivindicatórias propostas pelo Poder Público, não são aplicáveis as disposições constantes dos §§ 4º e 5º do art. 1.228 do novo Código Civil.
Não há usucapião de bem público.
Não há usucapião de bem público
Representativo da Função Social da Posse
Representativo da Função Social da Posse
Representativo da Função Social da Posse
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Representativo do Direito Civil dos Pobres (Antônio Menger)
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*ESTATUTO DA CIDADE #NOVIDADELEGISLATIVA
Art. 10. Os núcleos urbanos informais existentes sem oposição há mais de cinco anos e cuja área total dividida pelo número de possuidores seja inferior a duzentos e cinquenta metros quadrados por possuidor são suscetíveis de serem usucapidos coletivamente, desde que os possuidores não sejam proprietários de outro imóvel urbano ou rural. (Redação dada pela lei nº 13.465, de 2017)
§ 1º O possuidor pode, para o fim de contar o prazo exigido por este artigo, acrescentar sua posse à de seu antecessor, contanto que ambas sejam contínuas.
§ 2º A usucapião especial coletiva de imóvel urbano será declarada pelo juiz, mediante sentença, a qual servirá de título para registro no cartório de registro de imóveis.
§ 3º Na sentença, o juiz atribuirá igual fração ideal de terreno a cada possuidor, independentemente da dimensão do terreno que cada um ocupe, salvo hipótese de acordo escrito entre os condôminos, estabelecendo frações ideais diferenciadas.
§ 4º O condomínio especial constituído é indivisível, não sendo passível de extinção, salvo deliberação favorável tomada por, no mínimo, dois terços dos condôminos, no caso de execução de urbanização posterior à constituição do condomínio.
§ 5º As deliberações relativas à administração do condomínio especial serão tomadas por maioria de votos dos condôminos presentes, obrigando também os demais, discordantes ou ausentes.
Art. 11. Na pendência da ação de usucapião especial urbana, ficarão sobrestadas quaisquer outras ações, petitórias ou possessórias, que venham a ser propostas relativamente ao imóvel usucapiendo.
Art. 12. São partes legítimas para a propositura da ação de usucapião especial urbana:
I – o possuidor, isoladamente ou em litisconsórcio originário ou superveniente;
II – os possuidores, em estado de composse;
III – como substituto processual, a associação de moradores da comunidade, regularmente constituída, com personalidade jurídica, desde que explicitamente autorizada pelos representados.
§ 1º Na ação de usucapião especial urbana é obrigatória a intervenção do Ministério Público.
§ 2º O autor terá os benefícios da justiça e da assistência judiciária gratuita, inclusive perante o cartório de registro de imóveis.
Art. 13. A usucapião especial de imóvel urbano poderá ser invocada como matéria de defesa, valendo a sentença que a reconhecer como título para registro no cartório de registro de imóveis.
Art. 14. Na ação judicial de usucapião especial de imóvel urbano, o rito processual a ser observado é o sumário.
#FALAMARCINHO: O Estatuto da Cidade, ao tratar sobre a ação de usucapião especial urbana, prevê que "o autor terá os benefícios da justiça e da assistência judiciária gratuita, inclusive perante o cartório de registro de imóveis." Isso significa que o autor da ação de usucapião especial urbana gozará sempre da gratuidade da justiça? Há uma presunção absoluta de que este autor não tem recursos suficientes para pagar as custas? NÃO. O art. 12, § 2º da Lei nº 10.257/2001 (Estatuto da Cidade) estabelece uma presunção relativa de que o autor da ação de usucapião especial urbana é hipossuficiente. Isso significa que essa presunção pode ser ilidida (refutada) a partir da comprovação inequívoca de que o autor não é considerado "necessitado". STJ. 3ª Turma. REsp 1517822-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 21/2/2017 (Info 599).
*#OLHAOGANCHO: A Lei nº 13.699, de 2 de Agosto de 2018 alterou a Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001 (Estatuto da Cidade), para instituir diretriz de política urbana que visa a garantir condições condignas de acessibilidade, utilização e conforto nas dependências internas das edificações urbanas, inclusive nas destinadas à moradia e ao serviço dos trabalhadores domésticos.
DENOMINAÇÃO: os autores estão dando nomes distintos para o instituto: DESAPROPRIAÇÃO JUDICIAL, POSSE TRABALHO, DESAPROPRIAÇÃO PRÓ-LABORE, DESAPOSSAMENTO SOCIAL.
PODER PÚBLICO PAGA A INDENIZAÇÃO SE:
FINALIDADE DE MORADIA + POPULAÇÃO DE BAIXA RENDA
Ente público deve ser citado
União: área rural
Município: área urbana
· FORMA DE AQUISIÇÃO: é forma originária ou derivada da propriedade? Há divergências, mas o melhor entendimento é o de que se trata de forma de AQUISIÇÃO ORIGINÁRIA da propriedade, tornando o imóvel, uma vez registrado em nome dos possuidores, insuscetível de reivindicação e liberado de quaisquer ônus, cabendo aos eventuais credores somente a sub-rogação no preço pago ao antigo proprietário.
· NATUREZA JURÍDICA: Observa-se, de imediato, tratar-se de dispositivo que institui uma nova forma de perda de propriedade, não antes conhecida do direito brasileiro, dada a sua peculiaridade. No entanto, debate-se a doutrina acerca da natureza jurídica do mesmo. De fato, digladiam-se diversas correntes de pensamento, defendendo diversos conteúdos essenciais para o instituo, que vão da USUCAPIÃO até a DESAPROPRIAÇÃO JUDICIAL, passando por uma ALIENAÇÃO COMPULSÓRIA ou mesmo a caracterização de uma figura mista de POSSE-TRABALHO. Como nenhuma delas é ainda predominante, cabe citar os defensores de cada corrente:
Posse-trabalho: "Trata-se, como nos ensina MiguelReale, de uma inovação substancial do Código Civil, fundada na função social da propriedade, que dá proteção especial à posse-trabalho, isto é, à posse traduzida em trabalho criador, quer se concretize na construção de uma morada, quer se manifeste em investimentos de caráter produtivo ou cultural. Essa posse qualificada é enriquecida pelo valor laborativo, pela realização de obras ou serviços produtivos e pela construção de uma residência" (Maria Helena Diniz).
Alienação compulsória: “Todavia, comparações à parte, o que o novo instituto faculta ao juiz não é desapropriar o bem, mas sim converter a prestação devida pelos réus, que de específica (de restituir a coisa vindicada) passa a ser alternativa (de indenizá-la em dinheiro). Nosso sistema processual prevê várias hipóteses dessa natureza, notadamente em se tratando de obrigações de fazer e de obrigações de entregar a coisa. Assim, não se teria nem uma desapropriação, nem uma usucapião, mas sim uma alienação compulsória do imóvel, transferindo-se a propriedade aos ocupantes” (Teori Albino Zavascki). Também: Fredie Didier Júnior.
Desapropriação judicial: “A norma cria a desapropriação judicial, considerada uma inovação ‘do mais alto alcance, inspirada no sentido social do direito de propriedade, implicando não só novo conceito desta, mas também novo conceito de posse, que se poderia qualificar como sendo de posse-trabalho’ (Miguel Reale, Exposição de motivos ao Ministro da Justiça, Diário do Congresso Nacional, Seção I, suplemento B ao n. 061, 13.6.1975 n. 27 c, p. 121), quer dizer, o ponto alto do Código no que tange à tutela da posse (Teori Albino Zavascki, A tutela da posse na Constituição e no Projeto do Novo Código Civil, in Martins-Costa, Reconstrução, p. 851)” (Nélson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery). Também: Marco Aurélio S. Viana, Carlos Roberto Gonçalves.
4.5. FORMAS DE AQUISIÇÃO DA PROPRIEDADE IMÓVEL
· Originária: contato direito entre pessoa e coisa. A propriedade é zerada, ou seja, os seus acessórios (tributos, dívidas de condomínio, hipoteca, propter rem) são extintos. STF – Re 94596-6/RS. usucapião.
· Derivada: intermediação pessoal. A propriedade continua com os mesmos atributos, em razão da solução de continuidade. Compra e venda.
Outra concreção envolve hipoteca. Se um imóvel gravado por este direito real de garantia for adquirido por usucapião, ela estará extinta, uma vez que a aquisição é originária. O mesmo não pode ser dito quanto à compra e venda, forma de aquisição derivada.
a) Originárias
a.1) Acessão: é a incorporação natural ou artificial. É o direito em razão do qual o proprietário de um bem passa a adquirir a propriedade de tudo aquilo que a ele se adere. Isto é, pela acessão contínua, uma coisa se une ou se incorpora a outra, em estado permanente, por ação humana ou causa natural, e o proprietário da coisa principal adquire a propriedade da coisa que se lhe uniu ou incorporou. Em alguns casos, o titular desfalcado do domínio será indenizado, em respeito ao princípio que veda o enriquecimento sem causa. Pode se dar:
DE IMÓVEL A IMÓVEL (NATURAL):
· Aluvião. LENTO.
Aluvião própria – acréscimo PAULATINO de terras que o rio deixa naturalmente nos terrenos ribeirinhos.
Aluvião imprópria – acréscimo que se forma quando parte do álveo descobre-se em razão do afastamento das águas correntes.
· Ilhas – só beneficiará o particular quando, por força natural, surgir um pedaço de terra em um rio não navegável; se navegável, pertencerá à pessoa jurídica de Direito Público.
Por derradeiro, a ilha pode ser formada diante do desdobramento de um braço de rio, ou seja, diante de um novo curso de água que se abre. Diante da terceira regra, se isso ocorrer, a ilha pertencerá ao proprietário que margeia esse novo desdobramento, ou seja, será daquele que tem a propriedade do terreno à custa do qual o novo braço se constituiu:
· Avulsão – é o desprendimento, por força natural, VIOLENTA e ABRUPTA, de uma porção de terra que se junta ao terreno de outro proprietário, ocorrendo a consolidação de duas coisas em uma. O proprietário perdente reclamará a devolução no prazo decadencial de um ano. Nesse caso, o titular do prédio acrescido terá o direito potestativo de OPTAR entre aquiescer que se remova a parte acrescida ou indenizar o dono da propriedade do qual se destacara a porção de terra. A regra é a indenização.
· Álveo abandonado – não se confunde com a aluvião imprópria, em que parte do álveo descobre-se em razão de um desvio no curso das águas. No álveo abandonado, há um total e permanente abandono do antigo leito, ficando este inteiramente descoberto e passando a pertencer aos proprietários ribeirinhos das duas margens, seja o rio público ou particular.
DE MÓVEL A IMÓVEL (ARTIFICIAL):
· Plantações e construções:
- Plantações e construções – semeadura, plantação e edificação, quando a titularidade das sementes não coincidir com a do terreno:
-Terreno próprio + materiais alheios: se o dono do terreno estava de boa-fé, pagará ao proprietário o valor dos materiais; se de má-fé, além desse pagamento, indenizará por perdas e danos;
-Terreno alheio + materiais próprios: o titular perde o material próprio. Se de boa-fé, com base em justo título, tem direito à indenização; se de má-fé, perde as acessões e não recebe indenização;
- O construtor proprietário dos materiais poderá cobrar do proprietário do solo a indenização devida pela construção, quando não puder havê-la do contratante. Ex.: a empresa "A" contratou uma construtora para fazer um centro comercial no terreno pertencente à empresa "B". A empresa "B", mesmo não tendo participado do contrato, poderá ser responsabilizada subsidiariamente caso a construção seja realizada e a construtora não seja paga. Aplica-se, ao caso, o parágrafo único do art. 1.257: "O proprietário das sementes, plantas ou materiais poderá cobrar do proprietário do solo a indenização devida, quando não puder havê-la do plantador ou construtor." STJ. 4ª Turma. REsp 963.199-DF, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 11/10/2016 (Info 593).
a.2) Usucapião
Pode haver usucapião de bem móvel, imóvel ou de servidões aparentes.
*#DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO #STJ: É possível a usucapião de bem móvel proveniente de crime após cessada a clandestinidade ou a violência. Nos termos do art. 1.261 do CC/2002, aquele que exercer a posse de bem móvel, interrupta e incontestadamente, por 5 anos, adquire a propriedade originária do bem, fazendo sanar todo e qualquer vício anterior. A apreensão física da coisa por meio de clandestinidade (furto) ou violência (roubo) somente induz a posse após cessado o vício (art. 1.208 do CC/2002), de maneira que o exercício ostensivo do bem é suficiente para caracterizar a posse mesmo que o objeto tenha sido proveniente de crime. Caso concreto: indivíduo adquiriu caminhão por meio de financiamento bancário, com emissão de registro perante o órgão público competente, ao longo de mais de 20 anos. Depois se descobriu que o veículo havia sido furtado antes da aquisição. Pode-se reconhecer que houve a aquisição por usucapião, sendo irrelevante se analisar se houve a inércia do anterior proprietário (vítima do furto) ou se o usucapiente conhecia a ação criminosa anterior à sua posse. STJ. 3ª Turma. REsp 1.637.370-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 10/09/2019 (Info 656).
*#DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO #STJ: É possível o reconhecimento da usucapião quando o prazo exigido por lei se complete no curso do processo judicial, conforme a previsão do art. 493, do CPC/2015, ainda que o réu tenha apresentado contestação. Em março de 2017, João ajuizou ação pedindo o reconhecimento de usucapião especial urbana, nos termos do art. 1.240 do CC (que exige posse ininterrupta e sem oposição por 5 anos). Em abril de 2017, o proprietário apresentou contestação pedindo a improcedência da demanda. As testemunhas e as provas documentais atestaram que João reside no imóvel desde setembro de 2012, ou seja, quando o autor deu entrada na ação, ainda não havia mais de 5 anos de posse.Em novembro de 2017, os autos foram conclusos ao juiz para sentença. O magistrado deverá julgar o pedido procedente considerando que o prazo exigido por lei para a usucapião se completou no curso do processo. STJ. 3ª Turma. REsp 1.361.226-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 05/06/2018 (Info 630). #IMPORTANTE
*(Atualizado em 29/01/2021) #DEOLHONAJURIS Após a citação, é possível a mera juntada da planta e do memorial descritivo, sem a anuência do demandado, desde que não implique em alteração do pedido formulado na petição inicial da ação de usucapião. É admissível a determinação de emenda à petição inicial, mesmo após a citação do réu e a apresentação de defesa, quando não houver alteração no pedido ou na causa de pedir. Eventuais alterações no memorial descritivo do imóvel podem ser feitas unilateralmente antes da angularização da relação jurídico-processual ou, depois da citação, somente com a anuência explícita do réu. Não há como concluir que a mera juntada da planta e do memorial descritivo georreferenciado implicou alteração objetiva da demanda, ou seja, do pedido formulado na petição inicial da ação de usucapião. No caso concreto, não houve prejuízo aos litigantes, visto que, depois da apresentação dos documentos, o magistrado de primeiro grau determinou a intimação do demandado, dos confinantes e das Fazendas Públicas, em observância ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa. STJ. 3ª Turma. REsp 1.685.140-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 25/08/2020 (Info 679).
b) Derivadas
· Registro
· Sucessão
Nos termos do art. 108 do CC/2002, os contratos constitutivos ou translativos de direitos reais sobre imóveis devem ser feitos por escritura pública, se o imóvel tiver valor superior a trinta salários mínimos. A escritura pública é lavrada no Tabelionato de Notas de qualquer local do País, não importando a localização do imóvel. Se o imóvel tiver valor igual ou inferior a trinta salários mínimos, está dispensada a escritura pública, podendo o contrato ser celebrado por instrumento particular, eis que em regra a forma é livre (art. 107 do CC).
Esse esclarecimento inicial é útil para apontar que a escritura pública não serve para a aquisição da propriedade imóvel, sendo apenas uma formalidade que está no plano da validade dos contratos de constituição ou transmissão de bens (art. 104, inc. III, do CC — menção à forma prescrita e não defesa em lei). O registro imobiliário, que se situa no plano da eficácia do contrato, é que gera a aquisição da propriedade imóvel, e deve ocorrer no Cartório de Registro de Imóveis do local de situação da coisa (arts. 1.°, IV, e 167 a 171 da Lei 6.015/1973).
“Considera-se também título translativo, para fins do art. 1.245 do novo Código Civil, a promessa de compra e venda devidamente quitada (arts. 1.417 e 1.418 do CC e § 6º do art. 26 da Lei 6.766/1979)”. O enunciado doutrinário ressalta a importância prática do compromisso de compra e venda, seja registrado ou não, para os fins de aquisição do domínio.
A ação de retificação corre perante a Vara de Registros Públicos, se houver, ou na Vara Cível. Cancelado o registro, poderá o proprietário reivindicar o imóvel, independentemente da boa-fé ou do título do terceiro adquirente, pois o registro traz presunção do domínio (art. 1.247, parágrafo único, do CC).
Diferentemente dos direitos pessoais, os direitos reais possuem regime próprio de aquisição, consubstanciado em modos previamente estipulados em lei.
b.1) Registro: o registro está para os bens imóveis, assim como a tradição está para os bens móveis (art. 1226, CC). O Brasil adotou o sistema romano. Sem registro, não se adquire a propriedade de bem imóvel:
Art. 1.245. Transfere-se ENTRE VIVOS a propriedade mediante o REGISTRO do título translativo no Registro de Imóveis.
§ 1º Enquanto não se registrar o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóvel.
§ 2º Enquanto não se promover, por meio de ação própria, a decretação de invalidade do registro, e o respectivo cancelamento, o adquirente continua a ser havido como dono do imóvel.
O negócio ainda não registrado produz apenas um direito obrigacional. O registro, entretanto, não conduz a uma presunção absoluta e indestrutível da propriedade; um vício no negócio jurídico poderá contaminar o registro. Há presunção iuris tantum do domínio, acarretando inversão do ônus da prova. Os vícios originários do título são insanáveis e transmitem-se junto à cadeia dos adquirentes. Obs.: Nem tudo que é objeto de registro importa em constituição dos direitos reais. A finalidade do registro dos direitos obrigacionais é a quebra do princípio da relatividade dos contratos, estendendo seus efeitos a quem deles não é parte. Enunciado 87 do CJF: “Art. 1245: Considera-se também título translativo, para fins do art. 1.245 do NCC, a promessa de compra e venda devidamente quitada (arts. 1.417 e 1.418 do CC e §6º da lei 6.766/79)”.
Atributos do registro:
· CONSTITUTIVIDADE: o registro é indispensável para a aquisição da propriedade. Efeitos ex nunc, com EXCEÇÃO da usucapião e da saisine, quando será ex tunc.
· PRIORIDADE ou PREFERÊNCIA: dá-se proteção a quem registrou primeiro.
· FORÇA PROBANTE: força probante com presunção iuris tantum da propriedade. O registro TORRENS, em caráter excepcional, gera PRESUNÇÃO ABSOLUTA de domínio, assim TAMBÉM o registro da SENTENÇA de USUCAPIÃO. O art. 456, CC, animado pelo princípio da operabilidade, permitia, em caso de evicção, que o réu pudesse promover a denunciação coletiva da lide, convocando imediatamente todos os alienantes, ao invés de convocá-los sucessivamente. Permitia, ainda, que o evicto operasse a denunciação por saltos, pois permitia que o último adquirente pudesse atingir qualquer um dos alienantes anteriores na cadeia causal, mesmo que não fosse aquele que imediatamente transferiu-lhe o bem. *#ATENÇÃO: O novo CPC revoga o art. 456, CC, não sendo mais possível a denunciação da lide por saltos.
· CONTINUIDADE: o registro de um título prende-se ao registro anterior em uma sequência de atos. Esse princípio é derrogado no caso de usucapião, por ser modo originário de aquisição. Pelo mandato in rem suam o mandatário substitui o instrumento da compra e venda e pode transferir o domínio do bem para si.
· PUBLICIDADE: tem por fim tornar conhecidas pela sociedade as mutações no cadastro imobiliário e proteger os atos praticados com boa-fé.
· LEGALIDADE: o assento somente terá validade se baseado em título revestido das exigências legais.
· ESPECIALIDADE: o imóvel deve estar precisamente descrito e caracterizado como corpo certo, individual e autônomo.
*(Atualizado em 28/12/2021) A procuração para transferência do imóvel com valor superior ao teto legal, ato cuja exigência de instrumento público é essencial para a sua validade, deve necessariamente ter a mesma forma pública que é exigida para o ato. STJ. 4a Turma. REsp 1.894.758-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Rel. Acd. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 19/10/2021 (Info 715).
*4.5.1. Usucapião imobiliária
- É modo originário de aquisição da propriedade e de outros direitos reais. Isso mesmo, cabe usucapião de outros direitos reais, além da propriedade!
- É a chamada prescrição aquisitiva!
- Cabe usucapião de terra pública, desde que não seja para fins de aquisição da propriedade. Por exemplo, usucapião de enfiteuse de terra pública. O Poder Público continua sendo o proprietário.
- Usucapião não pode ser declarada de ofício (embora seja uma forma de prescrição – aquisitiva) – INFO 560 STJ.
- A existência de uma relação contratual impede a usucapião, porque desqualifica a posse.
Súmula 263-STF: O possuidor deve ser citado, pessoalmente, para a ação de usucapião. Por esse enunciado podemos concluir que mesmo que o indivíduo (autor da ação) não esteja mais na posse do imóvel, ainda assim ele poderá ter direito à usucapião desde que, quando perdeu a posse, já tenha preenchido todos os requisitos para a constituição do direito.
Súmula 391-STF:O confinante certo deve ser citado pessoalmente para a ação de usucapião. CUIDADO: o CPC previu uma exceção a essa regra: art. 246, § 3º do CPC/2015: "§ 3º Na ação de usucapião de imóvel, os confinantes serão citados pessoalmente, exceto quando tiver por objeto unidade autônoma de prédio em condomínio, caso em que tal citação é dispensada."
Súmula 11-STJ: A presença da União ou de qualquer de seus entes, na ação de usucapião especial, não afasta a competência do foro da situação do imóvel. #ALÔDPU!
Súmula 237-STF: O usucapião pode ser arguido em defesa.
Súmula 340-STF: Desde a vigência do Código Civil, os bens dominicais, como os demais bens públicos, não podem ser adquiridos por usucapião.
CC/02, Art. 102. Os bens públicos não estão sujeitos a usucapião.
CUIDADO COM A SÚMULA 193-STJ: “O direito de uso de linha telefônica pode ser adquirido por usucapião”. Lembre-se que usucapião pressupõe posse e essa não cabe para bens imateriais. Logo, essa súmula é uma exceção à impossibilidade de se usucapir bens imateriais.
USUCAPIÃO. DOMÍNIO ÚTIL REFERENTE A BEM PÚBLICO. IMÓVEL QUE ANTERIORMENTE JÁ ERA FOREIRO. ADMISSIBILIDADE. Admissível o usucapião quando imóvel já era foreiro e a constituição da enfiteuse em favor do usucapiente se faz contra o particular até então enfiteuta e não contra a pessoa jurídica de direito público que continua na mesma situação em que se achava, ou seja, como nua-proprietária. Precedentes do STF e STJ. Recurso especial conhecido e provido. (STJ - REsp: 154123 PE 1997/0079716-3, Relator: Ministro BARROS MONTEIRO, Data de Julgamento: 04/05/1999, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJ 23.08.1999 p. 129 RJADCOAS vol. 4 p. 59 RTJE vol. 178 p. 204).
*(Atualizado em 10/05/2020) *#DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO O interesse jurídico no ajuizamento direto de ação de usucapião independe de prévio pedido na via extrajudicial A tentativa de usucapião extrajudicial não é condição indispensável para o ajuizamento da ação de usucapião. Mesmo que estejam preenchidos os requisitos para a usucapião extrajudicial, o interessado pode livremente optar pela propositura de ação judicial. O próprio legislador deixou claro, no art. 216-A da Lei de Registros Públicos, que a existência da possibilidade de usucapião extrajudicial não traz prejuízo à busca da usucapião na via jurisdicional: Art. 216-A. Sem prejuízo da via jurisdicional, é admitido o pedido de reconhecimento extrajudicial de usucapião (...) STJ. 3ª Turma.REsp 1.824.133-RJ, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 11/02/2020 (Info 665).
- Requisitos:
Requisito Material: bem suscetível de ser usucapido.
· Como regra, os bens de sociedades de economia mista e empresas públicas são usucapíveis (exceto de prestarem serviço público).
· Bem de família (legal ou convencional) pode ser usucapido.
· As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios são inalienáveis, indisponíveis e insuscetíveis de usucapião.
· O STJ já admitiu que o condômino pode usucapir contra os coproprietários se o condomínio for pro indiviso, desde que o apossamento recaia sobre a integralidade do imóvel.
· Vaga de garagem pode ser usucapida se for autônoma em relação ao imóvel.
· Não cabe usucapião de bens incorpóreos (pois não há posse sobre eles). Cuidado com a exceção dada pela Súmula 193 do STJ.
· Nos condomínios horizontais o uso da coisa comum, ainda que com exclusividade, não gera posse ad usucapionem.
O imóvel da Caixa Econômica Federal vinculado ao Sistema Financeiro de Habitação, como está afetado à prestação de um serviço público, deve ser tratado como bem público, sendo, pois, imprescritível (insuscetível de usucapião). STJ. 3ª Turma. REsp 1448026-PE, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 17/11/2016 (Info 594).
Requisitos Formais:
· Posse mansa e pacífica;
· Animus domini;
· Lapso temporal;
*(Atualizado em 23/08/2020) #DEOLHONAJURIS O art. 197, I, do Código Civil prevê que não corre a prescrição entre os cônjuges, na constância da sociedade conjugal. Essa causa impeditiva de fluência do prazo prescricional prevista no art. 197, I, do CC, embora esteja topologicamente inserida no capítulo da prescrição extintiva, também se aplica às prescrições aquisitivas, ou seja, à usucapião. Assim, em regra, um cônjuge não poderia adquirir por meio de usucapião um bem do outro cônjuge enquanto não houvesse a separação judicial ou divórcio. Isso porque, na vigência da sociedade conjugal, não estaria sendo computado o prazo para fins de usucapião (prescrição aquisitiva) por força do art. 197, I. Ocorre que, para o STJ, a separação de fato de um casal é suficiente para cessar a causa impeditiva da fluência do prazo prescricional prevista no art. 197, I, do CC. Logo, estando o casal separado de fato, é possível iniciar a contagem do prazo para a prescrição aquisitiva do imóvel (usucapião). Desse modo, a constância da sociedade conjugal, exigida para a incidência da causa impeditiva da prescrição extintiva ou aquisitiva (art. 197, I, do CC/2002), cessará não apenas nas hipóteses de divórcio ou de separação judicial, mas também na hipótese de separação de fato por longo período, tendo em vista que igualmente não subsistem, nessa hipótese, as razões de ordem moral que justificam a existência da referida norma. STJ. 3ª Turma. REsp 1.693.732-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 05/05/2020 (Info 671).
· Na usucapião ordinária: justo título e boa-fé.
- Lembre-se, a posse deve ser contínua, sem interrupção juridicamente relevante.
* #DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA #OLHAOGANCHO:
A teor da reiterada jurisprudência desta Corte e do Supremo Tribunal Federal, a ação possessória cujo pedido fora julgado improcedente não interrompe o prazo para a aquisição da propriedade por usucapião. Pedido rescisório julgado improcedente. (STJ - AR: 440 SP 1994/0027133-6, Relator: Ministro CASTRO FILHO, Data de Julgamento: 24/08/2005, S2 - SEGUNDA SEÇÃO, Data de Publicação: DJ 03/10/2005 p. 114).
Enunciado 86 do CJF: A expressão justo título, contida nos arts. 1.242 e 1.260 do CC, abrange todo e qualquer ato jurídico hábil, em tese, a transferir a propriedade independentemente de registro.
* #IMPORTANTE: Ao propor uma ação de usucapião, o autor deverá requerer a citação dos confinantes, ou seja, dos vizinhos que fazem fronteira com o imóvel que ele almeja. E o que acontece caso não haja a citação dos confinantes? Haverá nulidade absoluta do processo? Não. Apesar de amplamente recomendável, a falta de citação dos confinantes não acarretará, por si, ou seja, obrigatoriamente, a nulidade da sentença que declara a usucapião. Não há que se falar em nulidade absoluta, no caso. A ausência de citação dos confinantes e respectivos cônjuges na ação de usucapião é considerada hipótese de nulidade relativa, somente gerando a nulidade do processo caso se constate o efetivo prejuízo. STJ. 4ª Turma. REsp 1.432.579-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 24/10/2017 (Info 616).
ESPÉCIES DE USUCAPIÃO
USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA
Exige:
· Animus domini;
· Posse mansa, pacífica e ininterrupta;
· Prazo de 15 anos (posse simples);
· Prazo de 10 anos (posse qualificada pelo cumprimento da função social).
USUCAPIÃO ORDINÁRIA[footnoteRef:11] [11: *Atualizado em 05/07/2021 #JÁCAIU Esse tema foi cobrado na prova da DPERJ/2021:
Em 2003, Francisco adquiriu de Pedro lote de terreno de 330 m2 , em área urbana, através de contrato particular de compra e venda, contrato esse não levado a registro. No contrato estava previsto o pagamento de 30 parcelas de R$ 300,00. Francisco reside no local desde 2003 e não possui qualquer outro imóvel urbano ou rural. Em janeiro de 2021, Francisco procura o(a) Defensor(a) Público(a) da Comarca em que reside para regularizar a situação imobiliária do imóvel. O(A) Defensor(a) Público(a), ao analisar a documentação, verifica o seguinte: a parte apresentou comprovante de pagamento de todas as parcelas, o contrato não está assinado por Pedro e o lote em questão não é registrado no Registro de Imóveis competente. O(A) Defensor(a) Público(a) deverá:
(A) ajuizar ação de usucapiãoordinário;
(B) ajuizar ação de adjudicação compulsória;
(C) ajuizar ação de usucapião constitucional urbano;
(D) informar que não é possível o ajuizamento de qualquer demanda, oficiando para a Corregedoria-Geral da Defensoria Pública;
(E) encaminhar as partes para o cartório do Registro Geral de Imóveis (RGI) competente para lavratura de escritura de usucapião extrajudicial.
Resposta: Alternativa “A”]
Exige:
· Animus domini;
· Posse contínua, mansa, pacífica e ininterrupta;
· Justo título e boa-fé;
· 10 anos se posse simples;
· 5 anos se posse qualificada.
USUCAPIÃO ESPECIAL URBANA ou pro misero
Exige:
· Área urbana de até 250m²;
· Posse por 5 anos ininterruptos;
· Sem oposição;
· Função social (moradia);
· Não pode ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural;
USUCAPIÃO ESPECIAL RURAL ou pró-labore ou rústico
Exige:
· Área rural não superior a 50 hectares;
· Posse por 5 anos ininterruptos;
· Sem oposição;
· Função social (trabalho e moradia);
· Não pode ser proprietário de outro imóvel rural ou urbano.
USUCAPIÃO COLETIVA URBANA
Já trabalhada acima (quando estudada a função social da posse).
USUCAPIÃO CONJUGAL
Exige:
· Abandono do lar pelo ex-cônjuge/companheiro;
· Imóvel urbano de até 250m²;
· 2 anos ininterruptos;
· Sem qualquer oposição.
· Função social (moradia);
· Não pode ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural.
USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA
CC/02, Art. 1.238. Aquele que, por quinze anos, sem interrupção, nem oposição, possuir como seu um imóvel, adquire-lhe a propriedade, independentemente de título e boa-fé; podendo requerer ao juiz que assim o declare por sentença, a qual servirá de título para o registro no Cartório de Registro de Imóveis.
Parágrafo único. O prazo estabelecido neste artigo reduzir-se-á a dez anos se o possuidor houver estabelecido no imóvel a sua moradia habitual, ou nele realizado obras ou serviços de caráter produtivo.
USUCAPIÃO ORDINÁRIA
CC/02, Art. 1.242. Adquire também a propriedade do imóvel aquele que, contínua e incontestadamente, com justo título e boa-fé, o possuir por dez anos.
Parágrafo único. Será de cinco anos o prazo previsto neste artigo se o imóvel houver sido adquirido, onerosamente, com base no registro constante do respectivo cartório, cancelada posteriormente, desde que os possuidores nele tiverem estabelecido a sua moradia, ou realizado investimentos de interesse social e econômico. USUCAPIÃO TABULAR[footnoteRef:12]. [12: A usucapião tabular nada mais é do que a usucapião ordinária (com justo título e boa-fé) com prazo reduzido (5 anos), exigindo-se, para sua configuração (além dos requisitos próprios à usucapião ordinária), que tenha havido aquisição onerosa com base no registro constante do Cartório de Registro de Imóveis, depois cancelada, e contanto que os possuidores tenham fixado moradia no imóvel ou realizado investimentos de interesse social e econômico. ]
Art. 1.243. O possuidor pode, para o fim de contar o tempo exigido pelos artigos antecedentes, acrescentar à sua posse a dos seus antecessores (art. 1.207), contanto que todas sejam contínuas, pacíficas e, nos casos do art. 1.242, com justo título e de boa-fé.
USUCAPIÃO ESPECIAL URBANA
CF/88, Art. 183. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural.
CC/02, Art. 1.240. Aquele que possuir, como sua, área urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural.
*(Atualizado em 09/02/2023): O adquirente de bem usucapido, na condição de sucessor do usucapiente, deve integrar o polo passivo da ação rescisória intentada contra a sentença de usucapião, sob pena de nulidade do feito por falta de citação do litisconsorte passivo necessário. REsp 1.938.743-SP, Rel. Ministro Moura Ribeiro, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 6/12/2022, DJe 14/12/2022. (Info Ed. Esp. 9 -STJ)
*(Atualizado em 12/11/2022) #DEOLHONAJURIS - O fato de os possuidores serem proprietários de metade do imóvel usucapiendo não faz incidir a vedação de não possuir "outro imóvel" urbano, contida no artigo 1.240 do Código Civil. A usucapião constitucional ou especial urbana apresenta os seguintes requisitos para o seu reconhecimento: (i) área urbana não superior a 250 m² (duzentos e cinquenta metros quadrados); (ii) posse mansa e pacífica de 5 (cinco) anos ininterruptos, sem oposição, com animus domini; (iii) imóvel utilizado como moradia do possuidor ou de sua família, e (iv) o possuidor não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural, não lhe tendo sido deferida a usucapião especial urbana em outra ocasião. Na hipótese, a Corte de origem entendeu que os recorrentes não cumpriram um dos requisitos para a aquisição da propriedade com fundamento na usucapião constitucional, qual seja, não possuir outro imóvel urbano. Isso porque eles seriam proprietários da outra metade do imóvel que pretendem usucapir. Quanto ao ponto, vale esclarecer que os recorrentes, enquanto residiam no imóvel, adquiriram 50% (cinquenta por cento) de sua propriedade em hasta pública, no ano de 1984. Tiveram dificuldade para registrar a carta de arrematação diante da existência de gravames na matrícula, ainda que prescritos, motivo pelo qual ingressaram com o pedido de declaração de propriedade da totalidade do imóvel. Durante a tramitação do feito, conseguiram registrar a carta de arrematação, de modo que desapareceu o interesse processual no que diz respeito à metade do imóvel adquirida em leilão. A controvérsia, portanto, gira em torno de definir se o fato de os recorrentes serem proprietários de metade do imóvel usucapiendo corresponde a possuir "outro imóvel" urbano, faltando-lhes um dos requisitos do artigo 1.240 do Código Civil. Como enfatiza a doutrina, os constituintes, ao delinearem a usucapião especial urbana, tinham como preocupação contemplar as pessoas sem moradia própria, daí a exigência de não ser proprietário de outro imóvel.
Sob essa perspectiva, o fato de os recorrentes serem proprietários da metade ideal do imóvel que pretendem usucapir não parece constituir o impedimento de que trata o art. 1.240 do Código Civil, pois não possuem moradia própria, já que eventualmente teriam que remunerar o co-proprietário para usufruir com exclusividade do bem.
Cumpre assinalar, ademais, que é firme a jurisprudência desta Corte no sentido de ser admissível a usucapião de bem em condomínio, desde que o condômino exerça a posse do bem com exclusividade. Assim, tendo os recorrentes (i) permanecido no imóvel durante ao menos 30 (trinta) anos, de 1984 até 2003, data da propositura da ação, sem contrato de locação regular, (ii) sem ter pagado alugueres, (iii) tendo realizado benfeitorias, (iv) tendo se tornado proprietários da metade do apartamento, (v) adimplido com todas as taxas e tributos, inclusive taxas extraordinárias de condomínio, não há como afastar a hipótese de transmudação da posse, que passou a ser exercida com animus domini. Desse modo, consumado o prazo da usucapião constitucional, estando presentes os demais requisitos do artigo 1.240 do Código Civil, deve ser declarada a propriedade sobre a integralidade do imóvel. STJ, REsp 1.909.276-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 27/09/2022, DJe 30/09/2022 (Info. 753).
*(Atualizado em 23/08/2020) #DEOLHONAJURIS A destinação de parte do imóvel para fins comerciais não impede o reconhecimento da usucapião especial urbana sobre a totalidade da área. A usucapião especial urbana apresenta como requisitos a posse ininterrupta e pacífica, exercida como dono, o decurso do prazo de cinco anos, a dimensão da área (250 m² para a modalidade individual e área superior a esta, na forma coletiva), a moradiae o fato de não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural. O uso misto da área a ser adquirida por meio de usucapião especial urbana não impede seu reconhecimento judicial, se a porção utilizada comercialmente é destinada à obtenção do sustento do usucapiente e de sua família. É necessário que a área pleiteada seja utilizada para a moradia do requerente ou de sua família, mas a lei não proíbe que o autor a utilize também para seu sustento. Assim, o fato de o autor da ação de usucapião utilizar uma parte do imóvel para uma atividade comercial que serve ao sustento da família domiciliada no imóvel não inviabiliza a prescrição aquisitiva buscada. STJ. 3ª Turma. REsp 1.777.404-TO, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 05/05/2020 (Info 671).
USUCAPIÃO ESPECIAL RURAL
CF/88, Art. 191. Aquele que, não sendo proprietário de imóvel rural ou urbano, possua como seu, por cinco anos ininterruptos, sem oposição, área de terra, em zona rural, não superior a cinquenta hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, tendo nela sua moradia, adquirir-lhe-á a propriedade.
CC/02 Art. 1.239. Aquele que, não sendo proprietário de imóvel rural ou urbano, possua como sua, por cinco anos ininterruptos, sem oposição, área de terra em zona rural não superior a cinquenta hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, tendo nela sua moradia, adquirir-lhe-á a propriedade.
Þ Na usucapião especial urbana e rural, doutrina e jurisprudência não admitem a adição da posse, pois requerem requisito personalíssimo. Exigem a presença da pessoa na posse.
#FALAMARCINHO: Se forem preenchidos os requisitos do art. 183 da CF/88, a pessoa terá direito à usucapião especial urbana e o fato de o imóvel em questão não atender ao mínimo dos módulos urbanos exigidos pela legislação local para a respectiva área (dimensão do lote) não é motivo suficiente para se negar esse direito, que tem índole constitucional. Para que seja deferido o direito à usucapião especial urbana basta o preenchimento dos requisitos exigidos pelo texto constitucional, de modo que não se pode impor obstáculos, de índole infraconstitucional, para impedir que se aperfeiçoe, em favor de parte interessada, o modo originário de aquisição de propriedade. STF. Plenário. RE 422349/RS, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 29/4/2015 (repercussão geral) (Info 783). STJ. 3ª Turma. REsp 1360017-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 5/5/2016 (Info 584).
OBS.: O mesmo se aplica ao imóvel rural.
#AJUDAMARCINHO. Galera vamos relembrar um importante julgado do STJ que nos interessa?!
João é posseiro de um imóvel rural há muitos anos e propôs ação de usucapião a fim de se tornar o proprietário do terreno. A sentença foi julgada procedente, declarando que João adquiriu a propriedade. Vale lembrar que a sentença de usucapião deve ser registrada no Cartório de Registro de Imóveis para que nele fique consignado que o novo proprietário é aquela pessoa que teve em seu favor a sentença de usucapião. Em outras palavras, João deverá averbar a sentença de usucapião no Cartório de Registro de Imóveis para ser considerado proprietário. Ocorre que o juiz que sentenciou a ação de usucapião condicionou o registro da sentença no Cartório do Registro de Imóveis ao prévio registro da Área Legal no CAR (Cadastro Ambiental Rural). Em outras palavras, o juiz afirmou que a usucapião só poderia ser averbada se, antes, o autor inscrevesse a Área de Reserva Legal no CAR. Agiu corretamente o magistrado? Ele poderia ter feito essa exigência? SIM. Para que a sentença declaratória de usucapião de imóvel rural sem matrícula seja registrada no Cartório de Registro de Imóveis, é necessário o prévio registro da reserva legal no Cadastro Ambiental Rural (CAR). STJ. 3ª Turma. REsp 1.356.207-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 28/4/2015 (Info 561).
Vamos relembrar também do art. 18, §4 do Código Florestal:
Art. 18. A área de Reserva Legal deverá ser registrada no órgão ambiental competente por meio de inscrição no CAR de que trata o art. 29, sendo vedada a alteração de sua destinação, nos casos de transmissão, a qualquer título, ou de desmembramento, com as exceções previstas nesta Lei.
§ 4º O registro da Reserva Legal no CAR desobriga a averbação no Cartório de Registro de Imóveis, sendo que, no período entre a data da publicação desta Lei e o registro no CAR, o proprietário ou possuidor rural que desejar fazer a averbação terá direito à gratuidade deste ato. (Redação dada pela Lei nº 12.727, de 2012).
#SELIGANESSEAQUITAMBÉM!
USUCAPIÃO INDÍGENA
Lei 6.001/73, Art. 33. O índio, integrado ou não, que ocupe como próprio, por dez anos consecutivos, trecho de terra inferior a cinquenta hectares, adquirir-lhe-á a propriedade plena.
Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica às terras do domínio da União, ocupadas por grupos tribais, às áreas reservadas de que trata esta Lei, nem às terras de propriedade coletiva de grupo tribal.
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA #STJ: É juridicamente possível a usucapião de imóveis rurais por pessoa jurídica brasileira com capital majoritariamente controlado por estrangeiros, desde que observadas as mesmas condicionantes para a aquisição originária de terras rurais por pessoas estrangeiras - sejam naturais, jurídicas ou equiparadas. A Lei nº 5.709/71 impõe uma série de condições para que estrangeiros adquiram terras rurais no Brasil. Uma pessoa jurídica nacional que tenha seu capital social controlado por estrangeiros também está sujeita às mesmas restrições, por força do art. 1º, § 1º, da Lei nº 5.709/71. Isso não significa que ela não possa adquirir imóveis rurais no Brasil. Podem sim, inclusive mediante usucapião. No entanto, precisam cumprir as regras da Lei nº 5.709/71. STJ. 3ª Turma. REsp 1.641.038-CE, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 06/11/2018 (Info 637).
*(Atualizado em 05/11/2022) #DEOLHONAJURIS - A existência de bem público não demarcado em condomínio pro indiviso com particulares não impede ação de usucapião parcial. Na origem, trata-se de ação de usucapião julgada improcedente ao fundamento de ser inviável porque, na hipótese, a área usucapienda se encontra em condomínio pro indiviso com área de domínio público, não sendo possível distinguir as glebas públicas das privadas. Inicialmente, consigna-se que bens públicos são todos os bens pertencentes às pessoas jurídicas de direito público interno, isto é, União, Distrito Federal, Estados, Municípios, Autarquias e Associações Públicas. Não se incluem no rol de bens públicos aqueles pertencentes às empresas públicas e sociedades de economia mista, por serem detentoras de personalidade jurídica de direito privado. Nesse cenário, os bens da Companhia Imobiliária de Brasília - Terracap, constituída sob a forma de empresa pública, não se enquadrariam na classificação de bens públicos. No entanto, o entendimento há muito sedimentado pelo STJ é de que os imóveis administrados pela Terracap são públicos e, portanto, insuscetíveis de usucapião (EREsp 695.928/DF, Rel. Ministro José Delgado, Corte Especial, julgado em 18/10/2006, DJ 18/12/2006). De fato, deve-se considerar a peculiaridade de que a Terracap, conquanto constituída sob a forma de empresa pública, tem justamente a específica finalidade de executar, mediante remuneração, as atividades imobiliárias de interesse do Distrito Federal, compreendendo a utilização, aquisição, administração, disposição, incorporação, oneração ou alienação de bens dominicais do Distrito Federal, susceptíveis de alienação a particulares. Todavia, no caso, a área litigiosa não pertence exclusivamente à Terracap na qualidade de empresa pública, mas a um condomínio com particulares, isto é, a mais de um proprietário em estado de comunhão de fato e de direito e, ainda que entre eles se inclua a Terracap, não se pode considerá-lo não passível de usucapião pela via judicial, enquanto não realizada a divisão das terras. Com efeito, se a empresa pública tivesse comprovado a propriedade exclusiva da área desapropriada, seria manifestaa sua qualidade de bem público, nos termos da citada jurisprudência desta Corte, na modalidade de bem dominical. Ademais, considere-se que, nos limites da ação de usucapião, haverá necessariamente a devida identificação do imóvel objeto da pretensão, como condição para a ação (CPC/2015, art. 1.071 c/c art. 216-A da Lei de Registros Públicos). Portanto, a propriedade da área não é exclusiva da Empresa Pública, de modo que, diante das especificidades do caso, não há como se estender a natureza pública a todo o imóvel, a ponto de considerá-lo absolutamente insuscetível de usucapião, pois tal hipótese não se amolda perfeitamente nem ao critério subjetivo da titularidade, adotado pelo art. 98 do Código Civil, tampouco ao critério destinador, tratado nos arts. 99 a 101 do CC/2002, para o enquadramento do bem como público e insuscetível de alienação a particulares. STJ, REsp 1.504.916-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Rel. Acd. Min. Raul Araújo, Quarta Turma, por maioria, julgado em 27/09/2022 (Info. 752).
*(Atualizado em 21/06/2020) #NOVIDADELEGISLATIVA
LEI Nº 14.010, DE 10 DE JUNHO DE 2020 - Dispõe sobre o Regime Jurídico Emergencial e Transitório das relações jurídicas de Direito Privado (RJET) no período da pandemia do coronavírus (Covid-19).
DA USUCAPIÃO
Art. 10. Suspendem-se os prazos de aquisição para a propriedade imobiliária ou mobiliária, nas diversas espécies de usucapião, a partir da entrada em vigor desta Lei até 30 de outubro de 2020.
- Pessoal, consideramos ser importante estar sempre atentos às reformas operadas recentemente, por isso, decidimos dar uma atenção especial à temática da Usucapião Administrativa! Vamos lá?
A Lei nº 11.977/09, que disciplina o Programa Minha Casa Minha Vida, trouxe a possibilidade de usucapião, sem a intervenção do Poder Judiciário, de imóveis urbanos para fins de regularização fundiária de interesse social, cujos procedimentos seriam feitos diretamente no Registro de Imóveis. Esta lei instituiu a conversão da legitimação de posse em propriedade, instituto conhecido doutrinariamente como “usucapião administrativa”, sendo um mecanismo ágil, eficiente e menos oneroso para a regularização fundiária da ocupação do solo urbano, visando o direito social à moradia (art. 6º da CF).
A lei previa um procedimento de regularização fundiária de interesse social. Após a averbação do auto de demarcação urbanística e do registro do parcelamento no cartório de registro de imóveis, o poder público concedia aos ocupantes cadastrados, um título de legitimação de posse (um ato administrativo que identificava o tempo, a natureza da posse e a pessoa do ocupante do imóvel).
A legitimação de posse assegurava ao seu detentor a posse direta para fins de moradia.
Por seu turno, a legitimação de posse constituía título apto a registro na matrícula do respectivo imóvel junto ao CRI.
Sem prejuízo dos direitos decorrentes da posse exercida anteriormente, o detentor do título de legitimação de posse, após 5 anos de seu registro, poderia requerer ao oficial de registro de imóveis a conversão desse título em registro de propriedade, tendo em vista sua aquisição por usucapião, nos termos do art. 183 da CF (art. 60 da Lei 11.977/09 – Revogado pela Lei 13.465/17).
Ocorre que, o novo CPC criou o art. 216-A na Lei de Registros Públicos (6.015/73), admitindo o pedido de reconhecimento extrajudicial de usucapião, por meio de procedimento próprio perante o registro imobiliário da comarca em que estiver situado o imóvel.
Na legislação anterior (antes da reforma operada pela Lei 13.465/17) era necessário o assentimento expresso de qualquer um dos titulares de direitos reais e de outros direitos registrados ou averbados na matrícula do imóvel e na matrícula dos imóveis confinantes.
Caberia ao registrador imobiliário a notificação desses detentores e caso qualquer deles se opusesse, ou simplesmente silenciasse a respeito, restaria inviável a demanda extrajudicial, pois essa atitude configuraria discordância. Nesse caso, a demanda deveria ser judicializada.
Com o advento da Lei 13.465/17 o instituto da usucapião administrativa ganhou força e maior praticidade e operabilidade.
A Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, passou a vigorar com as seguintes alterações:
Art. 216-A. Sem prejuízo da via jurisdicional, é admitido o pedido de reconhecimento extrajudicial de usucapião, que será processado diretamente perante o cartório do registro de imóveis da comarca em que estiver situado o imóvel usucapiendo, a requerimento do interessado, representado por advogado, instruído com: (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
I - ata notarial lavrada pelo tabelião, atestando o tempo de posse do requerente e de seus antecessores, conforme o caso e suas circunstâncias, aplicando-se o disposto no art. 384 da Lei no 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil); (Redação dada pela Lei nº 13.465, de 2017)
II - planta e memorial descritivo assinado por profissional legalmente habilitado, com prova de anotação de responsabilidade técnica no respectivo conselho de fiscalização profissional, e pelos titulares de direitos registrados ou averbados na matrícula do imóvel usucapiendo ou na matrícula dos imóveis confinantes; (Redação dada pela Lei nº 13.465, de 2017)
III - certidões negativas dos distribuidores da comarca da situação do imóvel e do domicílio do requerente; (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
IV - justo título ou quaisquer outros documentos que demonstrem a origem, a continuidade, a natureza e o tempo da posse, tais como o pagamento dos impostos e das taxas que incidirem sobre o imóvel. (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
§ 1o O pedido será autuado pelo registrador, prorrogando-se o prazo da prenotação até o acolhimento ou a rejeição do pedido. (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
§ 2o Se a planta não contiver a assinatura de qualquer um dos titulares de direitos registrados ou averbados na matrícula do imóvel usucapiendo ou na matrícula dos imóveis confinantes, o titular será notificado pelo registrador competente, pessoalmente ou pelo correio com aviso de recebimento, para manifestar consentimento expresso em quinze dias, interpretado o silêncio como concordância. (Redação dada pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 3o O oficial de registro de imóveis dará ciência à União, ao Estado, ao Distrito Federal e ao Município, pessoalmente, por intermédio do oficial de registro de títulos e documentos, ou pelo correio com aviso de recebimento, para que se manifestem, em 15 (quinze) dias, sobre o pedido. (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
§ 4o O oficial de registro de imóveis promoverá a publicação de edital em jornal de grande circulação, onde houver, para a ciência de terceiros eventualmente interessados, que poderão se manifestar em 15 (quinze) dias. (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
§ 5o Para a elucidação de qualquer ponto de dúvida, poderão ser solicitadas ou realizadas diligências pelo oficial de registro de imóveis. (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
§ 6o Transcorrido o prazo de que trata o § 4o deste artigo, sem pendência de diligências na forma do § 5o deste artigo e achando-se em ordem a documentação, o oficial de registro de imóveis registrará a aquisição do imóvel com as descrições apresentadas, sendo permitida a abertura de matrícula, se for o caso. (Redação dada pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 7o Em qualquer caso, é lícito ao interessado suscitar o procedimento de dúvida, nos termos desta Lei. (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
§ 8o Ao final das diligências, se a documentação não estiver em ordem, o oficial de registro de imóveis rejeitará o pedido. (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
§ 9o A rejeição do pedido extrajudicial não impede o ajuizamento de ação de usucapião. (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
§ 10. Em caso de impugnação do pedido de reconhecimento extrajudicial de usucapião, apresentadapor qualquer um dos titulares de direito reais e de outros direitos registrados ou averbados na matrícula do imóvel usucapiendo e na matrícula dos imóveis confinantes, por algum dos entes públicos ou por algum terceiro interessado, o oficial de registro de imóveis remeterá os autos ao juízo competente da comarca da situação do imóvel, cabendo ao requerente emendar a petição inicial para adequá-la ao procedimento comum. (Incluído pela Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)
§ 11. No caso de o imóvel usucapiendo ser unidade autônoma de condomínio edilício, fica dispensado consentimento dos titulares de direitos reais e outros direitos registrados ou averbados na matrícula dos imóveis confinantes e bastará a notificação do síndico para se manifestar na forma do § 2o deste artigo. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 12. Se o imóvel confinante contiver um condomínio edilício, bastará a notificação do síndico para o efeito do § 2o deste artigo, dispensada a notificação de todos os condôminos. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 13. Para efeito do § 2o deste artigo, caso não seja encontrado o notificando ou caso ele esteja em lugar incerto ou não sabido, tal fato será certificado pelo registrador, que deverá promover a sua notificação por edital mediante publicação, por duas vezes, em jornal local de grande circulação, pelo prazo de quinze dias cada um, interpretado o silêncio do notificando como concordância. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 14. Regulamento do órgão jurisdicional competente para a correição das serventias poderá autorizar a publicação do edital em meio eletrônico, caso em que ficará dispensada a publicação em jornais de grande circulação. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
§ 15. No caso de ausência ou insuficiência dos documentos de que trata o inciso IV do caput deste artigo, a posse e os demais dados necessários poderão ser comprovados em procedimento de justificação administrativa perante a serventia extrajudicial, que obedecerá, no que couber, ao disposto no § 5o do art. 381 e ao rito previsto nos arts. 382 e 383 da Lei no 13.105, de 16 março de 2015 (Código de Processo Civil). (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
Vamos registrar os pontos mais importantes da reforma operada pela Lei 13.465/17*:
· O silêncio dos titulares de direitos reais é tido como concordância. Agora, uma vez transcorridos os prazos legais sem que haja expressa discordância dos titulares de direitos reais sobre o imóvel a ser usucapido, bem como dos imóveis confrontantes, o Oficial do Registro de Imóveis registrará a aquisição do imóvel de acordo com a descrição que lhe foi apresentada.
· Imóvel não matriculado poderá ser usucapido pela via administrativa;
· Usucapião em unidade autônoma em condomínio edilício dispensa o consentimento dos titulares de direitos reais bastando a notificação do síndico, que silente, também incorre pela concordância.
· Imóvel cujo dono desconhece-se, ou é sumido, o registrador promoverá a notificação por edital, mediante dupla publicação, pelo prazo de 15 (quinze) dias cada um, também interpretado o silêncio do notificando como concordância.
5. ENFITEUSE*
De acordo com o Código Civil de 1916, o conceito de enfiteuse vem definido no art. 678:
Art. 678 do CC/16: Dá-se a enfiteuse, aforamento, ou emprazamento, quando por ato entre vivos, ou de última vontade, o proprietário atribui a outro o domínio útil do imóvel, pagando a pessoa, que o adquire, e assim se constitui enfiteuta, ao senhorio direto uma pensão, ou foro, anual, certo e invariável.
PROPRIETÁRIO SENHORIO DIRETO
TITULAR DO DIREITO REAL ENFITEUTA
Traduzindo: a enfiteuse é espécie de direito real na coisa alheia, que gera a obrigação do enfiteuta de manter o imóvel em bom estado, efetuar o pagamento de uma prestação anual (foro ou pensão) ao proprietário (senhorio direto) e pagar o laudêmio quando da transferência dos direitos de ocupação.
O poder conferido pela enfiteuse é bem amplo, compreendendo o de usar, desfrutar, alienar e transmitir o bem. Por isso se diz que a enfiteuse é o mais amplo dos direitos reais sobre coisas alheias. Frise-se, que o enfiteuta pode proceder à alienação do domínio útil do imóvel. O domínio útil é passível de transação onerosa, hipótese em que será devido pelo enfiteuta de terreno de marinha o pagamento do chamado laudêmio.
A Constituição Federal de 1988, ao dispor sobre a função social da propriedade, reformulou a visão sobre alguns institutos, orientando uma adequação do diploma civil, pois a enfiteuse, limitada no seu objeto e na sua perpetuidade, já não mais satisfazia as necessidades sociais, hoje enfatizadas na evolução contínua da política urbana e fundiária, razão pela qual foi instituído o direito de superfície no seu lugar. Nesse sentido, cumprindo o mandamento constitucional, o CC/02, no seu art. 2.038 proibiu a constituição de enfiteuses e subenfiteuses, subordinando as já existentes, até sua extinção, às disposições do Código Civil de 1916 e leis posteriores.
Art. 2.038, CC/02: Fica proibida a constituição de enfiteuses e subenfiteuses, subordinando-se as existentes, até sua extinção, às disposições do Código Civil anterior, Lei no 3.071, de 1o de janeiro de 1916, e leis posteriores.
§ 1º Nos aforamentos a que se refere este artigo é defeso:
I - cobrar laudêmio ou prestação análoga nas transmissões de bem aforado, sobre o valor das construções ou plantações;
II - constituir subenfiteuse.
No entanto, tal previsão não alterou as enfiteuses de bens da União, em especial os casos de terreno de marinha, que são regulados por lei própria e permanecem existindo. Isso se justifica por se tratar de uma região estratégica em termos de defesa e de segurança nacional (é a “porta de entrada” de navios mercantes ou de guerra).
Lembre-se que os terrenos de marinha são bens da União (art. 20, VII, da CF/88).
CF/88, Art. 20. São bens da União:
VII - os terrenos de marinha e seus acrescidos;
Art. 2.038, CC/02:
§ 2º A enfiteuse dos terrenos de marinha e acrescidos regula-se por lei especial.
A enfiteuse em terrenos de marinha está regulamentada no Decreto-Lei 9.760/46, tendo semelhanças com a do Código Civil de 1916. Mas seu regramento, constante de legislação especial, é de cunho eminentemente público, o que o faz diferir das previsões constantes da legislação civilista.
Mas, o que são terrenos de marinha?
Decreto-lei 3.438/41, Art. 1º: São terrenos de marinha, em uma profundidade de 33 metros, medidos para a parte de terra, do ponto em que se passava a linha do preamar médio de 1831:
a) os situados no continente, na costa marítima e nas margens dos rios e lagoas, até onde se faça sentir a influência das marés;
b) os que contornam as ilhas situadas em zona onde se faça sentir a influência das marés.
Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo, a influência das, marés é caracterizada pela oscilação de cinco centímetros, pelo menos, do nível das águas (atração luni- solar) que ocorra em qualquer época do ano.
Art. 2º São terrenos acrescidos de marinha os que se tiverem formado, natural ou artificialmente, para o lado do mar ou dos rios e lagoas, em seguimento nos terrenos de marinha.
Art. 4º Ficam sujeitos ao regime enfitêutico os terrenos de marinha e os seus acrescidos, exceto aqueles necessários aos logradouros e aos serviços públicos ou quando houver disposição legal em sentido diverso. (Redação dada pela Lei nº 13.240, de 2015)
Parágrafo único. O foro é de 0,6%, calculado sobre o valor do domínio pleno do terreno, deduzido o valor das benfeitorias porventura existentes.
Decreto-lei 9.760/46, Art. 12-C,: Fica a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) autorizada a concluir até 31 de dezembro de 2025 a identificação dos terrenos marginais de rio federal navegável, dos terrenos de marinha e seus acrescidos, de que tratam os arts. 2o, 3o e 4o deste Decreto-Lei. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017).
Art. 12-A. A Secretaria do Patrimônio da União do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão fará notificação pessoal dos interessados certos alcançadospelo traçado da linha demarcatória para, no prazo de 60 (sessenta) dias, oferecerem quaisquer impugnações. (Incluído pela Lei nº 13.139, de 2015)
A demarcação dos terrenos é feita pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) com a notificação pessoal de todos os interessados, devendo ser assegurados o contraditório e a ampla defesa. Sobre o tema, importante lembrar que em 2011, no julgamento da ADI 4264, o STF decidiu pelo restabelecimento da obrigatoriedade de convite pessoal dos ocupantes conhecidos de áreas de marinha, nos processos de demarcação de tais áreas.
Com a decisão, a Suprema Corte suspendeu, ex tunc (desde o início de sua vigência), a redação dada pela Lei 11.418/07 ao artigo 11 do Decreto-lei 9.760/46, impugnada na ADI. Esse texto havia suprimido a obrigatoriedade do convite pessoal aos interessados certos (conhecidos), nos procedimentos de demarcação de terrenos de marinha.
Com a alteração promovida pela Lei 11.418/, o Serviço de Patrimônio da União (SPU) havia sido autorizado a fazer a notificação apenas por edital, tanto dos interessados certos quanto dos incertos (desconhecidos). Uma vez notificados, eles tinham prazo de 60 dias para oferecer, para estudo, documentos e outros esclarecimentos concernentes aos terrenos compreendidos no trecho a ser demarcado[footnoteRef:13]. [13: Disponível em: http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=174242]
A Secretaria do Patrimônio da União (SPU) é o órgão responsável por administrar os bens da União e cobrar os pagamentos.
#OPA! NÃOCONFUNDE! Os valores pagos a título de foro e laudêmio não são tributos, mas contraprestações pecuniárias em razão de obrigação contratual!
A respeito da demarcação dos terrenos de marinha, há uma importante decisão STJ sobre o tema, constante no informativo 524:
A alegação da União de que determinada área constitui terreno de marinha, sem que tenha sido realizado processo demarcatório específico e conclusivo pela Delegacia de Patrimônio da União, não obsta o reconhecimento de usucapião. Nesse caso, na sentença que reconhecer a usucapião, o juiz deverá ressalvar que a União poderá fazer uma eventual e futura demarcação no terreno. Se ficar constatado, efetivamente, que o imóvel está localizado em terreno de marinha, a União será declarada proprietária da área, não havendo preclusão sobre o tema. Aplica-se o mesmo raciocínio constante na Súmula 496 do STJ: “Os registros de propriedade particular de imóveis situados em terrenos de marinha não são oponíveis à União”. Com isso, não haverá prejuízo à União.
Dúvida: a UNIÃO pode cobrar o laudêmio quando o ocupante transferir a POSSE de terreno de marinha?
O entendimento era o de que não se tratando de transferência da enfiteuse, mas de mera ocupação de terreno da marinha, não haveria como submeter a alienação do imóvel ao prévio pagamento de laudêmio, mas em 2012 a primeira seção do STJ modificou o entendimento:
PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. ACÓRDÃOS PARADIGMAS PROFERIDOS PELA MESMA TURMA. NÃO CABIMENTO. TERRENO DE MARINHA. ENFITEUSE. MERA OCUPAÇÃO. LAUDÊMIO. LEGALIDADE. PRECEDENTES.
A cobrança de laudêmio não se limita ao regime de aforamento de terreno de marinha, incidindo em caso de transferência onerosa de imóvel ou de benfeitorias nele construídas, ainda que em regime de ocupação.
Embargos de divergência conhecidos, mas improvido. (STJ, EREsp 1250916 / SC, Primeira Seção, Relator Ministro Humberto Martins, 11.04.2012).
Sobre o tema, importante ressaltar que o STJ entende que enquanto a União não for comunicada de que o ocupante que consta no registro junto à Secretaria do Patrimônio da União (SPU) não tem mais interesse em utilizar o terreno de marinha, será ele o responsável pelo recolhimento da taxa de ocupação, ou seja, em interpretação a contrario sensu, a ciência da União sobre transferência de posse extingue a execução fiscal.
ADMINISTRATIVO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. EXCEÇÃO DE PRÉ-EXECUTIVIDADE. TAXA DE OCUPAÇÃO DE TERRENO DE MARINHA. ILEGITIMIDADE PASSIVA DO ALIENANTE. NOTIFICAÇÃO DA UNIÃO. PRECEDENTES. 1. Compete ao alienante, que consta no registro administrativo, comunicar à titular da área do terreno de marinha a sua vontade de transferir a terceiro os direitos sobre a ocupação do imóvel, a fim de possibilitar as devidas anotações no registro, o que o correu no caso dos autos. Precedentes. 2. Agravo conhecido para dar provimento ao recurso especial. (STJ - AREsp: 980010 RJ 2016/0237144-7, Relator: Ministro BENEDITO GONÇALVES, Data de Julgamento: 16/02/2017, T1 - PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 03/03/2017).
A jurisprudência desta Corte Superior de Justiça já se manifestou pela obrigatoriedade de o alienante comunicar à Secretaria de Patrimônio da União - SPU a transferência da ocupação do imóvel a terceiro, de forma a possibilitar ao ente público fazer as devidas anotações. Assim, não havendo comunicação à SPU acerca do negócio jurídico, permanece como responsável pela quitação da taxa de ocupação aquele que figura originalmente no registro - o alienante, e não o adquirente.
2. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp 1431236⁄SC, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 27⁄3⁄2014, DJe 2⁄4⁄2014).
*#ALERTA: a Lei 13.465/2017 (Lei de Regularização Fundiária) modificou a Lei 9.636/1998, que trata da alienação de bens imóveis da União, facilitando a extinção da enfiteuse sobre terras de marinha, por meio da remição. Para os terrenos submetidos ao regime enfitêutico, facilitou-se a extinção da enfiteuse e consolidação do domínio pleno com o foreiro mediante o pagamento do valor correspondente ao domínio direto do terreno.
Se liguem nesses artigos:
Lei 9.636/98, Art. 16-A: Para os terrenos submetidos ao regime enfitêutico, ficam autorizadas a remição do foro e a consolidação do domínio pleno com o foreiro mediante o pagamento do valor correspondente ao domínio direto do terreno, segundo os critérios de avaliação previstos no art. 11-C desta Lei, cujo prazo de validade da avaliação será de, no máximo, doze meses, e das obrigações pendentes na Secretaria do Patrimônio da União (SPU), inclusive aquelas objeto de parcelamento, excluídas as benfeitorias realizadas pelo foreiro.
§ 1º Ficam dispensadas do pagamento pela remição as pessoas consideradas carentes ou de baixa renda, nos termos previstos no art. 1odo Decreto-Lei no 1.876, de 15 de julho de 1981.
§ 2º A remição do foro e a consolidação do domínio pleno com o foreiro a que se refere este artigo poderão ser efetuadas à vista ou de forma parcelada, permitida a utilização dos recursos do FGTS para pagamento total, parcial ou em amortização de parcelas e liquidação do saldo devedor, observadas as demais regras e condições estabelecidas para uso do FGTS.
§ 4º O foreiro que não optar pela aquisição dos imóveis de que trata este artigo continuará submetido ao regime enfitêutico, na forma da legislação vigente.
§ 5º A Secretaria do Patrimônio da União (SPU) verificará a regularidade cadastral dos imóveis a serem alienados e procederá aos ajustes eventualmente necessários durante o processo de alienação.
§ 6º Não se aplica o disposto neste artigo aos imóveis da União:
I – administrados pelo Ministério das Relações Exteriores, pelo Ministério da Defesa ou pelos Comandos da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica;
II – situados na faixa de fronteira de que trata a Lei no 6.634, de 2 de maio de 1979, ou na faixa de segurança de que trata o § 3o do art. 49 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
§ 7º Para os fins desta Lei, considera-se faixa de segurança a extensão de trinta metros a partir do final da praia, nos termos do § 3odo art. 10 da Lei no 7.661, de 16 de maio de 1988.”
Art. 16-B. Fica o Poder Executivo Federal autorizado, por intermédio da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), a contratar a Caixa Econômica Federal, independentemente de processo licitatório, para a prestação de serviços relacionados à administração dos contratos, à arrecadação e à cobrança administrativa decorrentes da remiçãodo foro dos imóveis a que se refere o art. 16-A desta Lei.
Parágrafo único. A Caixa Econômica Federal representará a União na celebração dos contratos de que trata o caput deste artigo.
Art. 16-C. O Ministro de Estado do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, permitida a delegação, editará portaria com a lista de áreas ou imóveis sujeitos à alienação nos termos do art. 16-A desta Lei.
§ 1o Os terrenos de marinha e acrescidos alienados na forma desta Lei:
I – não incluirão:
a) áreas de preservação permanente, na forma do inciso II do caput do art. 3oda Lei no651, de 25 de maio de 2012; ou
b) áreas em que seja vedado o parcelamento do solo, na forma do art. 3oe do inciso I do caput do art. 13 da Lei no766, de 19 de dezembro de 1979;
II – deverão estar situados em área urbana consolidada.
Por fim, como forma de destacar alguns aspectos sobre o tema, trouxemos um julgado do STJ que expõe de forma bem resumida os principais pontos referentes à enfiteuse em terreno de marinha:
DIREITO ADMINISTRATIVO – TERRENO DE MARINHA – TAXA DE OCUPAÇÃO – REGIME DE DIREITO ADMINISTRATIVO – OBRIGAÇÃO PESSOAL – TRANSFERÊNCIA DE OCUPAÇÃO – VIOLAÇÃO DO ART. 24 DODECRETO-LEI N. 3.438⁄41 – NECESSIDADE DE SOLICITAÇÃO PRÉVIA.
1. Os terrenos de marinha são bens dominicais da União, os quais, no passado, desde o tempo da realeza, destinavam-se à defesa do território nacional ao permitir a livre movimentação de tropas militares pela costa marítima.
2. Permite-se a ocupação dos terrenos de marinha por particulares, mediante o pagamento de taxa de ocupação.
3. A taxa de ocupação é o preço pago à Fazenda Pública pela utilização de bem que lhe pertence. Não possui natureza tributária (Lei n. 4.320⁄1964, art. 39, § 2º). Situa-se, eminentemente, no Direito Público.
4. Apesar de intimamente ligada à realidade da coisa, a taxa de ocupação decorre de uma obrigação pessoal oriunda de relação jurídica entre o ocupante e a Administração Pública.
5. Merece reforma a decisão do Tribunal a quo, ao entender que a redação do art. 128, § único do Decreto-Lei n. 9.760⁄46 (em vigor à época), tornou o adquirente o único responsável pelo pagamento da taxa, independente do respectivo registro.
6. A exegese dada pelo Tribunal de origem, a par de integrar a lei, não se coaduna com a natureza do instituto da ocupação, haja vista que é obrigação pessoal, que não se transfere jungida a coisa; e, é de caráter público, devendo ser interpretada de forma a não limitar a soberania da União na gestão das coisas que lhe pertencem, em nome do próprio interesse público subjacente.
7. Dispõe o art. 24 do Decreto-Lei n. 3.438⁄41, verbis: "Os pedidos de licença para transferência de aforamento ou ocupação, dirigidos ao chefe do Serviço Regional do Domínio da União deverão mencionar expressamente o nome do adquirente e o preço ajustado da transação."
8. Restaura-se o entendimento do juízo primevo, ao sentenciar que era obrigação do autor comunicar à Secretaria de Patrimônio da União - SPU a transferência da ocupação do imóvel a terceiro, de forma a possibilitar ao ente público fazer as devidas anotações.
Recurso especial provido.
(REsp 1.145.801⁄SC, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 5⁄8⁄2010, DJe 19⁄8⁄2010).
6. CONCESSÃO DE DIREITO REAL DE USO*
A concessão de direito real de uso (CDRU) é um direito previsto no Código Civil de 2002, instrumentalizado por meio de um contrato. É um direito real resolúvel sobre coisa alheia, pública ou privada, sendo o bem destinado à utilização privativa em conformidade com as hipóteses específicas estabelecidas pela legislação.
Podemos citar algumas das suas características:
· Tipicidade;
· Necessidade de registro no ofício de registro de imóveis;
· Possibilidade de ser oferecido em garantia em negócios jurídicos.
· O Código Civil, no art. 1473, IX prevê que a CDRU pode ser objeto de hipoteca, sob a condição de que seja limitada ao prazo fixado para duração da concessão (art. 1473, § 2º, CC).
· É um dos institutos da Regularização Fundiária Urbana (Reurb) – art. 15, XIII da Lei 13.465/17.
· É um dos instrumentos da Política Urbana – art. 4º, V, g, do Estatuto das Cidades (Lei 10.257/01).
Portanto, a CDRU é direito real resolúvel, que pode ser outorgada por contrato, público ou particular, ou termo administrativo. Presta-se apenas às finalidades estipuladas legalmente. A CDRU pode se aplicar sobre a superfície dos imóveis ou sobre seu espaço aéreo, podendo, ainda, ser remunerada ou gratuita, por prazo certo ou indeterminado. A sua transmissão pode se dar por ato inter vivos ou por sucessão legítima ou testamentária, desde que não haja previsão contratual em contrário.
ATENÇÃO: se liga, pois a Lei 13.465/2017 promoveu algumas reformas no tocante à temática da CDRU.
Abaixo, trouxemos os principais artigos que regulam o tema:
Art. 1.225, C/02. São direitos reais:
I - a propriedade;
II - a superfície;
III - as servidões;
IV - o usufruto;
V - o uso;
VI - a habitação;
VII - o direito do promitente comprador do imóvel;
VIII - o penhor;
IX - a hipoteca;
X - a anticrese.
XI - a concessão de uso especial para fins de moradia; (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007)
XII - a concessão de direito real de uso; e (Redação dada pela Lei nº 13.465, de 2017)
XIII - a laje. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017)
O Decreto-lei 271/67 disciplina a CDRU (concessão de direito real de uso):
Art. 7º É instituída a concessão de uso de terrenos públicos ou particulares remunerada ou gratuita, por tempo certo ou indeterminado, como direito real resolúvel, para fins específicos de regularização fundiária de interesse social, urbanização, industrialização, edificação, cultivo da terra, aproveitamento sustentável das várzeas, preservação das comunidades tradicionais e seus meios de subsistência ou outras modalidades de interesse social em áreas urbanas. (Redação dada pela Lei nº 11.481, de 2007)
§ 1º A concessão de uso poderá ser contratada, por instrumento público ou particular, ou por simples termo administrativo, e será inscrita e cancelada em livro especial.
§ 2º Desde a inscrição da concessão de uso, o concessionário fruirá plenamente do terreno para os fins estabelecidos no contrato e responderá por todos os encargos civis, administrativos e tributários que venham a incidir sobre o imóvel e suas rendas.
§ 3º Resolve-se a concessão antes de seu termo, desde que o concessionário dê ao imóvel destinação diversa da estabelecida no contrato ou termo, ou descumpra cláusula resolutória do ajuste, perdendo, neste caso, as benfeitorias de qualquer natureza.
§ 4º A concessão de uso, salvo disposição contratual em contrário, transfere-se por ato inter vivos , ou por sucessão legítima ou testamentária, como os demais direitos reais sobre coisas alheias, registrando-se a transferência.
§ 5º Para efeito de aplicação do disposto no caput deste artigo, deverá ser observada a anuência prévia: (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007)
I - do Ministério da Defesa e dos Comandos da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica, quando se tratar de imóveis que estejam sob sua administração; e (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007).
II - do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência de República, observados os termos do inciso III do § 1o do art. 91 da Constituição Federal. (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007).
Art 8º É permitida a concessão de uso do espaço aéreo sobre a superfície de terrenos públicos ou particulares, tomada em projeção vertical, nos termos e para os fins do artigo anterior e na forma que for regulamentada.
A Lei de Geral de Licitações (8.666/93) estabelece em seu art. 17, algumas hipóteses de dispensa de licitação, quando se tratar de CDRU:
Art. 17. A alienação de bens da Administração Pública, subordinada à existência de interesse público devidamente justificado, será precedida de avaliação e obedecerá às seguintes normas:
I - quando imóveis, dependerá de autorização legislativa para órgãos da administração direta e entidades autárquicas e fundacionais,e, para todos, inclusive as entidades paraestatais, dependerá de avaliação prévia e de licitação na modalidade de concorrência, dispensada esta nos seguintes casos:
f) alienação gratuita ou onerosa, aforamento, concessão de direito real de uso, locação ou permissão de uso de bens imóveis residenciais construídos, destinados ou efetivamente utilizados no âmbito de programas habitacionais ou de regularização fundiária de interesse social desenvolvidos por órgãos ou entidades da administração pública; (Redação dada pela Lei nº 11.481, de 2007)
h) alienação gratuita ou onerosa, aforamento, concessão de direito real de uso, locação ou permissão de uso de bens imóveis de uso comercial de âmbito local com área de até 250 m² (duzentos e cinqüenta metros quadrados) e inseridos no âmbito de programas de regularização fundiária de interesse social desenvolvidos por órgãos ou entidades da administração pública; (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007)
i) alienação e concessão de direito real de uso, gratuita ou onerosa, de terras públicas rurais da União e do Incra, onde incidam ocupações até o limite de que trata o § 1o do art. 6o da Lei no 11.952, de 25 de junho de 2009, para fins de regularização fundiária, atendidos os requisitos legais; e (Redação dada pela Lei nº 13.465, 2017)
§ 2º A Administração também poderá conceder título de propriedade ou de direito real de uso de imóveis, dispensada licitação, quando o uso destinar-se: (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005)
I - a outro órgão ou entidade da Administração Pública, qualquer que seja a localização do imóvel; (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005)
II - a pessoa natural que, nos termos de lei, regulamento ou ato normativo do órgão competente, haja implementado os requisitos mínimos de cultura, ocupação mansa e pacífica e exploração direta sobre área rural, observado o limite de que trata o § 1o do art. 6o da Lei no 11.952, de 25 de junho de 2009; (Redação dada pela Lei nº 13.465, 2017)
7. CONCESSÃO DE USO ESPECIAL PARA FINS DE MORADIA*
A concessão de uso especial para fins de moradia é também espécie de direito real, elencado no art. 1.225, inciso XI do CC/02, incluído pela Lei 11.482/07 e também:
· É um dos institutos da Regularização Fundiária Urbana (Reurb) – art. 15, XII da Lei 13.465/17.
· É um dos instrumentos da Política Urbana – art. 4º, V, h, do Estatuto das Cidades (Lei 10.257/01).
· Na qualidade de instrumento da política de desenvolvimento urbano, com fundamento constitucional e legal, sua aplicação não depende de previsão em leis municipais ou estaduais de regularização fundiária e urbanística.
Esse direito real foi inserido e regulamentado no projeto do Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01), dentre os diversos mecanismos então criados para dar efetividade à função social das cidades e também à função social da propriedade, através dos artigos 10 a 15 do referido Estatuto. Porém, tais artigos foram vetados pelo Presidente da República.
Assim, para regular o tema, surgiu, a MP 2.220, de 4 de setembro de 2001, que vige até hoje (atenção aos destaques realizados):
Art. 1º Aquele que, até 22 de dezembro de 2016, possuiu como seu, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, até duzentos e cinquenta metros quadrados de imóvel público situado em área com características e finalidade urbanas, e que o utilize para sua moradia ou de sua família, tem o direito à concessão de uso especial para fins de moradia em relação ao bem objeto da posse, desde que não seja proprietário ou concessionário, a qualquer título, de outro imóvel urbano ou rural. (Redação dada pela lei nº 13.465, de 2017)
§ 1º A concessão de uso especial para fins de moradia será conferida de forma gratuita ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil.
§ 2º O direito de que trata este artigo não será reconhecido ao mesmo concessionário mais de uma vez.
§ 3º Para os efeitos deste artigo, o herdeiro legítimo continua, de pleno direito, na posse de seu antecessor, desde que já resida no imóvel por ocasião da abertura da sucessão.
Art. 2o Nos imóveis de que trata o art. 1o, com mais de duzentos e cinquenta metros quadrados, ocupados até 22 de dezembro de 2016, por população de baixa renda para sua moradia, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, cuja área total dividida pelo número de possuidores seja inferior a duzentos e cinquenta metros quadrados por possuidor, a concessão de uso especial para fins de moradia será conferida de forma coletiva, desde que os possuidores não sejam proprietários ou concessionários, a qualquer título, de outro imóvel urbano ou rural. (Redação dada pela lei nº 13.465, de 2017).
Art. 5º É facultado ao Poder Público assegurar o exercício do direito de que tratam os arts. 1º e 2º em outro local na hipótese de ocupação de imóvel:
I - de uso comum do povo;
II - destinado a projeto de urbanização;
III - de interesse da defesa nacional, da preservação ambiental e da proteção dos ecossistemas naturais;
IV - reservado à construção de represas e obras congêneres; ou
V - situado em via de comunicação.
Art. 6º O título de concessão de uso especial para fins de moradia será obtido pela via administrativa perante o órgão competente da Administração Pública ou, em caso de recusa ou omissão deste, pela via judicial.
§ 1º A Administração Pública terá o prazo máximo de doze meses para decidir o pedido, contado da data de seu protocolo.
§ 4º O título conferido por via administrativa ou por sentença judicial servirá para efeito de registro no cartório de registro de imóveis.
Art. 7º O direito de concessão de uso especial para fins de moradia é transferível por ato inter vivos ou causa mortis.
Art. 8º O direito à concessão de uso especial para fins de moradia extingue-se no caso de:
I - o concessionário dar ao imóvel destinação diversa da moradia para si ou para sua família; ou
II - o concessionário adquirir a propriedade ou a concessão de uso de outro imóvel urbano ou rural.
Parágrafo único. A extinção de que trata este artigo será averbada no cartório de registro de imóveis, por meio de declaração do Poder Público concedente.
Art. 9º É facultado ao poder público competente conceder autorização de uso àquele que, até 22 de dezembro de 2016, possuiu como seu, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, até duzentos e cinquenta metros quadrados de imóvel público situado em área com características e finalidade urbanas PARA FINS COMERCIAIS. (Redação dada pela lei nº 13.465, de 2017)
§ 1º A autorização de uso de que trata este artigo será conferida de forma gratuita.
§ 2º O possuidor pode, para o fim de contar o prazo exigido por este artigo, acrescentar sua posse à de seu antecessor, contanto que ambas sejam contínuas.
8. MODOS DE AQUISIÇÃO DA PROPRIEDADE MÓVEL
1. OCUPAÇÃO: é o modo ORIGINÁRIO por excelência de aquisição da propriedade móvel, pelo qual alguém imediatamente apropria-se de coisas SEM DONO, seja porque nunca foram apropriadas (RES NULLIUS), seja porque foram abandonadas (RES DERELICTAE). As coisas abandonadas não se confundem com as perdidas, pois aqui há apenas um temporário afastamento do corpus, mas é mantido o animus. Para estas, há a descoberta. Tem como objeto seres vivos (caça e pesca) e seres inanimados.
2. ACHADO DO TESOURO: tesouro é o depósito antigo de coisas preciosas ocultas cujo DONO É DESCONHECIDO. Se a propriedade for presumível, não é tesouro. Se o tesouro for achado pelo proprietário do terreno, a ele pertence; caso seja encontrado por outra pessoa que não seja proprietária, terá ela direito à metade do tesouro. Todavia, se o descobridor penetrar no prédio alheio com o propósito de encontrar o tesouro, não terá direito a nada, pois não se permite a obtenção de vantagem quando do esbulho.
3. ESPECIFICAÇÃO: é o modo DERIVADO de aquisição da propriedade mobiliária que se dá mediante a transformação de matéria-prima em espécie nova por meio do trabalho. Se a matéria–prima for alheia em sua integralidade, pertenceráo produto ao especificador de boa-fé, quando a espécie nova não puder ser restituída à forma primitiva, pois, se possível a reversão, retornará ao seu titular originário. Encontrando-se de má-fé o especificador, a coisa nova pertencerá ao dono da matéria-prima, não podendo aquele nem pleitear indenização pelo trabalho executado. Mesmo havendo má-fé, porém, sempre que o preço da mão de obra exceder consideravelmente o valor da matéria-prima será a coisa nova do especificador, apenas indenizando o dono daquela por seu valor.
4. COMISTÃO, CONFUSÃO e ADJUNÇÃO: são modos DERIVADOS de aquisição.
Comistão: é a mistura de coisas secas ou sólidas, pertencentes a diferentes donos, sem que possam ser separadas e sem que se produza coisa nova.
Confusão: é a mistura de coisas líquidas de diferentes pessoas, nas mesmas condições.
Adjunção: é a justaposição de uma coisa sólida à outra, de tal modo que não possam mais ser separadas sem deterioração do bem formado. Se a mescla for intencional, os proprietários decidem o que fazer com o produto. Se for acidental, em regra, a coisa será do dono do bem principal, sendo o outro indenizado. Se não houver bem principal, incidirá um condomínio forçado. Se houver conduta unilateral de má-fé, a outra parte adquire a propriedade do todo indenizando a parte que não era sua, abatida a indenização por ato ilícito, ou então poderá renunciar à propriedade, com ressarcimento.
5. USUCAPIÃO: forma ORIGINÁRIA de aquisição da propriedade:
a) Ordinária: Art. 1.260, CC – posse mansa e pacífica, ininterruptamente e sem oposição, durante TRÊS ANOS, exercida com animus domini, JUSTO TÍTULO e BOA-FÉ.
b) Extraordinária: Art. 1.261, CC – posse ininterrupta e pacífica com animus domini pelo PRAZO DE CINCO ANOS.
Obs.: Súmula 193, STJ – o direito de uso de linha telefônica pode ser adquirido por usucapião. Os bens objeto de furto podem ser adquiridos por usucapião extraordinária pelo próprio autor do furto.
O indivíduo que tem a propriedade de um veículo que, no entanto, está registrado em nome de um terceiro no DETRAN, possui interesse de agir para propor ação de usucapião extraordinária (art. 1.261 do CC) já que, com a sentença favorável, poderá regularizar o bem no órgão de trânsito. STJ. 3ª Turma. REsp 1.582.177-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 25/10/2016 (Info 593).
*(Atualizado em 20/06/2020) #DEOLHONAJURIS A existência de contrato de arrendamento mercantil do bem móvel impede a aquisição de sua propriedade pela usucapião, contudo, verificada a prescrição da dívida, inexiste óbice legal para prescrição aquisitiva. Exemplo: João celebrou contrato de arrendamento mercantil com o banco para aquisição de um automóvel; em 1998, o arrendatário deixou de pagar as prestações; o arrendador tinha o prazo de 5 anos para ajuizar ação de cobrança, ou seja, até 2003; até essa data (2003), não se podia falar em usucapião; a partir de 2003, como o arrendador já não mais poderia ajuizar a ação de cobrança, entende-se que cessaram os vícios que maculavam a posse do arrendatário; logo, a partir de 2003 começou a ser contado o prazo de usucapião; como o prazo de usucapião extraordinário de bem móvel é de 5 anos, o arrendatário adquiriu a propriedade por usucapião em 2008. STJ. 4ª Turma. REsp 1.528.626-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Rel. Acd. Min. Raul Araújo, julgado em 17/12/2019 (Info 667).
6. TRADIÇÃO: é modo DERIVADO de aquisição da propriedade móvel, consistindo na entrega de bem móvel pelo transmitente ao adquirente, com a intenção de transferir-lhe a propriedade. Pode ser real (entrega material da coisa ao adquirente), simbólica (entrega das chaves de um veículo, p.e.) e consensual (resulta do acordo de vontade dos interessados, por aposição contratual, sem qualquer alteração do mundo dos fatos – constituto possessório e tradição brevi manu). No CONSTITUTO POSSESSÓRIO o proprietário de um bem o aliena a outrem, mas continua como possuidor direto, isto é, há inversão no título da posse, já que alguém que possuía a coisa em nome próprio passa a possuir em nome alheio. Já na TRADIÇÃO BREVI MANU ocorre o contrário. Aquele que detinha o bem em nome alheio, passa a possuí-lo como proprietário.
Obs.: O novo código Civil não incluiu a descoberta (antiga invenção) como modo de aquisição da propriedade, visto que quem acha o bem perdido não adquire a sua propriedade. Colocou a descoberta na parte geral da propriedade. Para fins didáticos, vou incluir tal ponto aqui, após os modos de aquisição da propriedade.
Exceção: DESCOBERTA: é o fato jurídico que consiste em alguém encontrar coisa alheia perdida (art. 1.233, CC). A descoberta gera para o descobridor uma obrigação de fazer consistente em entregar a coisa que saiu da esfera de proteção do titular. Cuida-se de obrigação que se origina de um ato jurídico stricto sensu.
No CC/16, era denominada invenção e estava entre os modos de aquisição da propriedade. Hoje, não é mais assim considerada porque se tutela a propriedade de quem se desligou da coisa sem intencionalidade (bens do evento), não se confundindo com a ocupação, na qual há a aquisição das coisas abandonadas. A descoberta gera apenas um direito de recompensa, em favor do descobridor, não inferior a 5% sobre o valor do bem (ACHÁDEGO), além das despesas com a conservação da coisa, como depositário.
O descobridor é obrigado a restituir o objeto ao legítimo possuidor. Caso não o encontre, deverá entregá-lo à autoridade competente. Se, decorridos 60 dias da divulgação da notícia pela imprensa, ou do edital, o proprietário não comparecer, o bem será vendido em hasta pública. A apreciação do valor a ser pago a título de recompensa será feita pelo magistrado. Após a venda em leilão, e retirado o valor do achádego, o restante do valor é concedido ao município em que o bem houver sido descoberto. Tanto o proprietário quanto o Município podem deliberar por abandonar a coisa para exonerar-se da obrigação de custear o achádego.
Aos objetos deixados em hotéis, lavanderias, etc., também se aplica esse processo de arrecadação, sendo considerada abusiva a cláusula que permite, após certo prazo, que o estabelecimento comercial apodere-se do objeto, ou o aliene para se ressarcir por despesas não pagas.
9. MODOS DE PERDA DA PROPRIEDADE
MNEMÔNICA: quem PERDE, P A R D A.
Em princípio, a propriedade é irrevogável, transmitindo-se aos sucessores por força da saisine. Todavia, perde-se voluntariamente por alienação, abandono e renúncia e, involuntariamente, pelo perecimento e desapropriação.
· PERECIMENTO: dá-se pela perda das qualidades essenciais da coisa.
· PERDA INVOLUNTÁRIA: pela arrematação, adjudicação, implemento de condição resolutiva, usucapião, casamento pela comunhão universal e confisco.
· ALIENAÇÃO: ato pelo qual o proprietário, por vontade própria, gratuita ou onerosamente, transfere a outrem seu direito sobre a coisa.
· RENÚNCIA: ATO UNILATERAL pelo qual o proprietário declara formal e explicitamente o propósito de despojar-se do direito de propriedade. Só se aplica aos BENS IMÓVEIS, com exceção do patrimônio móvel que se encerra no direito hereditário objeto de abdicação pelo herdeiro.
· DESAPROPRIAÇÃO: modo ORIGINÁRIO de aquisição e perda da propriedade, em face da intervenção estatal na propriedade privada.
· ABANDONO: é o ATO MATERIAL pelo qual o proprietário desfaz-se da coisa porque não quer mais ser seu dono. Por não ser um ato expresso como a renúncia, a derrelição deve resultar de ATOS EXTERIORES que atestem a manifesta intenção de abandonar. O mero desuso não implica em abandono, tem que haver o elemento psicológico. No NCC, surge uma PRESUNÇÃO ABSOLUTA de abandono do IMÓVEL quando o proprietário associar ao desuso (cessação dos atos de posse) o INADIMPLEMENTO dos TRIBUTOS REAIS (art. 1.276, §2º), privilegiando-se a função social da propriedade. A previsão é desarrazoada, porque o proprietário pode deixar de pagar o imposto, por exemplo, porque acredita que a cobrança é indevida. Há proposta de alteração para que seja considerado como uma PRESUNÇÃO RELATIVA. Écausa gratuita de perda da propriedade. Enunciados 242 e 243 do CJF: “Art. 1276: A aplicação do art. 1.276 depende do devido processo legal, em que seja assegurado ao interessado demonstrar a não-cessação da posse” e “Art. 1276: A presunção de que trata o §2º do art. 1.276 não pode ser interpretada de modo a contrariar a norma-princípio do art. 150, IV, da CF”. (proibição de tributo com efeito de confisco).
10. DA PROPRIEDADE RESOLÚVEL
A propriedade resolúvel constitui aquela que pode ser extinta pelo advento de condição (evento futuro e incerto) ou pelo termo (evento futuro e certo).
A atual codificação restringe-se a tratar da propriedade fiduciária de bens móveis, prevendo no seu art. 1.361 que se considera fiduciária a propriedade resolúvel de coisa móvel infungível que o devedor, com escopo de garantia transfere ao credor.
Art. 1.359. Resolvida a propriedade pelo implemento da condição ou pelo advento do termo, entendem-se também resolvidos os direitos reais concedidos na sua pendência, e o proprietário, em cujo favor se opera a resolução, pode reivindicar a coisa do poder de quem a possua ou detenha.
A propriedade é um direito de duração ilimitada e irrevogável, não comportando, em princípio, condição resolutiva ou termo final. Quando, entretanto, a duração da propriedade se subordina a acontecimento futuro certo ou incerto, previsto no próprio título constitutivo, está-se diante de uma propriedade resolúvel. O proprietário resolúvel age como proprietário pleno, enquanto não se verifica o evento futuro e incerto. Efetivando-se o termo final ou condição, resolvem-se todos os direitos concedidos em sua pendência. É uma das modalidades do domínio (Orlando Gomes).
Hipóteses: Fideicomisso, retrovenda, doação com cláusula de reversão, compra e venda com reserva de domínio e direitos autorais.
Distingue-se da propriedade ad tempus ou revogável (art. 1.360 do CC[footnoteRef:14]). Nesta inexiste cláusula contratual de limitação temporal quando de sua constituição, eis que a extinção do direito de propriedade decorre de um evento superveniente. Nestes casos pode haver a resolução, mas esta não pode prejudicar direitos adquiridos por terceiros, já que estes não podiam prevê-la. Casos: revogação de doação por ingratidão do donatário, revogação da doação por descumprimento do encargo e exclusão da sucessão por indignidade. [14: Art. 1.360. Se a propriedade se resolver por outra causa superveniente, o possuidor, que a tiver adquirido por título anterior à sua resolução, será considerado proprietário perfeito, restando à pessoa, em cujo benefício houve a resolução, ação contra aquele cuja propriedade se resolveu para haver a própria coisa ou o seu valor.]
Efeitos: aquele em favor do qual se opera a resolução investe-se no direito de propriedade como se esta nunca houvesse pertencido temporariamente ao proprietário resolúvel. A resolubilidade é oponível erga omnes.
11. DA PROPRIEDADE FIDUCIÁRIA
Ocorre quando o credor fiduciário adquire a propriedade resolúvel e a posse indireta de bem móvel recebido em garantia de financiamento efetuado pelo alienante, que se mantém na posse direta da coisa, resolvendo-se o direito fiduciário com a solução da dívida garantida. O objeto é BEM MÓVEL, por natureza, INFUNGÍVEL, DURÁVEL e INCONSUMÍVEL. É PACÍFICO que o bem que já integre o patrimônio do devedor pode ser objeto de propriedade fiduciária (Súmula 28 do STJ).
Obs.: A alienação fiduciária do Sistema Financeiro Imobiliário recai sobre BENS IMÓVEIS (Lei 9.514/97, art. 22). A propriedade fiduciária disciplinada no CC é um novo direito real de garantia, como o penhor, mas permite ao devedor gozar do bem.
Quatro são os fenômenos percebidos no âmbito da propriedade fiduciária: desdobramento da posse, constituto possessório, propriedade resolúvel e patrimônio de afetação. Há VEDAÇÃO da CLÁUSULA COMISSÓRIA, mas “o devedor pode, com a anuência do credor, dar seu direito eventual à coisa em pagamento da dívida, APÓS o VENCIMENTO desta” (CC, art. 1.365, § único).
A aquisição do domínio é ficta e o formalismo do ato completa-se com o registro do contrato no Cartório de Títulos e Documentos do domicílio do devedor ou na repartição competente para licenciamento do veículo automotor, com anotação no certificado de registro. Súmula 92 do STJ: “A terceiro de boa-fé não é oponível a alienação fiduciária não anotada no Certificado de Registro do veículo automotor”.
STJ – REsp 214.763/SP – Os bens alienados fiduciariamente por não pertencerem ao devedor executado, mas à instituição financeira que lhe proporcionou as condições necessárias para o financiamento do veículo automotor não adimplido, não pode ser objeto de penhora na execução fiscal. A alienação fiduciária não institui ônus real de garantia, mas opera a própria transmissão resolúvel do direito de propriedade.
Caso o próprio credor fiduciário seja responsabilizado por dívidas perante terceiros, no decurso do contrato, também não ficará o devedor fiduciante prejudicado. Apesar de a propriedade pertencer ao credor, trata-se de patrimônio de afetação, imune à ação de terceiros, posto reservado ao titular do direito eventual, que pode praticar os atos destinados a preservá-lo.
A Lei nº 9.514/97 que dispõe sobre o Sistema de Financiamento Imobiliário instituiu a modalidade de alienação fiduciária de coisa imóvel, mediante registro no ofício imobiliário. Com o advento dessa regra, o interessado na compra de um imóvel levantará, na instituição de sua preferência, o empréstimo para pagamento do preço de aquisição e, em garantia, efetuará a alienação fiduciária do imóvel ao credor, transferindo-lhe o domínio resolúvel e a posse indireta. Até a liquidação do débito, o devedor fiduciante será possuidor direito do imóvel. Na hipótese de o devedor fiduciante não purgar a mora no prazo de 15 dias, contados da intimação pelo Oficial do Registro Imobiliário, restará consolidada a propriedade em poder do credor fiduciante, após pagar o ITBI, sendo-lhe lícito aliená-la no prazo de 30 dias, a contar do registro que efetivou a consolidação. Em caso de resistência à desocupação, o credor fiduciário poderá manejar ação de reintegração de posse. Apesar da vedação do art. 1.365 do CC, excepcionalmente poderá o credor imobiliário conservar a coisa em seu patrimônio, se o segundo leilão vier a frustrar-se, adquirindo, então, propriedade plena.
Súmula 72, STJ – a comprovação da mora é imprescindível à busca e apreensão do bem alienado fiduciariamente (mora ex persona).
Súmula 245, STJ – a notificação destinada a comprovar a mora nas dívidas garantidas por alienação fiduciária DISPENSA a indicação do valor do débito.
No que se refere à previsão de prisão do devedor, atualmente a questão está pacificada no STF, conforme se abstrai da súmula vinculante 25:
“É ilícita a prisão civil de depositário infiel, qualquer que seja a modalidade do depósito”.
Leasing X Propriedade Fiduciária. O primeiro é arrendamento mercantil, por ex., uma pessoa pede dinheiro emprestado ao banco para comprar um equipamento; a instituição financeira compra o bem e irá arrendá-lo a essa pessoa, que será arrendatária e pagará prestações fixas sobre o bem. É um aluguel que o banco/proprietário (posse indireta) faz com a pessoa que terá a posse direta; desdobra-se a posse. Logo, o Leasing é contrato misto (mútuo/empréstimo e opção de compra e venda no final) e não é apenas locação. O leasing é direito obrigacional. Já a Propriedade Fiduciária é direito real, visto que ao final do pagamento o devedor adquire a propriedade.
*#DEOLHONAJURISPRUDÊNCIA: INFO. 540 – STJ – Julho de 2014.
Alienação fiduciária e pagamento integral da dívida após o cumprimento da liminar de busca e apreensão
Importante!!!
Nos contratos firmados na vigência da Lei 10.931/2004, compete ao devedor, no prazo de 5 (cinco) dias após a execução da liminar na ação de busca e apreensão, pagar a integralidade da divida entendida esta como os valores apresentados e comprovados pelo credor na Inicial-, sob pena de consolidação da propriedadedo bem móvel objeto de alienação fiduciária (STJ. 21 Seção. REsp 1.418.593-MS. ReI. Mm. Luis Felipe Salomão. julgado cm 14/5/2014 (recurso repetitivo).
Conceito:
A alienação fiduciária em garantia é um contrato instrumental em que uma das partes, em confiança, aliena a outra a propriedade de um determinado bem, ficando esta parte (uma instituição financeira, em regra) obrigada a devolver àquela o bem que lhe foi alienado quando verificada a ocorrência de determinado fato. (RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Direito Empresarial Esquematizado. São Paulo:
Método, 2012, p. 565).
Regramento:
O Código Civil de 2002 trata de forma genérica sobre a propriedade fiduciária em seus arts. 1.361 a 1.368-A. Existem, no entanto, leis específicas que também regem o tema:
•alienação fiduciária envolvendo bens imóveis: Lei nº 9.514/97;
• alienação fiduciária de bens móveis no âmbito do mercado financeiro e de capitais: Lei nº 94.728/65 e Decreto-Lei nº 911/69. É o caso, por exemplo, de um automóvel comprado por meio de financiamento bancário com garantia de alienação fiduciária.
Nas hipóteses em que houver legislação específica, as regras do CC/2002 aplicam-se apenas de forma subsidiária:
Art. 1.368-A. As demais espécies de propriedade fiduciária ou de titularidade fiduciária submetem-se à disciplina especifica das respectivas leis especiais, somente se aplicando as disposições deste Código naquilo que não for incompatível com a legislação especial.
Resumindo:
Alienação fiduciária de bens MÓVEIS fungíveis e infungíveis quando o credor fiduciário for instituição financeira
Alienação fiduciária de bens MÓVEIS infungíveis quando o credor fiduciário for pessoa natural ou jurídica (sem ser banco)
Alienação fiduciária de bens IMÓVEIS
Lei nº 4.728/65
Decreto-Lei nº 911/69
Código Civil de 2002
(arts. 1.361 a 1.368-B)
Lei nº 9.514/97
Imagine a seguinte situação hipotética:
Antônio quer comprar um carro de R$ 30.000,00, mas só possui R$ 10.000,00. Antônio procura o Banco “X”, que celebra com ele contrato de financiamento com garantia de alienação fiduciária. Assim, o Banco “X” empresta R$ 20.000,00 a Antônio, que compra o veículo. Como garantia do pagamento do empréstimo, a propriedade resolúvel do carro ficará com o Banco “X” e a posse direta com Antônio. Em outras palavras, Antônio ficará andando com o carro, mas, no documento, a propriedade do automóvel é do Banco “X” (constará “alienado fiduciariamente ao Banco X”). Diz-se que o banco tem a propriedade resolúvel porque, uma vez pago o empréstimo, a propriedade do carro pelo banco “resolve-se” (acaba) e o automóvel passa a pertencer a Antônio.
O que acontece em caso de inadimplemento do mutuário (em nosso exemplo, Antônio)? Havendo mora por parte do mutuário, o procedimento será o seguinte (regulado pelo DL 911/69):
• Protesto do título ou notificação do credor: o credor (mutuante) deverá fazer o protesto do título ou a notificação extrajudicial do devedor, por meio do Cartório de Registro de Títulos e Documentos, de que este se encontra em débito, comprovando, assim, a mora.
Súmula 72 do STJ: A comprovação da mora é imprescindível à busca e apreensão do bem alienado fiduciariamente.
Obs.: a notificação não precisa ser pessoal, bastando que seja entregue no endereço do devedor: “Na alienação fiduciária, a mora do devedor deve ser comprovada pelo protesto do título ou pela notificação extrajudicial feita por intermédio do Cartório de Títulos e Documentos, entregue no endereço do domicilio do devedor, sendo dispensada a sua notificação pessoal. STJ. 3ª Turma. AgRg no AREsp 418.617/RS, ReI. Mm. Sidnei Beneti, julgado em 06/02/2014.
• Ajuizamento da ação: após comprovar a mora, o mutuante (Banco X”) poderá ingressar com uma ação de busca e apreensão requerendo que lhe seja entregue o bem (art. 3º do DL 911/69).
Essa busca e apreensão prevista no DL 911/69 é uma ação especial autônoma e independente de qualquer procedimento posterior.
• Concessão da liminar: o juiz concederá a busca e apreensão de forma liminar (sem ouvir o devedor), desde que comprovada a mora ou o inadimplemento do devedor (art. 3º do DL 911/69).
• Apreensão do bem: o bem é apreendido e entregue ao credor.
• Possibilidade de pagamento integral da dívida: no prazo de 5 dias após o cumprimento da liminar (apreensão do bem), o devedor fiduciante poderá pagar a integralidade da dívida pendente, segundo os valores apresentados pelo credor fiduciário na inicial, hipótese na qual o bem lhe será restituído livre do ônus (§2º do art. 3º do DL 911/69). Veja o dispositivo legal:
Art. 3º (...)
§ 1º Cinco dias após executada a liminar mencionada no caput. consolidar-se-ão a propriedade e a posse plena e exclusiva do bem no patrim6nio do credor fiduciário, cabendo às repartições competentes, quando for o caso, expedir novo certificado de registro de propriedade em nome do credor, ou de terceiro por ele indicado, livre do ônus da propriedade fiduciária. (Redação dada pela Lei 10.931/2004);
§ 2º No prazo do § 1, o devedor fiduciante poderá pagar a integralidade da divida pendente, segundo os valores apresentados pelo credor fiduciário na inicial, hipótese na qual o bem lhe será restituído livre do ônus. (Redação dada pela Lei 10.931/2004)
O que se entende por “integralidade da divido pendente? Poro que o devedor consiga ter de volto o bem, ele deverá pagar todo o valor do financiamento ou somente as parcelas já vencidas e não pagas (purgação da mora)?
Ex: Antônio financiou o veiculo em 60 parcelas. A partir da 21ª prestação, ele começou a não mais pagar. Estão vencidas 5 parcelas. Para ter de volta o bem, ele terá que pagar somente os 5 parcelas vencidos (purgação da mora) ou todo o financiamento restante (40 parcelas)?
Todo o débito. Segundo decidiu o STJ, a Lei n.° 10.931/2004, que alterou o DL 911/69, não mais faculta ao devedor a possibilidade de purgação de mora, ou seja, não mais permite que ele pague somente as prestações vencidas.
Para que o devedor fiduciante consiga ter o bem de volta, ele terá que pagar a integralidade da dívida, ou seja, tanto as parcelas vencidas e vincendas (mais os encargos), no prazo de 5 dias após a execução da liminar.
Em nosso exemplo, Antônio terá que pagar, em 5 dias, as 40 parcelas restantes.
O devedor purga a mora quando ele oferece ao credor as prestações que estão vencidas e mais o valor dos prejuízos que este sofreu (art. 401, 1, do CC). Nesse caso, purgando a mora, o devedor consegue evitar as consequências do inadimplemento. Ocorre que na alienação fiduciária em garantia, a Lei n.° 10.931/2004 passou a não mais permitir a purgação da mora.
Vale ressaltar que o tema foi decidido em sede de recurso repetitivo tendo o STJ firmado a seguinte conclusão, que será aplicada em todos os processos semelhantes:
Nos contratos firmados na vigência da Lei n.° 10.931/2004, que alterou o art. 3º, §§ 1º e 2º, do Decreto-lei 911/1969, compete ao devedor, no prazo de cinco dias após a execução da liminar na ação de busca e apreensão, pagar a integralidade da dívida — entendida esta como os valores apresentados e comprovados pelo credor na inicial —, sob pena de consolidação da propriedade do bem móvel objeto de alienação fiduciária.
Nos contratos anteriores à vigência da Lei n.° 10.931/2004, é permitida o purgação do mora? SIM. Antes da Lei n.° 10.931/2004 era permitida a purgação da mora, desde que o devedor já tivesse pago no mínimo 40% do valor financiado. Tal entendimento estava, inclusive, consagrado em um
enunciado do STJ:
Súmula 284-STJ: A purga da mora, nos contratos de alienação fiduciária, só é permitida quando já pagos pelo menos 40% (quarenta por cento) do valor financiado.
A súmula 284-STJ ainda é válida?
Para contratos anteriores à Lei 10.931/2004: SIM.
Para contratos posteriores à Lei 10.931/2004: NÃO.
• Contestação: no prazo de 15 dias após o cumprimento da liminar (apreensão do bem), o devedor fiduciante apresentará resposta (uma espécie de contestação).
Obs.1: a resposta poderá ser apresentada, ainda que o devedor tenha decidido pagara integralidade da dívida, caso entenda ter havido pagamento a maior e deseje a restituição.
Obs2: nesta defesa apresentada pelo devedor, é possível que ele invoque a ilegalidade das cláusulas contratuais (ex: juros remuneratórios abusivos). Se ficar provado que o contrato era abusivo, isso justificaria o inadimplemento e descaracterizaria a mora.
• Sentença: da sentença proferida, cabe apelação apenas no efeito devolutivo.
Em alienação fiduciária de bem imóvel (Lei nº 9.514/1997), é nula a intimação do devedor para oportunizar a purgação de mora realizada por meio de carta com aviso de recebimento quando esta for recebida por pessoa desconhecida e alheia à relação jurídica. STJ. 3ª Turma. REsp 1.531.144-PB, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 15/3/2016 (Info 580).
Comparando:
- Alienação fiduciária de bens imóveis: o devedor deve ser intimado pessoalmente para que haja a constituição em mora (art. 26 da Lei nº 9.504/97).
- Alienação fiduciária de bens móveis: a mora decorre do simples vencimento do prazo para pagamento e poderá ser comprovada por carta registrada com aviso de recebimento, não se exigindo que a assinatura constante do referido aviso seja a do próprio destinatário (art. 2º, § 2º do DL 911/69).
12. ARRENDAMENTO RURAL
Arrendamento rural é um contrato por meio do qual o arrendador aluga um imóvel que será utilizado por outra pessoa (arrendatário) para a exploração de atividade rural (agrícola, pecuária, granjeira, etc.). Veja definição mais completa do instituto dada pelo Min. Ricardo Cueva: "O arrendamento rural é o contrato agrário pelo qual uma pessoa (arrendatário) se obriga a ceder a outra (arrendador), por tempo determinado ou não, o uso e gozo de imóvel rural, total ou parcialmente, incluindo, ou não, outros bens, benfeitorias e ou facilidades, com o objetivo de que nele seja exercida atividade de exploração agrícola, pecuária, agroindustrial, extrativa ou mista, mediante certa retribuição ou aluguel."
O contrato de arrendamento rural é regido pelo Estatuto da Terra (Lei nº 4.504/64) e pelo Decreto nº 59.566/66.
CONTRATO DE ARRENDAMENTO RURAL. Contrato de arrendamento rural como prova escrita para ação monitória. É nula cláusula contratual que fixa o preço do arrendamento rural em frutos ou produtos ou seu equivalente em dinheiro, nos termos do art. 18, parágrafo único, do Decreto nº 59.566/66. Essa nulidade não obsta que o credor proponha ação de cobrança, caso em que o valor devido deve ser apurado, por arbitramento, em liquidação. Além disso, o contrato de arrendamento rural que estabelece pagamento em quantidade de produtos pode ser usado como prova escrita para se ajuizar ação monitória com a finalidade de determinar a entrega de coisa fungível, considerando que é indício da relação jurídica material subjacente. STJ. 3ª Turma. REsp 1.266.975-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 10/3/2016 (Info 580).
*(Atualizado em 18/06/2022) #DEOLHONAJURIS #DIZERODIREITO
O indivíduo beneficiado com um imóvel do PAR (arrendatário do imóvel) pode ceder esse direito para outra pessoa?
A cessão, pelo arrendatário do imóvel, de posição contratual ou de direitos decorrentes de contrato de arrendamento residencial no âmbito do PAR, somente será válida se forem cumpridos os seguintes requisitos: I) atendimento, pelo novo arrendatário, dos critérios para ingresso no PAR; II) respeito de eventual fila para ingresso no PAR; e III) consentimento prévio pela Caixa Econômica Federal, na condição de agente operadora do Programa. STJ. 3ª Turma. REsp 1.950.000-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 22/03/2022 (Info 731).
13. LEI 13.465/2017 E A REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA*
A Lei 13.465/2017 trouxe regras relativas à:
· Regularização fundiária URBANA e RURAL;
· Reforma Agrária;
· Regularização de terras da União ocupadas na Amazônia Legal;
· Novos mecanismos para alienação de imóveis da União.
CONTEXTUALIZANDO...
Tivemos, a partir da Lei 11.977/09[footnoteRef:15], uma relevante flexibilização nos parâmetros urbanísticos na ordem jurídica brasileira. E aqui não se trata de incentivar, irresponsavelmente, o surgimento de novas e múltiplas ocupações informais, mas sim reconhecer que o ordenamento jurídico brasileiro não pode dar as costas para situações consolidadas.[footnoteRef:16] [15: Lei do Minha Casa Minha Vida.] [16: Estima-se que mais de 50% dos domicílios urbanos trazem alguma espécie de irregularidade fundiária.]
Inicialmente, a Lei11.977/2009, além de regulamentar o “Programa Minha casa, Minha vida”, regulamentava também a regularização fundiária urbana. Os dispositivos originais que tratavam da regularização fundiária foram modificados pela MP 759/2016. No entanto, recentemente, a referida MP fora convertida em lei a novíssima Lei 13.465/2017.
Lei 11.977/2009
MP 759/2016
Lei 13.456/2017
A Lei 13.465/2017 – embora criticável em muitos pontos[footnoteRef:17] – traz um claro propósito de facilitar a regularização fundiária. [17: O planejamento urbano adequado não se traduz apenas na formalização de certas situações consolidadas (concedendo títulos aos ocupantes dessas áreas), mas consiste em integrar as múltiplas dimensões da cidade. Gente, vamos combinar que de nada adianta conceder maior segurança jurídica à determinada ocupação se não há, por exemplo, transporte público para capaz de fazer uma integração razoável com o resto da cidade.]
Considerando ser uma Lei novíssima, nossa ideia aqui é destacar os seus principais pontos.
Quer uma dica? Ao abrir a Lei 13.456/2017, vamos pular diretamente para o título II, que trata da Regularização Fundiária Urbana.[footnoteRef:18] [18: O Título I trata da regularização fundiária rural e as alterações realizadas em leis correlatas.]
A lei possui 4 títulos. Mirem!
TÍTULO I - DA REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA RURAL
TÍTULO II - DA REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA URBANA
TÍTULO III - DOS PROCEDIMENTOS DE AVALIAÇÃO E ALIENAÇÃO DE IMÓVEIS DA UNIÃO
TÍTULO IV - DISPOSIÇÕES FINAIS
A ideia é focar no título II, pois ele traz os conceitos e institutos jurídicos principais da lei e, portanto, com mais chances de cair numa prova objetiva de vocês caso seja cobrada essa lei! #ATENÇÃO #FICADEOLHO #LIGAOSENSORARANHA.
O novo texto legal dedica atenção especial à Regularização Fundiária Urbana – apelidado de REURB.
Conceito A regularização fundiária urbana compreende medidas jurídicas, urbanísticas, ambientais e sociais que buscam a regularização de núcleos urbanos informais.[footnoteRef:19] [19: Art. 9º da Lei 13.465/2017.]
Mira agora nos PRINCÍPIOS[footnoteRef:20] que devem ser observados pelo Poder Público no contexto da REURB: [20: Art. 9º, §1º da Lei 13.465/2017.]
[footnoteRef:21] [21: Note o “raminha” do Princípio “Orientação Territorial”, que ficou fora da festinha.]
Ei! Não esquece de mim! Sou a ORIENTAÇÃO TERRITORIAL!
MODALIDADES DA REURB[footnoteRef:22] [22: Art. 13 da Lei 13.465/2017.]
REURB-S
REURB-E
Reurb de interesse social.
Reurb de interesse específico
· Regularização fundiária aplicável aos núcleos urbanos informais ocupados predominantemente por população de baixa renda, assim declarados em ato do Poder Executivo municipal.
· Regularização fundiária aplicável aos núcleos urbanos informais ocupados por população não qualificada na hipótese da REURB-S.
Já vimos o conceito e as modalidades da Reurb, mas quais são os seus objetivos? Mira...
OBJETIVOS DA REURB[footnoteRef:23] [23: Art. 10 da Lei 13.465/2017.]
Identificar, organizar e assegurar prestação de serviço público aos núcleos urbanos informais.
Criar unidades imobiliárias compatíveis com o ordenamento territorial urbano e constituir sobre elas direitos reais em favor dos seus ocupantes.
Ampliar o acesso à terra urbanizada pela população de baixa renda, de modo a priorizar a permanência dos ocupantes nos próprios núcleos urbanos informais regularizados.
Promover a integração social e a geração de emprego e renda.
Estimular a resolução extrajudicial de conflitos.[footnoteRef:24] [24: #OLHAOGANCHO art. 4, II da LC80/94.]
Garantiro direito social à moradia digna e às condições de vida adequadas.[footnoteRef:25] [25: Olha o artigo dando densidade normativa ao art. 6 da CF/88. ]
Garantir a efetivação da função social da propriedade.[footnoteRef:26] [26: Densidade normativa de novo para a nossa CF/88 Art. 5º, XXIII.]
Ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.[footnoteRef:27] [27: Tem como não lembrar do Estatuto das Cidades? Essa lei bate um papo delícia em vários pontos da Lei 10.257/01, conforme vocês verão na Tabela dos Instrumentos da REURB #ZONADESPOILER! ]
Concretizar o princípio constitucional da eficiência na ocupação e no uso do solo.
Prevenir e desestimular a formação de novos núcleos urbanos informais.
Conceder direitos reais, preferencialmente em nome da mulher.
Franquear participação dos interessados nas etapas do processo de regularização fundiária.
No art. 11 da Lei, você pode ainda identificar os conceitos de:
· Núcleo urbano;
· Núcleo urbano informal[footnoteRef:28]; [28: #OLHAOGANCHO Art. 59. Serão regularizados como conjuntos habitacionais os núcleos urbanos informais que tenham sido constituídos para a alienação de unidades já edificadas pelo próprio empreendedor, público ou privado. ]
· Núcleo urbano informal consolidado[footnoteRef:29]; [29: art. 23.]
· Demarcação urbanística[footnoteRef:30]; [30: #OLHAOGANCHO artigos 19 a 22. ]
· Certidão de Regularização Fundiária (CRF)[footnoteRef:31]; [31: Mira o art. 41 dessa lei.]
· Legitimação de posse[footnoteRef:32]; [32: Legitimação de posse é um dos instrumentos da REURB (Art. 15, I da Lei). Corre lá para o art. 25 da Lei e veja os principais pontos sobre a legitimação de posse.]
· Legitimação fundiária[footnoteRef:33]; [33: A Legitimação fundiária é também um dos instrumentos da REURB (Art. 15, I da Lei). Os artigos 23 e 24 trazem mais detalhes sobre ela.]
· Ocupante.
INSTRUMENTOS DA REURB[footnoteRef:34] [34: Art. 15 da Lei 10.465/17]
O art. 15 da Lei 13.465/17 traz um rol exemplificativo de institutos jurídicos que poderão ser utilizados no âmbito da REURB. São eles: #TABELINHADELEI
Legitimação fundiária e a legitimação de posse.
Usucapião em todas as suas modalidades.[footnoteRef:35] [35: arts. 1.238 a 1.244 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), dos arts. 9o a 14 da Lei no 10.257, de 10 de julho de 2001, e do art. 216-A da Lei de Registros Públicos.]
Desapropriação em favor dos possuidores.[footnoteRef:36] [36: §§ 4o e 5o do art. 1.228 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil).]
Arrecadação de bem vago.[footnoteRef:37] [37: art. 1.276 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil).]
Consórcio imobiliário.[footnoteRef:38] [38: art. 46 da Lei no 10.257, de 10 de julho de 2001.]
Desapropriação por interesse social.[footnoteRef:39] [39: inciso IV do art. 2o da Lei no 4.132, de 10 de setembro de 1962.]
Direito de preempção.[footnoteRef:40] [40: inciso I do art. 26 da Lei no 10.257, de 10 de julho de 2001.]
Transferência do direito de construir.[footnoteRef:41] [41: inciso III do art. 35 da Lei no 10.257, de 10 de julho de 2001.]
Requisição, em caso de perigo público iminente.[footnoteRef:42] [42: § 3o do art. 1.228 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil).]
Intervenção do poder público em parcelamento clandestino ou irregular.[footnoteRef:43] [43: art. 40 da Lei no 6.766, de 19 de dezembro de 1979.]
Alienação de imóvel pela administração pública diretamente para seu detentor.[footnoteRef:44] [44: alínea f do inciso I do art. 17 da Lei no 8.666, de 21 de junho de 1993.]
Concessão de uso especial para fins de moradia.
Concessão de direito real de uso.
Doação.
Compra e venda.
Confiram aí os legitimados para requerer a REURB na forma do art. 14 da Lei 13.465/2017.
ROL DOS LEGITIMADOS
· A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, diretamente ou por meio de entidades da administração pública indireta;
· Os seus beneficiários, individual ou coletivamente, diretamente ou por meio de cooperativas habitacionais, associações de moradores, fundações, organizações sociais, organizações da sociedade civil de interesse público ou outras associações civis que tenham por finalidade atividades nas áreas de desenvolvimento urbano ou regularização fundiária urbana;
· Os proprietários de imóveis ou de terrenos, loteadores ou incorporadores;
· A Defensoria Pública, em nome dos beneficiários hipossuficientes; e
· O Ministério Público.
Os legitimados poderão promover todos os atos necessários à regularização fundiária, inclusive requerer os atos de registro.
#ATENÇÃO: Tem como fazer regularização fundiária em APP- Área de Preservação Permanente?
· Sim!
A Lei 13.465/2017 expressamente permitiu a regulação fundiária urbana (Reurb) de núcleos urbanos informais em áreas de preservação permanente, hipótese na qual é obrigatória a elaboração de estudos técnicos.
A previsão está expressa no art. 11, §2º.
Galera, para finalizar, vamos mapear os artigos do Código Civil que foram alterados pela Lei 13.465/17. Isso é muito divertido!
* ALTERAÇÕES DA LEI 13.465/17 NO CC/02
Antes da #TABELINHADELEI, já adianto que a principal alteração no CC/02 foi a que aumenta o rol de direitos reais, acrescentando os incisos XII (concessão de direito real de uso[footnoteRef:45]) e XIII (a laje), ambos do art. 1.225 do CC/02. [45: Essa amiguinha apareceu no CC/02 em 2007 pela Lei 11.481/07. Depois rolaram as MPs 700/15 e 759/2016 tratando dela. Hoje, a alteração no CC/02 é feita pela Lei 13.465/2017.]
Artigos
Institutos
Art. 1.125, XII e XIII
Concessão de direito real e uso e laje. #DIREITODESOBRELEVAÇÃO
Art. 1.358-A
Condomínio de Lotes
Art. 1.510-A a 1.510-E
DA LAJE[footnoteRef:46] [46: Houve um detalhamento muito maior em relação à antiga redação dada pela MP 759/2016.]
ARRECADAÇÃO DE IMÓVEIS ABANDONADOS
Os imóveis urbanos privados abandonados cujos proprietários não possuam a intenção de conservá-los em seu patrimônio ficam sujeitos à arrecadação pelo Município ou pelo Distrito Federal na condição de bem vago. Respeitado o procedimento de arrecadação, o Município poderá realizar, diretamente ou por meio de terceiros, os investimentos necessários para que o imóvel urbano arrecadado atinja prontamente os objetivos sociais a que se destina. Os imóveis arrecadados poderão ser destinados à regularização fundiária de interesse específico (Reurb-E) ou a entidades filantrópicas, assistenciais, educativos, esportivos ou outros. Houve a regulamentação da arrecadação de imóveis abandonados, na forma do art. 1.276 do Código Civil.
Vamos relembrar o artigo 1.276 do CC/02?
Art. 1.276. O imóvel urbano que o proprietário abandonar, com a intenção de não mais o conservar em seu patrimônio, e que se não encontrar na posse de outrem, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade do Município ou à do Distrito Federal, se se achar nas respectivas circunscrições.
§ 1º O imóvel situado na zona rural, abandonado nas mesmas circunstâncias, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade da União, onde quer que ele se localize.
§ 2º Presumir-se-á de modo absoluto a intenção a que se refere este artigo, quando, cessados os atos de posse, deixar o proprietário de satisfazer os ônus fiscais.
Lei 13.465/17, Art. 64. Os imóveis urbanos privados abandonados cujos proprietários não possuam a intenção de conservá-los em seu patrimônio ficam sujeitos à arrecadação pelo Município ou pelo Distrito Federal na condição de bem vago.
§ 1º A intenção referida no caput deste artigo será presumida quando o proprietário, cessados os atos de posse sobre o imóvel, não adimplir os ônus fiscais instituídos sobre a propriedade predial e territorial urbana, por cinco anos.
§ 2º O procedimento de arrecadação de imóveis urbanos abandonados obedecerá ao disposto em ato do Poder Executivo municipal ou distrital e observará, nomínimo:
I - abertura de processo administrativo para tratar da arrecadação;
II - comprovação do tempo de abandono e de inadimplência fiscal;
III - notificação ao titular do domínio para, querendo, apresentar impugnação no prazo de trinta dias, contado da data de recebimento da notificação.
§ 3º A ausência de manifestação do titular do domínio será interpretada como concordância com a arrecadação.
§ 4º Respeitado o procedimento de arrecadação, o Município poderá realizar, diretamente ou por meio de terceiros, os investimentos necessários para que o imóvel urbano arrecadado atinja prontamente os objetivos sociais a que se destina.
§ 5º Na hipótese de o proprietário reivindicar a posse do imóvel declarado abandonado, no transcorrer do triênio a que alude o art. 1.276 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), fica assegurado ao Poder Executivo municipal ou distrital o direito ao ressarcimento prévio, e em valor atualizado, de todas as despesas em que eventualmente houver incorrido, inclusive tributárias, em razão do exercício da posse provisória.
#FOCANESSEAQUI! Art. 65. Os imóveis arrecadados pelos Municípios ou pelo Distrito Federal poderão ser destinados aos programas habitacionais, à prestação de serviços públicos, ao fomento da Reurb-S ou serão objeto de concessão de direito real de uso a entidades civis que comprovadamente tenham fins filantrópicos, assistenciais, educativos, esportivos ou outros, no interesse do Município ou do Distrito Federal.
#OLHAASOPÇÕES:
Os imóveis arrecadados pelos Municípios ou pelo Distrito Federal poderão ser destinados a:
1. Programas habitacionais;
1. À prestação de serviços públicos;
1. Ao fomento da Reurb-S, ou;
1. Poderão ser objeto de concessão de direito real de uso a entidades civis que comprovadamente tenham fins filantrópicos, assistenciais, educativos, esportivos ou outros, no interesse do Município ou do Distrito Federal.
14. PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA – PMCMV*
O “Minha Casa Minha Vida” é, antes de tudo, uma “marca”, sob a qual se organiza uma série de subprogramas, modalidades, fundos, linhas de financiamento, tipologias habitacionais, agentes operadores, formas de acesso ao produto “casa própria” – esta sim uma característica que unifica as diferentes experiências.
O Minha Casa Minha Vida é, na origem, um programa econômico. Foi concebido pelos ministérios de “primeira linha” – Casa Civil e Fazenda – em diálogo com o setor imobiliário e da construção civil, e lançado como Medida Provisória (MP 459) em março de 2009. Após, houve a promulgação da Lei 11.977/2009. Tcharan!! E foi assim que surgiu o PMCMV – Programa Minha, Casa Minha Vida.
E o que pode ser cobrado do #PMCMV em prova?
Finalidade:
1. Aquisição de novas unidades habitacionais;
1. Requalificação de imóveis urbanos;
1. Produção ou reforma de habitações rurais.
Renda Familiar Mensal:
· R$4.650,00[footnoteRef:47] [47: O DECRETO Nº 7.499, DE 16 DE JUNHO DE 2011, regulamentando a Lei 11.977/09, fixou a renda em R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Olha o que diz o art. 3º, §3º da Lei 11.977/09 autoriza o Poder Executivo a realizar a atualização dos valores.]
Subprogramas:
· Programa Nacional de Habitação Urbana – PNHU;
· Programa Nacional de Habitação Rural - PNHR
Art. 1º O Programa Minha Casa, Minha Vida - PMCMV tem por finalidade criar mecanismos de incentivo à produção e aquisição de novas unidades habitacionais ou requalificação de imóveis urbanos e produção ou reforma de habitações rurais, para famílias com renda mensal de até R$ 4.650,00 (quatro mil, seiscentos e cinquenta reais) e compreende os seguintes subprogramas: (Redação dada pela Lei nº 12.424, de 2011)
I - O Programa Nacional de Habitação Urbana (PNHU); (Redação dada pela Lei nº 13.173, de 2015)
II - O Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR); e (Redação dada pela Lei nº 13.173, de 2015).
O dispositivo traz CONCEITOS:
1. Grupo familiar;
1. Imóvel novo;
1. Oferta pública de recursos;
1. Requalificação de imóveis urbanos;
1. Agricultor familiar;
1. Trabalhador Rural;
PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 1º
Para os fins desta Lei, considera-se: (Redação dada pela Lei nº 13.173, de 2015)
I - Grupo familiar: unidade nuclear composta por um ou mais indivíduos que contribuem para o seu rendimento ou têm suas despesas por ela atendidas e abrange todas as espécies reconhecidas pelo ordenamento jurídico brasileiro, incluindo-se nestas a família unipessoal; (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
II - Imóvel novo: unidade habitacional com até 180 (cento e oitenta) dias de “habite-se”, ou documento equivalente, expedido pelo órgão público municipal competente ou, nos casos de prazo superior, que não tenha sido habitada ou alienada; (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
III - oferta pública de recursos: procedimento realizado pelo Poder Executivo federal destinado a prover recursos às instituições e agentes financeiros do Sistema Financeiro da Habitação - SFH para viabilizar as operações previstas no inciso III do art. 2o; (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
IV - Requalificação de imóveis urbanos: aquisição de imóveis conjugada com a execução de obras e serviços voltados à recuperação e ocupação para fins habitacionais, admitida ainda a execução de obras e serviços necessários à modificação de uso; (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
V - Agricultor familiar: aquele definido no caput, nos seus incisos e no § 2o do art. 3o da Lei no 11.326, de 24 de julho de 2006; e (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
VI - Trabalhador rural: pessoa física que, em propriedade rural, presta serviços de natureza não eventual a empregador rural, sob a dependência deste e mediante salário. (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
Requisito para ser beneficiário:
· Renda familiar[footnoteRef:48]. [48: O Poder Executivo Federal pode definir faixas de renda de acordo com a modalidade da operação.]
Prioridades Legais[footnoteRef:49]: [49: Você percebeu que essas prioridades legais dão eficácia ao comando constitucional previsto no art. 226? #OLHAOGANCHO: As famílias têm especial proteção do Estado e olha a Lei do PMCMV fazendo isso! ]
· Famílias residentes em áreas de risco, insalubres desabrigadas por conta de: enchente, alagamento ou outro desastre natural do gênero;
· Famílias com mulheres responsáveis[footnoteRef:50] pela unidade familiar; [50: #GIRLPOWER! Como se sabe, o aborto, em tese, não é permitido no Brasil. No entanto, essa proibição é só para as Mulheres, pois os homens abortam diariamente seus filhos, abandonando-os ou nem os assumindo.]
· Famílias com pessoas com deficiência.
Art. 3º Para a indicação dos beneficiários do PMCMV, deverão ser observados os seguintes requisitos
I - Comprovação de que o interessado integra família com renda mensal de até R$ 4.650,00 (quatro mil, seiscentos e cinquenta reais); (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
II - Faixas de renda definidas pelo Poder Executivo federal para cada uma das modalidades de operações; (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
III - prioridade de atendimento às famílias residentes em áreas de risco, insalubres, que tenham sido desabrigadas ou que perderam a moradia em razão de enchente, alagamento, transbordamento ou em decorrência de qualquer desastre natural do gênero; (Redação dada pela Lei nº 13.274, de 2016)
IV - Prioridade de atendimento às famílias com mulheres responsáveis pela unidade familiar; e (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
V - Prioridade de atendimento às famílias de que façam parte pessoas com deficiência. (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011).
Requisitos para implantação dos empreendimentos:
· Localização do terreno em malha urbana ou em área de expansão, observando o Plano Diretor;
· Adequação ambiental;
· Infraestrutura básica que inclua:
- Vias de Acesso;
- Iluminação Pública
- Saneamento;
- Energia Elétrica;
- Abastecimento de água.
· Compromisso do poder público para instalação/ampliação de serviços relacionados a:
- Educação;
- Saúde;
- Lazer;
- Transporte Público.
Art. 5o-A. Para a implantação