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REDE DE DISCIPULADO 2
ARIVAL DIAS CASIMIRO
REDE DE DISCIPULADO 2
autor
Arival Dias Casimiro
editor responsável
Alberto José Bellan
revisão
Juana del Carmen C. Campos
Rachel Negrão Fernandes Rocha
capa, produção e diagramação
Z3 IDEIAS LTDA
imagem da capa
Shutterstock Images
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Casimiro, Arival Dias
Rede de Discipulado 2 / Arival Dias Casimiro – Santa Bárbara d’Oeste, SP : Z3
Editora, 2015.
1. Discipulado (Cristianismo) 2. Fé 3. Formação Espiritual - Estudo e ensino 4.
Vida Cristã
I. Título.
15-01403
CDD-248.4
Índices para catálogo sistemático:
1. Discipulado : Formação Espiritual : Prática Religiosa : Cristianismo 248.4
2ª Edição
Abril de 2019
copyright © 2020
por Z3 Editora
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SUMÁRIO
Apresentação
Introdução
Estudos
A Bíblia Sagrada
A Pessoa de Deus
A Criação de Todas as Coisas
Os Decretos e a Providência de Deus
O Pecado Original e suas Consequências
A Aliança da Graç
A Pessoa de Jesus
Os Ofícios de Cristo
A Pessoa e a Obra do Espírito Santo
Eleitos para a Salvação
A Aplicação da Salvação
A Igreja de Deus
O Batismo Cristão
A Ceia do Senhor
Disciplina na Igreja
Domingo: O Dia do Senhor
A Segunda Vinda de Jesus
A Ressurreição do Corpo e o Juízo Final
Landmarks
Cover
APRESENTAÇÃO
Sinto-me honrado pelo subido privilégio de apresentar aos leitores esta nova
obra de Arival Dias Casimiro, Rede de Discipulado 2. Faço-o com entusiasmo e
grande alegria. E isso, por três razões eloquentes:
Em primeiro lugar, porque conheço o autor desta obra. Arival é um homem de
Deus, um servo fiel do Altíssimo, um pastor de almas, um obreiro aprovado, um
vaso de honra nas mãos de Deus. Sua vida e seu ministério são avalistas de suas
palavras. Tenho a grata alegria de trabalhar com ele, como pastor colaborador da
Igreja Presbiteriana de Pinheiros. Sou testemunha de seu amor a Jesus, de seu
zelo pelo evangelho, de sua dedicação à igreja de Cristo. Arival é um homem
apaixonado pelo que faz. Sua mente peregrina, seu espírito irrequieto, sua vida
completamente consagrada à causa do evangelho são realidades notórias. Arival
é um pregador ungido, um visionário incomum, um pastor amoroso, um escritor
de escol, um plantador de igrejas como poucos.
Em segundo lugar, porque conheço a obra deste autor. Arival é um homem
estudioso que jamais cessa de buscar as riquezas insondáveis do evangelho de
Cristo. Sua fidelidade às Escrituras é uma verdade inegociável. Seu
compromisso com as doutrinas bíblicas é um fato incontroverso. O texto que o
leitor tem nas mãos é uma prova cabal do que acabo de dizer. O autor trata de
verdades profundas, de doutrinas pivotais da fé cristã, e faz isso, com clareza
diáfana sem deixar de ser profundo. Faz isso com precisão cirúrgica sem deixar
de ser completo.
Em terceiro lugar, porque conheço a necessidade e a relevância desta obra.
Muito embora vivamos num paraíso de abundante literatura cristã, constatamos
um gritante analfabetismo bíblico em terras brasileiras. Poucos são aqueles que
se debruçam sobre as doutrinas bíblicas para examiná-las, para vivê-las e para
proclamá-las. Este livro atende a essa necessidade. Minha oração é que esta obra
seja estudada em grupos pequenos, em salas de Escola Bíblica Dominical e no
discipulado pessoal ou coletivo.
Que o Eterno Deus, seja glorificado por este trabalho e que muitas pessoas sejam
alcançadas por esta mensagem viva, que emana das Escrituras.
Boa leitura!
Hernandes Dias Lopes
INTRODUÇÃO
A missão da Igreja é fazer discípulos para Jesus, “ensinando-os a guardar todas
as coisas que vos tenho ordenado” (Mateus 28.20). Tudo o que precisamos
ensinar e aprender a respeito de Jesus está registrado na Bíblia. E para
ensinarmos corretamente precisamos sistematizar tudo o que a Bíblia diz sobre
um determinado assunto. Por exemplo, se o assunto é “pecado”, precisamos
estudar tudo que a Palavra de Deus ensina sobre isso.
O apóstolo Paulo chama de “sã doutrina” todo o conteúdo bíblico que
precisamos apreender e ensinar. A palavra “sã” significa “pura e verdadeira”. E
uma doutrina é o que a Bíblia, como um todo, nos ensina acerca de algum tópico
específico.
Por que devemos apreender e ensinar a “sã doutrina”? Algumas respostas
bíblicas: para desenvolver a nossa maturidade (Ef 4.14-16); para crescer
espiritualmente (Hb 5.11-14); para viver, orar e cantar a nossa fé (Dt 8.3); para
não sermos enganados pelo falso ensino (2Tm 4.1-5); e para cumprir a Grande
Comissão (Mt 28.19,20).
O verdadeiro discípulo é um “eterno aprendiz”. O verdadeiro discipulado é
ensinar de forma sistemática tudo o que Jesus ordenou.
Este volume do Rede de Discipulado é um complemento do primeiro. O seu
conteúdo é uma visão panorâmica das principais doutrinas bíblicas. O seu
propósito é fornecer conteúdo para a fé do discípulo. Desejamos despertar o
interesse do discípulo para aprofundar o seu conhecimento da Palavra de Deus.
Oramos para que você estude as doutrinas bíblicas com humildade, oração,
inteligência, dependência do Espírito Santo, obediência e espírito de adoração.
Bom estudo!
Arival Dias Casimiro
Estudo 01
Texto Básico: 2 Timóteo 3.16,17
A BÍBLIA SAGRADA
Introdução
Howard Hendricks diz: “Só duas coisas neste mundo são eternas: a Palavra de
Deus e as pessoas”. Somente a Palavra e as pessoas duram para sempre. Por isso
devemos pregar a Palavra e amar as pessoas. A vida passa, mas aquele que
obedece a Palavra de Deus permanece para sempre.
Cremos que a Bíblia é a revelação escrita da vontade de Deus para os homens.
Conhecemos a pessoa de Deus e aquilo que Ele pensa e faz, por meio da Bíblia.
Aceitamos a Bíblia como a nossa única regra de fé e de conduta. Cremos
somente no que está escrito na Bíblia e praticamos somente o que ela exige. “A
Bíblia, toda a Bíblia e nada mais do que a Bíblia, é a religião da igreja de Cristo”
(C. H. Spurgeon).
A palavra “Bíblia” é de origem grega e significa “rolos” ou “livros”. A Bíblia
contém 66 livros (39 no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento), escritos
por 40 autores, abrangendo um período de aproximadamente mil e seiscentos
anos.
O texto básico para este estudo diz: Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil
para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a
fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda
boa obra (2 Tm 3.16,17). A partir dele, responderemos a três perguntas sobre a
Escritura (BÍBLIA).
1. QUAL A NATUREZA DA BÍBLIA?
Toda a Escritura é inspirada por Deus. Literalmente, a Escritura é “expirada
por Deus” ou “soprada por Deus”. A expressão grega “theopneustos” (Theos =
Deus + pneu = sopro ou expiração). A ideia é que a Bíblia foi “soprada” por
Deus (Sl 33.6). Ele a inspirou tanto na forma quanto no conteúdo. A inspiração
foi verbal e plenária.
Verbal
Por “verbal”, entende-se que as palavras da Bíblia foram dadas pelo Espírito
Santo aos seus escritores. Deus inspirou-os na seleção das palavras, isentando-os
de erros no registro dos fatos e de doutrinas. Claro que o Espírito Santo respeitou
suas características de estilo, vocabulário e formação intelectual. O apóstolo
Pedro explica: Homens (santos) falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito
Santo (2 Pe 1.21).
Plenária
Entende-se que é “plena” e igualmente inspirada em todas as suas partes. A
expressão “toda a Escritura” abrange dois aspectos: (1) Que a inspiração envolve
as ideias e as palavrasdos escritores. Não é possível inspirar conceitos e ideias
sem inspirar palavras
ou figuras (2Sm 23.2; Jo 17.8). O Espírito Santo inspirou as ideias e as palavras
dos escritores bíblicos. (2) Que a inspiração estende-se a todas as partes da
Bíblia. Inclui os sessenta e seis livros: trinta e nove do Antigo Testamento e os
vinte e sete do Novo Testamento. Compreende os ensinos doutrinários,
teológicos, éticos, fatos históricos, poesia e descrições científicas. A inspiração
não é parcial, mas completa.
Tal conceito faz com que a Bíblia reivindique para si mesma, alguns atributos:
(1) Ela é infalível ou não pode falhar (Sl 119; Jo 10.35; Mt 5.17,18). (2) Ela é
inerrante em seus manuscritos originais (Sl 19.7-10; Pv 30.5). (3) Ela é completa
e não deve ser acrescentada ou diminuída (Dt 4.2; Ap 22.18,19). (4) Ela é eficaz
e poderosa na sua ação (Is 55.10,11; Hb 4.12,13). (5) Ela é autoridade suprema
nas questões de fé e comportamento (Mt 22.29; Jo 16.17).
Aplicações práticas:
Crer na Bíblia significa aceitar a sua autoridade em todas as áreas da nossa vida.
Crer na Bíblia significa aceitar toda a oposição que essa fé produz.
Crer na Bíblia significa experimentar as transformações que ela produz em
nossas vidas.
2. QUAL A UTILIDADE DA BÍBLIA?
E útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na
justiça (v.16).
A Bíblia nos conduz à salvação
Ela revela o nosso pecado e a nossa necessidade de salvação. Estamos
condenados por Deus e precisamos de um Salvador. Ela nos revela o grande
amor de Deus, que enviou Jesus para morrer em nosso lugar. Se crermos em
Jesus, ele nos salvará (Jo 3.16-21). A Bíblia é também a fonte da nossa salvação
(Tg 1.18) e a revelação que nos garante a certeza dessa salvação eterna (1Jo 5.9-
13).
A Bíblia é proveitosa para nossa santificação
Ela é útil para realizar quatro serviços durante toda a nossa vida cristã: (1) A
Bíblia nos ensina. Aqui não se trata do processo de ensinar, mas do conteúdo que
precisa ser apreendido e vivenciado. Ela é o que devemos aprender e praticar
durante a nossa vida. Ela é a verdade que nos ensina o que é certo e nos santifica
(Js 1.7,8; 2 Tm 1.13). (2) A Bíblia nos repreende. Ela nos reprova quando
estamos errados quer naquilo que pensamos ou fazemos. Ela mostra o nosso
pecado mais secreto e inconsciente (Hb 4.12,13). (3) A Bíblia nos corrige. Ela,
depois de nos mostrar o erro doutrinário ou comportamental, é poderosa para
endireitar-nos (Sl 119.11). Ela transmite a verdade, expõe o erro e conduz a fazer
o que é certo. (4) A Bíblia nos educa na justiça. A palavra “educa” (paideia)
significa “treinamento” e “disciplina” na obediência à Palavra de Deus. A graça
de Deus nos educa na “justiça” ou na retidão (Rm 14.17; Tt 2.11-15). John
Flavel diz: “as Escrituras ensinam-nos a melhor maneira de viver, a mais nobre
forma de sofrer e o modo mais confortável
de morrer”.
Warren W. Wiersbe resume: “As Escrituras são úteis para o ensino (aquilo que é
certo), para a repreensão (aquilo que é errado), para a correção (como fazer o
que é certo) e para educação na justiça (como permanecer no caminho certo)”.
3. QUAL O PROPÓSITO DA BÍBLIA?
A fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para
toda boa obra (v.17). A expressão “a fim de” (hina) indica o propósito da
Escritura. Ela visa “o homem de Deus”, que pode ser um pastor como Timóteo
(1Tm 6.11) ou qualquer cristão que se dedica a estudar e praticar a Palavra de
Deus. No Antigo Testamento, Moisés, Davi e Elias receberam esse honroso título
de “o homem que pertence a Deus” (Dt 33.1; 2 Cr 8.14; 1Rs 17.18). Todos eles
foram portadores da Palavra de Deus.
Há dois propósitos básicos neste versículo: (1) A Bíblia aperfeiçoa o crente. A
palavra traduzida por “perfeito” (artios) significa “adequado”, “completo”,
“suficiente”, “capaz” e “em boa forma ou bom estado”. Não indica perfeição
completa, mas adequação para ser usado por Deus. A Palavra de Deus tem o
propósito de aperfeiçoar, santificar e qualificar o crente, levando-o à maturidade.
A purificação é pré-requisito para alguém ser usado por Deus (2Tm 2.21). Deus
não usa vaso sujo. (2) A Bíblia capacita o crente para o serviço. O adjetivo
“habilitado” significa “completamente equipado”, “suprido para o serviço”. A
Palavra de Deus equipa e capacita o cristão a realizar a obra de Deus. Thomas
Watson diz: “A Bíblia é uma mina de diamantes, um colar de pérolas, a espada
do Espírito; um mapa pelo qual o cristão navega para a eternidade; o roteiro pelo
qual anda todos os dias; o relógio pelo qual acerta sua vida; a balança com a qual
pesa suas ações”.
4. QUAL O CONTEÚDO DA BÍBLIA?
Quais são os livros que fazem parte da Bíblia? Quem foi que decidiu quantos
livros a Bíblia deve ter? Estas são questões do cânon das Escrituras. A palavra
“cânon” significa “padrão ou regra de medir”. O cânon é a lista de todos os
livros que pertencem à Bíblia. Wayne Grudem diz: “A determinação precisa da
extensão do cânon das Escrituras é, portanto, de extrema importância. Para que
possamos confiar em Deus e obedecer a ele de modo absoluto, precisamos de
uma coleção de palavras sobre as quais temos certeza serem as palavras do
próprio Deus para nós”.
O Cânon do Antigo Testamento
Deus é o autor da Bíblia. Foi Ele quem escreveu a Lei em tábuas de pedra e
ordenou o seu povo a obedecê-la e preservá-la (Êx 31.18; 32.16). Ele ordenou a
Moisés que escrevesse a Torá ou os cinco primeiros livros da Lei (Êx 17.14;
24.4; 34.27; Dt 31.21-26). Josué também continuou obedecendo e escrevendo o
livro de Deus (Js 1.7,8; 24.26). Mais tarde, os profetas continuaram escrevendo a
revelação de Deus (1Sm 10.25; Jr 30.2; 1Cr 29.29; 2Cr 26.22) até 435 a.C., com
o profeta Malaquias. Na época de Jesus, o cânon do Antigo Testamento já estava
fechado: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas,
expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27).
“Todas as Escrituras” do Antigo Testamento: Antiga Lei, os Profetas e os Salmos
(Lc 24.44).
O cânon do Antigo Testamento é composto pelos seguintes livros: Gênesis,
Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1 Samuel, 2
Samuel, 1 Reis, 2 Reis, 1 Crônicas, 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó,
Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Isaías, Jeremias, Lamentações,
Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum,
Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. Esse cânon que usamos na
Bíblia evangélica é o mesmo do cânon hebraico massorético.
Em 1546, a Igreja Católica Romana, em oposição à Reforma Protestante, no
Concílio de Trento, incluiu os livros apócrifos no Antigo Testamento: Tobias,
Judite, acréscimos a Ester, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc.
Esses livros foram incluídos pela Igreja Romana para apoiar o ensino católico da
oração pelos mortos, salvação pelas obras e culto a imagens. Mas, esses livros
não faziam parte do cânon dos judeus, não foram reconhecidos por Jesus e pelos
apóstolos, e contêm ensinos contrários ao restante da Bíblia. É por isso que a
Bíblia usada pelos evangélicos não tem esses livros incluídos pela Igreja
Católica Romana.
O Cânon do Novo Testamento
O cânon do Novo Testamento possui vinte e sete livros: Mateus, Marcos, Lucas,
João, Atos, Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses,
Colossenses, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito,
Filemon, Hebreus, Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João, Judas,
Apocalipse. Eles foram escolhidos e preservados pelo Espírito Santo (Jo 14.26).
Mas, quais os critérios para saber se o livro é ou não inspirado? A Igreja
Primitiva usou três testes de canonicidade: (1) Inspiração divina: se for inspirado
serve (2Pe 1.20,21). (2) Apostolicidade: se foi escrito ou creditado por um
apóstolo (Jo 20.30,31; 1Co 14.37,38). (3) Doutrina: o ensino do livro está em
harmonia com os outros livros da Bíblia.
A posição dos Reformadores quanto à base para um livro ser considerado
canônico: (1) Evidências internasda própria Escritura. No texto bíblico
encontramos a ideia do aparecimento de um Novo Testamento (Jo 14.26;
15.26,27; 16.13); aceitação e reconhecimento de coleções de livros apostólicos
(2Pe 3.15,16); os escritores consideravam seus escritos como autoritativos (1Co
14.37,38; Gl 1.6-12; 2Pe 1.20,21; 3.1,2; Jo 20.30,31); os escritores consideravam
os seus escritos como algo que deveria ser lido em várias congregações (Cl 4.16;
1Ts 5.27). (2) Testemunho interno do Espírito Santo. É o próprio Espírito que
convence o crente e a igreja acerca da inspiração de um livro.
Aplicações práticas:
A Bíblia nos ensina, repreende, corrige e educa na justiça.
A Bíblia aperfeiçoa e capacita o crente para o serviço.
Todos os livros da Bíblia evangélica foram inspirados por Deus.
CONCLUSÃO
A Bíblia é a revelação escrita de Deus. Ela foi escrita por homens inspirados
pelo Espírito, de forma plenária e verbal. Ela é infalível, eterna e eficaz. Ela é
necessária, útil e insubstituível. O ensino e a pregação da Palavra é a primeira
marca essencial da igreja. Martinho Lutero disse: “Em qualquer lugar que você
ouça ou veja a Palavra ser pregada, professada e vivida, não tenha dúvida
nenhuma de que ali está a verdadeira igreja de Deus”.
A igreja nasce, vive e prevalece pelo poder da Palavra de Deus.
Estudo 02
Texto Básico: João 17.3
A PESSOA DE DEUS
INTRODUÇÃO
A vida cristã pode ser resumida em conhecer a Deus e a nós mesmos. Agostinho
falava muito sobre a necessidade do duplo conhecimento. Em uma de suas
orações ele dizia “Senhor, permite-me conhecer a Ti, para que conhecendo a Ti
eu conheça a mim e isso é tudo”. Para ele, não havia nenhuma possibilidade de
alguém conhecer a Deus sem que isso produzisse autoconhecimento.
Na Teologia Sistemática, Teontologia ou Teodiceia é o estudo da pessoa de
Deus, sua existência, sua natureza, seu caráter, seus nomes e títulos, e sua
revelação. Nesse estudo, há dois pressupostos bíblicos que devem ser
considerados como ponto de partida: (1) Teísmo: crer na existência de um Deus
pessoal, único e transcendental, mas que se revela ao homem tornando-se
imanente. Ele não apenas criou tudo que existe, mas continua cuidando,
sustentando e protegendo a criação. (2) Trinitarianismo: crer na existência de um
Deus único, que subsiste em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O estudo de hoje é sobre Deus. Destacaremos os pontos básicos dessa doutrina
bíblica.
1. CONCEITO DE DEUS
Deus é humanamente indefinível. Podemos apenas conceituá-lo de forma
limitada, segundo Ele mesmo se revela. Na Bíblia, Deus é apenas descrito em
figuras de linguagem: Deus é Espírito (Jo 4.24); Deus é Luz (1Jo 1.5; Ap 22.5);
Deus é Amor (1Jo 4.8,16); e Deus é um fogo consumidor (Hb 12.29). O próprio
Deus diz: “EU SOU O QUE SOU” (Êx 3.14).
C. S. Lewis diz: “Quando se trata de conhecer a Deus, toda a iniciativa depende
dEle. Se Ele não se quiser revelar, nada do que façamos nos permitirá encontrá-
lo”.
A origem de Deus é um mistério. A Bíblia simplesmente declara: “No princípio,
criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Deus é a sua própria causa e Ele não tem
origem, princípio e fim. Ele é autoexistente ou existe por si mesmo. Ele é
preexistente ou já existia antes de todas as coisas. A sua existência é necessária
para a criação (Criador), para a afeição (Pai), para a moral (Juiz) e para a
manutenção (Provedor).
Alguns teólogos tentaram conceituar a Deus. “Deus é um espírito infinito,
perfeito, em quem todas as coisas têm a sua origem, substância e subsistência”
(Strong). “Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria,
poder, santidade, justiça, bondade e verdade” (Breve Catecismo de Westminster).
Mas, a conclusão lógica é que o finito jamais poderá conceituar o infinito.
A revelação de Deus é geral (natural) ou especial (sobrenatural). A primeira
fundamenta-se na criação e tem como objetivo revelar a todos os homens a
existência de Deus (Sl 19.1-6; Rm 1.18). A segunda, baseia-se na Bíblia e dirige-
se aos pecadores eleitos, com o intuito de salvá-los. É através da Bíblia que Deus
promove a fé no coração do pecador, levando-o a conhecer a Jesus, o qual lhe dá
a vida eterna (Jo 20.30,31; Rm 10.17; Tg 1.21).
A Bíblia revela que Deus é uma pessoa. Ele é distinto dos deuses pagãos e dos
ídolos mortos (Jr 10.14,15). Ele é um Ser vivo e pessoal (Sl 42.2; 1Ts 1.9). Ele
criou o universo, mas não é uma extensão dele (Gn 1.1). Ele não é uma energia
cósmica, mas uma personalidade racional, moral e afetiva, que se relaciona com
o homem (Gn 1.26; Jo 1.1-3).
Aplicações práticas:
Deus é incompreensível, mas pode ser conhecido. O requisito absoluto para ser
salvo é conhecê-lo (Jo 17.3).
A revelação que Deus faz de si mesmo é a base de todo o conhecimento que
podemos ter sobre Ele (Dt 29.29).
2. OS NOMES DE DEUS
A Bíblia registra vários nomes de Deus. Esses não foram inventados pelos
homens, mas revelados por Deus. Ele revela a sua identidade pelo seus nomes.
No Antigo Testamento, destacamos os principais: (1) Elohim. É o primeiro nome
de Deus que aparece na Bíblia (Gn 1.1). Significa “Deus forte e poderoso”.
Ocorre mais de 2.000 vezes. (2) Yahweh. Significa “SENHOR DEUS”, o Deus
da graça e da aliança. É o segundo nome de Deus que aparece na Bíblia (Gn
2.4). Era o nome mais sagrado para os judeus e aparece 6.519 vezes. Ele é usado
em combinações: Jeová Nissi (O Senhor minha bandeira), Jeová-Raah (O
Senhor meu pastor), Jeová Rapha (O Senhor que cura), Jeová Shammah (O
Senhor está lá), Jeová Tsidkenu (O Senhor Justiça Nossa), Jeová Mekoddishkem
(O Senhor que santifica), Jeová Jiré (O Senhor proverá), Jeová Shalom (o
Senhor é paz) e Jeová Sabaoth (O Senhor dos Exércitos). (3) Adonai. Significa
“Senhor” e apresenta a Deus como Governador e Mestre. Aparece pela primeira
vez em Gênesis 15.2 e 434 vezes no total. (4) El Shaddai. Significa “Deus Todo-
Poderoso” fonte de toda a satisfação. Aparece pela primeira vez em Gênesis 17.1
e mais 6 vezes. El é um nome de Deus que pode ser usado combinado com
outros: El Elyom (Deus Altíssimo – Gn 14.18). El é usado para descrever os
ídolos (Sl 95.3), homens (Gn 33.10) e governantes (Êx 21.6).
No Novo Testamento, os nomes de Deus são: (1) Theos. Significa “Deus” e é
usado para expressar a divindade, o Deus de todos e de cada um dos seus filhos
(At 17.24, 29; Fp 4.19). Theos equivale a Elohim. (2) Kurios. Significa
“Senhor”. Equivale a Yahweh e Adonai. Designa a Deus como o Poderoso, o
Senhor, o Dono ou aquele que tem todo poder e autoridade. Aplica-se a Deus e a
Jesus (At 2.36; Fp 2.9-11). (3) Pater. Significa “Pai” como “Aquele que deu a
origem” ou “Criador” (Ef 3.15; Hb 12.9). É usado para designar a relação entre
Deus e os membros da sua família (Mt 6.9; Rm 8.15).
Aplicações práticas:
Os nomes de Deus revelam quem Ele é e o que Ele pode fazer. Em outras
palavras, a sua identidade e os seus atos.
Os nomes de Deus não são colocados pelos homens, mas revelados por Ele, de
forma progressiva na história da revelação.
3. OS ATRIBUTOS DE DEUS
A igreja existe para proclamar as “virtudes” de Deus (1Pe 2.9). Essas “virtudes”
são os seus “atributos”, nos quais Ele se revela. Os atributos de Deus são marcas
distintivas do seu ser. L. Berkhof define atributos como “as perfeições atribuídas
ao Ser Divino, na Escritura, que são visivelmente exercitadas por Ele nas obras
da Criação, Providência e Redenção”.
Os atributos de Deus se classificam em duas categorias: incomunicáveis e
comunicáveis. A primeira, são as virtudes exclusivas de Deus que ninguém
possui. A segunda, são as virtudes que Deus possui e Ele comunica aos homens.
Seguindo L. Berkhof, apresentamos:
Atributos Incomunicáveis (Deus como ser absoluto)
(1) Autoexistência. Deus existe por si mesmo (Jo 5.26). Deus não precisa de
nós e nem do restante da criação. (2) Imutabilidade. Deus é imutável em seu
ser, nos seus planos e nas suas promessas (Ml 3.6; Tg 1.17). (3) Infinidade.
Deus está livre de todas as limitações. Essa infinidade alcança a absoluta
perfeição do seu Ser (Mt 5.48), Sua eternidade(Sl 90.2; Ef 3.21); Sua
imensidade (At 7.48,49; At 17.27,28) e Sua unidade, isto é, Ele é
numericamente um e seu caráter é único (1Co 8.6; 1Tm 2.5).
Esses atributos são chamados também de naturais, isto é, virtudes exclusivas que
só Deus possui. São quatro atributos: onisciência, onipotência, onipresença e
eternidade.
Atributos Comunicáveis (Deus como Espírito pessoal)
(1) A Espiritualidade de Deus. “Deus é Espírito” (Jo 4.24; 1Tm 1.17). (2)
Atributos intelectuais. O conhecimento, a sabedoria e a veracidade
(fidelidade) de Deus são perfeitos em sua natureza e alcance (1Sm 2.3; Jó
37.16; Rm 11.33; Is 44.9,10; Tm 2.13). (3) Atributos Morais. são três
gloriosas virtudes (a) Bondade de Deus, que se expressa em seu amor, sua
graça, misericórdia e paciência (Mc 10.18; 1Jo 4.7,8; Ef 2.7-9; Dt 5.10; Rm
2.4). (b) Santidade de Deus, em sua natureza e manifestação (Êx 15.11; 1Pe
1.16). (c) Justiça de Deus (Sl 119.137). (4) Atributos de Soberania. Deus é
soberano em sua vontade e no exercício do seu poder (Sl 115.3; Dn 4.35; Tg
4.15; Mt 10.29).
Esses atributos são chamados também de morais, isto é, virtudes que Deus
possui e não são exclusivas, pois Ele as transmite aos homens. São cinco
virtudes: santidade, justiça, fidelidade, misericórdia e amor.
Aplicações práticas:
Os atributos de Deus são marcas distintivas de seu ser. Ele é Espírito
(substância) e os seus atributos são as qualidades dessa substância.
Deus é descrito muitas vezes na Bíblia por uma linguagem antropomórfica, isto
é, Ele é representado mediante analogias humanas (olho, ouvido, braço, mão, pés
de Deus).
4. AS TRÊS PESSOAS DA TRINDADE
A doutrina da Trindade é um mistério revelado na Bíblia e impossível de ser
entendida e explicada pelo homem. Cremos que Deus é um só. Há no Ser divino
uma só essência indivisível. Deus é um, na essência do seu Ser ou em sua
natureza constitucional. Somos monoteístas. E podemos declarar juntos com o
povo judeu: Deus é o único Senhor
(Dt 6.4-9).
A Bíblia também revela a existência das três pessoas distintas da Trindade: Deus,
o Pai (Is 63.16; 1Co 8.6; Tg 1.17); Jesus, o Filho (Is 9.6; Jo 1.14,18; Gl 4.4; Hb
1.2,3); e o Espírito Santo (Gn 1.2; Sl 104.30; Jo 14.16; 2Co 3.17). No Novo
Testamento encontramos o registro das três pessoas juntas: batismo de Jesus (Mt
3.16,17), batismo dos crentes (Mt 28.19), dons espirituais (1Co 12.4-6), bênção
apostólica (2Co 13.14) e no plano da salvação (Ef 1.3-14; 1Pe 1.2; 1Jo 5.7).
As três pessoas são um Deus, uma unidade trina. Não há divisão de substância,
como se uma parte fosse o Pai, outra fosse o Filho e outra o Espírito Santo. Uma
única substância é comum às três pessoas. As distinções pessoais estão em suas
relações interpessoais e em seus papéis. O Pai tem uma relação paternal com o
Filho, o qual é chamado de Unigênito. O Espírito procede do Pai e do Filho. No
plano da salvação, Deus escolheu os salvos, Jesus Cristo morreu para efetuar a
salvação e o Espírito Santo efetiva a salvação convertendo e selando o eleito
salvo (Ef 1.1-4).
Por se tratar de um mistério revelado pela Escritura, a doutrina da Trindade é
interpretada de forma equivocada por muitos (arianos, semiarianos, sabelianos e
socinianos). De uma maneira geral, há uma rejeição contra a pessoa de Jesus.
Rejeita-se o ensino bíblico de que Jesus era uma pessoa com duas naturezas: Ele
era verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Algumas seitas antigas e
atuais negam a divindade de Jesus vendo-o apenas como um homem
aperfeiçoado.
Aplicações práticas:
A doutrina da Trindade revela que Deus não é um ser solitário e isolado. Deus é
relação e comunhão.
O conceito de Trindade não significa que o cristão acredita em três deuses
(triteísmo). Trindade significa “triunidade”, isto é, três em um. Há três pessoas
na Divindade e estas três são um Deus, da mesma substância, iguais em poder e
glória.
CONCLUSÃO
James I. Packer diz que “pode-se saber bastante sobre Deus sem conhecê-lo
muito”. Podemos ter um conhecimento teórico ou retórico de Deus, sem um
conhecimento real ou pessoal dEle. Esperamos que, após este estudo, você sinta
a necessidade de conhecer mais a Deus. Que você possa dizer como Jó: “Eu te
conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42.5).
Estudo 03
Texto Básico: Gênesis 1.1
A CRIAÇÃO DE TODAS AS COISAS
INTRODUÇÃO
A doutrina da criação é um dos pilares da fé cristã. Dela depende toda a verdade
e ela é o fundamento da verdadeira religião. Cremos que Deus é o Criador do
universo e da humanidade, conforme o registro bíblico de Gênesis 1-2. O
cristianismo não começa com a aceitação de Jesus Cristo como Salvador, mas
com a aceitação de Deus como criador. Benjamin Franklin disse: “Crer que o
universo não tenha um Criador, é o mesmo que acreditar que o dicionário é o
resultado de uma explosão na tipografia”.
A Bíblia, e não a ciência, é o teste final de toda a verdade. John MacArthur Jr
declara: “A Bíblia fornece uma explicação clara e convincente do começo do
cosmos e da humanidade. Não há absolutamente razão alguma para uma mente
inteligente negar-se a aceitar que o que temos é uma narrativa literal da origem
do nosso universo”. O verdadeiro conhecimento científico não nega a existência
de Deus, pois Ele é a fonte de toda sabedoria e ciência. Albert Einstein declarou:
“Quanto mais acredito na ciência, mais acredito em Deus. O universo é
inexplicável sem Deus”.
Hoje estudaremos a doutrina bíblica da criação.
1. A BASE BÍBLICA DA CRIAÇÃO
No princípio, criou Deus os céus e a terra (Gn 1.1). Assim começa a narrativa
bíblica da criação. Há cinco lições implícitas neste versículo: (1) Deus é o autor
da criação. Deus (Elohim) enfatiza o poder e a majestade do Criador. Elohim é
um substantivo plural, que a gramática chama de “plural de majestade”. O Pai
(At 17.24,25; Ap 4.11), o Filho (Jo 1.3; Cl 1.16) e o Espírito Santo (Gn 1.2; Jó
33.4) criaram juntos tudo que existe. (2) Deus criou a partir do nada. Antes de
Deus criar o universo, nada existia exceto o próprio Deus. O verbo hebraico
“criar” (barah) indica que tudo passou a existir sem material preexistente (Sl
33.6,9; Rm 4.17). Tudo veio do nada. A criação é ex nihilo. (3) Deus criou tudo
pela sua palavra. Deus falava e tudo passava a existir (Hb 11.3). Na narrativa
de Gênesis 1.3-26, repete-se a expressão: “Disse Deus”. A palavra criadora de
Deus gerava resultado imediato. Ele dizia: “produza” e “assim se fez” (Gn
1.11). (4) Deus criou tudo: material e espiritual. A criação do universo abarca
céus e terra e tudo que neles existe (At 4.24; Ap 4.11). Todas as coisas visíveis e
invisíveis foram criadas juntas e de uma só vez (Cl 1.16; Sl 148.5). (5) Deus
criou tudo em seis dias (Gn 2.1-3). A criação é dividida em seis dias de trabalho
e um de descanso, estabelecendo a semana como uma unidade básica do tempo.
Os dias são de 24 horas solares, definidos pelo movimento de rotação, o giro
que a terra faz em seu próprio eixo. Não há base para o “teísmo evolucionista”
que defende o “dia-era”.
Aplicações práticas:
Deus é distinto da sua criação, pois Ele a fez e a governa. Deus é transcendente.
Deus criou tudo para revelar a sua glória (Is 43.7).
Deus deve ser adorado como Criador (Ap 4.11).
2. A CRIAÇÃO DO HOMEM E DA MULHER
A narrativa da criação do homem é feita de duas maneiras: geral (Gn 1) e
específica (Gn 2). A primeira narra a ordem em que as coisas foram criadas; a
segunda, detalha a criação do homem sem preocupação com a ordem
cronológica. Vejamos os textos e aprendamos as lições. Deus criou o homem de
forma especial. Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem,
conforme a nossa semelhança. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à
imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gn 1.26,27). Três lições
básicas:
Deus criou o homem
O homem foi criado por Deus depois que tudo já estava feito. Ele foi criado de
forma especial. Enquanto tudo foi criado por Deus pela sua poderosa palavra, o
homem foi criado diretamente por Deus, a partir de material já existente: Então,
formou o SENHOR Deus ao homem dopó da terra e lhe soprou nas narinas o
fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente (Gn 2.7). Aqui temos os
dois elementos que constituem a natureza humana: o pó da terra e a alma. O
“fôlego de vida” todos os animais têm (Gn 1.21,22), mas só o homem é “alma
vivente” (1Co 15.45). Não há espaço aqui para evolução, mutação de espécie,
sobrevivência do mais apto, ou espécie de transição. Deus fez o homem
completo, diferente e especial, incomparável a qualquer outra espécie.
Há três teorias sobre a composição dos elementos da natureza humana: (1)
Unicotomismo: defende que o homem é uma unidade e que a divisão entre corpo
e alma é apenas didática. (2) Dicotomismo: defende que o homem é composto de
corpo e alma. O corpo é a substância material perceptível aos sentidos. A alma é
o elemento espiritual, sede da consciência, do pensamento, dos sentimentos e da
vontade. É a parte espiritual que continua existindo após a morte física (Gn 2.7;
35.18; Ec 12.7). (3) Tricotomismo: defende que o homem é composto de três
partes: corpo (parte material), alma (sopro da vida) e espírito (princípio da vida
racional, moral e espiritual). Os textos mais usados são: Marcos 12.30; 1
Coríntios 15.44-46; 1 Tessalonicenses 5.23; Hebreus 4.12.
Cremos que a diferença entre dicotomismo e tricotomismo é apenas da diferença
entre a visão hebraica e grega do homem.
Deus criou o homem à sua imagem e semelhança
O que significa ser feito à imagem de Deus? Significa que o homem é distinto
das outras criaturas. Ele não é um animal ou o resultado da evolução de outras
espécies. Wayne Grudem diz: “O fato de ser o homem à imagem de Deus
significa que ele é semelhante a Deus e o representa”. João Calvino ensinou que
“imagem e semelhança” engloba dois aspectos: o geral, que envolve tudo aquilo
que a natureza humana sobrepõe a todas as outras espécies animais; o especial,
que envolve as qualidades espirituais originais que dotaram o homem de
verdadeiro conhecimento, justiça e santidade. Para Calvino a imagem total foi
atingida pelo pecado, mas apenas as qualidades espirituais foram completamente
perdidas.
Entendemos que essa “imagem e semelhança” indica algo “similar” ou aquilo
que “representa” a outra pessoa (Gn 5.3). Deus fez o homem à sua semelhança
pondo a eternidade no seu coração (Ec 3.11). O homem é um ser pessoal,
autoconsciente e capaz de se relacionar por amor e não institivamente. Somos
semelhantes a Deus também na conduta moral, na capacidade de pensar e
raciocinar, no uso da linguagem, na criatividade e na complexidade das emoções.
Essa imagem e semelhança dá ao homem uma dignidade exclusiva: “Todo ser
humano, por mais que a imagem de Deus esteja maculada pelo pecado, pela
doença, pela fraqueza, pelo envelhecimento ou por qualquer outra deficiência,
traz em si ainda a condição de existir à imagem de Deus e portanto precisa ser
tratado com dignidade e o respeito devidos ao portador da imagem divina”
(Wayne Grudem).
Aplicações práticas:
O homem foi feito cabeça e coroa da criação.
O assassinato de um homem tem uma pena maior pelo fato de ele ser criado à
imagem e semelhança de Deus (Gn 9.6).
3. Deus criou o homem – macho e fêmea
Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e
mulher os criou (Gn 1.27). Deus criou homem e mulher. Os sexos são iguais em
termos de pessoalidade, dignidade e importância. William Grudem diz que a
criação do ser humano como homem e mulher revela a imagem de Deus de três
maneiras: capacidade de relacionamento interpessoal, igualdade de
importância e diferença de papéis. O papel do homem é ser líder, amante,
protetor e provedor. A mulher é diferente do homem e o seu papel é auxiliar o
homem (Gn 2.18), cumprir a sua missão de mãe e edificadora da família (Gn
3.16; 1Tm 2.15 e Tt 2.4,5) e ser uma mulher virtuosa (Pv 31.10-31).
Na narrativa de Gênesis 2.4-25, aprendemos: (1) O homem foi criado primeiro
que a mulher. Deus o fez do pó da terra (vv.4-8). (2) O homem foi criado para
trabalhar. Deus planta um jardim e coloca o homem ali para o cultivar e guardar
(vv.8-15). (3) Deus faz o pacto das obras com o homem, antes de criar a mulher
(vv.16,17). Ele representa a espécie e é o cabeça da mulher (Rm 5.12; 1Co 11.3).
(4) A mulher é criada por Deus para complementar o homem e ser a sua
auxiliadora idônea (vv.18-20). A mulher foi criada por causa do homem (1Co
11.9). (5) A mulher é feita a partir do homem e não do pó da terra (vv.21-23).
Porque o homem não foi feito da mulher, e sim a mulher, do homem (1Co 11.8).
(6) Deus criou um casal ou a família e os abençoou para que a espécie humana
fosse multiplicada (Gn 1.28; 2.24,25; 5.1-3). O sexo deve ser praticado entre
casados e os filhos devem nascer sob a proteção de uma família.
Aplicações práticas:
A primeira mulher foi feita do homem, mas depois todo homem nasce por meio
de uma mulher.
Deus fez os sexos diferentes para que os mesmos se complementassem. Ele
criou o casamento para sexos diferentes.
4. A CRIAÇÃO DOS ANJOS
Deus criou o mundo visível e as coisas materiais. Ele criou também o mundo
invisível e espiritual (Cl 1.16). Os anjos foram criados por Deus antes do sétimo
dia da Criação: Porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e
tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou (Êx 20.11). Assim, pois, foram
acabados os céus e a terra e todo o seu exército (Gn 2.1). Os anjos compõem
parte do exército celestial: Só tu és SENHOR, tu fizeste o céu, o céu dos céus e
todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há
neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora (Ne 9.6).
A palavra “anjos” aparece 402 vezes na Bíblia e significa “mensageiro” ou
“enviado”. Wayne Grudem define: “anjos são seres espirituais criados, dotados
de juízo moral e alta inteligência, mas desprovidos de corpo físico”. A Bíblia os
chama de “espíritos ministradores” (Hb 1.14), “filhos de Deus” (Jó 1.6; 2.1),
“santo e vigilante” (Dn 4.13, 23) “santos” (89.5,7), “legiões celestes” (Sl 148.2)
e “poderes” (Ef 1.21). Quatro detalhes importantes sobre eles: (1) Natureza:
criaturas espirituais, incorpóreos, poderosos, racionais, assexuados, imortais e
inteligentes. Eles não constituem uma raça como os homens, não se reproduzem
e não foram feitos a imagem de Deus. Para os anjos que caíram, não há salvação.
(2) Quantidade: somente Deus sabe a quantidade. A Bíblia cita números em
determinadas situações
(Dt 33.2; Sl 68.17; Hb 12.22; Ap 5.11), mas não número exato. (3) Ordem: a
Bíblia revela que há diversas classes de anjos: (a) Querubins: são aqueles que
guardam a entrada do Paraíso (Gn 3.24), no propiciatório (Êx 25.22) e como
meio de transporte para Deus (Sl 18.10; Ez 10.1-22). (b) Serafins: são aqueles
que adoram a Deus continuamente, na sala do trono (Is 6.2-7). (c) Arcanjos: são
aqueles que são enviados por Deus para missões especiais (Dn 8.16; 9.21; Lc
1.19,26; Jd 9; Ap 2.7). Dois nomes são citados: Miguel e Gabriel. (d) Seres
Viventes: anjos que circundam o trono de Deus, adorando-o dia e noite (Ez 1.5-
14; Ap 4.6-8). (4) Ministério: os anjos são auxiliares de Deus no governo do
universo (Ef 1.21); eles executam as ordens e os juízos de Deus (Lc 1.11-19; At
12.23; Ap 16.1); eles adoram a Deus (Sl 103.20; 148.2; Lc 2.14); os anjos
serviram a Jesus e servem a nós, filhos de Deus (Mt 4.11; Sl 91.11,12; Hb 1.14).
Aplicações práticas:
Não adore a anjos e nem receba deles ensinos doutrinários (Gl 1.8; Ap 19.10).
Não é bíblico o ensino de “anjo da guarda” pessoal. Os anjos são enviados por
Deus para nos proteger de forma coletiva (Sl 91.11,12).
Não busque aparições angelicais. Caso Deus julgue necessário, eles aparecerão
na hora certa.
CONCLUSÃO
Reafirmamos aqui a nossa fé na narrativa bíblica de Gênesis 1-3. Cremos que a
criação foi um trabalho imediato de Deus, já concluído. Ela aconteceu de forma
sobrenatural, pelo poder do Deus (Elohim) Onipotente. Rejeitamos
completamente o naturalismo, com a sua hipótese evolucionista. John
MacArthur Jr. resume: “Resumindo, a evoluçãofoi inventada com o objetivo de
eliminar o Deus de Gênesis e, dessa forma, expulsar o Legislador e apagar a
inviolabilidade da Sua lei”.
Estudo 04
Textos Básicos: Jó 42.2 e Romanos 8.28
OS DECRETOS E A PROVIDÊNCIA DE DEUS
INTRODUÇÃO
Mark Twain diz: “Há dois grandes dias na vida de uma pessoa: o dia que
nascemos e o dia que descobrimos por que estamos aqui”. O primeiro é fácil:
olhe para a sua certidão de nascimento. O segundo é mais difícil: por que Deus
me criou e me colocou na terra, neste momento da história? Qual é o propósito
da minha existência? Somente o ensino bíblico dos decretos e da providência de
Deus poderá nos ajudar a responder esta questão. Davi diz: Os teus olhos me
viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus
dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda (Sl
139.16). A nossa existência é um projeto divino. Deus nos criou e nos colocou
neste mundo para cumprirmos um plano que Ele mesmo preparou. O Senhor é o
que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz subir
(1Sm 2.6).
A doutrina bíblica da criação pressupõe duas doutrinas fundamentais: (1) Os
Decretos de Deus. A Trindade planejou tudo antes de criar. Tudo veio a existir a
partir de um plano elaborado por Deus, que determinou o propósito de cada
coisa ou pessoa criada. (2) A Providência de Deus. A Trindade preserva e
governa tudo que foi criado, com sabedoria e justiça. Ela não entrega o universo
à sua própria sorte e nem abandona as suas criaturas.
Confiar em Deus e viver baseado nesses ensinos traze-nos alguns benefícios: Paz
espiritual por saber que Deus controla a nossa vida e o nosso futuro; esperança e
consolo em meio às tragédias e os sofrimentos da vida; e confiança e
dependência de Deus em qualquer situação.
1. OS DECRETOS DE DEUS
Jó declara ao Senhor: Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode
ser frustrado (Jó 42.2). Ele nos ensina três lições: (1) Deus é onipotente: Ele tudo
pode. Não há impossível para Deus. Ele é poderoso para realizar tudo o que
quiser. (2) Deus age planejadamente: Ele faz planos. Os seus pensamentos e
ideias determinam tudo que acontece na nossa vida. (3) Os planos de Deus são
eficazes: Nenhum plano dele pode ser frustrado. Ninguém jamais poderá impedir
o agir de Deus.
Os pensamentos e os planos de Deus podem ser considerados como os seus
decretos. Wayne Grudem define: “Os decretos de Deus são os divinos desígnios
eternos por meio dos quais, antes da criação do mundo, ele determinou realizar
tudo que acontece”. Os teólogos de Westminster respondem: “Os decretos de
Deus são o seu eterno propósito, segundo o conselho da sua vontade, pelo qual,
para sua própria glória, Ele predestinou tudo o que acontece”.
Entendo, que os decretos de Deus revelam que Ele tem um plano ou propósito
para tudo que existe. Esse plano é percebido nas obras da criação, providência e
redenção.
De um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra,
havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua
habitação (At 17.26). O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios
do seu coração, por todas as gerações (Sl 33.11). Os gentios, ouvindo isto,
regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que
haviam sido destinados para a vida eterna (At 13.48). Nos predestinou para ele,
para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua
vontade (Ef 1.5). Nele, digo, no qual fomos também feitos herança,
predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o
conselho da sua vontade (Ef 1.11).
Os decretos expressam a vontade ou o querer de Deus. Para L. Berkhof não
existe uma série de decretos, mas um decreto único que é um plano
compreensivo para tudo que existe. Esse plano é sábio (Sl 104.24), eterno (Ef
1.4), eficaz (Is 43.13), imutável (Is 46.10), incondicional ou absoluto (At 2.23),
universal ou totalmente abrangente (Ef 1.11) e, com referência ao pecado, é
permissivo (At 14.16). O decreto torna o evento certo (Mt 16.21; Lc 18.31-33) e
os homens responsáveis pelos seus atos (Gn 50.20, At 2.23; 3.18; 4.27,28).
Nessa discussão, se existe um decreto só ou vários, chegamos a uma dupla
conclusão: Primeiro, que há uma lógica na ação divina: planejar, criar e
preservar (doutrinas dos decretos de Deus, da criação e da providência).
Segundo, que na realização da sua vontade soberana, Deus faz o que quer, deixa
de fazer o que não quer e permite aquilo que quer permitir. Por isso, entendemos
que os decretos evidenciam a vontade do Deus soberano, podendo ser
classificados em três categorias: (1) Decreto eletivo: quando Deus escolhe fazer
ou dar algo para alguém escolhido por ele, de forma incondicional. Por exemplo,
Deus escolheu pessoas para receber a salvação (Ef 1.4,5; 1Co 1.26-29). (2)
Decreto preteritivo: quando Deus resolve não fazer ou não dar algo para alguém.
Por exemplo, Deus não aceitou o arrependimento de Esaú (Hb 12.16,17). Deus
não permitiu que Moisés entrasse na terra prometida, mas apenas a contemplasse
(Dt 34.4). Deus aprovou a construção do templo, mas não permitiu que Davi o
construísse (1Cr 28.1-6). (3) Decreto permissivo: quando Deus permite aquilo
que Ele resolveu permitir. Por exemplo, Israel andar nos seus próprios caminhos
(Sl 81.11,12).
A doutrina dos decretos de Deus é contestada por muitos. A principal
contestação é que os decretos anulam a liberdade humana. Qual a resposta? O
decreto, embora tornando certo o que vai acontecer, não viola a vontade humana.
Nos atos bons, Deus opera sobre a pessoa, e a vontade desta entra em ação. Nos
atos maus, Deus permite que a pessoa realize a sua própria vontade.
Aplicações práticas:
O decreto de Deus garante que tudo que foi decretado vai acontecer.
Quando Deus escolhe alguém para a salvação, escolhe também os meios para
alcançar esse fim.
A doutrina dos decretos de Deus motiva-nos à prática da oração.
2. A PROVIDÊNCIA DE DEUS
O Deus que criou todas as coisas, não abandona a sua criação. Pelo contrário, ele
a mantém, preservando e governando tudo. Isso se chama Teísmo. O mundo
criado por Deus só continua existindo por causa do seu cuidado preservador.
Esse cuidado é chamado pelos teólogos de “providência divina”.
A palavra “providência” vem do latim providentia (gr. pronoia – At 24.2) e
significa, essencialmente, “previsão” ou “prever de antemão”. A palavra
providência, porém, não é um mero sinônimo de presciência. Pelo contrário, ela
inclui um amplo sentido teológico, tal como apresenta a Confissão de Fé de
Westminster: “Pela sua muito sábia providência, segundo a sua infalível
presciência e o livre e imutável conselho da sua própria vontade, Deus, o grande
Criador de todas as coisas, para o louvor da glória da sua sabedoria, poder,
justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as suas
criaturas, todas as ações e todas as coisas, desde a maior até a menor”. Observe
que a providência divina envolve sustento, direção, disposição e governo, sobre
toda a criação. Louis Berkhof define a providência como “o permanente
exercício da energia divina, pelo qual o Criador preserva todas as suas criaturas,
opera em tudo que se passa no mundo e dirige todas as coisas para o seu
determinado fim”.
Os elementos da providência
A providência abrange três elementos principais: preservação, cooperação e
governo. 1) Preservação: Deus preserva, pelo seu poder, tudo que criou. O seu
poder mantenedor é tão necessário quanto o seu poder criador. L. Berkhof define
a preservação “como a obra contínua de Deus pela qual ele mantém as coisas
que criou, juntamente com as propriedades e poderes de que as dotou”. Deus
preserva hoje o oxigênio e a água tal como foram criados. Deus as preserva com
as mesmas propriedades. A preservação implica no sustento. É Jesus quem
sustenta “todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). É o Pai que
sustenta a suas criaturas e cuida dos seus filhos: Observai as aves do céu: não
semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros;contudo, vosso Pai celeste as
sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? (Mt 6.26). O
salmista reconhece: Eis que Deus é o meu ajudador, o SENHOR é quem me
sustenta a vida (Sl 54.4). (2) Cooperação: A cooperação ou concorrência é
quando “Deus coopera com as coisas criadas em cada ato, dirigindo as suas
propriedades características a fim de fazê-las agir como agem” (W. Grudem).
Por exemplo: a chuva e a neve podem ser explicadas pelas leis naturais, mas
Deus as faz acontecer (Jó 37.6-13). José foi vendido por seus irmãos, mas era
Deus quem estava enviando José para o Egito (Gn 45.4,5). Alguém pode lançar
sorte ou cara ou coroa, mas de Deus procede toda decisão (Pv 16.33). (3)
Governo: O governo de Deus é sábio santo e poderoso. Ele governa todas as
suas criaturas e todas as ações delas. W. Grudem diz: “Deus tem um propósito
em tudo o que faz no mundo, e providencialmente governa e dirige todas as
coisas a fim de que cumpram esses propósitos divinos”. A extensão do governo
providencial de Deus abrange a tudo e a todos. L. Berkhof resume o ensino das
Escrituras sobre o governo providencial de Deus: “(a) sobre o universo em geral
(Sl 103.19; Dn 5.35; Ef 1.11); (b) sobre o mundo físico (Jó 37.5; Sl 104.14;
135.6; Mt 5.45); (c) sobre a criação inferior (Sl 104.21,28; Mt 6.26; 10.29); (d)
sobre os negócios das nações (Jó 12.23; Sl 22.28; 66.7; At 17.26); (e) sobre o
nascimento do homem e sua sorte na vida (1 Sm 16.1; Sl 139. 16; Is 45.5; Gl
1.15,16); (f) sobre as vitórias e fracassos que sobrevêm às vidas dos homens (Sl
75.6,7; Lc 1.52); (g) sobre coisas aparentemente acidentais ou insignificantes
(Pv 16.33; Mt 10.30); (h) na proteção dos justos (Sl 4.8; 5.12; 63.8; 121.3; Rm
8.23); (i) no suprimento das necessidades do povo de Deus (Gn 22.8, 14; Dt 8.3;
Fp 4.19); (j) nas respostas à oração (1 Sm 1.19; Is 20.5,6; 2 Cr 33.13; Sl 65.2; Mt
7.7; Lc 18.7,8); e (k) no desmascaramento e castigo dos ímpios
(Sl 7.12,13; 11.6)”.
Aplicações práticas:
Deus tem o controle absoluto de tudo que existe no tempo e no espaço.
Deus pode transformar coisas ruins em benefícios para os que confiam nele.
Os tipos de providência
O governo de Deus sobre o universo todo é chamado de providência geral. O
cuidado de Deus específico em cada parte do universo todo é chamado de
providência especial. L. Berkhof explica: “Não são duas espécies de
providência, mas a mesma providência exercida em duas diferentes relações”.
Contudo, é possível detectar na Bíblia, uma providência geral (o cuidado de
Deus com o universo) e outra especial (o cuidado de Deus com os seus
escolhidos).
Paulo fala de uma providência especial: Sabemos que todas as coisas cooperam
para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o
seu propósito (Rm 8.28). Três lições importantes: (1) A extensão da providência:
todas as coisas cooperam para o bem. Deus faz com que todas as coisas, boas ou
ruins, cooperem para o nosso bem. Sofrimentos, tribulações, tentações e
perseguições são males que se transformam em bem (Gn 50.20 e Ne 4.15). (2)
Os limites da providência: aqueles que amam a Deus e são chamados por Ele.
Somente os que amam a Deus são consolados (Dt 7.9; Ne 1.5; Sl 37.17 e 20;
97.10; Is 56.6,7; 1Co 2.9 e 8.3; Tg 1.12). Somente os que foram chamados
segundo o propósito de Deus e abraçaram a Cristo (Rm 1.7; 1Co 1.1,2). (3) A
certeza da providência: Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem...
Paulo sabia de duas maneiras: por experiência (1Co 8.1,4; 2Co 5.1 e 1Tm 1.8) e
pelo conhecimento do ensino bíblico (Gn 45.5-8 e 50.20).
CONCLUSÃO
Concluo com um pensamento anônimo: “Providência é a mão de Deus na luva
da história. É a obra de Deus pela qual Ele integra e combina eventos no
universo, a fim de cumprir o seu desígnio original para o qual ele foi criado. É
Deus sentado atrás do volante do tempo. Providência refere-se à governança de
todos os eventos de Deus, a fim de direcioná-los para um fim. Ele é Deus
tomando o que você e eu chamaríamos de sorte, acaso, erros, casualidade e
costurá-las para alcançar Seu programa”.
Estudo 05
Texto Básico: Romanos 5.12
O PECADO ORIGINAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS
INTRODUÇÃO
O pecado hoje não está sendo visto e tratado como pecado, mas como doença.
Tal tendência já foi denunciada por Karl Menninger, em 1973, no seu livro: “O
que aconteceu com o pecado?” John MacArthur Jr diz: “Atualmente, qualquer
tipo de delito que o ser humano comete pode ser explicado como uma
enfermidade. O que antigamente denominávamos pecado é mais facilmente
diagnosticado como um conjunto de incapacidades. Todo tipo de imoralidade e
de conduta maldosa são agora identificados como sintomas desta ou daquela
doença psicológica”.
O propósito desta linha de pensamento é acabar com o sentimento de culpa e
transformar pecadores em vítimas.
A Bíblia encara o pecado como algo sério e destrutivo. O pecado é uma
disposição interior para o mal que o homem tem em si mesmo. Ele é uma
oposição voluntária e persistente do homem contra Deus. Wayne Grudem diz:
“Pecado é deixar de se conformar à lei moral de Deus, seja em ato, seja em
atitude, seja em natureza”.
Paulo diz: pois todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23). A palavra
“pecado” (hermaton) significa “errar o alvo” ou “fracassar”. Todo pecado é
também “transgressão da lei” (anomia) (1 Jo 3.4), “injustiça” (adikia) (1Jo 5.17),
“passar dos limites” ou “transgredir” (Rm 4.15), (parabaino) “passo em falso que
induz à queda” ou “ofensas” (paraptoma) (Ef 1.7). Resumindo, o pecado pode
ser definido como quebra da lei de Deus ou falta de conformidade com essa lei,
em qualquer aspecto da vida, quer nos pensamentos, nas palavras ou nas ações.
O Breve Catecismo de Westminster diz: “Pecado é qualquer falta de
conformidade com a lei de Deus ou qualquer transgressão dessa lei”.
O nosso texto básico diz: Portanto, assim como por um só homem entrou o
pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos
os homens, porque todos pecaram (Rm 5.12). Nele aprendemos três lições:
1. O PECADO ENTROU NO MUNDO PELA DESOBEDIÊNCIA DE UM
HOMEM
Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado.
Qual é a origem do mal? Ou, como foi que o mal começou a existir? A teologia
não tem uma resposta exata para esta pergunta. Este assunto relaciona-se com a
origem do Diabo. Jesus diz que o Diabo foi “homicida desde o princípio” (Jo
8.44). Ele é caluniador e assassino. Ele furtou de Adão a imortalidade, através da
mentira. A palavra “princípio” traz a ideia que o mal passou a existir nas esferas
celestiais com a rebelião de anjos, sob o comando de Lúcifer (Ez 28.12-18; Is
14.12-17; Jd 6). Concluímos que o pecado não foi uma criação, mas uma
origem. Ele se originou no coração de anjos que “não guardaram o seu estado
original”.
A Bíblia registra que o pecado entrou no mundo pelo ato de desobediência de
Adão. Esse pecado é chamado de “pecado original”. Louis Berkhof apresenta
três motivos para este nome: “Chama-se pecado original (1) porque é derivado
da raiz original da raça humana; (2) porque está presente na vida de todo e
qualquer indivíduo, desde a hora do seu nascimento e, portanto, não pode ser
considerado como resultado de imitação; (3) porque é a raiz interna de todos os
pecados concretizados que corrompem a vida humana”.
O relato de Gênesis 3 diz que o primeiro homem foi criado em perfeita
santidade, mas com duas possibilidades: continuar no estado de santidade
original ou cair do estado de santidade original, se desobedecesse a Deus. Tudo
dependia da sua obediência ao mandamento: E o SENHOR Deus lhe deu esta
ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás (Gn 2.16,17). O homem, portanto, possuía
originalmente o “livre arbítrio” ou a liberdade de escolher se queria ou não
permanecer no seu estado de santidade original.
O pecado original ocorreu porque Adão caiu em tentação. Satanás é o agente
sobrenatural da tentação. Foiele, disfarçado de serpente, que induziu Adão a
pecar. O “fruto proibido” constituiu uma lei (Gn 2.16,17) que devia ser
obedecida. Vejam os passos da tentação. (1) O Diabo torceu o sentido do que
Deus disse: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?
(v.1). Mas, Deus havia dito: De toda árvore do jardim comerás livremente. (2) O
Diabo negou a veracidade da palavra de Deus: “certamente não morrerás”. Deus
disse: certamente morrerás. (3) O Diabo inverteu as consequências do pecado:
Porque Deus sabe que no dia que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como
Deus, sereis conhecedores do bem e do mal (v.5). Mas, o que Deus disse foi:
porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.
O objetivo da tentação é levar o homem a pecar por meio dos seus desejos
naturais. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos
e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu
também ao marido, e ele comeu (Gn 3.6). Três lições: (1) Desejo de desfrutar as
coisas: Eva observou que “a árvore era boa para se comer”. Isso é a cobiça da
carne. (2) Desejo de obter as coisas: Ela viu que a árvore era “agradável aos
olhos”. Isso é a concupiscência dos olhos. (3) Desejo de fazer as coisas: Ela viu
que a árvore era “desejável para dar entendimento”. Isso é a soberba da vida (1Jo
2.16,17). Adão e Eva cederam à tentação e desobedeceram a Deus, comendo do
fruto proibido. Eles se colocaram em uma atitude de oposição a Deus, desejando
satisfazer os seus desejos e não fazer a vontade de Deus.
Aplicações práticas:
O pecado se relaciona diretamente com Deus e com a sua lei. Quando eu peco,
rejeito a Deus e desobedeço à sua vontade.
O pecado é um mal moral.
Deus não tenta a ninguém, mas permite que sejamos tentados
2. A MORTE FOI A PRINCIPAL CONSEQUÊNCIA DO PECADO
Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo
pecado, a morte.
O pecado de Adão gerou várias consequências. Tomando o texto de Gênesis 3,
as consequências imediatas foram: (1) Para a serpente ou o diabo: ser maldita
entre os animais, rastejar sobre o seu ventre e comer pó da terra. Ela teria a sua
cabeça esmagada pelo descendente da mulher, Jesus (vv.14,15). (2) Para Eva:
dar à luz em meio às dores e ser liderada ou governada pelo seu marido (v.16).
(3) Para Adão: trabalhar e sustentar com o suor do seu rosto e morrer, voltando
ao pó da terra (vv.17-19). (4) Para a terra: produzirá cardos e espinhos
(vv.17,18). (5) Expulsão do paraíso, após provisão divina de vestimentas (vv.21-
24).
A principal consequência do pecado foi a morte: porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás. Trata-se de uma pena de morte que atinge o
homem na sua totalidade. Essa morte abrange três aspectos: (1) Morte espiritual.
O rompimento total da comunhão com Deus. Toda pessoa que nasce
naturalmente está morta espiritualmente (Jo 3.6,7; 5.24; Ef 2.1; 1Co 2.14,15).
Dene McGriff diz: “O homem não nascido de novo só sabe fazer bem uma coisa:
pecar!”. Ele está morto espiritualmente. (2) Morte física. A morte física é a
separação de corpo e alma. Não fomos criados para morrer, mas o pecado
trouxe-nos a morte (Gn 3.19; Rm 6.23; 1Co 15.12-23). E junto com a morte vêm
todos os tipos de sofrimentos e aflições (Jo 16.33; 2Co 4.16). (3) Morte eterna. É
o ponto culminante da morte espiritual, chamada de “segunda morte” (Ap 2.11),
“condenação eterna” (Jo 8.51), “castigo eterno” (Mt 25.46). Walter B. Knight
diz: “Deus forma o homem; o pecado o deforma; a escola o informa, mas
somente Cristo o transforma”.
A morte traz para o homem a incapacidade total. Ele perdeu o seu livre arbítrio
espiritual. Conforme Louis Berkhof, o homem não regenerado é capaz de fazer o
bem natural, o bem civil e, externamente, o bem religioso. Mas, ele é incapaz
totalmente de fazer algo que Deus aprova ou de cumprir a lei de Deus. Ele é
incapaz de fazer qualquer bem espiritual ou de mudar sozinho a sua condição de
morto espiritual (Jo 1.13; 3.5; Rm 7.18, 24; 1Co 2.14;
Ef 2.1-8; Hb 11.6).
Aplicações práticas:
Bênção e maldição procedem de Deus.
As crianças nascem pecadoras, mesmo vivendo um período chamado de
“inocência” (Sl 51.5; 58.3).
A morte espiritual do homem tira o seu livre arbítrio espiritual.
3. A UNIVERSALIDADE DO PECADO
Assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.
A Bíblia ensina a “universalidade do pecado” (Sl 143.2; Rm 3.10,12, 23; 1Jo
1.8). Todos os homens pecaram em Adão. Mas, como pode isso? Deus
estabeleceu Adão como cabeça ou representante da raça humana. As
consequências do seu pecado foram transmitidas a todos os seus descendentes. A
Confissão de Fé de Westminster resume: “Nossos primeiros pais, seduzidos pela
astúcia e tentação de Satanás, pecaram, comendo do fruto proibido. Segundo o
seu sábio e santo conselho, foi Deus servido permitir este pecado deles, havendo
determinado ordená-lo para a sua própria glória. Por este pecado eles decaíram
da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em
pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do
corpo e da alma. Sendo eles o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus
pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a
sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles
procede por geração ordinária” (Capítulo VI, 1-3).
O pecado de Adão nos afeta de duas maneiras: (1) Do ponto de vista legal:
somos culpados perante a justiça de Deus (Rm 5.18,9). A culpa do pecado de
Adão é imputada a toda a sua descendência ou posteridade (1Co 15.22). (2) Do
ponto de vista da natureza: herdamos a corrupção. Temos uma natureza
pecaminosa. “Não somos pecadores porque pecamos, mas pecamos porque
somos pecadores”.
Os teólogos chamam essa doutrina bíblica de depravação total do homem. Isso
significa que o mal contaminou o homem totalmente: mente, coração e vontade
(Jr 17.9; Jo 8.44). O homem pecador não tem capacidade para fazer o bem
espiritual ou para produzir a sua salvação. O pecado é como uma doença mortal
e contagiosa que matou o homem (Ef 2.1). John MacArthur Jr. diz: “O pecado
suja a alma. Ele rebaixa a dignidade da pessoa. Obscurece o entendimento.
Torna-nos piores que animais, pois os animais não podem pecar. Polui,
corrompe, suja. Todo pecado é vulgar, repulsivo e revoltante aos olhos de Deus.
A Bíblia o chama de imundícia (Pv 30.12; Ez 24.13; Tg 1.21). O pecado é
comparado ao vômito, e os pecadores são os cães que voltam ao seu próprio
vômito (Pv 26.11; 2Pe 2.22). O pecado é chamado de lamaçal, e os pecadores
são os porcos que rolam nele (Sl 69.2; 2Pe 2.22).
O pecado é semelhante ao cadáver em putrefação, e os pecadores são os túmulos
que contêm o mau cheiro e a sujeira (Mt 23.27). O pecado transformou a
humanidade em uma raça poluída e imunda”.
Em Romanos 3.10-20, Paulo descreve como o pecado afeta o homem na sua
totalidade. Todo homem é pecador e o pecado perverte o homem de quatro
maneiras: (1) O pecado perverte a personalidade humana (Rm 3.10,12). (2) O
pecado perverte a conversação humana (Rm 3.13,14). (3) O pecado perverte a
conduta humana (Rm 3.15-17). (4) O pecado perverte a espiritualidade humana
(Rm 3.18). O pecado está no cerne da nossa alma (Mt 15.19,20). Pecamos de
forma voluntária e prazerosa. A natureza humana ama o pecado e odeia a Deus.
Tentamos esconder, negar, projetar, racionalizar e justificar o nosso pecado.
Tudo em vão! O nosso pecado sempre nos acha. Todos os homens são pecadores
e culpados diante de Deus.
CONCLUSÃO
A antropologia bíblica olha para o homem sob duas perspectivas: (1) Antes do
pecado original. O homem foi criado por Deus e ele era bom e sem pecado. Viu
Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto
dia (Gn 1.31). A expressão “muito bom” aplica-se principalmente ao homem. (2)
Após o pecado original. O homem foi corrompido em sua natureza pelo pecado.
Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo
pecado, a morte, assim tambéma morte passou a todos os homens, porque todos
pecaram (Rm 5.12). Ele está morto espiritualmente. Isso o torna incapaz de
guardar a lei de Deus e merecer a salvação pelas suas obras. Isso o faz incapaz
de mudar a sua natureza e de voltar-se para Deus.
Estudo 06
Texto Básico: Hebreus 8.1-13
A ALIANÇA DA GRAÇA
INTRODUÇÃO
Deus se relaciona com o homem através de alianças. Se as alianças não
existissem jamais poderíamos ter contato ou relacionamento com Deus. A nossa
salvação depende e se baseia na aliança. Por isso precisamos conhecer bem o
ensino bíblico sobre a aliança. Charles Spurgeon diz: “A doutrina do pacto ou da
aliança está na raiz da verdadeira teologia. Estou convencido de que a maioria
dos erros que os homens cometem sobre as doutrinas das Escrituras são baseados
em erros fundamentais no que diz respeito aos pactos da lei e da graça”. O pacto
das obras diz: “Faça isso e viva, ó homem!”. Mas, o pacto da graça diz: “Faça
isso, ó Cristo, e viverás, ó homem!”
O conceito bíblico de “aliança” baseia-se na palavra “berith” (hebraico) e
“diatheke” (grego), com o sentido básico de “prender” ou “amarrar”. Uma
aliança amarrava as partes envolvidas, em direitos e deveres, benefícios e
punições. Wayne Grudem define: “Uma aliança é um acordo imutável e
divinamente imposto entre Deus e o homem, que estipula as condições do
relacionamento entre as partes”.
Mas, por que Deus faz aliança com os homens? Para possibilitar um
relacionamento exclusivo; para expressar a Sua vontade e os Seus planos; para
abençoar as pessoas envolvidas; para dar garantias ao homem.
Na Bíblia identificamos sete alianças de Deus: (1) “Aliança das Obras”, no Éden
com Adão (Gn 1.26-28). (2) “Aliança da Graça” revelada a Adão, após o pecado
original, com a promessa de um Redentor (Gn 3.14-19). (3) Aliança com Noé
(Gn 8.20-9.27). (4) Aliança com Abraão (Gn 12.1-3). (5) Aliança com Moisés,
no Sinai. “Antiga Aliança” (Êx 19.5,6). (6) Aliança com Davi (2Sm 7.5-19). (7)
Nova Aliança, baseada em Jesus Cristo (Mt 26.26-28).
Na perspectiva teológica, só há duas alianças entre Deus e os homens: aliança
das obras e aliança da graça. Vejamos as duas detalhadamente:
1. ALIANÇA DAS OBRAS
Chama-se de “aliança das obras” o pacto que Deus fez com Adão, no Éden. No
texto de Gênesis não aparece a palavra “aliança”, mas a Bíblia é quem explica:
Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que
holocaustos. Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram
aleivosamente contra mim (Os 6.7). O profeta Oseias declara que Israel, assim
como Adão, transgrediram a “aliança”. A palavra “obras” indica que o desfrutar
das bênçãos da aliança dependeria da obediência ou da “obra” humana.
A Confissão de Fé de Westminster diz: “O primeiro pacto feito com o homem
era um pacto de obras; nesse pacto foi a vida prometida a Adão e nele à sua
posteridade, sob a condição de perfeita obediência pessoal”. A narrativa de
Gênesis diz: E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim
comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não
comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gn
2.16,17). Três detalhes importantes: (1) Das partes: Deus e Adão: E o SENHOR
Deus lhe deu esta ordem... Deus fala com Adão e lhe dá uma ordem. Há duas
partes envolvidas e Deus é o proponente da aliança. Ele se apresenta como
Criador e Senhor. Adão foi o representante da raça humana. (2) Do conteúdo: o
mandamento de Deus. De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da
árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás. A promessa não aparece,
mas está implícita no mandamento. Se a desobediência traria morte, é óbvio que
a obediência preservaria a vida que ele já possuía. (3) Das consequências:
porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás . A obediência
preservaria a vida eterna e a desobediência geraria a morte espiritual, física e
eterna. Adão desobedeceu e morreu. Todo gênero humano procedendo dele
pecou e nele caiu.
A aliança das obras ainda está em vigor? Não, por causa da nossa inabilidade.
Somos pecadores e jamais conseguiremos cumprir os requisitos de obediência
exigidos pela lei de Deus. O princípio fica estabelecido: quem conseguir
obedecer totalmente a lei de Deus será salvo (Rm 7.10; 10.5; Gl 3.12). Mas,
ninguém conseguirá.
APLICAÇÕES PRÁTICAS:
O nosso relacionamento com Deus se dá através de alianças.
Devemos obedecer a Deus, pois a obediência preserva a vida eterna e a
desobediência gera a morte espiritual eterna.
2. ALIANÇA DA GRAÇA
Após o fracasso de Adão em cumprir o pacto das obras, Deus revela um plano
divino de redenção: Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência
e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar (Gn
3.15). Deus anuncia que haverá na história uma batalha espiritual entre a
descendência da serpente e a descendência da mulher. A batalha entre os ímpios
contra os justos, entre os filhos de Deus e os filhos de Satanás (Ap 12). Jesus é o
descendente da mulher que ferirá a cabeça da serpente (Hb 2.14) e destruirá
definitivamente todo o poder da morte (1Co 15.20-24).
A aliança da graça origina-se em Deus
As pessoas da Trindade concordaram entre si, um plano para salvar o homem. O
Pai escolheu quem será salvo, o Filho morreu pelos escolhidos pelo Pai, e o
Espírito Santo aplica a salvação na vida daqueles que foram escolhidos pelo Pai
e redimidos pelo Filho (At 13.48; Ef 1.3-14; 2Ts 2.13,14; 1Pe 1.2).
A aliança da graça é unilateral e particular
Deus é quem realiza tudo para salvar os seus escolhidos (Is 53.11,12; Mt 26.28).
As partes dessa aliança são Deus e o seu povo redimido. Jesus é o mediador (Hb
8.6) e o fiador da aliança. Ele cumpre todas as exigências da justiça de Deus, em
nosso lugar. O Espírito Santo nos concede a fé para que creiamos na pessoa e
obra de Jesus. Enfim, é tudo pela graça (Ef 2.4-10).
A aliança da graça é administrada em duas dispensações: antiga aliança
(Velho Testamento) e nova aliança (Novo Testamento)
A primeira é administrada sob a Lei, por meio de promessas, profecias, ritos e
sacrifícios praticados pelos judeus. A segunda é administrada sob o Evangelho,
por meio da pregação da Palavra e administração dos sacramentos. O povo de
Deus é um só, em todas as dispensações. Há um só evangelho e um só Redentor
nas duas dispensações. Os crentes do Antigo Testamento foram salvos, não pelas
obras da lei, mas pela fé no Messias que viria (Jo 14.6; At 4.12; Rm 4.1-6, 13; Gl
3.16-29; Hb 11). Todos são salvos pela fé em Jesus.
APLICAÇÕES PRÁTICAS:
A aliança da graça tem a sua origem em Deus. É Deus quem salva os seus
escolhidos.
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de
Deus.” Efésios 2.8
3. A NOVA ALIANÇA
A Aliança da Graça é chamada no Novo Testamento de “Nova Aliança” (Mt
26.28). A palavra “nova” (kainós) usada para descrever a “nova aliança” indica
que a mesma é qualitativamente inédita e superior. O autor da carta aos Hebreus
afirma esta superioridade porque a mesma baseia-se em “superiores promessas”
(v.6). Quais são essas superiores promessas?
Promessa da graça unilateral
Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de maneira alguma
estaria sendo buscado lugar para uma segunda (v.7). Qual o defeito da Antiga
Aliança? O defeito não estava na Aliança, pois a Lei é santa (Rm 7.12),
espiritual (Rm 7.14) e boa (1Tm 1.8).
O defeito estava na sua função: ela exigia que o homem fizesse o bem, mas
falhava em lhe dar vida e poder para realizar o bem. Deus, então, firma uma
nova aliança (vv.8,9). Deus salva o homem graciosamente, sem exigir do
pecador aquilo que ele não pode dar ou fazer. A lei será utilizada apenas para
mostrar ao homem o seu pecado, para que o mesmo possa ser salvo pela graça.
“Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.20).
Promessa de mudança interior
A nova aliança promete regeneração espiritual. Porque esta é a aliança que
firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz oSenhor: na sua mente
imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e eu serei
o seu Deus, e eles serão o meu povo (v.10). Três observações: (1) Deus é o autor
da regeneração. Ele é quem toma a iniciativa de firmar a nova aliança e de
providenciar o seu total cumprimento. (2) Esta regeneração alcançará a “casa de
Israel” e a “casa de Judá”. Essa casa não se resume à nação de Israel, mas ao
“Israel de Deus”. Compreende todos os eleitos de Deus ou a descendência
espiritual de Abraão (Rm 9.8; Gl 3.13-29). (3) A natureza da regeneração é uma
mudança interior. Ezequiel descreve a regeneração como “purificação pela
água”, “doação de um coração e um espírito novos” e em colocar o Espírito
Santo dentro do coração do homem (Ez 36.25-28). Jesus chamou a regeneração
de “novo nascimento” (Jo 3.1-8). A expressão: na sua mente imprimirei as
minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei, deve ser entendida como
a obra que o Espírito Santo faz quando ele passa a morar em nós. A lei do
Espírito substituiu a lei de Moisés, como guia de vida (Rm 8.2).
O Espírito opera a obediência à Lei (2Co 3.5,6; Fp 2.13). João Calvino comenta:
“Em suma, a Palavra de Deus nunca penetra em nossos corações, pois são ferro e
pedra enquanto não são amolecidos por Ele; sim, tem gravado neles uma lei
contrária, pois paixões perversas lhe dominam o íntimo, o que nos conduz a
rebeldia. Em vão Deus proclama sua lei pela voz humana, a menos que Ele a
escreva em nossos corações, por seu Espírito”.
A regeneração produzirá uma relação íntima e exclusiva entre Deus e os
regenerados: e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (2Co 6.16; Ap 21.3).
Trata-se da “comunhão dos santos” com o Santo.
Promessa de conhecimento universal de Deus
A terceira promessa decorre da segunda: E não ensinará jamais cada um ao seu
próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor; porque todos
me conhecerão, desde o menor deles até ao maior (v.11). Na Antiga Aliança
existia uma divisão entre os entendidos e os ignorantes da lei. Escribas e fariseus
se achavam conhecedores e praticantes da lei, enquanto o povo era desprezado.
Na Nova Aliança, porém, não existirá uma classe privilegiada: todos conhecerão
ao Senhor. A ação interna do Espirito produzirá a unção do discernimento
espiritual: Quanto a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e
não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos
ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei
nele, como também ela vos ensinou (1 Jo 2.27).
Esse conhecimento também mudaria em sua natureza. Ele deixaria de ser teórico
e passaria a ser íntimo e pessoal. A presença do Espírito Santo no coração do
homem produz uma nova maneira de se conhecer a Deus. Em Oseias 4.6: “O
meu povo é destruído por falta de conhecimento”. Trata-se do conhecimento
íntimo e profundo com Deus.
Promessa de perdão completo de pecados
A última promessa da nova aliança é a remissão completa de pecado: Pois, para
com as suas iniquidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me
lembrarei (v.12). Na antiga aliança não havia remissão de pecado, mas
recordação ou comemoração anual de pecados (Hb 10.1-3, 18). Também, a Lei
não prometia perdão, pois a sua função era revelar o pecado existente no homem
(Rm 3.20). Somente pelo sacrifício único e perfeito de Jesus Cristo é que o
perdão pode ser oferecido aos que se arrependem e creem (At 3.19).
Graças a Deus, o sangue de Jesus já resolveu a nossa culpa diante de Deus (Mt
26.28; Hb 9.14; Ap 1.5).
CONCLUSÃO
Há duas alianças principais na Bíblia: aliança das obras e aliança da graça. Hoje
estamos sob a aliança da graça, em sua plenitude. Por causa de Jesus, a aliança
da graça é chamada de “nova aliança”. A sua origem é divina, a sua natureza é
graciosa, a durabilidade é eterna, a sua qualidade é superior, o seu alcance é
universal, a sua limitação é somente para os eleitos e o seu benefício é a vida
eterna.
Estudo 07
Texto Básico: João 1.14
A PESSOA DE JESUS
INTRODUÇÃO
Jesus Cristo é o tema principal da Bíblia. A sua pessoa é o ponto culminante da
revelação divina. Jesus é o cerne da revelação escrita de Deus. Ele é o espírito da
profecia. Em Gênesis, Jesus é o descendente da mulher. Em Êxodo, é o cordeiro
Pascoal. Em Levítico, é o Sacrifício Expiatório. Em Números, é a Rocha Ferida.
Em Deuteronômio, é o Profeta. Em Josué, é o Capitão dos Exércitos do Senhor.
Em Juízes, é o Libertador. Em Rute, é o Parente Divino. Em Reis e Crônicas, é o
Rei Prometido. Em Ester, é o Advogado. Em Jó, é o nosso Redentor. Nos
Salmos, é o nosso Socorro e Alegria. Em Provérbios, é a sabedoria de Deus. Em
Cantares de Salomão, é o nosso Amado. Em Eclesiastes, é o Verdadeiro. Nos
Profetas, é o Messias Prometido. Nos Evangelhos, é o Salvador do Mundo. Nos
Atos, é o Cristo Ressurgido. Nas Epístolas, é a cabeça da Igreja. No Apocalipse,
é o Alfa e o Ômega, é o Cristo que volta para reinar. Para nós, Ele é o Senhor!
Cristologia é o estudo da pessoa e obra de Jesus. Costumeiramente, ele é
estudado na perspectiva dos seus dois estados: (1) Humilhação (Encarnação,
nascimento, sofrimento, morte e sepultamento); e (2) Exaltação (Ressurreição,
ascensão, entronização e segunda vinda).
Neste estudo abordaremos o estudo dos seus nomes e das suas naturezas.
Três pressupostos básicos do nosso estudo sobre Cristo: (1) Jesus Cristo foi
plenamente Deus e plenamente homem em uma só pessoa. Ele foi uma pessoa
com duas naturezas. Isso o torna único e superior a qualquer líder espiritual. (2)
A obra de salvação realizada por Jesus é única, eficaz e irrepetível. Por isso, não
há salvação em nenhum outro nome ou religião aqui na terra. (3) A fé em Jesus
distingue o cristianismo das demais religiões existentes no mundo. Jesus exige
exclusividade na adoração e singularidade na conduta.
1. OS NOMES DE JESUS
Na Bíblia, o nome de uma pessoa sempre revela o seu caráter ou algum fato
relacionado ao momento do seu nascimento. Deus se autorrevela pelos seus
nomes. Por meio dos seus nomes podemos conhecer a identidade de Jesus.
Os principais nomes são:
Jesus
O nome Jesus significa “Salvador”. É a forma hebraica de “Joshua”, que
significa “salvador” (Js 1.1). A escolha desse nome foi uma determinação divina.
Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu
povo dos pecados deles (Mt 1.21). O nome revela a missão: salvação. Trata-se
de um salvador divino, para revelar que não existe caminho do homem para
Deus, mas somente de Deus para o homem. A salvação é exclusiva e limitada:
ele salvará o seu povo. A salvação é espiritual: dos pecados deles.
Cristo
O nome “Cristo” significa “o ungido”. É o nome oficial do Messias. No Antigo
Testamento, os reis e os sacerdotes eram ungidos, simbolizando a capacitação e a
autoridade do Espírito Santo. L. Berkhof afirma que a unção visível significa três
coisas: (1) designação para um ofício; (2) estabelecimento de uma relação
sagrada e o resultante caráter sacrossanto da pessoa ungida (1Sm 24.6; 26.9); (3)
comunicação do Espírito ao ungido (1Sm 16.13). Jesus é o ungido do Espírito: O
Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para
pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de
coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados
(Is 61.1). Jesus é o objeto desta profecia (Lc 4.16-21). Ele é o Cristo para o
cumprimento da grande missão de salvar os pecadores (Jo 1.32).
Filho de Deus
O nome Filho de Deus indica a divindade essencial de Jesus e a sua relação
pessoal com o Pai. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho,
senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o
quiser revelar (Mt 11.27). L. Berkhof diz que o termo “Filho de Deus” é aplicado
a Jesus em quatro sentidos diferentes: no sentido oficial ou messiânico (Mt
3.17), no sentido trinitário (Mt 16.16), no sentido natalício (Lc 1.35) e no sentido
ético religioso (Mt 17.24-27).Filho do Homem
Jesus usou esse nome para descrever a sua humanidade (Mc 2.27,28), aos seus
sofrimentos (Mt 17.22), a sua divindade (Jo 3.13,14) e a sua segunda vinda (Mc
16.27,28).
A origem do termo está no Antigo Testamento (Sl 8.4; Dn 7.13). O foco
principal é apresentar Jesus como homem perfeito (Hb 2.5-18).
Senhor
O nome Senhor (kurios) é o nome que exalta a pessoa de Jesus. Ele é o
equivalente a “Jeová” ou a tradução de “Adonai”. Jesus é o Senhor exaltado (Fp
2.9-11; Ap 19.16). É o título da sua exaltação: Esteja absolutamente certa, pois,
toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor
e Cristo (At 2.36). Jesus é Deus exaltado.
Salvador
O nome Salvador indica a missão de Jesus de vir a este mundo para buscar e
salvar o perdido. Os anjos anunciaram no seu nascimento: é que hoje vos nasceu,
na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor (Lc 2.11). O “Salvador” é
esperado por todos que anseiam pela salvação divina.
2. A PESSOA DE JESUS CRISTO (João 1.1-18)
João inicia o seu livro falando sobre a identidade de Jesus. Ele vai nos apresentar
a Jesus, uma pessoa com duas naturezas:
Jesus é Deus
João começa dizendo: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o
Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas
por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez (vv. 1-3). Temos
cinco aspectos da divindade de Jesus: (1) Ele é o Verbo (logos = Palavra): Jesus
é o Verbo de Deus que nos revela a sua mente e o seu coração (Jo 14.9).
Somente Jesus é o divino Revelador do Pai (Jo 1.18; Hb 1.1).
Em Jesus, conhecemos Deus de forma pessoal. Nele vemos, ouvimos e
acessamos ao Pai. (2) Ele é Eterno: No princípio era o Verbo. Antes da criação,
Jesus já existia (Cl 1.17; Jo 17.5). O verbo era indica uma existência contínua e
intemporal. Jesus já existia quando tudo foi criado. Ele é anterior à criação. (3)
Ele é uma pessoa: e o Verbo estava com Deus.
O fato dEle estar com Deus no princípio, revela que Ele é uma pessoa distinta do
Pai, e que mantinha um relacionamento pessoal com o mesmo (Mt 11.27; Jo
14.21). (4) Ele é Deus: e o Verbo era Deus. Jesus tem a mesma natureza divina
do Pai (Jo 10.30). Ele é divino em termos de essência e substância (Hb 1.3). Ele
possui os mesmos atributos do Pai: onipotência, onisciência e onipresença. (5)
Ele é o Criador: Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele,
nada do que foi feito se fez. Deus criou o mundo por meio da sua palavra (Gn
1.1; Sl 33.9). Jesus é a Palavra, logo Deus criou tudo por intermédio de Jesus (Cl
1.16). Todas as coisas foram criadas por Ele.
João usa duas metáforas para descrever a divindade de Jesus. Ele escreve: A vida
estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as
trevas não prevaleceram contra ela (vv.4,5). Duas palavras-chave que nos
ensinam verdades profundas: (1) Vida. Ela se encontra ou se origina em Jesus
(Jo 14.6) Ela é eterna e divina e consiste na comunhão com Deus (Jo 17.3). Ela é
o contrário de destruição e morte (Jo 3.16). Ela é recebida e experimentada pela
fé exclusiva em Jesus (Jo 3.36; 5.24; 6.47). Fora dEle, não existe vida eterna ou
salvação (At 4.12). (2) Luz. A luz é uma manifestação resplandecente da vida.
Jesus é a luz que veio a este mundo (Jo 12.46). Ele faz desaparecer o caos e as
trevas. Ele revela os pecados humanos (Jo 3.19-21). Ele liberta as pessoas das
trevas e as dirige espiritualmente (Jo 8.12). As trevas são hostis e se opõem à
luz. As trevas se referem à humanidade caída, escrava pela incredulidade e pelo
pecado. As trevas simbolizam a ignorância, a superstição, o perigo e a tristeza.
Aplicações Práticas:
Por que é necessária a divindade de Jesus?
A salvação vem de Deus, pois nenhum ser humano tem poder para salvar. O
homem é impotente para produzir a sua própria salvação. Sendo assim, quem
pode ser salvo?
Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para
Deus tudo é possível (Mt 19.25,26).
Somente alguém que fosse Deus infinito e eterno poderia arcar com toda a pena
de todos os pecados, de tantas pessoas, de tantos lugares e épocas diferentes.
Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele,
fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.26).
Somente alguém que fosse verdadeiramente Deus poderia reconciliar Deus com
os homens. Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os
homens, Cristo Jesus, homem (1Tm 2.5).
A testemunha precursora da Luz foi João Batista: Houve um homem enviado por
Deus cujo nome era João. Este veio como testemunha para que testificasse a
respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele. Ele não era a
luz, mas veio para que testificasse da luz, a saber, a verdadeira luz, que, vinda ao
mundo, ilumina a todo homem (vv.6-9). O nome de João Batista significa “Jeová
tem sido gracioso”.
Três destaques sobre ele: (1) João Batista era um homem que veio porque foi
enviado por Deus. Ele era uma voz profética após quatrocentos anos de silêncio.
Ele foi comissionado por Deus, o que o coloca na mesma categoria de Moisés e
dos profetas (Êx 3.10-15; Is 6.8; Jr 1.4). A lei e os profetas duraram até João (Lc
16.16). (2) João Batista foi enviado como testemunha de Jesus, para dizer ao
povo que a Luz havia chegado ao mundo (Is 40.1-11). Ele não era a Luz. Ele
anunciava a Jesus, a verdadeira luz (alethinos = significa real, genuína e
verdadeira, em oposição à luz que não existe). (3) João Batista foi enviado para
dizer que Jesus é a luz que ilumina a todo homem no sentido de que a
iluminação que trouxe é para todos os homens, sem distinção. A salvação será
pregada a todos os homens, e não para uma nação especial.
Jesus é homem
Jesus é Deus, o Verbo eterno, pessoal e criador. Ele é a Vida e a Luz. Agora, o
evangelista João declara que Deus se fez homem: E o Verbo se fez carne e
habitou entre nós (v.14).
No tempo determinado por Deus, ele enviou seu Filho, nascido de mulher e sob
a lei (Gl 4.4,5). Deus tornou-se homem, vestiu a nossa humanidade, exceto o
nosso pecado. A palavra “habitou” (skenoô) significa “armou seu tabernáculo ou
a sua tenda” entre nós (Êx 25.8). O tabernáculo era a tenda onde Deus se
encontrava com Moisés e com o seu povo. Jesus encarnado é Deus,
pessoalmente, vindo habitar conosco.
Jesus se fez homem sem deixar de ser Deus. Ele era verdadeiramente Deus e
verdadeiramente homem, de forma inconfundível, imutável, indivisível e
inseparável. Jesus se fez homem pelo milagre do nascimento virginal (Is 7.14;
Mt 1.18-25; Lc 1.26-38). Ele assumiu a natureza humana e viveu sem pecar até a
sua morte. Ele se identificou conosco em todas as nossas fraquezas (Jo 4.6,7;
6.53; 8.40; 11.33-35; 12.27; 13.21; 19.28). João e os outros discípulos dizem que
viram a Jesus, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do
unigênito do Pai (v.14). Duas razões por que eles viram: Primeiro, porque a
graça e a verdade vieram por meio de Jesus (vv.16,17). Segundo, porque Jesus
revelou a si mesmo e também a Deus (v.18).
Aplicações práticas:
Por que é necessária a humanidade de Jesus?
Para ser o nosso representante e obedecer em nosso lugar. Porque, como, pela
desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também,
por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos (Rm 5.19).
Para ser o nosso substituto e morrer em nosso lugar. Mas ele foi traspassado
pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos
traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Is 53.5).
Para ser o nosso exemplo de caráter e vida. Aquele que diz que permanece nele,
esse deve também andar assim como ele andou (1Jo 2.6).
CONCLUSÃO
Qual é a sua posição diante da mensagem do evangelho? João apresenta a
tríplice reação das pessoas na sua época. (1) Aqueles que não o reconhecem. O
Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo
não o conheceu (v.10). O mundo é o universo (kosmos) ou “todas as coisas”.Deus se revela como criador através da criação, mas o homem insiste em negar a
sua existência (Rm 1.18-21). Esta é a atitude de muitos hoje. Não reconhecem ou
negam a Jesus, como o Filho de Deus, o Salvador. (2) Aqueles que não o
recebem. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Jesus se revela
pessoalmente a Israel, mas o seu próprio povo não o recebeu (Is 1.2,3). Os
judeus rejeitaram a Jesus como o Messias prometido. Eles odiaram e mataram o
Filho de Deus (Lc 19.14; Mc 12.6-8). Até hoje os judeus esperam o Messias. (3)
Mas, a todos quantos o receberam. Jesus foi recebido por muitos, judeus e
gentios. E nos versos 10-13, temos a revelação de como uma pessoa torna-se um
cristão: (a) A pessoa recebe a Cristo: a todos quantos o receberam. Recebe-se a
Cristo crendo que Ele é conforme se apresenta na Escritura. (b) A pessoa é
recebida por Deus. Deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus. Todo aquele
que recebe a Jesus obtêm o direito de se tornar filho de Deus e o privilégio da
adoção (Gl 3.26; 1Jo 3.1). (c) A pessoa nasce de novo. Os quais não nasceram do
sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
Deus renova o coração humano fazendo-o reviver depois de estar morto (Ef 2.1;
1Pe 1.23). Este novo nascimento não acontece por hereditariedade ou por
geração natural de pai e mãe: não nasceram do sangue. Ele não acontece pelo
instinto natural: nem da vontade da carne. Ele não acontece pela vontade do
homem: nem da vontade do homem. Os verdadeiros cristãos são nascidos de
Deus (1Jo 3.9; 5.1). Somente pelo poder divino alguém pode ser salvo e se
tornar filho de Deus.
Estudo 08
Texto Básico: 1 Timóteo 2.5
OS OFÍCIOS DE CRISTO
INTRODUÇÃO
Os três ofícios mais importantes que existiram em Israel, no período do Antigo
Testamento eram: o profeta, o sacerdote e o rei.
Eram três ofícios distintos e com funções diferentes. O profeta comunicava ao
povo as palavras de Deus. O sacerdote comunicava a Deus as necessidades do
povo, através dos sacrifícios, orações e louvores. O rei governava sobre o povo
como representante de Deus. Esses três ofícios prefiguravam e apontavam à
pessoa e à obra de Jesus Cristo.
O Breve Catecismo de Westminster resume como Cristo exerce os três ofícios:
“Cristo exerce as funções de profeta, revelando-nos, pela sua Palavra e pelo seu
Espírito, a vontade de Deus para a nossa salvação (Jo 1.18; Hb 1.1,2; Jo 14.26;
16.13). Cristo exerce as funções de sacerdote, oferecendo-se a si mesmo uma
vez em sacrifício, para satisfazer a justiça divina, reconciliar-nos com Deus e
fazendo contínua intercessão por nós (Hb 9.28; Rm 3.24-26; 10.4; Hb 2.17; 7.25;
Is 53.12). Cristo exerce as funções de rei, sujeitando-nos a si mesmo,
governando-nos e protegendo-nos, contendo e subjugando todos os seus e os
nossos inimigos (Sl 110.3; At 2.36; 18.9,10; Is 9.6,7; 1Co 15.26,27)”.
O nosso estudo de hoje é sobre os detalhes de como Jesus exerce esses três
ofícios, em benefício do seu povo e da sua igreja.
1. JESUS CRISTO COMO PROFETA
Revelação é o ato de Deus comunicar a sua existência e a sua vontade aos
homens. A revelação de Deus é progressiva. Ela começa no Antigo Testamento e
termina no Novo Testamento. Por isso, em Hebreus 1.1,2, o autor começa
dizendo do passado: Havendo Deus outrora falado, muitas vezes e de muitas
maneiras, aos pais, pelos profetas (v.1). Seis lições importantes: (1) Quem falou?
Deus. Ele resolveu comunicar-se com as suas criaturas. Assim, o conhecimento
que temos de Deus não é por causa da nossa busca, mas da sua revelação. (2)
Quando Ele falou? “Antigamente” indica “outrora ou no passado”. Refere-se a
todas as revelações feitas no Antigo Testamento, antes de Moisés, por meio dos
profetas, tanto nas Escrituras como fora delas. Compreende todo o tempo de
revelação feita antes de Jesus Cristo. (3) Quantas vezes Ele falou? “Muitas
vezes” que poderia ser traduzido literalmente em muitas partes ou porções.
Trata-se de uma prática que foi repetida de forma fracionada. A ênfase recai
sobre a natureza fragmentária da antiga revelação. (4) Como Ele falou? “Muitas
maneiras” significa diversos métodos: visões, sonhos, revelações angelicais,
palavras e eventos proféticos etc. Deus falou até por meio de uma jumenta. (5)
Para quem Ele falou? “Aos pais” ou “aos nossos ancestrais” (Jo 7.22 e Rm 15.8).
A ênfase é sobre quem recebeu a revelação ou aos destinatários da comunicação
divina. (6) Por quem Ele falou? “Pelos profetas” indica que Deus fez uso do
instrumento humano para se comunicar com o próprio homem. A palavra
hebraica para “profeta” significa “boca de Deus”. De Moisés a João Batista, a
profecia foi falada e escrita como lei, história, salmos e profecias. Deus também
chamou e capacitou pessoas com o Espírito Santo para falar da salvação de Deus
(1Pe 1.10-12; 2Pe 1.21). Os escritores bíblicos receberam a revelação de Deus.
Eles foram inspirados pelo Espírito Santo para escreverem o que lhes foi
revelado.
O autor da carta aos Hebreus continua falando sobre a revelação divina: Nestes
últimos dias nos falou pelo Filho (v.2). Três destaques: (1) Quando Ele falou?
“Nestes últimos dias”. Trata-se do período que se inicia com a primeira vinda de
Cristo e terminará com a sua segunda vinda. São os últimos dias da salvação que
os profetas previram (Jr 23.20; Mq 4.1). Vivemos hoje os últimos dias. (2) A
quem Ele falou? “A nós nos falou”. O alvo da revelação é a geração presente. É
através de Jesus que Deus nos fala hoje. (3) Como Ele nos falou? “A nós nos
falou pelo Filho”. “Filho” é o pensamento principal, a ideia-chave. Jesus é o
profeta maior e superior a todos os profetas que existiram anteriormente (Dt
18.18; Jo 5.45-47; Hb 3.2-6). Jesus é o Filho de Deus, Filho único que nos
trouxe a revelação definitiva e completa. Ele não é um mero veículo de
revelação, e sim Deus em forma humana (Jo 14.9). Esta revelação não é
fragmentária, mas completa; não parcial, mas perfeita; não preparatória, mas
final.
Dois pontos ou princípios teológicos que precisam ser destacados:
Jesus não era um profeta semelhante aos outros, mas Ele mesmo era a fonte
da revelação de Deus
Jesus é a revelação superior e perfeita de Deus. Ninguém jamais viu a Deus; o
Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou (Jo 1.18). Jesus é a
expressão exata do seu Ser (Hb 1.3). Aquele que reflete a glória de Deus
compartilha da sua natureza. A palavra no grego é “caráter” (character),
comumente usada para um carimbo ou uma gravação. Um carimbo num selo de
cera terá a mesma imagem que a gravura no selo. Jesus é a expressão exata da
natureza e da essência de Deus (Jo 1.1; Cl 1.15).
Jesus foi o profeta prometido por Moisés e reconhecido pelos cristãos
primitivos (Dt 18.15-18; At 3.22-24), aclamado pelo povo que Ele abençoou
(Lc 7.16; Jo 4.19; 9.17)
Ele é aquele sobre quem foram feitas as profecias do Antigo Testamento,
conforme ensino do próprio Jesus (Lc 24.25-27).
Aplicações Práticas:
Deus fala conosco todos os dias, de diversas maneiras. Devemos estar atentos
para ouvir a voz de Deus.
Devemos falar da salvação de Deus para outras pessoas. Deus nos capacita com
o Espírito Santo para fazermos isso.
Jesus é o profeta excelente. É a revelação de Deus.
2. JESUS CRISTO COMO SACERDOTE
Enquanto o profeta representava Deus perante o povo, o sacerdote representava
o povo perante Deus. Após descrever a pessoa de Jesus Cristo como profeta que
revela pessoalmente a Deus, o escritor da carta aos Hebreus destaca a sua obra
como sacerdote: depois de ter feito a purificação dos pecados (v.3). Jesus é o
sumo sacerdote perfeito. Wayne Grudem apresenta três aspectos do ministério
sacerdotal de Jesus: Ele ofereceu um sacrifício perfeito pelo pecado (Hb 4.14;
9.24-28).Ele nos aproxima continuamente de Deus (Hb 10.19-22). Ele ora
continuamente por nós (Hb 7.25).
Em Hebreus 5.1-10, o autor apresenta as qualificações de alguém para ser
sacerdote na Antiga Aliança e como elas se aplicam a Jesus Cristo.
Ser humano: tomado dentre os homens
O sacerdote é um homem selecionado dentre outrospara representar os homens
perante Deus. Nenhum homem poderá comparecer perante Deus senão por
intermédio de um mediador. Jesus é o nosso grande sumo sacerdote, homem e
mediador perfeito e único
(Hb 4.14; 1Tm 2.5).
Ser escolhido e nomeado por Deus: é constituído
O sumo sacerdote não se autodesigna, mas é tomado e constituído por Deus.
Somente Deus pode constituir sacerdotes (Êx 28.29; Lv 8-9; Nm 16.18). A sua
nomeação é nas coisas concernentes a Deus, a favor dos homens. Um sumo
sacerdote trabalha em uma via dupla: ele leva os problemas dos pecadores até
Deus, e traz as bênçãos de Deus para os pecadores. Deus constituiu a Jesus como
sumo sacerdote eterno (Hb 5.5,6; 7.20-28).
Seu dever é oferecer dons e sacrifícios a Deus: para oferecer tanto dons
como sacrifícios pelos pecados
Os dons (dora) são as ofertas de grãos e cereais (ofertas de gratidão) e os
sacrifícios (thysias) são os holocaustos ou ofertas de sangue (Lv 1-6). O
sacrifício que Jesus ofereceu a Deus não se repete, é perfeito e eficaz para
perdoar e purificar os nossos pecados (Hb 9.1-28). E, tendo sido aperfeiçoado,
tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem (Hb 5.9).
O sacrifício de Jesus foi perfeito, por três motivos: Primeiro, porque ele não
precisava oferecer sacrifício algum por ele. Ele era impecável em sua natureza
humana. Segundo, porque foi único e definitivo, enquanto os sacrifícios da lei
cerimonial precisavam ser repetidos. Terceiro, porque produziu salvação eterna
para todos que obedecem à fé ou ao evangelho (At 6.7; Rm 10.16). Obedecer é
confiar em Deus.
Ser solidário com as fraquezas humanas: capaz de condoer-se dos
ignorantes e dos que erram
O fato de ser humano e pecador faz do sumo sacerdote uma pessoa solidária e
misericordiosa com as pessoas que ele representa. “Porque não temos um
sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas” (Hb 4.15). A
palavra “compadecer” significa “simpatizar”, “sofrer juntamente com”. Jesus se
identifica conosco sentindo as nossas dores e sofrimentos. A palavra “fraqueza”
indica toda forma de necessidade.
Jesus ora continuamente por nós, junto ao Pai. Ele é o nosso intercessor (Rm
8.34; Hb 7.25). Essa intercessão de Cristo possui três características: (1) Ela é
constante. Jesus intercede ininterruptamente por nós para que a nossa fé não
desfaleça. (2) Ela é autorizada. Jesus é um advogado justo que defende a nossa
causa perante o Pai. É o Filho pedindo ao Pai por nós (Jo 14.16; 16.26; 1 Jo
2.1,2). (3) Ela é eficaz. A intercessão de Jesus é infalível. O Pai sempre o ouve
(Jo 11.42).
Aplicações Práticas:
Como você se sente sabendo que Jesus é o sumo sacerdote perfeito, que nos
aproxima de Deus e ora por nós?
“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo
Jesus, homem”. 1 Timóteo 2.5
3. JESUS CRISTO COMO REI.
A. W. Pink definindo a soberania de Deus, declara: “Que queremos dizer com
esta expressão? Queremos afirmar a supremacia de Deus, a realeza de Deus, a
divindade de Deus. Dizer que Deus é soberano é declarar que Deus é Deus.
Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele é o Altíssimo, o qual tudo faz
segundo Sua vontade no exército dos céus e entre os moradores da terra (Dn
4.35). Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele é onipotente, possuidor de
todo o poder nos céus e na terra, de tal maneira que ninguém pode impedir os
seus conselhos, contrariar os seus propósitos ou resistir à sua vontade (Sl 115.3).
Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele “governa as nações” (Sl 22.28),
estabelecendo reinos, derrubando impérios e determinando o curso das dinastias,
segundo o seu agrado. Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele é o “‘Único
Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores’ (1 Tm 6.15). Este é o Deus da
Bíblia.”
Jesus Cristo compartilha com Deus e com o Espírito Santo dessa soberania e
realeza originária. Mas há uma realeza exercida por Cristo proveniente da sua
encarnação. Após o evento da sua morte e ressurreição, Ele foi entronizado nos
céus: assentou-se à direita da Majestade, nas alturas (Hb 1.3) A palavra “direita”
significa “poder”, “autoridade” e “honra”. Jesus Cristo está assentado à direita
de Deus, em posição de exaltação e honra (1Pe 3.22). Louis Berkhof define: “é o
seu poder oficial de governar todas as coisas do céu e da terra, para a glória de
Deus e para execução do seu propósito de salvação”. A natureza deste reino é
espiritual. Quatro características desse reino: (1) Ele reina e governa sobre o seu
povo e a igreja (Ef 1.22; At 2.30-36). (2) Ele reina invisivelmente nos corações e
nas vidas dos crentes (Is 9.6,7; Jo 18.36,37). (3) Ele reina não pela força externa,
mas pelo poder da Palavra e do Espírito Santo (Zc 6.13; Lc 1.33). (4) Ele reina
no presente e no futuro. O seu reino é uma realidade presente e uma esperança
futura (Mt 12.28; 19.23; Lc 17.21; 22.29,30).
Após a sua ascensão, Jesus foi exaltado por Deus, que o fez Senhor e Cristo (At
2.36). Ele foi recompensado pelo Pai pelo seu trabalho na cruz (Mt 28.18; Fp
2.9-11). Jesus é o Senhor e não os imperadores romanos. Em Roma, no local
onde muitos cristãos foram torturados e mortos pelos imperadores romanos, há
um memorial escrito com a seguinte frase: “Cristo está conquistando, Cristo está
reinando e Cristo governa sobre todos”.
Tendo se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do
que eles (Hb 1.4). Esse nome que Jesus recebeu é SENHOR. Ele reina também
no universo, governando o destino dos homens e nações para benefício da sua
Igreja. L. Berkhof declara: “O reinado de Cristo sobre o universo é subserviente
ao seu reinado espiritual”. Jesus faz isso com o intuito de proteger o seu povo
dos ataques das forças malignas.
O reinado espiritual de Cristo durará até que a vitória sobre todos os inimigos for
consumada. A morte será a última inimiga a ser abolida: E, então, virá o fim,
quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo
principado, bem como toda potestade e poder. Porque convém que ele reine até
que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser
destruído é a morte (1Co 15.24-26). Quando a Igreja estiver redimida, Cristo
devolverá a autoridade ao Pai.
Aplicações Práticas:
Como é bom reconhecer a soberania de Deus sobre todas as coisas!
Jesus Cristo está assentado à direita de Deus e reina sobre tudo e sobre todos.
Jesus Cristo protege o seu povo das forças malignas.
CONCLUSÃO
Para sermos encorajados a não desistir na fé, precisamos olhar para a
superioridade de Jesus. Ele é o Profeta, o Sacerdote e o Rei do seu povo. Ele é
incomparável, insuperável e insubstituível. Olhe para Jesus e anime-se.
Os seus ofícios são transmitidos a nós, o seu povo: Somos profetas à medida que
proclamamos o Evangelho ao mundo (Mt 28.18-20); Somos sacerdotes para
oferecer sacrifícios espirituais de adoração a Deus (1Pe 2.5,9); Somos reis
porque estamos assentados nos lugares celestiais com Cristo (Ef 2.6).
Estudo 09
Texto Básico: João 14.16
A PESSOA E A OBRA DO ESPÍRITO SANTO
INTRODUÇÃO
Pneumatologia é o estudo da doutrina bíblica sobre a pessoa e a obra do Espírito
Santo. E se existe uma doutrina na Bíblia que precisamos estudar é esta. Há
muitos estudos sobre a pessoa do Pai e do Filho, mas poucos estudos sobre a
pessoa do Espírito. Desses poucos, a maioria é de natureza apologética, onde
pessoas usam os textos apenas para defender ou atacar práticas espirituais.
Precisamos estudar a doutrina bíblica da pessoa e da obra do Espírito Santo por
três motivos básicos: (1) porque ela se encontra na Bíblia e deve ser conhecida e
praticada; (2) porque é por intermédio do conhecimento, iluminação, enchimento
e ação do Espírito que somos transformados; (3) porque precisamos do poder do
Espírito para realizarmos a obra de Deus.
Três princípios bíblicos sobre a doutrina do Espírito Santo: (1) O Espírito Santo
é Deus.Ele é igual, coexistente e coeterno com o Pai e o Filho. Ele possui todos
os atributos da divindade.
(2) O Espírito é quem converte o pecadorque crê. Ele habita, santifica,
capacita e guia os crentes, mantendo-os firmes e perseverantes na fé. (3) A
ordem de Deus é para que todos os crentes sejam cheios do Espírito Santo.
1. OS NOMES DO ESPÍRITO SANTO
A Bíblia usa vários nomes e títulos para identificar a pessoa do Espírito e a sua
influência. Deus (At 5.3,4), Senhor (2Ts 3.5), Bom Espírito (Ne 9.21), Santo
Espírito (Sl 51.11), Poder do Altíssimo (Lc 1.35), Sete Espíritos de Deus (Ap
1.4), Espírito de adoção, conhecimento, conselho, entendimento, fogo, glória,
graça, julgamento, poder, profecia, revelação, sabedoria, santidade, eterno, do
temor do Senhor, verdade e vida. Espírito de Cristo (Rm 8.9), Espírito de Deus
(Gn 1.2), Espírito do Filho (Gl 4.6), Espírito do Pai (Mt 10.20), Espírito do
Senhor (At 5.9) e Espírito do Senhor Deus (Is 61.1).
Em João 14-16 temos o ensino de Jesus sobre o Espírito. Ele usa três nomes
diferentes para o Espírito:
O Consolador
A palavra “Consolador” (Parakletos) significa “encorajador” ou auxiliador (Jo
14.16, 25; 15.26; 16.7). A palavra era usada na linguagem jurídica para o
advogado de defesa (1Jo 2.1), isto é, alguém que ajudava ou apoiava um réu. O
sentido ganha amplitude, pois o Espírito, assim como Jesus, não apenas foi um
advogado, mas uma pessoa que provê encorajamento, conselho, força,
entusiasmo, motivação e poder. É comparável ao apoio e o carinho de um pai.
Por isso Jesus diz “não vos deixarei órfãos”.
A palavra “órfãos” é encontrada exclusivamente neste texto e em Tiago (1.27), e
o seu melhor sentido é “destituídos”. Era comumente usada para indicar filhos
destituídos de seus pais e de tudo aquilo que uma paternidade responsável
oferece. Não vos deixarei órfãos! Jesus Cristo não nos deixou: sem amor (Jo
13.1); sem exemplo (Jo 13.15); sem lei (Jo 13.34); sem recompensa (Jo14.1);
sem destino (Jo 14.6); sem serviço (Jo 14.12); sem paz (Jo 14.27); sem
esperança (Jo 14.18). No ministério de confortar e encorajar o cristão, o Espírito
derrama amor divino no coração (Rm 5.5), testemunha que são filhos de Deus
(Rm 8.16), unge com alegria e discernimento (2 Co1.21), derrama paz e
esperança na mente e no coração (Rm 15.13), concede alegria na luta (Rm
14.17), assiste na fraqueza (Rm 8.26), produz a frutificação espiritual (Gl 5.22) e
capacita para o serviço (1Co 12.11).
O Espírito da verdade
Jesus usa outro nome: “o Espírito da verdade” (Jo 14.17; 16.13). Há um duplo
significado: o Espírito é a essência da verdade e o revelador do que é verdadeiro.
Por isso João testifica: o Espírito Santo é a verdade (1Jo 5.6). Ele é o autor
divino das Escrituras (2Pe 1.20,21), a verdade escrita (Jo 17.17); Ele dá
conhecimento da verdade salvadora que é Jesus Cristo (Jo 8.32,36). Não existe a
possibilidade humana de conhecer as verdades de Deus senão pelo Espírito
Santo. Uma mentira contra o Espírito Santo foi instantaneamente punida com a
morte (At 5.1-11).
O Espírito Santo
Jesus qualifica o Espírito de santo (Jo 14.26). Por que Ele é chamado de Espírito
Santo? Primeiro, por causa da sua natureza santa e perfeita (1Jo 2.20). Deus é
santo (1Pe 1.16). Segundo, por causa do seu ministério que é o de produzir
santidade. Martyn Lloyd-Jones explica: “Por que, pois, é Ele chamado santo?
Seguramente, a explicação consiste em que é Sua obra especial produzir
santidade e ordem em tudo o que Ele faz na aplicação da obra salvadora de
Cristo”. E o seu ministério é santificar o povo de Deus (Sl 51.11; Rm 1.14).
2. A PESSOA DO ESPÍRITO SANTO
Há um único Deus verdadeiro que subsiste em três pessoas: Deus Pai, Deus
Filho e Deus Espírito Santo. O Breve Catecismo de Westminster resume: O
Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade, procedente do Pai e do Filho, da
mesma substância e igual em poder e glória, e deve-se crer nele, amá-Lo,
obedecê-Lo e adorá-Lo, juntamente com o Pai e o Filho, por todos os séculos
(Mt 3.16,17; Mt 28.19; 2Co 13.13; Jo 15.26 e 16.13,14 e 17.24).
O Espírito é uma pessoa. Não é uma força ou uma energia cósmica e impessoal.
Ele é uma personalidade que expressa ideias, sentimentos e comportamentos. A
Bíblia demonstra isso de várias maneiras: (1) Argumentos gramaticais. E eu
rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre
convosco (Jo 14.16). A expressão “outro Consolador” indica que o Espírito
Santo é alguém como Jesus, uma personalidade distinta do Pai e do Filho.
Apesar do substantivo “espírito”, (pneuma) na língua grega, ser do gênero
neutro, ao se referir ao Espírito Santo, ele sempre vem acompanhado por um
pronome pessoal masculino (Jo 15.26; 16.7,8, 13,14). (2) Argumentos pessoais.
A Bíblia sempre apresenta o Espírito Santo como uma pessoa, atribuindo-lhe
traços de personalidade: inteligência (1Co 2.10,11 e Rm 8.27), vontade (1 Co
12.11 e At 13.1-3) e emoções ou sentimentos (Ef 4.30 e Rm 15.30). Ele age
como uma pessoa: fala (Ap 2.7), intercede (Rm 8.26), testemunha (Jo 15.26),
ensina (Jo 16.12-14), chama e envia pessoas (At 20.28), convence (Jo 16.8),
guia e orienta (At 16.6,7). O Espírito é uma pessoa, a qual você pode blasfemar
(Mt 12.31), mentir (At 5.3), tentar (At 5.9), resistir (At 7.51) e obedecer (At
13.2,3).
Aplicações Práticas:
O Espírito Santo é um Deus pessoal e presente na sua vida?
Existe conversão sem a ação do Espírito Santo?
3. A DIVINDADE DO ESPÍRITO
Por divindade do Espírito Santo se entende que Ele é um com Deus, fazendo
parte da Divindade, coigual, coeterno e consubstancial com o Pai e com o Filho
(Mt 28.19; Jo 14.16). Podemos constatar sua divindade nos títulos e nomes que
lhe são atribuídos (veja os nomes acima). No que se refere às obras divinas,
devemos entendê-las, didaticamente, da seguinte maneira:
O Pai é a origem da qual elas começam; o Filho é o meio pelo qual elas
acontecem; e o Espírito é o executivo pelo qual elas são realizadas ou aplicadas.
Atributos divinos atribuídos ao Espírito Santo: eternidade (Hb 9.14), onipotência
(Gn 1.1,2), onipresença (Sl 139.7,8), onisciência (1Co 2.20), soberania (Jo 3.8),
santidade (Mt 28.19) e vida (Rm 8.2). As obras de Deus são atribuídas também
ao Espírito Santo: criação (Jó 33.4), inspiração das Escrituras (2 Pe 1.21),
encarnação de Cristo (Mt 1.18) e ressurreição (Rm 8.11). O Espírito Santo é
Deus.
4. A OBRA DO ESPÍRITO SANTO
A obra ou o ministério do Espírito Santo é um assunto polêmico. A posição mais
aceita é aquela que classifica em obra geral à parte da redenção e obra específica
na aplicação da redenção. Alguns chamam de o Espírito agindo na criação e na
nova criação. A base para tal divisão é doutrina que os reformadores chamaram
de Graça Comum e Graça Especial.
Entendemos, porém, que a obra do Espírito tem como marco divisor o
cumprimento da promessa do derramar do Espírito (At 2). Observamos que o
Espírito atuou na criação do universo e do homem (Gn 1.2,26; Jó 26.13; 33.4; Is
40.12,13), e na sustentação e preservação da criação (Sl 104.10-30; 139; Is 40.7).
Todos que foram salvos e viveram pela fé antes do Pentecostes, foram assistidos
pelo Espírito Santo. A ideia que alguns dos crentes do Antigo Testamento não
tinham o Espírito Santo deve ser questionada, pois a salvação é para o homem
uma coisa impossível (Mt 19.25,26). Paulo declara que Abraão e Davi foram
justificados pela fé (Rm 4). Seria possível alguém ser justificado pela fé sem a
ação do Espírito?
No Antigo Testamento, o Espírito Santo convencia (Gn 6.3), vivificava (Sl
119.25), iluminava (Sl 119.27), conduzia a alma a Deus (Sl 65.3,4), instruía (Ne
9.20) e sustentava o crente (Sl 37.24). Ele inspirou os profetas (Ez 2.1,2),
inspirou as Escrituras (2Pe 1.21), concedeu dons aos crentes (Gn 41.38; Êx 31.2-
5; Nm 11.25 e 27.18; Jz 6.34) e capacitou os crentes para o serviço (Zc 4.6).
No ensino de Jesus acerca do Espírito Santo, algumas tarefas especiais lhes são
atribuídas: (1) Ele ensina e relembra (Jo 14.26). O Espírito trará à memória dos
discípulos as coisas que Jesus tinha dito, e assim, por sua inspiração, eles serão
habilitados a escrevê-las e a pregá-las. Temos aqui a ação do Espírito no
processode revelação e inspiração das Escrituras (2 Pe 1.20,21). (2) Ele dá
testemunho de Jesus (Jo 15.26). O Espírito testemunha, testifica, declara, fala
bem do Filho confirmando que Ele é o único Salvador e Senhor. Este é o
testemunho externo. Também o Espírito Santo testifica no coração do cristão que
ele é filho de Deus, por causa da fé em Jesus Cristo (Rm 8.9, 16; 1 Jo.5.10). Este
é o testemunho interno. (3) Ele convence o mundo (Jo 16.8). O verbo
“convencer” (elegsei) significa “trazer à luz”, “expor”, “mostrar”, “persuadir”,
“convicção interior” (Jo 3.20; 8.46). O Espírito é o responsável pelo
convencimento interno das pessoas quanto ao verdadeiro sentido do pecado, da
justiça e do juízo. Há um outro sentido para o verbo que é o de “reprovar”,
“corrigir”, “disciplinar” e “punir” (Mt 18.15; Lc 3.19). A obra do convencimento
é tríplice: do pecado, pois somos pecadores por natureza (Rm 3.23); da justiça
salvadora que nos é oferecida em Cristo Jesus (Rm 5.1); e do juízo que será o
julgamento daqueles que rejeitam a salvação em Jesus (Jo 3.18,19). (4) Ele guia
a toda a verdade (Jo 16.13). O Espírito tem a missão de guiar, liderar e instruir
aos homens, em seus corações, qual o significado de Cristo (At 8.31). Ele jamais
nos guiará à mentira ou ao erro. Ele nos revela a verdade da nossa natureza caída
e nos conduz à verdade santificadora de Deus. (5) A obra principal do Espírito é
glorificar a Cristo (Jo 16.14). Ninguém pode reconhecer que Jesus é Senhor
senão pelo Espírito (1Co 12.3). Toda obra salvadora é realizada pelo Espírito e
toda obra do Espírito está vinculada à obra de Jesus.
Aplicações Práticas:
Você crê que o Espírito Santo é Deus? Relembre os atributos atribuídos ao
Espírito Santo.
O Espírito Santo é quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo.
Somente o poder do Espírito Santo pode transformar a nossa vida.
CONCLUSÃO
Por que preciso do Espírito Santo? Resposta: para ser transformado por Deus.
Somente o poder do Espírito pode transformar a nossa vida.
Quando os apóstolos foram revestidos pelo Espírito Santo (At 2), transformações
aconteceram: o medo paralisador foi transformado em ousadia e coragem; a
vontade de desistir do ministério foi transformada numa atitude de se sacrificar
pelo evangelho; o desânimo apático foi convertido em alegria e contentamento
celestial; a sensação de derrota e solidão foi transformada em convicção de
vitória e comunhão com Deus.
Charles Swindoll diz: “A força mais poderosa na sua vida, como cristão, é algo
que você nem mesmo pode ver. Ela é tão poderosa que lhe sustenta eternamente,
até que Cristo venha e assegure o seu destino, enviando-lhe para a eternidade.
Enquanto isso, Ele está pronto para trabalhar dentro de você, transformando a
sua vida. O poder do Espírito está esperando para ser usado”.
Estudo 10
Texto Básico: 2 Tessalonicenses 2.13-17
ELEITOS PARA A SALVAÇÃO
INTRODUÇÃO
A Soteriologia é o capítulo da Teologia Sistemática que estuda a aplicação da
salvação na vida dos pecadores. O Espírito Santo é o agente da Trindade que faz
essa aplicação. A ordem dessa aplicação é: eleição, vocação ou chamado,
regeneração, união mística, conversão, justificação, adoção, santificação e
perseverança.
A eleição é o primeiro elemento da ordem da salvação. Porque Deus elegeu, os
homens são salvos. Tudo começa com a eleição. Hermann Bavinck diz: “A
eleição significa que Deus concede ao homem, graciosa e livremente, a salvação
que o homem não possui direito e que nunca poderá alcançar por sua própria
força. A eleição é a base e a garantia, o coração e o núcleo da Aliança da Graça”.
Wayne Grudem define: “Eleição é um ato de Deus, antes da criação, no qual ele
escolhe algumas pessoas para serem salvas, não por algum mérito antevisto
delas, mas somente por causa de sua suprema boa vontade”.
A eleição é uma doutrina bíblica. No Antigo Testamen-
to: Êx 19.5,6; Dt 4.37; 7.6,7; 14.2; 1Sm 12.6; Sl 33.12; 78.70; Is 45.4; 65.9; Jr
1.5. No Novo Testamento: Mt 20.16; Mc 13.20; Lc 18.7; Jo 6.44; 13.18; 15.16;
At 13.48; Rm 8.28-30; 9.11-13; 1Co 1.26-29; Gl 1.15,16; Ef 1.4,5; 1Ts 1.4;
2Tm 2.10; Tt 1.1; 1Pe 1.1; 2.9,10; Ap 17.8.
A eleição não é uma maldição, mas uma expressão do amor divino. Não é uma
doutrina do Diabo, mas de Deus. O termo “eleição” (ekgleomai) significa que
Deus escolheu tendo em vista o seu próprio interesse. Ele nos escolheu para si
(Jo 15.16; At 9.15; 13.48; 2Ts 2.13). Não há no eleito nenhum motivo ou razão
para que Deus o tivesse escolhido. A eleição é um ato amoroso, incondicional e
inexplicável de Deus. “Tente explicar a eleição e pode acabar perdendo o juízo;
tente livrar-se dela e perderá a sua alma”. A eleição é também uma
predestinação. E em amor, nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por
meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade (Ef 1.5). A palavra
“predestinou” (prooridzo) significa “decidir ou determinar de antemão” (At 4.28;
Rm 8.29,30). Predestinação é um sinônimo da eleição. Deus nos escolheu para si
e nos predestinou para fazermos parte da sua família, para sermos os seus filhos
(Jo 1.12; Rm 8.15; Gl 4.6,7). Louve ao Senhor! Agradeça a Deus porque Ele o
escolheu para a salvação.
O texto básico que utilizaremos como roteiro do nosso estudo foi escrito por
Paulo: Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados
pelo Senhor porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela
santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou
mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus
Cristo. Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos
foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa. Ora, nosso Senhor
Jesus Cristo mesmo e Deus, o nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna
consolação e boa esperança, pela graça, consolem o vosso coração e vos
confirmem em toda boa obra e boa palavra (2Ts 2.13-17). Sete pontos
importantes sobre a eleição:
1. O EFEITO DA ELEIÇÃO
A gratidão a Deus é o efeito da eleição. Paulo diz: Entretanto, devemos sempre
dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor (v.13). “Dar graças”
(eucharisteo) significa “expressar gratidão” ou “mostrar-se satisfeito” a Deus.
Trata-se de um dever contínuo de ser grato. Paulo agradece a Deus pela salvação
dos irmãos de Tessalônica, reconhecendo que a eleição foi a causa da salvação:
Damos, sempre, graças a Deus por todos vós, mencionando-vos em nossas
orações e, sem cessar, recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da
operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa
esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, reconhecendo, irmãos, amados de
Deus, a vossa eleição (1Ts 1.2-4). Devemos ser gratos a Deus por Ele ter nos
escolhido para a salvação.
O ensino da eleição no Novo Testamento possui três aspectos práticos: (1) A
eleição é uma fonte de consolo para os momentos de provação e sofrimento.
Todas as coisas cooperam para o bem dos eleitos (Rm 8.28-30). (2) A eleição é a
maior motivação para evangelização e missões. Se há eleitos, o nosso trabalho
será produtivo e podemos pagar o preço da missão (2Tm 2.10). (3) A eleição
existe para promover a glória de Deus. Diante da graça soberana de Deus resta-
nos a humildade e o louvor a Deus (Ef 1.12).
2. O AUTOR DA ELEIÇÃO
Paulo continua: porque Deus vos escolheu (v.13). A causa da eleição é o próprio
Deus. Os critérios e os motivos de escolha são conhecidos somente por Ele. A
eleição de Deus é incondicional ou não se baseia em condições humanas. Ela é
imutável e eficaz (Rm 11.7). Deus não revelou a ninguém, quantos e quem são
os eleitos para a salvação. Também Ele não diz quando converteria alguém. Ele
mandou-nos pregar o evangelho a toda criatura (Mc 16.15), fazer discípulos em
todas as nações (Mt 28.18-20), mas a conversão dos seus eleitos é Ele quem
produz. A igreja prega e chama, mas Deus é quem escolhe. Porque muitos são
chamados (papel da igreja), mas poucos são escolhidos (papel de Deus).
No prefácio da primeira carta de Pedro lemos: Pedro, apóstolode Jesus Cristo,
aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia
e Bitínia, eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito,
para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam
multiplicadas (1Pe 1.1,2). Quatro lições sobre a doutrina da salvação: (1) A
igreja é composta por “eleitos” que são “forasteiros”, das várias regiões, onde o
evangelho foi pregado. A igreja de Deus é universal e reúne todos os eleitos que
já foram, dos que agora são e daqueles que serão salvos. (2) Esses eleitos foram
selecionados por Deus Pai. Ele fez a relação dos que serão salvos e os escreveu
no “livro da vida” (At 13.48). (3) Esses eleitos são santificados pelo Espírito
Santo. É o Espírito quem chama, regenera, converte, justifica e santifica (1Co
1.2). (4) Esses eleitos são comprados, perdoados e purificados pelo sangue do
Filho.
Paulo, ao refletir sobre a doutrina da eleição na carta aos Romanos, se volta para
Deus em atitude de adoração (Rm 11.33-36). Ele glorifica a Deus, o autor da
eleição, reconhecendo três aspectos da sua grandeza: (1) Deus é profundo e rico
em sabedoria e conhecimento. (2) Deus elabora juízos e planos que são
insondáveis e inescrutáveis pelo homem.
(3) Deus é a origem, o meio e o fim de todas as coisas. F. F. Bruce resume:
“DEle todas as coisas procedem; por meio dEle todas as coisas existem; a
Ele todas as coisas retornam: a Ele seja a glória por todos os séculos.
Amém”.
Aplicações Práticas:
A eleição é um ato livre da soberana vontade de Deus. Ele escolheu e não
podemos compreender os seus critérios de escolha.
Devemos agradecer a Deus porque Ele nos escolheu para a salvação.
Somente na eternidade poderemos comprender os motivos e propósitos da
eleição divina.
3. O OBJETO DA ELEIÇÃO
Porque Deus vos escolheu. Deus escolhe pessoas. Ele escolhe individualmente.
Não é o homem que escolhe Deus, mas o contrário. Jesus diz: Não fostes vós
que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros... (Jo
15.16). Deus escolhe soberanamente e os seus critérios de escolha não são
informados na Bíblia.
Sabemos que a base da escolha é o seu amor incondicional. Nas cartas aos
Tessalonicenses, os eleitos são chamados de irmãos amados pelo Senhor (1Ts
1.4; 2.1,9,14,17; 3.7; 4.1,10,13; 5.1,4,12,13,25-27; 2Ts 1.3; 2.1,13,15; 3.1,6,13).
O amor (ágape) de Deus não se fundamenta no valor do objeto amado. Ele não
ama o “bonito” ou o “bom”. Paulo declara que ele escolhe os improváveis, os
desprezíveis e as coisas loucas e fracas do mundo
(1Co 1.26-29).
É somente por causa da eleição que os indivíduos são salvos (At 9.15), formando
a família de Deus ou o povo escolhido.
4. O TEMPO DA ELEIÇÃO
Desde o princípio. Deus escolheu os seus antes da fundação do mundo. O tempo
da eleição – antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Antes da criação ou desde a
eternidade
(Jr 1.4; Rm 9.10-13). Ele escolheu antes que todos os homens fossem criados e
antes de existir o tempo (1Co 2.7; Cl 1.26).
Precisamos aprender que Deus é preexistente à criação e ao tempo. Ele já existia
antes de tudo. A História é apenas um espaço de tempo dentro da eternidade de
Deus.
Aplicações Práticas:
O objeto da salvação são as pessoas eleitas. Ela não envolve anjos ou seres de
outra espécie.
A razão da eleição não está na pessoa escolhida. Deus escolheu de forma
incondicional.
A eleição aconteceu quando o tempo (cronos) não existia ainda.
5. O OBJETIVO DA ELEIÇÃO
Para a salvação. A ênfase de Paulo aqui é positiva. É a eleição para a salvação.
E o termo teológico “salvação” começa com a eleição e se conclui com a
glorificação. Ele nos escolheu para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele
(Ef 1.4). Observe que Deus não nos escolheu porque éramos ou seriamos, mas
para sermos. A doutrina da eleição produz a salvação, a santificação e a
glorificação do escolhido. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos
que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também
glorificou (Rm 8.30).
Para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo (v.14). O propósito final
da nossa salvação é fazer com que Cristo tenha preeminência sobre todos os
salvos (Cl 1.18 e
Fp 2.9,10). Cristo reinará sobre os salvos glorificados. Todo eleito alcançará a
sua glorificação. Nenhum eleito de Deus ficará no meio do caminho, mas
chegará ao céu.
6. OS MEIOS PARA a SALVAÇÃO DO ELEITO
Pela santificação do Espírito e fé na verdade. A salvação é aplicada pela ação
santificadora do Espírito Santo (1Pe 1.2). Deus escolheu, Jesus redimiu e o
Espírito Santo é quem aplica a salvação. Ele regenera e produz o novo
nascimento no coração do eleito redimido (Jo 3.5-8). É mediante o lavar
regenerador do Espírito que o eleito é salvo e santificado (Tt 3.5-7).
É o Espírito quem convence o eleito da sua condição de pecador, gerando nele o
arrependimento e dando a ele a fé salvadora. O eleito crê que Jesus é a verdade
(Jo 14.6) libertadora. É o Espírito da verdade que convence o eleito a crer na
verdade.
O Espírito chama o eleito de forma eficaz e irresistível, pela pregação: para o
que também vos chamou mediante o nosso evangelho (v.14). Deus chama os
seus escolhidos pela pregação do Evangelho. A fé vem pelo ouvir e o acolher a
Palavra de Deus (Rm 10.17).
O Soberano Deus que elege a pessoa para ser salva, também elege os meios para
que o eleito seja alcançado. Ele elege os meios: pessoa, lugar, tempo e
circunstâncias para promover a salvação de uma pessoa.
Aplicações Práticas:
Deus só escolheu para a salvação ou também para a perdição?
Quem é o responsável pela conversão do eleito?
Como Deus salva os seus escolhidos?
7. AS EVIDÊNCIAS DA ELEIÇÃO
Quais são as evidências de que uma pessoa foi eleita por Deus? Primeiro, essa
pessoa é convertida por Deus (At 13.48). A salvação é a primeira evidência na
vida de uma pessoa que foi escolhida por Deus (1Ts 1.4). Ninguém eleito pelo
Pai, redimido pelo Filho, deixará de crer pela ação do Espírito Santo. Mas, há
outras evidências apontadas na Bíblia:
O eleito é alguém que permanece firme e leva uma vida de obediência e
compromisso com a Palavra de Deus
Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram
ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa (2Ts 2.15). A expressão
“assim, pois,” liga este verso com a exortação anterior. Se somos eleitos,
devemos: Permanecer firmes e inabaláveis na fé (Rm14.4; 1Co 16.13; Fp 4.1). A
doutrina da eleição dá estabilidade espiritual ao cristão. Também guardar as
tradições é obedecer os ensinamentos autorizados ou inspirados pelo Espírito
Santo, seja oral ou escrito. A palavra tradição representa a Escritura Sagrada
(1Co 11.2; Cl 2.8).
O eleito é alguém que cresce no conhecimento de Deus e na vida de
santidade.
Pedro declara: Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior,
confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não
tropeçareis em tempo algum (2 Pe 1.10). Como alguém pode confirmar a vossa
vocação e eleição? Através de uma vida piedosa e santa. A busca pela
santificação é uma evidência da salvação.
O eleito é alguém que tem uma vida intensa de oração.
A vida de oração é uma evidência da eleição e uma prova da salvação. Jesus
disse que os seus eleitos devem orar dia e noite: Não fará Deus justiça aos seus
escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-
los? (Lc 18.7). Os seus escolhidos são pessoas que oram (At 9.11).
O eleito é alguém que evangeliza e ganha pessoas para Jesus Cristo.
Jesus disse: Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos
escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto
permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo
conceda (Jo 15.16). O fruto aqui são pessoas que se convertem através do nosso
testemunho e pregação.
O eleito é alguém que pratica boas obras
Paulo declara que não somos salvos pelas obras, mas para as boas obras: Pois
somos feitura dele, criadosem Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de
antemão preparou para que andássemos nelas (Ef 2.10). O eleito é o crente que
está envolvido de forma produtiva nos empreendimentos de Deus.
O eleito é alguém encorajado por Deus a perseverar firme na fé
Para concluir, Paulo fala que o eleito recebe de Deus, ânimo e força para
permanecer firme: Ora, nosso Senhor Jesus Cristo mesmo e Deus, o nosso Pai,
que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança, pela graça, consolem
o vosso coração e vos confirmem em toda boa obra e boa palavra (2Ts 2.16,17).
O eleito é amado por Deus, e agraciado com consolação, esperança e
confirmação em toda a sua vida.
CONCLUSÃO
Por que sou cristão hoje? Resposta: Porque Deus me amou antes da fundação do
mundo e escolheu-me para ser salvo. Não há nenhum motivo em mim para que
Ele tivesse me escolhido, exceto o seu amor incondicional. Minha salvação
deve-se tão somente à graça. Por isso me humilho diante de Deus em atitude de
adoração e gratidão.
Estudo 11
Texto Básico: Romanos 8.30
A APLICAÇÃO DA SALVAÇÃO
INTRODUÇÃO
Só há uma doutrina bíblica acerca da salvação do homem: salvação pela graça de
Deus, mediante a fé no sacrifício de Jesus Cristo. Ainda que haja tentativas de
formulação de outros conceitos, a Bíblia é taxativa: Porque pela graça sois
salvos, mediante a fé; isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para
que ninguém se glorie (Ef 2.8,9). Charles Hodge diz: “É o dever de todo teólogo
subordinar as suas teorias à Bíblia e ensinar não o que lhe pareça verdadeiro ou
razoável, mas somente aquilo que a Bíblia ensina”.
Estudamos a “ordem da salvação” ou os passos que Deus dá ao salvar uma
pessoa. A ordem dessa aplicação é: eleição, vocação ou chamado, regeneração,
conversão, justificação, adoção, santificação e perseverança. Sabemos que isso é
um esforço intelectual e didático para sistematizar e compreender a salvação de
Deus.
1. O CHAMADO EFICAZ
A esses Deus também chamou (Rm 8.30). Deus chama os homens para a
salvação de duas maneiras: (1) Chamada externa: chama externamente por
meio da pregação, convidando os pecadores a crerem em Jesus Cristo e
receberem a salvação (Mt 11.28-30; 20.16). Esse tipo de chamado deve ser feito
pela igreja a toda criatura ou a todas as nações da terra (Mc 16.15; Mt 28.18-
20). É a pregação do evangelho a todos os homens. (2) Chamada interna:
chama internamente, de forma eficaz, quando o coração é regenerado e a
vontade do ouvinte é persuadida a render-se a Cristo. Wayne Gruden define: “O
chamado eficaz é um ato de Deus Pai, falando através da proclamação humana
do evangelho, pelo qual ele convoca as pessoas para si mesmo de tal modo que
elas respondem com fé salvífica”.
Quais são as características dessa chamada interna: (1) Ela é resultado da
eleição: Aos que predestinou a esses também chamou (Rm 8.30). A eleição é a
causa da chamada. (2) Ela é pessoal e individual. Deus chama as pessoas pelo
nome e individualmente (Mc 2.13,14). (3) Ela é poderosa e irresistível. É Deus
quem chama e quem recebe o seu convite não tem como dizer não (Lc 18.5,6).
(4) Ela é uma chamada do pior para o melhor. Ele chama das trevas à luz (1Pe
2.9), Ele chama da impureza à santificação (1Ts 4.7) e Ele chama da solidão à
comunhão com Jesus (1Co 1.9). (5) Ela é uma chamada imutável ou irrevogável.
Nada e nem ninguém poderá revogar a vocação de um eleito de Deus (Rm
11.29).
2. REGENERAÇÃO
A regeneração acontece antes que o eleito responda ao chamado eficaz com a fé
salvadora. Ninguém pode ser cristão sem passar pela regeneração. Mas, o que
significa isto?
L. Berkhof define a regeneração como “aquele ato de Deus pelo qual o princípio
da nova vida é implantado no homem, e a disposição dominante da alma é
santificada”. A natureza essencial da regeneração é uma mudança radical (mente,
emoções e vontade), instantânea (não gradual) e percebida pelos seus efeitos.
O clássico ensino bíblico acerca da regeneração está em João 3.1-21. Vejamos as
suas características: (1) Ela é necessária. Jesus é direto e objetivo: A isto,
respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de
novo, não pode ver o reino de Deus (v.3). Se alguém não nascer de novo. O
verbo está na voz passiva indicando “ser gerado do alto” ou “nascer de cima” (Jo
3.31; 19.11). Significa ter uma nova natureza, novos princípios, novos afetos e
novos objetivos de vida. E esta necessidade é para todos: se alguém ou qualquer
pessoa, até mesmo os mais religiosos como Nicodemos: Não te admires de eu te
dizer: importa-vos nascer de novo (v.7). A regeneração é necessária para que
haja uma mudança na nossa natureza espiritual. (2) Ela é sobrenatural. Ela é
nascer da água e do Espírito. Mas, o que significa isto? Entendemos, pela Bíblia,
que a regeneração se dá por meio da ação conjunta do Espírito Santo (Ez 36.25-
27) e a Palavra de Deus (Ef 5.26). Quando ouvimos a Palavra e cremos, o
Espírito produz a regeneração (Tg 1.18 ;1Pe 1.23). Quem passa por ela, torna-se
uma nova criatura (2Co 5.17). (3) Ela é produzida por Deus. O Espírito é o
agente que produz o novo nascimento. E o vento é uma das metáforas bíblicas
usadas para explicar a ação do Espírito (Ez 37.9,13; At 2.2). Logo, a ação do
Espírito tem três características: (a) Ele age soberanamente: o vento sopra onde
quer. Ninguém pode controlar ou manipular a maneira do Espírito agir. (b) Ele
age de forma invisível. O coração humano é transformado sem que ninguém
veja. (c) Ele age irresistivelmente. Assim como a ação do vento, o agir do
Espírito é inexplicável ou imprevisível, invisível e irresistível. (4) Ela acontece
pela fé. Jesus usa um exemplo da Escritura relatado em Números 21.4-9. E do
modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho
do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna
(vv.14-15). Tal como Israel foi curado do veneno da serpente, ao olhar para a
serpente que Deus mandou hastear no deserto, somos regenerados quando
cremos em Jesus e aceitamos o seu sacrifício na cruz, em nosso lugar. Olhamos
para ele na cruz e somos curados do veneno do pecado presente em nossa
natureza (Rm 6.23). (5) Ela produz vida. A regeneração determina a condição
espiritual da pessoa: salvação ou condenação (vv.18-21). Vida eterna ou morte
eterna, céu ou inferno.
Aplicações Práticas:
O que é a ordem da salvação?
Qual a diferença entre chamada externa e chamada interna?
Por que a regeneração é necessária ao homem?
3. CONVERSÃO
Ato contínuo à regeneração temos a conversão. Wayne Grudem define: “A
conversão é nossa resposta espontânea ao chamado do evangelho, pelo qual
sinceramente nos arrependemos dos nossos pecados e colocamos a confiança em
Cristo para receber a salvação”.
A conversão é voltar-se do pecado para Deus. É o ato único de dar as costas para
o pecado em arrependimento e voltar-se para Cristo em fé. Alguns exemplos
bíblicos de conversão: 2Cr 33.12,13; Lc 18.8,9; Jo 4.29,39; At 8.30; 10.44; 9.5;
16.14, 30-33.
Há dois elementos na conversão: (1) Arrependimento: é a mudança produzida
por Deus na mente, no coração e na vontade do pecador, pela qual ele abandona
o
pecado (At 2.37,38; 16.4). Sem arrependimento não há salvação: Não eram, eu
vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis (Lc
13.3). Deus notifica a todos os homens que se arrependam (At 17.30). (2) Fé:
convicção produzida no coração pelo Espírito Santo levando a pessoa a confiar
no Evangelho e em Jesus Cristo (Mc 16.16; At 16.31).
Do ponto de vista da salvação, a conversão acontece uma só vez. Há casos de
cristãos que precisam se converter de pecados e quedas (2 Cr 7.14; Lc 22.32; Ap
2.5,16,21,22; 3.3,19). Há também conversões temporárias ou falsas (Mt
13.20,21; 1Jo 2.19; 1 Tm 1.19,20; 2Tm 4.10).
Quais as características da conversão verdadeira? (1) Ela é de autoria divina.
Deus é o autor da conversão (Jr 31.18; Lm 5.21; Jo 6.44; At 11.18; Fp 2.13; 2Tm
2.25). (2) Ela é necessária ao homem pecador (Is 55.7; Jr 18.11; At 2.38). (3) Ela
é um ato único,irrepetível e irrevogável. Uma vez convertido, convertido para
sempre (Jo 10.26-30; 1Ts 1.9,10).
4. JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ
Após a chamada irresistível, a regeneração e a conversão, Deus declara que o
pecador está perdoado e não existe nenhuma condenação contra ele. Eis a
doutrina da justificação pela fé. Ela é um ato único, exclusivo e legal da parte de
Deus, pelo qual Ele declara que nossos pecados estão perdoados, por causa do
sacrifício substitutivo que Jesus Cristo fez por nós (Rm 5.1). O verbo “justificar”
(dikaio) significa declarar judicialmente uma pessoa como justa ou que seu
caráter está de acordo com a lei (Mt 12.37; Lc 7.29; Rm 3.4; At 13.39; Gl 3.11).
Calvino diz que “justificado pela fé é aquele que, excluído da justiça das obras,
agarra-se à justiça de Cristo através da fé, e vestido com ela, aparece na vista de
Deus não como um pecador, mas como um homem justo”.
As características dessa justificação: (1) Ela se origina em Deus. Ele é o Juiz que
faz uma declaração legal de perdão. O homem é justificado por Deus, porque Ele
tomou a iniciativa de resolver o problema do pecado e da culpa humana (Rm
8.30, 33). (2) Ela é necessária a todos. A justificação é para todos e sobre todos,
judeus e gentios, porque todos erraram o alvo deixando de se conformar com o
propósito de Deus. Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23).
(3) Ela é gratuita e por sua graça. Paulo diz: sendo justificados gratuitamente,
por sua graça (Rm 3.24). Nós somos justificados gratuitamente por sua graça.
Primeiro, ele usa o verbo na voz passiva, sendo justificados, isto é, Deus é o
autor da nossa justificação. Segundo, ele usa duas palavras: gratuitamente
(dorean=livremente) “como um presente”, “sem pagamento”; e graça (charis)
“por um favor imerecido”. (4) Ela é pela fé. A justiça de Deus é recebida
mediante a fé (Rm 3.22). Paulo não diz que a justificação acontece por causa da
fé, mas, por meio ou através da fé. Segundo ele, a fé não tem nenhum
merecimento, mas é o instrumento ou a mão que recebe o presente. A
justificação é recebida por meio da fé, sem lei (Rm 3.21), sem jactância (Rm
3.27), sem obras (Rm 3.28), sem circuncisão (Rm 3.30). (5) Ela se baseia em
Jesus Cristo. É o sangue de Cristo que nos justifica ou a sua vida que foi
derramada em nosso lugar (Rm 3.24-26). A “propiciação” é o ato de Jesus Cristo
se colocar entre nós e Deus, cobrindo o nosso pecado com o seu sangue e
expiando a nossa culpa (Rm 5.9; Hb 9.22). (6) Ela acontece no presente. A
justificação foi planejada na eternidade, realizada na plenitude dos tempos e é
apropriada no momento em que cremos (Gl 3.24-26). No ato da conversão
tomamos posse da justificação. (7) Ela produz resultados. Justificação é resgate
ou libertação (1Tm 2.6; Mt 20.28). Justificação é remissão do pecado e da culpa
(Jo 1.29; Hb 10.1-4). Justificação é reconciliação com Deus (2Co 5.14-21).
Justificação é adoção de filhos. Somos filhos de Deus de maneira moral, legal e
afetiva (Rm 8.15-22; Gl 4.4,5).
Em síntese, justiça só pelo sangue, só por Jesus, só pela graça, só pela fé e só
para a glória de Deus. John Stott resume: “A fonte da nossa justificação: Deus e
a sua graça. A base da nossa justificação: Cristo e sua cruz. O meio de
justificação: a fé”.
Aplicações Práticas:
Quais os dois elementos da conversão?
O que é a justificação pela fé?
Como eu sei que fui justificado pela fé ou declarado justo por parte de Deus?
5. ADOÇÃO
Wayne Grudem diz que “adoção é um ato de Deus por meio do qual ele nos faz
membros de sua família”. A palavra “adoção” (huiothesia) é composta “filho”
(huios) + “constituir legalmente” (tesias). Trata-se de um termo legal para a
constituição de um filho (Rm 8.15, 22; 9.5; Gl 4.5; Ef 1.5).
A adoção não é apenas um ato legal, mas uma expressão do amor de Deus (Rm
8.14-17). Se fomos regenerados por Deus, nos tornamos participantes da
natureza divina: Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem
feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome (Jo 1.12). E à adoção
segue a conversão e é resultado da fé salvadora: Pois todos vós sois filhos de
Deus mediante a fé em Cristo Jesus (Gl 3.23,25).
Quais são os resultados da adoção? (1) Recebemos a
natureza do Pai (2Pe 1.4). (2) Recebemos o Espírito de adoção ou filial (Rm
8.15). (3) Recebemos um novo nome de família (Ef 3.14,15; 2Jo 3.1). (4)
Somos transformados à imagem de Deus (2Co 3.18). (5) Nos tornamos alvos
do amor exclusivo do Pai (Jo 17.2,3). (6) Somos disciplinados pelo Pai (Hb
12.6-11). (7) Somos herdeiros de Deus (1Pe 1.3-5; Rm 8.7).
6. SANTIFICAÇÃO
Teologicamente podemos dizer que a santificação “é a obra da livre graça de
Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de
Deus, e habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a
retidão” (Breve Catecismo de Westminster).
A regeneração muda a nossa natureza; a justificação muda a nossa posição; e a
santificação muda o nosso caráter. Wayne Grudem diz: “a santificação é uma
obra progressiva da parte de Deus e do homem que nos torna cada vez mais
livres do pecado e semelhantes a Cristo em nossa vida presente”.
A natureza da santificação
(1) Ela é vocacional. Fomos chamados por Deus para ser santos (1Co 6.11;
2Co 7.1; 2Ts 2.13). (2) Ela é instrumental. Ela é um processo crescente que
começa na regeneração e cresce por toda a vida. Ela envolve a ação
santificadora de Deus (Fp 2.13; 1Ts 5.23) e a consagração do homem (Rm
12.1,2; 1Ts 3.12). (3) Ela é final. A nossa santificação se completará na nossa
morte (Hb 12.23) e na volta de Cristo (1Jo 3.2). (4) Ela é completa. A
santificação envolverá a pessoa toda: corpo, alma e espírito (2Co 7.1; 1Ts
5.23).
Os agentes da santificação
(1) O Homem. Ele ora, estuda a Bíblia, renuncia ao pecado, se oferece a
Deus e busca a plenitude do Espírito (Lc 18.1; Jo 17.17; Rm 6.13 e Ef 5.17).
(2) A Trindade. Deus é o autor, Cristo é a base e o Espírito é o agente da
santificação (Hb 12.10; 1Co 1.30,31; Rm 1.4).
Concluindo, a santificação é progresso e crescimento espiritual. À medida que
crescemos ficamos mais parecidos com Cristo. Experimentamos o caráter, a
beleza e a alegria de Cristo.
Aplicações Práticas:
Somos filhos de Deus por regeneração ou por adoção?
Qual a diferença entre justificação e santificação?
Qual a participação humana no processo da santificação?
CONCLUSÃO
Não há entre os teólogos uma harmonia de pensamento quanto à ordem dos
passos para a salvação. Chamado eficaz, regeneração, conversão, justificação
pela fé e adoção são passos que ocorrem simultaneamente no ato da salvação.
Estamos certos que a salvação é realizada pela Trindade: Deus elege, Cristo
redime e o Espírito regenera. Deus vocaciona, Cristo justifica e o Espírito
converte. Deus adota, Cristo une-se ao pecador e o Espírito o santifica.
Estudo 12
Texto Básico: 1 Pedro 2.9,10
A IGREJA DE DEUS
INTRODUÇÃO
Eclesiologia é o capítulo da Teologia Sistemática que ensina a doutrina da igreja.
Trata-se de um estudo fascinante, pois apresenta o projeto histórico de Deus, na
construção de uma comunidade perfeita e ideal. A igreja é a congregação de
pecadores, os quais estão sendo aperfeiçoados por Deus. Nela todos são um e
iguais em Cristo. Ela é a comunhão dos santos, ou dos pecadores que são salvos
em Jesus.
O maior privilégio que alguém pode desfrutar nesta vida é participar da família
de Deus. A igreja é a família de Deus. Por isso ser membro da igreja não é
irrelevante ou inútil. Rick Warren diz: “Ser membro da família de Deus não é
irrelevante nem algo a ser negligenciado. A igreja é o plano de Deus para o
mundo. A pessoa que diz: ‘Não preciso de igreja’ é soberba e ignorante. A igreja
é tão importante que Jesus morreu na cruz por ela. Cristo amou a igreja e deu sua
vida por ela”.
A lição de hoje é sobre a igreja, sua natureza e ministério.
1. O QUE É A IGREJA?
William Grudem diz: “A igreja é a comunidade de todos os cristãos de todos os
tempos”. Isso inclui todos os verdadeiros crentes salvos no Antigo e Novo
Testamentos. Elareúne os eleitos e os que foram chamados por Deus. A
Confissão de Fé de Westminster resume:
“A Igreja Católica ou Universal, que é invisível, consta do número total dos
eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só
corpo sob Cristo, seu cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que
cumpre tudo em todas as coisas” (Ef 1.10, 22,23; Cl 1.18).
Definir o que é a igreja é algo difícil. Ela é tão esplêndida e gloriosa, que a
Bíblia usa diversas metáforas para dizer o que ela é: Noiva, rebanho de Deus,
corpo, pátria, família, edifício ou santuário, lavoura ou seara de Deus. Mas, a
essência da igreja é ser povo de Deus. Pedro declara: Vós, porém, sois raça
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a
fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de
Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes
misericórdia (1Pe 2.9,10). Pedro usa conceitos do Antigo Testamento para
descrever a igreja: (1) Raça Eleita: assim como Israel, a igreja é formada pelos
eleitos de Deus (Dt 7.6,8; Jo 15.16). A palavra “raça” não fala de “cor”,
“cultura” ou “país”. A raça escolhida por Deus é constituída por gente de várias
cores, culturas e nações. É uma raça espiritual. (2) Sacerdócio Real: assim como
Israel
(Êx 19.5,6), a igreja é um reino de sacerdotes que serve ao Rei, na esfera do
reino espiritual (Ap 1.6; 5.10). Somos adoradores de Deus por meio de Jesus. (3)
Nação Santa: assim como Israel foi o povo separado por Deus (Lv 19.2; Is
62.12), a igreja é formada por cidadãos
santos (Ef 2.19) e nossa cidadania é celestial (Fp 3.20). (4) Povo de Deus: assim
como Israel era o povo exclusivo de Deus (Is 43.21), a igreja é o povo de
propriedade exclusiva de Deus, comprada pelo sangue do Cordeiro (At 20.28).
Jesus chama a igreja de “minha igreja” (Mt 16.18) e os cristãos de “minhas
ovelhas” (Jo 10.14 e Jo 21.16,17). Pedro quer nos ensinar que há uma
continuidade entre o Israel do Antigo Testamento e a Igreja do Novo
Testamento. Deus só tem um único povo na História: o Israel de Deus (Rm
11.25-27).
Deus nos fez povo seu com um propósito: a fim de proclamardes as virtudes
daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (v.9). O verbo
“proclamar” (exangello) com este sentido, só aparece aqui em todo o Novo
Testamento. Significa “publicar ou declarar publicamente, anunciar” as virtudes
de Deus. O que são estas virtudes? A palavra “virtude” significa “qualidades,
atributos, excelências e louvores”. Simon Kistemaker diz: “Eles devem
proclamar verbalmente as virtudes louváveis de Deus, seus feitos, seu poder,
glória, sabedoria, graça, misericórdia, amor e santidade”.
Três destaques importantes sobre o caráter multiforme da igreja, na Teologia
Sistemática: (1) A igreja visível e invisível. A primeira é a igreja que vemos e
inclui todos que professam a fé e se batizam publicamente. A segunda, é a igreja
como Deus a vê. Ele conhece os que são verdadeiramente seus. (2) A igreja local
e universal. A igreja reúne crentes num local, numa cidade, numa região e no
mundo. (3) A igreja militante ou triunfante. A primeira está na terra lutando o
bom combate. Ela é peregrina e forasteira neste mundo. A segunda está no céu,
descansando das suas lutas e desfrutando do seu triunfo.
Aplicações Práticas:
Qual é o conceito bíblico de igreja?
Qual é a metáfora bíblica que melhor define a igreja?
Como reconhecer uma igreja verdadeira?
2. QUAIS OS PROPÓSITOS DA IGREJA?
Qual o propósito da existência da igreja? Promover a glória de Deus através
daquilo que ela é e dos ministérios que realiza.
Quanto aos seus ministérios, a igreja se relaciona com Deus, com os seus
membros e com o mundo. Wayne Grudem propõe três ministérios principais:
Ministério da adoração a Deus
A adoração a Deus é o seu propósito primeiro. Todo cristão é um sacerdote de
Deus. A igreja é uma comunidade de sacerdotes. Jesus Cristo nos salvou e nos
fez sacerdotes para Deus (Ap 1.5,6). Somos sacerdotes eternos e o nosso
trabalho principal é adorar a Deus. Logo, a nossa vida é um ato contínuo de
adoração a Deus, dividido em três partes: culto individual, culto familiar e culto
coletivo com a igreja. Lutero disse: “Reunir-se com o povo de Deus em adoração
comum ao Pai é tão necessário para a vida cristã, quanto a oração”. Cultuar
publicamente não é uma opção, mas um mandamento bíblico: “Não deixemos de
congregar-nos, como é costume de alguns” (Hb 10.25).
Ministério da edificação dos membros
O propósito da igreja para consigo é a edificação. Para isso Deus concede à
igreja os ministros e os ministérios com um duplo propósito: aperfeiçoamento
dos santos para o serviço e a edificação do corpo (Ef 4.12). Na medida em que
os crentes vão sendo capacitados e instruídos pelos pastores e mestres, eles
usarão os seus dons individuais, e a igreja vai se edificando.
Além dos dons ministeriais a igreja tem também os mandamentos mútuos para
cumprir: Amem uns aos outros (Rm 12.10); Aceitem uns aos outros (Rm 15.7);
Saúdem uns aos outros (2Co 13.12); Cuidai uns dos outros (1Co 12.25);
Sujeitem-se uns aos outros (Ef 5.21,22); Suportem uns aos outros (Cl 3.13) e
outros. A igreja cuida de si mesma e Deus promove o seu crescimento na
comunhão e amor.
Ministério da evangelização do mundo
O terceiro propósito da igreja é para com os de fora. Se a igreja ficar apenas nos
dois propósitos iniciais, ela deixa de ser igreja na essência da palavra. Ela tem
uma missão a cumprir no mundo que é fazer discípulos em todas as nações.
“Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no
céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em
nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as
coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à
consumação do século” (Mt 28.18-20). A missão contém quatro elementos
universais, cada um deles marcado pela palavra “todo”: “toda autoridade”,
“todas as nações”, “todas as coisas que vos tenho ordenado” e “todos os dias”.
“Há um defeito fatal na vida da igreja cristã do século 20: a falta de discipulado
genuíno” (James M. Boyce). Creio que este defeito continua hoje. Precisamos
voltar a ser uma igreja discipuladora, pois o Evangelho é o chamado ao
discipulado. O verdadeiro evangelho ensina que não há graça sem cruz, perdão
sem arrependimento e salvação sem renúncia. Dallas Willard afirma que “o
maior desafio que a igreja enfrenta hoje é a formação de discípulos autênticos de
Jesus”. Fazer discípulos é uma tarefa ou uma missão que envolve toda a igreja.
Todo cristão é um discípulo que faz novos discípulos.
Três destaques necessários sobre os ministérios da igreja: (1) Todo cristão
verdadeiro é um sacerdote de Deus (sacerdócio universal), apto para servir ao
Senhor (Hb 10.19-25; 1Pe 2.5). (2) Não há hierarquia espiritual entre os
membros da igreja e a sua liderança. As diferenças estão na vocação ministerial,
nos dons espirituais e no grau de responsabilidade perante Deus (Mc 10.43-46;
1Co 12; Hb 13.17). (3) O poder do Espírito Santo é indispensável à Igreja para a
realização do seu ministério (At 1.8; 4.31; Ef 6.10-20).
Aplicações Práticas:
Quais os propósitos de uma igreja?
Qual a importância do sacerdócio universal dos crentes?
Posso ser cristão sem fazer parte de uma igreja?
3. QUAIS OS ATRIBUTOS E MARCAS DA IGREJA?
Os teólogos reformados afirmam que a igreja possui atributos quanto à sua
natureza espiritual. São três atributos fundamentais: (1) Unidade: a igreja é o
corpo de Cristo e todos os seus membros estão espiritualmente unidos a Cristo
(1Co 12.12-31). A igreja é a “comunhão dos santos”. Essa unidade interna e
espiritual deve evidenciar-se na conduta externa de cada crente. Todos devem
buscar a preservação desta unidade (Ef 4.1-16). (2) Santidade: a igreja é santa
por causa da obra santificadora do Espírito Santo. Ela é santa porcausa da sua
posição em Cristo e santificada porque está em processo de santificação (1 Co
1.1,2;
1 Pe 2.9,10). Ela é santa porque está no mundo, mas não é do mundo. Ela é santa
porque é separada para uso exclusivo de Deus na obra missionária. (3)
Universalidade: a igreja reúne os crentes de todos os tempos e locais. Ela é
universal no sentido de congregar salvos de todas as tribos, línguas e nações (Ap
5).
As marcas da igreja foram estabelecidas historicamente, pelos reformadores, à
luz da Palavra de Deus, para identificar se uma igreja local é falsa ou verdadeira.
Há três marcas principais: (1) A pregação e o ensino fiel das Escrituras Sagradas;
(2) A administração correta e bíblica dos sacramentos – batismo e santa ceia; (3)
O exercício fiel e amoroso na aplicação da disciplina aos crentes faltosos.
Diante do quadro tenebroso que vivemos hoje, no Brasil, poderíamos acrescentar
algumas mais: celebração de culto centralizado em Deus; liderança colegiada
formada por homens humildes e servos; o exercício do amor entre os seus
membros; ausência da comercialização de bênçãos e benefícios espirituais;
grande compromisso com missões e plantação de novas igrejas.
Três destaques importantes nesse item: (1) A unidade da igreja é produzida pelo
Espírito Santo. Nenhuma igreja local pode produzir unidade por si mesma, mas
os seus membros devem lutar para preservá-la e aumentá-la. (2) A santidade da
igreja indica que ela é separada do mundo para se consagrar a Deus. Santidade
não significa ausência de erros e pecados. (3) As marcas espirituais de uma
igreja verdadeira são necessárias para orientar um cristão a escolher a igreja que
deve servir.
4. QUAL O GOVERNO DA IGREJA?
Quando falamos da igreja não podemos deixar de falar da sua organização
humana e institucional. Os principais sistemas são: episcopal, católico apostólico
romano, congregacional e o sistema de igrejas nacionais.
O sistema de governo presbiteriano origina-se na reforma do século 16. Os seus
princípios são oriundos da Bíblia. Eis os principais: (1) Jesus Cristo é o único
chefe, o cabeça, o legislador e rei visível da igreja. Nenhum homem pode se
arvorar dessa posição de Jesus (Mt 16.18-19; Jo 13.13; Ef 1.20-23). (2) Jesus
Cristo exerce a sua autoridade e poder na igreja por meio da Sua Palavra. Não é
a palavra do pastor e nem as decisões conciliares que mandam na igreja. Mas,
Jesus, por meio da Bíblia, a nossa única regra de fé e prática. A Bíblia fala
primeiro e por último. Somente as Escrituras (2Tm 3.14-17). (3) Jesus Cristo dá
poder à igreja para que a mesma o exerça em nome dele (Mt 16.18; 28.18-20; At
1.8).
Ele deu à igreja os meios de graça para que a mesma possa exercê-los: a Palavra
e os sacramentos (batismo e santa ceia – Mc 16.15,16; Lc 22.17-20; 1Co 11.23-
29). Trata-se de poder espiritual dado pelo Espírito Santo, exercido em nome de
Jesus (At 20.28; Jo 20.22,23; 1Co 5.4). (4) O poder da igreja reside na igreja
local. A igreja local é autônoma na sua administração e governo. Ela exerce esse
governo por meio de oficiais: presbíteros e diáconos (1Tm 3.1-12). O sistema de
governo é chamado de “democracia representativa”, onde todos elegem alguns
para que os eleitos governem com outros (At 14.23; 1Ts 5.12;
1Tm 5.17; Tt 1.5-9). Trata-se de um poder ministerial de serviço que deve ser
exercido de acordo com a Palavra de Deus e sob a orientação do Espírito Santo
(At 4.29,30; Rm 10.14,15;
Ef 5.23).
Aplicações Práticas
Que tipo de poder é exercido pela igreja?
O que faz uma igreja ser agradável a Deus?
Quais critérios devem ser usados para descrever a pureza de uma igreja?
CONCLUSÃO
A igreja é a corporação de pessoas regeneradas que ama a Jesus e abraça a sua
missão. Ela é o único empreendimento histórico que Jesus prometeu edificar e
preservar. Ela é a instituição mais preciosa sobre a terra, pois foi comprada pelo
precioso sangue de Cristo. Ela é a única comunidade terrena que continuará
existindo na eternidade. Participar da igreja e trabalhar para a sua edificação é o
mais honroso privilégio que podemos ter nesta vida.
Estudo 13
Texto Básico: Mateus 28.18-20
O BATISMO CRISTÃO
INTRODUÇÃO
Uma das marcas que identificam uma igreja local verdadeira é a administração
correta dos sacramentos. Mas, o que é um sacramento? Louis Berkhof define:
“Um sacramento é uma santa ordenança instituída por Cristo, na qual, mediante
sinais perceptíveis, a graça de Deus em Cristo e os benefícios da aliança da graça
são representados, selados e aplicados aos crentes, e estes, por sua vez,
expressam sua fé e sua fidelidade a Deus”. A Confissão de Fé de Westminster
diz: “Os sacramentos são santos sinais e selos do pacto da graça, imediatamente
instituídos por Deus para representar Cristo e os seus benefícios e confirmar o
nosso interesse nele, bem como para fazer uma diferença visível entre os que
pertencem à Igreja e o resto do mundo, e solenemente obrigá-los ao serviço de
Deus em Cristo, segundo a sua palavra”.
A palavra “sacramento” não se encontra na Bíblia. E pelo fato de a Igreja
Católica Apostólica Romana ensinar que os sacramentos por si mesmos
concedem graça ao povo, sem exigir fé dos que deles participam, alguns
protestantes (Batistas) preferem a palavra “ordenanças” em lugar de
“sacramentos”.
Três princípios bíblicos são necessários para a com-preensão e prática dos
sacramentos: (1) Todo sacramento possui um sinal externo ou visível (água, pão
e vinho) e um significado interno e espiritual (perdão, conversão e comunhão). A
relação entre o sinal e a coisa é a essência do sacramento. (2) Os sacramentos
não são necessários para a salvação, mas são obrigatórios aos crentes por serem
ordenanças divinas. O sacramento não produz fé, mas a pressupõe. Muitos foram
salvos e serão sem o uso dos sacramentos. (3) A Igreja de Deus é uma só no
Antigo e no Novo Testamentos. A igreja sempre praticou dois sacramentos:
Circuncisão e Páscoa (AT) e Batismo e Santa Ceia (NT).
Estudaremos hoje o sacramento do batismo.
1. O BATISMO DOS CONVERTIDOS
O batismo com água é um ato solene de admissão do batizado na igreja. Ele é
um sinal e um selo do pacto da graça, de sua salvação em Jesus Cristo. Ele deve
ser administrado uma só vez a uma mesma pessoa. Somente os pastores
ordenados ao sagrado ministério devem administrá-lo. As igrejas reformadas
praticam o batismo por aspersão, mas aceitam e consideram a imersão como
modo válido de ministração. Reconhecemos e acolhemos aqueles irmãos que
foram batizados por imersão, em igrejas reconhecidas como verdadeiramente
evangélicas, sem a necessidade de rebatizá-los. Com o propósito de esclarecer a
nossa posição, apresentaremos alguns argumentos:
Jesus Cristo, ao instituir o sacramento do batismo, não determinou qual a
forma ou o modo de administrá-lo
E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem
crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado (Mc
16.15,16). Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em
nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mt 28.19). Jesus ordena o
batismo, mas não impõe a forma de batizar, aspersão ou imersão. Ele ordena a
fórmula: em nome da Trindade.
O batismo com água não tem nenhum valor espiritual se não vier
acompanhado da regeneração do coração, efetuada pelo Espírito Santo
O batismo não é garantia e nem meio de salvação. Ele não tem nenhum poder
espiritual em si mesmo para produzir salvação. Há muitas pessoas que foram
batizadas, mas nunca foram regeneradas. Elas fazem parte da igreja visível, mas
não da invisível. João diz sobre alguns que abandonaram a igreja: Eles saíram de
nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos
nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse
manifesto que nenhum deles é dos nossos (1Jo 2.19). O batismo não salva.
No Antigo Testamento toda forma de “purificação” era realizada por
aspersão
O verbo hebraico “espargir” (zaraq) significa “espalhar” ou “aspergir”. E, sobre
aquele que há de purificar-se dalepra, aspergirá sete vezes; então, o declarará
limpo e soltará a ave viva para o campo aberto (Lv 14.7). Assim lhes farás, para
os purificar: asperge sobre eles a água da expiação; e sobre todo o seu corpo
farão passar a navalha, lavarão as suas vestes e se purificarão (Nm 8.7). (Leia:
Nm 19.13,19).
Todas essas purificações por aspersão são chamadas de “batismos” no Novo
Testamento
A palavra “batismo” (baptizo) foi usada nos clássicos gregos com o significado
de “mergulhar”, “afundar” e “imergir”. Mas, no grego bíblico (coinê) é usado
também como “lavar”, “banhar”, “limpar mediante lavagem” e “aspergir”.
Quando voltam da praça, não comem sem se aspergirem (baptizontai); e há
muitas outras coisas que receberam para observar, como a lavagem de copos,
jarros e vasos de metal [e camas] (Mc 7.4). Todas as abluções e aspersões
cerimoniais são chamadas de “batismos”: Os quais não passam de ordenanças da
carne, baseadas somente em comidas, e bebidas, e diversas abluções
(baptismois), impostas até ao tempo oportuno de reforma (Hb 9.10; Hb 6.2).
Paulo afirma também que todos os judeus foram batizados pela nuvem e pelo
mar, sem que houvesse imersão (1Co 10.1,2).
O batismo cristão foi instituído seguindo o modo do batismo dos judeus, ou
seja, por aspersão
Jesus ao instituir o sacramento do batismo cristão não altera o significado ou o
uso da palavra (Mc 16.15,16; Mt 28.19). O batismo de João Batista não era o
batismo cristão, mesmo assim não há provas bíblicas que ele batizava por
imersão. Se na lei todas as cerimônias de purificação eram feitas por aspersão,
por que João mudaria a sua forma de batizar? João Batista estava batizando e os
sacerdotes e levitas vieram a ele e lhes perguntaram: “Quem és tu?” e ele disse:
“Eu não sou o Messias”. “Eles disseram então: Se você não é o Messias, por que
você batiza”? (Jo 1.25). Os sacerdotes e levitas sabiam que os ritos de
purificação eram feitos por aspersão e seria um ato distinto do Messias: Então,
aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas
imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei (Ez 36.25). O Messias
batizaria por “aspersão”.
João Batista disse: “Eu batizo com água” (Jo 1.26). A preposição “com” (en) é
usada para designar o instrumento: água. O instrumento se aplica ao sujeito e
não o sujeito ao elemento. Logo, João só poderia batizar por aspersão. Em Atos,
Lucas registra: Então, me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: João, na
verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo (At
11.16). O batismo com o Espírito foi por aspersão.
Todo cristão morreu e ressuscitou com Cristo, mas não pela imersão na
água
Utilizando-se da analogia de Paulo, em Romanos 6, os favoráveis ao batismo por
imersão confundem “sepultar na água” com o “sepultar com Cristo”. Ou,
porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos
batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo;
para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim
também andemos nós em novidade de vida (Rm 6.3,4).
O que Paulo está dizendo não é que somos sepultados com Cristo pelo batismo
por imersão (sepultados na água). Todo cristão morreu e ressuscitou com Cristo
na sua obra de redenção. Morremos e ressuscitamos com Cristo para vivermos
em novidade de vida. O batismo de adultos é um sinal desta identificação.
Os exemplos bíblicos de batismo no Novo Testamento reforçam a tese da
aspersão
No contexto da igreja primitiva, a pessoa era batizada no lugar onde se
convertia. Vejamos alguns exemplos: (1) O batismo de quase 3.000 em
Jerusalém, após o sermão de Pedro (At 2.41). Não havia rio, tanque ou piscina
para batizar tanta gente por imersão. (2) O batismo do etíope eunuco, por Filipe,
no deserto (At 8.36-38). “Ambos desceram à água”, mas isso não significa
imersão. Essa expressão só aparece mais uma vez na Bíblia, em Juízes 7.5
(Tradução da Septuaginta). E a ideia não é de imersão. (3) O batismo de Paulo:
“a seguir, levantou-se e foi batizado” (At 9.18). Ele foi batizado em pé, numa
casa, em Damasco.
Nas casas da época não existiam tanques, mas talhas para guardar água. (4) O
batismo de Cornélio e toda a sua casa, em Cesareia (At 10.48). (5) O batismo de
Lídia e toda a sua casa, em Filipos (At 16.14,15). (6) O batismo do carcereiro e
toda a sua família
(At 16.33). Todos esses batismos só podem ter acontecido por aspersão. A
partir do texto, a imersão é improvável em todos os casos.
Aplicações Práticas:
O batismo pode salvar o homem?
Você tem alguma dúvida a respeito da forma de batismo praticada pelos
presbiterianos?
O batismo deve ser feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
2. O BATISMO DE CRIANÇAS
Diferentemente dos nossos irmãos batistas e pentecostais, nós presbiterianos
(também reformados, luteranos e metodistas), batizamos por aspersão e
batizamos os nossos filhos quando crianças. Reconhecemos a legitimidade do
batismo por imersão e respeitamos o ato de consagração que os nossos irmãos
realizam com os seus filhos. Desejamos apresentar as razões bíblicas e
teológicas que nos levam a batizar crianças.
Só existe uma igreja de Deus
A igreja é a mesma no Antigo e no Novo Testamentos. Ela começa,
historicamente, com o chamado de Abraão (Gn 12.1-3). Ela foi comprada por
Deus, pelo sangue de Cristo
(At 20.28). Ela é como uma única árvore de oliveira, que possui ramos naturais e
enxertados (Rm 11.16-21). A igreja cristã não é uma nova árvore, mas um galho
enxertado no mesmo tronco. A Igreja de Deus não começa no Pentecostes como
ensinam os dispensacionalistas, mas com o chamado de Abraão (Gn 12) e a
nação de Israel. Com a primeira vinda de Jesus, a igreja foi ampliada a todas as
nações da terra (Gn 17.4; Rm 4.17,18; Gl 3.8). O Israel de Deus agora é uma
única família que congrega judeus e gentios (Gl 6.16; Ef 2.19).
Só existe uma igreja sob uma aliança ou pacto da graça.
Todos os crentes do Antigo Testamento foram salvos pela graça, mediante a fé.
Abraão foi salvo e justificado pela fé: Ele creu no SENHOR, e isso lhe foi
imputado para justiça (Gn 15.6; Rm 4.1-9). Ele foi salvo da mesma maneira que
somos salvos hoje: Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé
os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os
povos (Gl 3.8). A salvação acontece sob o pacto ou aliança da graça:
Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso das
suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência (Gn
17.7). Essa aliança é a nova aliança baseada no sangue de Cristo (Lc 22.20). Por
isso Paulo chama Abraão de “o pai de todos os crentes” (Rm 4.11; Gl 3.8). Ele é
taxativo: E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros
segundo a promessa (Gl 3.29).
A igreja sempre teve dois sacramentos
A igreja no Antigo Testamento celebrava dois sacramentos: a circuncisão e a
Páscoa. No Novo Testamento, a circuncisão é substituída pelo batismo e a
Páscoa pela Ceia do Senhor (Mt 26.26-30). Quando alguém cria no Deus de
Abraão e desejava fazer parte do povo de Deus, precisava ser circuncidado. A
circuncisão era o sacramento de admissão na igreja visível. O batismo substituiu
a circuncisão na igreja do Novo Testamento. O batismo tem a mesma função da
circuncisão: sinalizar uma mudança interior e inserir o novo discípulo na igreja
visível. Paulo chama o batismo cristão de “circuncisão de Cristo” (Cl 2.11,12).
A circuncisão (batismo) é um sinal da aliança aplicado a todos
Quando Deus estabeleceu um pacto com Abraão, Ele ordenou a circuncisão
como sinal externo da aliança: Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim
e vós e a tua descendência: todo macho entre vós será circuncidado.
Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal de aliança entre
mim e vós (Gn 17.10,11). A partir daquele momento, Abraão foi circuncidado
(99 anos), Ismael (13 anos) e todos os homens e servos da sua casa (Gn 17.23-
27). Após um ano, Isaque foi circuncidadoquando tinha oito dias de nascido,
conforme a ordem de Deus (Gn 21.4). A circuncisão ao oitavo dia, era
simplesmente um sinal e selo de uma relação pactual já existente. As crianças
foram incluídas na circuncisão, porque a promessa de Deus é para Abraão e seus
descendentes. E não há no Novo Testamento nenhuma passagem que exclui as
crianças do pacto ou da aliança da graça. Pelo contrário, no primeiro sermão
após a descida do Espírito, Pedro diz: Pois para vós outros é a promessa, para
vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o
Senhor, nosso Deus, chamar (At 2.39). Por isso, famílias inteiras foram batizadas
após os pais serem convertidos pelo Senhor (At 16.15,33; 1Co 1.16).
O batismo infantil envolve promessas e compromissos
Na aliança da graça, Deus quer salvar a família (Hb 11.7; At 16.31). Ele quer ser
o nosso Deus e dos nossos filhos (Gn 17.7). Para que isso aconteça, os pais
assumem, no ato do batismo de seu filho, o compromisso de viver e ensinar a
Bíblia para ele: Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa
depois dele, a fim de que guardem o caminho do SENHOR e pratiquem a justiça
e o juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu
respeito (Gn 18.19). A tarefa dos pais é criar os filhos na Palavra de Deus (Dt
6.4-9; Sl 78.1-8; Ef 6.4), orando, para que Deus cumpra fielmente a aliança de
converter os filhos (Sl 103.17,18; Pv 22.6).
Aplicações Práticas:
No ato do batismo os pais assumem o compromisso de viver e ensinar a Bíblia
para os seus filhos.
Os pais são os responsáveis pelo crescimento espiritual de seus filhos.
Deus não é Deus apenas dos adultos, mas Ele é o Deus de toda a família.
CONCLUSÃO
Concluindo, a Bíblia ensina que os filhos dos crentes hoje devem ser batizados.
Isso simboliza que eles são separados para Deus (1Co 7.14). Eles já nascem
fazendo parte da igreja, pois são semente santa. No ato do batismo, os pais se
comprometem a criar seus filhos na Palavra de Deus. E o Pai, graciosamente, se
compromete em cumprir a sua parte.
Respeitamos aqueles que foram batizados por imersão, mas reafirmamos que o
batismo por aspersão não é uma heresia. O batismo por aspersão fundamenta-se
na Bíblia.
Estudo 14
Texto Básico: 1 Coríntios 11.17-34
A CEIA DO SENHOR
INTRODUÇÃO
O batismo e a Ceia do Senhor são os dois sacramentos da igreja de Jesus. Eles
são importantes porque foram instituídos pelo Senhor para o bem espiritual
daqueles que fazem parte da igreja.
O batismo é realizado uma vez só e simboliza a nossa regeneração e a nossa
incorporação na igreja ou na família de Deus. A Ceia do Senhor deve ser
celebrada repetidas vezes até a volta de Jesus, com o intuito de nos lembrar que
Cristo é o único sustento das nossas almas. Ela lembra-nos também quem somos,
o que estamos fazendo aqui e para onde iremos. Ela é um poderoso meio de
graça e de encorajamento espiritual na nossa caminhada.
A Confissão de Fé de Westminster diz: “Na noite em que foi traído, nosso
Senhor Jesus Cristo instituiu o sacramento de seu corpo e sangue, chamado Ceia
do Senhor, para ser observado em sua igreja até o fim do mundo, para ser uma
lembrança perpétua do sacrifício que em sua morte ele fez de si mesmo; para
selar, aos verdadeiros crentes, todos os benefícios provenientes desse sacrifício
para o seu nutrimento espiritual e crescimento nele, e seu compromisso de
cumprir todos os seus deveres para com ele; e ser um vínculo e penhor de sua
comunhão com ele e uns com os outros, como membros do seu corpo místico”.
Os textos bíblicos que tratam da Ceia são:
Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.17-20; 1Co 10.16-21; 11.17-34.
Utilizaremos neste estudo o texto básico de 1 Coríntios 11, porque o mesmo
apresenta uma gama maior de informações sobre o assunto. Também, segundo os
estudiosos, essa carta foi escrita antes dos Evangelhos. Logo, esta instrução de
Paulo foi o primeiro registro bíblico da instituição da Ceia do Senhor.
Os membros da igreja em Corinto celebravam a Ceia do Senhor de forma errada.
Paulo escreve para reprová-los quanto ao erro e orientá-los acerca da maneira
correta: Nisto, porém, que vos prescrevo, não vos louvo, porquanto vos ajuntais
não para melhor, e sim para pior (v.17). Eles se reuniam na igreja não para
celebrar a Ceia do Senhor, mas para uma refeição comunitária: Quando, pois,
vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis (v.20). Eles não
entendiam a Ceia do Senhor como uma refeição simbólica. Não tendes,
porventura, casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e
envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente,
não vos louvo (v.22). Uns comiam demais, outros passavam fome e outros se
embriagavam. Tais comportamentos refletiam divisões e desunião na igreja.
Paulo, então, orienta a igreja quanto à celebração correta da Santa Ceia.
1. QUAL A ORIGEM DA CEIA DO SENHOR?
O texto revela: Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o
Senhor Jesus, na noite em que foi traído... (v.23). Três destaques neste verso: (1)
O autor da Ceia: o Senhor Jesus. Assim como Deus instituiu a Páscoa para a
igreja no Antigo Testamento, Jesus ordena a Ceia do Senhor para a igreja do
Novo Testamento. Somente o Dono da igreja tem autoridade e poder para
instituir sacramentos. O próprio Jesus é a origem e o significado da Ceia. (2)
Quando a Ceia foi instituída: na noite em que foi traído. Foi na noite anterior à
crucificação. Jesus celebrou com os seus discípulos a festa da Páscoa (Mt 26.17-
25;
Mc 14.12-21; Lc 22.1-18; Jo 13). Ele lavou os pés dos discípulos e o traidor foi
indicado. Mateus acrescenta dois detalhes: que após a instituição da Ceia, Jesus
cantou um hino com os seus discípulos e depois partiu para o Monte das
Oliveiras. Ali, ele lutou com Deus em oração e depois se entregou para as
autoridades judaicas. Ele se entregou para sofrer, morrer, ser enterrado e
ressuscitar (Jo 10.17,18). (3) A retransmissão da Ceia: Porque eu recebi do
Senhor o que também vos entreguei. Paulo repassava à igreja o que havia
recebido do Senhor por revelação direta. Ele não recebeu a instrução por meio
dos apóstolos
(Gl 1.10-12). Nem Paulo e nenhum apóstolo acrescentou ou diminuiu o número
de ordenanças dadas por Jesus. Mas, a Igreja Católica Apostólica Romana
instituiu por conta própria e sem base bíblica, cinco sacramentos a mais:
batismo, eucaristia, confirmação (crisma), confissão (penitência), casamento,
ordem e extrema unção (unção dos enfermos).
2. QUAIS OS ELEMENTOS DA CEIA DO SENHOR?
Os elementos da Ceia são dois: pão e vinho. O primeiro representa o corpo de
Jesus e o segundo, o sangue de Jesus. Juntos simbolizam a vida de Jesus que foi
derramada na cruz.
O que Jesus fez? Ele tomou o pão e tomou o cálice. O que Jesus disse? Com
relação ao pão: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; com relação ao cálice:
este cálice é a nova aliança no meu sangue.
Há três interpretações com respeito ao significado desses elementos, que tentam
explicar a presença de Jesus Cristo na Ceia: (1) Transubstanciação: o pão se
torna carne e o vinho se torna sangue, mediante a oração feita pelo sacerdote.
Cristo está presente nos dois elementos, mas a comunhão é só com um: o pão
sem fermento (hóstia). O fiel não deve mastigar a hóstia, porque ela é o corpo de
Cristo, permanente, mesmo após a cerimônia. Esta é a posição defendida e
ensinada pela Igreja Católica Romana. Essa posição entende a Ceia do Senhor
como um sacramento e um sacrifício. Como sacramento (ex opere operato)
alimenta a alma por meio da substância real de Cristo comida e bebida. Como
um sacrifício, Cristo é realmente oferecido de novo para expiação do pecado,
repetindo-se assim a obra consumada na cruz. Trata-se de uma heresia, pois o
sacrifício de Jesus foi único e não se repete mais (Hb 9.25-28). (2)
Consubstanciação: o pão não se transforma no corpo, mas está presente “em,
com e sob” o pão durante a celebração. Após, o pão e vinho voltam ao estado
comum. Esta é a posição defendida pelos luteranos. (3) Presençasimbólica e
espiritual de Cristo: O pão e o vinho representam o corpo e o sangue de Cristo de
forma simbólica. A presença de Cristo no sacramento não está nos elementos,
mas no coração do crente. Participar do pão e do vinho significa participação
espiritual dos benefícios da obra expiatória realizada por Jesus. Esta é a posição
defendida por João Calvino e outros reformadores. A Igreja Presbiteriana do
Brasil também a defende e ensina. O Breve Catecismo pergunta: “O que é a Ceia
do Senhor? A Ceia do Senhor é o sacramento no qual, dando-se e recebendo-se
pão e vinho, conforme a instituição de Cristo, se anuncia a sua morte, e aqueles
que participam dignamente tornam-se, não de uma maneira corporal e carnal,
mas pela fé, participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas
bênçãos para o seu alimento espiritual e crescimento em graça” (Pergunta 96).
Referências bíblicas: 1Co 11.23-26; At 3.21; 1Co 10.16.
Duas questões importantes quanto à ministração da Ceia: (1) Quem deve
ministrar a Ceia do Senhor? A Bíblia não apresenta uma posição clara sobre o
assunto. As Igrejas Reformadas e a Presbiteriana do Brasil decidiram que
somente os pastores ordenados devem celebrar. (2) Quanto à substituição dos
elementos? Deve-se celebrar a Ceia com pão e vinho, assim como o batismo
deve ser feito com água. Tais elementos são universais e disponíveis em todas as
culturas e nações.
Aplicações Práticas:
A Ceia do Senhor nos lembra que Cristo é o único sustento de nossas almas.
A Ceia simboliza a vida de Jesus que foi derramada na cruz.
A presença de Cristo na Ceia está no coração do crente.
3. QUAIS OS PROPÓSITOS DA CEIA DO SENHOR?
Há quatro propósitos na Ceia do Senhor que devem ser lembrados na sua
celebração:
Gratidão
E, tendo dado graças (eukaristeo). A Ceia é uma cerimônia de gratidão a Deus
pela salvação em Cristo Jesus. Não se trata de um funeral, mas de uma festa de
ações de graças. Devemos agradecer a Deus pela nossa redenção e pela
salvação dos nossos irmãos. Devemos agradecer a Deus pelo sacrifício de Jesus
que garantiu a salvação dos eleitos. Jesus declara: porque isto é o meu sangue,
o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de
pecados (Mt 26.28). Ele não diz “derramado em favor de todos”, mas “de
muitos”. A sua expiação, ainda que suficiente para salvar a todos, é eficiente
somente para os eleitos. Jesus morreu pelas suas ovelhas. Ele amou a sua igreja
e a si mesmo se entregou por ela (Jo 10.14,15; Ef 5.25). Louvado seja Deus por
tão grande redenção.
Memorial
Fazei isto em memória de mim. A palavra em memória (anamênêsis) indica o
trazer de novo à memória ou o lembrar-se de uma vívida experiência. O objeto a
ser trazido à memória é expresso pelo pronome mim. Devemos sempre nos
lembrar da cruz e do sacrifício realizado por Cristo. Assim como a Páscoa
celebrava a libertação do cativeiro no Egito, pelo sangue aspergido nas portas
da casa, o sangue de Jesus é um memorial da nossa redenção (1Co 5.7,8).
Devemos sempre nos lembrar de quem somos e o que temos em Cristo Jesus.
Comunhão
Porventura o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de
Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? (1Co 10.16).
A palavra “comunhão” significa “ter em comum, ter participação em” (2Co
8.4; Fp 2.1). Mantemos comunhão com Deus e uns com os outros por causa do
sangue de Jesus. Por causa do sangue, somos perdoados e purificados. Se
dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e
não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz,
mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos
purifica de todo pecado (1Jo 1.6,7). Trata-se da comunhão dos santificados em
Cristo.
Proclamação
Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a
morte do Senhor, até que ele venha (v.26). A palavra anunciar significa
“proclamar de forma solene”.
A Ceia proclama o sacrifício de Jesus de forma visível.
Há dois aspectos importantes sobre o propósito da celebração da Ceia do Senhor
que precisam ser destacados: (1) Com que frequência deve ser celebrada? A sua
celebração deve ser frequente ou repetida: todas as vezes que comerdes. Desde a
Igreja Primitiva até o período da Reforma, a Ceia era celebrada todos os
domingos (At 20.7; 1Co 16.1,2).
Atualmente, celebra-se a Ceia uma a duas vezes por mês. (2) Qual o seu prazo
de validade? Perpétua ou até a segunda vinda do Senhor. Isso significa que, pela
graça de Deus, haverá fé na terra até quando Jesus voltar.
4. QUEM DEVE PARTICIPAR DA CEIA DO SENHOR?
A Ceia do Senhor é para todo cristão salvo e que está integrado na comunhão da
igreja. Um descrente ou uma pessoa não regenerada deve ser orientado a não
participar.
A preocupação do apóstolo Paulo é como os crentes devem participar da Ceia do
Senhor. (1) Evite participar indignamente. Isto é, não reconhecendo a dignidade
e o valor espiritual da Ceia do Senhor. Por isso, aquele que comer o pão ou beber
o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor
(v.27). Não trate as coisas sagradas de forma leviana e irreverente. Coloque
diante do Senhor todos os seus pecados e suplique o seu perdão. (2) Evite
participar sem o autoexame (dokimazetô = testar ou provar como o ourives
prova o metal). Antes de comer e beber, o cristão deve pedir perdão pelos seus
pecados e perdoar aqueles que lhe ofenderam (v.28). O exame deve ter como
referencial a Palavra de Deus e deve ser individual. Cada participante deve
examinar a sua vida e não a do outro. O objetivo do autoexame não é deixar de
comer, mas, de se arrepender dos seus pecados, pedir perdão e assim comer e
beber. A Ceia é uma oportunidade de recomeço. (3) Evite participar sem
discernimento do corpo. Precisamos compreender que o corpo de Cristo foi
partido na cruz por nós. Também precisamos compreender que a igreja é o corpo
místico de Cristo (v.29). Por esse motivo, as crianças, mesmo batizadas, não
participam da Ceia.
Paulo levanta uma questão muito importante: Quais são as consequências ou os
resultados de não participarmos corretamente da Ceia do Senhor? Duas
consequências claras:
(a) Somos julgados e disciplinados pelo Senhor, com fraquezas, doenças e
mortes: Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não
poucos que dormem (v.30).
(b) O objetivo de Deus com a disciplina é evitar que o cristão seja
condenado com o mundo. Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não
seríamos julgados. Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor,
para não sermos condenados com o mundo (vv.30-32).
Pode um cristão que está vivendo em pecado ser afastado da participação da
Ceia? Alguns acham que não, pois o direito de participar da Ceia é um privilégio
espiritual concedido por Cristo, portanto, fora da legislação institucional. A
nossa posição é resumida pelo Catecismo de Westminster: “Alguém que professa
a fé, e deseja participar da Ceia do Senhor, pode ser excluído dela? Os que forem
achados ignorantes ou escandalosos, não obstante a sua profissão de fé e o
desejo de participar da Ceia do Senhor, podem e devem ser excluídos desse
sacramento, pelo poder que Cristo legou à sua Igreja, até que recebam instrução
e manifestem mudança. (Referências: 1 Co 5.3-5,11; 11.29 ; 2Co 2.5-8).”
Aplicações Práticas:
O momento da Ceia não deve ser triste, mas alegre, pois é uma festa de gratidão.
A Ceia do Senhor é uma oportunidade de recomeço.
Participar da Ceia do Senhor é um grande privilégio.
CONCLUSÃO
Paulo conclui reafirmando que a Ceia do Senhor é uma refeição simbólica que
visa a alimentação espiritual do cristão. Se alguém tem fome, coma em casa, a
fim de não vos reunirdes para juízo. Quanto às demais coisas, eu as ordenarei
quando for ter convosco (v. 34). O tamanho do pedaço de pão e do cálice do
vinho é pequeno. A Ceia é uma celebração de natureza espiritual.
Em síntese: todas as vezes que participamos da Ceia do Senhor na igreja, com os
nossos irmãos, temos quatro oportunidades deolhar: (1) Olhar para trás com
gratidão: a cruz. (2) Olhar para dentro de nós: autoexame. (3) Olhar para a frente
com esperança: a segunda volta de Jesus. (4) Olhar para o lado: os meus irmãos
que participam comigo na igreja.
Estudo 15
Texto Básico: 1 Coríntios 5.1-13
DISCIPLINA NA IGREJA
INTRODUÇÃO
Mark Dever diz que uma das marcas de uma igreja saudável é a prática regular
da disciplina eclesiástica. Ele diz: “Cada igreja local tem a responsabilidade de
julgar a vida e os ensinamentos de seus líderes, e até mesmo de seus membros;
particularmente na medida em que qualquer um deles possa comprometer o
testemunho da igreja quanto ao Evangelho (veja At 17; 1 Co 5; 1 Tm 3; Tg 3.1;
2 Pe 3; 2 Jo). Disciplina eclesiástica bíblica é simplesmente obediência a Deus e
uma simples confissão de que nós precisamos de ajuda”.
Embora praticada desde a igreja primitiva, a disciplina eclesiástica está em
extinção em muitas igrejas hoje. Muitas igrejas têm se concentrado na luta pela
pureza doutrinária, mas estão perdendo a guerra para o mundanismo. Há muita
gente pensando certo doutrinariamente, mas com uma vida errada. Por causa
disso, a disciplina está esquecida. A Bíblia, porém, enaltece a necessidade e o
valor da disciplina para o bem do disciplinado e para a pureza da igreja: Toda
disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de
tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela
exercitados, fruto de justiça (Hb 12.11).
A aplicação da disciplina bíblica é uma das marcas da igreja verdadeira. Uma
igreja que não disciplina os seus membros que estão vivendo em pecado, está
errada e fora do padrão bíblico. Tolerância ao pecado dentro da igreja é pecado.
O estudo de hoje é sobre a doutrina bíblica da disciplina. Utilizaremos um caso
de disciplina na igreja em Corinto.
1. O QUE É A DISCIPLINA E QUEM A INSTITUIU?
A Bíblia apresenta vários tipos de disciplna: aquela que vem diretamente de
Deus (Hb 12.4-13), a disciplina pessoal (1Co 11.28), a disciplina do Estado (Rm
13.1-7) e a disciplina na igreja (Mt 18.15-20). O nosso foco aqui é a disciplina
eclesiástica.
O que é a disciplina?
“A disciplina eclesiástica é o exercício da jurisdição espiritual da igreja sobre
seus membros, aplicada de acordo com a Palavra de Deus. Toda disciplina visa
edificar o povo de Deus, corrigir escândalos, erros ou faltas, promover a honra
de Deus, a glória de nosso
Senhor Jesus Cristo e o próprio bem dos culpados” (Código de Disciplina da
IPB).
Quem deve aplicar a disciplina?
Jesus deu autoridade espiritual à igreja para a aplicação da disciplina, por meio
de uma liderança humilde, misericordiosa e exemplar (Mt 18.15-35).
Vários textos do Novo Testamento revelam, que no contexto da igreja, a
disciplina sempre foi usada como remédio necessário para zelar por sua saúde
espiritual (Rm 16.17;
2Co 2.5-11; 2Co 13.1,2; Gl 6.1-5; 2Ts 3.6-15; 1Tm 1.18-20; 5.19-22; Tt
3.10,11).
Quem instituiu a disciplina?
Deus é o autor de toda disciplina. Desde o Éden, o Criador já estabeleceu penas
para os que quebram princípios espirituais. Jesus instituiu a disciplina na igreja
(Mt 18.15-20) com o objetivo de estabelecer os limites entre o mundo e a igreja,
bem como combater o pecado dentro dela.
Quais os passos para se aplicar a disciplina?
Jesus orienta os seus discípulos: Se teu irmão pecar {contra ti}, vai argui-lo entre
ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma
ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três
testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja;
e, se recusar ouvir também a igreja,
considera-o como gentio e publicano (Mt 18.15-17). Observe os passos que
devem ser seguidos no processo da disciplina: (1) Abordagem individual: entre
o ofendido e o ofensor.
(2) Abordagem privada: caso o ofensor não ouça, com a presença de duas ou três
testemunhas.
(3) Abordagem pública: quando o pecado é levado publicamente à igreja. Caso
não ouça, deve ser considerado como não crente ou tirado da comunhão da
igreja.
Além desses passos bíblicos, algumas igrejas reformadas usam um “Manual de
Disciplina”. A Igreja Presbiteriana do Brasil tem o seu “Código de Disciplina”.
Ele se aplica aos crentes, às igrejas e concílios faltosos. Nenhuma pena
disciplinar poderá ser aplicada sem que haja um processo regular. O objetivo é
dar ao acusado o pleno direito de defesa.
Dois princípios espirituais que não devem ser esquecidos: (1) A disciplina
eclesiástica foi instituída por Deus e fundamenta-se no ensino bíblico. (2) A
disciplina é uma expressão de amor. Quem ama disciplina (Pv 3.11,12; Jó 5.17).
2. O MOTIVO PARA A DISCIPLINA: O PECADO NA IGREJA
Um membro da igreja em Corinto vivia deliberadamente na prática do pecado.
Paulo denuncia: Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade
tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a
mulher de seu próprio pai (v.1). Três destaques: (1) A natureza do pecado: haver
quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. Um membro da igreja
possuía sexualmente a mulher do seu pai ou a sua madrasta. Eles viviam
praticando relações sexuais. Trata-se de um incesto que era condenado pela lei
de Deus (Lv 18.5). Paulo não cita a mulher, pois, provavelmente, ela não era
membro da igreja. (2) A gravidade do pecado: imoralidade tal, como nem
mesmo entre os gentios. Nem mesmo os gentios praticavam e aceitavam o
incesto como algo normal ou natural. O pecado do crente escandalizava o
mundo. Nem mesmo a sociedade devassa de Corinto apoiava tal prática. O
incesto era condenado pela lei do mundo. Era uma falta grave que prejudicava a
pureza da igreja. (3) A dimensão do pecado: Geralmente, se ouve que há entre
vós imoralidade. A prática incestuosa daquele irmão era pública e atingia toda a
coletividade. Todos na igreja sabiam daquele relacionamento ilícito e ninguém
tomava providências. O irmão pecava por ação e a igreja por omissão.
Realidade sobre o pecado na igreja: Grande parte dos pecados cometidos na
igreja são acobertados e não denunciados à liderança da igreja. Os pecados mais
disciplinados na igreja são os relacionados a sexo, dinheiro e bebida. Não se
disciplina por pecados graves de omissão. Pecados cometidos por líderes da
igreja são mais graves e produzem mais
escândalos à vida da igreja.
Aplicações Práticas:
Como a liderança da sua igreja local age com relação à disciplina eclesiástica?
De modo geral, a disciplina eclesiástica tem sido aplicada de forma abusiva ou
tem sido negligenciada?
Pecados cometidos pelos membros da igreja devem ser denunciados para a
liderança? Qual a sua opinião sobre essa questão?
3. REAÇÕES À DISCIPLINA
A disciplina bíblica sempre sofreu contestações por parte de muitos. Ela sempre
é vista como uma forma de despotismo, discriminação e arbitrariedade. Muitos
criticam os líderes da igreja quando alguém é disciplinado, chamando-os de
“fariseus”, ou “hipócritas”. Sabemos que há falhas e abusos, mas os erros não
justificam a omissão à disciplina.
Os membros da igreja em Corinto se recusaram a disciplinar o irmão faltoso. E,
contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse
tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? (v.2). Três motivos da
recusa: (1) A soberba: E, contudo, andais vós ensoberbecidos. A igreja estava
ensoberbecida com o pecado, se vangloriando de ser uma comunidade
acolhedora. Há muitas “igrejas” que se vangloriam hoje de acolher pessoas sem
o arrependimento para a salvação (Mt 11.20; Lc 13.3-5; At 2.38). (2) A
insensibilidade: e não chegastes a lamentar. A palavra lamentar significa “chorar
como se tivesse perdido um ente querido”. É o choro da dor da perda. É triste
quando o pecado não produz mais choro na vida de uma igreja local. É feliz e
bem-aventurado quem chora o seu pecado e os pecados dos outros: Bem-
aventurados os que choram, porque serão consolados
(Mt 5.4). (3) A concessão: para que fosse tirado dovosso meio quem tamanho
ultraje praticou? A visão errada do pecado levou a igreja a não aplicar a
disciplina. Aquele que vivia em tão escandaloso pecado deveria ser afastado ou
tirado da igreja, até que se arrependesse.
Um cristão faltoso, quando disciplinado, reage hoje de três maneiras errôneas:
(1) Desprezando a disciplina ou fazendo pouco caso dela (Pv 3.5). (2)
Desanimando-se na fé e afastando-se da comunhão da igreja (Hb 12.5). (3)
Ficando amargurado e revoltado com a igreja e com os irmãos (Hb 12.15).
A reação de Paulo quanto à omissão dos irmãos de Corínto foi contundente. Ele
ordena que a igreja discipline aquele irmão. Eu, na verdade, ainda que ausente
em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente,
que o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu
espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor (vv. 3,4). Paulo diz que a disciplina
deve ser aplicada sob a autoridade apostólica e da igreja. Tal autoridade procedia
de Jesus, por isso devia ser em nome e com o poder de Jesus.
4. OS PROPÓSITOS DA DISCIPLINA
Marke Dever apresenta cinco razões para disciplinar alguém: “Seguem cinco
razões positivas para tal disciplina corretiva na igreja. Seu propósito é positivo:
para o indivíduo que está sendo disciplinado, para outros cristãos na medida em
que veem o perigo do pecado, para a saúde da igreja como um todo e para o
testemunho corporativo da igreja. E, acima de tudo, nossa santidade deve refletir
a santidade de Deus. Ser membro da igreja deveria significar alguma coisa, não
para nosso orgulho, mas por causa do nome de Deus. Disciplina eclesiástica
bíblica é outra marca de uma igreja saudável”.
Paulo destaca três razões para que aquele irmão de Corinto fosse disciplinado:
Promover a recuperação espiritual do disciplinado
Entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja
salvo no Dia do Senhor (v.5). A ideia é que o cristão deve ser afastado da
comunhão da igreja, para que por meio da excomunhão ele arrependa-se do seu
pecado.
Impedir que o pecado se espalhe na igreja
Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda a
massa toda? Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como
sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi
imolado (vv.6,7). O mau exemplo de um crente é muito nocivo à igreja. Assim
como o fermento, o pecado é contagioso e muito influente. Precisamos lutar
contra o pecado e a igreja não deve tolerar membros escandalosos e corruptos.
Manter a pureza das celebrações e da adoração ao Senhor
Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da
maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade (v.8).
Jesus morreu para santificar para si um povo zeloso, santo e produtivo.
Devemos adorar a Deus em espírito e em verdade, com sinceridade e santidade.
O pecado prejudica a adoração do povo de Deus.
A seguir, Paulo exorta a igreja a não se associar com os falsos irmãos. Ele
reconhece que é impossível aos crentes não ter contato com os impuros,
avarentos, ladrões e idólatras descrentes. A não ser que os crentes saíssem do
planeta. O seu conselho, porém, é para que os crentes tenham cuidado com os
falsos irmãos. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que,
dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou
beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais (vv.10,11). Estes devem
ser disciplinados e até excomungados da igreja: Pois com que direito haveria eu
de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora, porém, Deus os
julgará. Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor (vv.12,13).
Aplicações Práticas:
A igreja não deve ser omissa em relação à disciplina.
Pessoas escandalosas e corruptas são maus exemplos para a igreja e devem ser
disciplinadas.
Os crentes devem ter sempre em mente que: “Todas as coisas me são lícitas, mas
nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei
dominar por nenhuma delas”. 1 Co 6.12
CONCLUSÃO
O valor primordial da disciplina é combater o pecado na igreja. Através dela se
define o limite entre o mundo e a igreja. Ela ajuda a manter o sabor do sal e
impedir que a luz do testemunho se apague. A saúde da igreja depende da sua
pureza. Você pode ter disciplina sem pureza, mas não pode ter pureza sem
disciplina.
Estudo 16
Texto Básico: Apocalipse 1.10
DOMINGO: O DIA DO SENHOR
INTRODUÇÃO
Domingo é o Dia do Senhor. E é dever de todos os homens, principalmente dos
cristãos, consagrar esse dia inteiramente ao Senhor. Jonathan Edwards diz: “É a
mente e a vontade de Deus que o primeiro dia da semana deve ser especialmente
separado entre os cristãos para exercícios e deveres religiosos”. Entretanto, a
maioria dos que professam hoje a fé cristã não concorda com este princípio e não
guarda o domingo. Domingo é dia de lazer, de correr, de trabalhar e de se
divertir. Domingo só não é dia do Senhor.
A desobediência ao princípio moral e espiritual do quarto mandamento constitui
um dos pecados mais comuns da presente geração. “Os seus sacerdotes
transgridem a minha lei e profanam as minhas coisas santas; entre o santo e o
profano, não fazem diferença, nem discernem o imundo do limpo e dos meus
sábados escondem os olhos; e assim sou profanado no meio deles” (Ez 22.26).
O propósito deste estudo é apresentar o ensino bíblico acerca do dia do Senhor.
Não se trata de defender uma tradição puritana ou de um legalismo “sabatista”.
Que possamos dizer como o salmista: “Agrada-me fazer a tua vontade, o Deus
meu; dentro do meu coração, está a tua lei” (Sl 40.8).
1. ENSINO BÍBLICO DO ANTIGO TESTAMENTO
E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou
nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o
santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera (Gn
2.2,3). Deus concluiu a sua obra em seis dias e no sétimo descansou.
Literalmente, Ele “cessou” de trabalhar. É o repouso da tarefa concluída não da
inatividade. Não aparece aqui a palavra “sábado”, mas a raiz de onde se deriva
tal vocábulo. Estabelece-se, portanto, à luz do exemplo divino, o descanso
semanal como uma ordenança da criação.
A palavra “sábado” aparece pela primeira vez na Bíblia em Êxodo 16.22-30.
Assim como o maná, sábado é um presente de Deus: Considerai que o Senhor
vos deu o sábado; por isso, ele, no sexto dia, vos dá pão para dois dias; cada um
fique onde está, ninguém saia do seu lugar no sétimo dia (v.29). O sábado é dia
de repouso, é o “santo sábado do Senhor” (v.23). O sábado já é visto como um
mandamento ou uma lei divina, nesta ocasião.
Em Êxodo 20.8-11, temos o sábado como um mandamento santo, justo e bom.
Lembra-te do dia de sábado, para o santificar (v.8). Guarda o dia de sábado, para
o santificar, como te ordenou o Senhor, teu Deus (Dt 5.12). A razão da
observância do sábado apresentada no decálogo é dupla: é um memorial do
descanso divino - lembra-te do dia de sábado... (Êx 20.8) e uma comemoração
da libertação do cativeiro egípcio - porque te lembrarás que foste servo na terra
do Egito e que o Senhor, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço
estendido; pelo que o Senhor, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de
sábado (Dt 5.15).
Calvino observa três razões para o estabelecimento divino deste mandamento:
Primeiro, os fiéis devem descansar de suas obras a fim de deixar Deus operar
neles (Ez 20.12). Segundo, a separação de um dia específico para o povo se
reunir em culto a Deus - “santa convocação” (Nm 28.25). Terceiro, dia de
descanso e folga para os empregados (Êx 23.12).
Em Êxodo 23.12, o sábado é apresentado como promotor do bem social: Seis
dias farás a tua obra, mas, ao sétimo dia, descansarás; para que descanse o teu
boi e o teu jumento; e para que tome alento o filho da tua serva e o forasteiro. O
sábado serve para interromper o trabalho em Israel, repouso para os animais e os
trabalhadores.
O sábado também se tornouum “sinal da aliança” entre Deus e Israel.
“Certamente, guardareis os meus sábados; pois é sinal entre mim e vós, nas
vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica” (Êx
31.13). O sábado sinaliza que há uma relação de fidelidade entre Deus e seu
povo, a exemplo da circuncisão (Gn 17.11).
Em Êxodo 34.21, estabelece-se através da observância do sábado, o princípio
espiritual de se confiar na providência de Deus. “Seis dias trabalharás, mas, ao
sétimo dia, descansarás, quer na aradura, quer na sega”. Sendo uma nação
agrícola, a nação é ordenada a observar o sábado mesmo naquelas épocas do ano
em que um dia de serviço seria importante. Guardar o sábado é um teste de fé na
provisão de Deus (Mt 6.33; Êx 16.29). Deus sempre dá porção dobrada durante a
semana para aquele que santifica o dia de descanso.
Em Levítico 23.3, o sábado torna-se o dia oficial do culto em Israel: “Seis dias
trabalhareis, mas o sétimo será o sábado do descanso solene, santa convocação;
nenhuma obra fareis; é sábado do Senhor em todas as vossas moradas”. O culto
é chamado de “Santa convocação”, iniciativa do próprio Deus e realizado num
dia especial, o dia do Senhor.
O profeta Isaías salienta as bênçãos que virão sobre aqueles que obedecem o
quarto mandamento: Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus
próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo
dia do Senhor, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não
pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então te
deleitarás no Senhor. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei
com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do Senhor o disse (58.13,14).
Outros textos proféticos são bem claros: Ez 20.12,13; 22.8; 23.38; Jr 17.21-23,
27.
Resumindo, poderíamos dizer que o sábado no Antigo Testamento é uma
ordenança divina a todos os homens e um mandamento para o Seu povo. O
objetivo do sábado é duplo: cessação do trabalho particular (descanso) e
oferecimento de serviço espiritual a Deus (culto). No sétimo dia, tereis santa
convocação; nenhuma obra servil fareis (Nm 28.25).
Aplicações Práticas:
O descanso semanal é uma ordenança de Deus.
É importante que o povo de Deus tenha um dia específico para se reunir em
adoração a Ele.
Deus derrama bênçãos sobre aqueles que obedecem aos Seus Mandamentos.
2. O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO
O sábado é visto no ensino do Novo Testamento sob dois aspectos: cerimonial e
moral.
Cerimonial
O sábado cerimonial alcança a sua plenitude em Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro
descanso. Tudo aquilo que o sábado tipificava na lei cerimonial torna-se
realidade em Jesus. Ele é o antítipo do sábado. É por esta razão que o apóstolo
Paulo diz: Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de
festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que
haviam de vir; porém o corpo é de Cristo (Cl 2.16,17). Porque o fim da lei é
Cristo, para justiça de todo aquele que crê (Rm10.4). E ainda lemos em Hebreus:
Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das
coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes...(10.1). Os escritores
inspirados estão combatendo o aspecto cerimonial do sábado ou dos “tempos
santos”. Alguns cristãos podem, mesmo após a conversão, querer agradar a Deus
com a obediência da lei cerimonial. O apóstolo Paulo protesta: Mas agora que
conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando,
outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo, quereis ainda
escravizar-vos? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós tenha eu
trabalhado em vão para convosco (Gl 4.9-11). Paulo combatia o ensino dos
judaizantes.
Moral
O aspecto moral ou espiritual do quarto mandamento continua. Jesus não veio
revogar a lei, mas cumpri-la. Em todos os textos nos Evangelhos em que aparece
o ensino de Jesus acerca do sábado, em nenhum deles Jesus revoga o princípio
de se guardar o dia do Senhor. As controvérsias com os judeus giraram sempre
em torno daquilo que era permitido fazer ou não no sábado. Então, lhes
perguntou: é lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-
la? Mas eles ficaram em silêncio (Mc 3.4). Em Marcos 2.27,28, Jesus afirma: “O
sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do
sábado; de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado”. Nas
palavras de Jesus, o estabelecimento do sábado é anterior à lei de Moisés. É uma
ordenança da criação. Não se limita apenas aos judeus, mas é universal. O seu
objetivo é abençoar o homem e não trazer sofrimento ao mesmo. Assim sendo,
Jesus é Senhor do nosso descanso.
Jesus também defende a ideia de que o sábado não é inércia, mas atividade. Não
o nosso trabalho, mas o de Deus. E os judeus perseguiam Jesus, porque fazia
estas coisas no sábado. Mas ele lhes disse: Meu Pai trabalha até agora, e eu
trabalho também (Jo 5.16,17). Aos sábados Jesus ensinava nas sinagogas,
pregava o evangelho e curava as pessoas necessitadas (Mc 1.21-28; 3.1-6; 6.1-6;
Jo 5.1-18; 9.14).
A transição do sábado para o domingo
A transição do sábado para o domingo, como o dia de descanso dá-se no evento
da paixão de Jesus Cristo. Jesus Cristo ressurgiu no primeiro dia da semana (Mt
28.1; Mc 16.1: Lc 24.1; Jo 20.1). Cumpriram-se as Escrituras. Jesus é o
verdadeiro sábado, assim como o verdadeiro maná, o verdadeiro templo, o
verdadeiro sacrifício, a verdadeira Páscoa, a verdadeira circuncisão. Foi
estabelecida, em seu sacrifício, a Nova Aliança. Há então uma mudança no dia
de descanso, do sábado para o domingo.
É o próprio Cristo ressurreto que escolhe o dia para se encontrar com seu povo.
Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana... Passados oito dias, estavam
ali outra vez reunidos os seus discípulos, e Tomé com eles. Estando as portas
trancadas, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco! (Jo
20.19,26). Foi Jesus quem escolheu o dia para se encontrar com seu povo. Os
discípulos não foram atrás, Ele veio. Ele manifestou a sua
presença dominicalmente. Oito dias depois não parece ser mera coincidência.
Por que então o domingo e não outro dia qualquer? Creio que pela razão do
próprio Cristo ter sinalizado para os seus discípulos ser essa a sua preferência.
Jesus é o Senhor do sábado.
Os que discordam deste argumento, defendem que o domingo foi observado pela
Igreja por causa do decreto do Imperador Constantino, em 07 de março de 321.
Ledo engano, o decreto simplesmente regulamentou o que já era praticado.
No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão (At
20.7) “Mia ton sabbaton” é a expressão no grego. No primeiro dia da semana,
cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá
juntando, para que se não façam coletas quando eu for (1Co 16.2). “Mia
sabbatou” é a expressão no grego. Nos dois textos, fica claro que a Igreja
passou a guardar o novo sábado, “o primeiro dia da semana”, como dia de
culto coletivo, apesar da Igreja em Jerusalém reunir-se diariamente (At 2.46).
Entretanto, é na expressão “dia do Senhor”, que aparece em Apocalipse 1.10,
que encontramos um argumento complementar. Dia do Senhor (kyriakê),
“pertencente ao Senhor”. A construção adjetival sugere um título formal sobre o
dia da adoração coletiva da Igreja. “Senhor” claramente significa Cristo, e não
Deus Pai. Jesus Cristo é o Senhor. E o senhorio de Jesus é manifesto em sua
ressurreição, que ocorreu no primeiro dia da semana. Domingo é o dia do
Senhor assim como a Eucaristia é a “Ceia do Senhor” (1 Co 11.20). A
observância do domingo se tornou uma norma na Igreja Primitiva. O primeiro
manual de instrução cristã Didaquê diz: “No dia do Senhor nos reunimos e
partimos o pão” (14.1).
Algumas similaridades são apontadas entre o sábado e o domingo, Dia do
Senhor: Tanto o sábado como o domingo exigem um dia semanal para ser
observado. Um dia em sete; tanto o sábado como o domingo são celebrações da
redenção.O sábado é um memorial da redenção de Israel do cativeiro egípcio. O
domingo, em íntima conexão com a ressurreição de Cristo, celebra a redenção
humana em Jesus Cristo. Assim como o sábado comemora a criação, o domingo,
associado à ressurreição de Cristo, comemora a nova criação. Sábado e domingo
são especialmente dias de culto coletivo; ambos os dias dão a ideia de
propriedade: “sábado do Senhor” e “dia do Senhor”; ambos são dias de descanso
das nossas obras e de atividade espiritual; ambos prometem um descanso
escatológico. No novo céu e na nova terra não haverá noite. Viveremos num
eterno descanso (Ap 22.5).
Aplicações Práticas:
Jesus é Senhor do nosso descanso.
O senhorio de Jesus é manifesto em sua ressurreição, que ocorreu no primeiro
dia da semana.
Domingo é o Dia do Senhor.
3. POR QUE NÃO SE GUARDA O DIA DO SENHOR?
Para identificar as causas da quebra do quarto mandamento é necessário
distinguirmos dois grupos: a sociedade sem Deus e a Igreja. O mundo vive em
oposição a Deus. Não podemos esperar que o mundo espontaneamente obedeça
a lei de Deus. O mundo possui as suas próprias leis e está posto no maligno.
Existe uma oposição declarada entre os valores de Deus e os valores da
sociedade mundana. Os valores mundanos não procedem de Deus (1Jo 2.15-17).
A Igreja, porém, em obediência a Deus, deve influenciar o mundo
com os valores de Deus. Se a Igreja não guarda o dia do Senhor, como poderá
ela influenciar o mundo?
Desejo apontar algumas causas que, na minha opinião, têm contribuído para a
profanação do dia do Senhor. (1) A Natureza Humana. A Bíblia diz que o
coração do homem é enganoso e desesperadamente corrupto. A sua inclinação é
sempre para desviar-se de Deus e da sua lei. (2) A Ignorância do Assunto. Por
causa do analfabetismo bíblico, muitos desconhecem a doutrina bíblica do dia do
Senhor. Por outro lado, os pastores dificilmente pregam e ensinam sobre o
assunto. É uma doutrina antipática principalmente se a sua igreja está localizada
numa cidade grande e o poder aquisitivo dos membros é alto. Muitos pastores e
intérpretes da Bíblia afirmam que não é necessário observar o dia do Senhor. Isto
é coisa da lei e dos Puritanos. Cada pessoa é livre para guardar o dia que quiser e
se quiser. (3) Secularização. Secularização é o processo em que o sagrado se
torna profano. É a deterioração dos valores sacros. Aquilo que a Palavra de Deus
diz que é santo ou sagrado tem sido profanado pela Igreja, por pressão do
mundo. (4) Preconceito Religioso. Defender a guarda do domingo pode levar
alguém a ser considerado legalista e fariseu. (5) Incredulidade. Falta de fé por
parte dos cristãos na providência e no sustento de Deus.
Aplicações Práticas:
Você tem influenciado o mundo com os valores de Deus?
Não deixe o seu coração desviar-se de Deus e da sua Palavra.
Cuidado com a secularização! Não permita que o sagrado torne-se profano!
4. OS PURITANOS E O DIA DO SENHOR
Os Puritanos ingleses do século 17 sistematizaram a doutrina bíblica do
domingo. O argumento principal era que o quarto mandamento tornou a
santificação de um dia entre sete uma ordem moral. Se as nove leis morais do
decálogo são permanentes, o quarto mandamento indubitavelmente também é.
“O primeiro mandamento fixa o objeto; o segundo, o meio; o terceiro a maneira;
e o quarto, o tempo” da adoração, disse Jonathan Edwards.
No Novo Testamento, o domingo ou o primeiro dia da semana, tornara-se o dia
que os homens, doravante, deveriam guardar, em obediência ao princípio moral
prescrito pelo quarto mandamento. Esta ideia se acha resumida na Confissão de
Fé de Westminster, capítulo XXI, 7 e 8.
Como é lei da natureza que, em geral, uma devida proporção de tempo seja
destinada ao culto de Deus, assim também, em sua Palavra, por um preceito
positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens, em todas as
épocas, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (=
descanso) santificado por ele; desde o princípio do mundo, até a ressurreição de
Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é
chamado dia do Senhor (= domingo), e que há de continuar até ao fim do mundo
como sábado cristão.
Este sábado é santificado ao Senhor quando os homens, tendo devidamente
preparado os seus corações e de antemão ordenado os seus negócios ordinários,
não só guardam, durante todo o dia, um santo descanso das suas obras,
palavras e pensamentos a respeito de seus empregos seculares e de suas
recreações, mas também ocupam todo o tempo em exercício público e
particulares de culto e nos deveres de necessidade e de misericórdia.
J.I. Packer, no seu livro “Entre os gigantes de Deus” esboça o conceito puritano
quanto ao dia do Senhor: (1) Guardar o domingo não significa inércia, mas ação.
É o descansar das nossas obras, para dedicar à obra de Deus. (2) Guardar o
domingo não é um fardo entediante, mas um alegre privilégio. Durante o
domingo devemos nos deleitar no Senhor (Is 58.13,14). (3) Guardar o domingo é
um meio de graça. O domingo é um tempo durante o qual Deus quer ser buscado
e conferir bênçãos sobre aqueles que o buscam. (4) Não guardar o domingo atrai
o castigo divino. Pessoas e comunidades entram em declínio espiritual e perda
material por causa desse pecado.
Além dessas ideias, os puritanos estabelecem quatro princípios práticos quanto à
observância do domingo. (1) Todo cristão deve se preparar com antecedência
para o dia do Senhor. Deve se planejar a semana de tal forma que se possa
aproveitar o máximo do domingo. É preciso reconhecer a importância do dia do
Senhor e preparar principalmente o coração para santificá-lo. A batalha pela
observância do domingo é ganha na noite do sábado. (2) O culto público ocupa
lugar central no dia do Senhor. Domingo é dia de ir à igreja, à adoração coletiva
a Deus. Os cultos devem acontecer pelo menos duas vezes por domingo. (3) É da
responsabilidade do pai zelar pelo cumprimento familiar desse mandamento. “O
mandamento de guardar o dia do Senhor é especialmente dirigido aos chefes de
família e a outros superiores, porque estes são obrigados, não somente a guardá-
lo por si mesmos, mas a fazer que seja observado por todos os que estão sob o
seu cuidado” (Catecismo maior, pergunta 118) (4) Devem ser evitadas atitudes
de legalismo e farisaísmo no tocante ao dia do Senhor. Resumindo, o domingo
puritano é um dia de cessação do trabalho terreno e um tempo de culto e
adoração a Deus.
A Igreja Presbiteriana do Brasil aceita este conceito do puritanismo inglês,
introduzindo-o nos seus Princípios de Liturgia:
“É dever de todos os homens lembrar-se do dia do Senhor (domingo) e preparar-
se com antecedência para guardá-lo. Todos os negócios temporais devem ser
postos de parte e ordenados de tal sorte que não os impeçam de santificar o
domingo pelo modo requerido nas Sagradas Escrituras.
Deve-se consagrar esse dia inteiramente ao Senhor, empregando-o em exercícios
espirituais, públicos e particulares. É necessário, portanto, que haja, em todo esse
dia, santo repouso de todos os trabalhos que não sejam de absoluta necessidade,
abstenção de todas as recreações e outras coisas que, lícitas em outros dias, são
impróprias do dia do Senhor.
Os crentes, como indivíduos ou famílias, devem ordenar de tal sorte seus
negócios ou trabalhos que não sejam impedidos de santificar convenientemente
o domingo e tomar parte no culto público.
Conselhos e Pastores devem mostrar-se atentos e zelar cuidadosamente para que
o Dia do Senhor seja santificado pelo indivíduo, pela família e pela comunidade”
(Capítulo 1 - O Dia do Senhor).
Aplicações Práticas:
Alguns profissionais que trabalham em serviços essenciais (médicos, militares,
motoristas etc.), são obrigados a trabalhar no domingo. Não estariam eles
quebrando o quarto mandamento? Deus jamais exigiu do seu povo uma atitude
rígida e legalista em relação à guarda do dia do Senhor para as atividades
essenciais, o trabalho aos sábados era
permitido como uma exceção. Veja o exemplo dos guardas que trabalhavam no
templo e na segurançado rei (2Rs 11.5-9). Até mesmo os sacerdotes e os
fariseus reconheciam essa concessão da lei (Mateus 27.62-66).
Como observar a guarda do domingo se temos a necessidade de comprar e pagar
algo no domingo? Primeiro, é necessário que nos preparemos com antecedência
para a guarda do domingo. Segundo, o que Deus proíbe é a pratica de atividades
comerciais premeditadas no seu dia (Jr 17.21,22). Há procedimentos
emergenciais que precisam ser realizados aos domingos: um caso de doença, a
compra de remédios, o pagamento de uma refeição ou de um transporte (táxi ou
ônibus). Jesus estabelece esses procedimentos emergenciais quando diz: “Qual
de vós, se o filho ou o boi cair num poço, não o tirará logo, mesmo em dia de
sábado?” (Lucas 14.5).
CONCLUSÃO
Domingo, Dia do Senhor, é um dia especial. Como os outros dias, possui 24
horas e obedece ao calendário lunar. Entretanto, ele é diferente dos demais por
ser um dia de culto. Domingo é o dia em que o Deus da Nova Aliança vem se
encontrar com o Seu povo. “Mas esse dia de culto não pode ser um dia qualquer,
escolhido ad libitum.
Não se trata simplesmente de um dia de culto, mas sim um dia específico, a
saber, o domingo. Esse dia é necessário à igreja porque lhe lembra a vitória do
Cristo sobre a morte e a vinda do Espírito Santo, permitindo-lhe portanto,
celebrar o memorial semanal dos eventos que a fizeram existir” (J.J.Von Almen).
Santificar o domingo é um ato de obediência ao Senhor. É obedecer uma
ordenança da criação e o princípio moral da Lei, estabelecido no quarto
mandamento. Santificar o domingo é consagrar a Deus as primícias do nosso
tempo. Logo, todo nosso tempo é santificado. Santificar o domingo é uma
expressão de amor a Deus e ao próximo. O cumprimento da lei é o amor.
Estudo 17
Texto Básico: Marcos 13.1-37
A SEGUNDA VINDA DE JESUS
INTRODUÇÃO
Escatologia é a doutrina das últimas coisas. E a mesma pode ser dividida em: (1)
Escatologia individual: morte física, imortalidade da alma e estado
intermediário. (2) Escatologia Geral: Segunda Vinda de Jesus Cristo,
ressurreição dos mortos e juízo final.
Iniciaremos o estudo das últimas coisas com a Segunda Vinda de Cristo. Ela é
doutrina central da Escatologia bíblica. Todos os eventos escatológicos estão
atrelados a ela. Na sua primeira vinda, Jesus inaugurou o seu reino, mas na sua
segunda vinda, Ele consumará o reino. Será um tempo de restituição e de
restauração (At 3.21; Rm 8.21). Todas as coisas serão reveladas (1Co 4.5) e
Cristo será glorificado nos seus santos (2Ts 1.10). Ele destruirá a morte (1Co
15.25,26) julgará a todos (Ap 20.11-13) e reinará sobre todos (Ap 11.15).
Marcos 13 resume o ensino escatológico de Jesus (Mt 24 – paralelo). Ele foi
proferido no Monte das Oliveiras em resposta aos discípulos que lhe
perguntaram quando e que sinais seriam dados antes de tudo acontecer. Ele é
conhecido como o “sermão profético”. W. Hendriksen sugere o seguinte esboço:
(1) Introdução (Mc 13.1-4): local e origem do sermão e a predição da destruição
do templo. A predição se cumpriu literalmente no ano 70 d.C, por mãos do
Império Romano. (2) O Princípio das Dores (13.5-13). (3) A Grande Tribulação
(13.14-23). (4) A Vinda do Filho do Homem (13.24-27). (5) A Lição da Figueira
(13.28-31). (6) A necessidade de estar sempre pronto para o dia e hora da vinda
de Cristo. Três detalhes importantes: (a) Jesus não falou sobre a existência de
milênio antes da sua segunda vinda e nem tampouco da existência de
dispensações. Ele chama de “últimos dias” o período entre a sua primeira e a sua
segunda vinda (2Tm 3.1; Hb 1.2). (b) Jesus jamais falou que a sua segunda vinda
seria em duas etapas: arrebatamento da igreja e juízo final. (c) Jesus intercala os
eventos contidos no julgamento de Deus sobre Jerusalém, com os eventos que
acontecerão no mundo antes da sua segunda volta.
1. OS SINAIS QUE APONTAM PARA A SEGUNDA VINDA
A expressão “sinais dos tempos” (semeia ton kairon) é usada para descrever
certos fatos ou acontecimentos que apontam e indicam a segunda vinda de Jesus
Cristo.
O sinal missionário ou da graça
A graça é manifestada na oportunidade de salvação, por meio da fé em Jesus
Cristo, oferecido pela pregação do evangelho. Mas é necessário que primeiro o
evangelho seja pregado a todas as nações (v.10). A pregação do evangelho ou a
obra missionária necessita ser realizada (é necessário) e deve ser a prioridade da
igreja (que primeiro).
A missão da igreja é pregar o evangelho a todas as nações. “O período entre a
primeira e segunda vindas de Cristo é a era missionária por excelência. Esse é o
tempo da graça, um tempo em que Deus convida e insta com todos os homens
para serem salvos” (Anthony Hoekema).
Os sinais de oposição a Deus
Há quatro sinais de oposição apontados pelos estudiosos: falsa religião,
tribulação, apostasia e o anticristo. (1) Engano religioso (vv. 5,6). Surgirão falsos
cristos, falsos profetas, falsos operadores de sinais e prodígios. O engano será
algo consciente e inconsciente. Se não houver uma intervenção de Deus, até os
verdadeiros crentes serão enganados. Jesus, porém, garante-nos que eles
enganarão a muitos, mas não os eleitos (vv. 21,22). (2) Perseguição religiosa (v.
9,12,13). Por causa do nome de Cristo, os cristãos serão odiados e sofrerão
perseguições. As perseguições virão de governos e até de pessoas da própria
família. A igreja perseguida precisa ter três coisas em mente: (a) Não se deixe
enganar pela falsidade religiosa (vv. 5,22). (b) Persevere até o fim, pois é
necessário que tudo isto aconteça (vv. 7,13). (c) Deus está no controle de tudo,
cuidando dos seus eleitos e abreviando o tempo de seu sofrimento (v.20). Ele
está com a igreja perseguida até o fim (Mt 28.20). (3) Os sinais do juízo de Deus
(13.7,8). Jesus aponta três sinais: (a) As guerras (vv. 7,8) (b) Os terremotos (vv.
8,24,25). (c) As fomes (v.8). Estes três sinais acontecem simultaneamente na
História, aumentando em quantidade e intensidade nos dias que antecedem o dia
do Senhor. São sinais do juízo de Deus sobre a humanidade. (4) O Sinal do
anticristo (Mc 13.14-23) A igreja de Jesus sempre viveu sob tribulação (Jo
16.33; 2Co 4.17). Logo, a tribulação é grande no sentido extensivo. Mas, no
verso 19, lemos: Porque aqueles dias serão de tamanha tribulação como nunca
houve desde o princípio do mundo, que Deus criou, até agora e nunca jamais
haverá. Jesus fala de “tamanha tribulação”, no sentido de intensidade, que
caracterizará “aqueles dias”, isto é, um período que antecede a volta de Jesus.
Esse período será de intensa angústia e de grande apostasia. É nesse período que
aparecerá a figura do “homem da iniquidade”. A Igreja não será removida ou
arrebatada da terra antes que essa tribulação comece, pelo contrário, os dias
serão abreviados por causa da igreja (Mt 24.22; Mc 13.20). A segunda vinda
significará libertação da tribulação para o seu povo (2Ts 1.6-8). Jesus jamais
ensinou que a sua segunda vinda será em duas etapas, como ensinam os pré-
tribulacionistas.
Aplicações Práticas:
A Segunda Vinda de Cristo será um tempo de restituição e de restauração.
A obra missionária deve ser prioridade na igreja. A sua igreja local tem investido
em missões?
Você acha que a Segunda Vinda de Cristo está próxima? Por quê?
2. A FIGURA DO ANTICRISTO
A figura deste último anticristo é chamada por Jesus, como “o abominável da
desolação” (Mc 13.4), e foi profetizado por Daniel (Dn 11.31; 12.11). Esta
profecia foi historicamente aplicada a duas pessoas: a Antíoco Epifânio (168
a.C.) quando ele profanou o templo em Jerusalém, no período dos Macabeus; e
aos romanos quando invadiram Jerusalém e destruíram o templo, em 70 d.C.
Por causa da importância desse personagem, incluímos aqui o ensino de Paulo:
Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isto não acontecerá sem que
primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da
perdição (2Ts 2.3). Ele repete Jesus: Ninguém vos engane! Lembre-se que a
vinda do Senhor será antecedida pela apostasia e pela revelação do homem da
iniquidade. Provavelmente,ele usa a mesma ideia de Daniel – “o homem da
iniquidade” ou “o filho da perdição” (Dn 7.25; 8.25,26). Antes da volta de Cristo
haverá a manifestação ou revelação de alguém que se oporá contra Deus. Trata-
se de uma figura universal. Vejamos mais alguns detalhes:
As suas atividades
O qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto,
a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o
próprio Deus (2Ts 2.4). Há duas atividades mencionadas: (1) Ele é adversário
de Deus ou aquele que se opõe a Deus, à Palavra de Deus, ao povo de Deus e à
obra de Deus (1Co 16.9; Fp 1.28). (2) Ele exalta a si mesmo e quer receber a
adoração que pertence somente a Deus (Is 14; Mt 4.1-11). Ele coloca-se no
lugar de Deus e arroga para si autoridade divina, o que produzirá grande
perseguição à igreja (Mt 24.15,21,22,29).
A sua origem e existência
Não vos recordais de que, ainda convosco, eu costumava dizer-vos estas coisas?
E, agora, sabeis o que o detém, para que ele seja revelado somente em ocasião
própria. Com efeito, o mistério da iniquidade já opera e aguarda somente que
seja afastado aquele que agora o detém (2Ts 2.5-7). Paulo esclarece aos irmãos
que o espírito da iniquidade já opera de forma invisível e contida. Deus é
soberano e detém a iniquidade, que um dia se revelará de forma plena e visível,
por meio de um homem. Várias interpretações são dadas para a expressão “o
que o detém”, mas duas são as mais aceitas: (1) A lei e a ordem do estado de
direito (Rm 13). (2) A proclamação do evangelho pelos missionários a todas as
nações (Mc 13.10; 2Pe 3.9; Ap 14.6,7).
A sua derrota
Então, será, de fato, revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o
sopro de sua boca e o destruirá pela manifestação de sua vinda (2Ts 2.8). Para
mostrar aos seus leitores que tudo está sob o controle de Deus e que no fim, o
bem vencerá, Paulo declara que o homem da iniquidade será revelado para ser
destruído de uma vez por todas. O Senhor Jesus o matará com o sopro da sua
boca, no dia da Sua Segunda Vinda. Só a manifestação de Cristo (epifania –
1Tm 6.14; Tt 2.13) será suficiente para derrotar o homem da iniquidade, de
forma total, súbita e rápida.
As suas estratégias
Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder,
e sinais, e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que
perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos (2Ts
2.9,10). Três lições importantes: (1) O homem da iniquidade aparecerá
acompanhado de poder, sinais e prodígios mentirosos, com o intuito de enganar
as pessoas (Mc 13.22; Ap 13.13,14). (2) O homem da iniquidade realizará os
seus sinais e prodígios, pelo poder de Satanás. Ele agirá segundo a eficácia de
Satanás. (3) O homem da iniquidade enganará aqueles que já estarão
perecendo, os quais não acolheram o amor e a verdade para serem salvos. O
poder do engano é para aqueles que já estão perecendo e não para aqueles que
já são salvos.
Os seus seguidores
É por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem
crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à
verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça (2Ts 2.11,12). Os
seguidores do homem da iniquidade rejeitaram o amor de Deus, revelado na
mensagem do Evangelho. Quais as consequências? (1) Deus lhes enviará uma
“energia para o engano” ou uma força poderosa para que eles creiam na mentira
do anticristo (2Cr 18.22; Jo 12.36-43; Rm 1.24,26,28). (2) Haverá o juízo final,
onde todos serão julgados e condenados. (3) A sentença de condenação será a
rejeição da verdade de Deus, pela opção do prazer com a injustiça (Jo 3.17).
Aplicações Práticas:
Fique atento! Não se deixe enganar pelos opositores de Deus que aparecerão nos
dias que antecedem à Segunda Vinda de Cristo.
Cuidado! Os seguidores do homem da iniquidade rejeitam o amor de Deus!
3. A VINDA DO FILHO DO HOMEM
Quando a tribulação chegar ao seu auge, o Senhor virá. O próprio Jesus é quem a
descreve.
Ela será precedida de distúrbios naturais ou cataclismos no universo
Mas, naqueles dias, após a referida tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará
a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão
abalados (vv.24,25). Esses fenômenos naturais estão ligados ao Dia do Senhor
(Is 13.9,10; Jl 2.10,31; 3.15;
At 2.17-21). Jesus diz que esses cataclismos acontecerão na sua segunda vinda
(Mt 24.29,30; Lc 21.25-27).
Ela será pessoal, visível, poderosa e gloriosa
Então, verão o Filho do Homem vir nas nuvens, com grande poder e glória
(v.26). A primeira vinda de Jesus foi em humilhação (Is 53.1-3; Fp 2.7,8), mas a
sua segunda vinda será pessoal (At 1.11; Fp 3.20), visível a todos os homens (Ap
1.7; Mt 24.29,30) e com grande poder e glória (1Ts 4.16; Cl 3.4).
Ela será única e definitiva
E ele enviará os anjos e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, da
extremidade da terra até à extremidade do céu (v. 27). Jesus exercerá o juízo e
levará definitivamente os seus eleitos para o céu. Não há milênio, não há vinda
em duas etapas, não há arrebatamento secreto da igreja, não há duas
ressurreições para justos e injustos. Todos ressuscitarão e serão julgados de
uma vez só e definitivamente na segunda vinda de Cristo (Jo 5.28,29;
1 Ts 4.13-18; Mt 25.31-46; Ap 20.11-15).
Mas, Jesus alerta-nos: o que devemos fazer enquanto Ele não vem? (1) Devemos
observar os acontecimentos históricos à luz da Palavra de Deus (vv.28,29). (2)
Devemos entender que tudo no universo é instável, mas a Palavra de Deus
permanecerá (vv.30-32). (3) Devemos ficar de sobreaviso, atentos e espertos,
porque o dia da Sua volta já está definido no calendário de Deus, mas ninguém
sabe (vv.32,33). (4) Devemos continuar servindo ao Senhor e trabalhando na sua
obra, até a sua volta (v.34). (5) Devemos vigiar porque Ele virá inesperadamente
(vv.35-37).
Aplicações Práticas:
Devemos estar sempre preparados para a Segunda Vinda de Cristo. A data já está
definida no calendário de Deus.
Devemos servir ao Senhor com alegria e vigiar sempre, porque Cristo virá de
maneira inesperada.
Se Cristo viesse hoje, você estaria preparado?
CONCLUSÃO
A Segunda Vinda de Cristo é a grande e última promessa da Bíblia a ser
cumprida.
Ela é ensinada no Novo Testamento por Jesus (Mt 24.30), pelos anjos (At.1.11) e
pelos apóstolos (At 3.20; Fp 3.19,20; 1Ts 4.15,16; Tt 2.13). O tempo da segunda
vinda está definido por Deus e somente Ele sabe a data. Ela está sempre próxima
e devemos estar sempre preparados.
Estudo 18
Texto Básico: 1 Tessalonicenses 4.13-18
A RESSURREIÇÃO DO CORPO E O JUÍZO FINAL
INTRODUÇÃO
A Escatologia individual trata da morte física, da imortalidade da alma e do
estado intermediário. Essas doutrinas estão relacionadas diretamente ao ensino
da ressurreição do corpo. Quatro conceitos básicos da Bíblia: (1) Morte é o fim
da vida física quando a alma se separa do corpo (Gn 2.7; Ec 12.7). Ela foi
introduzida no mundo e na humanidade através do pecado (Gn 2.17; Rm
5.12,17). (2) A morte física não põe fim à existência da alma. Justos e ímpios
continuam existindo após a morte (Dn 12.2; Mt 10.28; 11.21-24; Jo 14.3; 2Co
5.1,10). Deus é o único que possui a imortalidade (1Tm 6.15) e Jesus é quem a
revela de forma plena (2Tm 1.10). (3) O estado das pessoas entre a morte e a
ressurreição já é de pleno gozo na presença de Deus ou de sofrimento longe dEle
(Lc 23.43; 2Co 5.8; Fp 1.23; Ap 14.13). Trata-se de um estado vivo e
plenamente consciente (Lc 16.19-31; 1Ts 5.10). (4) A ressurreição dos mortos
acontecerá conjuntamente (ímpios e justos), no último dia, por ocasião da
Segunda Vinda de Cristo (Jo 5.28,29; At 24.14,15; Ap 20.11-15).
A lição de hoje trata sobre a ressurreição do corpo e do juízo final.
1. A DOUTRINA DA RESSURREIÇÃO DOS MORTOS.
Paulo inicia a sua instrução doutrinária dizendo: Não queremos, porém, irmãos,
que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes
como os demais, que não têm esperança (v.13).Três lições neste verso: (1) A
realidade da ignorância: Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes.
Paulo usava esta expressão com frequência (Rm 1.13; 1Co 10.1; 12.1). A
ignorância precisa ser combatida com a instrução da Palavra de Deus, ministrada
por pastores idôneos. Grande parte das angústias, preocupações e medos dos
cristãos, é resultado da ignorância bíblica. E é no contexto da ignorância que
proliferam o falso ensino e a superstição religiosa. (2) O conteúdo da ignorância:
com respeito aos que dormem. Os novos crentes, influenciados pelo pessimismo
do mundo grego e romano (paganismo), não sabiam se os crentes que haviam
morrido seriam salvos. A Escatologia Bíblica tem sido ensinada de forma
deturpada durante séculos. O dispensacionalismo pré-milenista e o
arrebatamento secreto da igreja são duas doutrinas que não têm base bíblica, mas
são ensinadas e cridas por muitos irmãos. (3) As consequências da ignorância:
para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Os novos
cristãos estavam tristes e sem esperança. Eles estavam desconsolados acerca dos
crentes mortos. Há muitos crentes hoje que por causa dos falsos ensinos têm
medo da escatologia bíblica. Não querem estudar o assunto e vivem sem
esperança e o consolo que somente o ensino bíblico
pode dar.
Paulo, então inicia a sua instrução dizendo claramente:
Deus ressuscitará os crentes que já morreram
Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante
Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem. Quatro ensinamentos neste
verso: (1) A ressurreição é matéria de fé: se cremos na ressurreição de Cristo
também devemos crer na ressurreição dos crentes. Uma vez que Jesus Cristo, o
nosso Salvador, conquistou a morte, não precisamos temer nem a morte e nem o
futuro. (2) O autor da ressurreição: Deus, por meio de Jesus. Somente quem é
eterno pode produzir a vida eterna. Somente Deus é o Senhor da vida e da
morte. Jesus é Deus, e quem crê nEle, ainda que esteja morto, viverá. (3) O
tempo da ressurreição: será na segunda vinda. Ele trará os que estão mortos em
sua companhia. São pessoas que estão com Jesus e virão com Ele. Quem estiver
morto, ressuscitará (Jo 5.28). (4) O objeto da ressurreição: os que dormem. A
palavra dormir vem do Antigo Testamento e refere-se a morrer (Gn 27.30; 2Sm
7.12). Ela é usada no Novo Testamento
(Mt 27.52; Jo 11.11-13; 1Co 15.6,18) para descrever a morte dos crentes. A
palavra não indica um repouso inconsciente (Lc 16.19-31; 23.43; 2Co 5.8), mas
o descanso ou repouso das lutas (Ap 14.13).
Os vivos serão transformados
Paulo continua a sua instrução. O foco de Paulo aqui são os crentes de
Tessalônica. Ele não está falando que haverá duas ressurreições (crentes e
descrentes) em dois momentos diferentes (primeiro a dos crentes e depois a dos
injustos). Na segunda vinda, Jesus tratará a todos com imparcialidade. Ora, ainda
vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à
vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem (v.15). Algumas
lições: (1) Dois grupos de crentes na volta do Senhor: os que estão vivos e os
que já morreram. (2) Duas situações: os que já morreram ressuscitarão primeiro
e os que estiverem vivos terão os seus corpos transformados. (3) Uma certeza: os
crentes que estiverem vivos jamais precederão os que já morreram.
Todos os crentes estarão para sempre com o Senhor
Outros detalhes são colocados por Paulo: Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua
palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus,
descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os
vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens,
para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o
Senhor. Ele descreve os fatos didaticamente: (1) Jesus virá de forma majestosa:
Ele mesmo dará a sua palavra de ordem. Trata-se de uma ordem gritada para que
os mortos ressuscitem (Jo 5.25). (2) Com a voz do arcanjo e o sonido da
trombeta, os crentes sobreviventes serão transformados num piscar de olhos
(1Co 15.52). (3) Jesus descerá do céu, de forma visível (Ap 1.7), audível (1Ts
4.16,17), majestosa (2Ts 1.7) e na condição de juiz (Mt 25.31-46). (4) Os que
morreram em Cristo, ou crentes, ressuscitarão primeiro. A ideia é que os que já
morreram não terão desvantagem em relação aos crentes vivos. (5) Crentes
ressuscitados e vivos transformados se encontrarão com o Senhor nos ares e
estarão com o Senhor para sempre (Jo 14.1-3). Todos os crentes se encontrarão
com o Senhor e estarão com Ele para sempre. Paulo conclui a instrução dizendo:
Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras (v.18). A ordem é de
encorajamento, consolo e ânimo por meio da Palavra do Senhor. Cada irmão
deve animar um ao outro.
Aplicações Práticas:
O que é pior: ignorar ou conhecer erradamente o ensino bíblico da ressurreição?
Se Jesus Cristo viesse hoje, como ficaria a situação daqueles que estão vivos?
Somente a Palavra de Deus conforta o coração enlutado.
2. O JUÍZO DE DEUS
Os defensores da dupla ressurreição, crentes separados dos descrentes, baseiam-
se neste trecho acima (1Ts 4.13-18). A tese deles é que Paulo não fala sobre a
ressurreição dos ímpios porque ela acontecerá em outro momento.
Mas, o texto não ensina isso. Paulo está escrevendo para crentes a fim de
explicar a situação dos crentes que morreram em Cristo. Ele não cita a
ressurreição dos ímpios, porque não se dirige a ímpios.
Paulo continua o seu ensino na segunda carta aos Tessalonicenses 1.5-10, onde o
tema é ampliado. Paulo fala sobre o reto ou o justo juízo de Deus. Ele faz
algumas afirmações importantes e complementares:
O justo juízo de Deus recompensa com paciência os cristãos atribulados
Sinal evidente do reto juízo de Deus, para que sejais considerados dignos do
reino de Deus, pelo qual, com efeito, estais sofrendo (2Ts 1.5). A paciência do
cristão em tribulação é uma evidência, um sinal positivo do reto juízo de Deus.
Mas, como pode ser isto? Deus retribui com perseverança ao crente perseguido,
pois a perseverança na perseguição levará o crente ao céu. Não se trata de
perseverar para ser salvo, mas, a perseverança como algo que dignifica o crente
a entrar no céu.
O justo juízo de Deus retribui com tribulação aqueles que perseguem a
igreja
Se, de fato, é justo para com Deus que ele dê em paga tribulação aos que vos
atribulam (2Ts 1.6). Aqueles que perseguem a igreja recebem como pagamento
tribulação. Deus proíbe o cristão de promover a vingança (Rm 12.17-20). A
ênfase de Paulo aqui, é que Deus dará a paga ou retribuirá os perseguidores da
igreja.
O justo juízo de Deus remunerará com vida eterna os cristãos e com eterna
destruição aqueles que não conhecem a Deus
Paulo diz: E a vós outros, que sois atribulados, alívio juntamente conosco,
quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em
chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra
os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão
penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu
poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos
os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho)
(2Ts 1.7-10). Alguns detalhes importantes e consoladores: (1) Quem julgará? O
juízo final será realizado pela Trindade. Algumas passagens bíblicas atribuem o
juízo a Deus (Rm 14.10; 2Tm 4.8; 1Pe 1.17). Mas, a Bíblia atribui a Cristo,
particularmente, a tarefa de julgar (Mt 25.31,32; Jo 5.27; At 10.42; Fp 2.10).
Uma concessão que lhe foi atribuída pelo Pai, pelo fato dele ser o Mediador (Jo
5.22). Paulo chama o juízo final de o tribunal de Cristo (2Co 5.10). Os anjos
serão os seus assistentes (Mt 13.41-43), bem como os santos (1Co 6.2,3; Mt
19.28; Lc 22.30). (2) Quando será o juízo final? Na segunda vinda de Cristo ou
na revelação do Senhor do céu. Paulo usa a expressão “naquele dia”. Trata-se de
um dia específico, desconhecidopelos homens, mas determinado por Deus (Mt
24.36; 2Tm 4.8). A natureza deste dia é de juízo divino. É o dia do juízo final.
Ele voltará para julgar a terra. Jesus se manifestará ou se revelará, como algo que
estava escondido atrás de um véu. A palavra usada por Paulo é apocalipse, que
significa revelar ou remover o véu (Lc 17.30; 1Pe 1.7,13). Será uma
manifestação gloriosa. Três características da manifestação de Jesus: (a) do céu,
isto é, pública para que todo olho possa vê-lo e, também para indicar a origem
ou o lugar de onde Ele virá (b) com os anjos do seu poder para indicar a sua
autoridade suprema no céu e na terra. Outra ideia é que os anjos virão com Ele
para execução do juízo (Mt 13.41,42; 25.31). (c) em chama de fogo indica que o
juízo do Senhor será a manifestação da sua santidade (Is 66.15,16; 2Pe
3.7,11,12). (3) Quais as partes que serão julgadas e as penas aplicadas? São dois
tipos de recompensa para dois tipos de pessoas. (a) Alívio ou descanso de toda
forma de sofrimento para aqueles que são afligidos e perseguidos por amor a
Jesus Cristo (Jo 16.33). Em outras palavras, vida eterna para todos os que creram
em Jesus. Estes são chamados de santos e Jesus será glorificado neles: quando
vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram,
naquele dia. (Sl 89.15-17; Is 49.13; Jo 12.28). (b) Vingança divina contra os que
não conhecem a Deus e não obedecem ao evangelho de Jesus (Rm 10.16). (4)
Quais a características desta vingança? Paulo diz: Estes sofrerão penalidade de
eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder. Não se
trata de aniquilação ou cessação de existência, mas de destruição eterna. É uma
existência eterna e consciente, longe da presença do Senhor. É uma exclusão da
presença do Senhor (Mt 7.23; 8.12; 25.30,41). É viver separado da presença e da
bênção do Senhor (Is 2.10,19,21). A Bíblia inclui também os anjos e o Diabo
(1Co 6.2,3; 2Pe 2.4; Jd 6; Ap 20.10-15).
Aplicações Práticas:
A doutrina do juízo final garante que haverá justiça divina no final do mundo.
A doutrina do juízo final garante que a vingança pertence a Deus, motivando-nos
ao exercício do perdão.
A doutrina do juízo final motiva-nos a pregar o evangelho a toda criatura.
CONCLUSÃO
Jesus resumiu o ensino sobre a morte e o juízo final numa parábola (Lc 16.19-
31). Quatro grandes lições que não devem ser esquecidas: (1) A morte é
inevitável: morre o rico e o pobre. Não há distinção de cor, raça, idade, grau de
instrução ou de poder aquisitivo. A morte é certa para todos. (2) A alma
sobrevive à morte: a alma humana sobrevive à morte física. Este é o ensino da
Bíblia, principalmente o ensino de Jesus. (3) Há somente dois destinos eternos:
céu e inferno. (4) Há coisas impossíveis após a morte: é impossível mudar o
estado eterno de quem já morreu; é impossível para alguém que já morreu
conversar com alguém que vive; e é impossível Deus mudar o método que Ele
próprio escolheu, para produzir arrependimento naqueles que estão vivos: a
pregação da Palavra.
Este livro foi composto pela Z3 Ideias,
no outono de 2019.
Cover Page
Rede de Discipulado 2
A Bíblia Sagrada
A Pessoa de Deus
A Criação de Todas as Coisas
Os Decretos e a Providência de Deus
O Pecado Original e suas Consequências
A Aliança da Graç
A Pessoa de Jesus
Os Ofícios de Cristo
A Pessoa e a Obra do Espírito Santo
Eleitos para a Salvação
A Aplicação da Salvação
A Igreja de Deus
O Batismo Cristão
A Ceia do Senhor
Disciplina na Igreja
Domingo: O Dia do Senhor
A Segunda Vinda de Jesus
A Ressurreição do Corpo e o Juízo Final