Prévia do material em texto
CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI PINTURA II GUARULHOS – SP 2 SUMÁRIO 1 32 42.1 62.2 O conceito de arte 6 2.3 152.4172.5 Pintura e escultura (espacialidade e visualidade) 21 3 263.1 273.2 283.3 294 324.1 324.2 354.3 434.4 505 596 646.1 676.2 726.3 747 778 83 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. 3 A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 2 A ARTE COMO LINGUAGEM E EXPERIÊNCIA Ao longo da história, o ser humano sempre criou inúmeros artefatos para utilizar em seu cotidiano. Esses artefatos foram criados de forma harmoniosa a partir da combinação de cores e texturas. Contudo, a criação nesse sentido, conforme Paukoski (2022), não se restringiu apenas a objetos ‘utilitários’, mas também a produção de obras pelas quais ele pode expressar seus sentimentos e visão da realidade, em diferentes linguagens. Sob esta perspectiva, torna-se evidente que a arte é uma característica inerente ao ser humano, emergindo da consciência de sua capacidade para criar, interpretar, imaginar e comunicar. Essa inerência é igualmente visível ao longo da Pré-História, onde a evolução da humanidade e a necessidade de expressão artística estão entrelaçadas. Essa intersecção remonta aos primeiros vestígios da história, onde as primeiras manifestações estéticas têm suas raízes nos primórdios da cultura, frequentemente vinculadas a rituais de conquista e à relação humana com a natureza (PAUKOSKI, 2022). 4 As manifestações artísticas mais antigas desse período, das quais possuímos evidências, se manifestam nas pinturas encontradas nas cavernas de Chauvet e Lascaux, situadas na França (Figura 1), bem como na caverna de Altamira, na Espanha. Essas pinturas oferecem um vislumbre fascinante das habilidades artísticas dos primeiros seres humanos, permitindo-nos compreender de que maneira eles se esforçava para expressar sua percepção do mundo e as relações que mantinham entre si e com a natureza. Os desenhos e pinturas desse período são marcados principalmente pelo naturalismo, uma vez que a natureza e os seres vivos eram retratados de forma realista, como eram observados pelos humanos na época paleolítica. Ao contrário de períodos posteriores, os artistas representavam apenas o que viam (BATTISTONI FILHO, 2020). As pinturas rupestres retratam frequentemente animais, especialmente aqueles que eram temidos, como o bisão (Figura 2). Figura 1 – Pintura de animais encontrada nas grutas de Chauvet e Lascaux- França. Fonte: Proença (2009) Figura 2 – Pintura rupestre de bisão 5 Fonte: Proença (2009) Embora o naturalismo seja uma característica predominante das figuras rupestres do período paleolítico, elas não eram exclusivamente naturalistas. Além das representações realistas de animais e elementos da natureza, também há exemplos de figuras estilizadas e abstratas nas pinturas rupestres. Essas representações artísticas variavam em estilo e propósito, refletindo não apenas a observação direta da realidade, mas também aspectos simbólicos, espirituais e culturais das comunidades pré-históricas. Portanto, enquanto muitas figuras rupestres exibiam um grau de naturalismo ao retratar animais e cenas cotidianas, outras iam além, explorando formas estilizadas e abstrações que podem ter tido significados mais profundos e complexos para as pessoas da época. A terminologia "arte rupestre" deriva da palavra latina "rupes", que significa "rochedo". Esse termo é amplamente utilizado em todo o mundo para descrever os desenhos criados pelo ser humano em superfícies rochosas (PINHEIRO; CRIVELARO, 2014). É inegável que a história da arte proporciona um entendimento valioso sobre a evolução da humanidade, assim como sobre as manifestações artísticas de diversas culturas. A arte, de fato, pode ser interpretada como um espelho da cultura e da história da humanidade, refletindo suas características e desenvolvimentos ao longo do tempo (BATTISTONI FILHO, 2020). 6 No entanto, é importante reconhecer que a noção de arte está longe de ser uniforme, uma vez que a experiência artística humana é vasta e diversificada, moldada pelos diferentes contextos temporais e espaciais das culturas existentes. Dessa forma, iremos, nesse tópico iremos explorar de maneira mais aprofundada o conceito de arte, indicando aspectos de sua histórica e concepções diversas sobre a obra de arte e a experiência artística. 2.2 O conceito de arte Com raízes no termo latino "ars", a palavra "arte" encontra equivalência no vocábulo grego "tékhne", que se traduz como "técnica". Esse termo abrange a ideia de "qualquer atividade humana sujeita a regras com o propósito de criar algo" (CHAUÍ, 2003). Assim, a arte é entendida como um meio para a realização e produção de objetos e coisas. Essa concepção, enquanto uma visão clássica do objeto artístico, ainda exerce influência em nossa cultura, contudo, não abarca por completo a amplitude do que é compreendido como arte no cenário contemporâneo. Ferreira Gullar, um importante intelectual e poeta brasileiro, definiu arte da seguinte forma: A arte é muitas coisas. Uma das coisas que a arte é, parece, é uma transformação simbólica do mundo. Quer dizer: o artista cria um mundo outro [...] por cima da realidade imediata. [...] Naturalmente, esse mundo que o artista cria ou inventa nasce de sua cultura, de sua experiência de vida, das ideias que ele tem na cabeça, enfim, de sua visão de mundo, que tanto pode ser erudita como ingênua. Se é ingênua, diz-se que o pintor é primitivo. Mas que é cultura ingênua? [...] Seria, em termos genéricos, o que se chama de cultura popular (2006, p. 105-106). O trecho de Gullar ressalta uma das facetas intrínsecas da arte: sua habilidade de realizar uma transformação simbólica do mundo. O artista desencadeia uma metamorfose ao criar um universo paralelo que sobrepuja a realidade imediata. Esse novo mundo, contudo, é uma expressão das raízes culturais, experiências de vida e ideias que permeiam a mente do artista, constituindo sua visão de mundo, que pode variar entre uma abordagem erudita e uma perspectiva mais simples e ingênua, muitas vezes associada à chamada cultura popular. Ao propor que o artista construa um mundo derivado da sua cultura, experiência e percepções, Gullar destaca a dualidade entre as expressões artísticas consideradas 7 eruditas e aquelas enraizadas na cultura popular. Esta última, caracterizada como "cultura ingênua", reflete uma abordagem menos formalizada, mas igualmente rica em significados. O texto implica que ambas as manifestações, erudita e ingênua, são intrínsecas à arte e contribuem para sua diversidade e vitalidade,uma vez que a arte tem a capacidade de transcender a realidade imediata e revelar perspectivas profundas e multifacetadas do mundo. Segundo Arthur Schopenhauer (2003), filósofo alemão do século XIX, a arte é a "exposição de ideias" e uma forma de contemplar as coisas independentemente do princípio da razão. Ela representa o conhecimento transparente dos níveis de objetivação da vontade. Através da arte, o gênio - enquanto capacidade presente em diferentes graus em todos nós - seria capaz de intuir “[...] o essencial propriamente dito do mundo, o conteúdo verdadeiro de seus fenômenos [...]” (SCHOPENHAUER, 2003, p. 15). Pensando no conceito de arte sob o enfoque da educação, Barbosa (2018, p. 18) preconiza que: A arte na educação como expressão pessoal e como cultura é um importante instrumento para a identificação cultural e o desenvolvimento individual. Por meio da arte é possível desenvolver a percepção e a imaginação, apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo ao indivíduo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada. O autor destaca a importância da arte para a educação enfatizando que “Arte não é apenas básica, mas fundamental na educação de um país que se desenvolve. A arte não é enfeite. Arte é cognição, é profissão, é uma forma diferente da palavra para interpretar o mundo, a realidade, o imaginário, e é conteúdo” (Barbosa, 2020, p. 04). Conforme mencionado nas definições prévias, fica evidente que a compreensão do conceito de arte tem sido objeto de controvérsias ao longo de séculos, provocando debates entre filósofos, críticos e artistas. A natureza da arte apresenta intrincada complexidade e múltiplas facetas, abarcando uma ampla variedade de expressões criativas que variam desde pintura e escultura até música, dança, literatura e outros meios. Como resultado, diversas abordagens emergiram com o intuito de clarificar e delinear a essência da arte, cada uma com suas próprias perspectivas e ênfases distintas. 8 Uma abordagem tradicional na busca por uma definição de arte é a visão estética, que se concentra na apreciação da beleza e na vivência estética. Dentro dessa ótica, a arte é concebida como uma manifestação do belo, com o propósito de criar obras que proporcionem prazer estético e emocional ao observador. Essa perspectiva realça a importância da forma, da harmonia e da composição na prática artística, enfatizando a maneira pela qual os elementos visuais e sensoriais são empregados para transmitir emoções e provocar respostas profundas no espectador (GOMES FILHO, 2022). De acordo com Reis (2011), a experiência estética envolve fundamentalmente a percepção, na qual o sujeito participa de forma ativa, utilizando seus sentidos, corpo, emoções, imaginação e criatividade diante de um objeto específico. Nesse engajamento sensorial e emocional, ocorre uma interação complexa entre o observador e a obra de arte, transcendendo as barreiras cotidianas e permitindo uma imersão profunda no mundo criado pelo artista. Essa participação ativa, que abrange desde a observação visual até a resposta emocional e intelectual, é o que confere à experiência estética sua riqueza e significado. Através dessa interação, o espectador não apenas absorve o que está diante de seus olhos, mas também projeta suas próprias percepções e experiências pessoais, enriquecendo a compreensão e a interpretação da obra. Portanto, a experiência estética vai além da mera contemplação passiva, tornando-se uma troca dinâmica e enriquecedora entre o indivíduo e a arte Outra abordagem é a imitação da natureza, uma perspectiva que tem raízes na Grécia Antiga. Conforme essa visão, a arte se configura como uma tentativa de reproduzir ou representar a natureza de maneira fidedigna. Essa concepção encontra sua materialização em esculturas e pinturas que buscam emular a forma humana ou a paisagem natural. A noção de imitar a natureza está intrinsecamente associada à ideia de capturar a verdade e a essência do mundo que nos rodeia (GRINBERG, 2018). Esta visão tem uma presença marcante nas artes, particularmente nas esculturas e pinturas helenísticas da Grécia Antiga, onde a ênfase na reprodução precisa da forma humana e da paisagem reflete um desejo de preservar a autenticidade da realidade. O exemplo visual na Figura 3 ilustra uma pintura 9 helenística que evidencia essa abordagem voltada para a natureza e a realidade ambiente, capturando detalhes minuciosos que se aproximam do mundo observável. Figura 3 – Obra “Afresco Ifigênia levada para o sacrifício”, de Giovanni Battista Tiepolo Fonte: encurtador.com.br/jrMU4 As estátuas gregas retratavam o ser humano com personagens de beleza, rostos tranquilos, expressões intensas, corpos perfeitos e detalhes ornamentados, como exemplificado na figura a seguir (Figura 4). Figura 4: “O Discóbolo”, de Míron. Fonte: encurtador.com.br/ijB78 10 Há relatos de que as esculturas de pedra gregas eram tão harmoniosas que pareciam ter vida própria. A representação do ser humano na arte grega refletia a visão idealizada da época. A busca pela perfeição, harmonia e proporção - expressas pelo "cânone" ou regra - influenciava o realismo presente na arte grega, que visava representar arquétipos perfeitos para alcançar a beleza ideal (PINHEIRO; CRIVELARO, 2014). Cabe salientar, que a história da arte nos revela uma dicotomia entre a concepção grega, que se concentra na objetividade e na compreensão da natureza, e posições que valorizam a subjetividade em detrimento dessa objetividade. Desta maneira, com o advento da concepção moderna de subjetividade, observamos o surgimento de formas artísticas orientadas pela ideia de expressão individual. Dentro dessa evolução, a abordagem mais subjetiva da expressão individual assume destaque. Segundo essa perspectiva, a arte ganha vida como uma manifestação intrínseca dos sentimentos, emoções e ideias do artista. Através da arte, o criador empenha-se em transmitir sua visão singular do mundo, suas experiências pessoais e sua interpretação individual da realidade. Nesse contexto, a arte transcende a mera representação para se tornar um canal de comunicação íntima e autorreflexão. Por meio da arte, o artista pode compartilhar sua voz autêntica e perspectiva genuína com o público, criando uma ligação profunda e pessoal (READ, 1987). Essa abordagem ressalta a capacidade da arte de ser mais do que uma representação estética, sendo também um veículo de autoexpressão e uma janela para a riqueza da subjetividade humana Nietzsche (1883), em sua obra “Assim Falou Zaratustra”, enfatiza a importância da expressão individual na arte. Ele argumenta que a arte é uma forma de autotranscedência, permitindo que o artista expresse a singularidade de sua visão de mundo e transmita suas emoções e ideias de maneira intensa e pessoal. Defende que a arte é uma forma de liberar as paixões interiores e explorar a profundidade do ser humano, proporcionando um meio de circulação dos afetos entre público e artista. Segundo a análise de Martin (2011), Nietzsche defende a forma artística que busca ir além da própria existência, não como uma escapista, mas como uma internalização da experiência de viver. O que ele idealiza contrasta com a arte que se concentra exclusivamente em si mesma; em vez disso, ele enaltece a arte que consegue superar suas próprias limitações. 11 Continuando em sua explanação, Martin (2011, p. 4) elabora que, de acordo com Nietzsche, a criação artística permanece intrinsecamente ligada e vinculada ao seu criador, e sua interpretação requer uma afinidade com o estado de espírito que a originou. Diante do relativismo subjetivo que busca separar a obra de arte de seu criador, a fim de elevá-la a uma natureza divina,Nietzsche reitera a importância do caráter criativo da vontade, resultante da inventividade do artista. Outra forma de conceber a arte a partir da perspectiva de expressão de sentimentos e disseminação de emoções pode ser observada ao analisar a obra "O Beijo", do artista austríaco Gustav Klimt (Figura 5). Nesse contexto, é perfeitamente possível identificar uma cena romântica, repleta de beleza e ternura entre as figuras retratadas. Nesse tipo de obra, temos a oportunidade de realizar uma análise mais profunda dos sentimentos que permearam o autor durante o processo de criação, permitindo-nos explorar as reflexões internas que deram origem a ela. De maneira similar, no quadro "Ecce Homo", também pintado por Klimt, encontramos uma força igualmente intensa, evocando não apenas o silêncio, mas também o sofrimento e a angústia de Jesus Cristo enquanto ele se entrega à vontade divina. Nesse contexto, é como se a tela se tornasse um portal para o mundo interior do artista, revelando as emoções e as motivações que o impulsionaram a dar vida àquela obra. Ao observar cada pincelada, cada escolha de cor e cada detalhe, somos convidados a mergulhar na psicologia do criador, tentando decifrar as camadas de significado que foram incorporadas à obra ao longo do processo criativo. Figura 5 – Obra “O Beijo”, de Gustav Klimt 12 Fonte: encurtador.com.br/vCMYZ No caso específico do quadro "Ecce Homo", a obra adquire uma dimensão espiritual e emocional notável. A representação de Jesus Cristo, com sua expressão serena e, ao mesmo tempo, carregada de sofrimento, faz com que os observadores se conectem com a profundidade da mensagem religiosa que está sendo transmitida. A imagem captura não apenas a agonia física, mas também a entrega voluntária de Cristo ao plano divino, um momento de sacrifício e transcendência. Assim, ao contemplar obras como essa, somos convidados não apenas a admirar a maestria técnica do artista, mas também a imergir em suas emoções e intenções subjacentes. A arte se transforma em um meio de comunicação não verbal, transmitindo sentimentos e pensamentos que atravessam o tempo e o espaço para nos tocar profundamente, ressoando em nossa própria experiência humana. Veja a Figura 6, abaixo. https://encurtador.com.br/vCMYZ 13 Figura 6 – Obra “Ecce Homo”, de Gustav Klimt Fonte: encurtador.com.br/vCMYZ Assim, a pintura, obra de arte, parece expressar sentimentos que compreendemos por meio de pinceladas. Isto acontece com uma grande parte das obras de arte. Uma outra abordagem da arte emerge ao considerarmos que ela se fundamenta na noção de ser uma criação intelectual e conceitual, como discutido por Chagas (2021). Sob essa perspectiva, o foco se desloca para a ideia subjacente à obra, o conceito que se esconde por trás da forma tangível. A corrente artística da arte conceitual, por exemplo, coloca a ênfase na concepção em vez do objeto físico, desafiando os limites convencionais da arte e instigando o espectador a contemplar questões e conceitos intelectuais em um contexto artístico. Chagas (2018), destaca que uma obra icônica de arte conceitual é "Uma e três cadeiras" (1965), de Joseph Kosuth. Nessa obra, conforme explica Chagas, há a presença de uma cadeira de madeira, uma fotografia dessa cadeira e uma definição do termo "cadeira" retirada do dicionário. Veja a imagem abaixo (Figura 7). https://encurtador.com.br/vCMYZ 14 Figura 7 – Obra “Uma e três cadeiras” Fonte: hacer.com.br/kosuth Essa composição suscita indagações acerca da verdadeira essência da cadeira: seja como um objeto tangível, uma concepção abstrata ou uma representação visual. Embora todos os três elementos se refiram à mesma entidade, eles são distintos e possuem realidades próprias, cada um de maneira única. A obra desafia a noção convencional do que constitui uma cadeira e estimula reflexões sobre a interligação entre linguagem, representação e experiência sensorial (ARCHER, 2008). Ademais, existem abordagens sociopolíticas da arte que a encaram como uma forma de protesto, resistência e crítica social. Segundo tais perspectivas, a arte é um veículo para abordar questões de cunho social, político e cultural, aguçando a consciência e fomentando mudanças. Artistas engajados procuram canalizar sua criatividade para expressar pontos de vista e desafiar as estruturas de poder. É crucial enfatizar que todas essas abordagens são complementares e não necessariamente excludentes. A definição de arte é uma questão intrincada e subjetiva, variando conforme a cultura, o contexto histórico e as vivências individuais. Inúmeros estudos têm se empenhado em determinar o que constitui arte. Entretanto, ao examinarmos as diversas concepções sobre sua natureza, torna-se visível a complexidade dessa empreitada, dada a profusão de conceitos frequentemente contrastantes, contraditórios e divergentes entre si. Isso leva muitos a considerar que a essência da arte não pode ser rigidamente delimitada. Nesse sentido, a arte deve 15 possuir significados fluídos, adaptáveis e mutáveis, pois somente esses atributos são congruentes com sua constante metamorfose (DANTO, 2006). A multiplicidade de abordagens enriquece o panorama artístico, abrindo espaço para experimentação, inovação e um diálogo contínuo sobre o que verdadeiramente é a arte e como ela se manifesta em nosso mundo. 2.3 A arte como forma de comunicação e expressão de ideias Após uma reflexão acerca das perspectivas abordadas anteriormente, que discutiram a natureza multifacetada da arte, é possível concluir que a arte é um poderoso meio de comunicação e expressão de ideias, capaz de transcender barreiras linguísticas e alcançar um entendimento profundo e emocional entre as pessoas. Por meio de diferentes formas artísticas, como pintura, escultura, música, dança, teatro e literatura, os artistas têm a habilidade única de transmitir mensagens complexas, despertar emoções e provocar reflexões. A essência intrínseca da arte facilita uma partilha de experiência entre as pessoas de maneiras que as palavras frequentemente não conseguem alcançar. Ela constrói uma linguagem universal, que transcende as fronteiras culturais, sociais e temporais. Cada obra de arte expressa a visão singular do artista, enraizada em suas vivências, perspectivas e emoções, configurando-se no espaço de uma socio biografia, marcada pelo encontro entre o eu e outro. Dessa forma, ela permite ao público adentrar um diálogo silencioso e penetrante. Pela convergência de elementos estéticos e simbólicos, cada manifestação artística consegue estabelecer um diálogo visual e emocional com o público, convidando-o a decifrar e responder às suas mensagens. No entanto, a arte não se restringe a ser apenas um veículo comunicativo, ela também atua como um desafiador das limitações do pensamento. Incentiva a todos a questionar o status quo, a reinterpretar o ambiente que nos cerca e a contemplar novas aberturas (GONÇALVES, 2018). Por meio de suas expressões estéticas, a arte nos instiga a explorar âmbitos como identidade, política, justiça social, amor, dor, sonhos e esperanças. O relevante papel da arte enquanto meio de comunicação e veículo de expressão de ideias está fundamentado em seu impacto transformador na sociedade. 16 Complementando as linhas de raciocínio previamente delineadas, a arte possui a capacidade de incitar mudanças, estimular debates e despertar consciências. Através dela, podemos compartilhar narrativas e perspectivas alternativas, que muitas vezes são marginalizadas ou negligenciadas. Ao abordar questões pertinentes e desafiar as normas convencionais, a arte se torna uma força influente, capaz de influenciar e inspirar as pessoas, gerando empatia, sensibilizando para as injustiças e promovendo uma metamorfose social. Segundo FerreiraGullar, o artista tem a capacidade de, por meio de sua obra de arte genuína, protestar contra as crueldades do mundo, convertendo a submissão em um ato de resistência. Nesse processo, busca-se resgatar a dignidade inerente à humanidade, visando uma sociedade mais justa, democrática e progressiva, onde todos possam usufruir dos bens culturais e do lazer (2011, p. 67). Portanto, a arte não se limita a produzir apenas o belo ou o útil, proporcionando prazer. Ela tem a capacidade de contribuir para a compreensão do mundo real e expressar a verdade de forma significativa (GULLAR, 2011). Outrossim, a arte também desempenha um papel crucial na preservação da história e da cultura, vez que reflete as realidades e os valores de uma sociedade em determinado momento, documentando sua evolução ao longo do tempo. Além disso, ela possibilita a preservação de tradições e conhecimentos ancestrais, transmitindo- os para as gerações futuras. Em suma, tem-se que a arte é muito mais do que uma forma de entretenimento estético. Ela é uma poderosa ferramenta de comunicação, capaz de transmitir ideias, provocar emoções e desafiar nossas percepções. Por meio dela, somos convidados a expandir nossa compreensão do mundo e a nos conectar com nossa própria humanidade e com a humanidade dos outros (GONÇALVES, 2018). Nesse sentido, Carla Alexandra Gonçalves (2018) ensina que uma obra de arte deve necessariamente despertar desconforto, desafiando nossa capacidade de envolvimento, transformação e mobilizando uma ampla gama de habilidades, sejam elas relacionais, estéticas, cognitivas, mentais, conscientes ou inconscientes. Ainda, diz que o poder de provocar e perturbar se configura como uma das muitas formas de interação entre a obra de arte e o receptor. A Arte não se limita apenas ao amor, ao prazer e à satisfação, mas também pode estimular reações de ódio, repulsa, desprezo e horror, transformando-se sempre em uma experiência. Ou ela possui essa 17 capacidade provocativa, ou deixa de ser considerada uma obra de arte (GONÇALVES, 2018). Silva (2023) corrobora com a ideia de que a arte possui uma ampla diversidade de formas de manifestação, e, independentemente do seu meio de expressão, sempre possui a capacidade de transmitir sentimentos, ideias e diferentes perspectivas sobre o mundo. Entende-se, assim, conforme analisado por Silva (2023), que a arte exibe a notável capacidade de nos transmitir mensagens que podem desorientar nossa experiência, orientando-a, para lugares ainda não experimentados, sempre trazendo consigo algo relevante para compartilhar. Essa forma de comunicação transcende diversas manifestações artísticas, desde as obras expostas nas paredes dos museus até as capturas fotográficas da natureza. Ela engloba os musicais que se apresentam, as esculturas adquiridas em feiras de artesanato e até mesmo as expressões artísticas que emergem nos cantos das escolas, vielas e becos que pontuam o cotidiano das pessoas (SILVA, 2023). Em concordância com essa perspectiva, Dewey (2010) argumenta que as obras de arte são os meios de comunicação capazes de proporcionar uma expressão completa. Na compreensão do autor, as obras de arte se tornam canais genuínos e desobstruídos de conexão entre os seres humanos, sendo aptas a operar em um mundo onde abismos e muralhas muitas vezes limitam a partilha da experiência (DEWEY, 2010). Essa visão destaca o poder singular da arte em unir as pessoas por meio de uma linguagem que ultrapassa barreiras e instiga uma compreensão mais profunda da condição humana. As manifestações artísticas se revelam como veículos únicos para uma comunicação íntegra e autêntica, essenciais para uma sociedade que busca superar as barreiras que fragmentam a compreensão mútua. 2.4. As diversas formas de arte e manifestações ou expressões artísticas Analisando o contexto histórico, é perceptível que em tempos passados, a dança, escultura, literatura, música, pintura e teatro já eram reconhecidas como formas de expressão artística (TURAÇA ARANTES; GOMES, 2014). Não obstante, entre os diversos esforços de delimitação da experiência artística no mundo moderno e contemporâneo, cabe destacar que foi mediante o "Manifesto das Sete Artes", 18 delineado por Ricciotto Canudo em 1911 e publicado em 1923, que o cinema foi introduzido como a sétima arte, marcando um ponto de inflexão significativo (TURAÇA ARANTES; GOMES, 2014). Essa perspectiva histórica sublinha a evolução contínua do conceito de arte e como ele se expande para abranger novas modalidades criativas. A adição do cinema ao cânone das artes demonstra como a percepção sobre a expressão artística está sujeita a mutações ao longo do tempo, incorporando formas de comunicação visual e narrativa que surgem com o progresso da sociedade e da tecnologia. O manifesto representou um marco de extrema relevância no âmbito da estética e da teoria da arte. Ele propôs, como evidenciado, a integração do cinema como a sétima arte, em conjunto com as artes tradicionais já estabelecidas. Nessa conjuntura, Canudo (1911) defendia que as artes visuais, a literatura, a música, a dança, o teatro e a arquitetura compunham as seis artes tradicionais. Nesse contexto, ele concebia o cinema como uma novidade expressiva capaz de amalgamar elementos das demais artes, originando uma linguagem singular e impactante. Canudo via no cinema a capacidade de amalgamar e representar todas as artes, conferindo-lhe, portanto, o título de sétima arte, como exemplificado no trecho subsequente de sua obra: Por ser uma arte do espaço e do tempo, o Cinema seria a grande síntese de todas, a sétima arte, pois parte de uma imagem projetada em uma superfície, como a pintura ou a fotografia, mas envolve o movimento, relacionando-se ao ritmo, ao tempo (CANUDO, 1923). Canudo (1911) observou, portanto, que o cinema, ao ser reconhecido como a sétima arte, apresentava a capacidade de integrar e refletir todas as outras formas de expressão artística, solidificando-se como um veículo sem igual para a construção de narrativas visuais e emocionalmente impactantes. A contribuição intrínseca do manifesto reside na sua capacidade de discernir a singularidade do cinema enquanto uma forma de arte que transcende a mera fusão das demais modalidades, emergindo como um meio característico e de grande influência para a condução de histórias e evocação de emoções. Por isso, o manifesto de Canudo defendia que o cinema era uma arte que poderia unificar e transcender as outras formas de expressão artística. Ele via o cinema como uma síntese do passado e uma projeção do futuro. Canudo argumentava que o cinema era capaz de capturar a vida em movimento e, ao fazer 19 isso, era capaz de explorar a essência da existência humana e revelar uma nova forma de beleza (COVALESKI, 2012). Apesar de terem transcorrido mais de cem anos desde a redação do manifesto de Canudo, sua proposição de reconhecer o cinema como a sétima arte exerceu um impacto duradouro, influenciando o reconhecimento e a valorização do cinema enquanto expressão artística ao longo do século XX e além disso (COVALESKI, 2012). Essa ideia abriu trilhas para uma compreensão mais ampla das potencialidades criativas e expressivas do cinema, permitindo que fosse apreciado e estudado como uma forma distintiva de arte. Com o decorrer dos anos, várias outras categorias artísticas foram sugeridas, algumas obtendo maior aceitação e consenso do que outras. Um exemplo é a emergência da oitava arte, que engloba a "fotografia", ou ainda a nona arte, termo popularmente empregado para designar as histórias em quadrinhos. Além disso, o conceito de décima arte é atribuído aos vídeo games", e a arte digital é frequentemente considerada a décima primeira forma de expressão artística. Segundo se extrai dos ensinamentos de Covaleski (2012), a lista das categoriasde arte é a seguinte (Quadro 1): Quadro 1 – Categorias de arte Formas artísticas 1. Música (som). 2. Artes cênicas (Teatro/Dança/Coreografia — movimento). 3. Pintura (cor). 4. Escultura (volume). 5. Arquitetura (espaço). 6. Literatura (palavra). 7. Cinema (audiovisual — contém artes anteriores, como a música para trilha sonora, artes cênicas para dublagem, captura de movimentos, pintura, escultura e arquitetura para o design e literatura, para roteiros) 8. Fotografia (imagem). 9. História em quadrinhos (cor, palavra, imagem). 10. Videogames (integra os elementos de outras artes). 11. Arte digital (integra artes gráficas computadorizadas 2D, 3D e programação. 20 Todavia, essas são apenas algumas das espécies de arte mais conhecidas, e muitas vezes elas se sobrepõem e se combinam, gerando formas híbridas e novas expressões artísticas. Portanto, existem diversas espécies ou formas de arte, cada uma com suas características distintas. E as formas de arte são categorias amplas que englobam diferentes tipos de manifestações artísticas, de modo que as formas de arte e as expressões artísticas estão intrinsecamente relacionadas, pois as formas de arte abrangem as categorias amplas que agrupam diferentes manifestações artísticas, enquanto as expressões artísticas representam as manifestações individuais e criativas dentro dessas formas. 2.5 Pintura e escultura (espacialidade e visualidade). De acordo com Andrade (1995), a expressão artística pode ser comparada a um espelho que reflete várias informações, promovendo uma conexão e diálogo entre os aspectos conscientes e inconscientes. A pintura, por exemplo, é uma forma de arte que utiliza pigmentos e pincéis para criar imagens em uma superfície, geralmente plana, como por exemplo: quadros, painéis e murais (BANNACH, 2017). Dentro do campo da pintura, encontramos uma diversidade de expressões artísticas, como o realismo, o impressionismo, o expressionismo, o abstracionismo e outras correntes. Cada uma destas vertentes artísticas apresenta características únicas que espelham a visão e a criatividade do artista. Além disso, elas constituem marcos históricos que podem ser estudados à luz das condições sociais e políticas que influenciaram a criação das obras de arte. Ademais, a pintura, em sua particularidade, espelha as mudanças 'ontológicas' que marcam a experiência perceptiva humana. Em outras palavras, ela reflete o encontro do aparato sensorial que caracteriza a existência humana no mundo. Esse encontro se desenrola conforme as possibilidades de estar e se manifestar como um corpo em um ambiente histórico específico. Gustave Courbet, em sua obra “O encontro”, a seguir (Figura 8) é um belo exemplo de pintura artística realista. Figura 8 – Pintura realista de Gustave Courbet – Obra “ O encontro” (1854) 21 Fonte: shre.ink/97IN Gustave Courbet nasceu em uma família que possuía vastas propriedades rurais localizadas em Ornans, uma região rural no interior da França. Proveniente de um ambiente sereno, Courbet manifestava uma personalidade rebelde que também se refletia em seu lado artístico e que se manifestou desde sua infância. Quando jovem, ele se deslocou para Paris com o intuito de estudar direito, mas logo abandonou essa trajetória para se dedicar completamente à pintura. Ao longo de sua trajetória, Gustave Courbet sempre evidenciou de maneira intensa sua atitude desafiadora, seja recusando honras consideráveis como forma de protesto ao regime político da França naquela época, ou chocando a sociedade com suas representações de mulheres nuas (GOMBRICH, 1996). Courbet adotava um estilo de vida que refletia suas preferências, sendo um espírito livre e boêmio que não se submetia às convenções vigentes. Portanto, ao optar por seguir a carreira artística, ele deliberadamente optou por não se inscrever na Academia de Belas Artes, uma instituição respaldada pelo Estado francês que normalmente constituía o caminho óbvio para aspirantes a artistas. Em vez disso, ele preferiu aprender nos ateliês de outros artistas da época e frequentemente passava suas horas no Louvre, onde copiava os trabalhos de outros artistas como uma maneira de desenvolver seu próprio estilo (GOMBRICH, 1996). https://shre.ink/97IN 22 Essa perspectiva independente e romântica em relação à figura do artista é visível em seus autorretratos, os quais funcionam como espelhos de seu estado mental. O quadro que indicamos anteriormente também funciona com um autorretrato, já que indica o encontro do artista com o ambiente social no qual ele estava inserido. Importante salientar ainda, que ele somente se dedicava a criar autorretratos quando experimentava uma mudança em sua visão de mundo ou em seu estado de espírito, fazendo dessa prática uma manifestação sincera de sua jornada interior (GOMBRICH, 1996). Já a obra “Impressão, nascer do sol”, de Claude Monet, é um exemplo da pintura impressionista (Figura 9). O impressionismo é um movimento artístico que floresceu no século XIX, principalmente na França, durante a segunda metade daquele século. Caracterizada por uma abordagem inovadora em relação à representação visual, a pintura impressionista busca capturar a impressão momentânea de uma cena, enfatizando a luz, a cor e a atmosfera em constante mutação. A obra "Impressão, nascer do sol" de Claude Monet, como dissemos, apresentada na Figura 9, é um exemplo icônico desse estilo. A pintura impressionista busca não apenas representar a realidade visual, mas também evocar uma experiência sensorial e emocional única, convidando o espectador a participar da cena capturada no instante presente. Figura 9 – Pintura impressionista de Claude Monet – Obra “Impressão, nascer do sol” (1872) Fonte: encurtador.com.br/vCNSZ 23 Por outro lado, a escultura é uma forma de expressão artística tridimensional que envolve a criação e a modelagem de formas físicas, geralmente a partir de materiais como pedra, metal, madeira, argila ou outros elementos, por meio da manipulação, esculpimento ou moldagem. Através desse processo, os escultores dão vida a obras que ocupam o espaço de maneira tangível, explorando texturas, volumes, linhas e proporções para transmitir ideias, emoções e narrativas. A escultura é uma manifestação artística diversificada, que pode variar de representações figurativas altamente realistas a abstrações ousadas e contemporâneas, desempenhando um papel essencial na exploração da forma humana, da natureza e do imaginário. (PEREIRA, 2014). Dentro da escultura, também encontramos diferentes expressões artísticas, como a escultura figurativa, a escultura abstrata, a escultura cinética, entre outras. Cada expressão artística na escultura oferece uma abordagem distinta para a criação de formas tridimensionais e a exploração de conceitos e emoções. A escultura Pietá de Michelangelo representa gloriosamente a expressão de escultura figurativa, que é um tipo de representação artística da forma humana, que encontra seu auge na escultura renascentista, mas marca profundamente o esforço humana de transformar a natureza em espelho da ‘natureza humana’. A escultura de Michelangelo é feita de pedra e segue abaixo (Figura 10). Figura 10 – Escultura “Pietá”, de Michelangelo, ilustrando a imagem idealizada de Maria e o corpo de Jesus Fonte: shre.ink/9AYE https://shre.ink/9AYE 24 No campo das artes espaciais, como a escultura, podemos identificar também a escultura abstrata. Trata-se, de uma vertente que se caracteriza por se afastar da representação fiel de objetos ou formas reconhecíveis da realidade externa. Em vez disso, busca explorar o jogo de formas, linhas, texturas e volumes de maneira não representacional, muitas vezes evocando emoções, sensações ou conceitos abstratos por meio de sua linguagem visual. Um exemplomarcante dessa abordagem é "The Arch", uma obra do renomado escultor Henry Moore. Essa peça, confeccionada em bronze, encarna com maestria os princípios da escultura abstrata. Ao contrário de representar formas reconhecíveis, "The Arch" é uma composição fluida e sinuosa que se desvia das limitações da representação literal. Henry Moore emprega formas orgânicas e curvas, explorando a relação entre os espaços negativos e positivos. A escultura evoca uma sensação de movimento e fluidez, convidando o espectador a interagir com as formas em constante transformação. Ao não estar restrita a uma interpretação literal, "The Arch" permite que cada observador atribua significados pessoais à obra, engajando-se na experiência estética de uma maneira única. Portanto, a escultura abstrata, como exemplificada pela obra de Henry Moore, desafia as noções convencionais de representação e exploração visual, convidando- nos a mergulhar em um mundo de formas, texturas e abstrações que transcendem a realidade tangível. A escultura abstrata, por sua vez, outra forma de expressão artística, pode ser representada pela “The Arch”, de Henry Moore. Ela é feita de bronze e faz jus a expressão abstrata, ao passo que foge da representação de qualquer realidade exterior (Figura 11). Henry Moore emprega formas orgânicas e curvas, explorando a relação entre os espaços negativos e positivos. A escultura evoca uma sensação de movimento e fluidez, convidando o espectador a interagir com as formas em constante transformação. Ao não estar restrita a uma interpretação literal, "The Arch" permite que cada observador atribua significados pessoais à obra, engajando-se na experiência estética de uma maneira única. 25 Figura 11 – Escultura “The Arch” (O Arco), de Henry Moore Fonte: shre.ink/9mrq Como vimos até agora, as diferentes formas de arte estão intrinsecamente relacionadas ao pensamento e aos sentidos humanos, revelando-nos a compreensão de que a arte está ligada tanto ao corpo quanto às múltiplas manifestações do corpo no mundo e na natureza. Um exemplo que ilustra essa relação é a expressão musical. A música, conforme ressaltado por Covaleski (2012), emerge como outra manifestação artística. A música utiliza sons organizados em ritmo, melodia e harmonia para criar uma expressão artística singular, estando presente desde osp primórdios da cultura humana. No vasto campo musical, distintas expressões tomam forma, como o jazz, o rock, a música clássica e eletrônica, entre inúmeros gêneros e estilos. Cada ramificação musical ostenta suas características sonoras próprias, estruturas distintas e intenções artísticas particulares. O som musical é intrinsecamente artístico e expressivo, destacando-se das demais formas artísticas por sua natureza interna, não estando pronto para ser simplesmente moldado. A música encontra sua origem em um âmago interno, mantendo essa qualidade essencial mesmo ao ser organizada e estruturada durante o processo artístico. A dimensão interna da música permanece inalterada, constituindo o núcleo da sua existência, mesmo ao longo da formatação e sistematização durante o processo criativo. 26 A expressão musical, enquanto representação artística, se origina na habilidade criativa e artística. Ela emerge durante o desenvolvimento artístico, expandindo-se a partir do trabalho de organização e formulação, evoluindo internamente na esfera do "sensível" e do intuitivo. Essa qualidade intrínseca permanece inabalada, formando o âmago da música enquanto ela evolui e se transforma sob a influência do processo artístico (COVALESKI, 2012). Esses exemplos realçam as relações entre as formas de arte e as manifestações artísticas. Cada forma de arte proporciona as condições para os artistas explorarem e expressarem suas percepções do mundo, emoções e concepções (PEDERIVA et al., 2022). Por sua vez, as manifestações artísticas enriquecem e diversificam as formas de arte, introduzindo novas perspectivas, estilos e técnicas para enriquecer o panorama artístico. Entende-se, ainda que interação intrínseca entre as diferentes formas de arte e suas manifestações é vital para a evolução e diversidade do universo artístico. Essa relação promove um diálogo constante entre os artistas e o público, enriquecendo nossa compreensão e apreciação da arte. 3 DOS COMPONENTES DA ARTE ATÉ A UNIDADE ORGÂNICA Na obra "Fundamentos da Arte" de Ocvirk et al. (2018), são discutidos os elementos constituintes da arte, que formam uma unidade orgânica culminando na criação artística. Portanto, neste capítulo, será explorado o estudo desses componentes, tal como apresentado pelos autores. Os componentes da arte desempenham um papel crucial tanto na criação quanto na apreciação das obras artísticas. Segundo Ocvirk et al. (2018), esses elementos formam a base fundamental que contribui para a construção e expressão das ideias dos artistas. Embora os componentes da arte possam variar, eles geralmente englobam o tema, a forma e o conteúdo. O tema incorpora o assunto central ou o conceito da obra, a forma abrange os elementos visuais, estruturais e técnicos empregados na composição, e o conteúdo reflete a mensagem, a intenção e o significado subjacentes à obra. Unidos, esses componentes proporcionam uma experiência estética enriquecedora e facilitam a comunicação entre o artista e o público. Eles enriquecem 27 o diálogo visual e emocional através da arte, ampliando a interação sensorial e intelectual entre a obra e o observador. Seguindo os ensinamentos de Ocvirk et al. (2018), pode-se depreender que quando um artista consegue unir com sucesso os três componentes (tema, forma e conteúdo) em uma obra, eles se tornam inseparáveis e mutuamente interativos, assemelhando-se a um organismo vivo. Nesse estado, é possível dizer que a obra possui uma unidade orgânica, não contendo elementos desnecessários ou que possam distrair, mas sim apresentando relações que parecem inevitáveis. Visão bem próxima a esta foi defendida por Vygotsky (1999). De acordo com suas concepções filosóficas e teorias de arte, a obra de arte possui uma estrutura composta por conteúdo e forma. Ele argumenta que o conteúdo da arte é derivado das condições objetivas e das relações sociais de uma determinada sociedade, mas é transformado pelas leis da estética. Em outras palavras, esse conteúdo objetivo é submetido a uma forma artística, a uma composição, que é chamada de enredo. No entanto, é importante ressaltar, como assinala Vygotsky (1999), que essa forma artística não é uma simples reprodução da realidade, mas uma representação que mantém uma relação complexa com ela. A forma refere-se ao arranjo e à composição da obra de arte, enquanto o conteúdo, ou o material, constitui a base sobre a qual a forma é construída. No entanto, essa relação entre forma e conteúdo não é uma simples soma, mas uma unidade contraditória. A estrutura de uma obra artística é justamente essa unidade contraditória entre forma e conteúdo, que se complementam e se influenciam mutuamente na criação e apreciação da obra de arte. 3.1 Tema: o precursor da expressão artística O tema na arte visual abrange uma ampla gama de possibilidades, podendo ser uma pessoa, um objeto ou uma ideia. A maneira como esse tema é apresentado pode variar bastante, mas o fator determinante para sua relevância é a motivação do artista em relação a ele. É essa motivação que confere significado e importância à escolha do tema, tornando-o central na expressão artística. Quando o artista se sente verdadeiramente motivado pelo tema, sua obra ganha vida e transmite essa conexão e paixão de forma autêntica (OCVIRK et al., 2018). Quando o artista escolhe um tema ligado a imagens objetivas, ele está representando em sua obra pessoas ou objetos. Esse tipo de tema é conhecido por 28 suaproximidade com suas contrapartes no mundo real, sendo facilmente identificáveis. As imagens objetivas também podem ser chamadas de imagens figurativas, uma vez que retratam de maneira clara e reconhecível elementos da realidade. No extremo oposto, tem-se as imagens ligadas à abstração, com relação as quais o tema não está vinculado a um objeto físico específico e a imagem resultante é considerada abstrata (OCVIRK et al., 2018). Nesse contexto, pode ser desafiador para o observador identificar o tema, uma vez que ele é baseado exclusivamente nos elementos da arte ao invés de pessoas ou objetos da vida real. Frequentemente, esse tipo de tema refere-se às ideias do artista sobre energia e movimento, que direcionam o uso de materiais e se comunicam com aqueles que podem decifrar a linguagem das formas. Consoante Ocvirk et al. (2018), a música, assim como a arte visual, também está relacionada aos temas e oferece uma comparação interessante. Contudo, os autores ressaltam que a menos que haja letras, é difícil identificar um tema específico em uma composição musical. Às vezes, o tema pode ser reconhecível, como as trovoadas e o canto dos pássaros na Sinfonia Pastoral de Beethoven ou as buzinas dos táxis em "Um Americano em Paris", de Gershwin. Outras vezes, no entanto, o tema é mais abstrato, representando uma emoção ou ideia que emana intensamente da música. Um bom exemplo disso é a "Fanfarra para o Homem Comum", de Aaron Copland, que não tenta descrever o tema literalmente, mas cria uma melodia nobre, acessível e inspiradora que enaltece a condição desafiadora do homem comum (OCVIRK et al., 2018). Da mesma forma, a arte abstrata busca retratar uma imagem ou ideia mais geral como tema. Independentemente do tipo de arte, a maneira como o tema é abordado é de extrema importância. Após identificar o tema em uma obra (seja ele óbvio ou não), é fundamental questionar se o artista conseguiu expressá-lo adequadamente. 3.2 Forma: a escolha dos elementos de composição da obra de arte A palavra "forma", como componente da arte, refere-se, segundo Ocvirk et al. (2018), à disposição ou organização geral de uma obra de arte. Ela é resultado do uso dos elementos da arte, conferindo-lhes ordem e significado por meio dos princípios de 29 organização. Ao se estudar a forma de uma obra, estar-se-á analisando como ela foi criada. Mais especificamente, é examinado, nesse caso, o motivo pelo qual o artista faz determinadas escolhas e como essas escolhas interagem para formar a apresentação final da obra de arte. Nesse sentido, a palavra "forma" talvez faça mais sentido na expressão "dar forma" do que como um substantivo isolado. Os elementos da arte, que incluem linha, textura, cor, forma e valor tonal, são os blocos de construção fundamentais, indispensáveis e imediatos da expressão artística. Suas características, determinadas pelas escolhas dos materiais e técnicas feitas pelo artista, têm o poder de transmitir uma ampla variedade de sensações complexas. Todos os artistas devem dominar e explorar esses elementos separadamente ou em combinação. A forma como esses elementos são organizados contribui para o sucesso ou fracasso estético de uma obra de arte (OCVIRK et al., 2018). Como ensina Ocvirk et al. (2018), com base na expressão pretendida, cada artista tem a liberdade de ordenar os elementos de qualquer maneira que produza o caráter desejado para a obra. No entanto, frisam os autores, os elementos adquirem ordem e estrutura significativa quando são organizados de acordo com os princípios de organização, que auxiliam na integração e organização dos elementos. Esses princípios incluem harmonia, variação, equilíbrio, proporção, dominância, movimento e economia. Eles ajudam a criar relações espaciais e transmitem efetivamente a intenção do artista. Os princípios de organização são flexíveis e não dogmáticos, podendo ser combinados e aplicados de inúmeras maneiras. Alguns artistas os organizam intuitivamente, enquanto outros os planejam de forma mais consciente. Com a experiência, todos desenvolvem um senso instintivo para a organização de suas obras (OCVIRK et al., 2018). 3.3 Conteúdo: motivação e reflexo da linguagem do artista O conteúdo de uma obra de arte representa a mensagem emocional ou intelectual transmitida pelo artista e interpretada pelo observador. Entre os três componentes da arte, Ocvirk et al. (2018) destaca que o conteúdo pode ser o mais desafiador de identificar, uma vez que o público, sem uma comunicação direta com o artista, deve decifrar suas ideias por meio da observação do tema e da forma da obra. 30 Por exemplo, na obra "Menina no Colo da Morte" (exposta abaixo - Figura 13), os fortes movimentos diagonais para a esquerda, os contrastes marcantes entre os valores tonais claros e escuros, e os traços agressivos e poderosos do desenho nos proporcionam uma compreensão da visão de mundo de Käthe Kollwitz e da intensidade de sua paixão, mesmo que possamos não compreender completamente a profundidade dessa emoção (OCVIRK et al., 2018). Figura 13 – Obra “Menina no Colo da Morte”, de Käthe Kollwitz Fonte: shre.ink/9m1t Ocvirk et al. (2018) argumentam que idealmente a interpretação do observador deve estar alinhada com as intenções do artista. No entanto, a diversidade de experiências entre os observadores pode afetar a comunicação entre eles. Para muitos, o conteúdo é moldado pela familiaridade com o tema, ficando restrito às sensações evocadas por objetos ou conceitos familiares. Contudo, um conteúdo mais amplo e profundo não deriva apenas da imagem em si, mas também é fortalecido pela forma. Isso é particularmente válido em obras abstratas, onde o observador pode não reconhecer a imagem como algo familiar, sendo necessário interpretar o significado com base nas figuras e outros elementos presentes. Em outras palavras, imagens de difícil reconhecimento, que possivelmente carecem de representação figurativa, ainda podem transmitir conteúdo se o 31 observador for capaz de decifrar as formas presentes na obra. Em algumas situações, os artistas podem não estar conscientes do que os motiva a fazer escolhas em relação à imagem ou à forma. Para eles, o conteúdo da obra pode emergir de forma subconsciente, ao invés de ser intencional. Como exemplo, um artista que tenha vivido um confronto violento pode, de maneira subconsciente, expressar sua raiva por meio da arte (OCVIRK et al., 2018). Ele pode sentir uma inclinação a trabalhar com formas angulosas e irregulares, cores intensamente vermelhas e traços agitados e cortantes, bem como retratar imagens explosivas. Às vezes, o significado das figuras não objetivas só se torna claro na mente do artista à medida que evoluem e se modificam na tela (OCVIRK et al., 2018). Apesar de não ser um requisito absoluto para a apreciação de uma obra de arte, de acordo com Ocvirk et al. (2018), realizar uma breve pesquisa sobre a vida do artista, a época em que viveu ou a cultura a qual pertencia pode ampliar perspectivas e levar a uma interpretação mais completa do conteúdo. Um exemplo citado pelos mesmos autores refere-se às cartas de Van Gogh. Em "Fundamentos da Arte: teoria e prática", Ocvirk et al. (2018) relatam que ao ler as cartas de Van Gogh endereçadas a seu irmão Theo, é possível obter uma compreensão mais profunda do uso específico e pessoal das cores por parte de Van Gogh. Nas cartas, ele expressava a crença de que a cor transmitia sentimentos e atitudes específicas, transcendendo a mera experiência ótica. Ele acreditava que, através do uso das cores, sua pintura poderia ser tão impactante quanto a música de Wagner. As cartas também revelavam o desenvolvimento de uma iconografia de cores pessoal, onde o vermelho e o verde simbolizam as paixões humanas pecaminosas, linhas de contorno em preto evocavamangústia, o azul cobalto representava a solidez do paraíso e o amarelo simboliza o amor (OCVIRK et al., 2018). Para Van Gogh, como indicado por Ocvirk et al. (2018), a cor não era apenas uma ferramenta para imitar visualmente, mas sim um instrumento para transmitir suas emoções pessoais. Embora o simbolismo das cores possa não ter sido aplicado a todas as suas pinturas, compreender sua intenção auxilia na explicação de algumas de suas escolhas e na força da cor em sua obra. 32 4 A CRIATIVIDADE: REFLEXÕES 4.1 Conceito de criatividade O que é criatividade? Essa questão levaria a quase um número infinito de respostas, com uma variedade de definições, dependendo dos paradigmas explicativos e dos autores envolvidos (MORAIS & FLEITH, 2017). A origem etimológica da palavra "criatividade" é proveniente da expressão grega "krainein", que significa realizar, e da expressão latina "creare", que abrange diversos significados, como criar, fazer brotar, fazer crescer e tirar do nada (PEREIRA, 2014). No entanto, para uma compreensão mais profunda do real significado da criatividade, é necessário ir além de sua etimologia, como será feito a seguir. Conforme destacado por Siqueira (2015), o conceito de criatividade frequentemente nos leva a imaginar indivíduos excepcionais, o que consequentemente leva a associar essa habilidade a talentos extraordinários. É uma tendência comum ligar a criatividade às áreas das artes, ciências e grandes inovações. Nomes como Leonardo da Vinci, Mozart, Einstein, Picasso, Santos Dumont, Henry Ford e Steve Jobs prontamente emergem em nossas mentes, pois esses indivíduos realizaram realizações notáveis que deixaram um impacto profundo e duradouro em nossa sociedade. Apesar da visão anteriormente mencionada, Siqueira (2015) destaca que existem formas valiosas de criatividade que fazem parte de nosso cotidiano, mas nem sempre são lembradas quando abordamos o tema. O autor enfatiza que muitas das coisas que consideramos atualmente como triviais e comuns já foram, em algum momento, consideradas notáveis inovações quando foram introduzidas. Ele faz referência a invenções simples, porém essenciais, como tesouras, lápis, carrinhos de supermercado e assim por diante. Além disso, expressões valiosas de criatividade estão presentes diariamente em diversos setores, como artesanato, indústria, comércio, cinema, medicina, entre outros. A criatividade permeia essas áreas, impulsionando a inovação e originando soluções originais. A multiplicidade de manifestações criativas é explicada pela variedade de definições atribuídas ao termo "criatividade". Diferentes pessoas conferem significados distintos a essa palavra e a definem de acordo com 33 perspectivas variadas em várias disciplinas, como negócios, ciências, música, artes plásticas, teatro, dança e arquitetura. Sob uma perspectiva bastante abrangente, a criatividade pode ser definida, segundo preconiza Siqueira (2015), como o processo mental de geração de novas ideias por indivíduos ou grupos. Novas ideias, como ele defende, podem se manifestar como novos produtos, obras de arte, métodos inovadores ou soluções para problemas. Essa definição traz consigo uma implicação importante, pois, como processo, a criatividade pode ser estudada, compreendida e aprimorada. Isso retira da criatividade aquela aura de um evento mágico, místico e transcendental, como se fosse um beijo divino na testa (SIQUEIRA, 2015). Ser criativo é possuir a habilidade de gerar ideias originais e úteis, assim como encontrar soluções para os desafios do cotidiano. Como explica Siqueira (2015), trata- se de olhar para as mesmas coisas que todos os outros veem, mas enxergar e pensar de maneira diferente. Por exemplo, o balão de ar quente foi inventado pelos irmãos Joseph e Etienne Montgolfier em 1783. Conforme narrado por Siqueira (2015), a ideia surgiu quando Joseph observou a camisola de sua esposa levitando após ela colocá-la em frente ao forno para secar. A partir dessa observação, ele teve a ideia de construir um invólucro grande feito de papel e seda em forma de pêra, com uma abertura na base para ser inflado com a fumaça resultante da queima de palha. Embora milhões de pessoas já tivessem presenciado esse fenômeno, somente os irmãos Montgolfier foram capazes de aproveitar essa observação de forma prática. Eles viram muito além de uma camisola flutuante - isso é criatividade, finaliza Siqueira (2015). Outro questionamento levantado por Siqueira (2015) é sobre “como as ideias surgem”. Para ele, muitos acreditam que as pessoas criativas possuem algo de mágico e que suas ideias aparecem repentinamente, surgindo do nada como resultado de um momento misterioso e inexplicável, ou talvez até mesmo de um feliz acidente. Contudo, embora algumas ideias possam de fato surgir por acaso, essa não é a regra geral, afirma o autor, que exemplifica da seguinte forma: Thomas Alva Edison, um dos maiores inventores de todos os tempos, tinha uma visão completamente diferente do processo criativo, visto que para ele "O gênio é 99% transpiração e 1% inspiração”. Eu nunca criei algo de valor acidentalmente, nem fiz nenhuma das minhas invenções por acidente. Elas surgiram do trabalho." Pablo 34 Picasso compartilhava da mesma opinião: "A inspiração existe, mas ela deve nos encontrar trabalhando.". Basta observar a biografia dos gênios para perceber que a genialidade é uma qualidade desenvolvida com esforço, disciplina e rigor. Esses gênios descobrem sua criatividade através de um constante comprometimento com o trabalho árduo, que os levam a desenvolverem o melhor de suas capacidades (PÉTRY, 1971). Conforme lição de Siqueira (2015), o mesmo princípio que se aplica aos gênios é válido para todos aqueles que desejam desenvolver suas habilidades criativas. O primeiro passo é compreender que ideias criativas não surgem magicamente, por um lampejo de genialidade ou por acidente. Embora isso possa acontecer em casos excepcionais, não é a regra geral. O processo criativo requer esforço e nem sempre as ideias surgem prontas, perfeitas e completas. Muitas vezes, elas começam como ideias simples e incompletas, meros esboços que precisam ser elaborados, combinados e aprimorados. Grandes ou pequenas, as ideias surgem a partir de um processo que pode ser estudado, aperfeiçoado, ensinado e replicado, finaliza Siqueira (2015). O desenvolvimento da criatividade requer que as pessoas abandonem suas zonas de conforto e se libertem dos bloqueios que impedem o pleno uso de suas capacidades mentais (SIQUEIRA, 2015). Siqueira (2015) explica, porém, que é evidente que alguns indivíduos mais talentosos podem ter mais facilidade em dominar o processo criativo e gerar ideias extraordinária, no entanto, a humanidade não depende apenas de grandes ideias. Nosso cotidiano se tornou mais agradável, produtivo e seguro graças a uma infinidade de pequenas, contudo, indispensáveis invenções, como parafusos, chaves de fenda, escovas de dentes, escadas e muitas outras, sem as quais a vida moderna seria menos confortável, saudável e produtiva. Nesse sentido, Vygotsky (1930/1987) ensina que, de fato, existe uma opinião muito difundida de que a criação é patrimônio dos eleitos e que somente aqueles que possuem dons e talentos extraordinários devem desenvolvê-la, considerando-se chamados à criação. No entanto, essa situação não está correta, conforme explicado anteriormente. Se a compreensão da criação em seu verdadeiro sentido psicológico for levada em conta, como a geração do novo, é fácil chegar à conclusão de que a 35 criação é patrimônio de todos, em maior ou menor grau, e acompanha, de forma normal e constante, o desenvolvimento infantil. No que diz respeito ao desenvolvimento da criatividade, assumindo que as pessoas já possuem o dom natural da criatividade, surgem algumas perguntaspráticas: como podemos desenvolvê-la? O que é esse processo criativo e como dominá-lo? O desenvolvimento da criatividade individual envolve os seguintes elementos: No que se refere ao aperfeiçoamento da criatividade, levando em consideração que há pessoas que já possuem um talento inato para serem criativas, surgem algumas indagações práticas, como: de que forma podemos estimulá-la, desenvolvê- la? O que é processo de criação e como podemos dominá-lo? Ao longo desse estudo, essas questões serão abordadas em mais detalhes. 4.2 A semântica da criatividade na psicologia cognitiva No século XVIII e XIX, filósofos empiristas como Locke, Hume e Mill abordaram a criatividade humana em termos de processos cognitivos, baseando suas concepções em uma determinada imagem do sistema de causalidades que marcam o modo de ser do mundo da natureza, que deveriam refletir-se e orientar a experiência humana. Segundo essa visão, todos os adultos se comportam de maneira idêntica e conforme leis instituídas pelo mundo da natureza. Essa perspectiva de universalidade do comportamento criativo foi adotada pela psicologia convencional. No entanto, com base na influência da biologia evolutiva, a concepção de criatividade se desvinculou deste conjunto de hipóteses empiristas. Como resultado, a criatividade passou a ser entendida como sinônimo de genialidade, especialmente no ambiente do romantismo alemão, o que viria a determinar muitos aspectos das concepções contemporâneos de criatividade. Nesse contexto, a criatividade foi definida como um processo psíquico fundamentado na excepcionalidade do pensamento ou criação. Com o objetivo de estabelecer e estudar as relações entre o estudo do comportamento humano e os princípios teóricos da abordagem da seleção natural proposta por Darwin (1887), Galton (1869) conduziu um ensaio estatístico para investigar a hereditariedade da genialidade humana. Ele analisou uma amostra de 36 indivíduos com produções criativas e seus resultados revelaram diferenças no nível de criatividade relatado por cada indivíduo. Com base nessas conclusões, Galton argumentou que aqueles com habilidades criativas mais desenvolvidas eram tão bem adaptados ao ambiente que alcançariam eminência social em qualquer contexto. Essa evidência de causalidade sustentou sua hipótese de que a criatividade é uma característica herdada geneticamente. No início do século XX, a criatividade se tornou um tema central nos debates acadêmicos, sendo abordada a partir de perspectivas cognitivas, intelectuais e sociais. Em 1904, Binet e Simon desenvolveram um modelo teórico-empírico para diagnosticar o nível intelectual de crianças em idade escolar na França. Sua pesquisa foi fundamentada na ideia de que o desenvolvimento intelectual ocorre de forma gradual ao longo do tempo, mas pode ser mais acelerado em certos indivíduos. Com base nessa premissa, eles criaram uma "escala de inteligência" para medir diferentes aspectos da intelectualidade, incluindo compreensão, julgamento, raciocínio e criatividade. Em um trabalho de 1910, Poincaré se dedicou a explicar a origem da criação matemática através da interação entre o raciocínio consciente e os impulsos inconscientes. Segundo sua perspectiva, a criatividade é um processo complexo de invenção que envolve a tomada de decisões. Envolve o processamento lógico de informações para resolver operações matemáticas por meio de indução ou dedução, e a escolha satisfatória de uma combinação viável entre várias combinações inúteis criadas pelo inconsciente. Poincaré enfatizou a importância da interação entre a consciência e o inconsciente na geração de ideias criativas e na seleção daquelas que são consideradas relevantes e úteis. De acordo com a exposição feita por Michel Paty em seu artigo "A criação científica segundo Poincaré e Einstein" (2001), o postulado teórico de Poincaré ressalta a ideia de que as combinações que emergem na mente como lampejos de inspiração, após um período prolongado de trabalho inconsciente, tendem a ser combinações frutíferas e produtivas, que aparentam ser resultados de um primeiro insight. Essa perspectiva insinua que a criatividade não é um evento súbito e passageiro, mas sim um processo contínuo de discernimento, tomada de decisões e amadurecimento do pensamento. 37 Conforme a visão de Poincaré, a criatividade demanda um labor prévio no âmbito inconsciente e uma constante elaboração mental, culminando finalmente nas formulações criativas. Portanto, a inspiração instantânea é alimentada por um processo de preparação inconsciente e a reflexão consciente, trabalhando em conjunto para dar forma às ideias inovadoras e criativas. Entende-se, assim, que a criatividade é um fenômeno multifacetado que envolve a geração de novas e originais ideias, conceitos, produtos ou soluções. Ela representa a capacidade humana de transcender as fronteiras das formas sedimentadas de expressão, comportamento e linguagem, combinando os elementos de uma experiência de forma inesperada. Além da abordagem de Poincaré, vamos encontrar diversas abordagens que buscam entender a natureza da criatividade. Podemos, assim, encontrar uma abordagem psicológica que considera a criatividade como um traço pessoal, relacionado à habilidade de pensar de maneira flexível, associativa e divergente. Nesse contexto, a criatividade está ligada à capacidade de encontrar soluções originais para problemas, de forma não convencional. Outra perspectiva é a sociocultural, que vê a criatividade como um fenômeno moldado pela cultura, educação e ambiente social. Ela enfatiza como as normas, valores e padrões sociais influenciam a expressão criativa e como os indivíduos interagem com seu contexto para gerar ideias inovadoras. Diante da interpretação da literatura que conceitua a criatividade como um fenômeno cognitivo, Graham Wallas (1858-1932) desenvolveu um modelo teórico com o objetivo de descrever e mensurar o processo criativo. Esse modelo pioneiro propõe que a criatividade ocorre em quatro etapas consecutivas: ● Preparação do raciocínio: Nessa etapa, o indivíduo se dedica a analisar uma necessidade ou problema específico e ativa informações e conhecimentos prévios relevantes para fazer inferências sobre o objeto em questão. ● Incubação: Durante essa fase, o problema é internalizado, permitindo que o subconsciente processe e trabalhe na busca de soluções. ● Iluminação: É o momento em que ocorre a manifestação da originalidade, resultando na formação de ideias que surgem da interação entre os impulsos inconscientes e a consciência. Essa etapa é caracterizada por insights e revelações criativas. 38 ● Verificação: Após a iluminação, o indivíduo passa a planejar e avaliar a relevância das ideias geradas. É um momento de análise crítica para verificar a viabilidade e adequação das soluções propostas. Em um contexto subsequente, exploraremos de maneira mais detalhada o modelo proposto por Wallas, que se tornou uma base fundamental para a compreensão do processo criativo. Esse modelo enfatiza a importância das distintas fases e elementos envolvidos na geração de ideias inovadoras. Ao examinarmos essas etapas e componentes, aprofundaremos nosso entendimento sobre como a criatividade se manifesta e se desenvolve ao longo do processo criativo. A contribuição de Wallas inaugurou uma abrangente linha de estudos que concebe a criatividade como um atributo cognitivo passível de mensuração. Essa agenda de pesquisa engloba trabalhos que se dedicaram a quantificar os processos cognitivos envolvidos na criatividade, incluindo testes psicodinâmicos de quociente de inteligência (QI). Entre os principais pesquisadores nesse campo, destacam-se as contribuições de Patrick (1937; 1941), Hadamard (1945) e Wertheimer (1945), considerados expoentes na área da psicometria. Essas pesquisasforneceram subsídios importantes para uma compreensão mais objetiva e mensurável da criatividade, ao explorar os aspectos cognitivos ligados a esse fenômeno complexo. Quando uma ideia surge pela primeira vez na fase de iluminação, ela é geralmente genérica (turno geral). No entanto, ao longo do tempo, ela é gradualmente moldada e codificada pelo indivíduo em mecanismos difusores (como a escrita, por exemplo), até atingir a fase de verificação. Nesse sentido, o processo criativo é heurístico, evolutivo e sistemático. Patrick (1937) analisou as características dos processos criativos tanto em artistas quanto em não artistas, revelando traços comportamentais similares entre eles. Em um estudo subsequente, ele investigou o comportamento dos indivíduos nas diferentes fases do processo criativo. Essas pesquisas proporcionaram insights valiosos sobre as semelhanças comportamentais entre os envolvidos em atividades criativas, bem como a dinâmica dos diferentes estágios do processo criativo. Os resultados obtidos mostraram uma sobreposição das fases do processo criativo. Baseado nessa observação, Wallas (1926) propôs que, no contexto do processo criativo, a atividade criativa ocorre em dois momentos distintos de atenção - 39 um geral e outro específico - à medida que a fase de iluminação se sobrepõe à fase de verificação. Na fase inicial de iluminação, uma ideia mais abrangente emerge (momento de atenção geral). Entretanto, essa ideia é gradualmente refinada e codificada pelo indivíduo por meio de mecanismos difusores, como a escrita, até atingir a fase de verificação. Dessa forma, o processo criativo revela-se como heurístico, evolutivo e sistemático, à medida que as ideias evoluem e se desenvolvem ao longo do tempo. Focado na criatividade científica, Jacques Hadamard (1865-1963) conduziu um estudo empírico com um grupo de cientistas matemáticos, com o intuito de explorar o comportamento psicodinâmico desses indivíduos durante a resolução de problemas matemáticos. O objetivo era compreender as estratégias e os processos cognitivos adotados pelos cientistas em sua busca por soluções inovadoras e criativas. Entre os resultados obtidos pelo pesquisador, destaca-se o fato de que o processo criativo no campo da matemática baseia-se na lógica e na formalização das ideias concebidas. Nesse sentido, as possíveis alternativas de solução para o problema matemático são submetidas a um escrutínio crítico, exigindo a ativação e o processamento das informações científicas armazenadas na memória, a fim de tornar a criação plausível e consistente. Isso é particularmente relevante ao buscar propor métodos originais de resolução. Assim, a produção decorrente da criatividade deve ser passível de verificação e, em certos casos, embasada em um processo criativo que se desenvolve ao longo de uma trajetória científica ou disciplinar em campos específicos. Max Wertheimer (1880-1943) investigou o esforço criativo envolvido na resolução de problemas matemáticos, a fim de identificar, estruturar e mensurar o raciocínio operacional realizado por um grupo de indivíduos submetidos à tarefa de equacionar situações complexas. Ele concluiu que o processo criativo se estrutura em unidades integradas de raciocínio. Ou seja, o indivíduo realiza a decomposição dos problemas e das demandas que desafiam sua originalidade. A decomposição tem como objetivo converter a representação vaga de uma situação-problema em uma representação funcional, dividida em blocos de interpretação. Essa abordagem envolve inicialmente a organização de elementos 40 dissociados para construir representações sistemáticas da realidade. Quando essas representações são combinadas, elas geram impulsos originais. Nessa perspectiva, a criatividade é concebida como um processo de desconstrução e reconstrução intencional. A partir das dinâmicas, forças e tensões presentes no problema em questão, um "fio condutor" é estabelecido para orientar a geração de ideias. Esse elemento central representa os insights que surgem na mente do indivíduo, desde a conscientização até a validação da ideia. Além disso, reforçando essa visão, Guilford (1950) propôs que o desempenho de um indivíduo em testes de inteligência é explicado por habilidades mentais subjacentes, também conhecidas como inteligência. Portanto, quanto maior o nível de inteligência de uma pessoa, maiores são suas chances de demonstrar criatividade. Mais adiante, J. P Guilford (1897-1987) apresentou uma demonstração teórico- quantitativa do modelo de análise fatorial da inteligência. Nesse modelo, ele estabeleceu uma relação causal entre o processo criativo e as operações intelectuais dos indivíduos. Essas operações intelectuais foram classificadas como “cognição, memória, pensamento convergente, pensamento divergente e avaliação”, e aplicadas a diferentes tipos de informações (figurativas, simbólicas etc.), resultando em diferentes A contribuição inovadora da pesquisa de Guilford (1967) está na definição do pensamento, na qual ele distingue pensamento convergente e pensamento divergente. O pensamento convergente é caracterizado como um processo cognitivo lógico utilizado pelos indivíduos para organizar e estruturar respostas a questões de testes psicométricos. Por outro lado, o pensamento divergente é compreendido como um processo cognitivo sistêmico, que se baseia em conexões e interrelações, explorando alternativas não necessariamente lógicas para os problemas apresentados nos testes psicométricos de inteligência. Na figura 14, encontramos uma ilustração dessa concepção. 41 Figura 14- Processo mental da pessoa criativa: pensamento divergente e convergente Fonte: Silva, 2021 Woodman e Schoenfeldt (1990) propuseram um modelo interativo que abordou o comportamento criativo em um contexto mais amplo. Esse modelo considerou a influência de fatores não cognitivos, como o contexto social, econômico, cultural e filosófico, na formação da personalidade e nas operações intelectuais que impactam a originalidade e resolução de problemas do indivíduo. Essa abordagem reconhece a importância desses fatores preponderantes para compreender a criatividade de forma mais abrangente. Assim, o comportamento criativo é resultado de uma interação complexa entre o indivíduo e o contexto que demanda criatividade. Diversos fatores desempenham um papel na configuração dessa interação, como as condições ambientais, a motivação e as recompensas esperadas, a orientação e o treinamento técnico, a influência cultural e simbólica, as experiências sociais e profissionais acumuladas, e as expectativas de avaliação. Essas condições antecedentes têm um papel fundamental na maneira como a criatividade é expressa e manifestada pelo indivíduo (AMABILE, 1983). Nessa perspectiva, o processo criativo é condicionado por questões pessoais, situacionais, comportamentais e consequenciais. Aspectos cognitivos (dimensão 42 pessoal), as influências sociais (dimensão situacional), os traços da personalidade (dimensão comportamental) e os estímulos (dimensão consequencial), de forma integrada, concomitante e sistemática, interferem no esforço criativo dos indivíduos. Portanto, o exercício criativo enseja estratégias, pelas quais os indivíduos mobilizam condições distintas para melhorar o retorno de suas criações. De modo semelhante, Feldman et al. (1994) defendem que o estudo da criatividade ultrapassa a perspectiva individualista vinculada à abordagem cognitiva, dado que o processo criativo passa a ser reconhecido na literatura como um fenômeno cognitivo integrado ao contexto social, econômico, cultural e à personalidade do indivíduo (AMABILE, 1983). Para tanto, definem o processo criativo como um sistema dimensional, caracterizado por um conjunto de elementos individuais, culturais e sociais, interdependentesentre si. De acordo com Cavalcante (2021), esses elementos desempenham um papel crucial ao fornecer os impulsos necessários para a atividade criativa, impulsionando a dedução e a originalidade. Segundo o modelo proposto, a dimensão individual do sistema é representada pelas características psíquicas do indivíduo, como cognição, memória e percepção, que estão intimamente ligadas às experiências pessoais acumuladas ao longo da vida. Uma contribuição significativa desse modelo é a inclusão de aspectos como curiosidade, entusiasmo, motivação, experiências, persistência e flexibilidade de pensamento no contexto da dinâmica criativa. Isso permite abordar o processo criativo como um fenômeno endógeno, influenciado por fatores externos de grande relevância (CAVALCANTE, 2021). Nesse contexto, é postulado, segundo Cavalcante (2021), que o processo criativo é composto por dois elementos essenciais: o núcleo de domínio e o núcleo de campo. O núcleo de domínio abrange conjuntos sistemáticos de regras, símbolos ou conhecimentos presentes na sociedade, com destaque para o domínio cultural e o domínio científico. Por outro lado, o núcleo de campo é definido como o ambiente ou espaço responsável por selecionar e validar a originalidade das ideias propostas. Em diferentes áreas, como na economia, o campo pode ser representado pelo mercado, onde ocorre a seleção das inovações relacionadas aos processos de produção e comercialização de produtos. Com base nessas definições, a dimensão individual do sistema criativo é influenciada simultaneamente pelo conhecimento e domínio das ideias e pelo contexto do campo específico em que atuam (CAVALCANTE, 2021). 43 A noção de criatividade multidimensional abrange a capacidade de criar e expressar originalidade por meio da interação complexa e harmoniosa de fatores cognitivos, conativos, emocionais e socioculturais em indivíduos. Essa concepção, como ensina Cavalcante (2021), tem impulsionado o debate sobre criatividade no contexto econômico, destacando a importância desses diversos aspectos na manifestação do potencial criativo. 4.3 Características do indivíduo criativo De acordo com as ideias de Ara Basto (2000), a concepção da criatividade evoluiu, deixando de ser vista como um privilégio exclusivo de determinado grupo de pessoas. Diversos estudiosos, como Alencar (1997), Antunes (2003) e Torre (2005), ressaltam que a criatividade é uma capacidade presente em todos, embora em diferentes níveis. Contudo, é importante considerar a possibilidade e o potencial de desenvolver essa competência, uma vez que a criatividade é parte de um processo de aprendizagem que ocorre em um ambiente favorável ao seu crescimento e por meio de um estímulo constante para a geração de novas ideias. Portanto, é crucial identificar as qualidades ou características que estão mais associadas ao perfil do indivíduo criativo, a fim de apontar direções que facilitem o desenvolvimento dos processos criativos. Segundo Wechsler e Nakano (2002), em um de seus estudos, é possível encontrar registros de pesquisas com o objetivo de investigar as características do pensamento criativo desde 1966. Um exemplo notável, que os autores dão, é a proposta de Torrance, que utilizou as dimensões de Guilford, como fluência, flexibilidade, originalidade e elaboração, todas relacionadas exclusivamente ao pensamento divergente. Importante ressaltar que além do pensamento divergente, também existe o pensamento convergente. As características de cada uma dessas formas de pensamento são retratadas na figura abaixo (Figura 15) para que as compare e compreenda. Figura 15 - Comparativo das características do pensamento convergente e divergente. 44 Fonte: Adaptada de Guilford (1960) Posteriormente, Torrance (1996) reconheceu as limitações dessas características e propôs pesquisas sistemáticas para identificar outros aspectos cognitivos e emocionais que poderiam contribuir para o processo criativo (TORRANCE; BALL, 1980). Em outras palavras, ele incorporou o pensamento convergente ao estudo da criatividade. Ao abordar o perfil do indivíduo criativo, a psicóloga Solange Wechsler (1998) propôs as seguintes características: ● Habilidades cognitivas: incluindo inteligência, conhecimentos, habilidades técnicas e talentos especiais; e ● Características de personalidade: abrangendo motivação interna, confiança, não conformismo e traços de criatividade. Kneller (1978), já na década de 1970, identificava alguns traços como: ● Inteligência superior à média; ● Maior sensibilidade ao seu meio; ● Maior fluência de ideias sobre determinado assunto; ● Flexibilidade; ● Originalidade para produzir ideias raras; 45 ● Ceticismo; ● Persistência diante de obstáculos; ● Capacidade de explorar ideias; ● Ego altamente flexível; ● Inconformismo voltado para novas experiências; e ● Autoconfiança sem megalomania. No entanto, Gibson e Skarzynski (2008) discordam do primeiro aspecto, pois acreditam que não é necessário ser um gênio criativo e único. Todavia, eles concordam que o indivíduo precisa ser um observador do mundo, com novas e múltiplas perspectivas. Pode-se notar que as características que buscam definir os indivíduos criativos são tão debatidas quanto os conceitos de criatividade e as etapas dos processos criativos. Mas, de acordo com Eysenck (1999) e Wechsler e Nakano (2002), os traços de personalidade das pessoas criativas são definidos conforme descrito no quadro abaixo (Quadro 2). Quadro 2 - Traços de personalidade das pessoas criativas Fonte: Pinheiro, 2009. 46 Ao analisar o quadro acima, é possível observar que Pinheiro (2009) destaca que apenas cinco das características apresentadas por Eysenck e Wechsler são comuns: independência, abertura, interesse, autoaceitação e flexibilidade. Por outro lado, características como impulsividade e introversão, atitudes sociais e antissociais, entre outras, parecem ser diferentes e, em alguns casos, até contraditórias. Alguns autores sugerem que a razão para o sucesso criativo dos indivíduos estudados por Mackinnon (1978) seja justamente a tensão gerada pelos traços contraditórios, como a presença e atitudes sociais combinadas com uma atitude antissocial. Considerando que a proposta de Wechsler se alinha em certas características com a de Eysenck, e é mais atualizada, abrangendo extensas pesquisas baseadas em outros autores que referenciam as características apresentadas, é oportuno explorá-las com mais detalhes, conforme será exposto no Quadro 3 abaixo. Quadro 3 – Características da pessoa criativa Característica Comentários Confiança em si mesmo ou Autoconceito Positivo O indivíduo criativo tem confiança em seu potencial, o que o capacita a assumir riscos sem medo. Ele reconhece que os erros são parte natural do processo e não se abala com eles. A confiança em si mesmo alimenta a coragem, permitindo que ele encare os desafios de forma desembaraçada e sem problemas (FIATES, 2014). Pensamento Original e Inovador Essa característica define aqueles que não se satisfazem com a primeira resposta ou com a solução mais fácil para um problema. Eles buscam outras respostas ou caminhos alternativos para alcançar a solução desejada. São pessoas que têm a capacidade de enxergar o mundo de forma diferente, sem se intimidar em desafiar tradições, convenções, padrões, paradigmas e modelos mentais estabelecidos, entre outros (FIATES, 2014). Alta Sensibilidade Externa e Interna 47 Essa característica envolve atitudes que demonstram a sensibilidade emocional do indivíduo, bem como suas preocupações com o meio ambiente e os direitos humanos. É uma combinação entre emoção interna e percepção racional do que ocorre no ambiente externo. Por exemplo, muitas soluções na área da saúde são desenvolvidascom o objetivo de atender às necessidades das populações mais vulneráveis, levando em consideração a percepção das carências e a escassez de recursos (WECHSLER, 1998). Fantasia e Imaginação Tudo o que é concreto teve sua origem na mente de alguém. A imaginação desempenha um papel fundamental ao permitir que o indivíduo visualize em sua mente situações, fatos, ideias e sentimentos que ainda não existem, mas que têm potencial para se tornarem realidade. Isso abre caminho para o desenvolvimento do processo criativo, criando uma interação entre a fantasia e a realidade (PELAES, 2012). Inconformismo Muitas criações surgem como resultado da não aceitação de situações vivenciadas. A contestação da realidade e a recusa em aceitar um problema sem solução são características marcantes do indivíduo criativo. Um exemplo disso é Alexander Fleming, que não se conformava em ver tantas pessoas morrendo de doenças infecciosas durante e após a Primeira Guerra Mundial. Como resultado, ele dedicou anos de pesquisa incansável em um único tema (FIATES, 2014). Independência de Julgamentos Ao realizar pré-julgamentos, corre-se o risco de excluir boas ideias, pois isso é feito com base em padrões antigos. No processo de criação de algo novo, é essencial avaliar com base em novos parâmetros, buscando uma 48 abordagem livre de preconceitos. Caso houvesse pré-julgamentos, é provável que ideias como o uso de vírus para a produção de vacinas teriam sido rejeitadas (FIATES, 2014). Abertura a Novas Experiências A criatividade está intrinsecamente ligada à inteligência e às habilidades, e, por consequência, ao processo de aprendizagem. Há quase 40 anos, Lewin (1965), um estudioso da psicologia social, já enfatizava a aprendizagem como um processo experimental. Segundo o autor, a aprendizagem requer experimentação e vivências. Portanto, para criar algo novo, é essencial estar aberto a vivenciar experiências inéditas e aprender coisas novas (FIATES, 2014). Ideias Elaboradas e Enriquecidas Essa característica envolve a habilidade de conectar diversas ideias, experiências vividas e argumentos ouvidos, lidos ou de outra forma adquiridos. Quanto mais experiências o indivíduo acumula ao longo da vida, maior a probabilidade de suas ideias serem enriquecidas. Por esse motivo, alguns autores defendem que a criatividade é proporcional à maturidade (FIATES, 2014). Preferência por Situações de Risco Ter um gosto por desafios é uma característica fundamental do perfil do indivíduo criativo. Ele evita a rotina e prefere se arriscar em busca de novidades. Ousadia e ausência de medo diante da incerteza são características marcantes, pois não buscam segurança ou estabilidade, mas não fogem de suas responsabilidades. Um exemplo notável dessa característica é Marie Curie, que colocou sua vida em risco em busca das respostas que procurava. Ela não aceitava o fato de que o conhecimento existente não atendia às necessidades atuais e, como resultado, acabou 49 falecendo muitos anos depois devido à leucemia, atribuída à sua exposição à radioatividade (FIATES, 2014). Alta Motivação e Curiosidade Possui uma motivação pessoal em relação ao novo, sendo curioso e interessado em explorar novas possibilidades. Durante a infância, se é naturalmente mais criativo e curioso, como evidenciado pelas famosas perguntas constantes das crianças do tipo "por quê?". Infelizmente, ao longo da vida, essa curiosidade é muitas vezes restringida por pais, familiares professores e adultos em geral. No entanto, os indivíduos mais criativos conseguem manter essa curiosidade viva, questionando o mundo e desafiando o status quo (FIATES, 2014). Elevado Senso de Humor A presença do bom humor é essencial para lidar com o cotidiano, especialmente nas situações em que as ideias não resultam como esperado. O bom humor capacita o indivíduo a enfrentar os problemas de forma leve, não se abalando com os erros e mantendo a perseverança. Isso contribui para uma abordagem mais positiva diante dos desafios (FIATES, 2014). Impulsividade e Espontaneidade A impulsividade e a espontaneidade são responsáveis pela geração de ideias sem a preocupação de passar por filtros pré estabelecidos e, consequentemente, sem julgamentos de valor. Isso permite uma abertura para a criatividade fluir livremente, explorando novas possibilidades e abordagens sem restrições ou restrições autoimpostas (FIATES, 2014). Fluência e Flexibilidade de Ideias Essa característica representa a habilidade de expressão e geração de ideias diversas, além da capacidade de 50 se adaptar rapidamente a novas situações e variáveis. Podemos encontrar exemplos dessa flexibilidade em situações como alguém improvisando uma traqueostomia utilizando apenas a parte externa de uma caneta de plástico em um programa de televisão. Essa capacidade de pensar de forma criativa e encontrar soluções simples para problemas complexos ilustra a grande flexibilidade do pensamento criativo (FIATES, 2014). Uso Elevado de Analogias e Combinações Incomuns Essa característica reflete a habilidade de expressar-se e gerar uma variedade de ideias. Envolve também a capacidade de se adaptar rapidamente a novas situações e circunstâncias variáveis. Um exemplo marcante dessa flexibilidade é observar alguém realizar uma traqueostomia improvisada usando apenas a parte externa de uma caneta de plástico em um programa de televisão. Essa demonstração de pensamento flexível ilustra a incrível capacidade de encontrar soluções simples e eficazes, mesmo diante de desafios complexos (FIATES, 2014). 4.4 Escolas criativas De acordo com Suanno (2013), apesar do reconhecimento na legislação brasileira de que a educação é um direito universal, ainda não foram realizados progressos significativos nessa direção. A escola desempenha várias funções com o propósito de promover o pleno desenvolvimento do educando, preparando-o para a cidadania e para o mundo profissional, conforme discutido por Suanno (2013). Estas funções incluem a formação de indivíduos capazes de se adaptar a diversas demandas, contextos, papéis e tarefas, equipando-os para enfrentar os desafios do seu percurso. Hoje, a relevância das escolas criativas reside na sua capacidade de proporcionar uma aprendizagem criativa aos alunos, uma aprendizagem que envolva 51 "uma participação ativa e crítica do aluno" (AMARAL, 2011, p. 16), como observado por Amaral (2011). Tais escolas efetivamente incorporam a dimensão emocional no processo de aprendizagem dos estudantes, priorizando uma abordagem que integra sentimentos e pensamentos nas discussões de conteúdo, fatos e estratégias educacionais no ambiente escolar. O termo "sentipensar", originário das ideias do professor Dr. Saturnino de La Torre (1999), implica em uma combinação harmoniosa de pensamento e emoção no processo de conhecimento. Isso resulta na confluência dessas duas maneiras de interpretar a realidade, envolvendo reflexão e impacto emocional, para criar um entendimento unificado que une a ação de sentir e pensar (TORRE, 2011, p. 1). Quando um indivíduo adquire conhecimento de maneira criativa, baseado na abordagem do sentipensar, ele se integra de maneira mais profunda e humanizada na sociedade em que está inserido. Segundo Amaral (2011), essa abordagem permite ao indivíduo se conectar com uma dimensão essencial da condição humana: a capacidade de ser um agente ativo no próprio processo de desenvolvimento, o que, por sua vez, promove sua independência no pensamento e na ação, uma qualidade vital na sociedade contemporânea. A aprendizagem criativa possibilita, portanto, ao aluno, ao interagir com a escola e seu planejamento, uma aproximação mais significativa dos conteúdos, evitando a meramemorização e repetição. Isso permite estabelecer uma relação crítica e contextualizada com o conhecimento, incentivando a busca contínua e a reinvenção diária de sua autonomia. Essa abordagem também encoraja a descoberta de novos caminhos de interação com os outros, a sociedade e o meio, promovendo uma visão mais ampla e enriquecedora do mundo ao seu redor (SUANNO, 2013). A escola criativa, em seu planejamento e na atuação de seus professores e funcionários, valoriza a relação afetiva com os alunos, buscando motivá-los a refletir sobre suas próprias condutas e analisá-las, visando a preparação contínua para superar dificuldades. Além disso, como assinala Suanno (2013), a escola mantém um compromisso não apenas pessoal, mas também social e comunitário, preocupando- se com o bem-estar do ambiente, considerando-o como qualquer espaço que permita a participação e a comunicação com os outros. O desenvolvimento da tolerância é um aspecto fundamental nesse contexto, onde se reconhece que as diferenças são uma parte natural do cotidiano de todos, e 52 a aceitação dessas diferenças contribui para relações mais equilibradas e uma convivência mais harmoniosa e afetiva entre as pessoas. Ao incentivar a compreensão mútua e o respeito pelas diversidades, a escola criativa promove um ambiente propício ao crescimento pessoal e ao desenvolvimento de relações saudáveis entre os membros da comunidade escolar (SUANNO, 2013). Segundo esse mesmo autor, o cuidado com a afetividade dos alunos desempenha um papel crucial, pois permite que eles reconheçam uma ampla gama de sentimentos e emoções em si mesmos. Ao adquirir essa habilidade de autoconhecimento emocional, os alunos aprendem a conviver com seus sentimentos, enfrentando-os de maneira mais compreensiva e construtiva, o que, por sua vez, melhora suas interações no convívio social. De acordo com Suanno (2013), essa abordagem centrada no cuidado afetivo também desempenha um papel fundamental em ajudar os alunos a reconhecer a necessidade de reorganizar seus sentimentos e a desenvolver uma compreensão mais profunda do seu mundo interior. Isso resulta em uma melhor percepção de suas capacidades atuais e potenciais, incentivando-os a se superarem constantemente no seu crescimento pessoal. A ênfase na dimensão afetiva por parte da escola, conforme explicado por Suanno (2013), cria um ambiente propício para que os alunos aprendam a lidar de maneira saudável e construtiva com suas emoções. Esse enfoque contribui para uma jornada de desenvolvimento pessoal mais enriquecedora e para o aprimoramento das relações interpessoais dentro do contexto social em que estão inseridos. Uma escola com abordagem criativa procura estabelecer uma conexão ativa com a família e a comunidade, demonstrando um genuíno interesse no ambiente social de cada aluno, inclusive sua vizinhança e comunidade local. Essa integração incorpora essas realidades e saberes ao ambiente escolar, permitindo que a instituição esteja sempre aberta à aprendizagem contínua (SUANNO, 2013). A ênfase na formação contínua do corpo docente é uma manifestação de ação criativa por parte da escola. Isso envolve a (re)construção das estruturas cognitivas, conforme proposto por Piaget em 1975. Essa abordagem demanda tempo e ajustes internos para assimilar novos conteúdos de forma significativa. Quando o processo de ensino é concebido de maneira criativa, os professores se concentram na aprendizagem dos alunos, buscando criar conflitos cognitivos 53 deliberados com o intuito de instigar angústias que estimulem a busca por conhecimento e o desenvolvimento da curiosidade (SUANNO, 2013). Nesse cenário, os alunos são encorajados a se tornarem exploradores da natureza humana, social e natural, orientados por educadores que os auxiliam a aprender por meio de desafios, problemas e situações estimulantes. Esse ambiente educacional propicia o desenvolvimento de habilidades e a motivação para explorar e aprender cada vez mais. Em uma escola que se baseia na criatividade, o processo de aprendizagem transcende a interação entre professores e alunos. Ele se estende, de acordo com Suanno (2013), para além das salas de aula, abrangendo a interação entre os próprios alunos, suas famílias, a comunidade local e diversos representantes da sociedade, como associações e outros órgãos, que passam a participar ativamente na vida escolar, conscientes de que os resultados desse investimento serão colhidos em um futuro próximo (SUANNO, 2013). Outrossim, o autor ensina que a aprendizagem é enriquecida com o uso dos recursos tecnológicos disponíveis atualmente, como computadores, internet e redes sociais. Esses instrumentos proporcionam aos alunos uma experiência de aprendizado sensível e facilitam o acesso tanto ao professor quanto entre os próprios alunos, através de fóruns, bate-papos, telefones celulares e outros recursos interativos (SUANNO, 2013). Nessa abordagem criativa, o conhecimento é disseminado de maneira ampla e diversificada, permitindo uma maior troca de informações e aprofundamento dos conteúdos de forma inovadora. A escola desempenha, portanto, um papel crucial não apenas na formação acadêmica dos alunos, mas também no estímulo e desafio individual, proporcionando uma atenção personalizada. Essa abordagem ética e criativa permite identificar habilidades e talentos únicos em cada estudante, possibilitando o planejamento adequado de atividades que se alinhem com suas características pessoais (SUANNO, 2013). Além disso, Suanno (2013) defende que a escola deve estar comprometida com o conhecimento, tornando-o acessível, agradável e aberto a todos. Ao mesmo tempo, é essencial, como frisa o autor, que a instituição tenha desenvolvido responsabilidades sociais, respeitando as subjetividades e individualidades de cada aluno. Suas ações devem ser transparentes e pautadas pela inovação, buscando 54 sempre novas formas de promover um ambiente de aprendizagem enriquecedor e motivador. Ao agir assim, a escola proporciona um ambiente acolhedor e progressista, onde cada aluno pode florescer e alcançar seu potencial máximo. O progresso educacional reside, conforme Suanno (2013), na capacidade de adaptar-se às necessidades individuais dos alunos, buscando equilibrar o planejamento das atividades com uma abordagem criativa e positiva. Uma ação transformadora bem-sucedida começa a evitar o foco imediato nos problemas, pois essa abordagem pode causar bloqueios na busca por mudanças significativas. Problemas de longa data, muitas vezes negligenciados e pouco resolvidos, podem se tornar obstáculos iniciais para alcançar a transformação desejada. Portanto, é fundamental abordar os desafios com uma mentalidade inovadora e proativa, encontrando soluções construtivas que direcionam o caminho rumo ao desenvolvimento e ao crescimento educacional (SUANNO, 2013). O avanço na educação se reflete na organização de programas de ensino que atendam tanto às necessidades dos alunos quanto dos professores e isso implica contextualizar o conteúdo da sala de aula com situações do cotidiano e as incertezas enfrentadas diariamente (SUANNO, 2013). Os projetos de investigação são essenciais para desafiar os alunos na busca e construção do conhecimento, incentivando uma abordagem criativa na organização dos conteúdos e planejamento das atividades. De acordo com Suanno (2013), ao proporcionar aos professores a liberdade de experimentar diferentes metodologias de ensino e inovar nas estratégias de abordagem dos conteúdos e no contato com os alunos, a escola cria um ambiente propício para o crescimento mútuo. A coparticipação de alunos e professores, com a incorporação do novo e do incerto, é incentivada, permitindo que todos contribuam com suas sugestões e colaborações, fortalecendo a confiança mútua no processo de aprendizado. Essa abordagem colaborativae criativa fomenta o envolvimento e interesse dos alunos, tornando o ensino mais significativo e relevante para suas vidas. Ao se aproximarem da realidade cotidiana, os estudantes percebem a aplicabilidade do conhecimento adquirido, tornando-se aprendizes mais motivados e engajados. Da mesma forma, os professores encontram satisfação em ver o impacto positivo que 55 suas abordagens inovadoras têm na formação dos alunos, estabelecendo uma relação de confiança e respeito mútuo (SUANNO, 2013). De acordo com Vygotsky (2001), o desenvolvimento humano e a educação são interligados e considerados como duas faces de uma mesma moeda. A educação desempenha um papel fundamental ao permitir a mediação social, através da qual ocorre a internalização da cultura pelo indivíduo. É por meio desse processo que o ser humano se constitui e se desenvolve de forma dialética, sendo influenciado por desequilíbrios e rupturas que se organizam internamente e de maneira contínua. Essa abordagem, ressalta o potencial criativo inerente a cada indivíduo, que se manifesta em diversas formas de expressão. A educação, consoante ensinamento de Suanno (2013), ao promover a mediação social e a internalização da cultura, impulsiona o desenvolvimento humano, incentivando a busca por novos conhecimentos, habilidades e perspectivas. O ser humano, em constante processo de desenvolvimento, é moldado por seu ambiente social e cultural, encontrando na educação um caminho para o crescimento intelectual e emocional, bem como para a manifestação de sua criatividade singular (SUANNO, 2013). De fato, o planejamento criativo requer uma sinergia entre todos os envolvidos, e essa relação sinérgica tem suas raízes na confiança mútua. Ao estabelecer uma atmosfera positiva e propícia às relações humanas, a confiança é cultivada, permitindo que todos os participantes se sintam valorizados e respeitados em suas diferenças pessoais. Compreender que cada indivíduo possui seu próprio ritmo e velocidade de aprendizagem é essencial para o planejamento do ensino e do espaço de aprendizagem. Ao levar em consideração essas particularidades, o ambiente educacional se torna mais inclusivo e acolhedor. Valorizar as diferenças e promover um ambiente que reconheça a singularidade de cada aluno incentiva o respeito mútuo e a colaboração, fortalecendo a relação entre os envolvidos (SUANNO, 2013). Dessa forma, ensina Suanno (2013): a confiança e o respeito mútuo criam uma base sólida para o planejamento criativo, permitindo que as ideias sejam compartilhadas e desenvolvidas de forma colaborativa. Isso resulta em um ambiente de aprendizagem enriquecedor, no qual todos podem se sentir motivados a participar ativamente do processo de ensino-aprendizagem. 56 A compreensão das diferenças individuais na escola criativa aproxima as pessoas do entendimento das dimensões pessoais e sociais, promovendo relações saudáveis e habilidades sociais. Essa abordagem possibilita um avanço social significativo, criando uma comunidade mais inclusiva e compassiva (SUANNO, 2013). Wallon (1981) aborda a compreensão do indivíduo em seu contexto, destacando a instalação de uma relação dinâmica e recíproca entre os recursos do meio e as características pessoais. A cada momento vivido, uma interação singular entre o ambiente e o sujeito se manifesta, revelando a complexidade das interrelações humanas. Conforme esse autor, o desenvolvimento de cada indivíduo, especialmente no caso das crianças, é influenciado pelo contexto em que estão inseridas. Esse contexto é composto pelos conhecimentos pessoais e culturais da criança, pela linguagem utilizada nas interações com os outros sujeitos, incluindo os mais próximos, e pelo ambiente físico e seus aspectos. Esses elementos se entrelaçam e desempenham um papel crucial na formação e no crescimento da criança, moldando suas experiências e perspectivas ao longo do desenvolvimento (WALLON, 1981). Conforme explica Suanno (2013), Wallon enfatiza que o desenvolvimento do pensamento criativo, com todo o seu potencial, está intrinsecamente ligado ao ambiente em que o indivíduo se encontra. Esse ambiente pode ser a sala de aula ou qualquer outro espaço dentro da escola, incluindo as relações entre os alunos, entre os alunos e os professores, bem como com a equipe de gestão da escola e seus familiares. Todos esses elementos do ambiente escolar têm um papel fundamental na promoção e no desenvolvimento da criatividade, proporcionando um cenário propício para o florescimento das habilidades criativas dos estudantes. Propor e fazer mudanças significativas nas escolas pode ser difícil, pois muitas vezes as instituições resistem à experimentação e não dedicam tempo suficiente para a consolidação das transformações. Algumas escolas optam por pequenos ajustes que têm pouco impacto real e faltam criatividade, não trazendo benefícios significativos para os alunos. É necessário comprometimento, inovação e envolvimento de todos os stakeholders (envolvidos) para promover mudanças efetivas na educação, visando melhorar a experiência de aprendizado dos estudantes (SUANNO, 2013). Nesse sentido, Suanno (2013, p. 152) ainda fala o seguinte: 57 Para promover um ambiente mais estimulante, é necessário priorizar soluções para os desafios e não apenas observar situações angustiantes. Abraçar a inovação e a criatividade é essencial para reavivar o entusiasmo pela educação e desencadear um impacto positivo no processo de aprendizado. Para a autora, então, profissionais entusiasmados e comprometidos com a educação tornam a escola um lugar de inovação e criatividade. A educação deve promover o desenvolvimento da criatividade para todos os envolvidos. A escola, com base em teorias pedagógicas, é um ambiente propício para esse crescimento, especialmente na relação professor-aluno. A criatividade enriquece o aprendizado e prepara melhor os alunos para os desafios da vida contemporânea (SUANNO, 2013). A problemática atual, de acordo com Suanno (2013) é que a escola pode ter um impacto negativo na criatividade dos alunos, o que, por sua vez, pode afetar suas futuras relações. Estudos, segundo ela, têm mostrado que a escola não apenas não promove o desenvolvimento da criatividade, mas também pode enfraquecê-la ou suprimi-la. Torre e Violant (2006) expressam a opinião de que a sociedade do século XXI será caracterizada como a sociedade da criatividade. Eles afirmam que este século será marcado por um influxo de novas ideias e soluções para os problemas mais sérios que enfrentamos. Segundo os autores, apenas uma educação baseada em valores criativos e de convivência pode contribuir para enfrentar os desafios sociais e trabalhistas que surgem. Nesse sentido, Amaral (2011) afirma que a aprendizagem criativa é favorecida quando o indivíduo desenvolve o sentido de autoria, que é uma síntese de vários elementos interligados, incluindo o contexto social e as características pessoais únicas de cada indivíduo. O sentido de autoria é considerado o núcleo central para que a aprendizagem criativa ocorra. É quando o sujeito se reconhece como agente ativo em seu próprio processo de aprendizagem e estabelece conexões significativas com o mundo ao seu redor. Ao se perceber como autor de sua experiência e conhecimento, o indivíduo se diferencia dos outros, reconhecendo sua singularidade no processo de aprendizagem. Esse reconhecimento de si mesmo como autor impulsiona a criatividade e a busca por uma realização pessoal mais profunda. Segundo Amaral (2011), “é nesse encontro intersubjetivo que nossos pensamentos e sentimentos ganham contorno, nossas ideias geram impacto, nossa imaginação se materializa, nossas emoções afloram e a nossa autoria nasce” (p.199) 58 De acordo com a autora, a aprendizagem criativa é fundamentada em quatro aspectos nucleares, que serão expostos noquadro abaixo (Quadro 4). Quadro 4 – Aspectos nucleares da aprendizagem criativa. O desenvolvimento da condição de sujeito é impulsionado por experiências de autonomia, enfrentamento, conquista gradual da autoconfiança, desenvolvimento da capacidade reflexiva e do próprio exercício dessa condição. É fundamental que essa evolução psicológica seja expressa na aprendizagem escolar, permitindo ao aprendiz posicionar-se como sujeito autor do processo de aprendizagem. A constituição das configurações subjetivas acontece através da articulação de uma rede que inclui a ação do indivíduo, sentidos subjetivos sociais e um conjunto de sentidos subjetivos individuais (relativos à aprendizagem, leitura, escrita, autovalorização e à relação com o outro como ensinante). Essa trama simbólico- emocional favorece a aprendizagem criativa. A produção de sentidos subjetivos situacionais no ambiente escolar, com destaque para o sentido subjetivo da realização pessoal, motiva o aprendiz com satisfação própria e interesse específico em aprender, impulsionando a aprendizagem criativa. O desenvolvimento da imaginação criativa tem suas raízes no brincar e continua a se desenvolver por meio da leitura, escrita, atividades diversificadas e interações dialógicas. Essa progressão estimula a criatividade no processo de aprendizagem. Fonte: adaptado de SUANNO, 2013. Pelos aspectos nucleares apresentados acima, destaca-se a importância da aprendizagem criativa, que implica em um enfrentamento diferenciado e qualitativo com o conhecimento. Nesse processo, o aluno mobiliza o conhecimento para produzir sentidos subjetivos, envolvendo-se de forma crítica e ativa. Para Amaral (2011), a aprendizagem criativa permite ao aluno se envolver afetiva e efetivamente com a informação, transcendendo o que é proposto pelo professor e pelo material bibliográfico consultado. Isso vai além da mera repetição, promovendo um senso de autoria e contribuindo para a construção e desenvolvimento pessoal da aprendizagem. O momento criativo na aprendizagem possibilita ao aluno se conectar com a ideia de ser sujeito de seus próprios processos, atribuindo significados diferentes às 59 suas ações e assumindo a responsabilidade pela criação de ambientes que facilitem ou dificultem as interações interpessoais e sociais. Amaral (2011) sugere que a aprendizagem criativa pode ser estudada em duas dimensões: a produtiva, relacionada aos resultados concretos, como atividades, trabalhos e ideias originais elaboradas em sala de aula, e a subjetiva, relacionada aos processos internos que favorecem a construção criativa do conhecimento pessoal. Esse conhecimento pessoal refere-se ao acervo individual de conhecimentos que cada pessoa desenvolve ao longo do tempo. 5 BLOQUEADORES DE CRIATIVIDADE Como apontado por Nachmanovitch (1993), o pensamento criativo pode ser tanto desenvolvido quanto prejudicado, de acordo com o tema abordado. A influência dos bloqueios no fenômeno da criatividade não pode ser ignorada. O conhecimento do processo de pensamento criativo não substitui a própria criatividade, mas atua como uma forma de resistência para que não se desista de uma jornada criativa ao encontrar obstáculos. Se não houvesse bloqueios mentais, não teriam surgido métodos de solução criativa de problemas. Consoante ensinamento de Pirolo (2016), cada indivíduo possui um potencial criativo significativo, embora nem sempre esse potencial seja plenamente explorado e manifestado. Segundo a autora, as pesquisas sobre criatividade destacam que os bloqueios são uma das principais causas que inibem a expressão do processo criativo. E o que são bloqueios mentais? Bloqueios mentais, também chamados de barreiras, segundo Siqueira (2015), são obstáculos que nos impedem de perceber corretamente o problema ou conceber uma solução. Pela ação destes bloqueios o indivíduo se sente incapaz de pensar algo diferente, mesmo quando suas respostas usuais não funcionam mais. As barreiras dificultam o pensamento criativo e a inspiração, impedindo que a pessoa tenha ideias inovadoras que sejam aceitas e implementadas. Nesse sentido, Zogbi (2014) preconiza que muitas das dificuldades encontradas para ser mais criativo e gerar mais inovações partem da própria pessoa. Os bloqueios são paredes invisíveis que nos impedem de sair dos estreitos limites do cubículo construído ao longo dos anos (SIQUEIRA, 2015). 60 Para permitir que a criatividade flua livremente e que novas ideias surjam, é necessário, de acordo com Pirolo (2016), abandonar conceitos antigos e enfrentar as tendências naturais que resistem à inovação, pois quando essas tendências se tornam extremas, elas se transformam em verdadeiros obstáculos. Geralmente, esses bloqueios criativos estão enraizados em nós mesmos, e raramente estamos conscientes de sua existência. Reconhecer e lidar com nossos próprios bloqueios é a melhor maneira de avançar no caminho da inovação (PIROLO, 2016). Torre (2008) diz que os obstáculos ao desenvolvimento da criatividade podem surgir de diversas fontes, seja de nós mesmos (em termos mentais ou emocionais), do ambiente sociocultural ou do ambiente escolar. Segundo esse autor, é essencial identificar e tomar consciência dos obstáculos para prosseguir no processo criativo. Além disso, Predebon (2002) apresenta uma lista dos bloqueios mais comuns associados à criatividade, que incluem acomodação, miopia estratégica, imediatismo, insegurança, pessimismo, timidez, prudência, desânimo e dispersão. Já a autora Wechsler (2002) destaca que existem variáveis que influenciam a criatividade, como as barreiras culturais, perceptuais (que se subdividem em bloqueios perceptuais geométricos e bloqueios perceptuais visuais) e emocionais. A figura seguinte apresenta os tipos de bloqueios ou barreiras à criatividade defendidos por Wechsler (2002) - Figura 16. Figura 16 – Bloqueios à criatividade Fonte: Adaptado de Wechsler (2002) 61 As barreiras de natureza cultural constituem entraves que restringem o pensamento e comportamento criativo, principalmente na esfera social. Os bloqueios culturais são impostos por coletivos, organizações ou mesmo pela sociedade em geral, resultando no receio de ser rejeitado pelo grupo e dificultando a formulação de ideias que se desviem das convencionalmente aceitas. De acordo com investigações conduzidas Goleman, Kaufman e Ray (1992), é claramente perceptível que a grande maioria das pessoas tende a limitar o âmbito de sua criatividade nos primeiros anos de vida, especialmente quando adentram o ambiente escolar primário ou o jardim de infância. A influência da educação convencional nesse contexto se destaca, uma vez que tende a subjugar e restringir nossa capacidade de expressão criativa. Nos primeiros estágios da fase escolar, conforme salientado por Weiner (2011), as crianças exibem entusiasmo pela escola, pelo aprendizado e pela exploração. No entanto, ao longo do tempo, as pressões psicológicas acabam por fazer com que poucas crianças "desfrutem e encontrem satisfação em sua própria criatividade". Na sociedade em geral, é uma prática comum que aqueles que se diferenciam dos padrões estabelecidos enfrentam punições ou sejam excluídos (PIROLO, 2016). Pirolo (2016) cita ainda o holandês Vincent Van Gogh como grande exemplo de pessoa que deixou de lado as barreiras culturais para atender ao chamado de sua arte. Veja: O holandês Vincent Van Gogh foi um grande exemplo de pessoa que deixou de lado as barreiras culturais para desenvolver a criatividade sem limites em sua arte. Durante sua atormentada existência optou por manter a sua singularidade contra tudo e contra todos. Enfrentou pai, família, marchands e não se dobrou a nenhum modelo social. Foi sempre fiel a si mesmo, fosse como pintor, como estudante, como missionário, como amante. E mais do que isso,teve a coragem de assumir uma posição ideológica que podemos chamar de panteísta. O termo panteísta refere-se ao sistema de crença daqueles que sustentam/ defendem que a totalidade do universo é o único Deus. Talvez por não ter sido compreendido e aceito pela sociedade, por ter sido espiritualmente excluído dela, tenha se suicidado (PIROLO, 2016, p. 137). Aqueles que desafiam as normas estabelecidas pela sociedade frequentemente causam desconforto e perturbam as estruturas estabelecidas. Por sua vez, explica Pirolo (2016), a sociedade busca se apegar a regras e tradições para justificar a importância do status quo, resistindo ao que é subjetivo e não mensurável, 62 como a fantasia e a intuição. O medo de ser ridicularizado e de não ser amado leva muitas vezes o indivíduo a aceitar as barreiras impostas pela sociedade. Isaksen e Treffinger (1985) elaboraram uma lista de frases ou comentários frequentemente ouvidos ao tentar apresentar e implementar ideias novas no ambiente de trabalho ou até em casa: ● “Esta ideia é ridícula”. ● “Nós nunca tentamos isso antes”. ● “Vai custar muito caro”. ● “Este problema não é nosso”. ● “É uma mudança muito radical”. ● “Nós não temos tempo”. ● “Somos muito poucos para fazer isto”. ● “Não é prático para a nossa situação”. ● “Os outros membros do grupo não vão gostar”. ● “Vamos voltar à realidade”. Outra barreira cultural que gera desajustes emocionais significativos e tem um efeito repressivo na criatividade é a expectativa de conformidade com os papéis impostos pela sociedade (PIROLO, 2016). Um exemplo desse fenômeno dado por Pirolo (2016) é o movimento contracultural das décadas de 60 e 70, protagonizado por jovens de várias partes do mundo, incluindo o Brasil. Esses jovens se rebelaram contra os padrões estabelecidos pela sociedade, representando a busca por mudanças e inovações na época. As barreiras perceptuais (barreiras de percepção), a sua vez, são obstáculos que surgem do nosso próprio modelo de mundo, ou seja, da forma como percebemos o mundo ao nosso redor. São barreias ligadas à incapacidade de resolver problemas criativamente (PIROLO, 2016). Wechsler (2002) menciona alguns exemplos dessas barreiras: dificuldade em perceber ou ser sensível a problemas, busca de soluções rápidas e imediatas, pensamentos rígidos e incapacidade de suspender julgamentos e críticas. Esses bloqueios estão diretamente relacionados à nossa incapacidade de resolver problemas de forma criativa. 63 De acordo com Wechster (2002), para superar essas dificuldades, é necessário que o indivíduo seja capaz de realizar uma reestruturação cognitiva, ou seja, ter flexibilidade cognitiva, de modo a reformular o problema e gerar novas possibilidades de soluções. O estado de desconforto ou insatisfação é o requisito fundamental para buscar uma mudança. As barreiras perceptuais, assim como outras barreiras, geram dificuldades e limitações. A percepção está intimamente ligada aos nossos órgãos sensoriais, como a visão, audição, tato, paladar e olfato. Nesse contexto, uma barreira, obstáculo ou bloqueio impede que o indivíduo perceba além do óbvio. Shalcross (1985) acrescenta que as barreiras perceptuais podem assumir formas geométricas ou visuais. As barreiras emocionais são obstáculos internos à expressão criativa e representam um grande impedimento para o comportamento e realização criativa. Essas barreiras são construídas ao longo da história de vida da pessoa e de sua interação com a família e a sociedade. Pode-se identificar as seguintes barreiras ou bloqueios emocionais que prejudicam a manifestação da criatividade: ● Medo do fracasso: receio de se arriscar e tentar menos para evitar possíveis vergonhas ou sofrimentos decorrentes de um possível fracasso. ● Medo de brincar: tendência a adotar uma abordagem séria e lógica na resolução de problemas, receio de parecer bobo ao realizar atividades diferentes ou fora do comum. ● Miopia de recursos: incapacidade de reconhecer seus próprios aspectos positivos ou pontos fortes, persistência em comportamentos que já não são mais funcionais e falta de questionamento em relação às próprias atitudes. ● Evitar a frustração: propensão a desistir rapidamente diante de obstáculos, aversão à dor ou desconforto que geralmente acompanham mudanças e situações novas. ● Imaginação empobrecida: subvalorização ou ignorância em relação ao poder das imagens e da imaginação, preferência por coisas ou situações objetivas e concretas. ● Medo do desconhecido: receio de situações ambíguas onde não há garantia de sucesso, necessidade de conhecer o futuro antes de prosseguir. 64 ● Necessidade de equilíbrio: dificuldade em lidar com desordem, confusão e busca pela simetria, aversão à complexidade. ● Medo de exercer influência: temor de ser agressivo demais ou de influenciar negativamente outras pessoas, medo de expressar suas próprias crenças e dificuldade em ser ouvido. Receio de assumir liderança. ● Medo de perder o controle: necessidade de encontrar soluções rápidas para problemas, dificuldade em permitir um tempo adequado para a incubação e em deixar que as coisas ocorram naturalmente. Descrença em sua própria capacidade e na capacidade da humanidade. Essas diversas barreiras, sejam individualmente ou em conjunto, resultam no medo de correr riscos, e a coragem de assumir riscos é um dos elementos fundamentais do comportamento inovador e criativo (PIROLO, 2016). 6 O PROCESSO CRIATIVO Já refletiu sobre como um indivíduo molda uma ideia? Quais são os estágios pelos quais a mente humana transita até que uma ideia inovadora seja gerada? Vários autores têm explorado esse tema e identificado fases claras nesse processo. A seguir, exploraremos alguns exemplos dessas fases. Vale ressaltar que quando falamos sobre o processo criativo na Arte, estamos nos referindo a um conjunto de etapas que os artistas percorrem para dar vida às suas visões e conceitos. Essas etapas envolvem a geração de ideias, o desenvolvimento de técnicas e a criação de obras que transmitam uma mensagem ou provoquem uma resposta emocional nos espectadores. As etapas do processo criativo a serem apresentadas a seguir abrangem tanto o processo criativo em geral como o processo criativo artístico. Independentemente do nível de organização adotado, o processo criativo, conforme ensinado por Siqueira (2015) e inspirado, como ele mesmo destaca, no trabalho de Plsek (1998), é fundamentado em três princípios essenciais: atenção, divergência e convergência. Na Figura 17 são apresentados os passos a serem percorridos seguindo os três princípios mencionados anteriormente, levando-nos ao resultado final. 65 Figura 17 – Os 3 princípios do processo criativo Fonte: Siqueira, 2012 Siqueira (2015) destaca que os princípios se desdobram dessa maneira, prosseguindo com a explicação: no primeiro princípio, denominado "atenção", a criatividade requer uma concentração inicial em um problema ou oportunidade específica. Ao focar sua atenção, é fundamental preparar a mente para romper com a realidade existente e estar aberto à percepção de possibilidades e conexões que normalmente não são visíveis. Se estiver explorando oportunidades, é essencial redirecionar sua atenção para o que não está funcionando ou pode ser aprimorado. Existem diversas possibilidades adicionais que frequentemente não recebem a devida atenção. Segundo Siqueira (2012), ao analisar um problema, o foco deve ser compreender melhor o problema, identificar suas diferenças em relação a outras situações conhecidas, observar suas particularidades e investigar suas possíveis causas. Tanto para explorar oportunidades quanto para solucionar problemas, é crucial estar ciente dos paradigmas, sentimentos e suposições que podem influenciar nossa percepção e compreensão da situação. No segundoprincípio, chamado de "fuga", direcionamos nossa atenção para a forma como as coisas são atualmente. Nessa etapa do processo criativo, somos desafiados a escapar mentalmente de nossos padrões de pensamento existentes. Esse é o momento oportuno para refletir sobre as barreiras mentais mencionadas no 66 capítulo anterior, que podem limitar nossa imaginação ao território conhecido e seguro, e explorar novas possibilidades criativas (SIQUEIRA, 2015). A verdade é que os hábitos, mais do que as habilidades, desempenham um papel predominante na escolha dos caminhos que seguimos. Tendemos a seguir sempre o mesmo caminho, que se torna cada vez mais profundo e difícil de escapar. No terceiro princípio, "movimento", conforme Siqueira (2015) explica, o objetivo não é apenas prestar atenção e escapar do modelo de pensamento atual, pois nem sempre isso é suficiente para gerar ideias criativas. O movimento nos impulsiona a continuar explorando e combinando novas ideias. É o momento de liberar a imaginação e gerar novas alternativas, mantendo em mente os propósitos do processo criativo. É a hora de fazer conexões extraordinárias, descobrir analogias e relações entre ideias e objetos que antes não estavam ligados. Para Siqueira (2015), o conhecimento desses três princípios abre caminho para o entendimento dos diversos métodos e técnicas de criatividade encontrados nos livros. As técnicas existentes têm como objetivo auxiliar os indivíduos em pelo menos um dos três princípios. Diferentes métodos surgem a partir de diferentes combinações dessas técnicas. Ao dominar os três princípios - Atenção, Fuga e Movimento -, a pessoa pode criar o seu próprio método, selecionando, combinando ou até mesmo criando as técnicas e ferramentas que melhor se adequam à sua personalidade e preferências (SIQUEIRA, 2015). É importante destacar que ao longo do tempo vários autores propuseram modelos com etapas semelhantes às que serão apresentadas a seguir para descrever o processo criativo. Entende-se, assim, que a abordagem por etapas e processual da criatividade que foi discutida até agora não é universalmente aceita entre os pesquisadores. Alguns pensadores, como Wertheimer (1945), adotam a filosofia Gestaltista, que se contrapõe à ideia de dividir o processo criativo em uma sequência de etapas distintas. Em outras palavras, a perspectiva Gestalt enfatiza que a percepção de um todo não é simplesmente a soma das partes individuais que o constituem. Em vez disso, essa percepção é influenciada pela organização na qual os elementos individuais são apresentados no contexto do todo. 67 De acordo com a perspectiva da psicologia da Gestalt, a forma como as partes são organizadas dentro de um todo também impacta a maneira como aprendemos e compreendemos (PIROLO, 2016). 6.1 As etapas do processo criativo na perspectiva de Wallas. A prática da criação é uma parte fundamental da rotina tanto dos artistas, quanto daqueles que não se consideram artistas. Assim como um escultor cria, um advogado, um professor ou até mesmo uma criança também o fazem, cada um de acordo com suas necessidades, interesses e impulsos individuais. Essa perspectiva ampla permite uma compreensão mais abrangente dos processos criativos, ao reconhecer que tais atos não estão restritos a campos específicos, como ciência ou artes. Além disso, essa visão entende a atividade criativa como inerente a todos os seres humanos, independentemente de estarem envolvidos na resolução de uma equação matemática complexa, na composição de uma sinfonia ou na improvisação de uma solução quando as peças adequadas não estão disponíveis para pendurar uma cortina na parede. Conforme Santos (2018), Graham Wallas (1858-1932) é amplamente reconhecido como um dos pioneiros na formulação de um modelo de estágios para o processo criativo. Sua contribuição nesse campo é considerada fundamental e suas ideias têm tido um impacto duradouro no estudo da criatividade. Wallas, que era um psicólogo, professor e político britânico, é especialmente lembrado por suas valiosas contribuições para a psicologia e sua notável abordagem em relação aos estágios do processo criativo. Ele foi um dos primeiros a sistematizar e teorizar sobre as etapas mentais pelas quais os indivíduos passam ao gerar uma ideia criativa. Em seu livro "The Art of Thought" (1926), Wallas descreve quatro etapas comuns na criação: preparação, incubação, iluminação e verificação. Veja no quadro abaixo um breve resumo sobre as referidas etapas (Quadro 5). Quadro 5 – Etapas do processo criativo por Wallas. 68 Fonte: Silva, 2021. 1ª Etapa - Preparação De acordo com Wallas (1926), a etapa de preparação é um período inicial em que o artista se prepara, adquirindo as habilidades técnicas e conceituais necessárias para abordar futuros desafios. Durante esse estágio, o indivíduo faz questionamentos, explora diferentes caminhos, busca sugestões e permite que sua mente mergulhe nas possibilidades relacionadas à problemática que será desenvolvida. Considerando a classificação de Wallas, Torre (2005, p. 113-115) destaca a importância da fase de preparação, que consiste em "explorar o terreno e estar disposto a ultrapassar seus próprios limites" a fim de estimular a criatividade. Durante essa etapa, a antecipação e o esforço são atitudes fundamentais. Amaral (2016) preceitua que a primeira fase (iniciação), caracterizada pelo trabalho deliberado, consciente e voluntário na tentativa de resolver um problema, muitas vezes utilizando-se da experiência prévia. Nessa fase, a tensão é gerada no esforço de resolução, criando as condições necessárias para a libertação emocional que ocorre no momento de iluminação. Para George Kneller (1978), a fase de preparação na teoria de Wallas inclui a experimentação, realizada pelo criador, do meio produtivo no qual a tarefa será executada. Kneller argumenta que, para criar, é essencial ter algum domínio técnico, e, portanto, o indivíduo deve adquirir habilidades para expressar sua ideia de forma concreta. 69 Vale registrar que embora seja adepto da teoria de Wallas, George Kneller (1978) introduz uma fase adicional anterior à preparação de Wallas, que ele chama de "primeira Apreensão". Veja na figura como é o processo criativo para Kneller (Figura 19). Figura 19 – As etapas do processo criativo para Kneller (1965) Fonte: Barth; Pinheiro, Silva, 2015. Portanto, para Kneller, de forma geral, o processo criativo tende a ocorrer após uma extensa preparação consciente, seguida por um período de atividade inconsciente. Contudo, antes desse momento, é necessário que surja o embrião da criação. O criador deve ter seu primeiro insight - a apreensão inicial de uma ideia a ser concretizada ou de um problema a ser resolvido. Até esse ponto, não houve inspiração real, apenas existia uma noção do que deveria ser feito. (KNELLER, 1978). 2ª Etapa – Incubação Na segunda fase da etapa do processo criativo de Wallas, chamada de incubação, o subconsciente procura por conexões inesperadas para resolver e 70 concluir a ideia, criando novas associações. Durante esse estágio, o criador sente uma sensação de insatisfação e tensão em relação à necessidade de completar algo (TAVARES, 1998). Nessa fase, não é aplicado nenhum esforço direto para resolver o problema. Pelo contrário, sugere-se um distanciamento intencional da situação, o que, segundo Wallas, contribuirá para a resolução do problema. Durante a etapa de incubação, o indivíduo propositadamente se distancia da tarefa em mãos, utilizando uma variedade de estratégias de afastamento, como descansar, dar um passeio de carro, realizar tarefas domésticas, se envolver na jardinagem, entre outras. No entanto, o desafio que o criador identificou ainda persiste e permanece constantemente em sua consciência,o que facilita as atividades do pré- consciente (MENDES, 2017). Nessa fase, o processo de geração criativa ocorre de maneira inconsciente e está intimamente relacionado ao esforço consciente e propositado da fase anterior (AMARAL, 2016). Wallas apresenta uma técnica para otimizar os benefícios do período de incubação - um conceito que a psicologia da produtividade tem respaldado recentemente - que envolve deliberadamente interromper o fluxo de trabalho. A respeito desse ponto, ele considera, que alcançamos resultados mais satisfatórios ao iniciar várias tarefas em sequência, deliberadamente deixando-as incompletas enquanto nos movemos para outras, ao invés de tentar concluir uma tarefa por completo a cada vez que a abordamos. (WALLAS, 1926). Segundo Wallas (1926), a melhor abordagem é direcionar a atenção para outra atividade, preferencialmente uma que não tenha relação com as questões anteriores. Pode ser olhar para o horizonte sem buscar nada em específico, observar sem realmente ver ou ouvir sem prestar atenção. Para os artistas contemporâneos, possivelmente o maior desafio é se afastar do ambiente digital, já que suas vidas sociais parecem estar constantemente vinculadas a ele (MENDES, 2016). Torre (2005) frisa que a segunda fase é o momento de se afastar do projeto, problema ou plano inicial, permitindo que o subconsciente integre informações relacionadas à inquietação inicial, sem desgastar a energia psíquica. 3ª Etapa - Iluminação 71 Após o período de incubação, surge a iluminação, marcando a terceira fase. Nesse momento, ocorre uma transição entre o estado inconsciente e consciente, resultando em uma ideia ou solução que emerge na mente do solucionador (AMARAL, 2016). O terceiro estágio é caracterizado pela ocorrência súbita da solução para o problema, também conhecida como insight ou o momento "EUREKA", como se fosse um “AHA” de descoberta. Durante essa fase, ocorre a formação de associações mentais que possibilitam conexões com conhecimentos adquiridos previamente (TAVARES, 1998). Essa etapa é exclusiva do cérebro humano. Embora máquinas possam produzir conclusões e resultados, estes serão apenas empíricos e quantitativos. Por exemplo, um computador pode identificar títulos de músicas, mas não é capaz de discernir o que seria considerado uma "boa" música. Ele pode localizar frases, mas não as interpretar. O insight da iluminação demanda uma complexa conexão de ideias e estímulos provenientes tanto do consciente quanto do inconsciente, culminando na repentina formação de uma hipótese baseada em interpretações, suposições e conclusões que ultrapassam a capacidade lógica de qualquer computador (SANTOS, 2018). É importante destacar que, embora nessa etapa o indivíduo encontre uma ideia de solução, o processo criativo ainda não está completamente finalizado, como ressalta Torre (2005). Por esse motivo, a última etapa é a da verificação. 4ª Etapa - Verificação A etapa final proposta por Wallas é a de verificação, na qual o criador retoma conscientemente o esforço mental para testar deliberadamente a validade da ideia gerada. Nessa fase, a intenção é sintetizar e aprimorar a solução, preparando-a para uma aplicação prática e efetiva. Aqui, a validade da solução é avaliada com base em critérios lógicos do pensamento, e envolve a revisão dos elementos acumulados até então, o que pode levar a novas intuições, inclusive de natureza diferente da ideia original (SANTOS, 2016). 72 Essa fase equivale a “um processo de revisão em que a solução do problema é conscientemente elaborada, sendo passível de alteração e correção” (TAVARES, 1998, p. 34). Fonteque (2019) explica que o estágio final compreende o momento em que ocorre a avaliação das possíveis aplicações dos resultados encontrados, validando as soluções encontradas e, ao mesmo tempo, levantando novas questões ou problemas para serem explorados. Ou seja, nessa fase é o momento de avaliar a ideia, desenvolvê-la de maneira apropriada e aberta às possibilidades, demonstrando uma mente flexível. Por fim, vale registrar que, de acordo com Wallas (1926), as etapas de criação não funcionam de maneira isolada, pois o mecanismo da criatividade é como uma máquina hermética, composta por inúmeras e interligadas peças em equilíbrio. Essas etapas podem se misturar entre si, criando uma elaborada teia mental de conexões superpostas, já que lidamos com a resolução de vários problemas simultaneamente no dia a dia, em vez de lidar com causas e situações individuais separadamente. Por exemplo, enquanto apreciamos visualmente uma pintura, nosso subconsciente pode estar trabalhando na solução de um problema completamente diferente e, assim, sucessivamente, com todas as etapas do processo criativo. 6.2 As etapas do processo criativo na perspectiva de Csikszentmihalyi Segundo Pessotto (2022), Csikszentmihalyi (1996) apresenta um modelo com cinco etapas para o processo criativo. A primeira etapa é a preparação, na qual o indivíduo se envolve com a temática, identificando o problema a ser resolvido, seja de maneira consciente ou inconsciente (CSIKSZENTMIHALYI, 1996). A segunda etapa é a incubação, onde ocorre um processo inconsciente que viabiliza a formação de conexões não convencionais, uma vez que o pensamento se liberta da linearidade característica da lógica do pensamento consciente (CSIKSZENTMIHALYI, 1996). A terceira etapa é o insight, quando o consciente é capaz de unir as peças do quebra-cabeça e fazer com que as conexões façam sentido na aplicação da solução do problema. Nesse estágio, diversos insights podem surgir, inclusive durante as etapas de incubação, avaliação e elaboração (CSIKSZENTMIHALYI, 1996). 73 A quarta etapa é a avaliação, onde os insights são examinados para identificar aqueles que são válidos e têm potencial para gerar resultados satisfatórios. Csikszentmihalyi (1996) considera essa fase como a mais emocionalmente carregada, pois os indivíduos podem experimentar incertezas e inseguranças, sendo influenciados pela autocrítica e pelos critérios do domínio, bem como pelas opiniões do campo. Por fim, a quinta etapa é a elaboração, que representa o último passo do processo criativo. Nessa fase, as ideias são implementadas e ocorre a concretização do projeto (CSIKSZENTMIHALYI, 1996). A Figura 20 ilustra o modelo proposto por Csikszentmihalyi (1996). Figura 20 – Etapas do processo criativo segundo Csikszentmihalyi (1996) Fonte: Pessotto, 2022. O autor também argumenta que o modelo do processo criativo não é rígido nem linear. Ele enfatiza que o processo criativo envolve várias interações entre as etapas, o que significa que cada uma delas pode durar horas ou até mesmo anos. O próprio processo criativo organiza a necessidade de revisitar algumas etapas, incluindo a ocorrência de repetições no framework. Durante a etapa de elaboração, o indivíduo é frequentemente interrompido por períodos de incubação e momentos de epifanias pontuais (CSIKSZENTMIHALYI, 1996). 74 6.3 As etapas do processo criativo na perspectiva de Amabile Segundo explicitado por Pessotto (2022), Amabile (1983) propôs um processo criativo baseado nos componentes da criatividade considerados para ela como os seguintes: habilidade de pensamento criativo, expertise e motivação. Ela enfatizou que compreender como cada um desses fatores contribui para o desempenho criativo é essencial para entender o processo criativo como um todo (AMABILE, 1983). Uma característica distintiva das etapas do processo criativo da autora é a identificação das etapas em que os indivíduos precisam estar mais criativos e aquelas em que o comportamento criativo é menos crucial. Com base nessa informação, Amabile delimitou a importância da motivação - seja intrínseca ou extrínseca - em cada etapa do processo criativo para que o indivíduopossa apresentar respostas eficientes. O processo criativo de Amabile (1983) oferece uma abordagem instrumental para analisar e compreender o processo criativo, considerando fatores como habilidades, conhecimento especializado e motivação, e destacando a relevância de cada um desses componentes em diferentes etapas do processo. Para a autora, enfim, o processo criativo é dividido em cinco etapas: (1) Apresentação da tarefa ou problema; (2) Preparação; (3) Geração de respostas; (4) Validação da resposta; e (5) Resultado. É destacado que o fator "motivação para a tarefa" desempenha um papel mais significativo nas etapas 1 e 3, enquanto o componente "habilidades relevantes ao domínio da tarefa" é mais relevante nas etapas 2 e 4. Por outro lado, o fator "habilidades relevantes à criatividade" tem uma influência mais proeminente na etapa 3, que é a etapa de geração de respostas (PESSOTTO, 2022). O processo criativo segundo Amabile (1983) pode resultar em três possibilidades: a) uma resposta satisfatória; b) a ausência de uma resposta satisfatória, o que pode gerar frustração e impactar negativamente a motivação dos profissionais; ou c) algum progresso em direção a uma resposta satisfatória, o que leva o processo a iniciar um novo ciclo dentro do framework. A autora enfatiza que, para ela, o progresso é mais influente positivamente na motivação do que o sucesso, pois mantém a característica desafiadora da tarefa. Veja a figura 21 ilustrando as etapas do processo criativo de Amabile. 75 Figura 21 – Etapas do processo criativo de Amabile (1983) Fonte: Amabile (1983) – tradução de Pessoto, 2022 A primeira etapa do processo criativo de Amabile (1983), segundo explicação de Pessotto (2022), envolve a apresentação do problema ou tarefa, que pode surgir de duas maneiras distintas: (a) através de estímulo externo, no qual o problema é colocado diante do indivíduo por algum fator externo - por exemplo, um gestor em uma organização pode delimitar o problema e apresentá-lo ao indivíduo; ou (b) através de estímulo interno, onde o próprio indivíduo identifica e delimita qual é o problema. Nessa etapa, a motivação para a tarefa desempenha um papel crucial na criatividade do indivíduo. É responsabilidade do gestor do projeto incentivar a motivação dos indivíduos nesse momento, uma vez que a motivação adequada pode aumentar a capacidade do indivíduo de enfrentar o problema de forma criativa e eficiente. O estímulo e apoio adequados durante essa etapa podem contribuir significativamente para o sucesso do processo criativo e a busca de soluções inovadoras (PESSOTTO, 2022). Na segunda fase, chamada de preparação, o indivíduo se dedica a adquirir conhecimento e repertório necessários para buscar alternativas e resolver o problema 76 apresentado. A eficiência da preparação está diretamente relacionada à motivação que o indivíduo recebeu na fase anterior, pois é essa motivação que impulsiona o processo de aprendizagem. Dessa forma, na preparação, as principais habilidades que contribuem para a produção criativa são aquelas, relevantes, ao domínio da tarefa em questão (PESSOTTO, 2022). Em outras palavras, quando o indivíduo está motivado e engajado na solução do problema, ele se instrumentaliza de forma mais eficiente na preparação, adquirindo o conhecimento e as habilidades específicas necessárias para abordar o desafio criativamente. A motivação e as habilidades relevantes ao domínio, segundo Pessotto (2022), se complementam nessa etapa para que o indivíduo esteja melhor preparado para encontrar soluções inovadoras. A geração de respostas é a terceira etapa do processo criativo no framework proposto por Amabile (1983). Nessa fase, é crucial ter um ambiente favorável que estimule o desenvolvimento de possibilidades criativas de resposta. A motivação para a tarefa e as habilidades relevantes para a criatividade impulsionam a potencialidade criativa, permitindo o surgimento de respostas não convencionais. É nesse estágio que possíveis soluções para o problema apresentado inicialmente são geradas. Durante a geração de respostas, a criatividade floresce à medida que os indivíduos exploram e experimentam diferentes abordagens e ideias inovadoras. O ambiente de suporte e motivação é essencial para encorajar a livre expressão de pensamentos e a busca de soluções originais, resultando em respostas criativas e únicas para o desafio em questão (PESSOTTO, 2022). Na etapa de validação da resposta, é necessário consoante testar a validade das alternativas levantadas na fase de geração de respostas. Esse processo é fundamentado nos conhecimentos reais e nos critérios já estabelecidos pelas áreas de atuação e/ou pelos critérios específicos do projeto, como orçamento e cronograma de execução (PESSOTTO, 2022). Durante a validação, as soluções criativas são analisadas à luz da viabilidade, dos recursos disponíveis e das exigências do projeto. É essencial garantir que as ideias geradas sejam factíveis e possam ser implementadas de acordo com as limitações e requisitos estabelecidos (PESSOTTO, 2022). Essa etapa de avaliação é crucial para garantir que as soluções propostas se alinhem com as necessidades e 77 expectativas do contexto em que serão aplicadas, permitindo a seleção da resposta mais apropriada e eficaz para resolver o problema apresentado. 7 O PROCESSO CRIATIVO ARTÍSTICO: NUANCES GERAIS Baseado nos ensinamentos de Nascimento (2004), entende-se que o processo criativo geral, estudado no capítulo anterior (capítulo 6), refere-se ao modo como as ideias são geradas, desenvolvidas e transformadas em qualquer contexto ou domínio, não se limitando apenas à arte. Pode ocorrer em várias áreas, como ciência, negócios, tecnologia, entre outras. É uma abordagem fundamental para solucionar problemas, criar inovações e explorar novas possibilidades. O processo criativo geral envolve fases como a geração de ideias, seleção, desenvolvimento e implementação, como já visto. Por outro lado, o processo criativo artístico é uma manifestação específica do processo criativo que está intrinsecamente ligada à criação de obras de arte (NASCIMENTO, 2004). Envolve a geração e a expressão de ideias únicas através de formas artísticas, como pintura, escultura, música, dança, literatura, entre outras. O processo criativo artístico pode envolver etapas semelhantes ao processo criativo geral, como a inspiração, conceituação, experimentação, refinamento e finalização, mas é particularmente focado na produção de obras artísticas que buscam evocar emoções, transmitir mensagens ou provocar reflexões. Nesse sentido, trazendo à tona essa diferenciação entre processo criativo geral e processo criativo artístico, embora sabendo que o primeiro engloba o segundo, Rollo May (1975, p. 34) fala o seguinte: “A criatividade está no trabalho do cientista, como no do artista; do pensador e do esteta; sem esquecer os capitães da tecnologia moderna, e o relacionamento normal entre mãe e filho”. Joana de O. Santos (2018), ensina que de acordo com a perspectiva de vários autores que investigaram o aspecto social da arte e o processo criativo do artista, observou-se que o processo criativo engloba as diversas etapas de construção que precedem a criação da obra de arte. Essas etapas envolvem a atividade prática do artista-pintor, por exemplo, resultando em experiências relevantes de inspiração derivadas de sua vida e interações sociais, tornando-o um sujeito plenamente integrado na sociedade. Estendendo essa definição, Lígia Dabul menciona que 78 (…) o processo criativo artístico é descrito como forma específica de sublimação, encadeada por fantasias alimentadas e domadas pelo ator social que dispõe da habilidade e do desejo, socialmente constituídos, de expressá- las manipulando determinado material (sonoro, plástico etc.) e acionandosua consciência crítica, também construída por sua vida social, para avaliar essa manipulação (DABUL, 2007). Depreende-se pelo exposto que o processo criativo do artista é um entrelaçamento complexo entre suas vivências e a sociedade, influenciando sua expressão artística de maneira singular e enriquecedora (SANTOS, 2018). O processo criativo em si, segundo a autora, pode ser visto como um ritual. Nesse contexto, o termo "ritual" se refere a um conjunto de práticas rotineiras adotadas pelo “artista-pintor” em seu espaço de trabalho, o ateliê, durante a execução de uma obra de arte. Esse momento de reflexão proporciona ao artista a oportunidade de refletir sobre si mesmo e o grupo ao qual pertence, permitindo uma revisão de sua sociedade. Essa reflexão desencadeia a criatividade, expressão e transformação da arte (DABUL, 2007). Lígia Dabul destaca que, embora o processo criativo seja considerado uma "experiência individual" (DABUL, 2007), ele é frequentemente abordado do ponto de vista da Psicologia ou Psicanálise, com menos enfoque sociológico em comparação. Isso sugere que a dimensão social do processo criativo merece uma maior atenção e estudo para compreender o papel da arte como uma forma de expressão e transformação não apenas individual, mas também coletiva. Ao entender o processo criativo como um ritual no ateliê, pode-se reconhecer sua relevância não apenas para o artista individual, mas também para a sociedade em geral, pois reflete aspectos culturais, sociais e históricos que influenciam a criação artística. De acordo com a perspectiva da sociologia, Santos (2018) leciona que a criação artística é frequentemente vista como um meio de intervenção, contestação ou participação na vida social. O artista, impulsionado por suas aspirações e pelas necessidades de sua geração, busca contribuir para o avanço teórico, sociológico, cultural, artístico ou político por meio de suas obras. Isso significa que o artista, assim como qualquer outro ator social, tem o poder de interferir na sociedade, desempenhando um papel fundamental na abordagem contextual, conceitual e artística ao apresentar suas obras (SANTOS, 2018). Ele é, portanto, simultaneamente um ator e um agente social, ou seja, um indivíduo que é influenciado pelo meio social em que está inserido e, ao mesmo tempo, um 79 profissional capaz de utilizar suas obras e o processo criativo para contribuir para a evolução da arte e para a modificação das formas de produção e recepção pela comunidade ao longo da história. Dessa forma, consoante Santos (2018), não há artistas completamente independentes, isolados ou desarraigados da sociedade. Pelo contrário, vivendo em sua época, o artista se comunica com as pessoas que também estão sob as mesmas leis e regras sociais, utilizando a linguagem contemporânea para interagir e se conectar com a comunidade. Sua presença e atuação são fundamentais para o progresso e a evolução da sociedade, pois suas obras podem influenciar a cultura, promover mudanças e desafiar as normas estabelecidas. Para outros sociólogos, como Pierre Bourdieu (1996), a chamada 'experiência individual' mencionada por Dabul é, na verdade, bastante coletiva. Por essa perspectiva, para compreender o processo criativo, é essencial avaliar aspectos sociologicamente relevantes, especialmente a natureza relacional que o artista estabelece com o mundo social. Bourdieu argumenta que a produção artística é influenciada por várias forças, além das intenções e motivações individuais do artista. O autor destaca que o domínio econômico exerce controle sobre a pesquisa artística e científica, tanto internamente quanto externamente ao campo artístico. Isso abrange o controle dos meios de produção e difusão cultural, assim como as instâncias de reconhecimento e consagração no mundo das artes. A crescente interpenetração entre o mundo da arte e o mundo do dinheiro gera ameaças à autonomia do campo artístico (BOURDIEU, 1996). Em outras palavras, Bourdieu (1996) ressalta que o processo criativo do artista é moldado por influências socioeconômicas que afetam suas escolhas e oportunidades. Portanto, o contexto social e econômico em que o artista está inserido tem um papel significativo na determinação de suas práticas criativas. Essas forças sociais podem restringir ou ampliar a liberdade artística e a capacidade de inovação, o que indica que o processo criativo não é uma experiência isolada e individual, mas sim uma construção coletiva que reflete as dinâmicas e estruturas presentes no campo artístico e na sociedade em geral. Dessa forma, entende-se, segundo explicação de Santos (2018), que o processo criativo é uma atividade executada pelo artista, onde ele desempenha um papel central na concepção e realização de suas obras. No entanto, é essencial 80 compreender que esse processo também é influenciado por fatores coletivos e socialmente determinados. Diversas instituições, órgãos do Estado e entidades privadas exercem influência sobre as escolhas do artista, afetando tanto os temas que ele escolhe representar quanto o estilo e a forma de suas obras. As instituições artísticas, o mercado de arte e as dinâmicas culturais moldam o contexto em que o artista opera. A busca pelo reconhecimento e sustento através da arte muitas vezes requer a criação de obras que sejam apelativas e aceitas dentro do meio social e do mercado de trocas e valores. Isso pode levar o artista a se adaptar às demandas do público e das instituições, influenciando suas escolhas criativas (SANTOS, 2018). Portanto, explica Santos (2018), embora o artista seja o executor do processo criativo, ele não está isolado ou imune às pressões externas. O meio social e as estruturas institucionais exercem uma influência significativa sobre o contexto em que o processo criativo acontece, afetando as possibilidades e as escolhas do artista. Essa dinâmica entre o indivíduo artista e o meio social é um fator importante para compreender a produção artística e suas relações com a sociedade. Em uma análise mais aprofundada do papel do artista como intelectual e produtor de arte, fica claro que ele está sujeito à vontade muitas vezes dominante da sociedade em que vive, que estabelece normas e regras (SANTOS, 2018). Embora seja o autor de suas obras, como afirmou Damisch (1984), "a obra de arte será sempre obra de um indivíduo", o artista não escapa à força da tradição e das normas convencionais que a sociedade aceita e assume como lei. Isso leva o artista a seguir imposições e exigências que são delegadas pela sociedade e que são impostas à sua obra. De acordo com Bourdieu (1984) e seu conceito de campo artístico, as intenções e escolhas do artista são filtradas pelas diversas entidades que compõem essa esfera. Por essa razão, o artista acaba por desempenhar um papel híbrido, posicionando-se no intervalo entre duas posições: a de ator e espectador do seu próprio trabalho. Ele acata as regras do seu tempo e muitas vezes se subordina a elas para garantir sua inserção e reconhecimento no campo artístico. Essa relação de influência e submissão às normas sociais e culturais pode ser um desafio para o artista, que pode se sentir pressionado a se adequar às expectativas do público e do mercado artístico, comenta Santos (2018). A busca por 81 legitimidade e reconhecimento, aliada à necessidade de sustento, muitas vezes conduz o artista a navegar entre suas visões criativas pessoais e as demandas impostas pela sociedade e pelas instituições artísticas. Assim, o processo criativo do artista é moldado tanto por sua individualidade como por uma série de forças e influências externas, que tornam a relação entre o artista e a sociedade uma interdependência complexa e desafiadora (SANTOS, 2018). A questão da liberdade artística durante o processo criativo é complexa, afirma Santos (2018),pois o artista se encontra sujeito a múltiplas pressões e exigências que afetam a expressão de sua criatividade. Além das normas e expectativas sociais, morais e culturais, o processo criativo também é influenciado pelas leis do mercado econômico. A obra de arte, enquanto mercadoria, recebe um valor monetário atribuído que pode determinar o sustento do artista (AGUIAR; BASTOS, 2013). A necessidade de reconhecimento profissional e sucesso na carreira leva muitos artistas a considerarem o mercado como uma fonte de sobrevivência. A profissionalização e a busca por ganhos financeiros podem se tornar uma prioridade, o que pode levar o artista a fazer concessões criativas ou a adaptar seu trabalho para atender às preferências do público ou das instituições culturais (SANTOS, 2018). Para Santos (2018), essa dinâmica pode gerar conflitos entre a liberdade artística e as exigências do mercado. O artista pode sentir-se limitado em sua expressão criativa, enfrentando dilemas sobre como equilibrar sua visão pessoal com as demandas do público ou das instituições de poder. A busca pela sustentabilidade financeira e reconhecimento profissional pode levar a escolhas que afetam o caráter inovador e autêntico da arte. Por outro lado, conduz a autora, alguns artistas veem na capacidade de criar arte que agrade ao público e ao mercado uma forma de alcançar uma maior liberdade, permitindo-lhes continuar produzindo e vivendo da arte que amam. Em resumo, a liberdade artística no processo criativo é uma questão complexa, com uma interação entre o desejo de expressão individual, o reconhecimento social e as demandas do mercado econômico. A compreensão dessa dinâmica é crucial para uma apreciação mais profunda do impacto que as condições sociais e econômicas têm sobre a produção artística. Outro ponto importante do viés do processo criativo artístico, considerado na opinião de Santos (2018) como parte integrante dele e decisivo na definição de estilo 82 atribuída ao artista, é a escolha das ferramentas de trabalho e dos materiais a utilizar, bem como do propósito na mensagem a transmitir e a executar na obra. Nesse sentido, Santos (2018) traz à baila o impulso criativo do artista no processo, frequentemente chamado de "inspiração", "imaginação", "talento", "originalidade" ou "novidade". Para a autora, o impulso criativo pode ser compreendido como o conjunto de experiências relevantes e recorrentes decorrentes da prática artística, experiência estas que ela entende estarem fundamentalmente ligadas aos procedimentos técnicos ou situações sociais que despertam no artista a habilidade e o desejo de expressar sua visão e posição analítica, social e artística. Vale registrar que a "inspiração" ou "criatividade" não deve ser entendida como uma mera revelação divina ou um dom sobrenatural. Em vez disso, ela é resultado do acúmulo de experiências, vivências e práticas desenvolvidas pelo artista ao longo do tempo. Essas experiências podem ser influenciadas por questões técnicas, conhecimento de materiais, interações sociais, bem como o contexto histórico e cultural em que o artista está inserido (SANTOS, 2018). A habilidade de expressar uma visão única e uma consciência crítica é construída pela própria experiência do artista e sua imersão no mundo das artes. De acordo com Santos (2018), cada artista desenvolve um estilo próprio, que reflete suas escolhas estéticas e suas interpretações pessoais do mundo ao seu redor. Essa perspectiva desmistifica a ideia romântica do "gênio artístico" e enfatiza a importância da prática, do estudo e da interação com o meio social para o desenvolvimento do impulso criativo. A criatividade do artista é, portanto, uma construção contínua, que evolui a partir de suas experiências e da reflexão crítica sobre sua prática artística (SANTOS, 2018). 83 REFERÊNCIAS AGUIAR, J. V.; BASTOS, N. Arte como conceito e como imagem: a redefinição da "arte pela arte". Tempo Social, v. 25, n. 2, p. 181–203, nov. 2013. ALENCAR, E. M. L. S. A gerência da criatividade. São Paulo: Makron Books, 1996. ALENCAR, E. M. L. S. O Estímulo à criatividade no contexto universitário. Psicologia, Reflexão e Crítica, Porto Alegre-RS, v. 15, n. 1, p. 63-70, 1997. AMABILE, T. M. The social psychology of creativity: A componential conceptualization. Journal of Personality and Social Psychology, v. 45, n. 2, p. 357-376, 1983. AMARAL, Ana Luiza Snoek Neiva do. A constituição da aprendizagem criativa no processo de desenvolvimento da subjetividade. Brasília-DF: UnB, 2011. 250 p. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade de Brasília, Brasília-DF, 2011. AMARAL, Nuno. A criatividade matemática no contexto de uma competição de resolução de problemas. Universidade de Lisboa. Tese de doutorado. Lisboa, 2016. ANDRADE, L. Q. (1995). Linhas teóricas em arte-terapia. In: M. M. M. J. de Carvalho (Org.), A Arte Cura? Recursos artísticos em psicoterapia. Campinas, SP: Editorial Psy II. p.34-55. ANTUNES, C. A Criatividade na sala de aula. Petrópolis: Vozes, 2003. ARCHER, Michael. Arte contemporânea: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2008. BANNACH, Cássia Lindolm. Arte e natureza: o uso de pigmentos naturais na prática artística e educacional. 2017. BARBOSA, Ana Mae. Inquietações e mudanças no ensino da arte. Cortez Editora, 2018. BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. Editora Perspectiva SA, 2020. BARTH, Mauricio; PINHEIRO, Cristiano Max Pereira; SILVA, André Conti. Do gênesis ao clímax: um levantamento bibliográfico (não) definitivo sobre o processo criativo. Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia, n. 2, v. 10, 2015. Disponível em: https://brapci.inf.br/index.php/res/v/27098. Acesso em 17 jul. 2023. BASTO, M. L. S. L. Fatores inibidores e facilitadores ao desenvolvimento da criatividade em empresas de base tecnológica: um estudo de caso. 2000. 150 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2000. https://brapci.inf.br/index.php/res/v/27098 84 BATISTA, J. B.; PASQUALINI, J. C.; MAGALHÃES, G. M. Estudo sobre Emoções e Sentimentos na Educação Infantil. Educação & Realidade, v. 47, p. e116927, 2022. Disponível em: https://shre.ink/9Tda. Acesso em: 27 jun. 2023. BATTISTONI FILHO, Duílio. Pequena história da arte. São Paulo: Papirus Editora, 2020. BINET, A.; SIMON, T. Méthodes nouvelles pour le diagnostic du niveau intellectuel des anormaux. L’année psychologique, v. 11, n. 1, p. 191-244, 1904. BOURDIEU, Pierre. As regras da Arte. Tradução: Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. CALDAS, Aulete. Dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon Digital, 2007. CANUDO, R. Manifeste des sept arts-L’usine aux images. Paris: Séguier et Arte, 1923. CAVALCANTE, T. Microeconomia da criatividade: uma construção epistemológica. Nova Economia, v. 31, n. 3, p. 809–837, set. 2021. CHAGAS, Tamara Silva. A Arte Conceitual e a Contribuição de Guilherme Vaz (1969- 1975). Revista Interdisciplinar Internacional de Artes Visuais-Art&Sensorium, v. 8, n. 1, p. 048-060, 2021. Disponível em: https://shre.ink/9Tdn. Acesso em: 11 jul. 2023. CHAGAS, Tamara Silva. Thereza Simões: uma Precursora da Arte Conceitual no Brasil. Art&Sensorium-Revista Interdisciplinar Internacional de Artes Visuais, v. 5, n. 2, p. 14-26, 2018. CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, p. 275, 2003. COVALESKI, R. L. Artes e comunicação: a construção de imagens e imaginários híbridos. Galaxia (São Paulo, Online), n. 24, p. 89-101, dez. 2012. Disponível em: https://shre.ink/9TdR. Acesso em: 30 jun. 2023. CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. Flow and the Psychology of Discovery and Invention. New York: Harper Collins, 1996. DABUL, Lígia. Experiências criativas sob oolhar sociológico. Ponto-e-Vírgula: Revista de Ciências Sociais, n. 2, 2007. Disponível em: https://acesse.one/Cnm4o. Acesso em 17 jul. 2023. (revisar essa referência, consultando o manual. Observar o modelo para revistas e periódicos) DAMISCH, H. Artes e artista (verbetes). In: Enciclopédia Inaudi. v. 3. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984. DANTO, Arthur C. A Arte Contemporânea e os Limites da História. Tradução Saulo Krieger. São Paulo: Odysseus Editora, 2006. https://acesse.one/Cnm4o 85 DARWIN, Francis (org.). The life and letters of Charles Darwin, including an autobiographical chapter, v. 3. London: John Murray. 1887. DA SILVA MARTIN, Jasson. Nietzsche e a prioridade do artista sobre a arte. Griot: Revista de Filosofia, v. 4, n. 2, p. 60-73, 2011. Disponível em: https://shre.ink/2O40. Acesso em 29 ago. 2023. DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010. EYSENCK, H. As formas de medir a criatividade. In: BODEN, M. (Org.). Dimensões da criatividade. Porto Alegre: Artes Médicas. 1999. p. 203- 244, traduzido por P. Theobald. Trabalho Original publicado em 1996. FELDMAN, D. G.; CSIKSZENTMINHALYI, M.; GARDNER, H. Changing the world: a framework for the study of creativity. Westport, CT: Praeger, 1994. FIATES, Gabriela Gonçalves Silveira. Criatividade e desenvolvimento de novos conceitos. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração / UFSC, 2014. FONTEQUE, Viviane Bergamini. A criatividade na formulação de problemas de alunos do ensino fundamental I e II: um olhar metodológico em sala de aula. Londrina : [sn], 2019. Disponível em: https://shre.ink/9D3p. Acesso em 17 jul. 2023. GALTON, F. Hereditary genius: An inquiry into its laws and consequences. London, UK: Macmillan Publishing, 1869. GIBSON, R.; SKARZYNSKI, P. Inovação prioridade n. 1. Rio de Janeiro: Campus, 2008. GOLEMAN, D., KAUFMAN, P., & RAY, M. (1992). Espírito criativo. (Trad. de The Creative Spirit ). São Paulo: Cultrix. GOMES FILHO, João. Gestalt do objeto: sistema de leitura visual da forma.10. ed. São Paulo: Escrituras, 2022. GONÇALVES, Carla A. Para uma introdução à Psicologia da Arte - As formas e os sujeitos. Portugal: Grupo Almedina (Portugal), 2018. E-book. ISBN 9789724421407. GOMBRICH, Ernest Hans. Arte e ilusão. Lisboa: Martins Fontes, 1996. GRINBERG, Luiz Paulo Jung: o homem criativo. São Paulo: Blucher, 2018. GUILFORD, J. P. Creativity. American Psychologist, v. 5, n. 9, p. 444-454, 1950. GUILFORD, J. P. The nature of human intelligence. New York: McGraw-Hill, 1967. GULLAR, F. Sobre arte, sobre poesia (Uma luz no chão). Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2006. https://shre.ink/2O40 https://shre.ink/9D3p 86 ISAKSEN, S.; TREFFINGER, D. Creative problem solving: the basic course. New York: Bearly Limited, 1985. KNELLER, George Frederick. Arte e ciência da criatividade. 5. ed. Tradução: J. Reis. São Paulo: IBRASA, 1978. LEWIN, K. Teoria de campo em ciência social. São Paulo: Pioneira, 1965. LUBART, T. Psicologia da criatividade. Porto Alegre, RS: Artmed, 2007. MACKINNON, D. W. In search of human effectiveness: Identifying and developing creativity. Buffalo, New York: Creative Education Foundation, 1978. MENDES, A. (2016) A Educação da criatividade in T., Pereira, A., A. Almeida, N., Vieira, M., C. Loureiro. Atas do VII Encontro do CIED – II Encontro Internacional, Estética e Arte em Educação. (59-70) Lisboa: CIED – Centro Interdisciplinar de Estudos Educacionais. Disponível em: https://shre.ink/2O3a. Acesso em 17 jul. 2023. MORAIS, M. F.; FLEITH, D. S. (2017). Conceito e avaliação de criatividade. In: L. S. Almeida (Ed.), Criatividade e pensamento crítico: conceito, avaliação e desenvolvimento (pp. 19-44). CERPSI. Disponível em: https://shre.ink/9TdY. Acesso em: 29 jun. 2023. NASCIMENTO, Simone Marinho. Psicoterapia e criatividade: reflexões sobre o processo de mudança na clínica. 2004. Disponível em: https://shre.ink/282r. Acesso em 30 ago. 2023. NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Tradução: Paulo César L. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. OBREGON, R. de F. A.; et al. A interação como elemento constitutivo dos processos de desenvolvimento da criatividade. In: Congresso Internacional de Criatividade Inovação. 2011. Manaus. Anais ... Manaus, 2011. OCVIRK, Otto G.; STINSON, Robert E.; WIGG, Philip R.; et al. Fundamentos de Arte. 2014. PATY, M. A criação científica segundo Poincaré e Einstein. Estudos Avançados, v. 15, n. 41, p. 157–192, jan. 2001. Disponível em: https://shre.ink/2OTD. Acesso em 29 ago. 2023. PATRICK, C. Creative thought in artists. Journal of Psychology: Interdisciplinary and Applied, v. 4, n. 1, p. 35-73, 1937. PATRICK, C. Whole and Part Relationship in Creative Thought. The American Journal of Psychology, v. 54, n. 1, p. 128-131, 1941. PAUKOSKI, Ilda Helena Domiciano. A Arte Contemporânea Na Escola. Revista Primeira Evolução, v. 1, n. 32, p. 55-60, 2022. https://shre.ink/9TdY https://shre.ink/282r https://shre.ink/2OTD 87 PEDERIVA, P. et al. Os Signos Artísticos e a Educação Estética em Vigotski. Educação & Realidade, v. 47, p. e116929, 2022. Disponível: https://shre.ink/9TW1. Acesso em: 28 jun. 2023. PELAES, M. L. W. Uma reflexão sobre o conceito de criatividade e o ensino da arte no ambiente escolar. In: Revista Educação, v. 5, n. 1, 2010. Disponível em: https://shre.ink/9GZt. Acesso em: 06 jul. 2023. PEREIRA, Katia Helena. Como usar artes visuais na sala de aula. São Paulo: Editora Contexto, 2014. PESSOTTO, Ana Heloíza Vita. A criatividade no processo de produção audiovisual. Tese (doutorado), 2022, 294. f. Disponível em: https://shre.ink/9D6u. Acesso em 17 jul. 2023. PINHEIRO, Antônio Carlos da Fonseca B; CRIVELARO, Marcos. História da Arte e do Design - Princípios, Estilos e Manifestações Culturais. São Paulo - SP: Editora Saraiva, 2014. E-book. PIROLO, Ana Claudia Inácio da Silva. Processo da criatividade. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 200 p. E-book. ISBN 978-85-8482-444-1. Disponível em: https://shre.ink/9TWh. Acesso em: 05 jul. 2023. PLSEK, P. E. Incorporando as ferramentas de criatividade no gerenciamento de qualidade: progresso da qualidade. [S.l.: s.n.], 1998. PREDEBON, José. Criatividade. Abrindo o lado inovador da mente. São Paulo: Atlas, 2002. PROENÇA, G. História da arte. São Paulo: Ática, 2009. READ, Herbert. O sentido da arte. 6. ed. São Paulo: Ibrasa: Instituição Brasileira de Difusão Cultural, 1987. REIS, Alice Casanova. A experiência estética sob um olhar fenomenológico. Arquivos Brasileiros de Psicologia. Rio de Janeiro, v. 63, n.1, p. 75-86, 2011. Disponível em: https://shre.ink/9TWF. Acesso em: 27 jun. 2023. MAY, Rollo. A coragem de criar. Nova Fronteira, 1975. SANTOS, Joana de Oliveira. Tornar-se artista: como se desenvolve o processo criativo? Dissertação (Mestrado). Universidade de Lisboa, 2108. Disponível em: https://shre.ink/9iJE. Acesso em 19 jul. 2023. SANTOS, Otávio Luis. As etapas do processo criativo propostas por Graham Wallas identificadas em processos de criação em ambientes digitais. In: XXVII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música. Campinas, 2017. Disponível em: https://shre.ink/9Dlu. Acesso em 17 jul. 2023. https://shre.ink/9D6u https://shre.ink/9iJE https://shre.ink/9Dlu 88 SHALLCROSS, D. Teaching creative behavior: New York: Bearly Limited, 1985. SILVA, Gilma Felix da. Arte em suas formas de expressão. Revista SL Educacional, São Paulo, v.5, n.4, p. 1-115, abr. 2023 - Mensal. ISSN 2675-4193 (online). Disponível em: https://www.sleditora.com/. Acesso em: 29 jun. 2023. SILVA, José Eduardo Vilas B. Identidade no processo criativo e visual merchandising. Porto Alegre: Editora Saraiva, 2021. E-book. ISBN 9786589965831. SIQUEIRA, Jairo. Criatividade Aplicada, 1ª ed., Rio de Janeiro/MG, 2015. ISBN978- 85-915179-0-9. Disponível em: https://shre.ink/9TqD. Acesso em: 28 jun. 2023. SIQUEIRA, Jairo. O processo criativo. [S.l.]: Criatividade Aplicada, 2012. Disponível em: https://shre.ink/9Tqt. Acesso em: 28 jun. 2023. SUANNO, João Henrique. Escola criativa e práticas pedagógicas. Tese (Doutorado). Universidade Católica de Brasília, 2013. Disponível em: https://shre.ink/9Zvd. Acesso em 18 jul. 2023. TAVARES, M.; PLAZA, J. Processos criativos com os meios eletrônicos: poéticas digitais. São Paulo: Hucitec, 1998. TORRANCE, E. P. Cumulative bibliography on the Torrance tests of creative thinking. Athens/GA: Georgia studies of creative behavior, 1996. TORRANCE, E. P.; BALL, O. E. Streamlined scoring and interpretation guide and norms manual for figural form A, TTCT. 4. ed. Athens/GA: University of Georgia, Georgia Study of Creative Behavior, 1980. TORRE, S. de La. Criatividade Aplicada: recursos para uma formação criativa. São Paulo: Madras, 2008. TORRE, S. de La. Curriculum para el cambio. Madrid: Sociedade Española de Pedagogía, 1999. TORRE, S. Dialogando com a criatividade. São Paulo: Masdras, 2005. TURAÇA ARANTES, Taís; GOMES, Nataniel dos Santos. Watchmen e a Nona Arte. Cadernos do CNLF, vol. 18, n. 09, p. 280-288, 2014 – Leitura e Interpretação. ISSN: 1519-8782 (online). Disponível em: https://shre.ink/9TqV. Acesso em: 28 jun. 2023. VYGOTSKI, L. S. (1999). Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999. WALLAS, G. Art of thought. London, UK: Jonathan Cape, 1926. WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. Lisboa: Edições 70, 1981. WECHSLER, S. M. Criatividade: descobrindo e encorajando. Campinas: Psy, 1998. https://shre.ink/9Zvd https://shre.ink/9TqV 89 WECHSLER, S. M.; NAKANO, T. C. Caminhos para a avaliação da criatividade: perspectiva brasileira. In: PRIMI, R. (Org.) Temas em Avaliação Psicológica. São Paulo: Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica, 2002. p. 103-115. WECHSLER, Solange Muglia. Criatividade: descobrindo e encorajando. Campinas: Livro Pleno, 2002. WERTHEIMER, M. Productive Thinking. New York: Harper Collins, 1945. WOODMAN, R. W.; SCHOENFELDT, L. F. An Interactionist Model of Creative Behavior. The Journal of Creative Behavior, v. 24, n. 1, p. 10-20, 1990.