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A tradição dos Arcadismo relatos de viagem Marco Polo e o misterioso mundo do Oriente O veneziano Marco Polo encantou leitores do século XIV com seus relatos sobre as terras que estavam sob o domínio do Grã-Cã do Oriente. Inau- gurou um gênero que influenciou muitas outras narrativas e estimulou a imaginação de inúmeras pessoas com as descrições dos lugares exóticos por onde passou. Nos registros de suas viagens, além das indi- cações das rotas marítimas que percorreu, Marco Polo caracterizou, com riqueza de detalhes, os povos, os recursos naturais, os costumes e as peculiaridades de locais até então desconhecidos do mundo ocidental. Homens ou animais? Lambri é um reino independente, cujos habitantes se consideram súditos do Grã-Cã: são todos adoradores de ídolos. Nas florestas, há muito pau-rosa, cânfora e várias outras espécies caras de madeira. [...] A maioria dos habitantes deste reino vive nas montanhas, longe das cidades: são homens que têm uma cauda de mais de um palmo de comprimento, grossa como as dos cães; há por aí muitos unicórnios, muita caça e muitas aves. [...] CONY, Carlos Heitor; ALCURE, Lenira. As viagens de Marco Polo. 2. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 198. (Fragmento). Os elementos fantásticos das narrativas de Marco Polo fizeram com que muitos duvidassem de sua veracidade (os homens a que ele se refere são, na verdade, orangotangos, que ele confunde com homens monstruosos). Porém, a confirmação de muitos dos dados significativos desses relatos deram a eles a importância e a influência que têm até hoje. A leitura desses textos, nos séculos seguintes, alimentou o desejo pelas grandes navega- ções e influenciou exploradores como Cristóvão Colombo. As crônicas das primeiras conquistas marítimas portuguesas Quando as naus portuguesas chegaram a Ceuta, na África, transporta- vam os filhos do rei D. João I, que se sagrariam cavaleiros com a conquista daquele território africano. A história da tomada de Ceuta, em 1415, foi registrada por Gomes Eanes de Zurara, cronista encarregado de escrever sobre os feitos heroicos dos príncipes portugueses. Seus textos forne- ceram um retrato do mundo exótico que se descortinava com as grandes navegações. Grã-Cã: são todos adoradores de ídolos. Nas florestas, há muito pau-rosa, cânfora e várias outras espécies caras de madeira. [...] homens que têm uma cauda de mais de um palmo de comprimento, grossa como as dos cães; há por aí muitos unicórnios, muita caça e muitas aves. [...] Marco Polo diante de Kublai Khan, miniatura medieval que ilustra a obra Mandeville's Book of Marvels, s.d. Lambri: atual província de Jambi, na Sumatra. 160 U n id ad e 3 • li er a ur a no p er o o co lo ni al R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap09_D.indd 160 13/09/10 3:32:36 PM Com o início dessas navegações, a tradição dos relatos de viagem ganha força em Portugal. Nos textos de viajantes diversos, encontram-se não so- mente as histórias das conquistas, mas também o relato dos naufrágios. Do século XVI em diante, seja em forma de tratado, relato, diário de bordo ou testemunho, o fascínio da descoberta do novo continuou sendo registrado por viajantes de várias nacionalidades. Aventuras de um navegador solitário Nos últimos anos do século XX, o brasileiro Amyr Klink também se ins- creve na tradição dos relatos de viagens inaugurada por Marco Polo. Seu texto, narrado em primeira pessoa, recria para o leitor as aventuras que protagonizou em alto-mar. Barcos sem mar [...] O tempo não estava nada bom e simplesmente não era o momento de cair na água. Mas eu já estava voando de costas para fora do barco e mergulhando com botas e roupas e tudo em pleno Atlântico, a uns dois metros do Rapa Nui. Não é possível! Não pode ser verdade! Virei- -me, em pânico, ainda mergulhado e, antes de conseguir tirar a cabeça para fora da água, toquei com as mãos o fundo do casco do Rapa Nui. Toquei e senti o barco afastando-se com rapidez. Não havia onde me segurar, apenas sentia o casco, a minha salvação, deslizando, indo embora. [...] KLINK, Amyr. Paratii: entre dois polos. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 30. (Fragmento). Com a narração dinâmica e emocional de Amyr Klink, o leitor viaja por cenários gelados e maravilha-se com as descobertas de novos mundos como se estivesse também a bordo do seu veleiro. Veleiro polar Rapa Nui, de Amyr Klink, na invernagem polar, 1991. 161 C ap ít u lo 9 • ri m ei ra s is es o ra si l R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap09_D.indd 161 13/09/10 3:32:37 PM CONEXÕES Cronistas do descobrimento, de Antonio Carlos Olivieri e Marco Antonio Villa (Orgs.). São Paulo: Ática, 1999. Com linguagem bastante acessível e comentários esclarecedores antes de cada texto original, o livro apresenta uma breve antologia de documentos produzidos por viajantes e cronistas do século XVI. Portinari devora Hans Staden, de Hans Staden, Fernando Novais e Olívio Tavares de Araújo. São Paulo: Terceiro Nome, 1998. O pintor Candido Portinari fez uma série de 26 desenhos para ilustrar as memórias de Hans Staden entre os índios tupinambás. Esses desenhos permaneceram inéditos até que, em 1998, foram utilizados, ao lado das xi- logravuras da edição original, na preparação dessa edição do mais famoso relato de viagens de europeus do século XVI. O texto de Hans Staden traz uma narrativa mais refinada que a dos outros cronistas da época e prende a atenção do leitor com relatos repletos de ação em que as surpresas aconte- cem a todo instante. Tratado da Terra do Brasil/História da Província Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo. Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp, 1980. Publicados juntos pela Itatiaia/Edusp, esses dois volumes oferecem, em texto original, os relatos de viagem do autor. Obra referencial na história da literatura de informação, traduz o olhar do homem europeu da época ao deparar com o novo continente. Viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry. Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp, 1980. Relato de viagem do autor francês, em que descreve a fauna, a flora e os cos- tumes dos povos indígenas brasileiros. Apesar de não ter ambições literárias, chega a produzir descrições tão precisas sobre a religiosidade, a prática do canibalismo, as relações sociais entre os indígenas, que muitas vezes o leitor do século XXI pode ter a sensação de estar assistindo a um filme. Talvez por isso mesmo essa obra tenha inspirado um dos clássicos do cinema brasileiro, o filme Como era gostoso o meu francês, de Nelson Pereira dos Santos. Para ler e pesquisar http://www.multirio.rj.gov.br/historia/modulo01/feitorias.html Site elaborado pela Secretaria da Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro. Apresenta textos bastante simples, mas faz abordagens variadas sobre o momento da conquista da terra brasileira pelos europeus. As imagens ilus- tram bem os textos. http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/obras.html Site sob responsabilidade da Universidade Federal de Santa Catarina. Nele é possível ler na íntegra os dois volumes de Pero de Magalhães Gandavo, Tratado da terra do Brasil e História da província Santa Cruz, livros recomen- dados nesta seção. Há também, entre tantas obras nacionais digitalizadas, uma versão original dos escritos de Jean de Léry, Récit d’un Voyage Faict en la Terre du Brésil, e uma tradução de Alencar Araripe. Para navegar 162 U n id ad e 3 • li er a ur a no p er o o co lo ni al R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap09_D.indd 162 13/09/10 3:32:43 PM